Page 1

Educação para a Cidadania Global Corpo Nacional de Escutas – Secretaria Internacional


Ficha Técnica: Título: Educação para a Cidadania Global Autores: Equipa Internacional CNE (Ana Isabel Fernandes, Ana Isabel Silva, Ana Rute Costa, Bento Martins, Carla Grafino, Catarina Inverno, Diana Neves, Joana Osório, Pedro Branco, Vítor Borges) Paginação: Gonçalo Vieira Ilustração: Ana Rute Costa Revisão de texto : Célia Sousa Convidado: Carla Simões, David Mckee, Eduard Vallory, Francisco Rosa, João Armando Gonçalves, Marco Faustino, Olga Cunha, Luís Francisco, Pedro Duarte Silva, Pe. Rui Silva Fotografias: João Matos, Ricardo Perna, Equipa Internacional Edição do Corpo Nacional de Escutas Escutismo Católico Português Site: www.cne-escutismo.pt Email: geral@cne-escutismo.pt Telefone: 00351 218 427 020 Dezembro 2013


Educação para a Cidadania Global 5

Corpo Nacional de Escutas – Secretaria Internacional


Educação para a

A Política

Cidadania Global –

Internacional

Apresentação

do CNE

9

13

15

Trilho Ibérico

Trilho Europeu

Trilho Lusófono

25

31

37

Trilho Português

7 7

Trilho Global

Comunicação – SI

Recursos Internacionais

45

53

57

Testemunhos

Conclusão

66

89

Atividades Escutistas Internacionais

59


8


«Estejam preparados para a forma como podem contribuir como líderes do mundo e cidadãos globais de amanhã. Procurem ter uma visão maior e mais abrangente... Vocês são cidadãos desta comunidade global, onde todos e cada um de vós devem trabalhar em conjunto e procurar resolver todos estes assuntos que estão interligados. Tentem ter perspetivas mais amplas e compreensivas; procurem desenvolver as vossas capacidades... orgulhem-se de serem cidadãos globais.» Ban Ki-moon, Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas, 21 de abril de 2011.

Vivemos numa realidade global. Este é um dado adquirido, mas será que estamos realmente a saber lidar com as implicações dessa globalidade? O que significa realmente esta ideia de cidadania global? Ao vivermos neste mundo, devemos olhar para ele com um sentido de pertença e identidade, onde cada um possa expressar a sua individualidade sem interferir com a do seu semelhante, pensando nas consequências de um mundo verdadeiramente global e sustentável, onde estamos todos envolvidos e assumimos a nossa responsabilidade individual e coletiva. «O problema dos nossos tempos é que o futuro já não é o que era.» (Paul Valéry) Este mundo globalizado adquire uma velocidade alucinante, a imprevisibilidade e a inconstância fazem parte dos nossos dias, o tempo foi comprimido e a noção de espaço restrito e delimitado já não existe para a maioria das pessoas. Torna-se premente pensar estrategicamente, ler as mudanças e saber dar resposta ativa a estes desafios. Os anos que o sistema educativo formal necessita para formar um jovem e para transmitir conhecimento é considerável. Ao final deste tempo, teremos cidadãos mais válidos e capazes de dar resposta à sociedade? Será que o que estamos a ensinar nas escolas é relevante para as necessidades do mundo de hoje? Será que todo o tempo gasto e o conhecimento transmitido são realmente efetivos e essenciais para dar resposta ao mundo global, em permanente mutação? Precisamos que cada um, individual e coletivamente, se envolva no processo criativo de concretização de um mundo melhor, potenciando a nossa capacidade de imaginação e percebendo em que medida nos podemos envolver e cooperar. É através da conciliação de ideias que adquirimos a capacidade de inovar, de crescer e de criar novas competências. É através do empoderamento e do envolvimento de todos (sem exceção) que conseguimos fazer a diferença, cultivando o nosso potencial humano e social, tendo o potencial financeiro como um apoio instrumental e não como uma motivação primordial. O Escutismo, enquanto movimento global de educação não formal global, pode fazer a diferença e construir pontes para concretizar essa globalidade de uma forma mais equilibrada e sustentável. Esta publicação pretende deixar algumas pistas de trabalho e de reflexão para a importância de sabermos ser cidadãos ativos no mundo de hoje, onde, mais do que nunca, é importante atuar localmente mas pensar globalmente. Consideramos fundamental trabalhar a dimensão internacional no processo educativo e através dela encontrarmos pistas para a construção de um mundo melhor, de uma forma participativa e responsável. Esperemos que estas ideias, reflexões e oportunidades educativas sejam apenas o início de outras que possam surgir através do envolvimento dos nossos jovens e da criação de redes, parcerias, diálogo intercultural e potenciamento de sinergias. Depende de cada um de nós fazermos uma pequena grande diferença no nosso mundo, no nosso tempo, não de ontem, não de amanhã, mas de hoje. Sem desculpas, nem desresponsabilização, mas através de empenho e dedicação em tudo o que fazemos e somos, só assim daremos sentido a essa fraternidade mundial idealizada pelo nosso fundador. Contamos contigo! Ana Rute Costa Secretária Internacional

9


10


Educação para a Cidadania Global A Educação para a Cidadania Global pretende ajudar os nossos jovens a desenvolverem-se enquanto cidadãos ativos, potenciando o conhecimento dos problemas globais, o pensamento crítico e a procura de soluções de resposta. Através do conhecimento e dos valores adquiridos, podem usar as suas competências e atitudes para dar uma resposta proativa e fazer uma diferença positiva no mundo. O Escutismo, enquanto maior movimento mundial de juventude, promove esta cidadania global e permite aos jovens desenvolverem competências que os capacitarão para se envolverem com as questões mundiais, potenciando a sua sustentabilidade, na forma de pensar e atuar. Considera-se essencial trabalhar a cidadania global no Escutismo, sendo um palco de excelência para a sua realização, porque: • Num mundo em permanente mudança, a cidadania global permite-nos ter uma maior noção de flexibilidade, adaptação e perspetivas positivas de futuro. • A cidadania global reconhece que individualmente se pode promover a mudança, onde as nossas opções e comportamentos têm um impacto global, reconhece as nossas responsabilidades individuais e coletivas e a possibilidade de aprender com o outro. • A cidadania global promove a informação e evita perspetivas estereotipadas da realidade local, promovendo uma leitura pluridisciplinar, conhecimento e tolerância. O perfil do escuteiro/cidadão global: • Possui conhecimento do mundo e reconhece o seu papel pessoal enquanto cidadão global. • Reconhece e respeita os valores da diversidade. • Vê o mundo como uma conciliação de várias vertentes e perspetivas (económica, política, social, cultural, tecnológica e ambiental). • Combate a injustiça social. • Participa e contribui ativamente para envolver a comunidade a diferentes níveis, do local ao global. • Deseja ativamente fazer do mundo um lugar mais sustentável. • Assume as responsabilidades e consequências das suas ações. Segundo a sua proposta educativa, o CNE ajuda os jovens a crescer, para que com o Ser, Saber e Agir se tornem homens e mulheres responsáveis e membros ativos de comunidades na construção de um mundo melhor. Consideramos que a educação para a cidadania global é essencial para dar uma resposta adequada às necessidades do mundo de hoje e através dela potenciar o pensamento crítico e a capacidade de resolução de problemas, enquanto cidadãos globais responsáveis.

11


12


Política Internacional A 25 de maio de 2013, em Conselho Nacional, o CNE aprovou uma nova Política Internacional para a associação, consciente da existência de uma sociedade global, da dimensão mundial do movimento escutista e convicto da importância da dimensão internacional para o crescimento integral dos jovens. Esta Política Internacional define os seguintes propósitos para a dimensão internacional: • Promover a fraternidade escutista mundial junto dos membros da associação. • Garantir a qualidade do Escutismo praticado pelos associados do CNE, no contexto internacional, dentro e fora do país, por forma a promover a harmonia e o bom nome da “fraternidade escutista e guidista mundial”. • Assegurar a representação do CNE e da Federação Escutista Portuguesa (FEP) junto das instâncias escutistas internacionais, bem como os contactos e parcerias com outras associações escutistas. • Dinamizar a realização de atividades escutistas internacionais (AEI). • Fomentar o lançamento de projetos e oportunidades educativas que visem a animação da dimensão internacional do Escutismo aos diferentes níveis do CNE. • Assegurar a ampla circulação de informação de cariz internacional. Para os executar, a Política Internacional do CNE adquirirá, portanto, uma perspetiva institucional e outra educativa. Na perspetiva institucional, considera-se relevante a representação externa do CNE, através da relação com as demais entidades e organismos internacionais e através da presença ativa em diferentes grupos e plataformas de trabalho escutistas. Na perspetiva educativa, a Política Internacional coloca o enfoque nos jovens, devendo explorar dimensões educativas adicionais capazes de contribuirem para o seu desenvolvimento integral. Nesta vertente, surge a Atividade Escutista Internacional (AEI) como atividade de referência da dimensão internacional do Escutismo e enquanto fonte de vivências, de desafios e de aprendizagens pessoais. Procura-se, assim, fomentar projetos internacionais com qualidade educativa, bem como partilhar boas práticas, tendo em conta que existem experiências na dimensão internacional que não se vivem em mais lado nenhum.

13


14


15

Trilho Português O Trilho Português é uma das áreas de atuação da Política Internacional do CNE, que inclui as iniciativas escutistas de cariz internacional realizadas em Portugal e o apoio financeiro a atividades internacionais. Para se ter experiências internacionais não é necessário sair de Portugal e este Trilho proporciona ou estimula oportunidades para que tal aconteça. As iniciativas escutistas de cariz internacional realizadas em Portugal, consistem no Mercado Internacional, atividade de referência realizada anualmente; nos Encontros de Preparação Internacional, obrigatórios para quem quer ter experiências internacionais autónomas; na promoção da Insígnia “Scouts”, com o desafio de organizar algo de cariz internacional em Portugal; no Dia do Pensamento, procurando comemorar o dia do fundador; e no Acolhimento, proporcionando apoio a grupos de escuteiros estrangeiros. Como apoio financeiro a atividades internacionais, o Fundo Sousa Dias apoia anualmente seis projetos. O Trilho Português agrega, também, outras entidades ou estruturas de apoio à Secretaria Internacional e Política Internacional, como os Interlocutores Internacionais e o Conselho Consultivo Internacional, respetivamente.


16

Especialidades O Trilho Portuguêsda é uma áreas de atuação da Política Internacional do CNE, que incluio as iniciativas esCom a Renovação Açãodas Pedagógica e a entrada em vigor do novo Programa Educativo, Corpo Nacional cutistas de cariz internacional emprogresso, Portugal econsistente o apoio financeiro a atividades internacionais. de Escutas conheceu um novorealizadas sistema de com a proposta e perspetiva pedagógica da associação, visando proporcionar o desenvolvimento integral da criança e do jovem. Para se ter experiências internacionais não é necessário sair de Portugal e este Trilho proporciona ou estimula oportunidades para tal aconteça. Não obstante todas as que inovações então introduzidas, surgiu a necessidade de atualizar o sistema de competências e especialidades vigente e desenvolveu-se trabalho nesse sentido. O novo sistema de especialidaAs de cariz internacional realizadas em construído Portugal consistem no necessidades Mercado Internacional, desiniciativas pretende escutistas ser um sistema pedagogicamente consistente, em prol das e ensejos atividade de referência realizada anualmente; nos Encontros de Preparação Internacional, para das crianças e jovens, e que esteja sempre em aberto e com uma periodicidade de revisãoobrigatórios cíclica. quem quer ter experiências internacionais autónomas; na promoção da Insígnia “Scouts”, com o desafio de organizar algo de cariz internacional em no Dia dopessoal, Pensamento, procurando comemorar o dia As Especialidades são oportunidades dePortugal; desenvolvimento sempre que possível transversais a do tofundador e no Acolhimento, proporcionando apoioassim a grupos escuteiros estrangeiros. apoio finandas as secções. Podem começar a ser trabalhadas quede a criança ou o jovem faça Como a sua Promessa na ceiro a atividades internacionais, Fundo Sousa ou Dias apoia anualmente seis projetos. mas sim que se torne sua secção atual. Não se pretendeoque a criança o jovem colecione especialidades, realmente habilitado em determinadas temáticas. O Trilho Português agrega, também, outras entidades ou estruturas de apoio à Secretaria Internacional e Política Internacional, como desenvolvemos os Interlocutoresrequisitos Internacionais e o Conselho Consultivo Internacional, respetiNa Secretaria Internacional e apontámos pontos a desenvolver pelas crianças e vamente. jovens nas seguintes especialidades: Cidadania Europeia, Cidadão do Mundo, Intérprete, Tradutor, Viajante, Escuteiro do Mundo, Culturas e Artes do Mundo, Lusófono, Voluntário Internacional, Cozinheiro do Mundo e Enviado Especial.


17

EPI O Português é uma das áreas de atuação Políticacomo Internacional do CNE,criada que inclui iniciativas esOsTrilho Encontros de Participação Internacional (EPI)da surgem uma ferramenta pela as Secretaria Intercutistas cariz internacional realizadas em Portugal e o apoio financeiro atividadeseinternacionais. nacionalde para trabalhar a dimensão internacional do Escutismo, esperandoa aumentar qualificar os projetos de cariz internacional a desenvolver com crianças e jovens escuteiros nas unidades locais. Para se ter experiências internacionais não é necessário sair de Portugal e este Trilho proporciona ou estimula para que tal aconteça. O oportunidades EPI pretende simultaneamente sensibilizar os participantes para a vivência da dimensão internacional enquanto mais-valia pedagógica e também facilitar meios (recursos, contactos, etc.) para a elaboração de As iniciativas de cariz internacional realizadas em Portugal consistem no Mercado Internacional, uma atividadeescutistas internacional. atividade de referência realizada anualmente; nos Encontros de Preparação Internacional, obrigatórios para quem quer ter experiências autónomas; na promoção da Insígnia “Scouts”, com o desafio de São chamados a frequentarinternacionais os EPI todos os responsáveis por atividades escutistas internacionais; Interloorganizar algo de carizde internacional em e Portugal; Dia do Pensamento, procurando comemorar o dia do cutores Internacionais núcleo/região todos osno Dirigentes/Caminheiros/Companheiros interessados na fundador e no Acolhimento, a grupos de escuteiros estrangeiros. Como de apoio finantemática internacional. Estes proporcionando encontros devemapoio idealmente acontecer antes do envio do projeto atividade ceiro a atividades internacionais, o Fundo Sousa Dias apoia anualmente seis projetos. à Secretaria Internacional, a fim de este poder refletir os conhecimentos adquiridos. O Trilho Português agrega, também, outras entidades ou estruturas de apoio à Secretaria Internacional e Política Internacional, como os Interlocutores Internacionais e o Conselho Consultivo Internacional, respetivamente.


18

Insígnia Scouts

O Trilho Português é num uma EPI daséáreas de atuação da Política Internacional do CNE, inclui ascom iniciativas esApós a participação proposto aos participantes que desenvolvam umaque atividade, dimensão cutistas de cariz realizadas em Portugal o apoio financeiro a atividades obtidos internacionais. internacional, nainternacional sua secção, ou agrupamento, tendoe como base os conhecimentos na formação. Ao organizador é dada toda a liberdade na execução da mesma, devendo, no entanto, abordar temáticas Para se ter experiências internacionais não é necessário sair de Portugal e este Trilho proporciona ou estimurelacionadas com a multiculturalidade. Poderão explorar diferentes dimensões de uma ou mais culturas de la oportunidades para que tal aconteça. outros países, descobrir semelhanças e diferenças entre escuteiros do mundo ou até compreender os conceitos de Rede Global ede Cidadania Mundial. realizadas em Portugal consistem no Mercado Internacional, As iniciativas escutistas cariz internacional atividade de referência nos Encontros de Preparação obrigatórios para Esta atividade deve ser realizada realizada anualmente; até três meses depois da frequência do EPIInternacional, e deve finalizar com o envio de quem quer ter experiências internacionais autónomas; na promoção da Insígnia “Scouts”, com o desafio de um relatório para a Secretaria Internacional. Se este for validado, é atribuída a insígnia “Scouts – Criando um organizar algo de cariz internacional no Dia docom Pensamento, procurando comemorar o dia do Mundo Melhor” a todos os escuteirosem quePortugal; nela participarem o propósito de relembrar, simbolicamente, fundador e no Acolhimento, proporcionando apoio a grupos de escuteiros estrangeiros. Como apoio finanque pertencemos a um movimento global. ceiro a atividades internacionais, o Fundo Sousa Dias apoia anualmente seis projetos. O Trilho Português agrega, também, outras entidades ou estruturas de apoio à Secretaria Internacional e Política Internacional, como os Interlocutores Internacionais e o Conselho Consultivo Internacional, respetivamente.


19

Fichas Interculturais

O Trilho Português é uma das áreas de atuação da Política Internacional do CNE, que inclui as iniciativas esconceito de interculturalidade é recente e representa ainda um tema sobre qual sociólogos, psicólogos e cutistas de cariz internacional realizadasAem Portugal e o apoio financeiro atividades internacionais. antropólogos focam a sua investigação. interculturalidade existe quandoaduas ou mais culturas entram em interação de uma forma horizontal e sinérgica. Assim, nenhum dos grupos se deve encontrar acima de qualPara ter experiências internacionais nãoa éintegração necessárioesair de Portugaldas e este Trilho proporciona ourelações estimuquerse outro que seja, favorecendo assim a convivência pessoas. Neste tipo de la oportunidades para que tal aconteça. interculturais, é essencial o respeito pela diversidade; embora o aparecimento de conflitos seja inevitável e imprevisível, estes podem ser resolvidos através do respeito, do diálogo e da concertação/assertividade. As iniciativas escutistas de cariz internacional realizadas em Portugal consistem no Mercado Internacional, atividade de referência realizada anualmente; nos Encontros Preparação Internacional, obrigatórios para Assim sendo, e tendo em vista auxiliar os animadores do CNE,de a Secretaria Internacional criou algumas fichas quem quer ter experiências internacionais autónomas; na promoção da Insígnia “Scouts”, com o desafio interculturais que pretendem oferecer oportunidades para educar na e para a diferença, não esquecendodea organizar algo internacional em Portugal; no Dia Pensamento, procurando comemorar o dia do necessidade dede ir cariz ao encontro dos objetivos propostos nodo nosso projeto educativo. fundador e no Acolhimento, proporcionando apoio a grupos de escuteiros estrangeiros. Como apoio financeiro a atividades internacionais, o Fundo Sousa Dias apoia anualmente seis projetos. O Trilho Português agrega, também, outras entidades ou estruturas de apoio à Secretaria Internacional e Política Internacional, como os Interlocutores Internacionais e o Conselho Consultivo Internacional, respetivamente.


20

Fundo Francisco Sousa Dias O Trilho uma das atuação dafinanceiro Política Internacional CNE, que inclui da as iniciativas esFundoPortuguês Francisco éSousa Diasáreas é umde instrumento de apoio aodo desenvolvimento Política Intercutistas internacional realizadas emInternacional, Portugal e o apoio a atividades nacionalde docariz CNE, no âmbito da Educação criadofinanceiro pela Junta Central dointernacionais. CNE. O Fundo, que homenageia Francisco Sousa Dias, antigo secretário internacional e figura incontornável da história do CNE, Para se ter experiências internacionais necessário sair de Portugal e este Trilho proporciona ou estimufalecido em 1999, visa apoiar projetosnão deéatividade internacional, de carácter inovador, promovidos pelo la oportunidades para que tal aconteça. nível local do CNE. As escutistas de cariz internacional realizadas empara Portugal consistem no Mercado Sãoiniciativas aceites candidaturas apresentadas por agrupamentos, projetos a concretizar no paísInternacional, ou no estranatividade de referência realizada anualmente; nos Encontros de Preparação Internacional, obrigatórios para geiro. Ficam excluídas as participações em contingentes em atividades internacionais de referência, promoquem quer ter experiências internacionais autónomas; na promoção da Insígnia “Scouts”, com o desafio de vidas pela OMME. organizar algo de cariz internacional em Portugal; no Dia do Pensamento, procurando comemorar o dia do fundador e no Acolhimento, proporcionando apoio a grupos de escuteiros estrangeiros. Como apoio finanPrioritariamente, o apoio deste Fundo é consignado ao financiamento parcial de projetos internacionais ceiro a atividades internacionais, o Fundo Sousa Dias seis projetos. envolvendo parceria com associações escutistas de apoia outrosanualmente países ou com associações ou entidades não escutistas de outros países. Secundariamente, o apoio deste Fundo é consignado ao financiamento parcial O Português agrega,unilaterais. também, outras entidades ou estruturas de apoio à Secretaria Internacional e deTrilho projetos internacionais Política Internacional, como os Interlocutores Internacionais e o Conselho Consultivo Internacional, respetivamente. São temas prioritários para os projetos os seguintes, sem ordem de preferência, abordados separadamente ou em conjunto: Democracia e Participação Juvenil; Ambiente, Qualidade de Vida e Saúde; Promoção da Inclusão Social; Cultura e Tradições Populares; Intercâmbios sobre o Programa Educativo e os Recursos Adultos; Vivência Espiritual.


21

Interlocutores Internacionais

O Interlocutor Internacional (II) é o elemento de ligação de núcleo/região com a Secretaria Internacional e atua ao seu nível para a concretização da Política Internacional do CNE e para a boa aplicação das respetivas normas de implementação da Política Internacional. Este elo entre a Secretaria Internacional e o núcleo/ /região é fundamental para a correta propagação da dimensão internacional do CNE. As funções do II implicam, assim, duas vertentes. Por um lado, o II deverá fazer um acompanhamento dos projetos da sua região/núcleo encorajando e apoiando as iniciativas dos escuteiros, respetivas unidades e seus responsáveis, assim como do executivo do seu nível, desde que aquelas tenham a ver com a dimensão internacional. Em função das necessidades expressas no seu nível, poderá ainda constituir e animar uma equipa que partilhará a sua missão. Por outro lado, o II trabalha em rede com a Secretaria Internacional e com os restantes II. A Secretaria Internacional disponibiliza documentos e instrumentos necessários e organiza atividades que contribuem para o bom desempenho do II. O Interlocutor deve manter-se atualizado quanto à constituição de novas unidades no seu nível, identificando e entrando em contacto com os respetivos responsáveis numa abordagem aos assuntos internacionais.


22

Mercado Internacional

O Mercado Internacional é a iniciativa de referência da Secretaria Internacional, que se realiza com uma periodicidade anual e que já contou com seis edições. Esta atividade funciona como um verdadeiro mercado, onde associações escutistas e não escutistas mostram não só o trabalho que têm vindo a desenvolver mas, também, as oportunidades que têm para oferecer aos participantes do Mercado Internacional. Os principais objetivos desta atividade passam por promover uma consciência global, alertar para a existência de outras associações escutistas, estimular a multiculturalidade e apresentar as oportunidades existentes de âmbito internacional (escutistas ou não escutistas). O Mercado Internacional consiste em viver experiências, ver, ouvir, provar, cheirar e tocar elementos de outras culturas, aprender a fazer, a dançar, a cozinhar elementos pertencentes a outros países, a outras culturas. Pode-se também descobrir e partilhar experiências de vivências internacionais, desde viagens e expedições até projetos de voluntariado, através de debates e exposições. Em suma, é uma possibilidade para descobrir oportunidades à espera, desde viagens e atividades escutistas a voluntariado, trabalho, intercâmbios e muitas outras coisas.


23

Ponto e Vírgula A iniciativa Ponto e Vírgula pretende ser um espaço de diálogo e troca de experiências de viagens pelos cinco continentes, em estilo de crónicas do mundo, porque a vida é uma viagem constante e só através das nossas viagens conseguimos novas perspetivas, tornando-nos verdadeiros cidadãos do mundo. O objetivo desta iniciativa consiste na apresentação e partilha de projetos escutistas e não escutistas que possam despertar o interesse dos jovens escuteiros pela dimensão internacional, levando-os a construir também os seus próprios projetos e a consciencializarem-se para o seu papel de cidadãos do mundo.


24


25

Trilho Ibérico A Península Ibérica é um espaço privilegiado de iniciação à troca de hábitos culturais e ao contacto com o exterior. Centenas de anos de história e mais de 900 km de fronteira nos separam de um país que, mesmo tão próximo, tem tradições e costumes tão distintos. Espanha constitui, assim, um espaço exímio para um primeiro contacto com a dimensão internacional. Um povo alegre, quente, que nos recebe de braços abertos, onde podemos viver aventuras marcantes a um passo de nós: cidades magníficas por descobrir, altas montanhas para conquistar, o “El Camino” para nos transformar, entre outras. A língua poderá parecer um entrave mas, em pouco tempo, verificamos que tanto nos une a nuestros hermanos. Um desses exemplos é o Movimiento Scout Católico (Scouts MSC); fortes laços nos aproximam a esta associação e a cooperação ibérica reflete-se na criação de projetos que visam aproximar os dois países. Várias oportunidades escutistas estão agora disponíveis e a dimensão internacional é garantidamente vivida ao máximo. Experimenta!


26

Luz da Paz de Belém

Dinamizado pelos Escuteiros e Guias da Áustria, a Luz da Paz de Belém é um evento anual promovido a nível global que consiste em repartir a Luz da Paz, acendida em Belém, local de nascimento de Jesus, poucas semanas antes do Natal. A partir de Viena, Áustria, essa Luz é distribuída por vários países, transmitindo uma mensagem de Paz, Amor e Esperança, criando um espírito de comunhão entre todas as entidades que a recebem. Todos os anos, os Scouts MSC realizam uma cerimónia onde os participantes são convidados a acender a sua própria vela e a difundir simbolicamente essa Luz pelos diversos locais de Espanha. Uma comitiva portuguesa participa nesse evento e cria, no nosso país, um espaço onde todos a podem receber. Os agrupamentos são convidados a distribuir a Luz por todos os seus jovens, incentivando a Paz e vivendo em oração o período que antecede o Natal. Posteriormente, os Escuteiros poderão distribuir nas suas paróquias, hospitais, lares, prisões, associações e lugares particulares.

Trilho Ibérico - 26


27

Scout Yacob

Exigente fisicamente e espiritualmente desafiante, o Caminho de Santiago tem sido uma escolha comum ao longo dos últimos anos entre Pioneiros e Caminheiros do CNE. Respondendo a esta prática, o CNE e o MSC lançaram o programa Scout Yacob, que pretende desenvolver pedagogicamente este projeto para que constitua uma verdadeira experiência intercultural e exponencie a dimensão internacional. Enriquecer as peregrinações a nível escutista é o principal objetivo do programa Scout Yacob. Seguindo o mesmo trilho, propõe-se que duas Comunidades (ou Clãs) de Portugal e Espanha partilhem experiências, promovam momentos de oração e reflexão comuns e possibilitem o contacto entre escuteiros e peregrinos, ampliando assim a componente internacional das suas aventuras. O programa Scout Yacob permite a aquisição de uma insígnia alusiva a este projeto.

Trilho Ibérico - 27


28

Travessia

Lançada em 2001, a Travessia é uma atividade de intercâmbio de experiências entre o CNE e o MSC. Organizado em parceria com ambas as associações, o país que acolhe a atividade varia anualmente e é a ocasião ideal para Dirigentes terem um primeiro contacto com a dimensão internacional. Em regime de acampamento, os participantes são convidados a aprofundar o conhecimento das duas associações e as suas culturas, partilhando experiências e momentos. A finalidade desta atividade é fomentar a criação de projetos ibéricos pós-Travessia, possibilitando aos jovens novas atividades e momentos de partilha entre Portugueses e Espanhóis, seja a nível local, regional ou nacional. O feedback das últimas edições tem sido extremamente positivo, quebrando não só barreiras culturais mas fazendo com que os participantes sintam que a criação de projetos internacionais não é impossível. As amizades e a rede de contactos criadas são ainda um fator relevante, sendo a alegria uma constante ao longo de todo o encontro.


«E foi mais do que isso, foi um fim de semana pleno de troca de experiências, realidades, testemunhos. Um fim de semana em que D. Pedro e D. Inês nos permitiram voar mais alto, construir novos projetos, unificando dois povos tão distintos e únicos. Uma atividade do trilho ibérico que mais uma vez demonstrou o seu potencial. Penso que falo em nome de grande parte (se não todos) dos participantes; este foi sem dúvida um espaço onde nos foi permitido desenvolver algumas das capacidades de organização que muitas vezes escondemos, onde pudemos conhecer uma outra realidade e tentar de uma forma realista criar uma ponte entre duas associações Scouts-MSC e CNE. Foi para mim uma experiência de crescimento e conhecimento, com uma excelente organização!» Fabiana Vieira, 191 - Aveiro

«Antes de partir hacia el Travessia 2013 todo eran nervios. Se trataba de mi primera actividad Scout internacional y nadie de mi asociación me acompañaba. Sin embargo, una cálida acogida de todos los compañeros Scout Ibéricos hizo que nunca me sintiera solo, de hecho no tardé en sentirme como en familia. Es impresionante como en tan solo un fin de semana, se puede alcanzar un nivel tan alto de confianza y compatibilidad. Cuarenta y ocho horas cargadas de muchas vivencias para traerse en la mochila. Muchos son los proyectos que han surgido de la unión de las asociaciones de los dos países, y si quedó algo claro, es que existe un gran deseo en que la relación hispano-lusa siga adelante. La vuelta a casa y la reflexión posterior me traen gratos recuerdos, mucha gente nueva con la que se comparten ideales, pero lo que es más importante, la responsabilidad para que Travessia 2013 suponga un punto de inflexión en las relaciones entre Scouts-MSC y CNE, y que en los próximos años haya más Travessias, pero también otras actividades que nos reúnam.» Richi Gomez, Salamanca

«Une ideias, Constrói realidades. Une Amizades, Cria laços. Para mim a Travessia é mesmo isso: laços, amizades, é partilha, é ser, é estar, é projetos. São trilhos partilhados, pensamentos unidos, ide(a)is construídos. Não foi a minha primeira Travessia, e espero que não seja a última pois, sim, eu gosto de partilhar, aprender, realizar, unir, crescer, ser, estar. Vamos unir pontes para a'TRAVESSIA'rmos.» Ana Catarina Carneiro, 925 – Ataíde

«Foi puro escutismo!» Valter Arezes, 474 – Tamel - S. Veríssimo

29


30


31

Trilho Europeu O CNE está inserido na Região Europeia do Escutismo. Aliados a este facto, a facilidade e o baixo custo de transportes entre países europeus, bem como a relativa proximidade de valores culturais e religiosos, fazem da Europa um espaço natural para o exercício da atividade internacional do CNE. Assim, uma grande parte das atividades escutistas internacionais dos nossos escuteiros acontece na Europa, havendo uma preferência por destinos como o Kandersteg International Scout Centre, ilha de Brownsea e Taizé. A Europa é, também, palco de uma grande parte das primeiras experiências internacionais dos nossos jovens, durante o seu percurso escolar e no início do seu percurso profissional. Com o processo de Bolonha, a mobilidade estudantil é cada vez mais um dado adquirido, a par das experiências de voluntariado e da crescente tendência para a emigração qualificada. Por isso, a Secretaria Internacional tem procurado proporcionar o enriquecimento destas experiências através de oportunidades como o Esc|Out, o Serviço de Voluntariado Europeu, bem como a crescente participação dos jovens em grupos de trabalho europeus e eventos escutistas, como a Academy. Neste sentido, a Secretaria Internacional aposta no enriquecimento pedagógico das atividades que se realizam no espaço europeu através do acompanhamento dos projetos de AEI, da promoção de oportunidades de voluntariado e na divulgação de atividades das associações, centros escutistas e das mais diversas oportunidades educativas.


32

Esc|Out

O projeto Esc|Out surge num contexto de aumento de mobilidade estudantil e profissional, procurando facilitar a integração dos escuteiros em grupos locais das cidades que os acolhem. Por outro lado, também encoraja e promove a integração de escuteiros de outros países em agrupamentos portugueses. Assim, procura-se fomentar a troca de experiências com associações de outros países, ao mesmo tempo facilitando a integração de quem viaja para outro país, através da vivência de valores e princípios semelhantes e familiares que caracterizam o Movimento Escutista em todo o mundo. O Esc|Out não é tanto um programa, mas mais uma iniciativa que procura agilizar e facilitar o processo de integração. Com base na experiência do CNE, juntamente com a de outros programas semelhantes na Bélgica, França, Itália e Espanha, a Região Europeia adotou a resolução de reforçar esta iniciativa em toda a Europa durante o triénio de 2013-2016.


33

KISC

O Kandersteg International Scout Centre é um dos destinos preferidos do CNE para a realização de atividades escutistas internacionais, estando Portugal entre os países que mais visitam o centro. Este centro escutista, localizado no coração dos Alpes Suíços, procura, desde 1923, replicar o ambiente de fraternidade mundial que se viveu no 1.º Jamboree Mundial. Sendo agora um centro com instalações modernas e cómodas, dá continuidade ao sentimento de “minijamboree permanente” que B-P idealizou ao acolher, todos os anos, mais de 10 000 escuteiros em atividade. A Secretaria Internacional tem procurado apostar no enriquecimento pedagógico das AEI que são realizadas no KISC através do comentário aos projetos, bem como da divulgação de diferentes oportunidades educativas. Salienta-se o i_doc do KISC, que contém uma grande parte das informações necessárias para projeção de uma atividade, beneficiando de todo o potencial que o centro tem para oferecer. O KISC é gerido por uma equipa de voluntários, a curto e a longo prazo, oferecendo uma oportunidade rica em experiências e em responsabilidade que constitui uma mais-valia para o desenvolvimento de competências de trabalho e pessoais nos escuteiros, a partir dos 18 anos. Assim, nos últimos anos, a SI apoiou a candidatura e acompanhou a experiência de uma dezena de escuteiros que fizeram parte do staff a curto e a longo prazo.


34

SVE

No âmbito do processo de acreditação do SVE – Serviço Voluntário Europeu, o CNE passou a integrar o conjunto de organizações que podem enviar e receber voluntários, assim como organizar projetos de voluntariado a nível europeu. Neste enquadramento, o CNE não só proporciona uma oportunidade de voluntariado para jovens europeus, como beneficia de apoio em atividades relacionadas com a gestão dos seus centros e campos escutistas (CCE), acolhendo voluntários em projetos específicos e decorrentes nos meses de maior afluência. Pretende-se que os voluntários desempenhem a sua atividade em vários CCE de norte a sul do país, ao longo de vários meses, realizando diversas tarefas tais como: • manutenção do equipamento do centro; • limpeza do campo e acessos; • reflorestação; • tarefas administrativas; • vigias/segurança; • outras atividades solicitadas. O horário e o trabalho são organizados pelo staff dos CCE, em colaboração com a Secretaria Internacional.


35

RoverWay

O RoverWay é um evento europeu para Escuteiros e Guias (WOSM e WAGGGS) da última secção (16-22 anos). Esta atividade teve início em Portugal no ano de 2003. RoverWay - People in Motion foi o primeiro tema da atividade. Seguiu-se o RoverWay 2006 – Dare to Share, em Itália, o RoverWay 2009 – Open Up, na Islândia, e, por último, o RoverWay 2012 – See. Feel. Follow., na Finlândia. O próximo RoverWay será em França em 2015. A atividade divide-se em três fases: a primeira fase “Many Ways”; a segunda fase “Cross Ways”; a terceira fase “Chain Reaction”. Entre a participação em projetos locais, desenvolvidos pelos agrupamentos, a realização de workshops e encontros proporcionados no local comum, cada participante é desafiado a tornar-se um agente de mudança, um cidadão ativo, comprometido com a sua comunidade, com o seu país e com a comunidade internacional, consciente de que com as suas atitudes pode fazer a diferença e deixar o mundo melhor. Cada participante é também chamado a (re)descobrir a vida, nos seus diferentes aspetos (a natureza, os outros, o espírito, o eu, a comunidade...).


36


37

Trilho Lusófono O Trilho Lusófono é uma das áreas de atuação da Política Internacional do CNE, que inclui as iniciativas escutistas relacionadas com os países de língua portuguesa. A lusofonia está atualmente representada em todos os continentes, constituindo uma riqueza cultural que não deve ser descurada. Portugal mantém relações privilegiadas com estes países, havendo um conjunto de particularidades culturais, políticas e económicas que contribuem para que esta continue a ser uma prioridade nacional. Deste modo, é igualmente importante que o CNE desenvolva nos escuteiros a vontade de querer conhecer mais sobre a realidade histórica e escutista dos “países lusófonos” e de, assim, criarem ligações com estes países. Nas várias iniciativas deste trilho, os escuteiros são convidados a escreverem a outros irmãos escuteiros – Escreve em Português para o Estrangeiro –, a estabelecerem contactos de parceria com outros agrupamentos lusófonos – Agrupamento Irmão –, a enviarem livros técnicos escutistas para alguns destes países – Biblioteca Amiga –, ou a trabalharem as várias dimensões da lusofonia tornando-se especialistas destes países – Insígnia da Lusofonia –. Existe, igualmente, uma plataforma de trabalho ao nível lusófono – a Comunidade do Escutismo Lusófono –, da qual o CNE é membro fundador. Ao desenvolver algum trabalho no espaço lusófono, pretende-se que os escuteiros vivenciem a dimensão internacional e conheçam outras culturas sem enfrentarem a barreira linguística, que por vezes é um entrave em idades mais novas.


38

Agrupamento-Irmão

O Agrupamento-Irmão visa promover o intercâmbio entre agrupamentos que possam estar interessados e que tenham vontade de estabelecer uma relação bilateral com um agrupamento de outro país lusófono. Esta iniciativa visa criar laços de cooperação bilateral entre agrupamentos, contribuindo para a sua consolidação e crescimento, assim como das respetivas associações. Permite a troca de experiências e partilha intercultural para que os agrupamentos possam crescer juntos, tendo o Escutismo como mais um elo de ligação entre duas culturas de língua portuguesa. Permite igualmente realizar atividades paralelas, com objetivos comuns, em duas realidades culturais diferentes (grupos de Exploradores que vivem a mesma aventura/imaginário, Pioneiros que realizam os mesmos empreendimentos, Caminheiros que realizam ações de voluntariado em ambos os países).


39

Biblioteca Amiga

A Biblioteca Amiga é uma iniciativa que visa a oferta de uma biblioteca básica de livros escutistas a agrupamentos dos PALOP que deles possam necessitar. Esta iniciativa tem como principal finalidade criar e/ou reforçar as relações bilaterais a nível local entre agrupamentos do CNE e os das associações escutistas dos PALOP, sendo este o primeiro passo de uma cooperação que se quer duradoura e mutuamente benéfica. Cada associação africana fará uma lista dos grupos locais interessados, permanentemente atualizada, onde constem os contactos dos responsáveis, ficando assim em lista de espera. A Secretaria Internacional do CNE será responsável por emparceirar os agrupamentos interessados. Cada agrupamento do CNE interessado em contribuir para esta iniciativa poderá adquirir uma Biblioteca Amiga para enviar para um dos agrupamentos das associações dos PALOP. Com esta iniciativa, pretende-se possibilitar aos jovens um maior crescimento intercultural através do Escutismo.


40

CEL – Comunidade do Escutismo Lusófono

A CEL foi fundada durante o Jamboree Mundial realizado na Holanda e inclui hoje todas as associações escutistas dos países de língua oficial portuguesa, com exceção de Timor-Leste: Angola, Brasil, Cabo Verde, Moçambique e Portugal, já membros de pleno direito da OMME, e Guiné-Bissau e S. Tomé e Príncipe, em fase de preparação para reconhecimento. Como domínios de atuação, a CEL tem: • troca de informações, de experiências e de projetos; • presença e relações internacionais concertadas; • reconhecimento das associações dos PALOP; • reforço da Língua Portuguesa. Para além das cimeiras realizadas por ocasião das conferências mundiais, têm sido desenvolvidas ações de formação e intercâmbios no âmbito do Trilho Lusófono.


41

Escreve em Português para o Estrangeiro

A iniciativa Escreve em Português para o Estrangeiro visa, através da escrita, estimular o intercâmbio entre escuteiros que partilham a língua portuguesa. Como primeira experiência, pretende-se explorar um elo de ligação entre os escuteiros, principalmente ao nível das I e II secções. O objetivo consiste em escrever fisicamente cartas e não e-mails. As cartas têm alma, o papel tem uma rugosidade, carácter, cor, a escrita é expressiva e revela um pouco mais sobre quem escreveu; podem ser decoradas, ilustradas, aperfeiçoadas, podem levar tesouros, alegrias, transportam cheiros, pequenas especiarias, grãos de areia, fotografias, ganham vida quando são escritas, sorriem para quem as lê e renascem para quem as responde.


42

Insígnia da Lusofonia

No âmbito da Comunidade do Escutismo Lusófono, surgiu uma iniciativa que pretende dinamizar as relações entre escuteiros dos países de língua portuguesa: a Insígnia da Lusofonia. Esta insígnia tem como objetivo promover o conhecimento e intercâmbio entre os escuteiros de países lusófonos, sendo uma insígnia de progresso, destinada a todas as secções. Cada elemento só terá de trabalhar os três níveis de conhecimento - O que há cá de lá; Trazer o de lá para cá; e Entre cá e lá - e explorar as quatro dimensões - Língua Portuguesa, Escutismo, Cultura e Geografia em cada um dos níveis, para obter a insígnia. Por cada nível de conhecimento, obter-se-á uma insígnia em conformidade. Esta constitui uma grande oportunidade para estreitar laços entre escuteiros que falam a mesma língua e aprender na interculturalidade, explorar novas técnicas e métodos, e abraçar novos horizontes geográficos.


43

UNGUVU

O Projeto Unguvu surgiu por ocasião da Cimeira Africana, que se realizou em abril de 2009, no Quénia, onde os países europeus aí presentes decidiram elaborar um projeto de cooperação que promovesse as parcerias entre associações escutistas nacionais da Europa e de África. A ideia transformou-se em realidade e em 2011 foi implementado o UNGUVU. O projeto pretendia criar um módulo de formação sobre parcerias que pudesse ser implementado em cada um dos países parceiros, bem como desenvolver uma ferramenta de trabalho para promoção da qualidade nas parcerias Europa-África. Foram vários os países que participaram neste projeto. Do lado europeu, contámos com a Alemanha, Finlândia, França, Inglaterra, Portugal e com a Região Escutista Europeia. Nos participantes africanos tivemos Angola, Burundi, Burkina Faso, Senegal, Malawi, Zimbabwe e a Região Escutista Africana. No final do projeto, os objetivos foram alcançados, havendo neste momento um módulo de formação em Parcerias Escutistas bem como um Manual sobre Parcerias Escutistas à disposição das várias associações escutistas a nível mundial, contribuindo para o aumento da qualidade das parcerias existentes, para que a cooperação no Escutismo e o desenvolvimento no mundo possam caminhar um pouco mais além (ver Capítulo da Atividade Escutista Internacional – Parcerias).


44


45

Trilho Global O mundo é a nossa casa. B-P criou um movimento que se desenvolveu à escala mundial e esse facto não deve ser esquecido. Ter consciência de pertença à fraternidade mundial é fundamental na educação dos jovens. Este sentimento de pertença é despertado em atividades de participação mundial, quando o jovem se depara com o facto de partilhar interesses, sistemas de valores e projetos educativos comuns com jovens de diferentes raças, culturas, religiões e modos de vida. É sabendo conviver com a diferença que se aprende a respeitá-la, sendo esse o primeiro passo para a promoção da paz. Desta forma, o espaço global, enquanto espaço de ação, deve ser procurado e fomentado junto dos nossos jovens. Atividades como o Jamboree Mundial do Escutismo, o Moot Escutista Mundial ou o RoverWay (Europa) permitem a vivência da dimensão internacional de forma plena numa perspetiva educativa, de interação, contacto com outras culturas e capacidade de vivência em comunidade com pessoas diferentes.


46

Fórum Mundial de Jovens (WSYF)

O Fórum Mundial de Jovens (WSYF – World Scout Youth Forum) é o evento mundial onde é dada voz aos jovens do movimento. O Fórum surge com a necessidade que o Escutismo tem de pôr em prática uma das suas maravilhas do método no que respeita à participação em processos de tomada de decisão: Aprender fazendo! O funcionamento do Fórum é muito semelhante ao da Conferência Mundial do Escutismo (WSC – World Scout Conference) e, desta forma, o movimento está a dar competências aos seus jovens para poderem tomar parte naquela que é a maior Conferência do Escutismo, de forma conhecedora e preparada. O Fórum Mundial de Jovens surgiu pela primeira vez em 1971, no Japão, e acontece sempre na semana que antecede a Conferência Mundial do Escutismo. Podem participar jovens dos 18 aos 26 anos, e muitos dos que representam as suas associações no Fórum são também delegados na Conferência.


47

JOTA-JOTI

O JOTA (Jamboree-On-The-Air ou Jamboree-no-Ar) é uma atividade mundial onde Escuteiros e Guias de todo o Mundo falam entre eles por meio de contactos via rádio, trocando experiências escutistas e partilhando ideias. Sem restrições de idade, de número de participantes e praticamente sem despesas, o JOTA fornece uma oportunidade para os Escuteiros e Guias contactarem entre si por meio do radioamadorismo. As estações de rádio são operadas por radioamadores licenciados, muitos dos quais são Escuteiros portadores de uma licença de radioamador; a maioria dos escuteiros participa no JOTA com o apoio de associações de radioamadores ou de radioamadores particulares que deslocam as suas estações para o local do JOTA. A partir de 1996, e tendo em conta o desenvolvimento do Escutismo na Internet, sendo este um poderoso meio de comunicação entre Escuteiros, começou a realizar-se oficialmente e em paralelo com o JOTA, o JOTI (Jamboree-On-The-Internet ou Jamboree-na-Internet). O JOTA/JOTI é, assim, uma atividade escutista mundial que ocorre anualmente no terceiro fim de semana de outubro. A atividade começa às 00h00 de sábado e acaba às 24h00 de domingo (hora local), perfazendo assim um tempo total de 48 horas.


48

MOP – Messengers of Peace

A iniciativa MOP (Messengers of Peace) – Mensageiros da Paz surge a nível mundial com o mote de promover projetos de serviço nas comunidades locais, a vários níveis. Tem vindo a ser promovida em várias frentes e o CNE, na sua vertente pedagógica, procura dar a conhecer esta iniciativa por forma a que os nossos jovens possam compreender a dimensão mundial de que fazem parte e que as suas ações de serviço podem fazer toda a diferença no mundo. Existem já várias intervenções conhecidas nos âmbitos da proteção da natureza, recolha de alimentos para distribuição a pessoas carenciadas e angariação de fundos a favor de instituições de solidariedade. Voluntariado no hospital, animação de idosos, acolhimento de pessoas sem-abrigo, limpeza de praias, oferta de fardamento e equipamento escutista a jovens que não os podem pagar, acampamentos para crianças com problemas na família e explicações a estudantes com dificuldades financeiras também integram a lista de iniciativas elencadas pelo CNE.


49

SWA – Scouts of the World Award

O programa Scouts of the World Award (SWA) surgiu no âmbito dos Objetivos do Milénio (ODM). Sendo o Escutismo um movimento global, qual será o impacto no alcance dos ODM se cada escuteiro der o seu (pequeno) contributo? Nesse sentido, este programa promove a realização de ações de serviço em três áreas: Ambiente, Desenvolvimento e Paz. Estas ações de serviço promovem a cooperação mundial de todos os escuteiros e visam o alcance de um mundo melhor: «Scouts… Creating a better world!» O desenvolvimento e a participação em projetos deste programa obedecem a determinadas fases, que são as mesmas em todo o mundo: » Descoberta Período de tempo de, no mínimo, dois dias, em que o grupo que participa/organiza o projeto tem as ações de formação/práticas necessárias à boa implementação do projeto, visita os locais associados (ou locais semelhantes), contacta com as realidades envolventes e tenta perceber tudo o que é necessário para a boa concretização do projeto idealizado. » Serviço Voluntário Período de tempo de, no mínimo, 15 dias, que não tem de ser necessariamente consecutivo. Ou seja, o serviço voluntário pode decorrer em 8 fins de semana diferentes, por exemplo. Nesta fase verifica-se a verdadeira implementação do projeto idealizado e a concretização do pequeno passo que foi dado, para o alcance de um Mundo Melhor. No final dos projetos, cada escuteiro (ou não escuteiro, também há essa possibilidade), recebe um certificado «Scout of the World Award», uma insígnia e um acesso a uma rede mundial, a «SWA Network».


50

World Scout Moot / Rover Moot

O MOOT é uma atividade mundial para Rover Scouts (Caminheiros) com idades compreendidas entre os 18 e os 26 anos. O MOOT realiza-se de quatro em quatro anos e é organizado pela OMME (Organização Mundial do Movimento Escutista / WOSM). O nome original da atividade era World Rover Moot, mas mais tarde foi alterado para World Scout Moot porque o termo “Rover” era cada vez menos utilizado. A última mutação que o nome da atividade sofreu originou a expressão que hoje em dia é utilizada para designar o encontro mundial de caminheiros, World Scout Moot. O termo Moot é também utilizado em outras situações para denominar atividades de escuteiros com idades compreendidas entre os 18 e 26 anos quer sejam ou não à escala mundial, uma vez que etimologicamente a palavra MOOT significa encontro/assembleia. O primeiro World Scout Moot aconteceu em 1931 e até 1961 realizou-se quase todos os anos. Atualmente, realiza-se de quatro em quatro anos, à semelhança da periodicidade do World Scout Jamboree – Jamboree Mundial do Escutismo.


51

WSJ – World Scout Jamboree

Jamborees são acampamentos internacionais de Escuteiros e Guias, que se realizam periodicamente. O maior de todos é o Jamboree Mundial. O Jamboree surgiu na mente do fundador do Escutismo, Baden-Powell, após a I Guerra Mundial, onde muitos Escuteiros e Chefes de vários países tombaram, chegando-se a temer pelo futuro do movimento. Baden-Powell, imaginou um encontro de amizade e perícia escutista, e assim sucedeu no ano de 1920, em Londres, com a presença de Escuteiros de 34 países e vários territórios do então Império Britânico. Em 1957, no Jamboree do cinquentenário, surgiu o JOTA – Jamboree-On-The-Air (Jamboree-no-Ar), que junta os Escuteiros de todo o mundo através das ondas da rádio. Em 1996, surgiu o JOTI – Jamboree-On-The-Internet (Jamboree-na-Internet), com o mesmo propósito de construir a paz e a fraternidade, mas através da Internet. A organização de cada Jamboree mundial é atribuída pela OMME – Organização Mundial do Movimento Escutista / WOSM – World Organization of the Scout Movement que na Conferência Mundial escolhe entre as candidaturas que se apresentaram anteriormente. A cada quatro anos realiza-se um novo Jamboree mundial e geralmente não acontece no mesmo continente em duas edições seguidas, para que não se repitam localizações muito próximas e se permita a participação de Escuteiros de todo o mundo.


52


53

Comunicação Para que todos os Escuteiros estejam ligados, é fundamental que exista uma comunicação eficaz que permita que todas as informações se transmitam de forma igualitária. A passagem de informação é, nos dias de hoje, muito facilitada pelo fácil acesso às tecnologias de informação. Neste âmbito, o trabalho desenvolvido pela SI prendeu-se essencialmente em torno das redes sociais, de um site agregador de todas as iniciativas da Secretaria Internacional e do correio eletrónico. Ao estarmos todos ligados e com um funcionamento hierárquico de transmissão de informações, estas acabam por chegar a cada vez mais pessoas. Existe cada vez mais um esforço para fazer chegar aos nossos agrupamentos e unidades todas as oportunidades escutistas e não escutistas que existem no mundo. Entre as formas de comunicar utilizadas estão também as mais tradicionais como seja a Flor de Lis, órgão oficial do CNE, do qual tiramos o maior partido para a divulgação do que vai acontecendo e do que está para acontecer. Para além de divulgar algo que está para acontecer, também se torna fundamental “captar” todos os momentos, registar histórias para mostrar algo aos outros. Procuramos impulsionar a dimensão internacional através da partilha de curiosidades e parcerias, divulgação de histórias de voluntariado e atividades que vão acontecendo no mundo escutista internacional.


Portugal é1 ponto em 457 ainda achas que já conheces tudo?

54

A campanha «Portugal é um ponto em 457. Ainda achas que já conheces tudo?» foi criada para dar destaque às atividades escutistas internacionais e às iniciativas promovidas pela Secretaria Internacional. Esta campanha concretizou-se na produção de uma imagem do mapa-mundo em 457 pontos, sobre o fundo roxo. Ao realçar Portugal com um ponto amarelo, entre os restantes países do mundo retratados por pontos brancos, pretendeu-se que os escuteiros se colocassem numa perspetiva interrogativa sobre a dimensão do mundo que conhecem face àquele que ainda podem descobrir, ao viajar, realizar atividades internacionais, ao procurar conhecer escuteiros de outras culturas e religiões e com outros modos de vida. Portugal afigura-se não só como ponto de partida, como também como ponto de encontro, onde podemos receber e dar-nos a conhecer, e como ponto de chegada, para onde trazemos os conhecimentos e vivências experienciadas no resto do mundo, e que servem para enriquecer a nossa própria realidade.


55

Associada a esta campanha foram criados uma série de produtos que visam promover a marca da Internacional e o nosso sentido cidadania global: T-shirt, camisola de alças, boné e saco de pano. Todos estes produtos poderão ser encontrados à venda no DMF.


56


Recursos Internacionais A Dimensão Internacional do CNE engloba em si muito mais do que “ir para fora”. A dimensão internacional comporta, tal como toda a ação do CNE, um grande foco pedagógico, contribuindo para o desenvolvimento e crescimento dos nossos jovens. Desta forma, a Secretaria Internacional achou que era necessário que fossem criados alguns recursos de apoio ao desenvolvimento desta dimensão no CNE, de forma que os nossos escuteiros compreendam e conheçam melhor o mundo “lá fora” sem terem necessariamente de sair do país. O objetivo dos Recursos criados é o de apoiar na organização de Atividades Escutistas Internacionais, mas também o de informar e formar aqueles que procurem saber mais e queiram dar a conhecer mais aos seus jovens. Desde os i_docs, às fichas de atividades do Dia do Pensamento e aos documentos institucionais, podem ser encontrados conteúdos adequados a todas as idades, para que miúdos e graúdos possam conhecer e dar a conhecer um pouco mais do mundo e da sua dimensão escutista.

I_DOC O «i_doc» é um documento criado pela Secretaria Internacional com o intuito de contribuir para uma melhor vivência da dimensão internacional do Escutismo. A Secretaria Internacional já lançou vários «i_docs», entre eles: O que é uma atividade escutista internacional?, Voluntariado internacional, Parcerias, Representação Internacional, Nós no mundo, KISC – Kandersteg International Scout Centre. O principal objetivo do «i_doc» é informar e esclarecer os interessados relativamente a assuntos de cariz internacional. Não é uma publicação periódica e a sua edição acontece sempre que surja uma matéria pertinente. A equipa internacional trabalhará, então, para reunir toda a informação num «i_doc» que esclareça todas as dúvidas relativamente a esse assunto.

57


58


59

Atividades Escutistas Internacionais Uma Atividade Escutista é uma fonte de vivências, de desafios, de aprendizagens pessoais. Numa Atividade Escutista Internacional (AEI) essas experiências são vividas na exploração de um “cenário” diferente; não apenas (ou necessariamente) um território diferente, mas sobretudo um ambiente humano e social distinto daquele do país de origem. Uma AEI é um DESAFIO maior. Um desafio que é tanto pessoal como do grupo que a leva a efeito: o desafio de mobilizar recursos e vontades, de abrir a mente e o coração, de compreender e respeitar outras formas de ver e de viver. Como noutras atividades escutistas, realizar uma AEI deve pressupor uma INTENCIONALIDADE. Quando se parte, sabe-se ao que se vai, sabe-se o que se quer atingir ou, ao menos, o que se quer viver; e é sempre muito mais do que apenas fazer a viagem. O conhecimento de e contacto com outras culturas é uma enorme mais-valia das atividades internacionais e, sem dúvida, um importante fator na preparação dos cidadãos do século XXI. Por isso, a MULTICULTURALIDADE é um fator-chave nas AEI. A sede de conhecer novos lugares é normal, em especial nos jovens. Explorar novos territórios, viajar, abrir horizontes, constitui um desafio e é uma forma de valorização. Uma AEI tira pois partido de cenários diferentes, de novas GEOGRAFIAS. Mas não chega visitar novos territórios; a descoberta das diferenças e das semelhanças com outras pessoas ajuda à descoberta de si próprio e à compreensão do Mundo. É pois preciso procurar uma INTERAÇÂO com essas pessoas, conhecer os seus hábitos e desafios. E partilhar aqueles que nos são próprios. Uma atividade internacional é uma oportunidade que não pode ser desperdiçada. Ela tem de ser pensada e levada a cabo de modo a proporcionar momentos fortes que componham uma EXPERIÊNCIA inesquecível para cada um. As atividades internacionais oferecem um “mundo” de experiências diferentes a ser vividas. E que só podem ser vividas aí. São assim uma fonte de APRENDIZAGEM que importa reconhecer e tornar evidente no final das mesmas. É a combinação destes diferentes elementos (em doses diferentes consoante a atividade) que torna única uma Atividade Escutista Internacional.


Como fazer uma AEI

São já muitos aqueles que programam, arriscam e experimentam uma aventura internacional, mas a pergunta persiste: «Como? Como é que se faz?» Até 5 meses antes de uma Atividade Escutista Internacional (AEI), a equipa responsável pelo Projeto deve enviar para a Secretaria Internacional, com conhecimento às respetivas Junta de Núcleo e Junta Regional, a “Ficha de Intenção de Atividade Internacional” e a “Nota de contacto com escuteiros estrangeiros” (no caso de contacto direto por terceiros, a nota deve ser preenchida e enviada de imediato) para que a equipa internacional possa desde cedo acompanhar o Projeto contribuindo para uma maior eficácia do mesmo. Até 3 meses antes da atividade o “Projeto de Atividade Internacional” e o “Orçamento” devem estar já delineados e prontos para serem enriquecidos pela Equipa da Secretaria Internacional. Este processo deve sempre desenrolar-se através da respetiva Junta de Núcleo ou Regional (conforme o procedimento regional em vigor). Este passo reveste-se de uma maior importância uma vez que é a partir daqui que os contributos por parte da equipa podem realmente produzir efeitos e materializarem-se dando origem a um Projeto sólido e eficaz.

60

Até 1 mês da data de início da atividade, preencher e enviar à Secretaria Internacional, com conhecimento às respetivas Junta de Núcleo e Junta Regional, a “Ficha de Confirmação de Atividade Internacional” e a “Relação dos participantes na atividade para efeitos de emissão da Carta Internacional e de informação à Seguradora”. Os Encontros de Preparação Internacional (EPI) são também obrigatórios para todos aqueles que pretendam realizar uma AEI. Pelo menos um dos membros da equipa responsável pela implementação do Projeto deve ter frequentado o curso que permanece válido por cinco anos. A Secretaria Internacional disponibiliza todos os anos um conjunto de cursos de outubro a abril . Os relatórios de atividade devem seguir as diretrizes indicadas pela equipa internacional e ser também enviados para a SI até três meses depois da conclusão da atividade. Todos estes formulários assim como as diretrizes e a política internacional encontram-se provisoriamente disponíveis no site da Secretaria Internacional (http://www.internacional.cne-escutismo.pt/). Em breve serão lançados os formulários online que facilitarão todo o procedimento que diz respeito à AEI. Mas, se mesmo assim a dúvida persistir a Secretaria Internacional coloca à disposição o email internacional@cne-escutismo.pt.


Local

Ser escuteiro é fazer parte de uma fraternidade de 38 milhões de jovens. E o espírito que nos une pode revelar-se insuficiente se não cultivamos nos nossos elementos a educação para a diferença, seja ela cultural, religiosa, étnica… Ainda sobrevive o mito de que uma atividade escutista internacional tem de necessariamente implicar uma viagem, uma saída do país. Uma AEI pode ser realizada sem sairmos do nosso próprio país. Sim, a geografia é importante mas não é fundamental ou imprescindível. De que vale, por exemplo, atravessarmos a Europa num comboio se não olhamos para quem se senta ao nosso lado O espírito internacional de uma atividade escutista pode ser vivido sem sequer sair da nossa sede ou da nossa comunidade. Uma viagem fantástica onde corremos os quatro cantos do mundo sem sair do Covil, uma descida de rio que se transforma como por magia no Nilo com a nossa Expedição, um jogo partilhado com aquela comunidade estrangeira que até tem uma associação aqui no bairro, uma refeição diferente partilhada em Clã… Aproveitemos pois a fantasia que nos traz a imaginação e utilizemos isso em prol da vivência internacional dos nossos elementos. «A atividade realizada foi uma mais-valia, para nós enquanto irmãos mais velhos, na organização e preparação deste tipo de atividades e ao sentirmos o impacto obtido, no despertar de uma secção para as possibilidades internacionais que estão ao seu alcance. Mas também igualmente ou mais importante foi para os Exploradores participantes que, além de ficarem a conhecer um pouco de outras culturas e como é o Escutismo noutros países tão diferentes do nosso, a partilhar o mesmo ideal, puderam também entender que existem diversos tipos de atividades internacionais e que também eles as podem alcançar.» in Relatório da AEI local | Coimbra | 9 de março de 2013

61


Acolhimento

Uma Atividade Escutista Internacional é uma oportunidade para abraçar desafios e experienciar e aprender crescendo. A dimensão internacional pode ser vivida de várias formas, sendo as atividades de acolhimento uma das oportunidades de experiência internacional, a par das atividades locais, saídas e parcerias. Portugal é destino de escuteiros de outras partes do mundo, principalmente da Europa. Muitos destes grupos europeus procuram parceiros locais (portugueses) para desenvolver atividades em comum e estabelecer uma interação que seja mutuamente enriquecedora. Uma das formas de viver este tipo de atividade internacional consiste na Home Hospitality (Ho-Ho). Este é um exemplo de atividade internacional de acolhimento em que escuteiros de um país diferente são acolhidos por escuteiros locais e, durante alguns dias, interagem e experienciam a vida quotidiana do país de acolhimento, além de poderem fazer outras atividades organizadas. Este tipo de atividades pressupõe que o grupo visitante fica alojado em famílias de escuteiros que tenham jovens da mesma faixa etária e que haja capacidade para assumir algumas despesas associadas à iniciativa.

62

Em agosto de 2011, um grupo de escuteiros ingleses provenientes do WSJ’11 escolheu o nosso país para viver uma experiência de Ho-Ho. Aqui fica o testemunho do Vítor Rodrigues da Comunidade 06-Diogo Cão (Agr. 295): «O Ho-Ho, na minha perspetiva e enquanto responsável por esta Comunidade, traduziu-se numa experiência maravilhosa, numa oportunidade única de crescimento nos valores da dimensão universal do movimento escutista. Oportunidade educativa ímpar que foi aproveitada para trilhar caminho, quer ao nível dos conhecimentos e das relações interpares, quer ao nível do sistema de progresso pessoal de cada Pioneiro. E esta relação universal ficou de tal forma vincada nestes poucos dias em que estivemos juntos que posso mesmo dizer que fizemos amigos e criámos memórias para a vida. Isto de tal forma é verídico que a Comunidade trabalha já num empreendimento que a levará na Páscoa de 2012, a reviver com a Cambridgeshire Unit o espírito de Brownsea; chama-se “The Big Adventure».


Saída

Sair para realizar uma atividade em outro país é sempre um desafio: território novo, pessoas diferentes, outras palavras (ou mesmo formas de comunicar). A adicionar aos desafios logísticos de maior dimensão. Mas é esse conjunto de desafios, e a vontade de os superar, que leva muitas vezes as Unidades (ou mesmo os agrupamentos) a escolher outro país como palco das suas grandes atividades de Páscoa ou verão. Gilwell, Kandersteg, Santiago, Brownsea…têm sido apenas alguns dos destinos mais populares dessas “expedições”. «Esta foi para nós mais uma etapa de um caminho que na realidade é bem maior, o caminho da Vida que nos leva rumo ao Triunfo e ao segredo da verdadeira Felicidade. Um caminho no qual somos chamados a viver uma vida mais responsável, mais saudável, mais partilhada, uma vida mais intensa, uma vida que seja plena e total. Contudo, para isso, não esqueçamos de ter a ousadia de partir, a consciência na toma das decisões e a coragem para seguir os nossos sonhos e ambições, vencendo todos aqueles escolhos que nos distraem e que tantas vezes nos desviam das metas que traçamos para nós próprios. Assim, Senhor, neste dia que acaba, agradecemos-Te este caminho que trouxe para cada um de nós e para o Clã, a verdadeira Felicidade e o Triunfo. Juntos, já não somos meros sonhadores, mas sim realizadores de sonhos.» in Relatório da Atividade Caminho do Triunfo | Santiago de Compostela - Múxia | 21 a 26 de agosto de 2013 | Agrupamento 276 Santa Cruz do Bispo

63


Parceria

Um Projeto internacional é um esforço de longa duração (sendo fonte de um conjunto de atividades e iniciativas de preparação), que envolve parceiros, escuteiros ou não, e que, de uma forma profunda, explora a dimensão internacional nas suas diversas componentes, em particular a da multiculturalidade. Os diferentes componentes de uma AEI estarão aqui bem representados. «É nisto que o ideal escutista é tão rico, permitindo que os elementos pudessem vivenciar experiências e realidades tão distintas, dando grande importância e valor a aspetos que na Europa achamos banais, como acesso contínuo a água ou comida. Apesar da menor abundância, encontramos um povo rico em acolhimento, saber, alegria, “morabeza” e espírito fraterno que desde logo nos soube partilhar e incutir.» in Relatório da Atividade Escuta África | Cabo Verde | 31 de julho a 15 de agosto de 2012 | Agrupamento 113 São Domingos de Rana

«O Método de Trabalho foi o método escutista, começando por escolher um imaginário para a atividade, atribuindo cargos e tarefas a cada elemento e garantindo que a equipa demonstrasse sempre uma coesão e sintonia e uma liderança em torno do seu Guia, com a orientação do Chefe, quando necessário. 64

Por outro lado foi definido que trabalharíamos sempre COM os elementos locais e não para eles. Desta forma seria possível ensinar a fazer e partilhar experiência mais do que entregar as obras feitas e acabadas. Este foi o elemento fundamental do método que permitiu maior interação e maior desenvolvimento local e pessoal de cada um.» in Relatório da Atividade Moçamborta | 30 julho a 15 setembro 2013, Moçambique | Clã 102 do Agrupamento 1134 Sintra


65


66


Testemunhos Por

Ana Rute Costa

Mais do que dar poder “Youth empowerment” é uma das prioridades do novo plano trienal 2013-16 da Região Europeia do Escutismo. Pretende-se, entre outros objetivos mais específicos, um aumento do número de jovens e de oportunidades educativas que contribuam para um empowerment dentro e fora do Escutismo (comunidades), através da implementação efetiva do método escutista. Segundo o site flip.pt, o “verbo inglês to empower (cuja adaptação dá origem ao verbo empoderar), segundo o dicionário inglês Merriam-Webster Online, para além dos sentidos de “autorizar” e de “proporcionar”, ele também significa “promover a afirmação ou a influência”. Independentemente de usarmos o verbo em inglês to empower ou a tradução já bastante generalizada de empoderar, o que importa mesmo é sabermos em que se traduz essa ação e de que forma nós, a partir da aplicação do método escutista, podemos ou não concretizá-lo de uma forma efetiva e frutífera. Um dia destes, estava junto de uma criança de 7 anos (não é Escuteira, mas poderia ser) que me pediu para eu brincar com ela. Como eu precisava de acender umas velas e ela precisava de atenção achei que poderia juntar o útil ao agradável e transformarmos aquela necessidade num jogo. Passado pouco tempo chega a mãe da criança, vê-a a pegar numa vela e imediatamente lhe diz para parar de fazer asneiras. A criança olha calmamente para a mãe, a mãe repara que eu estava ao lado dela e diz, num tom de voz consideravelmente mais calmo, «Ah! Estás a ajudar.» Numa época em que os pais se tornam demasiado protetores, que querem ser pais, professores, amigos, irmãos e polícias, que julgam que acompanhando permanentemente os seus filhos e vivendo 100% em função deles estão a dar a melhor educação possível, esquecem-se de uma coisa importante: a aprendizagem pelo erro. É neste ponto que o Escutismo pode realmente fazer a diferença, proporcionando ambientes de aprendizagem em que os jovens se sintam seguros para experimentar, para testar as suas capacidades, para aprender, mas sobretudo para aprender através dos seus erros, avaliando, refletindo e crescendo. Enquanto Dirigentes, devemos estar suficientemente próximos para salvaguardar algum perigo, mas suficientemente longe para que os jovens desenvolvam a sua autonomia e autoconfiança, para que se sintam empoderados e capazes de fazer a diferença, fundamentando as suas ações, convicções e atitudes. Este trabalho é fundamental ao longo das quatro secções, havendo uma diminuição da presença do adulto à medida que o jovem cresce. Mas será que estamos realmente a criar ambientes de aprendizagem em que os nossos jovens se sentem empoderados e com sentido de responsabilidade por eles e pelo próximo? Ou haverá alguma coisa que ainda poderemos melhorar para que os nossos jovens sejam cidadãos realmente ativos, empenhados, envolvidos e capazes de ter um papel ativo e determinante na sociedade de hoje (dentro e fora do Escutismo). Vale a pena pensar nisto; depende de cada um de nós (adultos) proporcionarmos um ambiente adequado aos nossos jovens para que se sintam empoderados e para além de “autorizarmos” e de lhes “proporcionarmos” poder sejam eles também capazes de promover essa afirmação ou influência.

Escuteira desde 1989 (Lobita, Exploradora, Pioneira e Caminheira), Chefe de Clã, Membro da Equipa Internacional do CNE (2008), Adjunta do Secretário Internacional 2009-2012, Chefe de contingente da FEP para o WSJ 2011, Secretária Internacional (2012-2013).

67


Por

Ana Fernandes

Todas as atividades escutistas internacionais nos mudam, de uma forma ou de outra. Não é só pela atividade em si, pela partilha de ideias e projetos ou pelo choque cultural a que nos sujeita, mas também pelo que nasce e continuamos a alimentar após o fim. Em 2010, participei, como escuteira do CNE, no projeto «Shared responsability for active citizenship». Este projeto nasceu de uma parceria do Grupo Escuteiro de Varna (Bulgária), da Câmara Municipal (particularmente o gabinete de juventude) e de várias associações juvenis daquela cidade. Tinha como objetivo principal a partilha de boas práticas e iniciar um projeto de ativismo juvenil que culminou com a candidatura de Varna a Capital Europeia da Juventude 2016. Assim sendo, durante quatro sessões diferentes, jovens escuteiros e não escuteiros de toda a Europa, partilhámos, projetámos e concretizámos ações na comunidade, tendo conseguido audiência na Câmara Municipal para expor as nossas conclusões. No regresso a Portugal, trouxe todas essas mais-valias, mas trouxe também a Ewe, o Luca, a Magda, a Marta e tantos outros. A Ewe que fui visitar em Sczeczin, com quem partilhei casa durante uma semana, com quem partilhei serões de chá e piano e passeios de bicicleta pelos bosques. A Ewe com quem estava quando ela conheceu aquele que viria a ser o seu marido e pai do seu filho. A Ewe com quem troco postais e cartas após todos estes anos. O Luca que aproveitou o contacto criado e veio com os seus Rovers até Portugal, tendo realizado atividades com alguns grupos portugueses. A Magdalena que me veio visitar num verão, se apaixonou por Portugal e nunca mais voltou para Poznan. 68

A Marta que me recebeu na casa da sua família onde moram três gerações completas (pais, irmãos, avós, tios e primos). As lutas de bolas de neves com os seus amigos no jardim de Police. As horas passadas na cozinha a fazer biscoitos de gengibre e “pierogow”. As descidas de trenó na neve. As ruas, as pessoas, o teatro. Se eu poderia ter conhecido estas pessoas numa atividade escutista nacional? Claro que sim! Mas toda a riqueza intercultural estaria perdida. A verdade é que há experiências que só se vivem mesmo na Internacional!

Mestrado Integrado em Medicina pela Faculdade de Medicina de Lisboa (2004-2010), atualmente no 2.º ano da especialidade de Medicina Interna. Escuteira desde os 12 anos. Dirigente no CNE, Agr. 893 Fala (Coimbra). Membro da Equipa Internacional no período 2010-2013.


Por

Ana Silva

Eu vi a Dimensão internacional no CNE a crescer O meu primeiro contacto com a dimensão internacional do CNE remonta a 2002 quando realizei a minha primeira AEI (Atividade Escutista Internacional). Era, à data, uma Pioneira cheia de vontade de mudar o mundo, pelo menos o meu mundo. Fomos aos Picos da Europa, e que aventura que foi! Hoje em dia recordo aquela atividade como um ponto de viragem na minha perceção do Escutismo a nível internacional. Saí das “quatro paredes” da minha sede e fui com a minha comunidade conquistar o mundo. Se tinha noção do que era necessário fazer para realizar uma AEI? Não, não tinha. Pelo menos não conscientemente. Na altura os nossos chefes foram capazes de nos transmitir a necessidade de programar, planear, a necessidade de que a atividade tivesse conteúdo e sobretudo a necessidade de avaliarmos o que estávamos a fazer e aprendermos com os nossos erros e com a experiência de outros. Aprendi. Conheci escuteiros de outros países, socializamos num verdadeiro contexto internacional, trabalhamos com a comunidade local e conseguimos simultaneamente fortalecer os nossos laços enquanto grupo. Não conceptualizei o processo, mas sabia que estava a fazer algo estruturado. O bicho internacional proliferou e outras AEI se seguiram. Cresci. Em 2009 fiquei a conhecer aqueles que estavam por detrás de uma AEI, que a conceptualizavam e que criavam ferramentas para que os nossos chefes nos pudessem apoiar. Agora Caminheira e em contexto profissional percebi que outros trabalhavam para que atividades como aquela que realizei em 2002 acontecessem. Deixei de olhar a AEI pelos olhos da minha unidade e passei a olhar pelos olhos de uma estrutura nacional, o todo e as suas partes. Ao meu conhecimento de trabalho na unidade acrescentei a consciência do trabalho a nível nacional, qual o seu propósito e de que forma é que este contribui para o funcionamento de uma unidade. Continuando a trabalhar a nível local compreendi que a produção de ferramentas pelas estruturas nacionais e a unidade funcionam como duas rodas dentadas, ou seja, numa relação de dependência. Enquanto profissional percorri muitos acampamentos regionais/núcleo, ouvi testemunhos de muitos que, como eu, não tinham consciência de que a dimensão internacional poderia ser vivida de forma tão intensa ou sequer pensada de uma forma tão estruturada. A Secretaria Internacional apostou numa divulgação “boca a boca” através de exemplos concretos, e eu era uma das suas ferramentas. Aprender fazendo é o mote de partida e o jogo o nosso principal instrumento. Em cada acampamento regional/núcleo explicávamos como funcionava a dimensão internacional a cada escuteiro abrindo horizontes. Não é fácil explicar à associação porque criamos um conjunto de procedimentos para a realização de uma AEI. E depois de alguma experiência no contacto com o público sabemos que, ao primeiro contacto, tudo soa muito burocrático. No entanto, tudo tem uma razão de ser e o único e principal objetivo do processo é que os rapazes possam viver a AEI em toda a sua plenitude. A Secretaria Internacional (SI) e a sua equipa não são funcionários administrativos que diariamente aprovam ou reprovam projetos. A SI e a sua equipa procuram auxiliar à construção de projetos internacionais tornando-os mais ricos e bem estruturados. Em cinco anos vi um aumento da consciencialização da dimensão internacional no CNE. Testemunhei um aumento da preocupação com o conteúdo e com a qualidade dos projetos. A dimensão internacional passou a ser trabalhada de forma mais vívida a nível local, passou a ser a parte integrante das oportunidades educativas oferecidas aos nossos lobitos e escuteiros. Atestei a importância das redes de disseminação de informação. Depois de algum trabalho de perto com os associados do CNE compreendi que o fator chave do sucesso da maior dimensão que a Dimensão Internacional adquiriu no CNE é a comunicação. A comunicação é o óleo que faz as rodas dentadas funcionarem. Ainda há um longo caminho a percorrer. As estratégias têm de ser mutáveis adaptando-se ao contexto e às necessidades. O certo é que a dimensão internacional no CNE ainda tem muito espaço para crescer, mas o esforço tem de ser perseverante sem margem para baixar os braços.

Ana Isabel Silva licenciada em Jornalismo e Ciências da Comunicação pela Universidade do Porto. Trabalhou em diversos órgãos de comunicação social na vertente online e desde 2009 que é Secretária Executiva da Secretaria Internacional do Corpo Nacional de Escutas. Fez parte de grupos de trabalho escutistas a nível europeu e é simultaneamente Dirigente numa unidade de escutismo local.

69


Por

Carla Grafino

Parcerias Internacionais no Escutismo «The most important single ingredient in the formula of success is knowing how to get along with people.» A frase é de Theodore Roosevelt e contém o principal componente para o conceito de “parceria”: conseguirmo-nos relacionar com outrem. Quando o fazemos com um propósito comum, temos uma parceria. As parcerias estão presentes em vários aspetos da nossa vida. Ser uma família implica que cada um tem uma função para que todos estejam bem. Numa empresa cada um tem uma tarefa muito concreta para que esta desempenhe a sua atividade. Os Estados celebram acordos que os vinculam a determinadas ações. E a sociedade civil une esforços em prol de um mundo melhor. Qualquer um destes cenários pressupõe a existência de um conjunto, logo de uma relação de parceria porque sozinho não seria possível alcançar os mesmos resultados. A mesma lógica é claramente adaptável ao plano escutista. O sistema de patrulhas não é mais do que uma parceria, em que cada um tem o seu cargo e funciona quando todos estão empenhados num determinado projeto e atividade. E se extrapolarmos para um horizonte internacional, constatamos que fazemos parte de uma família escutista à escala mundial. A melhor forma de interagirmos nesta dimensão é, claro, através das parcerias, desta vez juntando a componente internacional e escutista.

70

A primeira vez que ouvi falar em parcerias internacionais no Escutismo, tinha aterrado numa atividade internacional a decorrer no Porto. Era mais uma edição da Rede Norte-Sul, plataforma informal de associações escutistas ditas do norte e do sul que discutem quais as melhores práticas para que uma parceria seja implementada com sucesso. Fiquei fascinada com a diversidade de jovens ali reunidos e com os projetos de parceria que muitos já tinham conseguido concretizar através do Escutismo. Exemplos concretos dos resultados de uma parceria internacional no Escutismo. Todos eles retratados por sorrisos radiantes de jovens enriquecidos com novas experiências, com sentimentos de tolerância e interculturalidade. Foi ali que percebi que este quarto tipo de atividade internacional era sem dúvida a essência da dimensão internacional, a mais desafiante e difícil de alcançar, mas também umas das mais estimulantes. E embarquei nesta aventura de parcerias. Fui até Dakar e Rieneck, onde, juntamente com escuteiros da Europa e de África, desbravei caminhos de interculturalidade e respeito mútuo para poder dar a entender aos outros o que eram estas parcerias no Escutismo e como implementá-las. O mote desta visita tinha um nome UNGUVU - Strenght Through Unity. Foi o campo ideal para debater e definir parcerias. O resultado foi um manual e um módulo de formação em parcerias que esperamos possam servir como guia a todos que queiram experimentar este desafio. No CNE, o estabelecimento de parcerias internacionais está ainda numa fase de engrenagem. Divulgou-se o Fundo Francisco Sousa Dias, cujo maior financiamento é atribuído a atividades internacionais de parceria. Criou-se um i-doc sobre Parcerias no Escutismo. Divulgou-se o Escreve em Português para o Estrangeiro e o Agrupamento-Irmão, promovendo as interações com escuteiros lusófonos. Os países de língua portuguesa são os principais intermediários e os parceiros privilegiados dos escuteiros do CNE, devido a questões histórico-linguísticas. Mas os nossos jovens são cada vez mais ambiciosos, pelo que dentro em breve teremos novos países-alvo fora do contexto geográfico habitual. A riqueza das parcerias só pode ser conquistada pelos mais audazes. É um meticuloso trabalho de diálogo, colaboração e partilha de ideias, em que nada pode ser negligenciado. E é necessário ter um certo grau de perseverança para, em devida hora, poder apreciar os seus frutos. Enquanto motor da tolerância e interculturalidade, as parcerias internacionais no Escutismo promovem o respeito e o entendimento mútuos, consciencializam para a constante interdependência entre os povos e têm um papel fundamental para a promoção da paz no mundo. Fazer parte desta parceria global que é o Escutismo, e assim contribuir para a formação dos jovens enquanto cidadãos globais conscientes do mundo que os rodeia, é sem dúvida um desafio incomparável. Já dizia Baden-Powell «When you want a thing done, don’t do it yourself.» Envolve os outros em parceria. Será bastante mais gratificante.

Carla Grafino é licenciada em Relações Internacionais, tendo realizado Erasmus em Aix-en-Provence, França, e estagiado no Parlamento Europeu em Bruxelas; é mestranda em Direito Internacional e Relações Internacionais. Escuteira desde os sete anos. Dirigente no CNE, Agrupamento 894, Montemor-o-Novo, até 2013. Membro da Equipa Internacional no período 2010-2013, onde esteve responsável pelo Trilho Lusófono e pelos projetos de Parcerias. Adjunta da Secretária Internacional em outubro de 2013.


Por

Carla Simões

Renovar o Programa Educativo com influência e consultadoria internacional O exercício de voltar atrás no tempo para contar uma história ou dar testemunho de um processo acaba invariavelmente por nos trazer a lembrança das pessoas com quem trabalhámos e partilhámos o mesmo sonho. E este foi, sem dúvida, um processo de entrega e enriquecimento pessoal. Ouvi pela primeira vez falar da ferramenta RAP (Renewed Approach to Programme), no decorrer do 1.º Fórum Europeu do Programa Educativo e Recursos Adultos, em 1999, durante o qual os autores Jacqueline Collier e Dominique Bernard apresentaram os oito passos concebidos para ajudar as associações nacionais a construírem de raiz um novo programa educativo, ou a reverem um já existente. E foi o início da viagem. Há medida que iam saindo os capítulos da Ilha Verde - publicação que ilustrava a aplicação dos vários passos da ferramenta numa associação - surgiu a ideia de realizar, ainda em 1999, o Congresso P.E.R.A. com a presença da própria Jacqueline e do Kjeld Jesperson. Foi a primeira apresentação da ferramenta RAP na associação, que esteve na base do início em 2001 do processo de renovação pedagógica do CNE e que culminou em 2009 com a aprovação em Conselho Nacional do novo Programa Educativo. Nos anos que se seguiram muitos foram os que internamente se comprometeram e contribuíram para o desenvolvimento da nossa “Renovação da Ação Pedagógica” e o contacto privilegiado com outras experiências e associações escutistas, fruto do envolvimento de diversos Dirigentes do CNE em grupos de trabalho da região europeia e da participação em inúmeros eventos europeus, veio enriquecer de forma incontornável todo o processo. Entretanto outras associações europeias tinham também iniciado o processo de renovação do seu programa educativo à luz da ferramenta RAP, ou uma adaptação da mesma, e em diversos encontros europeus os responsáveis do programa educativo iam partilhando os sucessos e obstáculos do trabalho desenvolvido. Foram notórias ao longo dos anos e das etapas percorridas as cumplicidades e parcerias estabelecidas com os responsáveis de outras associações. Mas este contacto também contribuiu para valorizar aquilo que nos caracterizava enquanto associação escutista e que nos tornava únicos. Mantendo as especificidades de cada associação e de cada país soubemos crescer juntos unidos pelo mesmo objetivo: melhorar a qualidade do Escutismo que oferecemos aos nossos jovens. Foi sem dúvida um processo moroso com muitos desafios e percalços pelo caminho, mas a forte convicção de que era o caminho certo para reforçar a componente educativa do que fazemos e conferir uma maior coerência ao edifício pedagógico do CNE - sempre com os jovens no centro da ação - e o apoio que recebemos dos muitos Dirigentes envolvidos e do nível europeu (nomeadamente do Radu Stinghe e do João Armando Gonçalves), contribuiu para que o projeto chegasse a bom porto. Foi um período de uma permanente aprendizagem e que veio reforçar a convicção do carácter educativo do Escutismo, o acreditar na sua força enquanto movimento de educação para a paz e para o desenvolvimento através da sua dimensão de fraternidade mundial. Acredito que nesta relação de consultadoria muito beneficiou o CNE, mas também muito o CNE partilhou de forma generosa as suas boas práticas, especialmente ao nível do programa para a IV Secção e da aplicação do método escutista. Pessoalmente, a convivência e partilha de ideias com escuteiros de outras associações durante estes anos abriu-me os horizontes para a riqueza e diversidade que o Escutismo proporciona e a reconhecer nessa diferença não só as nossas boas práticas e pontos fortes, mas também a testemunhar outras formas de fazer Escutismo de qualidade.

Secretária Executiva do Programa Educativo desde 1998. Membro do Grupo Europeu do Programa Educativo entre 1999 e 2007, durante o qual coordenou duas equipas de trabalho, integrou a organização de vários eventos europeus e produziu diversas ferramentas e unidades de formação. Presentemente colabora com o Grupo “Youth for Change” do Bureau Mundial.

71


Por

Catarina Inverno

Participação Juvenil e Envolvimento de Jovens Antes de falar ou escrever sobre determinado tema, acho importante sabermos do que estamos a falar. É por isso que gosto de procurar o significado das palavras. jovem - (...) que mantém a frescura, a energia e o aspeto característicos de quem tem pouca idade. participação - (...) envolvimento em determinada atividade Porto Editora, 2003-2013. Acredito piamente na capacidade de mudança através dos jovens e de, com os seus sonhos e visões, serem capazes de criar um mundo melhor! A participação dos jovens na sociedade e o seu envolvimento é o início de uma espiral que cresce e traz frutos duradouros. É quando nos sentimos parte que damos o nosso melhor! Fomentar o envolvimento dos jovens e permitir que a sua participação seja ativa faz com que os mesmos queiram um amanhã melhor. Ao participar e estar envolvido, o jovem sente a necessidade de formular uma opinião sobre e ser capaz de a argumentar: esta é uma competência fundamental para o seu desenvolvimento enquanto cidadão.

72

Tenho feito parte de processos de envolvimento e participação juvenil desde nova, quer a nível nacional, quer internacional. Para mim, sempre foi muito importante saber expressar-me em frente a um público que, de diversas gerações, me pudesse compreender. Isso permitiu-me crescer de uma forma diferente da de muitos outros jovens da minha geração. Dou muito valor ao que os jovens têm a dizer, e mesmo que “eles” ainda não saibam tudo, é importante que pessoas como eu, “mais velhas”, os acompanhem, observem e aconselhem, para lhes dar a conhecer os diversos caminhos e o rol de possibilidades que existem. Nos Escuteiros, temos um conceito que eu adoro e admiro: «ask the boy!». Os jovens devem ser emancipados! Devem ser capazes de organizar os seus projetos por si, sem a intervenção direta e constante de um adulto. O adulto deve ser a linha orientadora! Gosto de pensar na analogia de comparar o adulto às guias sonoras da autoestrada, aquelas que fazem barulho quando nos desviamos do caminho. O adulto é isso mesmo, a guia sonora, que “apita” quando o jovem está a desviar-se daquele que é o caminho que escolhe(u) percorrer. Esta analogia foi-me dada a conhecer por um adulto que, quando eu era mais jovem, me explicou qual era o seu papel. Acho que faz todo o sentido! Os nossos jovens precisam de oportunidades e de ter pessoas como estas, que se preocupam com o seu crescimento e lhes dão desafios à sua altura! O Dirigente não deve ter uma presença balizadora nem linear os comportamentos dos jovens que acompanha. Deve haver uma troca de aprendizagens e crescimento mútuos, sabendo que a aprendizagem pelo erro está sempre presente no nosso método escutista: aprendemos fazendo! Hoje, tendo a oportunidade de trabalhar com jovens que iniciam os seus percursos em processos de tomada de decisão, sei que tenho a abertura para os ouvir e para lhes dar espaço para que eles “deem o salto”. Esta é uma perspetiva adotada cada vez mais e em maior número de países. Em cada evento escutista internacional conseguimos perceber que o peso que os jovens têm é maior e as suas ideias e opiniões são as que guiam e orientam muitos dos cargos de chefia de algumas organizações. A participação dos jovens e o seu envolvimento permite-lhes crescer. Tudo acontece com o primeiro passo, em que damos importância à sua opinião e presença. Se não é para e com os jovens que trabalhamos, então qual é o nosso papel? O futuro começa hoje, não é amanhã quando os jovens de hoje já não o são! A sua espiral começa no momento em que lhes é dada a oportunidade e, a partir daí, não para de crescer… porque a espiral é infinita!

Escuteira desde 2003 (Caminheira). Dirigente desde 2009. Chefe de Clã, Membro da Equipa Internacional do CNE (2009 ao presente), Coordenadora Equipa Scouts of the World Award do CNE (2008 ao presente), Membro da Equipa Nacional dos Caminheiros e Companheiros (2008-2010), Colaboração com a Região Europeia no Agora – evento para Caminheiros Europeus (2008-2009), Equipa Projeto do Cenáculo Nacional (2004-2008), Representação do CNE em eventos europeus e mundiais (desde 2007 ao presente). Short Term Staff no Kandersteg International Scout Centre (2011), Long Term Staff no Kandersteg International Scout Centre (2012). Relatora no 1.º Congresso Mundial de Educação Escutista (2013).


Por

David McKee

«Os olhos são o espelho da alma.» Estar envolvido no Escutismo a nível internacional oferece por vezes a oportunidade de testemunhar momentos importantes – a nível pessoal e corporativo, e com impacto em pessoas e organizações. Para mim um desses momentos foi em 1991, quando foi fundada a primeira organização escutista na Rússia desde a Revolução e os seus efeitos, nos anos 20. A localização era Repino, no golfo da Finlândia, a norte de São Petersburgo. A Federação dos Escuteiros da Rússia havia sido formada nessa tarde. Os espíritos estavam elevados. Foi pedido a uma pequena delegação do Reino Unido para vir à praia, que estava escura e coberta de neve. Um grupo juntara-se à volta de uma pequena fogueira bruxuleante. Um padre russo ortodoxo estava ali de pé, usando as suas vestes completas, e um dos nossos amigos carregava uma bandeira laranja e negra representando São Jorge. Outro amigo acendeu uma tocha – e eu reconheci-a. Era a tocha que eu lhe tinha dado, representando a chama do Escutismo, no dia em que Leninegrado votara para ser chamado São Petersburgo. Isto acontecera seis meses antes, durante o seminário da WOSM sobre Escutismo na Comunidade de Estados Independentes, em Genebra. Quatro jovens, dois rapazes e duas raparigas, usavam uniformes improvisados, e foi pedido aos quatro delegados britânicos que doassem os seus lenços de escuteiro. Os jovens fizeram a saudação escutista, colocaram as mãos nas bandeiras e repetiram aquilo que mais tarde ficámos a saber ser a Promessa Escutista. Eles foram investidos com os nossos lenços e receberam uma vela para acender na tocha. A sua chama de Escutismo. Sim, uma cerimónia histórica e importante, mas baseada noutra que eu conhecia já tão bem. Aos novos escuteiros do meu grupo perguntávamos se queriam tornar-se escuteiros, se conheciam e compreendiam a Lei e a Promessa . De pé, com a mão sobre a bandeira, diziam a fórmula da Promessa, comprometendo-se pela primeira vez com algo para além da sua infância e família – com um conjunto de valores. Olhar nos olhos de cada criança que investi enquanto Chefe é um momento igualmente importante. O brilho nos seus olhos. A voz vacilante que se torna mais clara. O firme aperto com a mão esquerda. Estes são momentos importantes nas nossas vidas e são possíveis graças ao apoio de toda a Família Escutista – os Guias de Patrulha que preparam os novos elementos, os voluntários locais que disponibilizam o espaço… – muitas, muitas pessoas. Eles fazem-me lembrar os novos elementos, no projeto de Escuteiros de Rua, no Quénia, onde os jovens têm tanto orgulho em ser aceites no Escutismo e usar o uniforme, que “crescem” fisicamente, inchando os peitos com orgulho. Todos estes jovens querem mudar o Mundo. Deixá-lo melhor do que o encontraram. E nós, tu e eu, tornamo-lo possível. Esta é uma enorme responsabilidade, e eu apelo a todos nós para correspondermos às expetativas de cada vez mais jovens, aumentar a nossa quota de mercado, fortalecer os nossos membros, fazer a diferença nas suas vidas e no mundo.

David McKee é o Diretor Regional Europeu da WOSM, em Genebra, função que desempenha desde 2004. Anteriormente, foi Gestor Internacional da Associação Escutista do Reino Unido. O seu envolvimento com o Escutismo começou em 1966, quando se tornou Lobito na Irlanda do Norte, e esteve envolvido com a secção de Exploradores como Dirigente, desde os 16 anos, até assumir a atual função.

73


Por

Diana Neves

Experiência Erasmus Dia 27 de setembro de 2010. As malas estavam prontas, os documentos e papéis (um número generoso devo confessar) estavam guardados. Foi um enorme desafio colocar os pertences necessários para 10 meses em duas malas, mas estava habituada, como Escuteira, a escolher o essencial para as viagens. Quando cheguei pela primeira vez à Polónia, senti uma sensação estranha de pertença e de adaptação. Era aqui! Era neste solo, nestas paisagens, neste ambiente que ia fazer uma vida nova durante um longo período de tempo. Fomos recebidos por um mentor, um aluno selecionado pelo grupo ESN (Erasmus Student Network) para acolher alunos Erasmus. O Marcin acolheu-nos de uma forma encantadora e dedicada. Ele foi o nosso primeiro e melhor amigo polaco durante aqueles meses em que estivemos ali. Umas semanas depois vim a descobrir em conversa que ele tinha sido escuteiro. Não me surpreendeu de forma nenhuma, pois já me tinha apercebido da sua abertura, disponibilidade e paciência. Ser mentor do ESN é também uma forma de voluntariado e a forma como o Marcin se dedicava a essa tarefa espelhava a dedicação que aprendemos no Escutismo. Esta experiência mudou de uma forma incrível a perceção que tenho do mundo. A nossa vida não pode estar encerrada no país onde vivemos pois existe um conjunto infinito de oportunidades lá fora para descobrir, ver, saborear. No entanto, fazer um ano num programa Erasmus não é o mesmo que fazer uma viagem de alguns dias. Requer preparação, consciência, coragem e desapego. Sabia, ao partir, aquilo que viria a ganhar com a experiência, mas também tinha consciência daquilo que ficava.

74

As primeiras semanas naquele novo país foram as mais marcantes: adaptação, procura de casa, início das aulas. À medida que íamos conhecendo mais aquele país e os seus costumes, fomo-nos apercebendo da importância da casa. É aqui que os polacos se reúnem maioritariamente, onde convivem com amigos e família. Quando chegou o tempo frio e, com ele, a neve, conseguimos entender esse valor, pois todos os interiores eram muito bem aquecidos e acolhedores. Usávamos roupa quente no exterior e t-shirt no interior. A adaptação à neve foi fácil pois gosto imenso da sensação que nos dá, as paisagens que se transformam, os convites que surgem para a brincadeira, tudo fica mais bonito e iluminado. Não era nada difícil para mim andar sempre pronta para qualquer viagem ou passeio com neve. No segundo semestre, decidimos procurar uma vaga numa residência de estudantes. Aí a experiência foi diferente, mas igualmente gratificante. A partir do momento em que os dias foram ficando menos frios fui-me apercebendo que os polacos não eram apenas um povo de ficar em casa. Quando o tempo convida, vêm cá para fora fazer grelhados e sentarse na relva. Achei incrível aquele contraste entre o inverno e o verão. Percebi aquela adaptação tão significativa às condições e ao valor que devemos dar ao pouco que temos: ao sol, à neve, ao calor de uma casa e ao brilho de um raio de sol. Aprendi a ser adaptável e a aproveitar todo o tempo que temos disponível para viajar, conhecer, provar e apreciar. Outra coisa muito boa daquele ano foram os amigos que surgiram e que agora, mesmo separados por centenas de quilómetros de distância, continuam unidos e são capazes de se encontrar ocasionalmente em viagens que façam aos países uns dos outros. De facto uma das coisas que me deu mais prazer no ano seguinte foi receber alguns deles e poder mostrar o meu país aos outros e perceber que temos coisas maravilhosas. De facto, depois de ter estado 10 meses fora, passei a apreciar ainda mais o meu país e a coisa pela qual mais sinto saudades é de sentir saudades de Portugal. Se me perguntarem se ser escuteira faz a diferença nestas alturas, respondo sempre que sim. Ajuda-nos a dar valor a tudo o que nos envolve, a aproveitar todos os momentos para conhecer o local onde estamos, a sentir vontade de viajar e conhecer e a não desistir perante as dificuldades que surgem. «Persistir realiza o impossível.»

Escuteira desde 1999 no Agrupamento 901 de Caldas de S. Jorge. Estudou na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, tendo realizado Erasmus na Gdánsk University of Technology no ano lectivo de 2010/2011. É membro da Equipa Internacional desde 2012. Fez a sua promessa de Dirigente em 2013 continuando o trabalho que já tinha vindo a fazer na Alcateia. Para além de outras actividades internacionais já realizadas, em 2013 partiu à aventura com mais 3 escuteiros num Renault 5 atravessando Marrocos para participar num campo de voluntariado no projeto Scouting in R5.


Por

Eduard Vallory

Escutismo, cidadania e perspetiva global Juntamente com a educação do carácter, a educação para a cidadania tem sido um objetivo do Escutismo mundial desde a sua criação. No seu livro de 1919, Auxiliar do Chefe Escuta, Robert Baden-Powell escreveu: «Um Escuteiro é ativo a fazer o bem, não passivo ao ser bom. A cidadania passiva não é suficiente para manter as virtudes de liberdade, justiça e honra no mundo. Apenas a cidadania ativa produz resultados.» A cidadania diz sempre respeito a uma comunidade, e o movimento escutista combina os deveres da cidadania local, nacional e global. No Escutismo, as raízes locais e a identidade nacional são ferramentas que contribuem para gerar um sentido de pertença global, assim como a educação para a cidadania global contribui para enriquecer a ação local e o compromisso nacional, juntamente com os valores inclusivos da solidariedade e da paz. Existem dois elementos-chave que tornam isto possível. Primeiro, para além de acolher várias identidades, o Escutismo também mitiga os seus excessos, através da declaração explícita de que as identidades nacionais e religiosas devem coexistir na diversidade: não há um país melhor do que o outro; não existe uma religião superior a outra. Segundo, o compromisso inequívoco em relação ao conteúdo da Declaração Universal de Direitos Humanos, como um enquadramento para os valores partilhados do Escutismo. O resultado social mais importante do Escutismo é a sua fundação de gerações de indivíduos que são responsáveis, moralmente autónomos e com espírito crítico, tornando-se assim agentes da mudança. Os valores inclusivos do Escutismo (valores de coexistência) são a base para aqueles milhões de indivíduos que devem estar aptos a definir o seu modelo de sociedade e a liderar a mudança social para a sua melhoria. É verdade que, aparentemente, os valores do Escutismo para a educação da cidadania preservam uma estabilidade sociopolítica: apoio para a ordem política estabelecida em cada país, alianças com as instituições legítimas de autoridade, assegurando que os valores sociais e as normais permanecem e não ultrapassam os limites. Não obstante, a educação para a cidadania no movimento escutista tem sido fonte de resistência física contra as ordens sociais consideradas injustas: enfrentar a discriminação aquando da colonização, opor-se à segregação racial, resistir às ditaduras, ultrapassar conflitos armados entre países, marcar uma posição contra a discriminação das mulheres e, em algumas sociedades, até mudar a homofobia. A diferença entre estas duas realidades é a diferença entre o Escutismo como organização e o Escutismo como um movimento. Os valores do Escutismo são intrinsecamente inclusivos, não exclusivos; apesar de baseados em voluntários em cada sociedade diferente, a organização dificilmente consegue escapar às controvérsias trazidas pelo debate sobre a preservação ou mudança de valores culturais experienciado pelas sociedades. Por isso, não entra em choque com os valores e instituições sociais predominantes, exceto em casos extremos. Mas enquanto movimento voluntário, o Escutismo é uma fonte de indivíduos críticos que querem fazer a mudança acontecer, baseada nos valores inclusivos que partilham, mesmo quando sentem que a sua associação não está a ser consistente com esses valores: no Escutismo, os jovens aprendem a extrair a coerência dos valores no exemplo do chefe e na prática da sua associação escutista, usando o seu espírito crítico. É, por isso mesmo, uma verdadeira escola de cidadania. Por muito importantes que sejam as identidades, estas são construções humanas e mudam ao longo do tempo. Sendo um movimento baseado na diversidade, o Escutismo desempenha um papel muito importante para evitar choques culturais e conflitos de identidades e promover a tolerância, a compreensão da diferença, o apreço pela diversidade e a capacidade de lidar com a complexidade. Visto que as guerras começam nas mentes das pessoas, é lá que as defesas da paz devem ser construídas. E essa construção é uma tarefa para a educação.

Diretor da Barcelona Graduate School of Economics, doutorado em Ciências Políticas, autor do livro: World Scouting: Educating for Global Citizenship. Entre 1995 e 2000 foi Secretário Internacional do Escutismo e Guidismo Catalão.

75


Por

Francisco Rosa

Olá! Sou o Francisco Rosa, tenho 18 anos e sou escuteiro do Agrupamento 1198, Stº Agostinho – Leiria. Sou estudante universitário e escuteiro há 11 anos. O 22.º Jamboree Mundial na Suécia foi a minha primeira experiência internacional e decerto não será a última, porque realizo-me participando no sonho de Lord Baden-Powell. Para mim, o Jamboree Mundial da Suécia foi uma experiência que ultrapassou qualquer limite do imaginável, uma atividade ímpar com o melhor que o Escutismo me pode dar, ensinar e partilhar. Vivi duas semanas de “Simplesmente Escutismo”, o que me deixou simplesmente grato. Uma das experiências que contribuiu para tal foi a de ter participado no Fórum das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas, em que os intervenientes eram escuteiros. Foi uma simulação da ONU no Jamboree, altamente gratificante e inovadora. Após uma pré-seleção, fui submetido a um casting no Quartel-General do Contingente Português. Após um teste à nossa criatividade, capacidade de falar inglês e conhecimento sobre a matéria em questão, fui o selecionado para representar Portugal, em conjunto com um escoteiro da AEP. Confesso que fiquei assustado, pois tomei consciência que o assunto era um pouco mais sério do que pensava e que poderia não estar à altura do acontecimento. Tentei preparar-me o melhor que pude com o apoio do contingente, para estar preparado para este grande desafio.

76

Nesse dia, dirigiram-nos até ao Parlamento de Scania, onde fomos acolhidos pelo Comité da Organização Mundial de Escutismo, que tem um papel relevante na ONU. Estavam representados 67 países, cujos delegados iriam trabalhar em grupo. De entre os diversos domínios sobre as Alterações Climáticas, escolhemos um para analisar e encontrar soluções. Depois de debatermos, discutirmos projetos inovadores, termos falado com especialistas ambientais, chegámos ao nosso trabalho final. Seria imperioso angariar assinaturas de vários países para que a nossa proposta fosse a mais votada, em assembleia final. Os delegados-escuteiros expuseram os seus pontos de vista, corrigindo os projetos dos seus grupos de trabalho, partilhando e discutindo. Enfim, foi um dia cheio em política. No entanto, fiquei dececionado com o facto de a maioria dos delegados estar mais preocupada com aspetos financeiros dos seus países do que com as questões ambientais. Na sessão final, defendemos as propostas apresentadas, conscientes dos ideais escutistas e dos interesses nacionais. Deverei realçar que uma das nossas propostas incidia na urgência em forçar os países a diminuir as emissões de CO2, em prazos estipulados, proposta esta que foi aprovada com grande adesão. O mais surpreendente é que os projetos deste fórum foram debatidos posteriormente no COP17, uma conferência da ONU sobre Alterações Climáticas, que se realizou em setembro. Neste dia, tivemos a oportunidade de contribuir para mudar o mundo, de comunicar, de aprender, de partilhar... Tivemos nas mãos a responsabilidade de mudar o futuro, algo inesquecível para adolescentes que somos. Penso que contribuímos para a grande missão que Baden-Powell nos deu: «Deixar o mundo um pouco melhor do que o encontrámos…» Apelo a todos os meus irmãos escutas que não percam a oportunidade de uma atividade mundial, para que possam fortalecer o seu agrupamento, promover o seu país e... quem sabe? ter uma inesperada aventura!... Obrigado ao Contingente Português do Jamboree por esta única e gratificante experiência.

A frequentar a licenciatura em Engenharia Alimentar é Escuteiro desde 2001, tendo passado por todas as secções, desempenhando cargos de liderança. Participou no Acanac 2007 e de 2012, Acareg Leiria 2004 e 2008, Jamboree Mundial Suécia 2011, tal como no Jamboree UN Simulation 2011 e no WORLD SCOUT MOOT Canadá 2013.


Por

Joana Osório Contar uma experiência, seja ela qual for, é transformá-la. Por mais detalhado que seja o relato, é impossível fazer o filme da nossa memória passar tal e qual na imaginação dos nossos ouvintes. Sabê-lo é desmotivante; no entanto, saber que as nossas experiências podem inspirar os outros a irem procurar a sua própria aventura é infinitamente mais gratificante do que apenas guardar aquilo que vivemos no álbum de memórias. Ajudar a abrir as portas do mundo aos outros, através da partilha, é aquilo que nos leva a estar presentes em atividades como o Mercado Internacional 2009.

Foi neste espírito que, há quatro anos regressei de uma das experiências mais enriquecedoras da minha vida: quatro meses de voluntariado no Kandersteg International Scout Centre. Naquele verão, o lago de Oeschinensee era o lago à porta de casa e, nas noites em que percorria as ruas de Kandersteg e sentia o aconchego das montanhas com as suas silhuetas noturnas e silenciosas, admirava-me com a perfeição daqueles momentos. Nessas noites, encerrava os dias com os ouvidos ainda a zumbir com o barulho do trabalho e dos milhares de escuteiros em atividade com quem me cruzava todos os dias. Tudo na vida batia tão certo, que se eu me pudesse congelar naquele momento, seria para sempre feliz. Durante os meses do verão, a vida em Kandersteg é intensa. Trabalha-se até o corpo ficar moído de cansaço e de sono; ouve-se falar as mais variadas línguas em todas as idades e em muitas culturas, cozinham-se milhares de refeições, e há sempre jogos, canções e muita diversão. Nas horas livres, o descanso consiste em subir montanhas, escalar rochas, desafiar os limites do corpo para conquistar paisagens. Daquelas que só quem as conquista é que sabe do que falo. Quando voltei, voltei para o mesmo lugar, mas eu vinha diferente. Não queria contar para que me percebessem; queria, sim, partilhar para que outros tivessem vontade de se desafiar, de questionar se a possibilidade de também eles partirem era assim tão remota, e se era assim tão difícil ultrapassar os obstáculos mais óbvios: a faculdade, o trabalho, e todas as amarras com que nos cosemos no dia-a-dia. As amarras, essas, estão sempre à nossa espera quando regressamos. Mas, quando saímos da nossa zona de conforto, adquirimos uma nova perspetiva sobre o nosso mundo; o que era obstáculo passa a ser desafio, o que era dificuldade passa a ser uma oportunidade para aprender e crescer. É muito semelhante à subida de uma montanha; em vez de nos encostarmos, confortavelmente, a apreciar os cumes de cá de baixo, achando-nos fisicamente incapazes de as subirmos, enfrentamos o desafio. Cansamo-nos e sofremos nas subidas, mas o sentimento de conquista que se tem da paisagem torna-se numa lente mágica e transporta os mesmos cumes que víamos de cá de baixo para uma dimensão completamente diferente. Nos últimos anos, tenho visto um número cada vez maior de escuteiros a procurar esta experiência em Kandersteg, regressando com o mesmo brilho nos olhos e a mesma incapacidade para colocar em palavras a dimensão daquilo que se viveu. E, por isso, é difícil regressar. É difícil voltar a encarar o que é familiar quando nós estamos diferentes. Mas é por isso que é tão importante fazer as malas e ir. Porque só vivendo é que construímos o nosso próprio álbum de memórias, e essas memórias são o que nos permite colocar a vida em perspetiva e fazer balanços sucessivos do que somos, de como somos e do que queremos para as nossas vidas. Sair, viajar e descobrir transforma-nos; transfigura a forma como encaramos o mundo e o nosso dia-a-dia. Acima de tudo, partir é reinventarmo-nos: é descobrirmos que somos capazes de muito mais do que aquilo que alguma vez imaginámos. Que o mundo é infinito e, ao mesmo tempo, é nosso.

Escuteira desde 1992. Participou, pela primeira vez, numa atividade internacional no Jamboree da Tailândia em 2002/2003. Foi voluntária no Kandersteg International Scout Centre, em 2009. É Dirigente do CNE desde 2010, atualmente responsável pela III Secção no Agrupamento 527 – N.ª Sra. do Amparo, Póvoa de Lanhoso. Membro da Secretaria Internacional desde 2010.

77


Por

Luís Francisco

O trabalho na Secretaria Internacional do CNE Se se fizer um exercício de reduzir à base zero o trabalho desenvolvido no nível nacional do Corpo Nacional de Escutas (CNE) e a partir daí se enunciar o que realmente é relevante para o CNE, o trabalho desenvolvido no âmbito da Secretaria Internacional (SI) será com certeza um dos reconhecidos como necessário e útil para o CNE. A Secretaria Internacional do CNE é aquela em que per si, ao nível nacional, mais correspondência recebe e expede. Trata-se muitas vezes de um trabalho oculto que não é de todo percecionado ao nível da associação. O CNE é membro de pleno direito da Organização Mundial do Movimento Escutista (OMME), pelo que deve ser um parceiro integrado e com voz empenhada entre os seus pares. A ação da SI contribui concerteza para a sedimentação de ideais de fraternidade e de paz, para a construção de projetos comuns entre povos e gentes, onde há partilha, onde se dá e se recebe, característicos do espírito escutista e do Homem Novo preconizado pelo CNE. A dimensão internacional do Escutismo sempre foi e é cada vez mais um contributo valioso para o projeto educativo do CNE. Vivendo-se numa Aldeia Global, o intercâmbio entre pessoas e povos é praticamente uma constante e uma necessidade. O movimento escutista desde os seus primórdios extravasou fronteiras com um ideal de fraternidade e de paz, entre escuteiros, entre pessoas, entre nações e povos. A participação de um escuteiro numa atividade internacional deixa marcas, sendo bem vivida engrandece o espírito escutista e contribui para a maturidade do indivíduo.

78

Neste contexto, a SI tem um papel fundamental como facilitadora de contactos, de segurança e de garantia de qualidade. Por ela passa toda a mobilidade internacional do CNE, a cooperação, a educação para o desenvolvimento, a participação em eventos internacionais – Jamborees, etc. -, a formação para uma educação e cultura internacional – Encontros de Preparação Internacional, Travessia, etc. Em termos institucionais, a pertença do CNE à OMME faz parte da sua matriz fundacional e é uma das suas ligações umbilicais. O CNE recebe e dá através da sua participação internacional. A envolvência de Dirigentes do CNE em estruturas internacionais do Escutismo, em seminários, em conferências, na organização de atividades, tem permitido partilhar ideias e experiências, enriquecendo o CNE, facilitando a melhoria e inovação no seu seio, também prestigiando-o face ao seu contributo e exemplo de boas práticas. Em consonância com a Junta Central, enquadrando-se com as deliberações dos Conselhos Nacionais do CNE, cabe à SI a implementação da política internacional do CNE. Ouvindo e fazendo ouvir a sua voz no âmbito da OMME e das Conferências Internacionais, dando e recebendo contributos, também unindo-se a parceiros com os quais existem afinidades, nomeadamente os dos contextos da Conferência Internacional Católica do Escutismo (CICE), do Grupo de Lisboa, da Cimeira Ibérica, da Comunidade do Escutismo Lusófono (CEL), entre outros. Ao longo da história do CNE, embora com altos e baixos, a dimensão internacional do Escutismo tem marcado o evoluir da associação. Mantendo a sua identidade e o seu ritmo, o CNE tem sabido tirar partido da sua integração internacional. O CNE sempre que tem atualizado o seu programa educativo tem aproveitado a experiência e estudo já efetuado por parceiros internacionais. Atualmente mais mas também sempre, o CNE tem organizado e participado em atividades internacionais, sendo estas contributos valiosos para o espírito escutista no seio do CNE e para o desenvolvimento pessoal dos participantes. As pessoas que têm liderado e colaborado com a Secretaria Internacional do CNE ao longo dos anos têm-no feito de uma forma apaixonada e com sentido de dever. De um mandato para o outro, mudam os protagonistas mas regista-se geralmente a colaboração e interesse dos que tiveram experiências anteriores. Esta tem sido uma forte mais-valia da Secretaria Internacional e que com certeza contribui para o prestígio que o CNE granjeia internacionalmente.

Lobito, Explorador, Pioneiro, Caminheiro, Dirigente, Chefe de Clã, Chefe Departamento Regional IV Secção, Secretário Nacional Financeiro, Chefe Regional, Membro da Chefia do Contingente ao Jamboree na Holanda, Secretário Internacional, Diretor de Formação.


Por

Marco Faustino (Urso Pisteiro)

O Escutismo no mundo Sendo o Escutismo uma das maiores escolas a nível global, conseguiu, com um modelo muito próprio e universal, mas ao mesmo tempo adaptado às realidades locais, uma rápida implementação a nível global. É curioso notar que esse crescimento foi sustentado ao longo dos últimos 100 anos e que hoje se afirma como um projeto valido e adaptado ao século XXI! Desde o início, nos primeiros anos do século passado, o Escutismo apresentou uma taxa de crescimento muito elevada e, ultrapassando rapidamente fronteiras, cedo se tornou claro ser necessário criar um mecanismo de regulação a nível global. Assim, surge a Organização Mundial do Movimento Escutista (OMME ou WOSM, na versão anglófona) que congrega um elevado número de associações nacionais e com a maior representação de escuteiros a nível global. Como princípio orientador, a OMME reconhece uma associação nacional por país. Havendo mais do que uma torna-se necessário a agregação de várias associações numa federação, sendo então esta que se encontra filiada na OMME. Assim aconteceu em Portugal, onde CNE e AEP se juntaram na Federação Escutista de Portugal (FEP) que representa institucionalmente os escuteiros portugueses quando os mesmos realizam atividades fora do território nacional. A OMME representa, segundo os censos de dezembro de 2011, 161 países e mais de 36 000 000 de escuteiros em todo o mundo. Segundo a mesma fonte, é interessante notar que a Indonésia ocupa o primeiro lugar da lista com números impressionantes: 21 032 755 escuteiros filiados e uma taxa de penetração na população de 8,85%. Também interessante é a distribuição de culturas e mesmo de religiões presentes nos vinte primeiros países em termos de efetivos, estando a Ásia bem representada, mas também com presenças importantes da América do Norte, África e Europa. Portugal (FEP) ocupa um honroso décimo nono lugar com 79 032 escuteiros filiados, mas com uma boa taxa de penetração na população de 0,76%, sendo uma das melhores taxas a nível mundial, por exemplo a Alemanha apresenta uma taxa de 0,14% e a França de 0,12%. É ainda de estranhar a ausência de países da América do Sul na listagem dos vinte maiores efetivos mundiais, o que só por si poderá ser um indicador de que existe margem de crescimento nesses países. Numa perspetiva de diálogo, potenciando a troca de experiências, projetos, materiais educativos e apoio em eventos mundiais, surgiu em 1995 a Comunidade do Escutismo Lusófono (CEL), que reúne as associações escutistas que adotam o português como língua oficial: Angola, Brasil, Cabo Verde, Moçambique e Portugal. A CEL agrupa assim um número significativo de escuteiros de três continentes com vivências distintas e que, juntos, podem contribuir para o enriquecimento de todos os envolvidos no movimento escutista, quer localmente ou através de projetos bilaterais ou nas grandes atividades mundiais. Com este trabalho de equipa, bem ao estilo do movimento escutista e ao gosto do nosso fundador B-P, criamos uma família escutista lusófona de 186 786 escu(o)teiros que, para além de partilharem o ideal escutista, têm um laço forte de união pela língua comum.

Escuteiro desde 1988, Explorador, Pioneiro, Caminheiro e Dirigente desde 1998, Chefe de Comunidade, Chefe de Clã, Secretário de Núcleo, Assessor do Secretário Internacional, membro da chefia dos contingente nacional ao Jamboree de Inglaterra e da Suécia, Adjunto de Formação e actualmente Chefe de Agrupamento e de Expedição.

79


Por

Olga Cunha

O VIVENDO (N)A NOSSA ALDEIA Desenvolvimento de competências e a experiência internacional Atualmente, viajar, sobretudo no contexto europeu, é relativamente fácil e acessível. Nos últimos anos, o número de pessoas que viajou para outros países foi enorme, tendo-se observado um crescimento de passageiros de 2,1% e 6%, face a 2009, nos transportes internacionais ferroviários e aéreos, respetivamente. Só as empresas de transportes aéreos nacionais transportaram 10,5 milhões de passageiros em 2010. O que nos leva a viajar? Trabalho? Lazer? Decerto, estas serão as principais razões, mas… e o que adquirimos ou conquistamos com estas viagens? Para além do prazer que habitualmente retiramos das viagens, sobretudo quando falamos de lazer, há decerto outros interesses, outros proveitos associados… senão vejamos, conhecer outros lugares, outros aromas, realidades, gastronomia, formas de estar e pensar, línguas e linguagens. Todos estes fatores nos ajudam a desenvolver numerosas competências, as quais, por vezes, só detetamos quando as colocamos em prática, sobretudo por necessidade. Um exemplo disso é o uso de uma língua estrangeira. No nosso sistema de ensino, o inglês é a língua mais aprendida, sendo iniciada já no ensino pré-escolar e sobretudo no 1º ciclo. Quem percorre todo o sistema de ensino tem, em média, cerca de 7. a 11 anos de aprendizagem, mas a consciência da sua aquisição surge quando necessitamos de a colocar em prática, seja oralmente, seja para compreender um texto, uma informação ou até uma letra de uma música que ouvimos e da qual gostámos. 80

E que dizer da memória? Quantas imagens não guardamos no nosso cérebro, com a vantagem de as associarmos, geralmente, a situações, a pessoas, a cheiros, enfim, a experiências vividas com os cinco sentidos. Tenho tido a sorte e a oportunidade de viajar para alguns países, em contexto escutista. Houve sobretudo duas experiências que me ajudaram a crescer enquanto pessoa, enquanto Escuteira (como se não fossem a mesma coisa… as faces de um mesmo prisma que convergem num único ponto), a minha participação no 7º Fórum Mundial de Jovens, na África do Sul (1999) e a participação no Moot, que decorreu no México em julho de 2000. O que aprendi? Pensar nisso passados estes anos obriga a um esforço de memória, sobretudo afetiva. Durante esses dias, para além dos debates, o maior desafio foi comunicar e trabalhar com escuteiros de muitos países diferentes, com formas de estar e pensar muito diversas da minha, mantendo não só um espírito aberto, mas também a minha identidade. As experiências vividas motivaram-me a sair do meu conforto mental pessoal, a desenvolver competências que tenho utilizado nas diversas áreas que compõem a nossa vida (profissional, afetiva, escutista) e sobretudo a não ter medo de apostar, de sonhar que é possível deixar o mundo um pouco melhor do que o encontrámos, sendo que as fronteiras desse mundo somos nós que as construímos.

Referências: • Instituto Nacional de Estatística, I.P. (2011). Estatísticas dos Transportes 2010. Lisboa: INE-IP CV • Secretária Executiva dos Recursos Adultos desde 2008. • Membro do Grupo Europeu de Trabalho dos Adultos, de 2009-2011. • Delegada do CNE ao 7.º Fórum Mundial de Jovens, 1999, África do Sul. • Delegada do CNE à 35.ª Conferência Mundial do Escutismo, julho de 1999, Durban – África do Sul. • Delegada do CNE à 36.ª Conferência Mundial do Escutismo, julho de 2002, Tessalónica – Grécia. • Participante no Moot 2000, México.


Por

Pe. Rui Silva

O ESCUTISMO CATÓLICO NO MUNDO A realidade do “Escutismo Católico” não é unívoca, como o atesta a sua própria história. Em primeiro lugar, é importante referir que não se pode falar adequadamente de “Escutismo Católico” fora do quadro da Organização Mundial do Movimento Escutista (OMME) pois a este organismo compete o reconhecimento da prática de “Escutismo” em cada grupo ou associação, na linha do legado de Baden-Powell. Mas quanto à história do “Escutismo Católico”, é importante dizer que ela é precedida pela história de muitos “católicos no escutismo”. Como é do conhecimento geral, Baden-Powell criou o Escutismo numa perspetiva pluriconfessional. Atestam-no imensos textos em que é explícita a importância da dimensão espiritual e religiosa do Escutismo. Se o Escutismo não foi criado em estreita ligação com nenhuma religião em particular (embora a sua inspiração de base seja claramente cristã), fica também muito claro nos textos de Baden-Powell que não se pode ser escuteiro sem se “ter uma religião”. A questão que aqui agora se coloca é a de saber se podemos falar verdadeiramente de “Escutismo Católico”, ou seja, se esta dimensão é exclusivamente individual ou se, em acréscimo, pode ter também uma expressão comunitária. A título individual, não sabemos qual foi o primeiro católico escuteiro. Pode ter sido algum dos rapazes de Brownsea, ou outro que nos anos seguintes tenha abraçado o Escutismo. A título comunitário, é sabido que o Papa Pio X (1903-1914) escreveu um documento em 1913 de aprovação e bênção da associação “Belgian Catholic Scouts (BCS)”, sabendo-se já da existência anterior de pequenos grupos locais de “Escutismo Católico” em vários países. O apoio pontifício é aqui determinante, pois sem esse a nota de catolicidade não seria admissível, mas é igualmente importante recordar que a grande figura impulsionadora do “Escutismo Católico” – que foi o Pe. Jacques Sevin – tendo travado conhecimento e amizade com Baden-Powell e tendo desenvolvido experiências de implementação do método escutista à luz do Evangelho e em matriz católica, recebeu do próprio fundador do Escutismo o apreciável elogio: “la meilleure réalisation de ma pensée est celle d’un jésuite français” (Cfr. website dos SGdF). Ou seja, Baden-Powell aprovou e incentivou a obra nascente de “Escutismo Católico”, o que ajuda a entender o lugar no presente que o “Escutismo Católico” deve ter. Em minha opinião, esse lugar é próprio e deve contribuir para o enriquecimento mundial do Escutismo pois onde há Escutismo verdadeiramente católico há desejo de diálogo com todos, há respeito, compreensão e fidelidade aos princípios do Escutismo segundo a especificidade católica. Esta é uma das realizações do “Duty do God” da Promessa. Não a única mas uma igualmente legítima e importante como as demais.

Assistente Nacional do CNE 2007-2013 e Assistente da Região Europa-Mediterrâneo da Conferência Internacional Católica do Escutismo desde 2009. O Padre Rui Jorge de Sousa Silva é Bacharel em Engenharia, Mestre em Teologia Sistemática e prepara o seu Doutoramento. É membro do presbitério de Lisboa. É escuteiro desde os 6 anos de idade e tem já vasta experiência internacional com presença em Jamboree, Moot, Simpósios Inter-religiosos e Seminários ecuménicos no Escutismo.

81


Por

Pedro Duarte Silva

O ESCUTISMO CATÓLICO NO MUNDO O Escutismo é, também, por excelência, espaço de encontros, espaço de encontro. Encontros entre pessoas, pessoas que juntas desenvolvem fraternidade, formam comunidade. É assim na Patrulha, na Unidade, no Agrupamento… até à escala global. Encontro de pessoas, por isso também, sobretudo à escala internacional, encontro de religiões. Não perspetivo a pessoa sem uma dimensão espiritual ou religiosa, tal como Baden-Powell também não o perspetivava, nem o Escutismo, genuíno e fiel ao espírito do fundador, o perspetiva. Daí que o encontro de pessoas é também sempre, de forma mais ou menos explícita, um encontro de religiões, religiões que convivem, dialogam, interagem… Encontros que se dão na informalidade de encontros, reuniões ou atividades; nas conversas, partilhas e debates; na interação quotidiana de hábitos e costumes diferentes, mas mutuamente aceites e respeitados. Encontros também propositados ou formais, como sejam a presença oficial das diversas religiões em espaços como o Faith and Believes zone nos jamborees mundiais, onde nos é dada a conhecer a identidade e realidade de cada uma, que acolhe e se apresenta sem intentos prosélitos. São encontros que, possibilitando a compreensão do “outro” na vivência da sua religião, permitem e potenciam um maior e melhor conhecimento e entendimento mútuos, que constituem verdadeiros alicerces na construção da paz... 82

Não resisto a terminar com um episódio que vivi em setembro de 2003, quando fui mandatado para representar o CNE numa sessão de estudo sobre espiritualidade no Escutismo, promovida pela região europeia, em Estocolmo. Ali passámos um agradável fim de semana, apresentando-nos e conhecendo-nos, dialogando e partilhando, crescendo… Ali estávamos cristãos (católicos, protestantes e ortodoxos), judeus, muçulmanos e sikhs; representantes de associações confessionais, pluriconfessionais e pluralistas; representantes ainda de conselhos e conferências confessionais de associações escutistas. No último jantar, um jantar típico sueco em casa de um dos promotores, ficámos o serão todo à volta da mesa numa conversa que redundou num festival de anedotas. Com a particularidade de serem anedotas – bem-humoradas – das próprias comunidades religiosas sobre aspetos da sua religião ou religiosidade – os ministros de culto, práticas orantes ou alimentares, do jejum, etc. O mais engraçado daquilo tudo, mais do que cada anedota em particular, era a similitude das anedotas entre as diversas religiões, muitas vezes apenas mudando as terminologias. Por exemplo, não raras vezes os judeus, perante uma anedota cristã, diziam «nós também temos essa, com os rabinos», algo que se passou entre todas, ou quase todas as religiões. Aquele serão foi, também ele, na sua informalidade e jovialidade, uma lição do elemento comum que atravessa os homens e as suas religiões, elemento que é causa e efeito de encontros. Dali saíram novas amizades e muitos frequentemente nos fomos voltando a encontrar, ora trabalhando em comités e grupos comuns, ora em jamborees e outros eventos, ora mesmo convidando-nos mutuamente para iniciativas promovidas no âmbito de cada um. De facto, o Escutismo é mesmo espaço de encontros, espaço de encontro. Também de religiões…

• Secretário Nacional Pedagógico (2008-2013). • Representante do CNE na Sessão de Estudo sobre Espiritualidade no Escutismo (2003). • Membro do Comité Regional da CICE-EM (2003-2009). • Membro do Grupo de Trabalho sobre Espiritualidade no Escutismo da Região Europeia da OMME (2007-2010). • Coordenador do Grupo de Trabalho sobre Youth Empowerment da Região Europeia da OMME (2010-2013). • Membro do Grupo de Trabalho da CICE para a Educação (2012-…).


Por

Vitor Borges

Construção para a Paz – B-P/Vida Militar – Experiência Internacional Algumas vezes perguntam-me porque decidi ser militar e como começou o meu gosto pelas viagens. A resposta a essas perguntas está intimamente ligada com o facto de ter entrado para os escuteiros aos seis anos, momento que marcou a minha vida de forma indelével, traduzindo-se no homem que sou hoje! Durante o meu crescer e viver nos escuteiros, tomei contacto com o ar livre e aprendi a fazer muito com pouco, estar confortável onde outros só encontrariam desconforto, ser desenrascado nas mais variadas situações mas a saber trabalhar em patrulha, vivendo em harmonia vários dias com pessoas com feitios diferentes, sabendo tirar o melhor da cada um e fazendo amigos para toda a vida. Aprendi também a experimentar novas situações, a ter gosto pelo desconhecido e a tomar a liderança e percebi que o Escutismo foi fundado por um homem excecional que, marcado por uma carreira militar brilhante e plena de experiências em várias partes do globo, criou este movimento fantástico. Imaginei assim as vivências de B-P na Índia, África do Sul, Malta e Rodésia e o contacto com gentes de tribos diferentes, como Zulus, Matabeles e Ashantis e como teria sido passar os 217 dias cercado em Mafeking. Assim, ao contrário do que sucedeu com B-P, a quem as experiências da sua vida militar o levaram a fundar o Escutismo, o Escutismo marcou-me ao ponto de escolher a vida militar. Contudo, B-P foi escuteiro depois de ser militar, e no Escutismo aprendemos a acreditar que devemos ser instrumentos de paz, por isso como poderia escolher a condição dos que combatem as guerras? Acredito que, como escreveu Guerra Junqueiro, «nós não queremos a guerra, mas quando a arma que mata defende a liberdade de viver, os santos choram, mas não acusam»; por isso, aos 18 anos, entrei na Academia Militar. Logo desde os meus primeiros anos de vida militar, apercebi-me que muito do que aprendi no Escutismo me ajudou a superar muitas dificuldades e que algumas coisas que aprendi no seio militar serviram para aplicar nos Escuteiros. Nos Caminheiros, a divisa é Servir, ou seja, pormo-nos ao serviço dos outros, tentando fazer a diferença e dar o nosso contributo para tornar o mundo melhor, como Edmund Burke escreveu um dia: «tudo o que é necessário para o triunfo do mal é que os homens bons nada façam.» Com isto em mente, mostrei-me disponível para integrar missões humanitárias e de apoio à paz e fui destacado para a Bósnia Herzegovina. Pela primeira vez, tive a oportunidade de viver num país estrangeiro e, aproveitando o período de licença de férias, troquei a ida a Portugal por um périplo por alguns países próximos. Foi a minha primeira viagem “ multipaíses” e “overland”, ou seja, viajando por terra, de destino em destino. Estas experiências de missão e viagem foram deveras enriquecedoras pela descoberta de novos lugares, sons, cheiros e, principalmente, de pessoas e foram um “acordar” para outras que se seguiram. Depois desta primeira missão, servi Portugal no estrangeiro mais quatro vezes. Regressei aos Balcãs mais duas vezes mas, desta vez, para o Kosovo, após o que deixei a Europa e fui para a Ásia, onde prestei serviço também por duas vezes no Afeganistão. Entre e durante missões continuei, também a viajar, percorrendo praticamente toda a Europa, parte da América do Sul e Central e alguns países da Ásia, em viagens turísticas ou atividades de escuteiros. Este gosto que se enraizou em mim conduziu-me a um projeto de viagem mais longo e elaborado e, assim, viajei de mota durante 93 dias, por três continentes e 32 países, perfazendo 29 000 km e cruzando-me com muitos amigos militares e escuteiros, que conheci em viagens anteriores e fazendo muitos outros, que encontrei pelo caminho. Não sei qual será a minha próxima missão ou viagem, mas o “bicho” de viajar e conhecer novos mundos e suas gentes continua em mim e planos não faltam, por isso estou certo que outras se seguirão!

Adjunto da Secretária Internacional e oficial do Exército Português.

83


84


85

Mais do que testemunhar Ê ser testemunho. Que sejamos capazes de ser exemplo de vida na construção de um mundo melhor.


86


Palavras finais Cidadania?... que cidadania? Quem se aventura um pouquinho nas leituras sobre a ideia de cidadania cedo perceberá que o conceito foi mudando ao longo dos tempos. E se puxarmos pelos nossos conhecimentos de história, com certeza lembraremos que ser cidadão na Grécia Antiga não era o mesmo que ser cidadão no Renascimento ou, principalmente, após a Revolução Francesa, com os seus ideais de igualdade, liberdade e fraternidade, considerados a raiz da cidadania moderna. De qualquer modo, nessa “viagem” acidentada pela História, o termo cidadania sempre se referiu à relação que um indivíduo desenvolve com o “ambiente” onde vive (cidade, país…) e aos direitos e deveres que assume nesse contexto. Desde o início que Baden-Powell definiu o Escutismo como um ambiente de formação para a Cidadania (e usa o termo inúmeras vezes nos seus livros). Se queremos continuar a cumprir tal tipo de missão, temos de saber bem de que cidadania estamos a falar no início do século XXI, em que os contextos sociais e culturais são tão diferentes do que eram há 100 anos atrás e em que os “ambientes” nos quais vivem os jovens (e cada um de nós) se expandiram e se misturam como nunca antes. A crescente mobilidade, a tecnologia, as novas formas de comunicar, a incerteza, a nuvem de informação disponível, os novos padrões de relacionamento, as diferentes formas de organização e funcionamento, as sociedades multiculturais, as ameaças ambientais… tudo isto são realidades de um mundo que se tornou responsabilidade de todos e para o qual é hoje possível intervir de uma maneira como nunca antes aconteceu. O nosso dever é o de sempre: providenciar oportunidades de aprendizagem que permitam apetrechar os jovens com as “ferramentas” necessárias para que eles se sintam confortáveis a intervir nos seus “ambientes”. Acontece que esses “ambientes” se expandiram muito para além da paróquia, da freguesia, da cidade e mesmo do país ou do continente. Por isso, a dimensão internacional no Escutismo tem hoje uma importância ainda maior: é que precisamos de ajudar a equipar os cidadãos globais que este mundo exige. Ao pertencer a uma rede mundial de mais de 35 milhões de pessoas com quem já partilha valores, rituais, posturas, cada jovem tem uma oportunidade única de explorar, no concreto, os desafios da cidadania dos dias de hoje, na qual a dimensão global ganha um peso crescente. Esta é, sem dúvida, uma das “vantagens competitivas” que o Escutismo pode apresentar no campo da educação para a cidadania. Só precisamos de a potenciar e aproveitar. João Armando Gonçalves Escuteiro desde 1976. Dirigente desde 1986. Foi chefe de unidade de várias secções e chefe de agrupamento. Desempenhou funções no nível nacional desde 2000, nas áreas pedagógica e internacional. Foi membro do Comité Europeu 2004-2010. É membro do Comité Mundial desde 2011.

87


88


89

Conclusão

Educação para a cidadania global. Certamente que muito ficou por dizer, muito há para fazer. Este tema não esgota e pode ser explorado de acordo com a nossa própria dimensão individual e coletiva. Cabe-nos a cada um de nós em particular e a todos em conjunto sermos capazes de agir e habitar esta nossa aldeia global de uma forma mais equilibrada e sustentável. Sejamos verdadeiros cidadãos do mundo.


Educação para a cidadania global  

Secretaria Internacional

Advertisement