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Ataulpho COSTA RIBEIRO

A Psicose de Nietzsche –– Vida,obra e patologia do filósofo Texto complementar (Registrado na Biblioteca Nacional –– Nº. 518.452)


Sumário

Introdução: Palavras à guisa de ilustração e preâmbulo..........

3

Antecendentes familiais...................................................................

20

Os pródromos da doença.................................................................

22

Testemunhos da doença...................................................................

24

A eclosão da psicose.........................................................................

27

Breve discurso junto ao túmulo de Nietzsche............................

43

O último monólogo de Nietzsche..................................................

45

Nótulas diversas................................................................................

57

Para compreender Nietzsche..........................................................

99

Bibliografia essencial........................................................................

103



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Introdução: Palavras à Sumário Introdução

guisa de ilustração e preâmbulo

Figura 1: Nietzsche

Após a morte prematura do pai do filósofo, em dez de julho de 1849, Nietzsche e seus familiares mudam-se para Naumburg, então com 13.000 habitantes. Assim ele descreve, em poucas palavras, a longa e dolorosa agonia de seu progenitor, em sua autobiografia de 1861, aos 17 anos de idade: Mais importante para mim é este ano da doença de meu pai, que faleceu no ano seguinte.

Era uma inflamação do cérebro.(...) Não obstante a exelente

assistência do Dr. Oppolzer, ela progrediu aceleradamente. (...) O sofrimento 

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de meu pai, as lágrimas de minha mãe, o aspecto preocupado do

médico e

frases incautas, aqui e alhures, deveriam advertir-me de que um defecho fatal já se podia pressentir. Esta prematura orfandade marcou a vida do filósofo, marcou-a para sempre, impondo-lhe uma dolorosa Verlassenheit, uma aguda consciência crítica de seu desamparo existencial, de sua condição inerme, um esseulement dificil de suportar. O Autor deste segundo estudo sobre a psicose de Nietzsche, um estudo menor, com longas incursões à sua vida e à sua obra, esmera-se, atualmente, para sua recreação e deleite, em uma reservada e laboriosa versão literária de Assim falava Zarathustra, um livro-fenômeno, como dele dizia o autor de suas páginas, um livro non plus ultra, como realçava esse mesmo pensador, obra essa quase intraduzível por sua sonoridade, eufonia poética e simbolismos, pelo ardente primado da subjetividade. Adverso às expectativas dos intelectualistas,

Nietzsche observa, evocando um de seus pensamentos

maiores: Os grandes símbolos só deveriam falar do tempo e do devir. O texto, rigorosamente fiel às idéias e ao mundo introspectivo do filósofo, é uma longa paráfrase. Na alma de Nietzsche, em sua alma atormentada, atormentada e lírica, havia um deus interior, uma divindade criadora e maior, superior às contingências e finitudes da vida. Ninguém, como ele, deu tanta vida, transfiguração e fervor às palavras, revestindo-as de transcendência, de efusão e epifanias. Distante dos pálidos, dos pálidos e já exauridos discursos dos racionalistas, ele observa que a consciência é uma ficção dos filósofos. Devemos ressaltar, entrementes, à título de advertência, ou prólogo, que todos os nossos onze livros, em diferentes formulações verbais, realçam, com insistência, o cenário nihilista do mundo em que vivemos, um mundo sem respostas, suas dissonâncias e crueldade. Neles, nesses trabalhos – ainda inéditos - não há uma só palavra de expectativa anuente. Como se em todas as coisas houvesse um princípio desordenador, subjacente, desprovido de desígnio, opondo-se ao logos aristotélico, à expectativa dos fideistas. O filósofo nihilista está persuadido de que tudo que acontece está desprovido de sentido, de perspectivas finalísticas, teleológicas, realça Nietzsche. Ao longo dos séculos, em ilusões que se desdobram, que se transformam em novos, sucessivos e longos devaneios verbais, o homem 

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sempre preferiu as seduções do mundo exterior às riquezas da introspecção. Opondo-se ao culto idólatra da razão, Rousseau observa: Senti antes de pensar. (...) Aos dez anos eu tinha idéias melhores que César aos trinta. Em nosso genoma

- é oportuno ressaltar

- existem genes outrora

indispensáveis à sobrevivência do homem paleolítico, genes esses que hoje estorvam o multissecular esforço da civilização para aprimorar o homem e dificultam, por essas disposições inatas, uma adaptação inteligente à realidade. Nenhuma exortação eticista , por mais veemente que ela seja, é capaz de superar ou remover

essas circunstâncias biológicas

de sua constituição,

ocorrência essa que assegura, em nível instintivo, a sobrevivência da espécie e do indivíduo. Nossa estrutura darwiniana, de cuja aguda percepção nutre-se todo o pensamento de Nietzsche, não nos permite ultrapassar as contingências do destino comum, comum e imediato. O homem é aquilo que sua natureza permite ser. Ele não é um ser de razão; ele é um ser de vontade. Em um sentido mais amplo, ele é um sociopata de mil formas. Sua constituição, as bases de seu organismo, são incompatíveis com os fervorosos ideais dos socialistas, com suas utopias silogísticas. Como ressalta Will Durant, em sua renomada História da Civilização, as leis da biologia são as primeiras lições da história. (...) A autopreservação continua sendo a lei básica da vida. Todos os nossos textos, consequentemente, todos os seus temas, devem ser lidos como sucessivos capítulos de uma antropologia filosófica, de uma filosofia imediata da existência, de uma concepção que desdenha

as

seculares e abstratas especulações dos filósofos de ofício. Nihilista, um dos maiores, Camus exclama, na veemência de suas palavras: Todos somos filhos de Caim. (...) Como viver em um mundo sem Deus e quando já não mais se crê na razão.? (...) Para que lutar, (...por quê se revoltar...), se não há nada de permanente a preservar? (...) Os homens sem evangelho também têm o seu Monte das Oliveiras. Embora suas grandiosas e autoconfiantes expectativas, a Revolução Francesa é a mais instrutiva e dolorosa lição nihilista da História.

Em todos

os seus desencantos, ela mostra a natureza selvagem do homem,

sua

disposição predatória, as desmedidas ambições de sua constituição biológica, associal. Todas as experiências da

razão, nesses anos conturbados da



ͷ


História, foram permitidas e vivenciadas. A data de 1789 - observa Camus afirma a divindade do homem. Os

pensadores maiores dessa grandiosa

expectativa, dessa contra-avaliação de valores, à exceção única de Voltaire, que de tudo escarnecia, pensavam ser possível transpor, impunemente, as estruturas do Ancien Regime e inaugurar uma era de novos valores e perspectivas. Para espanto de todos aqueles que estudam a História, Napoleão intitulava-se “Filho da Revolução”. Ao se encontrar com Wieland, em Weimar, durante a guerra, ele pergunta ao pensador: O Senhor acredita na existência histórica de Jesus? Aos 13 anos de idade, Napoleão já proclamava seu ateísmo. Alhures, ele observa:

Quem conhece um campo de batalha não

acredita em Deus. A

evidencia desse juízo

crítico pode ser constatada em um rápido

retrospecto das vicissitudes e expectativas desses tumultuados dias, únicos nos anais da História. No fragor das grandes polêmicas filosóficas do século XIX, século de Voltaire e Rousseau, tão intensas como aquelas que engrandeceram e imortalizaram os gregos pré-socráticos, suas reflexões filosóficas, surgiu uma copiosa literatura de contestação e revolta, todas elas. Por serem perseguidas, oprimidas, sem mercê, pelos poderes da época, pelos poderes civil e religioso, elas são conhecidas como literatura clandestina; em seu objetivo maior, elas se propunham a descristianizar a História. Seus estudos, hoje, são recolhidos por uma rica publicação periódica, intitulada La lettre clandestine, bulletin d’information sur la littérature philosophique classique de France.

Suas atividades remontam ao ano de

1992, quando os estudiosos retomam, retomam e ampliam, em publicações várias, os trabalhos pioneiros de Gustave Lanson (1912 ) e Ira A. Wade (1938), os primeiros enquêteurs a recolher e estudar os textos dessa assim chamada e surpreendente literatura filosófica clandestina, textos esses de ostensiva militância iconoclástica, de pronunciado e agressivo sabor ateísta, rapidamente consagrando-se como instrumento de pesquisa indispensável àqueles que se interrogam sobre a natureza das coisas. Ela constitui, com a Societé Internationale d’études du dix-huitième siècle, fundada em 1967, a mais rica messe de informações referentes à essa Bibliograhpie Clandestine. Uma terceira fonte desses estudos é La Fondation Voltaire - há 27 anos integrada à Universidade de Oxford - cujos primeiros trabalhos remontam ao 

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ano de 1952. Sua atenção maior concentra-se em Voltaire e Rousseau, pensadores complementares, arquétipos da filosofia. De ambos dizia Goethe: Com Voltaire, um mundo se desfaz, com Rousseau, outro se prenuncia. Um era talento, o outro era gênio. Trabalham, nessa primeira edição crítica e histórica das obras do patriarca de Ferney, em 150 tomos previstos, ao ritmo de 4 a cada ano, 130 colaboradores internacionais. Nesse esforço editorial já foram publicados 30 desses volumes. Essa edição do pensador mais prolífico na história da literatura compreende obras inéditas, textos ainda não reproduzidos desde sua primeira publicação, outras tornadas raras, introduções históricas, notas do próprio escritor às suas leituras (marginalia) e variantes autênticas. Ela também edita a correspondência de Voltaire, em 107 volumes, e aquela de Rousseau, que perfaz 52 tomos. A

essas instituições e publicações devemos acrescentar a prolífera

Societé Jean-Jacques Rousseau, cuja sede é o Musée Voltaire, também na Suíça, em Ferney, perto de Genebra - hoje cidade Ferney-Voltaire. Outras referências a esta abundante e pouco conhecida literatura filosófica: Études sur Voltaire et le siècle XVIII, publicação lançada, em 1955, pela Fondation Voltaire, por inspiração e trabalhos iniciais de Bestermann, com edição mensal de seus textos, já tendo editado, até o ano 2000, 381 deles; a British Society for Eighteenth Century, também criada pela incansável Fondation Voltaire, cujas atividades iniciaram-se em 1971; Libre pensée & littérature clandestine, que remonta ao ano de 1992, dirigida por Anthony Mckenna, dixhuitiste; e a Philosophische Clandestina der deutschen Aufklärung. Em 1993 ocorreu o primeiro seminário sobre essa radical e revolucionária literatura de contestação. Nesse mesmo ano, no segundo número da Lettre, Anthony Mackenn, seu editor, observa: U’a multidão de filósofos, cujo papel era pouco conhecido há 10 anos, então surgiu em novas páginas de estudo. La Lettre Calndestine, ao inventariar esses textos,ao estudar esses livros e manuscritos, reprimidos, todos eles, pelos poderes da época, pela Igreja e pelo Estado, coloca, nas mãos dos estudiosos

um

surpreendente debate de novas idéias. Essa copiosa produção literária e filosófica, essa literatura clandestina, então acusada, pelos adjetivos da época, de sediciosa, subversiva, perigosa, 

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blasfema e libertina, estende-se de fins do século XVII àquele subseqüente; libertina porque estrutura as idéias dos livres-pensadores, dos assim chamados “sprits forts”. No momento em que redijo as primeiras linhas do número 4 de La Lettre Clandestine, apraz-me anunciar que os três primeiros números (... deste Boletim....)estão em curso de instalação na Internet, escreve, no respectivo editorial, Geneviève Artigas-Manant. La Lettre, desde o seu início, em um esforço persistente e específico, pesquisa esses surpreendentes e abundantes textos revolucionários, dispersos por várias bibliotecas européias, heterodoxos, perseguidos e proibidos, difundidos

e

inspirados

por

novas

idéias,

pelo

espírito

crítico

dos

blasfemadores, todos eles hostis à filosofia oficial: In Deo, cum Deo et per Deum. Esses textos despertaram, definiram e alimentaram o Iluminismo, a filosofia que proclama o primado da razão, suas teses e suas ambições, seus debates e suas contra-avaliações dos valores, neles propondo-se - em uma rica antevisão dos pensamentos de Nietzsche - a descristianizar a História, a refazê-la consoante novas expectativas e valores.

Les manuscrites

d’inspiration anti-chrétienne que circulent à la junction des XVII et XVIII siècles en sont un exemple particuliere-ment riche et influent (...do espírito da época...). D’Hollbach e Naigoen, em suas obras, nutriram-se dessas produções ímpias, desenvolvendo-as em muitas de suas obras. Darnton, um grande estudioso desses temas, escreve, em “Édition et sédition”: De tudo que precede concluímos ser possível distinguir, no imenso oceano da literatura francesa do século XVIII, toda uma corrente particular que a época qualificava de ‘filosófica’ e que atrai para si os livros mais proibidos nos quatro cantos do reino. O livro filosófico, isto é sedicioso - seja polltico ou pornográfico, sempre escarnecendo das convenções - tem seu mercado próprio, suas estruturas de difusão, suas conjunturas de comercialização, seus leitores. Em resumo, mais que apenas uma corrente, essa literatura constitui um ‘corpus’ (...filosófico...). Ela é objeto de catálogos, tem seus autores específicos e seus temas prediletos e, por si só, estabelece gêneros literários. Nesses textos, denominados Frühaufklärung, alvorecer do Iluminismo, Voltaire, o grande cético, o hereje maior, hauriu muito de suas poderosas reflexões. Em 1996, Alain Mothu publicou uma relação dessas obras clandestinas, muitas delas anônimas - a maioria em textos manuscritos, 

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sujeitos ao arbítrio e disposição momentânea dos copistas - em um trabalho de 164 páginas, com cerca de 874 títulos, observando que essa relação é sua quatrième mise à jour. Benitez, anteriormente, em 1982 - consoante se lê em Le matérialisme du siècle XVIII et la literature clandestine - lista 130 grandes textos, 130 traités clandestines dispersos em diversas bibliotecas iluministas da Europa. Desses merecem uma especial e rápida referência: L’âme matérielle; Examen de la religion; Histoire critique de Jésus, fils de Marie; Mémoire des pensées et sentiments de Jean Meslier; Notes de d’Hollbach sur le Nouveau Testament; Le Philosphe; Réflexions sur l’existence de l’âme et sur l’existence de Dieu; La religion chrétienne analysée; Sentiments des philosophes sur la nature de l’âme; Traité des trois imposteurs ( Moyse, Jésus et Mahomet ). Não se deve omitir, nesse breve retrospecto, embora suas obras não sejam clandestinas, o grande nome do abade Gassendi, humanista, apologista de Epicuro, que viveu em meados do século XVII, de poderosa influência filosófica, tantas e tantas vezes citado e louvado por Voltaire. Mesmo os antigassendistas reconhecem o alto mérito das obras desse pensador, autor de um livro intitulado Objeções às meditações de Descartes. Sua opera omnia totaliza seis volumes, em toda ela opondo-se a Aristóteles, o pai do logos. Em 1995, Robert Darnton, prosseguindo em seus estudos dessa literatura, publicou uma obra que o consagra como um dos maiores estudiosos dessa irreverente bibliografia: Beste-sellers proibidos da França revolucionária. A essência dessa literatura clandestina, filosófica, perigosa e lucrativa, lucrativa porque avidamente buscada por seus leitores, por impressores e livreiros, na mais inusitada e fertil atividade comercial; a essência desse ideário ateísta, anti-burguês e anti-clerical, pode ser resumida nas seguintes palavras de Meslier, sacerdote apóstata, alhures atribuídas a Voltaire: L’humanité ne será heureuse que lorsque le dernier roi sera étranglé avec les boyaux du dernier pr��tre. Em termos atuais, a humanidade só será feliz quando o ultimo stalinista for enforcado com os boyaux do úlimo capitalista. Junto ao Kremlin, em Moscou, no jardim de Alexandre, o autor dessas linhas, em viagem recente, desfrutou de um inesperado e privilegiado instante de transfiguração quando, sob forte efusão emocional, pôde reverenciar a memória de Meslier ao se surpreender com o seu nome gravado em um 

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obelisco que relaciona os demais nomes dos grandes pensadores socialistas: Marx, Engels, Liebknecht, Lassalle, Bebel, Campanella, Winstanley, T. More, Saint-Simon, Vaillant, Fourier, Jaurès, Proudhon, Bakúnine, Tchermichéwsky e Peekhánov. Meslier, esse importante pensador, esse padre apóstata , comunista e radical, o maior e mais emancipado precursor de Nietzsche, já no primeiro número de La Lettre é exaltado sobremaneira, seu editor advertindo que ele será objeto de uma bibliografia especial que sairá no número subseqüente dessa publicação. Entrementes, devemos observar que esta condenação do cristianismo não é inédita na História; recordamos, en passant, que no século quinto, d.C., Rutilius Neumatianus lutou pela supressão do cristianismo, por ele considerado um veneno enervante. Michel Vovelle, professor de História da Revolução Francesa, na Sorbonne, Diretor do Instituto de História da Revolução Francesa, em seu precioso livro La revolution contre l’Église, observa que, paradoxalmente, o processo de descristianização da França, em sua luta contra o fanatismo, a ortodoxia e o obscurantismo, surgiu e cresceu nas províncias, não em Paris uma cidade desvairada, nas palavras de Rousseau, para quem ela é o símbolo de uma civilização insana, de uma civilização que enerva, desalma e avilta o homem, aqui e ali sustentando-o com ilusórios artefatos existenciais. Aos seus olhos, à argúcia de seu espírito, Licurgo é superior a Péricles, Esparta é superior a Atenas. Os sucessivos surtos de abdicações sacerdotais, anteriormente raríssimas porque a permissividade da época tolerava a lassidão dos costumes, sobretudo nas mais altas esferas do clero, então avolumavam-se com grande celeridade.

Os padres de Nice devolvem suas cartas de

sacerdócio em frutidor, pouco depois da queda de Robespierre, observa Vovelle. Os templos, doravante, quando não são fechados às celebrações eclesiásticas, são dedicados ao culto da razão. No dia 2 de novembro de 1789 os bens eclesiásticos são nacionalizados. No ano seguinte, em 12 de julho, é proclamada a Constituição Civil do clero. Nesse mesmo ano de 1790, em 27 de novembro, a Assembléia Constituinte impõe ao clero um juramento de fidelidade à Constituição Civil, a qual, em 11 de março de 1791, é condenada pelo Papa. Em 27 de outubro é instalado o Comitê de Instrução Pública. Em 

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29 de novembro, a Assembléia baixa um decreto contra os padres refratários. Em 21 de setembro do ano subseqüente, do ano de 1792, a realeza é abolida; o dia seguinte é considerado o primeiro dia da República. Luiz XVI é executado em 14 de janeiro de 1793. Nos dias 25 e 26 de fevereiro, o povo, faminto de pão e vingança, saqueia as mercearias de Paris. No dia 10 de julho, desse mesmo ano, renova-se o Comitê de Salvação Pública, com a eliminação de Danton; três dias depois, Marat, o amigo do povo, é assassinado por Charlotte Corday.

Catorze dias após, Robespierre é

admitido no Comité de salut publique. Em 16 de outubro, a rainha Maria Antonieta, irmã de José II, Imperador da Áustria, de vestes iluministas, que em 1782 suprimira os conventos e os transformara em escolas laicas, é guilhotinada. Em outubro / novembro brumário, do ano II - inicia-se o processo de descristianização, contra o qual Robespierre pronuncia-se, em 21 de novembro. Dois dias antes é instituida a obrigatoriedade e gratuidade do ensino primário. No dia 28 de julho, de 1794, derradeiro discurso de Robespierre. Nesse mesmo dia, vitória dos termidorianos, que culminará na execução de Robespierre e fim da Revolução. Os historiadores do sacrilégio - diz Vovelle preservaram duas imagens: a da Razão, sob os traços

de uma atriz

entronizada no côro da Igreja de Notre Dame, e a do bispo Gobel que, sob a influência de Chaumette e de Cloots, abdica do sacerdócio, em plena atividade da Convenção. O ataque ao corpo místico da Igreja, simbolizado pela profanação do lugar sagrado, e aquele ao corpo vivo da Igreja militante, na pessoa de seus padres - continua Vovelle - uniam-se às inspirações do culto cívico. (... ) O balanço é considerável. Levantei, nos 21 departamentos do quarto Sudeste da França, um total de 4.228 a 4.471 casos. (...) Em uma estimativa global são 18.035 os padres abdicatários, aos quais devem ser acrescentados 441 de Paris. Devemos observar, nessas anotações sucintas, que havia, na França, ainda segundo Vovelle, em 1790, 114.500 clérigos. Esses padres, não necessariamente apóstatas, então redigiam a seguinte declaração, consoante o mesmo Vovelle: Eu, abaixo assinado, exercendo o ofício de padre desde ... ,sob o título de..., convencido dos erros por mim tão longamente professados, 

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declaro, na presença da municipalidade de...., que a eles renuncio para sempre; declaro também renunciar, abdicar e repudiar como falsidade, ilusão e impostura a todo pretenso caráter e função de sacerdócio, cujos diplomas, títulos e cartas entrego à dita assembléia; juro, diante dos Magistrados e do povo, de quem reconheço a onipotência e a sabedoria, nunca aproveitar-me dos abusos do ofício sacerdotal, ao qual renncio , manter a Liberdade e a Igualdade com todas as minhas forças, viver e morrer pela consolidação da República una, indivisível e democrática, sob pena de ser declarado infame, perjuro e inimigo do povo, e como tal ser tratado. Continua

Vovelle:

A

cesura

religiosa,a

cesura

política,

a

descristianização do ano II, aparece como um dos maiores acontecimentos de aventura

revolucionária

vivida

por

um

número

maior

de

indivíduos.

Prosseguindo em seus propósitos subversivos, em 5 de outubro de 1793, os revolucionários criam um novo calendário, o Calendário Republicano. No dia 28, desse mesmo mês e ano ( ano II ), a Convenção, atenta a essas resoluções anticristãs, decreta que nenhum eclesiástico (a) ou religioso (a) poderá ser nomeado (a) professor primário. No dia 31 de outubro, execução dos girondinos. No dia 6 de novembro, uma comissão convida o bispo de Paris, Gobel, a abdicar do sacerdócio, o que ocorrerá no dia seguinte, gesto esse acompanhado pela maioria dos eclesiásticos da Assembléia. Dez dias depois, a Convenção doa as casas paroquiais às escolas e aos pobres. No dia 21 de novembro, Robespierre diz, no Clube dos Jacobinos, que o fanatismo é um animal feroz, (...) um animal que foge diante da razão, advertindo: O perigo interno está na burguesia. (...) O povo, que outro obstáculo existe para o seu esclarecimento, (... para sua emancipação...), senão a pobreza, a penúria, a inopia?

Nesse mesmo ano, em 1793,

Robespierre,

revolucionários,

fiel

aos

seus

princípios

à

inspiração

rousseauniana de seu ideário cívico, propõe aos seus pares uma lei que limite o direito de propriedade, o que precipitou a sua queda. No dia 30 de novembro, Festa da Razão, em Paris, na Igreja Saint Roch. Em 12 de dezembro Cloots, prussiano naturalizado francês é excluído do Clube dos Jacóbinos, como rico, estrangeiro e ateu. No dia 11 de janeiro de 1794 é gilhotinado Lamourette, bispo de Lyon. No dia 5 de abril, execução dos dantonistas. Em 14 de abril, de 1794, 

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Robespierre, em decreto, determina, após a panteonização de Voltaire, ocorrida em 11 de junho de 1791 e assistida por 700.000 pessoas, a remoção do corpo de Rousseau para o Pantheon; o túmulo do filósofo, após o estranho desparecimento de seus restos mortais, dos restos mortais do pensador, hoje é um cenotáfio, um sepulcro vazio, tanto quanto aquele de Voltaire, também violado por mãos irreverentes. Voltaire escreveu o Tratado da tolerância; este livro talvez seja um remoto eco de seu embastillement, de seu confinamento na Bastilha, por dois meses, em 1726, ainda muito jovem, aos 24 anos de idade. Falando de Voltaire, diz seu pai putativo: Tenho dois filhos loucos; um é convulsionário, o outro é hereje. Os convulsionários formavam uma seita que se reunia, toda quarta-feira, no cemitério de S. Medard, em ruidosos e concorridos espetáculos da grande histeria. Em 22 de maio, ainda neste ano, Admirat, em gesto frustrado, atenta contra Robespierre; no dia seguinte, nova tentativa de morte contra o Incorruptível, por Cécile Renault. No dia 8 de junho, Festa do Ser Supremo; como Rousseau e Voltaire, também Robespierre sabia que o povo não pode prescindir de uma religião. Por isso, contrapondo-se àquela

tradicional,

Rousseau, para quem o cristão não é um cidadão ideal, sugerira que uma religião civil deveria substituí-la. Rousseau, o grande crítico da civilização, é um dos grandes marcos da História; Brissot, revolucionário, escreveu em 1784, após a terceira leitura das Confissões de Jean-Jacques: Sofro quando o leio. Partilho o seu sofrimento e pergunto a mim mesmo por que não tive a ventura de conhecê-lo? Quem foi Rousseau, o grande inspirador da Revolução Francesa? Dí-lo Will Durant, em sua obra ”Rousseau e a Revolução”: Como foi possível que um homem que veio ao mundo pobre, que perdeu a mãe ao nascer e logo foi abandonado pelo pai, que sofreu doença penosa e humilhante, que vagueou, durante doze anos, por cidades estranhas e crenças conflitantes, que se viu repudiado pela sociedade e pela civilização e que, por seu turno, também repudiou Voltaire, Diderot, a Encyclopédie e a Idade da Razão; que foi banido de toda parte como perigoso rebelde, acusado de crimes e de insanidade mental, que viu, nos últimos dias de sua vida, a apoteose de seu maior inimigo - como foi possível que esse homem, depois de morto, tenha sobrepujado Voltaire, revivido a 

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religião, transformado a educação, elevado o moral da França, inspirado o Romantismo e a Revolução Francesa, influenciado as filosofias de Kant

e

Schopenhauer, as peças de Schiller, os romances de Goethe, os poemas de Wordsworth, Byron e Shelley,o socialismo de Marx, a ética de Tolstoi; que, no todo, exerceu maior influência na posteridade do que qualquer escritor ou pensador do século XVIII, numa época em que os escritores gozavam do maior prestígio

jamais experimentado anteriormente?

Ao visitar o túmulo de

Rousseau, na Ile des peupliers, em Ermenonville, perto de Paris, Napoleão disse ao marquês de Girardin, protetor e amigo do filósofo: Seria bem melhor para o mundo que nenhum de nós dois tivesse nascido; eu e ele. Em 27 de julho, acelerando a fatalidade desses dias sombrios, queda de Robespierre, que é guilhotinado no dia seguinte, com seus amigos mais íntimos. Vergniaud, Presidente da Assembléia, aterrorizado pelos tumultuosos acontecimentos desses dias, como poucos na História, então observa que a Revolução, como Saturno, devora seus próprios filhos. Nas palavras recentes de Will Durant, as revoluções, via-de-regra, terminam onde começaram. Justificando o radicalismo e a violência da Revolução, os robespierristas, em seus inflamados discursos revolucionários, então advertiam: Tremblez, tyrans! A essa exclamação, justificando a inspiração de seus atos,acrescentavam, à guisa de advertência: O Terror, sem o qual a virtude é inerme; a virtude, sem a qual o Terror é funesto. Consoante ressalta Robespierre, essa severidade - a necessidade do terror - só pode ser temida pelos conspiradores, pelos inimigos da liberdade, pelos ‘royalistes’.

A França, nesses dias,

com

os

exércitos de Robespierre, lutava contra uma poderosa colisão militar, formada pela Inglaterra, Prússia Áustria e Espanha. Em 5 de setembro, trinta e nove dias após a morte de Robespierre, lider dos Jacobinos, a Convenção, dominada pelos termidorianos, coloca o Terror na ordem do dia: Que le Terreur soit à l’ordre du jour! Ela vigorou de 21 de setembro de 1792 a 26 de outubro de 1795, sendo, na realidade, a terceira Assembléia dos revolucionários. Não é justo atribuir a Robespierre - que visitara Rousseau em 1778 - os excessos do Terror, seus expurgos políticos, que exterminaram cerca de 19.000 pessoas, das quais 3.000 o foram por afogamento. Seu propósito mais



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profundo era conter a infiltração de agentes estrangeiros, de emigrés, que conspiravam contra a Revolução. A espantosa lenda sanguinária durante tanto tempo ligada ao seu nome - ao nome de Robespierre - foi agora reconhecida, por todos os historiadores sérios, como falha de bases. Ele condenou todo abuso do Terror, todo morticínio indiscriminado, toda vingança pública e privada. Condenou os fuzilamentos de Collot d’Herbois, como teria condenado aqueles de Thiers, escreve seu biógrafo Korngold. Ao responderem às objeções que se opunham à execução de Lavoisier, evocando sua condição de sábio pioneiro, respondiam os revolucionários mais exaltados: A República não precisa de sábios! Até mesmo o bondoso Malesherbes, censor do reino, amigo dos filósofos - em particular de Rousseau - sempre protegendo-os, foi, por várias vezes, importunado pela Revolução. Não obstante as circunstâncias hostis que enfrentava, Robespierre exclama, em palavras de grande determinação: Quereis uma Revolução sem revolução? Alhures, em discurso na Assembléia, ele exorta: Chorem pelos culpados, por aqueles reservados à vingança da lei, que caíram sob a espada da justiça popular. Mas também reservem lágrimas para as centenas de milhares de patriotas sacrificados pelo despotismo, para aqueles que morreram sob seu teto em chamas, para as crianças massacradas em seus berços ou nos braços de sua mãe. Crane Brinton observa, no prefácio à biografia de Robespierre, escrita por Korngold:

Em1871 os tribunais militares de Thiers tinham, em poucas

semanas, e com muito menos reticência que Robespierre propôs na sua famosa Lei do Prairial, executado tantos infelizes quanto o Tribunal de Paris e todos os sangrentos procônsules juntos durante o reinado do Terror. Como ressalta Mark Twain, houve dois reinados do terror; (...) um produziu assassinatos por paixão violenta, o outro, com um sangue frio impiedoso; um durou alguns meses, o outro alguns milhares de anos; um infligiu a morte a milhares de pessoas, o outro a centenas de milhares. (...) O que é, comparada com u’a morte que dura a vida inteira, o horror da morte pelo cutelo? Consoante Korngold, no antigo regime havia 400.000 detidos nas prisões da França, mais do que no Terror, em qualquer uma de suas fases. Sob o Ancien Regime - anota Korngold - 3.000 pessoas foram despedaçadas ( 

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sic ), anualmente, na roda; 15.000, enforcadas. Com a morte de Robespierre, morre a Revolução, extingue-se o Espírito da Revolução, reconhecem todos os historiadores. Vencido pelo cansaço e pelo desencanto, Robespierre - então ausente do Comitê por 40 dias consecutivos - sente esvair-lhe as forças em seus derradeiros meses de vida. Embora sabendo-se constantemente ameaçado por seus inimigos, ele jamais esboçou um só gesto em defesa de sua vida. Na véspera de sua morte, na casa de Dupley, o marceneiro que o hospedava, à Rua Saint-Honoré, sem qualquer proteção à sua vida, ele confidencia aos seus íntimos: Não estarei convosco por muito tempo. Trinta dias depois da morte de Voltaire, Rousseau proferiria essas mesmas palavras, literalmente. Em sua biografia do Incorruptível, escreve Korngold: Há várias versões sobre o que aconteceu na noite de 9 para 10 de Termidor. Um dos pontos de controvérsia é a maneira como Robespierre foi ferido (...nessa noite...) Alguns grandes historiadores, como Mathiez

-

que fez

da Revolução Francesa,

especialmente de Robespierre, um estudo vivo, corrigindo numerosos erros sustenta que a ferida de Robespierre foi infligida por ele mesmo, em uma tentativa de suicídio. O autor acredita que ele não deixou em claro nenhuma das provas, sentindo-se compelido a rejeitar essa hipótese. A natureza do ferimento, o testemunho dos médicos, tornaram-na, em sua opinião, insustentável. Korngold assim descreve as últimas horas de Robespierre, líder dos montagnards: Através das escuras ruas de Paris, Robespierre foi levado, de padiola, da Municipalidade até às Tulherias. Uma enorme multidão se encontrava ao longo do caminho, as luzes dos archotes espalhando lúgubres clarões sobre o vulto prostrado. Os que seguravam os pés da padiola pediam aos da frente para lhe erguerem a cabeça, de modo a que não viesse a morrer. É pungente o epílogo da vida de Robespierre, um grande idealista, lider do Terceiro Estado, lider do povo, dos sans-cullotes, militante da esquerda, ardoroso admirador de Rousseau, assim evocado nas páginas de Korngold: Pelas cinco horas da tarde de Termidor ( 28 de julho de 1794 ) as carroças sairam do pátio da Conciergerie. Durante algum tempo as execuções haviam ocorrido nas barreiras do trono, para além do Faubourg Saint Antoine; para esta

ocasião

especial,

(...entretanto...),a

guilhotina

fora

montada,



ͳ͸


apressadamente, na Praça da Revolução, hoje Place de la Concorde. Um total de 150 homens iria pagar com a vida sua rebelião contra o governo. (...) Robespierre foi o último a morrer. (...) Ele subiu com passo firme, sem qualquer ajuda. (...) Sanson, com seu punho enorme, segurou a ligadura que atava o queixo despedaçado de Robespierre e puxou-a tão brutalmente que, a despeito do seu estoicismo, se lhe escapou um grito. Logo em seguida ele foi atado à prancha. A lâmina caiu. Acabara a Revolução. Cambon, convencional, advertiria, posteriormente: Não sabíamos que, matando Robespierre, também mataríamos a Revolução. Mais uma vez, desta vez diante de um patíbulo, de um rio de sangue, a História fecha seus olhos, consagra seus desacertos e desvarios, repetindo-os, posteriormente, em sucessivas guerras, em sucessivos confrontos bélicos. A história é feita pelo pior da história, deplorava Marx, acrescentando: Os homens fazem a religião; estas, contudo, não fazem os homens. O poder, após a Revolução Francesa, passa das mãos da monarquia e da Igreja àquelas da burguesia, inadvertido de que - consoante palavras oportunas de Ingenieros - o burguês merece muito mais o desprezo do aristocrata que o ódio do proletário. A partir de então morto Robespierre, que alguns consideram o primeiro revolucionário da História - a civilização instaura a plutocracia, percorre os primeiros passos de um caminho incerto e nocivo, os primeiros passos do governo mais impróprio, um governo cada vez mais distante de uma autêntica meritocracia, sonhada, através dos séculos, por todos os aristocratas do espírito. A Revolução Francesa - repetimos - por suas vicissitudes e epílogo, é a mais amarga e instrutiva lição nihilista da História; sobretudo se atentarmos aos elementos intelectuais de sua gênese. Poucos pensadores, como Nietzsche, perceberam os conflitivos parâmetros constitucionais da natureza humana, perceberam que a despotencialização da agressividade darwiniana, que dorme no fundo de nossas estruturas biológicas, que aflora e se exacerba em nossos conflitos de interesses, é uma contingência irremovível. Para ele, para sua aguda percepção da realidade, a psicologia é a ciência que nos conduz aos problemas fundamentais (...da existência...). Em uma página de admirável síntese, escreve Will Durant: A Revolução (...Francesa ...) deixou algumas lições para a filosofia política. Conduziu u’a minoria crescente a compreender que a natureza do homem é a mesma em 

ͳ͹


todas as classes; que os revolucionários, uma vez

levados ao poder,

comportam-se como seus predecessores e, em alguns casos, mais cruelmente. (...) Sentindo em si mesmo as fortes raízes da selvageria, perpetuamente pressionando contra os controles da civilização, os homens tornam-se céticos de aspirações revolucionárias, deixam de esperar por policiais incorruptíveis e parlamentares santos, aprendendo que uma revolução só pode realizar tanto quanto a evolução preparou e a natureza humana permite. Thérèse philosophe, uma obra anônima da época, ao relatar as vicissitudes do reverendo Pe. Dirag e Mlle. Eradice, escarnece da Igreja e do Estado; seu subtítulo diz: La volupté et la philosophie sont le bonheur de l’homme sensé. Il embrasse la volupté par gout, Il aime la philosophie par raison. No transcorrer do livro o padre desenvolve certas reflexões filosóficas e diz a Eradice: Somente por intermédio dos sentidos recebemos nossas idéias do bem e mal metafísicos, bem como daqueles morais. (...) A alma não é senhora de nada. (...) Ela não possui vontade própria e é influenciada somente pelos sentidos, ou seja, pela matéria.

(...) Está demonstrado que não

pensamos como queremos. (...) Nossas ações são predeterminadas. (...) A razão nos ilumina, mas não somos senhores de pensar desta ou daquela maneira. Este livro foi lido por Jean-Jacques Rousseau, que o comentou rapidamente, em uma só e curta frase, embora sua originalidade. No ápice e fervor do Iluminismo, como se evocasse as grandes figuras da filosofia presocrática, seus pensadores maiores reuniam-se em acalorados debates de idéias; um dos salons mais célebres de então era aquele de d’Hollbach, o bondoso ateu. Morellet, em suas Mémoires sur le XVIII siècle et sur la Revolution, relaciona os grandes freqüentadores dessa então denominada

grande

sinagoga:

Diderot,

Rousseau,

Helvetius,

Buffon,

Condillac,Turgot, Boulanger, Duclos, Marmontel, Saint-Lambert, Chastelux, Damilaville, Naigeon, Hume, Wilkes, Walpole, Lord Shelbume, Garrik, Sterne, Gibbon, Adam Smith, Benjamin Franklin, etc. O pensamento liberal francês - observa Will Durant, em atilado discernimento histórico e filosófico - ignorou a Reforma e foi, de um salto, da Renascença ao Iluminismo. Na França, não foi nem para os jansenistas nem para os poucos protestantes sobreviventes que a mente francesa se virou em sua rebelião; foi para Montaigne, Descartes, Gassendi, Bayle e Montesquieu. 

ͳͺ


Quando os livres-pensadores franceses voltaram-se para Descartes, eles rejeitaram, praticamente, tudo que havia sido dito pelo filósofo, menos sua dúvida metódica e sua interpretação mecanicista do mundo objetivo. Bayle era honrado como o mais sutil dos pensadores, cujas dúvidas tinham gerado milhares de dúvidas a mais; seu Dictionnaire era uma fonte inexaurível para os inimigos da Igreja.



ͳͻ


Antecedentes familiais

Figura 2: A mãe de Nietzche, Franziska Ernestine Rosaura Nietzsche, e o Dr. Moebius, o primeiro psiquiatra a examinar o prontuário de Nietzsche.

A mãe de Nietzche, Franziska Ernestine Rosaura Nietzsche, e o Dr. Moebius, o primeiro psiquiatra a examinar o prontuário clínico de Nietzsche. A retrospecção genética de Nietzsche registra cinco ocorrências psicóticas na ascendência materna, consoante Möbius, gestorben 1907, sic: x Uma tia materna suicidou-se. x Uma outra morreu psicótica. x Um tio materno apresentava sintomas psicóticos. x Um tio materno faleceu em sanatório (para doentes mentais). x Uma tia materna, Roselie Oehler, tinha temperamento nervoso. Entre os ascendentes do progenitor do filósofo há ocorrência de crianças ’raquíticas’, conquanto mentalmente bem dotadas. Duas delas faleceram em tenra idade.



ʹͲ


O pai e o próprio Nietzsche eram portadores de pequeno mal epiléptico, de ausências. A migrânia, de que também padecia a irmã de Nietzsche, fortemente, é um equivalente do morbus sacer. Há muito que os alienistas vinculam temperamento agressivo, irado, incontrolável, impulsivo, ao círculo dos epileptóides. O progenitor de Nietzsche faleceu em decorrência de um acidente vascular cerebral, em 27 de julho de 1849, aos 64 anos de idade, quando o filósofo tinha apenas quatro anos. Sua autópsia

- Obduktion

-

mostrou um cérebro destruído em três quartos de sua substância. O único irmão do filósofo faleceu aos 2 anos de idade, em conseqüência de crises comiciais sub-intrantes; isto é, de convulsões sucessivas, sem recuperação da consciência após cada ictus. Em fevereiro de 1882, Nietzsche escreve à sua mãe: À tarde, tive um desmaio; à noite, outro ataque ( ‘Ohnmacht’) . Anteriormente, em 1879, escreve ao Dr. Eiser, médico que então o assistia e seu entusiasta leitor: Algumas vezes permaneço inconsciente por um longo tempo. As crises epilépticos, diz

Porot, em

Psychatrie”, podem se apresentar sob

seu “Manuel alphabetique de

várias formas, das quais a mais

característica é a crise convulsiva, tônico-clônica, generalizada. (...) Outras formas de paroxismo, extremamente numerosas, são conhecidas como equivalentes isoladamente,

epilépticos,

ou

epilepsia

larvada.

Podem

se

manifestar

alternar-se com crises convulsivas ou com elas se co-

manifestar. (...) Aqueles com sintomatologia psiquiátrica podem apresentar acidentes menores: as assim chamadas ausências, também conhecidas como crise de pequeno mal, acessos de cólera, etc. (...) Os paroxismos mentais da epilepsia são seguidos, habiualmente, de amnésia lacunar. Quando internado no hospital psiquiátrco de Jena, o Dr. Binswanger, médico do filóofo, iniciava seus estudos pioneiros de eletroencefalografia. Essa propedêutica , contudo, não foi aplicada ao filósofo. A partir de então, a enfermidade é definida como disiritmia cerebral paroxística.



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Os pródromos da doença

Figura 3: Fotografia de Nietzsche psicótico com sua mãe, em Naumburg. A irmã de Nietzsche, ao retornar do Paraguay, em setembro de 1893, após o suicídio de seu marido, Bernard Förster, surpreende-se com o aspecto apalermado do pensador, que então se queixa de não ser o mesmo homem de outrora, pois suas pernas enfraqueceram-se e sua fala é torpe e arrastada. A partir de então, ele só se locomoveria em uma cadeira e rodas.

Fotografia de Nietzsche psicótico, com sua mãe, em Naumburg. A irmã de Nietzsche, ao retornar do Paraguay, em setembro de 1893, após o suicídio de seu marido, Bernard Förster, surpreende-se com o aspecto apalermado do pensador, que então se queixa de já não ser o mesmo homem de outrora, pois suas pernas enfraqueceram-se e sua fala é torpe e arrastada. Pouco tempo depois, até o seu falecimento, ele só se locomoveria em uma cadeira de rodas. Nesse período médico-legal, que antecede ao período de estado, quando a doença se manifesta em sua plenitude, ocorrem pequenos deslizes de conduta, incompatíveis com o comportamento anterior do paciente. 

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Nesse período prodrômico da doença, também conhecido como préparalítico, em consequência de uma constante elação do humor, de seu tônus vital, de uma permanente efusão psicomotora, de uma hipertimia incontrolável, há, nesses pacientes da forma expansiva da doença, a mais comum e a mais ruidosa, escasso poder inibitório de suas pulsões. Com o transcorrer do tempo sobrevem, nesta patologia, comprometimento degressivo da vontade e do entendimento, instalando-se, então, o período de estado da enfermidade. culminando em progressiva demência e

paralisia. Peter Gast, uma das

principais figuras do cenário nietzschiano, ao contemplar o filósofo demente, de olhar distante e vazio, nele viu a serenidade de um brâmane, então confundindo apatia demencial e reflexão especulativa. Autofilia demesurada, superestimação de seus próprios valores e hipertrofia do ego configuram a megalomania, típica dessa moléstia, podendo ocorrer, por vezes, idéias delirantes de enormidade, quando o doente diz, por exemplo: Eu fiz o universo inteiro. Nada de sua estrutura escapa à minha vontade. Ao retribuir cumprimentos de um militar, em seus passeios diários com sua mãe, pelas ruas de Naumburg, mostrando alguma percepção crítica de sua moléstia, Nietzsche lhe diz ser paciente de “surmenage” (sic).



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Testemunhos da doença

Nietzsche era uma figura original, inconfundível com qualquer outra. Com o perpassar do tempo, em dezembro de 1888, seus humores e hábitos tornaramse diferentes. Começava a delinear-se o drama da loucura, expressando-se de maneira descomedida. Certa feita anunciou que a cidade toda estava em festa e que o rei e a rainha viriam visitá-lo em seu quarto, por ele decorado de maneira estranha para a augusta visita que somente seu cérebro enfermo imaginava. ( Ernesto, filho de Davide Fino, o senhorio do filósofo, em Turim. ). Alguns dos 13 denominados bilhetes da loucura, os assim chamados Wahnsinszettel do filósofo: • Eu preparo um acontecimento que, com toda a probabilidade, dividirá em meio a história; a tal ponto

que será estabelecida uma nova cronologia. (

Carta a Brandes, em 10/12/1888 ). • O que é notável em Turim é a fascinação total que emana de minha pessoa. ( Carta a Overbeck, Natal de 1888 ). • No dia 28 de dezembro, atestando a ainda lúcida atividade literária de seu espírito, ele escreve a seu editor, a propósito de seu livro ‘Nietzsche contra Wagner’: Ich habe einen Accent vergessen auf Seite 4. •

No dia 29, faz as últimas correções à sua desconcertante autobiografia,

intitulada Ecce homo, onde sua linguagem e heterodoxias refulgem como nunca. Nós possuímos, dessa obra, em nossa biblioteca, uma preciosa reprodução fac-similar desse texto, comentada por Montinari, em tamanho real, 24X36 cm. Em carta a Peter Gast, ele diz que este livro é ímpio ao máximo. • Velho amigo, sob a minha janela, na Galeria Subalpina, toca com toda a força, como se eu já fosse ( príncipe ) ( de Turim ), princeps taurinorum, César ( Caesarum ) e semelhantes ( a magnífica ) ( bela ) ( possante ) orquestra municipal ( de Turim) . Eu estou no meu palácio, no momento palácio Madama (...). Indiquei para o trono da França ( da Alsacia-Lorena também ) Victor Bonaparte, irmão da nossa Laetitia, nomeando para embaixador, em minha corte, o meu distinto senhor Bourdeau. ( Carta a Peter Gast, em 30/12/1888 ). 

ʹͶ


• À Princesa Ariadne, minha amada. Entre os hindus eu fui Buda, na Grécia Dionisos. Alexandre e César foram minhas encarnações, assim como Lord Bacon, o poeta de Shakespeare. Fui também Voltaire e Napoleão, talvez Wagner. Desta vez eu volto como o triunfante Dionisos, que fará da terra um lugar de festa. ( Carta a Cosima Wagner, 30/12/1888 ). • Meu endereço, eu já não sei; no momento poderia ser o Palácio do Quirinal a residência do Papa. ( Bilhete a Peter Gast ) • Alhures ele diz: No momento em que escrevo esta carta, o carteiro traz-me a cabeça de Dionisos. •

Bilhete insano a Peter Gast. O original encontra-se na Universidade de

Basiléia ( Basel Universität. Bibliotheque. Manuskripte ): Canta-me uma nova canção! O mundo se rejubila, o céu se transfigura! Na Universidade de Basiléia famosa em toda a Europa, Nietzsche começou a lecionar Filologia Clássica com apenas 24 anos, chegando a esta cidade, então com 30 mil habitantes, às 14 horas do dia 19 de abril de 1869, hospedando-se perto da Porta de São Paulo ( Spalenthorweg , 2 ).

Figura 4: Bilhete a Peter Gast

• Nesse outono, por duas vezes, eu me encontrei vestido o menos possível, no meu próprio funeral. (Carta a Burckardt)



ʹͷ


Figura 5: Esse conjunto de esculturas, em tamanho natural, colocado no jardim da casa em que Nietzsche nasceu, a ela oferecido por seu escultor, Klaus Friedrich Messe Schmidt, como referência a este trecho da carta psicótica do filósofo, foi rapidamente recusado e retirado por estudiosos do pensador, que rapidamente o repudiaram como impróprio ou sacrílego.Ele mesmo o censuraria, considerando seu autor, em palavras suas, indigno de atar as sandálias de Zaratustra. Todos sabem que a vida de Nietzsche, embora fugaz, de tão poucos anos, é uma grande e edificante biografia. Sua atividade literária, sua atividade consciente, foi de apenas 44 anos. Em 20 de outubro de 1888, dois meses antes da eclosão de sua psicose, Nietzsche escreve a Malwida von Meysenburg, sua grande amiga, líder feminista na Europa: Cortei, ultimamente, e quase que por inteiro, minhas relações com os homens, desgostoso de vê-los considerar-me uma coisa que eu não sou.



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A eclosão da psicose

Figura 6: Turim – Piazza Carlo Alberto

O célebre abraço de Nietzsche ao pescoço de um cavalo, nesse gesto procurando protegê-lo das violentas sevícias que então lhe eram impingidas por seu irado proprietário. Anota Schlechta: Am 3. Januar Zusammenbruch auf der Piazza Carlo Alberto (Figura 6).

Figura 7: Quadro da autoria de Fernando Pieruccetti.



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O filósofo tinha, à época, 44 anos de idade. Esse episódio é um dos mais dolorosos registros da História, só equiparado à lapidação, ao apedrejamento de Rousseau por populares enfurecidos, em Môtiers, instigados pelo clero local.

Palavras-chave de Rousseau: Eu não disse que os costumes dos

selvagens são bons; disse que os nossos são piores. ( ... ) Nossas ciências e nossas artes deveriam nascer de nossas virtudes e não de nossos vícios, ( ... de nossas imperfeições ) (...) Insatisfeito com teu estado atual, por razões que prometem, à tua infeliz posteridade, descontentamentos ainda piores, talvez seja teu desejo retroceder (..na história...). Esse sentimento deve constituir o elogio de teus primeiros antepassados, a crítica de teus contemporâneos e o pavor dos que terão a infelicidade de viver depois de ti. Voltaire,

em

exacerbado

confronto

com

Rousseau,

que

então

o

ultrapassava, rapidamente, com a originalidade de sua filosofia, renegando seus ideais de tolerância e liberdade, sugeriu, publicamente, certa feita, que ele, o autor de O contrato social, fosse condenado à pena capital, à pena de morte. Foram os dias mais negros do Iluminismo. Posteriormente, em 29 de dezembro de 1821, quando da transladação dos restos mortais de ambos para o Panteon de Paris, eles foram retratados de maneira assaz expressiva em uma pintura da época: Voltaire, portando um livro; Rousseau, caminhando um pouco à frente de Voltaire, trazia, em seus braços, um florido bouquet de flores. Um exaltava a razão, o outro enaltecia a natureza. Nesse fugaz delíquio, repentinamente, em soluços e convulsivo

pranto,

Nietzsche cai ao solo, perdendo a consciência e sendo levado á sua casa, próxima do local onde ocorreu o episódio, por David Fino, seu atencioso senhorio.

Ao recuperar sua consciência, 36 horas após esse incidente,

Nietzsche é um alienado completo, um psicótico irreversível.

De sua

existência, só o corpo a ela sobreviveria, por mais 11 anos. O filósofo nada mais escreveu após essa ocorrência clínica. Sua morte espiritual foi também aquela literária. A ruptura foi total, imediata e brutal. Em uma admirável síntese dos pensamentos do soliário pensador de Sils-Maria, escreve Wolf, em seu livro “Nietzsche, Weg zum Nichts”: Nietzsche desapareceu em um reino onde seu antigo inimigo, o espírito, não tem qualquer acesso. Noyes anota, em seu Compêndio de Psiquiatria: Aproximadamente três quartos dos paralíticos gerais têm convulsões durante a enfermidade. Outro 

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tipo de ataque episódico é aquele do tipo apoplético. ( ... ) As paralisias são, às vezes, temporárias, desaparecendo sem seqüelas, em poucos dias. À época, o filosofo foi atendido pelo Dr. Carlo Torino, o primeiro psiquiatra a cuidar de seu estado mental. Ao vê-o, suspeitando tratar-se de um alienista, ele o advertira. Je ne suis pas malade! Este facultatvo prescreveu-lhe os seguintes medicamentos, então manipulados: 1. Gennaio 7; 16349; Bromuro di sodio 4, Ammonio I, Acqua 100. Siropopo menta 20. 2. Gennaio 7;16350. Pilocarpina centigr. 3 – Acqua. gr. 5. Uso ipodermico. 3.

Gennaio 8; 16360; Bromuro Potas. 4, Ammonio 2, Acqua 500, Sciropo

diacodio 30. 4. Gennaio 9; Ripetuto 16360. 5. Gennaio 9. Soluz. sonnifera. Esses sedativos foram aviados na Farmácia Rossetti, ainda existente na Piazza Carignano, em Turim. Nessa época, Lombroso residia nessa mesma cidade, trabalhando nas teses de seu livro

L’homme criminel, então

subvertendo as bases da Criminologia e criando a Antropologia Criminal. O encontro dos dois pensadores seria notável, acaso houvesse ocorrido.

Figura 8: As primeiras receitas do psiquiatra Carleo Torino foram aviadas na farmácia Rossetti.

Esses sedativos foram aviados na Farmácia Rossetti, ainda existente na Piazza Carignano, em Turim. Nessa época, Lombroso residia nessa mesma cidade, trabalhando nas teses de seu livro L’homme criminel, então subvertendo as bases da Criminologia e criando a Antropologia Criminal. O encontro dos dois pensadores seria notável, acaso houvesse ocorrido.



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Figura 9: Overbeck e sua esposa, Ida Overbeck.

Nietzsche insistia, em suas longas advertências a ela, também escritora, que não deveria abandonar a crença em Deus, porque então perceberia todo o horror da vida, conheceria suas dissonâncias irremovíveis, suas desarmonias préestabelecidas, que tolhem a plenitude do ser. Aos seus olhos, a realidade em que vivemos, então e doravante, seria o pior dos mundos possíveis. Overbeck escreve sobre o filósofo: Nietzsche tinha todas e excepcionais qualidades de um homem que vive constantemente, sem interrupção, em uma atmosfera intelectual. (...) Eu tinha trinta anos quando o conheci. Ele era sete anos mais novo que eu. Vivemos sob o mesmo teto de 1870 a 1875, em Basiléia, perto da Spalenthorweg. Que grandiosos diálogos

tiveram, como

cenário filosófico, essa diuturna convivência de dois ateus : Nietzsche, então filólogo, e Overbeck, professor de História da Igreja. Overbeck, o mais devotado dos amigos de Nietzsche, em 6 de janeiro, procurando proteger o filósofo e levá-lo para Basiléia, partira para Turim, em pleno inverno, embora enfermo de uma cardiopatia incipiente e após ouvir orientação

e ponderações do psiquiatra Prof.

Wille, diretor da clínica de

alienados, em Basiléia. A internação na Clínica Friedmatt ocorreu em 9 de janeiro de 1889. Sua

papeleta médica registra, nessa mesma data, o

diagnóstico de Paralisia Geral Progressiva,

diagnóstico esse anotado pelo

próprio Prof. Wille. Os alienistas suíços ressaltam, no respectivo prontuário, à época, sintomas neurológicos expressivos; entre outros: assimetria das pupilas ( anisocoria ), a direita maior que a da esquerda e reagindo mais lentamente. (...) Inervação facial um pouco comprometida. Prega nasolabial um pouco menos marcada à direita. Reflexos patelares aumentados. (...) Alguma 

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perturbação apreciável na palavra (disartria.) . Alguns dias antes, em carta, ele se queixa de trejeitos, de mioclonias incontroláveis no rosto, de grimasses faciais. Essa doença mental foi individualizada por Bayle, aos seus 23 anos de idade, em uma tese defendida em 21 de novembro de 1882, na Faculdade de Medicina de Paris, constituindo o primeiro triunfo da psiquiatria organicista. Maupassant, Schumann e Heine, entre outros, foram pacientes dessa psicopatologia, assaz comum à época, quando se advertia que a civilização e a sifilização destruiriam o homem, suas expectativas. Sua etiologia só foi esclarecida em 1905, quando Schaudin descobriu seu agente infeccioso em lesões genitais primárias. Somente em 1913 a presença do Treponema pallidum foi constatada no cérebro desses pacientes. Não será paralítico geral quem, anteriormente, não tenha sido sifilítico, realçavam os clínicos desse século. A Paralisia Geral Progressiva (PGP) é uma meningo-encefalite difusa, de origem sifilítica. Sabe-se que a doença surge após um longo período de incubação, de latência, de dez a quinze anos após o contágio, existindo, entretanto, na casuística médica, relatos de enfermos em que a doença ocorre mais precocemente e outros em que ela é mais tardia.

Anamnese •

Dois episódios de infecção luética. Consoante as próprias palavras do filósofo Gibt an, er sich zweimal specifisch inficirt habe. Infecção especifica significava aquela de natureza sifilítica.

Cicatriz à direita do frenulum, junto ao prepúcio, no pênis. Enturgecimento de gânglios, principalmente à esquerda do ânus.

Podach: L’efondrement de Nietzsche. Esse precioso livro, editado por Gallimard, do qual escolhemos essas duas elucidativas citações, publicado em 1930, em Heidelberg, contem todas as anotações clínicas pertinentes à hospitalização frenocomial do filósofo, página por página, com grandes e conclusivos comentários à margem desse prontuário.



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Com essa obra, e outras, o dr.Podach credenciou-se como um abalizado Nietzsche-Forscher. •

Nietzsche falou tardiamente, aos 2 anos e meio de idade, preocupando médicos e seus familiares. Aos 23 anos, a Universidade de Basiléia, uma das mais renomadas de toda a Europa, ofereceu-lhe a Cátedra de Filologia Clássica, tendo sido admitido sem previa avaliação de seus conhecimentos e louvando-se, apenas, em seus numerosos e conceituadíssimos trabalhos universitários.

Figura 10: Clínica Psiquiátrica de Jena

Segunda hospitalização – 19 de janeiro de 1889

Imagem 11: Prof. Binswanger



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Nesse hospital ele é assistido pelo Prof. Binswanger, psiquiatra consagrado, em seu tempo, como a maior autoridade sobre Paralisia Geral Progressiva. Ele residia no próprio hospital, até a internação do fílósofo, cujo comportamento ruidoso, por seus hurlements, não lhe permitia dormir, razão porque passou a ocupar uma casa nos fundos do próprio frenocômio.

Figura 12: Hospital psiquiátrico de Jena, inaugurado 10 anos antes da internação do filósofo. Nós o visitamos demoradamente, em 1993,detendo-nos no quarto do filósofo, situado no segundo andar, à direta de uma ampla escadaria. Nesse Nietzsche-Zimmer ocorreram as mais dolorosas cenas de sua psicose.

Nós o visitamos demoradamente, em 1993,detendo-nos no quarto do filósofo, situado no segundo andar, à direta de uma ampla escadaria. Nesse Nietzsche-Zimmer ocorreram as mais dolorosas cenas de sua psicose.

Anotações do prontuário médico

18.1.1889: Sempre foi um pouco bizarro. Aos 24 anos, professor da

Universidade de Basiléia. Sífilis por contágio. Em 1878 abandonou o Professorado por causa de seu nervosismo e fortes dores oculares. 

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19 a 21.1889: Comissura labial à direita um pouco mais baixa que a da

esquerda. O paciente ignora onde se encontra. ( ... ) Malgrado uma dose de 2,0 de cloral, não cessou de comportar-se de maneira ruidosa. • 23.2.1889: A paresia da comissura labial à direita acentua-se pouco a pouco. • 27.3.1889: Foi minha mulher, Cosima Wagner, quem me trouxe para aqui. • 4.4.1889: Esta noite cobriram-me de injúrias, empregaram, contra mim, as mais terríveis máquinas. • Em 18 de abril, a mais dolorosa anotação médica: coprofagia, sintoma freqüente nos pacientes demenciados. Em datas posteriores, de 14 de dezembro a 27 de abril, oito registros análogos. • 19.4.1889: Eu quero um revolver. Está provado que a gran duquesa comete essas sordicies contra mim. • 25.4.1889: O isolamento, á noite, continua necessário. • 27.4.1889: Freqüentes acessos de cólera. • 16.5.1889: Envenenaram-me novamente. • 16.6.1889: Reclama proteção contra torturas noturnas. • 16.8.1889: Quebra alguns vidros. Pretende ter visto, atrás da janela, o cano de um fuzil. • 4.9.1889: De tempos em tempos, consciência nítida de sua enfermidade. • 5.9.1889: Diz ter sofrido, até seus 17 anos de idade, crises de epilepsia, sem perda da consciência. (sic) . • 1.10.1889: No conjunto, melhora sensível. • 1.2.1890: Fala de u’a maneira mais coerente. Peso, 136 libras. • 24.3.1890: Alta, a pedido de sua mãe; consoante a terminologia da época, congédié contre revers, condição esta que a responsabiliza pela guarda do enfermo. Zelando pelo filho alienado, ela então o leva para sua casa, em Naumburg, de onde, em um sigiloso, meticuloso e noturno transporte, Elisabeth o leva para Weimar. Pozzoli, em seu precioso livro intitulado Nietzsche nei ricordi e nelle testimonianze dei contemporanei, de 440 páginas, observa, a propósito: Foi encomendado, de Berlim, um vagão especial, tendo sido necessário adaptar uma cabine para o transporte. O pessoal da ferrovia recebeu instruções específicas. Partimos no trem da noite.

Schlechta registra, em seu livro

“Nietzsche Chronik”: Am 20. Juli bringt Schwester den Kranken nach Weimar. 

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Psiquiatras e leigos que fizeram referências à psicose de Nietzsche

Figura 13: Karl Jaspers. Um dos psiquiatras que se manifestou sobre a doença de Nietzsche

Poucos psicopatologistas, todos deplorando e ressaltando insuficiências anamnésticas na biografia de Nietzsche, em sua Krankenheitsgeschichte, estudaram a sua psicose, estendendo suas análises a outras patologias do grande pensador, destacando-se: • Möebius, Paul Jullius Über das pathologische bei Nietzsch, Leipzig, 1902), para quem a morbidez mental do pensador se reflete em todas as suas obras, especialmente naquelas posteriores ao Zarathustra, concluindo

seu estudo

com uma advertência exclamativa que o indispôs violentamente com o Arquivo Nietzsche: Se encontrardes pérolas ( ...nas obras de Nietzsche... ), não deveis pensar que todas elas são um rosário delas. Evitai ler este homem, porque ele é um doente mental. • Hillebrandt, Karl, 1829-1884, ( Gesundheit und Krankheiten in Nietzsche’s Leben und Werke. Seu livro contesta as assertivas de Möbius, o primeiro alienista a estudar a patologia mental de Nietzsche, como já se observou. • Lange-Eichbaum (Nietzsche , Krankheit und Wirkung, 1974/8). • Karl Jaspers. Nietzsche, Introduction a sa Philosophie, Gallimard, 1950). • Dwans, Jens Sietje, Agthe, Kai ( Nietzsche in Jena. Quartus Verlang, 77 páginas ).



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• Elso Arruda, Patografia de Friedricch Nietzche, 1985. Pesquisa estipendiada pelo serviço alemão de

intercâmbio acadêmico e publicada pela Fundação

Universitária José Bonifácio. • Voltz Peer Daniela ( Nietzsche im Labyrint seiner Krankheit, 1990 ), e •

Bernoulli: Franz Overbeck und Nietzsche: eine Freundschaft. Em dois

volumes. A esses estudos deve ser acrescentado o trabalho profano de Erich F. Podach, Die Krankheit Fr. Nietzsches, Deutsches Arztblatt, 1964, editado por Gallimard sob o título L’effondrement de Nietzsche; e Ein Blick in Notizbücher Nietzsches, 1963, Ao iniciar a publicação das obras completas de Nietzsche, a editora Walter de Gruyter, de Berlim, prometera um volume complementar sobre as nosologias do filósofo, projeto esse posteriormente retirado de seus propósitos Em carta ao autor destas linhas sobre a psicose de Nietzsche, datada de 1º de abril - R. Cram, dessa editora, escreve: O livro ‘Der Nietzshe Kranke’ não mais será editado por nós. Nietzsche

im

Labyrint

Recomendo-lhe a obra de Peer D.Voltz, intitulada seiner

Krankheit.

Eine

medizinische-biologische

Untersuchung, publicada em 1990, pó Königshausen & Neumann GmbH, Leistenstr. 3, D-97082 Würzburg. Nesse particular – com tão pouca e inconclusa semiologia - o estudo da psicose de Nietzsche ainda aguarda um segundo Montinari,

um Montinari

capaz de realizar uma compreensão mais detalhada, sistemática, abrangente e profunda de suas patologias, já removidas as dificuldades e reservas que anteriormente tolhiam uma investigação plena. Realçando um fato importantíssimo na biografia do filósofo, Werner Ross observa que Nietzsche conhecia de antemão a sua loucura – ou a receava. Referindo-se

a

um

quadro

alucinatório,

a

um

episódio

de

Gehörshalluzinationen, transcrito por W. F. Peters, o filósofo o descreve: O que me impressiona não é tanto esta sombra aterrorizadora

atrás de minha

cadeira, da cadeira em que estou assentado; a sua voz, não a sua voz precisamente, sim os sons horríveis, inarticulados e desumanos proferidos por essa sombra. Se pelo menos ela falasse em uma linguagem humana! Não possuímos detalhes a respeito desse episodio alucinatório,

dessa nota

autobiográfica, registrada em seus anos de Leipzig, que se encontra no volume 

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V, pg 205, da Gesamtausgabe in Grossoktav, de Koegel.

Alucinação é

percepção sem objeto; no caso em apreço, uma alucinação extracampina, isto é, percebida fora de seu respectivo campo sensorial, quando Nietzsche vê, atrás de si, uma sombra ameaçadora, a proferir sons inarticulados e sombrios. Peter Gast - adjetivando Nietzsche como um dos acontecimentos mais significativos na história do espírito humano - é uma das grandes figuras do cenário nietzschiano. Seu amigo constante e solícito, seu fervoroso discípulo, seu amanuense prestimoso e atento, ele era o único leitor capaz de decifrar a quase ilegível caligrafia gótica do filósofo, suas griffonages, assegurando, sozinho, com extraordinário zelo, paciência e devoção, a sobrevivência desses preciosos manuscritos. Ele foi il primo a capire il genio di Nietzsche, ressalta Giametta, um dos grandes estudiosos do solitário poeta-pensador.

Não se pode imaginar a

trajetória dos trabalhos de Nietzsche sem a ajuda constante de Peter Gast. Nesse sentido, ele é o mais importante de seus amigos, lê-se em Nietzsche, Paul Rée e Lou Salome. Documentos de um encuentro. Em carta a Overbeck, Peter Gast realça o caráter sociopata de Elisabeth: Ela voltou a acusar Naumann (... o editor de Nietzsche...) em juízo, mais uma vez.. Ela nada faz senão atormentar, inquietar e torturar as pessoas. Certa feita, em seus processos querelantes, ela chegou a contratar oito advogados, simultaneamente. Diane Chauvelot, em seu livro sobre Nietzsche, observa: O que Elisabeth mais apreciava eram suas longas noites em tête-a-tête com Koegel, que para ela interpretava, ao piano, com fortes sentimentos, os poemas de Keller, por ele musicados. H. F. Peters, também biógrafo de Lou Salomé, escreve, à pg. 202 de seu livro sobre Elisabeth: O que mais desagradava a essa senhora idosa, (...à mãe de Nietzsche...), eram as longas noites de recepção na sala do Arquivo, então à Rua Weingarten, número 19, cheias de risos e música, enquanto que ela, recolhida ao quarto escuro ( ... de seu filho ... ), no cômodo acima, velava, ansiosamente, pelo agitado sono do filósofo. Nietzsche pertencia ao tipo constitucional longilíneo, cujo perfil psicológico é aquele dos introvertidos. Jung era um grande estudioso de Nietzsche, tendo ministrado um longo e erudito Seminário sobre o Zarathustra nietzschiano. Consoante Jung, Dionisos e Apolo representam tipos constitucionais, 

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disposições inatas, correspondendo, respectivamente ao brevilíneo e ao longilíneo, ao extravertido e ao introvertido. Às representações artísticas do filósofo, o psiquiatra de Zurique opõe sua concepção própria, em seu livro intitulado Tipos psicológicos, de 557 páginas. O comportamento do introvertido é próprio da abstração, observa Jung. O traço fundamental de seu caráter, do caráter de Nietzsche, consoante Pinder, seu amigo de infância, era uma certa melancolia que se mostrava em toda a sua natureza. Desde sua mais distante infância, ele procurava a solidão para entregar-se aos seus pensamentos. Em carta datada de 1885, escreve o pensador e poeta: Na minha infância não encontrei ninguém que comigo compartilhasse a angustiosa instância do sentimento e da consciência. ( ... ) Em uma idade absurdamente precoce, aos sete anos de idade, eu já sabia que nenhuma palavra humana chegaria ao meu coração. Em 1876, desarmando, a priori,

posteriores especulações sobre a

normalidade de sua natureza física, em uma nobre e fervorosa expectativa lírica, o filósofo tornou-se cativo de uma elevada e excepcional reciprocidade afetiva, quando foi seduzido por Louise Ott, mulher de excepcional beleza e rara cultura. Dotada de uma voz privilegiada, ela conhecia, profundamente, as músicas alemã e russa, motivo decisivo á consolidação dessa grande afinidade recíproca. As cartas de ambos, suas grandes palavras, suas expectativas, sensibilidade e introspecção, a elevada consciência de suas decisões difíceis, seus gestos de abnegação, registram o raro encontro de duas grandes almas gêmeas, de duas almas para as quais os valores maiores da existência ultrapassam as dimensões imediatas da vida. Em carta ao seu amigo Gersdorff, ele diz: Ott mir vorgestern Blumem schikte (‘Ontem, Ott mandou-me flores’) . É possível que o busto de Voltaire, enviado, anonimamente, a Nietzsche, de Paris, tenha sido um presente de Louise Ott. A respectiva correspondência foi publicada pela revista Der Akädukte.



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Paralisia Geral - Formas clínicas, segundo o Professor Henry Ey

Figura 14: Nietzsche paralítico geral

• Demência eufórica; • Forma depressiva; • Estados confusionais; • Estados delirantes; • Sintomatologia esquizofreniforme. Alucinação, como já se observou, é uma percepção sem objeto. Denominase alucinação extracampina quando o erro psicossensorial ocorre fora de seu respectivo campo perceptivo. Por exemplo, ouvir vozes no tornozelo. Nietzsche a apresentou, certa feita, quando viu um vulto sombrio em suas costas, proferindo palavras aterrorizantes, malarticuladas. Nesse tempo, preparandose para uma cirurgia do externo, que fraturara em Naumburg, ao cair de um cavalo, em seus exercícios militares, ele usava ópio para aliviar suas dores, prescrito por seu médico, o que poderia explicar essa estranha alucinação. Esse registro só ocorre na primeira edição das obras completas do filósofo. Os mentalistas denominam alucinose os erros menores da percepção, quando o paciente os reconhece como patológicos. A alucinação negativa se verifica quando a percepção não registra parte do objeto que o paciente crê ferir seus sentidos. 

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Polêmica do diagnóstico

• Prejuízo moral. O Nietzsche-Archiv considerava a sífilis uma

maladie

honteuse, um estigma à imagem idealizada do filósofo, uma difamação odiosa; aos seus olhos, ele era um piccolo santo, como era cognominado na Itália, por alguns de seus senhorios. • Manipulação política das idéias do pensador. • Influência nefasta da irmã do filósofo, die unheilige Elisabeth. Consoante Paulo d’Iorio, a correta e ampla leitura de Nietzsche somente poderia ser possível quando removidos os obstáculos editoriais interpostos por Elisabeth, que se pretendia ser a irmã de Zarathustra. Os estudiosos de hoje dispõe de elementos seguros, seguros e conclusivos, para emitir um juízo retrospectivo da enfermidade mental do filósofo, um diagnóstico póstumo, reconstituir a história de sua psicose. As incertezas desse diagnóstico, que perduraram por quase um século, cessaram com a morte da irmã do filósofo, em 1935, quando

o Arquivo

Nietzsche abriu suas portas, franqueando o estudo de seus documentos. Ela faleceu em seu quarto, repentinamente, quando se preparava para o jantar. Desprovida de escrúpulos, ela deturpava, em edições arbitrárias, em contrafações sucessivas, a obra, a biografia e a correspondência de seu irmão, então construindo, além de inúmeras outras, a falsa imagem de que ele seria um precursor do nazismo. Somente agora, com a edição crítica e histórica de suas obras e epistolário, pelos professores Colli e Montinari, à frente de uma notável e numerosa equipe internacional de grandes eruditos, iniciada em 1961, recentemente concluída, é que está sendo resgatada a obra do filósofo, a qual pode ser acessada on line, através do projeto Hypernietzsche. O Prof. Schlechta, exímio pianista, foi o primeiro estudioso de Nietzsche a denunciar, publicamente, as falsificações de Elisabeth. Seu livro chama-se Le cas Nietzsche, editado por Gallimard, em 1960. Consoante esse pesqusador de Nietzsche, as provas foram reunidas e expostas em 7 de agosto de 1937, pelo Dr. Hope e eu, perante o Comitê científico da Edição Completa, histórica



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e crítica, das obras e correspondência de Friedrich Nietzsche. Elas convenceram o Comitê; os documentos são formais. Certa feita, em uma áspera discussão com este professor, que à época trabalhava no Arquivo Nietzsche, ela, liberando uma grande carga agressiva, bateu-lhe na cabeça, repentina e violentamente, com sua pesada bengala de carvalho. Apenas porque pedira-lhe, com insistência, permissão para examinar os originais de algumas cartas do filósofo, que ela, esquivando-se, dizia perdidos, assim impedindo que se verificasse a autenticidade das cópias. A incontinência emocional, como já realçamos, sói ser um sintoma da constituição epiléptica, dos pacientes epileptotímicos. Quase toda a família de Nietzsche, incluindo ele próprio, apresentava sintomas subclínicos do grande círculo das epilepsias.

Figura 15: Nietzsche psicótico em Weimar



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Figura 16: O túmulo do Nietzsche em Roeckendorf

Elisabeth, demonstrando, mais uma vez, seu temperamento fronteiriço à normalidade, ao acertar sua

despesa

com

o funeral de Nietzsche,

desentendeu-se, violentamente, com o albergista de onde

Nietzsche

nasceu

e

estava

encarregado, por ela, de organizar a ensejando um desnecessário e

sendo

Roeckendorf, a aldeia

sepultado,

e

anteriormente

solenidade do sepultamento, então

generalizado clima de constrangimento,

destoante da pungente celebração: Elisabeth constatou, revoltada, que a despesa era de 456 marcos. Ela pediu um extrato detalhado do albergueiro, que lhe disse

haver servido a 140 pessoas. Ela recusa-se a pagá-lo,

acusando-o de despesas excessivas. Após negociações intermináveis, que em nada contribuíram para fazer, de Elisabeth, uma pessoa simpática, o albergista, contrafeito, reduz a despesa para 250 marcos. ( H.F.Peters, Nietzsche et sa soeur Elisabeth ).



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Breve discurso junto ao túmulo de Nietzsche

Figura17: O autor junto ao túmulo do Mestre, poeta-pensador.

Oração ao túmulo do mestre Mestre! Tu foste poeta e pensador. Foste também, consoante tuas próprias palavras, o primeiro niilista completo da Europa. Em tua vida introspectiva e solitária, a dor foi prematura e permanente. Aos quatro anos de idade, ao falecer teu pai, a existência desvelava, aos teus atônitos 

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olhos de criança, o seu verdadeiro rosto, as suas dissonâncias, as crueldades que a desesperam.

Desde então a tua vida inteira por poderosa e aguda percepção crítica

da realidade, e por sempre frágil condição orgânica, foi uma grande odisséia de sofrimentos, de resignação e desencantos. Filósofo lírico, pensador da existência, artista da palavra, dotado de excepcional

pendor

musical,

deixaste,

para

a

posteridade,

enriquecendo,

sobremaneira, a herança cultural comum, um legado espiritual marcado por original e impetuosa torrente de idéias heterodoxas, todas elas gravitando em torno de grandes temas e desconcertando a bi-milenar tradição racionalista da filosofia ocidental. Possuías uma alma nobre e solitária, meditativa, muito acima das contingências cotidianas da vida. A música e a palavra - como bem observara Thomas Mann – foram as tuas únicas vivências. Falando de ti mesmo dizias: Os meus pensamentos são os meus acontecimentos; o restante da minha vida é a crônica diária de uma doença. Em verdade, a tua existência inteira foi um segundo nascimento da tragédia. Tua grandeza, como escultor do idioma, como poeta e pensador, como consciência crítica dos valores, como filósofo do nihilismo e da cultura, como educador da liberdade, tuas antevisões proféticas, tuas profundas análises psicológicas, são poderosos e ininterruptos diálogos interpelativos com a realidade, todos eles colocados em altíssimo nível de contestação cósmica. Em tuas próprias palavras, foste poeta, decifrador de enigmas e redentor do acaso. Hoje, seis dias antes de teu aniversário, e após meio século de paciente expectativa, de atenta leitura de tuas obras, realizando um antigo anseio, venho ao teu túmulo e à tua aldeia natal para reverenciar a tua memória, para tributar ao teu nome a minha mais comovida homenagem. Ao realizar esse gesto, de contrição e fervor, gostaria que ele o fosse consoante as tuas próprias aspirações e sensibilidade, a transcendência do momento, a epifania desse instante, quando nenhuma palavra é capaz de expressar, em toda a sua plenitude, as grandes emoções do espírito: Oh! minh'alma, ( ... ) canta, não fales mais! Ataulpho Costa Ribeiro Roeckendorf, Alemanha, 9 de outubro de 1993



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O último monólogo de Nietzsche Em 3 de janeiro de 1889, repentinamente, em plena praça pública de Turim, junto ao Palazzo Carignano, Nietzsche perde os seus sentidos, em rápida e transitória privação da consciência. Como observa o prof. Laignel-Lavastine, ao estudar a Paralisia Geral, nela peut déjà y avoir des ictus épilèptiformes ou apopleptiformes. O fato revestiu-se de intensa dramaticidade e ocorreu quando o filósofo se lançou ao pescoço de um cavalo procurando, com suas lágrimas, exclamações e gestos, protegê-lo das sevícias que lhe eram infligidas por seu violento proprietário. Nos últimos dias de 1888 - escreve Bianquis, em seu livro Nietzsche - nós perdemos Nietzsche de vista ao mesmo tempo em que seus amigos e desconhecidos começam a receber suas inquietantes mensagens. Um dia o humilde Fino, dono da casa em que se hospedara o filósofo, encontra seu pensionista desacordado na rua, abatido pela apoplexia. Levado para sua casa, ele passa dois dias em um sono profundo, que se assemelha à morte. Quando acorda, não é mais o mesmo. Uma hora ele é Chambige, outra é Prado, dois célebres criminosos da época. Ele é também Eugênio de SavoiaCarignano, cujos solenes funerais tinham sido celebrados, recentemente, em Turim; ao mesmo tempo, assistiu a esses funerais sob a máscara do rei VictorEmanuel ou do príncipe Robilant também morto recentemente, ou do cardeal Antonelli. Ao recuperar a consciência, Nietzsche - parodista da eternidade, como já dissera de si mesmo, em expressiva imagem - então se transfigura completa e profundamente. Sua identidade, destruída por um microrganismo, por

uma

bactéria,

pelo

Treponema

pallidum,

que

vinha

corroendo

silenciosamente o seu corpo, minando-o pouco a pouco, ao longo dos anos, consome-se na psicose. Sua alma, sucumbindo à patologia, desestrutura-se, mergulha nos insondáveis abismos de seu atormentado destino, de seus itinerários desconcertantes, introspectivos, pungentes e irreversíveis; é a sua Hadesfarht, a sua viagem ao inferno, ao santuário de suas grandes dúvidas, a dissolução de sua mente, a sua Untergang, o naufrágio e a odisséia de seu 

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espírito visionário e lírico, doravante extraviado em grandes e irreversíveis delírios. Seu quarto, para o qual fora levado por seu atencioso e cortês senhorio, repentinamente, aos seus olhos e ouvidos, à ruidosa sombra de Dionisos, o deus telúrico e aquiescente, enche-se de luz, de sons e de cores, de alucinações

auditivas

e

visuais,

de

imagens-sonho,

de

ressonâncias

superlativas, de plenitude, antíteses, exortações e expectativas, de sombras e visões redentoras, de personalidades-símbolo, de nuances e invocações, de metamorfoses e epifanias. Ao seu olhar transfigurado, ressaltando antigas proposições suas, Apolo, o deus da razão, da serenidade e da renúncia, é uma blasfêmia; Sócrates, que o continua, é a mais sombria apologia do ascetismo: Sócrates e Dionisos, a nova antítese. Transtornado pelo desvario e pelo paroxismo, pela desconsciência de si e dos objetos, pela exaltação psicótica, ele então distende o arco de sua existência e verte copiosas lágrimas de redenção, de anuência e júbilo. Ao se defrontar com a realidade, em um derradeiro confronto, ele enaltece a subjetividade, clama por um novo Elogio da loucura e exclama que só a mentira é divina; somente ela permite alimentar ilusões e suportar a crueldade da vida, suas dissonâncias sombrias. Alhures, realçando esse epílogo, ele escrevera: A verdade é o nosso erro mais útil. (...) Um filósofo utiliza ou consome convicções. Incendiário da História e de si mesmo, dos antigos valores, da civilização inteira, em uma antecipação desses momentos dolorosos, em uma de suas páginas mais célebres, em seu livro Aurora, aforismo 14 - como se fosse o supremo ativista de um nihilismo maior - ele exclama suas dúvidas, celebra seus holocaustos, iconoclastias, sacrilégios, solidão, apostasias e sofrimentos: Concedam-me a loucura, para que eu possa crer em mim mesmo! (...) Desde que eu possa encontrar a fé em mim próprio, façam com que eu exclame, ulule e me arraste como se fosse um animal ferido! A dúvida me consome, eu destrui a Lei! Se a ela sou um estranho, sou também o mais réprobo de todos os homens. O espírito novo que há em mim, de onde provém senão da loucura? O militante máximo das Luzes, que se propôs a fazer do homem um cinzel de artista, uma nova divindade, um poder criador, transcende, em sua vesânia, suas próprias perspectivas. Arrastando seu espírito pelos escaninhos do 

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derreísmo mais delirante e doloroso, em numerosas cartas e bilhetes de alienado, ele então exige um novo fiat, clama por uma nova paidéia, por um novo e maior catecismo político, por um novo Primeiros Princípios, a obra de Spencer. Aos seus olhos, fartos e refartos de antinomias e perplexidades, derreliçcões e paradoxos, o homem, ao descobrir o conhecimento, consagra o Iluminismo e se transforma: Eritis sicut dii, scientes bonum et malum - sereis como deuses,

conhecereis o bem e o mal.

Invertendo uma proposição

clássica, ele então proclama: In veritas vino. Se para o neurótico o sonho é a realidade, para o psicótico, ao contrário, a realidade é um sonho. Poeta e músico notável, aflorando inspiração, prelúdios e ritmos em toda a parte, exaltado como um sátiro em êxtase, ele então celebra, em seu humilde e solitário quarto, os grandes rituais e dramas dos antigos mistérios gregos, as grandes cenas da tragédia antiga, nas quais o destino, com suas forças cegas e irracionais, afinalísticas, humilha as seculares pretensões intelectualistas do homem.

Candida Fino, a mulher do

senhorio,apreensiva com o ruidoso descomportamento de seu inquilino, observa-o pelo orifício da fechadura e conta, estupefata, que o bom Professor dançava, despido em seu quarto, com o phalus ereto, rememorando cenas do culto diomisíaco. Perdido nos descaminhos da razão, ele então se imola no altar das grandes aporias, das incertezas maiores, asseverando, anteriormente, com olhar de clínico: Mais duas ou três gerações e o homem será irreconhecível. A cada dia que passa, a seus olhos, menos o homem pertence a si próprio, mais ele recua em sua filogênese. Hipertrofiando sua vontade, como se ela fosse o protagonista máximo da criação, ele proclama que o devir, a transformação e a exaustibilidade das coisas, a impossibilidade de ser, extenua e deserda o pensamento: Cogito ergo num sum, diria Kierkegaard, contestando Descartes e toda a tradiçao filosófica do ocidente. Nolo ergo sum, “não quero, logo existo”, é a nova divisa, o novo emblema da contestação. Para seu espírito, torturado pelo nihilismo, a noluntas, a negação da vontade, é mais profunda e veemente que a voluntas; ela própria é uma voluntas. Antevendo a difícil transição dos poderes de Deus àqueles do homem, a luta contra a ascensão do nihilismo, contra as forças reativas da História, a difícil sobrevivência em um mundo desprovido de razões, seu ego se hipertrofia e cria o universo à sua própria 

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imagem, observa Thibon, acrescentando, em seu excelente livro sobre o filósofo: A última fase de seu destino amadurece em seu próprio sangue. Ele ese sacrifica em seu próprio altar. (...) Aquilo que o destrói não foi seu atormentado orgulho de asseidade, (... sua pretensão de possuir a razão e o princípio de sua própria existência...); ele foi destruído pelo espelho de sua própria consciência, onde se refletiam os humilhantes limites de sua natureza e as contradições de suas vozes. (...) A lógica de seu orgulho se consuma no colapso de sua razão, onde o ego e o outro já não mais se distinguem. A hybris, (... a insolência interior, suas antinomias...) foi sua réplica à unidade transcendente que seu espírito recusa. Ao retornar à sua consciência, à consciência de si mesmo, de si mesmo e dos objetos, em uma percepção semi-crepuscular da realidade, feita de fragmentos que se esgarçam, tributários de u’a metamorfose psicótica que, pouco a pouco, vem destruindo-lhe o espírito, o pensador entretém-se consigo mesmo, em uma derradeira e dolorosa vez. Culminando esses tempestuosos dias que precedem sua completa perda da razão, expressando-se em um introspectivo, pungente e quase inaudível solilóquio, nele rememorando os grandes episódios e vicissitudes de sua vida, em citações suas, grafadas no texto, ele confidencia às suas evocações o seguinte e possível monólogo imaginário: Ano de 1889... Três de janeiro... Depois de Cristo... Por que não do ano I, por que não registrar tempo consoante uma nova cronologia, a iniciar-se em 30 de setembro de 1888, quando termino meu livro O anticristo, quando enuncio minha contra-avaliação dos valores, a primeira da História, quando aclamo e celebro as exéquias do velho mundo, aquelas de um Deus morto até mesmo no coração dos crentes? Por que não três meses e três dias após o último dia do cristianismo? Em carta ao meu amigo Peter Gast, disse-lhe: O anticristo é o desenvolvimento lógico de um cristão autêntico. O homem,ao longo da História, não se consagra como o gênio da mentira; como homo mendax - mendax et stultus? Por que depois do disangelho, por que depois da má nova, por quê antes do evangelho da aquiescência e da vontade? Zarathustra, o mais ativo de todos os nihilistas, o mais piedoso dos homens que não acredita em Deus, sucessor de divindades mortas, com suas canções, discursos e exortações, não é a boa 

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nova, a mensagem da consagração, o evangelho da terra, da anuência e da vontade, o antípoda dos antigos valores, o intercessor da vida, a antítese do nihilismo, removendo velhas e pesadas mortalhas? Eu só poderia acreditar em um Deus que soubesse dançar. (...) Não é digno de ser recordado um dia transcorrido sem dança. Todas as coisas, em torno de nós, dançam, dançam e abençoam, cantam louvores, exortações e expectativas, estendem rosas nos caminhos da vida, curvam-se à “Canção do Sim e do Amém”, die Ja- und Amenlied. Talvez eu seja um novo messias, um apóstolo sem deus, a antítese da vontade nihilista, um fragmento da fatalidade... Em todas as minhas obras, desde os meus mais distantes ensaios juvenis, reconheci, na morte de Deus, o mais importante dos acontecimentos recentes, analisei e proclamei suas conseqüências mais profundas, imediatas e remotas, descortinando novas expectativas, novos valores, outras perspectivas. Em todas elas, desenvolvendo uma filosofia superior do ateísmo, denunciei os filósofos como semi-sacerdotes, como uma espécie de párocos de aldeia, então afirmando que o teólogo protestante é o avô da filosofia alemã. (...) Todos os que nascerem depois de nós pertencerão, em conseqüência desse ato, (... dessa morte de Deus...), a uma história maior. Todos nós, deicidas e nihilistas, que reconhecemos e proclamamos as limitações do conhecimento, que repudiamos o primado da razão e denunciamos as frias punhaladas dos silogismos; todos nós, que vivemos em um mundo impensável e difícil, desprovido de valores eternos, jungidos às contingências das coisas, à natureza efêmera dos fenômenos, não temos onde aplacar a sede do espírito. Embora o pensamento seja um deleite para quem possui uma vocação subjetiva voltada à análise e consciência dos grandes temas da existência, ele também enseja, em nível crítico, angústias dolorosas, desesperos noogênicos e profundos, jamais aliviados por uma só certeza confortante. A natureza, em seu interminável processo de erros superpostos, sucessivos e superpostos, é um doloroso cenário de desolação, de crueldade e horror. A matéria, em sua dinâmica e estrutura, desprovida de um desígnio que a justifique, é um erro de lógica. A vida, por seus desacertos continuados, é um erro da matéria. O homem o é da biologia; o pensamento, por seus desdobramentos críticos, é um erro de psicologia. 

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A filosofia é uma espécie de atavismo superior. (...) No homem, uma coisa é o conhecimento, outra a vontade, diz o pensador-poeta, acrescentando, em uma tradução literária, o dolororoso reconhecimento de sua própria condição de vítima do conhecimento: Sei de que abismos eu provenho! / Insaciável, como um fogo ardente, ardente e devastador, / Em mim próprio eu me abraso e me consumo. /Tudo que seduz, exalta e deslumbra, / Eu transformo em luz, esplendor e transfiguração; / Em cinzas, escombros e aniquilamentos, / Tudo que desprezo e abandono... Toda a minha obra canta e celebra o triunfo de Dionisos, a sua epifania, em hinos de louvor, de transcendência e fervor. Todas as coisas foram batizadas na fonte da eternidade; (...) é aos pés do acaso que elas preferem dançar. O céu se rejubila, aclama e se transforma, todos cantam, o silêncio exclama e fala, todos se transfiguram na exortação e retorno de Dionisos, deus da abundância e da saciedade, (...) senhor

das antíteses... Em toda a parte

“tristaníssimos” e dolorosos acordes... Queres cantar, ó!

minha alma! Não

cantes, silêncio, não cantes! O meu mundo se consumou. (...) Todos os deuses morreram; doravante queremos que viva o acima-dohomem, um transhominídeo, um tipo maior, simultaneamente poeta, decifrador de enigmas e redentor do acaso. Perguntaram-me alhures, em meu Zarathustra: Quem removerá de teus ombros o peso dessa melancolia? Todos nós fomos chamados à alegria, afirmava Hölderlin, o poeta de minha predileção. Sou o primeiro nihilista completo da Europa, a primeira e mais radical consciência da total e absoluta caoticidade do mundo adverso em que vivemos. Fui dos primeiros pensadores a proclamar que não há verdades absolutas, a admitir que a vida é uma anomalia no universo - assim como a consciência o é nas estruturas, economia e leis da biologia. Em suas perspectivas - eu o sei – o nihilismo é ambíguo. No nihilismo passivo, a vontade e a inteligência abdicamse de seus poderes virtuais; no nihilismo ativo, que constitui o eixo de minhas meditações mais profundas, pelo contrário, elas trabalham as nihilidades da existência consoante um propósito criador. Vontade de poder e nihilismo passivo excluem-se. Insurgindo-me contra as idéias tradicionais, aquelas da filosofia clássica, de suas especulações verbalistas, de seus pressupostos



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abstratos, eu sepultei nossa confiança na moral, na moral da renúncia e da repressão, substituindo as antigas por novas tábuas de valores. Em minha última autobiografia, em seu conciso e desconcertante texto, mostrei-me à História, contrapondo-me ao Crucificado: Ecce homo, wie man wird, was man ist; “Ecce homo, como se torna aquilo que se é”. Conheço o meu destino. (...) Escrevo para os próximos duzentos anos. (...) Só o depois de amanhã me pertence; alguns nascem póstumos. Através de meu filho Zarathustra, menosprezando o logos, a abstração fria e mortífera, proclamei o primado do pathos, restabelecendo o rio e a inocência do devir, outrora amaldiçoados pela idiosincrasia dos filósofos.

Zarathustra, um livro

para todos e para ninguém; para todos por sua mensagem universal, para ninguém pela excepcionalidade de sua ênfase e subjetividade. A natureza dolorosamente efêmera e agonística das coisas, como não reconhecê-la? O homem não é um ser de razão; ele é um ser de vontade, vivendo em um cruel cenário darwiniano. Se a representação detém o devir, os sentidos o constatam. Deixai vir a mim o acaso, disse em meu Zarathustra, evocando e ressaltando o poder potencial do homem.

Ao retornar de sua montanha

solitária,onde se isolara dos homens, Zarathustra proclama a morte de Deus e enuncia seu segundo postulado: O homem deve ser superado. Que fizestes para superá-lo?

Eu vos ensino o acima-do-homem. Posteriormente, no

transcorrer do texto, do texto de Assim falava Zarathustra, ele enuncia um terceiro conceito, aquele da Vontade de poder e, por último, sua teoria do eterno retorno igual de todas as coisas. Parmênides e Orfeu, mestres de Platão. Parmênides, o mais glacial e antihelênico instante do pensamento grego. Platão, o anti-Heráclito... Sabe-se que Heráclito chorava, publicamente, pelo infortúnio de estar vivo. Hybris, essa palavra perigosa, é a pedra de toque de todo discípulo de Heráclito. Sócrates e Platão, almas sombrias, tortuosas, protótipos de valores negativos, de parâmetros reativos, modelos de decadência. Sócrates era feio... Em seus desvarios, ao proclamar a hegemonia da razão, o homem perdeu infinitamente, abriu rupturas nos próprios e mais recônditos escaninhos de sua existência. O erro fundamental dos racionalistas é acreditar que o conhecimento altera a essência, diz Deussen, um dos meus grandes amigos.



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Eu anuncio um novo triunfo do paganismo; Deus

morreu, morreu

infinitamente, morreu até mesmo e, sobretudo no coração daqueles que o veneram, cujo incenso escamoteia uma confiança titubeante. Der alte und der neue Glaube, a antiga fé e aquela que se propõe a substituí-la... Nasci em 15 de outubro de 1844, na pequenina e quase desconhecida aldeia de Röcken, perto de Leipzig. Aos meus quatro anos de idade, em uma perda dolorosa, insubstituível, que me torturou ao longo de todos os meus dias, meu pai faleceu precocemente, aos seus 36 anos de existência. Pastor afeiçoado à música , dele herdei esse privilégio e esse pendor. Aos meus olhos de criança, doravante perplexa, a vida então desdobrou toda a sua crueldade injustificada, os desacertos que a estruturam, a ausência de uma finalidade racional nas coisas. Desde minha infância, nunca me iludi quanto à Absurdität do mundo, ao primado do absurdo em nossas vidas. Nos horizontes de meu espírito, em seus confrontos, recusas e questionamentos, entrementes, descortinaram-se novas estrelas, novos itinerários, todos eles repudiando apesada herança cultural que me era imposta. Denominei a mim mesmo, posteriormente, der Unzeitgemässe, um “pensador inatual”, considerando todos os filósofos a má consciência de seu tempo. Desde então se abateu sobre o meu espírito uma profunda e pungente Verlassenheit, um poderoso e plúmbeo sentimento de derrelicção, de desamparo inerme. Alhures eu escrevi: Punge, punge de novo, punge crudelíssimo aguilhão, (...) punge, oh Deus desconhecido! Aos 24 anos, em 1869, fui nomeado professor de Filologia Clássica na Universidade de Basiléia. Dessa matriz nasceu a minha filosofia. Fui admitido sem concurso prévio, louvando-se no só mérito de meus trabalhos universitários. Os alunos estimavam-me, como amigo e preceptor. Em 2 de janeiro de 1872 Tragédia

publiquei meu primeiro livro, intitulado O Nascimento da

pelo espírito da musica - esse centauro do espiríto. Sobre ele

escreveu-me Wagner: Schöneres als Ihr Buch habe ich noch nicht gelesen “nunca li um livro tão belo quanto o seu”. Meus discípulos, 22 dias depois, como escreveram a Rohde, logo após, no dia 28, queriam desfilar pelas ruas da cidade, à noite, portando tochas acesas, em homenagem à minha pessoa. Declinei, naturalmente.



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Nesse mesmo ano de 1869 ocorreu, em Basiléia, a IV Internacional dosTrabalhadores. A rumorosa presença dos anarquistas, desses utopistas messiânicos, não despertou uma só observação de minha parte. Recordava Horácio: Odi profanum vulgus et arceo. Et arceo... “Eu não me interesso pela questão operária porque o trabalhador é um entreato da história” - ein Zwischen-Akt. “Para mim, a questão social é uma conseqüência da decadência, não a sua causa”. Zarathustra feliz porque terminou a luta de classes, disse alhures... Hegel, por seus escotomas racionalistas, celebrando a História como a consagração de Deus, o triunfo do homem e da razão, o testemunho de um finalismo metafísico, foi incapaz de reconhecer que ela é um rio de sangue, que ela oscila como um pêndulo, entre poderes que oprimem e oprimidos que se revoltam; estes últimos, posteriormente, transformam-se em opressores impiedosos. Publiquei muitos livros, versos e canções, em todos eles repudiando os antigos valores, aqueles que turvam e envenenam as águas da existência embora seja descendente de várias gerações de eclesiásticos cristãos. As minhas obras, todas elas, são grandes saturnais do espírito, auflösung der Dissonanzen, redenção das dissonâncias, como dizia Hölderlin, para quem os pensamentos amadurecem lentamente na alma do poeta... Nelas eu oponho, ao cenário teológico, um cenário nihilista. Muitas vezes julgo-me meu único leitor. Sou o escritor do caos por

excelência. Talvez seja um terrorista da

cultura... No caminho de minhas heresias, ao longo de minhas contestações e recusas, colhi uma nova doutrina, alhures anteriormente vislumbrada por reflexões de outros pensadores, capaz de ensejar um novo destino; nessa nova perspectiva, desdobrando o pensamento de Darwin, até suas últimas conseqüências, antevi um porvir promissor, aquele de um homem acima de si mesmo, que supera contingências, desacertos, humilhações e determinismos aleatórios, capaz de desfazer, como anti-Alexandre, o nó górdio da civilização. Posteriormente perguntariam

a mim: Onde reedificaremos o Jardim de

Epicuro, (...) onde construir um claustro laico? (...) Um pequeno jardim, figos, queijo e dois ou três amigos, eis a opulência de Epicuro. Reiteradas vezes reconhecí e proclamei que a história é a refutação experimental da pretendida

ordem moral do universo. Que são as suas

cansativas crônicas senão uma enfadonha e permanente sucessão de 

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desvarios, de crimes e crueldades? O mundo gira em torno de falsos valores. (...) Quem, hoje, não tem a boca, o

coração e os olhos cheios de asco?

Escrevi em meu Zarathustra: Não sou um Deus; também não sou o inferno de uma divindade. A dor de Deus é maior; estendei vossas mãos à dor de Deus, não à minha dor. (... Foi Ele quem criou o homem...).

Os espíritos mais

preocupados indagam: Como salvar o homem? Mas Zarahustra pergunta - e é o único e o primeiro a fazê-lo: Como superar o homem? (...) O que amo no homem é ser ele uma transição e um término, uma expectativa, a possibilidade de um ser superior. Zarathustra, o livro dos livros, (...) o meu melhor livro, (...) o vestíbulo da minha filosofia, (...) é um livro à parte. Ele não tem paralelo. Não há psicologia, não há arte de escrever, antes de Zarathustra. Sua leitura apenas semântica é fácil; ela, entretanto, sequer aflora o cerne de sua mensagem. Vive-se antes, vive-se depois de Zarathustra. Em Ecce homo, nessa última retrospectiva de minha vida, dediquei-lhe quinze páginas, contra apenas duas à Genealogia da moral, quatro à Aurora, oito à Humano, tão somente humano, sete à minha primeira contra-avaliação

dos valores, que denominei O Nascimento da

Tragédia. (...) De que serve um livro que não nos transporta além dos outros livros? (...) Para que serve nossa vergonhosa epidemia de livros, que sobrecarrega a História e entulha o espírito? Nessa obra (... em Zarathustra...), vivo uma experiência interior que não compartilho com ninguém. Outrossim, não concedo a nenhuma pessoa, viva ou morta, o direito de falar em meu nome. (...) Afirmei alhures que um bom livro enriquece aqueles que lhe são hostis... Minha alma dança, afirmei em meu Zaratustra.

Em torno de nós gira a

eternidade. Nesse poema filosófico, reordenando as incessantes e adversas metamorfoses do mundo, suas dissonâncias, desencantos e privações, suas clivagens e perplexidades, o ser e o devir se conciliam, em intermináveis e periódicas celebrações de louvor, de apoteoses, júbilo, ressonâncias e plenitude, recolhimento, fervor e introspecção. Suas efusões líricas, semimísticas por suas visões interiores, por seu esplendor e vaticínios, por seus cânticos de expectativa, por seus prenúncios e colóquios, confidências e subjetividade, por suas continuadas ressurreições do ser, transbordam em uma interminável sofreguidão de milagres... De todo escrito só me agrada aquele 

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que o homem escreveu com o seu próprio sangue, com a sua própria dor. (...) O caminho do nosso céu passa pelo nosso inferno. Escreva com sangue e aprenderás que o sangue é espírito. (...) É preciso ter um caos dentro da alma para engendrar estrelas que dançam. Sua doutrina é o chantecler de uma nova História. Quem poderá ser indiferente à angústia de Zarathustra, ao grito de socorro, ao Notschrei que chega à sua solidão, antevendo uma possível superação do homem? Lê-se em seu texto: Se alguma vez a minha cólera profanou sepulturas, removeu barreiras e precipitou velhas tábuas partidas em escarpadas profundezas; se alguma vez estive sentado, cheio de alegria, no sítio onde jazem deuses antigos, abençoando e amando o mundo, ao lado dos monumentos de seus antigos caluniadores; se alguma vez joguei os dados com os deuses, na divina mesa daterra, (...) como não hei de estar anelante da eternidade, anelante do nupcial anel do anéis, o anel do eterno retorno? Por que, já conhecendo suficientemente a realidade hostil do universo, a natureza apenas imanente de seu ser e do mundo, o seu obscuro lugar na desordem natural das coisas, já dispondo de um grande domínio sobre as leis da matéria, o homem ainda não decidiu por criar e dominar seu próprio destino? Por que, saturados de técnica, de crimes, de alienação e tédio, eles se deixam viver em uma civilização enervante e daninha, não se esforçando por predeterminá-la

consoante um desígnio inteligente, contrapondo-o à

natureza, desprovida de um propósito finalístico que a consagre, inspire e redima? Sobre todas as coisas estende-se o céu do acaso, à espera de um gesto redentor. (...) O homem, será um erro de Deus? Quando pela primeira vez estive com os homens, cometi a loucura do solitário,a grande loucura: fui para a praça pública, deixando-me atormentar pelas moscas do mercado, por seus discursos de vingança e reivindicação. Na praça pública, (... não o sabia...), ninguém acredita no grande homem. (...) Tudo quanto é grande passa longe da praça pública e da glória. Em uma anotação imediatamente posterior a dezembro de 1887, indaguei: Onde estão os bárbaros do século XX? Obviamente, eles só vão aparecer e se consolidar após enormes crises socialistas. Disse em meu Zarathustra, na parábola intitulada O Mendigo Voluntário, ao dirigir-lhe minhas palavras: Não serás aquele que, envergonhado da riqueza e dos ricos, fugiu para junto dos pobres, 

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a dar-lhes sua abundância e seu coração? Que foi que me impeliu para os mais pobres? Não foi a aversão que sentia pelos mais ricos dos nossos? Pelos forçados da riqueza, que aproveitam seus lucros em todas as varreduras, com olhos frios e concupiscentes? Por essa chusma, cuja fetidez sobe até o céu? Por essa dourada e falsa populaça, cujos ascendentes eram gente de unhas compridas, aves carnívoras ou trapeiros, com mulheres complacentes, lascivas e esquecidiças, pouco diferentes de rameiras? Plebe em

cima, plebe em

baixo! Que significam hoje, pobres e ricos? (...) Quem menos possui, menos é possuído. Quando contemplo os numerosos itinerários, confrontos e desencontros de minha vida, sua vertente introspectiva, seus hiatos e dissonâncias, seu âmago e expectativa,

dédalos, sempre reconhecendo que o homem, antítese da não é o fenômeno mais sublime da natureza, vejo-me

inteiramente só, desnudo e inerme, incapaz de reerguer as forças da vida, de refazer seu dinamismo, o elã que a soergue e vivifica, de supreender, reconquistar e acolher seus caminhos cotidianos e simples, refartos de luz, de azul e de sonhos...

Em minhas horas mais silenciosas, em minhas

introspecções mais subjetivas, mudas e solitárias, sinto-me a encarnação viva do nihilismo mais sombrio, da mais absoluta derrelicção, como se fosse uma representação sem matéria, uma vida desprovida de corpo, destruída por si mesma, por um pensamento que se fez crítico, impiedoso e desumano, espelho de outros espelhos, todos destituidos de imagens representativas da ilusão que torna aceitáveis os paradoxos e desencantos da vida. Escreví em meu Zarathustra: Reunidos em torno do fogo, todos falam de mim; ninguém, entretanto

‘pensa’ em mim. Em sua caverna solitária -

contraposta àquela de Platão – Zarathustra confidencia a si mesmo: Há sempre um pouco de razão na loucura...)

Serei, porventura um

adivinho, um

sonhador, um ébrio, um interprete de sonhos, um sino da meia-noite, uma gota de orvalho, um perfume de eternidade? Não ouvis? Não percebeis? O meu mundo acaba de se consumar; a meia-noite é também meio-dia, a dor é também uma alegria, a maldição é também uma benção, a noite é também um sol. (...) Alguma vez dissestes sim a uma alegria? Então dissestes sim a todas as dores! (...) Toda alegria quer eternidade, quer profunda eternidade.



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A enfermidade sempre foi a dolorosa sombra de meus dias, dias de constante, solitário e penoso sofrimento. Eu a suportei, ao longo dos anos, como se fosse o último dos estóicos, alhures reconhecendo e proclamando que ninguém carrega na alma um destino semelhante ao meu. Em 1865 conheci a obra de Schopenhauer, sua exaltação da vontade, seu repúdio à lógica e à representação;

consoante suas palavras, a consciência é um acidente da

vontade. Nessa data conhecí Wagner, privei-me de sua amizade e confiança, então compartilhando um só e mesmo ideal, visitando-o vinte e três vezes em Tribschen, a Ilha dos Bem-aventurados, em Luzern, onde sempre me era reservado um Denkenzimmer, um “cômodo para pensar”; a última em companhia de Lou Salomé, quando Wagner já residia em Bayreuth.

Sou

sensível à recordação desses dichterischen Tage, desses “dias poéticos”, para evocar uma expressão de Hölderlin, ali vividos. Depois, sobreveio um desentendimento recíproco. Ao enviar-me um exemplar de Parsifal, sua obra apóstata, aos meus olhos, curvando-se à poderosa influência catolicizante de sua mulher, Cosima, nela renegando nosso comum ideal de uma regeneração grega da cultura, subscreveu a dedicatória como membro do Oberkirchenrat, como “Alto Conselheiro da Igreja”. Essa foi a perfídia, a ofensa mortal que ele me infligiu, alhures ruidosamente mal interpretada. Em nosso derradeiro encontro, no ano de 1876, em Sorrento, ele falou-me de suas profundas emoções religiosas, enaltecendo-as com veemência. Como Dionisos me fala de maneira diferente, de maneira tão diversa! Em meu Zarathustra, eu o representei como der Zauberer, ”o feiticeiro”, por seus encantamentos e arte de seduzir. Só eu percebí que Apolo, o antípoda de Dionisos, mesmo quando sonha, sabe que está sonhando, sabe que é irreal sua representação das coisas... À verdade apolínea, ao conhecimento que procura e pretende encontrar os mais profundos dédalos da existência, Dionisos opõe a vida imediata, seus valores imanentes, suas expectativas e exortações, sua anuência à ilusão. Diante das rupturas e desencantos da vida, Voltaire, em seu Candide, exclama seu nihilismo: Travaillons sans raisoner. Só alguns anos depois de nossa fervorosa convivência compreendi que sua música está a quatro passos do hospital. À época escrevi: Il faut mediterraniser la musique. Sua morte, a hora sagrada de sua morte, em Veneza... Meu bizetismo, hostil à sua obra, 

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reverenciava Carmen como a antítese irônica de suas músicas e pensamento; eu a assisti pela primeira vez em Gênova, no dia 26 de abril de1881. No mesmo dia e mês de 1872, antes de deixar Tribschen, com destino a Bayreuth, Cosima pediu-me, à noite, que improvisasse ao piano...

Lou Salomé, um

segundo e doloroso equívoco: Ao chamar alegria a seus torpes sonhos, envenenaram as palavras, observa Zarathustra. Cosima, Nietzsche e Wagner / Ariadne, Dionisos e Teseu... Quem sabe o que é Ariadne? Dionisos e Ariadne, o equilíbrio feliz de todas as coisas... Em um extrato de conversações fragmentárias e imaginárias, entre Dionisos, Teseu e Ariadne, na ilha de Naxos, idealizei um breve diálogo: Teseu tornou-se absurdo, diz Ariadne, Teseu tornou-se virtuoso. / Cíume de Teseu pelo sonho de Ariadne. / O herói, que admira a si mesmo, torna-se absurdo. / Lamento de Ariadne / Dionisos, sem cíume, diz a Ariadne: O que amo em ti, como poderia amá-lo Teseu? / Último ato. Bodas de Dionisos e Ariadne./ (...) Ariadne, diz-lhe Dionisos: tu és um labirinto. Teseu se perdeu em ti, já não possui o fio que o possa salvar do Minotauro. (...) O que amo em ti, como Teseu o poderia privilegiar?

Como ele poderia alegrar-se por não ter sido devorado pelo

Minotauro? Aquilo que o destrói é pior que um Minotauro. / Tu me lisonjeias, responde Ariadne, eu estou cansada da minha compaixão. Todos os heróis devem morrer por mim. Este é o meu extremo amor por Teseu: eu o faço perecer. Uma só e rápida palavra sobre a Alemanha, o país do pouco a pouco. (...) Sou o depreciador dos alemães por excelência. (...) Quando o cristianismo agonizava os alemães, sempre retardando a história, o salvaram, instituindo a Reforma. Não obstante, eles ainda são os seus melhores destruidores. (...) Nós, os alemães de ontem. (...) Já não há filósofos na Alemanha. (...) Em seu velho culto pela obscuridade, (...) eles sempre lutaram contra a razão. (...) O espírito alemão, na verdade, ainda não perdeu sua nostalgia mística. (...) O credo quia absurdum

ainda está impresso na alma da Alemanha. (...) A

germanidade, a “Deustschheit”.

(...) Ser um bom alemão significa

desgermanizar-se. (...) Nenhum povo escreve pior que os alemães. (...) Os hegelianos, os piores corruptores da língua. (...) Para quem possui um terceiro ouvido, que martírio um livro escrito em alemão! Alemanha, “terra de poetas e pensadores”. Hoje, entretanto, quanta cerveja na filosofia alemã. (...) Os meus 

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antípodas vivem em Munique. (...) Na Alemanha não há psicólogos. (...) Nós, os alemães – dizia Wacckernagel, citado por mim, na primeira das minhas “Considerações Inatuais” - somos, no fundo, uma nação de herdeiros; mesmo na nossa mais alta ciência, na nossa religião, não passamos de epígonos do mundo antigo. Para mim, o tempo é circular, ele se curva sobre si mesmo: o universo alimenta-se de suas próprias dejeções. Todo efeito é causa de uma causa, toda causa é efeito de um efeito. Último efeito, causa da primeira causa. Causa, estado modificativo das coisas. Periodicidade do ser, continuidade do vir-a-ser. Heráclito, o obscuro, já o dizia: No perpétuo fluir do universo, nada é e tudo se transforma. A vida cede lugar à morte, o frio torna-se quente. É a mesma coisa em nós estar vivo ou morto, desperto ou dormindo, pois, em virtude da mutação, isto passa a ser aquilo e aquilo volta a ser isto. Os mortos são imortais, porque morrem nos que nascem. (...) Nada ao nada retorna, escrevia Lucrécio. Eu próprio faço parte das causas do eterno retorno, da ciclogênese cósmica. Um dia eu regressarei com este sol, com esta terra, com esta águia e com esta serpente; não para uma vida nova, para uma vida melhor ou análoga. Retornarei eternamente para esta mesma vida, igual em pontos grande e pequeno, a fim de ensinar, outra vez, a eterna recorrência de todas as coisas, afim de repetir, mais uma vez, as palavras do grande meio-dia da terra e dos homens, afim de instruir os homens sobre o acima-do-homem. O ser absoluto é uma ilusão subjetiva, uma abstração equívoca. A única realidade constante é o vir-a-ser, a incessante metamorfose das coisas, o devir implacável, que nada consegue deter. Tudo que é está condenado a deixar de ser.No mundo não há repouso ou imobilidade. Às causas sucedem-se efeitos inevitáveis, atuando como novas causas. Causa aequat effectus. No passado e no

presente, como também no porvir, o ser se submete, passivo como

cariátide, ao perpétuo retorno periódico do tempo. Colocais nome nas coisas como se elas subsistissem. Nunca nos banhamos duas vezes nas águas do mesmo rio, dizia o

lacrimoso Heráclito; sequer uma vez, dirá um de seus

discípulos, porque as águas que banharm nossos pés não são as mesmas que, depois, lavarão nossas cabeças. Em nenhum instante da História, a total insistência do mundo se despiu com menos pudor e totalmente a um pensador. 

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Ninguém, como ele, sentiu melhor a sombria infecundidade dos esforços humanos, a efêmera transitoriedade dos fenômenos. Quem não gostaria de ser cego para evitar a contemplação do eterno retorno, disse alhures? Não há Deus, não, não há. Lieber Narr sein, lieber selber Gott sein; prefiro ser um louco a ser o próprio Deus. O testemunho é de todos os dias, a evidencia é de todas as horas, a evidência é para todos. O ateísmo nunca foi um acontecimento em minha vida. (...) Ele é o meu a priori. Os postulados da teologia são insustentáveis. O sofrimento, em toda parte, protesta contra a realidade, exclama e denuncia. A inteligência, não obstante o seu enorme poder potencial é apenas um epifenômeno, um episódio marginal às transformações cósmicas, ao nascimento e morte dos astros. Ela também é prisioneira das grandes e ininterruptas metamorfoses da matéria. Não há um desígnio superior no coração das coisas. Hoje, conscientes dos desacertos que nos humilham, que desencantam e ferem, sabemos que jamais repousaremos em uma confiança iinfinita e generosa, (...) que nunca mais haverá razão no decurso das coisas. Condenados ao mais cruel de todos os desamparos, todos somos órfãos indefesos. O velho Jeová prepara-se para morrer. (...) Não ouvis o badalar dos sinos? Ajoelhem-se! Eles carregam os sacramentos a um deus que agoniza, diz Heine. Na alma do universo não há propósitos inteligentes, finalísticos, teleológicos. L’excuse de Dieu, c‘est qu’il n’existe´ pas, exclamava Stendhal. Meus olhos se turvam; minh’alma hesitante, trêmula, oprimida e exausta, recua; minhas pernas, frágeis, vacilam, meus lábios se calam, meus pés se arrastam, minhas mãos se fecham, meu coração se aflige. É noite, eleva-se a voz das fontes. Minha alma também é uma fonte borbulhante.. (...) Sou luz, ah se fosse noite, como sorveria nos seios da luz! Eu, porém, vivo de minha própria luz, absorvo em mim mesmo as chamas que surgem. do meu espírito. (...) Entre dar e receber há um enorme abismo. (...) Para onde foram as lágrimas de meus olhos? (...) Há gelo em torno de mim, gelo que queima as minhas mãos! (...) É noite, por que hei de ser luz, luz e solidão? É noite; elevase mais a voz das fontes; minha alma é também uma fonte, uma fonte que se consome, que contempla e canta... Dos vários textos que esbocei como epílogo do meu Zarathustra, ao qual se segue, imediatamente, meu livro Além do bem e do mal, prelúdio a uma 

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filosofia do futuro, livro esse que contem a chave de mim mesmo, destaco alguns fragmentos daquele que considero dos mais expressivos: Um homem se mata, outro se torna louco. / Um divino orgulho de poeta alenta a alma de Zarathustra. Tudo deve ser colocado sob a luz. No momento em que Zarathustra anuncia, simultaneamente, o acima-do-homem e o eterno retorno, ele cede à piedade. / Todos o renegam. É necessário - dizem - destruir essa doutrina e assassinar Zaratustra. / No mundo não há uma só alma que me ame, murmura ele. Como poderei amar a vida? Zarathustra morre de tristeza ao descobrir o sofrimento que é a sua obra. / Por amor, causei a dor maior; agora me entrego à dor que causei. Partem todos; Zaratustra, ao ficar só, toca a serpente com a mão.. Que me aconselha a minha sabeodoria? A serpente morde-o, a águia dilacera a serpente, o leão precipita-se sobre a águia. No momento em que Zarathustra vê seus animais lutarem entre si, morre. / Quinto ato: os louvores. / A liga dos fieis que se sacrificam sobre o túmulode Zarahustra. Tinham fugido. Agora, herdeiros de sua alma, elevam-se à sua altura. / Cerimônia fúnebre; fomos nós que o matamos. / As celebrações. / O grande meio-dia. / Meio-dia e eternidade.

Se não podemos ser os santos do conhecimento, (....os que nele crêem ...) , sejamos os seus guerreiros, (...os que por ele lutam ...) (....) Trabalhamos sob diversas suposições: por exemplo, que o conhecimento seja possível. Figura 18: Nietzsche

Nietzsche



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Nótulas Diversas

““Minhaeducação,noessencial,éobra exclusivamenteminha””. Nietzsche

Figura 19: hospital psiquiátrico de Jena (Foto de Krell & Bates)

Acesso ao interior do hospital psiquiátrico de Jena, que visitei em 1993. Nele Nietzsche esteve internado por quase dois anos. Il paraît que Nietzsche fut pendant longtemps dans la section des

malades

privés

de

Binswanger,

anota

Podach. No dia 20 de janeiro de 1890, primeira visita de Peter Gast; em 23 de fevereiro, aquela de Overbeck.



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Figura 20: Prontuário clínico de Nietzsche no Hospital Psiquiátrico de Gena.



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A FIG. 20 trata-se do prontuário clínico de Nietzsche no Hospital Psiquiátrico de Jena. Registro Geral Nº 814. ano 1889. Nº 8. Por duas vezes, nesse documento, os psiquiatras registram o diagnóstico da doença do filósofo: Paralytische Seelenstörung , ou seja, Demência Paralítica. Deve-se observar que ambos são sinônimos. Vez por outra surgem, entretanto, na biografia nietzschiana, outros diagnósticos da patologia mental do filósofo, pretendendo retificar aquele de seus primeiros médicos. Mesmo em sua primeira internação frenocomial, em Basiléia, este foi o diagnóstico de seu psiquiatra, o Dr. Willy. Nada pode sobrepor-se ao juízo de alienistas que acompanharam, de perto, longamente, a evolução da psicose do filósofo pretendendo retificá-lo. Deve-se ressaltar que essa psicose, com sua rica e única semiologia, é inconfundível com qualquer outra patologia mental. São equivocados quase todos os diagnósticos relativos à doença mental de Nietzsche, à sua psicopatologia, embora tenha sido fácil, no início de sua psicose, identificar a natureza de sua moléstia mental, tributária de uma psicose orgânica, exógena, de uma Paralisia Geral Progressiva: Apoplexia ( Elisabetjh Förster-Nietzsche, 1900 ); Atrofia do cérebro e senilidade precoce ( Grosse, 1899 ); Depresão nervosa ( Paash,1934; Masu , 1939 ); Ciclotimia eventual e degenerescência

do cérebro de origem venéria ( Kolle, 1965;

Lackner, 1939 ); Epilepsia ( Bernoulli, 1922; Lamp,1985 ); Loucura hereditária, Manie, Nordau, 1892 ); Insuficiência dos lobos frontais da hipófise, Bermann, 1922 ); Doença cerebral de origem venéria ( Schowitzer, 1925; Erlen-Meyer Bevendorf: Otzhausen, 1927; Busk, 1933 ); Uso indevido de medicamentos , ( Elisabeth Förster-Nietzsche );

Melancolia evoluindo para a loucura

(

Schatach , 1901 ); Migrânia ( Mac Laurin , 1925) ; Paralisia devido à absorção de haschich ( Cohn, 1910 ); Paranoia ( Köselitz, 1905; Stekel, 1917 ); Bottome, 1949 ); Esquiozfrenia ( Lenz, 1931; Corma, 1982; Paralisia Geral Progressiva ( Alves Garcia, 1947 ).Em 1865, o Dr. Lange- Eichbaum registra referências médicas de um contágio venério, que teria ocorrido em Bonn , Colônia ou Leipzig, ocasião em que o filósofo teria contráido infecção luética. Alhures, formulou-se a hipótese de um tumor cerebral ( sic ) O diagnóstico

de sua enfermidade foi feito, acertadamente, já nos

primeiros dias de sua internação frenocomial, em Basiléia, sob os cuidados do Dr. Wille,

mentalista e, posteriormente, naquele de Jena. pelo Prof.



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BInswanger. O Prof. Wille escreveu, com seu próprio punho, o diagnóstico da doença do pensador, que observara, em seu Zarathustra; Não é a dúvida que faz a loucura, é a certeza. Mamãe, eu não matei Jesus; eu o encontrei morto no coração dos homens. Estas palavras foram escritas por Nietzsche, quando de sua internação frenocomial, em Jena. Elas e outras foram reunidas em um opúsculo, de 79 páginas, intitulado Mort parce que bête,que recolhe as reflexões do filósofo, por ele então anotadas. A expressão: estou morto porque embrutecido é dele próprio e mostra que ele ainda mantinha, à época, uma consciência parcial de sua enfermidade. Camus, um dos melhores leitores de Nietzsche, repetiria, posteriormente, essas mesmas reflexões em seu livro O homem revoltado. Ambos, Nietzsche e Camus, mostram, aos olhos do mundo, em seus livros, o cadáver de Deus, sua presença apenas retórica na alma da História. Ainda nessas anotações, Nietzsche escreve: A exatidão das teorias de Darwin não poderá ser cientificamente comprovada senão à luz do que advir de minhas idéias. Em seus cadernos de anotação, já psicótico, ele escreve: O homem prefere um plus de poder a um quantum de saber. Cento e oitenta anos antes de Nietzsche vir à luz, nascia Meslier, sacerdote apóstata, o mais radical e virulento dos ateus, precursor maior do autor de Assim falava Zarathustra, uma obra saturada de símbolos, de recordações e leitura. Nela, as palavras têm outras dimensões, despertam outras epifanias. Foi La Mettrie, em seu livro O homem máquina, como já se observou, quem mostrou Meslier ao mundo. Este diz, em suas Memórias: É um absurdo chamar Deus de justiça e bondade. Assim qualificar um ser que prodigaliza todos os males, indistintamente, aos maus e aos bons, é um fantástico desvario, bem como esperar que os infelizes se consolem nos braços daquele que os criou.



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Figura 21: manuscrito

Manuscrito do célebre aforismo 125, de seu livro O alegre saber, em cujo texto Nietzsche reconhece e proclama ”a morte de Deu”: Nunca ouviram falar daquele homem insensato que acendia uma lanterna em pleno dia e interrogava sem cessar:

Onde está Deus,

onde Ele está?

matamos! Todos nós somos seus assassinos!

( ... ) Nós o

(...) Que fizemos quando

rompemos a corrente que ligava a terra ao sol? (...) Não sentimos na face o sopro do vazio? (...) Não estaremos, doravante, caindo incessantemente?(...) 

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Nós o matamos, nós o matamos! Como nos consolaremos, nós, assassinos entre os assassinos? Deus morreu, Deus morreu! Nós o matamos! A grandeza desse ato é demasiada para nós! Não será necessário, por consequência, que, doravante, nos transformemos em Deus (...) Nunca houve um acontecimento maio,r e quem que nasça depois de nós pertencerá, em conseqüência desse ato, a uma história maior. Na aldeia de Sils-Maria, no alto dos Alpes suiços, o filósofo se refugiava em cada verão, procurando alívio a seu males, ao seu continuado sofrimento físico. Foi nessa região, junto a uma rocha de forma piramidal, que ele concebeu o eterno retorno igual de todas as coisas e sua obra prima, Assim falava Zarathustra. Evocando a figura-símbolo de Dionisos, ele então vislumbra, em um ritmo ternário, a grande e perpétua dança cósmica do formar-se, desfazerse e refazer-se de todas as coisas, em grandes e sucessivos ciclos cósmicos. Ler Nietzsche, sem nenhuma dúvida, é ler Darwin, ler e complementar, aflorar os derradeiros e mais distantes postulados do darwinismo, seus desdobramentos últimos. Suas eventuais críticas ao darwinismo devem ser lidas, certamente, como um resquício chauvinista. Alhures, ele se define como um anti-Darwin, e a Darwin, ironicamente, como o novo Messias. A luta é a minha grande farmacopéia, dizia ele, em uma afirmação darwiniana. Que é a vontade de poder senão um princípio darwinista? Em suas críticas, ele ressalta: Ohne Hegel, kein Darwin, sem Hegel não há Darwin. Em uma pequena e enigmática anotação, ele então registra o surgimento de Zarathustra em seus pensamentos: A 6.000 pés acima do nível do mar e a muitos mais de todas as coisas humanas.



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Figura 22: Anotação de sua papeleta médica, na Clinica Friedmatt, uma instituição frenocomial de Basiléia, onde o poeta-filósofo esteve internado por 7 dias, de 10 a 17 de janeiro de 1890. Em destaque, o diagnóstico e a data de sua hospitalização: 89/10/1.

Figura 23: Aufnahnahmsgesuch: termo de responsabilidade pelo paciente, assinado por Overbeck, que assim relata o estado mental de Nietzsche, ao encontrá-lo em Turim: Nietzsche já não estava em condições de dominar-se e falava de modo totalmente descomedido. (...) Sua loucura se manifestou entre o Natal de 1888 e a Epifania de 1889.



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Figura 24: A cama em que expirou o filósofo, filósofo do nihilismo, do nihismo, do devir e da dissonância, em 25 de agosto de 1900, no Nietzsche-Archiv, em Weimar. O poeta-pensador foi sepultado em Röckendorf, na aldeia em que nasceu, após três dias de comovente Trauerfeier, de suntuosas e comovedoras solenidades fúnebres.

Assim o Arquivo Nietzsche comunicou a morte do filósofo: Aujourd’hui, vers midi, s’est èteint mon frère chéri, Frédéric Nietzsche. Weimar, le 25 août 1900. Elisabeth Förster-Nietzsche. En l’honneur du grand défunt aura lieu lundi , 27 août, cinq heures de l’áprès midi, une fête fúnebre dans le cercle plus intime de seus admirateurs, à la maison mortuaire de Weimar. Weimar, Nietzsche-Archiv, 25 août 1900. Peter Gast, Arthur Seidl, Ernest Horneffer, Auguste Horneffer. L’inhumation aura llieu mardi, 28 août, à quatre heures de l’après-midi, dans la sépulture familial de Röcken, près Lützen.

Consoante palavras de Stefan Zweig, com Nietzsche surgiu, pela prmeira vez, no vasto oceano da filosofia alemã, o pavilhão negro do pirata. Kant vive com o conhecimento como quem vive com a própria esposa. Dorme com ele, durante quarenta anos, no mesmo leito espiritual, e com ele engendra toda uma geração alemã de sistemas filosóficos, cujos descendentes ainda vivem em nós, em nosso mundo burguês. Suas relações com a verdade são de ordem puramente monogâmica, assim como todos os seus filhos espirituais: Schellling, Fichte, Hegel e Schopenhauer. (...) A paixão de Nietzsche pelo 

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saber, ao contrário, vem de outro e diferente temperamento, de um lugar que está nas antípodas do que falei. Todos os conhecimentos o seduzem, nenhum o retem. (...) Atrás dele ficam as

Igrejas profanadas, as crenças

escarnecidas...

Figura 25: Nietzsche. Fotomontagem de Bárbara Esteves Ribeiro



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Figura 26: Nietzsche

Camus observa Nietzsche é o que ele reconhecia ser, a mais aguda consciência do niilismo. Ao contrario do que pensam muitos de seus críticos cristãos, ele não elaborou o projeto de matar Deus. Ele o encontrou morto na alma de seu tempo. Ele foi, outrossim, o primeiro a compreender a imensidade do acontecimento (...da morte de Deus...), e decidir que essa revolta não poderia conduzir a um renascimento acaso ela não fosse orientada. Alhures ele acrescenta: A revolta metafísica é o movimento pelo qual um homem se insurge contra a sua condição (...de existir ...) e contra a criação inteira. É metafísica por contestar os fins, tanto do homem quanto da criação. (...) O revoltado metafísico sente-se frustrado pela criação. (...) Ao mesmo tempo em que recusa sua condição mortal, não aceita o poder que o força a viver e sobreviver nessa condição. (...) Não pode haver, para o espírito humano, senão dois universos possíveis - o da graça e o da revolta.



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Figura 27: Casa de Nietzsche, em Naumburg.

Nela, o filósofo viveu sua infância e em diversas épocas posteriores. No alto, à direita, uma fotografia de sua mãe, Franziska Ernestine Rosaura Nietzsche. Ela morreu em abril de 1897, aos 71 anos de idade, dois meses e 18

dias,

em

decorrência

de

um

carcinoma

abdominal,

sempre

reconhecendo,denunciando e repudiando os sucessivos arbítrios editoriais de Elisabeth, sua filha, la soeur abusive, como a chamava Overbeck. Sabe-se, hoje - convem observar - que é apócrifo o livro My sister and I, editado na Inglaterra e posteriormente reconhecido, pela crítica literária, como grosseira contrafação. A mãe de Nietzsche

ficou tão estupefata com as fantasias e

deformações biográficas de Elisabeth, sobre seu irmão, que pensou em escrever sua própria vida de Nietzsche. Em 1878, com financiamento dos proventos universitários de seu filho, então professor de Filologia Clássica em Basiléia, a mãe de Nietzsche compra, dos herdeiros de Lugenstein, a casa em que morava, em Naumburg, à rua Weingarten, número 18. Essa casa seria vendida, posteriormente, em 1899, por Elisabeth, a irmã do filósofo, por 15.000 marcos. Nessa residência senhorial, de dois pavimentos e três sótãos, em estilo clássico, outrora de número 355, construída 21 anos antes, em 1835, a família do filósofo viveu 41 

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anos consecutivos, de 1856 a 1897, quando morre a mãe de Nietzsche, apenas 21 dias após o início de sua enfermidade neoplásica. À época de sua compra, nela moravam – além de seu proprietário Franziska, a mãe do filósofo, sua irmã Elisabeth, a doméstica Maria Puhle, que ocupava um dos sotãos da casa, que mais tarde iria suceder Alwine Freyrag, e 5 ou 6 inquilinos, entre eles as viúvas Schwedheim e Wederamann. A residência, nessa ocasião, fora adaptada para fünf kleinen Wohnung, para“cinco pequenos apartamentos”. Em 1901, ela foi adquirida pela Municipalidade, transformando-se em um dos muitos museus de Nietzsche, conhecido como Nietzsche-Haus, um centro específico de documentação do filósofo. Sua visita, hoje, custa 3 marcos. Nela residiram, sucessivamente, de 1856 a 1900, em 42 anos consecutivos, 65 moradores. No Erdgeschoss, no andar térreo, em fevereiro de 1894, na data natalícia de sua mãe, Elisabeth fundou o Nietzsche-Archiv, de conturbada história. Em setembro, ele seria transferido para um novo endereço, próximo da anterior, na Grochlitzerstrasse, número 7. Acima dele ficava o Promenadezimmer de Nietzsche, onde, quando a paralisia geral ainda não o impedia de se locomover, ele caminhava incessantemente, em uma permanente e incansável inquietação psicomotora, perdido em intermináveis solilóquios. Em seu Krankenzimmer, em seu quarto de enfermo, foi aberta, em1893,uma passagem para a varanda da casa, onde ele foi pintado por Stoeving, em um quadro célebre e censurado pela mãe do pensador. Em 13 de maio de 1890, ao deixar a Clínica psiquiátrica de Jena, a pedido de sua mãe congédié à revers, repetimos - o filósofo retorna a essa residência, de onde seria removido para Weimar, por sua irmã, em agosto de 1897, em sigiloso e complicadíssimo transporte ferroviário noturno.



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Figura 28: Localização do Museu em Naumburg

Nietzsche psicótico, com sua mãe, em Naumburg, onde está o museu do filósofo restrito à documentação. Está em curso, pela firma Mibrag, norteamericana, para extração de carvão, um grande projeto de mineração a céu aberto, nessa região, o que deverá profanar essa e outras importantes referências históricas dos alemães. Os ambientalistas, condenando-o, já iniciaram diversos movimentos de protesto e repúdio. Em 2025 esses trabalhos deverão estar concluídos. Nietzsche realça: O homem tem, em suas mãos, o poder capaz de idealizar a terra inteira, porventura seus mecanismos de sobrevivência não o impeçam de comportar-se adequadamente.



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Figura 29: Casa de Nietzsche, em Turim.

Casa de Nietzsche, em Turim, onde ele ocupava um quarto na residência de David Fino, que junto a ela possuía um quiosque. Na fotografia, é a ultima janela no andar superior, à esquerda. Irene, a primeira filha de David, era professora de piano e, por muitas vezes, a pedido dele, a pedido de Nietzsche, tocava músicas de Wagner com o filósofo, a quatro mãos. A imaginação desta cena, povoada de grandes epifanias subjetivas, transfigura o espírito de quem a suscita em grandes gestos e palavras de anuência: Não oremos mais, abençoemos, dizia o filósofo, em suas heresias.



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Figura 30: Escada de acesso ao quarto de Nietzsche, ao Nietzsche Zimmer, no Nietzsche-Archiv. Aqui, em permanentes desfigurações, a irmã do filósofo, personalidade psicopática, em constante deformações da obra e vida de seu irmão, criou o culto Nietzsche. A essa tradição opôs-se, com notável determinação, aquela de Basiléia, cujo expoente maior foi o seu fiel amigo, o Prof. Overbeck. (Foto Krell & Bates)



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Figura31: Estatueta de Krammer, mostrando Nietzsche paralítico. A Paralisia Geral Progressiva (P.G.P.) é determinado por um micro-organismo, o Treponema, que se manifesta, em regra, dez a quinze anos após o contágio sifilítico.



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Figura 32: Família e casa natal de Nietzsche, em Röckendorf, atualmente uma aldeia de 130 habitantes. O pensamento de Nietzsche deve ser considerado uma leitura das últimas conseqüências do darwinismo, de seus mais extremos e radicais postulados.

Figura 33: Galeria Subalpina, em Turim.



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Galeria Subalpina. Situada logo abaixo do quarto em que morava o filósofo, em Turim, e que, por ele, é enaltecida em seus bilhetes psicóticos. Nietzsche é um grande e surpreendente compositor. Ao se encontrar com Wagner, este, certa feita, ao ouvi-lo, disse-lhe: O Senhor, para um professor universitário, é um exímio pianista. Certa feita, recordando os dias áureos de sua amizade com o compositor, Nietzsche anota: Em nosso céu jamais cruzou uma nuvem.

Figura 34: Schullpforta

Schullpforta, a escola onde Nietzsche, bolsista, fez seu curso de humanidades, seus estudos pré-universitários. Célebre em toda a Europa, era o maior educandário da Alemanha, à época. Quando aluno, escreveu um surpreendente trabalho sobre Hölderlin, muito censurado por seus mestres, e doravante seu poeta predileto. Atualmente, todo aluno dessa escola fala, fluentemente, pelo menos, cinco idiomas.



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Figura 35: Hospital Psiquiátrico de Jena (Foto de Krell & Bates)

Hospital psiquiátrico de Jena, inaugurado 10 anos antes da internação do filósofo. Nele, Nietzsche esteve internado de 18 de janeiro de 1890 a 24 de março de 1990, sob os cuidados médicos do Prof. Binswanger, mentalista e então o maior especialista europeu sobre a Paralisia Geral Progressiva, a doença do filósofo. Sua diária hospitalar, em quarto de segunda classe, era de 2,5 Marcos. Nesta cidade, consoantes fortes indícios, o filósofo em precoce desencanto da vida, aos 14 anos, tentou suicídio jogando-se às águas, então turbulentas, do rio Saale, que a banha. Foi salvo por seu tio Emil Schenk, à época Bürgermeister dessa mesma cidade. Nesses dias, em um passeio por Jena, ele anota: Repentinamente, um grito lancinante feriu meus ouvidos. Vinha do manicômio. Vinte três anos depois, ele seria internado no hospital psiquiátrico desta cidade, totalmente alienado. Nesse mesmo ano, de 1859, aos 14 anos de idade, quando Darwin publica sua grande obra de total renovação objetiva da filosofia, por suas conseqüências, fundamentando-a com elementos concretos, experienciais, Nietzsche escreve a primeira de suas sucessivas autobiografias, nela descrevendo, em latim, essa renomada escola de humanidades: Porta coeli 

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locus appel (I)atus est, quem nunc habito. In regione, jucunda et montibus circumdata sita et variis rebus insignis, amata est primis annis a me. Sed tempora mutantur; quae cupiebam, vera facta sunt et in hac regione, quam aspectu tantu cognovi, per

sexennium moror. Schopenhauer, seu grande

Mestre, observa: Maior a inteligência, maior o sofrimento. (...) O conhecimento se desentende da vontade a medida que a inteligência se aperfeiçoa e se desenvolve.

Figura 36: Escada que dá acesso à casa em que morava Malwida von Meysenburg .

Malwida von Meysenburg era um dos principais líderes do movimento feminista em toda a Europa, militante e ardorosa, várias vezes envolvendo-se em confrontos com autoridades: Je suis une révolutionnaire intégral. Em sua casa ela reunia prestigiosos grupos de intelectuais, de livres-pensadores, de esprit-forts, a figura do Freidenker. Em 1876, consoante relato de Bernoulli, citado por Janz, Vita, II vol., pg. 128/9, Nietzsche recebia, nessa casa, na Villa Rubinacci, Via Pólvoriera, número 6, discretas visitas de uma ragazza italiana: “Uma jovem de Sorrento vinha, freqüentemente, visitar essa casa-de-campo. (...) Vinha por causa de Nietzsche. Mas, nele, o receio de escândalos e comentários, eram tão fortes que pediu ao amigo Rée, também hóspede de Malwida, que ocultasse, aos olhos dela, as visitas dessa ‘ragazza camponola’. Paul Rée fez esse favor a Nietzsche, uma vez que, aparentemente, isso não lhe acarretava nenhum problema, dando lhe até um certo prazer” . 

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Figura 37: Manuscrito de Nietzsche psicótico, em Jena.

Observar a desordem do texto, que caracteriza a fuga das idéias, sintoma psiquiátrico. Alucinação, em sua clássica definição, é uma percepção



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sem objeto. Em uma de suas numerosas visitas a Nietzsche, este diz a Resa Von Schirnhofer, sua amiga, em 1884: Quando fecho meus olhos, vejo uma superabundância de flores fantásticas que se enlrelaçam em incessante crescimento e exótica frondosidade. (...) Não tenho tranquilidade. (...) Você não acha que pode ser uma forma de loucura?

Figura 38: Fotografia célebre, mostrando Nietzsche com seu amigo Paul Rée e Lou Salomé



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Fotografia célebre, mostrando Nietzsche com seu amigo Paul Rée e Lou Salomé, la femme déréglé, que dizia, publicamente: Sou fiel às recordações; não o sou, entretanto, aos homens.

Psicanalista e sexopata, polígama

insaciável, ela seduziu, com seus encantos e

inteligência, o aparente

desassombro de suas idéias, a metade da Europa. Quando Lou surge, o sol se levanta, (... para saudá-la...), dizia-se em Viena. Privilegiada pela amizade de Freud, ela era uma personalidade psicopática de rica sintomatologia. O Mestre de Viena, ao invés de estudá-la, cedeu aos seus encantos e preferia com ela caminhar pelas ruas de Viena, de madrugada, indiferente a comentários, oferecer-lhe flores e generosos empréstimos, cuja devolução ele, entretanto, sempre relutava em aceitar. Discípula de Freud, ao mesmo tempo em que excelente tema para ele, Lou se entretinha com seus numerosos parceiros, anota André Schaeffner. Em 1893, talvez auxiliada por Paul Rée, e prevendo substanciais lucros editoriais, ela escreveu um livro sobre Nietzsche, elogiado por Montinari: A solidão e a dor são as duas figuras tutelares que velam o destino de Nietzsche e guiam, até o fim, a marcha de sua evolução. Para Nietzsche, que tinha bons conhecimentos de medicina, ela se enquadra, por seus constantes descomportamentos, no grupo psicopatológico conhecido como moral insanity - expressão utilizada pelo próprio filósofo. Consoante o psiquiatra Kraft-Ebbing, a loucura moral deve ser incluída entre as suspensões do desenvolvimento psíquico. A hipomastia de Lou, na observação de Nietzsche, testemunha seu desenvolvimento incompleto: O torax de Lou, na frente, é tão liso quanto as costas de minhas mãos. A convivência de ambos foi fugaz, de apenas sete meses, embora dramaticamente intensa. Em carta a Nietzsche, escreve a mãe de Lou: Con mi hija nunca se han usado reglas ni constricciones’ y, sin duda, rara vez una joven há podido actuar tanto por su própria voluntad; pero si con esta vida de total libertad hallará la veradera felicidad, solo podrá decirlo el futuro.



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Assim Lou descreve Nietzsche:

[...] Al contemplador fugaz no se le ofrecía ningún detalle llamativo. Aquel varón de estatura media; vestido de manera muy sencilla pero también muy cuidadosa, con sus rasgos sosegados y el castaño cabello peinado hacia atrás con sencillez, fácilmente podía pasar inadvertido. Las finas y extraordinariamente expresivas líneas de la boca quedaban recubiertas casi del todo por un gran bigote caído hacia delante; tenía una risa suave, un modo quedo de hablar y una cautelosa y pensativa forma de caminar, inclinando un poco los hombros hacia delante; era difícil imaginarse a aquella figura en medio de una multitud -tenía el sello del apartamiento, de la soledad. Incomparablemente bellas y noblemente formadas, de modo que atraían hacia si la vista sin querer, eran en Nietzsche las manos, de las que él mismo creía que delataban. Su espírito. Similar importancia concedía a sus oídos, muy pequeños y modelados con finura, de los que decía que eran los verdaderos 'oídos para cosas no oídas'. Un lenguaje auténticamente delator hablaban también sus ojos. Siendo medio ciegos, no tenían, sin mebargo, nada de ese estar acechando, de ese parpadeo, de esa no querida impertinencia que aparecen en muchos miopes; antes bien, parecían ser guardianes y conservadores de tesoros propios, de mudos secretos, que por ninguna mirada no invitada debían ser rozados. La deficiente visión daba a sus rasgos un tipo muy especial de encanto, debido a que, en lugar de reflejar impresiones cambiantes, externas, reproducían sólo aquello que cruzaba por su interior. Cuando se mostraba como era, en el hechizo de una conversación entre dos que lo excitase, entonces podía aparecer y desaparecer en sus ojos una conmovedora luminosidad: mas cuando su estado de ánimo era sombrio, entonces la soledad hablaba en ellos de manera tétrica, casi amenazadora, como si viniera de profundidades inquietantes[...]



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Figura 39: Nietzsche doente



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Figura 40: Nietzsche psicótico. Observar a atrofia das mãos e braços esquerdos.



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Figura 41: Nietzsche psicótico e sua irmã Elizabeth

A pequena mesa dessa fotografia ainda existe e encontra-se no Nietzsche-Archiv, Humboldstrasse 36, em Weimar. Nela eram colocados os medicamentos usados pelo filósofo; inclusive aqueles que aliviavam suas dores, devidas, sobretudo, às escaras de seu tornozelo. Para delas se proteger, Nietzsche era mudado de posição várias vezes ao dia. Em maio de 1912, o Arquivo transforma-se em uma fundação: Stifitung Nietsche-Archiv.



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Figura 42: Overbeck, o melhor e mais culto amigo de Nietzsche

Em seu desvelo pelo filósofo, alarmado com o teor de suas últimas cartas,

enfrentando toda sorte de dificuldades, Overbeck, embora

saúde já combalida

com a

por uma cardiopatia, foi buscá-lo em Turim, quando

irrompeu a psicose do pensador. Ele faleceu em 1905, cinco anos após a morte de Nietzsche, aos 68 anos de idade. Nos últimos meses de sua vida, foi constantemente vilipendiado pela irmã do filósofo, cujas deturpações da obra de seu irmão ele condenava com veemência. O Nietzsche que hoje conhecemos é fruto dessa impostura. Contrapondo-se ao Nietzsche-Archiv, de Weimar, os estudiosos de Basiléia criaram o Nietzsche-Gegen-Archiv. Ao assumir a cátedra sobre a história do cristianismo, em Basiléia, ele declarou, publicamente, seu ceticismo, dizendo que ele e sua mulher não pertenciam a qualquer Igreja, doutrina ou seita.



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Figura 43: Nietzsche-Haus em Sils-Maria, onde era inquilino de Durish. Seu quarto, para protejer seus olhos, ficava no segundo andar, com janela para os fundos sombrios da casa.

Figura 44l: Estrada de acesso à aldeia de Roecken.



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Figura 45: Nietzsche em Basiléia

Figura 46: Nietzsche-Archiv, em Weinar. Esta casa, em um gesto de grande sensibilidade, de excepcional amizade e devoção, foi adquirida por Meta von Salis, uma admiradora suiça de Nietzsche, para nela abrigar o filósofo, seus livros e sua entourage. Em seu pórtico deveriam ser gravadas, em recordação de um dos maiores poetas da História, as seguintes palavras de seu Zarathustra, o intercessor da vida: “Assemelha-te novamente à árvore que amas, à árvore dos grandes ramos; silenciosa e atenta, ela se deixa pender sobre o mar”. Ao acusar o recebimento dessa obra, Gast diz-lhe que ela deveria ter seu próprio e único privilégio canônico.



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Figura 47: Casa de Nietzsche

O novo catálogo da biblioteca de Nietzsche, elaborado por Giuliano Campioni, Paolo d’lorio, Maria Cristina Ferrari, Francesco Franderotta e Andréa Orsucci, registra 20.000 títulos. Seus marginalia, suas anotações à margem de suas leituras, equivalem a 16.000 páginas, razão porque delas foi feita uma edição eletrônica. Em 1993 visitamos esta preciosa biblioteca, quando tivemos a oportunidade de examinar uma obra de

Voltaire, entre outras. Cena

inusitada: um cético examinando a obra de outro incréu, na biblioteca de um terceiro e mais radical ateu.

No Nietzsche-Archiv tivemos a oportunidade,

excepcional, de examinar, sob a mais forte emoção, um dos cadernos de anotação do filósofo, hoje reunidos como Fragmentos Póstumos e constituindo cerca de 70% de sua produção literária. Alhures, ele se diz le chantre de la vie.



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Em seu livro intitulado Leitura de temas nietzschianos, o autor deste texto observa: A vinda do Messias, em temas familiares às exortações da época, às superstições que ora proliferavam como nunca, cumprindo profecia anteriores que, todavia, jamais se cumpriram, do Velho Testamento e de outras fontes, era então aguardada com intensa

e generalizada expectativa

escatológica. Como nenhuma fonte histórica não-cristã registra a existência pessoal de Cristo, revolucionário social, (...) reformador político, (...) utopista nato - como dele dizia Renan - devemos admitir que aos poucos, em sedimentações sucessivas, em sucessivas camadas históricas, que se acumulavam com o transcorrer do tempo, foi-se delineando, progressivamente, em trabalhos subterrâneos de representação coletiva, um tipo redentor, um tipo inspirado em vários modelos anteriores, desde o protótipo da tradição oriental até aquela da mística dos judeus, ,bem com um terceiro, mais verossímil, aquele de um frenopata, de um enfermo psicótico, cuja veemência delirante os próprios Evangelhos registram com abundância. Nessas estruturas vesânicas, nessas formações alucinatórias, sobressai-se, com particular relevo, a estrutura messiânica dos delírios paranóides, sua veemência querelante. O cristão e o anarquista – observa Nietzsche - têm a mesma origem.

Outros, são os

caminhos de Dionisos, os discursos, as exortações e as expectativas de Zarathustra. Poucos livros leio com tanta dificuldade como o Novo Testamento. diz Nietzsche, acrescentando: O álcool e o cristianismo são os dois grandes narcóticos da inteligência européia. Consoante Valadier, autor de uma das maiores teses sobre o filósofo, Jesus foi vítima do cristianismo.

Figura 48: Programa do concerto de Nietzsche



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Figura 49: Integrantes da orquestra que compôs o Concerto Internacional Nietzsche, realizado no auditório da PUC-Minas, em 2000.

O filósofo era um grande e original compositor.

Mas, devido às suas

grandes limitações visuais, teve que abandonar a música, precocemente, em sua juventude. O que dele possuímos é uma coletânea de fragmentos. Ao ouví-lo tocar o piano, Wagner lhe diz: Sie spielen zu gut für einen Pofessor! Há uma perplexidade na vida de Nietzsche. Ele se dizia cego como um morcego, não sendo capaz de reconhecer uma pessoa a dois metros de distância. Meus olhos me torturam, dia e noite, escreve a Peter Gast, em 1886. (...) Je souffre



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des yieux. Um ano antes, ele anota: Meus olhos vão de mal a pior. Ao ler ou escrever, usava dois óculos superpostos. No entanto, ao visitar o observatório de Arcetri, perto de Florença, ele diz em carta a Seydlitz: Em Florença surpreendi o astrônomo em seu observatório, que oferece uma belíssima vista da cidade, do vale e do rio. Entusiasmado, ele recordava, de memória, várias passagens de meu livro ‘Coisas humanas, tão somente humanas’. Em suas longas e diárias caminhadas pelas montanhas e vales de Sils-Maria, ele preferia caminhos ínvios e difíceis, jamais percorrendo trilhas já conhecidas.

Carta a Peter Gast, 21 de julho de 1881 Caro amigo: Muitas vezes eu me adverti de que meus livros, meus incessantes debates interiores com o Cristianismo, devem vos parecer estranhos, e até mesmo penosos. Ele, entretanto, é o melhor de uma vida ideal que conheci. Desde a infância, eu o explorei em todos os seus recantos e acredito que jamais, em meu coração, cometi, contra ele, alguma injúria ou indelicadeza. Além do mais, sou descendente de gerações inteiras de eclesiásticos cristãos perdoa-me essa limitação!

Observações de Nietzsche, em seu livro O anticristo:

A Igreja é a antítese do Evangelho..(...) Ainda é possível reconhecer o tipo psicológico do Galileu, embora sua desfiguração (...histórica...), a qual, por sua vez, é u’a mutilação e uma sobrecarga de caracteres estranhos. (...) O tipo de redentor que foi conservado é uma grande desfiguração. Ele foi enriquecido, de maneira retroativa, com caracteres que somente são compreensíveis como instrumentos ( de propaganda messiânica...) (...) Devemos lamentar que na proximidade desse ‘décadent’ não tenha vivido um Dostoiewsky; isto é,alguém capaz de sentir o comovedor atrativo de semelhante mistura de sublimidade, enfermidade e infantilismo. (...) Não sentir literalmente é, para este antirealista, a condição prévia



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para falar sem dificuldade. (...) A palavra cristianismo é um grosseiro malentendido. Nunca houve cristãos, em absoluto. Só houve um e este morreu na cruz. (...) O instinto sacerdotal dos judeus, mais uma vez, perpetrou o mesmo crime contra a história; simplesmente removeu o ontem e o anteontem do cristianismo, inventando uma história do cristianismo primitivo. Os Evangelhos não teem preço como testemunho da irrepremível corrupção existente dentro da primeira comunidade. (...) Compreendeu-se , realmente, a célebre história que está no começo da Bíblia - sobre a angústia infernal de Deus perante a ciência?

Figura 50: A casa em que nasceu o poeta-pensador



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A oração que Nietzsche, pensador atópico, semimístico - um místico sem Deus, como dele dizia Thibon - proferia em seus anos de credulidade, sob o mais intenso fervor e transfiguração: Vater Unser Vater unser im Himmel, geheiligt werde dein Name! Dein reich komme! Dein Wille geschehe, wie im Himmel, so auf Erden! Unser tägeliches Brot gib uns heute! Und vergib uns unsere Schuld, Wie auch wir vergeben unseren Schulddigern! Und führe uns nicht in Versuchung, Sondern erlöse uns von dem Bösen! Denn dein ist das Reich und die Kraft und die Herrlichkeit, In Ewigkeit. Amen Versão do século IX Fater unser, da im himile bist: dein Name vuerd geheiligt: dein Reich komme; dein Wille geschehe in erdo, also im himele. Unser tagoliche brot kib uns hiuto. Unde unsere schul belass uns, also auch wir belazend unsern schuldigen: und in chorunga mit leitest du unsich; nu belose unsich fon uble. Amen. 

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Figura 51: O filósofo demente

Nietzche tinha algum conhecimento do aramaico, língua predecessora do hebraico, idioma então falado na Judéia. Lições elementares de hebraico foram-lhe ministradas na Escola de Pforta, um renomado centro humanista da Alemanha centro-oriental, onde desenvolveu e consolidou sua imensa cultura clássica. Em suas horas mais silenciosas, de fervor e transfiguração, antes de sua apostasia, de suas dolorosas apostasias, ele devia murmurar, em aramaico, a exemplo de Jesus, a prece do Pai-Nosso, versão de Lucas, apud Prof. Abgar Tirado: Lahmana dimysteya habayna./Perdoa nossas dívidas. Kedi shebakna lehatyabayna./Como perdoamos aos devedores. Veal ta elinanna lenission. / E não nos leve a provações.

nossos



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Como compreender Nietzsche

Em nosso livro intitulado A psicose de Nietzsche. Vida, obra e patologia do filósofo, observamos, em rápidas considerações finais, que não há, em Nietzsche, uma só palavra vazia, isenta de conteúdo e desdobramentos implícitos, de confrontos em nível cósmico. Todos os seus pensamentos têm o sabor da eternidade e da exortação, o selo da persistência, da concisão e da epifania. Só ele apreendeu as derradeiras e maiores conseqüências da morte de Deus, toda a desconcertante insignificância do homem. Ao reconhecê-las, ao proclamá-las, com singular, veemente e crítica advertência, ele viveu profundas, simultâneas e paradoxais emoções de júbilo e pesar. De contentamento por perceber livres, doravante, todas as audácias da heterodoxia; de pesar, por saber que, de ora em diante, todos estamos condenados a uma permanente e dolorosa derrelicção. Sua obra, anti-nihilígena, um verdadeiro centauro do espírito - como ele dizia de seus próprios livros - alimenta todo o pensamento contemporâneo, realça Luc Ferry. Somente com ele, em suas hipérboles maiores, a filosofia reencontra seus grandes problemas, expurga-se de devaneios verbais. Consoante anota Schlechta, um de seus melhores estudiosos, pianista exímio, sempre disposto a tocar as preciosas partituras do poeta-pensador, a filosofia de Nietzsche é uma percepção das conseqüências da ciência, de seus postulados, ilações e princípios, dessa ciência que, como ressalta Toynbee, é o único empreendimento humano bem sucedido. O ideaL de Nietzsche repousa em sua antevisão de um transhominídeo que possa salvar a História. A importância de Schlechta na recuperação dos textos filosóficos de Nietzsche é assim reconhecida por Giradot, em sua obra “Nietzsche y la filologia clássica” : A edição das obras de Nietzsche por Schlechta, em 1955/56, provocou uma apaixonada e incessante polêmica. Schlechta, antigo colaborador do Arquivo Nietzsche, em Weimar, coeditor da inconclusa Edição Completa, histórica e crítica (HKG), publicou um texto depurado da obra póstuma, no volume III de 

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sua edição e tornou público o fato, não todavia inédito, de que muito do que havia sido considerado, tradicionalmente, aforismo nietzschiano na Vontade de poder, era, apenas,

uma coletânea de apontamentos (...do filósofo...),

falsificados por sua irmã Elisabeth (...) Ela manipulou, igualmente, além de cartas do irmão, numerosas outras Ninguém, mais do que Nietzsche, percebeu as últimas e mais signifcativas conseqüências

do

darwinismo,

aflorou

e

ressaltou

todos

os

seus

desdobramentos implícitos. Sua obra é um comentário maior de Darwin, um transdarwinismo, uma filosofia em confronto cósmico. Todos sabemos que no genoma humano, em seu patrimônio genético, atuam poderosos genes que outrora foram úteis à sobrevivência do homem paleolítico. Hoje, entretanto, essas forças instintivas são um permanente obstáculo ao triunfo de nossa expectativas. Eu não acredito que a idade do aço seja superior à idade da pedra, dizia Gandhi, ao contemplar a torre Eiffel, em Paris. Nietzsche nasceu filho de Darwin, observa Will Durant, acrescentando em sábias palavras: Nietzsche obrigou-nos a refletir sobre as implicações éticas do Darwinismo.

(...)

Inconscientemente,

Darwin

completara

a

obra

dos

enciclopedistas, que haviam removido a base teológica da moralidade moderna, porem, deixando-a intacta, inviolada. (...) Uns haustos de biologia tornaram-se necessários para remover esse remanescente de hipocrisia. Em seu estudo sobre o filósofo ele realça: Nunca um filosofo falou com tanto lirismo. Zarathustra é, (... dos livros de Nietzsche...), o mais resistente à crítica, o mais obscuro. Seu inexpugnável mérito e nível crítico. (...) seu ardente fluxo de palavra, são uma espécie de profusão germânica. Seu pensamento e seu estilo mostram-nos ser ele filho do romantismo. (...) Embora tenha sido um escarnecedor de teólogos e sacerdotes, nenhum pietista foi, como ele, tão hostil ao materialismo. Para ele, para Nietzsche, o Erziher , o educador, por suas inspirações maiores, é superior ao Lehrer, ao professor.

Em toda a

heterogeneidade de seus textos, no tumultuado itinerário de sua vida, em seus holocaustos, mortes, apostasias e renascimentos, Nietzsche jamais escreveu palavras supérfluas, desprovidas de grandeza. Nos caminhos da minha vida eu passei por centenas de almas, por centenas de berços e dolorosos nascimentos. Sua riqueza poética é quase única; a eufonia de seus textos



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escolhe vogais e consoantes que assegurem o ritmo de sua prosa, toda ela riquíssima em símbolos, anuências, evocações e lirismo. O que mais atormenta o pensador nihilista é a certeza de que não há valores novos que possam substituir os antigos e assegurar a transfiguração da existência. Como viver quando não mais se acredita em Deus e na razão, interroga Camus, para quem, em Nietzsche, o clínico precede o pensador. Mon malheur est tout

comprendre, ressalta o autor de”O mito de Sísifo”,

acrescentando: Les hommes pleurent parce que les chses ne sont pas ce que’elles devint être. Todos os grandes estudiosos de Nietzsche sabem que sua leitura está longe, muito longe de se exaurir; outrossim, que é impossível dizer uma última palavra sobre seus pensamentos, conseqüências e desenvolvimentos, sua filosofia em devir. O pensador nihilista não aceita a vida, insurge-se contra suas crueldades e desencantos, suas perplexidades de todos os dias. Em suas exclamações, na veemência de suas exclamações, em suas continuadas exortações transnihilistas, ele acusa a criação inteira, denunciando e condenando todo o cenário em que vive. No fundo de suas meditações, dorme o mais sombrio ceticismo. Quatro temas fundamentais das reflexões nietzschianas - neles sempre exaltando os régios e magníficos eremitas do espírito, os homens que se fazem a si mesmos, para quem a felicidade não está nas coisas, está na ausência das coisas, e a paz, a paz que procuramos, repousa no silencio e na resignação, na parcimônia da vontade - afloram nos anos que se estendem de 1885 a 1888: sua exortação à superação do homem, o nihilismo, a teoria do eterno retorno igual de todas as coisas, e o conceito de vontade de poder, todos decorrentes de um desenvolvimento lógico do ateísmo, da constatação da morte de Deus, (...) esse acontecimento cuja ocorrência já é do conhecimento de todos, como dizia Zarathustra - a mais dura e terrível percepção da realidade. Em seu poema Feuerzeichen,“Sinais de fogo”, ele canta e celebra suas emoções mais profundas e dolorosas, ressalta suas exortações, expectativas e imolações, aflora sua alma sensível, introspectiva, evocativa e lírica. Nesse texto, ele nos fala dos solitários navegantes do espírito, (...) dos homens que já possuem uma resposta.



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Consoante Janz, o maior biógrafo de Nietzsche, este deixou, atrás de si, uma obra que permanecerá para sempre, diante de nós, como um desafio. Pela pluralidade de seus aspectos, ela enseja muitas possibilidades de entendimento e explicação, dificilmente podendo ser abarcada, em sua totalidade, por um só estudioso. Nunca é demais recordar que os pensamentos de Nietzsche, poeta e pensador, o heresiarca maior, recuam a Heráclito, o mais remoto de seus predecessores, para quem a luta é o pai de todas as coisas. A filosofia, com o transcorrer do tempo - observa Nietzsche - tornou-se prisioneira da história, incapaz de alçar vôos próprios, de remover dogmas, valores, tradições e expectativas do passado, que nela se sedimentam como entulhos do pensamento. O homem

-

ressalta Nietzsche

-

já não tem

necessidade de justificar o mal. (...) Se antes ele tinha necessidade de um Deus, hoje o encanta a desordem cósmica, uma desordem sem Deus, um mundo no qual o terrível, o ambíguo e o sedutor pertencem à essência ( ...das coisas...). Biólogos, patologistas, poetas, historiadores e místicos - místicos sem Deus - são os leitores privilegiados de Nietzsche, que a si mesmo se denominava um teólogo às avessas. Em uma observação lapidar, ele ressalta que o homem nobre honra o poder. Camus indaga, nas palavras e reflexões de um de seus leitores, procurando resposta: Não se pode fazer nenhuma concessão

a um Deus que não

intervem no problema do mal. Camus não aceita que o assassinato de Abel não fosse impedido por Ele e que deixasse impune o assassino. Por que Deus permite tudo? Por quê permite que crianças tenham fome, que elas sofram e morram? O problema do mal, do sofrimento cotidiano, é uma questão central em todo o pensamento de Camus. O cristianismo é uma religião que aceita , paradoxalmente, o assassinato de um inocente, de Cristo. A revolta enaltece a vida; já não há Deus, o que se tem é a

vida dada gratuitamente, sem

explicação. A única transcendência, para Camus, é a luta contra o absurdo.



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Bibliografia Essencial

1. Nietzsche. Correspondência. Editora Trotta, Espanha. 2. Gianni Vatimo. Introdução a Nietzsche. Editorial Presença. 3. Nietzsche, Wagner e a filosofia do pessimismo. Jorge Zahar Editor. 4. Curt Paul Janz. Nietzsche. Biografia. Quatro volumes. Ed. Alianza. Espanha. 5. Oberbeck, Franz. Ricordi di Nietzsche. Editora Il Melangolo. 6. Verecchia, Anacleto. La catastrofe di Nietzsche a Torino. Ed. Enaudi. 7. Friedrich Nietzsche. Lettere da Torino. Adelphi Edizioni. 8. H. F. Peters. Nietzsche et sa soeur Elisabeth.Ed. Mercure de France. 9. Nietzsche-Register. Richard Oehler. Alfred Kröner Verlag. 10. Schlechta, Karl. Nietzsche Chronic. Carl Hanser Verlag. 11. Nietzsche devant ses contemporaines. Geneviève Bianquis. Ed. du Rocher. 12. Charles Andler. Nietzsche, Sa vie et sa pensée. Gallimard. Três volumes. 13. Nietzche e o cristianismo. Editora Vozes. 14. P. Valadier. Nietzsche et la critique du Christianisme. Editons du CERF. 15. Yves Ledure. Lectures ‘chrétiennes’ de Nietzsche. Èditions du CERF. 16. Eugen Biser. Nietzsche y la destruction de la conciencia cristiana. Ed. .Sigueme. 17. Nietzsche. Ainsi parlait Zarathoustra. Ed Bilingue. Aubier. 18. Nietzsche. Ecce homo. Faksimileausgabe des Druckmanuskripts.Dr. Ludwig Reichert Verlag. Wiesbaden. 19. Karl Löwith. De Hegel a Nietzsche. Ed. Sudamaricana. 20. Morel, Georges. Nietzsche. Introduction à une premiére lecture. Três volumes. Aubier 21. Nietzsche, Rée, Salomé. Correspondance. Presses Universitaires de France. 22. G. Turco Liveri. Nietzsche. Lessico dei concetti e dei nommi delle Opere nietzscheane. Armando Editore. 23. David Krell & Donald Bates. Nietzsche. The good European. University of Chicago Press. 24. Friedrich Nietzsche. Chronik in Bildern und Texte .DTV. 25. Curt Paul Janz. Der Nietzsche.Musikalische Nachlass. Bärenreitmer-Verlag. Basel.



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Apresentação do Autor 9 Psiquiatra, formado pela Faculdade de Medicina da UFMG, em 1949. Psiquiatra do Instituto Neuropsiquiátrico Raul

9

Soares - FHEMIG. Psiquiatra do Instituto de Previdência dos

9

Servidores do Estado (extinto IPASE). 9

Psiquiatra do Hospital Odilon Behrens.

9

Criador e responsável pelo Departamento de Psiquiatria Forense do mesmo Instituto Raul

Ataulfo Costa

Ribeiro 

Soares. Numerosos artigos sobre temas psiquiátricos,

9

publicados em revistas médicas. Fundador e primeiro Presidente da Sociedade

9

Mineira de Astronomia. Membro da Academia de Ciências de Minas

9

Gerais. Cadeira de física. Livros do autor, todos inéditos.

Mihi ipsi scripsi,

escrevi para mim mesmo: •

A psicose de Nietzsche. Vida, obra e patologia do filósofo, 389 p.

A psicose de Nietzsche. Vida, obra e patologia do filósofo. Texto complementar, 100 p.

Leitura de temas nietzschianos.

Caminhos introspectivos de Nietzsche.

À sombra de Nietzsche.

Assim falava Zarathustra. Introdução a uma versão livre do texto.



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Introspecções. Poesias e textos afins

Dissertações de um nihilista.

Psicopatologia Forense Vol. I e Vol. II, 776 p.

Cosmos. Breve leitura filosófica da astronomia.

Prefácios de seus livros



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A Psicose de Niestzsche