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PAÍSES

Cingapura 07.08.2008

Cingapura é que é beleza pura MARIO GUERREIRO*

Assisti recentemente a um ótimo documentário sobre Cingapura no Discovery Channel. Tamanha foi sua importância que decidi escrever sobre o mesmo. E ainda que não traga na minha memória alguns dados político-econômicos de grande relevância, creio que posso expressar ao menos uma visão geral daquilo que vi e me deixou maravilhado. Como sabemos, Cingapura é um país do Extremo Oriente, uma pequena ilha no estreito da Malásia que possui um status político de cidade-Estado, semelhantemente às cidades de Atenas e Esparta na Grécia Antiga. E se hoje ela é um dos assim chamados tigres asiáticos, na primeira metade do século XIX não passava de uma ilha muito menor do que o estado de Sergipe, além de ser uma região pantanosa infestada de doenças tropicais. A história de Cingapura é, in nuce, uma história de como uma pequena terra se transformou de uma colônia pobre sem grandes riquezas naturais numa próspera e livre nação com um excelente IDH (Índice de Desenvolvimento Humano). No entanto, antes de se constituir numa nação independente, recebeu inegáveis benefícios por ser uma colônia do Reino Unido, não da França como o Vietnã nem de Portugal como Macau e Goa. O que significa dizer que, logo de saída, esteve livre do Mal Latino, uma generalização já feita por nós, a partir do Mal Francês de que fala magistralmente Alain Peyrefitte em Le Mal Français (Paris, Plon, 1976). Ainda durante o século XIX e inícios do século XX, durante a Era da Borracha, a Amazônia ganhou uma grande bolha de desenvolvimento, graças à existência de uma


árvore plantada em seu solo por Deus ou até pelo Diabo, porém jamais por mãos brasileiras. Como sabemos, a seringueira é uma árvore nativa da Amazônia e é dela que se extrai o látex que, uma vez defumado, produz a borracha. No entanto, os brasileiros ficavam satisfeitos com essa dádiva divina, desprezando totalmente o antigo e sábio “Deus ajuda a quem se ajuda”, ou seja: os seringueiros, trabalhando por conta própria, limitavam-se a colher o látex e fazer a defumação na floresta com todos os inconvenientes inerentes à densa vegetação tropical. Uma vez prontas as bolotas de borracha, as vendiam para intermediários que pagavam um preço irrisório e se enriqueciam com o comércio internacional da borracha. Conta-se que a esperteza burra dos seringueiros fazia com que colocassem grandes pedras dentro das bolotas de borracha, que tinham propósito semelhante ao daqueles amassados feitos por pecuaristas nos bujões de leite. Mas os intermediários perceberam logo a mutreta e encontraram facilmente um antídoto para ela: jogavam as bolotas na água e só compravam as que não afundavam... Não cabe aqui fazer críticas aos intermediários, que se limitavam a tirar proveito da inépcia alheia, mas sim aos empresários brasileiros que nunca se preocuparam em organizar empresas, de modo a fazer um plantio racional e uma coleta organizada do látex, deixando tudo entregue a uma precária labuta de caráter artesanal. Resultado disso é que, em vez de um desenvolvimento sustentado, da Era da Borracha só restou o belo Teatro de Manaus, para onde iam companhias de teatro e de ópera diretamente da Europa, sem sequer passar pelo Rio ou por São Paulo, e onde - em tépidas e hoje esquecidas noites tropicais - até o grande Caruso inundou todo o espaço com sua potente e limpíssima bela voz de tenor. Quem tentou realizar um grande empreendimento foi um americano chamado Henry Ford, uma vez que é escusado acentuar a importância crucial da borracha para a indústria automobilística. No entanto, sua tentativa de fazer uma cidade industrial na Amazônia fracassou completamente por razões que não devemos explicitar aqui, para evitar uma indesejável digressão.


Diversas tentativas foram feitas no sentido de plantar mudas de seringueira em outros lugares fora da Amazônia, porém elas não conseguiam se adaptar. Mas quando tudo levava a crer que a seringueira era coisa que – tal como o jabaculê, o jeitinho e as fartas e generosas tetas estatais – só cresciam exuberantemente em Terra Brasilis, um inglês, cujo nome não me lembro, levou sementes ou mudas da referida árvore para Cingapura, onde fez um plantio racional e obteve enorme sucesso, em parte devido ao clima bastante semelhante ao da Amazônia, mas em parte também graças à sua competência empresarial. Um detalhe aparentemente sem grande relevância chamou minha atenção e ficou retido na minha memória. Segundo o referido documentário, nem mesmo aquele sangramento do látex em forma de V e com uma cuia em baixo da árvore foi uma invenção do gênio inventivo do seringueiro brasileiro, mas, sim, do inglês que aperfeiçoou a cultura da borracha. Se non è vero, è ben’ trovato... Apesar do cultivo racional e em larga escala da borracha ter alavancado a economia de Cingapura, enquanto a Era da Borracha definhava no Brasil, durante muito tempo a referida ilha, ainda na condição de colônia britânica, padecia dos inconvenientes da ausência de regras de conduta estáveis e racionais disciplinando a vida socioeconômica, sem, com isso, sufocar as liberdades de comércio e política. De tal modo que era uma terra infestada de quadrilhas que, entre outras coisas, comandavam o contrabando na região da Malásia e exploravam o ópio, como na China dos Generais, antes da revolução de Mao-Tsê-Tung, que substitui o ópio da papoula ao alcance de quem pudesse pagar pelo “ópio dos intelectuais” cultivado por uma minoria exótica, isto é: o marxismo, segundo Raymond Aron. Foi aí então que apareceu Sir Raffles, o grande modernizador de Cingapura na segunda metade do século XIX. Com ele, a liberdade que confinava com a libertinagem e a zorra total, passou a ser uma liberdade conciliada com as normas, segundo princípios do mais sadio e proveitoso liberalismo. Tantas foram suas medidas e obras modernizantes que foi erguida, sob aplausos efusivos do povo de Cingapura, uma estátua dele, Sir Raffles, em praça pública.


E o que é mais importante: quando, já na segunda metade do século XX, Cingapura tornouse uma nação independente, política e economicamente, do Reino Unido, os nativos da terra não derrubaram a estátua como sinal de protesto contra seu maldito colonizador britânico. E quando, dando prosseguimento às suas medidas que trouxeram ordem, liberdade e prosperidade, foi inaugurada uma bela praça no velho porto, os cingapurenses não procederam como os habitantes das ex-colônias do Império do Mal (URSS) que destruíram estátuas de Lênin e Stálin a marretadas desferidas com justa indignação, mas, sim, ergueram uma nova estátua de Sir Raffles numa cerimônia com discursos enaltecedores dos benefícios prestados a Cingapura. Até hoje os cingapurenses se enchem de admiração ao ouvir o nome desse grande homem, assim como os turcos devotam profunda admiração por seu grande modernizador Mustafá Kemal, Atatürk (i.e. O Pai dos Turcos). Isto mostra ao menos duas coisas: em primeiro lugar, os inegáveis benefícios prestados pelo Reino Unido às suas antigas colônias que, para não mencionar a que se tornou a mais próspera de todas - as Treze Colônias da América - podemos mencionar Austrália, Nova Zelândia, Canadá (à exceção da província de Québec, colonizada pela França), Índia e Cingapura, etc. Fala-se muito da crueldade da colonização britânica na Índia, mas até mesmo Karl Marx viu-se obrigado a reconhecer que a Índia - um aglomerado de credos, crendices, línguas e etnias - devia ao Império Britânico a sua unidade territorial e integração nacional, isto para não falar numa grande malha ferroviária, à altura da do Brasil no Segundo Império, e outras obras de infraestrutura que concorreram para a comunicação e articulação das regiões de um país de dimensões continentais. God save the gracious Queen! Em segundo lugar, a ordem democrática e a prosperidade de qualquer país que tenha sido colônia de outro não depende somente dos possíveis méritos e deméritos do colonizador, mas também dos do colonizado. Neste sentido, Cingapura é um belo exemplo para o mundo por ter sabido dar continuidade às boas políticas públicas do colonizador, geradoras de


liberdade e prosperidade e, ao invés de nutrir ressentimentos e ojerizas em relação a ele, cultivou profundo reconhecimento e admiração. No entanto, quando o colonizador tem muito mais deméritos do que méritos - e o colonizado a ele muito se assemelha -, quando o primeiro cultiva os péssimos vícios de uma deformação moral associada ao mercantilismo e ao patrimonialismo, e o segundo não só dá continuidade à herança maldita como a faz crescer exuberantemente, o que pode sair daí? Ora, um país grande que se recusa a ser um grande país, um gigante adormecido em berço esplêndido que se recusa a levantar do leito e movimentar suas pernas. Pobre Brasil! Tão longe de Cingapura e tão perto da Venezuela. * Doutor em Filosofia pela UFRJ. Professor Adjunto IV do Depto. de Filosofia da UFRJ. Membro Fundador da Sociedade Brasileira de Análise Filosófica. Membro Fundador da Sociedade de Economia Personalista. Membro do Instituto Liberal do Rio de Janeiro e da Sociedade de Estudos Filosóficos e Interdisciplinares da UniverCidade. As opiniões emitidas na Série PAÍSES são de responsabilidade exclusiva do signatário, não correspondendo, necessariamente, ao ponto de vista do Instituto Liberal. O conteúdo do artigo pode ser reproduzido uma vez citada a fonte.


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