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DIOGO MUNIZ E PAULO GOBATO

OLHOS E DENTES

1ª Edição

São Paulo 2014


ÍNDICE CAPÍTULO 1 ........................................................................................... 7 CAPÍTULO 2 ......................................................................................... 15


CAPÍTULO 1

República, Madrugada de Sábado. Mais uma manhã e eu continuo acordando em um quarto desses motéis baratos no centro de São Paulo, ao som inebriante dos poucos carros que trafegam na madrugada de uma cidade que não dorme nunca. E como se não bastasse, mal sei como cheguei aqui. Muito menos como essas duas prostitutas vieram parar nessa cama comigo. Elisa... aliviar a perda dela dessa forma, não foi a melhor ideia que você já teve. O quarto é o de sempre, cheiro de cloro e sexo barato se misturando ao odor de urina, suor e cigarros. Pouco pior que o perfume de lavanda que encharca essas mulheres dos pés a cabeça. Num cômodo pequeno como esse, sinto como se estivesse numa câmara de gás, entregue à morte. Engraçado como eles ainda tentam transformar esse pulgueiro em um lugar aconchegante, com sua mobília velha e inútil. Preciso de um banho. Essa sensação de estar coberto de limbo fétido é insuportável. Pelo menos o banheiro daqui tem porta, vagabunda, de plástico, sanfonada, mas já é um avanço. São completamente inúteis em se tratando do isolamento do cheiro, é como se estivesse derramando sua dignidade pelo ralo.


Um banho rápido e nada mais. Continuar fingindo que nada aconteceu não vai ajudar, Talião. Mas por hora, é o melhor que posso fazer. Mesmo que eu não o quisesse, preciso sair debaixo desse chuveiro antes que e eu morra eletrocutado. Não que eu seja exigente, pelo preço mísero que se paga aqui, nem poderia. A questão é que manhãs como essa estão se tornando constantes demais. Depois de todos aqueles sermões sobre covardia, olha aí! Fugindo dos problemas como se estivesse com o rabo entre as patas! Como se não bastasse, todo o resto da bebida e as roupas indevidamente perfumadas das duas estão bem ali no chão do quarto, amontoadas com a minha, como que proliferando sua imundice. Não estou fugindo. Estou me preparando. Vou levar isso às ultimas consequências e preciso saber exatamente quando e como vou fazer isso. Por mais que eu alise minha cabeça raspada e áspera, não faço a mínima ideia de como vim parar aqui. Flashes desconexos ainda não me valem de nada. Poucas coisas fazem sentido. As doses de absinto que tomei na Again, a conversa com Sr. Tony, as outras doses de absinto, mais nada. Quem sabe o resto venha à tona depois de uma bela dose de café? Será mesmo? Será que conseguirá remexer essa sujeira toda, com tantas lembranças dela? Hunf! Costela zoada? Perfeito... Mal consigo vestir a camisa. Possivelmente é resultado de uma briga. Alguém me segurou pra


salvar a vida de um babaca qualquer, lembro da cara arregaçada e apavorada dele e da sensação de ser puxado por uma centena de mãos. Onde raios eu deixei minha machete? Ungh! Abaixa mais devagar, meu cérebro está três vezes maior que a minha cabeça... Sim! Não é uma questão de poder ou querer. É meu dever. Devo isso a eles! Fabio está completamente perdido. Alguém precisa pagar por isso. Há mais pó debaixo dessa cama do que em um sarcófago. Na próxima eu poderia me lembrar disso antes de jogar minhas coisas aqui debaixo. Checklist: Estou vivo; vestido; minha machete; mochila, OK; carteira; celular e fones, aqui; Não preciso de você agora! Não quero vingança, não quero violência, não quero você perto de mim. Não agora. Vou enfrentar meu luto como deve ser feito, e sem a sua interferência! Parece que está tudo certo. Vou deixar essa grana pras duas no criado mudo e vazar logo daqui. Hum... Acho que a loira estava me chamando de louco durante a bagunça de ontem e a outra tem um


machucado na boca. Será que eu também bati nelas? Isso tá realmente saindo do controle, Talião. O melhor que eu posso fazer agora é ir mesmo embora, fechar essa porta e torcer pra que elas não me procurem mais. 3:20 da manhã, pelo menos meu celular ainda tem um pouco de bateria. Ir até o Galore, sem música, ouvindo o grito desesperado desse lugar, no estado que eu estou, não seria nada agradável. Playlist pra exaustão/ressaca/luto... Type O Negative? Acho que serve... Ops! Ai, caralho! Essa costela tá me matando! Prestar a atenção ao descer escadas! É melhor também lembrar disso da próxima vez. "♫ I went looking for trouble... And boy... I found her!" Ninguém na recepção. Pelo barulho dos gemidos que vêm do banheiro, parece que o cara não vai passar noite sozinho, o idiota ainda larga a porta da frente aberta. Não faço ideia de que tipo de quarto é aquele que eu peguei, muito menos se eu paguei antes de entrar. Por via das dúvidas, foda-se. Na pior das hipóteses as duas terão de pagar quando saírem. Lembro delas, ontem, no chão, uma limpando o sangue memória. Ainda não amanheceu, mas é melhor eu ir direto pro Galore tomar um café bem forte, comer alguma coisa e ver se lembro de algo mais sobre ontem. "♫ The moon is full... Will she trick or treat?" Em madrugadas frias como essa que não me arrependo de ter gasto uma grana a mais nesse moletom. Bolsos perfeitos, capuz,


além do preto que me ajuda bem nas atividades noturnas. Hum... Tô na Timbiras. Caminhada curta. Suficiente pra dar uma aquecida no esqueleto. Acho que vou pela Ipiranga. Engraçado, gosto desse amarelo das luzes dos postes. Sou atraído por elas como se fosse um inseto. Quando percebo, estou há horas andando sem rumo. Mendigos, viciados, putas e travestis, todos amontoados em ruas estreitas e escuras. Um bolo de carne podre, assado em uma forma suja, por uma sociedade "hipocritizada" pela falsa soberba. O ambiente perfeito pra mim. "♫ Black! Black... black... black... Number one!" O Galore só abrirá às 5h. Sem pressa pra chegar lá. Até agora, o que sabemos da noite passada? Porre de absinto na Again; briga; duas mulheres, uma agredida; Alguém tentando me segurar... O "Pequeno" talvez? Pela força, é muito provável... "Hei, gracinha!” “Nossa! Com você na minha cama eu não preciso de mais nada!” “Vem aqui gostosa! Hahahaha!" Que merda! O que uma mina mirrada dessa faz, sozinha, na Praça da República às 3h da manhã? A coitada vai ser currada por aqueles dois sem a menor cerimônia. "♫ Her perfume smells like burning leaves" É isso! Uma das minas estava sendo agredida pelo cara na Again! A outra foi tentar ajudar. Ele bateu nela. Ela caiu. Parti pra cima e arregacei a cara dele. O Pequeno me puxou, e


disse pra eu sair que era melhor. As duas foram comigo. Elas se limparam e quiseram me agradecer da melhor maneira possível. "♫ Loving you, was like loving the dead." É isso! Elemento surpresa! Atrás da central de informações. "Tem um presente pra você, aqui!” “Pode crer, tem dois presente! Hahahaha!" E eu achando que esse fim de noite ia terminar no mínimo tranquilo. "Dá uma olhadinha aqui! Isso... dá uma olhada aqui no que te espera! Hahaha!" Por que raios eu nunca tenho uma noite normal? "♫ Loving you,was like loving the dead!" Não tô nem pedindo que seja boa. Só normal, mesmo. Sem esses dementes fazendo merda. Capuz! Machete! "♫ Loving you, was like loving the dead!" Essa música não rola... Aqui eles já não me veem, nem a luz do celular... KREATOR? Bem melhor! Só mais alguns metros... "Aí! Já tô ficando cansado, garota! Vem logo fazer a nossa alegria! Vem... você vai adorar!" Vocês não imaginam o quanto... "Vem que já tá no ponto!" Sim, tá prontinho! Mais um pouco... mais um pouco... Uma sombra! É ela... Mais duas... Estão bem perto... "Vem aqui que eu já cansei disso, sua vadia!" Ela passa! Um braço! "Ahh!" Agora! Machete sobe pela direita. "♫ Society failed to tolerate me!" Braço decepado. "♫ And I have failed to tolerate society" Girar machete. "Filho da puta! Meu braço!?" Estocar machete no estômago!


"Ugh!" Puxar machete. "♫ ...inside I hear the echoes of an inner war" Firmar machete na mão. "Hã? Desgraçado!" Subir machete. "♫ Nothing can take the horror from me..." Preparar para descida com força. "Puta que pariu...Não!" Alvo, cabeça. "♫ My hate has grown as strong as my confusion" Machete desce. "♫ My only hope, my only solution..." Cravada no crânio. Morte instantânea. Puxar machete. Corpo caído. Cadê a moça? Ainda no chão... "♫ I do not need a cause for my rage! I just despise the nature of the human race" Moça? Deve estar em choque... melhor virar ela pra não... Emanuelle? Mas... O que raios você faz aqui? Está fria! Facada no abdômen! Perdeu sangue demais! Emanuelle!? Inconsciente... Emanuelle... Não! Você, não! Eu te avisei pra não se envolver nisso! Será que foi uma emboscada? Emanuelle!? Malditos! Filhos da puta! A polícia? Não! Não! Não! Agora não! Não posso ficar aqui... Foge! Preciso fugir! Se me pegarem não vou descobrir quem é o desgraçado! Me perdoa, Manu! Pega a machete! Me perdoa! Corre, caralho!


CAPÍTULO 2

Rápido... Rápido! Corre, caralho! Atravessa logo a rua. Vai de boa. Perto da parede. Sem ser visto. Anda! Mais... mais... uma quadra parece infinita nessas horas. Entra! Atrás do biombo! Encosta aí! Respira... Se controla... Onde que eu entrei? Ah tá... não encontraria nada melhor que isso por aqui... Esses cinemas pornôs já me salvaram de umas boas. Conhecer essa galera foi de grande ajuda. Cadê o Beréba? Deve tá lá no fundo... Vou pro banheiro logo e procuro ele depois... Que bosta... tô todo cagado de sangue daquele merda! Cacete, a Manu... o Fabio vai ficar louco... Sorte o Beréba ter colocado papel aqui hoje. Tomara que não fique putinho com a bagunça... Argh, minha blusa nova... filho da puta... Vai demorar um século pra tirar esse sangue daqui. Sangue da Manu... Chega disso, caralho! Ela procurou, você sabe muito bem! "Toc! Toc!Toc! Quem que tá aí?" Beréba? É o Guilherme, Beréba! "Guilherme? Que Guilherme, caralho?" Guenta aí que eu já vou sair! "Não vai me zoar o banheiro, hein! Lavei essa porra ontem!"


Relaxa aí! Já tô saindo! - Bom... Limpar isso aqui vai ser foda agora... Enfia na mochila. Lava a mão logo e sai fora daqui... Limpa a machete! Coloca devolta na bota! Beleza... Quebra o galho! - Beréba!? Tá aí? "Tô aqui na frente! Tá cheio de coxinha ali na praça!" Merda... Mas pelo menos ele não me viu entrar... Acho que não dá nada ir até lá. - E aí!? "Oh, cara! É você? Hahaha... De boa?" De boa... o que péga? "Sei lá, parece sério..." É... estranho... quando entrei tava de boa. Deve ter sido agora. "Vou lá dar uma narigada, guenta aí que eu já volto." Beleza... vai lá... Vou ficar aqui. Se for tragédia eu passo mal, heh! "Zé roela... Beleza, guenta aí!" Álibi, OK. Mais três viaturas. Tá ficando foda, isso... Preciso mesmo dar um tempo aqui. - Viu lá? "Cara, não consegui ver muito, mas tem uma poça foda de sangue e três montes de carne no chão. Vi um cochinha chamando a perícia... Sei lá... Se pá, é o mesmo cara que largou a cabeça do outro lá na Sé!"


Pode crer! Caralho, três corpos? - Se eles realmente desviarem a investigação pra esse idiota da Sé, eu fico tranquilo pra correr atrás do viado que mandou matar a Manu. Ela precisa ser vingada. Por ela, pela Elisa e pelo Fabio, coitado... Tudo ao seu tempo! Controla essa emoção se não a gente tá fodido! - Beréba. "Quê?" Preciso dar uma dormida cara, descola uma cabine aí pra mim? "Porra, véio! Já falei pra você que essa porra não é hotel, caralho!" Eu sei, mano. Desculpa aí. Mas tá cheio de polícia aí, cara. Não tô nem um pouco afim de tomar um enquadro só por que to passando por aqui, manja? "Você foda, hein! Ainda vou me foder com o patrão por sua causa... Tó! Vai logo lá pra 42 e vê se não ronca nessa porra!" Valeu! Não vou dormir... Quem dormiria? Preciso de tempo até o metrô abrir e depois vazo daqui o quanto antes. Cabine 42? 27... 31... 36... 40... Essa! Ainda bem que tá aqui pra trás. 4:23... a bateria tá no osso... vou embassar aqui mais uns 20min. Preciso ouvir alguma coisa além de punheta e gemidos se não vou enlouquecer... se o celular morrer, morreu... Preciso pensar em


como vou lidar com o Fabio... "♫The mirror's image, It tells me it's home time" Perder a esposa e a filha em poucos dias não é fácil pra ninguém. Não está sendo pra mim, pra ele vai ser o fim do mundo. Pensando na dor alheia... quem diria! "♫And to my message you reply" E de que adianta ficar lamentando essas coisas agora? Talvez pra saber que ainda existe um ser humano aqui dentro? Pff... quanta balela... quem precisa de humanidade, num mundo como esse? Quem precisa de sanidade?

"♫I need a

partner, Well, are you out tonight?" Somos os mais egoístas entre todos os seres vivos. 4:31... Cada um pensa no seu umbigo e se orgulha muito disso. "♫Se todo mundo fosse embora, E só eu ficasse aqui" Se orgulha em saber que ganha dez vezes mais que o fulano que recolhe o seu lixo. Se orgulha em ser capaz de esconder das pessoas à sua volta, que a sua vida é uma farsa, "♫ Sem choro nem despedida, Mesmo porque ninguém se conhecia" que sua família é uma ruína... Quem precisa de humanidade em um lugar como esse? É isso que você pensa do Fabio, então? Que tudo o que ele fez por você é uma farsa? Que ter amado você como filho foi só um artifício social? Amor... a maior arma à favor dessa decadência... chega dessa conversa furada! "♫Ergam seus copos por quem vai partir" 4:48... até que passou rápido. Se não me engano esse prédio tem uma saída pelos fundos e a viela vai dar na 24 de Maio. "♫Não dá tempo de se arrepender, Nada que já não deva saber" Nem vou avisar o Beréba, melhor eu me mandar logo. Tomara que aquela


portinha esteja aberta... Punheteiros às 4h da manhã... tem que ser muito perderdor. Ninguém nos corredores, a porta tá logo alí! Essa luz negra tá me ajudando bem. "♫ Eu me despeço de todos vocês, Muitos aqui não verei outra vez" A maçaneta da porta tá bem visível. Destrancada! O Beréba tá vacilando aqui... A rua não tá tão cheia ainda, mas é o suficiente pra eu passar despercebido pela polícia. Deixa o fone no ouvido, "♫ Quero que a estrada venha semp..." mas pára a música. Melhor ouvir bem o que tá rolando em volta. Puta merda, me sinto completamente vulnerável sem meu moletom. Voltar pra estação não é má ideia. Além de levantar menos suspeitas, dou uma olhada no movimento... Dom José de Barros, direita. Tudo fechado ainda. Só os camelôs que já estão montando as barracas. Barão de Itapetininga, direita. Nossa! Tá cheio de gente no final da rua... Mal consigo sair daqui... todo mundo amontoado. Todos sádicos doentes. Vai mesmo largar a Manu, alí? Como se fosse carniça servida aos urubús? Não tem outro jeito... Você tem se tornado um verdadeiro animal! Sem escrúpulo algum! OK... volta lá então! Faz uma cena! Chora alí, na frente de todo mundo! Grita de dor e desespero por ter "encontrado" a irmã esfaqueada no chão! Obviamente você não levantará suspeitas... Até parece... Anda logo pro metrô e cala essa boca! Tem polícia pra caralho aqui! Se faz de curioso, tenta dar uma sapeada... Mas sem parar pra olhar... Não quero olhar! E não fala com ninguém... "Parece coisa feia, hein?"


Free-talkers... - Pois é! Parece... - Ignora e continua andando... A estação tá na sua cara! Anda! Sorte que esse lado tá aberto hoje... desce logo a escada! Adeus, Manu... Ainda bem que to pegando um contra-fluxo... O outro lado já tá entupindo de gente. Mas pra Barra Funda tá de boa, ainda. Cadê meu bilhete? Bolso esquerdo. É gente que não acaba mais... a maioria anda quase correndo. Preciso recarregar ele amanhã... "Nas escadas e corredores, mantenha-se à direita, deixando a esquerda livre..." Essa voz nos auto-falantes, me dizendo como devo me comportar, que sou uma pessoa mais legal se isso ou aquilo e blá, blá, blá... Orwell ficaria orgulhoso! Solta a música outra vez antes que eu me irrite mais ainda... Tá chegando uma composição... dá uma acelerada pra entrar nessa mesmo e não ficar de bobeira na plataforma. "... não ultrapasse a faixa amarela..." Entra logo nessa bagaça! "Bip! Bip! Bip! Bip! Bip!" Nem vou me sentar... "PróximaestaçãoSantaCecília... Desembarque... peloladodireito."


É... tá com uma vontade monstra de trabalhar hoje, hein? O que esse menino tá querendo? Criança me encarando é uma coisa que dá nos nervos... "Que coisa feia, Dudu! Pára de encarar o moço!" "Ele tá com sangue, mamãe..." Putz... não tô falando? "Pára com isso menino!" Chega logo... chega logo! "Não pode ficar reparando nas pessoas, é falta de educação..." Nossa... Isso vai dar merda... Sai logo daqui! 5:10... Vou chegar no Galore antes dele levantar. A amaral Gurgel já tá parada, o Elevado não cabe nem uma agulha de tanto carro. Nessas horas eu me orgulho de não perder tempo dirigindo por aí. Daqui já dá pra ver a esquina da Marquês de Itú, o Galore tá fechado mesmo... O barulho da porta vai acordar ele... Certeza! Aproveita o vermelho e atravessa... Cadê a chave? Ainda bem que eu deixei no lugar de sempre... Não me lembrei dela quando saí daquele motel, poderia muito bem ter esquecido lá. Essa porta de ferro tá muito zoada... vou ver com o Galore pra gente por uma graxa aqui... Tá tão ruim pra subir que parece feita de chumbo! Tudo apagado, ele ainda tá lá em cima mesmo. Abaixa a porta... vou prepara um café enquanto ele não desce...


"Quem tá aí!? Responde logo pra não levar bala na cara!" Levantou num pulo! - Sou eu, o Guilherme! Perdeu a hora? "Porra moleque, quase que eu te parto a fuça, hein!" Percebi... guarda o trabuco e vem tomar um café. "Guenta aí! Vou botar uma roupa..." Galore... nem sei onde eu estaria se ele também não tivesse me dado uma força com esse trampo. Esquenta a água. Não posso continuar ignorando o que aconteceu... Mas também não dá pra sair choramingando por aí! Ninguém pode sacar que você já sabe da morte da Manu... Se souberem, você inevitávelmente será o primeiro suspeito... O irmão bastardo... Ela não me via assim! Muito menos o Fabio e a Elisa... Preciso falar com ele. Eu deveria estar com ele agora... não aqui! É... Vai lá! Aproveita e treina uma cara de surpresa, mas treina uma boa... Por que ele vai precisar acreditar muito, dessa vez. Dois litros de água... Doze colheres de pó... café forte na medida. "Então! Se eu perdi a hora, você foi expulso da cama! O que te fez madrugar, hoje?" A Elisa, velho... Tá morta. "Quê!? Que caralha é essa!?" Não tem um jeito bom de se dizer... é isso... Ela tá morta. Na verdade... Mataram ela.


"Péra! Péra! Péra! Tua mãe tá morta? Você comeu merda? Tá querendo tirar com a minha cara, moleque?" Pareço do tipo que faz piada assim? "Não! Por isso que tá estranho... Então é sério mesmo? E o Fabio? O que raios você tá fazendo aqui?" Senta aí... vou pegar um café pra você também. "Puta queo pariu... mataram? Mas o quê foi? Assalto?" Tá sem açúcar... Não... Nada foi roubado. Até o fim do funeral o Fabio estava em choque. Não consegui ficar pro enterro. "Que cacete, hein moleque... como pode? Que porra de mundo é esse? Quando foi isso? Porquê não me avisou antes?" Nem lembrei disso, velho... Tá difícil lembrar da noite passada, o que dirá do resto... "Não sei o que dizer, moleque... Sei lá... sinto muito!" É... toma o café aí... "Hum! E a tua irmã?" Também não vi mais depois do funeral... "Sei... Você precisa ir até eles, moleque... São tua famíla!"


Tá meio difícil... a casa do Fábio tá fechada pela polícia. Ele foi pra um hotel. A Manu tava na casa do namorado. Então... eu vim pra cá! "É meu rapaz... a única certeza... não é o que dizem? A morte?" É o que dizem... "Mas a polícia falou alguma coisa? Vocês sabem o que pode ter acontecido?" Ainda não... Tem alguma coisa pra dor de cabeça aí? "Cê tá de ressaca, né? Por isso tá aqui essa hora... que papo é esse de não lembro de nada?" Não lembro... Até agora eu sei que fui pra AGAIN, tomei absinto, defendi duas minas de um cara, saí de lá e fui pro motel com elas... "Que beleza, hein... Nem todo mundo costuma velar a mãe desse jeito..." Não enche... Foi a melhor saída que eu encontrei... e pra minha sorte esqueci quase tudo. "Pois é... Bom... fazer o quê? Se quiser vazar hoje, me diz. Eu peço pro Vareta te cobrir e você pode ir!" Pode deixar, mais tarde vou pro hotel ver o Fabio e saber como ele tá...


"Isso.. faz isso... se quiser pode ligar pra ele daqui, também! Cê que sabe!" Beleza... valeu, velho... Vai abrir agora? "Vamo sim! Quase 6h já... tá na hora! Liga a TV aí pra eu ver a previsão do tempo." Droga! - OK! - Evitar isso já seria proeza demais! "...na Praça da República. Segundo a pol..." Ô Galore... Desculpa aí, daqui a pouco eu ligo de novo... deixa só o café fazer efeito, minha cabeça vai explodir! "Cagão... vou perder a meteorologia... Hunf... Tá.. tá! Vamo ajeitar aqui pra eu levantar a porta!" Quanto mais tempo eu ganhar, melhor... Limpo essas mesas, coloco as coisas no lugar e logo abrimos a porta... Assim eu me mantenho ocupado... O Galore limpa tudo depois de fechar, mas preciso fazer alguma coisa pra desviar minha cabeça. A geladeira tá meio vazia também. Vou encher essa geladeira aí, ok? "Tá precisando mesmo... Pega lá no fundo, enquanto eu subo a porta!" Só laranja e guaraná? "Pode trazer um pouco daquele suco de uva também!"


Tá! Vou lá... "...o técnico disse que o time está preparado, e que..." Ele ligou a TV... maldito vício! Essa merda é pior que crack... Pelo menos não estão mais falando da Emanuelle. Guaraná... Suco de uva? Aqui! KS de laranja.. Beleza! Levo essa na próxima... Nossa! Mal abriu e já entrou gente? "... na Zona Sul. Mesmo assim, o nível das Represas de Guarapiranga e Billings continua muito abaixo do considerado normal..." "Chuva... 5 minutos de pingo d'água e eles chamam isso de chuva!" "e tem gente que não acredita no fim dos tempos, hein Galore?" "Fim dos tempos? Isso é papo de quem não tem coragem de levantar o rabo da cadeira e fazer alguma coisa pra mudar essa merda!" Humm... Isso vai longe... "... sol e calor o dia todo. Mas espera-se pancadas fortes de chuva no final da tarde e durante a noite. Hermano..." Buscar as KSs! "E hoje pela manhã..."


Por enquanto, tudo bem... Vou colocar a chapa pra esquentar... pelo jeito o Vareta vai dar o cano de novo. "... dos três corpos, um é de uma mulher de aproximadamente 20 anos, esfaqueada na barriga. Os outros dois, ambos do sexo masculino, foram encontrados brutalmente assassinados. A polícia ainda não tem certeza sobre o autor do crime, mas levanta a hipótese de uma ligação com o corpo esquartejado encontrado na semana passada, também no centro de São Paulo." Merda! Eu e a minha vã perseverança... "De acordo com os documentos encontrados com a mulher, ela é Emanuelle Karstens, filha do psiquiatra Fabio Karstens cuja esposa também foi assassinada na última sexta-feira. A polícia não quer dar mais detalhes sobre o caso, mas dis..." "Ow Galore! Liga isso aí!" "Guilherme..."



Olhos e Dentes