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Série Países Especial para o IL 07.04.06

Argentina: 30 anos de uma múltipla tragédia - 2ª Parte ___ Cândido Prunes*

Os militares tampouco trouxeram a estabilidade econômica e política que se esperava. A Junta Militar liderada por Jorge Rafael Videla decidiu combater a violência fora das regras do Estado de direito. O Estado argentino passou a seqüestrar e a matar, muitas vezes inocentes. Até crianças foram vítimas nesse processo ensandecido. As disputas internas entre os próprios militares se evidenciaram na sucessão de Videla. Durante alguns meses, o General Viola exerceu a presidência até ser derrubado pelo General Galtieri, que arrastou o país para a guerra das Malvinas (arrematada loucura que contou com o apoio popular, inclusive dos inimigos do regime). O ciclo militar fechou-se com o General Bignone, encarregado do rescaldo da guerra de 1982 e de transmitir o poder para Raul Alfonsin, democraticamente eleito no ano seguinte. Mas a crise econômica não cedeu entre 1976 – 1983, nem cederia até o final do governo Alfonsin, em 1990. A renda per capita do argentino continuou declinando. Entre o início do governo Perón, em 1974, até o final do governo Alfonsin os argentinos perderam 25% de seu poder aquisitivo. A inflação entre maio, junho e julho de 1990 escalou de 78% para 114% e 200%, respectivamente. Alfonsin teve que renunciar antes de terminar o mandato. Embora Carlos Menem tenha cumprido os dois mandatos para o qual foi democraticamente eleito, seu governo foi marcado por acusações de corrupção e também pela violência que atingiu até seu único filho, morto a bordo de um helicóptero em circunstâncias nunca esclarecidas (nem o próprio pai procurou elucidá-las). No plano econômico, a situação apenas se deteriorou, refletindo-se, por exemplo, nos níveis sem


precedentes de pobreza. Ao longo da década de 90, a pobreza na Grande Buenos Aires foi num crescendo, atingindo em 2001 quase 50% de sua população. A sucessão de Menem foi tumultuada. O Presidente eleito, Fernando de la Rúa, não conseguiu completar um ano de mandato, em conseqüência da bancarrota do país e da crise bancária resultante da desvalorização cambial. Qual a causa-raiz dessa tragédia sócio-política? Além dos evidentes equívocos resultantes do crescente intervencionismo do Estado na economia, encontra-se o regime presidencial. O modelo norte-americano simplesmente não funciona em países com forte clivagem ideológica. Uma vez eleito o presidente, a única maneira de afastá-lo é através do impeachment, um processo sempre complexo, doloroso e de resultado incerto. Ou, então, através de golpe de Estado, o modelo latino-americano. Essa perversa combinação entre um regime político inadequado e a crença de que cabe ao Estado fazer planejamento social leva aos impasses e tragédias que marcaram a América Latina nas últimas décadas. Os 30 anos do golpe argentino são o triste testemunho de que situações como essas ainda hão de se repetir. * Vice-Presidente do Instituto Liberal 1ª parte


Série países argentina 30 anos do golpe ii parte