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Ensaios & Artigos

20.06.08

A Batalha das Idéias RODRIGO CONSTANTINO*

“Mude as idéias, e você poderá mudar o curso da História”. ___ Edmund Burke As crenças marxistas, tanto de um determinismo histórico como de um excesso de materialismo, como se tudo no mundo se resumisse a uma luta de interesses entre classes, prejudicaram bastante o avanço da civilização onde exerceram forte influência. Paradoxalmente, isso mostra justamente o poder das idéias, para o bem ou para o mal, no curso da História. Ou seja, nega a própria crença determinista. Os seres humanos são dotados de livre-arbítrio e nem tudo se resume aos interesses materiais imediatos. Quem acredita nisso está dando uma confissão e tanto sobre seu caráter, como bem colocou Benjamin Franklin: “Aquele que é da opinião de que dinheiro fará qualquer coisa pode muito bem ser suspeito de fazer qualquer coisa por dinheiro”. Há muito mais do que dinheiro na vida. No final do dia, serão as idéias que determinarão os rumos das coisas. Vários pensadores de diferentes vertentes chegaram a esta conclusão. O poeta alemão Heine afirmou que “os conceitos filosóficos nutridos na quietude do escritório de um professor poderiam destruir uma civilização”. Victor Hugo escreveu que “nada neste mundo é tão poderoso como uma idéia cuja hora é chegada”. O grande economista Ludwig von Mises constatou que “idéias e somente idéias podem iluminar a escuridão”. A filósofa Ayn Rand destacou que “o homem não pode fugir da necessidade de uma filosofia; sua única alternativa é se a filosofia o guiando será escolhida por sua mente ou por acaso”. A lista de pensadores importantes que depositaram enorme relevância no poder das idéias é gigantesca. O escritor José Ingenieros escreveu: “Quando colocamos a proa visionária na direção de uma estrela qualquer e nos voltamos às magnitudes inalcançáveis, no afã de perfeição e rebeldes à mediocridade, levamos dentro de nós, nesta viagem, a força misteriosa de um ideal”. Quem deixa essa força se apagar, ficando simplesmente inerte, não passa “da mais gelada bazófia humana”. O autor conclui: “O ideal é um gesto do espírito em direção a alguma perfeição”. O culto ao “homem prático”, como se um arcabouço de idéias devidamente refletidas não fosse importante, representa uma ameaça ao progresso humano. “Uma vida não examinada não vale a pena ser vivida”, teria concluído o filósofo grego Sócrates. A máxima de simplesmente “deixar a vida levar”, sem um devido processamento de idéias, costuma levar ao precipício. Até mesmo essa decisão, de viver fugindo de uma reflexão mais profunda, é fruto de uma idéia: a de que não importa muito pensar e ter idéias.


O economista John M. Keynes foi outro que percebeu a relevância das idéias no curso dos acontecimentos. Ele escreveu em sua Teoria Geral: “As idéias de economistas e filósofos políticos, tanto quando estão certas como quando estão erradas, são mais poderosas do que é normalmente compreendido. De fato, o mundo é governado por pouco mais. Loucos na autoridade, que escutam vozes no ar, estão destilando seu frenesi de algum rabisco acadêmico de poucos anos antes. Estou certo de que o poder dos direitos adquiridos é muito exagerado comparado à gradual invasão de idéias. Não, de fato, imediatamente, mas depois de certo intervalo; pois no campo da economia e filosofia política não existem muitos que são influenciados por novas teorias depois que estão com vinte e cinco ou trinta anos de idade, logo, as idéias que os servidores públicos e políticos e mesmo agitadores aplicam provavelmente não serão as mais novas. Mas, cedo ou tarde, são as idéias, não os direitos adquiridos, que são perigosas para o bem e para o mal”. No caso de Keynes, infelizmente, foram para o mal, para o crescimento do governo e conseqüente redução das liberdades individuais. A força dos canhões é fundamental, mas a direção para onde eles apontarão depende basicamente das idéias disseminadas. O que permitiu a criação da nação mais livre do mundo foi justamente o poder das idéias Iluministas, bastante influenciadas por John Locke e pelos “founding fathers” da América. Por outro lado, o que permitiu o terror, a escravidão, o genocídio e a total miséria soviética também foi o poder das idéias, dessa vez, as socialistas e marxistas. Da mesma forma, aquilo que garante o atraso de muitos países islâmicos, assim como o terrorismo dos fanáticos, é justamente o poder das idéias. Idéias têm conseqüências. Infelizmente, graves conseqüências muitas vezes. E exatamente para evitar isso é que devemos combater essas idéias erradas com outras idéias. A batalha deve ser travada no campo das idéias. O mundo será um lugar mais livre apenas se os liberais vencerem o debate, não através da força, mas dos argumentos. “O argumento pela intimidação é uma confissão de impotência intelectual”, disse Ayn Rand. Cabe aos defensores da liberdade mostrarem ao mundo quem tem argumentos sólidos, e quem tenta apenas impor suas vontades pela força, por completa impotência intelectual. Somente quando tal distinção estiver mais clara para a maioria, poderemos usufruir de um mundo realmente mais livre. Um mundo onde as boas idéias predominam. * Economista, articulista, integra o Conselho Editorial da ‘banco de idéias’.


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