Issuu on Google+

ESPECIAL

EDITORA:

CAROL RODRIGUES

crodrigues@redegazeta.com.br Tel.: 3321.8394

Vitória-ES, quinta-feira, 14 de março de 2013

MENSAGEIRO DA HUMILDADE

Argentino Jorge Mario Bergoglio é o primeiro papa a usar o nome Francisco, numa possível referência ao santo que é o símbolo do desapego material


2 ESPECIAL

A GAZETA QUINTA-FEIRA, 14 DE MARÇO DE 2013

GREGORIO BORGIA/AP

NOVO LÍDER É ESCOLHIDO EM CONCLAVE RÁPIDO Após fumaça branca, Jorge Mario Bergoglio apareceu aos fiéis DMITRY LOVETSKY/AP CIDADE DO VATICANO

OcardealargentinoJorge Mario Bergoglio foi eleito o 266º papa da história da Igreja Católica no conclave encerrado ontem no Vaticano. Ele é o primeiro cardeal oriundodocontinenteamericano a liderar a Igreja Católica.Tambéméoprimeiro papa jesuíta. Arcebispo de Buenos Aires, o cardeal Bergoglio escolheu Francisco como nome papal. Pouco depois de ter sido eleito, o papa Francisco se dirigiu aos dezenas demilharesdefiéisnaPraça de São Pedro com um “boa noite irmãos e irmãs”. O novopapafezumabrincadeira ao dizer que seus colegas vieram do fim do mundo para escolher um papa que veio do outro lado do mundo. “Mas aqui estou eu”, afirmou Francisco. O novo papa ofereceu uma prece a Bento XVI e pediu aos fiéis que rezem por ele antes de os abençoar

Católicos de todo o mundo lotaram ontem a Praça São Pedro, no Vaticano

após um momento de silêncio. A bênção de Francisco ao fiéis foi feita em latim, prontamente respondido pela multidão que lotou a praça à espera de seu novo líder. Filho de um imigrante

italiano, o novo papa dirigiu-se aos fiéis num italiano quase sem sotaque. O arcebispo de 76 anos passou toda a sua carreira na Argentina. Consta que ele teria ficado em segundo

lugarquandooconclaveescolheu Bento XVI em 2005, que se tornou o primeiro papa a renunciar em 600 anos. Ele será o primeiro papa jesuíta, o primeiro da AméricaLatinaeoprimeiro

não europeu em mais de mil anos a liderar uma rebanho estimado em 1,2 bilhão de católicos. O conclave para a escolha do sucessor de Bento XVI foi bastante rápido. O 266º papa da Igreja Católica foi eleito depois de cinco votações. A chaminé da Capela Sistina passou a liberar fumaça branca às 15h05 (deBrasília),indicandoque os 115 cardeais reunidos desde terça-feira haviam chegadoaumnomeparaliderar a Igreja. Em séculos passados, os conclaves se arrastavam por semanasemeses,emalguns casos chegando a durar anos. No século 13, um dos cardeais mais cotados para assumir a Santa Sé faleceu durante o processo, que se estendeu por semanas. O conclave que elegeu Bento XVI teve quatro votações e durou dois dias. O conclave mais longo do último século duroucincodias,teve14vo-

tações e resultou na eleição de Pio XI, em 1922. Antes mesmo de ter sido visto pelos cerca de 50 mil fiéis reunidos na Praça São Pedro, o papa Francisco já havia ganhado o coração doslocais.Oanúnciodeque ele levaria o nome de São Francisco de Assis, o santo padroeiro da Itália, levou a multidão ao êxtase. O argentino Jorge Bergoglio é o primeiro pontífice a adotar o nome Francisco, em alusão ao jovem de Assis que renunciou à riqueza e fundou a ordem dos franciscanos em 1290. O santo italiano é identificadocomapaz,apobrezae um estilo de vida simples. A escolha pode ser um indício de que a prioridade do papa será trazer de volta a serenidade em um momento conturbado para a Santa Sé. Reza a tradição católica que São Francisco de Assis foi chamado por Deus para reparar uma igreja em ruínas.


ESPECIA3

QUINTA-FEIRA, 14 DE MARÇO DE 2013 A GAZETA

PRIMEIRA MISSA SERÁ NO DOMINGO

Porta-voz do Vaticano falou sobre a surpresa de um papa latino-americano Jorge Bertoglio fará sua primeira missa como papa Francisco no próximo domingo, na Praça São Pedro. A confirmação foi feita pelo porta-voz do Vaticano,padreFedericoLombardi, instantes depois da apresentação do novo papa. Assim, depois de dois domingos sem “Angelus” em razão da renúncia de Bento XVI, a Igreja Católica voltará a celebrar sua oração dominical em praça pública, agora sob o comando de um pontífice “que quer servir”. A missa do domingo pela manhã não vinha sendo realizada desde que Joseph Ratzinger deixou o Va-

ticano em direção a Castelgandolfo, a residência de verão do papa. De acordo com Lombardi, o papa emérito - que acompanhou o resultado do conclave pela TV - não participará do primeiro culto de seu sucessor. Antes de rezar “Angelus”, porém, Francisco deve visitar a basílica de Santa Maria Maggiore, a mais antigaigrejaromanadedicada à Nossa Senhora, segundo o Vaticano. O porta-voz do Vaticano também saudou a escolha do primeiro papa não europeu na história da Igreja Católica. “Nós sabemos que há muitas expec-

tativas por parte dos católicos latino-americanos e esta é uma boa resposta à essa expectativa”, disse Lombardi, que demonstrou estar surpreso com a escolha feita no Conclave. “Estou chocado por ter um papa Jesuíta, porque os Jesuítas não se põem em condição de autoridade, mas em condição de servidor. Normalmente os Jesuítas tentam resistir”, explicou o porta-voz. Ainda de acordo com Lombardi, a escolha de Bergoglio - um nome que não figurava nas listas de favoritos - revela que a disputa pelo poder ficou em segundo plano.

Nome de argentino não estava entre os mais citados A escolha de Bergoglio pode ser considerada uma surpresa, já que seu nome não figurava entre os favoritos do conclave. Os nomes mais citados pelos vaticanistas eram os do italiano Angelo Scola; o brasileiro Odilo Scherer, considerado o candidato da Cúria; o canadense Marc Ouellet, prefeito da Congregação para os Bispos, e o norte-americano Timothy Dolan, arcebispo de Nova York.

Os cardeais superaram profundas divisões para escolher o sucessor de Bento XVI, o que aconteceu de forma foi bastante rápida, já que o novo pontífice foi definido em apenas cinco rodadas de votação. Francisco pediu orações para si mesmo e para o agora papa emérito Bento XVI, cuja surpreendente renúncia abriu caminho para o conclave, que levou o primeiro jesuíta ao papado.

“Irmãos e irmãs, boa noite”, disse ele ontem à multidão que lotava a praça São Pedro, em suas primeiras declarações como pontífice. “Vocês sabem que o trabalho do conclave é dar um bispo a Roma. Parece que meus irmãos cardeais foram encontrá-lo no fim do mundo. Obrigado pelas boas-vindas.” Bergoglio havia ficado em segundo lugar na votação do conclave que elegeu Bento XVI.

NATACHA PISARENKO/AP

Francisco é o primeiro papa latino-americano da História da Igreja Católica

Argentinas torcem por papa mais próximo dos fiéis ÁLBUM DE FAMÍLIA

Moradoras do Espírito Santo e católicas, as argentinas Alicia Zamberletti, professora de Espanhol, e Carol Leyro Diaz, dona do restauranteArgentoParrilla,comemoraramaeleição do conterrâneo Jorge Bertoglio como o novo papa Francisco. CarolDiazdissequeaescolhadoargentino“foiuma surpresa lindíssima” e defende que o papa “consiga se comunicar melhor com os fiéis”, pois é uma figura mundial, mas acha que “o coração do papa também vai pensar no povo dele”. “Nossaigrejaestáenfraquecida e espero que ele a fortaleça, se aproximando mais dos fiéis. Acho que é o caminho certo, pois têm muitas religiões. Acho que

“FIM DO MUNDO” “Vocês sabem que o trabalho do conclave é dar um bispo a Roma. Parece que meus irmãos cardeais foram encontrá-lo no fim do mundo. Obrigado pelas boas-vindas”

— PAPA FRANCISCO

A professora Alicia torcia pelo cardeal argentino

a igreja se distanciou dos fiéiseesperoqueelacresça mais”, frisou Carol. Já Alicia, que acompanhoutodaasucessãonoVaticano, disse que desejava muito a eleição do cardeal argentino, embora acredi-

tasse mais em um papa italianooubrasileiro.Paraela, a escolha de Bertoglio pode ajudar a unir a Argentina, queelaavaliaestardividida no governo de Cristina Kirchner. Ela espera um diálogo pleno do novo papa com o governo argentino. “Peço que o novo papa, de todos os católicos, coloque um manto de paz, de amor, de solidariedade no coração das pessoas. Peço para que meu país possa se unir mais, lutando pelas mesmas coisas, por um paísmelhor.Queroumpaís com valores, com princípios”, destacou a professora, que espera que o novo papa reforce a posição da Igreja contra o aborto e que o novo papa seja respeitado. (Ednalva Andrade)

Primo de dom Odilo diz que família ficou dividida O professor Canício Scherer, 52 anos, que mora em Vila Velha, primo de dom Odilo Scherer, 63 anos, recebeu a notícia da escolha do novo papa com tranquilidade, mas, ao mesmo tempo, com uma ponta de frustração pelo fato do cardeal brasileiro não ter sido nomeado o líder mundial do catolicismo. “A família ficou dividida em relação à nomeação: alguns alegres; outros tristes. É claro que estávamos na

expectativa que Odilo fosse declarado o novo papa”. O professor revela que no último encontro de família, em janeiro, Odilo não demonstrou interesse em assumir o cargo. “Ele nunca chegou a comentar nada com ninguém. Sempre esteve feliz com a função que exerce”. Oprofessorestácontente com a escolha. “Digo que não estou decepcionado, pelo contrário. Deus sabe o que faz e, neste momento, não seria diferente”.


4 ESPECIAL

ESPECIAL5

A GAZETA QUINTA-FEIRA, 14 DE MARÇO DE 2013

QUINTA-FEIRA, 14 DE MARÇO DE 2013 A GAZETA

OSSERVATORE ROMANO/AP

JESUÍTA EM UMA NOVA MISSÃO

Assim como seus antepassados, Francisco tem a evangelização como desafio CIDADE DO VATICANO

Jorge Mario Bergoglio é a síntese dos dois principais papáveis que entraram no conclave. O argentino é próximo ao movimento Comunhão e Libertação assim como o cardeal italiano Angelo Scola. É também um latino-americano a exemplo do brasileiro Odilo Scherer. Se os desafios maiores da Igreja eram a crise do catolicismo na Europa e a nova evangelização, buscando enfrentar os problemas culturais existentes na África e na Ásia nada melhor do que a Companhia de Jesus e um papa chamado Francisco para a tarefa. Bergoglio é um homem de 76 anos e não um jovem como muitos apostavam que seria o novo papa. Trata-se de um ortodoxo em termos de doutrina; fiel, portanto à linha de Bento XVI. Não se deve, também, esperar dele mudanças nos dog-

REAÇÕES À ESCOLHA ARGENTINA

mas da Igreja a respeito de fé e moral. Não foi nisso que pensaram os cardeais que o escolheram. Ele é um jesuíta – o primeiro da história a se tornar papa – e “um jesuíta nunca deixa de ser jesuíta, aconteça o que acontecer ele carrega de forma indelével a marca da Companhia de Jesus”, lembra o coordenador do Núcleo Fé e Cultura da Pontifícia Universidade católica de São Paulo (PUC-SP) e professor de teologia, Francisco Borba. Para entender isso é preciso conhecer a história da Companhia de Jesus. Fazia 19 anos que Martinho Lutero havia sido excomungado pelo papa Leão X quando outro papa - Paulo III - confirmou a criação da Ordem em 1540 por meio da bula Regimini militantis Ecclesiae. Foram os jesuítas que enfrentaram a reforma protestante na Europa. Tornaram-se a tropa de

choque de um catolicismo que via multidões passarem para o lado de Lutero. Se Joseph Ratzinger cresceu em uma Baviera católica, por exemplo, isso se deve a esses missionários. Eles criaram o catolicismo na América Latina - José de Anchieta, Manoel da Nóbrega e Antonio Vieira eram jesuítas - e o levaram à Índia, China, Indonésia e Moçambique. Na terça-feira, o filósofo, padre e coordenador internacional da revista Communio, Jean-Robert Armogathe, havia chamado a atenção para a importância que devia ter para a Igreja encontrar uma resposta aos desafios da nova evangelização, tanto na Europa descristianizada, quanto no Oriente e na África. Ontem, após o anúncio do novo papa, Armogathe lembrou o fato de o novo papa ter sido o ordinário dos católicos de rito oriental na Argentina, ou seja, era responsável por atenderespiritualmentemaro-

A PALAVRA DO ESPECIALISTA

“CONTINUIDADE DE FORMA RENOVADA” Vitor Nunes Rosa

Teólogo

O papa Francisco, ontem, em seu primeiro contato com os fiéis católicos na Praça São Pedro: não se deve esperar dele mudanças nos dogmas

nitas, melquitas, coptas, armênios etc. Mais uma vez, portanto, procurou-se em Bergoglio mais do que um missionário, buscou-se um olhar para o Oriente. NOME O nome adotado pelo papa Bergoglio só confirma essa escolha pelas Índias. É lícito pensar que um jesuíta que escolhe o

Dilma

Após a escolha de Francisco como o novo papa, a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República divulgou nota em que a presidente Dilma Rousseff congratulou o novo líder da Igreja Católica.

nome de Francisco quer homenagear um dos fundadores de sua ordem: São Francisco Xavier. Podia escolher o nome de outro fundador: Inácio. Mas não. Quis se chamar Francisco. Por quê? A escolha se explica mais uma vez pelo desafio atual da Igreja. Francisco Xavier deixou Portugal em 1541 e viajou para as Índias com Martim Afonso de Souza.

Em Moçambique, o futuro santo iniciou seu trabalho missionário, convertendo os primeiros africanos ao catolicismo. Depois esteve em Goa, na Índia, na Indonésia, no Japão e na China. Morreu, em 1552, aliás, quando tentava entrarnessepaís,ondeatualmente os cristãos vivem, em sua maioria, a realidade de uma Igreja clandestina, perseguida pelo go-

Futebol e fé

O jornal esportivo argentino “Olé” fez uma brincadeira com o papa Francisco, que é fã do esporte, comparando-o a ídolos do país como os jogadores Maradona e Messi. “La mano de Dios” era o título do “site”, numa alusão ao gol de mão marcado por Maradona na Copa de 1986.

verno comunista. O corpo de Francisco Xavier está em Goa, antiga possessão portuguesa na Índia. Armogathe lembra que as origens italianas de Bergoglio - havia 28 cardeais desse país no conclave devem ter facilitado seu caminho para o trono de São Pedro. “Ele é o sinal para o clero de que a Igreja está entrando em um novo tempo: é um papa velho,

O nome

um sábio, que tem uma vida espartana”, disse o professor Borba. Um novo João XXIII? “Não, não creio”, afirma Borba. “Bergoglio representa os valores da tradição com uma forte presença social. É uma síntese entre Scola e d. Odilo. Fico impressionado com os caminhos e respostas que o Espírito Santo, que Deus dá para a sua Igreja”, disse Borba.

O Vaticano esclareceu que o nome oficial do novo líder é simplesmente papa Francisco, sem o número romano indicando que ele é o primeiro pontífice com esse nome. O nome também será grafado sem o numeral romano nos documentos oficiais.

A escolha mostra uma abertura da Igreja para além da Europa. É uma questão estratégica, do ponto de vista pastoral. A indiferença religiosa vêm tomando conta da Europa, enquanto na América Latina é cada vez maior a presença forte e atuante do cristianismo. O novo papa representa uma tentativa de aproximar a Igreja dos fiéis, de trazer novos diálogos, novos discursos, novas visões da Igreja, mas sem

romper com o que já vinha sendo feito. Apesar de serem diferentes, os papas João Paulo II e Bento XVI caminharam juntos em termos de trabalho, e imagino que o novo papa vai dar continuidade, vai oferecer respostas para os problemas que a igreja vêm enfrentando. É uma continuidade de forma renovada. Ele tem um caráter pastoral focado em trazer a Igreja para dialogar com o mundo contemporâneo.

Obama

O presidente dos EUA, Barack Obama, felicitou ontem, por meio de nota, o papa Francisco.

“O papa é uma promessa”, diz Boff O teólogo Leonardo Boff disse que a escolha do nome de Francisco pelo novo papa diz muito sobre os novos rumos da Igreja. “Eu já fiz a profecia no twitter, há uma semana,queofuturopapaia sechamarFrancisco.Porque Francisco não é um nome, é todoumprogramadeIgreja, uma igreja simples, sem poder, ligada aos pobres, com uma relação totalmente diferente com a natureza”. Para Boff, o novo papa demonstrou que dará centralidadeaopovodeDeus,e não à hierarquia. “Por isso primeiroelepediuqueopovoabençoasseaele,esódepoiséqueelevaiabençoaro povo”. O teólogo afirma que presidir na caridade, como o papa Francisco afirmou que o faria, é a luta ecumênica desde Lutero

até hoje, e representa uma demonstração de fraternidade com todos os povos. Boff disse ainda que o argentino “superou a espetacularização do papa” porque, ao falar pela primeira vez com os fiéis, manteve-se parado, sério, sóbrio, “até parecia temeroso pelo peso do cargo”. Ele também acreditaqueachegadadeumpapa “que vem fora dos muros de Roma, vem da periferia do mundo”, onde habitam 60% dos católicos de todo o mundo, enfatizará as experiências pastorais da Igreja na América Latina, ligadas ao povo, à libertação, à opção pelos pobres e contra a pobreza, ao tema da justiça social e da justiça ecológica. Boff acredita que o novo PapairádescentralizaraIgreja. “Ele é uma promessa.”

Cristina

Pelo Twitter, a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, divulgou sua mensagem a Bergoglio: “Em meu nome, no do governo argentino e em representação do nosso país, quero cumprimentá-lo e expressar-lhe meus parabéns por ter sido eleito.”


6 ESPECIAL

A GAZETA QUINTA-FEIRA, 14 DE MARÇO DE 2013

“É MUITO BOM TER UMA PESSOA DE PERTO” Para arcebispo de Vitória, evangelização é desafio para o papa LEONARDO SOARES

lsoares@redegazeta.com.br DA REDAÇÃO MULTIMÍDIA

O arcebispo de Vitória, dom Luiz Mancilha Vilela, classificou como “significativa” a escolha de um papa da AméricaLatinaedissequea eleição de Jorge Mario Bergoglio foi uma surpresa diante das previsões que apontavam outros cardeais como favoritos. “O Espírito Santo deu um drible em todo mundo e elegeu um argentino”, disse. O líder da Igreja Católica no Estado ressaltou um ponto importante do novo pontífice,percebidologona primeira aparição em público depois de eleito. “Antes de dar a bênção, ele pediu que o povo rezasse por ele.Éumatodefé,nãosóde humildade. Ele crê que o Espírito Santo trabalha no meio daquele povo.” Para o arcebispo, esse é um bom sinal, uma vez que o papa Francisco conhece de perto os problemas so-

ciais. “Acho muito bom, porque ele conhece a AméricaLatina,conheceomundo. Sabe quem é o Brasil, quem são os brasileiros, sabe dos nossos problemas e das nossas virtudes. Então, para nós, foi muito bom ter uma pessoa de perto.”

Escolha do nome

Ao contrário do que muitos sugerem, a denominaçãopodenãotersurgidopor uma proximidade com as características de São Francisco de Assis. São Francisco de Assis, de fato, é um nome

VITOR JUBINI

profético da Igreja. Mas há o nome de um outro santo, São Francisco Xavier, co-fundador da Congregação da Ordem dos Jesuítas e um grande missionário, alguém que se preocupou em evangelizar além das fronteiras. Sendo jesuíta, o papa Francisco bebeu muito dessafonte.Epodetervindodaí a inspiração.

Trabalhador

Era aguardado o anúncio de um papa um pouco mais jovem. Mas, pela figura, ele não me parece uma pessoa frágil. É um descendente de italiano, forte e trabalhador. Se confiaram nele, é sinal de queeledevetersaúde.Além disso, é um homem de Deus e muito bem formado intelectualmente. Para substituir Bento XVI, teria que ter esse feitio intelectual.

Desafios

O grande desafio é justamente a nova evangelização. Com uma linguagem nova, para os nossos tem-

CNBB:Escolha“revigoraaIgreja” ½ ºZ[ijOê[nep ¦pneZñ [p] mZN »eNQZN mZ »Opñ Ne] %º¦»»" pieO\ZJ PJj p jNnZ]fp mj J\ QpQp ]pMe[Zñp\jOenp[Z “OjIehZOp p ®hOj`p”ï ¤ NjnOjMáOeZñhjOp] mp º¦»»ò mZ\ ¨jZ[pOmZ ’Mje[jOò mjNMpnZJ PJj é J\ \Z\j[MZ mj

\JeMp p]jhOep j PJj MZñ mZN iZOp\ NJOQOjj[meñ mZN nZ\ p j]jeçãZ mj J\ ]pMe[Zï ·Z\ ’Mjeñ [jO iOeNZJ PJj [ãZ nZñ [fjnj QjNNZp]\j[Mj Z `jNJíMp «ZOhj §pOeZ »jOhZh]eZò \pN pnfp PJj QZmj Nj jNQjOpO \JeMZ mj]jï

pos. Ele (o papa) é de BuenosAires,conheceohomem modernoeosproblemasdas grandes cidades. Nós sabemos os problemas das periferias. E ele conhece isso.

Pastor de almas

Dom Luiz: “O Espírito Santo deu um drible em todos”

Onovopapapediuqueo público rezasse por ele, antes de dar a bênção. Mostrou ser um verdadeiro pastor, que soube colocar as pessoas para rezarem sobre si. Isso significa que o novo papa sente o povo. Esse é o verdadeiro pastor.

Membros de outras religiões consideram escolha positiva Os líderes de outras igrejas no Estado também comentaram a escolha do novo papa, na tarde de ontem. Para o pastor Evaldo Carlos dos Santos, titular da Primeira Igreja Batista da Praia da Costa, em Vila Velha, a eleição de um papa latino-americano deve ser parabenizada. “Acredito que a Igreja Católica esteja buscando se revitalizar e precisava disso havia muito tempo. A saída do papa Bento XVI já sinalizava esse movimento. É um momento novo, de reformas profundas, revisão de conceitos, de a Igreja enxergar a si mesma para buscar orientação para seus fiéis”, afirma o pastor Evaldo. Assim como ele, Wanderley Rosa – doutorando

OPINIÕES

“O novo papa me pareceu um homem preocupado com a união dos povos e com a paz. Precisamos de pessoas assim, que busquem a harmonia, para combater as desgraças do mundo”

“É um momento marcante. A gente espera e acredita que o novo papa realize um trabalho em benefício da humanidade. Ele é um líder religioso que a gente respeita muito”

“O nome Francisco já remete a simplicidade, fraternidade e meio ambiente. É importante a escolha por um papa não europeu, que viveu uma ditadura militar e conhece de perto a pobreza, a vida real”

OLIVEIRA DE ARAÚJO PASTOR DA PRIMEIRA IGREJA BATISTA DE VITÓRIA

MARIA LÚCIA FARIA PRESIDENTE DA FEDERAÇÃO ESPÍRITA DO ESTADO

WANDERLEY ROSA DOUTORANDO EM TEOLOGIA E DIRETOR DE FACULDADE

“Considero significativa a escolha do nome Francisco. Pode-se esperar um papa interessado tanto na doutrina católica quanto nos aspectos sociais” JEAN FREITAS PASTOR DA IGREJA PRESBITERIANA PRAIA DE ITAPOÃ, VILA VELHA

em Teologia, ex-pastor presbiteriano e diretor da Faculdade Unida, que fica localizada em Vitória e é especializada na área – considera que a eleição de um latino-americano para assumir o comando da Igreja Católica representa uma abertura. “Ele não é europeu, não viveu nos corredores do Vaticano e conhece o mundo, a vida real”, comenta. Maria Lúcia Rezende Dias Faria, presidente da Federação Espírita do Estado do Espírito Santo (Feees), destacou o respeito de todos ao sumo pontífice. “A gente espera e acredita que o novo papa realize um trabalho em benefício da humanidade”, disse. (Com colaboração de Cristiana Euclydes)


ESPECIA7

QUINTA-FEIRA, 14 DE MARÇO DE 2013 A GAZETA

FOTOS: GABRIEL LORDÊLLO

ESPERANÇA

“Foi um sinal de Deus vir com uma blusa de Buenos Aires, terra do papa. Senti no meu coração que o nome seria anunciado aqui” CRISTIANE TELLES PSICÓLOGA

Centenas de pessoas se reuniram no Convento para acompanhar a passagem da cruz e do ícone da Jornada Mundial da Juventude

FIÉIS NO CONVENTO COMEMORAM ANÚNCIO

“O fato de ser latino-americano fomenta a nossa Igreja e também vai aguçar mais pessoas para estarem na Jornada” OSÉIAS AMARAL CORRETOR

Decisão de nome coincidiu com início de Via-Sacra ELTON LYRIO

emorati@redegazeta.com.br

No exato instante em que a fumaça branca saía pela chaminé da Capela Sistina, em Roma, centenas de fiéis católicos, que se reuniam no Convento da Penha, comemoraram com gritos, aplausosecantosdelouvores.Aescolhadonovopapa no Vaticano coincidiu com a passagem pela Grande Vitória da cruz e do ícone da Jornada Mundial da Juventude. O evento, que aconteceráemjulhonoRio de Janeiro, deve ser o primeiro compromisso inter-

nacional de Francisco. O período de uma hora entre o subir da fumaça até o anúncio do nome do cardeal Jorge Mario Bergoglio foi marcado por apreensão eaoraçãodaVia-Sacra.Entre os jovens, houve quem cogitasse que o nome a ser anunciado poderia ser o de dom Odilo Scherer. Tão surpreendente quanto comemorado foi o anúncio do nome do papa. Já no alto do Convento, fiéis correram para a loja de lembranças para ouvir o “habemus papam” e mais aplausos e uma co-

memoração intensa marcaram o momento. Padre Anderson Gomes, responsável por conduzir o momento, anunciou o nome e, em tom de brincadeira,pediuqueosfiéisdeixassemdeladoarivalidadeentre Brasil e Argentina. Mais uma coincidência: o papa Francisco era anunciado enquanto os fiéis estavam no maior santuário franciscano do Estado ALEGRIA O sacerdote lembrou que a escolha do nome já mostra a que veio o novo

papa, destacando que São Francisco de Assis foi um santo renovador da Igreja e marcado pela sua simplicidade. “É um novo momento. Não que a Igreja vivesse em ostentação, mas São Francisco lembra simplicidade e isso vai vir à tona no pontificado”, acredita. O padre considerou providencial a escolha ter saído exatamente no momento em que se começava a Via-Sacraelembrouquepara os católicos o horário das 15 horas é considerado a hora da misericórdia, por ser a hora da morte de Cris-

to.Eletambémafirmouque um papa latino-americano deve dar um novo vigor na Igreja do continente, assim como na Jornada Mundial daJuventude.PadreAnderson acredita que a presença do novo papa trará, inclusive, mais argentinos à jornada. “Acredito que muitos argentinos virão e pessoas da América Latina, já que deve serograndeeventodopapa fora da Europa”.

“É um momento em que se revela a vontade de Deus. Estávamos em vigília para que os cardeais fossem dóceis ao espírito” IRMÃ MARIA MÃE ADMIRÁVEL

gazetaonline.com.br /mundo. Confira em vídeo a comemoração dos católicos a notícia da fumaça branca

Símbolos da Jornada seguem hoje para Cachoeiro A passagem da cruz e do ícone da Jornada Mundial da Juventude pela ArquidiocesedeVitóriacomeçou no início da manhã de ontem,emFundão,eseestendeu até a noite com show e vigília em Vila Velha, no evento intitulado Bote Fé. Hoje, a peregrinação continua por municípios da Diocese de Cachoeiro.

Ontem pela manhã, a cruz e o ícone seguiram em carreata em direção à Catedral Metropolitana, em Vitória, onde foi celebrada uma Missa Solene pelo arcebispo dom Luiz Mancilha Villela. Na homilia, o arcebispo lembrou da violência contra a juventude para a qual pediu um basta. “O sonho

de Deus é uma sociedade conciliada”, enfatizou dom Luiz durante o sermão. Ele também relembrou o simbolismo da cruz para os católicos, que é de vitória, e pediu para que os fiéis repetissem: “Pela cruz nós venceremos”. Por volta das 14 horas, a carreata seguiu para o Convento da Penha, onde

aconteceu a Via-Sacra. Para Deidilaura Teixeira, coordenadora do evento, a coincidência com a data da escolha do papa foi um presente de Deus para a juventude. “É algo que marcou a nossa história. Na última vez subimos com as réplicas, hoje com os símbolos originais numa data tão especial”, disse.

BOTE FÉ CACHOEIRO 6h: Chegada da cruz e do ícone em Anchieta e início da peregrinação pelo litoral. 19h: Carreata de Safra a Ilha da Luz. 20h: Celebração Eucarística (Ilha da Luz). 22h: Show com a Banda Dominus. 0h: Procissão silenciosa e luminosa até a Catedral de Cachoeiro.

“Estou vibrando por dentro. Não estava cogitado, mas Deus escolheu Francisco, nome de um santo pelo qual a gente tem um apreço muito grande” IVANI GOMES APOSENTADA


8 ESPECIAL

A GAZETA QUINTA-FEIRA, 14 DE MARÇO DE 2013

ELE ANDA DE ÔNIBUS E GOSTA DE COZINHAR Novo pontífice é conhecido por uma vida sem ostentações Jorge Mario Bergoglio é o primeiro pontífice nascido num país em desenvolvimento a ser escolhido para liderar os católicos. O papa Francisco é um jesuíta que atuava como arcebispo da Arquidiocese de Buenos Aires desde 1998. O novo pontífice tem ampla experiência pastoral na Argentina, mas não está claroquantainfluênciatem na Cúria romana, o órgão administrativo do Vaticano. O novo chefe da igreja tem 76 anos. Nascido em Buenos Aires, o novo pontíficefoiordenadopadrejesuíta em 1969. Ele se tornou bispo em 1992. Bergoglio tornou-se cardeal em 2001, pelo papa João Paulo II. Pessoas ligadas a Bergoglio dizem que ele evita as ostentações de um cardeal e prefere ser chamado de “padre Jorge”. Ele é conhecido por viajar para paróquias e igrejas em ônibusdelinhaoudemetrô, vestido como um padre comum, além de preparar suas próprias refeições. Para ele, as questões sociais, e não os confrontos doutrinários, são a questão essencial da igreja. No passado,onovopapaacusouos líderes da igreja de hipocrisia e de esquecer que Jesus Cristobanhouleprososefez refeições com prostitutas. Ele buscou uma igreja que olhasse para o mundo exterior ao invés de uma igreja que se fecha em templos. Bergoglio tem sido um

NATACHA PISARENKO/AP/07.08.2009

Em foto de 2009, Jorge Bergoglio celebra uma missa ao ar livre diante da Igreja de San Cayetano, em Buenos Aires

defensor dos padres que trabalham em favelas - as “villas” - que cercam a capital Buenos Aires. Ao mesmo tempo,eletemumavisãoortodoxadostemassociais,como o casamento gay, aborto e eutanásia. Em 2010, Bergoglio se opôs fortemente à leiqueautorizouocasamento gay na Argentina. Bergoglio se concentrou emtrabalhossociais,masreduziuumpoucosuastarefas por causa da idade e em razão dos efeitos da retirada de um pulmão, por causa de umainfecção,quandoainda era adolescente.

EZEQUIEL PONTORIERO/AP/12.12.2008

Após missa, o cardeal cumprimenta Cristina Kirchner

Ditadura argentina é lembrança controversa O legado do novo papa Jorge Bergoglio como cardealincluiseusesforçospara reparar a reputação de uma igreja que perdeu muitos seguidores por não desafiar abertamente a ditadura argentina entre 1976 e 1983. Muitos argentinos ainda se ressentem da falha reconhecidapelaIgrejaCatólica,

que não enfrentou um regime ditatorial que estava sequestrando e matando milhares de pessoas com a justificativa de procurar eliminar os “elementos subversivos” da sociedade. Essa é uma das razões pela qual mais de dois terços dos argentinos dizem ser católicos, mas menos

de 10% assistem regularmente à missa. SobaliderançadeBergoglio, os bispos argentinos fizeramumpedidodedesculpas coletivo em outubro de 2012paraasfalhasdaIgreja em proteger seu rebanho. Mas a declaração culpou a violência da época em medida quase igual tanto para

a junta militar quanto para seus inimigos. "Bergoglio tem sido muito criticado por causa das violações dos direitos humanos durante a ditadura, mas ele também sempre criticou as guerrilhas de esquerda, ele não se esqueceu desse lado”, disse Sergio Rubin, seu

AP/13.01.2007

Em encontro com Bento XVI no Vaticano

biógrafo oficial. O próprio papel de Bergoglio na chamada Guerra Sujatemsidoobjetodecontrovérsia. Pelo menos dois processos judiciais envolvemdiretamenteBergoglio. Um deles examinou a tortura de dois sacerdotes jesuítas que foram sequestrados em 1976 das favelas onde defendiam a Teologia da Libertação. Um deles acusou Bergoglio de entregá-lo à

junta militar. Os dois padres foram libertados depois de Bergoglio, nos bastidores, promover uma ação extraordinária para salvá-los, que incluiu persuadir a família do ditador Jorge Videla e rezar missa aos doentes na casa do líder da junta militar, onde privadamente ele apelou por misericórdia. (Associated Press)


Caderno especial Papa Francisco