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ENSAIOS & ARTIGOS 29.09.2008

Ensaio sobre a cegueira ARTHUR CHAGAS DINIZ O livro de Saramago que foi filmado por Fernando Meirelles conta a estória de uma epidemia de cegueira que toma conta de, virtualmente, toda a população de um lugar. É uma cegueira branca, ao contrário da habitual, que é negra. A seqüência de episódios que vêm ocorrendo no Brasil, há pelo menos cinco anos, lembra o conto de Saramago. Grandes e pequenos eventos de maior ou menor visibilidade ocorreram entre os episódios que estão a seguir listados. Achei que o título mais adequado para este artigo seria o de Saramago: ‘Ensaio sobre a cegueira’. Episódio I – O assassinato de Celso Daniel Em 2002, o prefeito petista de Santo André, Celso Daniel, foi assassinado. Seu irmão João Francisco Daniel afirmou ter ouvido de Gilberto Carvalho (secretário de Lulla) que a propina da prefeitura era destinada ao PT. De início, a Força-tarefa encarregada do caso, tentou caracterizar o crime como casual. Ele estava em um automóvel blindado junto com Sérgio Gomez da Silva (o Sombra), especialista em segurança. O Promotor Salmo Mohamed dos Santos, integrante da Força-tarefa, convenceu-se, apenas quatro anos depois, que o crime foi cometido por ordem de um grupo de assessores que desviava verbas da prefeitura. A apuração do crime, apesar da existência de testemunhas, encerrou-se com a prisão de um menor de idade, hoje, certamente, já libertado da FEBEM. A Polícia Federal não teve qualquer interesse no assunto. Sérgio Gomez nunca confessou. Episódio II – O Mensalão A partir da denúncia de Roberto Jefferson, deputado e presidente do PTB que aparentemente recebeu menos dinheiro do PT do que havia combinado para colocar o partido a serviço de Lulla, descobriu-se que a quase totalidade do que se chamava de “a base aliada” era, permanentemente, subsidiada por depósitos em suas contas correntes. O caso mais notório foi o de Luís Paulo Cunha, ex-presidente da Câmara, recebendo, através de sua mulher, um depósito de 50 mil reais no Banco Rural. Mais de uma centena de deputados foram acusados. Jefferson afirmou que o


chefe do Mensalão era o deputado José Dirceu. Os bancos envolvidos na operação eram o BMG e o Rural, ambos de Minas Gerais. Eles ganharam preferência do governo para empréstimos para funcionários públicos com débitos em conta corrente. O articulador externo (fora do Governo) do Mensalão era Marcos Valério, dono de agência de publicidade que repassava as propinas através dos dois bancos. Acusados pelo Procurador Geral da República, Zé Dirceu e mais 39 aguardam preferência no Supremo Tribunal Federal para serem julgados. A denúncia foi aceita, mas o julgamento vai para as calendas. Zé Dirceu continua, como Delúbio Soares, tesoureiro do Mensalão, prestigiado como se autoridade ainda fosse. Recebe homenagens e tratamento de ministro de Estado em todas as embaixadas no exterior. Episódio III – O dossiê Vedoin (Luiz Antônio Vedoin) ou “a máfia das ambulâncias” Em 2006, quando da última eleição para o governo de São Paulo, um grupo de petista se reuniu para a aquisição e distribuição de um dossiê que responsabilizaria José Serra, candidato a governador, pelo esquema de propina na compra de ambulâncias. O responsável pela preparação e venda do referido dossiê que tomou o nome de Vedoin era Romildo Medeiros. Os compradores incluíam desde o coordenador de comunicação da campanha ao governo paulista de Aloísio Mercadante, Hamilton Lacerda, que se desligou do PT depois de pego com o dinheiro da aquisição do dossiê em suas mãos. Nada aconteceu com Mercadante nem com os outros envolvidos que eram: •

Abel Pereira – amigo do ex-ministro Barjas Negri, que se beneficiou do esquema das Sanguessugas.

Expedito Afonso Veloso – Diretor de Gestão do Banco do Brasil, licenciado para a campanha de reeleição de Lulla.

Fred Godoy – há mais de 20 anos homem de confiança de Lulla de quem foi segurança. No momento em que a operação foi descoberta, deixou o cargo de assessor especial da Presidência.

Gedimar Pereira Passos – Agente federal aposentado e advogado, trabalhava na campanha de reeleição de Lulla, subordinado a Jorge Lorenzetti. Foi preso com maletas de dinheiro na mão.


Jorge Lorenzetti – Integrante do comitê de campanha de Lulla, churrasqueiro preferido do Presidente.

Gilberto Carvalho – Chefe de gabinete da Presidência, manteve contato com Lorenzetti no dia da prisão de Valdebran (a seguir) e Gedimar. Afirma que buscava entender a operação.

Valdebran --- Padilha – no dia 15 de setembro estava com Gedimar no Hotel Íbis, em São Paulo, onde os dois foram presos com R$1,7 milhão destinados à compra do dossiê. Teve sua filiação ao PT suspensa três dias depois do evento.

Ricardo Berzoin – atual presidente do PT, admitiu saber que assessores petistas entraram em contato com a revista Época para negociar o dossiê.

Lulla deu ao grupo o nome genérico de “aloprados”. Hoje já os alcunha de “injustiçados companheiros”. Episódio IV – As contas pessoais de D. Ruth e FHC A Casa Civil, comandada pela ministra Dilma Rousseff, entrega ao senador Álvaro Dias, recebe um dossiê contendo os gastos efetuados com o cartão corporativo de Fernando Henrique e Ruth Cardoso. A oposição (?) estava, então, pressionando o Governo para que informasse os gastos da corte de Lulla, estimulada pelos gastos dos ministros Matilde e Orlando Silva, vistos como impertinentes. Matilde caiu do ministério basicamente porque usou o cartão corporativo para compras no duty-free. Foi a única vítima do cartão. Dilma Rousseff negou que a Casa Civil estivesse preparando “dossiê” contra membros do governo FHC. Ela, incorretamente, falou em “banco de dados”. A saída formal foi encontrada quando um antigo serventuário, José Aparecido, denunciou-se como “bode expiatório”. A especulação em torno das despesas com cartão corporativo de Lulla e familiares foi esquecida. Episódio V – A (con)fusão das telefônicas A Polícia Federal prendeu, entre outros, Daniel Dantas e assessores, Pita e Nagi Nahas, o primeiro por tentativa de corromper um delegado da Polícia Federal e os outros dois, por


movimentação de recursos no câmbio paralelo. O conjunto da operação, chefiada pelo delegado Protógenes, tomou o nome de SATIAGRAHA. Nela acabaram envolvidos um juiz regional (de Sanctis) e o presidente do STF, Gilmar Mendes, que concedeu, em regime de plantonista, habeas corpus sucessivos para Dantas e os demais. O que se comprovou, de fato, foi a existência de R$1 milhão em mãos dos corruptores. Qual era o objetivo de Dantas desde que iniciou as doações que deram suporte financeiro à operação denominada Mensalão? A fusão de duas empresas de telefonia, das quais Dantas detinha participações expressivas e cuja fusão era impedida pela Lei Geral das Telecomunicações (Oi e Telecom). Personagens de destaque nesta operação são Gilberto Carvalho (outra vez) e Greenhalgh (petista, advogado e ex-deputado). A operação Satiagraha, embora de responsabilidade exclusiva da Polícia Federal, contou com o apoio decidido da ABIN – Agência Brasileira de Inteligência (o SNI da esquerda). Embora não sejam autorizados a operar escutas telefônicas, foram flagrados fazendo-a, o que dá origem ao próximo episódio. Episódio VI – O grampo O presidente do STF “descobre” que seu telefone foi grampeado, especialmente numa conversação que teve com o Senador Demóstenes Torres. Abre-se uma CPI do Grampo, o Governo afasta Paulo Lacerda (presidente da ABIN) e a idéia predominante é desqualificar todas as provas obtidas sem escuta legal. O general Jorge Félix, ministro que comanda a ABIN tanto quanto Paulo Lacerda diz desconhecer a participação desta agência no episódio (eram 52 agentes). Em depoimento no Congresso, afirmou que a ABIN não tem equipamento de escuta telefônica, o que foi contestado por Nelson Jobim, da Defesa, que informou que o Exército teria comprado, no exterior, equipamentos adequados à escuta. O caso ainda não se encerrou, mas espera-se que: a)

Ninguém seja punido, nem por corrupção ativa (Daniel Dantas) nem operadores como

Carvalho e Greenhalgh. b)

As duas empresas, grandes doadoras do episódio ‘o Mensalão’, sejam premiadas com

extraordinários ganhos de capital para os possuidores de ações da Oi e da Telecom. c) Nenhuma escuta possa ser usada como prova ou indício de crime.


d)

Greenhalgh seja afastado de operações menos ortodoxas e continue a ganhar dinheiro

com elevadas percentagens do Bolsa Ditadura concedidas aos amigos. e) Continue intocado o prestígio junto a Lulla dos operadores de todos os escândalos que ocorrem no seu governo e que continue com a popularidade alta. f)

Em sucessivas manifestações públicas, Lulla só fez elogiar os aloprados, Zé Dirceu e

Delúbio, chamando-os de companheiros injustiçados. Recebe, em Palácio, e com especial destaque, o senhor Maranhão, que invadiu o Congresso e destruiu partes do patrimônio público. Quem é o responsável por tudo isto? Todos os participantes das diversas tramóias estão soltos. A PF, que se gaba de sua eficiência, já soltou os aloprados e não vê qualquer vínculo entre a tentativa de corromper o delegado e a fusão das telefônicas. Vários bodes expiatórios já assumiram suas “responsabilidades”. Os mais conhecidos são lembrados por Lulla como “companheiros injustiçados”. O prestígio de Lulla só faz crescer. Não se conhece nenhuma vacina contra cegueira. Não é este um conjunto de episódios que bem caberia no livro de Saramago? * PRESIDENTE DO INSTITUTO LIBERAL As opiniões emitidas na Série ENSAIOS & ARTIGOS são de responsabilidade exclusiva do signatário, não correspondendo, necessariamente, ao ponto de vista do Instituto Liberal. O conteúdo do artigo pode ser reproduzido uma vez citada a fonte.

Instituto Liberal www.institutoliberal.org.br


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