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“As palavras”, de Eugénio de Andrade

São como um cristal, As palavras. Algumas, um punhal, Um incêndio. Outras, Orvalho apenas.

Porque se celebram os 800 anos da Língua Portuguesa, porque é dia da Poesia, da Árvore e da Floresta e a SEMANA DA LEITURA, a equipa da BECRE pede que leia um poema com os alunos. Obrigada!

Secretas vêm, cheias de memória. Inseguras navegam: Barcos ou beijos, as águas estremecem. Desamparadas, inocentes, Leves. Tecidas são de luz E são a noite. E mesmo pálidas Verdes paraísos lembram ainda. Quem as escuta? Quem As recolhe, assim, Cruéis, desfeitas, Nas suas conchas puras?

“As Palavras Interditas”, de Eugénio de Andrade Os navios existem, e existe o teu rosto encostado ao rosto dos navios. Sem nenhum destino flutuam nas cidades, partem no vento, regressam nos rios. Na areia branca, onde o tempo começa, uma criança passa de costas para o mar. Anoitece. Não há dúvida, anoitece. É preciso partir, é preciso ficar. Os hospitais cobrem-se de cinza. Ondas de sombra quebram nas esquinas. Amo-te... E entram pela janela as primeiras luzes das colinas. As palavras que te envio são interditas até, meu amor, pelo halo das searas; se alguma regressasse, nem já reconhecia o teu nome nas suas curvas claras. Dói-me esta água, este ar que se respira, dói-me esta solidão de pedra escura, estas mãos nocturnas onde aperto os meus dias quebrados na cintura. E a noite cresce apaixonadamente. Nas suas margens nuas, desoladas, cada homem tem apenas para dar um horizonte de cidades bombardeadas.


“O Teu Olhar”, de Florbela Espanca

“Viagem”, de Miguel Torga

Passam no teu olhar nobres cortejos,

É o vento que me leva.

Frotas, pendões ao vento sobranceiros,

O vento lusitano.

Lindos versos de antigos romanceiros,

É este sopro humano

Céus do Oriente, em brasa, como beijos,

Universal Que enfuna a inquietação de Portugal.

Mares onde não cabem teus desejos;

É esta fúria de loucura mansa

Passam no teu olhar mundos inteiros,

Que tudo alcança

Todo um povo de heróis e marinheiros,

Sem alcançar.

Lanças nuas em rútilos lampejos;

Que vai de céu em céu, De mar em mar,

Passam lendas e sonhos e milagres!

Até nunca chegar.

Passa a Índia, a visão do Infante em Sagres,

E esta tentação de me encontrar

Em centelhas de crença e de certeza!

Mais rico de amargura Nas pausas da ventura

E ao sentir-se tão grande, ao ver-te assim, Amor, julgo trazer dentro de mim Um pedaço da terra portuguesa!

De me procurar...


“Língua Portuguesa”, de Olavo Bilac

“Amostra sem valor”, de António Gedeão

Última flor do Lácio, inculta e bela, És, a um tempo, esplendor e sepultura: Ouro nativo, que na ganga impura A bruta mina entre os cascalhos vela

Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém. Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível: com ele se entretém e se julga intangível.

Amo-te assim, desconhecida e obscura Tuba de algo clangor, lira singela, Que tens o trom e o silvo da procela, E o arrolo da saudade e da ternura! Amo o teu viço agreste e o teu aroma

Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu, sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito, que o respirar de um só, mesmo que seja o meu, não pesa num total que tende para infinito.

De virgens selvas e de oceano largo! Amo-te, ó rude e doloroso idioma, Em que da voz materna ouvi: "meu filho!", E em que Camões chorou, no exílio amargo, O génio sem ventura e o amor sem brilho!

Eu sei que as dimensões impiedosos da Vida ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo, nesta insignificância, gratuita e desvalida, Universo sou eu, com nebulosas e tudo.


JORGE SOUSA BRAGA, in HERBÁRIO (Assírio & Alvim, 1999)

As árvores como os livros têm folhas e margens lisas ou recortadas, e capas (isto é copas) e capítulos de flores e letras de oiro nas lombadas.

E são histórias de reis, histórias de fadas as mais fantásticas aventuras, que se podem ler nas suas páginas, no pecíolo, no limbo, nas nervuras.

As florestas são imensas bibliotecas, e até há florestas especializadas, com faias, bétulas e um letreiro a dizer: «Floresta das zonas temperadas».

É evidente que não podes plantar no teu quarto, plátanos ou azinheiras. Para começar a construir uma biblioteca, basta um vaso de sardinheiras.



21 de março