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Anderson Araújo Ilustrações: Rodrigo Cantalício

Cidade do

improvável Dignas de qualquer enredo fantástico. Essa é a melhor definição para os “causos” nascidos e multiplicados [em exageros] sob as mangueiras de Belém.

U

ma cidade em que os zeppelins não voam, passeiam entre os carros e a multinacional Coca-Cola, toda poderosa das bebidas gaseificadas, foi vencida pela concorrência local. No subterrâneo, segredos tenebrosos e fugas espetaculares entre túneis secretos ligando igrejas históricas. Nesta urbe, os ricos eram tão ricos que mandavam lavar suas roupas com o melhor e mais cheiroso sabão do mundo, nas melhores lavanderias europeias. Ainda que encravada no meio da floresta, a conexão com a economia global era imediata desde sempre, tanto que quando Nova Iorque viveu o terror da quebra da bolsa de valores, em 1929, as empresas da cidadela amazônica sentiram o abalo sísmico do sistema financeiro e quebraram junto. O quadro se encaixa com perfeição como pano de fundo de uma novela de Dias Gomes ou na literatura de realismo fantástico de mestres como Gabriel García Márquez. Mas, longe dos livros e das fábulas, são histórias que permeiam o imaginário da principal cidade da Amazônia: Belém, que por essas e outras é tida como a cidade das coisas impossíveis, onde o improvável se materializa, o imponderável se apresenta em carne e osso e a realidade se dilui em ficção, misturando o que é o que não é nas conversas de esquina, nos balcões dos botecos, no boato aumentado, de boca em boca, ao longo dos anos. A RLM foi buscar o “fundo de verdade” – se é que existe – em histórias pitorescas alimentadas

pela imaginação belenense. Não as lendas e assombrações, que são muitas e estão flutuando no “fabulário” geral da cidade, em livros e ainda nas conversas sussurrantes nas portas de casa, apesar das luzes do século 21 e seus problemas intrínsecos e nada sobrenaturais. O interesse é nas curiosidades históricas repetidas como boatos, mentiras, verdades alteradas e até mesmo com precisão, embora pouca gente saiba do que de fato está falando. Belém e os zeppelins Para quem duvida que os zeppelins circularam nas ruas de Belém, um clique no Google mostra os ônibus criados no formato das máquinas voadoras, cuja invenção está nos créditos do Conde Ferdinand Von Zeppelin, dos Países Baixos, com patente de 1895. Porém, há registros que o aparelho aeronáutico foi, na verdade, invenção de um paraense: Júlio Cezar Ribeiro de Souza, nascido no Acará em 13 de junho de 1843. É dele o mérito de colocar no ar o primeiro dirigível fusiforme dissimétrico do mundo, o “Le Victoria”, com 10 metros de comprimento, conforme relato da imprensa francesa. O protótipo voou em Belém no ano de 1881, em demonstrações públicas. A imagem do dirigível em Belém foi feita por fotógrafos da revista norte-americana Life, em 1957, e bate com a história contada por Marcelo Magalhães, sobrinho-neto do empresário da família Abraão que teve a ideia de adaptar um »»»

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Revista Leal Moreria nº 41  

Ney Matogrosso Cada vez mais atento aos sinais e novos compositores

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