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Série Conferências- Nº19 / fevereiro 1995 A EDUCAÇÃO DE UM LIBERAL* R.M. Hartwell** Estas palavras do Presidente têm mais a natureza de um sermão do que de um discurso. A tradição manda que o Presidente, nessas ocasiões, fale sobre algo que lhe seja de especial agrado, algo que esteja sempre no centro de suas preocupações. E é isso o que pretendo fazer. Neste final de século temos assistido ao renascimento do liberalismo ou, pelo menos, a um renascimento das idéias liberais. Ao mesmo tempo verifica-se um declínio da civilidade, além do enfraquecimento de certos valores que eu muito prezo e julgo serem necessários a uma boa sociedade e, particularmente, à sociedade liberal. Da maneira como estão as coisas existe o perigo genuíno de que a sociedade ocidental se torne, nas palavras de Gertrude Himmelfarb, “uma sociedade desmoralizada”.*** O problema está com certeza na má educação dos jovens, e a responsabilidade recai naqueles que têm a missão de prepará-los e educá-los: pais e professores, em particular, e aqueles que podem ajudar, como a família, num sentido amplo, padres e outros líderes religiosos e, numa época em que as comunicações ganharam tanta importância, padrões de comportamento e personalidades da mídia. A culpa é também dos governos, que solapam a autoridade paterna, e dos movimentos pelos direitos da criança, que tendem a destruir a influência dos pais e professores e jogar nos ombros das crianças o peso de decisões para as quais elas não estão preparadas, pela pouca idade que têm, o que as torna confusas e propensas a seguir conselhos prejudiciais a seus próprios interesses. O que deveria, então, um pai liberal fazer? George Stigler afirmava que, para o liberal, um problema sempre presente era o de “planejar um mundo descentralizado e apolítico no qual a liberdade individual e a eficiência econômica encontrassem amplos horizontes e uma defesa firme”. Como um pai liberal, eu quero mais que isso. Quero um mundo em que o bom comportamento seja apreciado e aplaudido; em que haja concordância geral sobre o que é certo e o que é errado, e onde se valorizem virtudes como civilidade, bondade, decência, honestidade. Quero meus filhos e netos educados e comportados, impregnados das virtudes enumeradas acima. Porém, enquanto a liberdade e a eficiência podem ser asseguradas - ou ao menos possibilitadas - por instituições como o Estado de direito, a lei e o livre mercado - o comportamento bom e virtuoso não pode ser determinado por instituições. Ele depende apenas em parte de instituições bem-intencionadas. Mesmo a família, a mais antiga e O texto aqui apresentado é a tradução do discurso proferido por ele durante o jantar de abertura da Reunião Geral da Sociedade Mont Pèlerin, em Canes-França - no dia 25 de setembro de 1994. ** O Professor R.M. Hartwell é historiador e Presidente da Sociedade Mont Pèlerin. *** No original inglês, “a de-moralilized society”. (N. T.) *

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Série Conferências- Nº19 / fevereiro 1995 testada das instituições sociais, não pode garantir o comportamento sadio de seus membros, embora uma família estável seja a mais eficiente e desejável unidade social para o desenvolvimento das crianças e a mais viável formadora de jovens virtuosos. Vivemos hoje em um mundo perigoso, onde se espalha a convicção de que a civilização está em decadência ou ameaçada de retrocesso. Tal convicção encontra bases nas estatísticas que apontam uma crescente escalada de crimes e violência, conflitos e distúrbios civis, intolerância (exemplificada pela atividade de fundamentalistas religiosos e pela coerção política), falta de civilidade, aumento dos casos de filhos ilegítimos e da delinqüência juvenil, desonestidade nos atos dos governos e nos negócios, declínio da importância da família, fatores agravados pela falha da educação em combater esses males. Frank Knight, destacado membro desta Sociedade, afirmou certa vez que sempre houve “uma grande tendência à ruína em qualquer civilização”. É evidente que toda época tem seus males, mas a realidade dos crescentes males dos dias de hoje não admite dúvidas, e já se reflete na Inglaterra e em toda parte através dos debates ruidosos sobre “lei e ordem” (qual a causa do crime e como combatê-la); “moralidade” (sobre quais hábitos e regras uma ordem moral é construída); “a família” (quais são as causas e conseqüências da decadência da família e como combatê-las), e “educação”. Minha preocupação, nesse ponto, refere-se aos ingredientes de uma sociedade moral e liberal, à queda na qualidade da educação, ao receio fundamentado de que as escolas estão disseminando valores anti-sociais, antiliberais e até mesmo imorais. Entretanto, há discordâncias sobre o que deve constituir a ordem moral e o que deve ser ensinado e como: dois problemas que preocupam os pais realmente responsáveis. Para o pai liberal é óbvio que uma boa educação deveria ao menos tornar a criança consciente do liberalismo e de suas alternativas (seus valores e suas conquistas em um contexto histórico), e também assegurar um alto nível de conhecimentos gerais. Um liberal, entretanto, desconfia de regulamentações, tanto em razão de sua crença no direito de escolha como uma característica essencial de uma sociedade livre, quanto pelas conseqüências incertas de uma educação baseada no planejamento. Muitas idéias liberais estão voltadas para o campo da educação, com a intenção de ampliar o direito de escolha e quebrar o monopólio estatal na área. Também foram ouvidas muitas críticas dos liberais a algumas das mais tolas intervenções estatais na educação, como, por exemplo, no caso do busing, nos EUA, e da destruição das Grammar schools, na Inglaterra – políticas que visavam criar, paradoxalmente, maior eqüidade e melhor qualidade no processo educacional. Houve bem menos contribuição liberal no que se refere ao conteúdo da educação, embora tenha havido tremendas críticas ao movimento progressista da educação e uma fé universal na necessidade do desenvolvimento das três habilidades: leitura, escrita e aritmética, como componentes básicos da educação primária. 2


Série Conferências- Nº19 / fevereiro 1995 Mas será que o conteúdo é tão importante quando se avalia um programa educacional? Alguns dos senhores devem ter tido a experiência que tive como avô de crianças educadas em escolas particulares em que preconceitos antiliberais são sistematicamente inculcados nos alunos. A privatização do ensino – uma política apoiada pelos liberais – não garantirá um tipo de educação que um liberal convicto aprovaria, e nem mesmo um tipo de educação que favoreça o desenvolvimento de uma mente liberal. Mesmo que um programa educacional com conteúdo liberal fosse aprovado, não se poderia ter certeza de que o mesmo seria implantado com sucesso. Temos, então, duas incertezas: (1) o conteúdo de um programa educacional que o pai liberal aprovaria para seus filhos, e (2) a maneira pela qual tal programa seria implementado com sucesso. O liberalismo destaca a individualidade do ser humano e a necessidade de autonomia individual, a variedade de capacidades e necessidades, os muitos contextos nos quais os indivíduos vivem e trabalham e, portanto, considera que é preciso haver múltiplos tipos de programas e conteúdos educacionais. Mas o problema crucial para o pai liberal consiste em como escolher entre as várias opções do menu educacional, tendo em vista assegurar uma boa educação para seus filhos. Talvez Hayek nos tenha dado uma resposta sobre o que o pai liberal deveria procurar. Hayek, ao fundar esta Sociedade, queria uma base confiável proporcionada pelos valores sobre os quais a civilização européia foi construída: “a verdade como algo sagrado”, “as regras comuns da moral e da decência”, “uma ação positiva pela democracia”, “uma crença geral no valor da liberdade humana” e “oposição a todas as formas de totalitarismo, tanto de direita quanto de esquerda”. A fé na verdade, na moralidade, na liberdade e na democracia. Certamente tais valores abrangem muitos daqueles que um pai liberal desejaria ver ensinados a seus filhos, mas a lista está incompleta. Ao somarmos aos valores citados por Hayek alguns outros, aceitos pelos liberais como desejáveis em uma sociedade boa, temos uma longa relação que pode ser dividida, convenientemente, para fins de explicação, em cinco grupos gerais centrados na civilidade, na moralidade, na objetividade, na liberdade e na criatividade. Cada um desses grupos merece uma atenção detalhada, mas aqui eles serão analisados suscintamente. Civilidade. Basicamente, a civilidade nasce do respeito para com as outras pessoas, da tentativa de compreendê-las, da paciência e da gentileza ao conviver com elas e da polidez e cortesia mantidas nas relações interpessoais. O liberal deve ser um mestre da arte do relacionamento civilizado, evitando atitudes rudes e o que Adam Smith chamava de “a insolência e a brutalidade da raiva”. Moralidade. “Um sistema moral”, escreveu Hayek, “deve produzir uma ordem funcional, capaz de manter a estrutura da civilização que ela pressupõe.” Tal sistema 3


Série Conferências- Nº19 / fevereiro 1995 compreende civilidade mas também honestidade, respeito pela verdade, decência e justiça no trato com outras pessoas, criando assim uma situação de ordem moral estável e obrigação recíproca de as demais pessoas agirem do mesmo modo. Ter uma atitude moral significa saber a diferença entre o certo e o errado, entre praticar ações que resultem em uma vida boa ou agir de modo a prejudicá-la. As regras morais, segundo Adam Smith, “são universalmente conhecidas e estabelecidas pelo conjunto dos sentimentos da humanidade”, e são vistas como “um padrão de julgamento”. Objetividade. A objetividade é oriunda da análise crítica e desinteressada dos fatos e dos problemas; alimenta-se da determinação, da vontade de entender e respeitar as evidências vindas de quaisquer fontes; a objetividade parte do princípio de que uma afirmação pode ser verdadeira ou falsa, ou que alguma coisa é verdadeira ou não; a objetividade analisa os fundamentos que sustentam a legalidade; procura a verdade sem rancor ou preconceito; e está consciente de que as autoridades têm poder legítimo na exata proporção da validade de seus argumentos. A objetividade crítica tem necessidade tanto da convicção de que a verdade é importante quanto da coragem em manter uma luta perpétua contra os preconceitos e os favorecimentos de interesses unilaterais. A crítica, como dizia Croce, proporciona “uma vida perigosa e cheia de lutas”. Liberdade. No cerne da idéia de liberdade está o conceito de indivíduo autônomo, capaz de fazer opções de vida e selecionar seus objetivos dentre as várias alternativas existentes. Para um liberal, a educação é o processo de dotar o indivíduo de conhecimentos e compreensão como pré-requisito para torná-lo autônomo. Aqueles que crêem na liberdade respeitam o indivíduo e desconfiam da autoridade, encorajam a independência e se opõem à imposição de crenças e comportamentos. Criatividade. A mente liberal é cética e criativa. O ceticismo está enraizado na constatação de que existem limitações ao conhecimento humano e que as instituições humanas são complexas. O liberal sabe que o progresso do conhecimento e da compreensão é difícil e lento, e que não se resume apenas a armazenar fatos, mas sim em um processo criativo e imaginativo de ir além dos fatos. O liberal rejeita “o pensamento utópico, as esperanças escatológicas e a prática revolucionária”, acreditando que tais coisas fizeram mais mal do que bem, e rejeita também planos e crenças destinados a “tornar o homem perfeito”. Toda modificação tem conseqüências imprevisíveis e acarreta novos problemas. O liberal é um pluralista, reconhecendo a multiplicidade de fins e meios, o conflito de interesses, a necessidade de conciliar os vários objetivos dos diferentes indivíduos autônomos. A percepção é adquirida de diversas formas, e precisamos obter diferentes modos de percepção para enfrentar diferentes situações. A aquisição da percepção é uma arte e uma ciência, e exige não apenas conhecimento, mas também as virtudes da 4


Série Conferências- Nº19 / fevereiro 1995 tolerância e da imaginação, além da habilidade da invenção. O ideal seria que a criança pudesse desenvolver uma mente liberal ao adquirir tais valores através de uma educação adequada, como descrito por Isaiah Berlin: “nunca devemos parar de adquirir conhecimento; nunca devemos desistir da prática das virtudes do bom senso, da decência, da civilidade, do fair play, da bondade, da liberdade, da justiça, do julgamento imparcial e da abordagem gradual dos problemas”. “Devemos analisar as situações utilizando nossa percepção, encarando os fatos com ceticismo, empregando alguns princípios básicos e adotando no debate político uma atitude realista.” É mais fácil descrever a virtude do que adquiri-la. É mais fácil relacionar valores do que ensiná-los. A responsabilidade da educação dos jovens em matéria de virtude e valor recai sobre os pais. Os pais, e quase todos aqui são pais, têm a assustadora responsabilidade de educar os filhos, dar-lhes conforto, vesti-los, alimentá-los e formá-los. Entendo a educação como a entendia J.S. Mill: “Qualquer ação que ajude a formar o ser humano; que faça o ser humano tornar-se o que ele é, ou o impeça de tornar-se o que ele não é, faz parte de sua educação.” Isso significa, em termos gerais, que além de atender às necessidades humanas básicas, é preciso transmitir aos jovens conhecimentos, valores e desenvolver as suas capacidades. É lamentável que a responsabilidade paterna tenha sido solapada pela transformação dos valores e pela intervenção do Estado, o que convenceu muitos pais de que a educação é responsabilidade do governo. Porém, se alguns pais não encaram suas responsabilidades com seriedade, têm ainda uma importante e decisiva influência na educação de seus filhos, pois até a puberdade destes, a despeito de tudo o que digam e façam, os pais desempenham um papel crítico no desenvolvimento da prole. A mente liberal se forma cedo na vida, e mesmo que as experiências posteriores sejam dolorosas, a mentalidade formada na tenra infância persiste na vida adulta. Pontos de vista podem ser transformados temporária ou permanentemente, mas valores como tolerância, bondade e consideração pelos demais, uma vez adquiridos, raramente se perdem por completo. Como pode o pai liberal ter certeza de que seu filho também se tornou um liberal? Ele não pode. Ao examinar seu próprio liberalismo e o de outros pais a seu redor, ele terá dificuldades em identificar uma educação que assegure o liberalismo de seu filho. Isso não será necessariamente garantido pelo exemplo paterno, pois muitas crianças reagem (algumas violentamente) contra os pontos de vista de seus pais; mas isso não é uma regra geral, e não ocorre com um padrão constante. Também a escola liberal não é tão bemsucedida, pois as crianças reagem igualmente contra os ensinamentos dos professores, embora mais uma vez não consistentemente. Alguém sugeriu que as inclinações políticas seriam determinadas geneticamente. Nas palavras de Gilbert e Sullivan: “Qualquer menino, 5


Série Conferências- Nº19 / fevereiro 1995 qualquer menina, desde que nasça com vida, é tanto um pouco liberal quanto um pouco conservador.” Não aceito nem uma teoria reacionista nem uma teoria geneticista da formação de valores. A educação, seja fornecida por pais, seja por professores, é sumamente importante na formação de valores. As mentes jovens são receptivas aos ensinamentos, e até mesmo as mentes maduras podem ser influenciadas e convertidas. Há no mundo, hoje em dia, muitos liberais recém-convertidos com um passado recente de socialistas e que agora alardeiam as virtudes do mercado livre. O pai liberal deve acreditar fortemente na comprovável superioridade do liberalismo como um sistema, e o reconhecimento de tal superioridade virá à mente de uma criança que teve uma educação liberal e que foi exposta às virtudes da civilidade, da moralidade, da objetividade e do respeito pela liberdade. O liberal deve entender que o liberalismo exige civilidade e solidariedade, para tornar as relações humanas toleráveis; honestidade, apreço pela verdade e respeito pelos compromissos, para permitir o funcionamento eficiente da economia; objetividade, para possibilitar decisões e julgamentos racionais e desinteressados; liberdade, para permitir que o indivíduo autônomo tome suas decisões sem coerções; e imaginação e criatividade, para ampliar e enriquecer a sociedade. Naturalmente, para que o sistema liberal possa funcionar de modo efetivo, são necessários arranjos institucionais como o livre mercado, mas tais arranjos não seriam de grande ajuda sem as características de comportamento antes enumeradas. As virtudes e as instituições liberais são mutuamente dependentes, e a boa sociedade é também a sociedade liberal, apresentando harmonia entre comportamentos e instituições. A criança nasce com determinadas características genéticas, que incluem aspectos físicos e inteligência, mas também é afetada pelo ambiente social. A formação do caráter e a aquisição de valores pela criança dependerão, em primeiro lugar, da experiência de pertencer a uma família com características particulares. Os pais transmitem, ou tentam transmitir, consciente ou inconscientemente, habilidades, conhecimentos e valores a seus filhos, e esse conjunto de fatores é aumentado mais tarde com o aprendizado de novos fatores, que reforçarão ou entrarão em conflito com aquilo que os pais inicialmente ensinaram. Naturalmente, a família é um ambiente eficiente para a educação dos filhos, e será especialmente efetiva se for estável, com uma relação de afeto entre seus membros, entre os pais, entre pais e filhos, entre crianças. A criança obterá maiores progressos ao conviver num ambiente emocionalmente seguro, com pais amorosos e afetuosos, no contexto de uma família ampliada pelo sentimento de pertencer a um grupo maior, coeso, com interesses comuns. Se houver mais de uma criança na família, ou nesse grupo amplo, a criança aprenderá a trabalhar e brincar com outros, a ser cooperativa ou, ao menos, a ser competitiva sem maldade ou conflito. O conflito em geral é controlado pelos pais. Num 6


Série Conferências- Nº19 / fevereiro 1995 ambiente assim a criança adquirirá as virtudes da civilidade e da bondade, que surgem da troca de experiências entre os indivíduos que vivem em grupo. A civilidade torna efetivo o convívio com os demais, com a criança aceitando seus pares pelo que eles são e respeitando seus interesses, ao mesmo tempo em que reconhece que as diferenças individuais e os conflitos de interesse são endêmicos nas relações humanas. Tais diferenças e conflitos são tratados com benevolência e tolerância pela família, a menos que esta se veja frustrada por um comportamento paterno perverso ou por interesses externos negativos. As crianças, porém, mesmo se suas características e seus valores forem talhados pela família, não podem evitar o contato com o ambiente mais amplo em que a família vive e o mundo que herdou. Por exemplo, a criança raramente pode evitar a freqüência às aulas em uma escola fora de casa. J.S. Mill escreveu que a educação é “a cultura que cada geração deixa para aquelas que a sucedem, tendo em vista possibilitar-lhes manter ou, se possível, melhorar o nível de progresso já atingido.” O conhecimento dessa herança nasce das humanidades, o núcleo tradicional da educação liberal, e depende muito de uma boa escola; esta, por sua vez, depende da riqueza da sociedade e de sua estrutura política. Obviamente a sociedade democrática, com um alto padrão de vida, fornece um ambiente favorável ao desenvolvimento da criança, mas tal tipo de sociedade também cria sua quota de delinqüentes. O ensino das humanidades, entretanto, poderia ser uma influência civilizadora: a literatura, para desenvolver o gosto pela enorme herança literária do passado e estimular uma imaginação criativa; o estudo de idiomas, favorecendo o conhecimento de outras culturas e aumentando as possibilidades de optar por diferentes estilos de vida; a filosofia, para treinar a mente no exame criterioso de assuntos variados e fornecer a capacidade lógica que permite relacionar as evidências com as conclusões; a história, ligando o passado ao presente e facultando o entendimento daquelas instituições que moldam e restringem a ação humana, dentre as quais o Estado é a mais importante. O estudo honesto dessas matérias é o melhor caminho para demonstrar as virtudes do liberalismo e fornecer os elementos intelectuais básicos na formação da mente liberal. A educação liberal pode ser definida mais facilmente através de negativas do que com afirmações: ela não é utilitária ou interesseira; não é vocacional ou profissionalizante; não é especializada ou unilateral; não é conformista ou acrítica: não é educação para fazer coisas predeterminadas. Isso implica dizer que a educação liberal é altruísta, é geral e universal, é crítica e inventiva, é voltada para o raciocínio e a compreensão. Para os gregos a educação liberal estava voltada para a aquisição de conhecimentos relativos à realidade, ao entendimento da realidade. O bem-estar pessoal resultava do fato de se desfrutar de um estado de conhecimento, ao invés de um estado de fé. Um estado de conhecimento permitiria uma avaliação crítica da autoridade, colocaria à disposição do indivíduo uma dose 7


Série Conferências- Nº19 / fevereiro 1995 de inventividade e imaginação contra a mera coleção de fatos, além do exercício da escolha racional e do desenvolvimento do indivíduo autônomo. A educação era um processo de autocultura, e não se baseava em objetivos utilitários, o que contrasta com a educação moderna, cujos objetivos práticos são óbvios. Além disso, assistimos hoje em dia à educação suprindo as necessidades técnicas e profissionais, adaptada a interesses específicos e protegida pela infame disciplina da correção política. A necessidade de treinamento vocacional e profissional é óbvia, mas não deveria resultar no que John Anderson chamava de “vitória de uma política educacional que ... (vê) um nivelamento utilitário de todas as matérias como o passaporte para uma Utopia materialista dirigida por funcionários”. Uma boa educação tem seu estágio utilitário, o qual não sufoca necessariamente os valores liberais, se for precedido por dois outros estágios: primeiro, um estágio de aprendizado das ferramentas básicas da educação – leitura, escrita e aritmética; em segundo lugar, um estágio liberal, no qual o conhecimento e o comportamento seriam voltados para os ideais liberais, não por doutrinamento, mas pelo bom senso e pela necessidade de entender o mundo e de conviver de maneira amigável com outras pessoas, e também pelo desenvolvimento da criatividade e da imaginação. Eu enumerei e descrevi os valores que julgo necessários para uma sociedade liberal. Identifiquei os componentes intelectuais que julgo necessários para uma educação liberal. Entretanto, além de ressaltar a importância da família como uma unidade educacional e a responsabilidade dos pais em garantir uma educação liberal para seus filhos, não posso dar uma receita precisa – seja no tocante ao conteúdo educacional, seja no que se refere ao aspecto institucional – para assegurar que uma criança tenha uma educação liberal ou que tal educação favoreça uma mente liberal. A crença de um liberal no direito de escolha afasta qualquer forma de “padrão liberal” para atingir os objetivos liberais. A fé dos liberais na capacidade criativa dos seres humanos e na complexidade e no conflito de interesses inerentes à sociedade humana torna o liberal desconfiado das fórmulas e dos planos. O que o liberal pode ressaltar é a responsabilidade dos pais, e o que ele, liberal, pode fazer – em sua própria vida, em seu trabalho e através de instituições como a Sociedade Mont Pèlerin – é apoiar sempre os valores e as causas liberais, opondo-se sempre a valores e causas que ameacem a liberdade individual. É sempre bom lembrar que a mente servil é a mente acrítica, e o Estado servil é o Estado sem oposição e não-criticado.

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