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REVISTA DE COMUNICAÇÃO VISUAL

edição especial EDIÇÃO ESPECIAL | PRIMAVERA 2010

O CHIADO TEM A MAIOR EXPOSIÇÃO FOTOGRÁFICA DO MUNDO special edition

CHIADO HAS THE WORLD’S LARGEST PHOTOGRAPHIC EXHIBITION

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GRÁTIS | FREE EDIÇÃO ESPECIAL | PRIMAVERA 2010 SPECIAL EDITION | SPRING 2010 6/3/10 5:49 PM


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índice mensagens / messages

10 António Galamba - Governador Civil / Civil Governor 11 António Costa - Presidente da Câmara de Lisboa / Mayor

espaço santa casa

12 Espaço Santa Casa 14 Francisco Falcão - Fotógrafo / Photographer

roteiro / exhibition map 20 Planta da exposição

galeria chiado / chiado gallery

22 Imagens por estudantes do Ar.co, Epi_ e IADE Photos by the students of Ar.co, Epi_ and IADE

portfólio / portfolio

36 Joshua Benoliel 40 Carlos Relvas 44 Gérard Castello-Lopes 50 Carlos Gil 54 José Fabião 60 António Pedro Ferreira 66 José Gonçalves

72 Angelo Lucas 78 Rita Carmo 84 Carlos Ramos 90 Nuno Jorge Henriques

tutorial / tutorial

94 Técnica Polaroid Polaroid Technique 96 A conservação na fotografia An overview on photography conservation

Capa / Cover - Fernando Pessoa Se houve alguém que representou emblematicamente o seu bairro e um momento no tempo da cidade de Lisboa, esse alguém foi o poeta e escritor Fernando Pessoa. Foi por isso que escolhemos esta fotografia dos anos vinte desta força literária como tema para a nossa capa. Um passeio pela calçada no Chiado é a introdução perfeita para a Galeria do Chiado da Directarts. If there ever was a figure which represented emblematically their city neighborhood and a moment in time, it had to be the writer and poet Fernando Pessoa. That’s why we choose this 1920’s photograph of this literary force as the subject of our cover. A stroll along the cobblestoned Chiado streets of Lisbon is the perfect introduction to this gallery issue of Directarts.

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editorial CMAD – Centro de Media Arte e Design, LDA. Rua D. Luís I, Nº6 1200-151 Lisboa, Portugal Telefone: 213 942 548 - Ext.250 Direcção Executiva Aurora Diogo in.sideguincho@gmail.com Direcção Editorial/Criativa Carlos Duarte carlos_duarte@directarts.com.pt Direcção Adjunta Editorial/Criativa Lia Ramos lia_ramos@directarts.com.pt Direcção de Arte Alexandre Santos santos.alexandre.design@gmail.com Coordenação Editorial Elisabete Pato elisabete.pato@gmail.com Editor Fotográfico Angelo Lucas angelolucas@gmail.com Revisão de texto Helena Sanhudo helenasanhudo@gmail.com Direcção Publicidade Helena Rodrigues helena_rodrigues@directarts.com.pt Direcção Marketing Raquel Vilhena raquel_vilhena@directarts.com.pt Carla Carvalho

Direcção Comercial rv_comercial@directarts.com.pt Copydesk (Português) Helena Sanhudo helenasanhudo@gmail.com

A Directarts tenta ser selectiva nas suas parcerias em projectos para os quais é solicitada. Tentamos manter os nossos padrões tão elevados quanto possível. É por isso que nos sentimos lisonjeados com o convite da Login For Love – Productions, para sermos a revista oficial deste evento, liderada por Aurora Diogo, que tem a seu cargo a coordenação de “O CHIADO TEM A MAIOR EXPOSIÇÃO FOTOGRÁFICA DO MUNDO”. É claro que nós aceitamos o convite! Contribuímos assim com a nossa imagem, tempo e boa vontade de forma a fazer justiça a um evento que irá ter sem dúvida impacto no mundo fotográfico. Abandono assim este editorial passando para a próxima página as palavras eloquentes de uma nova amiga e parceira. Directarts tries to be selective in our associations and partnerships with projects which we are solicited for. We try to keep our standards as high as possible. That’s why we feel very fortunate in having been invited by Login For Love – Productions to be the official magazine of the event headed by Aurora Diogo who is coordinating the “CHIADO HAS THE WORLD’S LARGEST PHOTOGRAPHIC EXPOSITION.” Of course we accepted the invitation. So we dedicated our image our time and our good will to do justice to an event that will definitely have an impact on the photographic world. So I’ll relinquish this editorial to the next page for the eloquent words of a new friend and partner. Carlos Duarte

Copydesk (Inglês) Helga Lopes helgarlopes@gmail.com Direcção Financeira www.fsconsultores.com tiago.palmacarlos@fsconsultores.com Impressão Lisgráfica - Impressão e Artes Gráficas Rua Consiglieri Pedroso, nº90, Casal de Sta. Leopoldina, 2730-053 Barcarena - Portugal Distribuidora Logista Distribuição Edifício Logista, Expansão da área Industrial do Passil Lote 1 A - Palhavã, 2894 - 002 Alcochete Telef.: +351 21 926 78 00 www.logista.pt Tiragem: 15 000 exemplares Preço: Grátis Periodicidade: Edição Especial Registo de Publicação: nº 436566 Registo ERC: 125893 Interdita a reprodução, mesmo parcial, de textos, fotografias ou ilustrações, sob quaisquer meios e quaisquer fins, inclusive comerciais. Os artigos assinados são da inteira responsabilidade dos autores.

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“O Chiado tem a Maior Exposição Fotográfica do Mundo”. “Chiado has the World’s Largest Photographic Exhibition.” Editorial / Editorial Aurora Diogo

Fechando os olhos quase que poderia imaginar nas montras do Chiado, uma gigantesca sala de exposição, um Chiado cheio de imagens, cheio de fotografias, fotografias de artistas portugueses! Um momento especial... É costume dizermos que quando temos que escolher entre várias coisas, neste caso, artes “hesitamos muito”, mas quando se pensou em trazer algo artístico para os históricos edifícios do Chiado e para as suas lindíssimas montras - a Fotografia foi a primeira opção. Até aqui tudo fácil. Para além do muito trabalho que a equipa enfrentou, o facto de termos de expor um projecto inédito aos logistas e fazê-los acreditar nos benefícios que daí advinham para os seus espaços comerciais, foi sem dúvida a tarefa mais árdua. Mas devo dizer-vos que nunca tive a menor dúvida que a exposição fosse para a frente – fica aqui um á parte. Tudo o que fomos conseguindo, sentimo-lo como se tivéssemos a fazer nascer algo muito, muito bom para a nossa cidade e para a fotografia em Portugal. O carinho de alguns e as valiosas palavras de outros foram os meios e as energias para atingirmos o fim a que nos tínhamos proposto. Criar uma mostra fotográfica, cujo acesso ao público fosse o mais facilitado possível é sem dúvida um dos objectivos deste evento. Uma mostra de fotografia pelas montras da cidade dando assim oportunidade a mais fotógrafos para mostrarem a sua arte. Quisemos que o evento fosse acompanhado por uma publicação cujos conteúdos fossem única e exclusivamente dedicados ao evento, escolhemos a DIRECTARTS, cuja forte credibilidade no mercado enriquecerá claramente o nosso evento! Uma grande equipa, com grande sentido estético, uma revista de comunicação visual de grande qualidade editorial, em que a imagem prevalece - sem dúvida a “cara” do nosso evento! Parabéns à equipa DIRECTARTS, continuem, gostamos que existam! Visitar o Chiado, um local único num momento especial, vislumbrá-lo cheio de imagens de 10 a 20 de Junho, é o convite que aqui deixamos! Closing my eyes I could almost imagine the store windows in Chiado, as a giant exhibition room, a Chiado filled with images, filled with photographs, photographs of Portuguese artists! A special moment… It is custom to say when one must choose amongst a variety of things, in this case, the arts, we tend to hesitate, but when the idea of doing something artistic with the historical buildings of Chiado and their beautiful store fronts – Photography was the first choice. Up to now it was easy. Besides all the work that the team faced and the fact that we had to present an unprecedented project to the shop owners, convincing them of all the benefits that can come from an initiative like this to their establishments, was by far the hardest task. But I must say, as a note, I never had a doubt in my mind that this exhibition would come together. With all that we achieved, we felt as if we had delivered something very, very good for our city and for photography in Portugal. Affection and the valuable kind words from supporters were the strength and the means that helped us achieve our goal. Putting together a photographic exhibition, with easy as possible public access was with out a doubt one of the main objectives of this event. Showing photographs in store windows throughout the city streets giving an opportunity to more photographers to show their work. We wanted this project to be accompanied by a publication that had the content that was exclusively related to the exhibition, and for this reason we chose DIRECTARTS, whose strong credibility in the market will surely enrich our event! A great team, with a great aesthetic sense, a magazine with great editorial quality, were image prevails – the face for our project without a doubt! Congratulations to the DIRECTARTS team, keep up the good work, we appreciate your presence! We invite you to visit Chiado, a unique special moment, filled with images from the 10th to the 20th of June! DirectArts_chiado.indd 5

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É designer, fotógrafo, criativo de qualquer uma das áreas que encontra na directarts?

Então temos uma proposta a fazer. Que tal uma visita ao nosso site para deixar comentários, opiniões ou críticas (nós aguentamos!). Está a dar os primeiros passos na profissão? Esperamos pelo portfólio. Somos uma revista que pretende divulgar os trabalhos dos leitores e talentos, os novos e os já estabelecidos.

Fórum

Contacte-nos em: www.directarts.com.pt ou info@directarts.com.pt

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Fotografia em debate na FNAC Chiado

A fotografia vai estar em debate em dois colóquios, na FNAC CHIADO, nos dias 11 e 17 de Junho, no âmbito do evento “O Chiado tem a Maior Exposição Fotográfica do Mundo”. O primeiro colóquio, “Direitos de Autor” é organizado pela APAF. A Associação Portuguesa de Arte Fotográfica foi criada em 1949 e conta, actualmente, com 600 associados fotógrafos amadores e profissionais. A APAF desenvolve várias formações e workshops nas áreas do fotojornalismo, moda, publicidade e edição. O segundo colóquio , “Fotojornalismo, que futuro?” é organizado pelos colectivos “Kameraphoto” e “4SEE”. A “Kameraphoto” foi fundada em 2003 por um grupo diversificado de fotógrafos com o objectivo de criar, em Portugal, uma estrutura que representasse o trabalho de freelancer. O colectivo, que conta actualmente com 13 membros, assume-se como um espaço agregador de diferentes visões e percepções do mundo e das suas diversas formas expressas através da fotografia. A “4SEE” foi criada, em 2004, por quatro fotógrafos e tem como objectivo promover a excelência no fotojornalismo apostando numa visão focada na construção de histórias e ensaios sobre temas sociais e humanos. Os 22 fotógrafos que representa são de várias nacionalidades, entre portugueses, espanhóis, israelitas e italianos. Nunca descurando a busca de novos talentos, os fotojornalistas da “4SEE” têm grande experiência nas áreas editoriais e empresariais. COLÓQUIO APAF: “DIREITOS DE AUTOR”, 11 JUNHO, 18H30 ORADORES: MARGARIDA ALMEIDA ROCHA E ANTÓNIO LOPES Num mundo onde a imagem fotográfica é usada de forma cada vez mais intensa e diversificada, torna-se fundamental proteger a imagem e o seu autor de utilizações abusivas ou inadequadas. Por isso o tema deste colóquio, “Direitos de Autor”, onde serão abordados quer os aspectos legais, quer morais, inerentes à fotografia, numa óptica de esclarecimento e de abordagem dos problemas mais frequentes vividos pelos fotógrafos, no que se inclui também o direito à imagem. Por isso também, será privilegiado o debate com o público com referências a casos concretos do dia a dia de um fotógrafo. COLÓQUIO “KAMERAPHTO” E “4SEE”: “Fotojornalismo, que futuro?” , 17 JUNHO, 19H00 ORADORES: KAMERAPHOTO - CÉU GUARDA E JOÃO PINA 4SEE - LUÍS FILIPE CATARINO, PETER PEREIRA, PEDRO GUIMARÃES Numa altura em que os Órgãos de Comunicação Social (OSC) apostam menos no fotojornalismo, este colóquio surge para debater o futuro do trabalho do fotógrafo enquanto repórter. O fotojornalismo tem custos acrescidos para as redacções. Mas será essa a única razão que leva os OCS a apostarem menos neste género nobre da reportagem? É umas das questões que o colóquio “Fotojornalismo, que futuro?” pretende debater.

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mensagens

Mensagem do Governador Civil Message from the Civil Governor António Galamba - Governador Civil de Lisboa / António Galamba - The Civil Governor of Lisbon

Uma imagem, um momento, um olhar, a garantia de memória. Diz-se que um Povo sem memória é um Povo sem futuro. Nas amnésias da vida ou nos esquecimentos da cidade, o Chiado sempre foi um espaço onde a tradição se enamorou da inovação, sem abdicar de ser fiel a ambas. A iniciativa “O Chiado tem a maior exposição fotográfica do Mundo” é um hino a essa memória, da qual o Governo Civil de Lisboa também faz parte. No Chiado desde 1835, após a extinção das ordens religiosas, num edifício do antigo Convento de São Francisco da Cidade, o Governo Civil, assistiu à instalação da Biblioteca Nacional nas galerias do Convento, a partir de 1836 e, nesse mesmo ano, terá começado a funcionar a Academia de Belas-Artes no primeiro piso do edifício. Em 1865, o quarteirão acolheu a Galeria Nacional de Pintura que, em 1911, deu origem ao Museu Nacional de Arte Contemporânea, hoje Museu do Chiado. No período liberal, a presença da Intendência Geral da Polícia e do Governo Civil, novas funcionalidades da Administração, terá contribuído para valorizar o eixo Chiado-Bairro Alto, corrigindo a centralidade histórico-urbanística de Lisboa (Rossio-Terreiro do Paço). Desde então, e apesar dos contratempos, o Chiado mantém-se como um território cosmopolita, de cultura, de comércio, que visualiza memórias, vive a luz única da cidade, sente um pulsar presente doutros tempos. E dessa memória da nossa história, em ano de centenário da implantação da República, emerge a figura do primeiro Governador Civil da I República, Francisco Eusébio Leão, ilustre referência do movimento republicano, que teve um papel fundamental na criação da Polícia e das corporações de bombeiros. Revisitar essas memórias ou dar expressão aos traços da identidade da cidade são exercícios de cidadania, de amor a Lisboa e de salvaguarda de um património comum. An image, a moment, a glance, the guarantee of a memory. It is said that a nation without memory is a nation without future. Within the amnesia of life or the forgetfulness of the city, Chiado has always been a space where tradition fell in love with innovation, remaining faithful to both. The project “O Chiado tem a maior exposição fotográfica do Mundo” is an anthem of that memory, in which the Civil Government also takes part. Since 1835, after the extinction of other religious orders, the National gallery was installed at one of the convents in Lisbon, São Francisco da Cidade (Saint Francis of the City), assisted by the Civil Government., The Fine Arts Academy began its activity on the first floor of the same building that same year. In 1865, the block welcomed the National Gallery that became the National Museum of Contemporary Art in 1911, and today, Museu do Chiado. Government, contributed to the appreciation and development of the Chiado-Bairro Alto axis, correcting the historic and urban centre of Lisbon (Rossio – Terreiro do Paço). Since then, and despite all the setbacks, Chiado remains a cosmopolitan centre, culturally and commercially. A focal point of the city, full of visual memories, where the pulse of times gone by can still be felt. It is from that memory of our history, on the year of the centennial of the implantation of our Republic that the first figure of the Civil Government emerges. Francisco Eusébio Leão, illustrious reference of the Republican Party, had a fundamental role in creating the Police and Fire fighting Departments. Revisiting these during the liberal period, the presence of the General Police stewardship and Civil memories or giving them value within the identity of the city is an exercise of citizenship, love for Lisbon and conservation of a common treasure.

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Mensagem do Presidente da Câmara Message from the Mayor António Costa - Presidente da Câmara Municipal de Lisboa / António Costa - The Mayor of Lisbon

A realização da iniciativa “O Chiado tem a maior exposição fotográfica do Mundo” revela-se mais uma excelente oportunidade para dinamizar esta zona da cidade  de Lisboa que tem vindo a captar cada vez mais pessoas para as suas ruas, mais habitantes para as suas casas e mais clientes para as suas lojas. De dia ou de noite o Chiado é um ponto incontornável de passagem e de paragem. Cultura, lazer, comércio e uma ambiência única são factores de atractividade que fazem desta colina de Lisboa um ponto alto na vida da cidade. Lisboetas e turistas têm o Chiado no coração. A Câmara Municipal de Lisboa ao apoiar esta exposição de fotografia, através do seu Arquivo Fotográfico contribui também para o necessário esforço de interligação que deve ser feito entre os agentes culturais e o comércio. Esta articulação é fundamental para dar outra vida ao Chiado, numa dinâmica que se pretende que seja contagiante para outras partes da cidade. Um comércio mais vivo significa mais segurança, mais emprego e ruas mais aprazíveis para as pessoas. Um comércio em permanente interligação com a vida cultural do Chiado, tradição que já existia no século XIX, que continuou no século XX e é nossa obrigação que se desenvolva ao longo do século XXI. The realization of “Chiado has the biggest photographic exposition in the world” reveals itself as one more, excellent opportunity to dynamise this part of Lisbon which has been enchanting more and more people to visit its streets, more inhabitants to live in its houses and more customers to buy in its shops. Day and night, Chiado is a place to stop or pass through. Culture, leisure, commerce and a unique atmosphere, are appealing facts that make this hill, the highest point in the life of the city. Chiado holds a place in the hearts of Lisbon residents and tourists alike. The Lisbon Municipality, (by supporting this photographic exposition through its Photographic Archive), is also contributing to the necessary effort of interlinking cultural and commercial elements. This articulation is fundamental to breathe new life into Chiado, in such a dynamic way that hopefully becomes contagious to other parts of the city. A more vivid commerce would mean more safety, more jobs and more pleasant roads for people. Commerce with a constant link to the cultural life in Chiado is a tradition existent since the 19th Century, which continued through the 20th Century and is our duty to maintain through the 21st Century. 

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Espaço Santa Casa: de todos para todos Espaço Santa Casa: from all to everyone. Texto por / Article by Elisabete Pato

Na Rua do Carmo, entre o corrupio de quem sobe e desce, culturas várias e artistas de rua, há um espaço que marca a diferença. Visto do lado de fora, quase se confunde com qualquer uma das lojas do Chiado. Mas é muito mais do que isso. Lá dentro, dos números 17 e 21, realizam-se workshops, exposições, rastreios de saúde e, aqui entra a parte comercial, venda de trabalhos da autoria dos utentes e colaboradores da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. É o Espaço Santa Casa. “O dinheiro reverte a favor do equipamento social onde os utentes estão inseridos para depois poderem fazer passeios e outras actividades. O Espaço Santa Casa faz parte de um processo de optimização de oportunidades culturais, sociais, pedagógicas, lúdicas e cívicas”, explica Luna Marques, a coordenadora. Logo à entrada, salta à vista uma decoração que mistura o moderno e o antigo. Vidro, madeira, velas, quadros, cadeiras… e móveis, que são fiéis aos traços do princípio e dos meados do século XX, daqueles que a arte moderna agora quer imitar. Este mobiliário representa o património que chega de heranças, legados e doações feitas à Santa Casa da Misericórdia. Um dos grandes objectivos do Espaço Santa Casa é educar sensibilidades. “Temos idosos com baixa escolaridade, e achamos que é importante alfabetizar as pessoas, não só de uma forma literária mas também cultural. Educar as sensibilidades faz com que as pessoas sejam melhores e se sintam melhor”, diz Luna Marques. E até existe uma actividade para divulgar novos talentos. “É uma actividade destinada a utentes e colaboradores da Misericórdia. Já temos tido exposições de quem não pertence à Misericórdia mas tem que haver uma mais-valia. Por exemplo, tivemos uma exposição da mãe de um colaborador e ela vai dar workshops gratuitos aos nossos utentes.” Ao fundo, há um estrado, em jeito de palco, com mesas brancas e cadeiras encarnadas para público. É um espaço próprio para cafés-concerto, lançamentos de livros ou conferências. Ao lado, estão umas escadas, largas, de madeira brilhante e em caracol, que dão acesso à cave. A cave junta, numa área ampla, uma autêntica galeria de arte, um bar e gabinetes. Há mais uma boa notícia: está aberto ao público em geral. Entre. Da rua não vai perceber a dimensão, física e solidária, do Espaço Santa Casa.

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At Carmo Street, between the dynamic of who goes up and down, different cultures and street performers, there is a place that is self evident. Seen from outside you can almost miss it as just another store from Chiado. It is far much more than that. Inside numbers 17 and 21, workshops, shows, health cares and commercial rallies take place, in collaboration with both the customers and the providers, as well as with the Santa Casa de Misericordia of Lisboa. It is the Espaço Santa Casa (“space of the holy home”). “The money goes to social equipment where customers are subscribed and are welcome to take part in the activities. This place is part of a process of optimization of cultural, social, and learning opportunities.” Explains Luna Marques, the coordinator. Right at the front entrance there is an eye catching decoration that mixes antique with modern. Glass, wood, candles, paintings, chairs… and furniture, that is contemporary to mid XXth century, like the ones that modern art tries to copy today. This furniture represents the heritage that arrives to this place, given to us by inheritance and legacy, donations that were made to the Santa Casa da Misericordia. One of the main goals of the Espaço Santa Casa is to educate the sense of people. “We have some elderly with very low knowledge and schooling, and we feel it is imperative to alphabetize people, not only in a literary way, but also culturally. Giving people a sense of things, educating them, makes them feel better about themselves.” Says Luna Marques. There is even a talent show. “It is destined for customers and collaborators of the Misericórdia. We have shown collections that have not belonged to the group but there has to be some kind of reward globally. For example, we had the mother of one of our collaborators that showed an exposition through us and she is now teaching a workshop for free for our subscribers.” At the end of the shop there is a platform that reminds us slightly of a small stage, surrounded with white tables each with red chairs around for the audience. It is a place for small concerts (caféconcertos), book launchings or conferences. At the side there are wide stairs, in shiny wood, curling down to the basement. Downstairs you can find a gallery, combined with a bar and offices. And there are better news: it will be open for all the public. Come on in. From outside you will not capture the size of the Espaço Santa Casa, both in a physical and solidary way.

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portfólio

Francisco Falcão Fotógrafo Photographer

Entrevista por / Interview by Elisabete Pato

É fotógrafo há mais de duas décadas. Já passou por várias redacções, estúdios e agências de publicidade. O desemprego fintou-o, mas não desiste, mesmo sem o equipamento mais moderno, Francisco Falcão continua pela fotografia à espera de uma oportunidade. Até lá conta com o apoio da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Por onde anda? Espreitem em olharesdefalcao.blogspot.com. Para já, um sonho: “criar um banco de imagens”. Tem 54 anos. Nasceu em Castelo Branco, mas Lisboa também é dele, desde o primeiro ano de idade.

He has been a photographer for over two decades. He has been through many printing rooms and marketing agencies. Unemployment has marked him but he has never given up, even if it means doing without the latest equipment available, Francisco Falcão, battles on with photography, waiting for his big break. Until then, he counts on the support of Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Where is he now? Take a peak at olharesdefalcao.blogspot.com. For now, a dream: creating an image bank. He is 54, was born in Castelo Branco but also considers the city of Lisbon his own since his first birthday.

É fotógrafo há mais de 20 anos. Qual é a sua experiência?

You have been a photographer for over two decades. What is your experience?

Comecei como autodidacta e fiz vários cursos. Já trabalhei com formatos desde o 13x18, 9x12, 6x7, 6x9, que hoje em dia já ninguém ouve falar, depois passei para o 35mm e agora estou no digital. Prefiro o digital porque é mais económico e mais fácil de trabalhar. Para comprar equipamento trabalhava em agências de publicidade. A determinada altura cansei-me porque tornou-se uma rotina. Trabalhei com alguns jornais como fotojornalista, mas foi uma fase curta porque não se ganhava dinheiro para as despesas e voltei para as agências. Um fotógrafo sem equipamento não evolui. Está desempregado.

Há algum tempo que estou desempregado por causa de uma série de incumprimentos do Estado para comigo.

Mas continua a tirar fotografias?

Quando tenho equipamento disponível. A falta de material impede-me de fazer trabalhos, de procurar ganhar dinheiro e de realizar projectos pessoais.

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I was self taught in the beginning and took a few courses. I have worked with numerous formats, such as, 13x18, 9x12, 6x7, 6x9, which is unheard of today; then I progressed to 35mm film and now digital. I prefer digital as it is less expensive and easier to work with. I worked for marketing agencies in order to be able to purchase equipment. Then at a certain point I’d had enough as it had become a routine. I also worked with some newspapers as a photojournalist, but only for a short time, what we earned was not enough to make ends meet and I returned to the agencies. A photographer without the proper equipment cannot evolve. You are unemployed.

I have been unemployed for some time now, mainly due to failings of the government. But you still take pictures?

When I have equipment available. The lack of materials keeps

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Há poucos dias expôs no Espaço Santa Casa, no Chiado?

A exposição “Fragmentos” foi um desafio de parte a parte, tanto da Santa Casa como meu, no sentido de procurar formas de voltar ao mercado. Estive em jornais de especialidade, alguns já nem existem, na área do espectáculo. No desemprego, tem apoio da Santa Casa da Misericórdia.

Graças à Santa Casa da Misericórdia realizei essa exposição. “Fragmentos” são imagens sem qualquer rigor. Há cerca de um ano que a Santa Casa me ajuda em muitas situações. Onde é que encontrou esses “Fragmentos”?

É preciso perder horas a andar a pé. Quando vamos à procura de um tema, muitas vezes a luz não está lá ou o ambiente não é apropriado, aparecem umas nuvens e estragam a ideia. Não vou à toa, já vou com uma ideia. Se estou perto do mar e há barcos, foco-me nesse tipo de objectos. O que é que gostaria de fazer?

Se pudesse escolher, gostaria de fazer coisas mais complicadas do que andar a correr atrás da notícia. Se neste momento tivesse oportunidade financeira apostaria num banco de imagens.

me from doing jobs, looking for ways to earn a living and accomplishing personal goals. A few days ago you showed at Espaço da Santa Casa, in Chiado?

The collection Fragmentos (fragments) was a challenge for both myself and Santa Casa, in the sense that we had to find ways to get back into the market. I searched for newspapers on the subject; entertainment and showbiz though many of them no longer exist. Unemployed, you have the support of Santa Casa da Misericordia?

Thanks to Santa Casa I was able to make this exhibition happen. Fragmentos are images with no stringencies whatsoever. Santa Casa has helped me over a year in many situations. Where did you find these Fragmentos?

You need to be prepared to walk for hours. When you go in search of a theme, a lot of the time the light or the environment are not suitable or clouds suddenly appear and ruin the moment. I never go without a purpose; I take an idea and carry it through. If I am near the sea for example and there are boats I focus on these objects.

Para vender o seu trabalho.

Sim. Estou a trabalhar em vários temas. Mais tarde, gostaria de alargar esse banco de imagens a outros fotógrafos. Um banco onde possamos registar e catalogar imagens e pô-las à venda. Em Portugal ainda não se tem hábito de se fazer trabalho sobre nós.

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What would you like to do?

If I could choose, I would like to work on more challenging and complex things rather than chase after the next headline. If I could afford it I would invest on an image bank.

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portfólio Já conheci pessoas que vêm de fora, estão cá algumas semanas, e vendem as nossas imagens. É um projecto que gostaria de pôr a funcionar. No próximo ano espero arrancar com o projecto. Depois, gostaria de trabalhar em alguma comunicação, embora tenha a noção de que será um bocado complicado porque hoje vive-se muito do trabalho dos estagiários. Vai expor uma fotografia no evento “O Chiado tem a maior exposição fotográfica do Mundo”.

Escolhi uma que se intitula “Caleidoscópio”. É a cara de um modelo, não profissional. A fotografia é montada em diversos ângulos, tem várias leituras. Uma mensagem que gostaria de deixar…

Um profissional nunca deve desistir de perseguir os seus sonhos e de pô-los em prática. Isso não só beneficia o próprio como o país. Quando surgem situações menos boas, devemos procurar quem nos possa ajudar, e nesse caso a Santa Casa tem um papel importantíssimo.

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To sell your work.

Yes. I am currently dabbling in a few fields. Later I would like to widen that bank to other photographers, a place where we can register and catalogue images to sell. In Portugal, we are still not accustomed to working for ourselves. I have met people that come from abroad, are here for a few weeks and sell our images better than we do. It is a project I would like to put to work. It would be great to see it up and running next year. Then possibly working in marketing, however I am quite aware that nowadays much of the work in this field relies on trainee exploitation. You will show at “Chiado has the world’s largest photographic exhibition”.

I have chosen a collection titled “Caleidoscópio” (kaleidoscope). It is the face of a non professional model. The face is shown in different angles and can be interpreted in many ways. A message you would like to leave us with…

A professional should never quit pursuing his dreams and put them to practice. Not only is it beneficial to one’s self but also one’s country. When less fortunate circumstances arise, one should seek help, and Santa Casa has played a big role in supporting me.

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POR NÓS, PARA NÓS É designer, fotógrafo, criativo de qualquer uma das áreas que encontra na DIRECTARTS? Então temos uma proposta a fazer. Que tal uma visita ao nosso fórum para deixar comentários , opiniões ou críticas ( nós aguentamos !). Está a dar os primeiros passos na profissão? Esperamos pelo portfólio. Somos uma revista que pretende

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Desejo assinar a directarts com um desconto especial de 25% sobre o preço de capa. PVP 1 ano (4 edições) €39.80. Assinatura apenas €29.85. assinaturas@directarts.com.pt

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Galeria Chiado Chiado Gallery Texto por / Article by Elisabete Pato

O Chiado tem tradição, culturas várias, velhos e novos, mendigos e doutores, música e buzinões. Tem o cheiro da poluição, do café. Tem cor e uma arquitectura única. Para si que nos lê, quantas interpretações faz do Chiado? A GALERIA CHIADO mostra-lhe interpretações visuais de alunos de algumas escolas técnicas de imagem de Lisboa, a ETIC, Escola Técnica de Imagem e Comunicação; o AR.Co, Centro de Arte e Comunicação Visual e o IADE, Instituto de Artes Visuais, Design e Marketing. Ora veja se são também as suas.

Chiado has the tradition, various cultures, old and new, homeless and professionals, music and car horns. It has the smell of the pollution and of rich coffee. It has colour and unique architecture. For you who read us, how many interpretations do you make of Chiado? The CHIADO GALLERY brings us visual interpretations from some of the tecnichal schools of Lisbon such as: ETIC, Escola Técnica de Imagem e Comunicação; o AR.Co, Centro de Arte e Comunicação Visual e o IADE, Instituto de Artes Visuais, Design e Marketing. See if they are your interpretations as well.

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“Não tenho ambições nem desejos Ser poeta não é uma ambição minha É a minha maneira de estar sozinho” “I have no ambitions nor desires. To be a poet is not my ambition, It’s simply my way of being alone” Fernando Pessoa

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“Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo” “I am nothing. I will never be anything. I cannot wish to be anything. Bar that, I have in me all the dreams of the world” Fernando Pessoa 10

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“O poeta é um fingidor Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente” “The poet is a faker Who's so good at his act He even fakes the pain Of pain he feels in fact”

01 + 18) Rita Valério Duarte - epi_ 2º ano / 2º Year. 02 + 09) Francisco Rocha - epi_ 2º ano / 2º Year. 03 + 05 + 12 +19) Carla Carvalho - epi_ 3º ano / 3º Year. 04 + 13 + 20 +22) Andreia Andrade - ar.co - nível 2 / Level 2. 06 + 17) Maria Lopes - ar.co - nível 2 / Level 2. 07 + 15) Mariana Casanovas - epi_ 2º ano / 2º Year. 08) Margarida Capeto - epi_ 2º ano / 2º Year. 10) Mafalda Castanheira - epi_ 2º ano / 2º Year. 11) Cinthya Cruz - epi_ 2º ano / 2º Year. 14) Elsa Rodrigues - epi_ 2º ano / 2º Year. 16) Denilson Garcia Figueiredo - IADE. 21) Vlad Sokhin - IADE.

Fernando Pessoa

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portfólio

Joshua Benoliel

1873-1932 Repórter Fotográfico 1873-1932 Photojournalist Biografia por / Biography by Emília Tavares

Na história da fotografia portuguesa, Joshua Benoliel ficaria conhecido pela limitada metáfora de rei dos fotógrafos e fotógrafo de reis. Mas numa época que se confronta com a persistência dos valores do passado e com as rupturas do início da Modernidade, o seu trabalho fotográfico afirma-se na construção da nova linguagem jornalística visual, e no significado que essa produção teve do ponto de vista cultural, social e político para a sociedade de início do século XX.

In Portuguese history of photography, Joshua Benoliel was to be remembered by a limited metaphor: the king of photographers and the photographer of kings. In a time that was faced with the persistence of the past and the rupture with emerging Modernism, his work was acclaimed within a new visual report vocabulary, and its significance from society’s point of view, culturally and politically, in the beginning of the 20th century.

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O trabalho de Benoliel é, ao mesmo tempo, construção e reflexo de uma nova sociedade marcada pela reformulação dos seus valores comunicacionais, em que a notícia através da imagem impera. A foto-reportagem pode ser incluída na linguagem de modernidade de que se reveste o início do século XX, e Joshua Benoliel, representa de forma exemplar o papel fundamental que o foto-repórter terá no desenvolvimento de novos modelos de comunicação de massas, que tiveram em Portugal uma dinâmica semelhante aos exemplos internacionais. As imagens que este novo tipo de jornalismo produziu são o reflexo de uma nova relação visual na sociedade de 1900, em que a cultura urbana, com todos os elementos a ela associados (comércio, transportes, lazer, movimento, luz, trânsito, arredores, favorecidos, desfavorecidos, vistas gerais, pormenores, lapsos de tempo, revoluções, homenagens, escala humana, signos), participou de forma imbricada e determinante. Benoliel é um fotógrafo deste novo conceito universal de princípio de século – a urbanidade – onde o cidadão comum está na fotografia, construindo-se deste modo o primeiro indício de memória colectiva, na qual esse cidadão revê também a sua memória privada, o seu microcosmos de acontecimento. O fotógrafo persegue tanto quanto é perseguido; por isso, estes primeiros instantâneos, ou instantes primeiros, são momentos de inclusão, não são captações em sentido estrito, são abrangências de um novo modo de estar, de se ver reflexo, expondo-se.

Benoliel’s work took part and mirrored a new society that had reformed its communication values, in which news, through image, ruled. Photojournalism may well have been understood as a modernistic language that covered all of the 20th century. Joshua Benoliel was a fundamental role model for a photojournalist then, helping to develop the new ways of communicating to the masses, in Portugal and internationally. The images produced by this new kind of journalism were the product of a new visual relevance in 1900 society, where urban culture took part in a profound, fundamental way, in areas of: commerce, public transport, leisure, movement, light, surroundings, the disadvantaged, overlooks, details, time lapses, revolutions, tributes, human scale, signs. Benoliel was the photographer for this new universal concept from the beginning of the century – urbanity – where the commoner is in the shot, building the first trail of collective memory, in which that common citizen can portray his private memory, his own microcosmic moment. The photographer searches as much as he is sought, for this, the first moments are of inclusion, not actual report in the true sense of the word; they were a new range of mirroring oneself and of exposure. This photographer’s leading role in the national press until the end of the 1st World War is unquestionable, not only for his amount of work but also for its international acknowledgement,

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01) Semana Santa, após as cerimónias religiosas – 1907 – Holy Week, after the religious ceremonies 1907. 02) Semana Santa, senhoras após as cerimónias religiosas – 1907 - Holy Week, ladies after the religious ceremonies 1907. 03) Semana Santa, próximo da Igreja da Encarnação - 1907 - Holy Week, near the Church of the Re-Encarnation 1907. 04 ) Semana Santa - 1907 – Holy Week 1907. 05 + 07) Semana Santa, à saída da Igreja do Loreto - 1907 - Holy Week, leaving the Church of Loreto1907. 06) Semana Santa em frente à igreja dos Mártires - 1907 – Holy Week, front of the Church of the Martyrs 1907. 08) Visita às igrejas durante a Semana Santa - 1912 – Visits to the churches during Holy Week 1912. 09) Largo do Chiado na Semana Santa - 1912 – Chiado Square during Holy Week 1912. 10) Semana Santa, movimento dos fiéis - 1907 – Holy Week, strolling of the faithful 1907.

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O protagonismo com que Benoliel dominou toda a imprensa ilustrada nacional até ao final da I Guerra Mundial é incontornável, não só pelo volume de trabalho que lhe foi consignado como pela internacionalização do mesmo, ao destacar-se como um dos primeiros correspondentes de foto-reportagem das mais prestigiadas e lidas revistas europeias. O seu percurso profissional é um inestimável e surpreendente contributo para a compreensão, não só da fotografia de reportagem, como da cultura visual que se desenha nas duas primeiras décadas do século XX. Toda a produção fotográfica de Benoliel necessita dessa reintegração num espaço de análise lato e entrecruzado que, retomando o discurso pragmático e objectivo da imagem, consiga articulá-lo com as condições de edição e divulgação a que este foi sujeito, e em que domínio social, político, artístico e estético tal tarefa foi configurada. A sua obra fotográfica é o início de uma narrativa cujos significados têm de ser entendidos numa dimensão axial e não reduzidos a uma personificação mítica. O modo como Benoliel fotografou o seu tempo, pertence-lhe e transcende-o; no equilíbrio destas duas vertentes está o entendimento e o contributo para mais um capítulo da fotografia portuguesa e internacional.

Arquivo Fotográfico de Lisboa A colecção do Arquivo Municipal de Lisboa / Arquivo Fotográfico possui cerca de 650.000 imagens (provas e negativos), das quais cerca de 100.000 estão informatizadas e disponíveis na Internet. A colecção tem um valor documental e patrimonial único para a história de Lisboa, nos seus aspectos urbanísticos, arquitectónicos, sociais, políticos e culturais, e ainda para a história da fotografia em Portugal, pelos fotógrafos e processos fotográficos representados desde 1850 até à actualidade.

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having been highlighted by one of the most prestigious magazines in all of Europe. His personal path is priceless and fascinating for better understanding photojournalism and also the whole visual culture throughout the 20th century’s first two decades. Benoliel’s work needs a proper reintegration, a specific space and time context in order to fully understand the commitment of his work and the purpose of his images, combining it with the developing techniques used and the conditions available for editing, as well as the whole social, aesthetic and political domain in which it was published, and the configuration of the task given the allocation. His photographic work is the beginning of a story that needs to be understood on an axial basis rather than on a mythical personification. The way Benoliel photographed his time belongs to him and is at the same time beyond him; and in the balance of these two, is the understanding and the contribution for yet another chapter of Portuguese and international photography.

The Lisbon Photographic Arquive The photographic collection of the Lisbon’s Municipal Archive has over 650,000 images (prints and negatives) of which over 100,000 are digitalized and available online. This collection has a unique documental and patrimonial value for the history and city of Lisbon, relating to its’ urbanism, architecture, social, political and cultural aspects. As well as its’ importance for the general history of photography in Portugal, regarding all the photographers and photographic processes represented from 1850 until today.

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portfólio

Carlos Relvas

Um homem à frente do seu tempo A man ahead of his time Texto por / Article by Elisabete Pato

Criativo, explorador, inventor, saltou fronteiras para atingir um fim: superar-se e reinventar-se enquanto artista. Foi o primeiro fotógrafo amador em Portugal.

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Creative, explorer and inventor, he crossed boundaries to reach his goal: to outdo and reinvent himself as an artist. He was the first amateur photographer in Portugal.

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Carlos Relvas, nome grande da fotografia do Portugal de meados do século XIX, não era só um homem bom para as gentes locais da Golegã, era um artista maior. Um experimentalista e um criador. Apaixonado pelas mais variadas actividades, a todas se dedicou com distinção, mas uma delas sobrepôs-se: a fotografia. Carlos Augusto Mascarenhas Relvas de Campos nasceu na Golegã em Novembro de 1838. A força do dinheiro da sua família abastada (o pai era o maior proprietário do Ribatejo), o ser Fidalgo da Casa Real ou até comendador não o levaram a encostar-se ao seu “reino”. Inventou um aparelho de focagens, aplicou a fotografia estereoscópica e trouxe para Portugal, em 1875, o método da fototipia (processo de

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Carlos Relvas, a great name in Portugal for photography in the mid 19th century, not only was he a great man towards the locals of Covilha but an even greater artist. An experimentalist and creator, he was passionate about the most diverse activities, to which he dedicated himself with distinction, but one of them stood above the rest: photography. Carlos Augusto Mascarenhas Relvas de Campos was born in Golegã in November 1838. Although from a wealthy background (his father one of the main proprietor’s of Ribatejo) neither this nor the fact of being a nobleman made him lean on his fortune. He invented a focusing devise, applied stereoscopic photography and brought to Portugal, in 1875, the phototipia method (photographic

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reprodução fotográfica). Desde as gentes do campo e mendigos até à aristocracia, fotografou toda a sociedade portuguesa, é considerado um grande retratista. Relvas fotografou também monumentos e paisagens. E são alguns desses trabalhos que agora se mostram na exposição “Históricos”, na Livraria Ferin, na Rua Nova do Almada, ao Chiado: o Mosteiro do Jerónimos, a original Casa-Estúdio e retratos de Mariana, a sua segunda mulher. Andou pelos principais ateliers da Europa, investiu nos mais caros acessórios e máquinas e criou, na Golegã, o primeiro atelier de fotografia construído de raiz em Portugal, actual Casa-Estúdio Carlos Relvas, de arquitectura romântica. Lá fora, foi distinguido com vários prémios na Europa e nos Estados Unidos. As suas fotografias distinguiam-se pelo seu “olho clínico” na escolha da pose, da luz e da nitidez. Além de fotógrafo, Relvas foi também político, agricultor, criador de cavalos e músico. Morreu a 23 de Janeiro de 1894, aos 66 anos, após um acidente de cavalo na Golegã.

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reproduction). From peasants and beggars to aristocrats, he photographed all Portuguese society and is considered a great portraitist. Relvas also captured monuments and landscapes, and it is some of these photographs which are shown at the Historicos exhibition, at the Ferrin bookstore, on Rua Nova do Almada in Chiado: the Jerónimos’ Monastery, the original study and portraits of Mariana, his second wife. He was passed through all the main European ateliers, gathering and investing on the most expensive accessories and built, in Golegã, the first photography atelier in Portugal. Currently known as; Casa Estúdio Carlos Relvas, a romantic style construction. Abroad, he was awarded many prizes, both in Europe and in the United States. His pictures are easily recognized by his clinical eye with the choice of poise, light and clearness. Besides photographer, Relvas was also a politician, farmer, horse breeder and musician. He died on January 23rd 1894, at the age of 66 after a horse accident in Golegã.

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Gérard Castello-Lopes Fotógrafo Documentalista Documentary Photographer Biografia por / Biography by David Castello-Lopes *• Tradução de Francês para Português por / Translation from French to Portuguese Pedro Tamen

Gérard Castello-Lopes nasceu em Vichy em 1925 e começou em meados dos anos cinquenta a fazer fotografias como um hobby, de início indissociável da sua prática do mergulho submarino. Preocupado com a pobreza reinante no Portugal de Salazar, fotografa à maneira de Henri Cartier-Bresson e dos grandes fotógrafos humanistas que nessa época floresciam na Europa. Depois de dez anos de interrupção, regressa à fotografia em 1982, a conselho de António Sena da Silva, que nesse ano organiza uma pequena retrospectiva das suas imagens. A sua fotografia torna-se então menos humanista e mais plástica. Eu sou o seu filho mais novo, nascido em 1981, e desde sempre contemplei as suas imagens com admiração.

Gérard Castello Lopes was born in Vichy in 1925, in the mid 50’s he started photographing as a hobby, due to his inseparable passion for diving. Concerned with the poverty in Portugal under Salazar’s dictatorship, he shoots in a Henri CartierBresson manner, like other great humanists and photographers that flourished throughout Europe at that time. After a ten year break, he returns in 1982, advised by Antonio Sena da Silva who in that same year develops a small retrospective of his images. His photography migrates from the humanistic to the more plastic. I am his youngest son; born in 1982, and ever since I can remember I have always admired his images.

* Filho de Gérard Castello-Lopes. Son of Gérard Castello-Lopes.

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Arco do Carvalhão, Lisboa, 1956

Aquela coluna de figuras que desfila sem consciência de si mesma é uma obra-prima do «instante decisivo», conceito cujo significado o meu pai descobrira através da obra de Henri Cartier-Bresson. Tal como ele, o meu pai soube encontrar e pôr em evidência na onda por natureza ininterrupta da realidade um «acontecimento plástico» que só a fotografia podia transmitir.

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Arco do Carvalhão, Lisbon, 1956.

That column of figures that parades unconscious of itself is a masterpiece of the decisive moment, discovered by my father through Henri Cartier-Bresson’s work. Like him, my father knew how to expose and demonstrate infinitely a plastic moment, a moment that only a photograph could capture.

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Pedra. Cascais, 1987

O meu pai repetiu muitas vezes que, no seu segundo período de fotógrafo se dedicara a «revelar o paradoxo das aparências», paradoxo esse que considerava particularmente evidente nesta fotografia. Nunca compreendi verdadeiramente o que ele queria dizer com isto. Em contrapartida, muitas imagens do seu segundo período – e em especial esta – revelam, em meu entender, o paradoxo da fotografia: valendo-se do carácter mecânico do registo da luz, que confere às imagens o selo da verdade, a fotografia tem na realidade o poder de trair suavemente a confiança que inspira. O objecto principal desta fotografia, tirada em Cascais em 1987, é uma realidade objectiva: um rochedo que emerge do mar. A impressão que transmite é, em última análise, uma total mentira: três mil toneladas de pedra que flutuam sobre a água.

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Pedra, Cascais, 1987.

My father repeated many times that it was in this second period of his work that he had dedicated himself more to revealing the “paradox of appearances”, which he considered quite apparent in this picture. I never really understood completely what he meant. On the other hand, many of his second period images – specially this one – reveal, in my opinion, the paradox of photography itself: their worth lies in the technique of capturing the light and mechanical proficiency, but there also lies the truth in the image, the picture has the power of subtly betraying the confidence it inspires. The object portrayed, shot in Cascais is an objective reality: a rock emerging from the sea. The reading of it is however, a complete lie: three thousand tons of rock floating on water.

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Oleado, Paris, 1989.

Oleado. Paris, 1989.

Estamos aqui muito longe da fotografia do Arco do Carvalhão e do seu acontecimento plástico imobilizado pelo fotógrafo. Um segundo ou mesmo uma hora a mais ou a menos, e esta fotografia teria sido, a olho nu, rigorosamente a mesma. Considero-a, porém, uma das quinze ou vinte melhores fotografias do meu pai. A parte superior assemelha-se a uma pele doente e como que feita pergaminho, salpicada de minúsculas verrugas negras. É repugnante, inquietante e ininteligível. Tão repugnante, inquietante e ininteligível que, por instantes perdidos naquela superfície seca e fétida, reencontramos jubilosamente a matéria evidente e familiar daquela cobertura de plástico cujos reflexos crus muito bem nos levam a imaginar o que sentiríamos se nela passássemos a mão.

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This is very distant from Arco do Carvalhão and its immobilized plasticity captured by the photographer. This picture would have been the same if taken an hour before or even after; however, I consider it to be one of my father’s best photographs. The upper part resembles damaged skin, wrinkled as if made of parchment, sprinkled with small dark moles. It is repulsive, disquieting and clear. So repugnant, that for an instant, lost within that surface, we rejoicingly find the evident substance of that familiar plastic covering, whose reflexions lead us to imagine what we would feel if we were to stroke it with our bare hand.

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Verdun, 2000.

Toda a força desta fotografia reside no facto – estreitamente ligado ao volume tranquilo do tronco cortado e à pureza daquela sombra improvável cuja natureza vegetal apenas nos é recordada por um ramo que sobra pela esquerda – de demorarmos um momento até repararmos nas cruzes. A grande quantidade delas surge então discretamente, cobrindo o tronco cortado e a sombra do arbusto com uma espécie de absurdo não desprovido de humor.

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Verdun, 2000.

All the power of this picture lies on the fact – strictly connected to the ease of the volume of the cut tree trunk and of the improbable purity of the shadow cast on the only sign of vegetation, a possible branch coming from the left. The great amount of crosses, surfaces discreetly, covering the trunk and the shadow of a shrub, like a sort of humoristic nonsense.

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Carlos Gil

Um guerrilheiro de instantes e palavras A warrior of words and moments Biografia por / Biography by Daniel Gil *

Carlos Gil foi talvez um dos últimos grandes fotojornalistas analógicos e um repórter para além da sua técnica fotográfica, consciente da cultura dos povos e de um caminho que procurava para si e para os homens que descrevia. Pois escrevia, e juntava assim as duas armas que accionava.

Carlos Gil was perhaps one of the greatest photojournalists and a reporter beyond his photographic technique, conscious of the culture of nations and of the path he sought for himself, as well as for the men he described. He wrote, and thusly combined both his weapon

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O princípio dos anos 60 levam-no a interromper a frequência do curso de Direito da Faculdade de Direito de Lisboa, antes ainda iniciado em Coimbra, para cumprir o serviço militar em Timor Lorosae, lugar que sempre considerou místico no percurso de vida e onde começou a recolher os seus primeiros instantes, que lhe dispararam o interesse pela fotografia. De regresso a Lisboa, terra que viria a adoptar, pois nascera e passara a juventude na raia beirã em Figueira de Castelo Rodrigo, troca a frequência no 4º ano das Leis e inicia a sua carreira no jornal A Capital, primeiro como repórter e mais tarde como fotojornalista. Os anos 70 encontram-no na revista Flama e o 25 de Abril na rua, logo pela madrugada, tornando-se um dos fotógrafos da revolução dos cravos e uma testemunha privilegiada, tomando o seu partido, contra a ditadura, pela liberdade. A partir da segunda metade da década de 70, Carlos Gil que falava Francês e Castelhano fluentemente, dedicou muito da sua actividade jornalística (texto e imagem) a países onde existiram ou existem conflitos armados e conflitos de guerrilha: Como enviado especial cobriu acontecimentos em Angola, Moçambique, Sara Ocidental, Curdistão, Beirute, Iraque, Panamá, El Salvador, Cuba, Costa Rica, Guatemala, Nicarágua, Líbia, Jordânia, Albânia, China, Argentina, Uruguai, México, Argélia, Marrocos...

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In the early 60s he was led to take a break of Law school in Lisbon, before Coimbra’s appeared, to compel his military duty at Timor Lorosae, where he had always considered mystical and where he first started capturing moments that triggered his interest for photography. Back in Lisbon, which he adopted as his own, since he was born and raised in Figueira de Castelo Rodrigo, up north, he exchanges his 4th year in Law school and starts his career at the A Capital newspaper, first as a reporter, and later as a photojournalist. The 70s found him at the Flama magazine, and the 25th of April in the street, at the break of dawn, making him one of the photographers of the Revolution of the carnations and as a privileged witness, taking his side, against the dictatorship, and for freedom. From the second half of the 70’s decade, Carlos Gil, who spoke French and Spanish fluently, dedicated most of his activity to countries where there were conflict or consequence of it. As a special reporter, he covered stories in Angola, Mozambique, West Sahara, Kurdistan, Beirut, Iraq, Panama, Salvador, Cuba, Costa Rica, Guatemala, Nicaragua, Libya, Jordan, Albania, China, Argentina, Uruguay, Mexico, Argelia, Morocco…

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portfólio Foi a experiência profissional de Carlos Gil como jornalista freelancer que conduziu a que os estatutos do Sindicato dos Jornalistas, do qual era sócio, viessem a reconhecer pela primeira vez essa categoria profissional no panorama do jornalismo português. Carlos Gil foi editor fotográfico das revistas Mais entre 1983 e 1985, Sábado, Quatro Estações, Homem, Elan, Guia, e Tempo-Livre, da qual foi editor fotográfico entre 1990 e 2001, ano da sua morte. Colaborou em diversas revistas e jornais da imprensa portuguesa e estrangeira. Publicou livros, expos os seus trabalhos fotográficos e ganhou prémios, dos quais se destacam o prémio Gazeta de Jornalismo, melhor fotografia do ano em 1984 com uma foto de Otelo na prisão de Caxias. Carlos Gil ainda teve tempo de partilhar a sua experiência profissional, ao colaborar com o Centro Protocolar de Formação de Jornalistas, CENJOR, na formação profissional de jornalistas e candidatos a jornalistas, nas áreas de Fotojornalismo e Reportagem. Dizia Carlos Gil, que um jornalista “não devia ser uma folha em branco dos dois lados, tinha de se definir!”, pois o seu trabalho de fotojornalista não era de agência, de simples criação artística ou estética mercantil, não era para esse efeito que se movia e atravessava as zonas de conflito e de desigualdade mais prementes da geopolítica mundial. Descreveu lutas, territórios e acima de tudo as suas gentes, em mais de 200 mil fotogramas, hoje depositados na Fundação Mário Soares, em grande parte ainda por desvendar e trazer a estampa dos nossos dias. Deixou centenas de reportagens, perdidas em hemerotecas sem gente e em livros descontinuados presentemente, numa era digital em que a fotografia se tornou no seu conteúdo mais produzido.

It was his professional experience as a freelancer that provided the status of such a category within the syndicate of Journalists, to which he belonged, for the first time in Portuguese journalism history, Carlos Gil was an editor for Mais magazines, between 1983 and 1985, as well as Sábado, Quatro Estações, Homem, Elan, Guia and Tempo Livre, to which he was photographic editor from 1990 to 2001, year of his death. He collaborated in many magazines and newspapers both for national and international press. Published books, expositions with his photographic work and won awards, being the most important the Gazeta do jornalismo award for best picture in 1984, with a photography of Otelo In Caxias’ prison. Carlos Gil still had the time to share his experience while collaborating with the Centre for teaching young journalists (CENJOR), in the making of new reporters and candidates, in the fields of journalism and photojournalism. He would say: “A journalist should never be a white sheet on both sides, he/she had to be defined!”, his work was not only of agency, of simple creation and artistic aesthetic for a specific market, it was not for that effect that he crossed around the world through conflict and inequality of our most pressing world geopolitics. He described us struggles, territories, and above all the people of those nations, in over 200 fotograms, kept today at the Mário Soares Foundation, many still to unveil and reveal to our time. He left us hundreds of stories, lost in depopulated archives and in discontinued issues of books, at a digital era where photography has become one of its most produced contents.

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01) Angola - 1986. 02) Bagdad, Iraque – Bagdad, Iraq 1984. 02 - 03) Guerrilheiros, El Salvados – Guerillia soldiers, El Salva. 04 ) Curdistão iraquiano - Kurdistan, Iraq 1974. 05) Iraque – Iraq 1991. 06) Refugiados palestinianos em Chatila, Líbano – Palestinian refugees, Chatila, Lebanon 1974. 06 - 07) Mercado em Marraqueche, Marrocos – Marrakesh market, Morocco 1974. 08) Marrocos – Morocco1975. * Daniel Gil (Fotojornalista e diretor da revista raiana multilingue CONTRABANDO), filho de Carlos Gil. Daniel Gil (Photojournalist and director of the multilingual borderland magazine CONTRABANDO), Son of Carlos Gil.

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José Fabião “Cenas” “Scenes”

Entrevista por / Interview by Elisabete Pato

José Fabião sopra 60 velas este ano e tem 40 anos de profissão, muitos passou-os a registar artes e espectáculos. Nas galerias pombalinas da Rua do Carmo, no Chiado, expõe “Cenas”, oito fotografias sobre dança que reproduzem “o belo, o plástico, a mobilidade”. Quis ser médico, mas um desafiante trabalho na Secretaria de Estado da Cultura fez com que deixasse de lado o curso. É coordenador do curso de fotografia da ETIC, desde que a escola abriu portas há duas décadas.

José Fabião has 40 years on the job, many of those years were spent capturing the arts and entertainment. On Rua do Carmo, in Chiado, he displays eight pictures “Scenes” about dance that represent “beauty, plasticity, and movement”. He first wanted to be a Physician, but a challenging job at the Secretary of Culture forced him to put the course aside. This year he celebrates his 60th anniversary. He has been the coordinator for the photography course at ETIC school since it opened two decades ago.

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A sua actividade enquanto fotógrafo está muito ligada a expressões artísticas. E são algumas dessas imagens que expõe, na Rua do Carmo, no evento “O Chiado tem a Maior Exposição Fotográfica do Mundo”.

Your activity as a photographer is very much connected to artistic projects. Some of those images are the ones you will be showing at Rua do Carmo for “Chiado has the world’s largets photographic exhibition”.

São situações de ensaio…

They’re rehearsals…

São oito fotografias sobre dança. Seis a cores, quatro com pessoas, individualmente, e duas com pares. E há outras duas fotografias a preto e branco, horizontais, com grandes planos de caras de bailarinos. São montras altas, é importante que as imagens sejam o mais simples possível, até porque estão relativamente altas em relação à rua. Situações de ensaio na Culturgest, no Centro Cultural em Torres Vedras, na Fundação Gulbenkian, entre outros locais. E o que procurava mostrar com esse trabalho?

Nos espectáculos a fotografia era um elemento de suporte ou de complemento, trabalhávamos com projecções de slides, inclusivamente há imagens fabricadas à mão, nem sequer usava máquina fotográfica, utilizava película, colagens, e outras eram imagens que para mim eram coisas reais. Aliás, não se consegue fotografar algo quando não se percebe o que lá está.. Quando fazemos ou olhamos para uma fotografia vemos o que lá está, e depois há pessoas que vêem mais coisas. Deixo para os outros a interpretação do que querem ver nas imagens.

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There are eight images of dance; six photos in colour, four of individual dancers, and two of couples. And there are two more horizontal photos in black and white, close up shots of the dancer’s faces. The shop windows are quite tall, so it is important that the images are as simple as possible, especially as they are so high in relation to the street.

Rehearsals at the Culturgest, Centro Cultural in Torres Vedras, Gulbenkian Foundation among others. What did you hope to show with this work?

For stage performances, photography was an element that supported or complimented. We worked with slide projections, even handmade imaging, at times we did not even use a camera, just film and collages, and other pictures that were real only to me. You can never really shoot something that you do not understand what it is. When you look at a picture, you see what is there, than there are people who see beyond that. I leave it to others to interpret what they wish to see in the images.

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portfólio E quando fotografa Dança?

And when you photograph dance?

De que forma é que esse trabalho, entre variadas artes, se enquadra no seu objectivo profissional?

How does this work, in a variety of arts, fit into your professional objectives?

Tento fotografar o belo, o plástico, a mobilidade. Aquilo que as pessoas vêem é uma pessoa mais ou menos torcida ou direitinha, e depois acabam por tirar várias leituras.

Durante um determinado período era solicitado por coreógrafos para fazer trabalhos de reportagem. Começou por ser uma espécie de encomenda profissional, mas depois misturou-se um certo prazer de fotografar corpos a mexer, que é uma coisa absolutamente extraordinária, para quem gosta, claro.

I try to shoot the beautiful, the plasticity and the movement. What people see is of someone a little twisted and blurred, and then they end up reading the image in various ways.

For a certain amount of time I was solicited by choreographers to document dance. It started as kind of professional photo sessions, but then it got blended with the pleasure of photographing moving bodies, which is an absolutely extraordinary experience, for those who enjoy it of course.

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01) “Diaspositivos” - Transparencies. 02) Chefchaouen. 03) “Néon”. 04 ) Rock n Roll. 05) Peru.

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Tem 40 anos de profissão. Que percurso tem traçado…

O meu percurso é bastante irregular. Faço fotografia desde os 12 anos de idade. Tudo começou por ver o meu avô a fotografar. Nunca foi minha intenção ser fotógrafo profissional, mas a fotografia andou sempre à volta da minha vida. Em 1975, tinha 26 anos, depois de viver fora de Portugal, foi-me proposto um trabalho como fotógrafo naquilo que seria o início da Secretaria de Estado da Cultura. Na altura não tinha profissão, não estava ocupado. Queria ser médico, estudei fisioterapia na Holanda, mas essa especialidade era muito cara em Alcoitão e quando voltei para Portugal não queria pedir dinheiro aos meus pais. Por isso, aceitei esse trabalho como fotógrafo. Trabalhei de 1976 a 1992 na Secretaria de Estado da Cultura, até acabar a Direcção Geral de Acção Social. Foi extraordinário porque conheci pessoas ligadas ao teatro, à pintura, à escultura e à dança.

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You’ve had 40 years on the job. Which path have you taken…

My trek has been quite bumpy. I have been into photography since I was 12 years old. It all started when I first saw my grandfather taking pictures. It was never my intention to become a professional photographer but it has always been around in my life. In 1975, when I was 26, after I had lived abroad, I was given the chance of working as a photographer for the government for what would be the creation of the Secretary of Culture. At that time I did not have a profession and wasn’t doing much. I wanted to be a medical physician, I had studied physiotherapy in Holland, but when I returned to Portugal that specific course in medicine was far too expensive in Alcoitão and I didn’t want to ask my parents for the money. So I accepted the job as a photographer. I worked at the Secretary of Culture from 1976 to 1992, until the department of the General board for Social Action closed. It was an extraordinary experience because it allowed me to meet people involved with theatre, painting, sculpture and dance.

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António Pedro Ferreira O Médico/Fotógrafo The Doctor/ Photographer Entrevista por / Interview by Elisabete Pato

Nasceu em Lisboa há 52 anos. Foi o primeiro fotojornalista português a entrar num campo de refugiados somalis, na Etiópia. Mas viajou e fotografou muito mais. Timor, Angola, Macau ou Iraque são alguns dos territórios que explorou com uma máquina fotográfica. António Pedro Ferreira trabalhou de perto com profissionais da agência Magnum. Tem em mãos o prémio Gazeta de Jornalismo e o do Clube Português de Imprensa. Na individual “Muitas Cores”, no Espaço Santa Casa, mostra trabalhos inéditos sobre deficientes profundos. É, também médico, mas só porque, na altura, o curso de Arquitectura fechou.

He was born in Lisbon 52 years ago and was the first Portuguese photojournalist to ever enter a Somali refugee camp, in Ethiopia. Since then he has travelled and photographed much more. Timor, Angola, Macau and Iraq are some of the destinations he has explored with his camera. António Pedro Ferreira have worked with the Magnum professional agency. He has been awarded the Gazeta prize for Journalism as well as the Portuguese Press Club award. He is currently showing “Many Colours”, at the Espaço da Santa Casa, an unseen collection on the severely disabled. He is also a medical physician, but only because at the beginning of his academic life, the Architecture college had closed.

Médico/fotógrafo?

Doctor-Photographer?

Aos 10 anos peguei pela primeira vez numa máquina fotográfica. Depois, percebi que aquilo poderia ser uma profissão porque via as reportagens no “Século Ilustrado”, havia pessoas que faziam só aquilo. Lembro-me do Eduardo Gageiro, era absolutamente extraordinário. Foram as fotografias dele que me despertaram para o poder da imagem. E fui fazendo fotografia como amador. E a publicar na imprensa?

A primeira fotografia que publiquei foi no “Diário Popular” em 1975. Era de uma visita de alunos do liceu do meu irmão a uma 60

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I first picked up a camera when I was 10 years old. I then realised this could actually be a proper job when I saw the photo reports in the Século Ilustrado (illustrated periodical), there were people who just did that. I remember Eduardo Gageiro as being absolutely extraordinary. It was his work that first awoke me to the power of the image. Then I started shooting as an amateur. And publishing in the press?

My first published photography was for the Diário Popular in

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cooperativa agrícola. E colaborei com uma revista de música, a partir de 1978.

1975. It was about my brother’s high school visit to a farming collective. After that I collaborated with a music magazine from 1978.

E a estudar…

Sempre a estudar. Era bom estar na “Música & Som” porque ia aos concertos de graça.

While studying…

Always studying. It was nice photographing for Musica & Som on account of all the free concerts.

Mas como é apareceu a Medicina?

Queria ir para Arquitectura, mas o curso fechou no 25 de Abril, também achava graça a Medicina e o curso abriu primeiro. [risos]

How did you come across medicine?

I really wanted to study architecture, but the school closed down after the 25th of April revolution. I was also fond of medicine, and that school was the first of the two to open. [Laughs]

Queria ter uma licenciatura além da Fotografia.

A realidade é que eu achava que sabia praticamente tudo sobre fotografia, do que se podia aprender em Portugal. Quando era miúdo ia discutir máquinas para as lojas e chegava à conclusão de que sabia muito mais que os lojistas. Era curioso, um autodidacta.

Não sabia quem é que me podia ensinar mais. Na altura era impensável um miúdo com 16, 17 anos tirar um curso de Fotografia lá fora, não fazia sentido, vivíamos num país muito fechado. Havia o conservatório e o curso de Cinema, mas não era o Cinema que me interessava. O único curso de Fotografia que existia era o do Instituto Português de Fotografia, conhecia alguns professores e aquilo que eles me podiam ensinar, tinha a sensação de que já sabia. A técnica é relativamente simples, quem queira estudar um bocado, compra livros, lê e sabe a técnica e a teoria. Daí à execução é muito mais complicado. 61

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You also wanted a degree besides photography.

The truth of the matter is that I thought I already knew almost everything there was to know about the subject of photography that you could learn in Portugal at the time. When I was a boy, I used to go to photography shops and discuss the equipment with the salesmen, usually coming to the conclusion that I knew far more than they did. You where curious and self taught.

I honestly could not find anybody to teach me more. At the time it was unthinkable for a 16 or 17 year old boy to take a photography course abroad, it made no sense at the time, we lived in a closed off conservative society . There was the arts conservatory and the cinema school, but cinema didn’t interest me. The only photography course that was available at the time was at the Portuguese Institute of Photography. I already knew

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portfólio Onde é que exerceu Medicina?

Estive mais tempo no Hospital Santo António dos Capuchos, mas do que eu gostava era dos bancos de urgência do Hospital de S. José. Não era rotina…

Era desafiado constantemente, era muito gratificante. Em meia hora podia resolver uma situação e aliviar muito a outra pessoa. Em que altura é que optou só pelo fotojornalismo?

Não havia vagas nas especialidades e já estava a colaborar com o semanário “Expresso”. Na altura, estava de manhã no hospital e à tarde no jornal. Quando estava no Hospital Santo António dos Capuchos fiz o exame da especialidade e não tive lugar na que queria, psiquiatria. A minha vaga de interno P3 extinguiu-se, não podia ficar no hospital. Tinha um lugar num Centro de Saúde a recibos verdes. Não me foi muito difícil optar, pois sentia que a limitação de horários me prejudicava como fotógrafo.

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Where did you practise medicine?

I stayed the longest at Santo António dos Capuchos Hospital, but what I really enjoyed was working in the emergency room at São José Hospital. When did you decide just on photojournalism?

There were no more vacancies in other medical areas and I was already collaborating with the Expresso weekly newspaper. At the time I was working at the hospital in the mornings and at the newspaper in the afternoons. While I was at Santo António dos Capuchos Hospital I wrote my speciality exam and ended up not being placed in my area, which was psychiatry. My internship

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many of the teachers there and what I could learn from them, somehow I felt I already knew. The techniques are simple enough; who wanted to learn about photography bought the books and read on the subject, all the steps as well as all the theory. From there to actually photographing, that is where it gets tricky.

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Se essa situação não se tivesse proporcionado, ainda hoje seria médico?

Provavelmente.

É fotógrafo no semanário “Expresso” há 23 anos. Foi o primeiro português a chegar a um campo de refugiados somalis, na Etiópia, em 1989. Esteve em reportagem por vários países, entre os quais, Angola, Iraque, Paquistão, China, Estados Unidos da América, Timor. Como é que se sente enquanto profissional, agora que essa realidade é rara?

Já fiz muito mais reportagem do que faço hoje. Tem havido um desvio do rumo de praticamente todos os jornais e revistas no mundo inteiro, o espaço para as imagens é cada vez menor, e a clássica picture story, o ensaio fotográfico, hoje não tem expressão, a não ser em casos muito raros como o National Geographic ou alguns números da Paris Match. A Life desapareceu. Estou convencido de que a razão para isso acontecer é a contenção de custos. É muito caro produzir uma reportagem. E agora há um grande paradigma que é a Internet. As pessoas passaram a ler os jornais na net, não compram. Estamos numa fase charneira em que todos os sítios de jornais online têm muito mais visitantes, e estão a crescer de forma avassaladora, de 100 a 200 por cento por ano, enquanto diminuem as vendas dos jornais. É paradoxal porque os proventos vindos da net ainda não conseguem pagar a estrutura que produz a informação para o próprio sítio. Em termos globais o digital permitiu que aparecessem trabalhos multimédia na net, e esta é fruto da tecnologia digital. Digital ou analógico?

É uma questão interessante. Continuo com o meu material analógico intacto, acho que as máquinas analógicas ainda têm uma perfeição mecânica que as digitais não têm. O último filme

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ended and I could no longer continue at the hospital, so I found a position at a Health Centre freelancing. From there it was not difficult to choose as my schedule limitations began to interfere with my photography. If that situation had not arisen would you still be a Doctor today? Most likely.

You have been a photographer for the Expresso newspaper for 23 years now, and you were the first Portuguese to reach the Somali refugee camp, in Ethiopia, in 1989. You have travelled and reported all across the world, Angola, Iraq, Pakistan, United States of America, and Timor. How do you cope as a professional, now that your type of work is becoming a rarity? I’ve reported much more than I do now. There has been an enormous change in editorial objectives from practically all of the newspapers and magazines all over the world; the place for the image is getting smaller by the minute and the classical picture story or photographic essay has completely lost its importance, except for rare cases such as the National Geographic Society or some issues in Paris Match. Life magazine has disappeared. I believe that cost management is the reason. It is very expensive to produce a story. And now there is an even greater duplicity which is the internet. People have started reading their newspapers online instead of buying print. We are crossing a boundary where online newspapers are growing exponentially and acquiring more and more visitors and subscribers on a daily basis, with growths of 100% to 200% per year, whilst printed versions drop their sales dramatically. It is a paradox on account that the income they gain online is still much too insignificant to sustain the structure that produces the information. Globally, it allowed the creation of multimedia jobs online; and is the profit from the digital technology.

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que fiz foi há dois meses e ainda está por revelar na porta do meu frigorífico. O que é que procura numa imagem?

As grandes fotografias têm a capacidade de nos fazer parar para pensar, as imagens de um filme não têm essa capacidade, são sequências, histórias. A expressão inglesa, still image, é muito significativa, paramos e pensamos. Aquilo que vemos faz-nos evocar ou transcender a realidade, qualquer coisa que aparece na nossa imaginação e que tentamos apanhar como se fosse um pássaro. E a maior parte das vezes não apanhamos. É nessa pesquisa incessante da imagem que reúne uma série de significados complexos e emoções que está essa procura. Na fotografia directa, quando se consegue essa imagem é uma grande alegria, mas é muito raro. Não estou a falar da fotografia de estúdio, montada, em que é tudo encenado e o fotógrafo sabe perfeitamente o que quer, e às vezes até desenha aquilo que quer. Dá-me mais gozo a rua, a situação real. Gosto de fotografar situações em que consiga transmitir aquilo que senti, e todas as ambivalências do sentimento. Do pássaro a um gesto?

Sim, às vezes até o cheiro, se o conseguisse transmitir, ou a música. 64

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Digital or analogical?

It is an interesting question. I still have my analogical equipment intact; I believe the analogical machines have a mechanical perfection about them that the digital ones do not. The last film I shot a couple of months ago is still inside my refrigerator, still waiting to be developed. What do you look for in an image?

Great images have the ability of making us stop and think. Images in a movie do not have that capacity since they are in sequence, a moving story if you will. The expression still image has great meaning in the sense that we stop and reason with it. That which we see elevates us to transcend reality, trying to capture something that pops into our imagination as if it were a wild bird. Most of the time we never capture it. It is that constant search for that highly significant image which carries all those complex emotions that we have and search for. In straight-forward, direct photography it is a great joy when you can achieve this, but it is also very rare. I am not talking about studio imaging, edited and produced like scenery that is set and staged to the smallest detail, and where the photographer can anticipate exactly what he or she wants. It is more fulfilling for me to shoot in the street, the real circumstance. I enjoy shooting where I can somehow translate how I feel or the dualities of that feeling.

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No principio da década de 80 foi para Paris com uma bolsa do Ministério da Cultura e fez um trabalho sobre emigrantes. Foi orientado pelos fotógrafos da Magnum. Como é que foi?

A bolsa do Ministério da Cultura era para o estrangeiro, escolhi Paris. Uma das condições para a atribuição dessa bolsa era ter um orientador. Escolhi dois, a Magnum e o Jean-Claude Lemagny, curador da secção de fotografia e estampas da Biblioteca Nacional de Paris, que conheciam o meu trabalho. Essa exigência levou-me a ir à Magnum perguntar se aceitavam orientar-me. Aceitaram, o que não era habitual que eu saiba não aconteceu com mais ninguém. O que faz hoje em dia no semanário Expresso são sobretudo retratos?

90 por cento.

From a bird to a gesture?

Yes, sometimes even a smell, if it could be done, or music. In the early 80’s you went to Paris with a scholarship from the Ministry of Culture and I understand you did a project on emigrants. It was orientated by the Magnum photographers. How was it?

The scholarship was for anywhere abroad and I chose Paris. One of the conditions of the scholarship was that I needed a tutor. I chose two, Magnum and Jean-Claude Lemagny, curator for the photography section at the National Library of Paris. That demand led me to Magnum to ask them if they accepted to train me. They accepted which was unusual for them and (as far as I know) has not happened since with anyone else. Do you do mostly portraits now for Expresso?

Da actualidade?

Sim. Os fotojornalistas não têm especialidade. Obviamente que há certas coisas que umas pessoas fazem melhor que outras, mas um fotógrafo de imprensa tem de saber fazer tudo, até fotografar algumas coisas que não são propriamente jornalismo mas que alguém precisa de fazer. O que mostra no Espaço Santa Casa, na exposição individual, que integra “O Chiado tem a Maior Exposição Fotográfica do Mundo”?

São fotografias inéditas de deficientes profundos.

90 per cent.

Current issues?

Yes. Photojournalists do not have a speciality. There are, of course, some things that some people can do better than others, but a press photographer must shoot whatever is needed, even if it is not quite journalism, but because it has to be done. What will you show from your collection at the Espaço da Santa Casa, in the “Chiado has the world’s largest photographic exhibition”?

It will be never seen before photographs on the disabled.

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01) Sem título – Untitled.

04 ) Sem título – Untitled.

02) Berlim – Berlin.

05) Sicília – Sicily.

03) São Miguel.

06) Sem título – Untitled.

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José Gonçalves Um perfeccionista da Polaroid A Polaroid perfectionist Entrevista por / Interview by Elisabete Pato

José Gonçalves é um perfeccionista da Polaroid. E é esta a técnica que mostra na individual “O Amarelo da Carris”, na galeria do Governo Civil. São fotografias de eléctricos e de elevadores da capital. “Cada imagem é uma prova única, não se pode repetir”. Foi fotojornalista, mas desencantou-se com o digital. “Parece que desapareceu a qualidade da fotografia”. Tem 42 anos. É formador de Photoshop.

É fotógrafo ou fotojornalista?

Considero-me fotógrafo. Deixei o fotojornalismo há alguns anos. Gosto de andar na rua a fotografar, mas muito sinceramente, e vai haver gente a querer bater-me, com o aparecimento do digital, parece que a qualidade da fotografia em si desapareceu. E irrita-me, solenemente, em qualquer reportagem, ver colegas a olharem para a parte de trás da máquina, para verem se a fotografia saiu bem ou não. Dantes, ninguém abria a máquina para ver se a fotografia lá estava.

José Gonçalves is a Polaroid perfectionist. This is the technique he explores at his individual show at the government Civil Office gallery, called “O Amarelo da Carris” (The Yellow of the Carris), relating to the colour of the early twentieth century’s’ public transports). The photographs are of trams and public elevators around the capital. “Each image is a unique shot, it cannot be repeated.”He had a career as a photojournalist but became disenchanted with the digital process. “It seems the quality of the photograph has disappeared.” He is 42 years old and a Photoshop coach/teacher. Are you a photographer or a photojournalist?

I consider myself to be a photographer. I gave up photojournalism years ago. I like to just go down a street and photograph, but quite honestly, and there will be many shocked by this and even wanting to beat me up; with the resource of the digital, it seems the quality of the picture itself has disappeared. It is very nerve wrecking, in any photo shoot or situation, to see a colleague of mine looking at the back screen of his camera, to check if the shot came out well or not. Before all this, no one opened up the camera to see if the picture was still there.

Era um nervosinho até que a imagem aparecesse no papel.

Sim.

Was it a nervous anticipation until it came out on paper?

Yes, it was.

É mais fácil ser fotógrafo agora?

Provavelmente sim. Há acesso a mais informação na internet, muita coisa escrita nos fóruns que está errada. As pessoas compram uma câmara e acham logo que são fotógrafos. E, perdoem-me, mas a fotografia digital veio dar cabo do mercado, dos preços. Estão a fazer-se trabalhos por “tuta e meia” ou até a custo zero. Já não se vêem trabalhos como os do Carlos Gil, ou mesmo do Luiz de Carvalho. Falava-se tanto do [Sebastião] 66

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Is it easier being a photographer nowadays?

Probably yes. These days there is much more access to information, even online, although much of it is poorly written or wrong. Some people buy a camera and immediately consider themselves to be a photographer, just like that. And, forgive me for this, but digital photography came to ruin the market. Jobs are being shot for almost nothing, or close to nothing.

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Salgado... Da última vez que ele esteve em Portugal dizia que quando chegasse ao fim do trabalho “Genesis”, que estava a realizar na altura, talvez já nem existisse a película que estava a utilizar. Há bons fotojornalistas em Portugal, mas já é uma gota muito pequenina. Como é que entrou na fotografia?

Sempre gostei de fotografia. No exército fui fotógrafo durante mais de um ano, no tempo obrigatório de tropa, em Mafra. Depois fui trabalhar para juntar dinheiro e pagar o meu curso do Ar.Co. E fui convidado para trabalhar no Cenjor como assistente de laboratório, onde trabalhei com o Carlos Gil. Em termos de técnica tinha conhecimentos e já fazia trabalho para clientes meus: trabalho comercial, reportagem e fotografia de produtos. E o que gosta mais de fotografar?

Gosto de fotojornalismo, de andar na rua, fotografar pessoas e situações.

You will almost never see anything again like the work from Carlos Gil or even Luiz de Carvalho. So much was talked about Sebastião Salgado all the time… Last time he was in Portugal, he mentioned that once he finished Genesis, which was the project he was working on at the time, there wouldn’t be any of the film left, at least the kind he was using. There are many good photojournalists in Portugal, but very few are left. When did you first came in contact with photography?

I always loved photography. In the army I was a photographer for over a year, during the mandatory time period at Mafra. After that I got a job to pay for my course at Ar.Co, and was invited to work at CENJOR as an assistant in the laboratory, where I worked with Carlos Gil. Apart from that, I already had my own technique and knowledge, and was already working for some of my clients doing commercial jobs, reports and product shoots. What do you like the most about photographing?

Como freelancer?

Também, mas isso não me dá dinheiro. Os jornais já têm o seu grupo editorial, não compram. Dediquei-me ao Photoshop. Estive há dias a apresentar a nova versão, o CS5, para a empresa que representa o Photoshop em Portugal. Trabalhei durante seis anos num estúdio de fotografia publicitária onde fazia toda a pós-produção. Gosto muito de fotojornalismo, mas também gosto muito da fotografia em estúdio. Desliguei-me do fotojornalismo, às vezes faço para mim, mas não vendo. E o que faz, actualmente?

Há uns anos que dou aulas de Photoshop. Um fotógrafo é a pessoa mais indicada para trabalhar com o Photoshop.

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I like photojournalism, walking around photographing people and eventualities. And what about being a freelancer?

I also enjoy it very much but it is not the most profitable for me. The newspapers already have their own editorial group and do not tend to buy outside. I have dedicated myself to Photoshop. A few days ago I was at the company that represents the brand Photoshop in Portugal demonstrating the new CS5 version. I worked for many years at a publicity studio where I was in charge of post production. I really enjoy photojournalism but I also like studio photography. I moved away from photojournalism for now, sometimes I just shoot for myself, but don’t sell the work.

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portfólio Sente-se realizado com o trabalho que faz?

Sim, gosto muito de dar aulas, de passar os meus conhecimentos, nas minhas aulas não há segredos. O formador não deve guardar segredos com medo que lhe passem à frente, há sempre quem esteja à frente e atrás de nós.

What is your current occupation?

I have been giving Photoshop courses for some years now. I believe that a photographer is the right type of professional to work with Photoshop. Does this fulfill you?

Enquanto fotógrafo, o seu trabalho focou-se também na Polaroid. O que tem essa técnica de fascinante?

O facto de conseguir manipular a fotografia e obter um efeito único. É uma prova única, não se pode repetir. Não se sabe ao certo como é que esta técnica apareceu. Há quem diga que alguém tirou uma fotografia com a SX-70, a colocou dentro de um saco de golfe e viu que tinha ficado manipulada. Depois foi bater à porta da Polaroid para mostrar o efeito. O que a história conta é que o Sr. Edwin Land [1909-1991] achou que aquilo era um defeito do filme, e como não queria que isso acontecesse, resolveu refazê-lo. Nos últimos tempos a SX-70 já se chamava SX70 Time-Zero, onde ele tentou fazer com que a emulsão secasse mais depressa. Mas não conseguiu, por isso a película continuou a ser manipulável. Todas as técnicas que existem com a Polaroid, tanto através do filme SX-70 como com o 559, 59, os transfers e os emulsion lifters, eram reprovadas por Edwin Land. No fundo é como se fosse Photoshop, mas manual?

Nem mais, é um Photoshop manual, a diferença é que não se consegue repetir. No Photoshop há um processo em que basta usar os mesmos parâmetros e consegue-se repetir, até a mesma imagem. Neste caso, se tirar 20 fotografias nunca vai conseguir fazer uma manipulação igual, são sempre diferentes. O que significa que cada fotografia feita sobre essa técnica é uma peça

Yes. I enjoy teaching very much and passing on my knowledge, there are no secrets inside my classroom. The teacher must never hide what he knows from fear of being surpassed; there will always be someone ahead of us, and someone behind us. As a photographer, your work has also focused on the Polaroid. What is it that’s so fascinating about this technique?

The fact of being able to manipulate the picture and obtaining a unique effect. A unique sample that cannot be repeated. It is not certain how this technique first appeared, it is said that someone took a picture with a SX-70 and placed it inside a golf bag and noticed it had been altered. Then, they took it to Polaroid to show the effect, and according to history, Mr. Edwin Land [1909-1991] thought that it was a film defect, and decided to try and improve the alterations in the emulsion. Meanwhile, the SX-70 was no longer called that, but SX70Time-Zero, by decreasing the emulsion’s drying time. However it didn’t work, the film was still very manipulatable. None of the techniques that were ever developed with Polaroid, both with the SX-70 film or the 559, 59, the transfers and emulsion filters, were ever approved by Edwin Land. In the end it’s like Photoshop, only manually?

Precisely, like a manual Photoshop, the difference being that it cannot be repeated. Within Photoshop, there is a process where

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única, não há maneira de fazer duas iguais. O Photoshop foi desenvolvido para tratar fotografia. Há uma pequena curiosidade que costumo contar aos meus alunos, o Photoshop está ligado à Guerra das Estrelas. O Thomas Knoll e o irmão, John Knoll, que trabalha na ILM (Industrial Light and Magic, foram os inventores do Photoshop. E o que é que a Polaroid trouxe de novo?

O ser manipulável e ter-se a fotografia de imediato, o que antigamente não acontecia. Isto surge depois da pergunta da neta de Edwin Land, “quando me tiras uma fotografia, porque razão é que tenho de esperar tanto tempo para a ver?”. Edwin Land foi um grande inventor, tinha muitas patentes e muito conhecimento sobre luz polarizada, e decidiu inventar este tipo de filme em que a imagem aparecia logo. É a técnica Polaroid que mostra na sua exposição individual “O Amarelo da Carris”, na galeria do Governo Civil. Que trabalhos podem ser vistos?

É um trabalho que fiz em filme SX-70, Polaroid, com eléctricos. Já há poucos, há a carreira do 28, que foi a que fotografei, é bastante bonita. Tirei algumas fotografias do 15, poucas, é um eléctrico mais moderno, e algumas do 12. E também de alguns elevadores. Entretanto acabou a película, não pude continuar o trabalho, tenho de expor apenas aquilo que tenho. O que não acontecia se fosse em digital…

Agarrava numa câmara, tirava umas fotografias, chegava ao Photoshop e fazia manipulação, mas sou contra isso. Não dá gozo. Há um grande prazer quando se tira uma fotografia com a SX-70 e se começa a manipular a imagem, com um toque aqui e ali… 69

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you just have to put into use its functions that can be repeated over and over, even with the same image. With Polaroid, if you take twenty pictures, you can never manipulate them in the same exact way, they will all come out different. This enhances the value of each picture taken with this method as being a unique piece, there are no two alike. Photoshop was developed for post production on images. There is an interesting curiosity that I like to share with my students all the time, it is that Photoshop is linked to Star Wars. Thomas Knoll and his brother John Knoll, who works at ILM (Industrial Light and Magic), where the inventors of Photoshop. And what novelty did Polaroid bring?

Being flexible and having the results immediately, this was not possible before. This became possible especially after Edwin Lands’ granddaughter insisted on having her picture taken, and constantly asking why she had to wait so much time to see it. Edwin Land was a great inventor and had many patents as well as the knowledge on polarized lighting, so he finally decided to create a film that would develop instantly after being exposed. Polaroid is the technique that you explore in your show O Amarelo da Carris. What are the pieces that can be seen?

It is a work that I developed with Polaroid SX-70 film, shooting trams. There are not many of these left. There is still a very beautiful route which I chose for this project, number 28. I also took some pictures of route 15 and of 12, but not many, those are more modern trams. Within the collection there are also pictures of public elevators. Meanwhile I ran out of film and could not continue with the project, I had to show the collection with what I had.

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Com a fotografia a quente, a frio não dá.

A película SX-70 mantinha-se quente, se quiser usar a expressão, durante 24 horas, e havia ainda quem a aquecesse, com um secador. Não se deveria abanar, é um grande erro porque partia a emulsão. Há uns anos, quando ainda estava no mercado, a Polaroid chegou a gozar com uma música que andava aí e dizia “shake it like a Polaroid”. A fotografia saía e o quadrado estava todo castanho, aos poucos a imagem aparecia, e com uma agulha de croché começava-se a carregar ao de leve na emulsão, o que distorcia as linhas. Distorce-se a imagem. Não fica pura.

Acaba por ficar toda distorcida, parece que apanhou líquido em cima. O que é a fotografia?

É uma arte e uma forma de vida.

That would not have happened if it had been digital…

I could have picked up a camera, shot some pictures and edited all them in Photoshop, but I’m against that. There is no fun in that. You cannot replace the pleasure of shooting with the SX-70 and begin to shape the image here and there… While the photo is still warm, cold emulsion doesn’t work.

The SX-70 film keeps itself warm for about a day, if you will, and there are those who would heat the emulsion with a hair drier. One should never shake it; it can break the emulsion. A few years ago, when I was still in the market, Polaroid even had a few laughs over the “jingle” that said “shake it like a Polaroid”. When the photo comes out of the machine, the square image being completely brown, it reveals itself little by little and with a crochet needle, one starts to slightly press over the emulsion, distorting the lines. Distorting the image. Then it is no longer pure.

It becomes all distorted, like a liquefied surface. What is photography?

It is art and a way of life.

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01) Vindimas, Douro – Vineyards, Douro. 02 + 03 + 05) Lisboa - Lisbon. 04) Sem abrigo - Homeless. 06) Srª Dores – Lady of Agony.

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Angelo Lucas “àDeriva” “Drifting”

Entrevista por / Interview by Elisabete Pato

Quer mostrar outros ambientes, que também são os dele. Nos Armazéns do Chiado, na individual “àDeriva” que integra “O Chiado tem a Maior Exposição Fotográfica do Mundo” troca os conflitos por cenários oníricos aliados à poesia. Chamam-lhe “fotógrafo de guerra”, o que o faz sentir-se rotulado, mas é em situações de combate que mais se tem mostrado como fotojornalista. Só no ano passado esteve no Afeganistão, na Palestina e no Líbano. Em 2007 foi raptado pelo Hezbollah. Agora, fica por cá. Angelo Lucas, 45 anos de idade, 20 a fotografar e uma década a ensinar. Aventureiro? Não.

He wants to show different visions that are also his own. His individual show “Drifting” at “Chiado has the world’s largest photographic exhibition”, he exchanged human conflict for other pastoral and poetic scenarios. He has been called a “war photographer” and feels labelled by the title. It is however, in combat and war situations that his work as a photojournalist is recognised. He was recently in Afghanistan, Palestine and Lebanon and in 2007 was kidnapped by the Hezbollah. For now he will remain in Lisbon. Angelo Lucas at 45 has been a photographer for 20 years and has taught photojournalism for over a decade. Adventurer? No.

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Já esteve em cenários de guerra, fez fotografia de moda e de ambientes ao lado de casa. Sente-se bem a trabalhar em qualquer sítio?

You have been in war zones, photographed fashion and captured moments close to home. Do you feel comfortable working anywhere?

Não lhe agrada…

You don’t like that…

Sinto-me bem nas situações e histórias de conflitos sociais. Um fotógrafo tem que ser abrangente. Um condutor de automóveis tanto conduz um Formula1 como um carro do dia-a-dia. Não me sinto bem em todos os campos, mas tento fazer várias coisas, nem que seja por curiosidade. Desde sempre, quando falam comigo referem-se ao fotógrafo de guerra. É uma forma de rotulagem. Achava piada se as pessoas não vissem isto quase como um ideal romântico. As guerras são sempre sítios horríveis para se estar, é um trabalho que tem de ser feito, mas não tem nada de glamour, de romântico ou de bonito. Mas vai para um cenário de guerra porque quer.

Em parte vou porque quero. Quero muito pouco que seja interpretado como uma aventura, é um trabalho muito sério. Somos jornalistas que fotografam, mas a facilidade do fotógrafo pode ser muito mais abrangente, no sentido artístico, procurando fazer arte com a fotografia. Fazer outro tipo de coisas permiteme libertar dessa carga da informação e concentrar-me só na componente artística enquanto fotógrafo.

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I feel comfortable with a variety of stories and conflicting social situations. A photographer has to be broad minded and able. Good drivers can driver buses, racing cars or family cars equally well. I don’t feel as comfortable as I should or could in all fields, but I drive myself to try different things, even if just for curiosities sake. However I’ve always categorized as a war photographer, it’s a label.

It would be funny if people didn’t think of it in such an idealistic and romantic way. War locations are terrible places to be in. Reporting them is a job that has to be done; there is nothing glamorous, beautiful or romantic about it. However, it is your decision to go there.

It is partly because I want to. I really do not want it to be interpreted as an adventure. I consider it to be very serious work. We are reporters that photograph, but the scope of a photographer can also be much greater when we can express ourselves artistically and communicate with a picture simultaneously. My other areas of interest also allow me to be liberated from the burden of information gathering and just concentrate on the artistic component as a photographer.

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portfólio Que trabalhos estão expostos nos Armazéns do Chiado?

What work is exhibited at “Armazéns do Chiado”?

Uma exposição individual para mostrar que não quer ficar rotulado como fotógrafo de guerra?

It’s an individual exhibition to show you are not to be labelled as just a War Photographer?

Além de fotógrafo, é professor na ETIC, Escola Técnica de Imagem e Comunicação. Quando um aluno lhe diz que quer ser

Besides being a photographer, you are also a teacher at the school ETIC. What is your reaction when a student says that he or she is thinking of becoming a photographer?

Todas as exposições que fiz são sobre guerras, conflitos. Esta é a primeira vez que vou explorar o baú das fotografias. São sítios por onde passei, coisas que não têm nada a ver com fotojornalismo.

Quero tentar fazer outras coisas. Toda a minha vida foi passada em cenários de conflito.

fotógrafo, como é que reage?

Sou o mais realista e o mais directo possível: “mais de metade de vocês nunca vai ser fotógrafo na vida”. Pode parecer cruel mas é a realidade. Em média dois alunos por turma seguirão a via profissional. É uma selecção natural. Tento transmitir-lhes a ideia de que o fotojornalismo tem muito pouco de romântico e que a fotografia é o fim em si e não um meio para atingir um fim. Há uma frase no fotojornalismo que é paradigmática, “vives o dobro para ganhares metade”. Como é que entrou na fotografia?

Quando tinha oito anos deram-me uma máquina fotográfica, uma Agfa Instamatic, amei. Daí para a frente foi o meu brinquedo, sempre. Nunca tive dúvidas na minha cabeça de que faria

All the collections I have shown have been about war and conflict. This will be the first collection where I dwelt into my photographic treasure chest. Places I have been to, moments not relating to photojournalism.

I want to try to show other things. All of my life has been spent in conflict and war scenarios.

I try to be as realistic and straightforward as I possibly can: “more than half of you will never make it as photographers”. It may seem harsh but it’s the truth. On average, only two out of a class of 20 or so will actually achieve a professional career. It’s a natural selection of sorts. I try to show them how little romanticism photojournalism has, and that photography is a goal in itself and not the means for achieving something else. There is a saying in photojournalism which is very pragmatic. “live life twice to get paid half”. When did you first start in photography?

I was given an Agfa Instamatic when I was 8 years old… and I loved it. From then on we were inseparable. There was never a doubt in my mind that I would to do this for the rest of my

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aquilo a vida toda, apesar de não saber que era uma profissão. Li uma biografia do Robert Capa, mais do que pela fotografia, apaixonei-me pela figura dele, pela personagem, pela aura de romantismo. E pensei: “tinha as sensações da vida militar, sou fotógrafo, ao mesmo tempo sou livre, e tenho a vida fantástica de romantismo e glamour que o Capa teve”. A realidade está a anos-luz disso, o tempo era outro, e a vida também. Ele era um grande fotojornalista de guerra, não tinha medo, ia a todo o lado, e de alguma forma criou as bases do que é hoje a fotografia de guerra.

life, although not thinking it could actually be a profession at the time. I read Robert Capa’s biography; and more than the photography, I fell in love with his character, with his persona and the aura of romanticism. So I thought, “I’d been in the military, I’m a photographer and at the same time I’m free, I can have the romanticism and glamour that Capa had.” Reality is light years away from that, his times were different and so was life. He was a great war photojournalist, he was fearless and went absolutely everywhere. In away he created the foundation of what is war photography today.

No Verão de 2009, esteve no Afeganistão durante as eleições daquele país. E trabalhou junto dos militares americanos. Como é que foi?

In the summer of 2009 you were in Afghanistan for the elections, and I understand you worked with the American military. How was that experience? There is a whole preparation period prior. You cannot approach

Há todo um trabalho prévio. Não se chega ao pé do exército americano a dizer “quero ir com vocês”. Eles investigam-nos, preenchemos formulários. Pensei vir-me embora, mas queria ir para Oeste e para Sul, onde só se vai acompanhado de uma força armada. A única que faz alguma coisa de giro, fotograficamente, é a americana.

the US army and decide you want to join in. They investigate you and forms have to be filled out. I almost gave up on the idea of going, but I really wanted to go South and West, where one can only go accompanied by the army. The only soldiers that do anything interesting, photographically I mean, are the Americans.

Já tem próximo destino?

Sou franco, a estadia no Afeganistão desgastou-me até ao limite, física e psicologicamente. Estive lá quatro meses, foi duríssimo. Vim de lá doente, cansado e fora de combate. Preciso de ficar cá. Saio duas ou três vezes por ano. Em 2009 estive dois meses na Palestina, quatro meses no Afeganistão e quase um mês no Líbano. Este ano preciso de dedicar-me a outras coisas.

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Do you have a next destination?

I was in Palestine for a couple of months in 2009, then four months in Afghanistan, and another month in Lebanon. I will be honest. Afghanistan wore me over, physically and mentally, it was incredibly tough. I returned ill, tired and without any fight left. I need to stay in Portugal for awhile. This year I need to dedicate myself to other things.

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05 01) Mulheres usando burka, Afeganistão, 2006 - Women wearing burkas, Afganastan, 2006. 02) Crianças nómadas, norte do Líbano, 2007 – Nomad children, North of Lebanon, 2007. 03) Manifestação pró Sérvia, Mitrovica, Kosovo 2007 – Pro Servian demonstration, Mitrovica, Kosovo, 2007. 04 ) Campo de refugiados, norte da Faixa de Gaza, 2009 – Refugee camp, North of the Gaza strip, 2009. 05) Tribo Deni, Amazónia Brasileira, 2003 – Deni tribe, Brazilian Amazonia, 2003. 06) Soldados Americanos - Wardak, este do Afeganistão 2009 – American Soldiers, Wardak, Esat Afganastan, 2009. 07) Bagdad, Iraque, 2003 – Bagdad, Iraq, 2003. 08) Muro que separa Palestina de Israel, 2004 - Palestinian/Israeli wall, 2004.

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Rita Carmo “Sons de Lisboa” “Sounds of Lisbon” Entrevista por / Interview by Elisabete Pato

É a envolvência e o movimento dos espectáculos que faz dela uma fotógrafa realizada nos ambientes da música. “A luz e as pessoas, essa mistura. Tento registar o êxtase dos concertos”. Rita Carmo nasceu em Leiria, é licenciada em Design de Comunicação, mas é da fotografia que faz profissão, na Blitz. Apesar de defender que a fotografia é para ser vista num livro ou numa revista, aceitou expor no evento do Chiado, “Sons de Lisboa”, na Rua Garrett. E mostra retratos, de músicos, claro.

It’s the involvement and dynamics of the world of music that make her a accomplished photographer within the industry. “The light and the crowd, that mixture. I try to capture that excitement in concerts.” Rita Carmo was born is Leiria and has a degree in Design and Marketing, but it is in photography that she found her calling, at Blitz. Although she feels that photographs are too appreciated in books and magazines, she accepted the challenge of showing at Chiado “Sounds of Lisbon” at Rua Garrett. She will show portraits, of musicians, of course.

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É fotógrafa residente do jornal, agora revista, Blitz há quase 20 anos. O seu trabalho centra-se no espectáculo em si, ambiente de concertos e retratos de músicos. O que a leva a explorar esse universo?

A luz e as pessoas, essa mistura. Sempre gostei muito de videoclips e da imagem associada à música. Os concertos vêm de arrasto por trabalhar para o Blitz. O meu arquivo começou a encher-se quase sem dar por isso. O Blitz fazia uma cobertura extensa de tudo o que eram acontecimentos musicais e de espectáculo, teatro, dança. Eu era presença habitual em concertos pequeninos na ZDB ou em concertos grandes como os dos U2. Acumulei essa experiência de trabalhar com pequeníssimos recursos, como é fotografar no antigo Johnny Guitar, num palco mínimo, e trabalhar em mega produções.

You have been a resident photographer for the newspaper, now Blitz magazine, for 20 years now. Your work focuses on performance, concerts and musicians portraits. What drives you to explore that universe?

The light and the crowd, that mixture. I always loved video clips and the image associated to music. The concerts were a natural consequence of working for Blitz. My photo archive started filling up without me even noticing. Blitz always covered all the big musical and dance events and I was a regular at both little shows like ZDB or giant U2 concerts. I progressed professionally with very little resources but with great experiences, like for example shooting at the old Johnny Guitar, on a small stage and working for major productions. What do you wish to capture at those big and small events?

No meio desses pequenos e grandes espectáculos, o que procura registar?

O movimento, sou acérrima defensora das grandes angulares, contra todos os fotógrafos mais conservadores, mas na música acho que faz todo o sentido porque nos dá uma ideia de envolvência e de movimento. Para mim seria ideal estar a fotografar a banda e o público, às vezes consigo mas nem sempre é fácil. É isso que tento retratar, o êxtase dos concertos, de grandes e pequenas produções.

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The movement, I am a fierce advocate of the wide angle lens, contrary to the view of the more conservative photographers; but in music I believe it makes sense because it gives you the grasp of the whole and the dynamic of the movement. It would be fantastic in my point of view to shoot both the band and the audience, but it is not always easy. That is what I try to capture in all productions.

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Que fotografias mostra no evento “O Chiado tem a maior Exposição Fotográfica do Mundo”, na Rua Garrett, 13 e 17, futura “Flagship Massimo Dutti” e 21, futura Nick Concept.?

What will you show us at “Chiado has the world’s largest photographic exhibition” at Rua Garrett Nº13 and 17, future “Flagship Massimo Dutti” and Nº21, future Nick Concept?

É licenciada em Design da Comunicação, como é que a fotografia se torna a sua profissão?

You have a degree in Design and Marketing, how did photography become your profession of interest?

São retratos de músicos portugueses feitos pelas ruas de Lisboa. É um misto de jovens músicos emergentes, como os Deolinda, e o Sérgio Godinho, por exemplo, um eterno músico português. Lisboa tem sítios incríveis para fotografar. O Mercado da Ribeira é um cenário espantoso.

Comecei na fotografia antes do curso. Fiz Design de Comunicação como trabalhadora-estudante. A fotografia para mim nunca foi um hobby, fui directa para a profissão. Hoje também faço design gráfico, mas em muito menor escala, a minha profissão principal é a fotografia. O curso de design gráfico foi importante em termos de cultura visual, de percepção espacial, da composição, das necessidades que temos de ter em conta quando fazemos uma fotografia e ao aplicá-la em edições, em cartazes. Não vejo a fotografia em exposições. A fotografia, para mim, é uma coisa que é aplicada a um objecto do dia-a-dia, a uma revista, a um livro, a um jornal. A fotografia é para ser vista, não para ser guardada.

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Portraits of Portuguese musicians shot around Lisbon’s streets. It is a mixture between young upcoming artists as Deolinda, and Sérgio Godinho, a well known Portuguese musician. Lisboa has incredible scenarios to shoot. The Ribeira Market is an amazing area.

I started photography before I took my degree. I studied Design and Marketing as a working student. Photography started as a hobby and upgraded to a full time job. Today I also do some graphic design, but not much, my main thing is photography. The design course was important as a visual education, specifically for the sense of perception and composition, as well as the need for editing on occasion. I do not really see photography in shows and expositions. Photography, to me personally, is something on a daily basis, a magazine, a book or a newspaper. Photographs are to be seen and not kept.

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Que idade tinha quando pegou, pela primeira vez, numa máquina?

Aos 13 anos fiz um curso de fotografia a preto e branco, nas férias, em Leiria. Acho que foi aí que o bichinho entrou, e quando tinha 16 anos o meu pai comprou-me uma máquina e comecei a fotografar a preto e branco. Fiz um curso de moda no IADE e frequentava o laboratório que havia à disposição dos alunos. Tinha aulas à noite e durante o dia, apesar de já trabalhar, ia para o laboratório.

How old were you the first time you picked up a camera?

I took a black and white course when I was just 13 years old, during my vacation in Leiria. It caught my interest completely, and when I turned 16 my father gave me a camera and I started photographing in black and white. I also took a fashion course at IADE and I also attended the workshops that were available to the students. Going to night classes and already having a day job, I still found time to take laboratory workshops.

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01) Samuel Úria. 02) Blasted Mechanism, live. 03) Rui Pregal Cunha. 04 ) Sean Riley & Slowriders . 05) Editors, live. 06) Mazgani.

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Carlos Ramos “Out of Stage” “Out of Stage”

Entrevista por / Interview by Elisabete Pato

É no seu estúdio que mais se realiza enquanto profissional da fotografia. Carlos Ramos trabalha num edifício pombalino, no Largo do Carmo, em Lisboa. É um estúdio com 90 metros quadrados, branco, com tectos que exibem pormenores típicos do século XVIII. A decoração transforma-se conforme o decor que cada produção fotográfica exige. “Gosto de controlar e criar situações. Atrai-me o sentido estético, de querer compor, de encenar, de poder controlar a fotografia”. Quem aqui vem deslumbra-se com o lado mais criativo do espaço e a casa de banho, que tem paredes forradas com fotografias Polaroid. É fotógrafo, tem 47 anos, e diz que começou tarde na profissão. A falta de média para Arquitectura levou-o a frequentar cursos de fotografia e de cinema no IADE. De lá não saiu, é professor há 25 anos. No Hotel do Chiado, mostra “Out of Stage”, retratos de actrizes da nova geração, produzidas em decors.

It is in his studio that he is most fulfilled as a photographer. Carlos Ramos works in a pombalino period building, on Largo do Carmo in Lisbon. It is a white, 90m2 studio, with detailed 18th century ceilings. The decoration is transformed depending on the decor requirements of each photo production. “I enjoy controlling and enhancing situations. I am attracted to the aesthetic sense, composing, setting scenery, directing photography.” Whoever comes here is enchanted with the most creative part of the house: the bathroom, where the walls are completely covered with Polaroids. He is a 47 year old photographer who believes he started his career quite late. Not obtaining the grades required for Architecture School lead him to courses in photography and cinema at IADE. Since then, he has never left and has taught at IADE for 25 years. At Hotel do Chiado, he shows “Out of Stage” portraits of new generation actresses, produced in decors.

No evento “O Chiado tem a maior Exposição Fotográfica do Mundo” expõe retratos de actrizes, no Hotel do Chiado. Quem são as actrizes?

At the event “Chiado has the world’s largest photographic exhibition” you will show us portraits of actresses at Hotel do Chiado. Who are they?

São retratos a cores de actrizes desta nova geração: Beatriz Batarda, Isabel Abreu, entre outras. É um trabalho de iluminação, a maior parte das fotografias foram realizadas em estúdio, mas todas são em décors.

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They are actresses of the new generation: Beatriz Batarda, Isabel Abreu among others. It is work which focuses on lighting, most of the photos were shot in studio but all in decors.

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Começou na fotografia depois dos 20 anos.

You started photography after you turned 20.

Por que é que optou pela fotografia de estúdio e não pelo fotojornalismo?

Why studio photography and not photojournalism?

Foi por acaso e tarde. Aos 22 anos, pensei, pela primeira vez, em ser fotógrafo. Contou o facto de não ter tido médias para entrar no curso de Arquitectura. Fui à tropa que, em 1985, era de 18 meses. Quando saí não sabia o que é que ia fazer. Então, fiz um curso de Audiovisuais, com o realizador António de Macedo, no IADE [Instituto de Artes Visuais, Design e Marketing], e outro de Fotografia, em que me apaixonei pelo laboratório, pelo preto e branco e pelo processo de revelação. Antes, era um curioso, tirava fotografias de amigos e em férias. Fiz o percurso escolar até ao 12º ano, mas sem gostar muito.

Mais pela moda do que pelo fotojornalismo. Gosto de controlar e criar situações. Atrai-me o sentido estético, de querer compor, de encenar, de poder controlar a fotografia. Tenho colaborações com a revistas “Sábado”, “Pública” e “Amoreiras Fashion”, esta última é toda produzida no meu estúdio.

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It was by chance and quite late. At 22 I thought, for the first time, of becoming a photographer. Not getting into the Architecture course had a lot to do with it. I did my military service in1985, which was 18 months at the time. When I left I had no idea what to do. I ended up doing an audiovisual course with the director António de Macedo at IADE, as well as a photography course where I fell in love with the lab work, black and white pictures, and the developing process. Before this I was just mildly inquisitive about it, I took pictures during my vacations and with friends. I followed school through to grade 12 but all with very little excitement. More due to fashion rather than photojournalism. I like to control and create situations in the environments I shoot. I am attracted to the aesthetic, the composition, the scenery, being able to control the photograph. I have collaborated with Sábado magazine, Pública magazine, as well as with Amoreiras Fashion, which was produced entirely in my studio.

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Quando é que publicou o seu primeiro trabalho como profissional da fotografia?

When was your work as a professional photographer first published?

O primeiro trabalho que fiz foi para a revista “Marie Claire”, em 1992, tinha quase 30 anos.

My first work was for Marie Claire magazine in 1992, I was nearly 30.

Toda a actividade de fotógrafo concilia com a formação. Estudou e é professor no IADE.

All your work as a photographer reconciles with photography teaching. You studied and are now a teacher at IADE.

O que me realiza é mesmo ser fotógrafo. Há 25 anos que sou professor no IADE, comecei como assistente.

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I have been a teacher at IADE for 25 years, starting as an assistant, but what fulfils me is being a photographer.

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Nuno Henriques “Toy Story, Polaroid” “Toy Story, Polaroid” Entrevista por / Interview by Elisabete Pato

Nasceu em Coimbra, por acaso. Viveu em Moçambique até aos sete anos, mas está registado em Lisboa. “Sou do Mundo”. Já recebeu vários prémios, entre o quais o 1º Prémio na categoria “Viagens e Cultura” do I Concurso Internacional de Fotografia da revista National Geographic. No Chiado mostra “Toy Story, Polaroid”, um trabalho, a preto e branco, realizado na oficina do Museu do Brinquedo, em Sintra, onde já registou mais de 15 mil brinquedos. Nuno Jorge Henriques fotografa há cerca de duas décadas, é formador e estudou Antropologia, porque “tem uma vertente de museologia”.

He was born, by chance, in Coimbra, lived until he was seven years old in Mozambique, but is currently registered in Lisbon. “I am from the world.” He has received many awards, including 1st prize for the Travelling and Culture category for the 1st National Geographic Magazine International Photography Competition. He is currently showing “Toy Story, Polaroid”, in Chiado, a black and white collection shot at the Toy Museum in Sintra, where he has already photographed more than 15 thousand toys. Nuno Jorge Henriques has photographed for about two decades, teaches photography and studied anthropology because “of the museology facet.”

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No evento “O Chiado tem a Maior Exposição Fotográfica do Mundo” vai expor a individual “Toy Story, Polaroid”, na Rua do Carmo, nas montras dos números 23, 25 e 27. Que trabalhos podem ser vistos?

São dez fotografias em formato polaroid, de 70 cm de altura por 65 cm de largura. É um trabalho a preto e branco, de raiz, ao qual ainda me mantenho fiel, em película, não faço preto e branco digital. Neste caso, excepcionalmente, é digital mas por uma questão de custos. Digitalizei as ampliações em papel fotográfico e usaram o ficheiro para a impressão, mas a base são as fotografias impressas em papel preto e branco. O trabalho foi realizado na oficina do Museu do Brinquedo, em Sintra, onde se fazem restauros. São fotografias com uma abordagem mais conceptual tentando explorar a luz, as sombras e pormenores nos vários brinquedos, que estão para restauro no museu.

What can we expect to see of your work, in “Chiado has the world’s largest photographic exhibition”, with your “Toy Story, Polaroid” collection?

There will be ten photographs, 70 centimeters tall and 65 centimeters wide. The project is in black and white and I choose to remain faithful, as I do not shoot black and white digitally. In this case however I made the exception, mainly to cut costs. I have digitalized the original prints and used the file for printing, but I used the original photography as a source. My work was developed at the Toy Museum in Sintra, where restoration takes place. They are conceptual images that explore light, shadow and distinct details of the toys to be restored at the museum.

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Colabora com o Museu do Brinquedo, em Sintra, há cerca de dez anos. Como surgiu esse trabalho?

You have collaborated with the museum for about ten years. How did that come about?

Em 1994 fiz um trabalho para o Museu do Brinquedo, através de um cliente. Na altura trabalhava em publicidade e fotografia editorial. O Museu do Brinquedo é de um coleccionador, o João Arbués Moreira. Ficámos amigos, mantivemos o contacto e depois fotografei para várias edições, que o museu publicava, como postais. Em 2002 foi necessário fazer um inventário. E foi aí que me convidaram para ficar, durante um ano e meio. Era o Ministério da Cultura que me pagava para ir lá fotografar. Depois acabou esse subsídio e continuei, a um ritmo mais lento, e remunerado pelo museu.

In 1994 I got a job for the museum through a client. At the time I was working in marketing and publicity as well as commercial photography. The Toy Museum belongs to a collector, João Arbués Moreira. We became friends and kept in touch. I ended up shooting many sessions that the museum printed as postcards. In 2002 there was the need for an inventory. That was when they invited me to stay for a year and a half as their photographer. The Ministry of Culture paid me to photograph the whole collection. After the grant had ended, I kept working at a much slower pace and at a different rate paid by the museum.

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Mas também tem trabalhos sobre viagens.

You have also photographed your travels.

Entre várias formações, estudou no Ar.CO e no Instituto Português de Fotografia. É formador de fotografia há quase 20 anos, na ETIC, Escola Técnica de Comunicação e Imagem…

Apart from other schools, you studied at Ar.Co and at the Portuguese Institute of Photography. You have been a photography teacher for nearly 20 years, at Etic, Technical School for Image and Communication…

É uma vertente mais pessoal, enquadra-se na fotografia de autor. É o princípio que muitos fotógrafos têm de andar sempre com uma máquina atrás quando viajam, que normalmente derivam em projectos fotográficos e podem ser enviados para concursos, exposições. E aí é que entram alguns trabalhos meus premiados em vários concursos e festivais de fotografia.

Terminei o meu último curso de fotografia em 1992, no Ar.Co, e comecei a dar aulas em 1994. O meu percurso como fotógrafo foi, inicialmente, na área editorial e institucional para agências, clientes portugueses e estrangeiros. E sofreu alguma viragem desde que comecei a trabalhar com o museu. Ainda estudou Antropologia. Porquê?

A Antropologia surge no meu percurso académico como um interesse específico, mas também fruto da necessidade de formação na área da museologia, para a concretização do trabalho de inventário no Museu do Brinquedo em Sintra.

That’s more personal, like signature photography. It is an imperative urge for photographers to travel accompanied by a camera, and most of the time those pictures from our travels end up becoming small projects or material for competitions. From this photography is where some of my work has been awarded in many photography festivals and competitions.

I finished my last photography course in 1992 at Ar.Co, and started teaching in 1994. My path as a professional photographer started on the commercial stage, then followed by editorial and institutional work for agencies, both national and internationally. The market has changed quite a bit since I started my work with the museum. And yet you still studied anthropology. Why is that?

Anthropology has a side to it that has a lot to do with museumology, and on account of my inventory work with the museum, it has turned out to be very useful to me. Although I execute my part as the photographer for the Toy Museum, I also double with the local anthropologist there, collaborating with her.

11 01) Liberdade - Freedom. 02) Lisboa, transfer - Lisbon, transfer. 03) Museu do Brinquedo - Toy Museum. 04 - 07) Dança - Dance. 08 - 10) Monk. 11) Bumba.

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POLAROID, uma técnica extinta que marcou a história da fotografia POLAROID, an extinct technique that is part of photographic history Tutorial por / Tutorial by José Gonçalves - Formador Photoshop / Photoshop Instructor

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Durante os primeiros minutos a imagem apresenta-se com uma tonalidade amarelada. Ao fim de 30 segundos, os primeiros traços aparecem e é nesta fase que se começa a distorcer as linhas da imagem. Para isso, utilizam-se objectos como os da imagem que se compram em lojas de artigos para arte, a ponta de uma esferográfica ou uma agulha de fazer croché. A pressão sobre a fotografia tem de ser suave, força demais levaria a que os objectos perfurassem o Maylar, plástico que protegia a foto. A manipulação continua à medida que a imagem aparece, depois das linhas manipula-se o resto, pode usar-se os mesmos objectos. As pontas com vários tamanhos permitem obter diferentes efeitos. As pontas mais finas fazem riscos, as mais grossas distorcem zonas maiores. Pode ainda colocar-se a fotografia sobre uma superfície áspera e com um pano de camurça esfregar a Polaroid de modo a transferir a textura para a imagem, pode ser um muro, a superfície de uma pedra ou mesmo a de papel de areia. Ao fim de 24 horas, por vezes mais, depende da temperatura, ainda é possível manipular a imagem. Aquece-se com um secador e continua-se, mas a janela de oportunidade desaparece ao fim de 2 dias. Noutra técnica, coloca-se a fotografia dentro de água quente (perto do ponto de fervura) sela-se a parte de trás com fita-gomada, prende-se a mesma com ganchos a uma placa de acrílico, e manipula-se a imagem. A emulsão fica mais suave. A técnica da Polaroid deixou de ser usada há cerca de dois anos, uma vez que as últimas cargas foram vendidas no Ebay em 2007 e a validade do filme estendia-se até 2009.

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The photograph is ejected from the camera and the manipulation is immediately begun. During the first minutes the image manifests itself in a yellowish tone. After the first 30 seconds, the first traces appear, and it is at this moment that the distortion in the lines begins. For this effect we can use store bought objects like a ballpoint pen or a crochet needle. The pressure applied has to be delicate; too much pressure and the tool can puncture the Maylar, the plastic that protects the photo. The manipulation continues as the image appears, after the lines the rest of the image can be manipulated as well using the same tools. Different tool tips create different effects. Fine tips creates scratches, blunt tips distort larger zones. You can also rub the surface of the POLAROID with a piece of rough suede transferring its texture to the image, as well as using your hand, a stone or even sandpaper. After 24 hours, sometimes more, depending on the temperature, manipulation is still possible. Or you can also use a hair drier to prolong the process, but the opportunities expire after two days. Another technique is to submerge the image in hot water (close to the boiling point) seal the back of the POLAROID with cellophane tape, and hang it on an acrylic base to work on it. The emulsion becomes softer. The POLAROID manipulation techniques have stopped being used about two years ago, since the last batches were sold on eBay in 2007 with a validation date for 2009.

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A CONSERVAÇÃO NA FOTOGRAFIA An overview on photography conservation. Texto por / Text by Vanessa Rodrigues - Conservadora / Restauradora

Actualmente as nossas memórias fotográficas estão um pouco por toda a parte, já não estão só em álbuns ou guardadas em livros, envelopes ou recantos mais delicados. Esses baús deixaram de ser físicos, são agora também digitais. Nowadays, our photographic memories are all around us, not only in our photo albums, books, envelopes, or kept away in delicate storage. They are no longer strictly physical, they have become digital as well. Todos nós temos em nosso poder uma enorme quantidade de imagens, na maioria digitais, guardadas em máquinas, computadores, discos externos, CD`s, DVD`s, ou qualquer outro equipamento que nos permita recorrer a essas imagens da forma mais fácil. Muitas vezes, equipamentos esses a que já nem conseguimos aceder (quem não tem disquetes ou zips a aprisionar informação…?). A acumulação destes ficheiros é tanta que, na maioria das vezes, perde-se a noção de quais são as imagens que temos, não só na quantidade mas principalmente do seu real conteúdo. Se no século XIX a comunidade ficou estupefacta e fascinada com a capacidade da reprodução exacta que a técnica fotográfica oferecia, no século XXI a fotografia vai muito para além disso. Numa época em que já não se duvida da capacidade esmagadora que uma imagem tem, assiste-se ainda a outro fenómeno - A fotografia como Obra de Arte. O Fotógrafo tem finalmente o mérito, destaca-se por diversos motivos, seja pela criatividade e inovação ou pelo simples facto de ter ou criar o sentido de oportunidade que no fim tanta diferença faz, principalmente numa época em que qualquer um tão facilmente consegue ter equipamento onde se “prima o gatilho” e manipule a imagem obtida. Mas aqui aborda-se a obra do Fotógrafo enquanto autor/criador/artista. O Fotógrafo criador tem especial cuidado com a sua obra. O original fotográfico ganha maior relevância e uma prova de autor é elaborada de forma muito mais cuidada em todos os seus processos. A impressão deve ser correcta e sem defeitos, com excelente apresentação, onde os materiais aplicados são pensados não só para o benefício estético mas também para promoverem uma correcta leitura da imagem. A par da consciencialização do fotógrafo, surge também o Conservador direccionado para o campo da fotografia e dentro desta área há diversos ramos, nenhum deles estanques, onde os materiais e os objectivos da conservação são diferentes. Por um 96

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We all have in our possession a great amount of images, mostly digital, kept in cameras, computers, hard drives, CDs, DVDs or any kind of other device that allows us to easily access them and store them again. Many times those same older storage devices keep us from retrieving those same images (who among us has not locked data in a zipped file or disk?). The accumulation of these files is such, that we lose track of how many we have, not only in quantity, but also their true subject content. If 19th century society was astonished with the ability of reproducing an image over and over with photography’s technology, 21st century photography goes beyond that. In an age when we no longer doubt the power of an image; there is still another surprising phenomenon – photography as a work of art. Photographers have finally earned their merit, for a number of reasons, be it for their creativity and innovation, or solely for the fact of having the acute sense of timing that makes the difference; especially at a time when anyone can just press the button, and edit the picture afterwards. Here, I want to approach the work of the photographer as an artist, an author and a creator. The creative photographer takes very special care with his work. The original product is of greater value, a print is always made with much more caution and care during all its steps. The print must be flawless, presentation immaculately executed, where each material used is for the sole benefit of the final photo, not only aesthetically, but also to give the best definition possible, so the image can speak and stand out as best it can. Parallel to the consciousness of the photographer, there are also conservationists that are involved in photography, and within this area there are different fields, all of which are diverse yet interchange their techniques. One aspect of these areas are historical archives where a variety of images in different formats, printed on a variety of different surfaces whose emulsions are not necessarily composed of silver halides on a celluloid base.

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lado actuando na área de arquivo histórico onde predominam provas fotográficas de diversos formatos e feitios, impressas nos mais variados materiais e onde a camada formadora da imagem não se restringe aos tradicionais sais de prata com gelatina. Por outro lado temos arquivos mais recentes, relacionados com a área da informação e reportagem, onde predominam as imagens do fotojornalismo e onde convivem formatos digitais com provas fotográficas. Temos também a área museológica e expositiva, onde a fotografia é assumida como uma obra de arte e como tal, a preocupação do conservador é o de prolongar a vida desse objecto com o máximo de qualidade. Abordando a questão da conservação de provas originais, há algumas regras que o conservador tem de ter sempre presente. O ambiente expositivo é fundamental para uma correcta preservação das fotografias, mas há que ter em conta que a vontade do fotógrafo enquanto autor ou até mesmo do proprietário/ coleccionador é sempre primordial. Como tal, a situação ideal seria a de conseguir uma cooperação total em benefício da obra fotográfica e chegar a um “ponto de equilíbrio”, onde esta não se tornasse num objecto super protegido, obrigando-a a encerrar-se sobre si mesma por questões de protecção, mas também que não se tornasse num objecto tratado de forma vulgar e consequentemente cada vez mais frágil, vulnerável, efémero e susceptível de se perder para sempre. Talvez esse ponto de equilíbrio passe por um trabalho conjunto entre fotógrafo e conservador onde ambos possam seguir

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On the other hand there are more recent archives, related to information and reporting, predominantly photojournalism and digital images where digital storing share the same logistical management. There is also another field concerned with storage related to museum cataloguing, where the conservationist’s main goal is to maintain the picture’s quality for as long as possible. There is also the question of original print conservation with a certain criteria one must be aware of. The environment in which to correctly preserve the photographic print is essential; however there is always the photographer or owner/collector who will have the final say in the piece’s handling and storage. As such, the ideal circumstance is obtaining total collaboration, which would benefit the overall balance, as such not overprotecting the image, but not leaving it vulnerable, turning it increasingly fragile, delicate and ephemeral, likely to be lost forever. The balance for making it work lies perhaps on the commitment between photographer and handler, agreeing at the starting point to plan together a successful collection or show. Simple measures like cotton gloves for handling the prints go a long way when applied as a fundamental rule, since fingerprints leave permanent marks. The broad range of solutions should be discussed in advance, not only concerning the prints themselves, but everything around them that will have an impact on their exposure. The kind of paper, the passe-partout or matting, if glue or other fixation methods were used; frames, kinds of wood, plastics, acrylics, glass or any other kind of material or

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algumas regras simples e básicas que comecem, logo à partida, no planeamento de uma exposição. Coisas tão simples como a utilização de luvas de algodão no manuseamento das provas deve ser uma regra fundamental, já que as impressões digitais são uma marca que fica para sempre. Já a vasta panóplia de soluções possíveis devem ser discutidas com antecedência, não só as que estão intimamente ligados à prova fotográfica como por exemplo o papel e tipo de impressão ou passe-partout, colas ou outros fixadores, molduras, madeiras, MDF, plásticos, acrílicos, vidros ou outros materiais e formas expositivas, mas também com o mesmo grau de relevância - ou ainda mais - o local e o ambiente expositivo. Há que ter em conta que todos estes materiais, por muita qualidade que tenham, são completamente dependentes das condições climatéricas em que se encontram. Essas condições são formadas por um conjunto de características tão básicas como a luz, a temperatura e a humidade, sendo esta última determinante, uma vez que a humidade relativa elevada é devastadora para as obras fotográficas, provocando danos irreversíveis. Há ainda outros detalhes que podem fazer toda a diferença na preservação e conservação da obra fotográfica como o tipo de lâmpadas utilizadas – de luminescência e gama cromática variada – e o modo como são aplicadas, se interferem na leitura da imagem. Outro factor inerente ao espaço reside na capacidade de criar as condições necessárias para acolher o público de forma adequada sem comprometer a segurança das colecções. A poluição é outro problema já que os gases poluentes provocam a acidificação do papel e facilmente oxidam a prata existente nas fotos a preto e branco e nos corantes das imagens a cores. A conservação assume assim um papel determinante para a arte fotográfica e tem a capacidade de consciencializar todos os envolvidos no processo expositivo da obra fotográfica.

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display methods, and even more importantly, the space of show and it’s environment. However, it has to be taken into account that no matter how high the quality of the materials are, it serves nothing if the environment they are displayed in does not have the appropriate conditions. These conditions are a set of basic guidelines; like light, temperature and humidity, this last being the most harmful if ignored, and at elevated levels, causing irreversible damage. Still, there are many other details that can make that small difference on conserving a photograph to its full extent; for example, the kind of light bulb used for lighting the image – luminescence and differential chromatic range – as well as the lighting fixtures articulated, will either aid or interfere with the way the image is perceived. Another spatial concern is the general public’s use of the space, welcoming them to safely enjoy the collection and not disturb it. Pollution is yet another matter of concern since many pollutant gases deteriorate the photographic paper, easily oxidizing the silvery on the black and white photographs for example, or on any colouring dye on coloured photography. Conservationists agree to play an important role in the photographic arts, and have de ability to sensitize all those involved in the act of displaying and preserving photographic collections.

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