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COLABORADORES 28.10.2011

Enfim um político franco e sincero! MARIO GUERREIRO *

Em nossas pesquisas sobre o caráter dos políticos já descobrimos um probo parlamentar. Em nosso artigo: “Incrível descoberta: há um político honesto em Brasília”, já dizíamos:

“O deputado federal José Antonio Reguffe (PDT-DF), que foi proporcionalmente o mais bem votado do país com 266.465 votos, com 18,95% dos votos válidos do DF, estreou na Câmara dos Deputados fazendo barulho. De uma tacada só, protocolou vários ofícios na Diretoria-Geral da Casa.”

“Abriu mão dos salários extras que os parlamentares recebem (14° e 15° salários), reduziu sua verba de gabinete e o número de assessores a que teria direito, de 25 para apenas 9. E tudo em caráter irrevogável, nem se ele quiser poderá voltar atrás. Além disso, reduziu em mais de 80% a cota interna do gabinete, o chamado “cotão”. Dos R$ 23.030 a que teria direito por mês, reduziu para apenas R$ 4.600.”

“Segundo os ofícios, abriu mão também de toda verba indenizatória, de toda cota de passagens aéreas e do auxílio-moradia, tudo também em caráter irrevogável.


Sozinho, vai economizar aos cofres públicos mais de R$ 2,3 milhões (isso mesmo R$ 2.300.000) nos quatro anos de mandato. Se os outros 512 deputados seguissem o seu exemplo, a economia aos cofres públicos seria superior a R$ 1,2 bilhão.”

Mas lendo O Globo em 22/10/2011, deparamos com a matéria “O príncipe de Taubaté” e descobrimos um político sincero e de uma franqueza cavalar confinando mesmo com a ingenuidade provinciana.

Ele parece até sua conterrânea, a famosa Velhinha de Taubaté, personagem de Luís Fernando Veríssimo, que acreditava em tudo que os políticos diziam.

Como sabemos, Maquiavel, em seu elenco das virtudes políticas, jamais assinalou a franqueza e sinceridade, embora não tivesse nada contra a hipocrisia e a dissimulação, desde que estas fossem eficazes na obtenção de um fim político desejado.

Mas o vereador Rodson Lima (PP), de Taubaté,

causou

espanto

nas

chamadas “redes sociais”. Numa lista criada

para

municipais

no

debater

as

Facebook,

eleições fez

um

comentário deveras surpreendente.

Estando ele hospedado num belo hotel em Aracaju (SE) num encontro promovido pela Associação Brasileira de Escola Legislativa – Que raio de coisa é esta! – que costuma reunir representantes políticos de todas as cidades do


País, ele disse abertamente que coisas como essa são financiadas com o dinheiro do povo. E disse mais:

“Nesse momento, estamos hospedados em um hotel cinco estrelas, com uma ‘big’ piscina e de frente para o mar [coisa simplesmente impossível na velha Taubaté, a 134 km de São Paulo e mais ainda do mar]. Tudo pago com dinheiro público [Disto já sabíamos, o que não empana a franqueza do declarante]. O povo me dá uma vida de príncipe” [porque é analfabeto, desinformado e burro!].

A maior parte dos comentários no Facebook foram bastante desairosos: consideraram a atitude do vereador um ‘escárnio”, um ‘vitupério’. Chamaram esse homem franco e sincero de ‘insolente’, ‘safado’, ‘cara de pau’, ‘representante da escória política’, usw.

Mas ele é também um legítimo representante do povo taubateense que o elegeu, talvez por se identificar com ele ou quem sabe se deixando levar pela baba de quiabo eleitoreira.

O vereador acrescentou: “Vivo a vida de príncipe há 15 anos. Dois motoristas [enquanto um membro da House of Commons não tem nenhum!], assessores, celular, assessoria jurídica, gabinete com ar condicionado”.

“Engenheiros que são formados em Harvard, Yale, Michigan não desfrutam disso que eu desfruto” [tanta mordomia como essa nem mesmo membros da House of Lords!].


Mas o ilustre representante de Taubaté não é um mal-agradecido: “É muita honra que o povo me dá [às custas de uma desonra para o próprio povo]. Eu sou eternamente agradecido” [e o povo eternamente engabelado].

Sabedor disso, o Conselho de Ética da Câmara Municipal de Taubaté declarou que irá analisar se houve queda de decoro parlamentar, isto que costumamos chamar de ‘decoro pra lamentar’.

Segundo a referida entidade, a viagem a Aracaju custou R$9.600,00 entre passagens, hospedagem e inscrição para o encontro de vereadores. Vamos e convenhamos: uma merrequinha, se compararmos aos muitos milhões desviados pelos ministros já afastados, e potencialmente afastáveis, de Dilmandona.

Não cabe fazer aqui a contabilidade da roubalheira. A verdade é que o vereador de Taubaté não cometeu nenhum ato ilícito. Ao contrário, participou de um encontro promovido por uma associação legalmente constituída e teve a coragem de dizer como era a festança paga com o suado dinheiro do povo.

Que injustiça! Quem diz a verdade – “duela a quién duela” – não merece castigo! E o vereador disse a verdade, somente a verdade, nada mais do que a verdade. Em sua defesa, alega ele:

“Sou de família humilde. Fui criado dormindo em esteira no chão, tomando banho em bacia e usando banheiro no mato. Hoje, estou aqui, no meio de senadores, conselheiros do Tribunal de Contas. As autoridades me chamam de


excelência. Foi isso que eu quis dizer. Passei de vassalo a uma vida de príncipe”.

Chegam a ser comoventes a sinceridade e franqueza desse homem público, que passou de mendigo a príncipe graças à grande ‘generosidade’ dos eleitores taubateenses e às imoralíssimas regalias de que desfrutam os nababos representantes de um povo, em sua maioria, “pobre de marré de si”.

Em vez de tecer imprecações, devemos encarar sua trajetória vitoriosa do ponto de vista psicológico.

Seu caso é semelhante àquele da Copa do Mundo na Inglaterra. Discutiam as autoridades e comentaristas esportivos se havia ou não a necessidade da Seleção viajar para o Reino Unido com grande antecedência, de modo a fazer uma adaptação dos jogadores às novas condições culturais.

O saudoso Nelson Rodrigues, num programa de comentaristas esportivos na TV de que fazia parte, disse algo mais ou menos assim:

“Meus amigos, vocês não estão se dando conta do grande contraste cultural. O jogador brasileiro, nascido e criado em Padre Miguel ou em Quintino, está acostumado a jogar sinuca, tomar seu cafezinho, beber sua caninha no Largo da Segunda-Feira.

De repente, se vê em Londres diante do Big Ben! Percorre toda a cidade e só encontra chá e uísque. Sente vontade de comer uma feijoada ou um mocotó,


vai a vários restaurantes e só encontra peixe com batata frita (fish and chips) e presunto com ovos (ham an’ eggs).

É demais pro pobre rapaz! O choque cultural é acachapante! Tem que haver um período de adaptação para a rapaziada”.

E também para quem dormia no chão em esteira e passa a dormir em colchão ortopédico, quem tomava banho em bacia e passa a tomar numa Jacuzzi de uma suíte em hotel de cinco estrelas...

* * *

Como dissemos, a Comissão de Ética da Câmara de Vereadores de Taubaté vai analisar se as declarações do mencionado representante do povo fere ou não o decoro parlamentar.

Mas se julgarmos pelo que disse a matéria de O Globo, essa Comissão é como um médico muito preocupado com a unha encravada de um paciente em estado terminal de câncer no fígado.

“Condenado em dois processos na Justiça Eleitoral, ele está inelegível. O Parlamentar responde ainda em 14 processos”. [N.E.: saiba mais]

Os articulistas de O Globo observam que, mesmo inelegível, Rodson Lima não parece estar disposto a renunciar à sua vida principesca. Acalenta o desejo de perpetuação de sua espécie com seus filhos ocupando seu lugar na Câmara.

De fato, não há nenhuma lei que o impeça de ser cabo eleitoral ou marqueteiro de seus filhos, como Lula foi ambos de sua preferida Dilmandona.


Declarou ele: “Tenho minha prole [coisa que não causa estranheza num exmembro do Lunpenproletariat]. Quero que eles ocupem meu lugar. Isso é tradição no Brasil, né? E eles querem trabalhar pelo povo. Um deles já trabalha na ambulância que eu comprei. É o motorista.”

Alega ele ainda inocência nos processos em que foi condenado e sua alegação apela para a mesma mentalidade assistencialista do PT de Lula e do peronismo de Cristinita Kitchen ou Evita III. [Como é sabido, a segunda foi Isabelita]. Vejam só:

“Fiz de fato e faria de novo. Enquanto tiver um cidadão desassistido pelo poder público, irei lá ajudar. Em um deles (dos processos), porque transportei pessoas doentes no carro

oficial.

No

outro

comprei

uma

ambulância junto com uma funcionária para ajudar os mais pobres. Aí disseram que eu fiquei com o dinheiro dela, mas não é verdade”.

Supondo que essa declaração seja verdadeira – e não dispomos de provas de que não seja – ela apresenta a principal causa do assistencialismo: a declarada falência do poder público em países como o Brasil e a Argentina!

* Doutor em Filosofia pela UFRJ. Professor Adjunto IV do Depto. de Filosofia da UFRJ. Membro Fundador da Sociedade Brasileira de Análise Filosófica. Membro Fundador da Sociedade de Economia Personalista. Membro do Instituto Liberal do Rio de Janeiro e da Sociedade de Estudos Filosóficos e Interdisciplinares da UniverCidade. As opiniões emitidas na Série C O L A B O R A D O R E S são de responsabilidade exclusiva do signatário, não representando a opinião do Instituto Liberal.

Este artigo pode ser reproduzido desde que citada a fonte


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Ref. Imagens: BrasilWiki; Wikipedia; Facebook/Rodson Lima

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