Page 1

IV PRÊMIO PROEX/UFPA DE LITERATURA

I V P R Ê M I O P R O E X / U F PA D E L I T E R AT U R A

O IV Prêmio Proex de Literatura visa estimular e tornar público a produção literária de docentes, discentes e técnicos-administrativos da Universidade Federal do Pará, revelando talentos existentes dentro de nossa comunidade acadêmica e reafirmando a tradição de publicação constante de livros e textos literários dentro do meio universitário. O resultado é o lançamento da IV Antologia – Poesias, Crônicas e Contos – a arte da escrita em gêneros curtos, concisos e cheios de nossa densidade regional é estímulo para a criatividade e manifestação artística, onde a cultura literária se torna uma das artes para melhor conhecer e interpretar o mundo. A premiação por meio do Troféu Inglês de Souza deste IV Prêmio Proex/UFPA de Literatura, instiga a comunidade universitária a participar deste concurso e a perpetuar a arte da escrita tão bem construída em nosso estado, o florescimento de novos talentos e a produção de obras que dão vazão aos anseios individuais são compartilhadas para reflexão e deleite de nossa academia e da sociedade em geral. O Prêmio Proex de Literatura agrega-se aos diversos programas e projetos culturais de extensão da UFPA, tais como: a publicação Tucunduba: Arte e Cultura em Revista, o Prêmio Proex de Arte e Cultura, a Quinta Cultural, o projeto EntreLivros, os Corredores Culturais para Belém e as ações de interiorização como os Encontros de Arte e Cultura em Extensão, o Projeto Multicampiartes e os Cursos de Extensão e Aperfeiçoamento em Gestão Cultural, promovendo amplo diálogo de formação artística e cultural com nossa sociedade. Leonardo José Araújo Coelho de Souza Diretor de Apoio Cultural


I V P R Ê M I O P R O E X / U F PA D E L I T E R A T U R A


UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ REITOR Carlos Edilson de Almeida Maneschy VICE-REITOR Horácio Schneider PRÓ-REITOR DE EXTENSÃO Fernando Arthur de Freitas Neves DIRETOR DE ASSISTÊNCIA DE INTEGRAÇÃO ESTUDANTIL - DAIE/PROEX José Maia Bezerra Neto DIRETORA DE PROGRAMAS E PROJETOS - DPP/PROEX Mauro José Guerreiro Veloso DIRETOR DE APOIO CULTURAL - DAC/PROEX Leonardo José Araujo Coelho de Souza AVALIADORES Antonio Juraci Siqueira Paulo Nunes Alfredo Garcia COLABORADORES Ednalva Antônia Braga Sabá Dayane Eguchi Oliveira Kátia Zeleine Limão de Oliveira Ana Lúcia Oliveira da Cruz CAPA E PROJETO GRÁFICO José Fernandes Fonseca Neto EDITORAÇÃO José Fernandes Fonseca Neto Jean Fernando Pereira Ferreira REVISÃO Luiz F. Branco

Dados Internacionais de Catalogação-na-Publicação (CIP) Biblioteca Central da UFPA, Belém - PA - Brasil Antologia: poesia, crônicas e contos. - Belém, 2014 Ao alto do título: Pró-Reitoria de Extensão IV Prêmio PROEX/UFPA de Literatura ISBN: 978-85-63728-10-4 1. Poesia brasileira - Pará. 2. Crônicas brasileiras - Pará. I. 3. Contos brasileiros - Pará. I. Universidade Federal do Pará. Pró-Reitoria de Extensão. IV Prêmio PROEX/UFPA de Literatura (3. : 2013 :Belém (PA). CDD - 23. ed. 869.98


Pró-Reitoria de Extensão da UFPA

I V P RÊM I O P RO EX / U F PA D E LI T ERAT U RA

ANTOLOGIA

Poesias, Crônicas e Contos

Universidade Federal do Pará Belém/PA-2014


Apresentação


O domínio da palavra escrita em suas múltiplas formas por uma grande maioria de pessoas foi e continua sendo uma importante conquista individual e social, no sentido da democratização do acesso à cultura letrada e do exercício da liberdade, bem como de inclusão social. Da mesma forma, a criação de condições ou oportunidades para que um maior número de sujeitos possa expressar artisticamente suas visões de mundo e publicar seus trabalhos, sob a chancela de uma instituição de produção de conhecimento e de cultura como a universidade, é algo também importante e fundamental. Neste sentido, dando continuidade à tradição de certames literários outrora já realizados, o prêmio PROEX de Literatura da Universidade Federal do Pará-UFPA conhece sua quarta edição de forma contínua e ininterrupta. O presente livro retrata em grande medida o seu resultado, com cinquenta e dois trabalhos laureados, sendo quatorze poesias, dezenove contos e dezenove crônicas, não alcançando, no entanto, o número de vinte trabalhos por categoria, apesar de cento e oitenta trabalhos inscritos, sendo oitenta em Poesias, sessenta em Contos e 40 em Crônicas. O que demonstra o rigor com que os autores, aqui publicados, tiveram seus trabalhos examinados por comissão julgadora independente e externa à UFPA, composta por literatos e professores conceituados. Destinado à comunidade universitária da UFPA, entre os premiados, os três primeiros de cada categoria, além da publicação em livro de seus trabalhos, receberam o Troféu Inglês de Souza, uma homenagem ao grande escritor paraense, precursor do naturalismo literário no Brasil.


Ao longo dos últimos anos, desde o resultado do primeiro Prêmio PROEX de Literatura, mais uma vez se demonstra que na Universidade não se produz somente o conhecimento acadêmico estritamente cientifico, mas também se produz academicamente uma produção literária de boa qualidade. Sendo a presente antologia, como as anteriores, um novo convite à leitura para todos nós, bem como um novo estímulo a que novos e antigos literatos ofereçam seus trabalhos nos próximos certames. Assim seja. Prof. Dr. José Maia Bezerra Neto Diretor de Assistência e Integração Estudantil da PROEX. .


POESIA

19

Nuvens Cheias

22

Sobre a forma

Harley Farias Dolzane Mônica de Nazaré da Costa Pereira

23 Cosmogonia Leandro Cavalcante Lima 24

Dor e Saúde da Silva Frayzer Lima de Almeida

27 Buraco Anselmo de Sousa Gomes 30

Nau Entre os Lábios

33

Novíssim@ c@nção do exílio

Marcos Sávio Souza Leal

João Marcelino Pantoja Rodrigues

35 Sirene Maria Jackeline da Silva Cavalcante 36 Tiro Salim Jorge Almeida Santos 38

Puríssimo Anseio

Sérgio do Espírito Santo Ferreira Júnior


39

Do Desvelo

40

A Cor do Batuque

41

Silêncio Rumorento da Tarde

44

Poema Digitada com o Falo

Thiago Alberto dos Santos Batista Victor Hugo dos Santos Burçãos Abilio Pacheco de Souza

Henrique Cesar Cardoso do Couto


CRÔNICAS

49 Entrevistas Thiago de Alencar Sousa 53

CRÔNICAS DO NORTE:

A Menina da Motocicleta

George Hamilton Pellegrini Ferreira

55

Uma Aula de Laicidade?

57

Os Revolucionários Virtuais Anti-Copa

59

Idas e Vidas

61

O Livro

63

Homenagem à Natureza

67

Era uma vez eu conto...

71

Crônico Março.

73

Poseidon, Adamastor e eu, na ilha de Atalaia

Ana Carolina Trindade Cravo

Henrique Cesar Cardoso do Couto

Patricia do Socorro Daibes Oliveira Bruno da Silva Amoras Noemy Pereira de Souza

Mailson de Moraes Soares

Marcos Mascarenhas B. Rodrigues Franciolis Freitas Viana


79

Sorria, você está sendo democratizado!

83

O Silêncio das Cigarras

87

De ouvir falar

João Marcelino Pantoja Rodrigues Jônatas Miranda Amaral

Líliam Cristina Barros Cohen

91 Cheiro Igor Alessandro dos Santos Cruz 93 Inspiração Fabiano da Silva Pereira 97 101 105 107

Ultrassonografia da Bolsa Escrotal Fernando Jorge dos Santos Farias

A Arte de Navecontar

Debora Rodrigues Ribeiro

A mais bela canção que já ouviu

Caroline Pinheiro Lobato

Crônica da Autoria Desesperada

Camille Barroso


CONTOS

113 117 125 129 135 143

O Sobrevôo

Mayara Lopes de La-Rocque

Andrômeda e o Rio.

Sidney Gustavo Fernandes Coelho

O Velho e o Tempo

Robson Heleno da Silva

A Outra Cor

George Hamilton Pellegrini Ferreira

As Vielas do Horror

Pedro Felipe dos Reis Soares

Consolo de Pobre

Maria de Fátima Dias Paes

147 Dor Alessandra Cristina Gaia Bastos 151

Era uma vez... Clarice...

Talice Chayane da Silva Quadros

155 Esperança Franciolis Freitas Viana 157

Estrelas do Firmamento

Lucas Fadul de Aguiar


163 165 171 173 179 185 187 191 197

Madrugada Marrom

Danielly Brito de Oliveira

Maria Moreira

Thaís Christina Coelho Siqueira

Miserere nobis

Matheus Benassuly Maués de Medeiros

O Caos dentro dele

Leonardo Jovelino Almeida de Lima

O menino de traços indígenas

Devison Amorim do Nascimento

O Misterioso Chico Preto

Raimunda de Nazaré Fernandes Corrêa

O Sopro do Lobo dos Porcos

Marcos Sávio Souza Leal

Um conto de vida e morte

Maria Lizete Sampaio Sobral

Uma Boneca

Joana D’Arc da Silva Queiroz


Poesias


Nuvens Cheias Harley Farias Dolzane

um homem não tem tempo algum. houvesse algo como fotografia saberia, talvez, lembrar aquele silêncio no teu abrir de olhos (mas teus olhos nem abriram ou disseram qualquer azul) ou o calor frio te inchando o peito, braços pés e mãos sob as peles finas, desde quando hospedado na ruga... rugissem as bestas desenfreadas na jaula crânea respondiam à minha voz? tuas enormes orelhas serviam? sob o duro delicado da testa encerrava-se alguma consciente lembrança? de rio escondido, recurvo? de quermesse, arraial em rabeca? da colônia? a morena velha não te sobreviveu... tu e alguns filhos carpiram, abriram a terra... chão batido. viste tantos no horror plácido daquela boca... teus? doendo em tuas noites? POESIAS

19


reparo num agora era a mesma testa de meu pai e os cabelos ralos que ele não pode ter... a mesma que tateio em minhas preocupações eu dizia te amar... respiravas fundo? ou o vento airando este negror, meus olhos jogados na distância projetando neons nas entranhas do meu corpo doente? eram os teus? de quem, então, a selvagem memória? lá, neste aqui que se prolonga, eu não sabia lembrar por esforço que fizesse e muito menos sabia te ter esquecido, como se esquece tesouros ao porvir... as outras gerações, os novos filhos, pais, mães nas cidades perdidas sou eu e o bicho que rumino ronda à distância que bem entende voluntarioso em dar-se a ver, seu silvo varando igapó... e sempre há um espelho na morte, o tempo se vendo em nós é narciso repentino... o convite era uma janela entreaberta para que, quem sabe, por milagre, uma réstia de vida... ao longe um filete de rio doirando. nem supunhas ele e tudo mais se indo na tarde naquela tarde eram meus os olhos fechando os teus? espiávamos o escuro das horas crescendo e outros esperavam para entrar na mesma certeza, a mim surgida como uma chuva liberta... 20

PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


por derradeiro, mister era revê-la : tu na origem de tudo e nós todos a expiar como nuvens cheias de amor liquefeito... sem haveres cá estamos irmãos, tios, pai, filhas, netos – reflexos meus no sem fim estilhaçado – reunidos a ti, em teu redor, em tua órbita de homem que o tempo teima em ter pétreo e plúvio nas retinas... as tuas, invólucro do espanto – deslembro? finjo como quem sonha? – rebrilhavam um poente impossível vi um pássaro se perdendo no horizonte como eco que se diz e seduz no aberto e no suspiro da tarde, teu fôlego, grunhido límpido escapando no debater-se em além asa como a supor um mistério esquecido de tanto que nunca o podemos ter : sereis vós acaso a fera voz? a vera foz? POESIAS

21


Sobre a forma

Mônica de Nazaré da Costa Pereira

Gaivota paira sustenidamente sobre o mar *** e eu que desejava dessa imagem fazer nascer um haicai não pude a ave voa muito mais além que o pouco punhado de silabas poéticas lhe permite ancorar.

22

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


Cosmogonia

Leandro Cavalcante Lima

Numa alva parede ComerĂĄ a osga Um negro inseto No abismo Um fragmento da imensidĂŁo Excretado Um ponto preto branco E fim.

POESIAS

23


Dor e Saúde da Silva Frayzer Lima de Almeida

- O meu nome é Silva, e tenho um intento. Como há muitos Silvas, que são da massa sindical, deram então de me chamar Silva do Movimento Sindical; como há muitos Silvas do movimento, fiquei sendo o que veio com a massa leste, lá do litoral. Mas isso alude muito pouco: há muitos nas marginais das capitais, por causa de suas vidas secas e de um punhado de novos coronéis, os que lá no leste surrupiam os papéis. Como então dizer quem falo ora Vossas Senhorias? Vejamos: é o Silva do Movimento Sindical, o que vive lá na marginal distrital, o que veio da massa leste, lá do litoral. Mas isso ainda alude muito pouco: 24

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


se ao menos mais cinco havia com o nome de Silva afiliados ou não a movimentos outros tantos, aqueles que vieram das massas do leste, norte e de outras tantas, os que presenciaram o que há de muito pouco nos hospitais e ouviram o muito, até demais, daqueles outros tantos em anos eleitorais. Somos muitos Silvas iguais em tudo na vida: na mesma longa partida, após uma curta dormida, mesmo com o Sol sem sua saída; e eis que nos apresentamos em uma fila, silenciosa e longa, silenciosa pois se respeita aqueles e suas dormidas, uma vez que o Sol ainda não estreita a sua saída. Somos também iguais tanto na espera como na esperança, e tanto na dor como no sangue, pois somos muitos, e para cada um nela há um outro, também Silva, em outra fila igual aquela do sangue providencial. E se somos Silvas iguais em tudo na vida, sofremos de dor igual, a mesma dor da Silva: que é a dor de ver o custeio da condução ao invés da compra do pão, a dor solidária a que há na conversa de voz baixa por entre a fila diária, solidário também foi aquele ministro, o doutor do coração, o que criou e acreditou na tributação, POESIAS

25


mas a ambição daqueles foi tanta que o tributo existiu em vão. Somos muitos Silvas iguais em tudo e na dor: as que abrandam a aflição ao se aliar a tantas outras que na fila estão, a que desperta a esperança daí esta que não se cansa, a dor que arranca do fundo da alma a fé em meio à aflição, Mas, para que me conheçam melhor Vossas Senhorias e melhor possam seguir a história de minha vida, passo a ser os Silvas que em vossa presença têm um intento com precisão.

26

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


Buraco

Anselmo de Sousa Gomes

buraco ali sem tampa ou disfarce escancarado contra o ar da manhã fosso no cerne da casa entre os cômodos travando o café o banho a probabilidade proba dum sonho oco sem forma nem fundo nem estampa parado retesando solidão

POESIAS

27


queda brusca suspensão do passo espaço perdido contra o aço fundido da segunda joio de nada vazando ar no meio de mim furo no osso impedindo firmeza impelindo :amor dentes escovados cara lavada e chinelinhos então sem chão hiato próximo zanzando feras nas avenidas rasgando ideias/compromissos em agenda/vísceras

28

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


fenda assexuada sugando - seca extrato de um qualquer desejo de uma qualquer volúpia ou beijo/ou ânsia na queda esvoaçados (enfim) contra um céu de lhufas cabelos daqui distância meus pés aerólitos e litros e litros pra baixo pra longe da curva do dia pra lá da salmoura do ali (cerce) cesso cesso cesso a queda por mais que ela vórtice cresce

POESIAS

29


Nau Entre os Lábios Marcos Sávio Souza Leal

lá fora a lua brilha um pouco mais enquanto eu deixo qualquer fase lá estar são três horas até onde posso lembrar que você já foi embora não deveria mesmo ficar me deixou café com pão na mesa beijou meu mastro bem abracadabra hasteou minha bandeira mesmo perfume, mesmo gosto de boceta amanhã vai ter sol com aumento de nuvens pela manhã pancadas de chuva à tarde e à noite e juro que queria que o balcão desse bar fosse suas coxas suas ancas, suas costas, os seus peitos de pomba 30

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


lagos aureolados em tons de rosa e lilás pra me afogar posso até imaginar e a tinta da caneta tivesse uma gota de leite do seu seio direito aquele um pouco maior que o esquerdo e que a esferográfica fosse o meu pau te desenhando fosse uma nau entre os seus lábios entre os seus dentes dependentes do anseio da mandíbula a superior e a inferior cabeça, tronco e membros unhas combinando com seu branco de pele castanho dos olhos e que esse poema fosse a pique a estibordo como moby dick de encontro ao casco do navio som do meu rock mais primal perigoso, banal quem é você quando me toca? está brincando de quê me olhando assim? tatuando meu nome em seus espaços vazios. depois do seu plantão, depois de horas depois da lua lá fora POESIAS

31


depois da carne até os ossos entre o pescoço e o dorso agarrando os seus cabelos mais longos, mais firmes como uma crina loira enquanto eu te cavalgo na corrida as mãos dadas, as mãos dadas as mãos, as m... (...) m... (...)

32

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


Novíssim@ c@nção do exílio João Marcelino Pantoja Rodrigues

Meu profile tem mil links Onde reina o spam Os vírus que aqui se instalam Contaminam qualquer lan Nosso e-mail está mais hot Devorando precursores Nossos blogs vão ao twitter No twitter seguidores Ao logar o facebook Vejo rostos mui estranhos Tenho estado twittando: Quais as perdas? Quais os ganhos?

e

Por favor, não me xplorer! Banda larga escolha estreita Nesse micro sempre soft Invenção quase perfeita Se o convite vem com spyware Não me giga que aceita POESIAS

33


Não me deixem ficar off Mundo lost destorcido E tudo que eu planejava?! E meu tempo consumido?! Sei que é tarde e que deliro... Sou download corrompido.

34

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


Sirene

Maria Jackeline da Silva Cavalcante

Br. Trânsito parado. Engarrafado Carros, bicicletas, pessoas. Vidas distintas entrelaçadas Na extensão daquela estrada... Ao longe, ouve-se a sirene que: Grita, Chora. Implora Pede passagem. Br. Trânsito parado. Congestionado E a sirene vem exigindo espaço Na inercia daquela avenida interminável Pede passagem A sirene perturba, desnorteia. Incomoda Mas na pequena extremidade daquela ambulância : Um corpo inerte... Busca desesperadamente Qualquer indicio de ar Que de vida lhe sirva. Br. Trânsito parado A sirene chora, implora. Grita: Anuncia o ultimo suspiro Daquele pobre moribundo... Br. Trânsito parado. POESIAS

35


Tiro

Salim Jorge Almeida Santos

Fogo e então Fumaça correndo a rua logo alagada de gente chuva: água sobre o sangue que sobra nas calçadas avermelhadas e sujas: solução que escorre como bala perdida pela vala empurrando barco e aviãozinho 36

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


de papel deixa feridas vítimas e lágrimas estendidas lava o chão mas não leva a sujeira não batiza nem sacia ecoa nos bueiros esquecidos entupidos de sussurros até que um silêncio absurdo cicatrize tamanho horror e por um instante faça esquecer o medo

POESIAS

37


Puríssimo Anseio

Sérgio do Espírito Santo Ferreira Júnior

Não queiras ver, amor, deste velado Amor a face radiosa e bela, Pois a pureza que se não revela, Mantê-la deves longe do pecado... Não queiras deste amor, santo e calado, Que sempre busca a ti e por ti zela, Entrar na tenebrosa e fria cela, Que recinto é de amor imaculado. Não... Não queiras do lume que me abrasa, E o coração me envolve em fina gaza, Sentir ao peito o fervoroso afeto... Mas... Se o quiseres, vem, que te conchego!... Não tem meu coração nenhum emprego, Senão pulsar por ti, senhor dileto!

38

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


Do Desvelo

Thiago Alberto dos Santos Batista

é preciso cuidar bem da vida (esse vulto de fio frágil refletido na poça d’água) porque gota pós gota de chuva vespertina vacila e em vagas some

POESIAS

39


A Cor do Batuque

Victor Hugo dos Santos Burçãos

Esse som tem pele preta de antiga cantiga escrava tambor de cabelo crespo herança de terra Mãe lamento que se celebra do choro que vira riso da dor que virou dança do grito gritado de novo dessa raça de cor tão viva de um povo que ainda apanha Ê negro! Ê África! chicote que bate n’alma do sagrado corpo dito profano tua vida se faz batalha teu toque se faz levante no jogo dos teus guerreiros tua arraia feriu por dentro e teu compasso já gingou por fora !

40

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


Silêncio Rumorento da Tarde Abilio Pacheco de Souza

traz-me o vento um acorde seco um sol mofino desafina fios mofos não têm graça esses seres leves mais leves que uma aeronave veículo mais pesado que o ar e o vento se azucrina desses cavalos dormentes que trotam em teclas são os pássaros em paços urementos em que sandálias longe de serem dálias sapatos chapinham em passos e em tamancos... sim! manqueantes moças dammes e raparigas chiam aquele um torce-se e cospe na pedraria causo do que a praça me faz inalo estridem dos bicos como gosma escorrendo entre meio fio e desvio ou ao menos tento enxoto meu pé meus cascos dos cacos e gomas de chique de chicle de boca esnobe “trái” “daite” “laite” POESIAS

41


dela mesma mana denasando a manteiga do escarro ordinário há canções belas esgarçadas por abafadas por sopros de mormaços hálitos de bochornos suarentos bafos de sovacos desadovados não há canto rijoso a malodor e duram então essas coisas aí tecno-quê de melody-lhufas gargalhos zanzos banzando dejetos vesperais nas lâminas lamas do velho lemos a-tonus lesmas ideias de empulcrar ruas ridentes desrimos desrumos desrimamos dentes de fora alegrias destons rictos ao sol aos poucos se ciciam anêmicas arengas rogos mojos a-rengas somadas delas de-somadas à tarde a tarde atarda clara nívea de cristais núbil canoros breus soteros brumos prumos pros rumos rumores haveres de versos à espreita inseto retido em pus catarro vômito em estômago mareado 42

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


o poema no hades dos ruídos no inferno sonoro da tarde bolha de ar em balde emborcado asfalto cedendo à força d’água

POESIAS

43


Poema Digitada com o Falo Henrique Cesar Cardoso do Couto

Edsxdgtfgvjuhjolol´´çp´~ [ PçkjkjhugfdaqaWET5RTFGTYHOP-´[´´´PPOOIIUYHYTFR REWaew33rr5t hikop-0pjuhyjgfgtfd xqa 2e3tggyhumiop´=m l.~[ [ Lçlojjhutgf fvfresaqa rdtr5yikkl´ç~[ [ [çp´mkikujhyyteq 1rb vui9´[ 554pjhyufcg xd bgvfzsws jikdwgy jmnlkmçp´pç~ Mjm bseedc km mnkjuh bfredaqklp [nljhnuhuyo´ç~p-p087eruh

44

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


POESIAS

45


Crônicas


48

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


Entrevistas

Thiago de Alencar Sousa

Em uma reportagem recente do New York Times, foi feito um experimento social, no qual consistia em escolher certos participantes para abordar e falar sobre qualquer assunto com quaisquer pessoas que estariam no metrô. O receio, antes do experimento, era de que as pessoas se recusassem a engajar na conversa, no entanto, no final, contabilizou-se que todos os participantes obtiveram conversas com as pessoas escolhidas. Além disso, também relatou-se que pequenas interações, como cumprimentos ou pequenas conversas, podem constituir uma carga grande de felicidade no dia-a-dia, ao contrário do que se pensava – que só as relações profundas e íntimas é que poderiam nos trazer felicidade de fato. E assim conhecemos o poder que as pequenas histórias alheias exercem sobre nós. Uma forma de conhecer estas histórias é quando assistimos a entrevistas, os conhecidos “talk-shows”. A diferença básica entre entrevistas e uma conversa aleatória na rua é que ninguém irá estranhar se a pergunta, por exemplo, “Qual o sentido da vida?” for feita na entrevista, enquanto que no cotidiano, a pessoa seria considerada, no mínimo, perturbada. Para quem não conhece, este tipo de programa televisivo consiste basicamente em duas pessoas – o apresentador e o convidado – conversando sobre qualquer CRÔNICAS

49


assunto. Há entrevistas que falam sobre assuntos mais específicos acerca do entrevistado, como alguma obra que o artista produziu recentemente, ou algo similar. No entanto, as melhores conversas acontecem quando o assunto é o próprio entrevistado. Falar sobre a vida, frustrações, banalidades, é encantador em demasia. E o mais interessante, dependendo do entrevistador, é que há uma falta de pudor exatamente na medida em que deve ocorrer. Outro dia assistia uma entrevista em um talk-show de um filósofo conhecido no Brasil, e este falava sobre o jogo de sedução em seu casamento e o quanto era prazeroso acariciar sua esposa enquanto a mesma cozinhava. Isto sim é genial! A vida vivida e contada em sua essência. Através destas histórias e conversas, pode-se ver o mundo pelos olhos de outra pessoa. É uma oportunidade de se doar por alguns minutos a alguém, a uma narrativa. O cotidiano não nos permite ter a paciência ou a sensibilidade de poder se entregar a um conto, a uma teoria sobre a vida ou a um olhar peculiar acerca de assuntos banais que nunca atentamos, mas quando estamos assistindo a uma entrevista e nos damos o direito de ter um curto período de tempo para focar nossa atenção em um simples ato, – a conversa entre duas pessoas – então podemos tirar o melhor proveito daquele momento: admirar quão simples e incrível é a história de alguém. Enxergar em alguma pessoa mais do que uma simples existência, mas sim um emaranhado de emoções, encontros, desencontros e significados diferentes que compõem uma narrativa. Ouvir com atenção uma história é se entregar às emoções expostas e colocar-se no lugar do personagem em questão. Além de perceber o mundo com outra alma, outro coração, é também viajar na complexidade da existência humana, de caminhos trágicos e absurdos, onde a sensibilidade deve reinar em seu mais absoluto silêncio. 50

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


Em umas das diversas entrevistas que assisti nas últimas semanas, está a da atriz Denise Fraga. Logo no começo da entrevista, ela diz que nunca pensou que seria artista, embora achasse que tinha “alma de artista”. A atriz explica que tal alma a qual se refere, consiste em ter a capacidade de perceber e olhar a vida enquanto ela passa, de se perceber de fora. Olhar pra si mesmo e ver quão bela é a sua história. Denise complementa: “Ainda antes de estudar teatro, quando andava de ônibus, eu me lembro de estar com a cara grudada no vidro do ônibus e achar aquilo bonito... Me olhava voltando pra casa e via o meu reflexo no vidro com aquelas gotinhas de chuva do outro lado(...). Achava a existência bonita”. A alma que Denise define, portanto, é a aplicação da habilidade de contemplar uma história – desta vez, a sua própria.

CRÔNICAS

51


52

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


CRÔNICAS DO NORTE:

A Menina da Motocicleta George Hamilton Pellegrini Ferreira

Faz um belo dia de sol, mas sem o calor costumeiro. Apesar do sol, o solo ainda não conseguiu absorver a água da última chuva. O cheiro de terra e vegetação molhada é reanimador. A universidade fica na fronteira entre um bairro pobre e um condomínio horizontal de luxo. No campus há demasiado espaço para tão poucos prédios. Paro um pouco antes de entrar na sala e volto a observar uma particularidade deste lugar. Mesmo na cidade, a vegetação desta região amazônica tem um vigor extraordinário. As ervas daninhas saltam sobre os batentes, sobre as janelas, sobre os caminhos de pedra, numa luta ininterrupta entre a natureza e a civilização. Tão diferente do meu nordeste natal, com sua vegetação domesticada e submissa. O asfalto ainda está úmido, consequência das chuvas que caem religiosamente todos os dias. A chuva, copiosa, densa e poderosa. Se no mundo só há uma certeza (a morte), aqui há outra: a chuva todas as tardes. A chuva é quem conduz o tempo das pessoas, dos professores, dos alunos...A chuva que se personifica como ente onipresente.

CRÔNICAS

53


A sala fica ao fundo do corredor, muito ampla e com quatro largas janelas de vidro. Desde o centro da sala se pode ver a três diferentes paisagens, a periferia, o lado abastado e a zona fronteiriça. Chego com um pacote de provas embaixo do braço. Em meus alunos percebo uma pequena apreensão nos olhos, delatando a sensação de curiosidade, medo e alívio ao mesmo tempo, por saberem que dentro de um par de dias a disciplina estará finalizada. Ao saber que a prova será dissertativa alguns protestam como se fossem crianças. Um tipo de protesto que é mais para fazer graça que por mudar o conteúdo da prova. A verdade é que construímos uma boa relação de respeito e amizade entre todos. O grupo é muito carinhoso e a minoria que não é, não incomoda. Após distribuir as provas e o silêncio cair sobre o ambiente começo a refletir sobre o sentido de estar aqui, tão distante dos meus, tão ao norte do país. Tudo aqui parece ser mais difícil, inclusive as amizades... Saio um pouco para fumar e vejo chegar a menina da motocicleta grafite, com seu sorriso de mar. Então, misteriosamente, como que por intervenção divina, tudo volta a fazer sentido.

54

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


Uma Aula de Laicidade? Ana Carolina Trindade Cravo

Uma olhadela no tempo... E já são 21h05min. Eis que ele entra sorridente e saltitante, esbanjando o carisma já conhecido. Esgotando a paciência dos cerca de 300 pares de olhos cansados e desejosos de suas camas, com seus vários “Oi, oi. Boa noite, gente!”. Exaurido finalmente a carga de cumprimentos, o rapazola comunicou que naquela noite ele faria algo diferente. Égua! Podes crer. – pensei. Para minha tristeza a decepção veio em seguida. As luzes se apagaram, o data-show foi ligado, envolvendo todo o público naquele cenário de expectativa. E por fim, nada de reações, soluções ou cálculos estequiométricos, pelo contrário, uma miscelânea de auto-ajuda e convicções religiosas beirando ao pieguismo. Passados 40 minutos, o discurso hilário e nauseante continuou sem dar quaisquer sinais de término. Respirei fundo, olhei ao redor e me perguntei o que eu fazia ali, afinal de Química aquela aula não tinha nada. Parti aborrecida. E no bar ao lado a companhia de uma cerveja, foi o mais próximo da Química que estive naquela noite.

CRÔNICAS

55


56

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


Os Revolucionários Virtuais Anti-Copa Henrique Cesar Cardoso do Couto

A edição de 2014 da Copa do Mundo FIFA possibilitou o surgimento dos Revolucionários Virtuais Anti-Copa (RVAC). O RVAC sente uma comichão incontrolável nos dedos, forçando-o a denunciar a corrupção praticada por políticos brasileiros e pela FIFA, a voltar-se contra o maciço investimento em estádios, a criticar os imbecis que louvam futebol e outras coisas mais. Você pode adorar ou odiar futebol, mas não pode negar que o esporte se tornou uma mercadoria tão valiosa quanto os carros, refrigerantes, cervejas, produtos de higiene, fast foods e eletroeletrônicos fabricados pelas patrocinadoras da Copa do Mundo, mercadorias que todos consomem, até mesmo os revolucionários. Com o intuito de saciar a maldita comichão, o RVAC vai ao shopping comprar um celular ou notebook, lançamentos tecnológicos planejados estrategicamente para a época do mundial. Então, enquanto toma uma Coca-cola, pode escrever em seu perfil do Facebook ou do Twitter “NÃO VAI TER COPA” e “VERGONHA DE SER BRASILEIRO”, em caixa alta, para transmitir a impressão CRÔNICAS

57


de que está gritando palavras de mudança. Depois, peito estufado, recheado pelo orgulho de ser um cidadão politicamente ativo, pega o carro, o modelo do ano, dirige-se ao bar “top” da cidade e encontra seus amigos, também revolucionários, para tomar uma cervejinha e desdenhar dos alienados pseudopatriotas que pagarão durante 10 anos o ingresso que lhes darão direito ao pior acento do estádio. O RVAC jamais gastaria seu dinheiro para ir ao palco amaldiçoado do pão e circo futebolístico e torcer para 22 homens em disputa pela posse de uma bola. Mas acompanhará os jogos pela televisão (da mesma empresa que fabrica os seus celulares), embora considere a emissora oficial da Copa uma corporativista burguesa. Mas não se engane, torcerá por qualquer seleção adversária da nossa. E o discurso pós-copa já está pronto: Se o Brasil perder, voltará a fazer denúncias bombásticas sobre os gastos públicos com a Copa e fará questão de arrancar os enfeites e bandeiras que costumam invadir as ruas brasileiras. Caso a nossa seleção seja campeã, a FIFA vendeu o torneio e ganhou milhões com isto. Na vitória ou na derrota, ele se sente obrigado a divulgar a verdade ao mundo. Pelo Facebook e Twitter, evidentemente. Em 2018 a Copa será na Rússia. Até lá, é possível que haja novas redes sociais e certamente os celulares estarão mais evoluídos. Prepare-se para revelações surpreendentes sobre a península da Crimeia.

58

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


Idas e Vidas

Patricia do Socorro Daibes Oliveira

Eu estava parada atrás de placas, esperando seus donos engatarem a primeira marcha. Estava na fila da esquerda, ao lado de um canal aberto e coberto pelo céu. A fila deveria andar mais rápido. Eles discutiram, eu acho, mas a verdade é que não sei. Ele apontou pra frente, foi como se quisesse seguir com ela. Ela ficou parada junto comigo, no banco, sentada. Ele se foi. Andou e não olhou para trás. Atravessou a rua e não voltou. Parece que andava apressado. Eu fiquei esperando enquanto os carros não se moviam. Espiei, pela janela do carro, por trás dos vidros se ele olhara para trás. Passei por ela, emparelhada, devagar, olhando seu rosto triste. Ela não leu romances. Não acompanhou revoluções. Não se agarrou a nada, nem a ele. Às sete horas da noite o trânsito costuma estar intenso, hora de voltar. Para onde estão indo as máquinas a minha frente? E por que ele não volta? Agora minha vida estava entrelaçada a deles. Talvez ele andasse mais rápido, o carro a minha frente não me permitia fluir. Eu e ela presas, ele sempre à frente. Seus passos diminuíram, mas a distância aumentou. A mão no bolso procurando o celular. Talvez uma mensagem dela. Dizendo o que? Me espera! Volta aqui! Quero ficar! Ou talvez nada disso. Poderia ser ele olhando o tempo passar. Os carros aceleraram e minha distância entre ele aumentou, a dele para com ela também. CRÔNICAS

59


No trânsito da cidade, em uma avenida principal, absortos em nossos pensamentos, em nosso egoísmo, cenas que perdemos, lugares que não vemos, pessoas que não sentimos. Debulhado em medo, medo de aceitar enxergar o outro quando nem mesmo eu me enxergo. Quantas vezes a gente se afasta? Eu me afasto dos meus pensamentos, mesmo que pareça perdida neles. Eu me afasto do trânsito, do fluxo, do intenso, para me encontrar em outra intensidade, para ver o meu amor. Ele se afastou do seu amor. E ela também. Perceber, olhar, sentir e suportar a vida ao redor. De outra forma. A essência da vida são idas e vindas. Mas não é só isso. A vida, pra mim, é um pouco disso, e um mais que eu ainda não sei. Uma mistura fugaz, talvez. Um desiquilíbrio, um desencontro, uma preparação para reencontrar. Ele se afastou. Ela se afastou. Eu me encontrei.

60

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


O Livro

Bruno da Silva Amoras

Quando o pai se aborrecia buscava seu esconderijo: o livro. Arredio, poderia estar em praça, lanchonete, ônibus, reunião familiar, lugar-sem-fim, vivia em dois mundos. Tinha mãos de papel e o rosto era sempre uma capa diferente, de tanto que lia. O livro seria uma solução para os problemas dele? Que inveja... Como eu queria mergulhar nesse mundo como um remédio emergencial. Antes de saber ler, criança, os meus livros escolares eram cheio de imagens, cores, aquilo sim era um prazer, ter a oportunidade de viajar pelos contornos de desenhos, apagar, redesenhar, alterando a forma, a cor. Mas ao ver os livros do meu pai, as letras eram “paradas”: tudo organizado e monótono, sem uma fuga de forma. Ficava mais intrigado ainda. Por que ele foge da realidade monótona, chata, entrando em um mundo padronizado, sem cores diferentes, sem desenhos? Que frustrante! A terra é redonda, o sol esquenta. Não posso entortar a terra? Esfriar o sol? Seria ridículo? Escola. Tudo igual como no livro do pai. Não posso alterar os conhecimentos, porque é inexorável? Outro dia, já na Universidade, constatei que a minha lógica de pensamento começava a alterar-se. As folhas de papeis e as aulas continuavam monótonas, mas percebo que as imagens, as formas e a imaginação que sempre busquei prontas em livros e pessoas. Consigo encontrar em meus pensamentos: reaprendi a criar, “viajar”, desenvolver ciência, alterando formas e redesenhando novas ideias. CRÔNICAS

61


62

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


Homenagem à Natureza Noemy Pereira de Souza

Hoje o dia amanheceu nublado, anunciava uma chuva que começaria a cair bem discreta, tão discreta que não se podia nem ouvir, só ver. Olhando para o tempo, eu via aquelas minúsculas gotas d’água, que não faziam barulho algum ao encontrar a vegetação. Para mim foi surpreendente, pois o que se espera de uma chuva é ao menos ouvi-la. E foi mágico! Havia silêncio e movimento. O que é comum é que algo que se move produza algum som, ainda que fraco. Mas dessa chuva, eu não ouvia nada. Aí, pensei comigo: “Puxa, esse tipo de chuva é tão incomum aqui. Ou será que já aconteceu inúmeras vezes e eu nem notei porque não estava prestando atenção para o horizonte? ”. No geral, a chuva vem se acusando com um chiado baixinho, lá longe, e vai aumentando, até que chega aqui. Não é à toa que chamam o som do chuvisco da TV de chiado. Realmente, esses dois sons tem tudo a ver. Mas só que o chiado do rádio incomoda, o da chuva não, é suave, está ali fora, não muito intenso e podemos ver que é produzido a partir do choque das gotas de água com inúmeras superfícies. Depois que a chuva cessou, estava eu ainda ali na janela, claramente hipnotizada pela paisagem e então acabei por reparar como é gracioso o voo de uma gaivota, suas asas fazem um movimento delicado e decidido, rápido e totalmente premeditado. Percebi que as CRÔNICAS

63


asas ao se expandirem, seguem um caminho, que já é outro ao se recolherem. É o melhor trajeto para as asas, uma vez que as mesmas precisam sustentar-se em uma massa de ar diferente daquela que deslocou. Logo depois, chegaram alguns passarinhos, eu nunca tinha reparado que eles dão um impulso com as patinhas pra decolar e depois começam a bater as asas num voo bem-sucedido, isso para os experientes, os iniciantes fazem alguns ensaios antes de, efetivamente, deixar o chão. Eu, que costumava vê-los apenas em pleno voo, vi que para pousar eles também usam as asas, para refrear sua velocidade, assumindo uma postura mais ereta, assim fazem as patas encontrarem o plano de pouso e, nos pontos de encontro, eles vão amortecendo o impacto, dando pulinhos. Já pousados, eles mexem a cabeça rapidamente, várias vezes, de um lado para o outro, sempre em movimentos pequenos e rápidos, assim também são os seus pulinhos, pequenos e rápidos, é a sua maneira de caminhar junto à terra. Avistei também o beija-flor, com suas asas frenéticas, eu mal podia vê-las, no entanto seu corpo era só calmaria, em pleno ar flutuava, fazia movimentos estáveis, como que suspendido por um fio. É sua especialidade, já que ele precisa se alimentar do néctar das flores e como elas são muito delicadas, ainda que o beija-flor seja leve, elas não aguentariam o seu peso. E o que há de novo nisso? Nada, isso acontece sempre, mas nós nem reparamos, estamos tão ocupados com o dia-a-dia corrido e com as nossas funções que simplesmente não nos damos conta desses lindos presentes que a Natureza nos traz todos os dias. Sabe-se lá quanto tempo e trabalho isso tudo levou para ficar pronto. E sabe por que as pessoas não costumam cultuar a Natureza? É porque não vivem a Natureza, ou melhor, não vivem a Natureza 64

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


primária. Primária? Sim, pois mesmo que a areia e o barro, por exemplo, se tornem concreto, eles continuam sendo elementos naturais em outra apresentação, apresentação essa que eu chamo de Natureza secundária ou derivada. E então? Então... É só viver um pouquinho a Natureza, a que é espontânea e pura, para se apaixonar por ela, para querer cuidar dela, para querer que ela continue fazendo seu incrível trabalho, porque ele nunca deve parar e nem há de se acabar. A Natureza é, de longe, um grande ser, um grande e sábio organismo, ela é tudo, não é só a Terra, mas foi na Terra que começamos a conhecê-la. Mais pessoas precisam se apaixonar pela Natureza, ela é tão generosa que nos dá tudo que temos, só que não podemos exagerar, pois senão ela se esgota e se isso acontecer, seremos nós que vamos ter que tentar fazer o trabalho dela, pois ela tem seu tempo e nós somos apressados. De qualquer forma, no que diz respeito ao trabalho dela, somos apenas aprendizes, já ela, é catedrática, muito inteligente, poderosa e paciente. Viva-a, respeite-a, proteja-a, tente entendê-la, enxergue-se você como parte integrante dela e tudo fará sentido.

CRÔNICAS

65


66

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


Era uma vez eu conto... Mailson de Moraes Soares

“Escrever é juntar nossos pedacinhos”

Sempre gostei mais de inventar histórias do que relatar fatos. Cresci encantado com as histórias de visagem que meu avô contava, assim como suas aventuras de pescador, jogador de futebol, roceiro, homem rude e dotado de sabedoria simples e encantadora, uma figura contagiante... As assombrações que ele via quando voltava depois de fazer “quarto” para um recém-falecido ou os eternos compadres mortos que tinham lhe acompanhado em suas peripécias, até então, ele era o único vivo. Como provar o contrário do que ele dizia? Era até engraçado. Foram muitas as histórias que alimentaram minha infância no Marajó - nas quais eu acreditava piamente - as lendas da Cobra Grande (presa ali no fundo do rio Paracauari, que divide Soure e Salvaterra) da Matinta, do Soca Pilão e tantas outras que entretiam a mim e a meus amigos de vizinhança. Nas noites em que pelo racionamento da luz elétrica nossa cidadezinha era envolvida totalmente por um manto escuro, sentados na calçada ou na batente da porta ouvíamos e vivíamos encolhidos todas aquelas visagens narradas. Assim cresci, com uma mentalidade fértil para fantasiar, criar desenhos de mundos encantados, brincar com meus amigos imaginários, criar mil reinos com tampinhas de garrafa ou coquinhos.

CRÔNICAS

67


Eram lutas intermináveis entre mocinhos e bandidos... De tanto minha irmã mais velha ler pra mim histórias de contos de fadas eu as decorava sempre fascinado por aquele mundo de magias. Uma criança como tantas outras, perdida nas brincadeiras com os muitos primos, tomando banhos de igarapé, embrenhando-me no mato do imenso quintal do meu avô, contando e gabando-me do número de espinhos no pé... Era tudo muito, muito bom: as festas de Círio, as idas para despescar o “curral” e ter que esperar a maré baixar enquanto nadávamos sem parar, os almoços de domingo na casa dos meus avós, os Mastros e Festas de Santo, a comilança, a dormida com a “primarada” na casa do meu avô, enquanto os adultos iam pra festa no barracão do padroeiro, e à noite eu acordava e escutava os merengues, e imaginava o sabor que tinha aquela cerveja gelada num buraco, coberto de gelo e serragem... Sono embalado ao imaginar, sono de tantas redes que parecia a casa do meu avô um navio nas águas amazônidas... Quando volto hoje ao Marajó, vejo como tudo está mudado. A travessia se instalou em mim. E quem uma vez deixa sua terra, para lá nunca mais volta o mesmo. Meu avô não está mais entre nós. Os primos cresceram, as festas algumas permaneceram, mas as músicas... Ah, essas são outras. Nada mais tem o sabor daquele líquido amargo, gelado descendo pela garganta, suavizando o calor e torporizando o espírito. Mas essa é a lei da vida, a lei do tempo. Como poderia exigir eu que o mundo não mudasse. Retornar ao lugar que nasci é lembrar quando comecei a escrever. Prestava serviço voluntário na paróquia da minha cidade. Até, então, católico praticante, pela tradição familiar e inicialmente por gosto também. Escrevia “pecinhas” com fundo moral de acordo com o evangelho do dia, para serem apresentadas na missa das 68

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


crianças aos domingos pela manhã. Aproximava assim aquelas mensagens das Sagradas Escrituras à linguagem dos pequenos. Até hoje me recordo... Das crianças e das peças. Daí foi um passo para o colégio, onde os trabalhos ficaram mais ousados, políticos, contestadores para minha cidadezinha àquela época. Ríamos, brincávamos de fazer teatro, incomodávamos a ponto de trocarem nossa professora de Educação Artística e assim nos forçar a trocar os palcos pelas intermináveis apostilas de metodologia de Ensino da Arte. Não fazia sentido para nós falarmos tanto de algo que amávamos fazer e não ter a sua prática. Assim, me restava o palco do Salão Paroquial onde após ter fundado o Grupo de Teatro da Paróquia, o tivemos lotado várias vezes, na maioria apresentando peças infantis escritas por mim. Filho de uma prestimosa professora. Minha mãe sempre me incentivou à escrita e a leitura, muitas vezes não com palavras, mas com seu exemplo. Eu vivia junto dela, menino filho de professora, metido inúmeras vezes entre os docentes da Escola Sede do município, onde ela trabalhava. Inúmeros encontros que foram responsáveis por gravar profundas marcas da vivência Palavra em meus dias. Hoje, nesta Santa Maria de Belém do Grão Pará quando arrisco- me a escrever neste imperioso ofício de quem curiosamente precisa, necessita, encanta-se com a Palavra; Dita; Escrita; Ouvida; Contada. Persiste em mim o Marajó de meus sonhos... Uma terra mítica que torna-se real, real que é mitificado, e nesse embolo de serpentes não sabemos onde começa um e termina outro. Vozes de uma terra minha que permanecem entranhadas em mim. Ecos feitos de memória, lembranças, esquecimento, saudade... Esta força telúrica me acompanha. Afinal, meu umbigo está enterrado lá. No quintal do meu avô, onde nasci. À beira do igarapé, na esteira, amparado por Maria Macumbeira, uma parteira e pajé, conhecida CRÔNICAS

69


naquelas ilhargas. Uma surijã ou meuã, de mão cheia – com diz minha avó. Como é bom contar, não só inventar histórias, mas contar. Dizer como as coisas foram ou são. Pintar um retrato não com tintas, mas com Palavras. A palavra quando fruto do dizer é pássaro viajante, lançado à alma do outro, onde se aninha e se reproduz. Ou apenas pousa momentaneamente para descansar. Palavras contadas que nos alegram e nos avivam, como uma revoada de pássaros. “Ai, que saudades que eu tenho da aurora da minha vida, da minha infância querida...”

70

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


Crônico Março.

Marcos Mascarenhas B. Rodrigues

A força copiosa e pluvial nos meses, entre fevereiro e março, é criadora, libertadora mesmo, máquina feita de rio, máquina que nos reporta a um tempo passado, traduz-se num extravasamento, vicissitudes a jorrar pelas ruas do Santo Rosa, Cabelo Seco e São Félix, em Marabá. Fazendo com que a Marabá reviva a Pioneira, um tempo passado e caboclo, castanheiro, emprenhado de rio e gosto nesta simbiose entre canoa e braços, pernas a andar, para simplesmente poder movimentar-se pelas ruas, agora inundadas, reclamadas pelo Tocantins, não pode deixar de ir à mercearia, comprar víveres banais, a vida cotidiana segue seu curso e a canoa até a taberna. Esta máquina do tempo, cheias tocantinenses, revisita-nos num outro tempo, o veloz, apressado e mal educado, das motos e carros, que rastejam tão insanos pelos bairros teus, acidentados abarrotam o Regional, milhares por ano uma cheia tão voraz por sangue, verdadeira preamar vermelha, pororocando ossos fraturados, funério estado de sitio, paresqui que ninguém vê. Um tempo jocoso, em que carro brinca de ser canoa, e as canoas assumem a mobilidade das máquinas, março e o Tocantins, unem-se para pregar-nos esta peça, quase todo ano é assim em Marabá. Visita-nos previsivelmente, pois que a chuva trás todos os anos, sob o manto de tuas cheias, todos o sabem, quem não o é sabedor? CRÔNICAS

71


Transtornos sempre os trás. Anunciados ou não, bem verdade que maior é à força do hábito, da necessidade da labuta, de um casamento desses moradores da Marabá Pioneira com a beira, sua leiras, suas imediações. O rio assume a papel de um amigo de toda hora, margeando dias e noites, distante talvez, adormecido jamais! Suas aguas encistem em nos acordar. Vez por outra o progresso da vida urbana, modernidade metida a besta, que enciste em dar as costas para o rio, expansão dirigida ao centro, emprenha o tecido urbano de casebres, ruas empoeiradas ou enlameadas, por línguas de esgotos lambidas, e tantas mais asneiras modernas vividas condenam o abandono da beira, por estas bandas da Amazônia inteira, sofre essas outras racionalidades, uns dirão ancestral, outras natural, o rio a todos media por suas aguas faceiras. Ele inunda as beiras...

72

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


Poseidon, Adamastor e eu, na ilha de Atalaia Franciolis Freitas Viana

Sempre que vou ao mar, recordo de Camões e o seu Os Lusíadas. Talvez, devido à imagem de nossos colonizadores ser, umbilicalmente, ligada as grandes navegações. Basta que eu pise em alguma praia que rápido a mente evoca os dez cantos da epopeia mor portuguesa. Foi assim, quando senti os primeiros grãos das praias da Corvina e de(a) (ilha do)Atalaia, ambas no município de Salinas, nordeste paraense. Não, não penso em todas as 1102 estrofes do poema. Tarefa hercúlea demais. Concentro-me no episódio que envolve o gigante Adamastor (estrofes 37-40), do qual se diz “Arrepiam-se as carnes e o cabelo/ A mi e a todos só de ouvi-lo e vê-lo”. Fico de cabelos em pé quando vejo os vagalhões do mar. E os de Salinas têm essa capacidade de terrificar os veranistas.

CRÔNICAS

73


A praia de Atalaia, homônima da ilha onde é localizada, aglomera muita gente, diversos bares, incontáveis barracas, e – coisa chata – vários automóveis. Faço questão de abrir um parágrafo para manifestar meu desagrado com esse hábito, quase tradição, de as pessoas estacionarem seus carros na fímbria, entre as barracas de sol. Gente do céu, que desagradável estar acomodado, degustando um caranguejo no tucupi, e inopinadamente vir um automóvel estacionar bem ao seu lado, depois de tantos lugares na ilha! O asfalto é que é lugar de veículos! Acho que esse povo tem titica de galinha na cabeça, só pode. As autoridades competentes deveriam proibir isto. Macular a venustidade de praias com a presença de máquinas é um crime, ou no mínimo uma deselegância. Estranho é que os belenenses, por exemplo, fogem da capital no final de semana e feriados para Salinas, para se desintoxicar do mundo moderno, e vão para a praia poluir de progresso o que a boa mão de Deus criou para ser belo ao natural. Ó vontade de pegar um megafone e mandar todos irem à terra do semancol, preferencialmente acorrentados no volante de seus Onix’s, Hilux’s, Ranger’s, Corollas, e os raios que os partam! Enfatizemos doravante o Adamastor, digo, a praia de Atalaia, onde o bendito gigante encantado me surgiu, em riste, enquanto eu fitava a violência das ondas. Esforcei muito a cabeça para o alto a vislumbrar seu rosto. Não pude. Estava além das nuvens. Enxergueilhe somente até a altura dos ombros. Soube que era o Adamastor pelo fato de ser de pedra, como a escultura de Júlio Vaz Júnior, no miradouro em Lisboa, Portugual.

74

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


Ele, suntuoso, não falou, inicialmente. Eu também não. Se não falam comigo, torno-me mudo igual parede. Teríamos ficado soturnos a eternidade inteira... Então, sua voz estrepitosa ecoou. Timbre divino. Confessou-me: “Enfim, minha grandíssima estatura, Neste remoto cabo converteram Os Deuses, e por mais dobradas mágoas, Me anda Tétis cercando destas águas”. “Cercando destas águas”, reverberei as palavras do zé grandão. Sim, o que são elas – as águas – senão um muro? A humanidade julga ser espaçosa, enorme, mas acaba onde inicia o mar. Fui tomado por um sentimento que deveria ser o apotegma matinal de todos: somos reles partículas na Criação. Os portugueses aportaram na Índia, no entanto, jamais avassalaram o caminho que os levou até lá. O caminho-mar é indominável! Não à toa, vez ou outra, assusta-nos com tsunamis e trombas d’águas – a mostrar que não é escravo de engenho. É senhor da Casa Grande. Respeito muito o mar. Sei que ele é temperamental às vezes. Um dia os gregos até lhe nomearam de Poseidon. Os romanos, invejosos de dar dó, o rebatizaram de Netuno. A cartografia marítima hoje o dividiu em: Pacífico, Atlântico, Índico, Ártico e Antártico. Fiquei ali com o Adamastor, observando as águas verdeacizentadas, refletindo sobre o diminuto-homem e a sua loucura em descobrir como incorporar a amplidão do tempo-espaço – maçariquinho, idiota!

CRÔNICAS

75


Só tornei a mim depois que um filho da égua buzinou para que eu saísse do caminho de suas rodas de aro 17. Percebi, então, que o Adamastor tinha ido embora. Uma pena danada! Se ele ainda estivesse comigo, pedir-lhe-ia que esmagasse o carro daquele energúmeno de sangue azul, e arremessasse o entulho sobre o oceano, para os lados de Portugual, direto no rio Tejo. Depois do estresse com o tal motorista, deixei de coser redes filosóficaexistenciais. Esqueci de que era escritor e de que minha alegria é, acima de tudo, o texto literário. Reles mortal, permitime o deleite de um bom banho de mar. Salguei o espírito. Corri de encontro a uma vaga, a maior que sobreveio. Catapultei meu corpo ao peito do Poseidon – pedra de Davi indo na direção da testa de Golias –. Quase fiquei sem sunga. Onda vinha e eu me arrojava ao seu encontro, onda ia e eu ficava com o peito dolorido do choque. Minha peraltice durou cerca de vinte minutos, até que o mar ficou deveras iracundo. Julgou consigo suscitar a consciência de mortalidade neste escritor. Veio o líquido-diabo e lançou uma onda que me apanhou traiçoeiramente. Já tinham me dito que em situações assim, a vida fica lenta, oportunizanos segundos delongados para recordar de todo o passado, fomentar reflexões, e até pensar em Deus. Eu, todavia, descria. Foi esta onda anormal que me provou o contrário. Em minha mente coube o infinito e o inefável. Ali, eu degustei o sabor da morte sem nenhum apego à flor do Lácio. Fui erguido pela água. Sem o mínimo controle sobre meu corpo, rodopiei, rodopiante rodamoinho seco - ó desespero de não sentir os pés na areia! -. Fui girando, comprimindo-me, e por um instante 76

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


fiquei em posição fetal, vi-me devolvido ao ambiente placentoso. Ponderei em nascer de novo (dessa vez num corpo de estorninho). Senti que o pescoço ia se curvando, dobrando, temi quebrá-lo, de sorte que não aconteceu, apenas ficou dolorido. Depois, sentado na orla, calculei que bastava a presença de uma pedra média ali, sob as águas, para a vida chegar ao seu limiar. A morte, leitor, presta um desserviço à humanidade! Quantos livros eu deixaria de escrever? Tive pena das obras que ainda nem inventei. Tive dó da vida, coisa frágil, que acredita deter a vitalidade dos baobás, mas é efêmera como uma formiguinha. Depois que o susto passou, coisa de meia-hora, fui desafiar o mar novamente. Eu sei, eu sei! Não me emendo. Neste meu regresso, tratei de ser cauteloso, e ficar mais na beirada. Quando Poseidon está atacado, é preciso ter a esperteza dos gatos de rua.

CRÔNICAS

77


78

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


Sorria, você está sendo democratizado! João Marcelino Pantoja Rodrigues

Vésperas de eleição. É hora de entrar em cena a pessoa mais importante do país: o cidadão consciente é chamado às pressas em todas as emissoras de rádio, TV, jornais e demais veículos de comunicação, para decidir o futuro. Sem ele a democracia não existe. Sabe que o poder de seu voto pode mudar o Brasil. Foi o que lhe disse, afinal, a bela moça do comercial, apontando o dedo indicador em sua direção. Pena sua TV ser aquela queridíssima – porém convencional – “bundudinha” (apelido carinhoso que alcunhara ao velho aparelho de 14 polegadas). Fosse uma 3D, ele certamente sentiria roçar em seu peito o dedinho entusiasmado da moça de sorriso largo e unhas enormes pintadas em verde e amarelo, fazendo pulsar feito batida de funk aquele já cansado coração brasileiro. E a bela garota sussurrando em seu ouvido: “O futuro do Brasil está em suas mãos, cidadão consciente!”. Só de pensar nisso, ele sente a responsabilidade correndo em seu corpo e a necessidade de adquirir urgentemente sua Smart TV 3D Ultra Slim Full High Definition pulsando em seu bolso triste. Não! Não pode decepcionar a moça da televisão!

CRÔNICAS

79


Assiste aos programas eleitorais de seu partido e vai aos comícios em busca de propostas consistentes e, embora não as encontre, não desiste facilmente (afinal, é brasileiro): procura então rever seu conceito matemático-político-sociológico de “consistência” e vai em frente. Espremido em um comício, no meio da multidão, o cidadão consciente teve seu ombro quase deslocado por um tapinha de seu candidato, que passara com uns seguranças no meio do povo. Dor? Não! Emoção. Bradou em meio ao alvoroçado público: – Ele me tocou! – Alguém ali próximo questionou: – “Ele” quem? O candidato ou um segurança? – Meu candidato, claro! – retrucou. A essas alturas do evento político o cidadão já estava sem camisa e pôde ver a marca da mão em seu ombro, a que ele imediatamente denominou de “marca da vitória”, orgulhosamente registrada pela câmera fotográfica do celular de sua esposa que, após o fato, ostentava orgulhosa a “marca da vitória” às amigas que não haviam comparecido ao comício. O cidadão consciente tem orgulho de nunca ter perdido seu voto. Seus candidatos sempre foram vencedores nas urnas e isso, ao mesmo tempo, demonstra que ele sempre soube escolhê-los. Sabe de sua importância, e que daqui a alguns anos ele será chamado novamente a decidir o futuro de seu país, estado, cidade, município, casa, quarto, cama. Ele sabe que precisa decidir, não pode negar o seu voto, afinal um filho da pátria não foge à luta, é o que diz o hino. Se fugir à luta, então não é filho da pátria, é um intruso nela. E o cidadão consciente não quer ser um intruso em sua própria terra. Antes patriota que intruso. Pa-tri-o-ta, isso sim. Ser patriota é ser digno, foi o que ele viu no filme do Mel Gibson. E como bom fã do Gibson, ele não se negará a ser um patriota, ainda que sua pátria 80

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


não seja os Estados Unidos. Alguns de seus vizinhos oposicionistas e não conscientes brincam com o fato: – Chegou o filho da pátria! – diz o Seu Fulano, cliente do açougue da esquina. Ao que o cidadão consciente não deixa por menos: – Prefiro ser filho da pátria que filho da senhora sua mãe. – Dele! – Diz o dono do açougue, tirando um pedaço do lombo do boi (o único que ouve tudo calado e indiferente). Em seguida, todos riem, se cumprimentam e tudo termina em brincadeira. O cidadão consciente sabe conviver com a ala não consciente da sociedade. Veste a camisa do partido como quem veste a de um clube de futebol. E se alguém ousa ao ataque de filosofices: – Por que apoias esse partido e não outro?! –, ele responde sarcasticamente e do alto de sua soberana experiência partidária: – Porque torces pro remo e não pro paysandu?! – O indagador, sempre confuso, sussurra algo hesitante como resposta: – Porque é o melhor, ora! – Ao que o cidadão consciente, triunfantemente, emenda: – Não! Não torces por ser o melhor, mas por acreditares que é o melhor! E é isso o que faço: acredito no meu partido! – O opositor, derrotado, sai de cabeça baixa e o cidadão consciente não contém um salto e soco no ar, como se houvesse acabado de vencer uma partida de xadrez com o Kasparov, e com um grau de sofisticação ainda maior: um xadrez filosófico. Volta-se ao público que, próximo ao palanque, agora ergue o candidato vencedor, numa profusão de suor, gritos e braços. Sim, são seus companheiros, cidadãos conscientes como ele, prestando reverência a seu representante. Munido com uma latinha da cerveja-que-desce-redondo em umas das mãos e a bandeira do partido em outra, segue obstinado e cambaleante, como o progresso. E some em meio aos cartazes numérico-risonhos de uma esquina qualquer, embriagado de democracia. CRÔNICAS

81


82

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


O Silêncio das Cigarras Jônatas Miranda Amaral

O tempo do canto das cigarras parece ter chegado ao fim. Os jovens que um dia já foram crianças, saudosos se lembram do cantar arrebatador, triunfante, que alimentava os corações, que era o despertar da alma; canto este tão natural e grandioso vindo de tão pequenas criaturas. Quando as crianças brincavam nos quintais, lá pelo fim da tarde, havia um momento a qual os meninos paravam, as meninas refletiam. Ah! Como me lembro dos corações puros, das mãos enrugadas, dos senhores a enxugar o suor; da mãe a sorrir ao ouvir o delicioso som que vinha sabe-se lá de onde. Perguntavam-se, procuravam, faziam e prometiam descobrir o paradeiro de um ser que muitos nem sabiam a forma, mas que a existência era provada a cada fim de tarde. Um dia aconteceu. O tempo passou. A TV anunciava novos tempos; os pequenos caçadores, do sofá, já não saiam. De dias em dias a cigarra cantava, mas já eram poucos os meninos que ainda sentavam para ouvir seu concerto.

CRÔNICAS

83


Lembro-me então de um terrível acontecimento. Já havia em mim e nos outros meninos pelos a identificar a puberdade. Alguém dizia: “Daqui a pouco a cigarra canta”, e cantou. Acredito que pela última vez. Ninguém tem na memória a data certa, o horário britânico, o contexto, o ano, mês ou o dia em que as cigarras pararam de cantar. As cidades cresceram sempre a mirar o céu. Elas se revestiram de cinza. Ainda restavam apenas alguns resquícios, em algumas avenidas, do verde natural. A TV continuava e continua a dizer: “O novo tempo chegou!”. - Gostaria de ouvir novamente o som das cigarras! – foram estas as últimas palavras do homem dos cabelos brancos. As crianças ainda brincam, mas já não caçam. O mundo lá fora é perigoso e ruidoso demais. Ir atrás de um som, às vezes, é um caminho sem volta. De manhã vêm os primeiros ruídos: Buzinas e mais buzinas. Os fones tampam os ouvidos para tamanho desencontro musical. À tarde, vem à sinfonia: TREME! de um lado; notas doces e suaves do outro que se misturam ao desembalar entranho de outros ritmos, vozes e sons. Ninguém se entende. Então chega a noite e com ela geralmente vêm os sons que ninguém quer ouvir: sons de balas que retiram a doce alegria de viver de um inocente ou algumas que concretizam uma “doce vingança”. Lá 84

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


vêm as sirenes, sirenes, irritantes, assustadores, dolorosas, que de nada traz segurança. As crianças tapam os ouvidos. Os que aparentemente ocupam grandes cadeiras parecem apenas simular ouvir. Sons. Bipes. WMA. MP3. Os toques. O silêncio das vozes. Quero ir para as ruas reivindicar o direito das cigarras terem voz. Que seus sons possam voltar a dar esperança. Que seu arrebatador som quebrante os duros corações. É fim de tarde. Paro. Escuto. Quem sabe se por algum milagre, as cigarras voltam a cantar.

CRÔNICAS

85


86

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


De ouvir falar

Líliam Cristina Barros Cohen

De ouvir falar, sempre soubemos da antiga casa. Grande, com um altar, que pertenceu aos pais do Paizinho – Clara e José. As notícias são de que ela era uma mulher muito devota, católica, com seus santos. Teve todos os seus filhos em casa e morreu de parto, com a mão do menino para fora, depois de três dias de agonia, com o menino morto na barriga. Soubemos que houve uma tentativa de tirar o menino, com uma cirurgia a sangue frio, da qual ela não sobreviveu. No dia a dia muita comida, ordem e respeito. Especialmente com os trabalhadores. Em dias santos, rezas de joelho em frente ao altar. Na casa comprida, os poucos móveis foram feitos lá mesmo e até hoje ainda existe uma mesinha com gavetas na cozinhinha da Mãezinha. Naquele tempo, havia um homem conhecido por “Padre” que era muito bom carpinteiro, e que fazia com gosto e capricho os caixões para os mortos. Quem não podia, passava com seus mortos numa rede, na estrada, para serem enterrados no cemitério do 17. A casa onde a Mãezinha e seu pai, nosso bisavô Horácio, moravam ficava bem depois da casa da avó Clara. Como eram parentes, foi dada por José para que pai e filha morassem. Lá mesmo eram os namoros de Mãezinha e Paizinho. Certa vez, Horácio viu CRÔNICAS

87


o Paizinho dar um cheirinho no rosto da Mãezinha e por isso deu uma surra nela. Os parentes todos ficaram revoltados. Depois disso se casaram, ela aos 15 anos e ele aos 17. Minha bisavó, Jacinta, havia partido ainda em Fortaleza e deixado Mãezinha e um menino ainda com dois anos. O motivo de sua partida foi o corte de cabelo. De pele escura e longos cabelos negros, Jacinta nunca fora aceita pela família de Horácio, branca, loira e de olhos azuis. Horácio, por sua vez, tinha fama de mulherengo. Então certa vez, Jacinta cortou os longos cabelos e Horácio lhe deu uma surra. Desta feita nunca mais apareceu. Mãezinha continuou se correspondendo com ela por cartas até os 15 anos. Depois disso ninguém nunca mais teve notícias. No final da década de 80, Mãezinha foi ao Ceará, em Fortaleza, em Várzea Alegre e no sertão chamado Socorro, sem notícia alguma. Depois foi em Altamira e em Vitória do Xingu, onde moravam Horácio e sua nova família, mas não teve notícias. Fez procuração no INSS, mas nenhuma daquelas Jacintas era sua mãe. Então ela foi dada por morta. Logo após sua partida, Mãezinha, na época com nove anos, ficou cuidando da casa e do menino. Mas ele morreu pouco tempo depois. Então ela e seu pai partiram para Belém do Pará, no Loyd. Com a grande seca de 1915 muitas levas de nordestinos vieram para o Pará a bordo do navio Loyd, rodeando a costa atlântica no Nordeste e Norte do Brasil. Durante a viagem, as malas, crianças, víveres e alimentos se confundiam no convés e porões. Ao chegar em Belém, as famílias foram recebidas pelos Lemos e, no outro dia, conduzidas até Castanhal. A estrada de Castanhal até o 21 era estreita, com piçarra e mato. A viagem feita a carroça era cansativa e demorada. Ao redor da vista, apenas mato alto e nem sinal de outras povoações. O caminho do 21 era bem mais estreito, com areia branca e fina. Um igarapé atravessava o caminho. Era chamado Igarapé da 88

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


Passagem. Amplo e de uma transparência cor de chá, suas águas desembocavam num igapó escuro e misterioso, que filtrava a água para a mata. A chuva vinha chegando no caminho, acompanhando o chão do caminheiro. Nos primeiros cinquenta anos após o assentamento dos novos colonos, a travessia deste igarapé se dava por cima de um grosso tronco. Depois, já na década de 1980, colocaram o tubo por onde a criançada passava, varando no outro lado do igarapé. Com o passar dos anos, o tubo passou a ser moradia dos morcegos e das cobras, e as crianças passaram a buscar outras coisas que não tubos, igarapés e caminhos. Logo se avistava uma casa de barro e telhas de cerâmica. As paredes batidas e pintadas olhavam a estrada através de duas janelas compridas, circundadas de vermelho-terra. A casa possuía duas varandas, uma em cada lado. Bem no terreno da frente, do outro lado da estrada, uma casa de farinha, muito velha, com forno de cobre e todo o maquinário para fazer farinha. Bem à frente da casa, os jambeiros em flor assombreavam o caminho e sibilavam ao barulho do vento. Um à direita tinha um banco de madeira embaixo e diversos apetrechos como enxada, foice e terçado. O jambeiro da esquerda tinha casa de caba, além da fama de ter cobras aninhadas nos seus galhos cerrados e escuros para o alto. Havia, ainda, um terceiro jambeiro mais à frente, que um dia seria derrubado para o alargamento da estrada. Sua derrubada foi acompanhada de lágrimas, sepultando uma memória centenária de flores, frutos e cobras. Os demais morreram após um corisco, decorrente de um forte trovão durante uma grande chuva. Um caminho atrás da casa, escuro, descendente, frio e com muitos zumbidos levava ao Igarapé do Fundo. Rodeado de altas árvores que escureciam o ambiente, além de vários cipós, o chão esverdeado se enchia de sementes e frutos de diversos tamanhos e contornos. A certa hora da tarde os guaribas iniciavam sua sinfonia CRÔNICAS

89


desesperada, como se o mundo fosse acabar. A partir das dezoito horas não era adequado banhar-se no igarapé, por causa da Mãe d’Água. Por isso todos havíamos de tomar o “banho da tarde” pouco antes das seis horas. Quando a noite chegava, a casa se acalorava por causa da fumaça preta das lamparinas. Após o jantar, eram muitas as estórias vividas e contadas na frente da casa, na roda dos homens. Na sala, as mulheres assistiam televisão à bateria, muito chuviscada, quase que não dava para divisar as personagens, apenas suas sombras e vozes. A geladeira também era à bateria, cujo carrego era feito temporariamente nalgum carro ou no 23, no comércio de seu Elias. Depois da estrada veio a luz elétrica e, por causa dela, algumas estrelas se esconderam, e não se divisava mais no caminho os vagalumes com seus bumbuns iluminados e nem o tamanduá bandeira com suas mãos de menino. Certa vez, nem havia amanhecido direito, um carro parou diante da casa de farinha, e diante do Paizinho. Sem explicação nenhuma, dois homens saíram de dentro do carro, pegaram o forno de cobre e levaram embora. Paizinho não pôde fazer nada. No lugar do antigo jambeiro, há agora um pé de planta, com um banco, onde ele costumava deitar-se. Depois de sua morte, o lugar vazio preenche tudo ao redor, acompanhando as notícias do caminho. Aos 74 anos, Mãezinha foi outra vez a Várzea Alegre. Soube por um primo legítimo que sua mãe fora filha fora do casamento e que havia sido deixada na porta da casa do pai. Deixada para ser criada pela madrasta, como filha de pele escura e cabelos de índia, para depois sumir de dor no mundo e deixar uma filha e um filho para fugirem da seca e tentarem a vida naquele mato do 21, próximo a Belém do Pará.

90

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


Cheiro

Igor Alessandro dos Santos Cruz

Sons, música e melodias, tem uma influência formidável em nossas vidas, em nosso cotidiano. É incrível a oscilação de humores, ânimos, pensamentos e até de estados de espírito quando ouvimos uma harmonia, tonalidade, um timbre, um sussurro, que seja. Encanto. Mas, particularmente, penso que existem poucas coisas mais avassaladoras do que a pungência de um cheiro. Porquanto sua inevitabilidade, por conta de sua natureza geminada com a respiração, assim o descreveu Süskind. E esta pungência está profundamente engastada em cada um de nós, pois enreda, circula, volatiliza e se esvai numa dinâmica muito peculiar: passado, presente e porvir conjugados; conjugados, inclusive, a lugares dos mais diferenciados possíveis. Pungência. Enfeixamos toda essa dinâmica, por vezes, no conceito de memória olfativa. Uma seara muito misteriosa, etérea, transcendental e fugaz, por natureza. E por isso tão caprichosa no momento do faro, de sua identificação e decodificação numa lógica plausível. Por isso é tão complexa, temperamental e, certas vezes, desconexa. Confunde, machuca, fere e se esvai. Cria um engodo e salta de banda. Volátil. Mas também nos inebria, encanta, conforta e nos remete a uma geografia particular e principalmente a um momento muito, muito específico e pessoal; e às vezes, igualmente, a tempos, situações CRÔNICAS

91


e conjunturas públicas, compartilhadas e vivenciadas por muitas pessoas, e ainda assim profundamente marcantes. Recordação. História. Olfatos são embebidos e perfumados em história. Pense em quantas essências estão aprisionadas nesse pequeno universo “incerto” e destilado, quantas realidades foram marcadas através dos odores que se fizeram presentes como uma digital dentro de cada ser humano. O cheiro vem e cumpre seu objetivo (ou objetivos) intricado, místico e mágico de maneira magnífica. Marca. Quantos rostos e quantos corpos... lugares, profissões, circunstâncias, relacionamentos, conflitos e harmonias são cativos desse predador imaterial, desse deus de compleição colossal. Entramos no vórtice dessa partícula que se comporta como onda, e somos arremetidos com a força de um assombro, pra cá e pra lá. Marionetes, títeres. Viajamos compulsoriamente por espaços e por memórias. Por mundos e universos, bocas e corpos, espíritos e templos. Sinestesia e onipotência: eis tu, império dos odores.

92

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


Inspiração

Fabiano da Silva Pereira

Dizem que a inspiração é uma aura metafísica que se encontra dentro de cada um. É o nosso dever aspirá-la e externar através da arte, poesia, música, pintura, textos e etc. Outros tratam a inspiração como um dom, que só os predestinados estão sujeitos. Para eles, não adianta forçar, tentar, correr atrás. Se não nasceste com o dom, procure outro oficio ou vocação. Discordo. Inspiração em si não é nada. É como uma pessoa que vive, mas não faz da vida um sentindo próprio e único. Inspiração é como se apaixonar. Se te encontrar pelas esquinas da vida, da noite ou madrugada: cative, cultive e aproveite cada instante. Ela é passageira, como as paixões: nascem para partir. Não a possuímos, nem fazemos dela mercadoria ou objeto. Até existem artistas – se é isso que são – que a tratam como se fosse, mas eles pairam no esquecimento e o tempo há de ser justo. Escrevem por escrever. Para ganhar dinheiro, fama, ir aos programas de auditório e falar sobre o seu livro. Escrevem para ganhar os 15 minutos de glamour e virar Best Sellers. Apenas isso. E como tem...

CRÔNICAS

93


Cazuza dizia que os seus heróis morreram de overdose. Ele que me perdoe. Os meus foram eternizados pela Inspiração. Tiraram das coisas amiúdes e simples da vida a mais poética e sincera arte: da pedra e do José, fez-se poesia; da mulher que passa, a musica poética brasiliana; a tabacaria virou vestígio metafísico; o que dizer do nada? Manoel de Barros responde: nada. A humildade camponesa da mulher Chilena, para Neruda virou Cem Sonetos de Amor. Os noventa anos de solidão, transformaram-se em um realismo mágico e nostálgico, imortalizado nos escritos de Garcia Marquez. Dos balanços de água doce Belenense, Ruy Barata fez sua moradia e Max Martins retirou o refugio que a inspiração necessita. Para Saramago, ela não passa de um desassossego. O moralismo Burguês de nossa sociedade, Nelson Rodrigues e Nazareno Tourinho responderam: é cômico. Se me perguntar de onde tiro a minha inspiração, respondo: não sei. Não a encontro. Ela é que me encontra. Pode ser que ela surja antes deu dormir, ou do português errado e gostoso do povo (como escrevera Manuel Bandeira), de uma paixão mal resolvida, de um coração partido, ou das saudades de tempos remotos. Até do sexo gostoso de um encontro casual, ou do violão esculpido no corpo de uma mulher. Mas na verdade, quero da inspiração a sensação de beijar, transar ou se apaixonar pela primeira vez: um ar orgástico, prazeroso e momentâneo. Que não me pertence. Nem a mim, nem a ninguém. É livre, é Anárquica. E que ao mesmo tempo é levado pela reciprocidade: Ela me toma, eu a transformo. No fim, perguntas: mas então, o que é inspiração?

94

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


Digo: Não sei. Tenho 22 anos. Se o acaso for fiel comigo, ainda há uma estrada de milhas de anos pela frente para eu descobrir e te responder. Até lá, gozarei do instante, das coisas erradas, tortas, banais, fúteis, singelas, amiúdes, simples, que não me pertencem. Que vem, marcam e partem. Caminhando e absorvendo do que as ruas e a cidade possam me apresentar. E como quem acredita que o amor está por ai, seguirei pelas esquinas da vida, na esperança de que a inspiração seja como uma paixão, se me encontrar: consuma e parta...

CRÔNICAS

95


96

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


Ultrassonografia da Bolsa Escrotal Fernando Jorge dos Santos Farias

E

ra metade do ano e eu retornara a Belém visando fazer alguns exames e, provavelmente, uma cirurgia sem muitos riscos. Procurei, assim que cheguei à cidade, Dr. João Batista, médico já conhecido da família. Recomendara-me o clínico geral, antes de qualquer realização cirúrgica, duas avaliações prévias: uma delas foi a tal da Ultrassonografia da Bolsa Escrotal. O nome, para quem não tem intimidades com a medicina, soa como um palavrão velado. Verdadeira obscenidade como afirmara minha vó, velhinha ainda viva, líder das adoradoras do Sagrado Coração de Jesus, lá da Antônio Baena. Com o palavrão em mãos, ou melhor, a guia de solicitação médica, dirigi-me a central de marcação. Um problema aparecera. Sendo período de férias o plano de saúde dispunha check up somente no final do mês. Sem demoras, precisava fazer logo a ultrassom, afinal, meu repouso trabalhista duraria somente vinte dias. Comecei a procurar outros estabelecimentos que oferecessem o serviço. Em uma dessas incursões, saindo da casa de minha ex-mulher, contornei a primeira esquina e entrei na avenida Curuzú. Em relance, avistei uma clínica muito luxuosa a exibir em um painel extremamente sofisticado:

CRÔNICAS

97


RADIOGRAFIA - ULTRA-SONOGRAFIA MAMOGRAFIA EXAMES COM TRÊS TESLAS E DOPPLER Achei mina de moderno àqueles nomes! A felicidade e a esperança tomaram conta de mim. Anunciei-me na entrada do estabelecimento. A porta, automática, foi aberta em solenidade de palácio de buckingham. Perguntei a um residente que se encontrava na entrada, Dr. Val de Cans, sobre a averiguação médica que procurava. Respondeu-me que sim, ali faziam a mencionada inspeção. Sugeriume que seguisse as formalidades com a recepcionista. Ao ganhar proximidade da funcionária percebi que naquele lugar a atenção era utilizada em suas proporções máximas. Feito benjamim único em tomada de recém-casados, a pobre trabalhadora estava inteiramente dividida: o ouvido esquerdo recebendo lembretes de um médico na linha telefônica, um olho a observar a apresentadora Ana Maria Braga na TV, o dedo-delator-direito-deitado-detonando, diversas vezes, um pequeno mouse ... e o restante de sua concentração solicitara-me um minuto de espera. Assim que possível dera-me bom dia e perguntara-me o que desejava. Nosso contato foi interrompido com a entrada veloz de um ser corredor adentro, seguido de um homem, em processo de captura. Anunciei o teste que procurava: Ultrassonografia da Bolsa Escrotal. A atendente, após alguns breves minutos, vasculhara a planilha no computador, e informara: - Pra hoje não posso marcar, senhor. Eu só tenho consulta pra amanhã. Argumentei que morava a 800km de distância da capital e conseguira a ausência legal no trabalho, por poucos dias. Assim necessitava de certa urgência. Argumentei um pouco mais. De nada adiantou. 98

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


- Infelizmente a agenda está lotada... Pelo visto teria eu um laudo somente na outra semana. Talvez pelo turno da manhã. Dava tempo ainda. Acabei acatando a disponibilidade. Como de praxe, pediu-me a atendente a requisição feita pelo generalista. Entreguei e aguardei. Ainda com a dedicação dividida começara a ler para si a delimitação do doutor: “Solicito realização de USG da Bolsa Escrotal – Paciente...”. Ao interpretar aquela prescrição, tive a impressão que a já sobrecarregada mulher começara a incomodar-se mais ainda. Coitada, quase entrou em curto-circuito! De forma nervosa, em uma sequência típica de um transtorno, a encarregada assim procedeu: seis vezes a mão esquerda nos cabelos, dedo mindinho contornando a boca e, posteriormente, as orelhas. E mais estranho ainda: olhos esbugalhados, aproximados e distanciados, do papel. Depois de repetir essas ações anormais por quase cento e oitenta – segundos –, olhou-me com ar interrogativo-acanhado. Extremamente escabreada, apresentou uma indagação em titubeios. - Senhor, é..., me desculpe pela pergunta, mas... o nome do animal é... é cachorro ou gato? - Como assim minha senhora?! - Imediatamente saltei da cadeira. E ainda de pé, ofendido pelo questionamento e em insight devastador entendi tudo. - É-gu-á, num acredito! – expressei eu, em desapontamento a minha inteligência. Envergonhado, manifestei desculpas a perplexa mulher que me devolveu o pedido médico. Na saída da clínica veterinária, restou-me apenas rir de minha ação asna... CRÔNICAS

99


100

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


A Arte de Navecontar Debora Rodrigues Ribeiro

Naquele barquinho cabe de tudo um pouco, popunha, piquiá, bacuri, farinha de mandioca, açaí, enfim, um mundo que repousa sob as aguas do rio Guajará, talvez o maior excesso de bagagem esteja por conta das histórias de vida, que nesse vai e vem das aguas barrentas, são contadas sem pudor, confesso que no inicio ficava sentadinha, quietinha, na esperança de que ninguém puxasse assunto. Hoje procuro as histórias, as ouço e descobri que elas tem o poder de encurtar a viagem. Sempre no mesmo horário e no mesmo lugar, é um encontro marcado com Dona Nazaré, pra ser mais precisa, às seis e quarenta, segundas e sextas feiras, na poltrona que fica bem na frente da televisão, esta mulher de cinquenta e quatro anos de idade, com aparência jovial fato do qual sempre se orgulha e faz questão de dar a receita, segundo ela este rosto sem rugas deve-se ao não uso de maquiagem, produto que para a dona Nazaré é coisa do capeta. Certo dia me revelou que sempre dava um conselho precioso aos filhos, dizia-lhes que se quisessem realmente conhecer a face de uma mulher deveriam bater em sua porta pela manhã o mais cedo possível e só então conheceriam a futura esposa como realmente é, isso porque dona Nazaré é da época em que só havia intimidade entre um casal após o casamento. CRÔNICAS

101


Às vezes penso que minha mãe tem razão quando diz que para pobre toda desgraça é pouco. Com apenas um dos rins em funcionamento dona Nazaré realiza esta viagem cansativa para ir em busca de tratamento na capital, fora os rins, ela sofre com uma doença a qual se refere como maldito glaucoma, e ainda acabou de perder o esposo vítima de um câncer. Homem bom de caráter, inigualável, é assim que a mulher se refere ao companheiro com quem viveu durante muitos anos, tive a oportunidade de conhecêlo por meio de um vídeo que dona Nazaré me mostra sempre que viajamos. Sente dores por todo o corpo, ainda assim não se deixa abater, é forte, de opiniões singulares, para ela a melhor invenção da educação foi a tabuada, sempre diz que fazer contas no celular deixa as crianças burras. Plácido é bem mais jovem, estudante que vem para capital para fazer um tal de mestrado e que não fica em Belém porque tem família no interior, mulher e filhos. No barco não gosta de estar na frente da TV, gosta de admirar a paisagem, o igapó cheio de açaizeiros e miritizeiros, as pequenas casas tão distantes umas das outras, é motivo de reflexão para Plácido que pensa em como é viver tão isoladamente, ir até a casa de um vizinho não é tarefa fácil é preciso aventurar-se em uma canoa ou casquinho, é necessário uma boa dose de coragem para pilotar um meio de transporte que está a apenas dois dedos de afundar, além é claro dos perigos noturnos, os famosos ratos d’agua, que apesar do nome trata-se de gente, gente da pior espécie, ladrões que sempre aterrorizam ribeirinhos. Para os que convivem diariamente com carros, trânsito, barulho, supermercado vida de ribeirinho parece ser difícil, já para estes homens e mulheres de viver tão simples existe a certeza de que não há existência melhor do que nascer e crescer ouvindo o cantar dos pássaros afoitos pelo açaí pretinho, comer o camarão recém102

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


tirado do matapí ou admirar o colorir do céu proporcionado pelo nascer e pelo pôr do sol. Ao avistar aquele amontoado de prédios, que até assustam a quem observa a cidade de frente pela primeira vez, impressiona, o fato sua face ser tão parecida com a de tantas outras cidades do interior, com os barquinhos que ao longe parecem feitos de miriti, dançando conforme o soprar dos ventos. A recepção fica por conta das garças com sua veste impecável e elegância sem igual, e assim às oito e quarenta chegamos ao nosso destino, prontos para conhecer um pouco mais do coração deste lugar onde já não há mais espaço para a inocência do caboclo que ainda crê na lenda do Boto como uma verdade incontestável e que talvez o seja. No findar de cada viagem aportam aquelas histórias que vão preencher os hospitais, universidades, escolas, empresas, comércio....

CRÔNICAS

103


104

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


A mais bela canção que já ouviu Caroline Pinheiro Lobato

Naquele breve instante, porém interminável, o mundo parou em sua órbita. Ela encontrou um lugar para repousar toda a dor que sentia e todo o cansaço de após uma longa caminhada, nesse local que agora era seu lar. Encontrou-o finalmente, depois de ter enfrentado tantas tempestades sem abrigo algum. Era a primeira vez que adentrava e estava ainda conhecendo cada canto, cada pequeno detalhe. Mas ao mesmo tempo, sentia-se tão familiarizada que a impressão que tinha era que passara uma vida habitando-o. Esse lugar tão novo e tão íntimo. Gigantesco, mas que cabia dentro de um abraço. A dor, enfim, se dissipou. Tornou-se pó. E pensando bem, ela não passava mesmo disso. Pó, somente e mais nada. Mas ela não sabia lidar com a dor. Não percebia o que estava por trás das ilusões que a causavam. Por isso parecia um enorme dragão e permanecia, dia e noite, ferindo-a cruelmente. Mas agora as fichas caíram. Certas ilusões foram resignificadas. O que lhe causava dor agora trás autoconhecimento e esperança. E já não dói mais. Não há mais espaço para essa dor em sua vida. Aquele abrigo em forma de abraço era bem mais do que um lar. O tocar de peles; A troca de calor e energia; O procurar de mãos CRÔNICAS

105


impulsionavam aqueles dois seres humanos a seguir em frente e não desistir, apesar dos fardos que carregavam. Era uma espécie de troca de forças, que os encorajavam a permanecerem firmes, mas sem esconderem um do outro suas fragilidades. Nada ali era maior do que a força que tinham nas mãos. Diante de total envolvimento, ela levemente retirou os braços do pescoço do rapaz e recolheu-os contra seu próprio peito, permitindo ser envolvida como uma capa. Como um par de luvas. Como uma casa. Seu lar. Seu abrigo. As mãos de ambos estavam bem abertas com os dedos fazendo leves movimentos para um poder sentir a textura da pele do outro. E divertiam-se com os arrepios inesperados. Aquele instante era bem mais do que um momento de carinho: um verdadeiro encontro. Ela apoiou sua dor na força dele, e então, fizeram uma troca. A sua dor passou a ser também dele, assim como sua força a pertenceu. Não havia mais solidão. A confiança se exercia. Vistos de fora: um casulo de amantes. Sentidos de dentro: um universo inebriante. Recostou sua cabeça no peito dele e então percebeu como valia à pena viver. O silêncio gritava e dizia tudo. Palavras não se faziam necessárias. Todos os sons reduziram-se a ruídos até deixarem de ser audíveis. Mas houve um que permaneceu. Somente um. Começou suave e cresceu até ser o único barulho naquele lugar. Era uma linda melodia vinda de dentro dele. Estonteante. Avassaladora. Confortadora. Reveladora. Tão lindo quanto todas as belas canções tocadas simultaneamente. Tão rica quanto um gesto de simplicidade e amor. Ela fechou os olhos e sentiu seu corpo levitar envolvida na canção. Desejou tê-la sempre consigo. Sorriu com o canto dos lábios totalmente entregue ao ritmo pulsante. Tinha a certeza de que jamais esqueceria o som das batidas do coração do rapaz. 106

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


Crônica da Autoria Desesperada Camille Barroso

Uma vez reconhecido que não há música mais bela que o som da caneta arranhando o papel, que se exibe, muito orgulhosamente, a mão dominante calejada e manchada de tinta, e se proclama aos quatro ventos, em tantas línguas quanto forem possíveis, que a escrita é a grande paixão de sua vida, escrever torna-se, de fato, um dos atos mais difíceis de praticar. Pode ser que não se escreva por que não há tempo disponível. Ou talvez as ideias só surjam quando não exista nada ao alcance para registra-las. E, na verdade, quando se começa a andar com caneta e caderno de bolso até para ir ao supermercado, descobre-se que, aparentemente, as boas ideias fogem de serem escritas como o diabo foge da cruz. Qualquer que seja o motivo é possível atravessar semanas e até meses sem que se exercite aquele hábito que uma vez foi comparado ao de respirar, e o autor de tal analogia só irá perceber que já deveria estar morto há muito tempo quando surge a urgência da produção de um texto para evidenciar o hiato. Se limpa a escrivaninha, apontam-se os lápis, organizam-se os papéis, calam-se os barulhos, transforma-se o ambiente em um verdadeiro templo da produção literária. Então, ao sentar-se em seu trono criativo, o autor percebe que seu esmalte está lascado e as cutículas mal feitas, que está precisando se exercitar, e acaba se CRÔNICAS

107


lembrando de todos os compromissos mais ou menos importantes que poderiam ser atendidos naquele exato momento. Passado o dilema das prioridades e constatadas as que podem ser adiadas sem maiores prejuízos, ele percebe algo um pouco mais alarmante ao contemplar a página em branco a sua frente: Não tem ideia de como a preencher. Pausa para o café. O autor jura para sua xícara vazia que vai escrever a primeira coisa que passar pela sua mente, antes de tornar a enchê-la. Mas não é senão, de fato, a quinta ou sexta ocorrência que lhe assalta os pensamentos a que seduz sua mão a começar a trabalhar, aquela que produz um pequeno conjunto de palavras reunidas de uma forma impactante e singular, dando ao autor a missão de escrever um texto inteiro que faça jus a tal expressão. Cada frase é escrita cuidadosamente e reescrita quantas vezes forem necessárias. Ocasionalmente, a melhor forma acaba sendo a primeira mesmo, e reescreve-se novamente. E se o texto acabar não atendendo as expectativas do autor, não é raro que as horas de trabalho e dedicação despendidas nele sejam descartadas na lixeira mais próxima sem cerimônia alguma. Vários milhares de palavras podem ser escritas no esforço de concluir um trabalho de umas poucas páginas. O manuscrito quase sempre chega às margens da ininteligibilidade. As palavras sobrepõem os fantasmas das construções anteriormente rejeitadas e apagadas ou rabiscadas, misturadas às manchas de suor, lágrimas e bebida cafeinada, as quais por si só constituem um texto a parte. Uma vez concluída a transcrição para um documento de aspecto mais respeitável, está tudo acabado. Não há mais o que acrescentar, e nada a ser reescrito. É hora de o autor tornar-se leitor, o momento em que ele toma seu texto como se fosse alheio, ávido a redescobri-lo e confirmar a perfeição de sua obra. Está horrível. Melhor começar tudo de novo. 108

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


CRÔNICAS

109


Contos


112

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


O Sobrevôo

Mayara Lopes de La-Rocque

As palavras. As palavras que são dele e também minhas, quando ditas, que me comem todo o corpo aos pedaços, me deixando um tédio inteiro de sempre querer mais aquela voz que me escapa aos ouvidos, gulosos de amor. Ele me beija a nuca e eu quero mais. Ele me beija o pé do ouvido e lhe digo sem palavras o que o meu corpo palpita à sua mão cálida, tão cálida de tocar meu seio, meu busto, meu peito e mais adentro e mais abaixo aquela emoção descabida do meu âmago, que me aquece dos pés a cabeça e me atrai para dentro dele, e dele, dentro de mim. Um passeio completo de suas palavras em minha pele. A liberdade de sobrevoar a também pele do ar daquele quarto mofado, daquela janela sem luz, daquele vidro embaçado e dos quatro cantos de um colchão. Ao fundo, a poesia rompe e penetra aquele breu, grita e denuncia o silêncio entre corpos. Sem testemunha, Eros se escreve. Quando em mistério, Hermes abriga palavra alguma, a palavra latente. Onde ninguém, criase mundo, os deuses existem. E então, andamos pelas ruas a vangloriar todas as coisas que apenas existem; vangloriamos o céu, vangloriamos o sol e pousamos CONTOS

113


nossos olhos sobre o rio que corre solto durante horas e horas e, sobretudo, vagamos sob as horas que seguem apenas nossos passos, e a cada passo divagamos sobre o tempo e sobre o muito que nos cerca, e mesmo sem saber, falamos; exortamos, rogamos, declaramos o silêncio a cada toque tímido entre as mãos, a cada meditação efêmera entre as mentes, a cada contemplação do corpo abstrato que se forma ali, no menor espaço de um momento. Escorremos em chuva e nos molhamos dela, bebemos dela e dela nos beijamos com a água que cai sobre nós, que cai sobre toda a distância consumida entre os lábios que se encontram. Despimonos mais uma vez e desta vez à noite, onde todo o escuro brilha e nossos corpos dançam em toda nudez clara, a nudez que tem corpo. A densidade dos braços, das pernas, dos troncos, dos visos da carne cume da alma, nódoa e sopro quente. Dissolvemonos entre raízes feitas mangue, lodos e cabelos, fios que se desfazem ao nos deixarmos nus de toda posse humana e terrena. Da matéria, nos desfazemos de todos os pertences que não cabe à nossa alma incerta e descobrirmos mais que o vazio, o impreciso entre as mãos, o frouxo da pele e do osso, do que nada se tem para palpar. Nada somos um com o outro, e, no entanto, nos tornamos o tudo a todo instante que somos, e estamos. Quando amanhece, entretantos, nossos caminhos são outros. Nem confluentes, nem distintos. Cada qual em sua sina, meatos do destino, estreito encontro de lugar algum. E é então que, em [des] vias, no trânsito da noite, ele sai a vagar efêmero pelas ruas. Na noturna ausência de mim, por ventura, beija outra mulher. Num frêmito me faz tremer a pernas, me enche de cólera e, assim, me deixa mais mulher, mais sem ele e estranhamente dele. Entranha-me no corpo sua falta, que mais parece um querer emudecido entre nós. Pois sei que dos nós que somos, restanos, apenas, a liberdade do querer. 114

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


Mas, então, ele me beija outra mulher! Suas palavras caem da boca, pois palavras são, e assim como levantam o vôo, sobretudo, caem. Palavras. Palavras que são, insustentavelmente, vivas em nós, furtivamente, livres como nós. Sobrevoam e perdem o pouso de tão leves que se fazem sobre a pele do ar, e agora, pesadas, na quebradura extensa do chão.

CONTOS

115


116

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


Andrômeda e o Rio. Sidney Gustavo Fernandes Coelho

∞ No princípio havia o silêncio. Meus olhos e ouvidos aos poucos rompem com a esterilidade sonolenta dos sentidos. Tudo é penumbra preguiçosa. Eu ouço os sons das folhas que bailam em frenesi ondulante. Em compasso sereno, pequenas luzes atravessam as trevas. O terremoto, o furacão, a vida começava em acidentes. Muito embora, nesse princípio das coisas, eu divise com meus ouvidos quase virgens um grito, e não sei se é meu ou de quem seja, mas eu adivinho no medo o que me falta: eu tenha fome. No segundo dia havia trevas. Quem é o homem que traja preto, se misturando ao céu estrelado? Seus passos fazem contorcer no chão o alicerce de meu berço. Eu me assusto, principio um choro, e ele me pega nos braços. Lá no fundo, sentada à cama, está a minha mãe. Pobre de mim que não percebo suas lágrimas, pois, confundoas com as minhas próprias. O homem sorri, e não sei o mal ou bem que ele carrega. Mas o susto se esvai, pois brilha o seu cordão e eu me distraio. Quem é ele que se anuncia no momento exato em que o mundo começa? Ele é deus? Ele me faz voltar ao berço. O mundo balança. Minha mãe se deita. A roupa negra do homem cai ao chão. Ele é branco e tão branco, que o mundo ao seu redor se enegrece. E CONTOS

117


é uma cruz o que eu seguro, distraída, pois cintila. No terceiro dia havia o céu, encardido de nuvens, todas prenhas de lágrimas e de eletricidade. Eu não sei que nasci e nem sei que me vejo ao espelho, junto à mamãe. Somos uma só, tanto em átomos como em alma. Aqueles limites dos corpos, que nos separam do mundo, nada significam. Somos uma só, tanto em corpo como em vida. Quatro olhos negros, em dois dos quais a expectativa pelo sorriso da outra. E quando ela me aperta contra o peito, eu desejo me alimentar dela, viver do seu corpo, nunca me separar. Mas eu não sei que nasci, embora eu veja no espelho o sorriso que me pertence. Eu vejo a janela, objeto de transição entre o ventre da casa e o grito do mundo. Tudo escorre lá fora, como se o universo fosse feito de água, e de ventania. No entanto, dentro de casa há o fogo, e o barro que faz as águas repousarem num silêncio grávido de ondas. No quarto dia havia a velocidade. Mamãe tem um ar aflito somado às rugas do rosto. Ela se esforça à exaustão para vencer a correnteza. Dos seus braços pululam veias, que serpenteiam por entre fadigas e ânsias de desmaios. Seu suor é cascata sem volta. A canoa precisa vencer a correnteza, precisa cortar a alma do tempo, que é de um marrom banhado a escarlate. Eu estou envolta em toalhas maltrapilhas. Estamos numa manjedoura que desliza sobre o rio. Daqui vejo o céu infinitamente belo. O sol reina no centro do mundo, e as nuvens lhe coroam e bailam ao seu redor. Ouço o som do remo violento guerreando contra as águas. Vejo, lá longe, aquele alvoroço de árvores e a igreja, um lugar que me é estranhamente familiar. Rapidamente, atingimos a paz. Estou no colo dela, e como é lindo o seu sorriso. Ela me oferece o seio escuro, e dele me alimento. Estamos deitadas sobre o rio, peixes e répteis nadam ao nosso redor, como se nos coroassem, na medida em que a noite começa. Estou em 118

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


paz. Mamãe canta, e sua voz faz com que o mundo todo escureça às cores de seu ventre. Não há luz que não as das estrelas. Sinto o beijo dela aquecendo minha alma. Ela me entrega algo que meus dedos não podem segurar. Um muiraquitã. Diz que é um amuleto mágico. Mas ele não brilha, como o outro que já toquei. Agora, as árvores e a igreja estão imersas em tempestade. É para lá que estamos indo. Porém, adormecemos. E o universo tratará de nos contar o que se haverá de fazer de nós. No quinto dia havia o ciclo e a rotação da terra sobre o seu próprio eixo. Agora eu sou moça. Caminho por entre árvores cujos nomes eu ainda não sei. O vento faz rodopiar as suas folhas. Vejo uma capivara, tonta de tantos rodeios. Vejo uma cobra, morde a própria cauda, consumindo seu próprio corpo. Vejo uma onça pintada, suas pinturas são anéis multiformes, e ela se alimenta de capivaras. Cresci dezesseis anos em quatro dias. Mas nesse quinto dia, os outros quatro já se apagam, na medida em que meus seios ganham forma. Por entre eles baila o muiraquitã, no compasso da velocidade de meus calcanhares. Estou na floresta, há espinhos em todas as direções, e troncos feitos cair pela força dos trovões. O universo está ao meu redor, fazendo brotar em cada planta o amor de deus, ou o ódio de seu antagônico. E que brilho secreto tornará revelado esse segredo, que não sei qual dos dois devo amar? É como se eu fosse um dos dois, e sempre terei de escolher entre mim e o outro, que não sei quem sou. Terminada a floresta eu chego a casa onde repousa a minha alma. À beira da casa, o rio, e aquela mulher. Ela me avista, e sua solidão desmorona em abraços. Somos tão parecidas, que o rio grita ao confundir os quatro reflexos. São quatro margens de uma mesma vida, uma prolongada nos braços da outra. Eu sou o seu reflexo, e nossa semelhança revela a sua santidade. É como se ela tivesse me CONTOS

119


feito sozinha. Muito embora ela sempre tenha deixado claro que minhas mãos são idênticas às do meu pai. O meu pai! Essa sombra que tem estado presente desde o princípio da criação, com o seu cordão prateado e a sua bata escura. Ele é redemoinho, e sempre que penso no seu rosto é uma máscara que enxergo. Uma máscara espiralada. Está entardecendo, e range o moinho inexorável, ao lado da casa. _Maria, entra e dorme comigo? _Sim minha mãe. No sexto dia havia a dor. O médico tem um olhar turvo. Minha mãe empalidece em face ao sussurro. Ela contrai as mãos, e me olha com ares de estar inconformada. Olhos nos olhos, ela acaricia meu rosto. Não sinto a perna direita, e sei que a doença avançará. É o fim da vida se anunciando, em dez anos terei perdido todos os movimentos. Instarei inerme numa cama fria, tendo a lágrima por beijo, e a dor por gestação. Quereria a infância novamente, renascer de minha mãe, mas a vida é a corrente para qual eu sou Andrômeda. Minha beleza morrerá com meu corpo. Não ha milagres que curem os milagreiros. Que o universo me traga para si, até o âmago do céu! No sétimo dia havia a árvore do bem e do mal. Sou tão pequena, uma semente. Estou numa casa opaca. Das grades do berço eu vejo a biblioteca, os quadros de santos, que se espalhavam por todos os lados. Crucifixos se misturam a castiçais. No centro uma vitrola cândida vomita notas. As portas e as janelas estão trancadas, segredando alguma felicidade proibida. E lá está ele, o homem do cordão prateado, de olhos impávidos e penetrantes. Eu ouço os sinos ali perto, estamos muito próximos a uma igreja. Minha mãe beija carinhosamente a sua orelha, e ele sorri de um modo sombrio. Ele é um artista. Tece um quadro de contornos diabólicos, enquanto que na casa a vitrola faz soar delicadamente o bolero de 120

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


Ravel, música que anjos compuseram nas entranhas do céu. Ele cantarola as notas afiadas, na medida em que as cores sombrias de seu quadro vão ganhando forma: Nuvens negras, uma igreja em chamas, um céu furioso. Mais para baixo uma velha casinhola, à beira de um rio agitado; ao lado da casa, um moinho em rodopios magníficos; no céu, um enorme e terrível dragão prateado, cujo fulgor invadia em lampejos todo o firmamento, rugia trovões; e ali, tão frágil, tão triste, de tão afetada vaidade, a bela moça de muletas aguardando ser tragada pelo monstro. E quem é ela? São os olhos da minha mãe, mas as mãos, as mãos são as do artista. Madá chegou à vila ainda muito nova, cercada de sombras, envolta nos braços de Joana, sua mãe. Uma tempestade aterradora assaltava o cais, e os barcos eram jogados em fúria contra os paredões de tijolos. Homens que caíram no rio lutavam para sobreviver. Alguns dos quais já dados por mortos. A multidão se amontoava nos trapiches, pedindo a deus que não destilasse sua fúria contra os pobres mortais, cujas frágeis vidas muito facilmente se esvaíam. Mulheres e crianças choravam, e os idosos arqueados diziam que nunca antes se vira tempestade tão rancorosa como aquela. E quando todos já perdiam as esperanças, o céu mudou de tom, as súplicas pareciam ter sido ouvidas. Foi nesse exato momento que todos viram surgir no rio, em meio aos barcos afundados e aos corpos dos vencidos, uma frágil canoa. Uma mulher exausta segurava com força um bebê tão belo como nunca visto naquelas redondezas. Todos deram passagem para as duas, e algumas pessoas reverenciavam a pequena menina, considerando-a como o verdadeiro motivo para a súbita transformação dos céus. Sua fama de santa e salvadora logo ganhou ecos de notoriedade CONTOS

121


por toda a circunvizinhança. Madá, a bela criança, tão bela, que deus fizera cessar a tempestade para coroar de flores o seu caminho. E todos acreditaram que, enquanto Madá vivesse entre eles, nenhum mal lhes afligiria. Os anos foram se passando, e Madá crescia tanto em beleza como em sabedoria. O tempo fez com que o passado se dissolvesse em gotas de cristal indiscerníveis. Joana se instalou numa casinhola à beira do rio, enquanto que a menina passava a maior parte do tempo sentada a ultima cadeira da igreja. E muitas pessoas iam até ela, sob o intuito de serem abençoadas. E de fato, eram muitos os relatos sobre suas capacidades. Pescarias fartas, produtivas colheitas, animais do campo em abundante fertilidade, e até mesmo gravidez às mulheres estéreis. Porém, o que mais importava às pessoas todas, era a segurança que ela lhes trazia. Enquanto a menina ali vivesse, nenhuma tempestade ou peste se daria naquelas cercanias. Em seu aniversário de dezesseis anos, Madá já não tinha mais a aparência de frágil criança. Agora ela era uma mulher terminantemente bela, e não havia pessoa ali que não a admirasse. O olhar de alguns dos homens, no entanto, mudara de tom. O tempo a tornou desejável, e não somente por sua santidade, mas como também por uma espécie de exaltação contrária, quase libidinosa. Nessa época, os céus começaram a anunciar uma mudança que todo o vilarejo temia. Nuvens sombrias pairavam sobre o céu, e em algumas ocasiões, uma forte chuva rompia a calma que reinara absoluta por mais de quinze anos. Os murmúrios da cidade começaram a revelar o que todos pensavam a essa época: a menina perdera a santidade. E a presunção da massa ganhou contornos de uma vigilância quase ébria. Alguns dos moradores afirmavam com convicção o que chamavam de sacrilégio 122

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


diabólico. Eles afirmavam que a menina se deitava com a própria mãe. E a imagem que descreviam era a das duas mulheres nuas, as mãos nos seios, e beijos apaixonados. Madá adoeceu, e passou a andar de muletas. E esse castigo, segundo os boatos, seria a maior prova de seus crimes. Até que veio aquele dia... A igreja da vila estava em chamas, o céu furioso. Uma tempestade incontrolável destruía as casas. E relâmpagos sacudiam o mundo. Muitos afirmavam ter visto um homem vestido como padre ateando fogo contra a igreja. Outros diziam que o mesmo homem arrastara o corpo de Joana, mãe de Madá, pelas ruas da cidade. Muitas pessoas correram em busca de Madá, para que ela as salvasse. No entanto, quando se aproximaram da casinhola, ouviram do céu uma música harmoniosa soar em altíssimo volume. Era o bolero de Ravel, atravessando as nuvens. À porta da pequena casa estava Madá, trágica, nua e de muletas. Do mesmo céu de onde a música se fazia tocar, uma fera enorme e pungente surgia, rugindo de um modo abismal. Era um Dragão metálico, terrível e incontrolável. Uma besta em forma de serpente alada. Madá foi tragada pela fera, que desapareceu de onde veio. A tempestade cessou, e a cidade arrasada, em dias de tempestade, ainda hoje vai ao cais. Não sei se por saudade, ou por esperança, de que o rio traga Madá.

CONTOS

123


124

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


O Velho e o Tempo Robson Heleno da Silva

Foi em um dia de chuva forte, dessas que nos prendem em casa. Cuidava eu de meus afazeres de menino, ao passo que meu avô velhava em sua cadeira de balanço. Lembro-me de ter lhe entregue minha atenção no instante em que ele pôs a mão no pulso e desabotoou seu velho relógio. Em seguida, começou a dar corda nele, deixando o olhar passear pela rua, que se banhava na água da chuva. Conquanto aquilo não fosse nada de extraordinário, e sim um hábito do velho, reconheço que foi a primeira vez que reparei em seu costume. O relógio, se bem lembro, era bastante antigo, um dos primeiros modelos fabricados no país. O dourado desbotado e a pulseira de couro ressequida não só atestavam sua idade, como também corroboravam a história que meu avô costumava contar sobre como ganhara aquele relógio. Dizia ele: “Quando completei 18 anos, tudo o que eu mais queria na vida era uma lambreta. Pedi uma ao meu pai e ele me indagou sobre o motivo de meu querer. Eu poderia ter lhe dito que era para poder impressionar as garotas, mas tudo o que conseguir dizer foi que ‘com a lambreta eu conseguiria chegar rápido onde quisesse, que não perderia mais tempo’. Meu pai sorriu e não me disse nada. Saiu de casa sozinho, sem avisar a ninguém e passou o dia fora. CONTOS

125


À noite, quando ele voltou, eu estava ansioso, pensando que ele me traria a dita lambreta. Não consigo descrever a decepcionante surpresa que tive quando ele me entregou aquela pequena caixinha de madeira. Relutei em abri-la, tentando evitar a frustração. Mas o olhar de meu pai me obrigou, e quando vi o relógio simplesmente emudeci. Meu pai tirou-o da caixa e o pôs em meu pulso. Em seguida, me deu o maior presente que eu poderia receber. Olhando em meus olhos, proferiu suas sábias palavras: Filho, quero que você olhe para este relógio. Perceba que ele é capaz de contar o tempo, mas não o controla. Ao contrário do que você pensa, não se ganha ou perde tempo. Ele é mais forte que todos nós. É uma fera que não se pode domar. Pouco importa se você irá depressa ou devagar a algum lugar, você só chegará se o tempo permitir”. Naquela época eu não entendia o significado daquela história. Na verdade, apesar de tê-la ouvido por diversas vezes, a única vez em que eu, de fato, lhe dei atenção, foi naquela tarde chuvosa. Após perceber que eu o observava em silêncio, meu avô me pôs em seu colo e fez questão de contá-la novamente. Algo me diz que ele sabia que aquele era o momento exato, quando enfim teria a minha atenção. O velho contou tudo com calma, olhando em meus olhos, mas sem cessar o movimento que fazia com as mãos calmamente, dando corda no velho relógio. Quando ele terminou, fiquei em silêncio por alguns instantes observando seu movimento quase de mecânico. Por fim, perguntei: “Vovô, por que o senhor dá corda no relógio todas as tardes?”. Ele me olhou por alguns instantes, sabia o que dizer, mas queria que eu entendesse, por isso quis escolher as palavras. Não saberia dizer qual foi o tom utilizado pelo pai do meu avô, quando lhe deu o relógio, mas imagino que tenha sido bastante parecido ao 126

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


que o velho usou naquele instante para me explicar, pois sempre que recordo, é como se pudesse ouvi-lo falando uma vez mais. “Hoje, meu filho, só me resta dar corda neste velho relógio. Este é o meu afazer diário, o que me mantém vivo. Houve um tempo, é verdade, em que esta era apenas uma dentre tantas coisas que eu tinha para fazer durante o dia, mas hoje é diferente. Posso esquecer tudo, menos essa obrigação. Desde que o ganhei, não houve um dia sequer que eu tenha esquecido. Sabe por quê? Porque este relógio conta o meu tempo. É preciso que estes ponteiros trabalhem, para que eu saiba que o tempo está passando. Não sei quanto tempo terei, mas graças a ele posso saber quanto já tive. Por isso dou corda, porque se um dia o relógio parar, o tempo correrá e me deixará para trás”. Ainda que ele tenha se esforçado para ser claro, eu não entendi muita coisa. Depois daquele dia, houve outras tardes chuvosas. Mas havia sempre algo mais interessante a fazer que ficar observando o velho se balançando em sua cadeira e dando corda em seu relógio. A despeito de meu desdém, ele seguia com sua missão, todas as tardes. Até que um dia, quando eu já não tinha as tardes livres, meu celular tocou. “Teu avô”, disse minha mãe. Corri para casa e encontrei-a aos prantos no sofá, enquanto meu pai tentava consolála. Vovô falecera. O velório foi em casa, caixão aberto. Aproximei-me e meu olhar não procurou seu rosto, mas sim seu pulso. O velho relógio, que tanto trabalhara durante aqueles anos, estava parado. Os ponteiros enfim descansavam. O tempo deixara vovô para trás.

CONTOS

127


128

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


A Outra Cor

George Hamilton Pellegrini Ferreira

Primeiro foram os machados. Um marron a se formar lá em baixo, no começo do vale. Nem se ouvia o toquetoquear do ferro frio na carne macia das árvores. “Te digo, filho, eles não chegarão aqui. Talvez não passem nem do meio. Esse é o lugar sagrado de Caipora”. (Dãozinho brincava no terreiro da casa com as mucunãs, os olhos-de-boi, as carrapetas. A cachorra boa-de-onça, perto, vigiando. Vô, metido nas brenhas, à cata de piaçava. Única fonte de renda. Atrás da casa a mata secular e absoluta À frente, o pequeno pasto, as jaqueiras, o cercado de plantas me dicinais, as bananeiras. Mãe no córrego. O terreiro varrido e o caminho, pequeno filete de terra aberto na grama pelo ir e vir de mais de um século. Lá embaixo o vale. Por trás da serra o povoado, quase engolido pelas árvores. O dia mole, parado, quieto. Mormaço de meia-tarde. A cachorra mourisca aos meus pés, sonolenta. As partes inchadas, no cio. Esfregava-lhe o pinto no inchaço. Gostosa sensação, de tesão preguiçoso. As mucunãs, as carrapetas, os olhos-de-boi e meu irmão engolido na mata. O cachorro voltou com Vô. Mãe desgrenhou os cabelos e arranhou o corpo com as mãos. Foi-se o dia e a noite, o dia e a noite, o dia e a noite. Vô o encontrou sentado, na beira de uma pedra. O corpinho desfalecido, as pupilas olhando a eternidade. Uma mucunã fechada CONTOS

129


na mãozinha. A certeza do ultimo brinquedo.) O menino sabia dos poderes da Vovó do Mato. Enquanto olhava a diminuta mancha crescer milimetricamente, lembrava de tudo que se falava a respeito dela. Não duvidava dos mais velhos. Muito menos sobre Caipora. Muito medo de Caipora. Medo de se perder no mato. Caipora impiedosa com caçador e madeireiro. Caipora zangada com gente grande, fazendo se perder. Mas se gente pequena se perde, o avô dizia, Caipora apenas brinca. Mas ele sabe que irmãozinho morreu de fome, perdido por Caipora. Frio e fome, bicho nenhum o pegou. Filho de Caipora. Depois foram os moto-serras, fazendo em hora o que os machados em dia. A mancha tomando a forma de coleira. Um cerco, um cerco a eles, um cerco a Caipora. Noite e dia gravando nos timpanos o zum eterno. Noite e dia gravando na cor a outra cor. (Um vento que se fez por dentro, é o que posso dizer. O domingo manso, e mansos são os dias na serra. Amarrava uns fardos de piaçava para levar ao povoado. As portas e janelas bateram-se e o vento se fez por dentro. Janaína só, cuidando da comida. O barulho de cachoeira grande no interior. O dia parado, mas dentro da casa um vendaval se fazia. Panelas e copos chocando-se contra portas e paredes. O vapovapo dos panos como em dia de tempestade. Não ouvia os gritos de Janaína. Talvez abafados entre o intenso ruído. Machuquei as mãos e os pés na tentativa de derrubar a porta. Dias antes vi Janaína cantando um ritmo esquisito. Ajoelhada frente a mata cantando o estranho ritmo. Indagada, veio-me com conversa estranha, de desejo sufocado. Imaginei ser a solidão. Era nova ainda. O corpo na consistência de moça. Apesar do filho já estar na casa dos nove anos. Surpreendi-a, várias vezes, enfiando bananasda-terra em suas partes, enquanto alisava os seios ainda duros. O 130

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


marido morto de hemorragia, quatro anos antes. Machadada mal dirigida e o pé escapulido. Nesta ida ao povoado iria trazer alguém para ajudar no trabalho e para aplacar o tesão de Janaína. Eu, mesmo na qualidade de pai, faria esse sacrifício, mas meu caralho mal serve para tirar a água da bexiga. Pelas frestas o vento saía, fazendo subir poeira. O teto da casa tremia e despencavam telhas da beirada. A porta se abriu num estrondo e o torvelinho se perdeu na floresta, assustando pássaros e folhas. Dentro da casa as coisas se acalmavam. Uma panela ainda girava no chão. Janaína deitada na mesa, o corpo molhado, o machucador de feijão enterrado entre suas pernas, o corpo nas últimas convulsões do gozo.) A caça cada vez mais em abundância. A grande coleira empurrando os bichos para a colina. O avô matando as onças, as cobras, os tamanduás que chegavam aos bandos. Os macacos, nunca se viram tantos. “Não chegarão aqui, terra de caipora!” O rio parecia mil. As pedras, iguais. As árvores, uma só. “Vô, Caipora não existe. A mata está indo embora”. O rio, o tronco servindo de ponte, infinitas vezes passado, parecia mil. “Onde esta o Dono-do-Mato que não detém a subida da outra cor?” O menino, arrependido. Desabafo impensado. A pedra, antes diferente, igual. “Filho, ela esta te ouvindo. Ela se transforma em toco, passarinho, onça. Ela se transforma em gente, meu filho!” Ele viu, olhos do avô, olhos de Caipora. (Vi Caipora em sua forma andrógina, pai. Os cabelos compridos, os olhos coloridos, o cajado, os seios, sua aparência criança-velho. Suas mãos de vento a levantar meu vestido e acariciar por baixo, num frescor de amanhecer. Sua língua de fogo a lamber minhas tetas, coxas e bunda. Pés e olhos, molhando-me. Às vezes ele vinha na forma do falecido Zé Machadeiro, soprando-me no rosto CONTOS

131


segredos da floresta escura. Às vezes, na forma de bonita mulher, sugava-me os lábios, a língua. Fazia-me chupar seus seios duros de madeira. Só de contar fico toda me ardendo, no desejo. Toda rígida e molhada, na vontade contida.) As árvores, milhares, milhões. Uma só. Jequitibás, todas. Caminhava em círculos, percebia. O risco recente de suas unhas na árvore confirmava. O rumor das folhas, ensurdecedor. Os bichos, não havia. Só a árvore, a pedra e o rio. Milhares. O tempo. Pelas frestas dos galhos o sol há de estar parado no meio do céu. “Não queria falar aquilo, mas a mata estava morrendo...”. Olhos do avô, olhos de Caipora. Era certo o destino que o aguardava. Sabia do destino dos caçadores, dos madeireiros, do irmãozinho. Sabia e temia agora pelo seu destino. Não falara por mal. Agora são as imensas tesouras, fazendo em minuto o que os motosserras em hora. o clepeclepe amplificado, abafando a queda das árvores. Sobem rasgando o verde e o verde coração de Caipora. Sobem como lagartas em praga, devorando a selva, a seiva. A pequena nódoa marrom, agora, um mar. E o que era mar verde: verde nódoa. “A terra e um gigante camaleão, filho, às vezes muda de tom”. Sempre o avô a soltar explicações, ditos, ditados. Sempre a contornar situações e plantar um fio de esperança. As tesouras, imensas, avançando. O barulho invejando os trovões de março. O avô estraçalhado nas rodas gigantes. O líquido vermelho molhando a terra descoberta. Sangue nas rodas. O corpo de seus ancestrais ou do velho pau-brasil da cacimba? Com um cajado na mão, o menino joga os cabelos para trás, levanta os braços, e diz: — Chega! A ordem sai em barulho estranho, como um farfalhar de folhas. 132

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


Da sua boca voam mariposas coloridas e orelhas-de-pau. Os homens deixam as tesouras-tratores e descem a colina em passo lento. O menino volta para a mata num andar de vento, assustando os pรกssaros.

CONTOS

133


134

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


As Vielas do Horror Pedro Felipe dos Reis Soares

Acordou. Não se moveu. Os olhos abertos e cegos, os sentidos dormentes. Seu pensamento era um grande salão desabitado – se mesmo o medo não lhe fosse negado, tamanha lacuna seria mais aterradora do que um baile com todos os conteúdos nefastos existentes. Era como se alguma força impedisse qualquer forma de pensamento. Pouco a pouco seus dedos sentiram a concretude gelada e poeirenta do chão. Logo os outros membros os seguiram. Percebeuse então estirado de costas contra o solo, um dos braços sob o próprio corpo e uma das pernas em conformação que ele jamais supusera capaz de executar. Então o pensamento lhe foi concedido. Em turbilhão, imagens, sensações, memórias e demais conteúdos o acometeram de uma só vez e o levaram a uma forma silenciosa de desespero. Um temor abissal o dominou. Um céu avermelhado e sem nuvens, nem estrelas, se revelou. O desejo irracional de simbiose com o vazio cósmico esvaziou novamente o salão na sua cabeça. Seu corpo se reduzira a um articulado de carne e ossos e nada fez sentido. Agora, o vazio cumpria papel diverso ao de outrora, atuando como prelúdio do paraíso. Durou pouco. A inalação de um odor pútrido, de pestilência e morte, preencheu o salão de volta, a uma distância ameaçadoramente próxima. A imprimir forças CONTOS

135


que não tinha, Vann se ergueu. Cambaleou e voltaria ao chão se uma barra de ferro horizontal não lhe aparecesse em socorro. Apoiou-se com as mãos, que deram com uma textura pegajosa. Vann desentortou a cabeça e tentou se localizar. Ainda não via direito. Conseguiu identificar o lugar como um ponto de ônibus. Logo as memórias o atacaram, mas ele as rejeitou. Mais fácil ignorar o caos. Virou-se e se escorou na barra. Guardou para dentro da calça seu sexo, que pendia. Observou então que suas mãos e sua jaqueta estavam sujas daquela substância negra. Tentou se limpar a esfregões, mas conseguiu apenas fazer subir o mesmo cheiro que havia acabado de forçá-lo a se levantar. Aquele cheiro horrível, que não se aproximava sequer dos odores mais desagradáveis que conhecia. A barra estava coberta da mesma substância, e no chão havia pequenas poças. Vann se impulsionou pra frente, enojado, e terminou a um passo de chegar à rua. Nas sarjetas corria à forte correnteza o que parecia ser o mesmo líquido do qual acabara de fugir. Ergueu a cabeça e duas bolas flamejantes se lançaram em sua direção. Atirou-se pro meio do asfalto, mais por instinto que por gesto voluntário. Atordoado, olhou para o que o atacara e se formou uma caminhonete negra, que se distanciava a toda velocidade. Diante de um semáforo, que marcava a cor verde, a caminhonete freou. Os pneus esfumaçaram e um ruído característico se fez ouvir. Ficou parada ali, torta, na contramão. Os faróis miravam longe, mas pareciam sucumbir gradualmente à escuridão. Outra vez fazendo muito esforço, Vann se colocou de pé, sem desgrudar os olhos do carro. Encontravam-se a uns cem metros um do outro. Olhou em volta: as luzes de todas as casas apagadas e uma meia dúzia de postes acesos. Não havia sinal de nenhum outro carro até onde sua vista poderia alcançar. Temia que outro ônibus surgisse e o fizesse retornar 136

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


ao passado. A caminhonete não era tampouco segura, mas antes que pudesse dar ordens às próprias pernas, por si sós elas já caminhavam naquela direção. Seguinte a uma transposição árdua, Vann deu com o veículo. Vidros peliculados. Motor ligado. Esforçou-se para perscrutar o interior da cabine, mas só conseguiu seu próprio reflexo. Assombrouse com o que viu. Como o formato de sua face se alterara daquele modo? O queixo mais proeminente, assim como os ossos do rosto, veias saltadas no pescoço, olhos arroxeados, cabelo mais ralo e tez esbranquiçada. Será que o que passara há pouco havia sido suficiente para alterar tão substancialmente sua fisionomia? Ou será que lhe fora negado da memória um ou mais de um episódio sucedido entre a aparição do último ônibus e o seu recente despertar? Segurou a maçaneta da porta do motorista. Decerto não havia ninguém ali. Não fazia idéia de onde se encontrava e talvez aquele carro lhe oferecesse uma oportunidade segura de fuga. Seu raciocínio estava tão enfraquecido que não lhe ocorria que o motorista da caminhonete tentara alvejá-lo a poucos minutos atrás. Puxou a maçaneta. Trancada. Deu a volta e experimentou a outra. Nada. Esquadrinhou os arredores à procura de qualquer coisa que pudesse atirar contra os vidros. Só viu folhas secas e uma sarjeta em permanente correnteza. A carroceria estava vazia. Sem esperanças, voltou à primeira porta e tentou abri-la. O trinco deu um estalo. Do interior da cabine saltou sobre Vann uma quantidade absurda da substância negra. O jovem gritou por debaixo do líquido asqueroso que o cobria, e desesperadamente tentou se livrar. A viscosidade da substância foi contra seus movimentos violentos, impelindo-os com progressivo sucesso ao passar a uma condição cada vez mais sólida. Vann estava lidando com algo vivo. O lodo infernal não parava de jorrar do interior da cabine. CONTOS

137


Penetrava-lhe o nariz, os ouvidos, os olhos e avançava goela abaixo, lotando a boca. Sufocado, Vann conseguiu meter a cabeça para fora. Respirou e cuspiu muito. Conseguiu escapar uma perna pra fora e, como a substância não conseguisse manter a própria consistência, Vann escapou por completo ao seu abraço, cambaleando sem rumo. Assim avançou por becos escuros a pleno desespero. Coxeou em direção qualquer por minutos a fio, apenas fugindo. Seus ouvidos estavam queimados, bem como sua boca, seu nariz e seus olhos. Não via nada além de luzes indiferenciadas e cores. Respirava o fedor úmido e seu paladar se servira do putrefato. O cansaço o venceu e ele se deixou escorrer por uma parede. Respirou com força e gritou de dor e medo. Quis limpar os olhos, mas suas mãos estavam negras. Ouviu um ruído à sua direita e virou o rosto. Apesar de sua visão prejudicada, pôde enxergar, a uma distância próxima demais, um homem andando em sua direção. Um homem escuro, careca, vestindo um sobretudo cinza, lenço preto no pescoço e mãos nos bolsos... Vann caiu muitas vezes antes de poder correr de fato. Cada atropelo seu era seguido de uma risada desvairada do homem. O jovem conseguiu se colocar de pé e ao primeiro passo foi-lhe passada uma rasteira. Vann caiu sobre uma poça de lama. Olhou para o homem e o viu a uma distância maior do que a humanamente possível para que a rasteira pudesse ter sido executada. Novamente aos atropelos, Vann se levantou e correu, mas outra vez o homem o anulou. O jovem teve parte de seu rosto arrancado com a queda no concreto. Olhou para trás e o homem estava a meio metro, carregando no rosto aquele sorriso demoníaco que lhe deformava o restante da face. Vann se comprimiu contra uma parede, se protegendo com os braços e pernas, e gritou. Urrou o mais alto que pôde, misto de medo e clemência, até sua garganta quase arrebentar. Seguiu-se um instante de silêncio. Com tremores por todo o corpo, lentamente ergueu o rosto e viu 138

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


apenas a parede rebocada do outro lado. O homem escuro sumira. Olhou em volta: apenas cestões de lixo e luzes apáticas. Acima ainda havia um céu avermelhado e sem nuvens, nem estrelas. Desceu o rosto e à sua frente se mostrou, como se estivesse ali desde sempre, a mulher branca que o atacara no ponto de ônibus. Esgotadas as forças para reagir. Os mesmos cabelos negros, a mesma pele de cadáver, os mesmos lábios pintados de sangue. Dessa vez, Vann queria que ela o matasse. A mulher deu um riso atrevido, expresso em um minúsculo movimento dos lábios. Puxou os cabelos para trás e os amarrou. Avançou sobre Vann e o puxou pelas pernas até o centro do beco. Sentou sobre suas coxas e procurou-lhe o zíper. Somente a esta distância, Vann pôde enxergar que a mulher tinha os mesmos olhos gulosos de antes, bem como a mesma boca inflamada, pintada de sangue. Para a surpresa dela, encontrou o sexo de Vann já rijo. Levantou-se e caminhou até seu próprio sexo ficar na direção do queixo do jovem. Agachou-se e seu ânus encontrou os lábios queimados dele. Como não se moveram, ela friccionou o ânus contra a boca, até Vann abrí-la. O jovem agarrou as coxas da mulher e iniciou uma série delirante de chupões, beijos e lambidas. Ela se contorcia e estremecia, mas Vann a segurava com firmeza na posição. Gemidos e longos suspiros escapavam dela, que apertava os próprios seios e experimentava toda forma de pressão e beliscões. A língua de Van ora penetrava fundo, a movimentos de vai-e-vem, ora percorria toda a extensão lenta e repetidamente, enquanto o nariz se lambuzava com o néctar que escorria do sexo da mulher. A uma série de chupões vigorosos e úmidos, a mulher se levantou e sentou de uma vez no sexo ainda enrijecido de Vann, de costas para ele. O jovem segurou em sua cintura. Ela então começou CONTOS

139


a saltar a uma velocidade absurda. Vann sentia como se seu sexo fosse sugado para o interior da mulher, como se ela quisesse arrancá-lo fora. A mão de Vann quis alcançar-lhe a cintura outra vez a mulher rejeitou o contato com um tabefe. E seguia pulando com muita ferocidade, grunhindo e sibilando como um animal. Os movimentos causavam dor e prazer ao mesmo tempo. Vann não sabia se queria que ela parasse. Quando a mulher torceu o pescoço para trás e lhe sorriu um sorriso sanguinolento, maior que o rosto, quis empurrá-la. Ela afastou-lhe as mãos com um golpe forte, que quase lhe quebrou os ossos. Os olhos apertados pelo rosto dilacerado o fitavam com dureza e, mesmo àquela visão terrível, Vann não conseguia desviar o olhar. Em poucos instantes, os saltos da mulher lhe causavam apenas dor. O jovem não sabia o que fazer. A aceleração aumentou, intensificando o ardor em seu sexo. Era do sangue que a lubrificação se valia. Vann gritaria se tivesse forças. As bordas da sua visão começaram a escurecer. Entrevia o corpo branco sobre si e um cinza maciço da parede adiante. O escurecimento oscilou até quase fechar sua visão, então amenizou e revelou a mesma brancura, mas não o mesmo corpo: saltitava sobre ele uma criatura monstruosa, com chifres, músculos e a face caprina. As bordas negras engrossaram outra vez e voltaram a amenizar, dessa vez levando aos olhos feridos de Vann um demônio enegrecido ainda maior e mais horrível. O sexo do jovem penetrava o ânus da criatura, por baixo de um rabo comprido. Tudo escureceu. * Acordou assustado. Antes que pudesse reconhecer onde estava, se levantou de pronto e perscrutou à volta em busca do que escapar. À movimentação se seguiu um cambaleio que o levou direto a se 140

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


apoiar na barra atrás de si. Estava no ponto de ônibus. Suas mãos se acharam negras da substância que haviam acabado de encontrar, e seu sexo pendia para fora. No chão, pequenas poças escuras. Nas sarjetas, a mesma corrente negra. Vann se assombrou com a semelhança dos episódios. Na esquina dobrou a toda velocidade uma caminhonete com faróis altos. Vann não hesitou: correu para o meio da rua e esperou o choque. A caminhonete preta acelerou e, no último instante, desviou, freando cem metros à frente diante de um semáforo verde. Na contramão e na mesma posição de antes. O jovem não pensou mais de uma vez e avançou em direção contrária, dobrando na primeira rua. Ganhou as calçadas a passos de aleijado: uma perna sua não servia pra muita coisa. Em seu percurso, preferiu sempre as passagens mais iluminadas. As casas bem ornadas mantinham as luzes apagadas e pareciam se repetir entre si. Vann chegou a pensar se andava em círculos. Deu então com um ponto de ônibus deserto. Surgiu no fim da pista um coletivo, a se mover lentamente. Vann conseguiu observar que o ônibus estava repleto de pessoas, algumas de pé. Fez sinal com o braço. Subiu, entregou ao cobrador diversas moedas negras, avançou pela viela estreita e se pôs ao fundo, de pé. Uma sensação de alívio percorreu todo o seu ser. Era como acordar de um pesadelo. Olhou para as pessoas, para os seus rostos humanos, e isso o reconfortou a princípio. Reparou que elas lhe lançavam olhares de reprovação. Deveria ser a sujeira espalhada em suas mãos, jaqueta e calças. Seu queixo pesou e sua língua se lançou para fora. Na companhia de um ruído, se arrancou profusamente de sua garganta um jato denso da substância escura, que atingiu e devassou violentamente as faces e os corpos.

CONTOS

141


142

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


Consolo de Pobre Maria de Fátima Dias Paes

Joana Amélia olhava a chuva que teimava em cair naquela manhã do mês de março. Piscava os olhinhos sem parar e pensava naquele espetáculo: de onde vem toda essa água? Deus devia ter aberto os rios, mas por que a água vinha do céu? O céu tem rios, torneiras? O tilintar da chuva batendo no telhado de zinco era como se fosse uma música para os seus ouvidos. Os trovões cortavam o céu, raios iluminavam a terra. Era tudo muito bonito. O vento forte balançava as árvores do quintal, o cachorro latia alto. Aproximou-se da janela e viu o aguaceiro entrar pelas casas. Os vizinhos corriam de um lado para o outro tirando água de dentro das casas. Vozes se misturavam em gritarias. As goteiras já inundavam sua casinha de madeira. Ouviu a voz da mãe que zangada falava com o irmão mais velho: − Ajuda, menino! Tira a mesa daí. Vai, menino lerdo! Um vento frio subiu pelas pernas frágeis da menina. Os olhinhos não paravam quietos e espantada acompanhava a aflição dos pais que tiravam a água de dentro da casa. A água já inundava o chão de barro. Seu corpinho tremia de frio. Teve medo de ser levada pelas águas e aproximou-se da mãe. − Sai, menina! Droga de vida! Chuva da peste! Os trovões pareciam quebrar a casa. Segurou na saia da mãe. CONTOS

143


Esta com raiva deu-lhe um safanão que a garota caiu sentada no chão, molhando-se toda. Não entendia a mãe, precisava de alguém, estava com medo dos trovões, dos raios e por que ela não vinha socorrê-la? Começou a chorar. Tinha cinco anos. Era franzina, cabelos dourados e olhos esverdeados, rostinho de anjo. Tilintava de frio e a roupa ordinária pingava de água. Começou a rezar para o “papai do céu” pedindo para a chuva parar de cair. Nunca tinha visto nada igual por isso estava com medo da casa cair, de ser levada pela água do quintal. Por que o anjo da guarda não vinha socorrê-la? Foi até a pequena sala e sentou-se em um banquinho, encolheu as pernas e adormeceu. Quando acordou assustada, limpou os olhos com a ponta da blusa, ficou de pé no banquinho e olhou pela janela... a chuva estava fininha, o cachorro já não latia, a mãe e os vizinhos estavam mais calmos, já não tiravam tanta água das casas. Foi até à cozinha. A mãe preparava a comida. O pai ainda tirava água da cozinha. −Volta, menina. Ainda não tem comida. A barriga roncava alto, estava com fome. Será que a mãe não entendia? Começou a desejar balas, doce de buriti, bananas. Se pudesse ir ao quintal tirar alguma fruta, mas a chuva ainda teimava em cair e ainda sentia frio. Era melhor esperar pela comida. Ouviu a voz da mãe e correu para a cozinha. −Venham comer, seus diabos! Não sabia por que a mãe era tão zangada, tão ranzinza com os irmãos e quando o pai chegava bêbado, quase todos os dias, aliás, não entendia ninguém daquela casa. O prato de feijão com farinha foi uma maravilha, pois a barriga não parava de roncar. Estava feliz, comeu ávida, ficou satisfeita, sorriu porque sentiu um alívio na barriga. Agora tudo estava bem. A chuva, os trovões, os raios foram embora, o “papai do céu” tinha escutado a sua oração. 144

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


Anoiteceu rápido. Todos estavam cansados e sonolentos. Ela dividia uma pequena cama velha com os dois irmãos, um de onze anos e o outro de oito. A luz fraca de uma lamparina em cima de uma mesa iluminava o quarto. Joana Amélia ouvia o chiado do peito do irmão doente de asma e a tosse seca do pai que dormia no outro quarto ao lado. Olhou fixamente para o teto de zinco, gotas de água caiam perto do colchão, onde dormia. Encolheu-se e puxou a colcha de retalhos para se abrigar do frio que entrava pelas pequenas frestas da casa de madeira. Fechou os olhinhos. Pensou. O melhor era sonhar... sonhou com a chuva forte que inundava sua casa... com os trovões e os raios... os pingos teimavam em bater no velho telhado de zinco do casebre de seu Antônio... Começou a chover forte.

CONTOS

145


146

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


Dor

Alessandra Cristina Gaia Bastos

Ela não sabia quanto tempo havia se passado desde que adormecera. Ou quando adormecera. Seus olhos reclamavam, querendo continuar fechados e a cabeça parecia concordar com eles quando se fazia pesar, como se não quisesse ser usada, não quisesse pensar. Levou um tempo até que ela conseguiu reunir forças para sentar-se na cama, e mais alguns segundos para reconhecer o quarto em volta. Seu quarto. A mala estava num canto, semiaberta. Havia também algumas coisas jogadas sobre sua mesa de estudo. Roupas, sacolinhas de lembranças da viagem, livros e papeis que tivera preguiça de arrumar muito antes de viajar, alguns já manchados pelo sol escaldante que costumava bater ali por volta do meio dia. Passou a mão pelos cabelos, tinha um gosto amargo na boca. Olhou fixo para a porta do banheiro por alguns instantes, lembrandose da primeira noite ali, da animação de ter seu próprio quarto, ainda mais uma suíte. Saíra do banho como se fosse uma princesa em seus aposentos reais, mesmo que o quarto estivesse entulhado de caixas e ela usasse umas gavetas de plástico, à época. O que importava era que ali começariam uma nova vida, e a sensação de que tudo daria certo fazia com que sorrisse à toa.

CONTOS

147


A força da lembrança fez com que seus olhos ardessem e logo encolhia-se soluçante. Nada dera certo. Do lado de fora do quarto ela escutava vozes, e ao mesmo tempo que confortava-se de que estivessem ali, queria ficar sozinha. E queria também que as memórias de horas anteriores sumissem, antes que elas a afogassem na própria dor. O soluço era alto, desesperado, e ela não conseguia respirar, o pânico tomando conta tão subitamente de si. Não se lembrava de sentir-se assim antes, ou de ler sobre aquele desespero desmedido em qualquer um dos livros que coloriam as prateleiras defronte. Os livros. Assim que seu olhar bateu neles, ela suspendeu a respiração, tempo suficiente para que pudesse ter outro espasmo de choro, soluços e balbucios negativos. Na sua mente estava gravada a cena, que cortava do “boa noite” e das orações para as respirações ruidosas, das respirações ruidosas para a chegada da avó e dos tios, da chegada da avó e dos tios, para o olhar desesperado da mãe, do olhar da mãe... Para o último olhar e “eu te amo” do pai. Do último olhar para as palavras frias de um médico desconhecido “infelizmente ele se foi”. Do cair ao chão, dos gritos e choros desesperados. Do último abraço a um corpo quente e sem luz, da promessa e do obrigado para uma sala de necrotério. Depois daí pouca coisa ficava clara. Os detalhes não lhe importavam mais, talvez lembrasse de tomar café, de tentar rir com os amigos. Em vez deles distraí-la, lembrava-se de fazer piadinhas nervosas, torcendo para que rissem com ela. Para que não notassem o vazio que preenchera seu corpo, sua mente, seu coração. Do desespero em não conseguir vislumbrar um futuro, as coisas dali pra frente. Dos “como você é forte” por manter-se calma. Mas ela não estava calma. Ela sentia-se um pouco morta. 148

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


Como se seu coração só estivesse pela metade, como se só sentisse pela metade. E talvez fosse assim mesmo. No fundo, quando tentava ser racional sobre a coisa, ela resignava-se com “foi melhor assim”, afinal, ele estava sofrendo. Ele sofrera por muito tempo. Mas o racional nunca foi sinônimo de paz de espírito, ou de verdade absoluta. Não era suficiente que ela aceitasse aquilo, nunca seria suficiente. Não era por falta de orientação, pois ela sabia que ia passar, sabia que um dia melhoraria, sabia que de alguma forma, as coisas iriam se ajeitar. Que todos tinham seu tempo, que a morte era um processo natural, que não era certo se apegar a vida terrena. Que as saudades sempre ficariam ali, como uma ferida que nunca sara, que sempre precisa ser cuidada. Deus, ela sabia de tudo isso. Mas isso não era suficiente. Nunca seria suficiente. Levantou-se num salto, deixando o lençol cair no chão e foi até o banheiro. Abriu a torneira à tempo de misturar o vômito com a água corrente, de chorar apoiada sobre o mármore frio, de lhe doer a boca do estômago, enquanto lutava por manter o ar indo e vindo dos pulmões. Porquê? Porquê? Porquê? Porquê? Porquê? Porquê? A pergunta rodava sua mente junto a culpa, culpa por todos os momentos que esteve longe, por todas as vezes que reclamara de viver em casa com ele, por todas às vezes que brigara com ele. Pelo cochilo da noite fatídica. Estivera tão cansada. Por que não ficara mais tempo acordada? Por que dissera boa noite? Por que levantarase do lado dele? Por que eles não haviam diagnosticado mais cedo a doença? Eram tantas perguntas que não teria resposta. Lavou o rosto e olhou para si mesma no espelho. As sobrancelhas, o formato da boca, as maçãs salientes. CONTOS

149


E então notou algo, que lembrara de ouvir a avó falar quando lhe abraçara: - Ele deixou uma parte dele aqui. Ele deixou você. O soluço ameaçou voltar, mas ela firmou a expressão e respirou fundo. Só o vira chorar uma vez, e ele lhe dissera assim, baixinho, entre o rosto cheio de lágrimas: “Às vezes a gente precisa chorar um pouco, filha”. Ela conteve outro soluço, amarrou os cabelos e, de alguma forma, sentiu-se um pouco melhor. “Cuida da sua mãe.” Pedira ele uma vez, quando estavam abraçados no hospital. “Eu vou cuidar da mamãe”. Ela prometera ao dar o último beijo no corpo já sem luz. Ele não a deixara sozinha, pensava. Ele não a deixara desamparada. Ele lhe ensinara tudo que poderia, e tudo o que ela precisaria para o resto da vida. Seguir sem ele nunca seria fácil, e sempre haveria aquela saudade, aquelas memórias que tentariam lhe sufocar à noite como o manto de uma mortalha. O que ela precisava para ser forte era apenas lembrar-se de tudo. O segredo não era o consolo de fora, a ajuda de médicos, dos amigos, da família, de ninguém. O segredo estava dentro dela mesma. Porque uma parte dele era ela. E ele nunca fora fraco. Saiu do banheiro e com um suspiro saiu do quarto escuro. - Mãe?

150

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


Era uma vez... Clarice... Talice Chayane da Silva Quadros

Clarice nasceu em um Novembro ímpar, um mês desigual no calendário. Cresceu como flor sem poda, com os pensamentos além da cabeça, soltos pelos braços semelhavam asas. Clarice, como o próprio nome já dizia, era uma mulher “clara” das ideias, esclarecida com as coisas da vida. Seu único defeito era o fato de ser avessa às boas regras que ditavam o bom convívio social na terra. Clarice era jovem, uma mulher bela e misteriosa. E toda a sua beleza somada aos mistérios que rodilhavam sua existência davamlhe uma irresistível aparência, capaz de despertar o mais insano pensamento na mais sã criatura. Assim aconteceu... Alberto, o segundo personagem dessa comédia, era uma homem comum, desses que a gente encontra no supermercado em estoque. Rapaz direito, trabalhava como revisor de textos no jornal da cidade. Chegava pontualmente ao trabalho e tomava sua rotineira xícara de café preto antes de começar o dia. Alberto levava uma vida comum, tinha um emprego e uma namorada de escola a quem jurou amor eterno, com quem passaria todos os dias de sua vida. E justamente em um desses dias, de um novembro sem sol ou chuva, Alberto e sua amada completavam mais um ano de um namoro que se arrastava mais do que podia. Ela insistia, ele acreditava. E talvez por acreditar Alberto tenha decidido que o melhor a se fazer CONTOS

151


era comprar flores, um lindo buquê de rosas vermelhas e dar uma de “amante a moda antiga”. Saiu do trabalho, já era fim de tarde, e caminhou algumas quadras até o endereço de uma floricultura que ele achou na lista de busca do Google. Entrou na loja e foi logo em direção às rosas... ...A rosa de tão inigualável perfume, jamais lhe podaram os espinhos... Era aniversário de Clarice e ela decidiu que um dia especial merecia um presente especial de uma pessoa especial. Resolveu dar a si mesma um buquê de rosas como presente de aniversário. Entrou na floricultura e caminhou em direção às rosas. ...A natureza é perfeita, faz brotar a fina flor onde menos se espera e onde mais se precisa... Clarice e Alberto ali, perdidos entre tantas rosas, acabaram por de se deixar espetar pelo mesmo espinho (o desejo). Foi ela que o procurou primeiro. Mas foi ele que a viu primeiro. Clarice pensou que Alberto fosse um vendedor e procuroulhe profissionalmente indagando sobre as rosas. Alberto tão logo desfez o mal entendido e Clarice tratou de desculpar-se pelo engano, e de tão sem graça sorriu. Foi então que Alberto viu clarear Clarice, a suavidade com que seus lábios se abriam e esboçaram magnífico sorriso, o olhar cativo, as bochechas rosadas, os olhos marcados por uma sombra azul e os cílios tão longos que pareciam pesar ao abrir e fechar de seus olhos... E ainda aqueles lábios, aqueles lábios, vermelhos carmim pintados, lábios de Clarice. Toda ela, toda bela, meiga em seu claro ser. Alberto teve seus pensamentos arrebatados e os olhos fixos nos carmim dos lábios de Clarice, estes que semelhavam às pétalas das rosas, tão aveludados, tão volumosos, tão convidativos, tão... Clarice. Tudo ocorre nessas frações de segundos que ignoramos 152

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


casualmente e depois nos perguntamos como tudo aconteceu. E de repente a respiração de Clarice fez-se entre (asmos) cortada, parecia que lhe faltava o oxigênio. O perfume de rosas embriagava os instintos e por qualquer motivo inexplicável Alberto e Clarice sentiram a estranha ligação entre seus corpos e cederam à tentação daquilo que no paraíso foi nomeado de pecado, mas que eu chamo de desejo. Desejaram, pecaram... Pecaram... Alberto tremeu a cada suspiro de Clarice e tão profundo investiu que ambos sentiram seus corpos tornaram-se um só. E tão ensaiados e ritmados estavam que pareciam se conhecer havia tanto tempo. E quem sabe não se conheciam... De outras vidas talvez. Entregaram-se sem regras ao mais audaz dos jogos humanos e tão satisfeitos ficaram com a consumação de seus corpos. Alberto queimou-se no calor daqueles lábios, manchou seus pensamentos de vermelho. Clarice recebeu a fúria daquele corpo rígido e sentiu na pele as marcas da força que lhe segurava e consumia. Mas toda febre passa e desejo consumado é fome saciada. Saciaram... Clarice “re-vestiu-se” de calma novamente, apanhou a bolsa, ainda deu tempo de olhar seu rosto no espelho, agora sem os lábios vermelhos... Alberto arrumou o colarinho, refez o nó da gravata enquanto examinava a existência de alguma cor, algum vestígio... Não havia mais nada. Clarice seguiu caminhando pelas ruas, era noite, quase tarde... Alberto virou a esquina, atravessou a rua... Não havia mais nada, exceto o buquê de rosas vermelhas que ambos carregavam nos braços e um sorriso, uma vontade de viver a vida aos pedaços.

CONTOS

153


154

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


Esperança

Franciolis Freitas Viana

Dorneane, no quarto do casal, dobra as roupas e as põem na mala. Toma o cuidado de guardar todas as jóias, com exceção da aliança, que é jogada dentro do vaso sanitário; em seguida, aperta a descarga. Jordano, na poltrona da sala de estar, pigarreia, acende um cigarro, coça o queixo, barba por fazer, rosto amarrotado. A vida passa em câmera lenta, reproduzida numa tela de areia... Quando o amor curvou-se à melancolia? Quando o léxico ficou escasso e pobre? Quando muros invisíveis foram erigidos? Quando os minutos se nivelaram às eternidades? Quando velhos conhecidos se estranharam? Quando o sacrifício de cordeiros se tornou desprezível? Quando Deus rechaçou o amor e regrediu à sua ira veterotestamentária? Um dia, Jordano chegou em casa contemplativo, macambúzio, arreliado. Vasculhou as telhas, mas não tencionava encontrar nada específico, só não queria dar com os olhos intimidadores da esposa, porque seu olhar nesses últimos meses tinha se tornado igual ao de uma leoa enfurecida, e o pior, por qualquer coisa, como se ele tivesse a obrigação de sentir remorso até pelo fato de ter nascido. Uma leoa... / Quando o homem é empurrado aos braços de metáforas animalescas – quase sempre – é sinal de que se tornou perigoso para o outro/..., Jordeno convivia com uma leoa íntima. Uma leoa que o considerava um cachorro vadio devido aos seus conhecidos casos extraconjugais. CONTOS

155


Eis o amor quando finda: um zoológico! O cachorro, digo, o Jordeno que chegou de mãos dadas com o silêncio, sentiu no mínimo ruído do mundo um incômodo insuportável. “Tudo suscita o desassossego, quando a inquietude corrompe a alma”, disse alguém, nalgum sítio literário. Não tenho certeza se foi expresso mesmo anteriormente, ou se acabo de inventar. Dito está no meio deste conto e basta. Dorneane não questionou a introspecção do esposo, ganhara com o tempo uns lábios de abajur. Seus olhos marejados é que às vezes protestavam. Mas até isso com o tempo ficou comum, dando a impressão de que ela, quando arrojada no mundo, já tinha essa idiossincrasia. Cada um deles no seu território da casa, demarcado naturalmente. Um mundo de quadrados. Acúmulo de sombras e retalhos. Pouca luminosidade, mais coriscos. Donde surgiram tantos dédalos? Antes, havia abraços e palavras afetuosas; agora, gritos horríveis são ouvidos do passado a chamar mais e mais para perto do abismo. Flerta-se com a fraqueza carnal, como a cortar-se aos poucos, acreditando que a morte em doses homeopáticas não é capaz de matar. Então, um vento sopra a tela de areia... Hoje, Jordano resolveu vergar-se ao cetro do ocaso. É possível até que assuma finalmente o relacionamento com a secretária – Andressa, salvo engano, o nome –. Hoje, Dorneane notou que é forte sozinha. Observou-se em frente ao espelho e descobriu-se uma quarentona cheia de encantos – que o diga Agenor Dand, poeta, que lhe tem devotado muitos haicais –. Jordano, ainda na poltrona, lembra-se do poodle batizado de “Esperança” – cão fiel, melhor amigo em sua fase de pubescência –. O animal convalescia em seus braços, até que o pai veio e trouxe um rifle. A voz paterna, dura, ressoou/ressoa/ressoará: “É necessário darmos fim ao seu sofrimento!”. Jordano bafora uma fumaça circular que voa por um átimo e desaparece; grande metáfora da vida. Escuta os pés de Dorneane passarem firmemente. Toc, toc, toc... Saltos de madeira que declaram um adeus enviesado. O Esperança emite o último cainhado e se encolhe no útero do inexistente. Ouçamo-lo: “Cãim! Cãim! Cãim...”. 156

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


Estrelas do Firmamento Lucas Fadul de Aguiar

“Algumas estórias colocam o leitor frente a frente com a realidade. Umas emocionam. Emudecem o coração, amortecem o nosso orgulho e nossa vaidade. Há aquelas que dilaceram nossa alma com palavras cortantes, como lâminas a fatiar a carne, mas que não deixam de contar um ou duas verdades. Mas não é desse tipo de estória ao qual eu estou falando. Essas nós podemos encontrar facilmente, com diversos escritores, nos mais variados ramos. Quero falar hoje, meu filho, de um tipo de estória diferente. Daquelas que inspiram. Daquelas que fazem o homem sonhar, acreditar. Que fazem com que façamos a diferença, e não que a diferença nos faça. Estou falando daquelas palavras que se organizam de tal modo que levam a nossa alma a buscar uma força que existe em todo ser humano, uma vontade inesgotável de crescimento”. A criança que se encontrava deitava na cama escutava atentamente as palavras do idoso, que exerciam um magnetismo intenso sobre a cabecinha daquele pequeno. Ele escutava cada palavra, seus olhos vidrados no ritmo daquele som. Sua mente, como dissera o avô, começava a sonhar com essas estórias que parecem levar o ser humano a reinos superiores e mágicos. Estaria o avô falando de estórias de duendes, elfos e monstros fantásticos? Resolveu perguntar. - Vovô, de que estórias cê ta falando? Dessas que fazem a gente CONTOS

157


sonhar. Tem duende nelas? - Bom. – disse o senhor, endireitando-se na cadeira. – Algumas têm duendes. Outras têm donzelas. Dragões e monstros horríveis que causam dor, ódio, guerras e espalham maldades pelo mundo. – a voz dele foi rebaixando. – Mas há também estórias que falam de homens comuns, como eu e você, que lutam, choram, caem e tem que aprender a levantar na marra. E é uma dessas que vou contar para você hoje, meu pequeno. - Mas vovô, eu gosto daquelas que tem elfos, gnomos, orcs, magos e anões! O avô do rapaz escutou atentamente cada uma daquelas palavras e teve de admitir que não sabia o que era um orc. Pesquisaria mais tarde, com calma. - Prometo que vou contar uma dessas amanhã. Certo? – o avô menino estendeu a mão em postura conciliatória. - Certo. Mas você vai contar, porque promessa não se quebra! - Estamos de acordo! Agora escute com atenção, pequenino... O menino endireitou-se na cama, mais ou menos ereto agora. Adorava o momento que antecedia o ato de dormir, pois sempre tinha uma estória de seu avô para escutar. - Em uma terra distante, onde não havia estradas e o chão era extremamente quente, homens caminhavam levando fardos pesados nas costas. Caminhavam e caminhavam, sempre em frente, quase nunca parando para descansar. Os mais fortes ajudavam os mais frágeis a prosseguirem jornada, quando ameaçavam não mais progredirem. E caminhavam e caminhavam, levando toda sorte de produtos: água, leite de vaca, carne salgada. - Para onde vô? – perguntou o menino ansioso. - Para a capital, onde poderiam vender e conseguir algum dinheiro para o sustento de sua família. 158

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


O menino se calou e pareceu refletir à cerca daquelas palavras. O avô percebeu a brecha, e seguiu: - Muito daqueles homens estavam cansados daquela vida. Outras reclamavam, perguntando a Deus por que estavam condenados àquilo. Alguns, talvez pela força do tempo, apenas se resignaram, aceitando piamente o que o destino impôs. Mas como em todo rebanho existe aquela ovelha agitada, havia naquele grupo um menino diferente. - Diferente como, vô?! – perguntou o menino, com visível curiosidade na voz. - Bom, se você me deixar seguir eu te conto... – falou o avô, com serenidade. - Tudo bem. Desculpa. – redarguiu o pequenino, um pouco envergonhado. - Como dizia, havia um menino diferente dos outros. Não era muito mais velho que você, talvez uns dois anos apenas. Ele se cansava como todo mundo. Às vezes reclamava, o que era natural. Havia dias que não sentia vontade de sair da cama – que não era lá essas coisas, diga-se de passagem. Mas algo o fazia diferente. Um brilho especial parecia animar os olhos daquele garoto. Um brilho que aparecia todas as noites quando ele dormir, e olhar as estrelas do céu. Que eram tantas. Um brilho que surgia todas as manhãs, quando o olhava para o céu claro e imaginava um futuro melhor. O avô, propositalmente, deu um longo suspiro, esperando alguma reação do neto. Na face do pequeno estava estampada uma curiosidade indizível de se traduzir. O senhor quase riu diante disso. Resolveu continuar. - Certo dia, quando olhava as estrelas, deitado em um travesseiro feto de palha, o rapaz perguntou ao seu pai, que se encontrava em uma cama ao lado: “Pai, o que tem lá em cima?” O CONTOS

159


homem respondeu: “ As estrelas, filho”. E o garoto indagou: “ O que são estrelas, pai?” Um longo silêncio se fez nesse momento, o pai do menino olhando passivamente para os pontos luminosos no céu escuro, como que tentando encontrar uma explicação plausível para aquela pergunta. E então o pai sorriu e disse: - As estrelas, filho, são como eu e você. Como as pessoas que estão do nosso lado, trabalhando conosco. É cada ser vivo que anda por essa terra, cada planta, cada animalzinho. “Assim como nós, as estrelas tem o momento certo de brilhar e mostrar a sua luz. O dia e a noite vem e vai. Alguns dias são longos, e tem poucas estrelas no céu. Noutros, a noite está recheada de luz. Por que assim como nós, assim como há céus sem estrelas e céus que brilham até demais, há pessoas que decidem mostrar a sua luz e outras não. Mas o fato é: todos nós brilhamos em algum momento, e às vezes é preciso a mais escura das noites para que possamos mostrar nosso brilho.” Após essa breve estória do pai, o menino que era diferente dos outros decidiu que precisava de alguma forma mostrar a sua luz. Decidiu trabalhar mais pesado e reunir um pouco mais de dinheiro. Os anos se passaram, ele foi ficando mais velho. Até o dia em que conseguiu dinheiro o suficiente para passar um ano na capital. Lá ele estudou ,passou na faculdade e conseguiu um emprego. Decidiu voltar para o interior onde nascera, e contar grande novidade para o pai, que o incentivara fortemente a realizar o seu sonho. - O pai deve ter ficado muito orgulhoso dele, né vô! - Com certeza meu netinho, com certeza! - Puxa vô que estória legal, todos nós temos que achar nossa luz! Um dia vou ser como as estrelas, estarei lá no céu, voando alto. - Que assim seja! O avô do menino foi se levantado, arrumou o pequeno em 160

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


sua cama e se retirou do quarto, com duas lágrimas escorrendo os olhos antigos. O neto nem notara que aquele não era exatamente o fim da estória, de tão animado que ficara. Nem se deu conta de que avô pretendia contar mais. Nem percebeu que o avô pretendia contar que quando chegou no interior, seu pai havia falecido e nem pudera contar a novidade, que conseguira um emprego digno e poderia dar um sustento melhor para os filhos. O senhor olhou para mãos e viu as marcas de anos trabalho naquela condição penosa, quando era ainda apenas uma criança. Direcionou-se para janela do quarto, onde a esposa dormia mansamente. Olhou cada estrela do céu e sabia que de certo modo seu pai estava orgulhoso por ter sido alguém diferente, por ter decidido enfrentar o medo do desconhecido e bater as asas. No fim das contas, algumas estrelas nunca deixam de brilhar por nós.

CONTOS

161


162

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


Madrugada Marrom Danielly Brito de Oliveira

Dormia por longas horas. Dormia porque sonhava. Sonhava e não vivia. Desesperava-se quando a insônia vinha. Significava a vida e não o sonho, a fantasia daquela gostosa realidade paralela que o subconsciente brinca de construir. Até dos pesadelos gostava. Aquele torpor sonolento maquiava a realidade que não queria encarar. Tentação comum entre todos nós. Naquela noite a insônia, inconveniente visitante que lhe roubava o acolhedor mundo dos sonhos, atacou. Fitava a janela fixamente. Só o barulho dos grossos pingos de chuva compunha a trilha sonora de seus pensamentos. Sentia a alma marrom, da cor da madrugada chuvosa. Engraçado isso de nos sentirmos de determinada cor em alguns momentos. Me pergunto se aqueles que foram cegos a vida inteira e nunca viram cor nenhuma têm essa sensação. Acredito que sim. São coisas dos olhos da alma, cuja percepção vai além do enxergar por si só, envolve o toque. O toque da cor. Sentiu o marrom lhe tocar. Sempre associou marrom com coisas pesadas, sentimentos cheios demais, mas agora se sentia leve. Triste e leve. Aquele sentimento da tristeza pela tristeza, que dificilmente vem com o Sol, mas com a chuva sempre vem. Nas manhãs chuvosas o mundo chora por nós. Nas madrugadas chuvosas o mundo chora por ele mesmo. Quase não nos damos conta disso, chega a ser só CONTOS

163


uma leve percepção. São esses olhos que nos cegam diante daquilo que fica claro pelo toque da cor. Marrom. Ninguém é tocado pelo vermelho em uma madrugada chuvosa, o mundo está chorando e não sangrando, por ele mesmo e não por nós. Ocorreu-lhe que somos um grande nada. Viemos do nada e vamos, com a morte, para o nada. Não, para o vazio. Antes de mais nada, antes do paraíso ou do purgatório, a morte é o vazio. Vazio do fechar de olhos em que todas as fraquezas da alma abandonam o corpo. Tinha medo de morrer, no entanto, fugia da vida se escondendo nos sonhos. Não se permitir sonhar é aprisionar a si mesmo, mas é perigoso não querer mais acordar. Como ser tocado pelas cores da vida dormindo? Sonhos são pintados, não tem cor própria. Não se é tocado por suas cores, simplesmente as enxergamos ali, em nossa cabeça. Mas isso quem pensou fui eu, não ela. Ela ainda está lá, olhando a janela, pensando no vazio da morte. Procura o marrom que lhe tocou. Mas, não se esforça muito para isso, acostumou-se a procurar respostas somente nos sonhos. Acordada, nem as sensações procura mais. Perdeu a noção de si mesma. A madrugada, a chuva, o cansaço, os olhos pesados... Adormece. Vai ao encontro dos sonhos em busca das suas respostas. Mas o dia sempre amanhece e os sonhos vão. De novo e de novo, todos os dias. As cores que nos tocam estão na vida que vem depois dos sonhos. Sentir seu toque, eis a essência da busca pelas respostas. Mas, não resistiu a tentação do refúgio protetor do sonho, temeu a vida. Dormiu. Sonhou. Não sentiu as cores. Não encontrou respostas. Não viveu, e amanheceu. De novo e de novo.

164

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


Maria Moreira

Thaís Christina Coelho Siqueira

Ela percorre o caminho do quarto até a cozinha da casa grande e vazia. É hora do café habitual da tarde, de ficar no pátio olhando a rua, sentada na cadeira de balanço. De ver os vizinhos passar e gritar “uh, Maria! Que tá?”, de enxotar os cães que vêm sujar a frente da casa costumeiramente. De pensar nos filhos e netos que moram na capital e do filho que já mora no céu, de lembrar a dureza da vida enquanto a novela não começa. Não fosse a coceira nos olhos e o risco de se queimar ao preparar o café, a vida seria tranquila. Ela andava apalpando as paredes e, mesmo após a ampliação dos cômodos na última reforma que o filho fez na casa, já havia se acostumado com as distâncias e tinha na memória o destino para onde levava cada parede na qual se segurava. Naquele pátio, entre o intervalo de um cumprimento e outro, ela se lembrava de tudo o que viveu. Na verdade, à medida que a velhice chegava, ela percebia que solidão e memória andam juntas e que as melhores companhias que ela teria daqueles dias em diante seriam as lembranças. No seu mundo de sombras criado pela cegueira, Maria voltava a ser criança. Lembrava-se da morte da mãe e da responsabilidade de cuidar do irmão mais novo. Do casamento do pai, das ordens da madrasta, de uma Cametá que se limitava a rua CONTOS

165


da frente da casa onde vivia. Naquelas lembranças, a adolescência chegava mais bela do que foi na realidade: vinha acompanhada de um rapaz bonito e educado e, claro, apaixonado. Mas também vinham memórias do quase casamento com quem amava de verdade e do casamento arranjado pela família com quem era de interesse. Aquele homem era diferente dela em quase tudo, mas de alguma forma a amava. Maria quase desistiu do casamento, quando uma prima a convidou para ir embora para o Rio de Janeiro, mas o destino se encarregou de decidir por elas. Em um assalto, a prima tomou um tiro nas costas, que a levou a uma cadeira de rodas e sem condições de buscar Maria na casa da madrasta. O casamento foi sua liberdade e uma nova prisão. Levada para viver na beira do rio, em uma ilha próximo a cidade de Cametá, aquela jovem gastaria o resto da juventude parindo e sendo humilhada por uma sogra avarenta, egoísta e arrogante. Naquela época, Maria deixou de ser Moreira. Hoje diz que amava o nome do pai, mas não se importou com a mudança. Já se fosse o nome da mãe, seria difícil convencê-la a mudar. Era a única herança que tinha dela. O marido construiu uma grande casa de madeira. Na frente, uma ponte comprida recepcionava os barcos dos visitantes. Havia dois quartos, um do casal e um da sogra. Os filhos iam nascendo e ganhando uma rede, com o tempo, a sala estava repleta de redes que eram estendidas assim que a noite caía. Maria engravidou dezessete vezes, mas sofreu aborto em quatro delas. A diferença de idade entre os treze filhos eram diversas, assim, quando o filho mais novo nasceu, o mais velho já era casado e morava em Belém. Os filhos de Maria sofriam, constantemente, maus tratos da avó, mas o pai não intercedia. Estava sempre mergulhado nos livros e jornais velhos. Com o passar dos anos, esses mesmos livros expulsariam Maria daquele quarto, ocupariam o seu lugar e ela também ganharia uma rede na sala. 166

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


Algumas vezes, ela descia ao terreiro para apanhar açaí. Ali, sozinha, podia chorar a dor de ver os filhos sofrendo porque a avó negava comida ou pelas surras que levavam de galho de cuieira. E já que estava ali, aproveitava para chorar pela sua própria dor, e desabar com o peso da própria cruz. Quantas vezes aquela mata testemunhou seu desabafo, até que a voz da velha invadia a floresta e ecoava seu nome. Ela nunca esqueceria aquele chamado: “Maria, cadê o açaí?!” Não importava a distância, aquela voz a perseguia e as árvores que antes a consolavam, agora traziam com vontade e força aquela convocação. O que Maria não sabia, é que a “velha índia”, como ela a chamava, morreria de uma das piores formas. Naquela época, com a escassez de visitas do médico, não se sabia que o apodrecimento interno daquela mulher era causado por um câncer na região íntima. Anos depois, Maria lembraria com perfeição aquele cheiro fétido de carne podre que saia das roupas as quais era obrigada a lavar até a velha índia morrer no fundo de uma cama tão apodrecida quanto ela. Foi num desses anos de ditadura familiar que Maria deu uma das filhas para o cunhado e a esposa criar. Com a promessa de cuidar bem da menina e coloca-la na escola, o casal levou a garota de apenas oito anos para ser escravizada e, muitas vezes aliciada pelo tio. Mas essas histórias Maria só haveria de saber anos depois. O pai morreu sem saber a que condenou a filha, mas essa é outra história. Após a morte da sogra, Maria viveu um breve período de paz na casa, até que o destino tomasse as rédeas novamente. O segundo filho mais velho – e um dos mais amados – trabalhava transportando combustível em sua lancha de Belém a Cametá para vender. Naquela tarde de 1993, enquanto ele arrumava os tonéis no porão do barco e ouvia os sons de motores e apitos do porto, um companheiro de trabalho bêbado e distraído deixou a porta trancar. Não se sabe de onde veio o fogo, alguns dizem que esse mesmo amigo poderia estar CONTOS

167


fumando quando entrou no barco. O que se viu foi uma explosão forte e um sopro quente que tomou o porto. O trapiche foi destruído e dois barcos próximos foram atingidos, mas não havia ninguém neles. Testemunhas narraram terem salvado dois homens que se jogaram na água, mas estavam tão sujos das cinzas, que num primeiro momento não se viram as queimaduras. O filho mais querido de Maria viveu por mais três dias no hospital até não resistir, deixando pais, irmãos, esposa e os cinco filhos. Maria enterrou o filho no mesmo cemitério no qual enterrou a mãe. Naquele dia, o homem com quem ela havia construído uma casa e uma vida começou a morrer também. A depressão pela morte do filho o fez definhar e, a cada ano que passava, nem os livros, nem o radinho de pilha sintonizado na Rádio Clube o faziam esquecer. Com os cabelos brancos, chegava também o hábito de ficar horas sentado na beira da ponte olhando para o rio. Depois de cuidar da doença da sogra, Maria haveria de cuidar também do marido por mais alguns anos. A rotina ribeirinha daquela época era um pouco mais pacata do que é hoje. Já se usava baterias de carro como fonte de energia e algumas casas possuíam televisão, motivo pelo qual os vizinhos atravessavam o rio de canoa no final da tarde a fim de ver a novela, mas, mesmo assim, o tempo corria mais devagar do que nos dias de hoje. Maria passava as tardes espremendo o tipiti para colher a andiroba que usava para curar os baques dos netos que criava e do próprio reumatismo que começava a assombrar os ossos. Foi numa dessas tardes que prometeu um dia sair dali e voltar a morar na cidade. E assim o fez um ano após a morte do marido, deixando a casa, os livros, a ponte e parte de suas dores. Mesmo com a ajuda dos filhos mais velhos, ainda era difícil se reestabelecer sem ter onde morar. Primeiro veio o aluguel, depois 168

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


a casa própria. Os filhos mais novos e os netos que Maria criava tiveram a chance de estudar nas escolas da cidade e a vida foi se arrumando. O tempo passou, os casamentos vieram e cada um tomou o rumo que preferiu. Foi assim que Maria ficou só. As memórias foram interrompidas por uma voz que chamava no portão, não era uma voz desconhecida, mas também não era possível identificar seu dono. Na verdade, Maria não sabia dizer se era homem ou mulher que a chamava, só sabia que aquilo vinha como um carinho no rosto. Preferiu não responder, como aprendera quando era criança: “se ouvir alguém chamar seu nome e você não tiver certeza de quem é, não responda. A morte tem seus disfarces e só precisa que a gente diga que já vai atender ao chamado”, dizia a mãe. Por um instante teve medo, como no dia em que aprendeu essa lição, mas resolveu pensar em outras coisas mais importantes. Naquele momento, os grilos começaram a cantar para atrair as fêmeas. Era hora da novela.

CONTOS

169


170

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


Miserere nobis

Matheus Benassuly Maués de Medeiros

Não queria me revelar o medo. Mas não pude deixar de notar o triste arranjo dos cabelos desgrenhados; o alvo do lábio cor de carmim que caladamente gritava: “miserere mei!”. Nesse instante, lançou mão do repertório – batom, pó compacto, sorriso na boca – e se afastou de mim. Não me importei, continuei a encará-la. Na garganta, mil provérbios. No olhar, não-sei-quê-lá. A mulher que era de vidro, resina e tão somente de espelho, parece que queria me dizer algo. Mas não lhe dirigi a palavra, fiquei ali... Fiquei calada como aquela noite. Aliás, a noite era raivosa naqueles dias, de um trovejar incomum. O tintilo da panela, de água a conta gotas, me irritava. Mas ela, a paramentada figura feminina, permanecia constante, não demonstrava sentimento. Começou a chorar. E era um choro tão pagão que nem deveria me compadecer, como não o fiz. Aí parou, parou e me olhou – com mais medo ainda. Depois começou a procurar algo: na estante, na mesa, dispensa! Acendeu um cigarro. Cruzou as pernas e os braços por cima delas. Esbugalhou os olhos, como faróis gêmeos, assim, de supetão, procurando meu espanto. Agarrada na minha coragem, esconjurei aquele olhar de mau olhado. Não mantive a postura e, num desequilíbrio, o cadeado de minha boca se desatrelou, despejando CONTOS

171


o esboço dum gargalhar. Do esboço à encomenda pronta, lacrada e enviada ao comprador, não demorou nada. E lá estávamos nós, as duas, rindo de tudo. Mas tudo era nada naquele diálogo de rápidos olhares. Dentro de mim a idéia do nada já me fazia estancar o sorriso. O dela também, por outro motivo: o choro do gozo já lhe escorria negro por sobre a face. Era curioso como bulia o colar de pérola falsa envolto no pescoço, veias saltadas, corpo magro; como fazia nuvens de fumaça; como sua boca brincava com as formas do carbono. E aquelas unhas vermelhas? E o cabelo meio branco, meio louro? E o vestido, rente ao corpo, igualmente encarnado? Parecia o diabo em forma de gente. No entanto, era serena. Depois arredia. Latejante esquisitice. Eu não, nunca, normal até demais. Será? Ela notou: quis me endoidecer. Andava pra lá e pra cá. Sabia que a conhecia. De onde? Vizinha nova, vizinha velha? Parente distante? Talvez. Ela não me era estranha e parece que tinha algo meu nela e vice-versa. Era magnífico como não tinha pudor ao fitá-la. Cada olhar lançado levava consigo uma intimidade infinita. Daí a falta de estranheza, daí meu desespero. Será que devia cumprimentá-la? Mas era tão inacessível... Nem lembrava seu nome. Esperei que dissesse algo, sorriso discreto estampado em nossos rostos. Cada movimento daquela mulher era previamente planejado, acredito. Mimeticamente, como pretendesse me confundir. E o conseguiu com maestria. Não fosse eu mesma, diria que éramos univitelinas. Bobagem. Descruzei as pernas. Acendeu um cigarro: “miserere nobis!”.

172

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


O Caos dentro dele

Leonardo Jovelino Almeida de Lima

Estar deitado em sua cama não significava que estava seguro. Os grandes problemas do mundo não eram nada, comparáveis ao caos existente dentro da cabeça dele. “Pelo menos esse meu caos só implica em depreciar, aos poucos, a minha vida” – pensou, ajeitandose entre a cama e o cobertor azul escuro que ganhara no aniversário daquele mesmo ano. A noite estava fria e, assim como em outros dias, preparara uma xícara com leite quente. Sua única companhia. Ele e a xícara. A xícara e ele. Preferia assim. Não queria estar diante das perguntas veementes da mãe e do olhar inquisidor do pai; sem contar das palavras acalentadoras de amigos – “Eles nunca entendem o que eu realmente estou sentindo. Dizem que isso faz parte da vida, para o crescimento e amadurecimento. Se for assim, preferiria ser criança pra sempre.”. Acreditava que estar ali não o ajudava também, mas era melhor do que compartilhar o sofrimento sentido naquele momento. Talvez ‘sofrimento’não fosse o termo correto para consubstanciar o turbilhão de coisas que pairavam dentro dele, mas também não sabia se existia palavra para isso e não queria ficar tentando descobrir uma. Apesar de estar com tempo de sobra, pensamentos desse tipo só pioravam a situação. Lembrou-se de ter lido, certa vez, em um livro de astronomia, CONTOS

173


que somos como um grão de areia se confrontados com toda a imensidão do universo, sem desconsiderar que esse mesmo universo aumentava de tamanho a todo o momento. Aquela afirmação nunca foi totalmente aceita por ele, pois não sabia se, realmente, o homem era capaz de calcular o seu tamanho exato para tirar tais conclusões. Entretanto, naquele momento, essa afirmação não precisou ser aceita, já que o que estava sentindo podia se resumir muito bem nela: se sentia pequeno, muito pequeno. Quase um ser inútil. Sabia que decepções amorosas eram dolorosas. Mas, a seu ver, uma pancada seria mais bem vinda. A voz de Renato Russo na música ‘tempo perdido’ começou a sair de seu celular; a vibração do aparelho ocasionada pela chamada o tirou de seu devaneio. Era a vigésima quinta vez que alguém ligava para ele naquele dia, mas preferia não atender. Queria ficar sozinho com seus pensamentos e seus sofrimentos. Pelo menos assim, ninguém poderia enganá-lo; fazê-lo de idiota. No dia anterior, um pedaço de seu coração foi retirado, maltratado, massacrado. Os caminhos rumo à felicidade que acreditava estar percorrendo, acabaram se transformando em buracos negros, sugando aos poucos sua felicidade. Esperava ser feliz ao lado da mulher que ama, mas o destino havia lhe preparado algo inesperado, algo que mudaria sua vida para sempre. A dor que sentia o levava por lembranças nostálgicas. Para um passado onde desejava nunca ter saído. Para momentos de amor e paixão vividos por duas pessoas que buscavam o ápice de seus desejos mais íntimos. Ele a amou desde o primeiro momento que a viu na Universidade. Moça alta de pele morena, cabelos pretos que ultrapassam um pouco os ombros, atribuindo-lhe um charme nunca visto em qualquer outra mulher; olhos castanhos claros e lábios carnudos. Sentiu um leve 174

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


arrepio ao ouvir sua voz pela primeira vez, após deixar os livros que levava à biblioteca caírem com o esbarro despercebido dela: - “Desculpe” – falou ela, abaixando-se para pegar os livros e entregá-los a ele. Quando ela se levantou, ele pôde notar melhor a moça que o encarava com um sorriso meio sem graça. Percebendo certa hesitação no olhar dela, ele permaneceu calado, somente apreciando a beleza incomum dessa até então desconhecida. Após consideráveis segundos, ele levantou a mão direita, o que a fez dar um passo para trás. - “Muito prazer...” “Tudo começou ai” – pensou. A dor que sentia agora era consequência desse primeiro contato. “Se ela não tivesse se esbarrado em mim e derrubado meus livros eu não estaria nessa situação”. Ele sabia que não podia desconsiderar os momentos bons que viveu ao lado dela, que sempre foi amável, carinhosa, uma verdadeira companheira. Mesmo antes de começarem a namorar, ela a tratava muito bem e sempre o respeitava. Mas a felicidade começou mesmo com o pedido de namoro. Ele se lembrava deste dia como se tivesse ocorrido recentemente. Lágrimas passaram a escorrer por sua face, quando as palavras ditas naquele dia se fizeram concretas em sua mente: - “Você quer namorar comigo?” Ele fez o pedido em uma bonita manhã de domingo, frente à grande Orla da cidade. Acreditava ser o local perfeito, e esperava ansioso pela resposta. Ao toque das mãos dela, ele se sentiu mais calmo e um sentimento de felicidade tomou conta de seu coração. Ela fitou seus olhos e aos poucos foi entregando-se em um beijo profundo. Os lábios dela eram quentes e macios, da forma como ele imaginava. CONTOS

175


Quando cessaram, ela o encarou novamente e respondeu: - “É claro que eu aceito...” Os dias que sucederam o pedido foram aproveitados com muito romantismo - “Isso eu não posso negar”- pensou. “Eu que sempre procurei fazer o possível para a nossa felicidade”; “eu que sempre me sentia realizado ao ver o sorriso dela”; “eu que sempre anunciava que ela era a mulher da minha vida e que queria passar o resto dos meus dias ao seu lado”. Esse desejo quase se concretizou com o pedido de casamento. “O início dos problemas e das mentiras que estão me fazendo sofrer”. -“Por que essa desgraçada fez isso comigo?” – falou com veemência, levantando-se rapidamente da cama, sem saber exatamente o que fazer ou para onde ir. Muitas pessoas, passando por essa situação, colocavam o coração no centro, como se ele fosse o principal causador de tudo. Ele sempre achava graça disso, já que o coração é somente um órgão muscular com uma função essencial para o corpo humano; os sentimentos vinham de outro lugar, vinham da mente (acreditava). Mas todo esse paradigma caiu por terra, já que a dor que sentia partia do centro de seu peito. Uma dor agoniante, que o torturava, o massacrava; uma dor que parecia ser impossível de ser curada, pois sabia muito bem que ninguém ainda havia encontrado remédio para aquilo. ‘Dores’ mais importantes tinham prioridade. Deitou-se novamente na cama, puxando o cobertor até os pés, para tomar um pouco do leite. O líquido não estava mais quente, mas o sabor permaneceu inalterado. Olhando para a xícara, passou a invejá-la - um ser inanimado, desprovido de sentimentos e emoções, apenas apto para cumprir seu papel que é comportar líquidos para saciar vontades. Raciocinou sobre tudo aquilo e se sentiu um idiota por ter sido tão insano. “Babaca”. 176

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


Lembrou-se de que certa vez, sua mãe o aconselhara a sempre ver o lado bom das coisas. “Existe lado bom para o que eu estou passando agora?” – questionou-se. “Não, não existe...”. Mas sabia que se estava naquela situação era por que havia se colocado nela. “Somos responsáveis pelas consequências de nossos atos. Humm... Talvez esse seja o lado bom, aprender com os erros. Mas se era para ver o lado bom, os erros ficariam de fora, já que são erros, ou seja, consequências. Entendo que ‘lado bom’ é como uma situação paralela e não os resultados dessa situação. Estou certo? Não, não estou... ou será que estou?” Voltou-se a se sentir um idiota. E cada vez menor. Não precisava ser assim... Não queria que fosse assim. Os pensamentos sobre o grão de areia e o universo retornaram em sua cabeça e um sorriso aflorou em seus lábios, dando-lhe um aspecto mais jovial. Pensou que o mesmo grão de areia medíocre e insignificante é o mesmo grão que, ao sei alojar no manto de ostras, produz a valiosa pérola. Se até então, o lado bom de todo o sofrimento que estava passando não existia, ele concluiu que precisava criá-lo; e realmente as coisas não precisavam ser assim, já que a felicidade só dependia dele. Respirou fundo e andou até o banheiro para um longo e prazeroso banho. O ser pequeno e quase inútil de minutos atrás ficou na cama, sozinho e enrolado pelo o cobertor azul escuro ganhado em seu último aniversário.

CONTOS

177


178

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


O menino de traços indígenas Devison Amorim do Nascimento

A minha imaturidade foi o primeiro motivo que fez a minha gravidez algo indesejado, aos 15 anos. O segundo, e o mais crucial dele, o sumiço do meu namorado. Ele era mais velho que eu, tinha 30 anos, e usou de minha inocência, se é que eu era tão inocente naquela época, para me iludir com promessas de casamento, filhos e uma vida próspera e feliz, bem longe das dificuldades financeiras que minha mãe e eu enfrentávamos no cotidiano. Namoramos exatamente um ano, até ele se tornar efetivamente o primeiro homem da minha vida. Depois de algumas relações íntimas com ele, comecei a sentir certas sensações estranhas. No começo pensei se tratar de um problema corriqueiro qualquer, mais logo as náuseas e os vômitos que anunciavam minha gravidez se intensificaram. Minha mãe sabia do namoro e até apoiava, Mauro soube exatamente como conquistá-la usando de seu charme e desenvoltura com as palavras para persuadila a autorizar nosso namoro de porta. Minha mãe foi tão iludida quanto eu. Contudo, foi ela quem percebeu que concebia uma criança em meu ventre. O que se confirmou com o teste de farmácia. Fiquei alegre com a notícia, via na minha gravidez a solução para adiantar o noivado e o casamento que Mauro sempre adiava, com várias desculpas. Minha

CONTOS

179


mãe é que ficou preocupada, pois eu era muito nova e ainda estudava no Ensino Médio. Ela tinha sonhos para mim, que iam muito além de um casamento com um homem de boa situação financeira. Queria que eu fizesse um curso superior, de preferência enfermagem, achava o trabalho de cuidar das pessoas necessitadas um dos mais belos e gratificantes que existem. Não queria me ver atrás de um caixa de supermercado, trabalhando exaustivamente durante horas, em troca de uma baixíssima remuneração. Eu concordava com ela, queria ser enfermeira e exercer a profissão com toda dedicação e carinho possível. Nem mamãe, nem eu íamos imaginávamos o que Mauro faria. O golpe foi duro e implacável! Logo que soube de minha gravidez, ele sumiu, sem deixar rastros. Procuramos por ele desesperadas por dois meses, sem sucesso. Parecia que Mauro tinha evaporado, se mudado para outro planeta ou qualquer coisa do tipo! Como íamos criar uma criança sem o apoio do pai, se o que mamãe ganhava mal dava para pagar o aluguel, as contas de energia, de água e nos alimentarmos? E eu ainda era estudante, inexperiente e teria que parar de estudar e deixar de lado todos os meus sonhos. É claro que estava atormentada com tal situação, mas a ideia de ser mãe já estava me irradiando de felicidades, apesar de todas as preocupações. Depois de nos convencermos que não iríamos mais encontrar Mauro, aos dois meses e meio de gravidez, mamãe e eu tivemos uma séria conversa. Eu teria que adiar o sonho de ser enfermeira por um tempo e iríamos criar sozinhas meu filho. Minha mãe era uma pessoa muito boa de coração e uma mulher guerreira “vamos dar um jeito, dizia ela”. Porém, a vida nos deu mais um golpe. Mamãe foi despedida e nosso desespero, que já estava se atenuando, voltou de maneira pior. Minha

180

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


mãe tinha direito a um seguro desemprego, mas... e depois? Se ela não conseguisse se empregar logo? Corríamos sérios riscos de passar necessidades, e com uma criança inocente. Não sei a quem o desespero atormentava mais, se a mamãe ou a mim mesma. Várias vezes a surpreendi chorando baixinho, escondida de mim, no intuito de me proteger e não me preocupar ainda mais. Deus do céu, como fiquei desestruturada, passei noites e noites em claro pensando em como solucionar aquela situação. Eu tinha que resolver, já que eu criei o problema. Por mais algumas vezes procurei Mauro, todas em vão. Foi então que me veio à cabeça a ideia de fazer um aborto. Claro que não era o que eu queria, o que mais queria era criar meu filho, enchê-lo de mimos, ver seus primeiros passos, sua adolescência, sua juventude, sua formatura. Mas a situação financeira me obrigava a fazer aquilo. Pensei nessa ideia durante vários dias, já cheia de culpa. Às noites sonhava com meu filho, era um rapazinho de cinco anos, moreninho, de traços indígenas semelhantes aos meus. Estávamos num jardim e ele corria em direção a mim de braços abertos. Eu o abraçava e o beijava afetuosamente, estávamos felizes. Era incrível, o sonho se repetia todas as noites. O mesmo sonho, sem tirar, nem pôr. Quem sabe um sinal de Deus para que eu não fizesse nenhum aborto, pois na hora certa ele me estenderia a mão e tudo daria certo. Mas a realidade da pobreza e do desemprego foram mais fortes que os repetidos sonhos. Decidi fazer o aborto. Não disse nada à mamãe, porque ela jamais aprovaria aquilo. Em minha cabeça de garota de 15 anos, aquela era a melhor coisa a se fazer para o meu bem e o de mamãe. Aquele aborto nos livraria da preocupação de deixar uma criança passar necessidades. Se a fome viesse a bater em nossa porta, seria mais fácil somente nós duas enfrentá-la.

CONTOS

181


Em meio aos meus tormentos da decisão do aborto, mamãe saia todo dia à procura de emprego e quando voltava com a expressão triste em seu olhar, não precisava dizer com palavras que não tinha conseguido. Isso me estimulava mais a abortar a criança. Mamãe tinha saído em busca de emprego mais uma vez, quando saí de casa atrás de uma senhora que mexia com ervas e costumava oferecer, a baixo custo, “garrafadas” de ervas abortivas. Soube dessa senhora por meio de uma colega de escola que fez o mesmo que eu. Naquele dia, de posse com um pedaço de papel no qual estava anotado o endereço da erveira, percorri as ruas do telégrafo até a casa da mulher com lágrimas escorrendo sobre o meu rosto. Sabia que estava prestes a cometer a pior coisa da minha vida, uma brutalidade, um assassinato! Sim, eu ia cometer o assassinato do meu próprio filho. Cheguei à casa da mulher, comprei a “garrafada” e recebi as instruções de como usá-la, para que pudesse surtir o efeito. Deveria tomar aquela mistura de ervas durante três dias, sempre no mesmo horário. O fiz escondido de mamãe, quando ela saía em busca de emprego. Toda vez que bebia aquela mistura, sentia vontade de morrer, porém não tinha mais o que fazer. Até o terceiro dia em que usei a beberagem nada senti fisicamente. Parecia que não iria fazer efeito. Graças a Deus, pensei. Seria mais um sinal de Deus para não realizar o aborto? Era noite quando mamãe chegou em casa, com expressão de extrema alegria. Anunciou que tinha conseguido um emprego em outra loja e começaria dali a duas semanas. Nos abraçamos e choramos de alegria, nossos problemas começavam a diminuir. Assim, eu pensei, quando de súbito senti uma forte dor em meu ventre. Comecei a gemer, as dores aumentavam cada vez mais e meus gemidos se converteram em gritos. Mamãe ficou

182

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


desesperada, viu as minhas roupas de baixo manchadas de sangue e me perguntou “Helena, Helena, o que você fez?” Não conseguia e nem queria dizer. Gritava e gritava até desfalecer. Quando acordei, estava num leito de hospital, minha mãe me olhava horrorizada, parecia que não era eu, Helena, que estava ali; mas alguma coisa desumana. Mamãe estava magoada, decepcionada, com profundo rancor de mim, porém não me abandonou no hospital. Um dia depois, quando estava um pouco mais recuperada, tentei explicar minhas razões para ela e ela se limitou a me fazer somente uma pergunta “como você teve coragem de fazer isso, Helena, eu não lhe disse que íamos dar um jeito?” Desde aí não me disse mais nada. Voltamos para casa em dois dias e nosso convívio ficou difícil durante meses. Pouco nos falávamos, somente o necessário. Aos poucos as coisas foram se ajeitando, mamãe começou no novo emprego, voltei a estudar e depois voltamos a ter a mesma relação saudável de mãe e filha. Nunca mais falamos sobre Mauro e sobre o aborto. Mamãe queria esquecer aquele assunto e eu também. Com muita luta, o tempo nos ajudou a mudar nossa situação. Mamãe foi promovida a gerente da loja, na qual trabalha há anos e eu hoje sou enfermeira, cuido das pessoas e gosto do que faço. Casei-me, mas não posso mais ter filhos o que eu tomo como um castigo de Deus, pois tantas vezes ele me alertou para não cometer o aborto. Esse castigo dói, porém o que mais dói é saber que matei meu filho, o lindo menino de traços indígenas com o qual eu sonhei tantas e tantas vezes.

CONTOS

183


184

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


O Misterioso Chico Preto Raimunda de Nazaré Fernandes Corrêa

Contam os mais antigos moradores do bairro da Marambaia que na passagem Nossa Senhora de Fátima hoje Rua Esperanto, nos idos dos anos sessenta, morava o misterioso Chico Preto. Homem baixo, franzino, preto, barbudo e com uma vasta cabeleira lisa e negra apesar dos seus aparentes setenta e poucos anos. Com andar desengonçado e sempre cabisbaixo por causa da corcunda, também não falava, apenas emitia sons semelhantes a grunhidos. Seu casebre mais parecia uma tapera com paredes de enchimento e coberta com cavacos, em meio a um terreno cheio de cafeeiros, que as sementes quando torradas e moídas no pilão, o cheiro se espalhava por toda a redondeza. Como não tinha janelas e a única porta ficava pelos fundos do terreno, o casebre era sinistramente escuro e sujo, ainda porque Chico Preto gostava de juntar objetos nos lixos e amontoar no local. Em frente ao casebre, bem no meio da rua havia uma frondosa jaqueira e no terreno por trás da árvore, Chico Preto usava para fazer caieiras e produzir o carvão que a vizinhança comprava, medidos em paneiros, para uso nos fogareiros domésticos, e por causa dessa atividade Chico Preto era visto o tempo todo sujo e maltrapilho. Contam que o local era mal assombrado e que por volta da meia noite Chico Preto se transformava em uma fera com aparência CONTOS

185


de um cão preto e peludo, de pernas compridas e dentes afiados, que ficava escondido na sombra da árvore e de lá saía para perseguir a todos que ali passavam após esse horário. Aos domingos à tarde a diversão da juventude do bairro era se reunir para torcer nas beiras dos campos de futebol do Vila Nova, Brasilândia e São Joaquim, times patrocinados pelos principais comerciantes local e que frequentemente estavam disputando campeonato. Após cada jogo havia a festa dançante que se estendia noite à dentro, na sede do time vencedor. Acontece que ao terminar a festa começava o alvoroço daqueles que para retornar pra casa precisavam passar pela porta do Chico Preto. Amedrontados se organizavam em fieiras, enquanto que os moradores da rua ficavam à espreita espiando pelas frestas da janela procurando ver alguma coisa, mas só ouviam os gritos. Na manhã seguinte, todos estavam cedo pelas portas, tecendo comentários e procurando saber do acontecido. Ninguém sabe ao certo se realmente a fera era o Chico Preto, mas o que se comenta é que sempre de manhãzinha lá estava o ele todo acabrunhado no pé da jaqueira, escorrendo baba entre os dois dentes que possuía.

186

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


O Sopro do Lobo dos Porcos Marcos Sávio Souza Leal

O primeiro canto do galo me encontrou já saciado de amor primal, já satisfeito de gozo antropofágico. A culpa é do perdão. Eu existo abandonado pela matilha, sem irmão, sem nenhum. Sexta-feira, 21 horas. Concluo que as chances de ter dado meia volta, se perderam logo na entrada, quando percebi que uma mulher como aquela só poderia ser o presságio de uma noite deliciosa. Seu jeito vulgar e visivelmente cruel me dava água na boca, me deixava faminto. Posso até garantir que olhar para ela já era um pouco do seu sabor. Minha auto-indulgência faz de mim alguém parecido comigo, caído sobre mim. Meus distúrbios já me fizeram dormir em diversos tipos de chão e camas; aninhado em meus próprios pêlos, perdido em pensamentos coagulados. Por outro lado, eu sou o que sou. A capacidade ou maldição de ser o que se é nos retorna para a certeza principal: a fome é a vida real. Quando entrou, ela tocou no meu ombro e pediu um cigarro, senti o perfume de seus peitos influentes em contraste com camadas de outras mãos de odores. Seus cabelos, cor de framboesa, me faziam lembrar coisas que gostaria de não pensar naquele momento delicado. - Essa marca é meio vagabunda, por que não compra outra? A diferença de preço deve ser pequena. CONTOS

187


- Não ligo pra diferenças, contanto que me permitam soprar a fumaça. - Espere, vamos acender como num filme. Ponha o seu cigarro na boca. Aproximou-se do meu rosto, acendeu seu cigarro no meu, que ainda estava na boca. Cigarro no cigarro, boca com boca. Meu coração batia forte, foi como um primeiro beijo filtrado por impurezas que te deixam careca antes de morrer. Afastou-se, brincou com a fumaça no ar. Gostou das pinturas nas paredes, da música, da bebida. Sempre falava após um trago. - Sabe quem me ensinou a fumar? Ninguém. Aos dezessete eu não dizia nem palavrão, mas fumava apaixonadamente, aprendi sozinha, com os filmes. Fumava escondido. Puxava, puxava, depois soprava. Ah, meu primeiro trago foi como um orgasmo, como um baseado antes de um baseado. - A primeira a gente nunca esquece. Certo? - Humhum. Reconheci sua voz no telefone, sabia que era você. Torcia pra que fosse. - Mas, eu nunca digo nada quando ligo. Precisei tomar coragem, ter certeza. Não queria perder a chance de ter você para o jantar. - Que romântico, viu só? Descobri, pronto. Tenho uma intuição para pessoas, todo tipo de pessoa. Minha mãe dizia que um dia minha percepção seria finalmente reconhecida e eu seria famosa, todos lembrariam o meu nome, de uma forma ou de outra. Faria qualquer coisa, passaria por cima de qualquer pessoa para ter meus cinco minutos de fama. - Já pensou em engravidar de jogador de futebol? Goleiro está na moda. - Hum, é uma idéia. Mas enquanto não rolar, prefiro coisas mais seguras. - Sabe, já faz tempo que eu percorro os classificados à procura de algo, 188

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


alguma coisa que me desse o ponto, que me resgatasse a natureza, que me fosse familiar. Foi quando cruzei com o seu anúncio, gostei da senha: “o sopro da loba dos porcos”. - Questão de mistério, amor. Faz o preço aumentar. Qualquer uma pode transar, eu, por outro lado, me vejo como uma artista. Gosto de pensar que é uma reflexão sobre a caça e o caçador, sobre o que nos torna lobos ou porcos. Sobre uma casa de palha ou de madeira destruída. Sobre nossos tijolos de segurança. A violência não vende jornal, não dá ibope? - Tem razão, também vende carros, sabão em pó, pasta de dente, refrigerante. E qual é a sua especialidade? O custo é o mesmo? - Ah, o de sempre: anal, oral, masoquismo. Sou uma mulher de classe, mas dizem que eu sou boa mesmo é em humilhar. Adoro humilhar, homens e mulheres. Tem gente que paga alto por isso sabia? Outro dia mesmo, uma médica pediatra me implorou pra cagar na boca dela; antes me fez comer umas papinhas de nenen. Teve também um padre que me pedia pra rezar o credo enquanto raspava a minha totota. Toda terça, pagava bem, adiantado. Me chamava de “minha filha”. - Você cobra caro? Quer dizer, não que eu não possa pagar; isso não é problema, mas é que eu gostaria que você me sugerisse alguma coisa. - Olha, esse lance de preço é complicado. Mas vou simplificar: achei você muito fofo, por isso, vai morrer nos quinhentos. - Parece ótimo. Me dê só um minuto. Vou te pagar adiantado. - Poderia me dar trocado em notas de vinte e cinqüenta? Para o táxi. - Sem problema. Enfim, depois de lhe pagar, enfiei um punhal de prata no seu pescoço. E enquanto o sangue jorrava, manchando o carpete da sala, fizemos amor como animais. Seus gemidos de prazer me deram vontade de uivar para a lua ao mesmo tempo em que ejaculávamos juntos, CONTOS

189


fecundando sangue e esperma pelo chão. Achei muito natural a conjugação suculenta do tempero e a sua carne. Sou uma pessoa cheia de vocações, mas sem nenhum talento natural para a cozinha, por isso, peço licença para confessar que pouco aproveitei das miudezas. Antes disso, puxei-a pelos pés até o quintal e, depois de amarrados os pés e as mãos, como sempre, fiz uma fogueira bem grande no quintal, estava com tanta fome que para avivar o fogo precisei soprar, soprar e soprar.

190

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


Um conto de vida e morte Maria Lizete Sampaio Sobral

Mamãe deu cinco suspiros antes de morrer. Sempre ouvi dizer que as pessoas dão três suspiros, mas mamãe deu cinco suspiros. Eu segurava em sua mão e, assim que tudo terminou, olhei para Bernardo, meu irmão caçula que estava sentado, quase deitado, no sofá ao lado da janela do quarto. Era um quarto de hospital como qualquer outro, triste e inóspito, paredes brancas, piso de linóleo cinza, o sofá e uma cama que mais parecia um maquinário: uma prancha de metal cheia de alavancas, molas, botões, manivelas, com um colchão em cima. Fitei Bernardo e murmurei: “ela morreu”. Ele então saiu para avisar aos enfermeiros do plantão noturno; era uma hora da madrugada. O pavilhão dos pacientes com câncer em total silêncio, e eu ouvia o eco de meu próprio choro. A porta do quarto ficara aberta. O casal de jovens enfermeiros pediu licença e começou a examinar minha mãe para confirmar o óbito. Eles examinaram olhos, boca, ouvidos - procedimentos de praxe. Chamou-me a atenção a indiferença deles com a situação. Eu e meu irmão não dizíamos nada um ao outro até que ele se manifestou: “vou ligar para o pessoal para avisar”. Eu só confirmei com a cabeça e disse “tá”. Mamãe havia pedido, três meses antes, para ser levada para Brasília, cidade onde reside nosso irmão médico, “para morrer lá”. CONTOS

191


Disse também que lá queria ser enterrada, pois não gostaria de ter o corpo embalsamado e transladado em um avião para Belém. Assim foi feito. Estávamos então todos em Brasília, porque o quadro da doença havia piorado. Fomos chegando aos poucos: eu e minha irmã mais nova, de Belém. De São Paulo, vieram Bernardo, o caçula, e a mais velha de todos nós, Elaine. Depois, o irmão engenheiro, que na época morava em Florianópolis, e, por fim, nossa irmã que morava em Paris. Meus irmãos chegavam, um a um, ao quarto do hospital. Entre eles, o que é médico, se debruçou sobre o leito e passou as mãos sobre os olhos de mamãe, sua face, e cabeça quase sem cabelo - resultado da quimioterapia. Todos olhávamos para ele, que nos fitou de volta, contraiu a boca num sorriso triste e estalou os lábios. Uns choravam, outros se abraçavam. O quarto se encheu de murmúrios e choro. Em dado momento, alguém se lembrou da dentadura de mamãe, pois, mais um de seus desejos era que não fosse enterrada sem os dentes. Como num movimento ensaiado, viramos para Malvino, marido de mamãe, e em uníssono perguntamos: “cadê a dentadura dela?” “Sei lá”, respondeu ele, sacudindo os ombros, e completou “a dentadura foi retirada na UTI”. Meu irmão médico e Malvino começaram ali uma discussão sobre o paradeiro da dentadura. Malvino teria de “dar conta dela” de qualquer jeito. A cena definitivamente ultrapassava os limites do real. Meus pensamentos transportaram-me para épocas distantes. Lembrava-me de mamãe sempre muito feliz, fazendo comida na enorme cozinha da casa de Soure, do arroz sírio, das “caranguejadas”, das músicas de Chico, Martinho da Vila, Paul Mauriat, que tocavam na vitrola antiga. Ela sempre dançando, rindo, cantando. Declamava nesses momentos poemas de Guerra Junqueiro, bebia vinho tinto, 192

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


fechava os olhos, comentava que era feliz e jogava os braços ao vento gritando “obrigada meu Deus!”. Ríamos e éramos contagiados por aquela alegria. Lembrei-me também da casa do século dezenove, no antigo bairro da Cidade Velha em Belém, a lembrança de meu primeiro lugar no mundo. Éramos então, apenas seis irmãos, pois Marina, a caçula, veio muito tempo depois. Tia Zena, uma gorda mulata que cuidava de nós, colocava-nos no saguão, onde papai e mamãe criavam muçuãs. Ficávamos ali a manhã inteira, numa espécie de castigo prazeroso, espiando os ovos que os pequenos quelônios colocavam, até sermos liberados para o almoço. À tarde, havia a sesta da família. Eu, pequena ainda, esperava que meus pais e irmãos dormissem, para então, fugir até a cozinha, e ouvir, juntamente com Tia Zena, à radionovela ‘Eleonora, a mulher predestinada’. Veio em minha memória a abertura da radionovela, quando ouvíamos soar no rádio um choro feminino, seguido de dramático acorde musical. Em casa, havia uma grande sala, junto à alcova onde nossos pais dormiam. Eu adorava a brincadeira que minha mãe costumava fazer com seus filhos. Trancava-nos dentro da sala, depois de entrar vestida com uma manta, dos pés à cabeça, deixando só a boca, com a dentadura projetada para fora, aparecendo. Soltava sons guturais. Eu ficava apavorada, mesmo sabendo que aquele monstro era mamãe. O momento culminante era quando ela, depois de extrair gritos de terror de todos nós e de nos fazer correr atropeladamente pela sala, tirava a manta, colocava a dentadura para dentro da boca novamente e abraçava-nos dizendo com muita calma e a voz cheia de ternura: “é a mamãe, é a mamãe”. Assim como esta, muitas foram as situações em que sua dentadura foi a protagonista, como da vez em que ela resolveu passar CONTOS

193


o objeto na areia da praia, brincando que assim os dentes ficariam mais brancos. Sentou-se à beira do mar, começou a esfregação, e, de repente, uma onda levou de uma só vez seu sorriso. Recordei-me de uma outra vez, em que fomos ao aeroporto buscar meu irmão médico que chegava de Brasília. Ela se afastou de mim e de meu pai, dizendo que iria ao banheiro. Minutos depois, minha mãe voltou de lá, chamando alto o nome de meu pai. Olhei na direção de seu grito. Ela saía do banheiro com uma vassoura nas mãos, um laço de papel higiênico amarrado no alto da cabeça, e varria o chão do aeroporto, ao mesmo tempo em que apontava para meu pai e ria sem parar. As pessoas ao redor olhavam sem nada entender; ele, furioso, saiu correndo em direção às escadas rolantes. A voz de Elaine trouxe-me de volta para o quarto do hospital. Na tentativa de apaziguar o debate que se havia travado entre meu irmão médico e Malvino, Elaine começou, como de costume, seu discurso: “Mamãe morreu como sempre viveu, feliz. Sua morte, ainda que doída, e nossa compreensão de vida pouca para processar este corte existencial, faz-nos cair na real de que mamãe de fato nos deixou para uma vida em que não podia ser nosso porto seguro fisicamente eternamente, mas o será para sempre em nossa memória.” A pausa na discussão pareceu acalmar a todos. Dirigi-me até o leito e segurei o queixo de mamãe, a fim de fechar sua boca que estava entreaberta. Fiquei assim por algum tempo, até que peguei um pedaço de gaze, amarrei do queixo até o alto de sua cabeça. Todos continuamos calados, presenciando a situação na qual parecíamos não acreditar – mamãe falecera. Os enfermeiros se retiraram, meu irmão médico saiu para as providências: caixão, velório, cemitério. Finalmente, quando uma enfermeira retornou ao quarto, a fim de levar seu corpo que seria transportado para o necrotério, retirou 194

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


a gaze que ainda envolvia a cabeça de mamãe. O pedaço de pano havia sido amarrado de modo tão firme que projetara seu queixo para frente e os cantos dos lábios para cima; e assim, quando foi retirado, mamãe parecia sorrir. Lembrei-me do que Elaine havia dito momentos antes: que mamãe morreu como vivera, feliz.

CONTOS

195


196

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


Uma Boneca

Joana D’Arc da Silva Queiroz

Ouvi o resmungo sempre enferrujado de portões, portas e janelas que se acostumaram a estar fechados e de repente se abrem. Vozes. E logo o rumor das malas e dos pacotes, empurrados, arrastados, carregados com pressa. Na verdade, não ouvi. Assim como e onde estou, apenas posso pressentir os acontecimentos. E agora, na escada, passos... Pressenti a ascensão desordenada que ignorava degraus e vinha acompanhada do ruído frio de uma algazarra de chaves balançando. Mas, ah, com certeza vi a porta se abrir e surgir Isabelle. Ela largou a mochila em cima da cama e veio direto até mim. Em um segundo, eu estava fora da caixa e girava num abraço rodopiado. Por esse abraço, percebi que ela tinha muito para contar, fosse real ou inventado, coisa que, em muitas cabeças, quase sempre dá no mesmo. Quanto a mim, não me senti mal por andar tão despovoada de aventuras, pois quando Isabelle se dava a confidências, ela sempre me arranjava alguma historieta também. Fora da caixa e com a porta do quarto ainda aberta foi que pude, realmente, ouvir as vozes de sempre e o alvoroço da vida que, enfim, instalava-se novamente na casa. Comecei, então, a pensar que há muitas coisas para se adivinhar. Como os sons. Por exemplo, o cachorro eu ouvia. Latidos entusiásticos que vinham de todos os lados, uma nota enervante e importuna, mas, ao mesmo tempo, familiar e absolutamente necessária para os CONTOS

197


ouvidos. Já o som das patas em movimento, na peleja com a terra fofa ao redor da casa e com o piso duro e escorregadio no interior dela, esse som eu adivinhava como uma realidade sobrenatural, que me provocava um desconforto intangível, e, por isso mesmo, muito mais desagradável do que aquela sucessão de latidos de boas-vindas. Vicente – nome que dei ao cachorro, mas o de “batismo” é Fagulha, na minha opinião, a maior prova de desamor que já lhe foi dada pelos donos – é como eu. Nas férias, sempre nos deixam em casa. Ilusão! As semelhanças acabam aí. Enquanto me colocam dentro daquela caixa e depois no fundo daquele armário, ou, e isso é quase a liberdade, dentro da caixa e sobre a cadeira com ares de poltrona ali, enquanto eu fico assim fabulosamente trancafiada, ou protegida, Vicente ganha liberdade para transitar em todo o entorno da casa, pode entrar até mesmo no pátio, e todos os dias sei que vai alguém lhe servir água e comida. Deixam-no porque é incômodo viajar com um cachorro do tamanho dele, e é esse mesmo tamanho que o qualifica para proteger a casa. E me deixam para que meus cabelos, minha pele e minhas roupas não se estraguem com a poeira e o calor das estradas, nem com o sol, com a areia, a água do mar ou qualquer outra coisa. Parece que sou um objeto valioso. Apesar de vivermos na mesma casa, nunca conversamos, Vicente e eu. Criaturas que se agitam muito, como ele, quase nunca pensam. Sei disso. Isabelle tinha uma boneca patinadora que, enquanto lhe valessem as pilhas, não parava quieta um instante. Tentei várias vezes conversar com ela, fiz algumas perguntas simples, só para constatar que era completamente idiota, não dizia uma palavra fora do “blá-blá-blá” de fábrica, e o dizia da mesma maneira que patinava, isto é, sem nenhuma convicção. Sem as pilhas não ficava mais inteligente, mas causava menos incômodo. Um dia, ela saiu patinando em seu desgoverno habitual e se foi escada abaixo... Mas Vicente tem em seus latidos 198

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


e ganidos modulações incríveis. Às vezes, mesmo dentro da minha caixa, aferrolhada no quarto de Isabelle, às vezes acho que o escuto, de verdade ou de memória. Tenho que confessar, Vicente me inspira muita simpatia. A essa altura – a casa está novamente silenciosa – ele já recebeu sua porção de carinho e pancadas e deve estar encarcerado na casinha dele, acabou-se a liberdade, enquanto eu estou na cama macia de Isabelle. E como ela me diz palavras carinhosas, passando a mão sobre a minha testa, e como ela me acomodou numa posição confortável entre as almofadas, talvez eu durma. Não de sono, mas de paz. Isabelle me deixou sozinha no quarto e estou triste. Sei que todos estão reunidos na cozinha, num desses momentos de rara intimidade familiar. Estou sentada no parapeito da janela e é agradável sentir o sopro de Zéfiro – nome que dei ao vento – neste fim de tarde. Mas tenho medo de cair. Lá embaixo é território de Vicente, que está solto e exerce com grande competência a profissão ainda atualíssima, mas nem sempre bem remunerada, que herdou de parentes remotos. Outro dia, daqui mesmo desta janela, vi o que ele fez a um desavisado que aterrissou por lá. Era um gato de pelagem alourada e aristocráticos olhos azuis. Este primor da distinção felina, muito ciente da sua nobreza, balançava a cauda com impaciência e esnobismo superiormente encantadores; e distraído, muito seguro de si, mal sabia o quanto se arriscava no passeiozinho. Vicente o viu... Pois o infelicíssimo ainda conseguiu escapar com alguma vida, mas está estropiado para sempre. É claro que perdoei Vicente pela demonstração, muito espontânea, de falta de trato social. Mas ele não sabe a estima que lhe tenho, por isso não espero que me trate com a mesma consideração... Eu estava justamente pensando em como a vida doméstica é bem provida de incidentes trágicos quando me veio a sensação... CONTOS

199


Nem sempre gosto quando começo a adivinhar as coisas. Eu continuava olhando pela janela, mas o que queria e precisava ver era o que estava atrás de mim. E nesse ponto, a posição em que Isabelle me deixara era inexorável, eu estava completamente de costas para a porta e não podia, claro, me voltar. Mesmo assim, antevi o giro da maçaneta, a porta sendo aberta e, em seguida, cuidadosamente trancada. Ele entrou, aproximou-se da janela; não eram adivinhações, era a realidade que acontecia com excessiva rudeza. Ainda puder ver, lá embaixo, Vicente alheio ao que se passava, com o focinho apertado entre as grades do portão, atento ao movimento da rua. Foi quando ele me ergueu, com facilidade assustadora, e pude vê-lo num instante congelado de nitidez. Logo ele me pôs sobre a cama; e naquela posição indefensa, meus olhos se fecharam, inapelavelmente... Sem me mexer, sem ver, mas sentindo e escutando, temi pela eternidade, não do que acontecia, mas dos dias que se enfiariam depois, regulares e invencíveis como as contas de um rosário. Tolhida por um obscuro de dor e desamparo, quis chorar. Mas nem sempre há tempo nas grandes calamidades. Tudo foi feito rapidamente e com brutal destreza. Isabelle surpreendeu-se ao me encontrar em cima da cama, e admirada daquela rebeldia, iniciou uma censura frouxa, disse-me uma porção de coisas sem importância, pontuadas por etc., etc. Quis lhe contar. Olhava-a, temerosa, e lhe contava tudo... Ela também me observava. Notou-me, com certeza, o amarrotado do vestido e as discretas nódoas que agora o enfeitavam, meus cabelos em desalinho... Mas não entendeu, nem percebeu mais nada.

200

IV PRÊMIO PROEX DE LITERATURA


CONTOS

201


IV PRÊMIO PROEX/UFPA DE LITERATURA

Poesias

Contos

Harley Farias Dolzane Mônica de Nazaré da Costa Pereira Leandro Cavalcante Lima Frayzer Lima de Almeida Anselmo de Sousa Gomes Marcos Sávio Souza Leal João Marcelino Pantoja Rodrigues Maria Jackeline da Silva Cavalcante Salim Jorge Almeida Santos Sérgio do Espírito Santo Ferreira Júnior Thiago Alberto dos Santos Batista Victor Hugo dos Santos Burçãos Abilio Pacheco de Souza Henrique Cesar Cardoso do Couto

Mayara Lopes de La-Rocque Sidney Gustavo Fernandes Coelho Robson Heleno da Silva George Hamilton Pellegrini Ferreira Pedro Felipe dos Reis Soares Maria de Fátima Dias Paes Alessandra Cristina Gaia Bastos Talice Chayane da Silva Quadros Franciolis Freitas Viana Lucas Fadul de Aguiar Danielly Brito de Oliveira Thaís Christina Coelho Siqueira Matheus Benassuly Maués de Medeiros Leonardo Jovelino Almeida de Lima Devison Amorim do Nascimento Raimunda de Nazaré Fernandes Corrêa Marcos Sávio Souza Leal Maria Lizete Sampaio Sobral Joana D'Arc da Silva Queiroz

Crônicas Thiago de Alencar Sousa George Hamilton Pellegrini Ferreira Ana Carolina Trindade Cravo Henrique Cesar Cardoso do Couto Patricia do Socorro Daibes Oliveira Bruno da Silva Amoras Noemy Pereira de Souza Mailson de Moraes Soares Marcos Mascarenhas B. Rodrigues Franciolis Freitas Viana João Marcelino Pantoja Rodrigues Jônatas Miranda Amaral Líliam Cristina Barros Cohen Igor Alessandro dos Santos Cruz Fabiano da Silva Pereira Fernando Jorge dos Santos Farias Debora Rodrigues Ribeiro Caroline Pinheiro Lobato Camille Barroso

IV prêmio PROEX/UFPA de Literatura