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Música nas alturas Minha rabeca toca benditos, chora saudades, saúda o Divino e cai na folia. É santa e pecadora igual ao dono. Mas no dia em que morrer ela e eu estaremos em perfeita afinação para nossa salvação.


V么o de anjo Nestes tempos de viol锚ncia Os anjos do Senhor N茫o fazem mais v么os rasantes Como faziam antes. Vai que tem uma alma perdida, Vai que tem uma bala perdida...


Artes do Menino Jesus Goiabeiras, laranjeiras, coqueiros, parreiras, foram obras de Deus criador. Já a jabuticabeira com frutos em toda a extensão, desde os galhos mais altos até ao caule ao rés do chão, decerto foi arte do menino Jesus na Terra da Santa Cruz.


O caso das bananeiras meio-pé Mané Bento desistiu de trabalhar na roça, largou mão de capinar e resolveu cultivar bananeiras que crescem e matam pragas e ainda dão 'muitas fruitas', boas de fazer pirão, saborosas de se fartar, baixinhas de colher com a mão.


O bicho mar Quando eu tomei um caldo e saí da praia zonzo só Tio Chico me consolou: - O mar, menino, é um bicho perigoso!


Papo do menino Régis Anjinhos do céu, De Nossa Senhora os queridinhos, quando escutei ruídos de asas lá fora, eram vocês ou os passarinhos?


Taí Desconfio que essas velhinhas, sem leituras nem estudos, que sabem remédios de ervas e com o rosário na mão, curam com auxílio da fé, sabem muito bem onde o rio Estiges dá pé.


Sons de verão No marulho das ondas que consegue furar a distância e a rede de obstáculos que me separam do mar; nos passos dos pássaros sobre o telhado; no som da vida saltado na cachoeira; na conversa do vento com as folhas das árvores e na pulsação do coração da bananeira.


Redemoinho Entre tantas indecisões que ocorrem com o tempo nas mudanças de estações, um pé-de-vento perdeu-se por um momento na curva da estrada e ficou rodopiando no quintal de casa: sujou as roupas do varal com a poeira do terreiro e depois sumiu de cena igual menino arteiro.


Manoel Félix Tio Manoel virou maneco de tanto ver assombros boitatás, mães do ouro, estrelas cadentes, visões de mouros, pirilampos, peixes pampos, abraços de tamanduás, fila de marandovás, correção de formigas quem-quem, vozes daqui e dalém das quais ficou só o eco e Tio Maneco virou Neco.


Eternidade O armazém do Bananinha, a mercearia do Maciel, o bar São Paulo, a pensão do Maestro, a casa Souza, morreram junto com seus donos. Por isso Tio Antonio desistiu da cidade e enfurnou-se no Sertão e na perenidade da mata, do rio, do matacão.


Estrada do tempo A estrada do tempo começa no quintal da casa da gente, atravessa ruas, vozes que seduzem, apelos de aventuras, segredos para desvendar. Quando a gente começa a precatar, muda o humor do mar, a ciência da lida com as coisas da terra acaba sendo esquecida, a estrada vira asfalto, a tranqüilidade muda em sobressalto e de todas as antigas lições fica apenas a certeza que é curta esta vida e a estrada do tempo só tem viagem de ida.


Movimento cíclico Tantas voltas a Terra dá, tantos giros de carrossel, tantas revoluções telúricas, tantas translações e rotações, tantos rodeios só pra dizer que quero tanto um beijo seu.


Quaresmeiras De marรงo a abril, por causa da quaresma e acidentes rodoviรกrios, tinticuias e manacรกs dรฃo flores de luto ao longo da SP-55.


Dia dos namorados Vós de lá e eu de cá, ribeirão passa no meio. Vós de lá dais um suspiro, eu de cá tchabau na água.


Carrapichos Foi morando na restinga que aprendemos a lição dos carrapichos, nos armamos de espinhos e ficamos resistentes à força dos elementos: sol, chuva, noites e sentimentos.


Fotografia antiga Retrato antigo de delicadezas passadas: no caminho da escola, irm達os de m達os dadas.


Papo de Vovó Vovó Martinha disse que nunca teve medo de ladrão, por muita fé em Deus e um cacete atrás da porta.


Seu Hilário Tinha uma espingarda de fazer barulho no mato, de espantar os bichos que corriam assustados, que alertavam a caapora que berrava urros estranhos de bichos d’antanho, extintos no quaternário: gliptodonte, megatério, mastodonte, Seu Hilário


Recordação Eu me lembro de uma cozinha com mesa e bancos pra reunir a família, pra contar histórias, pra jogar dominó, pra bebericar um café feito no fogão a lenha e as telhas, e os caibros, e as ripas, e as lembranças, cheios de picumã.


IpĂŞ-Amarelo Todas as horas do dia, todos os dias do ano, o ipĂŞ se prepara para, no final do inverno, despir-se das folhas, vestir-se de ouro e nos dias seguintes, derramar todo seu tesouro aos pĂŠs dos transeuntes.


Navio fantasma Do rumo de meio-dia, cambando sobre as ondas, o veleiro veio de dentro do sĂŠculo XIX buscar pimenta-do-reino, cafĂŠ do Vale do ParaĂ­ba, farinha da terra, ouro das Minas Gerais. Chegou tarde demais.


Tarumã Neste dia de sol, registro numa folha de meu caderno de bobagens, as ilustres visitas que chegam ao velho tarumã, em frente à minha janela: corruíra, tié, sanhaço, periquito, saíra, rolinha, sabiá, mariquita, bem-te-vi, andorinha que fez desfeita, efetuou um vôo rasante, e foi esbanjar alegria adiante.


Elegia ao tamanduá Eu vi no meio da estrada, com a bandeira desfraldada, amode que pedindo trégua, um bicho-tamanduá. Quase fui abraçá-lo, por saber que ainda tem tamanduá dando bandeira por aí, na Serra do Mar.


Tia Aninha benzedeira De sua casa pobrezinha abria as janelas direto para o céu, dava risos sozinha, igual criancinha, que conversa com os anjos. Fazia orações, benzimentos e dizia palavras, aparentemente sem tino: - Menino, não sabeis que sangue de passarinho deixa nódoas na alma?


Antes do Progresso A simplicidade estava em voga, até as doenças eram simples e as pessoas sofriam de quebranto, defluxo, dor nas cadeiras, espinhela caída, paixão recolhida, e golpe de vento era cama na certa.


Fiapos de memória Na minha infância de caiçara a refeição malemá enchia o prato de porcelana com paisagens de distantes portos com navios a vapor a soltar fiapos de fumos pelas chaminés. Enquanto a sopa esfriava eu, distraído, navegava.


Vovó Eugênia A fumaça do fogão a lenha De Vovó Eugênia defumava peixes, caças, caibros, ripas, telhados e nós cada vez mais curtidos.


Peixaria dos poetas Peixe-lua, peixe-voador, peixe-anjo, peixe-elétrico, peixe-piloto, peixe-rei. Só deixo fora o peixe-espada que meus versos são de paz.


Metamorfose O vento agitou os galhos do ipĂŞ e uma flor cor de ouro foi carregada pelo vento. Bateu asas e diante de minha janela transformou-se em borboleta amarela.


Cachoeira do céu Na casa de meu avô quem sempre nos deu a água de beber é uma cachoeirinha que brota de uma grota entre pedras, raízes e caetês, que alimenta um córrego de guarus, cobras d'água e pitus. Uma queda d'água tão bonitinha, com um rumorejar tão baixinho, parecendo que foi feita por Deus, quando ainda era menino.


Perenidade da lembranรงa A roda do mundo girou. Quem era crianรงa, cresceu; quem era solteiro, casou; quem era talvez, aconteceu; a flor cheirosa murchou; uma nova rosa apareceu; a roda do mundo girou, sรณ faltou levar junto a nostalgia que restou.


Historinha Quando a escolinha agrupada do primeiro grau da praia da Fortaleza era no sopé do morro, no meio do bananal, uma cobra caninana foi se enrodilhar entre os caibros do telhado para aprender o beabá. Mas acabou sendo expulsa, tão logo foi notada, porque não estava inscrita no livro de chamada.


Antigamente Eram os Reis Magos que nos traziam presentes: boneco desengoรงado, corda de pular, piรฃo carrapeta, balanรงo na goiabeira, canoa de caixeta, carrinho de madeira. Mas chegou o Papai Noel que expulsou os Reis Magos e acabou a brincadeira.


Vento leste O pescador RogÊ pelo vento lestado, pela cachaça tocado, pela solteirice condenado, sempre fundeava no porto a sotavento adernado.


Bendito Bendito seja quem arranja tempo para cultivar um jardim; quem semeia flores, borboletas e colibris; quem planta pomares, balanรงos e crianรงas. Mesmo sendo um jardineiro amador, serรก chamado parceiro do criador.


Os pássaros não morrem Exceto por bodocadas, gaiolas de alçapão, arapucas e visgo colante, os pássaros não morrem. Pesquisei no mato, espiei sob as fruteiras, questionei o bem-te-vi e cheguei à conclusão, após percorrer esse mundéu, que os pássaros não morrem: sobem em corpo e alma ao céu.


Um cavalo de nome Abstêmio Trotando mais de légua por trilha estreita e perigosa que leva à praia isolada com a carga vacilante de seu dono embebedado na carraspana domingueira, contornando obstáculos, equilibrando-se nas pirambeiras, lá vai o cavalo abstêmio uma cavalgadura mais ajuizada do que seu dono boêmio, que lhe deu esse nome por pura caçoada.


Ruídos da cosmogonia Que saudades que tenho da aurora da minha vida, da ausência de automóveis, do silêncio de motores, quando podia se ouvir nas horas da madrugada o ruído de fundo da cosmogonia do espaço sideral ou era o escachoar do mar na praia de perau?


Avoengo Bento Benedito Bento enquanto viveu das caças para caçar, das terras para plantar, dos peixes para pescar, continou sempre bento, na terra dos pés descalços, na praia dos cabelos ao vento.


O meio natural Chapéu de fibra de bananeira, balaio de cipó timbopeva, barquinho de caixeta, covo de taquara, esteira de taboa, corda da entrecasca da embaúba, canoa de timbuíba, casa de pau-a-pique, teto de sapé, fogo de tacuruba, flechas da haste do ubá, ubá de Ubatuba.


Tempo de acordar Aprendiz de vivente, abra os olhos, acorde do pesadelo para apreciar a música que vem de fora. É de novo Elias no cavaquinho, Jorginho no violão e Maneco Almiro na rabeca. Não duvide, aproveite e vá contar nos galhos da árvores fruteira e veja que estão todos lá... os sabiás.


Cantiga de ninar Dorme menininho que o sol também já foi dormir e levou consigo todas as cores do mundo. Dorme menininho que o vento já estendeu um cobertor de nuvens espessas para aquecer quem não tem onde se abrigar. Dorme menininho, dorme para o sonho acordar.


Precipitações Coriscos, riscos de luz, chuva de meteoros, anjos caídos, um escarcéu: deve haver algum furo no céu.


Poesia de músculos Foi no braço de ferro contra o vento uma refrega muito dura que o pé de goiaba desenvolveu sua musculatura.


Curtinha Manh達 de ver達o. Galinhas conversam asneiras enquanto ciscam sob as bananeiras.


Sinal dos tempos É verdade que tem o cupim, a broca e o fungo da podridão, mas as casas antigas morrem mesmo é de solidão.


Ora pro nobis Peixes-frades p谩ssaros cardeais, bichinho louva-a-deus, por n贸s rogais.


Caso de tuim Olha lá o passarinho tuim, não tem patrão, não tem escola, quando tem vontade namora, quando tem fome serve-se na mesa de Deus. Olha lá o pássaro tuim, parece que tá rindo de mim.


Serelepe O bicho caxinguelê pode não saber o beabá, mas decerto sabe contar, porque todo dia faz o inventário de todos os coquinhos do coqueiro jerivá.


Equinócio Quem sabe o tempo certo da primavera começar é o sabiá que antes da invenção do calendário já sabia assobiar.


Veto Em dia de domingo deveria ser proibido filmes com finais tristes, principalmente ao fim do dia, quando cessa a chuva, mas as รกrvores continuam a chorar lรกgrimas de melancolia.


Recomendação É preciso investigar quem é o responsável pelas lições camicases dadas aos carapirás da Ilha dos Alcatrazes.


É natural O orvalho desfia as contas do rosário em cada teia de aranha, depois vem o sol e recolhe cada pérola para o seu relicário.


Riquezas no quintal O jardim de minha avó tinha cananga do Japão, jasmim das Arábias, flamboião da África, hibisco do Havaí, flores do Bornéu, rosas do céu, e mais dama da noite e gardênia. Que navegantes do tempo, que viajantes das distâncias, trouxeram o mundo para o jardim de Vovó Eugênia?


Versinhos do Céu Lá vem o vento, por ordem de Deus, repintando o firmamento com mais uma demão de azul, levando a tempestade embora, porque chegou o dia da Assunção de Nossa Senhora.


Ambrosia Vovó fazia um pirão tão bom Com garoupa e coentro Cujo cheiro subia pela chaminé E chegava até ao céu, Com tão agradável odor Que, Nosso Senhor, cedo, para lá a levou.


Amarras Reparem bem nas casas antigas: como são bem construídas com telhados centenários, de madeira bem ajustadas por grandes travas, pregos, mais as teias das aranhas feitas com muita paciência, que justamente é o segredo de tanta resistência.


Quem dará guarida aos anjos da guarda? No início da tempestade, ao ribombar do trovão, não tranque a porta de casa, não feche seu coração, para que os anjinhos da guarda em espantada revoada tenham onde se abrigar quando o céu desabar.


O marinheiro Benedito O barco balança, O horizonte balança, Benedito balança 21 dias por mês. E quando, enfim, Encosta ao porto, O marinheiro estranha A imobilidade de tudo, Fundeia em um bar e bebe, Até o mundo voltar a balançar.


Descrição do céu Espiando o quintal do céu por uma fresta eu vi muitas crianças jogando bola, cirandando e empinando pipas, igualzinho nós fazíamos antes de ficarmos adultos, antes de esquecermos o riso e sermos expulsos do paraíso.


Antigas alvoradas Hoje em dia eu não sei como o sol se levanta, mas quando eu era criança muitas vezes eu presenciei ele sendo içado do fundo mar para iniciar o seu giro ao puxarem a rede de arrasto de Vovô José Almiro.


Teoria astronômica As imensas galáxias com turbilhões de estrelas em caprichosos arranjos não passam de carrosséis girando desde os primórdios no jardim da infância dos anjos.


Espírito brincalhão Não adianta conversar sério com Sebastião Almiro, que seu espírito é brincalhão: Perguntado o que ia fazer ao embarcar em uma canoa com uma espingarda na mão - que na verdade levava pra consertar na Vila respondeu, muito gozador: "vou caçar peixe-voador".


Poema-protesto Que crime praticou o pescador Júlio Barbosa da Praia do Félix para que o doutor juiz ordenasse a demolição de seu rancho de canoa? Um ranchinho de madeira no cantinho da praia à sombra da amendoeira que o pescador herdou de seu finado avô, que de toda Ubatuba foi um dos poucos que restou. Foi por causa de sua arte de a rede costurar? Foi culpa de sua perícia no ofício de pescar? Foi pela cultura caiçara que teima em praticar? E seu rancho vindo ao chão, onde guardará sua canoa, onde abrigará seu coração?


Viagem no tempo Alguém deixou aberta a porta da máquina do tempo e deixou escapar um samba-canção de enternecer quem se julgava protegido das delicadezas do coração.


Oração final Ó, meu Deus, me mantenha confiante em vosso filho que andou sobre as águas, multiplicou o pão e o peixe, curou cegos, transformou a água em vinho, ressuscitou após ter sido crucificado e, que, mesmo maltratado, não deixou-se levar pela mágoa e não reverteu o vinho em água.


Declaração de direitos Toda criança devia ter direito a um rio com cachoeira, a um quintal com árvore fruteira, a um pedaço de capoeira, a uma ilha ancestral, mesmo que seja a casa do avô, ilhada pelo bananal.


Carta de Santos A bênção pai, a bênção mãe, espero que esta os encontre com saúde. Depois de carregar cargas e mais cargas de café me tornei taifeiro, auxilio, oriento, recebo e despacho mercadorias e passageiros. Mas o que gosto mesmo é de ajudar as senhorinhas a descerem dos navios, algumas são tão delicadas, são tão leves ao desembarcar, que ninguém acreditaria o quanto pesam nos meus pensamentos: preciso me casar.


Presépio caiçara O marulho das ondas entra pelas portas abertas da capelinha de São João na Praia da Fortaleza e embala o menino Jesus, que dorme tranqüilo em uma cesta de timbopeba, dentro de uma casinha de pau-a-pique. Os anjinhos curiosos, com asas de penugem de galinha, vigiam o sono do menino. As ovelhas, a vaquinha e o burrinho pastam em um chão de musgos. Baltazar, Belquior e Gaspar andariam mais mil quilômetros pela importância e beleza do momento. Nossa Senhora e São José apreciam o conjunto, um verdadeiro brinco, e abençoam o mundo no natal de 1975.


Lágrimas no paraíso Praia do Pulso: Piso macio nesta praia pois a areia é sagrada, banho-me com respeito neste mar pois é benta a água salgada, com maior teor de sal pelas lágrimas derramadas de Nossa Senhora de Ubatuba e demais caiçaras despejados da praia e da vida.


Declaração de amor para Dulcemar Rosa Catarinense bonita você será minha, pra casar comigo e ser feliz, porque sei mergulhar de cabeça pra catar preguarí, sei onde mora o mero só não mato porque não quero, sei costurar uma rede e tirar um santo da caixeta. Sei consertar um peixe e prear uma caça, tiro música do pinho até com o dedo mindinho, sei dançar a congada e só por você, catarinense, posso aprender a tal valsa vienense.


Lista de arrelás Bafo de onça, alvoroço de tiriba, bote de jararaca, susto de guariba, casa de jataí, sombra de carcará, música de mamangava, dança de tangará, grito de bugio, passo de saracura, pio de inhambu, vôo de tanajura, toca de tatu, canto de sabiá, luzes de vaga-lume, luzernas de boitatá, arrelá!


Presente surpresa A bananeira é um pacote que conforme cresce vai se desembrulhando, folha por folha, até revelar o segredo de um coração em camadas que, por sua vez, também se desembrulha para ofertar pencas de bananas, o fruto do paraíso, explicação para tantas dádivas, segundo meu juízo.


Das mus谩ceas: ouro e prata davam em pencas nas terras de meu av么.


História de Caronte Antigamente havia só a trilha que subia e descia seis morros e seis praias, por sete quilômetros de canseiras e de belezas até atingir a Praia da Fortaleza. Cargas grandes só pelo mar, inclusive a última viagem de quem cumpriu seu eito. Por isso, do alto da estrada, Bito Celidônio gritou para saber quem havia falecido e o canoeiro respondeu que tinha sido o Bito Celidônio.


Manoel Félix dos Santos Tio Manoel virou maneco de tanto ver assombros, boitatás, mães do ouro, estrelas cadentes, visões de mouros, pirilampos, peixes pampos, abraços de tamanduás, fila de marandovás, correção de formigas, vozes daqui e dalém, das quais ainda restam o eco, e Tio Maneco virou Neco.


Caso de urutau É preciso muito sentido para não ser enganado pelo bicho urutau que em um instante é pássaro, noutro é pedaço de pau.


Cuidados necessários Não leio Lorde Byron, nunca viajei ao Cairo e bem cedo tratei de rasgar o Álvares de Azevedo. Cuido bem de mim e não dou ouvidos ao passarinho sem-fim


Cruz Na curva da vingança, no caminho dos tropeiros, a meia altura da Serra do Mar, aconteceu há muito tempo um drama de ódio e morte no lugar assinalado por uma cruz de ferro que goteja sangue no chão oxidação.


Crônica esportiva O melhor jogador do nosso time de bairro sempre foi o artilheiro nos jogos do campeonato, exceto quando sua namorada malvada, a moça mais bonita do lugar, com ele se irritava e não ia assistir à peleja que se travava no gramado e no coração do craque que a amava.


Na flauta Que conste na pauta que só quem é músico é que sabe o quanto é duro levar a vida na flauta.


Poesias caiçaras