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Colaboradores 23.06.06

A supremacia da mediocridade As alternativas do Congresso [americano] em política energética para evitar o aquecimento global ___ Paul Driessen* Em 1774, o estadista irlandês Edmund Burke disse aos eleitores: "Seu representante deve a vocês não apenas seu trabalho mas também seu bom julgamento. E ele os trai ao invés de os servir se ele sacrifica seu julgamento à opinião dos eleitores." Duzentos anos depois, o senador americano Roman Hruska declarava: "Há muita gente medíocre. Elas merecem uma representação insignificante, não merecem?" Felizmente, o Congresso rejeitou o argumento de Hruska sobre a mediocridade na Corte Suprema. Infelizmente, os "debates” em andamento sobre política energética sugerem que as pessoas medíocres estão sobre-representadas no Senado e na Câmara, e os bons julgamentos foram substituídos por opiniões e demagogia. A produção de petróleo nos EUA teve uma queda de 43% desde 1985, enquanto a demanda cresceu cerca de 31% - e as importações tiveram uma alta de 58% do petróleo que usamos (comparadas com 28% logo antes do embargo da OPEC em 1973). Enquanto isso, o consumo da China e da Índia, com suas economias em vertiginoso crescimento, intensificou a demanda global por petróleo. Como se não fosse suficiente ter elevado os preços à estratosfera, a agitação política e a quebrade-braços com o Irã, Iraque, Chade, Nigéria, Bolívia, Venezuela e Rússia geraram um clima tenso e provocaram a elevação de preços. Também contribuiu para pressionar para a alta do preço da gasolina as leis de combate à poluição do ar que tornam obrigatória a criação de 16 tipos de composições específicas de gasolina para mercados específicos, o etanol altamente subsidiado e de difícil transporte para mercados maiores e uma tarifa de 54 centavos de dólar no etanol importado. Não é de se surpreender que o barril do petróleo esteja agora acima de 70 dólares e que a gasolina tenha chegado a uma média nacional de 2,90 dólares por galão (1) em abril. Da mesma forma, as ações do Congresso contribuíram para tornar o gás natural, de queima limpa, o combustível escolhido para diversas aplicações. As empresas de serviços públicos nos EUA usam mais 41% desse gás do que há uma década e 87% das usinas de geração a serem implantadas nos próximos 5 anos queimarão gás - inclusive as usinas que fornecem eletricidade de apoio essencial para as inconstantes turbinas de ventilação que o Congresso e as Câmaras estaduais apóiam, subsidiam ou regulam. Os gás natural também é usado para fazer o fertilizante para as plantações de milho e outras lavouras, e é queimado para transformar diversas plantações em etanol e bio-diesel.


Assim, a demanda está em alta enquanto a produção fica estagnada e os preços do gás natural se elevam de 2 dólares nos anos 1990s a cerca de 9 dólares por mil pés cúbicos hoje. A conta da energia para aquecimento subiu 25% no relativamente quente inverno de 2005-06 e os preços dos fertilizantes subiram em cerca de 50% no período de um ano. Diante do brusco aumento dos gastos com aquecimento, iluminação e transporte, as empresas e escolas públicas estão tentando desesperadamente controlar outros gastos para não terem que despedir mais empregados. A Associação Nacional de Indústrias estima que mais de 3,1 milhões de empregos foram perdidos desde 2000; muitos se mudaram para outros países onde o gás natural é abundante e custa menos. Mas por que as reservas americanas estão tão escassas e os preços tão altos? Não é porque estamos com falta de petróleo e gás natural. Na verdade, recorrendo às projeções do Serviço de Administração de Recursos Minerais dos EUA (MMS), a Consumer Alliance for Energy Security calcula que nossa plataforma marítima continental tem gás natural o suficiente para aquecer 100 milhões de casas por 60 anos e petróleo suficiente para abastecer 50 milhões de carros por 60 anos. O MMS também afirma que A Reserva Natural Nacional do Ártico (ANWR), no Alasca, pode abrigar mais 16 bilhões de barris de um petróleo não convencional. Isso equivale a 30 anos de importação da Arábia Saudita. Transformado em gasolina, ele abasteceria a frota de veículos da Califórnia por 50 anos. A 70 dólares o barril, o petróleo da ANWR poderia substituir o equivalente a 1,1 trilhão de dólares de óleo cru importado, criar 500 mil empregos nos EUA e gerar centenas de bilhões de royalties e impostos. Mas o presidente Clinton vetou uma lei em 1995 que liberava a Reserva para a prospecção, argumentando que não haveria petróleo e gás para uma década - o que está para ocorrer, exatamente agora, com a atual oferta e a pressão nos preços. O que ouvimos do Congresso? Nada de prospeção porque não teremos mais energia dentro de uma década. Mesmo depois dos furacões Katrina e Rita - que causaram impacto em um quarto de nossa produção e capacidade de refino - e no meio dos atuais choques de preço, o Congresso cita frágeis argumentos ambientais e vota pelo trancafiamento do petróleo e do gás americano: nas nossas costas do Pacífico, Atlântico, Golfo Oriental do México e no Alasca (incluindo ANWR), nas Montanhas Rochosas e nos Grandes Lagos. Até os senadores e deputados da Califórnia, que representam, de longe, o estado de maior consumo de energia dos EUA, se opõem energicamente à expansão petrolífera em qualquer dessas áreas. E até mesmo a Flórida, nosso terceiro maior consumidor de energia, se recusa a permitir a prospecção em sua costa para ajudar a diminuir sua voraz demanda de petróleo e gás para abastecer carros, navios, caminhões, aviões, casas, hotéis, cassinos, empresas e fabricantes de ar-condicionado que possibilitam a boa vida do Estado do Sol. O Canadá está perfurando nos Grandes Lagos. A China e Cuba estão programando perfurações a 45 milhas da costa da Flórida. Em 60 anos de prospecção de nossas costas só houve um acidente importante em que o petróleo chegou às praias (1969, em Santa Bárbara). Sem dúvida alguma, precisamos de petróleo e gás. E, mesmo assim, o Congresso não se mexe. No entanto, numa pífia demonstração de bi-partidarismo, num bate-boca das duas Casas, os neoHruskas acharam tempo para denunciar uma suposta ganância empresarial, fixação de preços e lucros obscenos – e votar o impedimento da prática de “preços abusivos”. (Num galão de


gasolina, as companhias de petróleo têm um lucro de cerca de 10 centavos de dólar, a maior parte dos quais aplicam em novas explorações e desenvolvimento, enquanto o governo federal leva 59 centavos de dólar em impostos e os estados outros 5 a 15 centavos de dólar em impostos.) O Congresso não soube como definir a prática de “preços abusivos”, mas os congressitas aparentemente mostravam que saberiam o que isso significa quando se deparassem com ela. Dentro de poucas semanas, os mesmos legisladores irão analisar uma lei sobre aquecimento global que poderá elevar os preços de energia em ainda 20% – para nenhum aparente benefício ambiental. Como observou, notavelmente, Will Rogers, “Toda vez que o Congresso faz uma piada, é uma lei. E toda vez que ele faz uma lei, é uma piada.” Se pelo menos pudéssemos aproveitar o aquecimento global do Congresso, os problemas de energia dos EUA seriam coisa do passado. Até lá, no entanto, a sabedoria de Burke ficará no esquecimento. Os seguidores da mediocridade de Hruska terão a supremacia. Os EUA serão reféns de oligarcas do petróleo (2) e do extremismo de ambientalistas nacionais. E os consumidores terão que fazer uma profunda prospecção em seus bolsos – ou tentar viver como vive uma família média da China ou Índia. (1) 1 galão americano corresponde a 3,785 litros. (2) N.T.: “oiligarchs”, em inglês

* Paul Driessen é consultor político sênior do Center for the Defense of Free Enterprise and Committee For A Constructive Tomorrow e autor de Eco-Imperialism: Green power · Black death (www.EcoImperialism.com).


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