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Evangelista

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Paulo

“Era dia, era claro, quase meio, era um canto calado sem ponteio, violência, viola, violeiro, era a morte em redor, mundo inteiro” Edu Lobo e Capinam

vai morrer

Fernando Evangelista

daqui a pouco Paulo olhou o relógio com preguiça: era quase meio-dia. Ouviu vozes na cozinha e sentiu o cheiro de um de seus pratos prediletos: feijão. Sem pressa, levantou-se da cama, na parte de baixo do beliche, abriu as janelas e saiu do quarto. As irmãs e o cunhado já estavam sentados à mesa do almoço. “Tem feijoada com bastante carne e lingüiça”, disse a mãe, em pé, próxima ao fogão a lenha. Era assim que ele gostava e ela sabia. Apenas de short, sem camisa, com um corpo atlético de 1 metro e 90 de altura, ele respondeu ao comentário da mãe balançando a cabeça. Esfregou as mãos, bem lentamente, nos próprios braços cruzados sobre o peito, em forma de “x”, como se estivesse com frio. Era uma espécie de cacoete. “Hoje, este teu sobrinho aqui faz três meses”, comentou a irmã, mexendo na barriga. Havia três meses, a irmã descobrira que estava grávida. E, num acaso infeliz, naquele mesmo dia, o pai de Paulo sofrera um derrame cerebral e se tornara inválido, vivendo, desde então, com graves seqüelas físicas e mentais. Com cara de sono, cabelos revirados, Paulo foi até a sala de televisão, onde estava sentado o pai. Disse bomdia ao “velho”, mas não obteve resposta. Sentou no sofá e ouviu no telejornal uma notícia surpreendente: “O primeiro furacão do Atlântico Sul foi batizado por meteorologistas da Epagri e Climer de Catarina. Esse fenômeno está sendo classificado pelos norte-americanos como classe 1, que pode variar entre 120 e 150 quilômetros por hora”. Era sábado, 27 de março. Treze horas depois, na madrugada de domingo, Paulo seria assassinado. Paulo Roberto Cristóvão tinha 19 anos. Nasceu em 30 de outubro de 1984, a 1h50, em Florianópolis, capital de Santa Catarina. Morou a vida inteira no continente, numa comunidade chamada Vila Aparecida, do “lado de lá” da ponte, como dizem os que moram na Ilha. Negro e pobre, viveu sempre do lado de lá: longe dos luxuosos prédios da Beira-Mar, longe dos tradicionais colégios católicos, longe dos planos de saúde particulares, longe das políticas públicas e das publicidades oficiais. Paulo era adotado. A mãe biológica, muito pobre, o deixou com uma amiga, para que o criasse. A amiga, Denir da Silva Cristóvão, já tinha nove filhos. O mais novo deles também era adotado. Mas, mesmo morando numa favela, tendo o marido alcoolista, aceitou o desafio e ficou com o menino . “Onde comem nove bocas comem dez”, disse, ao pegá-lo na maternidade, ainda com poucas horas de vida. Denir, mãe adotiva de Paulo, é religiosa, disciplinada, carinhosa, e não aparenta, apesar do rosto marcado e

do olhar triste, ter 66 anos. Começou a trabalhar como empregada doméstica na casa de um fazendeiro, no interior do Estado. O trabalho: lavava os pratos, arrumava as camas, varria o chão. Em troca, recebia comida e um quarto para dormir. Ainda se lembra do banquinho de madeira que usava para alcançar a pia. “Eu era muito pequena, precisava desse banco, senão não conseguia lavar nada.” Tinha 7 anos de idade. Depois, já adulta, trabalhou durante décadas numa loja de móveis no centro da capital. Fazia de tudo: limpava banheiro, pagava contas, atendia os clientes. Hoje, recebe uma aposentadoria de 352 reais por mês. Todos os filhos de Denir estudaram e estão trabalhando. E todos moram fora de casa, com exceção de Paulo e Leandro, de 24 anos, que dividiam o beliche. Um dos filhos, Valdemir Cristóvão, de 38 anos, é formado em educação física e leciona numa instituição para crianças carentes. Este ano, completa sua segunda graduação, em pedagogia. Não fosse por Denir, a reforma do barraco, feita há seis anos, não teria acontecido. Com a ajuda de todos os filhos e do marido, o antigo barraco de madeira é hoje uma ampla e confortável casa de alvenaria. Fica no alto do morro, onde se chega passando por um beco de cimento, de menos de 1 metro e meio de largura.

A MÚSICA Naquele sábado, Paulo comeu a feijoada ao lado do pai, em frente à televisão. Tomou Coca-Cola com gelo e, depois das notícias sobre o furacão, assistiu ao início de um programa esportivo. Quase não conversou com os irmãos. Embora caseiro e carinhoso, era uma pessoa reservada. “Adorava o silêncio”, relembra a mãe. E adorava a música. Vocalista de um grupo de rap, deixou algumas composições. Um trecho, da última letra que escreveu, dizia

assim: “(...) As pessoas só pensam em vencer/ não querem saber/ quem vai viver quem vai morrer/se vai pro céu ou pro inferno/ de bermuda ou de terno/ tiro 12 do cego que derrubou o marreco/ no dia e na noite eu espero/ o momento certo/ porque eu tenho afeto carinho/ está rindo porque não é contigo (...)”. Duas horas depois de acordar, saiu de casa com o caderno nas mãos. Era onde anotava as letras que compunha. Vestia uma bermuda branca com riscos azuis e uma camiseta azul-clara. Foi até a casa do Alexsandro, o Sandro, amigo de infância e parceiro nas composições. Tinham em comum o mesmo sonho: viver da música. Sandro mora numa viela ao lado, próxima da casa dos Cristóvão. Como sempre, Paulo encontrou o portão de madeira aberto. E, com a intimidade de quem conhece a família desde pequeno, foi entrando casa adentro. O amigo o recebeu com um caloroso abraço. Já fazia duas semanas que não se viam. Sandro, que também tem 19 anos, trabalha o dia inteiro numa empresa de serigrafia e estuda à noite. – Cara, quanto tempo. – Depois de cinqüenta anos – brincou Paulo, enquanto se abraçavam Na casa estavam as quatro irmãs de Sandro e um outro amigo. A mais velha das irmãs limpava a sala, para desgosto do resto da turma que assistia a clipes de rap na televisão, entre as cadeiras colocadas de pernas pro ar. Em seguida, Paulo e Sandro foram até o minúsculo quintal, tentar pôr ordem na bagunça. – Como estão as coisas na serigrafia? – perguntou Paulo, encostado na porta da cozinha, que dá para o quintal. – O serviço tá legal, o foda é o estudo. – Por quê? – Tá difícil conciliar, por isso não tenho ido ao colégio. – Hum... – Tô pensando em desistir. – Não faz isso – disse Paulo –, se com o estudo já é difícil, sem ele a gente fica sem saída.


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Arrumado o quintal, foram ao quarto de Sandro, fazer o que mais gostavam: escrever letras de música. Pela parede, fotos de grupos de rap, do Brasil e do exterior. Paulo sentou apoiado na cabeceira da cama, com a perna esquerda dobrada em cima da colcha e a direita apoiada no chão. Sandro ficou na outra ponta, encostado na parede, com as pernas para fora. O quarto, de 6 metros quadrados, estava arrumado, o que rendeu um comentário de Paulo: – Ô, negão, pra que arrumar o quarto desse jeito? A bala mesmo é o quarto bagunçado. – De repente vem uma gatinha. – Vem porra nenhuma. Paulo fez uma pausa e acrescentou: – Nunca vem. Paulo não teve namoradas. Tinha “ficado”, como diz a gíria, com algumas garotas da comunidade, mas nada muito sério. E, mesmo com toda a lábia e charme, continuava virgem. Chegaria perto de sua “primeira vez” naquela noite, minutos antes de ser assassinado. Os dois amigos ficaram lá, escrevendo. Sandro levava esses momentos muito a sério. Paulo, ao contrário, nas horas de maior concentração e silêncio soltava alguma rima sem sentido, só pelo prazer do riso e da provocação. “Ele avacalhava, fazia cara de quem está pensando, muito concentrado e, de repente, soltava uma piada”, revela o amigo. A resposta de Sandro era sempre a mesma: “Ô, porra, na moral, vamo levá isso a sério, senão a gente não vai pra frente”.

O JOGO Cansados de escrever, foram até a sala de televisão onde estava Ana Cláudia, de 15 anos, irmã de Sandro. Ana Cláudia e Paulo, além de amigos e confidentes, eram como dois bons irmãos. E assim era, apesar das insinuações sobre um possível “namorico”. Ele a ajudava nas lições de matemática e história e ela lhe dava dicas de como conquistar as meninas. Às vezes se estranhavam, como naquela tarde, quando ele insinuou que a amiga estaria “gordinha”. Ana não gostou, fez cara de choro, mas em seguida fizeram as pazes, com um carinhoso abraço de desculpa. Paulo era, também, amigo de outra irmã de Sandro, a mais velha. Certa ocasião escreveu na contracapa de seu caderno escolar: “Você é negra na pele e na mente. Não se esqueça: você é descendente do guerreiro Zumbi. Um salve do carente e sorridente mano Paulo”. Ana e Paulo, como tinham costume de fazer, brincaram de pife, um jogo de cartas. Sandro, entediado com aquilo, foi até a casa da namorada. Antes de sair, já com um pé fora de casa, ouviu: – Ô, peste! Onde vais? – gritou Paulo, já sabendo a resposta. – Na casa da gatinha. Tás sabendo da festa lá embaixo hoje, né? – Não. – Não? Vai rolar uma festa no centro comunitário. – Hum... – Vamos? – Talvez, depois eu decido – resmungou Paulo, displicentemente, concentrado no jogo. Eles jogaram a tarde inteira na sala. Ela sentada no sofá-cama, e ele na cadeira, de costas para a porta. Só interromperam o jogo três vezes. Uma, quando a irmã de Ana trouxe três picolés, numa sacola de plástico. Outra, quando a tia de Sandro apareceu pedindo dinheiro emprestado: – Quanto precisas? – perguntou Paulo à mulher debruçada na janela. – De 50 centavos.

– Vais ter que pagar em dobro – ele disse, tirando da carteira uma moeda. Pararam pela terceira vez, quando Paulo foi ao banheiro. Ao voltar à sala, percebeu que a música que estavam escutando era a do grupo KLB, que ele detestava. – Porra, mas que porcaria é essa que tá rolando? Tomara que o furacão venha e destrua esse disco. – Mas não tem nada melhor – respondeu Ana. – Sempre tem alguma coisa melhor – rebateu Paulo, sacando do lado da bermuda um CD de rap do grupo Z’Africa Brazil. Por volta das 6 e meia da tarde, Sandro voltou para a casa. – Ainda!? – espantou-se, vendo a irmã e o amigo jogando. – Vocês são doidos! Foi até o aparelho de som, pegou um CD de “poperô”, que na explicação dele é “som de playboy, música de boate”, e aumentou a todo volume. Acendendo e apagando a luz, decretou: – Agora, essa sala é a maior discoteca do mundo. Paulo se levantou, dizendo: – É isso aí, eu sou o segurança. E permaneceu imóvel, fazendo pose: braços cruzados, corpo teso, peito inchado. As irmãs de Sandro, que haviam chegado pouco antes, dançavam em roda. Ficaram assim até cansar. Só às 7 e meia, depois de outra partida, Paulo foi para casa. Naquela semana havia feito inscrição num curso de informática e, dias depois, recebeu a notícia de que fora aceito no programa Primeiro Emprego, destinado a jovens da periferia. Paulo estava no 2º ano do 2º grau. Na escola era um bom aluno. Ano passado escreveu uma redação intitulada “Vida Loka”. Depois de falar de rap, da família, de criticar o ensino público, concluía: “Eu acredito na palavra de um homem de pele escura, de cabelo crespo, que andava no meio de mendigos e leprosos, pregando a igualdade. Um homem chamado Jesus. Só ele sabe a minha hora. A alegria bate no meu pensamento várias vezes por dia, mas não esqueço a realidade. E a realidade é muito triste. Se eu fosse mágico, não existiria droga nem fome, nem desigualdade social, nem polícia”. Ele não era mágico, mas um bom poeta viciado em livros. Lia de tudo: embaixo de sua cama, misturados em duas caixas de madeira, uma infinidade de manuais de informática e vários livros de literatura: Caetés, de Graciliano Ramos, Amor da Salvação, de Camilo Castelo Branco, O Corpo Fala, de Pierre Weil e Roland Tompakow, Sexo na Cabeça, de Luís Fernando Verissimo, e também um livro de poemas, de César Pereira, chamado Dardos de Ajuste, marcado nessa parte: “Nasceste numa época corrosiva/ de pólvora na mesa/ bombas no prato / napalm no corpo”. Ao retornar a casa, Paulo foi até a sala de televisão, onde continuava sentado seu pai, e viu o repórter da televisão local dizer: “Santa Catarina viveu hoje um dia de expectativa. Pela primeira vez na história, um furacão se aproximou da costa. O fenômeno avança para o sul do Estado e norte do Rio Grande do Sul. O furacão foi apelidado de Catarina”. – O que tem pra comer?– ele perguntou à mãe. – Sobrou comida salgada. Queres? – Não. Quero só Nescau com pão. E, com a “delicada” fome de um garoto de 19 anos, comeu nada menos que cinco pães, cada um com manteiga, queijo e mortadela. Depois foi para o quarto, leu um pouco e tomou banho. Vestiu uma camiseta preta com laranja, com decote cinza, e uma calça camuflada do exército

(à moda do rap americano). Calçou um tênis com cores cinza, branca e vermelha. Meteu no pescoço seu inseparável crucifixo que, meses antes, havia trocado por um CD, com um amigo. Colocou o perfume Kaiak e perguntou à sua mãe, sentada à mesa da cozinha: – Tô bonito? – Estás lindo, como sempre. Vais onde? – Numa festinha. – Estás levando camisinha? – Pensas que eu sou tolo, mãe? Eu sei o que tô fazendo. E então foi para a festa onde seria assassinado. A mãe de Paulo, quinze dias antes, sonhou que o Senhor dos Passos, de quem é devota, tentava lhe dizer alguma coisa. Aquilo a deixou angustiada. Falou para a irmã e resolveu ir até o Hospital de Caridade, do lado de lá da ponte, onde fica a imagem. Na capelinha do hospital, ajoelhada, segurando com as duas mãos o terço, olhando fixamente a imagem do Senhor dos Passos, Denir chorou compulsivamente, sem entender o porquê. Na madrugada do assassinato, ela teve outro sonho. Dessa vez, com a imagem do Coração de Jesus. Ela pedia que Ele lhe trouxesse os filhos para casa, em segurança. E, na hora em que tocou no coração da imagem, houve uma explosão. Ela acordou sobressaltada e percebeu que os ventos tinham aumentado. Saiu da cama e ouviu a campainha. Abriu a porta e recebeu a notícia pela filha mais nova: Paulo havia sido assassinado. Era 28 de março, dia de uma procissão que, todos os anos, toma conta do centro de Florianópolis. Procissão do Senhor dos Passos.

A FESTA Tinha acabado de anoitecer quando Paulo saiu em direção à festa. Passou na casa do amigo Leandro, conhecido por “Bochecha”. Os dois, parceiros no rap, já haviam vivido e escrito muitas histórias juntos. “Ele estava sempre de alto astral, era um cara alegre, chegava sempre animado”, lembra Leandro, de 21 anos, que é uma espécie de guia e líder dos garotos da comunidade. – Qual é a da festa, negão? – perguntou Paulo ao amigo. – É uma festa de aniversário. Vai tá cheio de mulher. – Eu tenho 5 reais aqui – disse Paulo – podemos comprar uma bebida. Os dois compraram um garrafão de vinho e foram até a casa de um outro amigo, o Juciano, de onde se vê o Centro Comunitário, local da festa. A casa de Juciano fica a 200 metros do Centro, separados por um enorme terreno baldio. A distância não impedia os garotos de observar as garotas que chegavam. Na casa de dois andares de Juciano, com uma ampla varanda, já estavam outros garotos da comunidade. Paulo, enquanto bebia conhaque com refrigerante, falou de sua admiração pelo cantor Silveira, de “seu rap romântico, um rap com porrada, mas também com perspectiva”, e ia falando sobre outros raps e outros ídolos, e sobre as mulheres imaginárias que já tinha tido e que gostaria de ter, fazia planos para festa e pro futuro: “Um dia, a gente vai estar num palco, cantando nossa música, sendo respeitados, deixando nossa mensagem”. Falou também de um rap feito pelo amigo Fabiano, o Maninho, que o havia impressionado de modo particular. “Aquela música precisa ser gravada”, repetia. Um trecho desse rap diz assim: “A favela e a prisão é um vulcão em erupção e a lava que escorre é o sangue dos meus irmão”. Depois desse “esquenta”, os amigos foram para a festa. O Centro Comunitário é pequeno. Parece uma igreja simples, com dizeres religiosos espalhados pela parede e um altar na frente.”Ele estava muito feliz naquela noite. Eu coloquei o som na festa, era o DJ, e por três vezes ele CAROS AMIGOS J U N H O 2 0 0 4

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apertou a minha mão, dizendo: ‘Grande, o som está excelente’ “, relata o amigo Marcelo. Os garotos ficaram bebendo e dançando. Pouco depois das 23 horas, uma garota pegou Paulo pelo braço. – Tem uma pessoa que quer falar contigo lá fora – ela disse. Paulo foi ver quem era, com um copo de plástico nas mãos. Na rua, encontrou o amigo Sandro. – És tu? – surpreendeu-se Paulo. – Eu tava na casa da gatinha. Preciso ir lá em casa tomar banho e me arrumar. Vamo comigo? – Pô, logo agora que vão cantar o parabéns e servir o bolo – reclamou Paulo. Mas, com sua reconhecida incapacidade de negar um favor, de quem quer que fosse, o acompanhou. Chegando lá, encontraram as irmãs de Sandro na sala, dormindo, em frente à televisão ligada. Enquanto o amigo tomava banho e se vestia, Paulo se jogou na cama, junto com as meninas, acordando uma por uma. Antes de saírem, Paulo foi até o banheiro. Abriu a torneira, lavou as mãos e olhou-se no pequeno espelho pendurado na parede. Procurou uma toalha, mas não achou. E, já entre a cozinha e a sala, sacudiu com força as mãos para enxugá-las, de modo que o anel que usava no dedão esquerdo caiu. – Puta que o pariu! Meu anel da sorte! – ele disse. – Cara, depois a gente acha, vamos pra festa – impacientou-se Sandro. – Nem a pau. Sem o meu anel da sorte eu não vou. E pôs-se a procurar. As irmãs de Sandro, acordadas, já estavam mobilizadas à caça do objeto perdido. Passaram um, dois, dez minutos e nada, o anel não aparecia. Até que, de repente, Paulo espantou-se: – Cacete! Olha só onde foi parar. Estava numa sapateira no lado direito da sala, dentro de um tênis, como que embrulhado num papel de bala. – Que coisa estranha – foi o comentário de todos. Antes de saírem, a mãe de Sandro, Dona Leca, que estava no quarto, alertou: – Cuidado, meninos. Estão dizendo que vem uma ventania por aí, um ciclone. – Só mesmo um ciclone pra tirar a gente dessa festa. Esta noite promete – falou Paulo. Na porta, com um sorriso largo, acrescentou: – Fica tranqüila dona Leca, tá comigo, tá com Deus. Pouco antes de entrar na festa, quase na frente do Centro Comunitário, Sandro foi abordado por um rapaz, também negro, forte e baixo: – Ô, camarada, como está, gente boa? Sandro recebeu um efusivo abraço, sem saber quem era aquela figura. – Não estás lembrado de mim? Sandro, sem jeito, confessou que não, mas o rapaz não o largava. Só depois de muita insistência conseguiu se desvencilhar. Na festa, Paulo perguntou: – Sandro, quem é aquele doido? – Não faço a mínima idéia, disse que me conhece. – Tá, esquece – cortou Paulo –, vamos curtir, olha só quanta mulher. Os dois ficaram por ali, dançando e bebendo. Paulo foi conversar com uma garota que não lhe deu a mais remota confiança. Mas não desistiu. Conversou com outra e com outra, até que, na fila do banheiro, encontrou uma jovem de sorriso fácil e olhar doce que caiu nos seus encantos: – Vais entrar? – ele perguntou. – Vou – respondeu a menina, rindo.

– Vou entrar contigo, então. Passaram um bom tempo entre beijos e abraços, dentro do banheiro. Ele, com jeito de menino inocente, sugeriu que “ficassem mais à vontade”. A garota recusou. Depois, Paulo voltou ao assunto e, antes da resposta, a porta se abriu. Era um amigo da turma do rap. Ele conta: – Acho que atrapalhei alguma coisa. Quando entrei, Paulo ajeitava a calça, com aquela cara: “Pô, dá o fora, chegaste na hora errada, se manda”.

O TIROTEIO Ao deixar o banheiro, Paulo percebeu que o “estranho” da entrada saíra correndo do Centro Comunitário, com um revólver calibre 38 na mão. Depois de ter criado algumas pequenas confusões na festa e ser de uma outra comunidade, o rapaz era chamado de “invasor”. Atrás dele, sempre juntos, dois garotos de 14 e 15 anos. Vendo aquilo, curioso, Paulo foi até a rua ver o que estava acontecendo. Jéferson, o “invasor”, arma em punho, discutia com algumas pessoas. O filho de dona Denir, desarmado como sempre, foi acalmar os ânimos: – Camarada, guarda essa arma, vamos curtir a festa, tem um monte de bebida de graça. Jéferson não gostou: – Tá me tirando, mano? E apontou o revólver para o peito de Paulo. – Cara, guarda essa arma, é pro teu bem, guarda isso – insistiu Paulo. O que aconteceu em seguida foi uma sucessão de absurdos. Um dos rapazes da comunidade, num gesto rápido, imobilizou o braço de Jéferson. Aproveitando-se dessa situação, um outro garoto, amigo de Paulo, apontou um revólver para o rapaz, agora indefeso. E outro, também da comunidade, encostou mais uma arma na cabeça do “invasor”. Não tiveram dificuldade em desarmá-lo. Paulo, quase cara a cara com os garotos, disse: – Chega, chega. Acabou. Vamos embora. A cena permaneceu congelada por longos segundos. Com dois revólveres apontados para sua cabeça, Jéferson parecia ter perdido “o jogo”. Mas, sem que nenhum deles percebesse, um outro rapaz da comunidade pegou o revólver de Jéferson, que passava de mão em mão, e o entregou a um de seus amigos, menor de idade. Isso revoltou os colegas de Paulo, que iniciaram, entre eles, violenta discussão. Os dois rapazes, que antes apontavam o revólver para a cabeça do “invasor”, discutiam aos berros, sem cessar. Paulo, no meio, tentando acalmar os amigos. Foi aí, esquecido no meio da confusão, que o menino que estava com a arma conseguiu devolvê-la a Jéferson. Num gesto lento, mas seguro, ele se afastou do grupo, outra vez com a arma em punho. – Cuidado, o cara vai atirar! – gritou alguém. A briga entre os amigos parou e ouviu-se o primeiro tiro. Jéferson atirou para o alto. Os amigos de Paulo, assustados, responderam atirando em direção a ele. E foi na resposta de Jéferson, nesse seu segundo tiro, em meio ao fogo cruzado, que Paulo foi baleado. Ele era alto, curvou o corpo, virando-se de costas para Jéferson, tentando se proteger. A bala acertou a nuca e saiu na testa. Uma única bala. No final do tiroteio, que durou segundos, o cenário era este: Jéferson, caído no chão, com três tiros, ainda vivo. Paulo, morto, estendido perto de um carro, quase em frente ao Centro Comunitário, na mesma rua em que passou toda a sua infância, onde tinha seus amigos e sua família. Era 1h50 da manhã. Jéferson sobreviveu, apesar dos três tiros, e, uma semana depois, já havia deixado o hospital.

Sandro, que viu o tiroteio escondido atrás de um carro, relata: – Vi o Paulo caído, aquele sangue, não podia acreditar, não poderia ser verdade, morto por nada, por nada. O Paulo era da paz, não devia nada a ninguém, ele só queria cantar e cantar, sair cantando por aí... Um dos amigos de Paulo, que apontou o revólver a Jéferson, justifica: – Às vezes, tu não queres andar armado, mas é a necessidade de sobrevivência. Ninguém iria imaginar que fosse acontecer aquilo, logo com o Paulo, que era da paz, que nunca foi metido em rolo, que não tinha maldade. Foi por isso que ele foi morto, porque não tinha maldade, porque não imaginava que o cara fosse capaz de apertar o gatilho. Odirlei Goulart, também amigo de Paulo, que não estava na festa, complementa: – Paulo era uma pessoa boa, emprestava tudo pra todo mundo, queria vencer na vida pela música, sem armas, sem guerra.

SEMENTE DE JUSTIÇA O Atlas da Exclusão Social - Os Ricos do Brasil, organizado pelo economista Márcio Pochmann e lançado em abril, revela que 5.000 famílias brasileiras possuem um patrimônio que representa 46 por cento do PIB. No “lado de lá” dessa ponte estão 56 milhões de pessoas que vivem com uma renda inferior a 79 reais por mês. O “Mapa do Fim da Fome”, pesquisa realizada pela Fundação Getúlio Vargas, mostra que um em cada três brasileiros é considerado miserável. Os jornais publicaram, semanas depois, como se uma coisa não estivesse ligada à outra, uma pesquisa do IBGE sobre o número de assassinatos no país. De 1980 a 2000 foram assassinadas 598.367 pessoas, indicando um aumento de 130 por cento nas taxas de homicídio. Segundo a ONU, 11 por cento de todos os assassinatos do planeta são cometidos no Brasil, que abriga menos de 3 por cento da população mundial. “A violência sofrida por Paulo”, disse Vilson Groh, padre ligado à Teologia da Libertação, durante o velório, “é fruto dessa criminosa distribuição de renda, é fruto do sistema capitalista, altar da morte. Que o corpo de Paulo seja uma semente de justiça, que seu corpo seja o símbolo de nossa resistência e que mais essa morte não seja em vão.” Só em 2002, esse padre que mora e trabalha há 23 anos entre os favelados, fez oitenta funerais de moradores das favelas, todos vítimas da violência. No dia 4 de maio, Jéferson Luiz Lisboa, 23 anos, o garoto que matou Paulo, foi encontrado morto numa outra favela de Florianópolis. Ele levou três tiros: um no pescoço e dois na cabeça. Os jornais, os de sempre, noticiaram o assassinato como sendo o 54º. Números. Afinal, é disso que se trata. Em 95 dias, na tranqüila capital de Santa Catarina, 54 pessoas, quase todas jovens, quase todas negras, quase todas pobres, foram assassinadas. Os policiais do 8º DP constataram: “Ele (Jéferson) chegou para acertar as contas com alguém, mas foi acertado antes”. Dias depois, na mesma favela em que Paulo foi assassinado, uma estudante de 14 anos foi morta com um tiro na nuca, por um jovem de 16 anos. Mais mortes, mais números. Mortos sem nome, sem história, mortes sem dor. “Era dia, era claro, quase meio, era um canto calado sem ponteio, violência, viola, violeiro, era a morte em redor”, Brasil inteiro. Fernando Evangelista é jornalista. Dirigiu o documentário Reações em Marcha, sobre o Movimento Sem Terra. fernando_evangelista@hotmail.com


Paulo vai morrer daqui a pouco