Revista TARDIS

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EDIÇÃO 03 / DEZEMBRO 2020

TRANSMÍDIA

E

ANÁLISE

DAS

RELAÇÕES

DOS

DISCURSOS

CULTURA DE CONVERGÊNCIA COMO

O SURGIMENTO DE NOVAS TECNOLOGIAS TEM POSSIBILITADO MAIORES OPORTUNIDADES NARRATIVAS

C I Ê N C I A DA L I N G U AG E M / D O S D I S C U R S O S

TARDIS


Nossa Equipe Anderson Marques Lima

André Alves de Amorim

Arthur Gabriel Macedo Nascimento

Caio César Pereira dos Santos

Erick Gonçalves Lins


Nesta Edicao 4

Capa

Cultura de Convergência

6

Doctor Who e as histórias multiplataformas

7

Henry Jenkins e o universo transmídia

8

Dominique Maingueneau

9

Michel Foucault

10

Considerações Finais

3 Revista TARDIS | Edição 03


C

4 Revista TARDIS | Edição 03

ultura

de

Uma história que se inicia em um filme,

original. Sagas como Star Wars e Matrix são

passa por uma história em quadrinhos, um

exemplos pioneiros e de grande destaque

jogo, um podcast, uma notícia construída,

nesse fenômeno. Atualmente, a série

uma revista, um anime. As maneiras

britânica Doctor Who talvez se mostre como

de se abordar e criar um universo de

um dos casos mais significativos - e talvez

transmidialidade - ou seja, o uso de

audaciosos - de um projeto transmídia.

múltiplas mídias - são inúmeras. Elas não são restritivas entre si: uma obra que se inicia escrita pode ser continuada em uma plataforma diversa como audiovisual e retomar para a escrita, por exemplo. Dessa maneira, o que começou como uma obra isolada passa a ser um universo narrativo e discursivo em forma de franquia.

Graças a evolução da tecnológica

que permite uma conexão cada vez maior entre as mídias, o número de produtos transmídia vem crescendo, com cada vez mais franquias buscando expandir suas histórias para além de sua plataforma

A TARDIS ( Time and Relative DImensions in Space), a nave por onde o Doutor viaja pelo tempo e espaço


CULTURA • 8

A série britânica é um dos melhores exemplos de um produto transmídia

C

onvergência 5 Revista TARDIS | Edição 03


6 Revista TARDIS | Edição 03

Doctor Who e as histórias multiplataforma

Doctor Who é uma das séries mais longevas

da história da televisão, tornando-se um marco e ícone da cultura britânica por conta de seus mais de 50 anos de exibição. No ar desde 1963 - apesar de viver um hiato entre 1989 e 2006 -, a série de ficção científica conta as histórias de um viajante do tempo conhecido como o “Doutor”, ao qual percorre todo o espaço-tempo enfrentando as mais diversas situações e inimigos. Apesar da premissa à primeira vista parecer simples, Doctor Who carrega em suas histórias diversas discussões, envolvendo temas filosóficos, científicos, sociais, étnicos, entre vários outros.

Há alguns anos, as histórias de Doctor Who não se

restringem somente aos episódios de televisão Elas estão presentes em meios como áudio-dramas, HQs e livros.

12 Doutor e sua acompanhante Clara

Apesar de fazerem parte do universo da franquia, são histórias separadas, que permitem o consumo de forma independente. No entanto, a BBC decidiu ir além neste ano com o evento “Time Lord Victorious”. O evento é uma grande ação multiplataforma que contará uma única história através de diversos meios, como livros, HQs, áudio-dramas, revistas, meios digitais, teatro e jogos. O fã de Doctor Who pode acompanhar a linha do tempo de lançamentos e notícias sobre o evento no site www.doctorwho. tv/time-lord-victorious/


Matrix e Star Wars como outros exemplos de produtos transmídia

Henry Jenkins e o universo transmídia

Jenkins explicita isso ao citar críticas que os filmes seguintes da trilogia

Esse tipo de ação é um exemplo, como citamos anteriormente,

de Matrix sofreram. Segundo o autor, parte desse julgamento negativo

de um produto transmídia. Fenômeno estudado por Henry Jenkins, a

se deve ao fato de os críticos de cinema, em sua grande maioria,

convergência de mídias “torna inevitável o fluxo de conteúdos pelas

não consumirem os produtos transmídias de Matrix. Isso fez com que

múltiplas plataformas de mídia e há, por trás, fortes

eles perdessem informações relevantes para o

motivações econômicas da narrativa transmídia”,

entendimento das cenas no filme.

escreve na obra Cultura de Convergência. Segundo

o estudioso, ela não rompe com a estrutura básica

famosos e bem-sucedidos de produto transmídia.

do enredo de um filme, por exemplo, apenas traz

Porém, a ideia neste texto é realizar uma análise

novas fontes de acesso para aquele produto.

através de outra perspectiva. Pensando na análise

“Muitas vezes, personagens transmídias não

de obras transmidiáticas discursivamente - ou seja,

precisam ser apresentados ou reapresentados, pois

Henry Jenkins

Doctor Who é certamente um dos mais

levando em conta o que há por trás de uma fala,

já são conhecidos a partir de outras fontes”, diz.

como ocorreu o surgimento de uma formação de um discurso presente

na sociedade - podemos ter como base alguns dos mais relevantes

Os produtos criados no universo transmídia podem ser

consumidos de maneira individual. Contudo, sua experiência e

estudiosos do assunto: Dominique Maingueneau e Michel Foucault.

compreensão ficam comprometidos, haja vista a ligação entre eles.

7 Revista TARDIS | Edição 03


8 Revista TARDIS | Edição 03 Dominique Maingueneau

A construção de um universo fictício através do uso de diversas

mídias estaria ligada ao interdiscurso, conceito trabalhado em ensaio de Maingueneau. No texto, ele cita a “heterogeneidade como constitutiva do discurso”. Transportando essa corrente de pensamento para Doctor Who e outros produtos transmídia, significa que a presença da franquia em múltiplas plataformas fortalece a constituição de um universo narrativo e discursivo.

Segundo os estudos de Jenkins, um dos aspectos mais

interessantes de um produto transmídia é que ele se expande, não só pelo planejamento da franquia como também pela ação dos próprios fãs. Os debates, a criação de fanfics e a busca por detalhes ocultos e easter eggs são exemplos de ações feitas pelo público que contribuem para uma maior heterogeneidade capaz de amplificar o impacto desse universo discursivo em setores culturais e sociais.

Doctor Who tem um elemento diferente em relação a outros produtos

transmídia, que é o longo tempo de produção. Estar há mais de 50 anos no ar permite que os discursos produzidos pela própria série e pela sociedade para a qual ela é produzida se alterem e entrem em choque, constituindo a afirmação do discurso anterior ou a formação de algo novo. Esse fenômeno é chamado por Maingueneau de campo discursivo, e pode ser identificado ao longo de Doctor Who.

Um exemplo disso é perceptível nas mudanças de elenco com o

protagonista “Doutor”. Por estar há tanto tempo em exibição, naturalmente a série precisou trocar de elenco, e por isso o personagem principal tem como um de seus poderes a possibilidade de renascer em um novo corpo. 13 pessoas já interpretaram o “Doutor”, portanto, o espectador tem 13 perspectivas diferentes de quem é esse personagem e qual o discurso da série. Inclusive, a última versão da personagem é representada por Jodie Whittaker, a primeira mulher a ocupar o posto. Isso se deve também a uma interação discursiva com a própria sociedade, que passou a ver

Dominique Maingueneau

com mais importância a representatividade feminina em produções.


Michel Foucault

E para Foucault ele insere o discurso como: “não é

simplesmente aquilo que manifesta (ou oculta) o desejo; é, também, aquilo que é o objeto do desejo; o discurso é pelo que se luta, o poder do qual nos queremos apoderar”, diz.

Dessa maneira, existe todo um mecanismo criado

anteriormente em uma série de instituições que garantem que ao falarmos repita-se um discurso que interessa a alguém ou a um grupo de instituições. Basicamente, Foucault defende que, tudo o que falamos, que acreditamos, que concordamos pela nossa voz, precede-se em outras vozes há muito tempo. Isso pode ser associado a Jenkins no momento em que o autor descreve Matrix como um ótimo exemplo de obra transmídia. Pois os seus elaboradores conseguiram fazer com que um mesmo discurso - o universo de Matrix - fosse transmitido

Michel Foucault

por plataformas diferentes sem grandes perdas de conexão, mantendo uma linha aceitável de coesão. ter tido a experiência de assistir os filmes do início da franquia.

Outra franquia que também se encaixa no conceito Isso ocorre, justamente, porque o discurso, a ideia, a projeção do

transmídia de Jenkins é Sexta-Feira 13. Iniciada em 1980 personagem com sua máscara de hóquei e seu facão ultrapassou essa saga conseguiu formar uma legião de fãs ao redor do o nicho cinematográfico precedendo, assim, o discurso dos mundo, o que fez surgir histórias em outras plataformas como indivíduos. HQs, animações, jogos entre outros. O fator determinante

Dessa forma, a indústria do entretenimento integrada

para que isso ocorresse foi o visual do personagem principal horizontalmente, como argumenta Jenkins, faz com que da franquia, o assassino implacável Jason Voorhees, cuja uma empresa tenha raízes em diversos setores de mídia. aparência o transformou em um dos mais icônicos personagens Consequentemente a isso, o discurso transmitido por essa da cultura pop. No entanto, grande parte do público que não empresa é difundido para mais espectadores, o que faz com que presenciou o início dos anos 1980 fica surpreso ao assistir os seu grau de influência se torne ainda maior. dois primeiros filmes da franquia, pois o personagem que possui as características que estão no imaginário das pessoas não se encontra. Assim, essa saga cinematográfica exemplifica de modo claro o conceito de discurso de Michel Foucault, uma vez que essas pessoas conhecem o personagem mesmo sem


10 Revista TARDIS | Edição 03 Considerações Finais

um instrumento fundamental para a divulgação de novos

O avanço das tecnologias da comunicação contribuiu

produtos relativos a determinada franquia, além de servir como

para que o mundo estivesse cada vez mais conectado. O

plataforma para um site ou jogo que introduz novos detalhes à

acesso à informação passou a ser possível através de diversos

narrativa e, principalmente, é um espaço que permite interação

meios, que transmitem de acordo com suas particularidades e,

e discussão aprofundada nos nuances da franquia. A internet da

em conjunto com os outros meios, contribuem para a formação

época em que Jenkins escreveu a obra Cultura de Convergência

de um discurso. O universo da cultura popular não se manteve

era diferente e menos interativa, mas já era possível perceber o

alheio a esse fenômeno, e passou a ter mais exemplos de

impacto das conexões na construção do universo de Matrix, por

franquias que buscam o caminho transmídia.

exemplo.

Essa maior conexão entre os meios de comunicação é

Doctor Who não se tornou um produto transmídia de

a base dos estudos de Jenkins sobre cultura de convergência.

maneira tão orgânica e imediata como Matrix, até porque

Produzir uma franquia transmidiática é um processo complexo.

não era possível pelo fato da série estrear antes de existir

Entretanto, isso tornou-se mais possível especialmente

uma cultura de convergência. Com o tempo, a franquia foi

com a disseminação da internet. Ela pode ser vista como

expandindo seus horizontes e soube dialogar com o público, formando um rico universo de diversos Doutores. Hoje a franquia busca se estabelecer como transmidiática, e seus produtores caminham nessa direção.

Após estudar o texto de Jenkins e observar uma

franquia como Doctor Who através dessa perspectiva, pode-se concordar com o autor e chegar à conclusão que a cultura de convergência é um fenômeno positivo. Produtos transmídia são concebidos dessa maneira, entre outros fatores, para gerar maiores lucros. Apesar disso, a transmidialidade contribui para que mais pessoas possam ter acesso à narrativa. Seja por questões financeiras, em que o público pode escolher qual das maneiras de consumir a história cabe no seu bolso, ou seja pela inclusão proporcionada a pessoas que têm algum tipo de deficiência que as impeça de acompanhar a obra em seu meio primário, a possibilidade de acompanhar um produto por diversas mídias é uma forma de democratizar esse universo.