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COLABORADORES 31.03.2011

Universidade e adversidade MARIO GUERREIRO *

Quase todo mundo sabe que o ensino brasileiro no primeiro e no segundo grau é de péssima qualidade, pior mesmo do que o de alguns países pobres da América do Sul. Esta é a avaliação feita pelos poucos pais que, sabedores da importância cada vez maior da educação, acompanham de perto a educação de seus filhos e sentem as deficiências das escolas em que estudam. No entanto, a maioria dos pais – seja por indiferença, por ignorância ou ambas – ainda não se deram conta do papel fundamental de uma boa educação para o futuro de seus filhos. A avaliação feita pelos pais baseia-se evidentemente em observações paroquiais diretas sem nenhum método de pesquisa; não obstante, elas chegam ao mesmo resultado das avaliações feitas por pesquisas embasadas em estatísticas de um número maior ou menor de escolas e cobrindo regiões mais abrangentes ou menos. Por isso mesmo é preciso levar em conta que a qualificação negativa do ensino é resultado de uma média das escolas avaliadas. Isto significa dizer que, ao qualificar o ensino como péssimo, não deixa de haver o reconhecimento de que existe um pequeno número de boas escolas, quase todas particulares e a maior parte delas de orientação religiosa, seja ela católica, evangélica, judaica, etc. As escolas públicas, no entanto, situam-se entre as piores. E nisto também a avaliação dos pais e outras pessoas interessadas no ensino coincidem com a feita pelas pesquisas.


Todavia, nem sempre isto foi assim. Nas décadas de 50 e 60, as escolas públicas eram muito melhores do que as particulares. A maioria dos pais – ainda que portadores de suficiente poder aquisitivo para pagar uma escola - costumava matricular seus filhos em escolas públicas porque sabia que o ensino oferecido por elas era muito melhor. Creio que foi por volta dos últimos anos da década de 60 que o ensino público de primeiro e segundo grau começou a se deteriorar e acabou se tornando a lástima que é hoje. E cada emenda mostra-se pior do que o soneto! Na década de 80, quando ele já estava em fase avançada de deterioração, o ensino público universitário começou a apresentar

efetivas

melhoras,

principalmente

com

o

crescimento de instituições de pesquisa como a CAPES e o CNPq, que incentivaram tanto a pesquisa como a geração de cursos de pósgraduação, isto para não falar na lei de carreira do magistério superior do general e professor Ruben Ludwig, então Ministro da Educação. Tudo isto se passou durante o regime militar e os professores universitários têm uma dívida de gratidão para com o general Ludwig e o almirante criador do CNPq, dois grandes estimuladores do ensino superior e da pesquisa em pósgraduação. Mas com a deterioração do ensino público de primeiro e de segundo grau, e com a melhora do terceiro e do quarto grau, ocorreu um fenômeno insólito: a maioria dos pais cujo poder aquisitivo era suficiente matriculava seus filhos em escolas particulares;

eles

faziam

cursinhos

de

pré-vestibular

particulares

e,

posteriormente, prestavam concurso de vestibular em universidades públicas federais ou estaduais. Por sua vez, os pais que não tinham recursos financeiros para matricular seus filhos em escolas particulares, recorriam às escolas públicas do primeiro e do segundo grau.


Como estas mesmas não os preparavam adequadamente para concorrer a vagas no ensino público superior, e como os pais careciam de recursos para pagar cursinhos de pré-vestibular, a alternativa era fazer um grande esforço financeiro matriculando-os em faculdades particulares em que os concursos, salvo pequenas exceções, eram menos difíceis e o número de vagas maior. É escusado apontar o caráter extremamente injusto dessa situação, mas para resolver a questão parece que a solução é melhorar o ensino público do primeiro e do segundo grau, de tal modo que os estudantes de menor poder aquisitivo fiquem mais bem preparados para concorrer com os de maior nos concursos de vestibular. Além disso, as universidades públicas deveriam criar cursinhos de pré-vestibular e oferecê-los gratuitamente aos que, comprovadamente, não pudessem pagar. Os custos, assim como outros das universidades públicas, poderiam ser repassados aos que, comprovadamente, pudessem pagar. Não obstante, pouco tem sido feito para gerar um ensino de primeiro e de segundo grau da melhor qualidade possível. Em vez disso, tenta-se construir uma casa não começando pelos alicerces, mas sim pelo telhado. Estamos nos referindo à Ação Afirmativa e seu sistema de quotas que, baseado num distorcido igualitarismo, tem se constituído numa séria ameaça à meritocracia. [Não é por nada que a Suprema Corte dos Estados Unidos, uma vez provocada, declarou que a Ação Afirmativa, com seus variados sistemas de cotas, é inconstitucional. Mas, no Brasil, o STF ainda não tomou uma decisão, simplesmente por não ter sido ainda provocado]. Em vez de aplicar o princípio da igualdade de oportunidades, colocando os estudantes de baixa renda num patamar mais próximo dos de maior poder aquisitivo, com boas chances de aprovação no vestibular, criaram um mostrengo


discriminatório baseado em critérios arbitrários, como o de “raça”. Competência não tem sexo nem cor! E tudo o que importa é competência! Como já escrevemos vários artigos visceralmente contra a Ação Afirmativa, não diremos aqui mais nada sobre o assunto. Preferimos abordar a questão da qualidade de nosso ensino universitário. Na média, ele é pouco menos ruim do que o ensino básico e o médio. Levando em consideração uma comparação das universidades brasileiras, reconhecemos que há um pequeno número de centros de excelência. A USP, a UNICAMP, a UFRJ, a PUC-RJ, etc. são as que têm recebido a mais alta nota do CNPq e da CAPS e estão entre as melhores do País. Destas, se destaca a USP, reconhecidamente a melhor universidade do País. Contudo, se levarmos em consideração uma comparação com universidades estrangeiras, o resultado é decepcionante e assustador, de acordo com o THE (Times Higher Education), uma instituição inglesa avaliadora das universidades no mundo, que apresenta periodicamente um ranking das universidades. O THE leva em consideração 13 requisitos na sua avaliação: entre eles, relação estudante/professor, quantidade de alunos e estudantes estrangeiros, número de trabalhos científicos publicados, ênfase na pesquisa, etc. Eis a lista das 10 primeiras no ranking da última pesquisa feita (Fonte: Folha de São Paulo, 10/3/2011): 1º Harvard (EUA), 2º MIT (EUA), 3º Cambridge (Reino Unido), 4º Berkeley (EUA), 5º Stanford (EUA), 6º Oxford (Reino Unido), 7º Princeton (EUA), 8º Tóquio (Japão), 9º Yale (EUA), 10º Instituto de Tecnologia da Califórnia (EUA). Devemos reparar que, entre essas 10 melhores, 7 são universidades americanas, duas britânicas e uma japonesa. Das universidades europeias continentais,


estando fora as britânicas, as mais bem colocadas são: uma universidade suíça (24.o lugar) e uma alemã (48o) lugar. Devemos ficar sabendo ainda que a tão decantada Sorbonne, assim como nenhuma universidade francesa, figura entre as 50 primeiras do ranking, para o indizível desgosto dos francófilos e dos intelectualóides tupiniquins. Além disso, as universidades americanas - para o desprazer dos antiamericanistas que pululam neste Brasil – ocupam a maioria dos 35 primeiros lugares. God Bless America! Mas o que é mais espantoso e constrangedor é que a USP - destacadamente a melhor de nossas universidades - ocupa um lugar na rabada, abaixo do 200o lugar!!! Que vergonha! Como é que uma república banana como a nossa tem as tolas pretensões de vir a ser uma grande potência, de figurar entre países de Primeiro Mundo e de ocupar um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU?! Sem boa educação acessível a todos e sem meritocracia como parâmetro de avaliação dos recursos humanos, não passamos de uma lagartixa pretensiosa pensando ser um jacaré. Mas, mesmo diante desse quadro deplorável, os governos Lula tiveram a desfaçatez de alardear o slogan: BRASIL: UM PAIS DE TODOS. Isto necessita uma pequena mudança: BRASIL: UM PAÍS DE TOLOS. * Doutor em Filosofia pela UFRJ. Professor Adjunto IV do Depto. de Filosofia da UFRJ. Membro Fundador da Sociedade Brasileira de Análise Filosófica. Membro Fundador da Sociedade de Economia Personalista. Membro do Instituto Liberal do Rio de Janeiro e da Sociedade de Estudos Filosóficos e Interdisciplinares da UniverCidade.

REF IMAGENS: WIKIPEDIA e SITE CAPES


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