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COLABORADORES 14.10.09

Olim piadas de mau gosto no Rio em 2016 MARIO GUERREIRO *

Grande euforia tomou de assalto o Rio, e não era um mais um grande arrastão. O povo na rua. Gente enrolada na bandeira nacional. Patriotismo mais exaltado do que o dos argentinos às vésperas da invasão das Ilhas Falkland, que eles insistiam e ainda insistem em chamar de Malvinas e proclamar que são deles. Tudo isso porque o Rio derrotou Chicago, Madri e Tóquio na acirrada disputa pela sede das Olim Piadas em 2016. Inacreditável! Unbelievable! Incroyable! Ungläublich! Isto significa dizer que para o COI (Comitê Olímpico Internacional), o Rio – uma Chicago dos anos 30, mas sem Elliot Ness e Os Intocáveis – está mais apto do que a Chicago de hoje patrocinada por Barack Obama, que a capacidade econômica e administrativa nipônica bem como o know-how turístico espanhol são inferiores aos da Bruzundanga de Lima Barreto. Porém, temo que no Rio as Olimpíadas nada mais serão que Olim Piadas. E de muito mau gosto. E não sou só eu e o Muricy - o técnico do Palmeiras numa arrasadora entrevista na TV - que pensam assim: um dos jornais econômicos mais respeitados do mundo não se mostrou nem um pouco entusiasmado com a péssima escolha do COI. Na edição da semana passada, a respeitada revista britânica The Economist alertou para os altos custos das Olimpíadas de 2016 no Rio de Janeiro. A referida publicação duvida que os US$ 14,5 bilhões estimados, só para as obras de infraestrutura, sejam “utilizados de maneira produtiva”. Além disso, fez uma afirmação capaz da causar espécie, mesmo nos brasileiros mais aficcionados dos esportes e mais politicamente alienados: foram gastos quase US$ 50 milhões para pagar o apoio de Pelé e de Paulo Coelho aos Jogos. Uau!


Supondo que esta estarrecedora observação do The Economist seja verdade – e não tenho motivos para desconfiar da idoneidade jornalística dessa tradicional revista da imprensa especializada – nunca o espírito esportivo e o amor pela “Cidade Maravilhosa” foram tão bem remunerados. Mas isto fez parte do marquetingue para impressionar a mídia internacional e o COI, assim como Lula tem gasto bilhões para promover a escolha do Brasil para um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Convenhamos que uma potência bélica como o Gigante Adormecido não pode continuar ausente do referido órgão! Duas hipóteses para a surpreendente vitória: Movidos por interesses meramente politiqueiros, os membros do Comitê Olímpico ou Olimpiadístico resolveram fazer a primeira Olim Piada numa cidade da América do Sul. A outra hipótese é tão infamante que - tal como a Copélia do Toma Lá, Dá Cá da TV Globo - prefiro não comentar. Não obstante, est’outra parece muito mais provável. Imagine só se a competentíssima administração pública brasileira conseguirá terminar as fabulosas obras prometidas, quando até agora só foram concluídas 10% das obras do PAC (Plano para Alavancar a Companheira) e outras tantas só existem em fachadas ou foram apontadas como suspeitas de graves irregularidades pelo TCU (Tribunal de Contas da União), um tribunal de mentirinha que só pode exercer mesmo o jus sperniandi, o inalienável direito de espernear. A despesa total das Olim Piadas já tem um orçamento de R$ 28.000.000.000,00 - vinte e oito bilhões de reais, é mole ou quer mais?! -Deve ser maior do que o destinado à Educação. E como sabemos, obras públicas sempre fazem um orçamento por baixo, que costuma aumentar muito ao longo dos trabalhos e, às vezes, termina quase o dobro do orçamento inicial. Quem financia as Olim Piadas? Os governos municipal, estadual e federal, com uma participação da iniciativa privada de Eike Batista, que acabou de comprar de Eduardo Paes a Marina da Glória, para ancorar seu pequeno iate, mas cujas ações de seu conglomerado de empresas estão entre as menos valorizadas na Bolsa. Será que ele está acreditando que o megaevento das Olimpiadas vai alavancar a Bolsa e ele ser beneficiado como “carona” (free-rider)?!


De onde vem tanto dinheiro? Só pode vir de duas fontes: empréstimos internacionais aumentando nossa dívida externa e do bolso do vampirizado contribuinte que já paga 72 impostos com efeito cascata. Paga muito, mas paga feliz, porque geralmente não sabe que paga. Acha mesmo que imposto é preocupação somente de ricos, i.e., menos de irrisórios 10% da população de pagadores de impostos. E o retorno do investimento? Na melhor das hipóteses, muito pouco ou nada virá sob a forma de dinheiro, supondo que não haja déficit, é claro. A maior parte virá sob a forma de supostos benefícios para a cidade, aumentando uma rede hoteleira raquítica que não tem crescido na mesma proporção em que o crime organizado tem, o que é um excelente marquetingue negativo, afugentando turistas e investidores estrangeiros desse balneário falido chamado “Cidade Maravilhosa”. “Maravilhosa”? Só mesmo para bairristas, saudosistas e deslumbrados. Para os que não são nenhuma dessas coisas: Cidade de Mara Velhosa. Mas nem só de pão vive o homem: vive de circo também. Daí a famosa fórmula romana capaz de satisfazer a gregos, troianos e soteropolitanos: Panes et circenses. Porém, há dois poderosos obstáculos capazes de impedir as massas de assistir aos jogos das Olim Piadas e se sentirem realizadas em seu esportivo espírito patriótico: a grande deficiência de transportes e o caos no trânsito, associados ao salgado preço dos ingressos para os estádios e demais locais de competições. [Isto para não mencionar o transtorno causado ao cidadão carioca, que só terá uma vantagem nas malfadadas Olim Piadas: uma trégua com o crime organizado, seja pelos tanques do Exército nas ruas, seja por um pacto feito pelo governo com a criminalidade ou talvez mesmo por ambas as coisas. Mas só durante o megaevento...]. E essa é a razão pela qual não se aumentam os preços dos ingressos do Estádio Mário Filho, o Maracanã. Se com preços baixos, quando comparados aos da Itália e da Espanha, eles estão cada vez mais vazios, imagine só se os preços aumentam... Aí mesmo que os clubes de futebol do Rio ficam de pires na mão e vão todos para a terceirona. É claro que nossa eficientíssima e incorruptibilíssima administração pública resolverá esse problema construindo 8 estações de Metrô. Fará em 7 anos o que não fez em 15,


bem como duplicará nossa sucateada rede hoteleira, entre outras notáveis obras prometidas. Meu caro, você ainda acredita em Papai Noel? Se não a acredita no bom velhinho, por que ainda põe seu sapatinho na janela e acredita piamente em mirabolantes promessas de políticos?! Resta aguardar 7 anos, para constatar o grande fracasso. * Doutor em Filosofia pela UFRJ. Professor Adjunto IV do Depto. de Filosofia da UFRJ. Membro Fundador da Sociedade Brasileira de Análise Filosófica. Membro Fundador da Sociedade de Economia Personalista. Membro do Instituto Liberal do Rio de Janeiro e da Sociedade de Estudos Filosóficos e Interdisciplinares da UniverCidade.

As opiniões emitidas na Série Colaboradores são de responsabilidade exclusiva do signatário, não correspondendo, necessariamente, ao ponto de vista do Instituto Liberal. O conteúdo do artigo pode ser reproduzido uma vez citada a fonte.

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