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COLABORADORES 11.04.2010

Tem gringo na laje MARIO GUERREIRO *

Se você não sabia, fique sabendo que, no Rio de Janeiro, somente a favela da Rocinha atrai cerca de 40.000 turistas por ano, 65% europeus. Com esta quantidade de visitantes estrangeiros, a Rocinha tornou-se uma verdadeira atração turística mais importante do que o MAM (Museu de Arte Moderna) e a Igreja barroca de São Sebastião, onde está o marco de fundação da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Estou certo de que, a esta altura, o leitor curioso e indagador deve estar perguntando para si mesmo: “O que há de tão atraente na Favela da Rocinha?” Certamente, a vista lá do alto apresenta uma bela panorâmica da Praia de São Conrado e do mar, mas, no Rio, a vista de qualquer elevação voltada para a orla marítima mostra uma deslumbrante paisagem. De onde se conclui que pode ser também isso, mas não é somente isso, com certeza. De acordo com a socióloga Bianca Medeiros, autora do estudo “Gringo na Laje” (Rio, Editora da FGV), que fez uma pesquisa de campo, uma das causas dessa nova modalidade de turismo foi a vida numa favela mostrada pelo filme “Cidade de Deus” [numa alusão ao livro do mesmo nome escrito por Santo Agostinho e considerado por alguns historiadores da Filosofia como a “República” de Platão cristianizada. Evidentemente, o santo e filósofo jamais pensaria que o título de sua obra acabaria denominando um favelão carioca. Greta Garbo, quem diria?, acabou no Irajá]... Mas que coisas afinal atraem tão grande número de turistas, além da belíssima paisagem descortinada lá do alto? Segundo Bianca Medeiros, que fez pessoalmente um “reality tour” num jipe Rocinha acima e entrevistou muitos turistas e moradores da favela, os olhos dos estrangeiros estão voltados para a


miséria, mais especificamente para as áreas com lixo, galinhas ciscando, casebres e negros. De acordo com a matéria publicada em O Globo em 7/4/2010, “As imagens de prosperidade não são destacadas”, não que não as haja, porque as há por incrível que pareça “Nos relatos sobre a visita, turistas sequer mencionam sobre o possível mau cheiro vindo de casas ou ruas. Mesmo assim, eles gostam de destacar as fotos de lixo”. Laura Antunes, a autora da matéria “Gringo na Laje” Leva Rocinha à Europa, diz que Bianca Medeiros acentua essa “contradição”. Que contradição? O que é repelente para o olfato não o é necessariamente para a visão e vice-versa. Além disso, fotografia capta formas e cores, mas não odores! Laura prossegue comentando mais uma aguçada observação feita pela pesquisa de campo da supramencionada socióloga: “Algo que a equipe [de pesquisa] percebeu foi que os turistas nacionais rejeitam totalmente o passeio na favela”. Por que? Será porque não apreciam as belas paisagens vistas de um esplêndido belvedere vicino al mare? Será que têm medo de serem atingidos por balas perdidas? Ora, balas perdidas podem atingir qualquer um em qualquer lugar, rico ou pobre, do Rio de Janeiro! Será porque não sentem vergonha da miséria do Haiti, mas sentem da miséria de favelas do Rio e de muitas cidades de seu País? Nada disso! A socióloga Bianca Medeiros nos esclarece: “Na Rocinha, 99% dos turistas são estrangeiros. Tanto que os guias que acompanham os grupos têm dificuldade em falar o texto em português”. Ora bolas, diante de tão elevada percentagem, os organizadores dos “reality tours” deviam estar munidos de textos em inglês e espanhol e os próprios guias deviam falar, no mínimo, essas duas línguas! Mas não é essa a razão pela qual os turistas nacionais mostram-se refratários a percorrer as ruelas da Rocinha. Bianca fornece o precioso esclarecimento de ordem sociológica:


“O preconceito que o turista nacional tem em relação à favela [obs. minha: creio que a socióloga não se refere especificamente à Favela da Rocinha, mas sim à toda e qualquer favela] é muito barra pesada. Ele evita a aproximação”. Mas parece que isto é uma idiossincrasia dos brasileiros, porque os turistas estrangeiros –Reitero que 65% dos quais são europeus! – não apresentam nenhum preconceito em relação às favelas e aos favelados. Os sociólogos brasileiros, assim como políticos em época de eleições, costumam visitar as favelas do Rio - tendo preconceitos ou não – por dever de ofício ou à cata de eleitores, respectivamente. E estes não são exatamente o que se pode chamar de turistas, ao menos no sentido literal do termo. Mas por que estranha razão os turistas nacionais sentem esse preconceito referido pela socióloga? Parece que miséria só é boa de se ver quando não é a própria e/ou quando é na terra dos outros. Talvez isto explique a razão de tantos turistas nacionais, que se recusam a fazer um “reality tour” na Rocinha ou mesmo em qualquer favela nacional, gostem tanto de fazer o mesmo viajando para ver a miséria de Cuba e do Haiti. Ô louco meu! Esse turismo da miséria na terra dos outros não é uma exclusividade do turismo no Brasil. Como nos esclarece a articulista de O Globo: “Esse tipo de turismo é uma tendência global. As favelas de Soweto, na África do Sul, e Khayelitsha em Mumbai (Índia) também recebem milhares de visitantes”. Certamente não os turistas nacionais dos dois respectivos países! De fato, turismo da miséria só mesmo na terra dos outros. A proximidade da miséria pode ser um espetáculo triste e deprimente, mas a distância da mesma é algo exótico e apreciável. E talvez isto explique a razão pela qual VIPs da mídia como Bill Clinton, Michael Jackson e Madonna, que talvez nunca tenham feito um tour pelo Bronx (Nova Iorque) já os fizeram por favelas do Rio. Lembro-me bem da notável visita do garanhão Bill à Favela da Mangueira. Ele, sorrindo o tempo todo, e os favelados simplesmente eufóricos com a visita de tão


ilustre personagem que, até então, só conheciam na tela da televisão. O finado Jamelão - o maior puxador de samba da Mangueira de todos os tempos – entrevistado pela mídia, declarou que “o povo estava mais feliz do que pinto no lixo” [obs. minha: Tanto no sentido figurado como no literal!]. Mas essa reação do povo da Mangueira é a mesma do povo da Rocinha com a presença que se tornou habitual de muitos turistas. Segundo Bianca Medeiros, “o morador da Rocinha sabe que o turista chega à comunidade [obs. minha: eufemismo de favela na linguagem politicamente correta dos sociólogos] com a intenção de ver de perto as tão propaladas violência e pobreza”... [obs. minha: Segundo a já mencionada visão preconceituosa, é claro!]. ... “Mas também sabe que, através desse visitante é possível mudar no exterior o estigma de que se trata de área violenta, onde as pessoas vivem na pobreza”. De fato, trata-se de um odioso e inaceitável estigma, uma vez que se trata de uma área pacífica e seus moradores estão muito longe de viver na pobreza. Ocorre infelizmente que, fora do Brasil, há uma imagem extremamente distorcida e demeritória do nosso País: é preciso mudar a imagem do Brasil, uma vez que não podemos mesmo mudar a feia realidade. Mas há uma pergunta que não quer se calar: Por que razão o ser humano encontra grande prazer em ver a miséria dos outros e/ou na terra dos outros e não encontra nenhum prazer em ver sua própria miséria e/ou a miséria na sua própria terra? Dizer que “pimenta nos olhos dos outros é refresco” é repetir um surrado provérbio. Não é de causar espécie que o ser humano procure o prazer e fuja da dor, isto já sabia Aristóteles em priscas eras, muito antes de Jeremy Bentham e Sigmund Freud. O que causa espécie é que o sofrimento dos outros seja causa do prazer de algumas pessoas. Em outras palavras: há quem ganhe muito dinheiro fotografando a miséria do Terceiro Mundo. Há mesmo um famoso fotógrafo brasileiro que enriqueceu com


a miséria alheia. Mas, neste caso, a miséria é apenas um meio anódino, para alcançar um fim prazeroso e, como sabemos, os fins justificam plenamente os meios... Porém, quando o turismo é apenas um meio e ver a miséria dos outros passa a ser um fim, esse tipo de turista só pode ser um grande sádico ou um fútil desmiolado (tertium non datur).

* Doutor em Filosofia pela UFRJ. Professor Adjunto IV do Depto. de Filosofia da UFRJ. Membro Fundador da Sociedade Brasileira de Análise Filosófica. Membro Fundador da Sociedade de Economia Personalista. Membro do Instituto Liberal do Rio de Janeiro e da Sociedade de Estudos Filosóficos e Interdisciplinares da UniverCidade.


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