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Para onde vão os EUA?* *Texto original publicado em outubro de 2007 (www.fondapol.org)

Bruno TERTRAIS Assistente Superior de Pesquisa, Fundação de pesquisa estratégica (Fondation pour la recherche stratégique - FRS, Paris) Pesquisador Associado, Centro de estudos e de pesquisas internacionais (Centre d´études et de recherche internationales - CERI, Paris)

O final do segundo mandato de George W. Bush será o encerramento de um período excepcional da história mundial, que terá testemunhado a tentativa da potência dominante de realizar mudanças radicais numa escala internacional. A brutalidade do método usado e a natureza discutível dos resultados alcançados fizeram surgir alguma esperança dentro da imensa maioria da opinião pública mundial de que é provável que os EUA “voltem ao normal”, percam um pouco de seu orgulho e se vejam obrigados a ter um bom relacionamento com as novas potências emergentes. Essas expectativas não têm fundamento. O objetivo deste ensaio será o de mostrar que os Estados Unidos estão ficando cada vez mais impregnados de valores conservadores e republicanos, de tal modo que é improvável que se altere a tendência para a direita da política externa do país no futuro próximo, e a de que os EUA não terão nenhum sério oponente durante muitas décadas. A primeira metade do século XXI será, portanto, caracterizada basicamente pela liderança do poderio americano, ao passo que o objetivo de se criar um mundo “multipolar” no qual os Estados Unidos atuariam “multilateralmente” e “realisticamente” está longe de ser uma realidade. Entretanto, as condições sob as quais esse país irá exercer sua supremacia vão evoluir significativamente nas próximas décadas. 1

1 – O FIM DE UMA ERA As eleições de novembro de 2006 sinalizaram o fim de uma era. Entretanto, o que nós estávamos testemunhando não era uma “mudança de regime” em 1

Para uma visão global dos Estados Unidos após o 11 de setembro, reporte-se a G. Parmentier (Dir.), Les États-Unis aujourd’hui: choc et changement (Paris: Éditions Odile Jacob, 2004); B. Tertrais, Quatre ans pour changer le monde (Paris: Éditions Autrement, 2005); G. Dorel, Atlas de l’empire américain (Paris: Éditions Autrement, 2006); e a D. Lacome (Dir.), Les États-Unis (Paris: Fayard, 2006).


Washington, como algumas vezes foi sugerido muito apressadamente em reportagens ou artigos. Foi muito mais uma derrota republicana do que uma vitória democrática. As eleições que ocorrem no sexto ano – no meio do segundo mandato de um presidente – são, em geral, desfavoráveis à maioria que está no poder. 2 Pela primeira vez, o Iraque tornou-se um fator decisivo para os eleitores americanos (a segunda maior preocupação dos entrevistados, depois da economia), o que, automaticamente, deu vantagem aos Democratas, ao passo que o resultado das eleições de 2004 teve por base a questão dos “valores morais”. De fato, nas vésperas daquelas eleições apenas 29% aprovavam a política de Bush no Iraque. Os erros e fracassos dos últimos seis anos cobraram sua parte. A conduta da guerra contra o terrorismo foi manchada por questões relacionadas com a detenção e a tortura de prisioneiros. Os déficits do governo federal haviam alcançado patamares inimagináveis. As grandes reformas prometidas por Bush resultaram em programas dispendiosos ou incoerentes. O modo com que o governo federal administrou o desastre de Nova Orleans foi unanimemente criticado. O desempenho da última sessão do Congresso Republicano também não havia sido particularmente admirável. A Câmara de Representantes nunca se reuniu com tanta raridade nos últimos 60 anos. Desde a ascensão da maioria Republicana, em 1994, o total de fundos destinados a projetos municipais aumentou dez vezes. 3 Diversos “casos” (corrupção, condutas pessoais inadequadas, etc.) enfraqueceram o apoio da base Republicana e especialmente o eleitorado moderado, que agora apóia os Democratas. Na análise final, foram os jovens (dos 18 aos 29 anos) e os hispânicos que fizeram toda a diferença. De fato, a grande maioria de ambos os grupos votou a favor dos Democratas: 60% v. 38% para os primeiros, e 69% v. 30% para os segundos (sem dúvida, por causa das controvérsias em torno da política de imigração do Executivo).4 2

As eleições de 1998 haviam sido, sob esse aspecto, uma exceção histórica. Um exemplo típico é o projeto de uma ponte ligando a cidade de Ketchikan (Alasca) a uma ilha habitada por 50 pessoas, a um custo de US$223 milhões. 4 Como já é tradição, os “afro-americanos” votaram pelo Partido Democrata (89% v. 10% para os Republicanos), enquanto os “brancos” evangélicos votaram a favor do Partido Republicano (70% v. 28% para os Democratas). 3


O fato de Nancy Pelosi aceitar o cargo de porta-voz da Câmara de Representantes foi um acontecimento importante. Líder da Minoria na Câmara desde 2002, eleita pelo distrito de São Francisco, conseguiu manter a unidade do partido na Câmara dos Representantes, apesar de seu perfil claramente mais “à esquerda”. Recuperar a Câmara para os Democratas foi uma vitória pessoal da Sra. Pelosi. Como primeira mulher a ocupar esse posto e sendo uma opositora ferrenha da guerra no Iraque, ela defende a retirada imediata das forças militares na região. Também tem sido, de longa data, uma defensora dos direitos humanos (China, Darfur). O Partido Democrata nunca viveu um sucesso tão avassalador. Ocupando agora 230 das 435 cadeiras, os Democratas recuperaram a posição na Câmara pela primeira vez desde as eleições de 1994 (que resultaram numa devastadora vitória dos Republicanos, ao ganharem 53 cadeiras), mas sua vitória dependeu de um pequeno número de cadeiras, e em muitos casos, com a maioria composta por um número diminuto de votos. Não houve nada de surpreendente no caráter relativamente limitado dessa vitória. O índice de reeleição na Câmara de Representantes é, normalmente, muito alto. Por causa da brevidade do mandato (dois anos), a maioria dos membros que estão para sair concorre novamente. E o modo pelo qual os distritos eleitorais são estabelecidos favoreceu a estabilidade, em detrimento dos Democratas. No Senado, o ganho de seis cadeiras proporcionou a estes uma pequena maioria (51 em 100). O que devemos esperar desses quatorze meses que nos separam da partida definitiva de George W. Bush da Casa Branca no dia 20 de janeiro de 2009? Certamente, não uma completa reversão na política externa americana. A substituição de Donald Rumsfeld marcou, inquestionavelmente, o fim de uma era. As eleições de 2006 foram um pretexto para a saída já anunciada – e até mesmo cobrada – por muitos Republicanos. Isso marcou o fim da aliança “nacionalista” Cheney/Rumsfeld que tanto havia influenciado a política americana desde 2001. A influência do vice-presidente ficou ainda mais enfraquecida com a saída de seus principais vínculos de contato dentro do Executivo: Lewis “Scooter” Libby, seu fiel conselheiro, obrigado a renunciar por causa de sua suposta participação no caso Valerie Plame; John Bolton, cujo


cargo como representante permanente dos EUA junto às Nações Unidas nunca foi confirmado; Robert Joseph, Subsecretário de Estado para Controle de Armas e Segurança Internacional, que se opôs a entrar num acordo com a Coréia do Norte; Liz Cheney, a própria filha do vice-presidente, que dirigia o Grupo de Operações Irã-Síria (ISOG) dentro do Departamento de Estado até 2006, e que renunciou por motivos pessoais. Essa saída dos principais integrantes do grupo nacionalista se seguiu à dos neoconservadores (dos quais havia muito poucos dentro do Executivo), tais como Paul Wolfowitz, o número dois do Pentágono, e Douglas Feith, Subsecretário de Política de Defesa. Robert Gates, que substituiu Rumsfeld, tem um perfil muito mais discreto do que seu antecessor e pode ser incluído na corrente “realista”. 5 Mas a nova disposição do Executivo para considerar um diálogo direto com o Irã e com a Síria ou de entrar em acordo com a Coréia do Norte não deve iludir ninguém. Se alguma coisa mudou, é muito mais provável que tenha sido “a forma” do que “a substância”. 6 A conversão ao “realismo”, tão precipitadamente anunciada no lado europeu do Atlântico, nunca aconteceu, e é improvável que ocorra. De fato, George W. Bush rejeitou imediatamente as conclusões do Relatório Baker sobre o Iraque e decidiu fortalecer temporariamente a presença militar americana com pelo menos 30.000 homens, em princípio para a segurança da região de Bagdá. Quanto ao Irã, os defensores da linha dura sentiram-se, até certo ponto, justificados em sua posição: só depois que foram impostas sanções contra Teerã, em dezembro de 2006, e feitas algumas demonstrações de força da parte dos Estados Unidos no início de 2007 (a ocupação do Golfo Pérsico por esquadras, a prisão de agentes iranianos no Iraque) que pareceu ter começado um debate em Teerã sobre a validade de uma política de enfrentamento com os Estados Unidos. Que ninguém se engane sobre a personalidade do presidente americano: ele acha que tem um papel histórico a desempenhar, e continuará a agir de acordo com sua consciência. Vendo-se indubitavelmente como outro Harry Truman, que estabeleceu as bases da política externa americana por 40 anos, Bush parece não ter nenhuma preocupação com sua impopularidade recorde entre 5

Robert Gates foi membro do Grupo de Estudos sobre o Iraque, um grupo bipartidário de debates de alto nível, que apresentou suas conclusões no outono de 2006. 6 J. Barry, R. Wolffe e E. Thomas, “Stealth Warrior”, Newsweek, 19 março 2007, p. 34.


os eleitores. Ele se sente bem mais à vontade para agir na medida em que se dá conta de que não pode se reeleger e que seu vice-presidente não tem intenção de concorrer nas eleições de novembro de 2008 – uma situação sem precedentes na história recente do país, desde quando isso ocorreu, pela última vez, em 1952. Em síntese, a Casa Branca acredita que ainda pode usufruir de ampla liberdade de ação na política externa, e não hesitará em fazer escolhas altamente discutíveis se, em sua opinião, estiver fazendo isso para cumprir sua obrigação. Quanto aos opositores ideológicos dentro do governo, seu número é limitado. Isso poderá muito bem marcar o fim do caráter totalmente desarticulado da administração do setor Executivo do governo até a saída de Donald Rumsfeld, com uma presidência incapaz de negociar entre as várias facções do regime.7 Entretanto, apesar de Condoleezza Rice e de Robert Gates serem, talvez, mais inclinados ao “realismo” e ao “multilateralismo” do que Bush e Cheney, ainda assim eles são republicanos conservadores, e tendem a ser totalmente leais ao presidente. Além disso, os “linha-dura” não se foram de vez: alguns até ainda ocupam postos-chave, tais como Elliot Abrams, principal assessor para o Oriente Médio junto ao Conselho de Segurança Nacional (NSC), responsável pela instauração da democracia no Oriente Médio; William Luti, Diretor Sênior para Política e Estratégia de Defesa no NSC; ou Zalmay Khalilzad, ex-embaixador dos EUA no Afeganistão e no Iraque, que substituiu John Bolton no cargo de representante permanente dos EUA na ONU. Além do mais, os Democratas não têm os meios para exercer influência significativa na política externa do país. É bom que se recorde que o poder do Congresso americano para definir as linhas-mestras da política externa continua bastante limitado.8 Mais importante que isso, a maioria do Senado seria insuficiente para ratificar os tratados de maior relevância para os 7

O terceiro livro de Bob Woodward sobre a presidência de Bush, cobrindo a administração da crise do Iraque desde 2003, é altamente esclarecedor de seu vantajoso ponto de vista. Vide B. Woodward, State of Denial. Bush at War, Part III (NewYork: Simon & Schuster, 2006). Entre outras pérolas nessa avaliação de Condoleezza Rice, David Kay, o inspetor de armas americano que ficou por pouco tempo incumbido de localizar armas de destruição em massa no Iraque, declarou: “Ela foi, provavelmente, a pior assessora de segurança do País [...] desde que essa instituição foi criada.” (B. Woodward, op. cit., p. 330) 8 Em abril de 2007, o Congresso dos EUA votou as dotações orçamentárias para dar continuidade às operações no Iraque somente sob a condição de que as tropas seriam retiradas em 2008, o que George Bush vetou.


europeus (o Protocolo de Kyoto, o Tratado de Interdição Total dos Testes Nucleares, o Tratado de Roma estabelecendo a Corte Penal Internacional, etc.), uma vez que o voto é dado tendo por base uma maioria de dois terços, nem atinge a “supermaioria” necessária para fazer oposição ao veto presidencial (também de dois terços). Finalmente, é ainda mais frágil porque requer dois independentes para apoiar 49 senadores democratas 9. Em geral, o campo de manobra dos Democratas ainda é limitado: as maiorias alcançadas são insuficientes para evitar um veto presidencial. Devemos também notar que muitas decisões controversas nos últimos anos foram aprovadas por grande parte dos Democratas (Patriot Act, a decisão de invadir o Iraque, leis antitortura, etc.). Com relação à política externa dos EUA, os três países que foram identificados no discurso de Bush de janeiro de 2002 como integrantes do “eixo do mal”– Iraque, Irã e Coréia do Norte – continuam a ser as principais prioridades do Executivo. O Iraque tem sido o foco do debate político americano desde o início de 2006 – o que, além de tudo, explica em parte a derrota republicana nas recentes eleições. A questão do Iraque se tornou agora o “buraco negro” em torno do qual todos os debates políticos convergem, e está neutralizando a capacidade do Executivo de lançar projetos impactantes em outras áreas. A questão de se saber se falhou a tentativa americana de implantar uma democracia no Iraque, ou se falhou pela metade, é inútil. Nem o governo Bush nem os intelectuais neoconservadores jamais afirmaram que a democracia seria estabelecida lá em poucos anos, mas é inegável que os Estados Unidos estão agora reduzidos à esperança de uma estabilização da região de Bagdá até o final de 2008 como seu único objetivo viável. A nomeação do unanimemente conceituado General David Petraeus como Comandante das Forças de Coalizão e o envio de quase 30.000 novos soldados constituem, sem dúvida, as últimas cartas que Washington ainda pode pôr na mesa. O Executivo é pego em sua própria trama retórica: depois de afirmar repetidas vezes, desde o outono de 2003, que o Iraque havia se tornado a linha de frente na guerra contra o terrorismo, com o intuito de conquistar a opinião pública e os aliados dos Estados Unidos, ele não 9

A deserção de um independente pode derrotar uma maioria: este foi o caso em junho de 2001, levando os Republicanos a perder o controle do Senado até as eleições de novembro de 2002.


pode dar a impressão de que fracassou por completo. E a questão da retirada não é tão clara assim. Washington provavelmente vai manter certo volume de tropas no país por um longo período de tempo. O debate é sobre o cronograma e as condições sob as quais a maior parte das tropas será retirada, que outras missões aguardam o contingente americano, quantos soldados ficarão no Iraque e onde ficarão estacionados. Mas o fim do segundo mandato de George W. Bush poderá ser decidido pelo modo como a crise iraniana irá se desdobrar. Hoje o Irã se encontra, de fato, numa situação totalmente excepcional sob três aspectos. Primeiro, é o único país dos três que em 2002 formavam o “eixo do mal” a apresentar, de fato, o problema da convergência entre a proliferação de armas de destruição em massa e o apoio direto ao terrorismo. Além disso, sua localização geográfica o coloca entre os que foram os dois principais teatros de operações dos EUA desde o 11 de setembro, uma vez que faz fronteira tanto com o Afeganistão quanto com o Iraque, e exerce influência sobre os dois territórios. Finalmente, seu apoio ao grupo guerrilheiro xiita Hezbolá e à guerra do sul do Líbano em julho de 2006, associaram, de maneira indissolúvel, a questão central da guerra mundial contra o terrorismo (global war on terror) ao foco do conflito Israel-Palestina. Ao fracassar numa solução para a questão nuclear e obter um acordo provisório com relação ao Iraque, George W. Bush poderá ser tentado a bombardear os principais sítios nucleares conhecidos e, provavelmente na mesma ocasião, a infra-estrutura militar dos guardiães da revolução islâmica. A situação no Iraque de modo algum afetaria tal decisão: a força aérea e a marinha americanas pouco avançaram nesse campo, e nenhuma restrição técnica em particular impediria uma ação militar maciça contra o Irã. O Congresso Democrata poderá se opor a ela porque o presidente não iria precisar da aprovação explícita do Poder Legislativo para levar adiante tal ação – fora o fato de que um grande número de Democratas decidiria sem dúvida não criar obstáculos para uma coup de force contra o Irã.10 George W. Bush, sem dúvida, vai preferir esperar por uma situação favorável tanto política (esperar até que as sanções tenham demonstrado ser ineficazes) 10

A aprovação de atos de guerra pelo Congresso é uma exceção na História americana. O Executivo não a buscou para declarar guerra contra a Coréia (1950-1953) nem para a invasão do Panamá (1989), nem para dar início aos ataques aéreos sobre Kosovo (1999).


quanto tecnicamente (esperar que as forças americanas no Iraque sejam realocadas de modo que fiquem menos vulneráveis à inevitável retaliação iraniana). Em qualquer situação, a idéia de que um fracasso no Iraque tornará menos provável essa ação militar no Irã pode ser descartada: é exatamente por que George W. Bush não conseguiu provar o sucesso de sua política no Iraque que ele não vai querer deixar – pior ainda – o Irã se equipar com armas nucleares. Além disso, os primeiros sinais aparentes do estabelecimento da crise nortecoreana ainda não produziram nada de convincente, apesar de o regime ter quase dramaticamente provado sua capacidade nuclear dando início a um teste em outubro de 2006. O cenário do acordo de setembro de 2005 e sua primeira tradução em termos concretos (o acordo provisório de fevereiro de 2007) são bastante favoráveis aos interesses de Pyongyang que, até o momento, não assumiu nenhum compromisso específico para desativar seu arsenal de armas nucleares e o plutônio de uso militar do reator de Yongbyon. É como se o governo dos EUA tivesse decidido fazer o melhor que pudesse de um mau acordo e, como no caso líbio, se resignasse a aceitar um regime que, no íntimo, deplora, em troca de um mínimo de compromissos que podem ser verificáveis através de seu comportamento internacional. Com relação a Trípoli, a família Kadhafi parece ter feito uma escolha estratégica: parar de dar apoio ao terrorismo e abandonar os programas WMD [weapons of mass destruction (armas de destruição em massa)] em troca de sua reintegração na comunidade internacional. Quanto a Pyongyang, os termos do acordo não são tão claros, mas poderiam dar a entender que a mensagem que os EUA mandaram para os líderes norte-coreanos seria a seguinte: podemos tolerar seu programa nuclear desde que vocês deixem de exportar quaisquer armas ou materiais nucleares. No Oriente Médio, não se deve esperar nenhuma participação do presidente Bush como mediador – tanto por causa de suas convicções pessoais quanto por conta de seu próprio estilo. Condoleezza Rice, que reiniciou esforços pela paz em nome do quarteto (Estados Unidos, União Européia, Rússia e Nações Unidas), será bastante pressionada a tornar realidade a criação de um genuíno Estado Palestino em 2008, um dos projetos oficiais do executivo americano.


As mutáveis relações com dois outros países podem evoluir ainda mais nos próximos meses. É esperado que a Arábia Saudita lidere uma nova aliança antixiíta na região.11 Mas, ao mesmo tempo, parece que Riad decidiu agir a seu próprio modo no cenário do Oriente Próximo, responsabilizando-se por um acordo de governo pela Autoridade Palestina e defendendo os esforços pela unidade árabe baseada num plano de paz que está mexendo com os nervos de Washington. Quanto ao Paquistão – principal aliado da Arábia Saudita e outro dos principais parceiros de Washington na “guerra contra o terror” –, ele está sendo motivo de uma crescente preocupação nos Estados Unidos por causa de sua incapacidade, ou inapetência, de estancar tanto o reaparecimento da Al-Qaida em áreas tribais quanto o do Talibã no Afeganistão. As relações com a China ficaram mais tensas por causa da nova composição do Congresso. Em março de 2007, a política comercial americana com relação à China deu um giro de 180 graus – uma radicalização que rompeu com uma tradição de 23 anos de uma postura um tanto liberal e benevolente. A visão protecionista não é comum apenas entre os Democratas, mas cada vez mais também entre os Republicanos – a tal ponto que já não se hesita mais em falar no “fim da era do livre comércio.” 12 É o nordeste da Ásia, no entanto, que em 2008 deverá ser o foco da atenção mundial, porque muito provavelmente entrará num período de grande convulsão política. Uma vez que o presidente de Taiwan, Chen Shui-bian, não pode ser reeleito, ele poderá se ver tentado a tomar certas ações concretas para tornar seu país independente – uma tentativa que Beijing, na ansiedade por transformar em grande sucesso os Jogos Olímpicos de 2008, não hesitará, sem dúvida, em reprimir usando a força militar contra a ilha rebelde. George W. Bush vai deixar a seu sucessor um legado político confuso (para dizer o mínimo). O presidente que sai certamente poderá jactar-se de que protegeu a população americana: desde o 11 de setembro não ocorreu nenhum ataque ao território americano. Mas os sérios problemas encontrados por Washington e seus aliados no Afeganistão e no Iraque deixarão marcas 11

A esse respeito, veja S.M. Hersch, “The Redirection,” The New Yorker, 5 março 2007. Desde que esse artigo apareceu, a linha defendida pelo Príncipe Bandar bin Sultan (fortalecendo a aliança com os Estados Unidos, procurando ligações mais próximas com Israel e provendo apoio militar, se necessário, para a milícia sunita no Iraque) parece ter perdido parcialmente apoio em Riad. 12

I. M. Stelzer, “The End of Free Trade,” The Weekly Standard, 22 de maio de 2007.


difíceis de serem esquecidas, visto que a experiência no Iraque terá custado a vida de 3.000 americanos. Com relação aos problemas nacionais, como foi o caso na presidência de Ronald Reagan, as promessas de um governo “econômico” logo se tornaram exatamente o contrário: um crescimento enorme dos gastos, déficits e dívida pública. A tão discutida reforma do acesso à assistência médica dos idosos (Medicare Part D) deverá custar US$ 1,2 trilhão no decorrer dos primeiros dez anos (2003-2013), o que representa a maior expansão do assistencialismo estatal desde os anos 1960. A reforma educacional (“Nenhuma criança fora da escola”) provocou um enorme crescimento dos investimentos em subsídios sem obter qualquer mudança substancial. Quanto à concepção de uma reforma profunda no sistema de aposentadoria por repartição (Social Security), tão cara ao Presidente, duvidase que possa ser realizada no contexto político resultante das eleições de 2006. Finalmente, os déficits orçamentários e da balança comercial cresceram em proporções alarmantes. O próximo morador da Casa Branca herdará, acima de tudo, um sistema institucional que mais se parece com uma terra devastada do que com o harmonioso equilíbrio de poderes vislumbrado pelos Pais Fundadores. As mudanças no papel do Congresso estão fomentando debates cada vez mais acirrados. As duas Câmaras, cujo campo de ação se expandiu nos anos 1970 13 –, resultando num maior intervencionismo do Poder Judiciário nos negócios do Estado –, são agora mais caracterizadas por um hiperativismo legislativo e gastos fora do controle do que pela determinação de exercer um efetivo controle sobre o Poder Executivo, e elas parecem estar tão preocupadas com interesses particulares quanto estão com o interesse público. Desde a vitória republicana de 1994 tornou-se costume para os novos membros do Congresso viver e trabalhar mais nos seus estados de origem do que em Washington. A maior parte dos parlamentares só trabalha no Congresso dois dias por semana, e em 2006 o número de dias em que a Câmara teve sessão foi o menor dos últimos 60 anos.14 Por fim, o controle do Congresso sobre a política externa,

13

War Powers Resolution (1973), Budget and Impoundment Act (1974), Foreign Intelligence Surveillance Act (1978). 14 “The Vultures Gather”, The Economist, 4 novembro 2006, p. 13.


assim como sobre a política de segurança nacional, quase desapareceu em seis anos.15 Nancy Pelosi, que gostaria que os parlamentares trabalhassem cinco dias por semana em Washington daqui por diante, reabriu o processo de audiências no Congresso e, com o projeto aprovado em março de 2007, presidiu o lançamento do primeiro desafio político sério contra Bush a propósito da guerra no Iraque. Mas os Democratas já haviam mostrado – assim como os Republicanos – que eles estavam muito mais inclinados a submeter os interesses nacionais aos interesses locais. Isso explica por que a Sra. Pelosi permitiu que o grupo dos Democratas anexasse aos fundos solicitados por Bush para prosseguir com a guerra no Iraque um subsídio de US$ 252 milhões para os produtores de leite e de US$ 74 milhões para os produtores de amendoim...16 Além do mais, os Democratas estão profundamente divididos, como ficou óbvio, por exemplo, durante o debate sobre o Iraque. Seus membros se dividem em três grupos de tendências: os liberais (liberals)*, os moderados do Democratic Leadership Council e os Blue Dogs (44 parlamentares que, antes de tudo, defendem uma política fiscal responsável). O presidente Bush e sua equipe fracassaram, sem dúvida, em seus esforços para criar uma maioria Republicana estável, 17 mas uma vitória dos Democratas em novembro de 2008 é absolutamente certa e, como se verá adiante, os EUA permanecerão o que são: profundamente conservadores e longamente marcados pelos acontecimentos de 11 de setembro.

II – O SUPERPODER AMERICANO É DURÁVEL? A oscilante política externa dos Estados Unidos 15

N. J. Ornstein, T. E. Mann, “When Congress Checks Out,” Foreign Affairs, vol. 85, nº 6, novembro/dezembro 2006. 16 E. Luce, “Why little chance is left for Bush presidency,” The Financial Times, 25 março 2007. * N.T.: Nos EUA, liberal define os adeptos da intervenção do governo na esfera econômica, ainda que advoguem a liberdade de expressão. 17

Veja, sobre o assunto, F. Vergniolle de Chantal, “Bush et la fin de l’ordre électoral du New Deal. La domination républicaine est-elle pérenne?” Études du CERI, nº 127, setembro 2006.


A política externa americana pode ser resumida em três principais “eixos”, cada um com dois pólos entre os quais as diversas administrações oscilam em função de suas preferências ideológicas e do contexto político do momento. - Internacionalismo e isolacionismo. Este primeiro eixo se refere ao debate entre isolacionismo e internacionalismo; i.e., o envolvimento com os assuntos mundiais, mas é pouco relevante hoje. A jovem república americana era isolacionista em seus primeiros anos; como se sabe, George Washington já havia alertado seus concidadãos para evitarem as ciladas das alianças. Essa tendência continuou forte durante a maior parte da história do país. Como escreveu Henry Kissinger, “o excepcionalismo americano produziu uma política exterior essencialmente isolacionista, interrompida ocasionalmente pelas cruzadas morais.”18 Mas no século XX os Estados Unidos compreenderam que não podiam ficar alheios às grandes mudanças que ocorriam no planeta. A recusa do Congresso americano em fazer parte da Sociedade das Nações havia sido o último acesso de febre isolacionista dos Estados Unidos. Ao ser eleito, Harry Truman disse: “Os Estados Unidos têm que aceitar sua plena responsabilidade na liderança dos assuntos internacionais (...) de modo a que tenhamos paz duradoura no mundo.” 19 E depois do 11 de setembro a tendência isolacionista foi totalmente marginalizada no debate político americano. 20 - Multilateralismo e unilateralismo. Por outro lado, o equilíbrio entre multilateralismo e unilateralismo é altamente importante hoje. Se podemos criticar os Estados Unidos de George W. Bush de sistematicamente adotar uma política unilateralista, e se Bill Clinton não foi sempre um modelo de multilateralismo – ao contrário da reputação ainda associada a seu governo –, é evidente que a preferência por uma ação baseada no compromisso dentro dos principais organismos internacionais (ONU, OTAN, etc.) não foi uma característica dos últimos seis anos. - Realismo e idealismo. Da mesma forma, a política externa americana continua a oscilar entre o realismo (defesa dos interesses nacionais) e o 18

Henry Kissinger, “The Icon and the Eagle”. The International Herald Tribune, 20 março 2007. Citado in A. Kohut, B. Stokes, America Against The World: How We Are Different and Why We Are Disliked, Times Books, New York, 2006, p. 168. 19

20

Ela representa apenas 12% da população americana, de acordo com uma pesquisa recente (The Chicago Council on Global Affairs, WorldPublicOpinion.org, “World Public Rejects US Role as the World Leader,” 2007).


idealismo (a promoção dos ideais). Mas, no campo real, raramente se situa num ou noutro extremo; ao contrário, procura reconciliar as duas posições, como já havia feito George Washington, que tanto escutava Alexander Hamilton, o realista, quanto Thomas Jefferson, o idealista. 21 Essa dupla oscilação, multilateralismo/unilateralismo e realismo/idealismo, produziu as mais discrepantes figuras nos últimos 40 anos que podemos esquematizar,

grosso

modo,

da

seguinte

maneira:

Jimmy

Carter,

multilateralismo-idealismo; Ronald Reagan, unilateralismo-idealismo; George H. W. Bush, multilateralismo-realismo; Bill Clinton, multilateralismo-idealismo; George W. Bush, unilateralismo-idealismo. Outra maneira de analisar a política americana é contrapor, como fez Brent Scowcroft, a “tradição” (George H. W. Bush) à “mudança” (George W. Bush). 22 Essa contraposição cobre apenas parcialmente a anterior. Os que defendem a mudança podem ser realistas mais preocupados com a defesa dos interesses nacionais (nacionalistas como Donald Rumsfeld) ou idealistas preocupados com a disseminação de ideais (neoconservadores como Paul Wolfowitz). A preferência por um mundo “multipolar” ou “unipolar” não pode ser atribuída facilmente a um grupo político ou a uma escola ideológica. Os Democratas dão menos ênfase ao excepcionalismo americano do que os Republicanos, mas defendem tradicionalmente a necessidade de “liderança”. Os Republicanos acreditam menos que os Democratas no surgimento de novas potências mundiais tais como a China (exceto em termos econômicos – se é que), mas se satisfazem com um “equilíbrio de poder que promova a liberdade do homem,” para tomar emprestado uma expressão usada na National Security Strategy de 2002.23 Sem “volta à normalidade”

21

P. Garrity, “Warnings of a parting friend: US foreign policy envisioned by George Washington in his Farewell Address,” The National Interest, nº 45, Fall 1996, p. 26. 22

D. Rothkopf, “Running the World: The Inside Story of the National Security Council and the Architects of American Power,” Public Affairs, New York, 2006, p. 258, p. 397. 23

“The National Security Strategy of the United States,” setembro 2002 (Introduction). A expressão desapareceu na Estratégia de 2006, o que alguns interpretam como um sinal do repúdio definitivo de qualquer “realismo” no governo Bush. Veja James Mann, “The Curious Disconnect in U.S. Foreign Policy,” The Financial Times, 16 abril 2006.


Quaisquer que sejam os resultados da eleição presidencial e legislativa de 2008, a expectativa de uma “volta à normalidade” para a política americana depois de janeiro de 2009 muito provavelmente vai se frustrar. Esquece-se, muitas vezes, que durante os anos Clinton os europeus e o resto do mundo se queixavam do unilateralismo americano e da arrogância dos Estados Unidos quase tanto quanto desde que George W. Bush foi eleito. E foi naquela época que a expressão “rogue states” (“países não-confiáveis”) tornouse popular em Washington.24 Depois da era John F. Kennedy, quase sempre considerada como “os anos dourados” pelo lado europeu do Atlântico, os Estados Unidos mudaram: sua percepção do mundo já não é mais determinada pelas elites da Costa Leste e pela geração pós-II Guerra Mundial. A política externa americana é muito mais influenciada por valores religiosos, pela crença no excepcionalismo e no idealismo americano (defesa dos direitos humanos, a promoção da democracia, etc.). Desse ponto de vista, houve, sem dúvida, uma mudança histórica com a eleição de Jimmy Carter em 1976. 25 Mas a cultura sulista – com as suas raízes na dureza dos escoceses e irlandeses – é também a do espírito de conquista e de uso da força, mais violenta. Portanto, não é surpresa alguma que as Forças Armadas americanas tenham mantido vínculos fortes com o Sul, quanto mais não seja por ter instalado um grande número de bases militares na região já há muitos anos.

26

Esta mudança política se acelerou com as eleições de 1994, que levaram ao Congresso uma nova geração de republicanos contrários ao multilateralismo institucional. Veio, então, a virada do 11 de setembro, que serviu de ponto catalisador para ancorar as profundas mudanças na cultura política do país. 27 24

Esta classificação nunca foi definida com precisão, mas pode ser descrita como uma referência cruzada entre a lista dos Estados que apóiam o terrorismo, elaborada pelo Departamento de Estado americano, e a dos países que têm a reputação de possuir ou estar desenvolvendo armas de destruição em massa – que hoje compreendem, basicamente, Irã, Síria e Coréia do Norte. 25 Desse ponto de vista, o mandato único de George H. W. Bush será, sem dúvida, uma exceção histórica. Será lembrado que, sob a presidência de Bill Clinton, o tema principal da diplomacia americana era o alargamento da esfera da democracia política e da economia de mercado, um conceito proposto pelo Conselheiro Nacional de Segurança, Anthony Lake. 26

A sociologia do Exército americano é, desse ponto de vista, particularmente interessante: os texanos são esmagadoramente super-representados na lista, em detrimento, por exemplo, dos nova-iorquinos. E o fundamentalismo é representado mais expressivamente lá do que na população como um todo (não apenas no Sul, mas também nas áreas montanhosas do centro do país). 27

Sobre esse tema, veja referência em B. Tertrais, La Guerre sans fin. L’Amérique dans l’engrenage (Paris: Éditions Du Seuil, Coll. “La République des idées,” 2004).


John Lewis Gaddis sugere que o 11 de setembro talvez tenha encerrado a fase multilateralista da política externa americana, que talvez tenha sido um mero interlúdio na história dos Estados Unidos 28. A maneira pela qual Henry Kissinger enunciou as razões (apesar de ser um ícone do realismo) que o levaram a apoiar a guerra no Iraque – em termos a que um nacionalista como Donald Rumsfeld ou um neoconservador como Paul Wolfowitz não teriam renunciado – ou se pronunciou, como ocorreu recentemente, sobre o interesse, dentro de certas circunstâncias, do uso preventivo da força, revela bastante do quanto se distanciou a política externa americana de seu ponto de equilíbrio. 29 O próximo ocupante da Sala Oval provavelmente vai tentar se distanciar de alguns excessos do governo Bush. O objetivo grandioso de “pôr fim à tirania no mundo”, anunciado no discurso inaugural do segundo mandato de George W. Bush em janeiro de 2005, dificilmente será considerado literalmente – ainda mais que o apoio à promoção da democracia está em declínio na opinião pública.30 Na ausência de qualquer ameaça direta claramente identificável, por um bom tempo os Estados Unidos não irão mais considerar a hipótese de lançar uma nova guerra preventiva de grande envergadura envolvendo centenas de milhares de soldados para combates terrestres. Serão realizadas mudanças cosméticas: um presidente democrata sem dúvida abrirá mão de expressões como “guerra contra o terror” e “eixo do mal”. 31 Os próximos presidentes americanos governarão numa linha de continuidade mascarada pela natureza controversa do estilo de governo Bush, mesmo porque muitos tratados da política de hoje foram assinados antes de sua eleição. É do conhecimento público, por exemplo, que a expressão “guerra contra o terror” foi inventada por George H. W. Bush em 1985, depois de uma 28

J. Lewis Gaddis, Surprise, Security and the American Experience (Cambridge: Harvard University Press, 2004). 29

“Por que o Afeganistão não foi o suficiente. [...] Tínhamos que humilhá-los [...] de modo que ficasse claro que não queremos viver no mundo que eles querem para nós” (citado em B. Woodward, op.cit., p. 408). Sobre o segundo ponto, veja H. A. Kissinger, “American Strategy and Pre-emptive War,” The International Herald Tribune, 13 abril 2006. 30 31

Transatlantic Trends 2007, pp. 14-15.

Entretanto, é preciso fazer uma distinção entre essas duas expressões, que não tiveram o mesmo status durante a presidência de George W. Bush: seis anos depois do 11 de setembro a primeira permanece como um “rótulo” oficial, enquanto a segunda foi usada por líderes do governo apenas durante umas poucas semanas após o pronunciamento sobre o State of the Union de 2002.


série de ataques mortais contra as forças e os interesses americanos? 32 Ou que foi Bill Clinton quem primeiro falou de um “eixo diabólico” em 1998 para descrever os vínculos entre o terrorismo, o tráfico de drogas e o crime organizado internacional?33 A política que consiste em favorecer as “coalizões voluntárias” em detrimento das organizações multilaterais foi lançada por Bush, pai (Guerra do Golfo, 1991), e continuada por Bill Clinton (intervenção no Kosovo, 1999).

34

E foi o mesmo governo Clinton que tentou criar uma

“Comunidade de Democracias” que um dia poderá se tornar uma alternativa para a ONU35 (note-se, a esse respeito, que os eleitores democratas apóiam muito mais a promoção da democracia do que os republicanos.) 36 Não é surpresa alguma, por isso, que os textos escritos pelos principais especialistas democratas, com o propósito de servir de plataforma para o próximo governo, usem um jargão que pode soar como se tivesse saído de um discurso de Dick Cheney. Na proposta da “Estratégia de Segurança Nacional” redigida pelo Center for American Progress é feita menção a “países nãoconfiáveis”, tais como Irã, Coréia do Norte e Síria, cuja característica perigosa provém de “uma mistura de governo totalitário, pontos de vista extremistas e potencial para produzir e utilizar armas de destruição em massa.” 37 Os republicanos haviam criticado duramente a política de contenção durante a campanha eleitoral de 1952, mas quando Eisenhower assumiu o mandato ele se apressou a endossá-la. A mesma lógica há de se aplicar, sem dúvida alguma, aos sucessores do atual presidente. Os dois imperativos da presidência de Bush – a luta contra o terrorismo e a promoção da democracia – serão também os dos próximos presidentes. Os Estados Unidos continuarão a empreender importantes operações militares na área do “Grande Oriente 32

David Rothkopf, op. cit., p. 258, p. 397.

33

“President’s Address to the Joint Chiefs of Staff and Pentagon Staff”, 17 de fevereiro de 1998.

34

Durante a intervenção ocidental no Kosovo, a OTAN serviu de coluna vertebral para a constituição da coalizão. Além disso, os Estados Unidos realizaram certas ações de maneira unilateral, sem controle dos aliados. 35

A França foi o único país que se recusou a assinar o documento final da reunião inaugural da Comunidade das Democracias (Varsóvia, 2000). 36 37

Transatlantic Trends 2006, pp. 14-15.

L. J. Korb, R. O. Boorstin e o National Security Staff of the Center for American Progress, Integrated Power. A National Security Strategy for the 21st Century, Center for American Progress, p. 6.


Médio” (do Mediterrâneo ao Golfo de Bengala) – inclusive, talvez, de maneira preventiva.38 Não se deve esperar uma grande virada de posição dos Estados Unidos na ONU, nem nos principais tratados que preocupam os europeus. A legislação americana continuará a prevalecer sobre a lei internacional. As relações comerciais, por outro lado, podem sofrer grande impacto negativo com o renovado protecionismo evidente agora nas políticas americanas – e não apenas no campo democrata. Já está claro que os candidatos preliminares à eleição presidencial americana de novembro de 2008 não pretendem fazer mudanças fundamentais na política externa americana. Todos eles defendem posição favorável a uma vigorosa política antiterrorismo e garantem que não hesitarão em fazer uso da força militar, se necessário. Eles também expressam preocupação com o perigo de um Irã nuclear. Este é o caso, em especial, de John McCain e Hillary Clinton, mas os outros candidatos (Rudolph Giuliani e Mitt Romney, no lado republicano, e Barack Obama e John Edwards, no lado democrata) dificilmente podem ser rotulados de pacifistas. O futuro da estratégia americana Apesar de Donald Rumsfeld correr o risco de entrar para a História como a personificação do fracasso militar dos Estados Unidos, seria injusto não reconhecer que foi ele quem realizou grande progresso no desenvolvimento da engrenagem militar americana. A “transformação militar” está agora no caminho certo – i.e., prioridade para unidades móveis que são de fácil manobra, atuam com bastante autonomia no campo e estão aptas a receber todos os dados enviados pelo serviço de inteligência dos EUA. Esta mudança é simbolizada, por exemplo, pelo recurso cada vez mais freqüente aos armed drones [aviões de controle remoto] e às forças especiais (cujo número e orçamento vêm aumentando substancialmente desde 2001). A Global Posture Review (2004) mudou radicalmente a geografia das tropas militares americanas: 70.000 homens serão enviados de volta para casa da Ásia e da Europa, enquanto uma nova rede de pequenas bases militares permanentes 38

Vale citar aqui também o documento do Center for American Progress: “Para proteger nosso povo será necessário, algumas vezes, adotar ações militares unilaterais. Atacaremos para impedir ameaças iminentes. Qualquer país que tenha informação de que será atacado tem o direito, segundo a legislação internacional de autodefesa antecipatória, de atacar primeiro ou lançar um ataque preventivo.” L. J. Korb et al., op. cit., p. 18.


será assentada para acomodar rapidamente um contingente americano em tempos de crise. O Exército americano está sendo retirado da Alemanha, um sinal de que os vínculos estratégicos transatlânticos estão sendo desfeitos, o que também afeta a Turquia, e que ficou evidente como reflexo da Guerra do Iraque. O Pentágono quer fazer da Polônia sua nova cabeça de ponte na Europa. O orçamento militar deve diminuir com a redução da intensidade das intervenções dos EUA no Iraque, o que, por sua vez, tornará possível uma redução no déficit orçamentário. Mas este não irá retornar ao nível do do governo Clinton enquanto os Estados Unidos se considerarem “em guerra”. A estabilidade da oferta energética do exterior continuará a ser uma prioridade importante, porque a demanda continua crescendo (+36% de 2002 a 2025). 39 A diversificação das fontes de energia e a redução do consumo de energia de origem fóssil parecem ser as prioridades permanentes e consensuais, porque estão interligadas com as prioridades estratégicas e ambientais. Mas a magnitude do consumo energético americano é tal que num contexto de rápida redução da capacidade de produção do petróleo dos EUA a dependência externa do país só irá decrescer lentamente. De fato, já há uma previsão hoje de que lá pelo ano 2030 os EUA importarão 66% do petróleo para atender à demanda de consumo (em comparação com os atuais 47%) e 20% do gás (comparados com os atuais 4%).40 Não há dúvida de que o Oriente Médio continuará a ser, nas próximas décadas, uma das principais áreas de aplicação da estratégia americana, porque é naquela região do mundo que se encontram três prioridades fundamentais dos EUA: oferta de petróleo, a ameaça do terrorismo e a segurança de Israel. A sobrevivência do Estado de Israel ainda será uma prioridade para os próximos presidentes americanos. Não há nada estrutural a respeito das “relações especiais” que unem os dois países. Desde 1948 houve momentos em que elas ficaram tensas, inclusive recentemente (sob as presidências de 39

N. Gnesotto, G. Grevi (dir.), The New Global Puzzle: What World for the EU in 2025?, Institut d’études de sécurité de l’Union européenne [Instituto de Estudos de Segurança da União Européia], 2006, p. 150 (daqui em diante: IES-UE 2006). 40 IES-UE 2006, op. cit., p. 150.


Ronald Reagan e George H. W. Bush). E se os Estados unidos continuam a ser vistos como o único país capaz de servir de mediador entre israelenses e palestinos é porque certamente as elites da região consideram a política dos americanos mais equilibrada que a dos países do lado europeu do Atlântico – incluindo-se seus interesses estratégicos no mundo árabe. Mas também é verdade que há uma grande sensibilidade com relação às preocupações de Israel dentro da opinião pública e entre as lideranças políticas. Não é o “voto judeu” a principal razão para isso; são, antes de tudo, os democratas que se mostram sensíveis às preferências da comunidade judaica, já que pelo menos 60% desta última têm votado em seus candidatos desde 1956. Entretanto, desde 1990 o número de judeus nos Estados Unidos vem caindo, enquanto o número de muçulmanos praticamente dobrou. 41 Qual é a explicação, então, para a tão forte linha pró-Israel no governo Bush, quando o presidente obteve apenas 24% do voto judeu em 2004? A explicação é simples: o apoio a Israel provém essencialmente do fato de que cerca de 30% da população adulta que se identifica com o evangelismo acreditam que os dois povos compartilham do mesmo destino político, ou até mesmo espiritual, particularmente depois do 11 de setembro. A posição dos evangélicos na sociedade política americana também faz prever que a amizade entre os dois países será durável, apesar dos movimentos de oposição que cresceram nos últimos anos. 42 No entanto, continuam as incertezas quanto às outras alianças dos EUA na região. Nos últimos dez anos a Arábia Saudita vem demonstrando sinais de emancipação, ao passo que Washington se preocupa com uma sociedade que gerou a maior parte dos executantes do ataque do 11 de setembro, talvez com alguma cumplicidade dentro da engrenagem do governo. O subsolo do reino wahhabita possui as maiores reservas de petróleo conhecidas, e a ameaça nuclear iraniana está contribuindo, no momento, para perpetuar a aliança estratégica entre os dois países. No entanto, se o Irã, ao contrário, vier a experimentar uma verdadeira democratização nas duas próximas décadas será

41

B. A. Kosmin, E. Mayer, A. Keyzar, American Religious Identification Survey 2001, The Graduate Center of the City University of New York, 2001, p. 13. 42

A respeito da oposição nos Estado Unidos ao apoio a Israel, veja relatório na revista La Vie des idées com o título “Israël autrement”, nº 21, abril 2007.


lógico que este país volte a ser o que foi para Washington até o final dos anos 1970: o principal aliado dos Estados Unidos na região. O movimento mais espetacular das duas próximas décadas será, sem dúvida, a mudança de foco estratégico dos EUA da Europa para a Ásia. Ao lado das alianças tradicionais (Filipinas, Tailândia, Austrália e Japão) estarão Índia e Cingapura. O futuro da aliança dos EUA com a Coréia do Sul, que parece ter se tornado tão sensível às preocupações de Beijing quanto às de Washington, é, por outro lado, carregado de incertezas. O desenvolvimento de alianças americanas se manterá, qualquer que seja a circunstância, no mesmo ritmo das relações nipo-americanas, que poderão ser um fator decisivo na geopolítica do século XXI. Os Estados Unidos têm oscilado, desde o final da Guerra Fria, entre “atrair” e “conter” a China. Os sucessivos governos americanos começaram por adotar uma linha dura em relação a Beijing, e depois passaram a uma atitude mais positiva. O governo Bush não foi exceção a essa regra. O futuro comportamento da República Popular, particularmente em relação a Taiwan e seus outros vizinhos, será, a esse respeito, determinante. Haverá um equilíbrio de poderes no horizonte? Uma vez que a China e a Índia são sendo cada vez mais reconhecidas como atores importantes no cenário mundial, enquanto outras potências, como o Japão, a Rússia e a Europa, reivindicam uma posição de maior influência no ambiente internacional, o peso relativo dos Estados Unidos, à primeira vista, parece estar automaticamente destinado a declinar. Isso parece ainda mais provável porque que os Estados Unidos, sob muitos aspectos, parecem ser agora uma potência “cansada”. Sob o aspecto econômico, os Estados Unidos estão passando por uma conjunção inédita de importantes déficits. Apesar de um orçamento federal ainda equilibrado em 1960, e de ter experimentado um breve período de superávit ao final do governo Clinton, o déficit orçamentário dos EUA varia, dependendo do ano a que se refere, entre US$ 250 e US$ 400 bilhões (com base nas despesas de US$ 2,8 trilhões em 2007). As causas desse crescente déficit parecem provir de uma combinação


do impacto de um aumento nos gastos federais com a segurança e a defesa nacional, desde o 11 de setembro, com a redução de impostos. Desde 2001 as operações militares custaram, sozinhas, US$ 503 bilhões (dos quais US$ 351 bilhões foram para a guerra no Iraque). 43 Mas o agravamento da situação do orçamento federal se deve, principalmente, aos elevados gastos com o assistencialismo de programas como Social Security, Medicare e Medicaid que, sozinhos, representaram 60% dos gastos federais e 8,7% do PIB dos EUA em 2006 – um percentual que poderá subir a 10,8% em 2016 e 16% em 2036, de acordo com o Congressional Budget Office.44 A mesma tendência vem sendo observada com relação ao comércio. A desindustrialização levou a uma alta sem precedentes na importação de bens manufaturados. Resultado: apesar de a balança comercial ter estado equilibrada em 1980, o déficit do comércio exterior chegou a US$ 763,6 bilhões em 2006, ou 5,8% do PIB.45 A tentação de recorrer ao protecionismo foi naturalmente intensificada no campo democrata, onde isso se tornou costume nos últimos quinze anos, mas também – e isso é novidade – no campo republicano. O economista Jeffrey Garten ressaltou que, com a participação crescente do comércio exterior na economia do país (25% do PIB hoje, comparados com os menos de 10% na segunda metade do século XX), a “politização” do debate sobre o comércio só pode se intensificar.46 O déficit público americano voltou a crescer vertiginosamente no começo dos anos 1980. Em 2007 totalizava US$ 8,8 trilhões, ou o equivalente a cerca de dois terços do PIB dos EUA. O Japão é o principal detentor estrangeiro da dívida pública americana (US$ 644,3 bilhões no final de 2006), seguido, de longe, pela China e pelo Reino Unido.

43

“Estimated appropriations provided and requested for the war in Iraq and the war on terrorism, 20012008”, Congressional Budget Office, 7 fevereiro 2007. 44

Os principais itens do orçamento federal para o ano fiscal de 2007 foram: 1) Social Security, US$ 586 bilhões; 2) Defesa, US$ 466 bilhões; 3) Medicare, US$ 394 bilhões; 4) Assistência Social, US$367 bilhões; 5) Medicaid e outros programas de saúde, US$ 276 bilhões. 45

Dos quais US$232,6 bilhões com a China.

46

J. E. Garten, “Trade Starts at Home”, Newsweek, 26 março 2007.


Deve-se recordar que na virada do século os Estados Unidos tornaram-se um importador líquido de petróleo: importam agora mais de 50% do petróleo que consomem, inclusive com o declínio da capacidade de produção nacional. Os Estados Unidos, portanto, parecem estar se tornando cada vez mais dependentes de outros países para conseguir manter sua engrenagem econômica funcionando. Algumas tendências na área do ensino superior e da pesquisa também podem ser questões preocupantes. O número de jovens graduados em engenharia caiu 20% de 1985 para 2004, e a China está agora treinando três vezes mais engenheiros do que os Estados Unidos.

47

O número de registros de patentes

está agora crescendo muito mais rápido na Ásia do que nos EUA. 48 E o número de doutorados agora concedidos pelas universidades americanas estagnou, apesar de ter crescido tremendamente nos anos 1990. 49 O exército americano está desgastado depois de mais de cinco anos de intensa atividade em teatros de operação que se estendem do Sahel às Filipinas, e ainda mais com o interminável envolvimento no Iraque, o que afeta particularmente as forças terrestres. Hoje, todas as forças combatentes estão acampadas fora dos EUA. A Guarda Nacional e a Força de Reserva já representam cerca de 20% do contingente estacionado no Iraque. Em abril de 2007 os EUA estenderam seu prazo de rotatividade das tropas no Iraque de doze para quinze meses – o que nunca havia acontecido desde a II Guerra Mundial. Eles tiveram que mudar seu critério de seleção. A idade máxima para o alistamento foi elevada para 42 anos, e os pré-requisitos físicos e intelectuais foram rebaixados. Hoje, mais de 10% dos recrutas têm registro policial. Qualquer que venha a ser o cenário, o país levará pelo menos de dois a três anos após o fim da guerra no Iraque para que o exército americano recupere todo o seu potencial (em termos de renovação de material, notadamente). Hoje, o exército é cada vez menos representativo da população: por exemplo, 47

National Intelligence Council, Mapping the Global Future. Report of the National Intelligence Council’s 2020 Project, NIC 2004 – 13, dezembro 2004, p. 112. 48

Em 2005: +43,7% para a China, +33,6% para a Coréia do Sul, +24,3% para o Japão, comparados com os +3,8% para os EUA. Veja F. Zakaria, “How long will America lead the world?”, Newsweek, 12 junho 2006, p. 40. 49

Michael J. Lombardi, “The Decline of the American Superpower”, Defense & Security Analysis, vol. 21, nº 3, p. 315.


os afro-americanos estão super-representados no exército (20%, ao passo que representam apenas 12,5% de toda a população do país). Por fim, os limites do unilateralismo se tornaram evidentes de modo flagrante: os Estados Unidos se viram obrigados a reconhecer que administrar crises conseqüentes da proliferação nuclear (no Irã e na Coréia do Norte, por exemplo) implica uma ação coordenada de comum acordo com todos os importantes atores internacionais por razões de legitimidade e de eficiência. Por que o século XXI será (ainda) americano A despeito de suas fraquezas, os Estados Unidos ainda podem ser o líder mundial nas próximas décadas. Mesmo que seu domínio do cenário internacional não venha a ser compartilhado, nenhum outro Estado ou grupo de Estados será capaz de ameaçar sua posição única de superpotência. Os números falam por si mesmos. Os Estados Unidos vêm acumulando os primeiros lugares em um número impressionante de categorias completamente distintas. Por exemplo, são líderes em áreas econômicas tais como produção mundial (29%), PIB (US$ 11 trilhões) e renda nacional (US$ 9,67 trilhões), produção de energia, produção de carne, área agrícola cultivada (430 milhões de hectares, basicamente produção de milho e soja), produção de software (51,2%), exportação de serviços, número de empresas nacionais na lista das 500 maiores empresas do mundo (49,7%), valor de mercado (42%), gastos com pesquisa e desenvolvimento (mais de um terço), número de patentes registradas (51,9%), participação no capital do FMI, ações de investimentos diretos no exterior (US$ 1,6 trilhão) e participação de uma moeda nacional em reservas de bancos centrais (66% de todas as reservas). A proeminência americana no campo intelectual é igualmente impressionante – e, sem dúvida, fundamental para o futuro. Os Estados Unidos estão em primeiro lugar no número de Prêmios Nobel recebidos, em número de estudantes estrangeiros, em número de servidores de Internet (80% de todos os servidores) e no de sites da Internet mais visitados (68%). No

plano

militar, os pontos fracos aqui

destacados são

altamente

compensados pelo caráter estrutural da superioridade americana. Mesmo antes do aumento de recursos destinados ao Pentágono em função do 11 de


setembro os EUA possuíam, de longe, o maior orçamento de defesa do mundo. Este agora representa um total de US$ 606 bilhões, o que equivale a um aumento de 40% desde 2001.50 Mas esse dispêndio representa apenas 3,8% de todo o PIB americano (comparados com os 11,7% durante a guerra na Coréia) e 20% do orçamento federal (comparados com os 60% em 1956), e se encontra num nível perfeitamente suportável pela economia americana. Esse investimento de longo prazo dá aos Estados Unidos o “comando dos espaços comuns”, segundo expressão do analista Barry Posen. 51 Assim como a Inglaterra dominou os mares no século XIX, os EUA estão dominando não apenas os oceanos, mas também o aeroespaço (espaço aéreo e o extraatmosférico)52 e o “cyberspace” (espaço cibernético). O investimento do Pentágono na alta tecnologia é inigualável (US$ 70 bilhões em pesquisa e desenvolvimento em 2005.)53 Só os EUA têm a capacidade de “projeção de força”, que lhes permite deslocar várias centenas de milhares de homens para um determinado teatro de operações militares em poucas semanas – uma capacidade garantida por uma rede de 800 bases militares sem igual no mundo. Uns 30 países estão, no momento, abrigando um significativo contingente americano (mais de 100 soldados).

54

Se as propostas do

Pentágono forem aprovadas, o efetivo do exército e dos fuzileiros navais será aumentado em 10%, totalizando 547.000 e 202.000 homens, respectivamente, por volta de 2012. Essa capacidade é duplicada por uma aptidão para a “projeção de poder” apoiada, basicamente, em bombardeiros estratégicos e plataformas navais para lançamento de mísseis “Cruise” que está prestes a ganhar reforço com a adoção do conceito de “prompt global strike” (uso de mísseis balísticos de longo alcance operando em modo convencional). E, apesar de o exército americano precisar de algum tempo para se recuperar da aventura no Iraque, ele será, no entanto, a força terrestre mais bem treinada do 50

Para o ano fiscal de 2008, o Executivo americano solicitou ao Congresso a aprovação de um orçamento de defesa de US$ 623 bilhões, o maior desde a II Guerra Mundial. 51

B. Posen, “Command of the commons: The Military Foundation of US Hegemony”, International Security, vol. 28, nº 1, Summer 2003. 52

Dos 845 satélites atualmente em órbita, 443 (ou 53%) pertencem aos Estados Unidos ou estão sendo operados pelos EUA. 53 54

A. Segal, “Is America Losing Its Edge?” Foreign Affairs, novembro/dezembro 2004.

Dados de 2003. T. Kane, “Global US Troop Deployment 1950-2005”, The Heritage Foundation, CDA06-02, 24 maio 2006.


mundo. Finalmente, os EUA são a única potência nuclear tecnicamente capaz de ameaçar com o lançamento de ataques “desarmadores” contra qualquer outro país armado com armas nucleares; sua superioridade relativa nesse aspecto é muito maior do que era durante a época da Guerra Fria.

55

O

somatório de suas capacidades possibilita aos EUA continuarem a ser o mais forte protetor militar do mundo, apoiado por uma rede mundial singular de alianças de defesa. No momento, uns 50 países estão sendo protegidos pelos Estados Unidos em virtude de tratados bilaterais ou multilaterais – sem mencionar os países que se beneficiam de uma proteção mais informal, mas igualmente confiável, tais como Israel, Arábia Saudita ou Taiwan. 56 Se acrescentarmos a tudo isso as parcerias privilegiadas consagradas por Washington na área da defesa, quase a metade dos países do mundo (84 em 192) pode ser considerada de aliados ou amigos dos Estados Unidos, o que é uma proporção muito maior do que durante a Guerra Fria. 57 O ativo fundamental dos EUA é sua força motivadora e sua capacidade de inovação em todas as principais áreas, o que perpetua seu poder e influência. Tal dinamismo é primeiro e acima de tudo de caráter demográfico, porque, nesse aspecto, os Estados Unidos se destacam dos outros países mais industrializados – conseqüentemente, será mais fácil para os EUA financiar a pensão dos aposentados nas próximas décadas (em 2025, os Estados Unidos poderão ser o único país desenvolvido cuja população ativa ainda estará crescendo.)58 Eles passaram da marca simbólica dos 300 milhões de habitantes em outubro de 2006. De 305,8 milhões de habitantes em 2007 passarão a mais de 402,4 milhões por volta de 2050, garantindo, assim, que continuem como o terceiro país mais populoso do mundo. 59 Esse crescimento 55

K. A. Lieber, D. G. Press, “The end of MAD? The Nuclear Dimension of US Primacy”, International Security, 304, Spring 2006, pp. 7-44. 56

Note-se que o número de países que abrigam tropas americanas vem declinando continuamente desde o final da Guerra da Coréia (mais de 40 naquela época). Mais ainda, o número de soldados deslocados para outros países (386.000 homens em 2005) é ainda menor do que aqueles alcançados durante a Guerra Fria (535.540, em média, de 1950 a 2000). Vide T. Kane, op. cit. 57

B. A. Thayer, “In Defense of Primacy”, The National Interest, novembro/dezembro 2006, p. 34.

58

Projeções do U.S. Census Bureau citadas em N. Eberstadt, “’Demographic Exceptionalism’ in the United States: Tendencies and Implications”, American Enterprise Institute, janeiro 2007. 59

ONU, Department of Economic and Social Affairs, Population Division, “World Population Prospects: The 2006 Revision, ESA/P/WP.202, 2007, p. 46.


dinâmico é atribuído ao efeito da combinação de dois fatores: 60 o primeiro é uma taxa de fertilidade bastante alta para um país altamente industrializado (acima de 2 desde 1989). O segundo fator é que os EUA atraem mais imigrantes do que qualquer outro país no mundo. De 1996 até 2005 os EUA receberam uma média de 980.000 novas entradas por ano. A ONU prevê que os Estados Unidos continuarão a ser a principal terra das oportunidades para os migrantes e que receberão, em média, não menos que 1,5 milhão deles lá pelo ano 2050.61 Esse dinamismo é igualmente intelectual. A proporção de americanos que recebem pelo menos a educação de segundo grau não tem paralelo dentro da OCDE62. Não é por acaso que o nível de conhecimento científico médio da população americana é maior do que o dos europeus ou dos asiáticos. 63 Os EUA investem 2,6% de seu PIB em educação de nível superior (comparados com 1,2% para Europa e 1,1% para o Japão) 64. Qualquer que seja a metodologia usada, todos os estudos indicam que a grande maioria das melhores universidades do mundo é americana. 65 Ao longo do século XX, pesquisadores americanos conquistaram uma boa parte dos Prêmios Nobel para Ciência, em números crescentes: um sétimo deles entre 1901 e 1945, metade deles entre 1945 e 1975 e não menos que dois terços deles desde 1975. De um total de 494 Prêmios Nobel em Física, Química e Medicina concedidos entre 1901 e 2003, 219 deles foram para americanos. Um terço dos artigos publicados nos campos científico e tecnológico é assinado por autores americanos66. Além disso, a porosidade entre a pesquisa de base e sua 60

N. Eberstadt, op. cit. Os dois fenômenos (imigração e fertilidade) devem ser distinguidos: americanos de origem européia têm uma taxa de fertilidade total de 1,82, que é 20% maior do que a dos europeus. 61

ONU, op. cit. p. 4. Hoje há cerca de 36 milhões de estrangeiros nos Estados Unidos, 12 milhões dos quais são, provavelmente, ilegais. 62

OCDE, OECD in Figures 2006-2007, p. 54.

63

J. D. Miller, “The Measurement of Civic Scientific Literacy”, Public Understanding of Science, vol. 7, nº 3, pp. 203-217. 64

F. Zakaria, op. cit., p. 39.

65

Dezoito em vinte de acordo com Richard Lambert e Nick Butler. Veja trabalho dos autores: The Future of European Universities: Renaissance or Decay? Center for European Reform, junho 2006. Trinta e sete em cinqüenta, de acordo com Academic Rankings of World Universities 2005, Institute of Higher Education Research, Shangai Jaio Tong University, 2005. Cinqüenta e quatro em duzentas, de acordo com a revista semanal Newsweek (F. Zakaria, op. cit., p. 39). 66

* NT - Instituto de pesquisa dedicado a resolver problemas complexos ou prever ou planejar futuros desdobramentos, como no campo militar, político ou social.


aplicação prática é muito forte nos Estados Unidos. É por essa razão que não há equivalentes no mundo a instituições como o Massachusetts Institute of Technology (MIT) ou o California Institute of Technology (Caltech) 67. A capacidade de inovação está se desenvolvendo rapidamente nas economias asiáticas, mas a aptidão americana para aperfeiçoar as inovações e integrá-las a seu sistema de produção continuará provavelmente sem concorrentes por um longo tempo. Um fator importante que contribui para perpetuar a atratividade do modelo das universidades americanas é o idioma inglês. Apesar de um temporário declínio como efeito do 11 de setembro, os Estados Unidos continuam a receber metade dos migrantes de formação superior do mundo que representam, no país, não menos que 42% de todos os residentes estrangeiros 68. Se a China pode vir a ser a “oficina” do mundo e a Índia seu “escritório”, os Estados Unidos continuam a ser sua “universidade” e seu “think tank”*. Em geral, a economia americana se caracteriza por um forte investimento no futuro. Os EUA investem 2,7% de seu PIB em pesquisa e desenvolvimento 69, o que representa mais de um terço (35%) dos gastos mundiais nessa área 70. Os EUA também se destacam pela proporção muito elevada de indústrias de alta tecnologia envolvidas em sua produção industrial (23%) 71, e sua economia ainda é a mais competitiva em todo o mundo. 72 A capacidade de reação do modelo econômico americano às crises também é muito forte, como se viu recentemente no episódio da Enron 73. Essa capacidade de reação atesta, de um modo mais amplo, a capacidade da D. S. Greenberg, Science, Money, and Politics: Political Triumph and Ethical Erosion (Chicago: University of Chicago Press, 2001), p. 477. 67

A. Finkbeiner, The Jasons. The Secret History of Science’s Postwar Elite, Penguin Books, Kirkwood, 2006, pp. 229-230. 68

G. Dorel, op. cit., p. 57.

69

F. Zakaria, op. cit., p. 40.

70

UNESCO, UNESCO Science Report 2005, 2005. Em 2004, esta despesa totalizou US$ 290 bilhões (A. Segal, op. cit.). 71

G. Dorel, op. cit., p. 23. Só a Coréia do Sul os ultrapassa, com 30,1%.

72

International Institute for Management Development, “The World Competitiveness Scoreboard 2007”, IMD World Competitiveness Yearbook 2007, p. 7. 73

Sobre esse assunto, veja L. Barber, “Aprés Enron: une révolution de velours”, in G. Parmentier, op. cit.


sociedade americana de constantemente “se reinventar”, o que não tem equivalente na Ásia ou na Europa. A despeito da participação crescente da China na produção industrial do mundo, os Estados Unidos continuam liderando a produção de bens manufaturados em termos de porcentagem da contribuição do valor adicionado doméstico (23,8% da produção mundial em 2004). De 1982 a 2004, sua participação caiu apenas 1,1%74. A “desindustrialização” da economia americana atinge apenas os bens de baixo valor agregado, e a participação dessa economia na produção mundial ainda está crescendo. Representa, no momento, 29%, comparados aos 22% em 1980. 75 O peso do dólar nas transações internacionais não diminuiu e, na opinião da maioria dos especialistas, a proeminência da moeda americana no sistema financeiro internacional ainda não está ameaçada. 76 Hoje o dólar representa 68% das reservas mundiais em moeda (comparados com 13% para o euro), sendo utilizado em 50% das transações internacionais entre empresas (33% para o euro), o que reflete o peso das importações americanas de matériasprimas cujas taxas de câmbio são, por essa razão, denominadas em dólares. Finalmente, 48% das debêntures internacionais são denominadas em dólares.77 Os Bancos Centrais da Ásia investem grande parte de seus excedentes, acumulados como resultado de déficits comerciais com a China, Japão, Coréia do Sul e Malásia, etc., preferencialmente nos Estados Unidos. A confiança dos investidores na capacidade da economia americana de gerar crescimento não-inflacionário continua intacta. Para completar, o total da dívida externa de outros países com os Estados Unidos é muito maior (quase o dobro) do que o da dívida dos EUA com outros países. 78 Graças a seu sistema financeiro, que lhe dá uma substancial “vantagem comparativa” sobre o resto 74

França: -1,4%; Alemanha: -3,5%; Japão: -2,7%. Veja L. Uchitelle, “In era of globalization, no shortage of US goods”, The New York Times, 17 setembro 2005. 75

F. Zakaria, op. cit., p. 39.

76

J. W. Peters, “Reports of dollar’s death greatly exaggerated, currency experts say”, The International Herald Tribune, 2 janeiro 2007. 77 78

G. Dorel, op. cit., p. 43.

P.-O. Gourinchas, H. Rey, From World Banker to World Venture Capitalist: US External Adjustment and the Exorbitant Privilege, Centre pour la recherche économique et ses applications [Centro de pesquisa econômica e suas aplicações (CEPREMAP)], agosto 2005.


do mundo, o país está contraindo débitos a baixo custo e comprando títulos com rendimento superior79. “Não obstante seu status de devedor líquido, os Estados Unidos se beneficiam de um inigualável dinamismo e de uma influência que provêm do rápido crescimento de sua produtividade baseado em inovação na fronteira tecnológica. Ao mesmo tempo, servem de ‘compradores de última instância’, de fonte principal de transferência tecnológica e de âncora monetária mundial – a clássica potência hegemônica fornecedora de bens públicos’”80. Por essas razões, o déficit americano em si não é um motivo de preocupação para o futuro da economia do país (a debilidade do dólar provavelmente será estrutural daqui para a frente, porque a desvalorização da moeda do país continuará a ser um meio tentador de reduzir sua dívida). A crescente integração das três economias norte-americanas dentro da esfera do NAFTA (Canadá, Estados Unidos e México) deverá criar um grupo singular de nações: a “máquina” socioeconômica dos EUA é constantemente alimentada pela mão-de-obra barata do sul (México) e pela abundância de recursos energéticos (Canadá e México), e a produção americana está encontrando um mercado natural ao norte (Canadá) 81. Deve-se ressaltar, ainda, que os Estados Unidos continuam a ser muito menos dependentes de energia de outros países do que muitos outros países industrializados (cerca de 32% de seu consumo final). A produção nacional ainda cobre 41% de seu consumo de petróleo e 82% de seu consumo de gás 82. Finalmente, deve-se recordar que o país usufrui de uma estabilidade em seus mecanismos políticos sem equivalente no mundo, com exceção da Inglaterra: nos últimos 200 anos tem por base a mesma Constituição (a mais antiga

79

D. Cohen, “L’odyssée du dollar faible”, Le Monde, 17 janeiro 2007.

80

D. Levey, S. Brown, citados por B. Setser et al., “How scary is the deficit?” Foreign Affairs – WTO Special Edition, dezembro 2005. 81

O Canadá ainda é, de longe, o principal parceiro comercial dos Estados Unidos. Com a entrada em vigor do NAFTA, o México se tornará o segundo maior parceiro (terceiro maior em 2006, logo atrás da China). 82

US Energy Information Administration, 2007. C. de Lestrange, “Les États-Unis entre inertie et dynamisme énergétique”, Questions internationales, nº 24, março/abril 2007, p. 62.


constituição escrita ainda em vigor no mundo), o mesmo sistema institucional de pesos e contrapesos, e o mesmo ciclo eleitoral. É por todas essas razões que a “elite transnacional globalizada”, descrita por dois jornalistas do semanário The Economist, é constituída de 40% de americanos (i.e., 20 milhões de indivíduos). 83 Nenhum outro ator internacional parece capaz de apresentar condições equivalentes no futuro próximo. A China não deverá se equiparar à produção americana antes de 2050 – e só conseguirá fazê-lo se o extraordinário boom econômico chinês prosseguir sem sobressaltos, o que não se pode garantir. O crescente progresso da China e da Índia será afetado por suas fragilidades: desequilíbrios demográficos (excesso de população masculina, impacto da AIDS), deficiências no sistema público educacional e de saúde nas áreas rurais, etc., e baixa capacidade de inovação intelectual. Os dois países ainda estão longe dos Estados Unidos em termos de competitividade econômica e inovação industrial.84 Além disso, os dois países têm suas próprias fragilidades. Para a China, isso inclui o envelhecimento de sua população (“a China envelhecerá antes que fique rica”), um nível de corrupção particularmente alto, a fragilidade de seu sistema bancário e financeiro e um alarmante grau de degradação ambiental (deterioração de terra cultivável), para não mencionar os riscos da instabilidade política em vista dos intensos protestos sociais e religiosos. A Índia, por outro lado, lida com um volume de investimentos estrangeiros comparativamente baixo, uma burocracia paralisante, pobreza endêmica em muitas regiões e grave escassez de água em certas áreas. Quanto ao Japão, ele não pode alegar igualdade de condições com os Estados Unidos. Apesar de o país estar vivendo o renascimento do nacionalismo e de não hesitar mais em afirmar seu poderio militar, está passando por um

83

John Micklethwait e Adrian Woolridge, A Future Perfect: The Challenge and Hidden Promise of Globalization, (New York: Crown Business, 2000), p. 235. 84

Em termos de competitividade mundial, a China (excluindo-se Hong Kong) está em 15º lugar e a Índia, no 27º (International Institute for Management Development, op. cit.). Em inovação, o total de patentes registradas na China e na Índia em 2005 chegou a 1% do total americano (veja D. Steinbock, “Innovation: the name of the game”, Asia Times, 9 fevereiro 2007).


significativo declínio da população, que se espera cairá de 127,9 milhões para 102,5 milhões por volta de 205085. A Rússia está numa situação demográfica ainda pior, relacionada com os seríssimos problemas de saúde pública que está enfrentando agora (inclusive a pandemia de AIDS, com um milhão de indivíduos identificados, no momento, como portadores do vírus). Ela irá passar por um tremendo declínio de população que, por volta de 2050, cairá de 142,4 para 107,8 milhões 86. Além disso, ela deverá, nesse contexto, controlar um imenso território cujas estepes ainda se encontram em situação instável. Hoje a “gasocracia” russa dá ao país apenas a aparência de uma grande potência. Resta

considerar

a

Europa,

que

apresenta

um

quadro

mesclado.

Inquestionavelmente ela conseguiu se tornar uma importante potência econômica e desenvolver uma cultura política comum que agrada aos países fora de suas fronteiras. No entanto, sua falta de unidade impede que ela surja no cenário internacional como um ator autônomo, particularmente na administração de crises. O total de suas despesas militares chega à metade dos gastos dos Estados Unidos, e seu investimento em pesquisa e desenvolvimento equivale a um quinto do que é feito nos EUA. Sua considerável heterogeneidade não contribui para que contraponha um “modelo europeu” ao americano.87 A elite do continente se deleita na atração desse assim chamado modelo – especialmente quando descrito em termos bajuladores por um americano como Jeremy Rifkin – mas é improvável que o modelo europeu conseguirá, algum dia, competir com o poder do americano aos olhos da maioria da população mundial que, acima de tudo, anseia por uma vida melhor88. Para completar, o “velho continente” está passando por uma indiscutível redução demográfica. A população da Alemanha vai cair de 82,6 milhões em 2005 para 74 milhões em 2050, a da Itália, de 58,8 para 54,6 milhões, a da Polônia, de 38 para 30,2 milhões, e a da Romênia, de 21,4 para

85

ONU, op. cit., p. 44.

86

ONU, op. cit., p. 45.

87

Sobre esse tema, veja B. Tertrais, Europe, États-Unis: valeurs communes ou divorce culturel? Note nº 36, Robert Schuman Foundation, 2006. 88

J. Rifkin, The European Dream (New York: Tarcher, 2004).


15,9 milhões89. A capacidade de influência da União Européia continuará a ser tão grande quanto a dos Estados Unidos em seu ambiente regional, mas continuará a ser muito mais fraca do que a dos EUA nas outras regiões do mundo. Os que andaram prevendo o declínio inevitável dos Estados Unidos nos últimos vinte anos erraram. Paul Kennedy concluía, ao final dos anos 1980, que os Estados Unidos já estavam sofrendo de uma “superdistensão imperialista” [“imperial overstretch”] (significando que não tinha mais condições de manter seu poderio)90. Este foi um duplo erro, não apenas em termos de previsão (à época, considerava-se o Japão como uma potência rival), mas também de diagnóstico. Os Estados Unidos não são um império. Sua influência hoje se deve muito mais à sua atratividade – econômica, política e cultural – do que às suas possessões. Por outro lado, aqueles que teorizavam alguns anos atrás que o século XXI seria mais um século “americano” poderão estar certos. 91 O analista William Wohlforth mostrou que os Estados Unidos foram “o primeiro Estado líder na história moderna internacional com preponderância decisiva em todos os componentes essenciais do poder (...)”. 92 Mais do que isso, ele mostrou que a liderança dos EUA era tal que o mecanismo de reequilíbrio natural do poder para contrabalançar o Estado hegemônico predito pela teoria “realista” das relações internacionais não era mais necessário. Por fim, ele previu que a supremacia dos EUA iria durar tanto quanto a Guerra Fria.

III – Os Estados Unidos continuarão conservadores? Os fatos falam por si só. O centro de gravidade da opinião pública e do ambiente político nos Estados Unidos está pendendo, cada vez mais, “para a direita”: os valores americanos e o comportamento das pessoas são cada vez

89

ONU, op. cit., pp. 42-46.

90

P. M. Kennedy, The Rise and fall of the Great Powers. (New York: Random House, 1987), p. 515. Uma análise geral das diversas teses declinistas é feita por J. Vaïsse, “Empire américain: l’éternel déclin”, na edição especial de Marianne de dezembro de 2003. 91

A. Valladao, Le 21e siècle sera américain, La Découverte, Paris, 1999; W. C. Wohlforth, “The Stability of a Unipolar World”, International Security, vol. 24, nº 1, Summer 1999. 92

W. C. Wohlforth, op. cit., p. 7.


mais influenciados pelas preferências do movimento conservador e do campo republicano.93 A “guinada para a direita” da sociedade americana Desde os anos 1950 vem se desenvolvendo uma mudança nas opiniões, nas práticas empresariais e nas escolhas políticas que reflete uma direção constante – mais liberal e mais individualista, mas também mais conservadora e mais repressiva. Correndo o risco de uma supersimplificação, vamos chamála de uma “guinada para a direita” dos EUA. - A participação do Estado na economia está diminuindo. Em 1985, o déficit federal representava 22,9% do PIB dos EUA. Em 2001, era de apenas 18,4% e estima-se que caia para 17,2% em 2010. 94 - A concentração de renda está aumentando 95. De 1980 a 2004, o percentual da renda nacional paga aos americanos ricos dobrou (16%), e até mesmo quadruplicou (2,87%) para 0,01% dos mais ricos da sociedade. A concentração de renda nos Estados Unidos agora é bem maior do que era antes da II Guerra Mundial. A taxa de pobreza “absoluta”, medida pelo U. S. Census Bureau, também vem aumentando (12,7% em 2004, ou 37 milhões de pessoas). - A taxa de sindicalização está em baixa. Em 1960, 40% dos empregados

americanos

eram

sindicalizados;

atualmente

esse

percentual é de 13,5%.96 - A taxa de encarceramento está crescendo substancialmente. De 1972 para 2005, a população carcerária cresceu de 330.000 para 2.000.000. 97 93

Sobre esse assunto, veja a reportagem de dois jornalistas do semanário inglês The Economist (J. Micklethwait, A. Woolridge, The Right Nation: Why America is Different (London; Penguin Books, 2005) bem como Pew Research Center for the People and the Press, “Beyond Red v. Blue. Republicans Divided About Role of Government – Democrats by Social and Personal Values”, Survey Report, 10 maio 2005. 94

Congressional Budget Office, 2002. Esta participação deve aumentar gradualmente em função do peso das aposentadorias. 95

Veja T. Piketty, E. Saez, “Income Inequality in the United States, 1913-1998”, The Quarterly Journal of Economics, vol. 118, nº 1, fevereiro 2003; e J. Mistral, B. Salzmann, “La préférence américaine pour l’inégalité”, En temps réel, Cahier, nº 25, fevereiro 2006. 96

J. Micklethwait, A. Woolridge, op. cit., p. 237.

97

M. Standaert, Skipping Towards Armageddon (Brooklyn: Soft Skull Press, 2006), p. 207.


Na maior parte do século XX a taxa de encarceramento nos Estados Unidos era aproximadamente a mesma da Europa, ou cerca de 1‰; atualmente é de 7‰.98 - As normas sociais contra a violência estão desmoronando.99 Ao mesmo tempo em que a criminalidade urbana está declinando, a aceitação do recurso à força física não parou de aumentar, notadamente na década de 1990. Isto é o que um autor canadense denominou “normalização da violência”.100 - O direito de portar armas de fogo foi liberado. Desde 1991 o número de estados que autorizam portar armas de fogo cresceu de 15 para 37. 101 - A pena de morte agora é aceita pela grande maioria da população. O apoio à pena de morte, que seguramente é estável, se não declinante, havia subido de 38% dos americanos em 1965 para 69% em 2003. 102 - A nação é o principal fator determinante de identidade dos americanos. Há um número cada vez maior de indivíduos que se definem, antes de tudo, como “americanos” (ao invés de se relacionar com a sua cidade, sua região ou qualquer outra categoria geográfica): 16,4% em 1982, 29,6% em 1991 e 39,3% em 1997.103

98

J. Micklethwait, A. Woolridge, op. cit., pp. 300-301. Isso não significa que a sociedade americana se tornou mais violenta. Ao contrário, os atentados contra pessoas e propriedades caíram em mais de 50% desde seus respectivos auges no início dos anos 1970 e no início dos anos 1990. Um quarto dos encarceramentos hoje está ligado ao tráfico de drogas (comparado a menos de um décimo em 1980). M. Standaert, op. cit., p. 207. 99

J. Micklethwait, A. Woolridge, op. cit., p. 313.

100

Veja M. Adams, American Backlash: The Untold Story of Social Change in the United States (Toronto: Viking Canada, 2005). 101

Acrescente-se que em 2002, pela primeira vez, o Departamento de Justiça dos EUA defendeu junto à Suprema Corte a idéia de que a Segunda Emenda protege o direito dos indivíduos de portar armas (enquanto que, tradicionalmente, o Poder Executivo havia feito uma interpretação mais restrita do espírito da Constituição, argumentando que a emenda refere-se ao direito dos estados de formar uma milícia). J. Micklethwait, A. Woolridge, op. cit., p. 78. 102 103

Pesquisas de Louis Harris, 1965 – 2003.

O fenômeno existe em outros países, mas a média, para o período considerado, é de +5,6%, comparados com +22,9% nos Estados Unidos. Pesquisas do World Values Survey citadas em S. P. Huntington, Who are we? The Challenges to America’s National Identity (New York: Simon & Schuster, 2005), p. 275.


- A crença no indivíduo aumentou. A proporção de americanos que acreditam que “o sucesso é determinado por forças fora do nosso controle” caiu de 41% em 1988 para 32% em 2003. 104 - A confiança no governo está caindo rapidamente. Em 1964, 62% dos americanos pensavam que o seu governo tomava decisões positivas na maioria das vezes; em 1994, apenas 19% estavam nessa categoria. 105 Em 1966, a confiança nas principais instituições federais (o Executivo, o Congresso) estava acima de 40%; em 1996 estava abaixo de 15%. 106 - O ativismo político das igrejas é cada vez mais aceito. Apesar de que nos anos 1960 apenas 53% dos americanos acreditassem que as igrejas não deveriam se envolver na vida política, trinta anos depois uma proporção inversa (54%) não acha nada de errado nisso. 107 - As referências à religião em discursos públicos tornaram-se lugar comum. As referências oficiais a Deus são uma inovação relativamente recente: os National Prayer Breakfasts [cafés-da-manhã de oração nacionais] datam de 1953, o acréscimo da expressão “One nation, under God” [uma nação sob Deus] no voto de fidelidade à nação é de 1954, a inscrição “In God We Trust” [em Deus confiamos] nas moedas americanas é de 1955 e a adoção dessa expressão, em 1956, como lema nacional (em lugar de E pluribus unum [de muitos, um])108, assim como a frase de encerramento “So help me God”, [que para isso Deus me ajude] usada agora ritualmente por presidentes americanos quando fazem o juramento do cargo.109 - A separação entre Igreja e Estado está se enfraquecendo. De 1943 a 1980, a maioria dos julgamentos realizados pela Corte Suprema 104

J. Micklethwait, A. Woolridge, op. cit., p. 312.

105

Id., ibid., p. 68.

106

Pesquisas de Louis Harris, 1966 – 1996.

107

J. Micklethwait, A. Woolridge, op. cit., p. 150.

108

A expressão “under God” (sob [o poder de] Deus) tem por origem o discurso de Abraham Lincoln em Gettysburg (1863): “That this nation, under God, shall have a new birth of freedom”. [Que esta nação, sob Deus, tenha um novo nascimento da liberdade.] Ele provavelmente a tomou emprestado de George Washington. 109

Não faz parte do mesmo juramento previsto na Constituição americana. Diz-se que foi improvisada por George Washington. Nem todos os presidentes a pronunciaram.


referentes a essa questão favoreceu a separação. De 1981 para 1995, essa proporção se reverteu.110 Por exemplo, apesar de ter considerado inconstitucional a obrigatoriedade da oração nas escolas públicas em 1990, a Corte autorizou as escolas públicas a utilizarem certas áreas de seus prédios para cultos religiosos. - A escola em casa tornou-se uma prática comum. Em 1981, a maioria dos estados americanos proibia o ensino fundamental em casa. Hoje, todos eles permitem essa prática.111 - A proteção dos menores contra o consumo de álcool é mais forte. Nos anos 1980, a maioria dos estados americanos subiu o limite de idade legal para consumo de álcool de 18 para 21 anos. - O direito ao aborto está sendo contestado. O número de leis estaduais que limitam o direito ao aborto está crescendo. Um bom número de estados considera a possibilidade de banir virtualmente essa prática. 112 As causas dessa evolução têm raízes profundas e múltiplas. Resulta, basicamente, de um reequilíbrio demográfico, provocado por um fluxo migratório positivo e um diferencial da taxa de fecundidade que atuam em detrimento do coração histórico do país, o Nordeste e o Meio-Oeste, e em benefício das regiões do Sul e Oeste, cuja população tende a favorecer a liberdade individual, o direito ao porte de armas e a crença religiosa. 113 Isto é fato, em especial, no Sul, que tem uma tradição guerreira, e cuja população serviu historicamente de espinha dorsal do Exército americano. O Sul representa agora um terço da população dos Estados Unidos, em comparação com um quarto em 1960.114 110

Veja S. P. Huntington, op. cit., p. 348.

111

Hoje, estima-se que esta prática envolva cerca de dois milhões de jovens (1 em cada 25). Veja J. Micklethwait, A. Woolridge, op. cit., p. 189.

112

Esta tendência tem tido o apoio de decisões da Corte Suprema: Veja Webster v. Reproductive Health Services (1989) e Planned Parenthood of Southeastern Pennsylvania v. Casey (1992). 113

É provável que o uso generalizado do ar condicionado tenha contribuído de modo significante para a migração em massa de regiões do interior do país para o sul. Veja N. W. Polsby, How Congress Evolves. Social Bases of Institutional Change (New York: Oxford University Press, 2003). 114

A participação crescente da população do Sul na população total americana tem uma contrapartida: a região representa, atualmente, 31% do PIB dos EUA, comparados com apenas 22% em 1963. Veja “Goodbye to the Blues”, The Economist, 30 março 2007, p. 4.


Isso também reflete em que grau o evangelismo penetrou a sociedade americana.115 Este aumentou sua audiência consideravelmente nos anos 1970, encontrando seu nicho inicial no Sul, ampliando-se, mais tarde, de maneira mais difusa, sobre todo o território americano. Apesar de todas as igrejas evangélicas terem se beneficiado, em geral, com o fato (a Southern Baptist Convention teve um aumento do número de membros de 16% durante esse período), foram as igrejas classificadas como “fundamentalistas” que experimentaram o mais forte crescimento (+70% para as Assembléias de Deus,

por

exemplo).116

Finalmente,

a

proporção

entre

protestantes

“tradicionais” e “evangélicos” se inverteu: os últimos são agora a maioria, com 60%, o oposto da situação nos anos 1950. 117 Atualmente, de acordo com a definição adotada, o evangelismo representa de 25 a 30% da população adulta, ou de 50 a 60 milhões de pessoas. Este fenômeno é tanto mais impressionante uma vez que foi acompanhado de um tremendo crescimento dos programas evangélicos no rádio e na televisão. Entre 1970 e 1980, sua audiência subiu de 11 milhões para 61 milhões.118 Recentemente, se beneficiando com a desregulamentação da Lei das Telecomunicações de 1996 sobre a propriedade de rádios e TVs, as estações “cristãs” tornaram-se as campeãs de audiência. (De acordo com a maioria das pesquisas, a proporção de cristãos nos Estados Unidos é consideravelmente mais alta do que 80%. Deve, portanto, exceder a dos hindus na Índia, a dos judeus em Israel, a dos muçulmanos no Egito e a dos ortodoxos na Rússia.119) Enfim, essa evolução também provém da verdadeira “contra-revolução cultural” que os EUA têm vivido desde os anos 1970 em reação às reformas da sociedade (direitos humanos, legalização do aborto, etc.) e à infiltração das “Idéias de Maio de 1968” nos círculos intelectuais (particularmente nas 115

É tentador estabelecer-se uma relação de causa e efeito entre religiosidade e fertilidade. Certos demógrafos são relutantes em afirmar, com segurança, alguma conclusão sobre esse aspecto (veja N. Eberstadt, op. cit.). Outros não hesitam, com base em análises, de atribuir a maior parte do crescimento do evangelismo às maiores taxas de fertilidade entre as famílias religiosas: veja M. Hout, A. Greeley e M. J. Wilde, “The Demographic Imperative in Religious Change in the United States”, American Journal of Sociology, vol. 107, nº 2, setembro 2001. 116

M. Standaert, op. cit., p. 46.

117

M. Hout et al., op. cit.

118

M. Standaert, op. cit., p. 58.

119

S. P. Huntington, op. cit., p. 99.


comunidades acadêmicas). Surgiu gradualmente um movimento inverso, que se

manifestou

tanto

pelo

neoconservadorismo,

um

movimento

cujos

representantes – intranqüilos nos meios acadêmicos – envidaram esforços maciços na arena política (através dos think tanks) quanto motivado por uma “necessidade de ordem” por parte das classes trabalhadoras. Essas mudanças coincidiram com uma redistribuição dos distritos políticos. Eleito em 1976, Jimmy Carter foi o primeiro presidente evangélico na história moderna, mas sua vitória viria a ser um fenômeno isolado,

120

porque seriam os

republicanos, na maior parte das vezes, que viriam a se beneficiar da transformação política dos Estados Unidos. A partir dos anos 1960, o Partido Republicano “ganhou de volta” o eleitorado branco sulista, que se opunha à política de igualdade racial de Johnson.

121

Com isso, os republicanos deram

“uma guinada à direita”, um processo simbolizado pela mudança de partido de George Wallace em 1968. “Os evangélicos que votaram nos republicanos nos últimos trinta anos têm pais que votaram nos Democratas.” 122 A cultura sulista tornou- se, então, dominante no partido, à medida que os evangélicos começaram a ingressar na política depois de meados dos anos 1970. Essa cultura foi encarnada na Moral Majority de Jerry Falwell (1979), que contribuiu para a eleição de Ronald Reagan em 1980, e depois na Coalizão Cristã de Pat Robertson (1989). 123 Os republicanos também procuraram ganhar os votos dos subúrbios, que hoje representam a grande maioria da população americana. O crescimento dos subúrbios é uma das transformações mais profundas dos EUA do século XX. As grandes migrações dos anos 1950-1960 forjaram um mapa demográfico totalmente novo. Com o deslocamento das populações afro-americanas do sul para as cidades, a classe média fugiu para os subúrbios, que, por conseqüência, tiveram um crescimento substancial. Por exemplo, em torno de 1990 e 1991 os Estados Unidos tornaram-se o primeiro país no mundo no qual a maioria da população mora nos subúrbios. 120

Jimmy Carter obteve a maioria dos votos evangélicos (entre 51 e 56%, de acordo com pesquisas).

121

Civil Rights Act (1964), Voting Rights Act (1965).

122

L. Miller, “An Evangelical Identity Crisis”, Newsweek, 13 novembro 2006.

123

A decisão da suprema Corte sobre o aborto (Roe v. Wade, 1973) é em geral considerada como o fato catalisador para a entrada dos evangélicos na política.


Os democratas também mudaram seu discurso para a direita: “Impulsionados pelos ‘novos democratas’ reagrupados no Democratic Leadership Council fundado em 1984 [a esquerda], passaram por uma profunda mudança. Os democratas não eram mais o partido dos pobres, das minorias e dos sindicatos. Eles passaram a ter como alvo a “classe média”, e se tornaram fervorosos defensores do mercado e da ordem”.

124

Essa estratégia é

importante ainda hoje: o objetivo, é claro, é reconquistar o Sul, mas também mostrar, depois do 11 de setembro, que os democratas são tão confiáveis quanto os republicanos em questões relativas à segurança. Pode-se dizer que há dois países: o “vermelho” (republicano) – representado pelas pequenas cidades, subúrbios sulistas e áreas rurais, e o “azul” (democrata) representado pelas cidades grandes e subúrbios no resto do país. Do ponto de vista eleitoral, raramente o país esteve tão dividido. A fidelidade dos eleitores atingiu níveis recordes. 125 O mesmo se pode dizer de seus representantes, que estão cada vez menos propensos a constituir maiorias circunstanciais.126 Mas como as pesquisas de opinião demonstraram sem ambigüidade, hoje só há um americano que, seja republicano ou democrata, é individualista e religioso, e está mais “para a direita” do que o europeu 127. “Ainda que as diferenças partidárias tenham crescido nos Estados Unidos nos últimos anos, as divisões entre os americanos não são tão grandes de modo que não haja um ponto de vista americano coerente sobre diversas questões.”128 Os democratas estão mais próximos dos republicanos do que dos europeus no terreno dos valores e nas principais alternativas políticas. Os democratas estão “à direita” dos europeus na maior parte dos assuntos, exceto em algumas decisões relativas à segurança nacional. 129 Mesmo assim, há um 124

E. Dupin, À droite toute, Paris, Fayard, p. 196.

125

Segundo a medição de Charles Cook, um dos principais analistas políticos de Washington, é de 90% em cada lado. Os independentes não representam mais do que 20% do eleitorado. Veja C. E. Cook Jr., “Let the 2008 Games Begin”, The Washington Quarterly, vol. 30, nº 2, Spring 2007, p. 166. 126

Em 2005, 88% dos Democratas da Câmara votaram, na média, com o partido, o maior percentual desde 1956. Lexington, “Madam Speaker?” The Economist, 4 novembro 2006, p. 57. 127

A. Kohut, B. Stokes, op. cit., p. 206s; A. Wolfe, One Nation, After All: What Americans Really Think About God, Country, Family, Racism, Welfare, Immigration, Homosexuality, Work, The Right, The Left and Each Other (New York: Viking Adult, 1998). 128

A. Kohut, B. Stokes, op. cit., pp. 218-219.

129

Id., ibid., p. 214.


grande consenso nacional nos Estados Unidos (82%) quanto ao uso da força “para se obter justiça”, enquanto há somente uma minoria de opiniões positivas sobre esse assunto na Europa (41%).130 Essa transformação da cultura política americana se tornou evidente em nível político a partir de 1976, com a eleição de Jimmy Carter – o primeiro presidente dos EUA que não foi produto da elite da Costa Leste. A política americana hoje é muito mais influenciada pelo populismo, com uma ênfase maior nos valores da família e na importância da religião do que antes. O país legal está se sobrepondo cada vez mais sobre o país real: George W. Bush – um texano por escolha, e, ainda assim, mais texano do que o da vida real – representa melhor os Estados Unidos do que seu pai, George H. W. Bush. Da mesma forma, Bill Clinton representou mais os EUA do que John F. Kennedy. Dos oito últimos presidentes americanos, seis vieram do Sul e dois do Oeste. 131 A reinjeção de uma forte dose de idealismo na política externa americana (a defesa dos direitos humanos, a promoção da democracia, etc.) iniciada por Jimmy Carter viria a ser seguida por Ronald Reagan. Foi o Partido Republicano que mais se beneficiou com essa mudança. De 1972 a 2008, os Estados Unidos viveram 24 anos sob uma administração republicana conservadora e apenas doze anos sob uma administração democrata. A vitória dos democratas em 2006, que sinalizou uma perda de confiança no campo republicano, não deve criar ilusão: o Partido Democrata está tendo trabalho para capitalizar, em termos de votos, a simpatia que ele inspira em diversos segmentos da sociedade americana. 132 Uma tendência que deve continuar Diversos índices indicam que essa tendência continuará por muitos anos – ou talvez por décadas.

130

Transatlantic Trends 2004, p. 18.

131

G. W. Bush, B. Clinton, G. H. W. Bush, J. E. Carter, L. B. Johnson, D. D. Eisenhower, R. W. Reagan e R. M. Nixon. 132

F. Vergniolle de Chantal, op. cit., p. 33. De acordo com pesquisa recente, 50% da população se dizem adeptos das idéias do Partido Democrata, comparados aos 35% do Partido Republicano (A. Kohut, “The Republicans can’t possibly win ’08 – or can they?” The Pew Research Center for the People and Press, 2 maio 2007).


Antes de tudo, parece que as gerações mais jovens serão, em sua maior parte, conservadoras. A diferença significativa entre as taxas de fertilidade nas comunidades conservadoras e nas liberais favorece um aumento numérico relativo na primeira, em detrimento da segunda. 133 Por exemplo, em 2001 o Texas “produziu” 76,2 crianças por 1.000 mulheres em idade de procriar, enquanto Vermont, 48,5%.134 As instituições educacionais cristãs estão cada vez mais populares: elas são “o setor do mercado educacional que está tendo a maior taxa de crescimento”. 135 Este sucesso deve ter tido provável apoio com a decisão da Corte Suprema em 2002 autorizando as famílias a pagarem pela educação religiosa com recursos federais. Quanto aos jovens provenientes de um sistema de educação paralelo (home-schooling), a maior parte dos quais é criada num sistema de valores tradicionais, eles votam muito mais do que a média dos americanos (76% contra 29%). 136 Os evangélicos, cujas famílias são particularmente grandes, devem tornar-se a maioria entre os cristãos norteamericanos depois de 2030-2035.137 O evangelismo não terá sempre a característica de “reacionário” que tem tido desde os anos 1970, mas seu papel fundamental na cultura política americana não deverá ser superado. 138 Em seguida, há uma contínua transformação da geografia dos EUA numa direção favorável ao sucesso das posições republicanas. A população cresce vertiginosamente no Sul e no Sudoeste, em detrimento do Nordeste e do MeioOeste, assim como na costa da Califórnia. 139 Por exemplo, as regiões urbanas que tiveram o maior crescimento entre 2000 e 2006 foram Atlanta, Dallas e Phoenix.140 Os municípios republicanos estão tendo um crescimento mais acelerado do que os democratas; entre os 100 municípios cuja população tem 133

Veja P. Longman, “The Return of Patriarchy”, Foreign Policy, março/abril 2006, pp. 56-65.

134

National Center for Health Statistics, Vital Statistics of the United States 2001, vol. 1, fevereiro 2005.

135

Jay Tolson, “The New School Spirit”, US News and World Report, 14 fevereiro 2005.

136

M. Standaert, op. cit., pp. 147-148.

137

P. Brierley, “Evangelicals in the World of the 21 st Century”, 2004 Forum on World Evangelisation Programme, 2004, p. 15. 138

Sobre as atuais mudanças culturais do movimento evangélico, veja M. Luo, L. Goodstein, “US evangelical movement broadens focus”, The International Herald Tribune, 21 maio 2007. 139

Assim, Nevada é o estado que passou pelo maior crescimento demográfico de 1980 a 2005 (+201,66%), seguido do Arizona. Dois estados tiveram declínio populacional nesse período: West Virginia e North Dakota. 140

“Census: immigrants stabilize big-city populations”, CNN.com, 6 abril 2007.


crescido mais rapidamente, 97 votaram majoritariamente em Bush em 2004. 141 Além disso, a geografia da Califórnia, o estado mais populoso da União, também está mudando: está tendo um forte crescimento nos subúrbios do interior do estado, que votarão nos republicanos. Bush deixou sua marca na Corte Suprema – cuja influência na formação das normas socioculturais nos Estados Unidos é bem conhecida – com as indicações, em 2005, de John Roberts (Presidente do Supremo) e de Samuel Alito, e a provável conseqüência serão decisões mais favoráveis às idéias conservadoras e republicanas nos próximos 20 anos. Uma transformação da identidade nacional? Mas a sociedade americana irá conhecer outra mudança maior, que pode ser sintetizada da seguinte maneira: o fim do domínio “WASP” (White Anglo-Saxon Protestant [protestante anglo-saxão branco]) na cultura americana, com a esperada triplicação das populações hispânicas e asiáticas até 2050, que darão a maior contribuição para o crescimento demográfico americano. Atualmente, americanos de origem européia (“caucasianos”, de acordo com a terminologia oficial) representariam apenas 50% da população, em contraste com o ano de 2000, quando ainda eram 69%.142 O crescimento da minoria hispânica é um fenômeno importante e duradouro. Foi o resultado de uma nova onda de imigração que começou depois dos anos 1970 e de um alto índice de fertilidade nessa minoria, que se tornou, na virada do século passado, a maior do país (12,6%). 143 Diversos estados do Sul (Carolina do Norte, Arkansas, Georgia, Tennessee, Carolina do Sul e Alabama) viram sua população hispânica dobrar durante os anos 1990. 144 Em nível nacional, a minoria hispânica agora supera a minoria “afro-americana”, e deverá representar um quarto da população americana em 2050. 145 Alguns 141

M. Barone, The Almanac of American Politics 2006, National Journal Group, Washington, 2005, p. 22.

142

Projeções do U.S. Census Bureau citadas em “Hispanic, Asian populations to triple by 2050”, CNN.com, 18 março 2004. A população “afro-americana” deverá crescer dos 12,7% em 2000 (36 milhões) para 14,6% em 2050 (61 milhões). 143

Em 2005, o percentual de imigrantes residindo nos Estados Unidos (12,1%) recuperou os níveis do início do século XX (13,6% em 1900), apesar de ter caído para 4,7% em 1970. 144 145

“The Central Question Is”, The Economist, 30 março 2007, p. 7.

O fenômeno não deverá ter um grande impacto na evolução religiosa do país. Entre os hispânicos, 22% são protestantes (dados de 2000). A maioria católica (57%) também está mais propensa ao evangelismo, e


analistas, especialmente no lado republicano, vêem este fenômeno como problemático. Samuel Huntington sugere que a imigração mexicana é muito diferente das “ondas” anteriores que formaram os Estados Unidos. 146 Em sua opinião,

é

diferente

em

número,

proximidade

territorial,

seu

caráter

essencialmente ilegal, sua concentração regional, sua persistência e pela decisão dos imigrantes de se estabelecerem em terras que uma vez pertenceram a seu país de origem.147 Além disso, contrariamente ao caso da maioria dos grupos imigrantes na história dos Estados Unidos, Huntington afirma que os mexicanos são muito menos integrados em termos de língua, educação, padrão de vida, religião e casamento. Poucos deles requerem a naturalização, e muitos dos que obtém a cidadania americana optam pela dupla nacionalidade.148 Huntington manifestou preocupação com a capacidade das elites americanas de tolerar o “multiculturalismo”, acusando-as de nada terem feito até agora para remediar esse fato.” A continuarem os altos níveis de imigração mexicana e hispânica e os baixos índices de assimilação desses imigrantes na sociedade e na cultura americanas, os Estados Unidos acabarão virando um país de duas línguas, duas culturas e dois povos.” 149 Os Estados Unidos irão se tornar um segundo Canadá? Se as preocupações de Samuel Huntington estão longe de ser uma unanimidade, o fato é que o crescimento da população hispânica já apresenta uma questão social importante – a da comunicação. Hoje, mais de 50% dos imigrantes não falam inglês.150 Os Estados Unidos não têm uma língua oficial a nível federal, o que não apenas proporcionou o bilingüismo no sistema educacional, mas também provocou o quase desaparecimento do inglês em certas regiões da Flórida e da Califórnia.

sua escala de valores é muito semelhante à dos “caucasianos não-hispânicos”. 146

Cerca de 9 milhões de pessoas nascidas no México residem agora nos Estados Unidos, metade das quais ilegalmente (dados do U.S. Census Bureau citados em N. Eberstadt, op. cit., p.7). Huntington estima que a “diáspora mexicana” total nos Estados Unidos representa 20 a 23 milhões de pessoas (S. P. Huntington, op. cit., p. 277). 147

S. P. Huntington, op. cit., pp. 222-230.

148

Id., ibid., p. 230-243. Desde 1998, os mexicanos naturalizados podem manter sua nacionalidade original. 149

Id., ibid.,p. 256.

150

Id., ibid.,p. 193.


Quanto aos americanos asiáticos, seu número subirá dos 3,8% da população atual (11 milhões) para 8% em 2050 (33 milhões). Aqui, a questão não é o número, nem mesmo a integração, em vista do grau com que os asiáticos assimilaram, naturalmente, o modelo sociocultural americano. A questão é mais a transformação étnica da comunidade intelectual americana. Esta, na verdade, está cada vez mais “virando asiática”. Estrangeiros de países do nordeste da Ásia (Japão, Coréia do Sul, China, etc.) representam metade dos milhões de estudantes estrangeiros matriculados atualmente nas universidades americanas, e a Ásia, como um todo, representa 59% dos vistos para trabalho temporário concedidos aos imigrantes altamente qualificados (37% só de indianos).151 As conseqüências dessa transformação da população dos EUA ainda são difíceis de medir. De um modo geral, não há, virtualmente, o “voto étnico” nos Estados Unidos. Hispânicos, por exemplo, que são quase sempre muito religiosos, votaram em massa em George W. Bush em 2004, mas o debate sobre imigração fez com que eles virassem para os Democratas em 2006. Parece que o “lobby mexicano” está se tornando um dos mais organizados do país.152 O que é certo, por outro lado, é que o debate sobre a “identidade nacional” que se trava hoje em diversos países ocidentais acabará afetando também os Estados Unidos. IV – Os EUA e o mundo em 2025 Daqui a uns 20 anos os Estados Unidos ainda estarão em posição de liderança, mas o cenário internacional será dominado, provavelmente, pelo seu confronto com a China. A população dos EUA chegará a 364 milhões em 2030 (comparados com os 296 milhões em 2005).153 A minoria hispânica representará, então, 20% dessa população. Naquele tempo os Estados Unidos estarão importando 66% do

151

G. Dorel, op. cit., p. 56.

152

Sobre esse aspecto, veja S. P. Huntington, op. cit., p. 287.

153

US Census Bureau, 2004.


petróleo que consomem (em contraste com os 59% de hoje) e 20% do gás (comparados aos 18% de hoje)154. A Europa representará, então, não mais do que 6% da população mundial, e sua idade média será mais velha. Quase a metade (48%) da população adulta (de 15 anos em diante) estará com mais de 65 anos de idade. 155 A população da União Européia, mesmo considerando a imigração, terá um ápice em 2015 (470 milhões de habitantes comparados com 458 hoje) e então começará a declinar. Essa queda começará a afetar a população ativa a partir de 2030. 156 A Rússia terá experimentado um declínio de sua população, de 142,9 milhões para 128,1 milhões.157 Seu equilíbrio populacional será afetado pelas deficiências do sistema de saúde pública e pela pandemia da AIDS (um milhão de indivíduos serão portadores do HIV). O Japão também experimentará o declínio de sua população de 127,9 para 121,6 milhões. 158 Nesses países, o impacto das demandas sociais (aposentadorias, sistema de saúde, etc.) sobre as finanças públicas poderia comprometer sua capacidade de investir em seu arsenal de defesa. Por volta de 2025 a economia dos países da OCDE representará menos da metade do PIB mundial (em paridade do poder de compra), ao passo que a participação da Ásia terá subido para 40%. 159 O PIB (em taxa de câmbio atual) da China e o da Índia terão ultrapassado os das principais economias ocidentais: o da China ultrapassará o do Japão por volta de 2016, e o da Índia por volta de 2032.160 Por volta de 2025 a China terá se tornado a principal potência comercial do mundo (como principal exportadora e como principal importadora). 161 A maior parte de sua população será, então, urbana (57% por volta de 2025, ou mais 154

Projeções: IES-EU 2006, op. cit., p. 150. Dados atuais: US Energy Information Administration, 2007.

155

European Defense Agency, “An Initial Long-Term Vision for European Defence Capability Needs”. 3 outubro 2006, p. 6. 156

IES-EU 2006, op. cit., p. 19.

157

ONU, op. cit., p. 45.

158

Id., ibid, p. 44.

159

IES-EU 2006, op. cit., p. 155.

160

G. Sachs, “Dreaming with BRICs”, Global Economics Paper, nº 99, outubro 2003, p. 3.

161

IES-EU 2006, op. cit., p. 41.


de 800 milhões de pessoas). 162 Mas o poderio da China ficará bem atrás do dos EUA. O PIB do país será apenas de US$ 6,4 trilhões (em dólares de 2025), em contraste com os US$ 22,3 dos EUA. 163 Quanto à sua renda per capita, ela não conseguirá se igualar à dos países altamente industrializados antes de 2050. 164 O peso das gerações mais velhas (20% de aposentados em 2025) começará a ter um impacto na economia.165 A partir de 2040, a proporção de “idosos” será maior na China do que nos EUA.

166

E o enorme excedente da população

masculina (que estará então em torno de 40 milhões) poderá, ao menos localmente, ser um fato gerador de desordens sociais. De acordo com a Agência de Inteligência para Defesa dos EUA, as despesas militares da China – obviamente de difícil acesso – deverão ficar entre US$ 225 e US$ 325 bilhões (em dólares de 2005), o que a deixará, provavelmente, muito atrás dos Estados Unidos167. Da mesma forma, apesar de poder chegar a ser a segunda maior potência espacial, a China não conseguirá fazer frente aos 24 anos de investimentos nesse campo que os Estados Unidos terão acumulado. Ainda assim a China será provavelmente o único país capaz de ter tanto a capacidade quanto a determinação de desafiar a liderança dos Estados Unidos. De sua parte, a Índia estará se preparando para se tornar o maior país do mundo em termos de população. Na ocasião ela já terá compensado algumas de suas defasagens econômicas em relação ao seu enorme vizinho do norte. Terá uma população mais jovem (30,4 anos, em média, por volta de 2025) e a vitalidade de sua força de trabalho será maior do que a da China, cujo status de “fábrica do mundo” estará em condições de desafiar. Deverá ser a quarta maior potência econômica do mundo por volta de 2025, atrás de Estados Unidos, China e Japão. Ela será ainda mais dependente da importação de energia do que a China: Nova Déli importará cerca de 90% de seu petróleo (a 162

Id., ibid., p. 157.

163

The Economist Intelligence Unit/Global Insight.

164

National Intelligence Council, “Mapping the Global Future. Report of the National Intelligence Council’s 2020 Project”, NIC 2004-13 dezembro 2004, p. 33. 165

IES-EU 2006, op. cit., p. 158.

166

F. Zakaria, op. cit., p. 39.

167

Gabinete do Secretário de Defesa, Relatório Anual ao Congresso, “The Military Power of the People’s Republico f China 2005”.


China, 80%) e cerca de 40% de seu consumo de gás (a China, cerca de 25%).168 Em vista de suas atuais ambições militares, terá provavelmente desenvolvido, como seu vizinho do norte, uma substancial capacidade de projeção que possibilitará consolidar seus interesses nas regiões vizinhas. A primeira metade do século XXI continuará a ser, portanto, dos Estados Unidos, como será também da China e, em certa dimensão, também da Índia. Resta saber de que forma as relações entre os três gigantes do século XXI formarão o cenário geopolítico internacional. Apesar das recentes relações mais amistosas entre China e Índia, é pouco realista a presunção de um bloco sino-indiano que faça frente ao poderio americano. Washington e Nova Déli tornaram-se aliados apenas recentemente, e a Índia será um amigo, no mínimo, tão exigente e difícil quanto a França tem sido. No entanto, é difícil imaginar um cenário confiável no qual esses dois países venham a ter conflitos recíprocos, ao passo que as relações sinoindianas, por outro lado, envolvem três pontos de atritos: a segurança dos países do nordeste asiático (o futuro de Taiwan, o programa nuclear da Coréia do Norte), o desequilíbrio na balança comercial bilateral (num contexto de objeções dos EUA à desvalorização do yuan) e uma concorrência crescente entre empresas americanas e chinesas para garantirem o acesso ao petróleo e ao gás do Oriente Médio para a economia dos dois países. Sem mencionar a situação dos direitos humanos e da repressão política na China, um dos raros pontos em que os ativistas democratas e republicanos estão de acordo atualmente. Entre as múltiplas hipóteses, quatro podem ser consideradas: um cenário de “multipolaridade competitiva”, no qual esses três países viriam a competir pelo domínio da Ásia; um cenário de “unipolaridade benevolente”, no qual os Estados Unidos manteriam sua liderança e seu papel de árbitro na Ásia enquanto a emergência de Beijing e Nova Déli no cenário internacional estaria sendo ofuscada por problemas no âmbito doméstico; um cenário de “apolaridade não-competitiva”, no qual nenhum desses países teria status de uma superpotência; e, finalmente, uma “bipolaridade agressiva”, na qual Estados Unidos e China estariam em confronto latente. 168

IES-EU 2006, op. cit., p. 57.


É este último cenário que mais preocupa os estrategistas americanos. Apesar de a equipe de Rumsfeld poder já ter passado, provavelmente, do ponto de fazer piada sobre o fato de que “o Iraque foi apenas um aquecimento para a China”, a possibilidade de um grande choque geoestratégico envolvendo Beijing ainda está muito presente na cabeça dos planejadores. Andrew Marshall, um alto estrategista do Pentágono, está brincando apenas em parte quando diz, em relação ao Iraque: “Eu realmente não estou voltado para isso. Estou ocupado planejando a próxima guerra com a China, daqui a uns 20 anos. Debaixo d’água ou no espaço”.169 Depois da “guerra contra o terror”, provavelmente será o confronto face-a-face sino-americano na Ásia que dominará o teatro estratégico mundial.170 Resta saber se a primeira terá terminado antes que a segunda comece. 171 Quanto à possibilidade, entre agora e 2025, de uma surpresa estratégica que afetaria profundamente o equilíbrio mundial e o desenvolvimento dos Estados Unidos, ela é real – já não passamos por duas delas, e ainda não faz dez anos, em 1989 e 2001? Duas hipóteses, em particular, devem ser consideradas. A primeira é a de um conflito aberto entre os Estados Unidos e a República Popular da China a respeito de Taiwan, o que deve ser levado em conta seriamente, já que pode ocorrer de uma hora para outra. O distanciamento político e cultural da ilha rebelde está se tornando cada vez mais intolerável para a China, que conseguiu transformar o tema da reunificação numa causa que está mobilizando um forte sentimento de orgulho nacional na população. Os dirigentes de Taipei, por seu lado, procuram mudar o status quo pouco a pouco, e foram dissuadidos a não fazerem isso pela votação, em 2005, da lei dita “anti-secessão” por Beijing. A independência econômica crescente entre Taiwan e a República Popular da China, por um lado, e entre a China e os Estados Unidos, por outro, tornaria irracional qualquer decisão por parte de qualquer um dos três atores de iniciar intencionalmente um confronto aberto. 169

Citado em M. Weitzmann, "Le mal à l'Irak des intellectuels américains", Le Monde 2, 17 fevereiro 2007, p. 25. 170 171

Sobre este tema, veja B. Tertrais, La Guerre sans fin, op. cit.

Analistas Republicanos já acreditam que "não podemos nos dar ao luxo de terminar a guerra contra o terror antes que enfrentemos o desafio chinês. Temos que vencer ambos, e não há tempo a perder." J. Babbin, E. Timperlake, Showdown. Why China Wants War With the United States (New York: Regnery Publishing, 2006), p. 156.


No entanto, a história da guerra nos ensina que o fervor e as paixões patrióticas sempre prevaleceram sobre a racionalidade econômica. Uma guerra entre Washington e Beijing que se estenderia ao nível nuclear é inteiramente possível. A segunda hipótese é a de um novo ataque contra os Estados Unidos, especialmente se executado com a ajuda de armas nucleares, químicas, biológicas ou radiológicas. Se um desastre dessa magnitude vier a ocorrer contra o solo americano, talvez com uma taxa de fatalidade humana maior que a do 11 de setembro, é de se temer que a reação de Washington, apoiada pela opinião pública do país, venha a ser muito mais forte do que vem sendo desde 2001. Um ataque nuclear numa cidade grande, por exemplo – felizmente uma hipótese muito pouco provável, mas que teria um enorme impacto simbólico e que poderia, potencialmente, custar algumas centenas de milhares de vidas – induziria os Estados Unidos a se retirarem inteiramente de outras partes do mundo ou, ao contrário, levaria o país a desencadear uma “guerra ao terror” generalizada que não teria mais limites, particularmente em termos de meios empregados. Este último pesadelo, do ponto de vista de Washington, está preocupando seriamente os militares de alta patente do país. O general Richard B. Myers, ex-comandante do Estado-Maior do Exército americano, estima que se um ataque terrorista viesse a matar 10.000 americanos “marcaria o fim do nosso modo de vida”. 172 Já o general Franks, que comandou operações no Afeganistão e no Iraque, acredita que tal acontecimento levaria o povo americano a “questionar nossa própria Constituição e a começar a militarizar nosso país”, com o risco de perder, no processo, “aquilo que ele mais preza, a liberdade”.173

IV – Conclusão

172 173

J. C. Kerr, "Terror Threat Level Raised to Orange", Associated Press, 21 dezembro 2003.

M. R. Shanken, "General Tommy Franks: an exclusive interview with America's top general in the war on terrorism", Cigar Aficionado, dezembro 2003.


O futuro papel dos Estados Unidos no mundo, assim como sua identidade política e cultural, em grande parte será determinado nas próximas duas décadas por suas relações com três grupos de países: Oriente Médio (petróleo, terrorismo, proliferação de armas nucleares), Nordeste da Ásia (confronto com a China) e América Latina (imigração). Serão os Estados Unidos “cosmopolitas, imperialistas ou nacionalistas”? 174 No primeiro caso, será uma sociedade multicultural, aberta ao mundo: o mundo reconstruirá os Estados Unidos. No segundo, eles tentarão, como têm feito desde o 11 de setembro, reconstruir o mundo à sua própria imagem. No terceiro, farão um esforço para perpetuar seu “excepcionalismo” e, ao mesmo tempo, não tentarão impô-lo ao resto do mundo. Em todos esses cenários, permanecerão numa posição dominante no panorama internacional ainda por um longo tempo, e a sociedade americana tornar-se-á cada vez mais conservadora, independentemente de quem venha substituir George W. Bush. Nenhuma dessas possibilidades é encorajadora para a maioria dos europeus. Mas há uma divergência, cada vez maior, sem dúvida, quanto aos valores e práticas políticas entre os dois lados do Atlântico. 175 Na verdade, estes últimos têm limites. O movimento de “guinada para a direita” das sociedades políticas também afeta o continente europeu176, e os Estados Unidos e a Europa ainda formam um grupo suficientemente homogêneo, que pode ser descrito como uma comunidade transatlântica. Cada parte continua a ser, com relação à outra, o parceiro mais próximo do ponto de vista político e cultural – apesar de nossos interesses estratégicos comuns, que vão da luta contra o terrorismo à luta contra a proliferação das armas nucleares, até a estabilização do Oriente Médio. No entanto, essa divergência torna-se ainda mais importante em vista do crescente desinteresse dos Estados Unidos pelas relações com a Europa em favor da Ásia. Isso é absolutamente natural: a questão da segurança européia que predominou no século XX está agora resolvida, ao passo que a questão da segurança na Ásia continua, em grande parte, não resolvida, e provavelmente será predominante em todo o século XXI. Ao mesmo tempo, o 174

Estas categorias foram tomadas do trabalho de S. P. Huntington, op. cit., p. 262-366.

175

Sobre este tema, veja B. Tertrais, Europe, États-Unis: valeurs communes ou divorce culturel?, op. cit.

176

Sobre este tema, veja E. Dupin, op. cit.


que se nota é uma integração transatlântica, em termos econômicos e financeiros, cada vez maior. Desde o início desta década, 57% dos investimentos americanos foram na Europa, e 75% dos investimentos europeus foram nos Estados Unidos. Em 2005, este país investiu quatro vezes mais na Alemanha do que na China. Em 2006, a Europa investiu mais no Texas do que os Estados Unidos investiram na China e no Japão. Os EUA continuam a ser o principal mercado para as empresas européias, e a Europa, o principal mercado para empresas americanas (fora do hemisfério ocidental).

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O começo deste século revela, assim, uma estranha dicotomia: o Atlântico ainda é o centro do mundo econômico, mas o Pacífico está ganhando a reputação de ser o centro do mundo estratégico. Será que a Europa vai deixar a administração dos interesses estratégicos do mundo ocidental na Ásia inteiramente nas mãos dos EUA? É urgente que a Europa tenha um interesse maior pelas questões relativas à segurança naquela região do mundo. A questão envolvendo a possível suspensão do embargo da venda de armas para a China revelou a que ponto a maioria dos europeus estava alheia a essas questões. No entanto, uma grave crise militar naquela parte do mundo teria grande repercussão política e econômica, que seria sentida diretamente no continente europeu. Tal fato, que obviamente ninguém espera que aconteça, teria o mérito de esclarecer o que está em jogo. Nós estamos, como europeus, ao lado da República Popular da China e seus privilegiados parceiros – Coréia do Norte, Mianmar (Birmânia), Paquistão, etc. – ou ao lado dos Estados Unidos e seus aliados – as democracias políticas da região, tais como Japão, Taiwan, Índia e Austrália? Nossas divergências e desentendimentos com os Estados Unidos são profundos, estruturais e de longo tempo. Entretanto, não devem ocultar o que é essencial: os dois grupos que hoje continuam a formar a comunidade transatlântica ainda compartilham valores e interesses comuns, em face do resto do mundo. Será preciso um novo grande conflito mundial para os europeus tomarem consciência disso?

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D. S. Hamilton, J. P. Quinlan, The Transatlantic Economy 2006, Center for Transatlantic Relations, Johns Hopkins University, 2007.

Encarte – Revista 43 - Para onde vão os EUA?  
Encarte – Revista 43 - Para onde vão os EUA?  
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