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Comunicação e Cultura Educação Comunicação e Multimédia

Diferenciação cultural Análise Pragmática da cultura e da comunicação Filme: “Os Deuses Devem Estar Loucos”

Curso: Educação e Comunicação Multimédia Disciplina: Cultura e Comunicação Docente: Doutor José Orta Discentes: Dora Estevão, nº 10917

Novembro, 2010 1 Dora Estevão


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Índice INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................................................................3 1. O FILME “OS DEUSES DEVEM ESTAR LOUCOS”.....................................................................................................................4 1.1. CARACTERIZAÇÃO DO BOTSWANA..............................................................................................................................................4 1.2. DESCRIÇÃO DO FILME ................................................................................................................................................................4 2. ESTRUTURAS SOCIAIS DAS SOCIEDADES AFRICANAS TRADICIONAIS..............................................................................6 2.1. SOCIEDADE DE CAÇADORES RECOLECTORES ................................................................................................................................6 2.1.1. Os Bushman (Bosquímanos) .....................................................................................................................................6 2.2. SOCIEDADE SEGMENTÁRIAS LINHAGEIRAS...................................................................................................................................8 2.2.1. Tswana .........................................................................................................................................................................8 2.3. SOCIEDADE TRIBUTÁRIA.............................................................................................................................................................9 2.3.1. Sociedade Contempo rânea (Civilizada) ..................................................................................................................9 3. DIVERSIDADES SOCIAIS E CULTURAIS .................................................................................................................................. 10 3.1. ETNOCENTRISMO CULTURAL ................................................................................................................................................... 10 3.2. RELATIVISMO CULTURAL ........................................................................................................................................................ 12 3.3. PROBLEMAS COMUNICACIONAIS............................................................................................................................................. 13 CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................................................................................................. 14 BIBLIOGRAFIA ................................................................................................................................................................................ 15 WEBGRAFIA ................................................................................................................................................................................... 15

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Introdução

Com o presente documento pretendo abordar as diversidades sociais e culturais existentes em diferentes sociedades, baseando-me no filme “Os Deuses devem estar loucos”. Este filme é considerado por muitos uma das comédias mais provocantes e originais, que nos fa z pensar na nossa vida e no que poderemos estar a perder. Numa primeira análise considerei interessante saber mais acerca do país onde o filme foi realizado, fazendo também uma síntese do filme sob uma perspectiva de análise antropológica e sociocultural em que foco as estruturas sociais das sociedades africanas tradicionais. Um objecto simples como uma garrafa de Coca-Cola, leva- nos a uma viagem inter-cultural, onde se verificam comportamentos etnocêntricos, antropológicos, de relativismo cultural e comunicacionais. As sociedades diferenciadas pelas culturas, ritmos de desenvolvimento e linguagens poderão conviver pacificamente? Será necessário civilizar primeiro as sociedades mais primitivas?

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1. O filme “Os Deuses devem estar loucos” 1.1. Caracterização do Botswana O Botswana ou Botsuana é um país da África Austral, limitado a oeste e norte pela Namíbia, a leste pelo Zimbábue e a sul pela África do Sul. A capital do Botswana é Gaborone. O Botswana situa-se numa zona árida do interior da África meridional. O deserto do Kalahari ocupa o sudoeste do país, e a norte a depressão de Mababe é parcialmente ocupada pelo pântano do Okavango, onde termina o curso do rio Okavango, proveniente da Namíbia. O principal rio é, no entanto, o Limpopo, q ue constitui parte da fronteira sul, com a África do Sul. O clima varia de desértico a semiárido, com invernos suaves e verões quentes. Os principais grupos étnicos do Botswana são Tsuana, Kalanga, Khoisan ou AbaThwa, entre outros. Outros grupos étnicos no Botswana incluem brancos e indianos, que são considerados minorias que compõe 1% da população. O setswan é a segunda língua mais falada pelos habitantes e o termo utilizado para descrever a cultura do Botswana. “!Kung San”, significa “O Povo Real”.

1.2. Descrição do filme Este filme, bastante interessante e lúdico, mostra-nos paisagens de África de grande esplendor e riqueza. O enredo do filme leva-nos a reflectir sobre nós próprios, e sobre os outros, como reagimos perante novas situações e como reagimos perante a mudança. O filme relata a aventura de Xi, um Bosquímano do deserto do Kalahari (“deserto de fósseis”), no Botswana, que vive numa pacífica e ingénua comunidade onde reina a calma, e, onde os deuses são considerados seres divinos que lhes trazem a felicidade, até que um dia, “miraculosamente,” lhes enviam um presente ao deixarem cair uma garrafa de Coca-Cola. De inicio, tudo era felicidade, e “a coisa”, como lhe passam a chamar, tinha características desconhecidas como a dureza e transparência. Toda a comunidade cobiçava este utensílio que se tornou para muitos indispensável no seu quotidiano. Esta garrafa de Coca-Cola vira de pernas para o ar esta simples tribo africana. Todos desejavam possuir a “coisa”. Esta gera tristeza, 4 Dora Estevão


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infelicidade, inveja, discussão e até violência, situações caracter ísticas de uma sociedade civilizada. Qual teria sido o motivo dos Deuses em enviar uma “coisa má” pelos céus? Teria sido um engano, ou descuido por parte dos Deuses? Esta “coisa má” não pertencia à terra tinha de ser deitada fora para que não houvessem mais discórdias e conflitos na tribo. A aventura começa quando Xi toma a decisão de ir até ao “fim da Terra” com o propósito de se livrar da “coisa má”. Esta personagem simples e ingénua depara-se então com inesperadas e novas situações de encontros que não reconhece na sua cultura, como por exemplo, quando encontrou a professora Miss Thompson, uma mulher de pele clara e bastante feia segundo os seus conceitos de beleza. O Xi diverte-se bastante quando contacta com as tecnologias da sociedade dita “civilizada”, por exemplo quando conduz o automóvel mas só de marcha a trás. Este bosquímano tão diferente de nós quer no seu aspecto físico, quer na linguagem que utiliza, na maneira de olhar o mundo à sua volta, nas atitudes e comportamentos em determinadas situações, interpreta situações bastante caricatas e divertidas. O filme acaba quando o bosquímano chega ao lugar onde “vivem os deuses", o cimo de uma montanha, onde existe um precipício nublado em que não se vislumbra o horizonte, e atira para bem longe a tal “coisa má”, objecto da discórdia da sua tribo. Regressa de imediato à sua tribo onde depois de tantas aventuras e desventuras é recebido como um herói com mais conhecimento. Xi está convencido que tudo voltará a ser como era antes e que tudo se resolveu, não reflectindo que se aconteceu uma vez poderão acontecer outras mais. Mais-dia- menos dia a sociedade civilizada irá influenciar a vida da sua tribo e ai ele não puderá fazer nada.

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2. Estruturas sociais das sociedades africanas tradicionais O filme retrata três sociedades com características bem definidas, não só pelos costumes e tradições mas também por significados únicos.

2.1. Sociedade de caçadores recolectores Como sabemos, os caçadores-recolectores mais conhecidos em África são os pigmeus e os bosquímanos. Os primeiros habitam tradicionalmente a floresta tropical, enquanto que os segundos foram empurrados pela invasão dos seus vizinhos agricultores para a região árida do Kalahari. Os caçadores-recolectores vivem como predadores à custa da natureza. Quer d izer que não transformam os ecossistemas naturais nos quais se fixaram. Frequentes vezes, exagerou-se a indigência e a precária vida económica e física desses grupos.

2.1.1. Os Bushman (Bosquímanos) Os bosquímanos é a designação de uma família de grupos étnicos existentes na região sudoeste de África, que partilham algumas características físicas e linguísticas. A comunidade Bosquímana vive no deserto do Kalahari, conhecido como “deserto de fósseis”, zona inóspita e seca. Os bosquímanos são uma tribo arcaica africana que vive isolada de outras culturas e ignoram a existência de outros povos para além deles. Organizam-se em pequenos grupos que variam entre 20 a 50 indivíduos, e onde reina a paz, a harmonia entre o ambiente e o indivíduo. Os bosquímanos actuais podem ser descendentes de povos de caçadores-recolectores, ou seja, vivem da caça e da recolecção. Existe uma divisão social nas actividades, os homens caçam e recolectam frutas e tubérculos, as mulheres cozinham e tratam das crianças. Não sabem o que é a agricultura e a pastorícia. Não tem definido o conceito de trabalho mas de actividade. São um povo nómada, vivem do nomadismo, estão dependentes da natureza e do que esta lhe pode oferecer, quando não existe alimento têm de se deslocar. Quanto ma is raro for o bem mais valioso se torna. Vive-se numa economia de subsistência onde pouco transformam a natureza. 6 Dora Estevão


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Não existem normas, regras ou leis, nem tem que obedecer a autoridades. Não tem a noção do significado do direito de propriedade. Os objectos que utilizam vêm da natureza e existem em grande número, são utilizados no seu quotidiano sem disputas. O tempo não tem qualquer importância. A estrutura do parentesco assenta numa estrutura plurifuncional, o parentesco é a única estrutura social, é ele que organiza as actividades produtivas, as relações de poder, as relações sociais e a actividade e as relações simbólicas. A sua organização política, chamada de gerontocrática, assenta em dois chefes, um mais velho e outro mais ágil. O mais velho é considerado o guardião da terra, ou seja, é o representante vivo dos antepassados míticos, tem mais experiência e mais sabedoria. O mais ágil é o melhor caçador e assume também a função de sacerdote. Quanto às crenças religiosas acreditam nos Deuses (politeístas) e tudo o que vem do céu é uma oferenda destes. Acreditam que os Deuses são seres divinos que lhes trazem a felicidade. Respeitam os animais e quando os matam pedem- lhe desculpas, sendo necessário para alimentar a família. Os bosquimanos têm uma estranha forma de comunicar, a sua linguagem está repleta de pequenos estalidos produzidos pela língua ao aspirar o ar (Zhun! Twasi, o sinal de exclamação, significa o “estalo” da língua). Estes estalidos estão mais próximos dos sons dos animais do que da fala humana. Os bosquímanos são pequenos em estatura mas grandes na sua alma, os homens adultos medem 157cm para um peso de 46kg e as mulheres medem 147cm para um peso de 41kg, em média. Este povo é considerado o mais antigo da África Austral, uma vez que muitos estudiosos os consideram como o último elo que nos une à antiga existência de caçadores-recolectores, um modo de vida comum a toda a humanidade até há cerca de 10.000 anos, no tempo em que os seres humanos ainda não domesticavam os animais nem semeavam cereais. Actualmente, os bosquímanos vivem à beira da extinção cultural, são um dos povos aborígenes mais intensamente estudados do planeta.

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2.2. Sociedade segmentárias linhageiras 2.2.1. Tswana

Os Tswana, vizinhos do Kalahari, chegaram há 1.200 anos, chamam- lhes "o povo que nada possui", são considerados intrusos e vagabundos. Os tswanas são um povo que habita o Botsuana e a África do Sul. A língua tswana pertence ao grupo nigero-congolesas. Os tswanas são o grupo maioritário do Botswana. O termo tswana é por vezes utilizado para indicar os naturais deste país de forma simples. A sociedade dos Tswana é uniestrutural, organizando-se através do parentesco (plurifuncional). Este é considerado “uma realidade social e não necessariamente biológica ”. (Orta, 1991). A sociedade segmentária é a sociedade baseada nas relações de parentesco, organizam-se em clãs segmentados. Os clãs são famílias grandes com relações de parentesco com duas ou mais gerações. Existem duas classes sociais distintas, os clãs aristocráticos e os clãs não aristocráticos que se diferenciam pela riqueza do território em colheitas e pastagens e pelo poder económico. Este povo é sedentário, já é capaz de transformar a natureza porque dedicam-se à agricultura, pastorícia e à caça, domesticação de animais, as tarefas dividem-se, as mulheres dedicam-se ao cultivo da terra e os homens à pastorícia e à caça. Com o domínio da natureza consegem arrecadar grandes reservas de sementes. Estão mais independentes da natureza, a fome diminui. O gado de grande porte alimenta a família em ocasiões de festa como casamentos, batizados e outros rituais. Com o surgimento da idade do ferro, desenvolvem utensilios mais fortes para tratar a terra. Tem autoridades superiores e leis pelas quais se regem. São os mais velhos, os sacerdotes e os ferreiros que tem mais poder político para dirigir a família. O poder político é gerontocrático. As ditas oferendas são agora obrigações em forma de imposto, o que origina um estado contributivo. Já têm instrução primária, o que os leva a inserir-se numa sociedade moderna. Dá-se o interculturalismo quando a professora ensina e é ensinada. O interculturalismo implica a integração de indivíduos e grupos étnicos minoritários numa sociedade com uma cultura diferente. As minorias étnicas podem expressar e manter elementos distintivos da sua cultura ancestral, especialmente em relação à língua e à religião. Existe a religião, a magia, o culto dos mortos, os rituais de caça e da chuva. 8 Dora Estevão


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2.3. Sociedade tributária 2.3.1. Sociedade Contemporânea (Civilizada) Esta sociedade refere-se ao Mundo Ocidental, chamado de “civilizado” e complexo. O homem inventou a tecnologia para viver e/ou sobreviver. Estas novas tecnologias poupam- nos trabalho, facilitam- nos na locomoção, na comunicação, na produção, etc. Vivemos num mundo globalizado em que temos de nos adaptar à mudança. A família é composta pelo pai, mãe e filho(s). Vivemos em grandes cidades com aglomerados de casas e usufruímos de grandes infra-estruturas. As nossas acções são geridas pelo tempo, este causa-nos stress pois vivemos em contra-relógio, temos horas para acordar, trabalhar, divertir, namorar e dormir. Orientamo-nos por regras e leis cujo desrespeito é punido com multa ou mesmo a prisão. Estas regras existem para promover o respeito e a igualdade pelo próximo. Temos representantes políticos que intercedem pelas necessidades e anseios do seu povo. A linguagem é desenvolvida em vários contextos. O modelo económico é o capitalismo. A sociedade é capitalista, consumista e individualista. A necessidade crescente do indivíduo precisar cada vez mais de se qualificar, estudar, informar, é um processo solitário, mesmo que aconteça em grupo. O surgimento das novas tecnologias (ex. Internet), provocam o afastamentos dos indivíduos inibindo as relações interpessoais. A comunicação é feita em tempo real ou a distância, deixando em determinadas situações de existir a comunicação presencial. Cada indivíduo tem a sua crença e fé, que deve ser respeitada por todos.

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3. Diversidades sociais e culturais Sob o lema da diversidade cultural, todos diferentes, todos iguais. Simplesmente devemos aceitar os outros como são, na verdade somos todos iguais e pertencermos à mesma espécie embora possamos ter culturas diferentes. Os estudos antropológicos permitiram- nos conhecer melhor determinadas culturas e assim evitar os impactos da diversidade social e cultural. Actualmente

procura-se

na

nossa

cultura,

acima de

tudo,

respeitar o

indivíduo,

independentemente das suas crenças ou convicções. É necessário aceitar o outro, aprendendo a tolerar as suas diferenças para uma convivência amigável e pacífica.

3.1. Etnocentrismo Cultural O etnocentrismo é a atitude pela qual um indivíduo ou um grupo social, que se considera o sistema de referência, julga outros indivíduos ou grupos à luz dos seus próprios valores. Pressupõe que o indivíduo, ou grupo de referência, se considere superior àqueles que ele julga, como se fosse o centro da realidade, isto é, a cultura do seu próprio povo é a medida de todas as outras. Esta atitude é um preconceito universal, que no seu extremismo se transforma em discriminação e racismo podendo acabar em guerra. Deve-se encarar o etnocentrismo como um reconhecimento da diversidade cultural e nunca como uma imposição dos nossos costumes numa outra cultura. No filme deparamo-nos com alguns momentos em que este fenómeno acontece. O bosquímano em certas ocasiões não entende nada do que se passa à sua volta, uma vez que ele desconhece determinadas atitudes, comportamentos e significados. A garrafa de Coca-Cola perturbou a cultura da tribo dos bosquímanos provocando sentimentos tais como: inveja, ódio, discórdia, discussões, violência, tristeza e infelicidade. Estes adjectivos antes da chegada da garrafa não faziam parte das acções desta tribo, estes adjectivos fazem parte da sociedade moderna, dita civilizada. Na odisseia do bosquímano em devolver a garrafa aos Deuses, encontra pela primeira vez uma mulher da civilização moderna. Ele ficou surpreendido ao ver pessoas de cores muito claras, e pensou que fossem Deuses, desconhecia que haviam outros povos e outros seres humanos para além da sua tribo e do seu povo. Tomo atitudes consideradas de etnocêntricas, porque segundo o conceito que ele tem de beleza, considerou esta mulher como

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muito pálida e feia parecendo até uma bruxa que fazia coisas muito estranhas. A Miss Thompson enquadra-se nos padrões de beleza da sociedade civilizada. Vê a mulher branca a mudar de roupa e acha que ela está muito vestida, considera que um jipe é um animal de pernas redondas que deixa marcas como duas cobras, desconhece que o pau que o pastor tem à volta da cintura é uma arma e para que serve, etc. Surge outra situação quando o bosquímano ao desconhecer as regras e leis da sociedade civilizada comete um crime ao matar um animal que estava a pastar mas que pertencia ao rebanho dos tswana. Ele não tem a noção do que é a propriedade privada e caça para se alimentar como sempre fez na sua tribo. O pastor que guardava o rebanho apercebe-se do sucedido e chama a polícia que lhe tira o animal e acusa de furto. O bosquímano não entende nada do que se está a passar pois pensa que lhes estão a roubar a caça para também eles comerem. As autoridades da cultura tswana decidiram então levá- lo a tribunal e acusá- lo de crime, impondo as suas regras. O bosquímano não entendeu o que se passou e os tswana também não perceberam que ele agiu de acordo com a sua cultura. Mpudi é o ajudante de Sr. Steyn, conhece a cultura dos bosquímanos e sabe respeitar as suas diferenças culturais. Ele conhece bem a realidade deste povo, foi resgatado do deserto por uma tribo de bosquímanos e com eles viveu três anos, aprendeu os seus costumes, valores e linguagem. Mpudi é solicitado como intérprete de Xi, no julgamento demonstra grande sabedoria e compreensão quando mesmo conhecendo o código linguístico do bosquímano decide não introduzir na linguagem de Xi nenhum conceito novo como prisão, julgamento, culpado, etc. Mpudi está a preservar a cultura dos bosquímanos e a respeitar as diferenças sócio-culturais existentes nestas culturas. O bosquímano é declarado culpado pelo tribunal e deve cumprir três meses de prisão, o que significa a morte de Xi, este ao ver-se fechado desconhecendo o porquê deixa de se alimentar. Os bosquímanos não têm noção do tempo. Os tswana têm a sua cultura própria limitando-se apenas a seguir as suas leis. O etnocentrismo acontece quando uma cultura que se considera como centro do universo, só consegue ver o mundo a partir de uma cosmovisão, atribui aos fenómenos significados que lhe são familiares. É necessário que o etnocentrismo cultural possa ser substituído pelo relativismo cultural.

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3.2. Relativismo Cultural O relativismo cultural só faz sentido no interior de uma cultura, defende que cada cultura tem os seus próprios valores e que por isso só pode ser plenamente compreendida a partir de dentro. As partes fazem sentido e são dotadas de significado na interacção com outros elementos da cultura. Princípio que afirma que todos os sistemas culturais são intrinsecamente iguais em valor, e que os aspectos característicos de cada um têm de ser avaliados e explicados dentro do contexto do sistema em que aparecem. Numa visita, Mpudi tem uma ideia para libertar o bosquimano da prisão. Mpudi tentou evitar que o Xi fosse condenado por leis e por uma cultura em que ele não está inserido. Este comportamento é considerado de relativismo cultural porque os conhecimentos que o Mpudi tinha das duas culturas fez com que ele conseguisse que o bosquímano cumprisse a pena em liberdade e junto da natureza. É então que o bosquimano passa a ocupar o posto de auxiliar do Sr. Steyn nos assuntos relacionado com a natureza, pois é o que ele sabe fazer melhor na sua tribo, ele é um caçador nato. Xi revela-se bastante eficiente no desempenho das suas novas funções e é graças à sua perspicácia que consegue descobrir a professora e as crianças que, foram feitas reféns por bandidos e que se deslocam a pé pelo meio do deserto. Nos três meses Xi aprende muitas coisas sobre outras culturas o que significa que existe interculturalismo. Miss Thompson, uma jornalista de um país civilizado decide leccionar numa aldeia do Botswana, pais que está em guerra. Kate está decidida em trocar o seu mundo complexo pela pacatez de uma aldeia em África. A jovem professora desconhece as culturas existentes naquele território, mas está disposta a aprender os seus costumes e tradições. Neste contexto, existem grandes diferenças culturais “choque cultural”, entre as diversas culturas presentes no filme. O bosquímano na sua tribo é considerado um ídolo, é um chefe ágil e é o melhor caçador, mas no mundo considerado civilizado é um selvagem. Segundo Papalagui, teremos de adquirir um relativismo cultural onde deixe de haver raças. Temos de ver o outro como um outro diferente, contudo igual à nossa essência. Assim sendo, em cada cultura os traços essenciais só são percebidos no interior da cultura, ou seja, o elemento cultural só faz sentido no interior da cultura.

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3.3. Problemas Comunicacionais

Esta odisseia no Botswana demonstra que existem muitos problemas comunicacionais entre as diversas culturas presentes, não partilham os mesmos códigos linguísticos, conceitos, valores, tradições, costumes, etc. A garrafa perturbou a cultura e dificultou a comunicação originando um mau ambiente de discórdia e infelicidade. Os tswanas para expressar concordância utilizam o gesto que normalmente, na sociedade civilizada se utiliza para dizer não. Sr. Steyn e Miss Thompson cruzam-se com os tswanas, povo com quem Steyn está habituado a interagir utilizando a linguagem verbal e não verbal. Mas a professora ao desconhecer a linguagem dos tswanas está fora do contexto e não entende nada, pois a mensagem não é clara, para ela o abanar de cabeça tem um significado diferente, o que gera bastante confusão. Os códigos linguísticos são bastante diferentes o que origina interacções desastrosas em termos de comunicação. Em várias cenas do filme também pudemos verificar as dificuldades que o bosquímano tinha em se fazer entender, embora ele se esforçasse, tudo era em vão, porque ninguém o entendia. As intervenções do tradutor Mpudi tiveram muita importância na comunicação entre as diversas culturas, porque não só traduzia a língua como também tinha em conta a diversidade de cultura do emissor e do receptor nas mensagens que traduzia, preservou sempre a cultura do bosquímano não introduzindo novos conceitos. Sr. Andrew Steyn é um biólogo que vive isolado do mundo civilizado por opção própria, pois tem aversão à socialização com outros indivíduos, têm dificuldades em comunicar com Miss Thompson, apesar de possuírem os mesmos padrões culturais. Por vezes, quando tem que interagir com outros indivíduos fica nervoso e só faz asneiras. Os problemas comunicacionais dificultam as relações humanas, ou seja, a língua, os códigos comunicacionais diferentes ao nível da linguagem gestual, o desconhecimento dos costumes de determinadas sociedades, impedem a comunicação. Neste filme e no mundo global, verifica-se que existe diversidade de culturas, as culturas estão em rota de colisão. Cada povo tem a sua forma de pensar, agir, sentir, viver, conviver, de se relacionar com o próximo, etc. Cada povo tem a sua herança cultural. Há que saber respeitar a cultura de cada povo para vivermos todos em harmonia!

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Considerações Finais Considero que os conceitos estudados na disciplina de Cultura e Comunicação estão presentes neste trabalho. Este filme é um documentário relativo à diversidade de culturas existentes. A situação caricata da garrafa de Coca-Cola, leva-nos a reflectir sobre a forma como encaramos as situações novas e inesperadas. O filme faz-nos rir mas não será que nos estamos a rir de nós próprios? O ser humano por natureza não gosta da mudança, tem dificuldade em lidar com ela mas deve adaptar-se o mais rapidamente a ela, porque ela é cada vez mais frequente e imprevisível na sociedade moderna. A mudança não deve ser ignorada, deve ser tida em conta. Tendemos a rejeitar atitudes que possam alterar o rumo das nossas vidas. Todas as sociedades têm diferenças, existe diversidade cultural de região para região, de país para país, de cidade para cidade, de aldeia para aldeia, de bairro para bairro, de família para família e até de indivíduo para indivíduo. Mas todas as culturas devem ser respeitadas. Será que não temos inveja destas sociedades primitivas, será que não desejamos fazer uma regressão ao passado quando a civilização surgiu e tentar corrigir os erros? É de louvar a relação que estas tribos têm com a sua família, comunidade, animais, o respeito pelo ser vivo, e como são felizes sem nenhuma comodidade. Devemos ter consciência que somos seres humanos da mesma espécie mas temos culturas diferentes. Se entendermos esta situação conseguimos enfrentar todos os desafios do futuro. Devemos aceitar o outro como ele é e aprender a tolerar as suas imperfeições. Se todos pensassem assim não existiriam guerras e todos viveríamos felizes e em harmonia. Todos diferentes, todos iguais!

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Bibliografia

Agoire, Emiliano. (1979). A Origem do Homem. Biblioteca Salvar nº8. Editora Salvar Liames, Rachara. (1989). As Origens do Homem. Editorial Presença Morri, Edgar. (1973). O Paradigma Perdido. Lisboa. Publicações Europa-América Orta, José A., (1991). Os domínios da antropologia. Ler Educação – nº 4, Janeiro/Abri. Escola Superior de Educação Sheurmann, Erich. (1999). O Papalagui. Discursos de tuiavii, chefe de tribo de Tiavéa nos Mares do Sul (Samoa). Edições Antígona – Lisboa

Webgrafia http://pt.wikipedia.org/ http://recantodasletras.uol.com.br/resenhasdefilmes/1272984 http://www.ipv.pt/millenium/pers13_2.htm http://katarsis2.blogspot.com/2009/01/comentrio-do-filme-os-deuses-devem.html http://forum4611.blogspot.com/2008/05/os-bosqumanos-todos-ns-recordamos-este.html

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Deuses devem estar Loucos  

Reflexão sobre o Filme: "Os Deuses devem estar Loucos".

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