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2º SEMESTRE 2016 NÚMERO 1 ANO 1 REVISTA DA FACULDADE DE COMUNICAÇÃO SOCIAL

POR QUE NÃO FALAMOS SOBRE ISSO?

Os tabus que a sociedade não discute. Questões ligadas ao meio ambiente que passam despercebidas pelos holofotes da mídia. Chegou a hora de tocar na ferida.


CARTA AO LEITOR SUMÁRIO

MATHEUS FELIPE PROFESSOR DE JORNALISMO INVESTIGATIVO

Foi no início do século passado que se ouviu pela primeira vez a palavra tabu. Em 1913, Sigmund Freud, relacionou o tabu a tudo aquilo que é “sagrado”, “misterioso”, “perigoso” ou “proibido”. Em comum, esses fatos na época, não eram abordados ou tocados. Denotando que deveriam ficar distantes daquelas pessoas que não compartilhavam deles. O sociólogo canadense, Erving Goffman, vai mais além e mostra a perigosa evolução do tabu. O estigma. O termo foi criado pelos gregos e dizia respeito a sinais corporais ou marcas feitas com cortes ou fogo para sinalizar que os seus portadores traziam algo de extraordinário ou ruim sobre seu status social. Esse sinal significava que o restante da população deveria manter-se afastado daquele indivíduo marcado. A confecção de estigmas pelos antigos gregos representa, entretanto, um processo mais amplo de estigmatização psicológica, referindo-se à tendência da maioria de se distanciar e limitar os direitos daqueles pertencentes a grupos desacreditados. Sabendo da importância do tema e preocupados com a função social do jornalismo o tema da revista Dossiê nasceu de uma pergunta: Por que a gente não fala disso? Enclausurados dentro dos próprios pensamentos e hábitos negativos, tendemos a nos afastar da sociedade, como se fossemos os únicos a enfrentar problemas semelhantes. Nas masmorras da depressão, pessoas não procuram tratamentos e, caso procurassem na internet ou em outros gêneros midiáticos, não iriam achar debates aprofundados sobre o problema que destrói suas vidas. É segredo de Estado. Segredo que mata. Segredo que isola viciados. Depressivos. Suicidas em potencial que vivem pedindo um afago, mas não conseguem falar. Se expressar. Quem está a volta? Não sabe escutar. O Rio Grande do Sul lidera os registros de suicídios no Brasil. São quase 11 casos a cada 100 mil habitantes, duas vezes mais do que a média nacional.

UM PARAÍSO AMEAÇADO PELO LIXO VÍTIMAS DO VENENO ESCRAVOS DA BELEZA SUICÍDIO: A DOR QUE MATA SORTE OU AZAR? BARRIGA VAZIA, LIXO CHEIO FERIDAS DO PRECONCEITO

Durante muito tempo a sociedade não falou sobre meio ambiente. Concebeu um tabu perigoso. Destruímos a natureza, mas não falamos disso. Tratamos com desleixo um tema importante e vital. Já começamos a colher os frutos amargos desta escolha. Segundo relatório da ONU o Brasil é o país – de longe - que mais desmata no mundo. Os primeiros anos do século XXI foram os mais quentes da história. Os cientistas dizem que se a emissão de CO2 continuar nos níveis atuais, os danos serão irreversíveis. Chegou a hora de conversar. Sobre tabus, estigmas e outras séries de individualidades suprimidas pelo o habito de não abrirmos a discussão sobre assuntos polêmicos e importantes. Incriminados por Freud, já em 1913, e que até hoje assolam a sociedade.

A RELIGIÃO NA POLÍTICA O LIXO NOSSO DE CADA DIA DESRESPEITO À VIDA DOS ANIMAIS

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EXPEDIENTE O DOSSIÊ INVESTIGATIVO é um projeto da Faculdade de Comunicação Social (FACS) do Centro Universitário Ritter dos Reis – UniRitter/Laureate International Universities. A iniciativa surgiu da necessidade de criar um espaço de divulgação do material produzido na disciplina de Jornalismo Invetigativo. Professores envolvidos: Matheus Felipe e Rogério Grilho. Editores-chefes: Ariadne Kramer, Eduardo Castilhos, Eduardo Müller, Raríssa Grissutti e Vinicius Moura. Projeto Gráfico: Rogério Grilho (MT 7465). Diagramação: Alberi Neto e Rogério Grilho. Revisão gramatical: Manoela Guedes


MEIO AMBIENTE

UM PARAÍSO AMEAÇADO PELO LIXO DOCUMENTOS COMPRAVAM PEDIDO DE INSTALAÇÃO DE ATERRO SANITÁRIO PRÓXIMO À ÁREA DE PRESERVAÇÃO AMBIENTAL

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odos os dias toneladas de lixo são geradas nos grandes centros, nas cidades do interior e nas regiões metropolitanas. Dos bairros nobres aos mais humildes, somos todos iguais perante o lixo. Cada vez mais, vemos o mundo à nossa volta em um combate exaustivo e, por vezes, frustrado para diminuir a quantidade de resíduos que ocupa as casas, as lixeiras, os caminhões. Em um ciclo comum e rotineiro, as pessoas já não sabem mais o destino dos restos colocados nas lixeiras. Muitas desconhecem como fazer o descarte correto dos seus detritos. E o que é ainda pior, isso também foge do conhecimento de nossos governantes. Onde descartar o lixo? Com tanta tecnologia, tantos avanços, esta pergunta deveria ser mais simples, mas não é. Esconder o lixo já foi opção, mas sabe-se que os dejetos também geram cédulas - e não são poucas. O dinheiro que vem do lixo faz as receitas das cidades inflarem e tal 3

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fator desperta interesses que só agradam a quem vive no topo da cadeia dos detritos. É aí que o lixo vira moeda de troca. Assim, vemos empresas burlar, omitir e dissimular. Vemos administrações municipais e departamentos estaduais aderirem à política da “simplificação”. Nossa equipe de reportagem teve acesso exclusivo aos documentos que caracterizam mais um destes casos, comprovando a irregularidade proposta na implantação do novo aterro sanitário de Viamão. O empreendimento vai atender outras 38 cidades além do próprio município. O projeto foi elaborado por uma empresa do ramo, contudo, omitiu fatores importantes para pedir o licenciamento ambiental. Em 2015, foi protocolado, junto a FEPAM (Fundação Estadual de Proteção Ambiental), o Pedido de Licenciamento Ambiental nº 002269-0567/15-5, para a implantação do aterro sanitário na cidade de Viamão. O atual “lixão” do município vem se adequando às normas dos aterros, mas os 20 anos de vida útil dados a um empreendimento desses estão se exaurindo. Atualmente, os dejetos da população viamonense são levados para São Leopoldo, com um custo considerável para o município, e despejados no Aterro da empresa CRVR (Companhia Riograndense de Valorização de Resíduos). Tal alternativa é provisória. A instalação do novo aterro em Viamão está em andamento, isto

KEITY MARINHO

EDUARDO MÜLLER E RARISSA GRISSUTTI

é, o processo se encontra em análise, mas alguns pontos conflitantes fizeram com que os passos se estendessem ao longo do tempo. Com um projeto que irá ocupar cerca de 90 hectares, a empresa CRVR buscou três opções de área na cidade para montar o aterro. As três áreas se encontram no distrito de Águas Claras, interior do município. O projeto será consorciado e receberá dejetos de outras 38 cidades, cuja maioria é proveniente da região litorânea do Estado. A instalação próxima à RS-040 facilitaria a entrada dos caminhões, visto que a estrada leva à praia. A dificuldade vem dos diversos apontamentos técnicos feitos pelo Ministério Público, contrários à requerida instalação. Durante análise das mais de 200 páginas percebemos diversos pontos obscuros. No pedido protocolado junto à FEPAM, a empresa omite questões como a forma que será feito o abastecimento de água no empreendimento, informando que será por via pública – sendo que a situação não acontece na região, uma vez que o seu abastecimento de água é realizado a partir de poços artesianos. A empresa também contradiz a realidade ao afirmar que as três áreas pretendidas não estão próximas – em um raio de 10 km – de nenhuma zona de proteção ambiental. Na análise do MP, em especial a área de número 3, primeiro local requerido pela empresa, o ponto de maior conflito seria justa-


MEIO AMBIENTE

EDUARDO MÜLLER/REPRODUÇÃO

berço dentro de uma zona de proteção ambiental ainda maior, a APA do Banhado Grande (Área de Proteção Ambiental do Banhado Grande). Situada em uma extensão de terra que vai de Viamão a Santo Antônio da Patrulha, essa área pode suportar diversas intervenções, já que grande parte é tomada pelos próprios centros das cidades. Ainda assim, o caso do Refúgio é específico. Mesmo estando dentro da APA, a região é de proteção permanente, não suportando intervenções. Conforme conta o biólogo, a omissão no documento inicial para pedido de licenciamento solicitado à FEPAM já é de costume, como foi o caso da solicitação da empresa CRVR no pedido para o aterro de Viamão. Quanto ao Formulário para Licenciamento de Atividades de Resíduos Sólidos Urbanos, o gestor diz: “É uma apresentação do empreendimento. Geralmente isso aí vem tudo assim (mal preenchido), já deveria vir com tudo. A gente vê estudos mal feitos, coisas absurdas”. O Refúgio Banhado dos Pachecos não leva esse nome à toa. Afinal, a maior parte da extensão territorial de 2.583 hectares é tomada pela água do Banhado de Turfeira, que além de preservar uma vegetação singular, abastece as lavouras de arroz do assentamento. Por lá também se vê verdadeiras raridades em meio à profusão da vida urbana. Único local ao sul do país onde existe o Cervo do Pantanal - espécie ameaçada que vive sobre a proteção dos limites e arredores do Refúgio. Além deste animal, outras espécies também circulam

DOCUMENTO DA CRVR PROTOCOLADO NA FEPAM DESCONHECE ÁREA DE PRESEVERÇÃO PRÓXIMO AO ATERRO

SERÁ QUE O LIXO VALE A VIDA?

A cidade costuma ter um tráfego intenso na temporada de verão, já que a rodovia que corta o município leva ao litoral gaúcho. Neste caminho, existe uma presença desconhecida de inúmeros moradores e “passantes”. O Refúgio de Vida Silvestre Banhado dos Pachecos fica na região de Águas Claras, a alguns minutos da RS-040. Considerada uma área de conservação permanente, a extensão de terra guarda vidas valiosas e histórias que só existem por lá. O acesso ao local se dá por uma estrada de chão que circunda locais fora do cotidiano da cidade, passando por muitos campos e até por pontes improvisadas. Vez ou outra se avista, ao longe, um “vizinho” do Refúgio - que é rodeado pelo Assentamento “Filhos de Sepé”. O gestor da Unidade de Conservação, o biólogo André Osório, apresenta a sua “segunda casa”, como ele mesmo denomina, com muito zelo. Quando questionado sobre o mais novo vizinho, conta: “Os primeiros que me falaram foram da própria comunidade de Águas Claras”. O biólogo, que assumiu a administração do refúgio em 2009, ressalta a importância da fauna e da flora encontradas ali, além de explicar o quanto é importante olhar para a área de preservação como um todo e não como uma ilha. Quanto aos riscos, afirma: “É um

empreendimento que vai confrontar com o objetivo da Unidade de Conservação, que é a proteção dos banhados, da fauna e da flora, associada também às nascentes que estão aqui dentro”. Procurado pelo Ministério Público a partir do conhecimento do pedido de licenciamento, André revela que a conduta da promotora do município, Anelise Grehs Stifelman, fez diferença para “trancar” o processo e fornecer a oportunidade de melhor avaliar a situação de um aterro nas proximidades. “No nosso parecer a gente indeferiu, determinando que se escolhesse outra área, de preferência fora da APA do Banhado Grande e que já tivesse algum grau de alteração em função do empreendimento que vai ser implantado, que é altamente impactante”, conta o gestor. Além de um local de proteção e preservação, o Refúgio torna-se um

EDUARDO MÜLLER

mente a proximidade: apenas 3 km de distância de uma área de preservação ambiental, qual seja, “O Refúgio de Vida Silvestre Banhado dos Pachecos”. Outro fator omitido pela empresa, como comprova o documento acima.

BANHADO DOS PACHECOS É REFÚGIO DE VIDA SILVESTRE. MENOS DE 4 KM SEPARAM ÁREA DO POSSÍVEL ATERRO

DOSSIÊ INVESTIGATIVO

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MEIO AMBIENTE

pela área da Unidade, como é o caso de quatro novas espécies de peixes que recentemente foram apresentadas à ciência, descobertas nas águas do banhado. Com a implantação de um empreendimento tão impactante próximo à região, a reflexão quanto aos animais raros encontrados ali pesa. “O cervo do Pantanal que é a espécie chave, maior alvo de conservação, pode ter um problema na sua população que já está super reduzida”, afirma o biólogo.

“EU ACHO QUE ELES VÃO FAZER ALGUMA COISA”

a área poderia ser abalada, deixando de servir como barreira para tornar-se mais um dos afetados. Quanto à possibilidade dos assentados aceitarem intervenções na região, Teresinha conta que a organização do Assentamento é ativa na proteção dos interesses dos moradores e que normalmente age e se organiza quando informada sobre tentativas que os prejudicariam. A respeito disto, reflete: “O pessoal faz abaixo assinado. A não ser que fiquem sabendo já com tudo pronto”.

O Assentamento Filhos de Sepé é vizinho ao Refúgio. Atualmente, a natureza e o homem vivem em harmonia e usam o Banhado de Turfeira para subsidiar vidas - o Refúgio, por ter suas características de fauna e de flora atenuadas pela concentração da água; o assentamento, por ter famílias alimentadas através da lavoura de arroz existente nas águas do banhado. Assim, o aparecimento de um novo vizinho colocaria em risco as vidas silvestres, acarretando em danos também ao banhado, que tem uma importância fundamental na vida dos assentados. A instalação do aterro sanitário nas proximidades faria dos animais e dos moradores dois grupos atingidos por um empreendimento incompatível com a região. Quando questionados sobre o aterro, os assentados ficam surpresos, como é o caso da comerciante Teresinha Lucia Cardoso, que ao ouvir a pergunta sobre o novo vizinho replica um olhar de espanto ao marido, Paulo Cardoso, e logo afirma: “Eu acho que eles vão fazer alguma coisa”, referindo-se à administração do Refúgio e também à coordenação do Assentamento. Os moradores garantem que o assunto é novo, mas a confiança nos responsáveis é grande. Para serem assentados, os ocupantes se comprometem a diversos fatores voltados à preservação do local e assumem compromissos em manter a área de proteção sem causar dano algum. Segundo o gestor da área de conservação, o próprio assentamento acaba tornando-se uma barreira protetora ao Refúgio, já que os moradores dali vivem sobre regras que protegem o local. Entretanto, com o empreendimento de alto impacto ambiental nas proximidades, a convivência dos assentados com

A investigação do MP une diversos fatores quanto ao pedido de instalação do aterro na região. Segundo a Promotora do Município de Viamão, Anelise Stifelman, o empreendimento se caracteriza por ser de grande impacto ambiental, não sendo apropriada a sua instalação na região, uma vez que, ao estar dentro da APA do Banhado Grande e no raio de 10 km do Refúgio de Vida Silvestre Banhado dos Pachecos, os gestores responsáveis pelas áreas já deferiram parecer contrários. “Estão sendo estabelecidas tratativas no sentido de que esse empreendimento de alto impacto - já que consistiria no recebimento de resíduos sólidos de dezenas de municípios -, não se instale nessas áreas que foram apontadas pelo estudo da empresa, por serem de extrema fragilidade ambiental e de grande importância ecológica”, afirma a promotora. O pedido ainda tramita nas divisões responsáveis dentro dos órgãos gestores do estado, no entanto, também consta uma possibilidade para que se encontre outro local para sua instalação. A empresa CRVR tem empreendimentos tomados como exemplares, que é o caso do Aterro Sanitário de Resíduos Sólidos de Minas do Leão, instalado em um local já degradado - o contrário do que foi proposto para o aterro de Viamão. Junto ao parecer negativo dos gestores das áreas de preservação da APA do Banhado Grande e do Refúgio de Vida Silvestre foi encaminhado o apontamento de um local fora dos limites das áreas de preservação, e que já sofreu alterações, como uma opção ideal para a instalação do empreendimento. A partir disto, sabe-se que a implantação nas áreas próximas ao Refúgio não

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INVESTIGAÇÃO E RESULTADO

será mais pretendida, como afirma a promotora: “Quanto às três áreas que foram propostas pela empresa para instalação deste aterro sanitário no município de Viamão, não, juridicamente não é possível à instalação do empreendimento”. Através de uma nota o diretor de Desenvolvimento de Negócios da empresa CRVR, Leomyr de Castro Girondi, afirmou ter conhecimento de que o aterro fica dentro da área de proteção ambiental, porém garante que não há nenhuma restrição legal para a construção. “A área selecionada foi a mais adequada baseada em critérios eliminatórios e classificatórios, tendo atendido a todos os requisitos legais e passado pela análise da FEPAM”. O diretor também reconheceu erros na elaboração do pedido de licenciamento ambiental. “Houve um erro formal de preenchimento do formulário de pedido de licenciamento que é o primeiro documento de entrada e que precede os demais”. Questionado sobre a possibilidade de alterar o local de implementação do aterro, o diretor responde: “os aterros sanitários são obras de engenharia de alta complexidade realizados para minimizar todos os impactos na natureza. Todo empreendimento, seja de qual setor for gera impactos que devem ser mapeados e mitigados. Os projetos de engenharia dão a solução para estas questões”. Quanto a reclamação dos moradores por não terem sido consultados sobre a elaboração do projeto, Girondi afirma que a convivência da empresa com as comunidades vizinhas de todos os empreendimentos implantados é de geração de valor, emprego e renda. “O Estudo de Impacto Ambiental mapeia os moradores da ADA (área diretamente afetada) e da AID (área de influência direta), levantando os pontos positivos e negativos do empreendimento.” Dessa forma, ainda não se sabe onde será instalado o novo aterro. Muitas pessoas não sabem nem que a cidade pode ter um aterro sanitário. Mas, ainda assim, a proteção ao meio ambiente segue sendo o principal objetivo. Moradores, órgãos públicos e setores de defesa ao meio ambiente estão unidos para impedir que a natureza seja atingida. Um exemplo a ser seguido. Uma luta que ainda não chegou ao fim, mas está quase perto de acabar.


AGROTÓXICO SIDD RODRIGUES E JEAN COSTA

SIDD RODRIGUES

DOSSIÊ INVESTIGATIVO

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AGROTÓXICO

VÍTIMAS DO VENENO PERIGOS E DECEPÇÕES COLHIDOS NAS LAVOURAS DE FUMO

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sol de novembro esquenta os dias nos campos, deixando o ar abafado e pesado. A pouca brisa que sopra traz pelas lavouras o barulho das largas folhas verdes do tabaco que balançam, esperando a colheita. Nas noites, são as fornalhas que mantém as famílias despertas, fazendo secar a planta amontoada nos galpões. É em meio a este cenário que gerações nascem, crescem e morrem, na região fumageira do Rio Grande do Sul, plantando e colhendo toneladas de tabaco ano a ano. “Dentro da estufa é como se a gente estivesse dentro de um cigarro, né”, explica o agricultor Julio Selbach, que plantou tabaco entre 2003 e 2006 em sua propriedade no município de General Câmara, e acumulou uma dívida de aproximadamente R$ 100 mil no período. Até hoje ele questiona valores na justiça. Segundo Selbach, o plantio de fumo é “uma verdadeira escravidão moderna”, devido ao grande esforço exigido dos produtores, aliado com a política de compra da produção praticada por algumas empresas, que é questionada por diversas famílias de fumicultores em muitos casos, até nos tribunais. O cultivo do fumo - um dos maiores produtos de exportação do Rio Grande do Sul - exige dos agricultores uma vida voltada para a planta, em meio a dívidas, riscos e uma nuvem de agrotóxicos. O tabaco, planta que se originou nas Américas e se espalhou pela Europa no século XVI, é ainda hoje uma das principais drogas recreativas do mundo, junto do álcool. Matéria-prima de uma infinidade de produtos, é também conhecido pelo vício que induz em seus usuários, podendo provocar doenças diversas. Na forma de cigarros, que é o seu meio de uso mais popular, possui mais de 4,5 mil substâncias tóxicas, as quais se acumulam nos alvéolos pulmonares e causam doenças que vão desde a impotência sexual até o câncer. O Brasil já desponta há vários anos como o principal exportador da planta 7

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no mundo, tendo vendido, apenas em 2014, US$ 2,5 bilhões para o exterior. Segundo a Associação dos Fumicultores do Brasil (AFUBRA), 98% da produção nacional é gaúcha. O mercado, que emprega c, é fortemente criticado por ser extremamente desgastante para o solo, para os consumidores e para os agricultores, que entregam suas vidas em troca de promessas de safras rentáveis.

A SEMENTE DA DISCÓRDIA

O modelo de cultivo do fumo é mais vantajoso para o pequeno produtor, que tem poucos hectares de terra disponível para a lida. Com isso, o preço do fumo acaba se tornando muito mais interessante em relação a outras culturas, como as frutas e os grãos. Contratados pelas indústrias fumageiras, os produtores rurais se comprometem a vender sua única safra anual para as empresas, que avaliam por meio de seus consultores a qualidade da colheita. É na hora da entrega da produção que muitas divergências começam. Com o preço sendo indicado pela indústria compradora, os que não aceitam o valor da avaliação precisam custear o transporte das toneladas produzidas de volta para sua propriedade, além de arcar com a multa por quebra de contrato, o que faz com que os fumicultores optem muitas vezes por simplesmente vender sua produção pelo preço indicado na avaliação, mesmo que acredite que ela possua valor superior. As dívidas são problemas constantes entre os fumicultores, que muito rapidamente podem se ver embaixo de uma avalanche de financiamentos contraídos para investir na produção, na qual sementes e adubos são providos pelas indústrias, e seu pagamento atrelado à safra. Além de insumos básicos, agricultores afirmam sofrer pressão para construção de galpões e estufas, que aumentariam suas dívidas. O advogado Mateus Ferrari acabou entrando no jogo pelo lado dos agricultores: mais de cem casos já foram

defendidos para revisão de dívidas. Ele frequenta todas as comarcas das regiões produtoras de fumo do RS, onde os agricultores travam difíceis batalhas. A maioria delas é perdida em primeira instância, e a defesa se desdobra para tentar evitar que as propriedades sejam tomadas como ressarcimento, buscando acordos que os fumicultores possam pagar ou tentando ao menos reverter à penhora das terras. Ferrari explica que a cadeia de endividamento é complexa e que em algumas indústrias de beneficiamento é difícil produzir sem contrair dívidas abusivas. O advogado relata que “funcionários das empresas vão até as propriedades levando contratos para a safra e instrumentos particulares de confissão de dívidas supostamente pendentes dos anos anteriores. Os agricultores são informados que caso não assinem os documentos serão inscritos em cadastros de devedores, cobrados na justiça, perderão seus poucos bens, o que faz muitos assinarem os documentos mesmo sem concordar”. “Se as empresas não adotam práticas indevidas para atingir seus fins, por que tantos agricultores estão endividados com elas?”, conclui Ferrari, expressando preocupação com a política do endividamento. As medidas relatadas pelo defensor dariam legalidade às supostas cobranças irregulares, prendendo o agricultor na produção fumageira e impedindo que as famílias deixem de produzir, aumentando assim o lucro das beneficiadoras e garantindo mercadoria para exportação, em detrimento da pressão psicológica exercida contra os colonos. Julio Selbach, agricultor já citado pela reportagem, afirma também que seguros são feitos em nome dos camponeses, para cobrir possíveis prejuízos para as fumageiras.

CAPITAL NACIONAL DO SUICÍDIO

Na região do “Cinturão do Fumo”, um dado vem chamando a atenção do


RYAN DEEDS/DIVULGAÇÃO

AGROTÓXICO

O BRASIL DESPONTA COMO EXPORTADOR DE FUMO, E 98% DA PRODUÇÃO NACIONAL É GAÚCHA

mundo há mais de vinte anos: a taxa de suicídios é mais que o dobro da média brasileira. Segundo dados do Ministério da Saúde, o município de Venâncio Aires, maior produtor de tabaco do Estado, registrou 25,5 mortes autoinfligidas para cada 100 mil habitantes em 2012. A média brasileira no ano foi de 5,5 óbitos por 100 mil habitantes. Diversos estudos já foram realizados sobre o tema, e apontam uma série de fatores para o elevado número de casos de depressão e suicídios. Um dos mais conhecidos é o uso intensivo de agrotóxicos, aplicado diversas vezes em todas as fases do plantio até a colheita, que geralmente ocorre de dezembro a março. Para o cultivo do tabaco, segundo levantamento de 2011, era permitida a venda de 65 agroquímicos, entre fungicidas, herbicidas e inseticidas. Segundo cita o médico e professor João Werner Falk em estudo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), até a década de 1990 eram utilizados mais de 60kg de agroquímicos por hectare plantado. Em 1995, o volume chegou aos 100kg por hectare,

devido à forte seca que atingiu a região. No mesmo ano, foi registrado 3,722 suicídios por cada cem mil habitantes. Nas lavouras de fumo são usados cerca de sete tipos de defensivos agrícolas, com classificações que vão de “Perigoso” até “Altamente perigoso”, os quais podem causar danos ao meio ambiente, como contaminação da água, do solo, dps animais e até da população. Alguns deles são, inclusive, proibidos de serem usados durante dias de vento ou próximo de áreas residenciais. Pesquisas de diversas entidades do Brasil e do exterior veem evidências de que os compostos organofosforados, largamente utilizados nas lavouras, causam intoxicação que causa danos ainda desconhecidos ao organismo, principalmente quando se leva em conta a exposição prolongada. O composto é absorvido rapidamente quando em contato com o corpo e pode se concentrar no sistema nervoso central, o que pode ser uma evidência da participação dos defensivos agrícolas no agravamento de crises de depressão. O uso de equipamento de proteção

individual é obrigatório e os acessórios distribuídos aos lavradores pelas empresas compradoras também. Muitos dos trabalhadores que atuam na colheita acaba não utilizando a proteção, potencializando riscos ao qual se expõem. Em 1996, quando o assunto começou a incentivar projetos na área acadêmica, a Universidade Federal de Pelotas (UFPEL) concluiu que 36,5% dos agricultores sofriam de doenças relacionadas à depressão. O estudo também descobriu que pessoas que já tiveram intoxicações agudas por agrotóxicos teriam três vezes mais risco de desenvolverem transtornos psiquiátricos. Uma pesquisa realizada pela Unicamp também atribui aos organofosforados o desenvolvimento de alguns tipos de tumores. Segundo o documento, o contato com os agentes químicos cria alterações no sistema imunossupressor, tornando os intoxicados mais suscetíveis a infecções, doenças autoimunes e câncer. Entretanto, o coordenador do Comitê de Prevenção do Suicídio da Associação de Psiquiatria do Rio Grande do DOSSIÊ INVESTIGATIVO

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IKHLASUL AMAL/DIVULGAÇÃO

AGROTÓXICO

NO RIO GRANDE DO SUL, 75 MIL FAMÍLIAS DE PRODUTORES VIVEM DO CULTIVO DA PLANTA

Sul, Dr. Rafael Moreno, é categórico ao afirmar que os casos de depressão não podem ser atribuídos apenas ao uso de agrotóxicos. “Metade do risco de suicídio é genético. É bastante! Os estudos de genética indicam isso, principalmente com os genes relacionados ao metabolismo da serotonina. Então, por mais que a gente faça de tudo pela pessoa, metade do risco é algo que não iremos conseguir mudar”, cita, como exemplo, o psiquiatra - que defende a análise de diversos fatores para explorar os casos de depressão e de doenças mentais na Região dos Vales. Moreno relata que boa parte dos pacientes com depressão na região não buscam tratamento, o que dificulta a identificação e prevenção do suicídio, principalmente pela falta de conscientização da população. “Nossa região aqui a gente vê que procura pouco por atendimento médico. A gente mais fica sabendo dos casos de suicídios e suas tentativas quando acontecem. É uma população muito vulnerável, que não conseguimos ajudar”, afirma. Conforme relatam moradores da 9

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região, o índice de alcoolismo, tabagismo e doenças relacionadas ao estresse são grandes e vistas como uma forma de aliviar o impacto da depressão na vida do paciente, acabando por diminuir a qualidade de vida drasticamente. Baseado nestes problemas, o médico coordena um projeto do Conselho de Psiquiatria para levar o apoio até os agricultores, simplificando e humanizando o atendimento aos casos de depressão, em quem muitas vezes não conhece os riscos da doença.

ENTRE O LUCRO E A SAÚDE

Sustento de milhões de famílias Brasil afora, a fumicultura é uma faca de dois gumes enterrada no coração da economia do Rio Grande do Sul. Por um lado, é ela que põe o alimento na mesa dos camponeses, produzindo uma das mais rentáveis commodities do mercado, que chega a ser comercializada a R$ 9,96/Kg - preço muito superior à soja, vendida em média a R$ 1,50/kg. Entretanto, os riscos sociais e am-

bientais presentes na atividade mostram que nem tudo são flores em meio às folhas verdes. A qualidade de vida de agricultores desta variedade é, em grande parte, baixa. Sob o sol, expostos aos agrotóxicos - quase sempre sem a proteção adequada -, trabalhando com uma planta que apenas em contato com a pele já causa mal-estar, ficam sucestíveis a chamada Doença da Folha Verde. Em condições inadequadas de trabalho, os anos cobram seu preço de forma muito mais implacável na fisionomia dos trabalhadores, que desde a infância se debruçam na colheita e no preparo das folhas. O dinheiro vem só uma vez por ano para as pequenas propriedades rurais, e entre as dívidas e financiamentos, resta às famílias administrar o que muitas vezes é insuficiente. Enquanto o arado revolve a terra, preparando a safra dos próximos anos, os fumicultores se preparam para uma nova safra de incertezas. Seja o granizo que cai ou o medo das dívidas, o ano é de batalhas nas trincheiras da agricultura na Região dos Vales.


ALBERI NETO

SAÚDE

ESCRAVOS DA BELEZA BUSCA POR UM CORPO PERFEITO PODE DEIXAR MARCAS IRREVERSÍVEIS NA PELE E NA MENTE DE QUEM SONHA COM UM PADRÃO IMPOSTO PELA SOCIEDADE ALBERI NETO, MARIANNA TONDOLO E VICTÓRIA ALFAMA

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er uma identidade própria, aceitar o corpo do jeito que ele é e tentar ainda sim ser saudável. Pode parecer algo simples, mas a aceitação da identidade é algo que geralmente está em pauta na vida de todos. A pressão que a sociedade estabelece por meio da imposição de padrões prejudica pessoas que veem nessa pressão a necessidade de correr atrás de aceitação, desprezando as condições naturais do corpo humano. Os chamados “escravos da beleza” se submetem a procedimentos cirúrgicos para alterações estéticas, caem em dietas rigorosas ou entram no mundo das academias, onde alguns passam horas incansáveis fazendo músculos crescerem sem limites. Muitos conseguem superar essa situação e passar a se aceitar como são, mas antes disso, passam por experiências que ficarão marcadas na pele, e não de um jeito bonito.

SONHO DE DEBUTANTE

Entre os procedimentos mais procuradas para alterar a fisionomia corporal, estão as cirurgias plásticas. Essa intervenção é mais comum do que se imagina. No Brasil, por exemplo, o nú-

mero de cirurgias plásticas feitas anualmente passa de 1 milhão. O país foi líder mundial no número de cirurgias até 2014, quando foram realizados 1,34 milhão de procedimentos desse tipo. As mulheres representam 88% desta população. Um dos procedimentos mais procurados por elas é a mamoplastia de aumento, ou colocação de próteses mamárias. Em 2013, quando foram realizadas 1.491.721 intervenções no país, o aumento de mamas liderou o ranking das mais procuradas. Porque as mulheres se submetem tanto e esse procedimento e o que passam durante o período de decisão, execução e recuperação da cirurgia? Foi em busca dessa resposta que a reportagem da Dossiê acompanhou durante dois a meses a estudante de farmácia Liandra Matos, 18, que decidiu colocar próteses mamárias de silicone. No ano passado, logo que completou a maioridade, Liandra seguiu os conselhos de seu pai, Fabrício Galio, 44, e comprou seu primeiro carro com o dinheiro que vinha juntando. Um fusca, de cor vermelha, ano 1982. Ter um fusca era um dos sonhos de adolescência. Mas ela também tinha outro sonho. Desde os 15 anos, era descontente com o tamanho dos seus seios, que julga serem “pequenos e desproporcionais ao seu corpo”. A ideia de fazer uma cirur-

gia para o aumento das mamas surgiu nesse período, porém o medo da negação por parte de seu pai deixou o sonho guardado. Um ano depois de chegar a maioridade e com o direito legal de escolher o que queria para sua vida, a estudante resolveu falar sobre a ideia com os seus progenitores. A conversa foi complicada, principalmente quanto a aceitação do pai, a jovem conta como foi. “A minha mãe sempre aceitou, mas o meu pai, ele discutiu muito comigo, praticamente implorou para eu não fazer. Não sei, ele diz que não é, mas acho que é ciúme”, conta Liandra. Enquanto o pai passava por um período de aceitação da atitude da filha mais velha, ela seguiu em busca de um médico capaz de realizar o sonho. “A ideia vem desde os 15, mas a vontade de certeza faz menos de um ano,” explica, “começou quando minhas tias colocaram, vi que era fácil e ficava bonito, e eu sempre queria colocar mesmo”. A mãe de Liandra, Josiani Dalpiaz, 44, ouviu de uma amiga a indicação de um médico confiável para realizar a plástica. Confiando na dica, Liandra resolveu agendar uma consulta para se inteirar do assunto. Um ano, quatro meses e treze dias depois de completar seus 18 anos, sem seu fusca na garagem - vendido para paDOSSIÊ INVESTIGATIVO 10


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gar a cirurgia, contra a vontade do pai e o 2º semestre da faculdade de farmácia sendo concluído, lá estava a menina de Torres, Litoral Norte do Rio Grande do Sul, sentada na sala de espera de um consultório médico. O objetivo era buscar as informações necessárias para realizar a proeza que martelava na sua cabeça desde o 1º ano do Ensino Médio. Durante uma hora e meia, Liandra sabatinou o doutor Wanderley Margotti com suas dúvidas sobre o procedimento ao qual iria se submeter. A intenção era colocar próteses de 300ml, o médico alertou sobre a possibilidade de estrias aparecerem e recomendou 275ml em cada seio. Liandra preferiu arriscar. “Se eu decidisse por colocar a menor, sei que iria me arrepender.” Confirmada a decisão, era hora de marcar a data e pagar. O dinheiro que juntou durante um tempo para comprar o primeiro carro, agora estava sendo utilizado para realizar mais um sonho. E nada melhor do que poder parcelar um sonho de R$ 6 mil no cartão de crédito, sem juros. Ela conta como foi feita a divisão. “Apenas a prótese foi parcelada. O custo foi de R$ 4.300,00 à vista para o médico e para o hospital, mais a prótese, dividida em seis parcelas de R$ 270,00.” A jovem acredita ter sorte, afirma que conseguiu um bom preço. Para a futura farmacêutica a cultura da sociedade brasileira impõe padrões sobre as mulheres. “Na nossa cultura, parece que mulher reta, sem bunda, peito e coxa não tem graça”, desabafa. “Mesmo não sendo imposto pela sociedade, nós mulheres nos importamos, mexe conosco e com a nossa autoestima. Eu só quero mais um pouco, nada demais, nada de exagerado”, finaliza Liandra. O período de preparação para a cirurgia foi tranquilo, o único pedido feito durante a consulta foi uma bateria de exames a qual Liandra se submeteu. Entre as análises requeridas estavam um hemograma completo, um exame de creatinina e da coagulação e uma ultrassonografia das mamas, entre outros. Às 5h da manhã do dia 18 de outubro, em jejum desde a meia-noite e acompanhada de sua mãe, Liandra rumou a Nova Veneza, munícipio de Santa Catarina. Acordar cedo, apesar de ser um desafio, é algo a qual jovem está habituada. Diariamente ela sai de casa pratica11

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mente neste mesmo horário para pegar o ônibus que leva estudantes até a Universidade do Extremo Sul Catarinense (UNESC), em Criciúma, há cerca de 98 quilômetros de Torres. A chegada ao Hospital São Marcos às 7h não foi muito animadora, o prédio antigo não tinha um ambiente muito convidativo. Nas antigas instalações do São Marcos, datadas da década de 30, os preparativos estavam a todo vapor. Enfermeiros levaram Liandra para uma sala onde deveria tirar suas roupas e pertences pessoais, vestindo apenas o avental fornecido pelo hospital. Trajada a rigor como uma paciente, ela seguiu caminhando até a sala cirúrgica, que ficava próxima. O local da operação, visivelmente, não era belo, havia uma porta que dava acesso a outra sala cirúrgica, onde era possível ver uma mulher adormecida sobre uma maca, certamente em recuperação de uma recente intervenção. Deitada na mesa de cirurgia, Liandra aguardava pelo anestesista. Já passava das 8h, horário marcado para o início do procedimento. Alguns minutos passaram até que o profissional responsável por adormecer a moça chegasse. A cirurgia correu sem nenhum problema e menos de duas horas depois Liandra já estava acordada. Às 10h30 a menina já estava lúcida. Iniciava-se o período de recuperação. “Foi muito tranquilo. Não senti tanta dor como dizem que se sente, nem vomitei, como a maioria vomita”, contou após a operação. O quarto era um local mais aconchegante, diferente do ambiente obscuro da sala cirúrgica. Havia uma TV, alguns móveis novos decoravam o local e um banheiro podia ser acessado facilmente no interior do cômodo. A região da cirurgia estava com ataduras, não havia chance de ver o resultado ainda. Restava a ela apenas repousar na companhia da mãe, que não saiu do hospital durante todo o tempo em que a filha esteve lá. “Normalmente os médicos fazem a cirurgia de manhã e te liberam para ir embora a noite, mas no meu caso, o doutor quis que eu passasse a noite no hospital”, explica. A curiosidade não foi um fator que incomodou durante o período de repouso. Porém, a posição que em que ela deveria permanecer na cama impossibilitou o sono. Somente com a

prescrição de maleato de midazolam que Liandra dormiu por volta da meia-noite. Perto das 10h do dia seguinte, o doutor entrou no quarto para retirar as faixas que envolviam a jovem na altura dos seios. Era hora de ver o resultado. Naturalmente logo após a cirurgia, os seios costumam ficar inchados e sem forma, pois a região é sensível. Mesmo assim, Liandra riu, estava feliz, enfim o sonho de debutante se realizava. Pouco antes de receber oficialmente a liberação médica, Liandra começou a sentir as famigeradas dores que atacam o corpo depois de um procedimento como este. Em casa, a situação ficou mais complicada. Durante quase uma semana a dor era forte, sendo impossível levantar da cama sem ajuda de alguém. Para a recuperação, o médico receitou cefalexina e diclofenaco. O conhecimento farmacêutico da jovem ainda serviu para a automedicação de cloridrato de ondansetrona para os controlar os enjoos e um comprimido paracetamol com fosfato de codeína para a dor. Tomar banho ou ir ao banheiro era tarefa que exigia auxílio. “O sentimento era que eu ia cair, que tinham costurado um pacote de arroz no meu corpo, que aquilo não era meu”, conta. Outro fator também incomodou, em duas ocasiões, a garota sentiu náuseas no período da manhã e acabou vomitando, algo que é considerado normal durante esses dias. Outro fator que causa desconforto é um dos efeitos da anestesia, que causa prisão de ventre. Liandra ficou durante toda primeira semana de recuperação sem evacuar. Ela relata os detalhes desse período menos glamoroso do embelezamento dos seios. “O vômito é por causa dos remédios, é normal. Se tomar algo de estômago vazio, ainda dói o estômago. A anestesia também faz com que a gente deixe de ir ao banheiro. E por esse fato de não ir ao banheiro, quando a gente se alimenta, tem náuseas e acaba-se vomitando.” Passada a primeira de recuperação, os seios começaram a tomar a forma esperada. Oito dias depois da operação, a jovem conseguiu sair sozinha da cama, ir ao banheiro e tomar o primeiro banho sem ajuda de ninguém, depois da cirurgia. No dia seguinte, era possível caminhar normalmente. Feliz com a recuperação e encantada com o resultado positivo, Liandra comemorava. “Hoje (27/10) até fui ao supermercado, tomei


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banho sozinha, nem parece que faz só uma semana da cirurgia.” A prótese colocada pela garota é vitalícia, precisando ser trocada somente em casos muito raros. “Não precisa trocar. Só daqui alguns anos vou consultar para ver se ainda está tudo certo”, comemora. O pai, um tanto alheio ao resultado, mas feliz por tudo ter dado certo, espera que a filha continue juntando dinheiro. Ele quer que ela compre um carro novo.

UMA VIDA POR UMA CIRURGIA

Se pelos dados oficiais o Brasil está entre os líderes na realização de cirurgias plásticas, como seria esse ranking com o acréscimo das operações arriscadas, ilegais e muitas vezes fatais? O número de mortes ocorridas durante procedimentos como cirurgias plásticas é baixo, nem existem estatísticas de fácil acesso quanto a isso. Entretanto, o alto preço para realização dessas intervenções faz com muitas pessoas recorram a saídas mais baratas. O baixo custo é apenas financeiro, é o legítimo clichê do barato que sai caro. Um caso recente chamou a atenção na grande mídia. Mulheres estariam realizando viagens até a Venezuela, onde “pacotes” de cirurgias plásticas estariam sendo realizados por valores bem inferiores aos cobrados no Brasil. Segundo reportagem do programa Fantástico, da Rede Globo, ao menos 15 mortes teriam ocorrido durante a realização desses procedimentos e mais de 100 mulheres retornaram aos país com sequelas das cirurgias realizadas por médicos que, por vezes, nem eram cirurgiões plásticos. A reportagem da Dossiê conseguiu contato com uma das vítimas desse esquema, que foi até o país vizinho, acompanhada de sua cunhada, realizar o “pacote de plásticas”. Geriane Luz acabou voltando ao Brasil sem as cirurgias e sozinha, pois a companheira morreu após a realização dos procedimentos. As mulheres vítimas desse esquema estão em grande parte na região norte do país, no Estado do Amazonas, e percorrem o caminho de 1600 quilômetros até o país vizinho em longos trajetos com vans e ônibus. No caso de Geriane Luz, moradora de Parintins, a 369 quilômetros de Ma-

naus, a busca pelas mudanças no corpo não era uma prioridade. Porém, o número de mulheres que se dirigiam até a Venezuela atiçou a vontade da mulher e também de sua cunhada, Dioneide dos Santos Leite. Uma amiga da dupla resolveu embarcar na arriscada travessia para realizar as cirurgias na cidade de Puerto Ordaz, norte do país vizinho. A amiga, identificada apenas como Maria, realizou procedimentos para o aumento de mamas e uma abdominoplastia. No retorno ao Brasil, o resultado deixou o medo de Geriane e Dioneide de lado, as duas também queriam embarcar nessa viagem. Para Geriane, Dioneide sempre teve vontade de fazer mudanças no corpo, pois não se sentia bem com a sua aparência. Até a ida para a Venezuela, nenhuma das duas jamais havia realizado algum tipo de cirurgia plástica. A tensão começou ainda antes da viagem, Dioneide sentiu medo de que algo desse errado, mas preferiu não falar aos familiares, pois estes não apoiaram em nenhum momento a viagem das duas. Geriane com que a mãe de Dioneide chorava muito pedindo que a filha não realizasse as cirurgias em outro país. A mulher decidiu contar aos familiares que seria realizado apenas o procedimento de aumento das mamas, entretanto os R$ 6,800 desembolsados por cada uma seriam revertidos em uma abdominoplastia, cirurgia para o aumento dos seios e glúteos, e ainda uma lipoescultura e uma laqueadura. Chegando a Puerto Ordaz, além das duas, outra cunhada de Geriane, Maria do Socorro, foi levada para ajudar nos cuidados de recuperação após a sabatina de procedimentos estéticos. O dinheiro desembolsado não cobria a hospedagem para recuperação pós-operatória, que geralmente é feita em pousadas e apartamentos alugados pela cidade. O custo para permanecer na clínica era alto. Geriane conta que Dioneide entrou na sala de cirurgia por volta das 14h, enquanto ela foi colocada no soro, após passar por alguns exames, enquanto esperava se submeter as cirurgias. Porém, por volta das 23h do mesmo dia veio a surpresa, o médico cancelou os procedimentos que seriam realizados em Geriane com a justificativa de que ela estava com uma infecção urinária. “Ele (médico) foi me dizer que eu não

ia fazer mais as cirurgias, que eu estava com infecção urinária e que eu tinha que tomar um remédio por três dias e depois ele ia fazer”, explica Geriane. Porém, o motivo para o cancelamento aparentava ser outro, a cunhada Dioneide ainda estava internada, e o médico não deu nenhuma informação sobre o estado dela. “A minha outra cunhada que foi para cuidar da gente ficou lá no hospital com a Dioneide. Mandaram eu ir para casa, porque ficar na clínica era muito caro, só para passar a noite custava R$ 350. Eu fui saber que ela estava na UTI somente no outro dia de manhã”, conta. A condução de Dioneide para a Unidade de Tratamento Intensivo não era uma boa notícia, normalmente a recuperação ocorre sob os cuidados de algum conhecido em quartos alugados pela cidade, não na UTI. O local onde foram realizados os procedimentos não contava com a Unidade, Dioneide foi transferida para outra clínica, já em estado de coma induzido. O medo sentido antes da viagem agora era real. O que se seguiu foi uma sequência de informações desencontradas dadas por um médico que na verdade não era nem cirurgião plástico. O doutro Oscar Hurtado, responsável pelos procedimentos realizados em Dioneide era um oncologista. Geriane contou que o médico nunca admitiu erros durante o procedimento. Ela e a cunhada levada para auxiliar na recuperação passaram a frequentar a UTI diariamente. Depois de uma semana de internação, os sinais de recuperação eram poucos. Geriane relata como foi o último encontro com a cunhada. “Uns dois dias antes de morrer ela ainda abriu os olhos. Perguntei se estava me enxergando, ela disse que sim. Falei que eu amava ela, que estava esperando ela para irmos embora. Lhe dei um beijo, quando eu olhei novamente, ela estava chorando. Foi a última vez que a vi.” Antes disso, Dioneide teve uma forte hemorragia, que foi controlada após uma cirurgia. Nove dias depois da realização das plásticas, veio a notícia. Dioneide havia falecido, segundo o oncologista, em função de uma pneumonia. “Nós fomos retirar o corpo dela daquele lugar. Fomos na delegacia, na embaixada do Brasil. Os policiais foram até o hospital, levaram o corpo dela e fizeram a DOSSIÊ INVESTIGATIVO

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UMA ETERNA BUSCA Essa busca por um suposto corpo perfeito é saudável? De onde surge esse padrão e até que ponto correr atrás disso é algo positivo? Que efeitos o corpo humano pode sofrer? Segundo a psicóloga Tânia Sidor, as pessoas vêm buscando incessante um corpo perfeito e uma aparência melhor. “Essa eterna busca vem se tornando um problema no mundo, que com o tempo, deixou de ser apenas algo imposto pela mídia e passou a ter um efeito psicológico e dominante entre as pessoas. Esse efeito tem resultado em transtornos alimentares, depressão, baixa autoestima e até suicídio”, explica a profissional. Tânia conta que essa pressão

a­ uto­psia”, conta Geriane. A perícia realizada apontou outra causa para a morte da brasileira, Dioneide teve o rim direito perfurado durante a cirurgia, o que ocasionou uma hemorragia interna. Quase dois meses depois da cirurgia, realizada em setembro deste ano, Geriane conta como está o processo na justiça. “Temos um advogado tentando algo. Só não queremos ter que ir para lá de novo, tenho medo de ter que voltar”.

CORPOS ESCULTURAIS REGADOS A ANABOLIZANTES

Longe das mesas de cirurgia, em um mundo recheado de corpos esculturais, com músculos perfeitamente definidos e buscas incansáveis por melhoras muitas vezes inalcançáveis, estão as academias. A prática de exercícios é essencial e recomendada por especialistas para a saúde do corpo e aumento do condicionamento físico, além de outras vantagens. Entretanto, o problema está na perseguição por padrões fora do alcance de pessoas comuns, padrões impostos pelo convívio social e o medo do isolamento. As rotinas exaustivas de treinos em vão, com resultados abaixo do esperado, fazem com pessoas recorram ao uso de medicamentos proibidos que visam potencializar os efeitos das rotinas de malhação. Pedro (nome fictício) começou assim, pressionado por sentir que não tinha um corpo atraente. O garoto, então com 18 anos, se achava muito magro, tão magro que “passava despercebido pelas garotas nas festas”, algo que real13

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recebida na busca pelo corpo definido, padronizado, ganhou tanta proporção que muitas pessoas passaram a viver em função desse padrão. “O ser humano deixou de ter corpo saudável e passou a viver do exagero. Esse exagero remete a dietas rigorosas, rotinas exaustivas de exercícios, deixando de lado lazer e família em prol de um suposto corpo perfeito. Qualquer comportamento que afete a saúde física, ou a vida profissional e pessoal deixa de ser saudável e torna-se prejudicial.” Mesmo estando ligado a um fator histórico que continua sendo construído na nossa sociedade, a busca por mudar a aparência natural do corpo

mente o incomodava. “Ninguém gosta de um cara muito magrinho. Eu não tinha músculos nos braços, mas queria mudar, sempre quis um abdômen definido”, conta ele, hoje com 26 anos. Perseguindo o ideal que havia formado, o jovem entrou na academia. Durante um ano ele bateu cartão diariamente no local, mas os efeitos não correspondiam a assiduidade. “Muitos amigos de academia tinham corpos definidos, conseguindo bons resultados. Em uma conversa perguntei como conseguir definir tão rápido os braços. Eu era leigo nesse assunto. Meu amigo começou a falar baixo dentro da academia e não entendi o porquê.” Logo o garoto entendeu o motivo do sigilo adotado na voz do colega de academia: “ele me explicou que já usava anabolizantes há alguns meses. Explicou como funcionavam e a rapidez com que chegavam os resultados”. Os olhos de Pedro brilharam, era aquilo que ele buscava. Quatro meses depois, ele aderiu ao uso das substâncias. A mágica foi instantânea para a felicidade do garoto, em pouco tempo os pequenos braços que lhe traziam tanta inconformidade dobraram de tamanho, tornando-se alvo da admiração alheia. Durante três anos Pedro seguiu firme, não só com a rotina de treinos, mas com o uso desenfreado dos anabolizantes. Porém, a beleza cobra caro pelos seus favores. “Quando estava completando o terceiro ano de uso comecei a perceber alguns problemas de saúde. Além de ter ficado com a pressão alta, também tive trombose. Meus braços ficaram irreconhecíveis.”

tem ligação com a inconformidade do ser humano, que não sabe mais lidar com frustações, segundo a psicóloga. “A geração de hoje não aprendeu a receber o ‘não’, não aprendeu respeitar as diferenças, nem a ver o outro como igual. Criamos um mundo de pessoas indiferentes, rotuladas, desinteressadas e padronizadas.” Com o auxílio profissional, é possível observar fatores que sustentam os comportamentos e suas possíveis causas emocionais. “Todo comportamento que afeta a vida profissional, pessoal, emocional pode tornar-se prejudicial. É importante avaliar cada situação e entender o porquê desse comportamento”, finaliza a psicóloga.

Os braços, logo eles, tão admirados pelo garoto, buscados por intensas sessões de treinos intercaladas a agulhadas cheias de anabolizantes, agora estavam deformados. Inchados, inflamados, muito maiores do que ele jamais imaginou alcançar algum dia. Era hora de parar, correr atrás da solução, que a essa atura, só podia ser resolvida por um médico. “Demorei para contar para o meu médico. No fundo eu sabia que era por causa do método, mas não quis acreditar. Eu realmente estava muito feliz com o meu corpo.” A drenagem feita para retirada do pus das inflamações nos braços, junto aos efeitos que os anabolizantes entregam após anos de uso deixaram os braços de Pedro irreconhecíveis, marcados para o resto da vida. A consequência era quase óbvia, a depressão veio em seguida. “Pensava em como meu corpo ficaria com a interrupção. Pensei em como voltaria a ficar feio.” Sobre como se sente atualmente com o próprio corpo, ele desabafa: “Não queria me importar tanto com a aparência, mas não consigo mudar. Talvez eu volte para a academia e volte a me exercitar, mas sem uso de anabolizante.” Mesmo sofrendo com os efeitos que a deformação causou em seu corpo, o jovem não nega que foi um período feliz. “Hoje faço tratamento da trombose e da pressão alta. Claro que eu me arrependo de ter utilizado algo tão ruim para o meu corpo, mas não digo que não usaria de novo, porque realmente sinto falta do meu corpo e gostaria de tê-lo de volta.”


ALBERI NETO

SAÚDE MENTAL

AMANDA ROSSATO, GABRIEL ALVES E TAINÁ FONTELLA

SUICÍDIO: A DOR QUE MATA A CADA 100 BRASILEIROS, 17 JÁ PENSARAM EM DAR FIM À PRÓPRIA VIDA

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Três meses depois, recebeu alta, mas continuou em tratamento. Foi onde começou a ter sua vida de volta, saindo com os amigos e voltando aos estudos e ao trabalho. Dessa forma, sua mãe sentiu-se mais segura e lhe deu mais liberdade, sempre com o olho aberto sobre as atitudes da menina, que mantinha contato constante. Porém, tudo começou a mudar em fevereiro, quando Maria sentiu que a filha estava tendo uma recaída em seu quadro de depressão. Foi aí que o pesadelo voltou a fazer parte da vida da família. A filha negava, mas sua mãe sabia que algo não estava indo bem. “Sabia como minha filha estava através do olhar. Cuidava até as fotos que ela postava. Sabia exatamente quando havia algo errado. Minha filha não estava bem”, relembra Maria. Um mês se passou, e a agonia de Flávia permanecia. Era uma tarde comum de terça-feira, a rotina de trabalho e estudos a esperavam, mas ela não compareceu. Sua mãe tentou contato por diversas vezes e a filha não correspondia. Como última alternativa, Maria foi até o apartamento dos filhos e bateu à porta inúmeras vezes, mas só o silêncio a recebia. Sem resposta, ligou para Felipe e pediu que chegasse mais rápido em casa para ver sua irmã, mas com o filho prestes a nascer, o irmão de Flávia atrasou-se para chegar. Foi ao início da noite, do dia 22 de março, que Maria recebeu o chamado para ir até a casa de sua filha, com a notícia de que algo havia acontecido. “No momento em que meu filho me ligou e disse para eu ir até lá, sabia que tinha acontecido alguma coisa com a Flávia, mas jamais aquele tom de voz e aquelas frases, de-

UM DOS ÚLTIMOS REGISTROS QUE MOSTRAM A MÃE, MARIA, E A FILHA, FLÁVIA, JUNTAS

ram a entender que minha filha tinha falecido”, se emociona ao contar. Flávia havia se enforcado em seu quarto e seu corpo foi encontrado pelo irmão. A faixa do roupão que já havia sido usada foi novamente sua inimiga. Os olhos claros e o sorriso contagiante, hoje brilham na memória de amigos e no coração da mãe, que apesar saudade, sabe que a dor e a angústia de sua filha também tiveram fim.

UMA MORTE A CADA 40 SEGUNDOS NO MUNDO

De acordo com dados revelados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), todos os dias, cerca de 30 brasileiros se suicidam, taxa superior à das vítimas de AIDS e de diversos tipos de câncer. E para cada óbito desse gênero, em média, cinco ou seis pessoas próximas ao falecido sofrem consequências emocionais, sociais e econômicas. Mais de 800 mil pessoas cometem suicídio por ano no mundo. Isso representa uma morte a cada 40 segundos, com cerca de 75% dos casos ocorrendo em países de rendas baixa e média. A organização ainda afirma que o Brasil é o oitavo país com mais suicídios. Na cartilha de prevenção ao suicídio da Associação Brasileira de Psiquiatria e do Conselho Federal de Medicina, eles revelam que de cada 100 brasileiros 17 já pensaram, ao menos uma vez, em tirar a própria vida. Vale lembrar que fazem parte do que habitualmente chamamos de comportamento suicida os pensamentos, os planos e as tentativas. Entre as principais causas do suicídio estão a depressão e o uso abusivo de álcool e drogas. A depressão está no topo da lista de fatores, mas também pode listar outros motivos mais comuns que levam pessoas ao suicídio: desequilíbrio emocional, problemas socioeconômicos, solidão, doenças crônicas, insanidade mental e relações afetivas caóticas.

REPRODUÇÃO/DOSSIÊ INVESTIGATIVO

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voz calma e o olhar sereno não são capazes de esconder a dor que Maria carrega no peito. A filha que era uma jovem determinada, amiga e com uma personalidade forte, já se foi. Com profunda tristeza e admiração, Maria Guimarães, 42 anos, conta a história de Flávia Bittencourt, que pôs um ponto final em sua vida com apenas 22 anos. O drama da mãe de Flávia não é diferente de outros pais e familiares espalhados pelo Rio Grande do Sul. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), em Porto Alegre, a incidência de suicídio bate na casa de 12 para cada 100 mil habitantes, sendo a capital com o maior percentual entre jovens de 14 a 29 anos. Flávia desenvolveu depressão após a súbita morte de sua tia Vanessa, a quem era muito apegada. Vanessa foi vítima de um AVC aos 20 anos em 2007. Por algum tempo, ela conseguiu gerenciar a falta que a sua tia fazia e seguiu com a vida normalmente. Ingressou na faculdade de psicologia, trabalhava em dois empregos na área administrativa e era rodeada de amigos. Engajada em causas sociais, fazia planos e vivia plenamente sua juventude. O primeiro sinal de que havia algo errado, foi em 1° de julho de 2015, quando desapareceu, deixando um bilhete de despedida em que dizia querer “buscar o melhor para a sua vida”. Passaram-se dois dias até que sua família tivesse notícias, quando um pescador na praia de Magistério a encontrou se afogando no mar. O homem fez contato com a sua mãe, embora Flávia não quisesse ser localizada. Percebendo a gravidade da situação, Maria praticamente mudou-se para o apartamento dos filhos. Na mesma noite, a encontrou com a faixa do roupão enrolada em seu pescoço. Foi a gota d’agua para que a mãe buscasse ajuda profissional. Com o diagnóstico de depressão e síndrome do pânico, passou um mês internada em uma clínica e depois foi transferida para o Hospital Espírita de Porto Alegre. Conforme reagia aos procedimentos, Flávia conseguia visitar a família nos finais de semana. Durante o período em que esteve internada, muitos amigos da estudante de psicologia não perceberam a gravidade da situação e se afastaram, por não a compreenderem.

“PENSEI MUITAS VEZES EM MATAR MEUS FILHOS”

A depressão é uma doença psiquiátrica, crônica e recorrente, que produz uma alteração do humor caracterizada por uma tristeza profunda. É associada a sentimentos de dor, amargura, desencanto, desesperança, baixa autoestima


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e culpa. “Não cheguei só até o ponto de tentar o suicídio. Pensei muitas vezes em matar os meus dois filhos”, assim que Daniela Rosa se sentiu quando estava sofrendo com o início da doença, que há mais de dez anos lhe acompanha. Hoje, com 39 anos, ainda sofre com os fantasmas da doença. Daniela tinha planos para a próxima década. Planejava como seria a vida com seus filhos já crescidos. Porém, um mês e meio depois de começar o tratamento, decidiu parar com a medicação. A partir de então, tudo começou a piorar. “Quando achei que estava melhor, parei com a medicação. Foi algo muito errado, porque voltou. E voltou mais forte”, revela. Daniela, que teve sua vida totalmente mudada, hoje com hábitos novos vem conseguindo trilhar uma vida junto com a doença. “Tem que fazer o tratamento. Tem de procurar ajuda porque só assim você consegue sair dessa situação. Hoje não falto a nenhuma sessão com meu psiquiatra, tomo a medicação certinha e pratico esportes, tudo isso me fez melhorar quase”. O tratamento pode ser feito com o uso de remédios e/ou psicoterapia. Há vários tipos de medicamentos que podem ser utilizados para o tratamento da depressão, mas estes não curam a doença, apenas amenizam os sintomas. É comum encontrar pessoas que tomam antidepressivos há muitos anos, sem que haja uma remissão da doença. Já a psicoterapia ocorre por alguns meses ou anos e pode ser interrompida quando os sintomas desaparecem. Para Ricardo Nogueira, psiquiatra e coordenador técnico na empresa Hospital Universitário- ULBRA, a comunicação é essencial. “Todo mundo tem medo de perguntar. Pensam como eu vou perguntar para alguém se ela quer se matar? É extremamente importante perguntar porque a pessoa que está passando por um quadro de depressão necessita de alguém que pergunte e que queira entender. Na maioria das vezes ela está desesperada”. O isolamento, assim como desânimo, são características da doença. Com a agravação da situação o paciente vai ficando sem opções até que encontra no suicídio a saída. Ricardo ainda fala sobre o Setembro Amarelo. “Precisamos de mais propostas como o Setembro Amarelo, porque esse projeto foi um sucesso total. Até as crianças sabem o que significa a fitinha amarela, esta-

mos no caminho certo para quebrar este tabu”. É importante destacar, antes de tudo, que suicídio não deve ser visto como uma decisão individual, ou como um ato de “coragem” perante um sofrimento extremo. Isso porque, conforme explica a psicóloga Marcella Farina, as pessoas que concretizam esse ato estão passando quase que invariavelmente por uma doença mental que altera, de forma radical, a sua percepção da realidade. “Quem toma esse tipo de atitude sempre está muito cheio de sofrimento e acaba ficando cego por conta disso. Não enxergam nenhuma solução possível no momento. Então, o tratamento da doença mental é um dos pilares mais importantes de prevenção. Cerca de 90% dos casos poderiam ter sido evitados se a vítima tivesse recebido ajuda de qualquer pessoa, além de profissionais, pois após o tratamento o desejo de se matar  diminui”, complementa a especialista. Mas como é possível ajudar alguém que esteja passando por problemas graves e ainda ter condições de suspeitar que a pessoa possui planos de tirar a própria vida? A psicóloga reforça que, na maioria das vezes, o indivíduo dá sinais de sua intenção. Entretanto, como não estamos tão acostumados a ouvir e escutar o outro com clareza, esses sinais passam despercebidos ou só fazem sentido após o suicídio. Ou então, o que é muito comum, não levamos a sério a declaração e a interpretamos equivocadamente. Que a quantidade de pessoas que tiram a própria vida no país é altíssima e assustadora, é perceptível. E é a partir daí que surge uma questão que intriga desde sempre: por que só casos que chamam a atenção são noticiados? “Eu acredito que quanto mais falarmos de suicídios, melhor. Quem está neste quadro é importante saber que não esta só, e que existem grupos que podem lhe amparar”.

SAIBA ONDE OBTER AJUDA

Setembro é o mês da prevenção contra ao suicídio. Assunto sério, mas ainda um tabu social que não desperta interesse na grande parte da população. Mesmo assim, muitas pessoas criam páginas e blogs focados nesse assunto.

Um exemplo é a página do Facebook “Setembro Amarelo – RS”, criada por Sabrina Froehlich, sua irmã e mais dois amigos, com o intuito de ajudar pessoas que pensam no suicídio. Setembro Amarelo é o movimento que acontece todo o mês de setembro no Brasil e no mundo. Com objetivo de alertar a população a respeito da realidade do suicídio e suas formas de prevenção. No total de 171 países, apenas 28 possuem um plano de prevenção do problema. No Brasil o SUS oferece acompanhamento psicológico e psicoterápico, além de assistência psiquiátrica hospitalar. Ainda podemos contar com o Centro de Valorização da Vida (CVV) que auxilia pessoas que queiram tentar o suicídio, cujo telefone é 141, no Rio Grande do Sul o número é 188. No estado existe um plano piloto em parceria com o Ministério da Saúde. Os telefones não possuem bina e os atendentes (todos voluntários) nunca irão perguntar o nome da pessoa. O CVV não trabalha com aconselhamento, não dá opiniões, tampouco faz qualquer espécie de julgamento. “A finalidade é a prevenção do suicídio e para isso, conversamos e ouvimos as pessoas que nos ligam, para desabafar o que quiserem, com respeito, aceitação, acolhimento e sigilo”, complementa a Vice Coordenadora da regional Gaúcha e coordenadora da comissão de Divulgação, Liziane Eberle. Por meio da conversa e se a pessoa pedir, os voluntários conseguem indicar locais específicos e gratuitos onde é possível conseguir ajuda, seja para um tratamento para dependentes químicos, prevenção ao suicídio, luto difícil, etc. Além de entidades como o CVV, existem pessoas que tentam ajudar quem está passando por esse quadro. Criadora da página Setembro Amarelo – RS Sabrina Froehlich fala da importância do seu trabalho. “Tive um caso de suicídio na minha família e depois de assistir uma reportagem sobre suicídios e sobre o mês de prevenção, resolvi criar essa página para ajudar as pessoas. Temos que mostrar que estamos dispostos a ouvi-la sem julgar”. A página publica textos, imagens e fotos sobre o assunto, além de uma autoajuda. A campanha da página se espalha por escolas e lugares que aderiram à ação. Lembrando que é sempre necessário procurar ajuda. DOSSIÊ INVESTIGATIVO

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VÍCIOS

SORTE OU AZAR? REPÓRTERES INFILTRADOS EM REUNIÕES DE JOGADORES ANÔNIMOS CONTAM A AFLIÇÃO DE APOSTADORES COMPULSIVOS PEDRO MONTIEL E RICHARD MASIERO

“T

em café?”, pergunta um dos participantes do encontro dos Jogadores Anônimos, que acontece toda terça-feira na zona central de Porto Alegre. O local traz à memória aquela lembrança antiga dos tempos da escola, com cadeiras à disposição, um quadro negro rabiscado e a vontade de aprender das pessoas que se encontram naquela sala. A maior parte dos visitantes participam do encontro pelo menos duas vezes antes de se tornar um frequentador fixo, explica Carlos, ex-jogador que frequenta o grupo a uma década, mas há nove anos não joga. ‘’Por mais que eu esteja aqui há tanto tempo, não tenho coragem de sair, tenho medo de voltar a jogar’’, conta. 17

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Antes da reunião começar, os presentes se reúnem para jogar conversa fora, já tão habituados com a presença um do outro. Se sentem em família. Em meio ao bate-papo, surge o assunto sobre a falta de um membro e debatem sobre seu destino. Será que voltou para o jogo? Provavelmente, já que desapareceu dos encontros. Enquanto alguns ficam em pé ou não entraram na sala ainda, outros já se encontravam sentados nas cadeiras. “Eu e o senhor Irajá jogávamos juntos. Ganhamos muito e perdemos também”, conta um dos participantes sobre suas experiências. Toca uma sineta semelhante à da recepção de um hotel e então todos os que ainda não haviam entrado, se sentam nas cadeiras posicionadas no meio do aposento. O clima é descontraído e

leve, você se sente bem recebido, como se fizesse parte dali. “Boa noite a todos, sejam bem-vindos a mais uma reunião dos jogadores anônimos”, fala Elis, coordenadora do grupo, iniciando a reunião. “O grupo faz para os jogadores o mesmo que o AA faz para o alcoólatra: oferece um programa de recuperação. Formamos uma irmandade de homens e mulheres com a finalidade de nos ajudarmos mutuamente, a nos recuperarmos da jogatina”. Ela ainda relata que o encontro não é filiado a nenhuma seita ou instituição religiosa, movimento político ou outra instituição. “Nosso propósito é recuperar outras pessoas para que também possam encontrar uma vida serena, equilibrada e feliz. Embora nossa irmandade não tenha caráter religioso, sempre costumamos iniciar e


VÍCIOS

encerrar nossa reunião com uma oração. Assim convidamos os companheiros presentes a rezarmos juntos a oração da serenidade’’, finaliza. Elis está abstinente há mais de 10 anos. Após oração e a leitura dos 12 passos para deixar o vício, a cabeceira – como eles chamam o local onde os participantes se sentam para dar seus depoimentos – está aberta. “Sou jogador compulsivo. Mas não jogo há 115 dias. Aprendi aqui a fazer uma lista das pessoas que prejudiquei, porém eu estou no topo dela”, conta o primeiro corajoso da reunião. Cerca de 15 pessoas se encontravam na sala, sendo homens na maioria. As apostas eram no jogo do bicho, nas cartas, nas maquininhas – chamadas por eles de ‘’sapinho’’, ‘’baldinho’’, ‘’bruxinha’’, de acordo com os desenhos – nos bingos, e até em apostas na bolsa de valores. “Meu jogo era diferente. Gostava de apostar na bolsa de valores por causa da adrenalina’’, conta Eduardo – nome fictício -, que já chegou a perder 800 mil reais. Perderam o convívio com os que mais amavam. Divorciados, não tinham mais contatos com os filhos. Para piorar, acabaram endividando outros familiares e perdendo bens materiais como casas e carros. Com o apoio dos colegas de reabilitação, sabem que, além da distância dos jogos de azar, necessitam mudar a aposta. Em meio às dívidas e aos atritos familiares, eles persistem – Só por mais 24 horas. Para Alexandre Cury, especialista em programação neurolinguística, o vício em jogos está associado a recompensa. “Em tudo que fazemos, buscamos uma recompensa. Seja conversar com um amigo, assistir um filme ou comer algo. Essa recompensa, no nosso sistema [neurológico] libera um neurotransmissor chamado dopamina. No sistema [neurológico] de um viciado, a busca é por uma quantidade alta de dopamina em pouco tempo. Com isso, ele abre mão até de se alimentar, relacionar-se – onde a recompensa é baixa – e busca jogos, onde a recompensa é alta. Quanto maior o risco, maior a recompensa”.

Na época, existiam 71 cassinos no Brasil, com uma estimativa de 53 mil empregos por conta da indústria de jogos. Em contraponto, afirma-se que com a liberação dos jogos, o número de viciados aumentaria. São considerados jogos de azar aqueles em que ganhar ou perder depende exclusivamente da sorte. A pena é de multa e prisão de seis meses a um ano. Em 1993, o paulista Michel Kauan foi chamado para trabalhar na função de gerente do primeiro bingo permanente legalizado no país, com sede em São Paulo. No dia da inauguração, segundo ele, a fila dobrava a esquina devida ao tamanho. Cabia ali cerca de mil pessoas sentadas. Devido ao sucesso, o bingo foi apresentado em uma reportagem no Fantástico, no Programa da Marília Gabriela e diversas vezes no jornal impresso. “Com essa divulgação de jornal e televisão, o negócio explodiu de vez. Personalidades como o piloto Rubinho Barrichello, o ator Antônio Fagundes, a atriz Adriana Esteves, e até alguns técnicos de futebol, tornaram-se frequentadores assíduos. Um dos mais presentes neste lugar era o estilista Clodovil. Ele ia tanto que chegou um ponto em que ele que escolhia quais eram os rapazes mais bonitos para serem contratados’’, brinca Michel. O negócio durou de 1993 até 2007. Foi um setor que gerou uma demanda alta de empregos. Apenas na rede de bingos que Michel trabalhava, haviam mais de mil e quinhentos funcionários diretos, sem contar os seguranças e funcionários das gráficas que forneciam as cartelas. “É um negócio que tinha que voltar. Resulta em divisa, emprego e diversão. Sendo controlado e fiscalizado, é um negócio certeiro de país desenvolvido’’, conclui Michel. A exploração de jogos resultava em muita receita, tanto para os patrões e funcionários quanto para o governo, que recebia através dos impostos. A receita acumulada pelos jogos clandestinos poderia ser investida em saúde, educação e em outras áreas carentes da nossa sociedade. Porém, quem acaba se beneficiando dessa rede é uma pequena parcela da população.

O governo de Eurico Gaspar Dutra baniu os jogos de azar na década de 40.

Localizado na zona sul da Capital, o bar do senhor Alberto é discreto e

DO OUTRO LADO DO BALCÃO

EMPREENDEDORISMO DO VÍCIO

com um público fiel. O local é também palco de grandes noites de jogatina, mas só para os mais chegados, os “de confiança” do dono. Separada por uma pequena porta sanfonada, mais ao canto do estabelecimento, existe uma sala que pode passar despercebida pelos visitantes mais desatentos. Ali, à noite não tem fim. Antônio, 65 anos, é cliente assíduo do local que frequenta há mais de cinco anos. “Aqui somos uma família, se nossas esposas não nos acham, sabem que estamos aqui” brinca o aposentado, que conta que nenhum deles se considera viciado. Ao entrar na sala, podem ser vistas seis máquinas caça-níqueis, dispostas lado-a-lado no lado esquerdo da dependência, onde divertem seis senhores. A direita, um senhor conta moedas para a próxima jogada, levemente embriagado com uma cerveja na mão. O local é pequeno e úmido, Antônio diz que ela passou por reformas há cerca de um mês e que Alberto, ganha bastante dinheiro, tanto que consegue ainda remunerar um policial à paisana que vigia o local ao longo da noite. Logo chegam mais pessoas na sala, em sua maioria homens. Eles brincam com quem joga. “Não vai largar a bruxinha hoje?”, referindo-se ao personagem que ilustra a máquina. O movimento do bar aumenta e as portas se fecham, permanecendo apenas os frequentadores mais assíduos conversando com cervejas nas mãos. No cair da noite, o barulho aumenta e os jogadores estão gritando dentro da sala. Um deles ganhou cerca de R$ 200,00. Todos comemoram. Ele agora diz que a próxima rodada é por sua conta e logo entrega parte do dinheiro para Alberto, que rapidamente pede para um de seus funcionários trazer mais uma rodada. A sala agora está cheia, com certa de 10 pessoas em volta dos jogadores. Antônio, que agora conversa com seus amigos, diz que sua esposa já ligou algumas vezes e ele não atendeu. “Hoje eu vou chegar cedo, ela não precisa me ligar”, brinca. Para aqueles que querem participar dos encontros dos Jogadores Anônimos, em Porto Alegre, podem entrar em contato pelo site www.jogadoresanonimos.org.br ou pelo telefone (51) 98105-6889. DOSSIÊ INVESTIGATIVO

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LEONARDO FERREIRA

DESPERDÍCIO

BARRIGA VAZIA, LIXO CHEIO

CERCA DE 58% DO LIXO PRODUZIDO NO BRASIL PODERIA SER CONSUMIDO JÉSSICA LAGUNA, LEONARDO FERREIRA E LEONARDO ZAISOV

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e acordo com o Instituto de Recursos Mundiais (WRI, na sigla em inglês), atualmente, no Brasil, os dados sobre desperdício de alimentos são alarmantes. A maior parte, isto é, cerca de 50%, ocorre no manuseio e transporte. Outros 30% acontecem na comercialização e abastecimento. Já a produção no campo e o consumidor final são responsáveis por 10% cada. Cerca de quatro milhões de pessoas estão em situação de insegurança alimentar, ou seja, não se alimentam diariamente. Em torno de 58% do lixo do país é comida, contando com alimentos fora da validade ou estragados. Após as refeições, é comum ver as pessoas colocarem os restos de comida no lixo, misturados com outras substâncias. O caminhão passa e recolhe o que vem das residências e, ao fim deste trajeto, despeja na área de transbordo. 19

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COMÉRCIO E DESPERDÍCIO Mesmo que haja diversas pessoas que passam fome e têm dificuldade de ter uma alimentação regular, em Porto Alegre, a Central de Abastecimento do Rio Grande do Sul (CEASA/RS) tem grande foco de desperdício de comida. Os comerciantes e usuários do local usam o termo “tocada” para todos os produtos danificados. Outra gíria usada pelos feirantes referente às frutas, legumes e verduras é a expressão “quarta” ou “quinta”, quando já passaram do tempo de vendê-los. Juarez Barcelos, de 46 anos, conta que completou 22 anos trabalhando na CEASA e que o desperdício de alimentos continua o mesmo. “Para muitos comerciantes é mais cômodo jogar nos containers ou deixar pelo chão”, aponta o comerciante. Ao encontrar uma moranga “tocada”, José da Silva, carpinteiro, de 66

anos, afirma que o “machucado” nem era tão grande assim. “Ela estava boa para consumo, mas como tem algumas partes ruins, não pode ser vendida”, explica ao mostrar em suas mãos o ­legume. Em outro momento, o carpinteiro foi encontrado próximo de um container com um mamão que recém tinha sido descartado, mas não respondeu se iria ou não o consumir. Mas não é apenas na CEASA que ocorre o desperdício. Uma comerciante e moradora da Capital que preferiu não se identificar, fala um pouco sobre sua vivência. Ela revela que coloca os restos de comida fora e que não separa o lixo seco do orgânico, até mesmo por costume. A comerciante acredita que para existir a separação e o reaproveitamento, deve haver a cooperação de todos, mas isso não acontece. Perguntamos o que ela pensa a res-


DESPERDÍCIO

peito das pessoas que não se alimentam regularmente: “A situação é triste. Os restos de comida não deveriam ser colocados na lixeira, havendo a separação ou não”, diz. A moradora acredita que está na hora de “orientar os moradores da casa a colocar duas lixeiras para que a separação aconteça corretamente, além de destinar restos de comida a quem realmente precisa”. Ao entrar na CEASA, entre a correria dos funcionários entregando as encomendas, encontramos diversos containers com frutas e verduras descartadas. Em um deles, está Rodrigo Rossi, de 32 anos, empresário de pequeno porte, que procura tomates que ainda possam ser reaproveitados: “Muitos destes alimentos que são jogados fora podem ser utilizados para diversos pratos”, afirma. No momento que falava, o empresário mostrou um tomate que estava maduro e que para os comerciantes não podia mais ser comercializado, pois o foco é na produção. Além disso, o diretor-técnico da CEASA, Adailton dos Santos Machado, fala sobre o programa “Prato Para Todos”, que atende mais de 35 mil pessoas. O projeto beneficia diversas entidades, igrejas, creches comunitárias, Organizações Não Governamentais (ONGs), por exemplo. A arrecadação é feita por voluntários da CEASA, que coletam frutas e verduras entre os excedentes do setor atacadista. Os produtos são classificados e armazenados e, após isso, vão para um kit que também conta com pães doados pela empresa Seven Boys, parceira do projeto. Além da alimentação, o “Prato Para Todos” fornece educação alimentar a famílias de baixa renda.

“QUEM TEM VERGONHA PASSA FOME”

Mesmo com traços humildes e a expressão cansada de quem já caminhou muito, Valdemar não esconde o seu sorriso. Pai de seis filhos, o senhor de 42 anos, é morador das ruas do Centro de Porto Alegre há mais de cinco anos. Natural de Três Passos, veio para a Capital com promessa de emprego e mo-

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DESCARTE QUE SE TORNA ALIMENTO

EM TEMPOS DE CRISE, RESTAURANTE POPULAR SURGE COMO ALTERNATIVA

radia. Quando chegou, a promessa não foi cumprida. A família ofereceu ajuda e ele não aceitou, pois disse que nas ruas podia fazer o que quisesse. O desafio ficou bem claro naquele momento. Ele costuma pedir ajuda para sobreviver: “Quem tem vergonha passa fome”, conta o morador de rua. Ele mostra a sua reserva de alimentos: uma sacola simples, com três miojos e uma garrafa de água, refeição pobre de nutrientes e vitaminas, mas para ele, já estava garantida a alimentação do dia. Mesmo com dificuldades, ele tem duas cachorrinhas, que cuida com muito amor e carinho. Valdemar desabafa sobre a lei que visa proibir as carroças de circularem pela cidade: “O Governo não pode tirar as carrocinhas de circulação, pois é a nossa forma de sobrevivência, de reciclar e de privilegiar quem não tem trabalho. Se essa lei entrar em vigor, vai transformar a cidade num caos, vamos virar todos ladrões”. Mesmo com uma história triste, suas perspectivas e sonhos ainda existem. O morador sonha em comprar um sítio para criar seus animais, descansar e viver longe da violência da cidade.

UMA ALTERNATIVA PARA VENCER A FOME Um dos lugares que oferece refeição completa e de qualidade para quem não tem condição de gastar muito é o Restaurante Popular. O local é uma alternativa para os moradores de rua que procuram ter pelo menos uma refeição completa. Localizado no Centro de Porto Alegre, na rua Santo Antônio, o local oferece almoço completo por apenas R$ 1,00. O restaurante atende em média 600 pessoas por dia. O serviço conta com um cardápio feito por nutricionistas e é baseado em arroz, feijão, carne, um acompanhamento, dois tipos de salada, sobremesa e suco. O almoço, apesar de simples, é bastante valorizado pelos clientes. Em meio a fila para entrar no restaurante, encontramos Carlos Renato e Leandro Ramos, de 42 anos e de 44 anos, respectivamente, ambos moradores de rua. Com o dinheiro que ganham pedindo esmola pela região, conseguem almoçar no Restaurante. Carlos mora na rua há dois anos; acabou sainDOSSIÊ INVESTIGATIVO 20


DESPERDÍCIO

do de casa pelas frequentes brigas com sua família. Já Leandro está na rua há cinco anos porque a família se mudou para outro estado e ele, como não quis ir junto, acabou na rua. Os dois comentam que quando o restaurante estava fechado, devido à reestruturação e à mudança de local, encontraram dificuldades para comer e que contaram com a solidariedade das pessoas. Para saciar a fome, então, comiam restos e os “macaquinhos”, que são um novo hábito entre as casas da Capital: refeições deixadas em sacolas penduradas nos portões.

LUTANDO CONTRA O DESPERDÍCIO

O restaurante Itália oferece buffet livre a R$ 18,00 e refeições a quilo por R$ 30,50. Em um balde são despejados os restos de comida que não tem como serem manipulados para voltar ao consumo. Em torno de 20kg são perdidos ao final de cada dia. Este resto é colocado no lixo, mas muitas vezes os vizinhos

pedem o alimento para levar aos seus animais. “Não jogamos fora a comida, pois nem na minha própria casa existe esse hábito sem antes tentar uma alternativa”, comenta Daniel Dallastra, de 41 anos, dono do restaurante. “O alimento pode ser manipulado para ser servido de novo, como carne que pode ser feita em bolinhos e ser usada de uma melhor maneira”, explica ­Dallastra. Há 20 anos atendendo em Alvorada, o comércio pode receber até 150 pessoas por dia. O estabelecimento conta com dez funcionários, entre eles: duas cozinheiras, uma saladeira, uma pessoa responsável pelos sucos e sobremesas. A abordagem para combater o desperdício é complicada. Segundo Dallastra, a falta de consciência das pessoas é potencializada com o que ele define como “cultura de poder”. “As pessoas pensam: ‘porque estou pagando, posso comer, gastar e posso jogar fora’. Estamos planejando a divulgação de cartazes contra o desperdício. Atendemos em peso e em buffet livre, incentivamos

a pesagem, para que o próprio cliente possa ter economia. Quando começa a ter muito gastos, o restaurante acaba aumentando o valor do almoço”.

“NOSSO LIXO PODE SER O SUSTENTO DE ALGUÉM”

Por costume, as pessoas não separam o seu lixo; outras já conscientizadas, separam entre orgânico e reciclável. A iniciativa de Ana Maria Ramos Pazini, de 63 anos, moradora de Alvorada, surpreende a todos: ela separa seus resíduos em três formas: orgânico, reciclável e alimentos. “O nosso lixo pode ser o sustento de alguém”, alerta Ana. No momento de colocar comida no lixo, ela primeiramente separa em duas sacolas bem amarradas e só depois manda para a sua lixeira. Segundo Ana, que trabalhou com alfabetização em um antigo lixão do município, seus alunos se alimentavam da comida que chegava dos caminhões. Certa vez, um dos seus alunos a presenteou, muito empolgado, com uma bala de coco e contou que estava muito feliz porque havia achado o doce fechado no lixo. Depois disso, Ana teve a consciência necessária para mudar seus hábitos.

CONSCIÊNCIA E EDUCAÇÃO PARA MUDAR HÁBITOS

É preciso ter consciência na hora de separar o lixo. Identificar a importância dos alimentos que colocamos fora para outras pessoas que poderiam reaproveitá-lo deveria ser uma conduta básica de todos. A responsabilidade e o compromisso não são somente dos órgãos públicos, mas também dos cidadãos, quando o assunto é não desperdiçar alimentos e sim direcionar para quem precisa.

AJUDE

Para saber mais sobre como doar alimentos, acesse o site do Banco de Alimentos do Rio Grande do Sul. A

DESPERDÍCIO DE ALIMENTOS PODE SER VISTO NO PÁTIO DA CEASA EM PORTO ALEGRE

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LEONARDO FERREIRA

iniciativa recolhe alimentos de pessoas físicas e jurídicas e, inclusive, aceita doações que abatem parte do Imposto de Renda. Para saber mais, acesse: http://www.bancodealimentosrs.org.br/ Pagina/168/Como-participar.


VIOLÊNCIA DE GÊNERO

FERIDAS DO PRECONCEITO ALBERI NETO

BRASIL É O PAÍS ONDE MAIS SE MATA HOMOSSEXUAIS E TRANSEXUAIS E O QUINTO COM MAIOR ÍNDICE DE FEMINICÍDIOS NO MUNDO MATHEUS CLOSS E DÉBORA GOULART

A

os 24 anos e mãe de dois filhos pequenos, Andreia – nome fictício – ainda tem dificuldade para aceitar a gravidade de seu problema. Há aproximadamente um ano, quando ainda estava grávida de seu segundo filho, começou a viver momentos de terror sob a presença do namorado. Um rapaz de 18 anos, pai de seu segundo filho. Somente agora, em outubro de 2016, foi acolhida pela assistente social Irma Miranda. Ainda com muitas dúvidas, decidiu dar o primeiro passo para fugir da situação abusiva em que se encontrava e, no Vida Centro Humanístico, contou sua história. Sentada em frente à mesa, mantinha a cabeça baixa e o olhar distante. A expressão de abatimento era clara no seu rosto. Enquanto Irma inicia a conversa, Andreia respira fundo, como se buscasse coragem para expor o seu drama: “Tudo começou quando eu estava grávida do nosso filho. Ele começou a mudar. Ficar agressivo. A cada discussão, apertava cada vez mais forte o meu pescoço”. Andreia interrompe o relato. A fala baixa fica cada vez mais embargada: “Ele me disse que eu merecia apanhar como um homem”, completa. Lágrimas até então contidas, agora escorrem pelo seu rosto. Embora os hematomas não estejam mais presentes em sua pele, as marcas da violência são visíveis em seu semblante. Andreia não prestou queixa. Sente medo após as ameaças feitas pelo agressor. Além disso, reluta em acreditar que o seu sentimento por ele seja corres-

pondido por meio de tapas e socos. Se procurasse ajuda, o caso de Andreia seria mais um no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) que, somente em 2014, registrou mais de 147 mil atendimentos no SUS à mulheres – decorrentes de violência doméstica, sexual e outros tipos de violência. Os números se restringem a casos que não tenham necessariamente terminado em tragédia. Se tratando de feminicídio – homicídio de mulheres – os dados são alarmantes. A taxa é de 4,8 para cada 100 mil mulheres, a quinta maior do mundo segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Entretanto, as taxas convergem para um país que tem a Lei Maria da Penha, reconhecida pela ONU uma das três melhores leis no combate à violência doméstica. O sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz, autor do Mapa da Violência da mulher de 2015, afirma que os índices são reflexos da sociedade machista em que ainda vivemos. A Lei Maria da Penha fala em coibir e prevenir a violência doméstica. Desde que foi promulgada, em 2006, ajudou a dar voz às mulheres que sofriam abusos. Até 2013 houve um aumento de 600% no número de relatos de agressões por meio do serviço de atendimento à mulher, o Ligue 180. Mas ainda falta pôr em prática o que está na lei: “A gente enxerga a Lei Maria da Penha como efetiva. Um texto bem escrito. Tem bons instrumentos. Muitas mulheres que são atendidas pela lei conseguem sair de uma situação de violência. Porém, esbarramos em alguns problemas, como a efetividade da rede de serviços” anali-

sa Luana Pereira, assessora jurídica da ONG feminista Themis, que participou do consórcio de ONGs que construiu o texto da lei. Os problemas encarados na rede de serviços começam no número de Delegacias Especializadas no Atendimento à Mulher (DEAM). No Brasil, existem em torno de 370 Delegacias da Mulher para mais de cinco mil municípios. Em Porto Alegre há apenas uma DEAM, no bairro Santana. Muitas vezes, as mulheres de regiões periféricas precisam procurar delegacias mais próximas e se deparam com outro grande problema da rede de serviços: a falta de capacitação de agentes públicos. Há muitos relatos de mulheres que, ao tentarem fazer a denúncia, são desencorajadas pelos funcionários da polícia e até do judiciário.

LGBTFOBIA

Mas a violência sofrida em casa não se restringe apenas às mulheres. É no mesmo local, no âmbito familiar, que muitas vezes nasce a homofobia. Engana-se quem pensa que as únicas marcas deixadas pela violência são físicas. Agressões verbais e psicológicas ferem e desencorajam pessoas a aceitarem sua orientação. Juan Gonçalves, 19 anos, sofreu na pele com o preconceito dentro do seu lar. Criado em uma família de doutrina evangélica, aos 15 anos descobriu sua preferência. Conta que foi uma barreira que ele mesmo teve de quebrar. Até porque suas próprias ideologias religiosas o envergonham de sua condição sexual. Na época, morava com DOSSIÊ INVESTIGATIVO 22


VIOLÊNCIA DE GÊNERO

seus avós paternos. Ao saberem da notícia o puseram contra a parede: “Eles me disseram: Ou tu vira homem, ou vai embora de casa. Então eu pensei: Se ficar aqui, nunca vou sair do armário. Resolvi me libertar”, relembra. A partir desse momento, Juan morou com vários parentes. Virou um andarilho. Passou pela casa da mãe, do tio e da avó materna. Nunca permaneceu mais de um mês nesses lugares. Além de não haver aceitação por parte da família, a falta de liberdade o incomodava. Juan era proibido de sair para que não se envolvesse com outras pessoas. Sua vó deixava de ir à igreja por vergonha, além de se referir a ele com palavrões: “Pior do que tu sofrer um preconceito na rua é sofrer dentro de casa, das pessoas que tu gostas. Quando alguém que te conhece fala algo, dói mais que um soco”, avalia. Segundo o relatório de violência homofóbica de 2013, da extinta Secretaria Especial de Direitos Humanos, foram registradas pelo Disque Direitos Humanos (Disque 100) 1.695 denúncias de mais de 3 mil violações relacionadas à população LGBT. Em 32,1% dos casos a vítima conhecia o suspeito e, em 25,7% ocorreram em sua própria casa. Mais de 40% dessas violações foram decorrentes de violência psicológica. Porém, os números provavelmente estejam longe da realidade. Muitas pessoas, assim como o Juan, não denunciam violências causadas por familiares ou conhecidos. Pois, assim como a mulher, o agredido tem receio em penalizar o agressor. “As pessoas em geral têm muito medo (de denunciar). Muitas vezes, até se culpam por ter sofrido a violência ou acreditam que nada vai acontecer caso denuncie”, analisa o ativista da ONG Nuances, Fabiano Barnart. Nas ruas, Juan já ouviu piadinhas e ofensas, mas diz ignorar essas situações. Seu receio impera por outra via: “Meu maior medo é de andar na rua, de mão dada ou de dar um beijo e acabar sendo agredido. Quando héteros fazem, ninguém vê problema. Eu não tenho a oportunidade de demonstrar o meu amor a outra pessoa em público”, lamenta. O medo de Juan se justifica. Há mais de um ano, Valéria Houston – artista gaúcha transexual – caminhava à tarde pela Rua da República de mãos dadas com seu marido. De repente, o casal se deparou com a intolerância. “Aberra23

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ções” e “Vocês têm de morrer” foram algumas das injúrias desferidas por um homem. Ao questionarem se as ofensas eram para eles, o homem foi em direção ao casal, tirando uma chave de fenda de uma mochila. Valéria foi imediatamente para cima do homem, que conseguiu acertar suas costas com a ferramenta. Seu marido, ao tentar defende-la, também foi atingido. Enquanto Valéria gritava, o homem tirou uma faca de cozinha da mochila e ameaçou-os antes de se afastar do local. O ódio gratuito enfrentado por Valéria é apenas o reflexo do país que mais mata transexuais e travestis no mundo. Segundo a ONG Transgender Europe, entre janeiro de 2008 e março de 2014, foram 604 mortes no Brasil. Anualmente, o Grupo Gay da Bahia realiza um relatório de assassinatos da população LGBT no Brasil. Embora exista uma ínfima diminuição de homicídios – em 2014 foram 326 mortes contra 318 em 2015 – a brutalidade dos assassinatos chama a atenção. Um crime de ódio a cada 27 horas onde 94 mortes foram causadas por arma de fogo e 106 por arma branca. Quanto à identidade das vítimas: 52% eram gays, 37% eram travestis, 16% lésbicas, 10% bissexuais e ainda 7% foram heterossexuais confundidos com gays.

CAUSA E COMBATE

A construção social ao longo da história colocou as mulheres em uma situação de submissão. Infelizmente em pleno século XXI, ainda resiste uma relação de poder onde o gênero feminino é inferior ao masculino. Essa ideia ainda é replicada em muitas esferas da sociedade e difundida também nos meios responsáveis por informar e pautar a população. “Mídia machista precisa ser tirada do ar, porque estimula violência contra mulher. Ajuda a criar no imaginário social que ela é um objeto passível de violência”, analisa Luana Pereira, assessora jurídica da Themis. Mas a desinformação que permeia as indefesas vem sendo combatida. A Themis, por exemplo, trabalha na capacitação de lideranças comunitárias em regiões periféricas de Porto Alegre. Através do Projeto de Promotoras Legais (PLP), a ONG busca há mais de 15 edições a capacitação de direitos humanos das mulheres. Embora a luta do movimento LGBT

tenha ganhado mais visibilidade nos últimos anos, ainda temos a intolerância escancarada na sociedade. Ao vermos diariamente políticos e religiosos proferindo discursos de ódio livremente, incentivamos a pratica da violência. Para o ativista da Nuances Célio Golin, a sociedade machista desumanizou os homossexuais, deixando-o mais sujeito à agressividade: “A violência contra o gênero feminino está associada à relação LGBT. Porque na cultura machista, os gays estão no campo do feminino. E como o gênero feminino é considerado inferior, também acaba sofrendo essa carga de preconceito”, observa. A rede de serviços que peca no amparo à mulher, também precisa ser melhorada no atendimento à comunidade LGBT. Na área da saúde, muitas transexuais não acessam o serviço pelo medo da rejeição ou por não ser reconhecida pelo nome social, ficando em uma ala masculina, por exemplo. Recentemente no Rio Grande do Sul, foi incluído nas fichas de notificação compulsórias a violência motivada por LGBTfobia. Na parte de denúncia, o protocolo policial necessita que, ao ser aberto, o inquérito seja notificado no crime a motivação pela orientação sexual, facilitando posteriormente um levantamento de dados oficial do Estado – trabalho que hoje é realizado por ONGs. Mas para desconstruir o machismo enraizado na sociedade é fundamental que a escola debata esse assunto. Segundo uma pesquisa realizada pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR), no interior de São Paulo, 32% dos homossexuais entrevistados afirmaram sofrer preconceito dentro da escola. “Precisa ter no currículo escolar debate sobre igualdade de gênero. Ideologia de gênero é o que a gente vive hoje”, comenta a assessora jurídica da Themis. Além da própria falta de diálogo, não há capacitação do profissional que atua no ambiente escolar para abordar a questão, como analisa Fabiano Barnart, ativista da Nuances: “Tem um despreparo geral dos profissionais para lidar com a diversidade. Tu não tens nas universidades esse recorte específico na formação deles. Não tem nenhuma abordagem sobre o como vão debater o gênero e diversidade sexual, questões específicas de demanda da população LGBT”, constata.


A RELIGIÃO NA POLÍTICA EM PLENO ESTADO LAICO, A CRENÇA É USADA PARA INFLUENCIAR ELEITORES E DECISÕES QUE ATINGEM A SOCIEDADE ALINE EBERHARDT, LETICIA SZCZESNY E TAINÁ FLORES

“O

u para a roubalheira ou paramos o Brasil”. “É golpe contra a democracia!”. Desde que as ruas de diversas cidades brasileiras foram ocupadas por pessoas de todas as idades em 2013, a política está sendo vista com outros olhares. Segurando cartazes e gritando palavras de ordem por um país melhor, os jovens daquele ano continuam nessa luta. A nova geração busca a concretização de um Estado Laico, para que esse direito não fique apenas no papel da

Constituição de 1988, mas seja executado todos os dias em atitudes políticas. Com o impeachment da presidente Dilma Rousseff, as eleições municipais e a polêmica corrida presidencial americana, que teve como protagonistas Donald Trump e Hillary Clinton, 2016 se tornou o ano perfeito para falar de política. Quem não sabe nada sobre, pesquisa. Quem sabe, palestra seus ideais na rodinha de bar com os amigos. De forma sorrateira a política insiste em marcar presença em encontros religiosos. Da mesma forma, a religião cada

dia que passa sobe com mais volúpia ao tribunal dos parlamentos. Com tantas coisas acontecendo, levantam-se falhas e dúvidas na coerência da política brasileira. A começar pela velha e boa discussão: benefícios das igrejas pela isenção dos impostos. Com o olhar vidrado em cada pessoa que passava pela esquina chuvosa, o jovem, de cabelos longos e negros, apoiador de um dos candidatos à prefeitura de Porto Alegre se mostra indignado com essa questão. “As igrejas não deveriam ter benefícios financeiros, afinal, todo DOSSIÊ INVESTIGATIVO 24


LETICIA SZCZESNY

mundo ‘rala’ para pagar e eles apenas recebem”, reflete. Com panfletos já molhados e mal cuidados, ele não se cansa de expressar sua luta para uma capital melhor e responde com tom irônico ao ser abordado sobre a Frente Parlamentar Evangélica, popularmente chamada de Bancada Evangélica. “Tá ‘bem’ certo ter esse pessoal lá sendo que o Estado supostamente é laico.” Zaida Cristina, professora formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), pensa que a questão do não pagamento de impos25

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to de renda é algo para ser repensado. A lei nº 3.193, de 4 de julho de 1957 diz que é impedido lançar imposto sobre templos de qualquer culto, bens e serviços de partidos políticos, instituições de educação e de assistência social, desde que as suas rendas sejam aplicadas integralmente no País para os respectivos fins. “Então, na verdade, não são só as igrejas que tem isenção. Qualquer templo de qualquer religião é isento. É claro que acaba sendo injusto quando pensamos em igrejas que, por exemplo, arrecadam milhões de reais e não precisam pagar nada de imposto. Talvez devêssemos repensar essa lei, e fixar um valor mínimo para o pagamento do imposto”, sugere Cristina. Com as mãos entrelaçadas sobre a mesa, em uma manhã de sexta-feira, Benedito Tadeu César, cientista político e professor na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), explica que “o Estado não pode ter nenhuma religião e deve se manter afastado de todas. Isto não impede, entretanto, que as religiões e/ou seguidores de diferentes crenças organizem partidos e participem da vida política defendendo seus valores”. Composta por 87 parlamentares, a Bancada Evangélica se posiciona contra temas como aborto, casamento entre pessoas do mesmo sexo e eutanásia. Quando confrontado sobre um dos temas citados, o Pastor Gessé Inacio, formado em teologia pela Faculdade Dom Bosco e atual pastor na Igreja Batista, contestou. “Veja que a permissividade, o sexo irresponsável ocasional e, sobretudo a falta de maturidade de quem pratica, não é abordado, pelo contrário, é normal e aceito. Hoje em dia, a sociedade já não fica chocada quando crianças e adolescentes são erotizados”, exemplifica. Para ele, o foco não é colocado na raiz do problema, e sim nas consequências. De acordo com o Censo IBGE de 2010, mais de 90% dos brasileiros pertencem a alguma religião. A predominância desse percentual ainda é da Igreja Católica, com 64,6%. As eleições municipais de 2016 totalizaram 146.470.911 eleitores, segundo o Tribunal Superior Eleitoral, e desse número, 95% tem ligação com crenças. Por esse número ser tão significativo, a questão de imagens religiosas em locais públicos provocou grande

polêmica, tanto que um projeto de lei foi criado obrigando a retirada de todos os crucifixos de hospitais. Vera Beatriz Soares, assistente de coordenação do Grupo Hospitalar Conceição, explica que em 2008 a então capela do hospital passou a ser chamada de ‘espaço inter-religioso’, por ser um ambiente que aceita e respeita todas as crenças. “Quando a religião é utilizada de forma política, o sagrado dos outros não é respeitado”, afirma. Através dessa visão, Vera faz parte dos tantos brasileiros que são contra quaisquer imagens religiosas em hospitais e órgãos públicos. Benedito compactua com essa opinião. Para o cientista político, cada um tem a sua crença, mas todos estão debaixo da mesma política de uma só ordem. “Uma coisa é você ser evangélico e contra o aborto. Mas aí a sociedade inteira, que não é 100% evangélica, vai ter que conviver com a lei contra o aborto, sendo que milhares de mulheres morrem todos os dias em clínicas clandestinas. Para um cristão pode ser errado, mas e se um espírita não achar nada demais?”, exemplifica. O pastor evangélico confirma, “para um cristão é assassinato, mas quando a maioria da sociedade mudar a base de suas crenças e princípios, inevitavelmente a lei será alterada. Só que, ainda assim cristãos verdadeiros serão contra o aborto”, conclui.

DOUTRINA DA IGREJA NO PARLAMENTO

Esse ano na eleição municipal de Porto Alegre foram eleitos 36 vereadores. Desses, uma porcentagem significante tem ligação com alguma crença religiosa. O vereador João Carlos Nedel, do Partido Progressista (PP), foi reeleito para seu sexto mandato. Católico praticante, ativo nos movimentos da igreja e ministro da Sagrada Comunhão, afirma que os fiéis possuem grande participação nos votos. “Os católicos, principalmente – mas também outros cristãos – tiveram uma participação bastante significativa nessa reeleição, pois constituem cerca de 60% do meu eleitorado”. Desde seu primeiro mandato, em 1996, Nedel buscou formar um grupo de vereadores católicos, não só na capital, mas em todo o Rio Grande do Sul. Hoje, fundador do Grupo de Vereadores Católicos de Porto Alegre, ele explica


que “o objetivo é levar a Doutrina Social da Igreja para o Parlamento Municipal, fazendo com que influa nas decisões parlamentares, em busca do bem comum”. Ao contrário de Nedel, que está há anos no mundo político, Matheus Ayres, também do PP, concorreu a vereador pela primeira vez e não conseguiu se eleger ao cargo. Professor de Sociologia, formado pela PUC-RS e radialista há 10 anos na Rádio Aliança – rádio educativa e católica de Porto Alegre –, o católico praticante afirma que há dois anos foi motivado a se inserir nesse novo meio, pela situação atual do Brasil. “Deixei de lado a ‘comodidade’ das salas de aula, da rádio, para me voltar ao meio político”, conta. Quando adolescente Matheus começou sua caminhada por movimentos de jovens na igreja católica. Participou do CLJ (Curso de Liderança Juvenil), curso voltado para criar lideranças, onde recebeu forte influência no sentindo de aprender como liderar. Além disso, participou de outros grupos como, EJC (Encontro de Jovens com Cristo), Grupos de Base, Comunidade Paz e Mel, e do Setor Juventude da Arquidiocese de Porto Alegre. Esses ambientes, nos quais se convive com padres e leigos, o levaram a consolidar o entendimento de que “sempre é preciso lutar por um mundo novo, como lugar de justiça e de paz, pelo bem comum, pela dignidade da pessoa humana, pela solidariedade e fraternidade”. Durante a sua campanha política, o candidato contou com a ajuda de amigos, familiares e conhecidos. Muitas vezes as pessoas que faziam campanha para ele eram participantes da igreja, porém, Ayres alega ser algo “normal”, pois é um dos ambientes onde ele está inserido quase que diariamente. “Eu faço parte da igreja. Então eu preciso promover a minha candidatura dentre os meus pares - mas não dentro da igreja - pois é o mundo que eu vivo. Além disso, não somente na igreja, mas em todos os ambientes que vivo. Em todos eles, procurei e procurarei sempre promover a minha candidatura”, explicou Matheus quando o questionamos sobre a propaganda política em ambientes próximos à igreja. O candidato a vereador afirma ter conhecimento da lei, e de regimentos internos da constituição brasileira de que não se deve usar a instituição re-

ligiosa dentro da sua manifestação de culto para meios políticos. A lei, porém, parece não ser a única motivação para Matheus não se utilizar disso, ele crê que “não se pode misturar dentro de um culto, um pronunciamento de candidatura, ou outras atividades que peçam a retribuição de algo aos fiéis, seja voto, dinheiro ou apoio”. Explica que, como professor, decidiu por não fazer campanha dentro das duas escolas em que atua e nem em momentos em que estava sendo pago por elas. Essa medida ética exigiu muito mais esforço para se promover, pois teve que ir encontrar com essas pessoas em outros ambientes, como em suas casas. Antes e depois das missas, nos ambientes privativos, como em reuniões internas, almoços, nos chás, nas atividades sociais, Matheus fez sua campanha e contou com a ajuda dos amigos e irmãos da igreja. De forma mais didática ele exemplifica que o que acontece nos arredores ou dentro das instituições religiosas, também acontece em outros ambientes. “Vou usar como exemplo um grupo de escoteiros. Durante as atividades do grupo, as famílias, os jovens, estão ali, mas não se pode fazer campanha. Porém, antes ou depois, nos grupos do ‘Whatsapp’, nas jantas, no almoço, aí sim pode!”. Ele ainda completa falando que se um jogador de futebol resolvesse ser candidato “não deveria fazer sua campanha durante o horário de trabalho, dentro do campo, ou em momentos pagos pela instituição que presta serviço”.

COSTUME PASSADO DE GERAÇÃO PARA GERAÇÃO

Imagens de santos espalhadas pelas prateleiras, penteadeiras e máquinas de costura, se misturam com uma quantidade exuberante de objetos guardados para lembrar-se do passado. Nesse cenário é que vive uma senhora com os cabelos já esbranquiçados pelo tempo, que não dorme sem rezar ao menos um terço por dia – isso se não reza mais – e que todo domingo caminha devagar rumo à missa. Ela foi criada na Igreja Católica, foi batizada logo que nasceu, fez a comunhão, o crisma, e sempre que pôde participou de alguma atividade dentro de sua paróquia. É perto de uma imagem grande de Nossa Senhora dos Navegantes, que ela deixa um rádio preto e pequeno ligado

o dia inteiro na Rádio Aliança. Quando seus filhos chegam para visitá-la, antes mesmo do ‘oi’, já lhe pedem ‘benção’. Ela sempre ensinou aos filhos e posteriormente aos netos que deveriam rezar e nunca trocar de religião, pois haviam sido batizados na Igreja Católica e como devota acredita que “o batismo é só um”. Por mais que já não seja obrigada a votar, ela nunca deixa de comparecer às urnas e afirma que enquanto puder escolher e ir até o local, cumprirá com a sua cidadania. Uma noite, enquanto suas filhas conversavam sobre os candidatos à prefeitura de Porto Alegre e a situação da segurança no bairro onde moram, a senhora, penteando os seus cabelos molhados do banho, se aproximou: “Vocês já têm em quem votar para vereador?”. Sem entender quase nada, algumas responderam que sim e outras que não. Então, ela foi a uma de suas penteadeiras e pegou um papelzinho, mais conhecido como santinho, de um candidato a vereador – ela deve ter no mínimo cinco santinhos guardados. Aproximou-se delas e disse: “Votem nele porque ele é da igreja e trabalha na Rádio Aliança”. Essa é apenas uma de muitas pessoas que acabam votando em algum candidato só pelo fato de participar da mesma instituição religiosa que a sua. Na maioria das vezes, por mais que eles tentem participar e se manter informado sobre as questões políticas atuais, acabam votando sem nem mesmo entender e analisar as propostas do candidato. Isso, porém, não acontece somente com idosos, mas com outras pessoas que não entendem ou não gostam de política. Acabam votando por influência de alguém de confiança, como alguém de sua igreja. Católicos. Evangélicos. Umbandistas. Espíritas. Alguns rezam e fazem promessas aos santos - como a senhora - outros deixam suas oferendas aos deuses. Cada pessoa tem uma forma de pensar e crer em algo ou alguém. Porém, a política, a partir do momento em que o candidato é eleito democraticamente, é somente uma para todas as religiões. É imprescindível que a mistura entre religião e política não seja mais um tabu. Dois pontos fortes que hoje, por descuido, estão cada vez mais ligados, quando na verdade deveriam ser separados. Nossa política. Sua religião. DOSSIÊ INVESTIGATIVO 26


RECICLAGEM OSMAR NETO, RAFAEL ACOSTA E RENATO KUBASZEWSKI

O LIXO NOSSO DE CADA DIA DIARIAMENTE SÃO PRODUZIDAS NA CAPITAL CERCA DE DUAS MIL TONELADAS DE LIXO, MAS NEM TODO ESTE MATERIAL É DESCARTADO CORRETAMENTE

Q

ue a situação do nosso meio ambiente não é nada favorável, já estamos cansados de saber. Na maioria dos casos culpamos o poder público, com o argumento primário de que “pagamos impostos” e, por isso, temos o direito de ter tudo nas melhores condições. Mas não é tão simples. Também indicado como um dos principais agentes, os cidadãos que produzem todos estes resíduos têm sua parcela de culpa. Mas afinal, quem são os responsáveis por todo o processo de coleta do lixo em nossa Capital? Para respondermos esta pergunta, é necessário saber onde tudo começa. O Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU) é o responsável legal pelos detritos produzidos na cidade de Porto Alegre, desde a disponibilização de centros de coleta até a educação ambiental da população. Existem diversas etapas, divididas e pautadas em um plano de 143 ações voltadas exclusivamente para gerir esta situação. Na Capital são produzidas diariamente cerca de duas mil toneladas de lixo. Destas, 1.200 são resíduos orgânicos e 800 são recicláveis. Este material é levado para centros de coleta e triagem e, posteriormente, o que for aproveitado será vendido à indústria. O que não for comercializado é encaminhado diretamente para o Aterro Sanitário de Minas do Leão - local que comporta o lixo de nossa cidade e de mais outros 80 municípios. O problema é que parte dos resíduos produzidos não são coletados pelo DMLU e acabam indo para destinos indevidos. O aterro evita que haja a corrosão do solo pelo chorume a médio prazo. Mas esta não é a solução ideal, uma vez que o local onde é armazenado o lixonão traz resultados a longo prazo. A redução da produção é inevitável e o processo de conscientização deve abranger não só o melhor destino para 27

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o resíduo, mas também visar a menor produção do mesmo.

GESTÃO INTEGRADA DE RESÍDUOS SÓLIDOS

A socióloga e coordenadora do Serviço de Assessoria Socioambiental (SASA), Gisane Gomes, apresentou as principais competências do órgão e algumas das ações do Plano Municipal de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos (PMIGRS). O documento traz algumas informações sobre a coleta de lixo de Porto Alegre. Segundo o PMIGRS, não há mais nenhum lixão na Capital. Além disso, todas as ruas do munícipio que possuem capacidade para a passagem de caminhão recebem coleta seletiva. O Plano também informa que há 17 pontos para coleta, que são separados pelo tipo de resíduo a ser descartado. Gisane também explica como é feita a educação ambiental dos cidadãos. Ela afirma que o processo é realizado por meio de cursos de capacitação para pessoas que são chamadas de “multiplicadores”. Estes seriam líderes sociais, chefes de sindicato, presidente de associações de bairros, donos de empresas e membros de escolas. Os “multiplicadores” se abastecem de informações nos cursos e depois repassam para as comunidades onde estão inseridos. Em tempos de crise, as verbas para as aulas diminuíram. O DMLU só consegue realizá-las duas vezes ao ano, dificultando a disseminação da cultura fundamental para a expansão do conhecimento. Em relação a estrutura técnica, além dos pontos de coleta e do aterro de Minas do Leão, existem 111 caminhões, sendo 74 para coleta domiciliar e 37 para coleta seletiva. Há mais de 2.400 mil contêineres e nove caminhões automatizados que são disponibilizados todos os dias para o recolhi-

mento de lixo orgânico. Além disso, há cerca de 30 pessoas contratadas para vigiar os depósitos indevidos de resíduos, aplicando multas que variam de R$270,00 até R$4.900,00, dependendo da quantidade, tipo e local onde for realizado o delito. Entretanto, a situação ainda está longe do ideal. Gisane avalia que falta muito ainda para a Capital atingir um nível de excelência. “Os resultados são bons, mas ainda não são o que se espera. Hoje o que é coletado é pouco comparado ao que as pessoas dispensam. Fica difícil avaliar, há uma crise financeira muito grande. Não se sabe dizer se a população separa ou não seus resíduos. A lei diz que a coleta seletiva precisa ser feita, mas existem grandes instituições e empresas que não a fazem.”

TRIAGEM SANTÍSSIMA TRINDADE

Na Unidade de Triagem (UT) Santíssima Trindade localizada na rua Bernardino Silveira do Amorim, no bairro Rubem Berta, zona Norte de Porto Alegre, o processo para a triagem dos resíduos e para a organização das unidades cooperativas são feitos. A assistente social Jovana do Amaral é uma das três pessoas responsáveis por gerir a UT. Contratada pela prefeitura de Porto Alegre, por meio do programa “Todos Somos Porto Alegre”, ela é a administradora da associação dos catadores da Vila Dique. Com alguns problemas de gestão, a unidade que foi inaugurada há cerca de cinco anos, chegou a ficar alguns meses inativa e voltou ao trabalho recentemente. Além dos gestores, há outros 22 funcionários, que moram nas imediações da unidade e trabalham no local. Eles são divididos entre triagem, “bamboneiros” (que são quem carregam as bombonas com o material selecionado


RAFAEL ACOSTA

RECICLAGEM

RECICLAGEM DE RESÍDUOS É O SUSTENTO DE FAMÍLIAS NA CAPITAL GAÚCHA

para depósito nos silos correspondentes), os que comandam a prensa e trabalhadores fixos que trabalham na limpeza das ruas. Os contratados pela cooperativa fazem uma jornada de segunda à sexta-feira, das 8h30min às 12h e das 13h às 17h. São quase oito horas de muito suor para poder gerar os lucros ao final do mês. Jovana conta um pouco sobre a rotina destas pessoas: “Aqui eles tiram cerca de setenta reais por semana, o que da mais ou menos trezentos por mês. Isso não dá para nada. Em outras unidades, como a do Chocolatão, os “recicladores”, como gostam de ser chamados, conseguem lucrar até mil reais mensais.” Nesses locais, os trabalhadores fazem a separação de plástico, papel, embalagens longa vida, vidro e isopor. Prensam, agrupam em fardos e negociam de forma independente a venda destes materiais para a indústria de reciclagem e/ou reaproveitamento. O valor recebido por este material é dividido igualmente entre todos ao final do mês. Além do que é reciclável, a unidade recebe também óleo de cozinha, que é devidamente guardado e encaminha-

do para o seu destino. Existem 17 Unidades de Reciclagem pela cidade, e a assistente social faz um apelo pelo pouco material que recebem, sendo esta a principal dificuldade. A UT não recebe materiais de empresas, que têm locais específicos para descarte de lixo. Mesmo assim, há incidência de erros neste processo e, por conta disto, acabam recebendo multas. “O problema é o descaso. Não falta lixo, a produção não diminuiu, mas as pessoas não descartam corretamente. Falta conscientização. É importante para a nossa sociedade, nossos filhos e nossos netos. Claro que gostaríamos que produzissem menos, mas o que já foi produzido, que ao menos levem para o destino correto, tragam pra gente”, ressalta Jovana. A Prefeitura de Porto Alegre fornece toda infraestrutura para as unidades de tratamento e garante a manutenção do local com R$ 3.500,00 por mês.

CONSCIENTIZAR PARA TRANSFORMAR

O pedreiro Alvim Manoel Alves, de 63 anos, é morador do bairro Santa

Rosa, na zona Norte da Capital, e conta um pouco de sua história. Alvim sempre teve o costume de jogar o resto de obras na rua. Ele sabia que era errado e até se envergonhava da sua atitude. “Eu procurava fazer isso durante a madrugada para que não fosse visto”, confessa. Reconhecer o erro foi o primeiro passo para a conscientização. Há quatro anos, Alvim deposita seus resíduos quase que diariamente na Unidade de Destino Certo, localizado na avenida Bernardino Silveira do Amorim, que recebe apenas materiais que não são coletados pelos caminhões, como restos de obras, móveis velhos, podas de árvores, terra e afins. Assim como ele, há muitos casos de pessoas que nasceram em locais com menor estrutura técnica, social e financeira, e ainda assim fazem a sua parte. Em alguns casos, a própria população se destina a fazer o trabalho de terceiros, obtendo sua renda a partir da reciclagem. Mas, infelizmente, a grande maioria despeja o lixo em locais inapropriados que não podem ser “salvos”, o que torna o terreno infértil e poluído pelas substâncias geradas pelo material ali descartado. DOSSIÊ INVESTIGATIVO 28


CONSCIENTIZAÇÃO ALICE FORTES, ANA HOFFMANN, CARINE BECKER, CRISTINE FOGLIATI, LIDIANE DE OLIVEIRA E VIVIANE DOS SANTOS

DESRESPEITO À VIDA DOS ANIMAIS ENQUANTO ALGUNS VIRAM MERCADORIA, OUTROS SÃO ABANDONADOS

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Constituição Federal dispõe, ainda que em linhas gerais, em seu artigo 225, §2º, inciso VII, que incumbe ao Poder Público “proteger a fauna e a flora, vedadas, na forma da lei, as práticas que coloquem em risco sua função ecológica, provoquem a extinção de espécies ou submetam os animais a crueldade”. O Decreto-Lei nº 24.645/34 prescreve pena para todo aquele que em lugar público ou privado aplicar ou fizer aplicar maus tratos aos animais. Tal ato incorre em multa e pena de prisão celular de 2 a 15 dias, seja o delinquente respectivo ou não proprietário. No âmbito internacional, a Declaração Universal dos Direitos dos Animais (UNESCO, 1978), prescreve que todo o animal possui direitos. Na vida real, não é bem assim que acontece. “As pessoas não têm muita noção de responsabilidade com os seus animais” - acusa o veterinário Tiago Conceição, que há mais de 15 anos atua na área e dedica sua vida à causa animal. Para ele, o abandono é questão de saúde pública e, por isso, ele ressalta a importância da divulgação da vacinação para

o controle de reprodução das doenças e também de como o Estado tem um papel fundamental nessa história. A Secretaria Especial dos Direitos Animais (SEDA) de Porto Alegre atende cães e gatos de famílias em situação de vulnerabilidade há mais de cinco anos, com prioridade em controle populacional destes. Sendo esta a capital brasileira com maior número de residências com bichos de estimação, até o primeiro semestre deste ano já foram registradas 1.557 adoções por meio do programa “Me Adota”. Para ampliar a capacidade de aten­ dimento e as possibilidades de tratamento, com recursos dados pelo empresário industrial Alexandre Grendene, aconteceu em 26 de dezembro de 2016 a abertura da Unidade de Saúde Animal Victória - primeiro hospital gratuito municipal do país. Apesar disto, a abertura oficial depende da aprovação do plano de Prevenção e Proteção Contra Incêndio (PPCI), que é indispensável para a obtenção do “Habite-se”, e também da licença do Conselho Regional de Medicina Veterinária. Ainda é preciso que a Câmara de Vereadores aprove a criação dos cargos para a contratação de veterinários.

A VOZ DO ABANDONO Andar de carro com a minha família é meu passeio favorito. Ou era. Em uma noite dessas ao passear de carro me levaram rumo a um lugar desconhecido. Meu pai abriu a porta do carro. Eu desci sem olhar para trás. Tinha certeza de que eles estariam logo ali. Mas não foi o que aconteceu. Eles se foram. Fiquei ali, estático, esperando. Ninguém voltou. Eu chorei. Nem latia. Enquanto estava lá, uma senhora assistia tudo. Ela veio até onde eu estava. Me pegou e me abraçou forte contra o peito. Senti que ficaria tudo bem. Não é que ela tinha razão? Me levou para um lugar cheio de latidos amigos. Estava sendo bem tratado, mas ainda faltava algo. Foi quando eles apareceram, e me escolheram, ou será que eu os escolhi? Bom, agora, passado o trauma, tenho um novo lar e até um lugarzinho na cama. A minha história se repete centenas de vezes todos os dias. Até quando os humanos vão deixar isso acontecer?

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Para a Psicóloga do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul, Miriam Vucetic, o contato com um animal ajuda no desenvolvimento do vínculo afetivo, com benefícios como reciprocidade de afeto e de companhia. Esta experiência positiva é transferida para a vida do indivíduo e para as suas relações interpessoais. “O abono animal é uma ação de frieza emocional próprias da psicopatia, por serem seres indefesos”, destaca a psicóloga.

TODA A AJUDA É SEMPRE BEMVINDA

Fundada em 2004, a ONG “101 Vira-latas”, situada em Viamão, tem o compromisso com a prática do resgate animal. Contando com a ajuda de voluntários para limpeza, alimentação e manutenção do espaço, ela auxilia mais de 400 cães e gatos. A cuidadora Vladete Orestes enfatiza que precisam de mais voluntários e qualquer tipo de ajuda necessária, como apadrinhando ou até mesmo adotando um dos bichinhos resgatados. Para ajudar, basta acessar o site www.101viralatas.com. br e contribuir.

TRÁFICO DE ANIMAIS SILVESTRES

Segundo a ONU (Organização das Nações Unidas), o tráfico de animais silvestres é considerado a terceira atividade clandestina mais lucrativa do mundo, perdendo apenas para o tráfico de drogas e de armas. Cerca de 10 bilhões de dólares são gerados por ano com a comercialização destes animais. O Brasil funciona como uma das principais fontes para esse mercado devido a sua biodiversidade. O lucro anual do país chega a 1,5 bilhões de reais por ano. De acordo com a ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), cerca de 1.173 espécies


entraram para a estatística de animais ameaçados de extinção. Um dos principais fatores é a venda ilegal. Relatórios da Polícia Federal apontam que todos os anos cerca de 38 milhões de animais são retirados do seu habitat natural no país, sendo 40% deles vendidos para o exterior. A principal rota de tráfico do país é no sentido da região Nordeste para a Sudeste. São redes organizadas para burlar o sistema de fiscalização das rodovias do país, que tem seu público alvo localizado nos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo. Os métodos utilizados para a captura são diversos e não visam a integridade dos animais. O principal método utilizado para a captura de aves é feito através de uma rede de material sintético e, muitas vezes, algumas partes das aves que ficaram presas à rede são cortadas, para não danificar o material de auto custo para os traficantes. De todos os bichos retirados do seu habitat natural, apenas 10% das espécies sobrevivem. Isso significa que de dez animais silvestres retirados da natureza pelo tráfico, apenas um sobrevive. O fator deve-se ao transporte, que é feito de forma cruel. Segundo a WWF (Word Protection Animal), é através de caminhões, ônibus interestaduais e carros particulares que a maioria destes animais são transportados. A propagação de doenças entre eles também é um dos fatores para mortalidade. “O transporte ilegal não visa a saúde dos animais, muito menos o seu bem-estar. Os animais morrem de sede, fome, calor, frio ou pela transmissão maciça de doenças, como a Clamidiose” - explica o médico veterinário e especialista em silvestres, Fábio Schüür. Os maus-tratos não se limitam àquilo: alguns animais são mutilados para que transmitam uma imagem de “mansos” ao comprador, além de serem cegados, forçados a ingerir altos níveis de sedativos e bebidas alcoólicas ou terem suas asas, garras e dentes cortados. Para o major Rodrigo Gonçalves, a compra de animais silvestres só tem uma explicação: “É a vaidade, só pode!”. Trabalhando na área desde 1998, o major começou no apoio aos órgãos de fiscalização ambiental. Ele afirma que, embora seja prazeroso, existe uma frustração: “As pessoas não entendem o quanto atingem o ecossistema. Precisamos dele para sobreviver. Quando se

DIVULGAÇÃO/DOSSIÊ INVESTIGATIVO

CONSCIENTIZAÇÃO

ANIMAIS SILVESTRES RECEBEM CUIDADOS VETERINÁRIOS APÓS SEREM RESGATADOS

entender isso, o restante será automático. Não existe a necessidade de captura destes animais e mesmo assim ela é realizada, ilegalmente e legalmente. Até que ponto a natureza aguentará?”, questiona. É considerado traficante de animais tanto quem vende, quanto quem compra. Hoje, no Brasil, a pessoa que realiza a compra de qualquer espécie em extinção é enquadrada na mesma lei de quem traficou o animal, conforme a Lei Federal nº 9.605, de 12 de fevereiro de 1998 - esteja ela ciente ou não de que está cometendo um crime.

O RISCO DO DESCONHECIDO

A criação de espécies fora do seu habitat natural, pode causar mudanças no ecossistema. A cadeia alimentar é interligada por meio destes animais também e alguns possuem papéis fundamentais, como a polinização e a dispersão de sementes. Segundo o professor e especialista em silvestres do Centro Universitário Ritter dos Reis (UniRitter), Fabio Aldabo Schüür, muitas vezes a população acaba por fazer um resgate de um animal para cuidar de seus ferimentos e nunca mais o devolve para a natureza. “Diferente do tráfico de drogas, onde se pode ter uma figura de usuário, no tráfico de animais silvestres isso não existe. Todos são considerados traficantes”, completa. Foi assim que Pedrinho chegou a família da enfermeira Viviane. O papagaio, que já está com a família há 36

anos, não possui registro legal no IBAMA (Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis). Embora Viviane acredite que seja necessário o registro ambiental, por estar tanto tempo com o animal na família, não se preocupa mais com isso. O papagaio que foi dado de presente por um vizinho ao pai de Viviane, já está ambientado aos costumes da família, Viviane descreve a relação como algo normal: “‘Eu não acho que ele é maltratado. Por isso não acredito que ele deveria ir para seu habitat natural neste momento, com a idade que já tem, porque é considerado um papagaio idoso’’. Cuidar de um animal silvestre requer espaço e muito conhecimento sobre a espécie. Esse conhecimento que levou a aposentada Solange Carey, de 64 anos, a legalizar Chucka: ‘’Antes de cuidar da Chuka, tive outros macacos. Gosto deste tipo de animal’’, diz. A dona de casa ganhou a macaca do marido. De acordo com Solange, foi importante ir ao IBAMA para entender como poderia ficar com a macaca sem ser negligente. Lá, pediram que sua casa sofresse algumas apropriações para espécie, e alguns exames feitos foram essenciais para o veredito do órgão. “Ela ficou comigo porque não tinha condições de viver mais de 13 anos na natureza. Comigo já está há 35 anos”, orgulha-se Solange. O processo não é fácil e requer paciência, mas quem gosta de animais silvestres deve sempre observar qual o melhor caminho para a preservação da mesma. Cuidar do ecossistema é obrigação de quem o utiliza. DOSSIÊ INVESTIGATIVO 30


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DOSSIÊ INVESTIGATIVO nº 1 (2016/2)  

Textos desenvolvidos na disciplina de Jornalismo Investigativo, na Faculdade de Comunicação Social da Uniritter, no segundo semestre de 2016...

DOSSIÊ INVESTIGATIVO nº 1 (2016/2)  

Textos desenvolvidos na disciplina de Jornalismo Investigativo, na Faculdade de Comunicação Social da Uniritter, no segundo semestre de 2016...

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