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´ Diplomatica Nº13 Abril/Junho 2012 €4 (Cont.)

business & diplomacy

China

Ilumina Portugal Entrevista exclusiva Diplomática 13 • abril/junho 2012

Zhang Beisan Em Destaque: Paul Schmit Luxemburgo

Bernarda Gradišnik Eslovénia

Bouza Serrano Portugal

Dossier

África Memória

25 Abril

Textos dos Embaixadores: Alemanha, Bélgica, Chipre, França, Itália, Kuwait, Malta, Reino Unido, Rússia e Turquia

With English & French Texts

1 • Diplomática - Junho/Julho 2008


Assuntos Summary

Espaço Diplomático – convidados, os embaixadores da Alemanha, Bélgica, Chipre, França, Itália, Malta, Reino Unido, Russia, Turquia e Kuwait fizeram questão de evidenciar, através dos seus textos, a importância da evolução da política mundial. Diplomatic Area – invited, the ambassadors of Germany, Belgium, Cyprus, France, Italy, Malta, UK, Russia, Turkey and Kuwait made a point of showing, through their texts, the importance of the evolution of world politics

5

Presidente da República na Finlândia – Construindo novas pontes President of Portugal in Finland – Building new bridges

26

Embaixador da China em Portugal – China pode ser o portal privilegiado da expansão de Portugal na Ásia Ambassador of China in Portugal – China may be the privileged site of the expansion of Portugal in Asia

28

Durão Barroso – Doutor Honoris Causa pela UTL Durão Barroso – Doctor Honoris Causa by UTL

34

Economia -Patrick Siegler-Lathrop – Inverno ou Primavera? Economy -Patrick Siegler-Lathrop – Winter or spring?

37

Mariano Rajoy e Pedro Passos Coelho – Portugal e Espanha analisam combate à crise Mariano Rajoy, and Pedro Passos Coelho – Portugal and Spain analyze combat to the crisis

40

Embaixador José de Bouza Serrano – O guardião dos embaixadores acreditados em Portugal Ambassador José Bouza Serrano – The guardian of the ambassadors accredited in Portugal

42

Embaixadores de Portugal apresentam cumprimentos ao Presidente da República Ambassadors of Portugal presented greetings to the President of Portugal

48

Embaixador do Luxemburgo – Representante de um país com uma história muito rica e antiga Ambassador of Luxembourg – Representative of a country with a rich and ancient history

50

Embaixadora da Eslovénia – Fala-nos de si, do mundo e de Maribor, Capital Europeia da Cultura Ambassador of Slovenia – Speaks abaut herself, the world and Maribor

56

Presidente Cavaco recebe credenciais de novos embaixadores Cavaco President receives credentials of new ambassadors

62

Nelson Mandela, aos 93 anos, continua a irradiar uma surprendente vitalidade Nelson Mandela, age 93, continues to irradiate a surprising vitality

64

A sede permanente da CPLP – Uma aposta para o futuro The permanent headquarters of the CPLP – A bet for the future

67

Passos Coelho em Moçambique – Em foco Cahora Bassa Passos Coelho in Moçambique – Focus Cahora Bassa

70

Lusofonia – Palmira Tjipilica - Um resgate afirmativo da mundialização das identidades Lusofonia – Palmira Tjipilica - A positive rescue of the globalization of identities

72

IPDAL comemora VI Aniversário IPDAL celebrates VI anniversary

74

Le Palais de Santos na embaixada de França Le Palais de Santos in the french embassy

78

Made in Portugal -Tapeçarias Ferreira de Sá Made in Portugal -Tapestries Ferreira de Sá

80

Dia Nacional -Emiratos Árabes Unidos – 40 anos a caminho da união National day -United Arab Emirates – 40 years on the road to union

84

Gastronomia -Carlos Medeiros – Os segredos do Aura Gastronomy -Carlos Medeiros – The secrets of AURA

86

Os portugueses na Orquestra de Jovens da União Europeia The Portuguese in the Youth Orchestra of the European Union

88

Memória: A arte do 25 de Abril Memory: The art at the 25th of April

90

Traduções Translation

93

DIRECTOR: Maria da Luz de Bragança PRODUÇÃO: César Soares PROPRIEDADE: Maria da Luz de Bragança EDIÇÃO: Gabinete 1 Editor nº 211 326. Av. Engº Duarte Pacheco, nº1 - 4º Esq. – 1070-100 Lisboa. Marketing & Publicidade: Gabinete 1 - e-mail:gabinete1@gabinete1.pt Tel.: 21 322 46 60 a 76 Fax: 21 322 46 79 IMPRESSÃO: Madeira & Madeira, S.A. DISTRIBUIÇÃO: Logista - Alcochete - Telefone: 21 926 78 00 Fax: 21 926 78 45 ISSN 1647-0060 – Depósito Legal nº 276750/08 – Publicação registada na Direcção Geral da Comunicação Social com o nº 125395

4 • Diplomática - abril/junho 2012


2011 Odisseia no Mundo

Russia Reino Unido Alemanhã Bélgica França

It

á

li

a Turquia Malta

Chipre

Kuwait

Convidados a pronunciarem-se sobre os acontecimentos de 2011 e possíveis previsões para o corrente ano, os Embaixadores da Alemanha, Bélgica, Chipre, França, Itália, Malta, Reino Unido, Russia, Turquia e Kuwait fizeram questão de evidenciar, através dos seus depoimentos, a importância da evolução da política, em textos que são, indubitavelmente, de leitura indispensável, para entendermos, de modo claro, a politica social e económica dos seus respectivos países.

Invited to comment on the events of 2011 and possible forecasts for the current year, the Ambassadors of Germany, Belgium, Cyprus, France, Italy, Malta, UK, Russia,Turkey and Kuwait explained through their statements the important policy developments of the year. The texts are undoubtedly essential reading in order to understand clearly the social and economic policy of their respective countries.

Abril/junho 2012 - Diplomática • 5


Espaço Diplomático

Helmut Elfenkämper - Embaixador da Alemanha

Os acontecimentos mais marcantes 2011

Mesmo para os tempos atribulados que vivemos, 2011 foi um ano invulgar, que exigiu muito da política externa e definiu algumas direções novas na política interna. Foi um ano de alterações profundas também para nós na Europa. Crises agudas e situações de risco em diversas regiões do mundo colocaram a diplomacia perante missões particulares. Um acontecimento

O desfecho deste processo histórico ainda está

que, para além disso, também teve consequên-

em aberto. A Europa procura dar o seu con-

cias políticas no meu país – a República Fede-

tributo, de forma a que as oportunidades que

ral da Alemanha – foi o terrível acidente com o

advêm deste levantamento sejam positivamente

reator de Fukushima. Na sua sequência, o go-

aproveitadas. Temos um interesse próprio e

verno federal anunciou o fim da energia atómi-

elementar em que existam sociedades abertas

ca na Alemanha até ao ano 2022. A Alemanha

e prósperas a Sul do Mediterrâneo. O governo

pretende, assim, abandonar a energia nuclear

federal fez ofertas atraentes para apoiar estas

mais rapidamente do que estava planeado.

sociedades, através de parcerias de transfor-

A revolta no mundo árabe - e, assim, na nos-

mação abrangentes. Para o nosso empenho

sa vizinhança imediata - constitui uma enorme

nestes países, necessitaremos de muita persis-

oportunidade, mas também um enorme desafio.

tência.

6 • Diplomática - Abril/junho 2012


Desde o início do ano 2011 que a Alemanha

tem, em conjunto com Portugal, responsabilidades particulares, na qualidade de membro não-permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas, nomeadamente em questões tão importantes como a independência do Sul do Sudão, nos esforços para a obtenção de estabilidade e segurança no novo Estado e na região, ou no âmbito do desarmamento e da

A nossa estratégia não se esgota na

não-proliferação, temas que a Alemanha tem

austeridade, mas aposta em impulsos

acompanhado de forma particularmente ativa.

inteligentes para um crescimento susten-

Atualmente concentramos todas as nossas for-

tado, o que inclui, em primeira linha, o

ças, juntamente com Portugal, para demover o

alargamento do mercado interno a novos

regime sírio de persistir na impiedosa opressão

campos, a criação de um fundo de cres-

do seu próprio povo.

cimento europeu e a celebração de mais

Contudo, especialmente marcante para um

acordos de comércio livre

Embaixador alemão em Lisboa em 2011 foram os desenvolvimentos no âmbito da crise da dívida na Europa. O governo federal contribuiu significativamente, durante todo o ano, não apenas para superar a crise aguda, como ainda para elaborar uma perspetiva para a Europa do futuro, um caminho para uma união de estabili-

sentido de tornar Portugal mais competitivo

dade. Este será um trabalho para continuar. O

e solucionar a sua crise da dívida. Temos um

trabalho que se faz de uma cimeira para a outra

grande respeito pelos esforços envidados. Isto

constitui um esforço contínuo, de perseverança,

tem sido constantemente sublinhado por políti-

com vista a construir as novas bases para uma

cos alemães nas suas visitas a Portugal no ano

Europa da competitividade, da solidez e da so-

passado, contribuindo para encorajar o país

lidariedade. Para a Alemanha, na qualidade de

a prosseguir este caminho. Não pretendemos

maior economia da Europa, isto significa uma

com isto exigir aos nossos parceiros condições

responsabilidade particular, que o país assume.

demasiado rigorosas para aumentar a discipli-

Para mim, como Embaixador alemão em Lisboa,

na orçamental, nem negligenciar a questão do

isto também significa uma comunicação contí-

crescimento. A nossa estratégia não se esgota

nua e uma mediação ininterrupta das nossas

na austeridade, mas aposta em impulsos inteli-

posições, face a uma opinião pública, em parte,

gentes para um crescimento sustentado, o que

também crítica. Não existem soluções simples

inclui, em primeira linha, o alargamento do mer-

e rápidas para problemas que foram criados ao

cado interno a novos campos, a criação de um

longo de muitos anos, apesar de estas serem

fundo de crescimento europeu e a celebração

frequentemente exigidas. A Alemanha também

de mais acordos de comércio livre.

se tem mostrado solidária para com a Europa –

A mensagem que, na minha opinião, mais im-

só para o programa de apoio a Portugal, con-

portou transmitir no ano 2011, assim como nos

tribui com 17,4 mil milhões de euros – e assim

próximos anos, é que não poderá haver um bom

continuará no futuro. Contudo, a solidariedade,

futuro para o meu país sem a integração euro-

por um lado, tem de ser acompanhada pelos

peia. Não queremos uma Europa alemã, mas

esforços de consolidação pelo outro.

sim uma Alemanha europeia. A Europa tem de

O governo português partilha das nossas opi-

continuar a consolidar-se na crise, e continuará,

niões de base e deu passos corajosos, no

e no fim sairá desta crise fortalecida.

n

Abril/junho 2012 - Diplomática • 7


Espaço Diplomático

Ali Kaya Savut - Embaixador da Turquia

A União Europeia e a Turquia: Um futuro comum

Há certos momentos em que as pessoas decidem tomar as rédeas do destino nas suas próprias mãos e deixar a sua marca na história. 2011, um ano já por si agitado, pode ser facilmente rotula-

esperança para a democracia na região. Inspirada

do como um ano assinalável, simplesmente pela

pelo lema de Kemal Atatürk "paz em casa, paz

perceção do quanto foram profundas as ondas de

no mundo", a Turquia acredita que, para servir de

mudança que afetaram o Médio Oriente e o Norte

fonte de inspiração ás pessoas da região, tem de

de África. Ainda que os protestos do povo, nas

manter, dentro das suas fronteiras, uma democra-

ruas e praças das cidades, já tenha redesenhado

cia estável, um estado de direito forte, o respeito

o mapa político da região, a Transformação Arabe

pelos direitos humanos e uma economia de mer-

continua a ser um trabalho em progresso em prol

cado que funcione bem.

da democracia e espera-se que dê os seus frutos

Nesse sentido, em 2011, a Turquia organizou elei-

a longo prazo, independentemente do quanto a

ções legislativas, nas quais votaram mais de 43

situação pareça ser caótica neste momento.

milhões de pessoas. As reformas continuaram a

Neste momento de conjuntura crítica da história,

ser implementadas num vasto espectro de áreas,

a Turquia, situada numa geografia peculiar, onde

incluindo o sistema judicial, direitos das minorias

a brisa das ondas de mudança também foi real-

e direitos humanos.

mente sentida, esforçou-se para fazer eco da

A Turquia também mostrou uma performance eco-

voz do povo nas ruas, e manter a mensagem de

nómica muito forte em 2011. Após um

8 • Diplomática - Abril/junho 2012


crescimento de 8,9% em 2010, estima-se que

a economia Turca apresente de novo um crescimento significativo de 7,5%, en 2011. Este crescimento também reduziu a taxa de desemprego de 11,4% para 9,2%, criando mais de 1 milhão de novos empregos. As exportações da Turquia atingiram o seu nível mais alto, 134 mil milhões de euros, apesar da retração do principal mercado de destino de exportação da Turquia, nomeadamente a Europa. Toda esta expansão foi atingida com uma rigorosa disciplina fiscal, mantendo um défice orçamental de 1,5% e uma dívida pública de 40%. Apesar de todos estes desenvolvimentos positivos, existe uma área na qual a Turquia não conseguiu fazer qualquer progresso significativo em 2011, foi no seu processo de adesão à UE. Até 2011, a Turquia conseguiu abrir 14 capítulos de negociação e só fechou um único capítulo. No ano passado, nenhum novo capítulo foi acrescentado a essa lista durante as presidências húngara e polaca da UE.

Neste momento de conjuntura crítica da história, a Turquia, situada numa geografia peculiar, onde a brisa das ondas de mudança também foi realmente sentida, esforçou-se para fazer eco da voz do povo nas ruas, e manter a mensagem de esperança para a democracia na região.

A questão não resolvida de Chipre, continuou a ser usada como pretexto para bloquear vários capítulos, apesar do forte estímulo e apoio da Turquia para que as negociações em curso pudessem alcançar uma solução justa e duradoura na ilha. Mais importante ainda, derivado às preocupações políticas de curto prazo, alguns grandes Estados-Membros continuaram a sua resistência ao processo de adesão da Turquia. A Europa, confusa face ao agravamento da sua própria crise financeira, não tem sido capaz de mostrar uma

viar a crise económica actual.

visão política suficiente, nem vontade para lidar

Para além disso, a adesão da Turquia à UE, seria

com a adesão da Turquia.

uma resposta significativa para o aumento preo-

Na verdade, se o problema fosse tratado com uma

cupante da xenofobia, do racismo, dos preconcei-

perspetiva de visão de longo prazo, a situação

tos contra outras culturas e religiões na Europa.

seria diferente. Ter-se-ia percebido que o grande

Como membro, a Turquia, com o seu valioso pa-

e crescente mercado doméstico da Turquia, a

trimónio histórico e cultural, aproximaria a União

maturidade e a dinâmica do setor privado, o am-

Europeia do Cáucaso, da Ásia Central e do Médio

biente de investimento liberal e seguro, a oferta

Oriente e seria um importante contributo para

de alta qualidade e o custo efetivo da força de

a promoção dos valores da UE nessas regiões,

trabalho, assim como a infraestrutura desenvol-

onde presenciamos uma grande transformação

vida, negam todas as preocupações de que uma

neste momento.

eventual adesão turca, seria um fardo para a UE.

Em 2012, esperamos que, uma atmosfera cres-

Também ajudaria a UE a alcançar uma vantagem

cente de confiança prevaleça entre os dois lados

competitiva, em relação a mercados emergentes

e que novos passos visionários serão feitos para

na Ásia e América, que seria benéfica para ali-

tornar a integração uma realidade.

n

Abril/junho 2012 - Diplomática • 9


Espaço Diplomático

Simon Pullicino – Embaixador de Malta

Malta and the new Libya On 23rd January 2012, the Maltese Prime Minister,

authorities denounced the atrocities committed by the

the Hon. Lawrence Gonzi, in a short but significant

Gaddafi regime, made it clear that Gaddafi’s departu-

ceremony, formally returned two Libyan Air Force

re was inevitable and were among the first to recog-

Mirage jets to the Chief of the Libyan Armed Forces,

nise the NTC as the sole and legitimate interlocutor

Brigadier Sager Adam Al Giroshi. Eleven months

of the Libyan people and eventually as the ad hoc

earlier, on 21st February 2011, just four days after

government of Libya.

the start of the revolution, the pilots of these jets had

In the same spirit, Malta took all necessary action to

defied orders by the regime to bomb protestors and

ensure the effective application of the no-fly zone on

instead flew low to avoid radar detection and defected

Libya as imposed by the United Nations Security Cou-

to Malta. This incident made world news because it

ncil without joining in the military operations and parti-

confirmed, beyond any doubt, that the Gaddafi regime

cipated actively in the International Contact Group on

was targeting innocent civilians indiscriminately. Even

Libya, which was set up to provide leadership and an

though at that time the UN sanctions had not yet been

overall political direction to international efforts to find

approved and the international community had not yet

lasting solutions to the then-evolving crisis in Libya.

intervened, Malta felt morally bound by its traditional

Undoubtedly, the biggest impact of the Libyan uprising

friendship to the Libyan people and resisted persistent

was on the humanitarian side. It started with a mass

pressure from the Libyan regime to return the planes.

exodus of the terrified migrant population and conti-

This incident, which fortified the aspirations of the

nued with a protracted armed struggle with substantial

Libyan people, encapsulates the position taken by

casualties. The Maltese Government acted swiftly and

Malta from the very start of the crisis. The Maltese

effectively by providing humanitarian aid and assis-

10 • Diplomática - Abril/junho 2012


tance. With the crisis at its very early stages, Malta assisted 100 of the 193 UN countries evacuating over 21,000 foreigners from Libya through Malta. It also authorised a semi-military operation in transporting Libyan refugees and injured from Tunisia to Misrata and Benghazi. As the struggle intensified, Malta transformed itself into a hub of humanitarian activity, evacuating the wounded, providing urgent medical assistance, ferrying people and critical supplies and serving as a base for several international humanitarian agencies to deliver aid to the Libyan people. In spite of its limited resources, but living up to its re-

The Maltese Government acted swiftly and effectively by providing humanitarian aid and assistance. With the crisis at its very early stages, Malta assisted 100 of the 193 UN countries evacuating over 21,000 foreigners from Libya through Malta. It also authorised a semi-military operation in transporting Libyan refugees and injured from Tunisia to Misrata and Benghazi

putation of being a truly hospitable nation at the cross roads of the Mediterranean, Malta treated numerable cases of wounded people but some cases stand out, such as the case of Shwejga Mullah, an Ethiopian

nments, whose nationals were evacuated through

nanny, who was discovered weak and alone in the

Malta, expressed their appreciation.

home abandoned by Muammar Gaddafi’s son Han-

The US Secretary of State, Hilary Clinton, in a letter

nibal. Many newspapers claimed that Hannibal’s wife

to Malta’s Foreign Minister acknowledged Malta’s

threw boiling water on her, causing horrific scalds and

“significant and generous contribution” and continued

burns, when she did not manage to stop Hannibal’s

that “Malta’s steadfast commitment to the protection

daughter from crying and eventually refused to beat

of human rights, the Libyan people, and the Mediter-

the child. The Maltese Government brought her to

ranean region is laudable”.

Malta, gave her all the treatment and attention she

Maltese attitude to the crisis is best summed up by

required at hospital and also offered her asylum.

remarks made by the Deputy Prime Minister and Mi-

Malta’s stance earned the appreciation of the most

nister of Foreign Affairs, the Hon. Tonio Borg: Our atti-

prominent NTC representatives who visited Malta on a

tude to our neighbouring country at the dawn of a new

number of occasions. Besides providing medical and

era should not be inward-looking, searching for what

humanitarian assistance, the Maltese authorities also

advantages can be gleaned from this situation, but

offered an assistance package to the new Libyan ad-

must be directed by a genuine attempt at assisting our

ministration consisting mainly of a number of scholar-

neighbours with the necessary tool-kit for constructing

ships. Malta was also one of the very first countries to

a democratic state; as the nearest EU member state,

have a fully operational Embassy in Tripoli, apart from

this should be our natural vocation and mission not

the Office in Beghazi, as a further gesture of support

in any condescending or patronising way, but our of

to a free Libya. In November, Prime Minister Lawren-

sincere wish to help Libya to help itself.

ce Gonzi became the first Prime Minister to hold talks

2011 will remain forever linked with the Arab Spring.

with the then-newly appointed interim Prime Minister

The prevailing vulnerability to the long-standing dic-

El Keib during which it was agreed the Maltese-Libyan

tatorships in Tunisia, Egypt and Libya was abruptly

Joint Commission will be reconvened soon to tackle a

and unexpectedly overpowered by the unwavering

number of priority areas including stability and secu-

determination of the masses to defend their legitimate

rity in Libya, the setting up of democratic institutions,

ambitions for a better future. The same countries are

economic affairs and illegal immigration.

now faced with new realities and enormous challen-

With this crisis, Malta’s reputation as the Nurse of

ges as they begin to address the complex and sensi-

the Mediterranean, (earned at the height of the First

tive task of rebuilding their countries. No stone should

World War, when it was transformed into a hospital to

be left unturned to ensure that in 2012 their genuine

treat some 80,000 wounded soldiers from the Gallipoli

aspirations of peace, democracy and prosperity beco-

campaign) was reaffirmed and many foreign gover-

me reality.

Abril/junho 2012 - Diplomática • 11


Espaço Diplomático

Pavel Petrovskiy – Embaixador da Rússia

Resultados da política externa da Rússia em 2011

No plano internacional o ano de 2011 foi rico em acontecimentos, incluindo os de carácter ambíguo, e em alguns casos mesmo dramáticos. Basta mencionar o aprofundamento da crise económico-financeira global, queda de regime de Muammar

dos que estamos no início duma etapa qualitativa-

Kaddafi, agravamento da situação em torno da

mente nova da integração da Rússia no sistema

Síria e Irão, avaria na central atómica japonês

económico mundial.

“Fukushima”. Todavia, na minha opinião, em

Um êxito muito importante para a Rússia foi o

geral o ano de 2011 não foi mal. O nosso país vai

avanço dos processos de integração no espa-

lembrá-lo por causa duma série de êxitos na esfe-

ço da Comunidade dos Estados Independentes

ra da política externa. Venho enumerar só alguns

(CEI). Em particular, na base da União Aduaneira

deles.

formou-se o Espaço Económico Uno (EEU) de

Foi muito significante a adesão da Rússia à Orga-

Rússia, Bielorrússia e Cazaquistão.

nização Mundial de Comércio. Estamos convenci-

É de destacar positivamente a consolidação das

12 • Diplomática - Abril/junho 2012


posições dos países do grupo BRICS (Brasil,

Rússia, Índia, China, África do Sul). Uma associação, que no início teve um carácter informal observando somente os assuntos económicos e financeiros, agora BRICS está a adquirir um caráter muito mais diversificado passando a discutir as questões da política atual. No campo das relações russo-americanas conseguimos fazer bastante: entraram em vigor o Tratado sobre a redução das armas estratégicas e o Acordo sobre a cooperação na esfera da energia atómica. A Comissão Presidencial Bilateral Russo-Americana, o papel importante de coordenação da qual desempenham Serguey Lavrov e Hillary Clinton, tem trabalhado intensamente.

É de destacar positivamente a consolidação

Devemos destacar o progresso na matéria de

das posições dos países do grupo BRICS

transição gradual ao regime sem vistos entre

(Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul).

a Rússia e a União Europeia. Durante a cimei-

Uma associação, que no início teve um

ra Rússia-UE realizada 14-15 de Dezembro de

carácter informal observando somente os

2011 em Bruxelas foi dada a luz verde para a

assuntos económicos e financeiros, agora

realização duma série dos passos conjuntos, a

BRICS está a adquirir um caráter muito mais

implementação dos quais dará a possibilidade de

diversificado passando a discutir as ques-

começar a elaboração do Acordo sobre o regime

tões da política atual.

sem vistos. Lamentamos o facto que uma séria de problemas internacionais, nos quais a Rússia está diretamente envolvida, foram deixados para o ano 2012. Antes de mais nada é o tema da defesa antimíssil na Europa. Não conseguiremos nos livrar deste problema caso não chegarmos ao acordo com os EUA (para já é a situação de impasse por causa da falta da vontade de Washington tomar em consideração os nossos interesses nacionais), ou realizarmos um conjunto de meios de carácter técnico-militar anunciados pelo Presidente Dmitriy Medvedev no dia 23 de Novembro de 2011. Estamos preocupados cada vez mais com o que está a acontecer em torno do programa nuclear iraniano. Achamos que tanto Teerão como a AIEA

veis, independentes e prósperos. Infelizmente, os

precisam de envidar esforços conjuntos para e

acontecimentos na região de Médio Oriente, em

muito mais para livrar-se de todos os problemas

particular, na Síria e no Egito, adquirem o caráter

não resolvidos. No entanto, o caminho de pressão

cada vez mais imprevisível e perigoso.

dura e sanções ao Irão, na nossa opinião, leva ao

Deixe-me sugerir com uma certa parte de otimis-

impasse.

mo que no 2012 vai aumentar significativamente

Quanto à “Primavera Árabe”, olhamos com a

o número de acontecimentos positivos e animado-

compreensão a expressão de vontade dos povos

res tanto para a Rússia como para a Comunidade

árabes, queremos ver os Estados da região está-

Mundial em geral.

n

Abril/junho 2012 - Diplomática • 13


Espaço Diplomático

Jean-Michel Veranneman de Watervliet – Embaixador de Bélgica

2011, Ano da Formação de um novo Governo na Bélgica

A Revista Diplomática propôs-me escolher um tema

quase igual: os Flamengos que representam cerca de

que marcou o ano de 2011. A meu ver, no plano

60% da população e os Valões 40%. Existe também

mundial, o ano transato foi marcado pelas revoluções

uma pequena comunidade de língua alemã. Os Fla-

no mundo árabe, a queda de vários tiranos ou Presi-

mengos, que vivem no norte do país, falam a mesma

dentes autoritários, que esperemos, tenha continuida-

língua (o Neerlandês) que os Holandeses, embora

de no decorrer do ano de 2012, no sentido de serem

com um sotaque diferente (como os Portugueses e

substituídos por democracias eleitas e tolerantes para

os Brasileiros) e os Valões, do sul, o françês, a língua

com as minorias religiosas e outras.

valã tendo praticamente desaparecido. As duas

Mas como já existem muitos comentários acerca

grandes comunidades opõem-se por razões económi-

deste assunto, permitam-me pronunciar sobre o meu

cas, culturais e históricas quase desde que a Bélgica

país. Formações de novos governos verificam-se no

conquistou a sua independência dos Holandeses, em

mundo quase todas as semanas mas, no caso da

1830. Portanto, a independência da Bélgica apenas

Bélgica, tem sido um pouco diferente. Muitos amigos

consagrou um estado de fato: os Belgas, já desde a

têm-me colocado a mesma questão: como é que um

Idade Média, viviam juntos, dependentes de reis ou

país ocidental pode funcionar, durante esta interminá-

imperadores longínquos: espanhóis, austríacos, fran-

vel crise, 544 dias sem governo? E sem violência...

ceses ou holandeses.

É do conhecimento de todos que a Bélgica é com-

A Bélgica foi o único país da Europa a ser ocupado

posta por duas comunidades linguísticas de tamanho

duas vezes pela Alemanha durante as duas Guerras

14 • Diplomática - Abril/junho 2012


Mundiais, o que contribuiu ainda mais para o agra-

vamento das relações entre as duas comunidades

Outro fator de estabilidade, mesmo na

dado que a perceção em relação a estes trágicos

ausência de um governo formalmente

acontecimentos foi diferente.

instalado com plenos poderes, foi o fato

O Estado Belga, criado em 1830, era unitário e cen-

do novo Parlamento, eleito em 2010, ter

tralizador, tendo como único idioma oficial o francês.

prestado juramento, assumindo, de ime-

No entanto, a partir do final do Século XIX, o Neerlan-

diato, o controlo democrático dos assun-

dês fez um impressionante come back na Flandres,

tos correntes do governo federal.

tendo-se tornado a língua oficial nessa região. Desde os anos 70 do Século XX, a Flandres e a Valónia conquistaram paulatinamente uma autonomia políti-

res, foi o fato do novo Parlamento, eleito em 2010, ter

ca e económica. É possível estabelecer um grau de

prestado juramento, assumindo, de imediato, o con-

comparação entre esta autonomia e a dos Estados

trolo democrático dos assuntos correntes do governo

americanos relativamente ao governo federal. Ou

federal. Este, sob pressão dos acontecimentos, teve

seja, abrange quase todos os aspetos da vida em

que asumir a Presidência rotativa da UE, que foi um

comum, como a educação (inclusive a universitária),

sucesso, e foi levado a tomar determinadas decisões

a cultura, os transportes, a promoção das exporta-

importantes, tais como o envio de aviões de combate

ções e determinados poderes fiscais e económicos.

F16, os quais contribuíram para o bloqueio das forças

A competência do governo federal belga é limitada

aéreas de Kadafi em conformidade com a Resolução

às finanças, à justiça, à defesa, às relações exterio-

relevante do Conselho de Segurança da ONU.

res e a uma parte das competências económicas. As

O governo federal que se instalou (finalmente) em

restantes pastas são da competência das regiões da

Novembro tem duas tarefas: cumprir as medidas

Flandres, da Valónia ou de Bruxelas. Como a capital

drásticas impostas a todos pela crise do Euro e

tem uma grande maioria de francófonos, existe uma

alargar ainda mais o leque de competências a se-

autoridade competente para a educação e para a cul-

rem exercidas pelas regiões, tais como, os assuntos

tura de toda a população francófona da Bélgica, seja

sociais.

de Bruxelas ou da Valónia.

Desta feita, o maior fator de estabilidade é o prag-

A crise política que estalou após as eleições de Ju-

matismo e o espírito pacífico dos Belgas que, apesar

nho de 2010 e que se alastrou até aos últimos dias de

de conflitos eternos entre francófonos e flamengos,

2011 foi, de fato, um record, mesmo para a Bélgica,

sempre resolveram os seus problemas sem violência,

país que assistiu, no passado, a outras crises demo-

com soluções políticas e “creatividade constitucional”,

radas na formação do governo (federal). No entanto,

soluções que causam, eventualmente, estranheza

o fato de ser limitado ao governo central, não se

nos observadores estrangeiros. No entanto, ao con-

estendendo, por isso, às comunidades flamenga ou

trário do que se verificou, infelizmente, no país basco,

valã, as quais têm os seus próprios governos, parla-

na Irlanda do Norte ou na ex-Yugoslávia – limitando

mentos, orçamentos e eleições - que não coincidem

os casos apenas ao espaço europeu –, a Bélgica

com as eleições federais – explica, em parte, a razão

nunca assistiu a atos de terrorismo, assassinatos ou

da Bélgica ter continuado a funcionar relativamente

violência política.

bem.

Apesar de ter sido um país que foi palco de eternas e

Do meu ponto de vista, funcionou muito bem, na ver-

sangrentas guerras entre os seus vizinhos europeus

dade, tendo em conta que na ausência de um orça-

(sendo possível ainda hoje visitar campos de batalha

mento, as despesas eram limitadas às do orçamento

como Waterloo, Ypres e Bastogne), é, para o povo

de 2010, não sendo possível, por isso, fazer ajustes

belga, um motivo de orgulho viver num país pacífico

inflacionários, o que obrigou a limitar as despesas

e tolerante que acolhe a sede das principais insti-

públicas.

tuições europeias, fruto da integração europeia, a

Outro fator de estabilidade, mesmo na ausência de

grande realização da segunda metade do século XX,

um governo formalmente instalado com plenos pode-

para a qual os Belgas contribuiram muito.

n

Abril/junho 2012 - Diplomática • 15


Espaço Diplomático

Jill Gallard – Embaixadora do Reino Unido

Um ano de oportunidades e desafios para o Reino Unido Como Embaixadora Britânica em Portugal agradeço

em Portugal guardarão certamente as suas memórias

a oportunidade que a Revista Diplomática me dá para

pessoais das duas visitas que a Rainha realizou a

através deste artigo falar aos portugueses sobre o

Portugal em 1957 e em 1985.

que faz do Reino Unido um ótimo lugar para se viver,

Depois a cidade de Londres irá acolher os Jogos

trabalhar, estudar ou simplesmente para visitar duran-

Olímpicos e Paralímpicos de 2012, a 27 de Julho e a

te o ano de 2012.

29 de Agosto. É um orgulho para nós que esta seja a

Este é um ano marcado por acontecimentos excecio-

terceira vez que Londres acolhe as Olimpíadas (de-

nais que são verdadeiramente históricos para o Reino

pois de 1908 e 1948), um espetáculo maravilhoso que

Unido. Em primeiro lugar porque comemoramos os 60

ajuda a promover a proximidade entre os povos numa

anos do reinado de Sua Majestade a Rainha Isabel

altura em que esta se torna cada vez mais necessária

II. O Jubileu de Diamante da Rainha será uma opor-

para que consigamos ultrapassar os conflitos que nos

tunidade para expressarmos a nossa gratidão pelo

dividem. Os Jogos de Londres 2012 serão os mais

extraordinário serviço que a Rainha tem prestado ao

ecológicos de sempre (por ex: novos métodos de re-

nosso país durante o seu longo reinado, tendo sido

ciclagem e construção que reduzem a pegada de car-

um fator de estabilidade em tempos de verdadeira

bono), e deixarão um legado importante em termos

mudança. O seu reinado já abrangeu 12 Primeiros

de regeneração urbana (por ex: o Parque Olímpico

Ministros diferentes – incluindo Winston Churchill -,

será transformado num dos maiores parques urbanos

sendo o segundo mais longo a seguir à Rainha Vitória

da Europa). A construção está a decorrer dentro dos

(que reinou durante 63 anos). Muitas pessoas aqui

prazos e orçamento previstos. A minha Embaixada

16 • Diplomática - Abril/junho 2012


tem mantido um estreito contato com os Comités

Olímpico e Paralímpico de Portugal no âmbito dos

Considero que mais importante do que o pas-

seus esforços para garantir uma boa representação

sado será projetarmos no futuro uma colabora-

portuguesa nas Olimpíadas de Londres e assegurar a

ção melhor adaptada aos desafios dos tempos

maxima visibilidade possível para Londres 2012 entre

atuais – não apenas unindo esforços em prol

a população portuguesa.

do crescimento económico na União Europeia,

Será também uma ocasião para festejar a riqueza e a

mas também estabelecendo parcerias em ou-

diversidade da nossa cultura no contexto do “London

tras zonas do mundo para além da Europa,

Festival 2012” que irá assinalar o final das Olimpíadas Culturais; e para prestar homenagem a duas das nossas maiores figuras literárias, William Shakespe-

e bem estar para um numero de pessoas cada vez

are e Charles Dickens, cujas obras têm estabelecido

maior.

laços entre as pessoas por esse mundo fora e têm

Ouvimos muito falar da velha aliança que há séculos

sido amplamente traduzidas para Português.

tem constituído um elo de ligação entre Portugal e

Penso que estes são motivos suficientes para que os

o Reino Unido. Porém, considero que mais impor-

portugueses aproveitem esta oportunidade para co-

tante do que o passado será projetarmos no futuro

nhecer melhor o Reino Unido e os aspectos que têm

uma colaboração melhor adaptada aos desafios dos

contribuido para que o nosso país tenha hoje-em-dia

tempos atuais – não apenas unindo esforços em prol

centros de pesquisa de excelência que nos ajudaram

do crescimento económico na União Europeia, mas

a ganhar mais de 80 Prémios Nobel; grandes atletas

também estabelecendo parcerias em outras zonas

que têm ganho medalhas de ouro; uma cultura, músi-

do mundo para além da Europa, nomeadamente em

ca e televisão que são famosas no mundo inteiro; um

África e na América Latina.

ambiente propício aos negócios que é considerado o

Dezembro de 2012 o Reino Unido e Portugal mantêm

mais favorável na Europa; e ainda algumas das me-

um relacionamento particularmente próximo no âm-

lhores universidades do mundo que foram frequenta-

bito do Conselho de Segurança das Nações Unidas,

das por 2.745 estudantes portugueses durante o ano

onde Portugal cumpre um mandato de 2 anos como

de 2009-2010.

membro não permanente.

Porém, não posso deixar de reconhecer que muitos

Entre os nossos dois países existe efetivamente

dos nossos leitores se sentirão apreensivos pelas ad-

um bom entendimento a todos os níveis.

versidades que também teremos de enfrentar ao lon-

-lo estão as cerca de 400 empresas britânicas com

go deste ano. Tenho plena consciência de que este

atividade em Portugal e 100 investidores portugueses

será um ano muito difícil para todos nós, não só em

no Reino Unido; aproximadamente 1,6 milhões de

Portugal, mas também no Reino Unido. O custo de

britânicos que visitam Portugal todos os anos – uma

vida está a aumentar; o desemprego também; e esta-

tendência que se prevê que volte a aumentar este

mos a chegar à conclusão de que muitas das regalias

ano; e os cerca de 80.000 britânicos que aqui re-

a que nos habituámos não são sustentáveis. Senti-

sidem. Pode dizer-se que Portugal é tão popular

mos na pele o impacto das medidas de austeridade

entre os diplomatas britânicos que aqui procuram ser

que os nossos Governos têm tido que implementar

colocados, como entre os turistas e as famílias que

para consolidar as suas finanças públicas e encetar

procuram Portugal para um estilo de vida mais calmo

as reformas estruturais com vista a criar as condições

e com mais sol.

necessárias para que as nossas economias voltem

Tudo isto me leva a concluir que este período de

a crescer. O mundo mudou muito e nós na Europa

grandes acontecimentos e desafios serão para o

temos que nos esforçar cada vez mais para enfrentar

Reino Unido um enorme incentivo para olharmos

os desafios da globalização.

em frente com coragem e determinação decididos a

É uma tarefa dificil mas

Entre Janeiro de 2011 e

A prová-

estou convencida de que com o esforço e empenha-

retomar um bom ritmo de crescimento económico e a

mento de todos conseguiremos alcançar os nossos

continuar a desempenhar um papel efetivo na procura

objetivos, voltando a criar oportunidades profissionais

de um mundo melhor, mais justo e mais próspero.

n

Abril/junho 2012 - Diplomática • 17


Espaço Diplomático

Sulaiman Ibrahim Sulaiman Almurjan – Embaixador Estado do Kuwait

Cinco décadas de vida Constitucional Fiquei muito honrado com o vosso convite e com a

termos políticos, sociais e económicos. Isto aplica-se

iniciativa da vossa revista Diplomática de me dar a

às manifestações e revoluções que nasceram na Tu-

oportunidade de me dirigir diretamente aos vossos

nísia e que se propagaram ao Egito, Líbia e Iémen, e

estimados leitores, sem rodeios e com muita es-

às manifestações contínuas levadas a cabo pelo povo

pontaneidade, longe da linguagem da diplomacia,

sírio. São revoluções que estabeleceram um novo

considerada como língua de cortesia e até de meias

lema de liberdade, justiça e de participação ativa na

verdades!

governação através da mudança.

Assim, e antes de mais, quero agradecer e manifestar

Na verdade, as revoluções árabes tiveram e têm uma

a minha consideração e estima à revista Diplomá-

caraterística que assenta na perseverança, conse-

tica e aos seus colaboradores pelo fato de nela me

guindo surpreender muitos observadores atentos ao

concederem um espaço neste mês de festividades

mundo árabe, incluindo os serviços de informação.

e celebração do Estado do Kuwait, por ocasião dos

Só que, no meu entender, era inevitável que elas

cinquenta e um anos da sua independência e do

viessem a acontecer, porque esses regimes árabes

vigésimo primeiro aniversário da sua libertação, que

não se aperceberam nem assimilaram que o mundo

tiveram lugar nos dias 25 e 26 do mês de Fevereiro.

de hoje vive uma mudança profunda influenciada pe-

E por falar em grandes acontecimentos, comecemos

los meios de comunicação social, e que nós fazemos

pelos ocorridos na região árabe durante o passa-

parte deste tecido homogéneo do mundo que partilha

do ano de 2011. A denominada “Primavera Árabe”

o mesmo pensamento e ambição, assente em mais

permitiu a muitos países árabes inaugurarem uma

liberdade, mais justiça e numa vida digna.

nova etapa de transição no seu percurso evolutivo em

Gostaria muito que esses regimes tivessem tido uma

18 • Diplomática - Abril/junho 2012


visão proativa ou antecipadora dos acontecimentos,

e tivessem tomado a iniciativa de reformar as suas

Na verdade, as revoluções árabes tiveram

respetivas Constituições, permitindo assim a partici-

e têm uma caraterística que assenta na

pação dos cidadãos de uma forma ordeira e pacífica,

perseverança, conseguindo surpreender

sem recorrer à violência e ao confronto armado, que

muitos observadores atentos ao mundo

custou a vida a milhares de pessoas no caso da Lí-

árabe, incluindo os serviços de informação.

bia. Ou, pelo menos, que os responsáveis por esses regimes se tivessem retirado da cena política, como aconteceu na Tunísia.

antecipadas. Neste momento, foi nomeado o novo

Contudo, apesar da magnitude dos sacrifícios e das

primeiro-ministro que formou um novo governo que

perdas, vemos hoje nesses países uma nova era da

irá interagir com o parlamento recém-eleito.

vida política, assente em Constituições que protegem

Podemos dizer que, desde a elaboração da Cons-

as liberdades e garantem a Justiça, e permitem aos

tituição em 1962, que salvaguardou as liberdades,

povos manifestarem as suas vontades e elegerem os

a vida política no Kuwait vive uma dinâmica política

seus representantes com mais liberdade, longe de

permanente entre o parlamento e o governo. A co-

pressões. Quero frisar aqui que, independentemen-

municação social tem sido também um protagonista

te dos resultados das eleições nos países árabes,

de primeira linha, desempenhando ao longo de todos

devemos aceitar a vontade dos povos, desde que o

estes anos o seu papel de criticar construtivamente a

processo seja livre e transparente e que as liberdades

vida política. Além disso, foram criados vários meios

estejam protegidas, e a alternância no poder também

de informação que, por sua vez, permitem enriquecer

assegurada pelos mecanismos democráticos. Sabe-

o diálogo político.

mos que o modelo democrático que estudamos é o

Por várias vezes no passado, o sistema político do

modelo menos mau de todos os sistemas políticos,

Estado do Kuwait foi alvo de duras críticas de alguns

por isso, para poder resolver os problemas da demo-

regimes políticos árabes, devido ao espaço dado às

cracia é preciso mais democracia.

liberdades e ao papel de destaque que a Assembleia

Sei que muitos se questionam sobre o meu país,

Geral tem na vida política.

o Kuwait, e onde se situa nesta “Primavera Árabe”.

No entanto, a “Primavera Árabe” vivida por alguns

Responderei com objetividade que o Kuwait vive uma

países árabes no ano passado fez com que esses

“Primavera Kuwaitiana” permanente desde há cinco

países e outros entendessem melhor a visão dos

décadas, quando foi eleito o conselho para redigir a

líderes do Kuwait ao optarem pela concretização da

Constituição em 1961 e estabelecida a Constituição

vida parlamentar e ao insistirem nessa via logo após

em 1962, que alterou o regime político, adotando dois

a independência, isto apesar das dificuldades e das

sistemas: o presidencial e o parlamentar. Esse novo

crises que o país atravessou.

sistema permitiu organizar as primeiras eleições em

Por último, quero mencionar que o Kuwait teve duas

1963, as quais deram ao parlamento amplos poderes

experiências parlamentares, ainda antes da sua in-

legislativos, e permite a existência de uma oposição

dependência. A primeira aconteceu em 1921, quando

responsável.

foi constituído o conselho consultivo, e a segunda

Desde então, o parlamento do Kuwait, a “Assembleia

em 1938, quando foram realizadas eleições para a

Nacional”, tem conseguido exercer os seus poderes

constituição do conselho legislativo, a fim de ajudar o

constitucionais, convocando os ministros para os ple-

governador do Kuwait a gerir os assuntos do país. No

nários, e também o primeiro-ministro para o debate

entanto, este último conselho durou apenas 6 meses,

político, de forma muito exigente. O parlamento do

devido às pressões exercidas pelo protetorado.

Kuwait é considerado único no Médio Oriente, devido

Por esta razão, digo que foi natural, depois de acabar

aos poderes que lhe estão atribuídos, sobretudo a

com o acordo do protetorado em 1899, e após o país

nível legislativo.

ter conseguido a independência em 1961, o Estado

Realizaram-se eleições parlamentares no passado

do Kuwait ter-se dotado de uma Constituição e ter

dia 2 de Fevereiro, depois de o anterior governo ter

inaugurado uma nova vida parlamentar baseada na

sido obrigado a apresentar a sua demissão por não

Constituição de 1962. Esta Lei fundamental é consi-

conseguir colaborar com o parlamento. Sua Alte-

derada das mais avançadas da região, na medida em

za, o Príncipe, exerceu o seu poder constitucional,

que confere ao povo amplo espaço para participar na

dissolvendo o governo e convocando novas eleições

gestão dos assuntos do país.

n

Abril/junho 2012 - Diplomática • 19


Espaço Diplomático

Pascal Teixeira da Silva – Embaixador de França

O ano de 2011 O ano de 2011 ficou marcado por dois proces-

nacional, os países cuja situação financeira (do

sos de uma grande importância: a continuação

Estado, das empresas e das famílias) e económi-

da crise das dívidas soberanas na zona euro e

ca (em termos de crescimento, de produtividade,

as “primaveras árabes”. Eles não estão de modo

de competitividade e de contas externas) era mais

algum relacionadas mas tanto um como o outro,

frágil resistiram menos bem e, por vezes, tiveram

irão modificar profundamente o futuro – o que é

de pagar caro – três dos quais foram obrigados a

especialmente o caso dos países do sul da Euro-

recorrer à ajuda europeia e internacional; a nível

pa, como a França e Portugal, membros da UE e

europeu, esta crise mostrou a insuficiência do

da zona euro, geograficamente e historicamente

pilar económico da União económica e monetária

próximos do mundo árabe.

(o que aumentou as divergências no seio da zona

A crise das dívidas soberanas na zona euro é

euro) e a inexistência de mecanismos de gestão

uma consequência indirecta da crise financeira

de crise.

que eclodiu em 2007-2008 nos Estados Unidos.

Face a esta tormenta, foi necessário agir a dois

Foi pelo facto de os nossos Estados terem de

níveis: tratar dos casos especiais e dos proble-

intervir em massa para salvar os bancos (como

mas sistémicos; intervir em situação de urgência

na Irlanda) ou para limitar a recessão injetando

e criar instituições, mecanismos e meios para o

dinheiro público na economia, que os déficit e as

futuro. Em 2011, Portugal foi o terceiro país da

dívidas públicas desapareceram. Mas este mesmo

zona euro a beneficiar de um plano de ajuda que

choque incidiu de maneira diferente sobre os paí-

tem como contrapartida um ajustamento orçamen-

ses e foi revelador de um duplo problema: a nível

tal e reformas estruturais. No plano geral, a zona

20 • Diplomática - Abril/junho 2012


euro foi consolidada e assenta desde então em

quatro pilares: solidariedade (com a criação do Mecanismo europeu de estabilidade que pereniza o Fundo europeu de estabilidade financeira), disciplina (com o “semestre europeu”, o “six-pack”, e o Tratado sobre a estabilidade, a coordenação

A Europa pode ter parecido hesitante,

e a governança adotado em Janeiro passado

lenta e dividida. Mas trata-se de 27 Esta-

mas cujas bases foram lançadas em Dezembro

dos nações (17 na zona euro) soberanos.

de 2011), governança (com a realização de uma

Cada Estado-membro tem a sua história,

cimeira regular da zona euro) e crescimento ( com

as suas caraterísticas e é uma democra-

o Pacto euro mais e a declaração do Conselho

cia com as suas tradições e as suas difi-

europeu sobre o crescimento e o emprego). Os

culdades. Contrariamente ao que se diz,

fundamentos estão, portanto, ao dispor para refor-

muito foi feito, e muito mais do que se

çar a convergência das nossas economias e as

podia imaginar quando a crise rebentou.

tornar mais fortes num mundo globalizado e competitivo, marcado pelo desenvolvimento rápido de potências emergentes. A Europa pode ter parecido hesitante, lenta e dividida. Mas trata-se de 27 Estados nações (17 na zona euro) soberanos. Cada Estado-membro

pria vida. A intervenção na Líbia, de apoio a uma

tem a sua história, as suas caraterísticas e é uma

população entregue à pior sorte, foi a ocasião

democracia com as suas tradições e as suas

para que a coligação que uniu Europeus, Árabes

dificuldades. Contrariamente ao que se diz, muito

e Americanos pusesse em prática o princípio da

foi feito, e muito mais do que se podia imaginar

“responsabilidade de proteger”. Quem poderá di-

quando a crise rebentou. Se se comparar com o

zer que esta ação, limitada quanto ao seu propó-

processo de decisão no caso de outras entidades

sito e ao tempo, não salvou vidas e não esteve ao

políticas, a União Europeia, que é uma constru-

serviço do povo Líbio?

ção sui generis, menos do que uma federação

Logo que os regimes opressores sejam derrota-

mas bem mais do que uma organização regional,

dos, é necessário construir a democracia. Os Eu-

conseguiu agir e inovar.

ropeus estão bem colocados para saber o que é

Nem tudo está resolvido porque, para além da

um processo exigente e longo. Os povos recupe-

ação em caso de urgência, os nossos países

raram o seu direito a decidir sobre o seu destino,

devem adaptar a sua economia à nova partilha

não serão os outros a dizer em seu nome o que

mundial e os seus sistemas sociais a esta última

lhes convém ou não. Os povos árabes não se in-

assim como às evoluções demográficas. O exem-

surgiram para substituir uma opressão por outra.

plo de Portugal mostra que é necessário agir em

Tenhamos confiança neles para que o pluralismo,

várias frentes, com determinação e espírito de

a tolerância, os direitos das minorias e os direitos

sacrifício, para o bem das gerações futuras.

fundamentais do indivíduo sejam respeitados.

Na margem sul do Mediterrâneo, 2011 foi um ano

No que diz respeito às relações entre as duas

de transformações formidáveis. As revoluções

margens do Mediterrâneo, abre-se um novo

árabes mostraram ao mesmo tempo a universali-

capítulo de cooperação cuja parceria proposta

dade das aspirações à liberdade, à dignidade, à

em Deauville, na primavera de 2011, lançou as

justiça e à democracia e o poder espantoso das

suas bases. Os campos de ação são numerosos:

redes sociais e dos meios de comunicação que

comércio, ambiente, mobilidade, educação. As jo-

foram os seus vectores. Certas revoluções foram

vens democracias firmar-se-ão na medida em que

rápidas e relativamente pouco violentas e outras,

elas souberem responder às aspirações da popu-

pelo contrário, provocaram – e ainda provocam,

lação, em especial da juventude. É da sua res-

como na Síria – repressões ferozes e confrontos

ponsabilidade, mas também do nosso interesse.

mortíferos. Tem de se prestar homenagem à cora-

2011 foi um ano tumultuoso e perigoso, que ter-

gem desses povos que defendem e reclamam os

minou com perspetivas encorajantes que o ano de

seus direitos, muitas vezes, com o risco da pró-

2012 deverá prosseguir e aprofundar.

n

Abril/junho 2012 - Diplomática • 21


Espaço Diplomático

Renato Varriale – Embaixador de Itália

sastre económico que, dadas as dimensões da nossa economia, nenhum plano de salvação teria podido evitar. Além do mais, com o risco de que, num mecanismo em cadeia, a queda financeira italiana pudesse arrastar consigo a Espanha e toda a zona euro. O próprio processo de integração europeia parecia já estar em risco. Os desenvolvimentos do quadro político sofreram por sua vez uma viragem brusca. Já não havia tempo para enfrentar a crise com novas eleições, nem existiam no Parlamento os números para alcançar uma nova maioria. A única solução era um “Governo técnico” que, apoiado por uma coligação de união nacional, lançasse imediatamente um pacote de reformas muito vastas. E assim foi. O Presidente da República Napolitano confiou a difícil missão ao Senador Mario Monti, economista de longa experiência e de grande prestígio na cena europeia. Já transcorreram alguns meses, a crise ainda não passou e há ainda muito a fazer, mas a Itália retomou o controlo da sua situação. Os italianos recomeçaram a ter confiança em si próprios e acreditam que os seus sacrifícios não só salvarão o seu País, mas darão um 2011 foi um ano que os italianos recordarão por muito

contributo fundamental para o relançamento de toda a

tempo. Iniciou-se como o 150º aniversário da Unidade

economia europeia.

da Itália. Um ano de comemorações, debates e refle-

O que é que foi feito?

xões sobre o passado e sobre o futuro do País. Sobre

A ação do Governo italiano desenvolveu-se em três

a sua histórica identidade nacional e sobre a sua nova

pilares: a consolidação orçamental; o crescimento e a

identidade europeia. Ninguém teria imaginado que se

equidade social.

tornaria o ano da maior emergência económica expe-

O processo de consolidação fiscal, já levado a cabo

rimentada pelo País na sua história recente bem como

pelo Governo Berlusconi, foi confirmado e mesmo

do início do maior processo de reforma que a Repúbli-

intensificado. Forte por um superavit primário de 5,5%

ca já viveu.

do PNB, a Itália antecipará para 2013 o objectivo do

Os primeiros sinais da chamada crise da dívida

equilíbrio orçamental, inicialmente programado para

tinham-se manifestado durante o Verão. O Governo

2015. A tal fim, a reforma do sistema pensionístico

no poder, presidido por Silvio Berlusconi e apoiado por

revestiu-se de uma particular importância. A introdu-

uma maioria de centro-direita, tinha começado a tomar

ção imediata de um método de cálculo das pensões

as primeiras medidas. Era preciso convencer os mer-

baseado nos descontos que cada trabalhador fez ao

cados que, apesar do alto nível da sua dívida pública,

longo da sua vida laboral em vez do último ordenado

a Itália tinha uma economia sólida e estava bem deter-

recebido, tornarão logo o sistema pensionístico italiano

minada para pôr em ordem as suas finanças levando

mais sustentável. O mesmo sucedeu com a medida

também a cabo as necessárias reformas estruturais.

paralela do aumento da idade de reforma. É agora

A crise porém tornou-se repentinamente mais aguda

possível dizer que a Itália tem um dos modelos pensio-

e os acontecimentos aceleraram-se de tal forma que a

nísticos mais avançados da Europa.

resposta do Governo foi insuficiente para reconquistar

Depois, existem as medidas decisivas para favorecer o

a confiança dos mercados. Começou a prospectar-se

crescimento e a criação de postos de trabalho. A ideia

o fantasma de um default financeiro italiano. Um de-

de fundo foi a de identificar e remover sem atrasos os

22 • Diplomática - Abril/junho 2012


nós e os obstáculos que por mais de dez anos atra-

convergência sobre os temas substanciais da política,

saram o desenvolvimento do País e causaram a perda

numa visão mais estratégica e menos táctica do que

de competitividade dos seus produtos. Uma tarefa

o que tinha acontecido nos últimos anos. A “gover-

difícil a realizar também porque se choca com os in-

nance” do sistema está a ser cada vez mais o centro

teresses de determinados grupos sociais e categorias

do debate, independentemente do problema de quem

profissionais.

virá a receber a herança do Governo-Monti no final da

Trata-se portanto de medidas destinadas a melhorar

Legislatura em 2013.

o clima produtivo, reforçar os investimentos em infra-

E como reagiu a Europa?

estruturas e garantir a protecção dos consumidores

A Europa felizmente começou a sentir a Itália já não

através de processos de liberalização e desregula-

como “um problema, mas como parte da solução”. É

mentação dos mercados. A par disto, existem tam-

o que o Primeiro Ministro Monti gosta justamente de

bém novas normas destinadas a simplificar de forma

repetir. A Itália demonstrou humildade e consciência

radical os processos administrativos, a fim de que a

das próprias fraquezas. E não exitou em arregaçar

Administração Pública deixe de pesar na eficiência do

as mangas para finalmente remediar a situação. Se

sistema produtivo. O próximo passo será a reforma do

a dívida pública é um problema e sê-lo-à ainda por

mercado de trabalho com o objectivo de lhe reduzir a

alguns anos, existem já todas as premissas para que

segmentação e favorecer os que, sobretudo entre os

essa, finalmente refreada, deixe de crescer e antes

jovens e as mulheres, têm mais dificuldade a inserir-se

diminua. Entretanto, as reformas deverão reconquis-

num mundo produtivo, onde são muitas as garantias

tar a confiança dos mercados e voltar a dar compe-

para quem já está empregado, mas bem menores são

titividade ao Sistema-Itália. A Nação pode de fato

as facilidades para quem procura o primeiro emprego.

contar com alguns pontos fortes que não o deixaram

Por outras palavras, um sistema que saiba encontrar a

de ser mesmo durante a crise: um defict baixo e já

justa medida de equilíbrio entre a segurança do posto

com tendência para zero; uma dívida pública alta

de trabalho típica do modelo social democrata e a

mas que em mais de 52% está nas mãos dos bancos

mobilidade e flexibilidade típicas dos modelos liberal

e das famílias italianas; uma dívida privada entre as

democratas.

mais baixas dos países industrializados; uma rique-

O terceiro pilar é o da equidade. Os sacrifícios devem

za acumulada (net wealth) per-capita segunda no

ser distribuidos equitativamente entre a população. De

mundo; uma indústria em plena actividade e capaz

outro modo a credibilidade de todo o sistema reformis-

de inovar e exportar (se se excluirem as importações

ta e as medidas de austeridade são recebidas como

energéticas, a balança comercial italiana está habitu-

injustas e desnecessárias. Neste campo, o Governo

almente em superavit).

está cada vez mais empenhado numa dura luta contra

Em conclusão, a crise que por ironia da História se

a evasão fiscal, uma praga que retira ao Estado enor-

instalou precisamente no 150º aniversário da Unidade

mes recursos e que gera fortes desiquílibrios sociais.

do País, foi o motor de arranque para dar início a uma

Todo este conjunto de medidas foi aprovado por dois

renovação radical, que será não só económica, mas

decretos, designados de forma emblemática “Decreto

também política, social e cultural. A Itália quer sair da

Salva-Itália” e “Decreto Cresce-Itália”. Uma linguagem

crise mais moderna, mais produtiva, mais justa e mais

simples e clara que quis explicitamente recordar aos

europeia.

italianos que a salvação do País só podia assentar

Que me seja permitido escrever ainda mais algumas

em dois factores entre eles indissolúveis: o rigor e o

linhas sobre a Europa. O Governo italiano está con-

crescimento.

vencido de que a fórmula vencedora para ultrapassar

Tal mensagem foi plenamente recebida pela opinião

a crise é composta por diversos factores: rigor finan-

pública e pode-se dizer que em Itália já persiste larga-

ceiro, mas também crescimento; crescimento, mas

mente a consciência da necessidade da totalidade do

na equidade social; equidade social, mas de modo

dito “pacote” de reformas. A grande parte das forças

sustentável. Também são necessários solidariedade

políticas presentes no Parlamento acolheu por sua vez

e verdadeiro espírito de integração. Reafirmação do

este modo de sentir dos eleitores que aliás contribuiu

método comunitário, como único método de formação

para que o Governo Monti recebesse o indispensável

de um consenso convicto, sólido e duradouro entre os

crisma democrático do apoio parlamentar. Um apoio

povos da Europa. E por último: não percamos o desejo

feito através de um diálogo contínuo com o “Gover-

de sonhar de que no fim do caminho esteja uma Euro-

no técnico” e virado para uma procura contínua da

pa verdadeiramente unida.

n

Abril/junho 2012 - Diplomática • 23


Espaço Diplomático

Thalia Petrides, Embaixadora de Chipre

utilização de combustíveis fósseis e às regras mais rígidas impostas às centrais baseadas neste tipo de energia). Como W. J. Nuttall referiu no seu genial livro 'Nuclear Renaissance' (2005), o percurso da energia nuclear está repleto de histórias sobre custos descontrolados, atrasos de construção, riscos de segurança e acidentes ocasionais. Há alguns anos atrás, visitei a central nuclear de Olkiluoto, na Finlândia, bem como o colossal local de construção da fase três do projeto. Ainda tenho uma sensação avassaladora provocada pela paisagem rural finlandesa, calma e serena, dominada por uma beleza industrial silenciosa de dimensões surreais; sem dúvida uma obra de arte surrealista. Foi-me então revelado o grande desafio de gerir o combustível gasto e os outros resíduos radioativos. Infelizmente,

Acontecimentos mais marcantes durante o ano 2011

como foi novamente comprovado pelo desastre no Japão, a energia nuclear está longe de ser segura ou limpa. Porém, ao nível nacional e ainda no âmbito da ener-

Dos inúmeros eventos que marcaram o ano passado

gia, posso salientar uma evolução otimista ao longo

à escala mundial, o mais alarmante foi a catástrofe

do ano passado. A preocupação com a segurança

nuclear no Japão. No rescaldo do terramoto e do

energética e vários anos de planeamento cuidadoso

tsunami ocorridos a 11 de Março de 2011, o derreti-

proporcionaram os primeiros resultados promisso-

mento que teve lugar na central nuclear Fukushima

res em Dezembro de 2011, quando uma unidade de

Daiichi foi considerado o pior acidente nuclear desde

perfuração de exploração ao largo de Chipre con-

a explosão em Chernobyl em 1986. Vinte e cinco

firmou a descoberta de 7 triliões de pés cúbicos de

anos depois de Chernobyl e dos seus efeitos trágicos

gás natural. A descoberta foi anunciada pela "Noble

e devastadores, as consequências a longo prazo para

Energy", uma das maiores empresas norte-america-

o ambiente e para a vida humana ainda se encontram

nas de exploração de gás e petróleo, que realizou a

sob avaliação, numa altura em que o estudo do im-

perfuração no Bloco 12 na zona económica exclusiva

pato de Fukushima Daiichi revela diariamente o lado

de Chipre. É um resultado importante para o futuro

mais sinistro da energia nuclear.

do nosso crescimento e desenvolvimento económico,

Juntamente à contínua incapacidade de aprender

aliado aos nossos esforços redobrados no sentido de

com os erros e de reduzir significativamente a pos-

expandirmos a utilização das fontes de energia reno-

sibilidade de ocorrerem acidentes nucleares que

váveis, sobretudo a energia solar.

carateriza a comunidade industrial, o desastre de

Para concluir a minha reflexão sobre as questões

Fukushima Daiichi constituiu um sério golpe para o

energéticas e os eventos do ano passado, quero elo-

renascimento nuclear. (Esta expressão foi criada na

giar as conquistas portuguesas no uso das fontes de

década de 90, quando o interesse na energia nucle-

energia renovável. O facto de 52% do total da eletri-

ar ressurgiu na Europa e nos EUA, na sequência do

cidade é produzida por este tipo de energias, é sem

aumento das preocupações ambientais devidas à

dúvida um exemplo a seguir.

24 • Diplomática - Abril/junho 2012

n


VIAGENS DE ESTADO

Presidente da República na Finlândia Construindo novas pontes

Anibal Cavaco Silva visitou a Finlândia, concretamente, a cidade de Helsínquia, onde teve uma agenda intensa, pois para além de participar na reunião do Grupo de Arraiolos (que reuniu 9 Chefes de Estado da União Europeia sem funções executivas), antecipou a viagem para uma visita bilateral, cujo objetivo se centrou na nanotecnologia, na economia do mar, estabelecer alianças e atrair investidores. Neste âmbito, Cavaco Silva visitou uma série de empresas e instituições, nomeadamente a Nokia Siemens e a própria Nokia, que já emprega, em Portugal, mais de 2000 pessoas, a Finpro, a congénere finlandesa da AICEP, o laboratório Micronova e a Universidade de Aalto. Cavaco Silva visitou também a empresa

26 • Diplomática - Abril/junho 2012


Picosun, onde se fazem aplicações de nanotecnologia.

O Presidente da República destacou “ser esta uma boa oportunidade para mostrar a estas empresas que o nosso País é um lugar de investimentos sofisticados”. Cavaco Silva destacou que as relações políticas entre os dois países são excelentes e que há um potencial a preservar a aproveitar no campo da cooperação. Quanto à tradicional reunião anual do “Grupo de Arraiolos”, foi naturalmente debatida a situação na União Europeia, mas também a tolerância e a luta contra a discriminação e a situação nos países na margem sul do Mediterrâneo. Tema este apresentado pelo próprio Cavaco Silva.

n

Abril/junho 2012 - Diplomática • 27


Diplomacia na 1ª pessoa

Zhang Beisan,

Embaixador da China em Portugal, por Maria Bragança e José Leite

China pode ser o portal privilegiado da expansão de Portugal na Ásia

O embaixador da China em Portugal, Zhang Beisan, um diplomata que fala português e com uma carreira ligada a questões lusófonas, foi antigo embaixador em Angola, esteve colocado em Cabo Verde e fez parte do grupo de ligação – Conjunto Luso-Chinês – orgão que acompanhou o processo de transição de Macau para a administração chinesa.

28 • Diplomática - Abril/junho 2012


Como se traduz a entrada de

a apoiar a parte portuguesa para

condições para estas se expan-

capital da China Three Gorges

a promoção da cooperação sino-

direm no mercado internacional.

Corporation na EDP, no que

-portuguesa nas áreas política,

Esperamos e encorajamos as

respeita, ao desenvolvimento

económico-comercial, científico-

empresas dos dois países a rea-

das relações entre a China e

-tecnológica e cultural.

lizarem mais cooperações desta

Portugal?

Acha possível que mais com-

natureza.

A China e Portugal tiveram uma

panhias chinesas possam

Qual o ponto de situação da

relação diplomática de 33 anos

investir em Portugal? Em que

balança comercial entre a Chi-

sem sobresaltos. Em 1999, os

setores considera isso ser

na e Portugal? Produtos que

dois países resolveram a ques-

possível e se esse facto pode-

são mais exportados e impor-

tão de Macau através de uma

rá ser benéfico, especialmente

tados entre os dois países,

negociação amistosa, o que

nos mercados internacionais?

pode revelar-nos alguns núme-

constituiu um sólido alicerce

Na época de globalização em

ros?

para o avanço do nosso relacio-

que vivemos, empresas de

Há uma pequena diferença entre

namento no Século 21. Em 2005,

diferentes países fazem investi-

os números chineses e os nú-

durante a visita do Primeiro-Mi-

mentos mútuos e se fundem uns

meros portugueses, mas ambos

nistro da China, Sr. Wen Jiabao,

com os outros. Acompanhando o

demonstram um bom desenvol-

foi estabelecida uma Parceria

desenvolvimento económico da

vimento do comércio bilateral,

Estratégica Global Sino-Portu-

China, e em especial com o for-

e que a exportação portuguesa

guesa, que marcou a entrada

talecimento das suas empresas,

para a China vem apresentando

duma nova fase da nossa coo-

será cada vez mais frequente

um rápido crescimento apesar da

peração amistosa. Como uma

e normal ver empresas chine-

crise da dívida soberana euro-

parte importante desta Parceria,

sas com peso a ampliar o seu

peia. De acordo com os números

a cooperação económico-co-

investimento no exterior. Para

recentemente publicados pelo

mercial tem demostrado um bom

todos os potenciais investidores,

INE, o comércio de produtos

crescimento nos últimos anos. O

incluindo os chineses, uma eco-

entre a China e Portugal chegou

comércio bilateral tem mantido

nomia avançada e um mercado

a um valor de 1,99 mil milhões

um rápido crescimento apesar

maduro como o de Portugal são

de euros em 2011, obtendo um

das dificuldades da crise das

naturalmente atraentes. Tenho

crescimento de 4,6%. A expor-

dívidas soberanas na Europa,

confiança, de que desde que

tação chinesa para Portugal foi

em que a exportação de Portugal

Portugal mantenha um desenvol-

1.49 mil milhões, uma redução

para a China cresceu 68% no

vimento económico e uma aber-

de 4,9%, enquanto a exporta-

ano passado, um desempenho

tura do seu mercado, vai haver

ção portuguesa para a China

de destaque tanto no comércio

cada vez mais empresas chine-

foi 395 milhões de euros, um

entre a China e os países da

sas interessadas em investir em

impressionante crescimento de

União Europeia, como na ex-

Portugal.

67,9%. As primeiras categorias

portação portuguesa em geral.

Para falar dos benefícios das

de produtos chineses importados

Portanto, a cooperação entre a

cooperações sino-portuguesas

por Portugal são: maquinaria e

CTG e a EDP, da mesma forma

no mercado internacional, basta

equipamento elétrico (22,94%),

como a cooperação entre a State

olhar para o caso CTG-EDP. Am-

maquinaria mecânica (10,13%)

Grid e a REN, são frutos naturais

bas as empresas têm importan-

e aço e ferro (7,05%), enquanto

do amadurecimento deste rela-

tes influências no setor de ener-

na exportação para a China são

cionamento económico-comercial

gia limpa, mas cada uma possui

sal mineral e pedras (15,2%),

e uma prova da Parceria Estra-

vantagens diferentes em pesqui-

maquinaria e equipamento elé-

tégica no domínio económico.

sas tecnológicas, administração

trico (13,31%) e pasta de papel

A China sempre atribui muita

interna e ocupação no mercado.

(13,09%). Fora destes produtos,

importância às suas relações

Isso torna a sua cooperação

nota-se na exportação portugue-

com Portugal e está contente

uma fórmula de “1+1>2”, que

sa um significativo crescimento

com os êxitos já alcançados na

é certamente benéfico para o

de produtos de cortiça, vinho tin-

cooperação económico-comer-

crescimento conjunto das duas

to e azeite. Gostariamos de ver

cial bilateral. Estamos dispostos

empresas, criando melhores

cada vez mais empresários

Abril/junho 2012 - Diplomática • 29


Zhang Beisan

de apoio à internacionalização

ção das empresas é uma exi-

investirem no mercado chinês.

para as empresas chinesas?

gência e consequência natural

A entrada de capitais chineses

Primeiro quero lembrar que, a

do processo da globalização

na banca será o próximo pas-

compra de ativos da EDP pela

económica. O desenvolvimento

so, especialmente no Banco

China Three Gorges foi uma

económico fez com que as liga-

Comercial Português(BCP) e

operação comercial como outras

ções entre a China e o Mundo

no Banco Espírito Santo(BES)?

operações normais. O Governo

ficassem cada vez mais estrei-

Nos últimos anos, com o apro-

português colocou as suas con-

tas. Com o Governo português, o

fundamento das relações

dições para a venda dos respeti-

Governo chinês sempre encoraja

económico-comerciais sino-por-

vos ativos de uma maneira trans-

e apoia empresas chinesas com

tuguesas em geral, e o estrei-

parente e imparcial. A empresa

potencialidade para investir no

tamento de cooperações entre

chinesa, bem como empresas de

exterior, explorando o mercado

as suas empresas, há cada vez

outros países, participaram nes-

internacional. Na China, des-

mais contactos e intercâmbios

te concurso de forma transparen-

crevemos a internacionalização

na área financeira. Em alguns

te e imparcial, e a empresa chi-

das empresas com a palavra

casos já há projetos concretos.

nesa acabou sendo a vencedora.

“saída”. Mas questões como em

portugueses a exportarem e a

Desde o início da crise da dívida soberana, alguns bancos portugue-

Acho que não

que forma sair, com quais em-

devemos atribuir

presas estrangeiras cooperar e

tem mantio um rápide

a esta operação

em que área investir são deci-

O

comércio bilateral

crescimento, apesar das

um significado que

sões independentes e da total

ses apostaram

dificuldades da crise das

não lhe cabe. Por

responsabilidade das empresas,

no investimento

dívidas soberanas na

outro lado, tanto a

como ditam as regras vigentes

estrangeiro como

Europa, em que a expor-

CTG e a EDP são

no mercado internacional. O que

forma de fortale-

tação de Portugal para

grandes empresas

determina o sucesso ou fracasso

cer a solidez do

a China cresceu 68% no

com muita influ-

da estratégia de internacionali-

capital e amenizar

ano passado

ência nos seus

zação das empresas chinesas é

respetivos países,

a sua própria decisão e imple-

a falta de liquidez. Neste contexto, alguns respon-

e têm empresas fornecedoras

mentação.

sáveis das instituições financei-

de produtos e serviços, que são

A China pode ser o portal pri-

ras chinesas visitaram Portugal a

sobretudo pequenas e médias

vilegiado da expansão comer-

convite de instituições e bancos

empresas. Neste sentido, acredi-

cial de Portugal na Ásia?

portugueses para conhecerem

to que a operação entre a CTG e

Como eu acabei de dizer, o

melhor o mercado e fazerem

a EDP ajudará ao estreitamento

mercado chinês tem estado

intercâmbios. Com um melhor

da cooperação entre pequenas e

sempre aberto aos produtos

conhecimento e intercâmbio

médias empresas dos dois paí-

portugueses. Vemos com bons

mútuo, especialmente conheci-

ses, criando oportunidades para

olhos e apoiamos as empresas

mentos sobre as condições do

empresas portuguesas entrarem

portuguesas a virem competir

mercado e das políticas e regu-

no mercado chinês. Além disso,

no mercado chinês ou até asiá-

lamentos financeiros em cada

a futura cooperação entre a CTG

tico com produtos e serviços de

país, a potencialidade de coope-

e a EDP servirá também como

excelente qualidade. Nos últimos

ração financeira entre a China e

exemplos e estímulos às PMEs.

dois anos, a exportação portu-

Portugal será explorada.

A China é membro da OMC. O

guesa para a China tem crescido

Em contrapartida, este acordo

mercado chinês é aberto, mas

a um ritmo bastante acelerado, o

entre a China Three Gorges

também é muito disputado. Es-

que para nós é motivo de satis-

Corporation e o Governo de

pero que as empresas portugue-

fação. Ainda há muito espaço

Passos Coelho pode poten-

sas possam ganhar a sua parte

para este crescimento, mas isso

ciar a internacionalização de

neste mercado com produtos e

exige um esforço acrescido dos

empresas portuguesas para

serviços de excelente qualida-

empresários dos dois países,

o mercado chinês, especial-

de.

especialmente dos empresários

mente das Pequenas e Médias

Respondendo à segunda parte

portugueses.

Empresas? Há alguma forma

da pergunta, a internacionaliza-

O que levou a segunda maior

30 • Diplomática - Abril/junho 2012


economia do mundo, atual-

americanos. Os dois países

possível o estabelecimento

mente em grande expansão a

assinaram, ao longo dos anos,

destas parcerias económicas

interessar-se por um pequeno

28,4 mil milhões de dólares em

entre os dois países?

país com uma economia perifé-

contratos de empreitadas. Há

Queria corrigir um erro na sua

rica e fragilizada localizada no

mais de 80 empresas chinesas

pergunta. Macau sempre foi

extremo da Europa? A possibi-

a operarem em Angola, totali-

território chinês durante toda a

lidade de servir como platafor-

zando um investimento de 350

história. Esteve sob administra-

ma para outros mercados onde

milhões de dólares. A China é

ção do Governo português, mas

Portugal tem tradição, como o

hoje o maior parceiro comercial

a sua soberania nunca foi trans-

é, o caso dos mercados africa-

do Brasil no mundo. Em 2010,

ferida.

no e brasileiro?

o comércio entre os dois países

Admito que a solução pacífica da

As empresas chinesas não

chegou a 62,6 mil milhões de

questão de Macau foi, de fato,

são as únicas a interessar-se

dólares. Empresas chinesas in-

um grande acontecimento na

por Portugal. Sei que, grandes

vestiram 860 milhões de dólares

história das relações sino-por-

empresas internacionais, como

no Brasil, e empresas brasileiras

tuguesas. Ofereceu uma base

Volkswagen, a Siemens da

390 milhões na China. Os dois

sólida não apenas para a suces-

Alemanha, a PSA, Danone da

países ainda celebraram acor-

so da transição e posteriormente

França, Canon do Japão, entre

dos de cooperação financeira no

ao desenvolvimento de Macau,

outras, já têm investimentos em

valor de cerca de 10 mil milhões

mas também para o avanço das

Portugal. Não acho o investimen-

de dólares. É verdade que as

relações entre a China e Portu-

to chinês em Portugal um fato a

últimas cooperações entre a

gal no novo século. Depois da

estranhar, mas antes uma fato

CTG e EDP, entre a State Grid e

transição, Macau tem mantido

natural. Aliás, a existência de

REN contêm projetos de traba-

uma conjuntura política estável,

tantos investimentos estrangei-

lhar em conjunto nos mercados

uma economia próspera, o povo

ros monstrou que estes inves-

africano e sul-americano, que

satisfeito com a sua vida, o que

tidores, incluindo os chineses,

considero decisões naturais que

comprovou que as políticas de

acreditam no futuro do mercado

vão favorecer os seus próprios

“um país, dois sistemas” e “Ma-

português a longo prazo. Portu-

interesses. Mas os números que

cau administrado pelo povo de

gal é um país com uma história

referi aqui já falaram por si, pois

macau” estão corretas. O gover-

e cultura gloriosas, é membro da

antes destas últimas coopera-

no central da China e o próprio

União Europeia e da Zona Euro.

ções entre empresas chinesas

governo da Região Administra-

É um país que hoje conta com

e portuguesas, já havia canais

tiva Especial de Macau também

uma população com um nível de

fluídos de investimento e uma

atribuiram atenção à exploração

educação avançado. Tudo isso

base bastante sólida de coopera-

da vantagem de Macau ter liga-

são uma base importante para

ção entre empresas

um desenvolvimento económico

da China e empre-

T

próspero. Sempre acredito que,

sas de Angola, e do

que desde Portugal

nos. Em 2003, foi

as dificuldades que Portugal

Brasil. Conclusão: a

mantenha um desen-

fundada em Macau

enfrenta são temporárias. Espe-

África e o Brasil não

volvimento económico

o Fórum de Coope-

ro que Portugal saia o mais cedo

foram os principais

e uma abertura do seu

ração Económico-

possível da crise e que a sua

motivos de investi-

mercado, vai haver

-Comercial entre a

economia volte ao caminho do

mentos chineses em

cada vez mais empre-

China e os países

desenvolvimento.

Portugal.

sas chinesas interes-

da Língua Portu-

Para responder à segunda

O Sr. Embaixador

sadas em Portugal"

guesa, uma plata-

parte da pergunta, vou recor-

esteve como di-

rer a alguns números. Angola

plomata em Macau e acompa-

para as relações económico-

hoje em dia é o segundo maior

nhou o processo de transição

-comerciais entre a China e os

parceiro comercial da China na

do antigo território português

países lusófonos. Em 2011, o

África. Em 2010, o comércio

para a China. Na sua opinião,

comércio entre a China e os

bilateral entre a China e Angola

a forma muito positiva como

países lusófonos já ultrapassou

foi 24,8 mil milhões de dólares

esse processo evoluiu tornou

100 mil

ções estreitas com

enho confiança, de

os países lusófo-

forma importante

Abril/junho 2012 - Diplomática • 31


Zhang Beisan

antigo governador de Macau,

Para mim nunca houve quais-

o investimento mútuo também

General Rocha Vieira, para o

quer milagres . O êxito que a

está em rápido crescimento. A

Conselho de Supervisão da

China obteve nos últimos anos

China vai continuar a aproveitar

EDP?

deve-se ao trabalho duro da toda

as ligações linguístico-culturais

O General Rocha Vieira é meu

a nação chinesa sob a liderança

e legislativas entre Macau e os

amigo pessoal, mas julgo que

correta do Governo. A China é

países lusófonos para promover

não é minha função nem a minha

uma país em desenvolvimento

uma cooperação de maior esca-

vontade comentar uma nomea-

com uma grande população mas

la, maior abrangência e melhor

ção da EDP, uma empresa de

uma base económica bastante

nível.

funcionamento independente.

fragil, que tem que satisfazer a

A propósito, o que pensa o

A que se deve o “milagre eco-

crescente demanda material e

Sr. Embaixador da escolha do

nómico” chinês?

espiritual da sua população que

milhões de dólares americanos,

32 • Diplomática - Abril/junho 2012


representa 20% da população

O intercâmbio cultural é uma par-

-se, os chineses conhecem muito

mundial com apenas 7,9% de

te importante do relacionamento

melhor sobre o ocidente do que

terra lavrável e 6,5% da água

entre os países. Como referi,

os ocidentais sobre a China. Cla-

doce da planeta. Este ambiente

existem tradições seculares

ro, isso não impede que a China

deu ao povo chinês uma virtu-

de intercâmbio cultural entre a

melhore os seus esforços de

de de trabalhar duro, poupar a

China e Portugal, o que desem-

divulgar a sua imagem ao exte-

riqueza e depender antes de

penhou um papel de relevância

rior, para que o mundo conheça

tudo da sua própria força. A

para promover o conhecimento

melhor a realidade da China.

história recente da China depois

mútuo e aprofundar a amizade

Historicamente, Portugal sempre

da Guerra de Ópio entre a China

entre os nossos povos. A Embai-

foi um pioneiro entre potências

e a Grã-Bretanha era uma histó-

xada da China em Portugal sem-

marítimas ocidentais em enten-

ria repleta de guerra, derrota e

pre atribui muita importância aos

der outras culturas e em integrar-

pobreza. Por isso o povo chinês

assuntos culturais, tem realizado

-se na sociedade local. Espero

sabe valorizar a estabilidade

nos últimos anos exposições de

que Portugal possa explorar bem

conseguida depois da formação

carácteres chineses, pintura,

esta tradição histórica, e tornar-

da Nova China, especialmen-

instrumentos musicais, entre ou-

-se outra vez pioneiro na grande

te durante as três décadas de

tras. A Embaixada também tem

integração cultural do mundo

reforma e abertura. O que o

organizado actividades culturais

neste novo século.

Governo precisa fazer é defen-

centralizadas em festivais de

Uma pergunta de caráter mais

der esta estabilidade política

importância tradicional, como o

pessoal: qual a impressão que

e harmonia social, criando um

Festival da Primavera, incluindo

o Sr. Embaixador tem de Por-

ambiente favorável ao desen-

o convite de grupos artísticos

tugal e dos portugueses? O

volvimento económico para que

chineses a visitarem Portugal.

que mais aprecia?

o povo possa trabalhar em paz

Estas atividades tiveram grandes

Estou em Portugal há um ano e

e tranquilidade. Actualmente, o

repercurssões no público por-

meio. Portugal é um país lindís-

desenvolvimento da China ainda

tuguês. Como se sabe, hoje em

simo e o povo português mos-

enfrenta desafios como o dese-

dia em Portugal está na moda

tra sempre muita hospitalidade,

quilíbio regional e urbano-rural,

aprender a língua chinesa, mas

o que tornou este período de

fraca capacidade de inovação

poucas pessoas sabem que

trabalho e vida muito agradá-

tecnológica, um sistema de se-

aprender a língua portuguesa,

veis. Tive oportunidade de viajar

gurança social imperfeito, etc..

também está na moda na China.

para muitos lugares de Portugal,

A economia chinesa, que já é

Mais de 20 universidades chine-

impressionaram-me a tradição e

considerada a segunda maior do

sas já oferecem cursos de por-

a cultura de Lisboa e do Porto,

mundo, ainda tem um PIB per

tuguês, e o público chinês está

os traços históricos do Minho, a

capita de 4400 dólares, muito

cada vez mais interessado em

vinicultura do Douro, a beleza

inferior aos países desenvolvi-

conhecer a cultura e a história de

natural de Trás os Montes, a

dos incluindo Portugal. Hoje, o

Portugal. São condições favo-

riqueza agrícola do Alentejo, o

Governo e o povo chinês estão

ráveis aos futuros intercâmbios

sol e as praias do Algarve e a

a concentrar-se confiantemente

culturais. Uma base importante

paisagem insular da Madeira e

no caminho do desenvolvimento

para qualquer intercâmbio cultu-

dos Açores. Portugal é em geral

sustentável que beneficie toda a

ral é o respeito mútuo, não impor

um país de clima agradável e

sua população, acelerando a for-

os valores de um lado ao outro.

com excelentes condições para

mação de uma economia amiga

A China tem uma cultura e tradi-

agricultura e turismo. O povo

do meio ambiente, fazendo uma

ção única, e um sistema de valo-

português foi o povo que iniciou

maior contribuição à paz e ao

res milenar. Analisar os assuntos

a Grande Navegação e os Des-

desenvolvimento do mundo.

da China com visão ocidental

cobrimentos, uma página impor-

O que falta fazer em termos de

sem levar em consideração esta

tantíssima na história de toda a

um relacionamento mais profí-

tradição, pode causar muitos

humanidade. Apesar das dificul-

cuo no relacionamento cultural

preconceitos e maus-entendi-

dades temporárias, tenho plena

entre Portugal e a China, onde

mentos. Hoje, com a reforma e

confiança no futuro do vosso

existem tradições seculares?

abertura na China a aprofundar-

país.

n

Abril/junho 2012 - Diplomática • 33


Homenagem

Durão Barroso Doutor Honoris Causa pela UTL

nebra que obteve o grau de mestre em Ciência Politica, com o tema “Le système politique portugais face à l’intégration européenne”. A sua carreira académica deixou marcas em várias universidades do mundo. Em 1979, fundou a Associação Universitária de Estudos Europeus. Enriqueceu o seu curriculum académico com vários estudos e cursos realizados nas Universidades Americanas: na Universidade de Columbia, de Nova Iorque e na Universidade de Georgetown, em Washington. Já no continente europeu frequentou o Instituto Universitário Internacional do Luxemburgo e o Instituto Universitário Europeu de Florença. Em Portugal, foi assistente na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, onde se licenciou. Para além das fronteiras académicas nacionais, foi assistente assíduo no Departamento de Ciência Politica da Universidade de Genebra. Entre 1996 e 1998, foi professor convidado no Centro de Estudos Germânicos e Europeus da Universidade de Georgetown, em Washington. Durante 4 anos, desempeNo âmbito da cerimónia solene de encerra-

nhou ainda o cargo de Diretor do Departamen-

mento das Comemorações dos 80 Anos da

to de Relações Internacionais da Universidade

UTL, no Instituto de Ciências Sociais e Po-

Lusíada, em Lisboa, para o qual foi nomeado

líticas, o Presidente da Comissão Europeia,

em 1995.

José Manuel Durão Barroso, foi homenageado

No início dos anos 1980, Durão Barroso

com a atribuição do Grau de Doutor Honoris

começa a sua carreira política com a adesão

Causa. O Doutoramento Honoris Causa foi,

ao Partido Social Democrata (PSD). Em 1999,

na verdade, o reconhecimento da contribuição

foi eleito presidente do Partido, sendo ree-

dada por Durão Barroso à investigação cientí-

leito nos três mandatos seguintes. Foi nesta

fica no quadro europeu, que reforçou o papel

altura nomeado vice-presidente do Partido

que este desempenha enquanto Presidente da

Popular Europeu. Na qualidade de Secretário

UE.

de Estado dos Negócios Estrangeiros e da

José Manuel Durão Barroso nasceu em Lis-

Cooperação distinguiu-se no papel de me-

boa, no dia 23 de Março de 1956. Em termos

diador dos Acordos de Paz para Angola, que

da sua formação académica, após a conclu-

foram assinados em Bicesse (Estoril), no início

são da licenciatura em Direito, na Universida-

dos anos 90 (1991). Já Ministro dos Negócios

de de Lisboa, continuou o seu percurso aca-

Estrangeiros, entre 1992 e 1995, levou a cabo

démico na Suíça. Foi diplomado com distinção

o processo de autodeterminação de Timor-

em Estudos Europeus, no Instituto Universitá-

-Leste.

rio de Estudos Europeus da Universidade de

A política de Durão Barroso trouxe ao PSD a

Genebra. Na mesma instituição universitária

vitória nas eleições legislativas e, em Abril de

e, também com distinção, foi no Departamento

2002, foi nomeado Primeiro-Ministro de Portu-

de Ciência Política da Faculdade de Ciências

gal. Desempenhou o cargo durante dois anos,

Económicas e Sociais da Universidade de Ge-

até que, em 2004, foi nomeado e

34 • Diplomática - Abril/junho 2012


assumiu as funções de presidente da Comis-

confiança de que, através de um caminho lon-

são Europeia. Por unanimidade, em Setembro

go e complexo, vamos conseguir ultrapassar

de 2009, ganhou o segundo mandato da presi-

esta crise”. Durão Barroso finalizou que para

dência europeia, o que lhe conferiu ainda mais

a Europa sair mais forte da crise “ é neces-

projeção na agenda política internacional e na

sária a iniciativa política e a vontade política.

agenda do desenvolvimento científico.

Não basta as instituições, não basta a decisão

Foram estes alguns dos pontos referidos no

económica. É necessário que haja um com-

dia da condecoração Honoris Causa, realiza-

promisso político”- argumentou o Presidente

da no Instituto Superior de Ciências Sociais e

da UE.

Politicas da Universidade Técnica de Lisboa,

A crise é um tema que preocupa todos os

perante uma plateia que contou com a pre-

governos da zona euro. Em todos eles existe

sença de várias personalidades, entre elas, o

a “consciência da dificuldade da situação e

professor Adriano Moreira, o primeiro-ministro

a vontade de lhe dar uma resposta. Existe a

Pedro Passos Coelho, Paulo Portas e outros

consciência da interdependência em que esta-

membros do Governo e do corpo diplomáti-

mos no quadro da União Europeia” – finalizou

co. Entre os convidados, palavras de elogio

Durão Barroso. Mas, para o caso português,

foram feitas por Adriano Moreira, que afirmou

em particular, afirmou que um dos fatores

que “é na conjuntura do presente que o saber

responsáveis pelo atraso da economia portu-

das relações internacionais e o saber fazer,

guesa se prende com os setores fechados e

nos estadistas, se enquadra a intervenção

os privilégios: “em alguns setores da econo-

do Presidente da CE, que chamou o apreço

mia há interesses instalados, há interesses

desta Universidade Técnica pela sua Reitoria,

que resistem à mudança, que beneficiam de

através dos seus discursos que remetem para

um acesso especial ao Estado, de garantias

um futuro solidário dos cidadãos europeus”.

que lhes são dadas por uma legislação de

Na sua intervenção de agradecimento, Durão

proteção. Assim, quando há setores fechados,

Barroso discursou sobre a situação atual da

quando há privilégios, quando há interesses

União Europeia. Falou na crise económica

que vivem à sombra do Estado, isso impede

e na necessidade de partilhar a soberania.

a inovação, impede uma concorrência mais

Concluiu que “quando se cede soberania,

leal e uma modernização” – confessou Durão

pode ganhar-se também com a soberania dos

Barroso aos jornalistas, à margem da cerimó-

outros” e argumentou que a Europa precisa da

nia de condecoração.

“Europa a trabalhar com determinação para

Com um curriculum académico e político

defender o euro e para defender a estabilida-

vastos, Durão Barroso, além do presen-

de financeira”.

te título, foram-lhe concedidos mais títulos

Relativamente à situação do Euro, o Presi-

honoris causa. Entre estes destacam-se o da

dente da União Europeia mostrou-se otimista.

Universidade de Georgetown, Washington,

Como o próprio admitiu, “o euro não é apenas

D.C. em 2006; o da Universidade de Génova,

uma forma de pagamento, como tem sido

Itália no mesmo ano; o da Universidade de

dito por muitos - nomeadamente a Chanceler

Kobe (2006); o da Universidade de Edimburgo

Merkel que, ainda recentemente, o disse no

(2006); o da Universidade Sapienza de Roma

parlamento alemão. O euro é também um

em 2007; o da Universidade de Varsóvia

símbolo da própria construção europeia, mas

(2007); o da Pontifícia Universidade Católica

um símbolo não apenas abstrato, um símbolo

de S. Paulo em 2008; o da Universidade de

concreto que tem a ver com a vida concreta

Nice Sophia Antipolis (2008), o da Universida-

dos cidadãos em toda a nossa Europa, por

de de Chemnitz em 2009; o da Universidade

isso eu, contra o pessimismo dominante, que-

de Genebra em 2010 e o da Universidade de

ro aqui hoje, mais uma vez reafirmar a minha

Ghent em 2011.

n➤

Reportagem: Roman Buzut

Abril/junho 2012 - Diplomática • 35


Durão Barroso

1

2

3

4

5

6

7

8

1. O presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso e Adriano Moreira 2. Reitora Helena Pereira a homenagear Durão Barroso 3. Professores e convidados a irem para a cerimónia 4. Passos Coelho a cumprimentar o secretário-geral António Almeida Ribeiro 5. Embaixador Helmut Elfenkämper e António Almeida Ribeiro 6. Heitor Romana e António Sousa Lara 7. António Santana Carlos e João Cruz 8. Francisco Treichler Knopfli e João Pereira Neto

36 • Diplomática - Abril/junho 2012


Economia & Finanças

Patrick Siegler-Lathrop is a wealth manager and consultant living in Portugal, with a more than 35-year career as a Wall Street investment banker, entrepreneur, industrialist and professor, having taught at INSEAD and Paris University, Dauphine. He is a founding member of the international NGO Action Contre la Faim. He can be contacted at psieglerlathrop@gmail.com.

(* The opinions expressed herein are those of the author, and do not necessarily represent those of DIPLOMATICA) (* As opiniões expressas aqui são de responsabilidade do autor e não representam necessariamente as da Diplomática.)

Europe: Winter, or spring?

As we approach Easter, 2012, the euro-zone

(EFSF), with guarantees of €780 billion, not

still exists, with the same 17 members, and

quite the €1 trillion markets hoped for, but

although everyone agrees the euro-crisis has

nevertheless substantial resources to provide

not left us, newspapers are less filled every

for needy European Governments.

day with gloom and doom predictions of the

Secondly, most individual countries in Europe,

demise of the euro.

and much of the rest of the world, have come

What has happened to calm the storm?

to accept the German recipe: that Austerity is

First, a number of positive financial decisions

the answer to resolve the crisis. If we apply

and measures have been taken at the

enough austerity, rapidly and dramatically

European level:

reducing Government deficits, markets will

- The European Central Bank (“ECB”)

reward such action by offering lower interest

offered more than €1 trillion in cheap three-

rates, confidence will return, and we will all

year loans to banks, averting a major credit

return to healthy equilibrium.

crunch and providing liquidity which the

It was difficult to counter German insistence

banks can use to:

that massive austerity was the only approach

• purchase sovereign debt, lowering the

- the vulnerable French didn’t have a choice, if

cost of borrowing for most European

they disagreed, they risked market sanctions,

Governments,

so the “Merkozy” approach, imposing radical

• continue to finance business, and

fiscal adjustment, was promoted aggressively

• generate profits to strengthen their

by Germany, with France somewhat reluctantly

balance sheets,

following.

- European Union leaders and private lenders

Countries across Southern Europe have

agreed to restructure Greek debt and provide

applied the recipe, become “good” students,

Greece with new funding,

drastically increasing Government taxes and

- European Governments agreed to put into

reducing expenditures. For example, in its

place the European Financial Safety Facility

agreement with the troika 1 to provide €78

Abril/junho 2012 - Diplomática • 37


Europe: Winter, or spring?

billion in financing in May, 2011, Portugal

people have of ever being able to find fulfilling

committed to reduce its Government fiscal

work? How can we countenance a system

deficit from a rate of around 10% of GDP in

where even the Prime Minister of Portugal is

2009-2010, to 5.9% in 2011, 4.5% in 2012 and

led to encourage young, talented Portuguese

3% in 2013.

to leave the country to seek employment in

Southern European countries have applied the

healthier economies such as Brazil or Angola.

medicine rigorously, and are to be commended

And what is the current German-inspired

for the steps they have taken to put their house

answer to this situation? More of the same

in order. Portugal accomplished a structural

medicine, more austerity, with calls for

adjustment of 4% of GDP in its government

another round of deficit reduction, under the

budget in 2011, a remarkable achievement in

watchful eye of financial markets and austerity

a single year. But in spite of such encouraging

watchdogs, prolonging recession and bringing

progress, markets remain very nervous, and

certain, even higher unemployment.

countries such as Portugal, Spain and Italy,

I am dismayed by the indifference of our

continue to be viewed as extremely vulnerable.

political leaders to the consequences of such

Is the auterity recipe going to work? You

massive joblessness. It is easy to see how the

do not have to be a Keynesian to know that

electorate in Greece, Portugal, Spain, Italy,

increasing taxes and lowering government

and others, could become attracted to radical

expenditures, particularly in European

politicians, who will rightly claim that austerity

countries where the share of government

measures are unjust and unfair.

contribution to GDP is high, triggers a decline

Why should the governments of Portugal,

in economic activity, which in turn leads to

Spain or Italy want to subject their citizens to

lower government tax receipts, higher payouts

endless depression? And witness an ever-

in unemployment benefits, and an increase in

widening difference between their struggling

government deficits. The Nobel laureate and

Southern European nations and healthier

professor at Columbia University in New York

Northern ones? I am afraid that continued

Joseph E. Stiglitz states the case succinctly:

application of current policies has a high risk of

“It is clear that austerity alone is a recipe for

leading to such a depressing scenario.

stagnation and decline. The likelihood that

Is there an alternative? Of course there is.

things would work out well is extraordinarily

In fact, this is a moment of great opportunity,

small.’’

for Europe, a moment when we can move

In other words, “austerity alone” just doesn’t

forward, following the path set out for us by

work. We are witnessing this situation today

the founders of the European ideal. How? By

in Spain, and will see it repeated in other

pushing for a change of priorities, by insisting

countries, where deficit targets are unlikely to

that our principal concern must shift to creating

be met.

jobs, particularly for the young, by putting

But there is even greater risk. In my view

forward solidarity within Europe as a path back

the cost of current policies outweighs the

to good health.

advantages, and that cost has one name:

I am not suggesting that we should relinquish

MASSIVE UNEMPLOYMENT.

measures to reduce excessive Government

Already there are 16.9 million unemployed

debt, nor that we abandon basic structural

in the 17-country euro-zone and 24.3 million

reforms. Measures that are being implemented

in the European Union. Staggering figures,

in Portugal, Greece, Italy and Spain to

bearing witness to enormous human suffering

render labor market more open and flexible,

and providing fertile ground for dangerous

to improve legal systems, to privatize

political drift towards extremism.

Government-owned companies and open the

The effect is particularly devastating for young

economy to more balanced competition, are

people. What answer can we provide to the

an essential part of the process, and are to

49.6% of people under 25 who are unemployed

be encouraged. But structural reform plus

in Spain, the 46.6% in Greece, or the 35.1%

austerity will not be enough.

in Portugal? What hope do so many young

We need to launch a major investment

38 • Diplomática - Abril/junho 2012


program, to promote employment in Southern

Europeans.” 2 But the long-term sustainability

European countries, perhaps financed by

of the euro, and of the European project,

the proposed financial transactions tax

requires that the gap between North and South

in the euro-zone. Such a program should

be narrowed.

focus on investing in research, promoting

Tim Geithner, the U.S. Secretary of Treasury,

entrepreneurship, boosting exports, and

may have enraged European counterparts last

investing in new technologies, for example

fall by telling them “you need stimulus”, but he

inspired by newly elaborated concepts of

was right.

sustainable development. The European

If positive momentum can be generated in

Union, and such institutions as the European

the economies of Southern Europe, that will

Investment Bank and in the European Bank

do more to re-establish confidence, providing

for Reconstruction and Development, where

hope both to markets and to Europeans

considerable know-how exists, should be

suffering through the current downturn.

essential partners to define an investment

The key to such any such new investment

program to create employment and bridge the

program lies with Germany, the current

difference between North and South. European

uncontested leader of the European Union and

bureaucracy is viewed as complacent and

the euro-zone. Germany has been the euro’s

callous, unconcerned with the wellbeing of

greatest beneficiary, its exports to EU partners

people? Let them promote creative ideas to

are up 9% per year since the euro was

generate jobs, helping change our perception

introduced, as compared to 3% beforehand,

of their contribution, bringing to bear their

and its exports to the 10 countries that joined

expertise in this major new initiative, which

the EU after 2004 have increased by €80

can be another important step in the gradual

billion. The EU customs union has permitted

political integration of Europe.

Germans to have the jobs less competitive

Such a major investment program will require

Southerners lack. A major new initiative in

that Germany and other Northern European

Southern Europe will help promote growth

countries accept that we postpone deficit

throughout Europe.

reduction, permitting selective Government

During this transition phase, Germany must

job-creating stimulus programs in the most

overcome its reticence to allow the ECB to

vulnerable countries, accepting that deficit

become the “lender of last resort”, operating

reduction, which remains essential, is to be

in the same manner as the U.S. Federal

reached gradually and over the medium term,

Reserve and the Bank of England, to maintain

rather than immediately. Even the IMF, the

the banking system and give time for fiscal

flag-bearer of orthodoxy, has argued that

adjustments to be made.

high public debt and high government deficits

Angela Merkel has clearly indicated that she

should be reduced through a steady, gradual

thinks the solution to the euro crisis will come

process.

from “more Europe, not less”. If she is to be

“Look after the unemployment, and the budget

“more European”, she will have to show that

will look after itself”, stated John Maynard

her country embraces solidarity within the

Keynes in 1933.

union. Hopefully, she will have the strength

“It is time for European leaders to save the

and the foresight to overcome resistance in

historic European project by telling the truth:

her own party and her country, go against their

that the European Union and the euro are

conventional thinking, to lead Europe on a

as essential as ever to the well-being of

new, more optimistic path.

n

1 The European Union (EU), the European Central Bank (ECB) and the International Monetary Fund (IMF) 2 This quote, and certain figures and concepts in this article, are inspired by an article in Options Politiques, February 2012, by my good friend Jeremy Kinsman, who served as Canada’s ambassador to the European Union, Russia, the UK, and 12 other countries or organizations.

Abril/junho 2012 - Diplomática • 39


vISITAS DE eSTADO

Mariano Rajoy e Pedro Passos Coelho Portugal e Espanha analisam combate à crise

Mariano Rajoy esteve em Lisboa, em visita oficial,

tos recessivos” que as medidas de combate ao défice

onde a situação económica e a preparação do próximo

possam vir a ter, tendo trocando impressões quanto à

Conselho Europeu dominaram a agenda do encontro

forma de sair da crise.

entre os dois líderes, o primeiro-ministro português e o

Já em Lisboa, e depois do encontro Passos Coelho/Ra-

presidente do Governo espanhol.

joy, durante a conferência conjunta, o primeiro-ministro

Esta visita surge na sequência da recente viagem a

português reiterou que o País “não pedirá a renego-

Madrid de Passos Coelho, em que os dois estadistas

ciação do programa que está a executar”, sublinhando

analisaram a situação de ambos os países ibéricos, no-

ainda que não será pedido nem “mais tempo, nem mais

meadamente na área económica, e nas formas de sair

dinheiro” à troika e que “o acordo está a ser cumprido

da crise que assola a Europa e quais as possibilidades

dentro das suas metas”.

de “concertar visões” para o futuro.O primeiro-ministro

Apesar de admitir que os resultados destas políticas

português, no final do encontro, que durou cerca de

de austeridade demorarão algum tempo a manifestar-

uma hora, fez questão de esclarecer que trocara im-

-se, o primeiro-ministro português considera que, sem

pressões alargadas com Mariano Rajoy sobre a situa-

elas, não será possível voltar a ganhar a confiança dos

ção que se vive, hoje em dia, tanto em Portugal como

mercados e dos investidores. Recordando os casos de

em Espanha. Uma situação que, infelizmente ambos os

Portugal e da Irlanda (países ao abrigo de um pro-

países partilham em muitos aspetos, como ambos os

grama de ajustamento), manifestou a sua confiança

estadistas concluíram.

de que, desde que as metas sejam cumpridas, “não

Passos Coelho foi ainda mais assumido, ao referir que

deixarão de ter o auxílio da EU e do FMI se, por razões

Portugal e Espanha estão a viver uma das mais graves

externas não conseguissem regressar aos mercados”.

crises de que há memória. E foi neste contexto que

Adiantou ainda que “o nosso programa não pode falhar

os dois responsáveis políticos analisaram os “aspe-

por razões internas e, é isso que me interessa como

40 • Diplomática - Abril/junho 2012


chefe de Estado”.

Recorde-se que, ainda em Madrid, Pedro Passos

No encontro com Mariano Rajoy ficou definido o re-

Coelho afirmou que “Portugal e Espanha têm muitas

tomar dos encontros bilaterais entre os dois países,

afinidades e boas condições para concertar algumas

devendo o próximo decorrer já na primavera. O objetivo

visões sobre o que pode ter interesse para os dois

é que, tal como sucedeu nesta última reunião, Portugal

países”. Temas como o caso da operação de comparti-

e Espanha concertem posições para levar aos encon-

cipação da PT na Vivo e os projetos de infraestruturas,

tros comunitários.

como o TGV, foram também debatidos. Pedro Passos

As estratégias, tanto políticas como económicas, entre

Coelho e Mariano Rajoy já se tinham encontrado, uma

os dois países foram os pontos mais destacados pelos

primeira vez, em Bruxelas, dando indicações de grande

dois políticos. Mariano Rajoy adiantou mesmo que,

sintonia entre os dois. Pedro Passos Coelho reafirmou

em Espanha, será feito “algo parecido com o que tem

o interesse dos dois países em manter um contacto

sido feito em Portugal”. Recordamos que a Espanha

próximo, sobretudo porque “há um nível de integra-

se prepara para aprovar a nova lei laboral e a lei do fi-

ção económica muito grande entre os dois países

nanciamento bancário e está disposta a fazer os cortes

ibéricos e a situação de fraco crescimento económico

necessários para cumprir o défice de 4,4% este ano.

coloca problemas para os empresários portugueses e

O primeiro-ministro espanhol, falando aos jornalistas,

espanhóis”.A terminar, o primeiro-ministro português

comentou as previsões do FMI de que a Espanha irá

sublinhou que “tudo o que possa ser feito em termos

sofrer uma forte recessão este ano e que a sua econo-

de reformas estruturais nos dois países, para ajudar a

mia irá continuar a contração em 2013, considerando

recuperação do emprego e ao crescimento económico,

que essas projecções “são um estímulo para continuar

é decisivo para os dois países, que têm, nesta altura,

a trabalhar” e acrescentou que o país vai cumprir o

entre outros problemas graves, uma taxa de desempre-

objetivo de défice de 4,4% para este ano.

go muito elevada”.

n

Abril/junho 2012 - Diplomática • 41


Diplomacia na 1ª Pessoa

Embaixador José de Bouza Serrano,

por Maria da Luz de Bragança, fotos Roman Buzut

O Guardião dos Embaixadores acreditados em Portugal Após uma carreira importante, a representar Portugal, o Embaixador José de Bouza Serrano voltou há três anos  ao seu país, como Chefe do Protocolo do Estado, donde vai partir em breve para Embaixador na Holanda.

42 • Diplomática - Abril/junho 2012


Agraciado com o oficialato da

ses. Só depois  entram para o

dade dos diplomatas estrangei-

Ordem do Infante Dom Henri-

Palácio de Belém e são acom-

ros, assim como os do pessoal

que e a Grã-Cruz da Ordem de

panhados para a audiência com

administrativo ou doméstico das

Mérito e  dezenas de  distin-

o Senhor Presidente, que os

embaixadas  passam por nós.

ções estrangeiras pelo  mundo

recebe juntamente com outras

Somos nós que os emitimos,

fora, tais como a Grã Cruz da

entidades, como por exemplo

juntamente com o Serviço de

Ordem de São Gregório Mag-

o Senhor Ministro de Estado

Estrangeiros e Fronteiras. 

no, da Santa Sé, a Grã-Cruz da

e dos Negócios Estrangeiros,

Por tudo isso pode ver-se

Real Ordem do Dannenborg, da

o Secretário Geral do Ministé-

como todos os Embaixadores

Dinamarca, Grã-Cruz de Graça

rio, o Assessor Diplomático do

o conhecem bem e  a enorme

e Devoção da Ordem Soberana

Senhor Presidente da Repú-

estima que têm por si… 

e Militar de Malta entre muitas

blica e, eu próprio, o Chefe do

O que acontece é isso…nós

outras, apresentou recente-

Protocolo.

somos as primeiras pessoas

mente um completíssimo livro

Após esta audiência, onde são

que eles conhecem e a quem

de ensinamentos sobre os

igualmente apresentados aos

recorrem. Depois, quando têm

preceitos, práticas e rituais do

Chefes das Casas Civil e Militar

dúvidas ou necessitam de au-

protocolo oficial de Estado e do

e ao Secretário –Geral da Pre-

torizações para fazerem obras

protocolo social.: “ O Livro do

sidência da República, os Che-

nos edifícios das Embaixadas,

Protocolo”, de leitura e saber

fes de Missão passam a estar 

das matrículas dos carros, ou

imprescindível. 

em funções e quando saíem do

das licenças de importação…

Palácio de Belém, já ostentam

somos nós  que agenciamos os

Senhor Embaixador, não vim

a bandeirinha do seu país no

contactos ou as emitimos. Tam-

falar consigo só pelo livro, re-

automóvel. 

bém assuntos de justiça, que

centemente apresentado, mas

Eu ia perguntar-lhe o que era

podem ocorrer, sejam assuntos

também pela estima e impor-

o Protocolo de Estado e quais

laborais, acidentes de viação

tância que tem junto de todas

as suas funções…mas por

etc., quando há problemas com

as embaixadas.  

favor continue… 

a justiça eles não são direta-

Eu não, minha querida amiga,

Para além de servir o Senhor

mente interpelados pelo tribu-

quem tem importância é o ser-

Presidente da República, o

nal, os expedientes vêm para

viço do Protocolo do Estado .

Senhor Primeiro-Ministro,  o

nós, que fazemos de mail-box

Nós, no fundo, somos os “Anjos

Ministro dos Negócios Estran-

e de mediadores entre a imuni-

da Guarda” do Corpo Diplomá-

geiros  e os outros Membros

dade diplomática que têm e o

tico acreditado em Portugal. 

do Governo e organizar as

sistema judicial português.

É o Chefe do Protocolo que

cerimónias relativas à posse do

Temos também obrigação de

recebe os novos Embaixadores

Senhor Presidente e do Gover-

estar presentes (representan-

que chegam e vêm entregar

no, outras celebrações nacio-

do o MNE)em todas as festas

as cópias das cartas, antes de

nais, como por exemplo o 10 de

nacionais, para as quais sou

fazerem a entrega solene dos

Junho, são organizadas aqui no

normalmente convidado, o

originais ao Senhor Presidente

Protocolo de Estado.´ 

que muitas vezes acaba por

da República e sou eu que, nor-

Também tratam da posse do

ser  trabalho, porque vêm falar

malmente, explico a cada um

Senhor Presidente da Repú-

comigo com pequenos  proble-

deles como será a cerimónia, o

blica?  

mas para resolver, enchendo

traje e como tudo se vai passar.

A posse é dada na Assembleia

os meus bolsos com recados,

Temos uma pequena diferença

da República, pelo Presidente

ou porque necessitam de uma

entre os Embaixadores resi-

da Assembleia, e  nós tratamos

carta de condução que ainda

dentes e os não residentes. Os

das cerimónias em conjunto.

não foi enviada, ou há um erro

Embaixadores residentes têm

Para além disso, temos todo

no nome de um dos filhos ou de

uma guarda de honra a cavalo

o expediente relativo aos

alguém, no cartão de identidade

da GNR mas todos,  ao serem

membros de todas as missões

ou precisam de um esclareci-

recebidos no Pátio, escutam

diplomáticas acreditadas em

mento ou duma diligência espe-

os hinos de cada um dos paí-

Portugal. Os cartões de identi-

cial…Tudo isso somos nós

Abril/junho 2012 - Diplomática • 43


José de Bouza Serrano

que tratamos. Nós fomos o pri-

pela comemoração dos 500

brações, como por exemplo: há

meiro impacto e somos os anjos

anos das relações diplomáti-

dois anos que, nos cumprimen-

tutelares do Corpo Diplomático.

cas, inaugurar o Templo que

tos ao senhor Presidente da

É tão simples quanto isso... 

ofereceu e que foi construído

Republica, cancelámos o ban-

É a Chefia do Protocolo de

junto ao rio Tejo. Tratámos em

quete em honra do Corpo Diplo-

Estado…

conjunto com a Câmara Mu-

mático no Palácio da Ajuda, e o

É uma Direção Geral. Eu sou

nicipal de  todas as licenças

concerto. Este ano a recepção

equiparado a Diretor Geral; a

para implantação do Templo,

fez-se igualmente  em Queluz.

Sub-Chefe de Protocolo é Sub-

assim como com as Finanças

Foi servido um Porto de Honra

-Diretora Geral, temos também

da importação dos materiais

muito simples, mantendo-se a

uma Direção de Serviços de

para construção que, como

cerimónia institucional com mui-

Cerimonial, que agora também

eram oferta, vieram sem passar

ta dignidade, em que o Núncio

engloba a antiga Divisão dos

pela alfândega. Essa é uma das

Apostólico fez um discurso e o

privilégios das imunidades.

principais funções do Protoco-

senhor Presidente respondeu-

Tudo isso para os diplomatas

lo; depois temos toda a parte

-lhe em Português. A seguir,

estrangeiros e para os diploma-

cerimonial da organização das

começando exactamente por

tas portugueses, para os mem-

visitas de Estado do Presidente

Monsenhor Don Rino Passiga-

bros do governo e para todos

da República ao estrangeiro ou 

to, iniciámos os cumprimentos,

os cidadãos nacionais que têm

do Primeiro Ministro, e também

seguido do Embaixador de San

direito a passaporte diplomá-

organizamos e preparamos

Marino ( decano não residente)

tico, somos nós que também

todas as visitas dos Chefes do

e pelo Embaixador da Argenti-

emitimos esse documento aqui

Estado e de Governo estrangei-

na, que é o Embaixador que há

neste Serviço. 

ros a Portugal.  

mais tempo está aqui acredita-

Quem e como se tem direito a

O que pensa das futuras gera-

do. Depois passaram todos os

passaporte diplomático?

ções e da prevalência das tra-

Chefes de Missão e Encarrega-

Vem na lei. O senhor Presiden-

dições diplomáticas? Haverá

dos de Negócios e colaborado-

te da República, naturalmente,

continuidade ou tendência

res a cumprimentar. 

tem direito, o Presidente da

para se apagarem? 

O Núncio Apostólico

Assembleia da Republica, o

Apesar das dificuldades econó-

está sempre presente?

Primeiro-Ministro, os membros

micas que o nosso país atra-

Nos cumprimentos ao Corpo

do governo, os deputados… 

vessa, e não são as primeiras 

Diplomático, e está nas prin-

Perdem direito se deixam de

quando entrei na carreira há 32

cipais cerimónias do Estado e

ser membros do governo? 

anos também havia algumas

em muitas visitas de Chefes de

Perdem sim. A não ser que

dificuldades e nós fomos su-

estado estrangeiros ao nosso

tenham sido Presidentes da Re-

perando e, mais tarde, tivemos

país.. Sendo nós um país tra-

pública, Primeiros-Ministros ou

um período de esplendor. Pes-

dicionalmente católico, o Nún-

Presidentes da Assembleia da

soalmente estou convencido e

cio assiste como o Decano do

República. Os outros perdem

tenho esperança que o nosso

Corpo Diplomático e há sempre,

o privilégio, mas para tudo há

país possa voltar a ter uma voz

antes de entrarem, uma cerimó-

uma burocracia. Por exemplo:

ativa e respeitada no mundo e

nia protocolar: Eu recebo o Se-

os diplomatas podem importar

na União Europeia.

nhor Núncio Apostólico, levo-o

bens isentos de impostos, mas

O Protocolo tem uma vanta-

à Guarda de Honra, ouvimos os

têm que ter franquias que são

gem: pode encurtar ou expandir

hinos da Santa Sé e de Portu-

passadas pelo Serviço de Pro-

os recursos disponíveis. Quer

gal  e depois passa  revista  ao

tocolo de Estado. Por vezes,

dizer, podemos manter a dig-

pelotão da Guarda Nacional

vêm centenas de produtos para

nidade, que o que interessa é

Republicana, acompanhado por

venda a favor de ONGs por-

manter a dignidade do Estado,

mim...

tuguesas, como para a venda

podemos reduzir as cerimónias,

No mundo inteiro haverá paí-

do “Bazar dos Diplomatas”, ou

mas sempre mantendo a sua

ses onde não existe o Proto-

agora, no caso da Princesa da

elevação e o seu brilho. Corta-

colo de Estado?   

Tailândia, que veio a Portugal,

mos um certo número de cele-

Não. Não porque é difícil

44 • Diplomática - Abril/junho 2012


viver sem ele. Pode é haver,

primeiro posto foi como Secre-

bre tudo através do Protocolo

em certos países, quando têm

tário da Embaixada em  Madrid

do Estado. É difícil um Esta-

Côrte, dois ou três Protocolos.

e aí havia o Protocolo do Rei, o

do, uma Nação, não ter um

Normalmente, os Monarcas têm

Protocolo do Presidente do Go-

Protocolo,  porque é a forma de

o seu próprio Protocolo  que

verno e o Protocolo do Ministé-

coagular, concentrar e manter

se distancia do Protocolo do

rio dos Negócios Estrangeiros.

as tradições. 

governo. Por exemplo, o meu

Nós somos um país que co-

Todos então têm, de certo

Abril/junho 2012 - Diplomática • 45


José de Bouza Serrano

não havia a Lei das Precedências, mas uma lista indicativa, que se ia aplicando casuisticamente. Mas agora, pela primeira vez, temos uma Lei das Precedências, feita na Assembleia da República, com valor de lei e aplicável a todo o território nacional e a todas as nossas embaixadas no estrangeiro, para que todos sejam ordenados pela ordem protocolar que lhes corresponde, sendo isso uma grande vantagem de que nós dispomos e que foi um dos motivos que me levou até a escrever o livro sob essa perspectiva nova.    Qual foi o país onde gostou mais de estar?  Durante a minha carreira, estive sempre na Europa e penso que tive a sorte de  estar nos países certos na idade certa. Quando tinha os filhos pequenos, estávamos em Madrid e era óptimo. Depois fui para Bruxelas e foi estupendo, se bem que estivesse colocado legalmente na embaixada bilateral, mas acreUm livro que reúne tudo o que se deve saber sobre os

ditado e a trabalhar na União

preceitos, práticas e rituais do protocolo oficial de Estado

Europeia. Em Madrid estive

e do protocolo social

cinco anos e meio, em Bruxelas três anos e meio, alternando

modo, mantido as tradi-

Eanes, que a entrega das cre-

com cargos aqui em Portugal.

ções? 

denciais passasse a ser de tra-

Depois cinco anos no Vaticano,

De  uma maneira geral, sim.

je de cerimónia, já não usando

e adorei. Vinha dum problema

Quando há golpes de estado

a casaca porque tinha havido

de saúde que já tinha supera-

ou revoluções, a tendência é 

a revolução, mas o fraque. E

do e foi uma fase importante e

para as pessoas prescindirem

nós, desde o tempo dele, que

um momento espiritual forte na

de um certo cerimonial mas o

continuamos a usar o fraque

minha vida. 

Protocolo, pela sua caraterísti-

com colete preto, quando os

Quer falar-me do seu percur-

ca de organização e disciplina,

Embaixadores vão a Belém

so? O que fazia quando ini-

tem resistência própria e é o

apresentar as credenciais ao

ciou até  chegar a Chefe do

último a desaparecer. Recordo

senhor Presidente da Repúbli-

Protocolo de Estado? 

um dos meus primeiros Che-

ca. Passou-se pelo fato escuro,

A nossa carreira é uma escada

fes: esta sala era o gabinete

e por várias outras modalida-

onde vamos subindo os vários

dele, o Embaixador Mendonça

des, mas ele conseguiu que o

degraus com a passagem do

e Cunha. Depois da Revolução,

“rio voltasse ao seu leito” de

tempo (e a ajuda de Deus!).

conseguiu restabelecer, duran-

tradição.

Comecei como Secretário da

te  a Presidência do General

Quando eu entrei no Ministério

Embaixada em Madrid, como

46 • Diplomática - Abril/junho 2012


disse; em Bruxelas já era

apontamentos e dossiers, para

todo mundo. A forma como tra-

Conselheiro, em Roma, no

quando os nossos governan-

balham essa informação é mes-

Vaticano, fui Conselheiro e

tes vão participar em reuniões

mo uma escola de diplomacia.

Ministro Conselheiro; quando

internacionais ou recebem os

Eu gostei muito do Vaticano

regressei fui Vice Presidente do

seus homólogos em Portugal.

também por isso mesmo. Por-

Instituto Camões, que era o bra-

Também tem que saber se

que é uma escola de diploma-

ço cultural do Ministério, depois

gostará  mais de diplomacia

cia em que a síntese é feita na

fui como Embaixador para a Di-

multilateral, em que pode estar

perfeição e com relativamente

namarca, onde estive três anos

na ONU em Nova Yorque, ou

poucos meios.

e meio e donde voltei  para ser

em Genebra, no Conselho da

E também as cerimónias que

Chefe do Protocolo. Agora, se

Europa, em Estrasburgo, ou na

envolvem o Santo Padre, se

Deus quiser, parto como Embai-

União Europeia, em Bruxelas,

bem que, hoje em dia, diga-

xador para a Holanda.

ou se prefere a Diplomacia tra-

mos que o protocolo está muito

Está  contente por ir para a

dicional bilateral, em que está

simplificado, são sempre mag-

Holanda? Vamos ter todos

num país e desenvolve prefe-

níficas. Os espaços históricos

muitas saudades suas…

rencialmente as relações com

deslumbrantes, todos aqueles

Estou contente por ir. Estou

esse país e não com todos os

palácios esplendorosos, as

muito satisfeito. Daqui a uns

países que fazem parte da Or-

Igrejas, as Basílicas onde se

três anos e tal (aos 65) estarei

ganização onde são colocados.  

desenrolam as cerimónias e

já reformado e voltarei se Deus

Eu, ao fim de 32 anos, acho

a forma como se organizam e

quiser para o meu País, de que

que não saberia fazer outra

recebem o Corpo Diplomático,

gosto muito. Tenho cá os meus

coisa. Fiz o concurso ao Minis-

são notáveis. O Vaticano foi ex-

filhos, os meus netos e muitos

tério quando já tinha 28 anos, o

traordinário. Aprende-se muito,

amigos. 

que não me impediu de chegar

como referi.

Que recado poderá deixar a

a Embaixador e ter tido postos

Mais conselhos… será desfrutar

quem inicía a careira diplo-

ótimos e realmente uma vida

o mais possível desta profissão

mática? 

muito interessante, ao serviço

que é tão original e gratificante.

Recados…É difícil dar recados.

do meu país, em que aprendi

Um desfrute do mundo, mas

Conselhos serão, sem preten-

muito sobre as pessoas e os

sempre com a convição de que

são, os seguintes: Se entrarem,

países onde estive colocado

somos portugueses, que temos

interessa muito que criem um

e vivi grande parte da minha

um País muito antigo com uma

amor especial a esta carreira,

existência. Até no protocolo

grande história e uma grande

porque ela é diferente de tudo

pude aprofundar os meus co-

tradição e que, apesar destes

o resto que existe na Função

nhecimentos, porque vivendo e

avatares da economia e das

Pública e nas saídas profissio-

trabalhando em monarquias o

dificuldades que temos quoti-

nais. Mas, que para quem gos-

protocolo é diferente e apren-

dianamente, algumas que po-

ta, está cheia de oportunidades

de-se imenso. O protocolo do

dem ser estruturais, devemos

e é fascinante. Fascinante, não

Vaticano é uma perfeição, eles

ter sempre presente este peso

só para quem gosta de viajar,

têm uma diplomacia extraor-

da cultura, da história e duma

apreciar a cultura de outros

dinária devido à sua forma de

língua que é falada por mais de

países e aprender facilmente

informação; desde o padre

duzentos milhões de pessoas,

outras línguas, mas sobretudo

no Burundi, a um na Austrá-

o que é um grande trunfo na

para representar bem o nosso

lia, toda essa informação, das

vida de uma Nação e no seu

País podendo intervir, dum cer-

dioceses e das paróquias, vai

futuro.

to modo, no desenvolvimento

para Roma e é sintetizada por

Senhor Embaixador, dese-

das  relações de Portugal com

um pequeno grupo de pessoas.

ja acrescentar mais alguma

outros Estados e poder ajudar

É das carreiras diplomáticas

coisa?

quem nos governa, com a in-

mais bem informadas do que

Posso unicamente concluir que

formação que recolhemos , nos

se passa internacionalmente,

estou muito satisfeito e realiza-

documentos que elaboramos,

porque têm essas  antenas da

do por ter escolhido esta profis-

no preparar duma série de

Igreja Católica espalhadas por

são.

n

Abril/junho 2012 - Diplomática • 47


Mala Diplomática

Embaixadores de Portugal apresentam cumprimentos ao Presidente da República No âmbito do Seminário Diplomá-

cio de Belém, onde apresentaram

tico, que decorreu, recentemente

cumprimentos ao Presidente da

em Lisboa, os Embaixadores de

República.

Portugal acreditados junto de

Durante a recepção, em que esti-

vários Estados e organizações

veram também presentes o Minis-

internacionais, estiveram no Palá-

tro de Estado e dos

48 • Diplomática - Abril/junho 2012


Negócios Estrangeiros, Paulo

tário-Geral do MNE.

Portas, os Secretários de Es-

O ministro Paulo Portas apresen-

tado dos Assuntos Europeus,

tou os desejos de um Bom Ano

dos Negócios Estrangeiros e da

Novo ao Presidente, que encerrou

Cooperação e das Comunidades

a cerimónia com uma breve inter-

portugueses, bem como o Secre-

venção de agradecimento.

n

Abril/junho 2012 - Diplomática • 49


Diplomacia na 1ª Pessoa

Embaixador Paul Schmit

por Maria de Bragança, fotos de Roman Buzut

Na Rua das Janelas Verdes, onde habitou Eça de Queiroz, encontra-se o acolhedor palacete da Embaixada do Grão Ducado do Luxemburgo, com salões e jardim debruçados sobre o Tejo, onde fomos recebidos pelo Embaixador Paul Schmit, que sublinhou durante a entrevista a importância que tem para o Grão Ducado as relações com Portugal.

50 • Diplomática - Abril/junho 2012


Paul Schmit, 45 anos, casado com

A partir dai, o Luxemburgo viveu suces-

Nadine Schmit-Konsbruck e pai de

sivamente sob soberania borgonha, fran-

três filhos, licenciou-se em Direito pela

cesa, espanhola, austriaca e holandesa.

Universidade Robert Schuman de Es-

Após a derrota de Napoleão, no Con-

trasburgo e posteriormente em Ciências

gresso de Viena de 1815, o Luxemburgo

Políticas pela Universidade de Paris II.

foi aceite e ratificado como Grão Duca-

Chegou a Portugal em Setembro de

do. Mas só no 1º tratado de Londres, em

2010, tendo apresentado as Cartas

1839,foi reduzido o território e ficaram

Credênciais ao Presidente da República

definidas as fronteiras tal como são até

portuguesa em 15 de Outubro do mesmo

aos dias de hoje, tendo sido festejado o

ano. Da sua carreira podemos ainda as-

centenário em 1939 e tendo-se feito a

sinalar que, entre 1991 e 1992, foi Adido

comemoração solene do 150º aniversá-

do seu Governo no Ministério da “Force

rio da sua independência, em 1989.

Publique” no Luxemburgo; em 1995,

O Luxemburgo é realmente um país an-

foi Secretário de Legação nos Serviços

tigo pela sua influência na Europa, mas

do Secretário Geral do Ministério dos

também é um país jovem na configura-

Negócios Estrangeiros; de 1995 a 2000

ção actual de 1839.

foi representante permanente adjunto

Aconselho a leitura do livro do histo-

na representação do Luxemburgo junto

riador Gilbert Trausch - “A História do

da NATO, em Bruxelas; de Março 2000

Luxemburgo”- já traduzido em português

a Dezembro 2001, “détaché” na repre-

para a comunidade lusófona que repre-

sentação permanente do Luxemburgo

senta hoje quase 20% da população do

junto da União Europeia, encarregue dos

Luxemburgo.

dossiers de política estrangeira da U.E.;

Um dos marcos a assinalar na história

de 2002 a 2007 foi chefe de missão ad-

do Luxemburgo, e que também marca

junto da Embaixada do Luxemburgo nos

a sua ligação com Portugal, é a relação

Estados Unidos, com co-acreditações

entre as suas casas reais. Até 1890,

para o Canadá e para o México e, de

o rei dos Paises Baixos era também

Setembro de 2007 a 2010 foi Diretor

Grão-Duque do Luxemburgo, mas a lei

dos Assuntos Jurídicos e Culturais no

sálica obrigou à mudança da dinastia

Ministério dos Negócios Estrangeiros do

dos Orange-Nassau para a dos Nassau-

Luxemburgo.

-Weilbourg, que levou mais tarde ao

Senhor Embaixador, estando o Luxemburgo no ponto de encontro entre a Europa Românica e a Europa Germânica, e integrando ambas tradições, gostaria que nos falasse um pouco da história do Luxemburgo… Obrigado pela ocasião de poder apresentar o meu país, que tem uma história muito rica e muito antiga. A Fundação da cidade do Luxemburgo remonta a 963, com a conquista de Lucilinburhuc (hoje Castelo do Luxemburgo) por Siegfried , Conde de Ardenas .Em torno desta fortaleza, foi crescendo um Estado de grande importância, valor estratégico e influência na Europa, uma vez que 4 membros da dinastia da Casa do Luxemburgo reinaram, tendo sido Imperadores do Sacro-Império-Romano.

Abril/junho 2012 - Diplomática • 51


Embaixador Paul Schmit

trono o Grão-Duque herdeiro

Guilherme IV. Este foi casado com Maria Ana de Portugal, a filha de D.Miguel I, princesa de Bragança e Infanta de Portugal que, após a morte do Grão-Duque foi regente do Grão-Ducado, até entregar o trono a sua filha Maria Adelaide, que em 1919 o entregou a sua irmã, a Grã-Duquesa Carlota. Em 1940, a Grã-Duquesa e a sua família foram acolhidos em Portugal, juntamente com vários membros do seu governo, após o Luxemburgo ter sido invadido e ocupado pela Alemanha nazi. O Luxemburgo, abandonando de facto a sua política de neutralidade, juntou-se aos Aliados na luta contra a Alemanha e o seu governo, exilado em Portugal e em Londres, criou um pequeno grupo de voluntários que participaram na invasão da Normandia. De notar que após a guerra e a resistência contra a ocupação nazi, o Luxemburgo foi, em 1945, membro fundador da Organização das Nações Unidas; tornou-se membro da NATO em 1949 e, em 1957, um dos 6 países fundadores da CEE, mais tarde União Europeia, tendo adoptado o Euro em 1999. Sendo o Luxemburgo um dos países com um dos maiores PIB per capita do mundo e tendo o senhor Embaixador dito que a comunidade lusófona representa 20% da população local, gostaria muito que me falasse do fenómeno da emigração para o seu país. O fenómeno da emigração teve início na década de 60, o que quer dizer que os portugueses já estarão na 3ª e 4ª gerações. Vieram ajudar a construir o país e, principalmente, trabalhar na contrução e na siderurgia. Entre 1960/70 tivemos necessidade

52 • Diplomática - Abril/junho 2012


Abril/junho 2012 - Diplomรกtica โ€ข 53


Embaixador Paul Schmit

de mão de obra, ao ponto de acolher-

de Justiça, o Banco Europeu de Inves-

mos 85.000 portugueses!

timento ou o Tribunal Europeu de Con-

Hoje, a população do Luxemburgo conta

tas. Temos também a Escola Europeia

com 43% de estrangeiros, sendo 20%

e, nessa escola europeia, existe uma

lusófonos e 17% Portugueses.

secção portuguesa onde muitos jovens

O Luxemburgo tem recebido muitos

portugueses são escolarizados, temos

emigrantes do Montenegro, da Sérvia,

igualmente uma escola internacional e

da Bosnia-Herzegovina e do Kosovo.

uma escola francesa, mas a maior parte

Anualmente, milhares de novos emigran-

dos filhos dos emigrantes portugueses

tes chegam ao Luxemburgo.

adotam o sistema escolar luxemburguês

No entanto, é necessário dizer que o

que é, provavelmente, a melhor maneira

Luxemburgo não é hoje um “El Dorado”.

de se integrarem no nosso país, apren-

Muitos pensam que o Luxemburgo está

dendo desde jovens os 3 idiomas admi-

fora da crise, o que não é o caso. So-

nistrativos do Luxemburgo: o luxembur-

mos um país solidário, convencidos do

guês, o alemão, o francês e mais tarde

ideal comunitário e pela ideia europeia,

o Inglês; caso desejem podem sempre

mas somos também um país que conhe-

estudar o Português nos cursos parale-

ce o aumento do desemprego, onde o

los ou integrados. Em alternativa, alguns

rendimento por habitante é muito eleva-

podem estudar na secção portuguesa da

do, mas é necessário não esquecer os

Escola Europeia.

140.000 "frontaliers" franceses, belgas

Falando de Escola Europeia…Como é

e alemães que vêm todos os dias traba-

que o senhor Embaixador vê o papel

lhar no Luxemburgo, mas que não estão

de Portugal nas relações económi-

refletidos nas estatísticas do rendimento

cas, no âmbito do contexto europeu?

"per capita".

Portugal é um país muito rico sob o

É necessário fazer compreender a situa-

ponto de vista histórico, cultural e eco-

ção real do nosso País a Portugal e aos

nómico. É um país que hoje conhece

portugueses que hoje, em consequência

algumas dificuldades, mas que já de-

da crise que se vive no País, desejam

monstrou, na sua história, que sabe

emigrar para o Luxemburgo.

ultrapassar os desafios, como o fez

Existe no Luxemburgo um ministério

quando o Brasil se tornou independente

que se ocupa da emigração?

e, em várias outras ocasiões, tendo sido

Temos um Ministério do Trabalho, cujo

sempre capaz de se levantar, vencen-

Ministro se ocupa do desemprego e da

do problemas e desafios. Portugal é

Administração para o emprego. Relati-

um país com um enorme potencial, se

vamente à Imigração, a sua tutela cabe

pensarmos na sua abertura ao mundo,

ao Ministério dos Negócios Estrangeiros

em especial na sua ligação aos países

luxemburguês. Com a ideia de que o

lusófonos como o Brasil, Angola, Mo-

Luxemburgo é muito próspero, estamos

çambique ou mesmo Cabo Verde, este

a ter agora muitos emigrantes vindos

último onde tenho a honra de ser tam-

nomeadamente de Portugal, havendo

bém Embaixador acreditado.

também muitos desempregados na co-

Acreditando na sua capacidade e na

munidade Portuguesa no Luxemburgo.

solidariedade europeia, estou certo que

Tendo em consideração a enorme

Portugal irá cumprir e ultrapassar as difi-

quantidade de emigrantes portugue-

culdades que se lhe estão a apresentar

ses, há alguma escola portuguesa no

Portugal virado para o Atlântico? Ou

Luxemburgo?

virado para a Europa?

Não, não existe uma escola só portu-

Esse problema não se poderá colocar.

guesa. O Luxemburgo é sede de várias

Não se deve escolher. A Europa é impor-

instituições e organismos da União

tante para Portugal e Portugal é importan-

Europeia, tal como o Tribunal Europeu

te para a Europa e para o mundo.

54 • Diplomática - Abril/junho 2012


Como é que o senhor Embaixador

definiria o Luxemburgo?

Nadine e Paul

O Luxemburgo é um país que teve muita

Encantados com Portugal

sorte. Um país que foi ocupado e sofreu as consequências das guerras entre os

A senhora Embaixatriz, Nadine Schmit, está em Por-

seus vizinhos europeus em quase todas

tugal há pouco mais de um ano. Se tivesse que nos

as gerações, mas que tirou um enorme

deixar amanhã, que recordações levaria consigo?

partido da construção europeia, tendo

Levaria comigo a recordação da gentileza dos portugue-

beneficiado muitíssimo dessa constru-

ses, muito abertos, expansivos e calorosos…a beleza e a

ção. Conheceu a sua prosperidade com

luminosidade de Lisboa… Um país onde é bom viver, de

o setor siderúrgico e mais tarde o sector

fácil adaptação, onde há oportunidade de conhecer pes-

bancário, mas também graças a empre-

soas muito simpáticas e interessantes em todos os meios,

sas igualmente prósperas, tais como a

um país com uma história e uma cultura muito ricas e

Cargolux e a Luxair ou ainda a Société

extremamente interessantes.

Européenne des Satélites. Na União

Os meus filhos de 10, 14 e 16 anos, que estão no liceu

Europeia conseguimos trabalhar em paz,

Charles Lepierre em Lisboa, estão muito felizes e adoram

prosperar em paz, fazer mercado no

Portugal…Se fosse amanhã, creio que teria mesmo sauda-

quadro da União Europeia e não só, ten-

des deste país!

do conseguido construir uma economia

Pensou alguma vez que casaria com um Diplomata?

diversificada, que vai desde o comércio

Antes de casar, sabia que ele iria lançar-se na carreira

eletrónico ao ramo químico e da borra-

diplomática, portanto... Algumas de nós, mulheres de

cha. O crescimento no setor financeiro

diplomatas, renunciamos às nossas carreiras quando os

corresponde aproximadamente a 22% do

acompanhamos. Ocupamo-nos entre outras coisas da

PIB.

organização da Residência e do seu pessoal, de modo a

Quanto à Balança Comercial entre o Lu-

que todas as atividades que aí têm lugar corram da melhor

xemburgo e Portugal, ela não reflete as

forma possível. Também podemos apoiar obras caritativas,

estreitas relações entre os dois países,

bazares por boas causas e Fundações. Estudamos idio-

sendo Portugal o 24º parceiro em termos

mas, recebemos convidados, etc…

de exportação e o 19º, em termos de

Muitas vezes deixamos a nossa profissão mas, por outro

importação. Depois de 2009, a balança

lado, é enriquecedor. Não estou nada arrependida, porque

comercial está ligeiramente a favor de

é uma experiência formidável.

Portugal, mas na realidade deveremos

E o senhor Embaixador, o que mais gosta particular-

melhorar a balança de trocas comer-

mente em Portugal?

ciais, que apenas constituiu 0,27% das

Portugal é um país que nos é muito próximo, com o qual

importações em 2010.

temos laços muito fortes, sejam históricos, sejam laços

Entre Portugal e o Luxemburgo ,

via emigração, havendo todos os dias qualquer coisa de

quais os aspetos que julga fundamen-

muito concreto no domínio consular, do domínio social ao

tais de desenvolver?

económico. Gosto mesmo da franqueza e do contato direto

Por um lado, melhorar as relações

com os portugueses. No Luxemburgo, temos muitos por-

económicas, cujas trocas comerciais

tugueses, mas nem sempre temos lá os laços que poderí-

poderão ser realmente mais elevadas;

amos ter (talvez seja recíproco), talvez não nos conheça-

por outro lado (que levo muito a peito) é

mos suficientemente bem. Aqui descobri um Portugal que

dar a conhecer uma imagem mais rea-

não é aquele que tinha descoberto através dos portugue-

lísta do Luxemburgo, que não é um "El

ses que vivem no Luxemburgo. Aqui descobri um Portugal

Dorado", e onde o desemprego também

muito diversificado e muito mais rico do que eu imaginava,

aumentou. Neste momento, a taxa de

histórica, económica e culturalmente falando. Tenho um

desemprego dos imigrantes portugueses

enorme interesse pela História e acho que a cultura de

é bastante mais elevada em percenta-

Portugal é muito rica. A cultura, os monumentos, os pa-

gem do que a sua presença em termos

lácios… gosto de ir descobrindo diversos locais extrema-

reais.

mente interessantes.

n

n

Abril/junho 2012 - Diplomática • 55


Diplomacia na 1ª pessoa

Bernarda Gradišnik, Embaixadora da Eslovénia Fala-nos de si, do mundo e de Maribor, Capital Europeia da Cultura por Maria Dulce Varela, fotos Roman Buzut Vive em Portugal há pouco mais de um ano e tem uma carreira política notória. Nascida em Liubliana, casada e mãe de gémeos, tem conseguido conciliar, de forma exemplar, estas três funções. Registamos a conversa que manteve com a Diplomática.

56 • Diplomática - Abril/junho 2012


Embaixadora Gradišnik, é um

e agora – Embaixadora em Portu-

para prevenir virar à esquerda, têm

prazer tê-la aqui em Portugal. É a

gal. Consegue descrever-nos as

que se construir ainda mais saídas

primeira vez que veio a Portugal,

diferenças e pontos em comum

desnecessárias à direita, e ramos de

desde que iniciou a sua carreira

entre todos estes sectores?

ligação, e autoestradas com porta-

política?

Apenas o primeiro é  verdadeira-

gens e túneis. 

Muito obrigada, o prazer é todo

mente diferente. Todos os outros

Mas, mesmo perdendo-me algu-

meu. Comecei a minha carreira no

se desenvolveram sob os auspícios

mas vezes, existem portugueses de

Ministério dos Negócios Estrangei-

do Ministério dos Negócios Estran-

quem posso depender. As pessoas

ros em 1991, durante o período em

geiros, onde estava gradualmente a

são extremamente amáveis e estão

que a Eslovénia estava a conquistar

construir a minha carreira profissio-

sempre prontas a ajudar. E ficam

a sua independência. Gostaria de

nal. Ao Longo de todos estes anos,

muito felizes (e orgulhosas) quando

sublinhar que não sou uma nomea-

e já estamos a falar de vinte anos,

ouvem um estrangeiro falar, ou ao

da política, nem tão pouco membro

tenho estado a adquirir conhecimen-

menos, tentar falar português. É

de qualquer partido político. Cheguei

to e experiência, a par e passo, até

por isso que tenho feito um enorme

aqui em Novembro de 2010. Tinha

me tornar finalmente embaixadora.

esforço de aprendizagem. Gosto

visitado Portugal antes, em Agosto

E devo dizer que estou muito feliz

imenso da língua, mas é difícil de

de 2010, tentando obter uma perce-

pelo meu primeiro posto como em-

aprender. Vocês falam tão rápido e

ção do país.

baixadora ser aqui, no seu país.

“comem” metade de cada palavra. E

Sabemos que nasceu em Liublia-

Teve tempo suficiente para formar

o meu marido está a tentar encon-

na, é casada e mãe de gémeos.

uma opinião sobre o nosso país,

trar um editor na Eslovénia interes-

É difícil conciliar estas três ativi-

o nosso povo, a nossa forma de

sado em publicar Os Lusíadas. Ele

dades – ser esposa, mãe e profis-

vida?

é um tradutor de renome em poesia

sional?

Estou aqui há  14 meses, por isso

em rima, entre outras coisas. Espe-

Onde está o coração, é onde fica

diria que é tempo suficiente para

remos que alguém se interesse.

a nossa casa. Somos muito unidos

formar uma opinião geral. Claro

Como Embaixadora, como está a

enquanto família. Sou também muito

que não levei assim tanto tempo

enfrentar esta terrível crise na

devota ao meu trabalho. Felizmente,

para compreender como Portugal é

Europa?

tenho um marido que ajuda imenso.

bonito em termos de natureza, as

A minha prioridade como Embaixa-

Ele é um escritor e tradutor free-lan-

suas brisas oceânicas e surf, o seu

dora é agir positivamente no campo

cer, por isso pode decidir quando

clima generoso, os seus deliciosos

da diplomacia económica. Esta tem

trabalhar. Ainda assim, de vez em

produtos alimentares, a sua exce-

sido a nossa (eslovena) prioridade

quando, o meu marido e os géme-

lente cozinha e os seus cidadãos

já há algum tempo. Tento encora-

os ficam zangados comigo, porque

delicados e prestáveis. E eu sou

jar empresas eslovenas a virem a

assim que chego a casa, recomeço

uma juíza implacável, tendo vindo

Portugal – tarefa nada fácil. Nas

a trabalhar de novo – especialmente

eu própria de um belo país.

mentes dos eslovenos, Portugal fica

os papéis para os quais não exis-

A única coisa que me perturba en-

muito distante, para além de não

te tempo suficiente durante o dia.

quanto recém-chegada é a abun-

conhecerem a língua e a situação

Existem ainda os eventos ao fim do

dância, na minha opinião, de muitas

em que Portugal se encontra neste

dia que me impedem de estar mais

e desnecessárias estradas. Após

momento, também não ajuda. Ao

com a minha família. Mas os géme-

um ano ainda me posso encontrar

mesmo tempo promovo a Eslovénia,

os têm agora 15 anos, por isso creio

completamente perdida em Lisboa,

o mercado esloveno, procurando

que serei progressivamente menos

e o meu GPS (Nüvi) perde-se com

aumentar o interesse em empre-

necessária.

igual rapidez.

sas portuguesas. Vejo futuro para

Tem uma longa experiência em di-

E, para se poder virar à esquerda

os nossos países, trabalhando em

ferentes setores. Desde 1990 até 

praticamente em todo o lado em

conjunto, conseguindo assim pene-

hoje: uma editora literária, depois

Lisboa, tem que se contornar uma

trar em países terceiros, onde cada

o Ministério dos Negócios Estran-

rotunda ou virar três vezes à direi-

um de nós tem melhores relações.

geiros, trabalhar num grupo para

ta. É por isto que cada carro anda

Posto isto, devo dizer que a cultura,

Política Externa e de Segurança

às voltas e permanece muito mais

e outras áreas de promoção, são

Comum, Relações Económicas,

tempo em circulação. O tráfego fica

também importantes para nós. A

Embaixadora Adjunta em Zagreb,

congestionado por causa disto. E

Eslovénia ainda não é

Abril/junho 2012 - Diplomática • 57


Bernarda Gradišnik

suficientemente reconhecida, as

conhecem e recordam como jogador

não lhes ter sido permitido regressar

pessoas aqui tendem a confundi-la

de futebol do Porto e do Benfica! E,

até 1861, ninguém tocou na sinago-

com a Eslováquia e mesmo a Estó-

sabem que mais?! Ele iniciou a sua

ga durante aquele tempo.

nia. Maribor, a nossa segunda maior

carreira em Guimarães!

Um pouco mais de história: Maribor

cidade, é este ano, em conjunto com

Poderia descrever Maribor? Ou-

recebeu privilégios de cidade em

Guimarães, Capital Europeia da Cul-

vimos dizer que possui lindos edi-

meados do século XIII, por isso é

tura. Espero que isto ajude.

fícios históricos, sinagogas, etc.,

considerada uma velha cidade de

Sim, falemos um pouco sobre Ma-

perto do rio Drava. Por detrás da

acordo, pelo menos, com os pa-

ribor, escolhida para ser Capital

torre da catedral, pode-se ver o

drões eslovenos. Até 1918 conti-

Europeia da Cultura. Porquê esta

que resta do castelo que deu o

nuou sob a monarquia dos Habsbur-

escolha? Porquê  Maribor e não

nome antigo a Maribor – Marburg

gos. Em 1918, 80% da população

outra cidade eslovena? Pensa

no drau…

declarava-se austríaca, mas como

que é importante para redefinir a

Eu gosto muito de Maribor, se não

toda a envolvente era de eslovenos,

imagem da cidade, uma vez que

pelo resto, por razões pessoais. A

foi mais tarde atribuída à Eslovénia,

era industrial e não tanto o centro

família alargada original do meu ma-

naquela época parte do Reino dos

cultural da Eslovénia?

rido ainda hoje vive em Maribor, de

Sérvios, Croatas e Eslovenos. Após

Maribor é a segunda maior cida-

onde o seu pai veio para Liubliana

a Segunda Grande Guerra encon-

de da Eslovénia. A sua economia

após a Segunda Guerra Mundial.

trávamo-nos sob Tito e os seus

baseia-se na indústria pesada, uma

É uma cidade muito verde e eu diria

seguidores “Tito após Tito” até 1991

herança da Jugoslávia, a perda dos

que é isso que, predominantemen-

quando nos erguemos, agarrando o

anteriores mercados jugoslavos,

te, a torna tão bela. Rodeada de

muro de Berlim aproveitando a opor-

tornou muito tensa a economia da

colinas e vinhedos sobretudo para

tunidade para sair da Jugoslávia e

cidade, resultando em níveis record

Norte e flanqueada pelas magnificas

da era comunista.

de desemprego. A situação me-

montanhas ondulantes Pohorje (com

Pensa que após duas décadas de

lhorou desde meados dos 90 com

cerca de mil metros de altitude, com

Independência, e a meio de uma

o desenvolvimento de pequenas e

florestas verdes muito densas), tem

crise, a escolha de Maribor como

médias empresas e indústria, mas

também um rio, Drava, que é sem-

Capital Europeia da Cultura che-

ultimamente tem vindo novamente a

pre bom uma cidade possuir, com

gou no momento certo?

piorar devido à recessão.

muitos espaços recreativos. Por

Certamente! A resposta para a

Maribor enfrenta uma crise, tensão

isso, eu enquanto visitante, não iria

crise não é um fecho total, mas um

social a aumentar, e as pessoas têm

tanto pela arquitetura e artes – mas

esforço para relançar as empresas

menos visão. O projeto de Capital

quem é que vai mesmo? – preferiria

da cidade. A Capital Europeia da

Europeia da Cultura pode ajudar

aproveitar um passeio dentro dos

Cultura tem que ser vista como

a ganhar um novo amor-próprio e

eventos culturais especiais des-

uma oportunidade para restaurar

uma nova identidade aos olhos dos

te ano. Quanto aos monumentos

e manter uma identidade comum.

outros. Maribor 2012 tem todo o

históricos, temos que recordar que

Só com a revitalização da cidade,

potencial para se posicionar como

os aliados bombardearam a cidade

como um organismo com diversas

uma Capital Europeia da Cultura

durante a Segunda Guerra Mundial,

funções, poderá haver crescimento

reconhecida, com a imposição de

por isso mais de metade dos edifí-

económico. Os benefícios diretos do

elevados padrões, com ambição, ao

cios foram arrasados. Do que so-

turismo e outras indústrias de servi-

mesmo tempo que abrange toda a

brou, os comunistas apropriaram-se,

ços, postos de trabalho expectáveis,

sociedade através da criatividade.

arruinando à sua maneira, através

novos investimentos são todos as-

Não é que Maribor fosse isenta de

da negligência dos tesouros burgue-

petos muito importantes da Capital

cultura, sabe? Existem vários pro-

ses. Mas temos a sinagoga que é

Europeia da Cultura, especialmente

jetos válidos, como o Lent Festival

uma das mais antigas da Europa e

nestes tempos difíceis. Uma das

(Lent é a parte antiga da cidade e

que merece a pena mencionar como

mais influentes páginas de turismo

o festival realiza-se em finais de

memória dos brandos costumes

na internet, TripAdvisor, já declarou

Junho), e o mais conhecido escri-

eslovenos. Apesar dos judeus terem

Maribor como uma vencedora na

tor esloveno, Drago Jančar, é um

sido expulsos por Maximiliano (o pri-

captação da atenção dos turistas –

nativo de Maribor. Tal como Zlatko

meiro dos Habsburgos) através de

existem agora 6 vezes mais turistas

Zahovic, quem todos sem dúvida

um edital em finais do século XV e

a visitar que há um ano.

58 • Diplomática - Abril/junho 2012


Maribor, Capital Europeia da Cultura 2012

Para este ano especial, sabemos

criatividade local. The Keys of the

estender a um contexto europeu

que Maribor tem programados mais

city que mantém o diálogo entre o

mais alargado.

de 500 eventos, entre eles, óperas,

dialogo entre a cidade e a arte. The

Ouvimos dizer que os eslovenos

a criação de novos edifícios e jar-

urban crases que trabalham nas

são chamados “Uma nação de

dins para os mais idosos…

margens da sociedade, através de

poetas”?

Bem, de acordo com o programa da

uma busca activa de tópicos sociais

Bem, hoje em dia os jovens prefe-

Capital Europeia da Cultura – Ma-

e ecológicos que estabelecem a

rem as máquinas de jogos ou nave-

ribor 2012, existem 412 projetos e

importância da coexistência e res-

gar na internet, ou... Para os seus 5

muitos mais eventos e processos.

saltam formas práticas de conseguir

minutos de fama através de reality

Tudo se desenrola à volta de 4 pila-

uma sociedade criativa e tolerante.

shows ou Youtube ou redes sociais,

res programáticos:

Lifetouch que representa um lugar

por isso penso que o velho ditado já

Terminal 12 que nos traz arte de

multimédia de reflexão, através de

não é válido. Mas uma vez que era

qualidade de topo, com especial

eventos da Capital Europeia da

apenas a língua e as suas formas

ênfase nas novas abordagens e na

Cultura na cidade e região até se

culturais que nos mantinham como

Abril/junho 2012 - Diplomática • 59


Bernarda Gradišnik

uma entidade étnica viva durante

transformou em hino nacional (mas

Drowns dull despair

os tempos de pressões nacionalis-

uma vez que o cantamos em eslove-

(torna velado o desespero)

tas dos nossos vizinhos – nomina

no, ninguém aprecia devidamente a

With hope where there was care.

sunt odiosa – ainda pensamos, de

mensagem de Prešeren). Também

forma enlevada, sobre a cultura e,

penso que mostra um Prešeren, tal

inclusivamente, temos um dia sem

como alguém que vocês conhecem,

trabalho, feriado nacional, da cultura.

que continha em si próprio “todos os

(que luta para ver o dia mais brilhante)

Estranhamente, decidimos celebrá-lo

sonhos do mundo”.

When wars will all be ancient,

(com esperança onde antes havia preocupação)  Let God bless every nation (Que Deus abençoe cada nação) Who strive to see the brightest day

na data em que o nosso mais famo-

My friends, this is the hour

(quando todas as guerras forem anciãs)

so poeta, France Prešeren, morreu

(meu amigo esta é a hora)

long past and gone away;

em 1848. Provavelmente porque

of sweet new wine that once again

(Há muito passadas e afastadas)

(de doce novo vinho uma vez mais)

Who yearn to see

Makes eyes bright, hearts recover,

(que deseja ver)

(faz os olhos brilhantes, corações recuperar)

Peoples all free,

Puts fire into every vein,

(todos os povos em liberdade)

efectivamente era. Deixe-me só citar

(faz fervilhar cada veia)

No foes, just neighbourly.

duas estrofes do seu famoso poema

And everywhere

“Canção do Brinde” que o meu país

(e por todo lado)

“nemo propheta in sua pátria” – ele teve que morrer para ser devidamente reconhecido pelo génio que

60 • Diplomática - Abril/junho 2012

(Não inimigos, apenas vizinhos amigáveis) 

Sim, a Eslovénia é  também um


reconhecido produtor de excelen-

parece-me que têm bons informado-

viasse o problema de financiamento.

tes vinhos. A beber uma gota oca-

res. Sim, existe rivalidade entre as

Tudo estará decidido até ao final de

sional do nosso pinot ou teran, nem

duas cidades. Em tempos antigos,

Fevereiro.  

Prešeren era adverso à ideia.  

os habitantes de Maribor tinham

Voltemos ao tema das relações

A mensagem de Prešeren parece

o direito de ressentir a falta de

entre a Eslovénia e Portugal.

espantosa, tendo em consideração

compaixão em dirigir e explorar da

Disseram-me que existem alguns

que foi escrita numa época em que,

capital, sem que com isso recebes-

projectos culturais em comum

historicamente, não existiam muito

sem muito de volta. Mas penso que

a ser desenvolvidos, nomeada-

boas relações de vizinhança. Tal-

hoje em dia a situação está muito

mente entre Maribor e Guimarães.

vez a relação Guimarães-Maribor

melhor. Existem muitas instituições

Pode elucidar-nos? 

seja uma herança dele, digamos de

governamentais em Maribor. A cida-

Estou satisfeita com a oportunidade

orientação UE?  

de tem a sua própria universidade.

que as duas cidades têm de ganhar

Posso falar-vos de pelo menos dois

A rivalidade permanece claro, mas

visibilidade. Ambas vão cooperar em

projetos que serão levados a cabo

é muito similar à rivalidade entre o

diversos campos, nomeadamente

nas duas cidades gémeas. Jovens

Porto e Lisboa, ou entre o Porto e o

da arte, criatividade, participação do

de Portugal irão visitar a Eslovénia

Benfica. Tudo o resto são “incorrec-

público, “forma de pensar” e cultura

e vice-versa, de modo a familiari-

ções políticas”, que são muito mais

popular. Para além dos dois projec-

zarem-se com ambas as culturas,

suaves do que por exemplo, nos

tos antes mencionados, dedicados

trabalhando em conjunto em diferen-

Estados Unidos. Na realidade, na

à juventude, existem ainda projectos

tes projectos, bem como diferentes

Eslovénia, ninguém se importa com

comuns no campo musical, dança,

workshops que serão organizados.

um comentário num jogo de futebol

teatro e artes visuais. A ideia é tam-

Um dos projectos é chamado Cartas

ou numa anedota. Espero since-

bém apresentar o poder e criativida-

do Mundo. A ideia é ligar jovens,

ramente que não só os habitantes

de da poesia (e trocar antologias) e

e até mesmo crianças, através da

de Liubliana, mas também pessoas

a riqueza da cultura popular. Será

expressão da sua criatividade na

do mundo inteiro visitem Maribor

ainda estabelecida cooperação en-

escrita de cartas. As dez melhores

e participem e aproveitem os seus

tre ONG’s e as duas universidades. 

cartas serão premiadas e os seus

eventos culturais. E obviamente,

As cidades de Maribor e Guima-

autores terão a oportunidade de

muitos portugueses!  

rães estão ligadas através do

viajar e conhecer o mundo.  

Suponho que a crise económica

futebol e esta também será  uma

Ouvimos também falar do musical

europeia tenha afectado o orça-

área de cooperação. O Zlatko

Carmina Slovenica. Pode falar-nos

mento para o programa cultural

Zahovic, que iniciou a sua carrei-

mais sobre este espectáculo, com

em Maribor este ano… 

ra em Guimarães, foi nomeado

jovens, tanto quanto sabemos…? 

A sua suposição está  obviamente

pela Fundação Cidade de Guima-

Críticos muito respeitáveis têm este

correcta mas, independentemente,

rães como Embaixador da Capital

coro em elevada consideração.

Maribor fará o seu melhor com os

Europeia da Cultura.  

Carmina Slovenica estão a intro-

recursos disponíveis, esta é uma

A nossa embaixada também está a

duzir um teatro vocal coreografado

grande oportunidade. No entanto,

fazer a sua parte. No dia 8 de

e estou com algumas dificuldades

existe uma nuvem ameaçadora a

Fevereiro organizou-se um evento,

em explicar o significado de “coreo-

pairar sobre o próximo projecto de

o antes mencionado dia da cultura,

grafado”, mas sei que consiste em

Maribor – a 16ª edição da Univer-

que ao mesmo tempo foi dedicado

juntar num mesmo palco, música,

síada de Inverno, competição para

às Capitais Europeias da Cultura.

voz, movimento, actuação e outras

estudantes universitários de 2013.

Nesta ocasião, representantes de

artes performativas. Eles estão à

Existem sérios entraves, porque a

Maribor e Guimarães foram convi-

frente na sua área.  

cidade não pode “por dinheiro onde

dados para promover a sua progra-

Está  à espera que muitos es-

a boca estava”. Talvez esta seja a

mação, por isso terá oportunidade

lovenos vão a Maribor durante

altura ideal para provar que existe

de ouvir mais sobre este tema.

este ano? Existe um fato que nos

solidariedade entre cidades eslo-

Convido-os desde já – e não me re-

deixa curiosos. É verdade que os

venas, uma vez que a organização

firo só à Diplomática, mas os leitores

habitantes de Liubliana ainda não

internacional aceitaria que o evento

também – a juntarem-se a nós nesta

gostam dos de Maribor? 

fosse financiado e deslocalizado por

ocasião. Muito obrigada 

Não sei quem vos disse isto – mas

toda a Eslovénia se esta medida ob-

Muito obrigada nós, Excelência.

n

Abril/junho 2012 - Diplomática • 61


Diplomacia

Presidente Cavaco Silva recebe credenciais de novos Embaixadores

No início do ano, o Presidente da República recebeu, no Palácio de Belém, as cartas credenciais dos novos embaixadores em Portugal: o Embaixador de Moçambique, Jacon Jeremias Nyambir, Embaixador do Perú, Nestor Francisco Popolizio Barales, o Embaixador do Qatar, Adel Ali Mohamed Al Khal, e da Embaixadora de Cabo Verde, Maria Madalena Brito Neves. Na mesma cerimónia apresentaram as credencias ao Presidente da República os Embaixadores não-residentes: o Embaixador da Tanzânia, Begum Karim-Taj, Embaixador de S. Vicente e Grenadinas, Celnio Elwin Lewis, o Embaixador das Seychelles Claude Morel, a Embaixadora Maria Ubach Font, de Andorra, Embaixador Agron Budjaku, da antiga República Jugoslava da Macedónia e o embaixador do Vietname, Duong Chi Dung.

62 • Diplomática - Abril/junho 2012

n


Dossier

´ Africa No rescaldo de golpes e conflitos, debaixo de fogo, a Guiné-Bissau procura o seu espaço, num continente africano marcado por feridas abertas… A Guiné-Bissau é a maior “dor de cabeça” da CPLP. Vivendo permanente instabilidade, com exceção do curto período de liderança de Luís Cabral, o primeiro Presidente da República, e uma “normalidade” forçada pelo punho firme do primeiro consulado de Nino Vieira, a pátria de Amílcar Cabral parece marcada pelo selo de tragédia da morte violenta do seu inspirador e pai da independência. Golpe atrás de golpe, os militares guineenses têm marcado a agenda política do país, transformando a sociedade civil em mera espetadora dos desmandos de uma tropa prenhe de autoritarismo antidemocrático e das perigosas forças do tráfico de estupefacientes. A Guiné-Bissau, aparentemente, parece ingovernável, a não ser que fosse possível inventar uma nova instituição militar nos destroços desta e reinventar-se um conceito de democracia que correspondesse com mais equidade à multiplicidade étnica e cultural de que enforma o país: uma manta de retalhos criada pela ocupação colonial e desenhada a régua e esquadro numa lógica de partilha do continente africano pelas potências europeias. Os problemas da Guiné-Bissau, para além das dores domésticas desse povo sofrido, são feridas profundas gravadas a escopro na má consciência daqueles que procuram receitas iguais para coisas diferentes. Ou seja, o concerto das nações só é possível se gizado sobre as diferenças que fazem deste nosso mundo uma manta de multiculturalidades. As receitas do ocidente “civilizado” e “democrático”, às tantas, não farão muito sentido num continente que tem de reinventar novos conceitos e novas formas de organização política e social. A “chapa 5” dos regimes democráticos da Europa e do continente americano já provou não servir nem ajudar uma África que, de tanto ser “ajudada”, só tem vindo a atrasar o seu desenvolvimento e o progresso social dos seus povos.

Abril/junho 2012 - Diplomática • 63


Grandes Figuras

Nelson Mandela, aos 93 anos continua a irradiar uma surpreendente vitalidade

“Se o mundo pudesse ter apenas um pai, nós escolheríamos Nelson Mandela”… disse um dia Peter Gabriel. E tem razão: Madiba faz-nos acreditar no que de melhor a Humanidade transporta no seu seio

A 21 de Fevereiro passaram 22 anos sobre a liberta-

plexo prisional de Victor Verster.

ção de Nelson Mandela, sem dúvida a personalidade

Estava traçado o fim da segregação racial e aberto o

ainda viva com mais prestígio internacional, tendo

caminho da liberdade. Ao contrário do que seria su-

até um dia mundial assinalado em sua homenagem,

posto, pese embora os longos anos de cárcere, Nelson

o Mandela Day, comemorado anualmente na data do

Mandela, ao invés de querer vingança ou instigar ao

seu aniversário, a 18 de Julho.

ódio, apelou à reconciliação, democracia e igualdade.

Corria o ano de 1990 quando Frederik de Klerk, o

Na tomada de posse como primeiro presidente negro

então presidente do regime do apartheid, pôs termo a

da África do Sul, Madiga enfatizou a mensagem que

mais de 27 anos de prisão do líder sul-africano. A 11

norteou toda a sua vida: “justiça, paz, trabalho, pão,

de Fevereiro desse ano, de mão dada com Winnie, na

água e sal, para todos”.

altura sua mulher, Madiba – como é carinhosamente

Mandela uniu gente de todas as cores.

tratado pelo seu povo – transpôs os portões do com-

Este ano, a Cidade do Cabo foi escolhida para as

64 • Diplomática - Abril/junho 2012

´ Africa +


Mandela luta e ascenção

comemorações nacionais que assinalaram o fim de

parte da sua pena na prisão de Robben Island, ao

um cativeiro de 27 anos, imposto pelo regime racista

largo da cidade do Cabo e, posteriormente, na prisão

da minoria branca, com direito a um ato oficial na casa

de Pollsmor. No entanto, à data da sua libertação,

parlamentar e com a presença de Mandela que, aos

Nelson Mandela, estava detido numa casa de campo,

91 anos e apesar de se encontrar bastante debilitado,

no complexo da prisão de Victor Verster, uma zona

pareceu readquirir um surpreendente vigor, ao ser

rural a cerca de 50 quilómetros da cidade do Cabo.

efusivamente aclamado pela esmagadora maioria dos

Actualmente o complexo é conhecido como prisão

deputados.

de Drakenstein, erguendo-se no local uma estátua

O discurso oficial coube ao atual presidente, Jacob

de homenagem ao líder africano, de punho erguido,

Zuma, defendendo que a África do Sul continua a

assinalando a luta de toda uma vida pela libertação do

inspirar-se na visão, na inteligência e na sensibilida-

povo sul-africano.

de do seu primeiro líder negro, que cumpriu a maior

Aliás, o local foi, nesse dia, palco de uma

´ Africa +

Abril/junho 2012 - Diplomática • 65


Nelson Mandela

Na tomada de posse como primeiro presidente negro da África do Sul, Madiba enfatizou a mensagem que norteou toda a sua vida: “justiça, paz, trabalho, pão, água e sal, para todos”

reconstituição da “marcha da libertação”, o dia em

celebrava ontem um “dia para assinalar um momento

que Mandela transpôs os portões do complexo prisio-

divisor de águas” que mudou por completo a África do

nal, a 11 de Fevereiro de 1990, mas na qual o velho

Sul e que Mandela uniu o país na construção de um

líder, por razões de saúde, não participou. Mas a sua

Estado “não sexista e não racista”.

ausência não impediu que milhares de pessoas partici-

Madiba recebeu mais de 250 prémios, entre eles o No-

passem neste ato simbólico. Poppy Shabalala, resi-

bel da Paz. A sua tenacidade, a sua força de vontade e,

dente a poucos metros da prisão, disse aos jornalistas

fundamentalmente, a sua intrínseca bondade têm feito

que Nelson Mandela “fez o impensável, uniu negros e

mudar o mundo e transmitir uma mensagem de espe-

brancos e terminou com o apartheid”, adiantando estar

rança a toda a Humanidade. Como, certo dia, disse o

ali para manifestar a sua gratidão.

músico Peter Gabriel: “se o mundo pudesse ter apenas

No parlamento, o presidente Zuma referiu que se

um pai, nós escolheríamos Nelson Mandela”…

66 • Diplomática - Abril/junho 2012

´ Africa +

n


Lusofonia

Inauguração da CPLP

A sede permanente da CPLP Uma aposta partilhada e ambiciosa para o futuro

Passaram poucos meses desde a assinatura

dos Países de Língua Portuguesa. A defesa

pública do protocolo de cedência e aceitação

da liberdade, da democracia, dos Direitos

do Palácio do Conde de Penafiel, em Setem-

Humanos, do desenvolvimento económico e

bro de 2011, para a instalação permanente da

social dos povos, os fatores que integram a

sede da Comunidade dos Países de Língua

comunidade, o envolvimento da sociedade

Portuguesa. Institucionalizada em 1996, a

civil de cada um dos países membros - foram

Comunidade concluiu em 2011 o processo de

alguns dos objetivos da CPLP realçados pelo

negociação que incentivou a sua fundação.

presidente português.

A primeira ideia de criação da CPLP surgiu

O evento de inauguração foi assinalado na

no final dos anos 1980, com a primeira reu-

presença de várias personalidades dos 8

nião dos Chefes de Estado e de Governo dos

países membros da Comunidade e outros

países de Língua Portuguesa; Angola, Brasil,

convidados especiais. Destacou-se a presen-

Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique,

ça dos antigos Presidentes: Jorge Sampaio e

Portugal e São Tomé e Príncipe, em São Luís

Mário Soares (Portugal), Joaquim Chissano

do Maranhão a convite do então presidente

(Moçambique), Pedro Pires e António Masca-

brasileiro: José Sarney.

renhas Monteiro (Cabo Verde); o atual presi-

A 6 de Fevereiro de 2011 Lisboa passou a

dente da República Portuguesa, Aníbal Ca-

acolher a sede permanente da CPLP situada

vaco Silva e o Vice – Presidente de Angola,

no Palácio do Conde de Penafiel. Lisboa é a

Fernando da Piedade Dias dos Santos - em

única capital onde existem Embaixadas de

representação do Chefe do Estado Angolano;

todos os países que integram a Comunidade

o Secretário Executivo da CPLP, Domingues

´ Africa +

Abril/junho 2012 - Diplomática • 67


CPLP

Presidente da Republica Portuguesa, Aníbal Cavaco Silva; Vice-Presidente da República de Angola, Fernando da Piedade dos Santos; e Secretário executivo da CPLP, Domingos Simões Pereira

Simões Pereira; o Primeiro-Ministro de Por-

central da política externa dos Estados que a

tugal: Pedro Passos Coelho; o Ministro dos

integram, o que permite a valorização do papel

Negócios Estrangeiros, Paulo Portas e os Mi-

de cada um dos seus membros no contexto

nistros dos Países membros da Comunidade.

regional e internacional em que se inserem.

Em Fevereiro de 2012 O Chefe do Estado Por-

No seu discurso, na Sessão Solene de inaugu-

tuguês e o Vice - Presidente de Angola tiveram

ração da Sede, o Chefe do Estado Português

a honra de cortar a fita e descerrar a placa

destacou ainda a importância da Lusofonia no

da inauguração que marcou a cerimónia de

mundo. Referiu-se à língua portuguesa como

abertura da nova casa da CPLP. Na cerimónia

a sexta mais falada do mundo, e como um dos

foi destacado o percurso evolutivo que a CPLP

idiomas em maior expansão. Na opinião de

fez nos seus 15 anos de vida. O Presidente

Cavaco Silva a lusofonia traz consigo uma re-

da República Portuguesa apreciou o empenho

alidade que constitui um ativo estratégico, em

e o contributo da Presidência Angolana que

termos políticos e económicos, o que faz com

atualmente preside a CPLP. Fez referência ao

que seja indispensável apostar na educação e

processo de cooperação que tornou possível

na formação em língua portuguesa, apresen-

a escolha da capital portuguesa para albergar

tando-se a CPLP como uma aposta partilhada

a Casa Comum dos Países de Língua Portu-

e ambiciosa para o futuro.

guesa. Cavaco Silva afirmou que a despeito da

No dia da inauguração da sede da Comunida-

sua juventude a Comunidade é hoje um eixo

de, realizada na semana comemorativa dos

68 • Diplomática - Abril/junho 2012

´ Africa +


1

3

2

5 4

1. Vice Presidente da República de Angola, Fernando da Piedade dos Santos e Primeiro-Ministro Pedro Passos Coelho 2. Vice-Presidente da República de Angola, Fernando da Piedade dos Santos 3. Secretário executivo da CPLP, Domingos Simões Pereira 4. Jorge Sampaio e o Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros Paulo Portas. 5. Vice Presidente da República de Angola, Fernando da Piedade dos Santos; Presidente da Republica Portuguesa, Aníbal Cavaco Silva; Primeiro-Ministro de Portugal, Pedro Passos Coelho; e Secretário executivos da CPLP, Domingos Simões Pereira

15 anos de existência da CPLP teve lugar

dos avanços registados na implementação do

a VII Reunião Extraordinária do Conselho de

Programa de Adesão da Guiné-Equatorial à

Ministros da CPLP. Os oito representantes dos

CPLP; a proposta de Orçamento de funciona-

países membros reuniram-se para se pronun-

mento do Secretariado Executivo para 2012;

ciarem sobre a agenda a cumprir em 2012. Na

a criação do Conselho Económico e Social da

reunião do Conselho, presidido por S. Excelên-

CPLP; e a aceitação do Centro Internacional

cia o Ministro das Relações Exteriores de An-

de Investigação Climática e Aplicações para os

gola, Dr. Georges Chicoti, oito pontos importan-

Países de Língua Portuguesa e África (CIICLA)

tes foram referidos como temas de destaque: a

por Cabo Verde como Centro da CPLP através

elaboração dos Vocabulários Ortográficos Na-

de um projecto de resolução para aprovação ad

cionais e do Vocabulário Ortográfico Comum;

referendum no Conselho de Ministros a realizar

o reforço da Cooperação Económica e Empre-

em Julho, em Maputo.

sarial na CPLP; a apresentação da Estratégia

O ministro Georges Chicoti associou a nova

Regional de Segurança Alimentar e Nutricional

sede da CPLP no Palácio de Penafiel à Casa

da CPLP; o apoio ao processo de estabiliza-

da Lusofonia com a sua vocação de fórum

ção política da Guiné-Bissau; realizar até Maio

multilateral para o aprofundamento da amiza-

um Conselho de Ministros Extraordinário para

de mútua, da concertação político-diplomática

uma avaliação dos progressos alcançados e

e da cooperação entre os seus membros.

elaboração de um relatório exaustivo no quadro

n

Reportagem: Roman Buzut

´ Africa +

Abril/junho 2012 - Diplomática • 69


Viagens de Estado

Passos Coelho em Moçambique Acordo sobre Cahora Bassa

A hidroeletrica de Cahora Bassa

“relações entre os dois países”

(HCB), o maior e o mais poderoso

face a Cahora Bassa. As expeta-

produtor de eletricidade em Mo-

tivas assentaram na transferência

çambique, voltou a destacar-se

do capital português da Hidroe-

no mapa político-económico inter-

létrica de Cahora Bassa para as

nacional. Acompanhado pelo mi-

mãos dos moçambicanos. Até ao

nistro dos Negócios Estrangeiros,

fim de Abril de 2012, o Estado

Paulo Portas e pelo ministro da

português detinha 15% na Hidro-

Economia, Álvaro Santos Pereira,

elétrica de Cahora Bassa (HCB).

o primeiro–ministro português,

Recorda-se, que, até 2006, na

Pedro Passos Coelho, deslocou-

posse de Portugal estavam 82%

-se à capital de Moçambique,

de ações, mas que a partir de

Maputo, para chegar a um acor-

2007, após negociações entre os

do sobre a alienação do capital

dois governos, foram reduzidas

português na HCB. Nas palavras

para 15%.

do ministro dos Negócios Estran-

Na sua visita de dois dias a Mapu-

geiros moçambicano, Henrique

to, o primeiro-ministro português,

Banze, no seguimento desta

Passos Coelho, e o presidente de

visita espera-se um reforço das

Moçambique, Armando Guebuza,

70 • Diplomática - Abril/junho 2012

´ Africa +


chegaram a um acordo. Portu-

os maiores, destaca-se o Proje-

gal transferiu o capital que detinha

to de Desenvolvimento Regional

na HCB. A empresa portuguesa

de Transporte de Energia entre

Parpública, detentora do empreen-

o Centro e o Sul de Moçambique

dimento, vendeu os 15% por cerca

(Cesul). Num valor superior aos

de 97 milhões de dólares: 7,5%

2 milhões de dólares, o projeto,

foram para a empresa pública

constituído por duas redes de alta

moçambicana CEZA, cujo capital

tensão entre Matola e Tete, tem

é detido pela EDM, e 7,5% para a

como objetivo escoar energia na

empresa portuguesa Rede Elétrica

região do vale do Zambeze.

Nacional (REN). Com a assinatu-

Após várias negociações, Mo-

ra deste acordo, a REN reforçou

çambique passou a deter 92.5%

a sua política energética sobre o

do capital da HCB. Nas palavras

mercado moçambicano. A empre-

do primeiro-ministro português,

sa portuguesa aposta no transpor-

tratou-se da resolução de um pro-

te de energia no continente africa-

blema do passado, que hoje abriu

no. Alcançou mesmo um conjunto

caminho para “novas oportunida-

de garantias de participação em

des no campo da energia”.

vários projetos energéticos. Entre

n

Roman Buzut

´ Africa +

Abril/junho 2012 - Diplomática • 71


Crónica

Lusofonia Um resgate afirmativo da mundialização das identidades instituições de resgate, do que deveria ter sido melhor,nos tempos que passaram à história, mas que enquadrados no devido momento e época, não poderam ser diferentes, em termos de mentalidades e práticas. Milénios antes de Cristo, também houve distanciamentos entre o atlântico norte e o atlântico sul, em termos do domínio técnico e científico, favoráveis para os do norte, que encorajados pelo clima frio e durezas invernais, avançaram para as etapas do desenvolvimento económico e industrial, hoje ameaçados de ressessão financeira. A lusofonia dos nossos dias, remete-nos para a recuparação das vivências do tropicalismo africano da diáspora da idade moderna e, da herança racializada expalhada pelo “atlântico negro”, como conquista a partir das

Palmira Tjipilica Professora Universitária - Luanda, Angola

experiências de diferentes formas de sentir e de saberes. Dir-se-ia que, de uma ou de outra maneira, a doutrina das idéias

A Cultura excedeu as espetativas de uma repetição subjeti-

platónicas, onde o objeto do conhecimento se distingue das

va e anacrónica cada vez mais comunicante e comunicativa.

coisas naturais, colocam o humano de hoje, no patamar da

O “Atllântico” outrora berço dos navegantes europeus em

sabedoria que se traduz na filosofia das belíssimas obras de

busca de outras paragens, é traçado pelo sociólogo Paul

arte, quer na arquitetura, quer noutros manifestações da vida

Gilroy, na sua perspetiva antiessencialista e afirmativa, que

social, cultural e política em que, as boas obras inacabadas,

nos leva ainda mais longe: diria mesmo, até à “Casa Grande

são eternizadas pela memória daqueles que a completam,

e Senzala” de Gilberto Freire do séc. 20, tendo-se catapulta-

quer em termos materiais e imateriais em que o domínio da

do para o que é atualmente uma cultura global e globalizante,

escrita, é uma opção obrigatória. A partir das independências

que deste lado do atltântico, se eleva do exótico e expressivo

dos países de língua oficial portuguesa, as experiências daí

batuque à instrumentos musicais mais sofisticados, dentro

decorrentes e as relações internacionais daí resultantes,

da filosofia e dimensão africana. Da literatura, à dança e à

guidaram os novos países para o desenvolvimento humano,

música, as fronteiras esbatem-se, a partir do momento em

mais maduro e as antigas potências coloniais, para uma

que, as orquestras de música sinfónica entram em cena,

revisão das relações entre estados, com o objetivo de maior

num diálogo apressado, cada vez mais conseguido, em que

coesão e sustentabilidade das nações e países que falam a

os desaires de uns são a tristeza de outros e as vitórias são

mesma língua.

celebradas como de uma só identidade se tratasse.

Chegados ao séc. 21, as práticas migratórias bem controla-

Contudo, os povos distanciaram-se de acordo com suas

das, não só enriquecem as nações, como também colocam

realidades geográficas e linguísticas, quer pela força da

os humanos num constante diálogo económico, técnico e

diferença, quer pela força do que nos é comum como hu-

científico. E porque assim é, nos estados outrora subjuga-

manos, na corrida de um mundo melhor e mais conseguido

dos, desenha-se um luso-tropicalismo que invoca o passado

em que a transfronteiricidade tem regras. Tal como o Egito

numa perspetiva mais avançada de respeito pela história de

se sagrou como uma sociedade da primeira civilização e a

cada um à medida que as reaproximações ganham sentido.

Europa como o berço do iluminismo, chegados ao sec. XXI,

Nada mais permanece igual, numa corrida em que a com-

a tendência é esbater as diferenças e os ressentimentos

ponente a não perder é o constante resgaste das identidades

das emancipações e independências, pelas aproximações

entre africanos e europeus, para os equilíbrios desejados,

culturais e económicas de outros paradigmas e propósitos,

com base na filosofia civilizacional. Para que isso seja factível

consubstanciados no equilíbrio de forças: força política,

ao longo das próximas gerações, precisamos de “utopias” ou

económica e cultural, o que pressupõe o desenvolvimento

ideias avançadas contra os arrastamentos da estagnação e

acelerado do diálogo Norte-Sul, que sem ambiguidades,

estgmatização.

devem privilegiar a livre circulação de pessoas e bens das

Assim sendo, só os grupos humanos organizados, têm como

populações baptizadas pela lusofonia.

saber dar e apropriar-se do melhor dos outros, sem o esva-

Nada mais pode ser tão brilhante, senão o avanço da intelec-

siamento e a anulação de si mesmos. É assim que eu vejo o

tualidade através da técnica e da ciência, através da criação

luso-tropicalismo, ou seja a lusofonia deste século, em que a

de mais universidades e institutos de formação profissio-

comunicação social pode exercer um papel preponderante

nal aprimorada, no sentido de melhor funcionamento das

inescedível. n

72 • Diplomática - Abril/junho 2012

´ Africa +


Guiné-Bissau e o signo da maldição e do pecado mortal A alma de um povo, para quem acredita que ela exis-

Cabral certamente “seria tudo”.

te, deve ser entendida como um conceito integrador,

Quem sabe!

sem o qual os seres se desunem da própria existência

Ou seja, a impressão que fica é que no dia em que

humana.

os militares guineenses o assassinaram em plena

Da mesma forma que um ramo arrancado brusca-

Luta de Libertação Nacional, a própria alma da Guiné-

mente de um pé de eucalipto ou de uma outra árvore

-Bissau foi como que assassinada também. Tal qual

qualquer está esconjurado a morrer aos poucos, por

sucedeu com a Grécia a partir do dia em que delibe-

ter perdido a ligação à sua fonte de sustento, um povo

rou envenenar Sócrates.

que assassina a sua alma, sujeita-se a ser castigado

A partir dessa data, nunca mais a Guiné-Bissau teve

ao infortúnio e à desgraça imutável por ter abjurado a

paz, concórdia e felicidade. O seu dia-a-dia passou a

sua fonte de (inspiração) alimentação.

ser marcado por sangue, equívocos e mal-entendidos

Quem sabe!

entre os guineenses - militares - “discípulos” de Amíl-

Na verdade, esvoaça no ar a sensação e o marasmo

car Lopes Cabral, há data de hoje.

de que o povo da Guiné-Bissau vive o seu dia-a-dia

Como se não bastasse, passados trinta e nove anos sobre a data do seu assassinato, nenhum outro gui-

N

neense atingiu, na Guiné-Bissau, a mesma honra, a mesma luz, o mesmo entendimento, a mesma respon-

a verdade, esvoaça no ar a sensação e o

marasmo de que o povo da Guiné-Bissau

sabilidade e o mesmo sentido do dever para com a

vive o seu dia-a-dia sob o signo da maldição

Guiné-Bissau.

e do pecado mortal, desde o dia 20 de Janei-

Isto é, o assassinato de Amilcar Lopes Cabral foi

ro de 1973, data do desumano assassinato

como que o azar da Guiné-Bissau. Aliás, verdade de

daquele que foi a sua “alma, luz e guia”,

muito fácil confirmação. Basta ver o semblante dos

ou seja, o seu espírito luz de nome Amílcar

guineenses face a cada ato de bestialidade perpetua-

Lopes Cabral

do pelos militares guineenses contra a Guiné-Bissau, sua gente e suas Instituições legitimamente constituídas. Ora bem, se os militares da Guiné-Bissau tivessem

sob o signo da maldição e do pecado mortal, desde o

ouvido Amilcar Lopes Cabral em vez de o matarem,

dia 20 de Janeiro de 1973, data do desumano assassi-

hoje a Guiné-Bissau não estaria… seguramente na

nato daquele que foi a sua “alma, luz e guia”, ou seja,

situação difícil em que se encontra, ou seja, vivendo

o seu espírito luz de nome Amílcar Lopes Cabral.

sob o espectro da maldição e do pecado mortal que

Aquele que deixou tudo de material para se dedicar

pesam sobre os ombros dos membros da Direcção

única e exclusivamente à libertação do seu povo, o

das suas FARP.

povo da Guiné-Bissau, do colonialismo e do obscuran-

Quem sabe!

tismo, como fez Cristo em relação ao Povo de Israel.

Paz ao povo da Guiné-Bissau.

Entretanto, assim como sucedeu a Este, desgraçadamente, aquele que foi a “alma, luz e guia” do povo da Guiné-Bissau, ou seja, Amílcar Lopes Cabral, foi assassinado no solo pátrio guineense por aqueles a favor dos quais tudo consentiu à nobre causa da sua libertação e emancipação como homem. É como que dizer: quando não somos os únicos responsáveis do nosso destino, cada ato que praticamos é, por si só, uma punição ou compensação. Assim sendo, independentemente do método que se utilizar para se apurar a verdade: ciência ou religião,

Adriano Pires

é inquestionável hoje que sem Amilcar Lopes Cabral, a Guiné-Bissau “nada tem sido”, e com Amilcar Lopes

´ Africa +

Major (na reserva) das Forças Armadas de Cabo Verde

Abril/junho 2012 - Diplomática • 73


Nossos parabéns

IPDAL Comemora VI Aniversário

1

2

3

5

4

1. Maria da Luz Bragança e Paulo Neves 2. Iwan e Jeunesse Brunner 3. Jorge Costa e Miguel Guedes 4. José Luis Machado do Vale, Paulo Ramos, Ribau Esteves, Jorge Costa, Filipe Domingues e Alexandre Barata 5. Luis Miguel Henrique a receber o prémio

O Instituto para a Promoção e De-

vidados acederam ao convite do

de Estado, deputados, empresá-

senvolvimento da América Latina

IPDAL, destacando-se a presença

rios, académicos e políticos.

ofereceu uma recepção, no Grémio

do Secretário de Estado da Agri-

Durante a cerimónia, decorreu ain-

Literário de Lisboa, por ocasião do

cultura, José Diogo Albuquerque.

da a entrega dos Prémios IPDAL-

seu sexto aniversário. No passado

Estiveram presentes vários amigos

-Vista Alegre. Na terceira edição

dia 27 de Janeiro, cerca de 70 con-

do IPDAL e membros do Protocolo

desta homenagem, o Instituto

74 • Diplomática - Abril/junho 2012


6

8

7

9

10

6. Embaixador do Perú, Paulo Pisco, António Galamba, Jorge Abrantes e José Luis Machado do Vale 7. Maria da Luz de Bragança, Embaixador da Moldávia e Ilona Thykier 8. José Diogo Albuquerque, Secretario de Estado da agricultura; Paulo Neves com o Embaixador da República Dominicana a receber o prémio 9. Pedro Machado, Ribau Esteves e Manuel Correia de Jesus 10. Gonçalo Rebelo de Almeida e Jorge Abrantes

distinguiu, o LIDE-Portugal e a

cado na aproximação de Portugal

(IPDAL) é uma instituição privada,

antiga embaixadora da República

e da América Latina, bem como

pluralista e independente de gover-

Dominicana, Ana Silvia Reynoso. O

instituições que tenham colaborado

nos e partidos políticos. Surgiu na

prémio IPDAL-Vista Alegre preten-

de forma estreita com o IPDAL.

sequência de um projeto iniciado

de homenagear personalidades e

O Instituto para a Promoção e De-

pelo jornalista e professor universi-

instituições que se tenham desta-

senvolvimento da América Latina

tário Paulo Neves, em 2004.

Abril/junho 2012 - Diplomática • 75


IPDAL - Comemora VI Aniversário

11

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15

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17

11. Embaixadores da Venezuela com o Embaixador da República Dominicana 12. Maria da Luz de Bragança e o Embaixador do Brasil 13. João Novais Paula e José Honorato Ferreira 14. Alexandre Barata e Carlos Rito 15. Luis Ferreira Santos e Luis Miguel Henrique 16. Filomena Oliveira e Nuno Fernandes Tomás 17. Carlos Mamede e Antonio Monteiro

Com o apoio dos Embaixadores

e posto em prática. É um Instituto

se fala em diplomacia é importante

do Chile, do Brasil, da Argentina,

que inclui as representações diplo-

referir a importância da diplomacia

do Panamá, de Cuba, do Peru, da

máticas latino-americanas em Por-

económica como fator essencial

Venezuela e do Encarregado de

tugal; universidades, empresas e

nas trocas comerciais entre os dois

Negócios do Paraguai, o projeto

outras organizações cujo interesse

polos. O seu financiamento é ga-

foi apresentado no final de 2004

assenta na América Latina. Quando

rantido pelas iniciativas que

76 • Diplomática - Abril/junho 2012


18

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23

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24

27

18. Embaixadores da Venezuela, Colombia e Panamá com Embaixatriz do Panama 19. Paulo Pisco, António Galamba e o Embaixador do Peru 20. Embaixadores do Brasil 21. Maria Carlota Machado Mendes e Caetano Pestana 22. Rosa Canning Clode e Assis Correia 23. Embaixatrizes do Panamá e Venezuela 24. José Diogo Albuquerque, Jeunesse Brunner, Embaixador do Peru e Paulo Pisco 25. Marzio Tartini e sua Mulher com Maria Renee Gomes 26. Clotilde Camara Pestana, Elida Paredes e Berta Ribeiro 27. Embaixador da Argentina

organiza e cujo objetivo é conso-

mento da América Latina. Trata-se

ção de contatos e interesses latino-

lidar as relações entre Portugal e a

de objetivos possíveis mediante o

-americanos entre todas as partes

América Latina. Dois anos mais tar-

desenvolvimento de “atividades de

envolventes, oferecendo serviços

de, no dia 12 de Janeiro de 2006,

assessoria e lóbi, cursos, confe-

de apoio e iniciativas em movimen-

foi efetuado o registo legal do Insti-

rências, viagens e mesas redondas

tos de aproximação.

tuto para a Promoção e Desenvolvi-

sobre a América Latina, a media-

n

Fotos: Roman

Abril/junho 2012 - Diplomática • 77


Cultura

Le Palais de Santos

Por ocasião do lançamento do livro “Le

1

2

Palais de Santos” e da inauguração da nova iluminação da capela e da sacristia do Palácio de Santos, sede da embaixada francesa, o Embaixador de França organizou uma recepção solene, em que estiveram presentes representantes de várias instituições. No seu discurso, o Embaixador Pascal Teixeira da Silva reconheceu o contributo dado pelas empresas portuguesas e estrangeiras e pelas pessoas que fizeram parte do projeto. O Embaixador agradeceu ao autor, Jean Pierre Samoyault – Conservador do Património e ex-diretor do castelo de Fontainebleau e ex-administrador do mobiliário nacional, a Kenton Tatcher –responsável pelas fotografias; ao editor Alain Finet e à tradutora, Patricia Roman. Relativamente às empresas, o embaixador de França destacou a

4

3

importância do Banco Espírito Santo e da Caixa Geral de Depósitos e referiu ainda as empresas francesas: Air France, Alcatel, Axa, Citroën, Essilor, GDF Suez, Gefco, Macif, Pernod-Ricard, Peugeot, Sanofi-Aventis, Saint-Gobain,Thalès. Por fim salientou o contributo pessoal de Guérand-Hermès. O livro, da autoria de Jean Pierre Samoyault, conta a história do Palácio. Começa por fazer referência à época romana, para depois contar a história da ilustre família Lencastre e a luta pela posse do edifício. Faz referência à realeza e à corte da classe monárquica portuguesa que habitou no palácio. Entre as muitas curiosidades relatadas no livro destaca-se, como

1. Mercedes Balsemão, Pascale Teixeira da Silva, Maria da Luz de Bragança

muitos a chamam, a última Ceia de D.

2. António Gaivão, Didier Gonzalez 3. Nuno Rogeiro e sua Mulher, Daniela

Sebastião antes de partir para Lagos, de onde saiu para Marrocos para

Bokor com Samuel Richard 4. Jean-Pierre Courtiat e sua Mulher, Cordula Courtiat com Custódia Domingues

travar a batalha de Alcácer Quibir. O

xada de França, em Portugal

das muitas personalidades

edifício que, há 142 anos atrás, em

foi comprado pelo estado fran-

que estiveram presentes no

1948, passou a ser a sede da embai-

cês em 1909. Veja algumas

evento.

n ➤

Reportagem:Roman Buzut

78 • Diplomática - abril/junho 2012


6

5

7

7

8 9

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11

12

5. Ricardo Salgado, Francisco Balsemão e Rui Vilar 6. Ana Godinho e José Gil 7. Paul Schmit e Nadine Schmit com Custódia Domingues e Catherine Astorg Gonzalez. 8. Isabel Cruz de Almeida e Rui Vilar 9. Pierre Guibert e Isabel Silveira Godinho. 10. Ricardo Salgado e Maria da Luz de Bragança 11. Fernando Faria de Oliveira e Rui Vilar 12. Os Embaixadores de França com Alain Finet (Editor do livro)


Made in Portugal

Tapeçarias Ferreira de Sá Sendo uma das empresas portugue-

ponto português, Beiriz, é a empresa

sas mais antigas a produzir tapeçarias

portuguesa de referência, em qualida-

tradicionais de qualidade e de luxo, a

de, inovação e recuperação de técni-

Tapeçarias Ferreira de Sá, que de-

cas tradicionais.

tém o espólio original de desenhos do

Após diversos projetos desenvolvidos

80 • Diplomática - abril/junho 2012


Álvaro Siza - Colecção “Hand-Tufted”

Hotel Sheraton

entre as Tapeçarias Ferreira de Sá e

coleção de tapetes, lançada em Tai-

o arquiteto Álvaro Siza, de referir, por

pei, numa exposição de Siza Vieira, ,

exemplo, o “Pacific Amore” na Coreia

intitulada “The Beauty of Function”, que

, e o Teatro “Auditorium Revellin”, em

estará patente, no Xue Xue Institute,

Ceuta, eis que surgiu a tão aguardada

até finais de Abril deste ano.

abril/junho 2012 - Diplomática • 81


Tapeçarias Ferreira de Sá

Vidago Palace Hotel

A coleção de Álvaro Siza é composta

Silvade, concelho de Espinho), no que

por nove tapetes em “Hand-Tufted” e

se refere a instalação em lojas. Para

um em “Portuguese Hand-Knotted”,

além da Península Ibérica (o Vidago

que recriam, com expressão, o de-

Palace Hotel, Grupo Sheraton, Altis,

senho e a intensidade de cada traço.

CS e Intercontinental), as Tapeçarias

Uma seleção que resulta na escolha de

Ferreira de Sá está também presente

duas pinturas (uma das quais tratando-

o hotel Alfonso XIII, em Sevilha, as-

-se de um tríptico) e seis desenhos de

sim como também em hotéis de luxo

traço, recriadas em tapeçarias. Hoje,

no Dubai, em Moscovo como o Swis-

com quase 100 trablhadores, a pro-

sôtel, edifícios empresariais, como a

dução em nó manual (Hand-knotted),

Sonangol, em Angola, e museus como

tecelagem manual (Hand-woven) e

o Amsterdam Historisch Museu, na Ho-

tufado manual (Hand-tuffed), conferem

landa, The Mercedes-Benz Museum ou

à Ferreira de Sá um enorme prestígio

o Vitra Design Museu na Alemanha.

nacional e internacional.

Diversos decoradores, designers e

Lojas como Dior, Louis Vuitton e

arquitetos, como Álvaro Siza Vieira,

Nespresso fazem parte da carteira de

escolhem-na no momento de mobiliar

clientes da Ferreira de Sá (cuja fábrica

os seus interiores, desenvolver uma

e o showroom estão localizados em

colecão, desenhar um tapete original

82 • Diplomática - abril/junho 2012


Vidago Palace Hotel

ou substituir uma antiga tapeçaria.

Willet Holthuysen Museum - Holanda

tapeçaria Ferreira de Sá. Tratando-

A Tapeçarias Ferreira de Sá esteve

-se de um tapete em “Hand-woven”

presente, recentemente, no evento

(tecelagem manual) em lã, que cobre

internacional EXPORT HOME 2012,

a estrutura ondulada, formando um

onde apresentou, pela primeira vez,

banco, já apresentado em Janeiro, na

ao País, a conceituada Álvaro Siza

“Maison&Object, em Paris.

Collection, tendo vencido o Prémio

A Orbi Collection é a mais recente co-

Design Export Home 2012, na cate-

leção de tapetes daTapeçarias Fereira

goria dos têxteis-lar, com o aplauso

de Sá, lançada, em Janeiro passado,

unânime do júri. De destacar o tapete

na “Maison & Object. E oferece uma

em “Portuguese Hand-Knotted, chama-

imensa diversidade de técnica, mate-

do “Reine”, assim como o tapete em

riais, desenhos, cores, dimensões, vo-

3d “Tufted”, chamado “Braids!, ambos

lumetria e e formas para o seu tapete,

da Orbi Collection. Foram também

uma proposta da conceituada designer

apresentados ao júri diversas peças de

da Ferreira de Sá, Carlota Verde.

n

mobiliário, produzidas a partir de tapetes de “Hand-woven” e “Portuguese

www.tfs-sa.com • info@tfs-sa.com

Hand-Knotted”. Igualmente de destacar

Rua Ferreira de Sá, 50 - Silvalde - Espinho

o “Bench”, um ergonómico banco com

Telf.: 227 333 070

abril/junho 2012 - Diplomática • 83


Mala Diplomática

Os Emirados Árabes Unidos 40 anos a caminho da união

No dia 2 de Dezembro de 2011, os Emi-

do fato dos EAU como país que iria atrair

rados Árabes Unidos celebram quatro

muitas nacionalidades, é o dever ser um

décadas desde a criação do Estado em

país onde o espírito de tolerância entre as

1971. Não é por isso de surpreender que

pessoas de diferentes comunidades e cre-

a ocasião esteja a ser marcada por cele-

dos deveria permanecer, princípio em que

brações em todos os sete emirados, Abu

a sua própria cultura e herança deveria

Dhabi, Dubai, Sharjah, Ras Al Khaimah,

ser acarinhada e protegida.

Ajman, Um al-Qaiwain e Fujairah. Os sete

Há um esforço do Governo na melhoria

emirados foram conhecidos como “Esta-

continuada dos serviços sociais e na

dos da Trégua”, tendo-se relacionado com

expansão desses serviços da economia

a Grã-Bretanha através de uma série de

que representarão a maior contribuição

tratados durante mais de 150 anos. Em

para a criação de emprego para os jovens

1971, os governantes dos Emirados, lide-

emiradenses, tanto homens como mulhe-

rados pelo seu fundador, o Xeque Zayed

res. Hoje, as mulheres representam cerca

bin Sultan Al Nahyan, decidiram formar

de 70% de todas as licenciaturas universi-

uma federação para trabalharem juntos

tárias do país e ocupam cerca de dois ter-

no caminho da prosperidade e do desen-

ços das funções governamentais, sendo

volvimento para o seu Povo. Apoiados

4 membros do Gabinete, Embaixadoras e

pela visão de S. A. o Xeque Zayed, que

até pilotos da força aérea, uma prova do

acreditava que as receitas provenientes

êxito do país em dar poder às mulheres.

dos recursos de petróleo e do gás do seu

O trabalho continuou a ser realizado em

próprio emirado, Abu Dhabi, deveriam ser

planos para desenvolver o Museu Nacio-

colocadas ao serviço dos habitantes de

nal do Xeque Zayed. Estão a ser planea-

todo o país, os EAU emergiram conse-

dos vários dos museus mais importantes,

quentemente como um dos países mais

incluindo Louvre e Guggenheim, de modo

estáveis e com desenvolvimento mais

a formar o centro de um novo complexo

rápido da região.

cultural. Também tem sido dada atenção

Os princípios-guia que distinguem o

à proteção ao ambiente dos EAU, a par

êxito do Estado, originalmente iniciado

do património cultural, que são conside-

há quarenta anos, continuam a ser os

radas as componentes importantes da

elementos fundamentais nas políticas

identidade nacional.

governamentais dos EAU. Primeiro, os

Na linha com a sua política tradicional de

recursos originados do petróleo e do gás

procurar, através de uma ação coletiva,

de Abu Dhabi devem ser partilhados por

oferecer apoio aos povos de países que

todo o país no desenvolvimento das suas

sofrem com os conflitos, os Emirados de-

infra-estruturas. Segundo, tal como S.A.

sempenharam um papel ativo na campa-

o Xeque Zayed asseverou, “a verdadeira

nha aérea aprovada pela ONU no sentido

riqueza do país está no seu Povo” e, por

de proteger os civis na Líbia do impacto

isso deve ser feito um esforço particular

do conflito no país, bem como fornecer

para garantir que o Povo possa beneficiar

assistência humanitária substancial aos

do melhor acesso à educação, saúde e

que foram afetados. Sempre fieis ao seu

serviços sociais, de forma a proporcionar,

empenho na paz, estabilidade e seguran-

tanto aos homens como às mulheres, a

ça da região, os Emirados Árabes Unidos

possibilidade de fazerem parte do cresci-

procuram resolver os conflitos por meios

mento do país.

pacíficos e através da mediação interna-

Um terceiro princípio, no reconhecimento

cional.

84 • Diplomática - abril/junho 2012

n


1

2

3

4

5

6

7

8

1. Saqer Nasser AlRaisi, Embaixador dos Emirados Árabes Unidos com a Embaixadora de Argélia 2. Saqer Nasser AlRaisi e Allan Katz, Embaixador dos E.U.A. 3. Saqer Nasser AlRaisi e Monsenhor Rino Passigato 4. Saqer Nasser AlRaisi com Nuno Crato, Ministro da Educação e das Ciências 5. Saqer Nasser AlRaisi e Nuno Rogeiro 6. Saqer Nasser AlRaisi; Sultan Al Merjan, Embaixador do Kuwait e Hisham Alqahtani, Embaixador do Reino da Arabia Saudita 7 e 8. Nuno Crato, Embaixador dos Emirados Árabes Unidos e Paulo Portas, Ministro Negócios Estrangeiros

abril/junho 2012 - Diplomática • 85


Gastronomia

Carlos Medeiros revela alguns dos trunfos e segredos do restaurante Aura “Em menos de um ano, o Aura já se tornou um espaço de referência da gastronomia lisboeta” Naquele que, durante muitos anos, foi um espaço cinzento dedicado apenas a Ministérios que, mais ou menos discretamente, o utilizavam, existe agora uma vida renovada com restaurantes, belíssimas esplanadas e a vista de um Tejo que encanta e fascina. Bem no centro de Lisboa, a magnífica Praça do Comércio é agora um local, não apenas de passagem rápida, mas antes de eleição, tanto para estrangeiros quanto para portugueses, e transformou-se, num curto espaço de tempo, num dos locais mais apetecíveis da Europa. Imbuídos da vontade de ajudar na mudança para esta nova realidade, Carlos Medeiros e os seus sócios tiveram a felicidade de ser os vencedores do concurso público que lhes atribuiu o local que viria a ser, de há menos de um ano a esta parte, o multifacetado Aura – restaurante, esplanada e lounge.

86 • Diplomática - abril/junho 2012


Foi certamente um momento

que estamos situados num local de

De todo. Trabalhamos para mercados

muito especial saber que iria ser

excelência, numa ala do palácio de

diferentes e preparámo-nos para as

um dos responsáveis por esta fan-

D. José, e sem desejarmos desvirtuar

diversas áreas de negócio ao longo

tástica criação gastronómica…

essa realidade. Sem irmos diretos ao

do ano. Estamos a trabalhar para o

Foi muito especial, mas também o

barroco, mas também sem sentirmos

turismo profissional, depois para os

constatar de uma grande responsa-

que estávamos num espaço excessi-

congressos, seguem-se os eventos

bilidade, pois não é em vão que se

vamente despojado. E, verdade seja

“corporate” das empresas e, depois,

é atribuída a transformação de um

dita, o melhor de tudo é que temos

as festas de Natal. Entre Janeiro e

espaço nobre numa praça, que é, por

clientes que já nos confessaram

Fevereiro é possível que o negócio

certo, uma das mais emblemáticas

que, para além de adorar a comida,

esteja um pouco mais calmo, mas

de toda a Europa, uma praça capaz

gostam de vir ao Aura porque, graças

também é altura de arrumar a casa

de fazer frente à de São Marcos ou

ao seu ambiente e sua decoração,

e de repensar as cartas e tudo isto,

qualquer outra por esse mundo fora.

cada vez que cá chegam, se “sentem

deve dizer-se, que acresce ao movi-

Claro está que, associado a este

de férias, quase como se estivessem

mento regular de todos os dias das

privilégio, surgiram muitas questões

em Paris, Monte Carlo ou Miami”. Ou

pessoas de Lisboa e arredores que

e, como é inerente, muito trabalho.

seja, antes de mais pretendíamos

vêm cá almoçar ou jantar. Estamos

No entanto é muito bom saber que

requalificar este espaço e esta zona

a trabalhar de forma específica para

em menos de um ano, o Aura já se

nobre da cidade e creio que o conse-

nunca sofrer do síndroma da época

tornou um espaço de referência da

guimos de uma forma bastante positi-

baixa. Por exemplo, enquanto es-

gastronomia lisboeta.

va tornando-o cosmopolita e possível

tiver bom tempo, a esplanada está

Uma das coisas que mais vezes

de agradar a qualquer cliente nacio-

colocada na rua, mas assim que o

é realçada quando se conhece o

nal ou internacional.

frio chegar será montada no claustro

Aura é o ecletismo originalidade

Foi fácil avançar com este negócio

interior do Páteo da Galé, coberto e

da decoração. Como surgiu esta

em plena altura de crise no país e a

com aquecedores e assim a espla-

escolha?

nível mundial?

nada continua cosy e apetecível no

Ao contrário do que se possa pensar,

Sempre que se decide montar um

Inverno.

nada neste espaço foi deixado ao

negócio tem de se ter muita certeza

Por último gostaria de saber a sua

acaso. Tanto eu quanto o Fabrice

do que se vai fazer e planear, ao

opinião relativamente ao abrir de

Marescaux, um dos sócios e com

mínimo pormenor, tudo o que se faz.

um novo negócio, na área da res-

quem trabalho mais diretamente,

Uma vez aberto o espaço, há que

tauração ou outra, neste momento.

fomos à procura de cada peça,

ter em conta que um restaurante

Acredito que o mais importante é

dedicámo-nos a cada recanto, tendo

não é uma loja como outra qual-

saber-se muito bem o que se está

em mente algo de muito específico, a

quer das 9 às 5. São muitas horas

fazer e decidir fazer tudo com muita

saber, podermos apresentar ao públi-

diárias, sete dias por semana, e

qualidade. Tal como já referi, no

co um espaço agradável, multifaceta-

temos de estar sempre presentes se

caso do Aura, estamos a falar de

do e capaz de ser utilizado de acordo

queremos ser bem sucedidos. Claro

quase um milhão de euros, o que

com as necessidades específicas de

está que as experiências de traba-

implica disponibilidade financeira e

cada dia. Assim, para além de peças

lho anteriores, mormente os meus

de tempo, pois não se recupera este

únicas que tanto foram adquiridas

quase 30 anos de restauração em

tipo de investimento de um dia para

em feiras internacionais, quanto em

particular com a Cateri, a minha em-

o outro. A palavra-chave a reter é

antiquários portugueses ou chegaram

presa de catering e serviços, foram

profissionalismo: em tudo, em todas

dos nossos próprios acervos, conse-

primordiais para me dar a “estaleca”

as áreas de atuação e sempre – do

guimos apresentar ao público um es-

necessária para um projeto deste

mínimo pormenor às questões mais

paço de restauração em que podem

cariz. Todavia, há que dizer que o

abrangentes. E, claro está, rodear-

ser concebidos espaços para os mais

que está aqui em questão é uma

mo-nos sempre dos melhores cola-

diversos eventos: de discretos almo-

verba de um milhão de euros. Para

boradores, disponibilizarmos sempre

ços de business a festas de apresen-

sermos bem sucedidos é também

formação e jamais dormir à sombra

tação de produtos para 200 ou mais

essencial que este espaço tenha al-

dos louros. Um negócio é como um

pessoas, ou até mesmo festas de

gum mediatismo, por forma a poder

organismo vivo e necessita de uma

aniversário com dancing pós-festa.

recuperar este investimento.

atenção constante para sobreviver e

Tudo isto, procurando ter em mente

E este espaço sofre de sazonalidade?

ser frutuoso.

n

abril/junho 2012 - Diplomática • 87


Cultura

Os portugueses na Orquestra de Jovens da União Europeia

À esquerda violoncelista António Novais Foto: Tomasz Ogrodowczyk

Foto Tiago Santos Euyo crop

O número de músicos portugueses na

digressão pelos Estados Unidos, tocan-

Orquestra de Jovens da União Europa

do com alguns dos mais conceituados

(OJUE), por onde já terá passado mais

solistas de música erudita da atualidade.

de uma centena, desde 1986, nunca foi

«A OJUE é considerada, pela crítica

tão elevado. À data em que este artigo

internacional, uma das melhores do

é redigido ainda não são conhecidos os

mundo, pelo seu nível artístico, pelos

resultados [divulgados no final de abril]

maestros e solistas com quem trabalha

das audições de seleção para integrar,

e, evidentemente, pelos palcos que pisa.

na temporada de 2012/2013, o elenco

Era e continua a ser o sonho de qual-

da mais importante orquestra juvenil

quer jovem músico poder um dia fazer

europeia, que esteve recentemente em

parte deste grupo», afirma Abel

88 • Diplomática - abril/junho 2012


Pereira (n. 1978), que desde 2001 faz

selecionados tocarem na orquestra 4/5

parte do júri português das audições de

anos, a posição tem de ser "defendida"

pré-seleção e que foi membro da or-

todos os anos. E os jovens músicos

questra entre 94 e 2000.

portugueses, embora prestem provas a

Abel Pereira sublinha que «a participa-

nível nacional, concorrem de fato com

ção dos jovens músicos portugueses

executantes de 26 outros países.

numa orquestra deste género é da maior

Mais de metade dos jovens portugue-

importância». E explica: «a estrutura

ses que se candidatam à orquestra são

OJUE funciona ao mais alto nível, com

alunos de nível superior de escolas do

maestros e solistas que todos nós esta-

norte do país. Mas há também jovens

mos habituados a ver e ouvir somente

oriundos da Escola Superior de Artes

nos cds e dvds» e o contato com estas

Aplicadas (ESARTE) de Castelo Branco

individualidades, «para além da apren-

e de várias pequenas academias, conso-

dizagem técnica/interpretativa e riqueza

ante os instrumentos tocados, diz Dulce

cultural, pode ser uma grande mais-valia

Brito.

na abertura de portas no futuro, tanto

O que possibilitou o maior sucesso das

a nível académico como profissional»,

candidaturas portuguesas à OJUE nos

uma vez que, «por razões geográficas e

últimos anos foram alterações no perfil

culturais, Portugal está bastante afas-

dos candidatos, na explicação da técnica

tado do centro da Europa», onde «a

da DG Artes. A seleção para a orquestra

convivência com os mais conceituados

está muito condicionada pelo instrumen-

músicos, maestros e orquestras é per-

to que se toca. Os instrumentistas de

manente». Na orquestra «é dada a opor-

cordas entram mais do que os outros.

tunidade aos jovens de poderem usufruir

Ora, no passado, muitos dos jovens

desse mundo durante algumas semanas

músicos portugueses começavam a sua

por ano».

aprendizagem pelas bandas e filarmó-

Num universo de 100/140 músicos,

nicas, onde predominam os metais.

Portugal tem tido em média, nos últimos

Hoje em dia, para além de haver mais

anos, 5/6 participantes efetivos e mais

jovens a aprender a tocar um instrumen-

entre 8 e 13 como reservas na OJUE, ao

to, muitos já começam a sua formação

nível de países de maiores tradições mu-

em escolas de música, podendo optar

sicais como Áustria, Holanda, Hungria,

por outros instrumentos. Em paralelo,

Dinamarca ou Bélgica. E os candidatos

o investimento feito na contratação de

portugueses à OJUE, que no passado

professores de música do leste europeu,

se contavam pelos dedos da mão, são

nomeadamente russos e ucranianos, au-

agora «centenas», refere Dulce Brito, da

mentou o nível técnico dos executantes.

Direção-geral das Artes, entidade que,

«Tem sido realmente enriquecedor poder

juntamente com o Instituto Camões, con-

admirar de uma forma geral a evolução

tribui para a orquestra com uma quota

artística dos participantes e o súbito

anual.

acréscimo de novos estudantes de mú-

O aumento das entradas «mostra que

sica que se fez sentir nos últimos anos»,

realmente o nosso nível está a melhorar

afirma Abel Pereira. Mas estas mudan-

bastante», acrescenta a técnica da DG

ças não bastariam, provavelmente, se

Artes, que sublinha o nível de exigência

não fosse o empenho direto de muitos

no acesso e na manutenção na orques-

professores e, obviamente… dos próprios

tra. Pese o fato de muitos dos jovens

jovens.

n

I.C. I.P.

abril/junho 2012 - Diplomática • 89


Memória

A arte do 25 de Abril Trinta e oito anos passaram sobre o 25 de Abril de

Foram eles: a Aliança Operária Camponesa (AOC), o

1974. Tantos, que muitos esqueceram pormenores im-

Centro Democrático Social (CDS), a Frente Socialis-

portantes, tais como os partidos concorrentes às primei-

ta Popular (FSP), a Liga Comunista Internacionalista

ras eleições, a seguir à revolução e queda do Governo

(LCI), o Movimento de Esquerda Socialista (MES), o

de Marcelo Caetano.

Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado

90 • Diplomática - abril/junho 2012


(MRPP), o Partido Comunista Português (PCP), o Par-

cionário dos Trabalhadores (PRT), o Partido Socialista

tido Comunista de Português (marxista-leninista, PCP

(PS) e, finalmente a União Democrática Popular (UDP).

(m-l), o Partido da Democracia Cristã (PDC), o Partido

Imagens revolucionárias enchiam os muros e as casas

Popular Democrático (PPD), que viria a ser o PPD-PSD,

de Portugal.

o Partido Popular Monárquico (PPM), o Partido Revolu-

E Portugal mudou!

n

abril/junho 2012 - Diplomática • 91


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English & French texts

6. Elfenkämpfer Helmut - German ambassador Even in the troubled times we have ived in 2011 this was an unusual year, which required a focus on foreign policy and which set some new directions in domestic policy. It was a year of major changes for us in Europe. Acute crises put diplomacy before special missions. .An event that had political consequences in my country was the terrible accident with the reactor of kushima. Following this, the federal government announced the end of atomic energy in Germany until 2022. The revolt in the Arab world is a challenge, whose outcome is still open. Since 2011 Germany has, together with Portugal, particular responsibilities, acting as non-permanent member of the Security Council of the United Nations on such important issues as the independence of South Sudan. Actually, we concentrate all our forces together with Portugal, to dissuade the Syrian regime to persist in the ruthless oppression of his own people. However, especially remarkable for a German ambassador in Lisbon in 2011 were the developments in the debt crisis in Europe. The federal government contributed throughout the year, not only to overcome the acute crisis but also to developp a vision for the future Europe, a union of a path to stability. For Germany, as Europe’s biggest economy, this means a particular responsibility, which the country takes. The Portuguese government shares our basic opinions and has made bold steps to make Portugal more competitive. Our strategy is not limited to austerity, but to sustained growth, which includes widening the internal market to new fields, the creation of a European growth fund and the signing of more free trade, agreements. The message for 2011, and in the coming years, is that there cannot be a good future for my country without European integration. Europe must continue to consolidate during the crisis and this will continue. And in the end, will come out strengthened from this crisis.

n

6. Elfenkämpfer Helmut - Ambassadeur d’Allemagne Même pour les périodes troublées que nous vivons,2011 était une année inhabituelle, qui a exigé beaucoup de la politique étrangère et a defini de nouvelles orientations à CE qui concerne à politique intérieure. C’était une année de changements majeurs pour nous en Europe. Les crises aiguës mettre la diplomatie avant les missions spéciales. Un événement qui a eu des conséquences politiques dans mon pays était un terrible accident avec le réacteur de Fukushima.Suite à cela, le gouvernement fédéral a annoncé la fin de l'énergie atomique en Allemagne jusqu'en 2022. La révolte dans le monde arabe est une énorme opportunité, mais aussi un défi dont l'issue est encore ouverte. Depuis 2011 que l'Allemagne a, avec le Portugal, des responsabilités particulières, agissant comme membre non permanent du Conseil de Sécurité de l'Organisation des Nations Unies sur les questions importantes telles que l'indépendance du Sud-Soudan. Cependant, d'autant plus remarquable pour un ambassadeur d'Allemagne à Lisbonne en 2011 étaient l'évolution de la crise de la dette en Europe.Le gouvernement fédéral a contribué, tout au long de l'année, non seulement pour surmonter la crise aiguë, mais aussi de développer une vision pour l'avenir de l'Europe, l'union d'un chemin vers la stabilité. Pour l'Allemagne, comme la plus grande économie d'Europe, cela signifie une responsabilité particulière, dont le pays prend. Le gouvenement portugais est d’accord avec nos opinions basiques et a donné des mesures audacieuses pour faire le Portugal plus compétitif. Notre stratégie ne se limite pas à l'austérité, mais dans inteligents impulsions vers une croissance soutenue, ce qui comprend l'élargissement du marché intérieur à de nouveaux domaines, la création d'un fond de croissance européenne et la signature de plusieurs accords commerciaux libres.Le message qui a importé, plus en avant, en 2011, et dans les années futures, c'est qu'il ne peut pas avoirun bon avenir pour mon pays, sans l'intégration européenne. L'Europe doit continuer à se consolider dans la crise et va poursuivre. Et, à la fin, sortira en force de cette crise.

n

8. Ambassador of Turkey - The European Union and Turkey Despite all the positive developments, particularly in the field of democracy, there is still an area where Turkey has failed to make any meaningful progress. That is the process of EU accession. The Cyprus issue has continued to be used as a pretext to block several chapters. Despite the strong encouragement of Turkey to move forward on the negotiations they could achieve a just and lasting settlement on the island.

n

8. Ambassadeur de la Turquie - L’Union européenne et la Turquie Malgré tous les développements positifs, notamment dans le domaine de la démocratie, il est encore un domaine où la Turquie n’a pas réussi à faire des progrès significatifs, qui était dans le processus d’adhésion de l’UE. La question de Chypre a continué à être utilisé comme un prétexte pour bloquer plusieurs chapitres, en dépit de la forte incitation de la Turquie à guérir les négociations pour arriver à un règlement juste et durable sur l’île.

n

10. Simon Pullicino - Ambassadeur de Malte – Malte et la Libye nouvelle Sans aucune doute, le plus grand impact de l’insurrection libyenne a eu lieu dans le domaine humanitaire. Tout a commencé avec un exode massif de la population migrante, complète de la peur, et s’est poursuivie avec une lutte prolongée armé avec des conséquences importantes. Le gouvernement maltais a agi rapide et efficacement, en fournissant l’aide humanitaire et d’assistance. Avec la crise dans un stade initiel, Malte a soutenu 100 des 139 membres de l’ONU, en évacuant plus de 21.000 étrangers de la Libye via Malte.

n

abril/junho 2012 - Diplomática • 93


English & French texts

12. Pavel Petrovskiy - Russian Ambassador - Results of Russia’s foreign policy in 2011 He regretted the fact that a number of international problems, in which Russia is directly involved, were left for 2012. First and foremost is the issue of missile defense in Europe. We cannot resolve this problem, if we do not reach agreement with the U.S. or accomplish a set of technical means of military announced by President Medvedev at the end of last year. As for the “Arab Spring”, we understand the expression of the will of the Arab people. We want to see a stable, independent and prosperous region.

n

12. Petrovskiy Pavel - Ambassadeur de Russie Résultats de la politique étrangère de la Russie en 2011 Désolé, le fait qu›un certain nombre de problèmes internationaux, dans lequel la Russie est directement impliqué, ont été laissés pour cette année. D’abord et avant tout, c’est la question de la défense antimissile en Europe. Nous ne pouvons pas nous délivrer de ce problème, si on arrivent pas a un accord avec les États-Unis, ou de faire remplir un ensemble de moyens techniques militaires, annoncées par le président Medvedev à la fin de l’année dernière. Quant à la «Arab Printemps», nous regardons avec compréhension l’expression de la volonté des peuples arabes, que nous voulons voir stables, indépendants et prospères.

n

14. Ambassador of Belgium - 2011, the year of formation of a new government in Belgium At the global level, the year 2011 was marked by revolutions in the Arab world, the downfall of many tyrants or authoritarian presidents. This is something we hope to have continued this year with their replacement by elected democracies tolerant of religious minorities. Nationally, the federal government, which finally took office in Belgium in November last year, after much instability, has two tasks: to fulfill. It hasto deal with the drastic measures imposed by the crisis of the Euro and further extend the range of powers to be exercised by the regions, especially in social affairs.

n

14. Ambassadeur de Belgique 2011, l’année de la formation d’un nouveau gouvernement en Belgique Partout dans le monde, l’année 2011 a été marquée par les révolutions dans le monde arábe, la chute des tyrans et de nombreux présidents autoritaires, quelque chose que nous espérons voir continué cette année, pour être remplacé par les démocraties élus et tolérant des minorités religieuses et d’autres . À l’échelle nationale, je dois mentionner le fact du gouvernement fédéral, qui se a installé définitivement en Belgique en Novembre l’année dernière, après beaucoup d’instabilité, et que a deux missions: répondre à toutes les mesures draconiennes imposées par la crise de l’euro et élargir encore plus la gamme de compétences a être exercé par les régions, tels que les affaires sociales.

n

16. Jill Gallard - Ambassador of the United Kingdom - A year of opportunities and challenges This is a year marked by natural events, that are truly historic for the United Kingdom. Firstly, because we celebrate 60 years of the reign of Her Majesty Elizabeth II. The city of London will host the Olympic and Paralympic Games, which will be more ecological than ever and which will help to promote closeness between peoples, in a time when it is increasingly necessary to overcome the conflicts that opposes us.

n

16. Jill Gallard - Ambassadeur du Royaume-Uni - Une année de défis et opportunités Il s’agit d’une année marquée par des événements naturels, qui sont véritablement historique pour le Royaume-Uni. Tout d’abord, parce que nous célébrons 60 ans de règne de Sa Majesté Elizabeth II. Puis la ville de Londres accueillera les Jeux Olympiques et les Jeux Paralympiques, qui seront plus vert que jamais et qui aideront à promouvoir un rapprochement entre les peuples, dans un moment où il est, de plus en plus, nécessaire pour surmonter les conflits qui nous opposent.

n

18. Suliaman Ibrahim Almurjan - Ambassador of the State of Kuwait Five decades of constitutional life Honored by the invitation, the Ambassador of Kuwait spoke about the “Arab spring”, which enabled many Arab countries to start a new transition in its evolutionary path in political, social and economic development. In fact, the Arab revolutions had, and have, one characteristic, which is based on perseverance, which surprised many observers aware of what is happening in the Arab world. The “Arab Spring”, experienced by some Arab countries has made these countries and others understand better the vision of the leaders of Kuwait that opt for a parliamentary system, despite the difficulties the country went through.

n

18. Suliaman Ibrahim Almurjan - Ambassadeur de l’Etat du Koweït Cinq décennies de la vie constitutionnelle Honoré par l’invitation, l’ambassadeur du Koweït a commencé à parler de certains “printemps arabe, qui a permis à de nombreux pays arabes inaugurer une étape de transition dans sa nouvelle voie d’évolution dans les domaines politique, social et économique. En fait, les révolutions arabes ont eu une caractéristique, qui est basé sur la persévérance, e a surpris nombreux observateurs au courant de ce qui se passe dans le monde arabe. Le «printemps arabe», vécue par certains pays

94 • Diplomática - abril/junho 2012


arabes, a fait ces pays et d’autres, de mieux comprendre la vision des dirigeants du Koweït à opter pour la vie parlementaire,

malgré les difficultés qui se sont passés au pays.

n

20. Ambassador of France - Pascal Teixeira da Silva The year 2011 The year 2011 was marked by two processes of great importance: the pursuit of sovereign debt crisis in the euro area and the “Arab spring”. They are in no way related and yet they will, the one as the other, profoundly change the future - and this is particularly true for countries of southern Europe such as France and Portugal, Members EU and the Euro area and geographically and historically close to the Arab world. The sovereign debt crisis in the Euro area is an indirect consequence of the financial crisis that erupted in 2007-2008 in the United States. This is because our governments have intervened massively to save the banks (as in Ireland) or to limit the recession by injecting public money into the economy and deficits and public debts have soared. But that same shock hit countries differently and it was the developer of a dual problem: at the national level, countries whose financial situation (state, enterprises and households) and economic situation (in terms of growth, productivity, competitiveness and external accounts) were the most fragile are less resilient and sometimes had to pay a high price - three of them having to resort to European and international aid; at European level, this crisis has shown the inadequacy of the economic pillar of the economic and monetary union (which was allowed to increase the divergences within the Euro area) and the lack of mechanisms for crisis management.

n

22. Ambassador of Italy, Renato Varriale “The debt crisis in Italy: a difficult moment, but also an opportunity for major reforms” 2011 was a year that the Italians will remember for a long time. It began as the 150th anniversary of the Unity of Italy. A year of celebrations, debates and reflections about the past and the future of the country. Nobody would have imagined what would become the year of greatest economic emergency experienced by the country in recent history and the onset of major reform process that the Republic has ever lived. The first signs of so-called debt crisis had manifested itself during the summer, it was urgent to convince the markets that, despite the high level of public debt, Italy had a strong economy and was very determined to put their finances in order taking also the necessary structural reforms. But suddenly, the crisis became more acute and events speeded up so that the Government’s response was insufficient to regain market confidence. The very process of European integration seemed to be already in risk. The only solution was a “technical government” which, supported by a coalition of national unity, immediately launch a far-reaching package of reforms. And so it happens. The President Napolitano entrusted the difficult mission to Senator Mario Monti, an economist with long experience and high prestige in the European scene, and Italy begins to regain control of the situation and accept the need for structural reform plans and the fight against tax evasion.

n

22. Ambassadeur de l’Italie, Renato Varriale “La crise de la dette en Italie: un moment difficile, mais aussi une opportunité pour des réformes majeures” 2011 était une année que les Italiens se souviendront pendant longtemps. Il a commencé avec le 150e anniversaire de l’Unité d’Italie. L’ année de célébrations, de débats et de réflexions sur le passé et l’avenir du pays. Personne n’aurait jamais imaginé ce qui allait devenir l’année plus urgent en ce qui concerne l’économie que le pays a connu dans l’histoire récente, bien comme l’apparition de processus de réforme majeure que la République ait jamais vécu. Les premiers signes de crise de la dette se sont manifestée au cours de l’été. Il faut convaincre les marchés que, malgré le niveau élevé de la dette publique, l’Italie avait une économie forte et a été très déterminés à mettre leurs finances en ordre, en prenant également les réformes structurelles nécessaires. Mais, soudainement, la crise devenu plus aigu et a accéléré les événements de telle sorte que la réponse du gouvernement était insuffisante pour regagner la confiance du marché. Même le processus d’intégration européenne semble déjà être en risque. La seule solution était un “gouvernement technique” qui, soutenu par une coalition d’unité nationale, a lancer immédiatement une ensemble de mesures ambitieuses de réformes. Et, ainsi, de suite. le President Napolitano a confié la difficile mission au sénateur Mario Monti, un économiste ayant une longue expérience et d’un grand prestige sur la scène européenne. L’Italie commence déjà à reprendre le contrôle de la situation et a accepter la nécessité de plans de réformes structurelles et la lutte contre l’évasion fiscale.

n

24. Thalia Petrides, Ambassador of Cyprus Of the various events that marked the past year on a global scale, the most alarming was the nuclear disaster in Japan. Twentyfive years after Chernobyl and its tragic and devastating effects, the consequences in the long run on the environment and human life are still being evaluated. However, nationally and in the field of energy, one can point out optimistic trends over the last year. Concerns about energy security and several years of careful planning have provided the first promising results in late 2011, when 7 trillion cubic feet of natural gas was discovered off the coast of Cyprus.

n

abril/junho 2012 - Diplomática • 95


English & French texts

24. Thalia Petrides, Ambassadeur de Chypre Parmi les différents événements qui ont marqué le dernier année à l’échelle mondiale, la plus alarmante a été la catastrophe nucléaire au Japon. Vingt-cinq ans après Tchernobyl et ses effets tragiques et dévastateurs, les conséquences, à long terme, pour l’environnement et la vie humaine , sont encore en cours d’évaluation. Cependant, à l’échelle nationale et dans l’énergie, on peut souligner les tendances optimistes au cours de l’année dernière. Les préoccupations concernant la sécurité énergétique et de plusieurs années de planification minutieuses ont fourni des premiers résultats prometteurs à la fin 2011, lorsqu’il aura été confirmé, au large des côtes de Chypre, la découverte de 7 billions de Cf du gaz naturel.

n

28. Beisan Zhang, China’s ambassador to Portugal, debated the new framework of relations between the two countries: “China has always given great importance to its relations with Portugal Zhang Beisan, has been for a year and a half head of the diplomatic mission of China to Portugal. He believes that for potential investors, including Chinese, an advanced economy and a mature market like ours, are naturally attractive,. He emphasized his conviction that, if our country is able to maintain economic development and the opening of its market, there will be more and more Chinese companies interested in investing in Portugal. Recently, we have noted the importance of China’s investments in Portugal, specifically in companies related to electricity, such as EDP, among others.

n

28. Zhang Beisan, l’ambassadeur de Chine au Portugal, débate le nouveau cadre des relations entre les deux pays: "La Chine a toujours donnée beaucoup d’importance à ses relations avec PORTUGAL" Un an et demi en tant que chef de la mission diplomatique au Portugal, Zhang Beisan estime que pour les investisseurs potentiels, y compris les chinois, une économie avancée et un marché mature comme le notre, sont naturellement attractif, mettant l’accent sur sa conviction qui se notre pays reussi à mantenir une développement économique et l’ouverture de son marché, il y aura de plus en plus d’entreprises chinoises intéressées à investir au Portugal. Récemment, nous avons noté l’importance des investissements de la Chine au Portugal, plus précisément, les entreprises liées à l’électricité, entre autres.

n

34. Durão Barroso, Doctor Honoris Causa by UTL During the solemn closing ceremony of the celebration of 80 Years of UTL (Universidade Técnica de Lisboa ), at the Institute of Social and Political Sciences, the President of the European Commission, José Manuel Barroso, was honored with the award of the Degree of Doctor Honoris Causa. The Honorary Doctorate was in fact the recognition of his contribution to the scientific research in the European framework, which strengthened the role he plays as EU President. With a full academic and political curriculum, in his speech of thanks, Barroso refered to the actual situation of the European Union. He spoke on the economic crisis and the need to share sovereignty. He concluded that “when a country is sharing its sovereignty, can also win with the sovereignty of others” and argued that Europe needs “to work with determination to defend the Euro and to advocate its financial stability”. Although the crisis is an issue that concerns many governments, he was optimistic towards the subject. On the sidelines of the conference, the President of the European Commission was making a particular reference about Portugal. He said that one of the factors responsible for the delay of the Portuguese economy is related to the closed sectors and privileges that resist changes.

n

34. Barroso: Docteur Honoris Causa par l’UTL (Université Technique de Lisbonne) En vertu de la cérémonie de clôture solennelle de la célébration de 80 ans de l’UTL (Institut des sciences sociales et politiques), le président de la Commission Européenne, Jose Manuel Barroso, a été honoré avec le prix du degré de Docteur Honoris Causa, que fut, en fait, la reconnaissance de la contribution apportée par M. Barroso pour la recherche scientifique dans le cadre européen, qui a renforcé le rôle qu’il joue en tant que président de l’UE. Avec un fond académique et politiqye exceptonnel, M. Barroso, dans son discours de remerciement, a parlé de la situation actuelle de l’Union européenne. Il a parlé de la crise économique et la nécessité de partager la souveraineté. Il a conclu que «quand il donne la souveraineté, peut aussi gagner avec la souveraineté des autres” et a fait valoir que «l’Europe doit travailler avec détermination pour défendre l’euro et pour defendre la stabilité financière» et s’avait dit optimiste sur la situation, même si la crise est une question qui concerne de nombreux gouvernements. En marge de la conférence, il a appelé au Portugal, en particulier, indiquant que l’un des facteurs responsables du retard de l’économie portugaise est liée à des secteurs fermés et les privilèges dans certains secteurs d’intérêts acquis de l’économie et car il ya des intérêts qui résistent au changement qui bénéficient d’un accès privilégié à l’État et des les garanties qui sont données par la législation de protection.

n

40. Mariano Rajoy, and Pedro Passos Coelho Portugal and Spain analyzes combat the crisis Mariano Rajoy who was in Lisbon, on an official visit, where the economic situation and preparations for the forthcoming European Council dominated the agenda of the meeting between the two leaders, Rajoy and Passos Coelho. The visit tokk

96 • Diplomática - abril/junho 2012


place after the recent visit to Madrid of Passos Coelho. The two statesmen discussed the situation of both Iberian countries,

particularly the economic situation, the ways out of crisis in Europe and the possibilities of forming a vision for the future. Passos Coelho said that even though Portugal and Spain are experiencing one of the most serious crises one can remember, it was in this context that the two politicians discussed the political aspects that the measures to combat the deficit may have In Lisbon. In the joint press conference with Rajoy, Passos Coelho said the agreements with the troika were being implemented within their targets.

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40. Mariano Rajoy et Pedro Passos Coelho Portugal et l’Espagne analyse la crise de combat Mariano Rajoy a été à Lisbonne, en visite officielle, où la situation économique et les préparatifs pour le prochain Conseil européen ont dominé l’ordre du jour de la réunion entre les deux dirigeants, Mariano Rajoy e Passos Coelho. Une visite dans lla suite de la récente visite à Madrid de Passos Coelho, dans lequel les deux politiques ont examiné la situation des deux pays ibériques, en particulier dans le domaine économique, les moyens de sortir de la crise en Europe et les possibilités de fixer des visions pour le future. Passos Coelho a dit même que le Portugal et l’Espagne connaissent une des crises les plus graves qu’on se souvient et fut dans ce contexte que les deux ont discuté des aspects politiques que ses mesures récessives pour lutter contre le déficit peut avoir. A Lisbonne, et à la conférence conjointe avec Rajoy, Passos Coelho dit que l’accord avec la troïka est respectée au sein de leurs objectifs.

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42. Ambassador José Bouza Serrano Guardian of Ambassadors accredited in Portugal After a distinguished career, representing Portugal, Ambassador José Bouza Serrano returned to Portugal three years ago, as Chief of Protocol. He will soon be posted as Ambassador to the Netherlands. Having recently published , the very complete “Book of Protocol,” in an interview with Diplomatic, he said that what matters is the State Protocol, since he believes that the members of the State Protocol are the “Guardian Angels” of the Diplomatic Corps accreditions to Portugal. He explains that is the Chief of Protocol that receives the letters from the new ambassadors, before making the formal delivery to the President. Ambassador Bouza Serrano says his close relationship with all the Ambassadors is because they are the first persons they know and who help them to assist any questions or help in dealing with problems, for instances, with the law. José Bouza Serrano believes that, despite the economic difficulties we are experiencing, he is hopeful that our country may return to an active and respected voice in the world and the European Union.

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42. Ambassadeur José Serrano Bouza Gardien de ambassadeurs accrédités au Portugal Après une grande carrière, représentant le Portugal, l’ambassadeur José Serrano Bouza, retourné, il ya trois ans, à son pays, en tant que chef du protocole, mais ill sera, bientôt, l’ambassadeur du Portugal aux Pays-Bas. Ayant publié, récemment, le très complet “Livre du Protocole,” dans une interview avec diplomatique, il dit que ce qui importe est le Protocole d’État, car il estime que, en définitive, sont le «Guardian Angels» du Corps Diplomatique accrédité au Portugal. Il explique que c’est le chef du protocole qui reçoit les nouveaux ambassadeurs, reçois les lettres de creditation, ayant d’être presenté officiellement au Président. Ambassadeur Bouza Serrano parle de sa relation étroite avec tous les ambassadeurs parce que « nous sommes les premières personnes qu’ils connaissent et qui utilisent quand ils ont des questions ou besoin d’aide pour faire face aux problèmes avec la loi. José Serrano Bouza estime qui, malgré les difficultés économiques que nous connaissons, a l´espoir que notre Pays peut recupere une voix active et respectée dans le monde et l’Union Européenne.

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50. Ambassador Paul Schmit The diplomatic representative of the Grand Duke of Luxembourg, in an interview to the Diplomatica, talked about the importance of Luxembourg relations with Portugal. Ambassador Paul Schmit indicated which aspects he judges are fundamental to develop between Portugal and Luxembourg; first of all, to improve economic relations whose trade may actually be higher and, moreover, is to present a true picture of Luxembourg, which is no longer the El Dorado of other times, with a negative unemployment negative. Currently, the unemployment rate of Portuguese immigrants is much higher as a percentage of their presence in real terms.

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50. Ambassadeur Paul Schmit Le représentant diplomatique du Grand-Duché du Luxembourg, dans l’interview pour la Diplomatique, a souligné l’importance des les relations du Luxembourg avec le Portugal. Ambassadeur Paul Schmit a indiqué quels sont les aspects jugés comme essentiels a développer entre le Portugal et le Luxembourg, D’une part, améliorer les relations économiques, dont le commerce pourrait être plus élevé et, par ailleurs, donner à connaisser une image fidèle du Luxembourg, qui n’est

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English & French texts

plus l’El Dorado d’autres temps, en atteindre un taux de chômage très inconfortable. Actuellement, le taux de chômage

des immigrants portugais est beaucoup plus élevé en pourcentage de leur présence en termes réels.

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56. Bernarda Gradisnik, Ambassador of Slovenia Bernarda Gradisnik, Ambassador of Slovenia, has lived in Portugal for 14 months. She began her political career in the Ministry of Foreign Affairs in 1991, when Slovenia gained its independence, It was not not a political appointment and she said that she does not belong to any political party. She said that she is very happy that her first post is as ambassador is in Portugal, where people are extremely friendly and ready to help. She sees her priority as Ambassador,is to act positively in the field of economic diplomacy and she has tried to encourage Slovenian.

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56. Bernarda Gradisnik, ambassadeur de la Slovénie Bernarda Gradisnik, ambassadeur de la Slovénie, est au Portugal il ya 14 mois et a commencé sa carrière politique au sein du ministère des Affaires étrangères en 1991, lorsque la Slovénie a été indepente en 1991, mais ce n’est pas une nomination politique car elle assure qui ne fait part d’un parti politique . Elle s’afirme très heureux que son premier poste en tant qu’ambassadeur être ici au Portugal, où les gens sont extrêmement chaleureux et prêt à aider. Voit sa priorité en tant qu’ambassadeur, agissant positivement dans le domaine de la diplomatie économique et a essayé d’encourager les entreprises slovènes à venir au Portugal. L’ambassadeur est optimiste et voit un avenir pour nos pays, de travailler ensemble. Cette année, Maribor, deuxième plus grande ville de la Slovénie, a été choisie pour être Capitale européenne de la Culture. Un choix qui est venu au bon moment, parce que ce doit être vu comme une occasion de rétablir et de maintenir une identité commune.

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67. The permanent headquarters of the CPLP It was this year that Lisbon hosted the permanent seat of the CPLP, located in the Palace of the Count of Penafiel. Lisbon is the only capital where there are embassies of all countries belonging to the Community of Portuguese Language Countries. The President of Portugal and the vice-President of Angola had the honor to inaugurate the headquarters and unveil the commemorative plaque. President Cavaco Silva emphasized the importance of the Lusophone language in the world and it brings a reality that constitutes a strategic asset in political and economic terms, which makes it essential to invest in education and training in the Portuguese language, presenting the CPLP as a shared commitment and ambition for the future.

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67. Le siège permanent de la CPLP Il a été cette année que Lisbonne a accuuelli le siège permanent de la CPLP, situé dans le Palais du Comte de Penafiel. Lisbonne est la seule capitale où il ya des ambassades de tous les pays appartenant à la Communauté des pays de langue portugaise. Le Président Cavaco Silva et le vice-président de l’Angola ont eu l’honneur d’inaugurer le siège et desserer une plaque commémorative. Cavaco Silva a souligné l’importance du monde lusophone et qu’elle apporte une réalité qui constitue une connexion stratégique en termes politiques et économiques, ce qui fait essentiel d’investir dans l’éducation et la formation dans la langue portugaise, en présentant la CPLP comme engagement commun et ambitieux pour l’avenir.

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86. Carlos Medeiros presented AURA Carlos Medeiros, owner of the restaurant AURA, believes that, in less than a year, the site is already a point of reference for the gastronomy of Lisbon. He confesses that this was a risk of great responsibility, as the restaurant is located in one of the most emblematic squares in Europe. Nothing was left to chance in this space, whose objective is to provide a pleasant, multifaceted restaurant, where the cuisine is exquisite and frankly original. The result of previous experiences, such as Cateri, says Medeiros, were vital for giving him the strength needed for a project of this magnitude. In this new season, Medeiros and his partners will present innovative gastronomic dishes.

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86 Carlos Medeiros a présenté son projet AURA Carlos Medeiros, propriétaire de l’AURA Restaurant, estime que, autant d’un an, le place est déjà une zone de référence de la gastronomie de Lisbonne. Il avoue que ce fut un act de courage de grande responsabilité, car le restaurant est situé dans l’une des places les plus emblématiques de l’Europe. Rien n’a été laissé au hasard dans cet espace, dont l’objectif est de fournir au public un cadre agréable, à multiples facettes, où la cuisine est franchement raffinée et originale. Le résultat des expériences précédentes, telles que Cateri, étaient vitales pour lui donner la force nécessaire pour un projet de cette amplitude. Dans cette nouvelle saison, Medeiros et ses partenaires présenteront des propositions gastronomiques diversifées.

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98 • Diplomática - abril/junho 2012



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