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ESUD 2013 – X Congresso Brasileiro de Ensino Superior a Distância Belém/PA, 11 – 13 de junho de 2013 - UNIREDE

EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA ENTRE REALIDADES: A INTERNACIONALIZAÇÃO DO ENSINO E OS CURSOS A DISTÂNCIA BRASILEIROS EM MOÇAMBIQUE Borges, Eliane Medeiros, Jesus, Diovana Paula, Silva, Priscila Aleixo da 1 – Universidade Federal de Juiz de Fora / Programa de Pós-Graduação em Educação (FACED-UFJF) / E-mail: mborges.eliane@gmail.com 2 – Universidade Federal de Juiz de Fora / Programa de Pós-Graduação em Educação (FACED-UFJF) / E-mail: diovana_paulaj@yahoo.com.br 1 – Universidade Federal do Rio de Janeiro / Programa de Pós-Graduação em Educação (FEUFRJ) / E-mail: aleixo.priscila@hotmail.com Resumo – O presente trabalho propõe uma reflexão sobre o contexto contemporâneo de internacionalização da educação superior, por meio de cursos de Educação a Distância. O objeto do trabalho é a implantação dos cursos do Programa de apoio à expansão da educação superior a distância da CAPES/UAB na República Popular de Moçambique. O ineditismo da experiência em particular, em um contexto de globalização dos processos educativos, no âmbito da pós-modernidade, constitui a motivação de nossas reflexões. O principal autor que fundamenta teoricamente o trabalho é Boaventura Santos, em suas reflexões sobre o contexto da pósmodernidade e o ensino superior. São apresentadas breves análises de levantamentos realizados por meio de questionários com o objetivo de monitorar e avaliar as diversas dimensões dos cursos sendo realizados, em especial no que se refere aos seus impactos sociais. Os dados selecionados, nos limites deste trabalho, se referem ao perfil do alunado do curso ministrado pela UFJF juntamente com a Universidade Eduardo Mondlane, em Moçambique, com o objetivo de dar um pequeno panorama de aspectos sociais que caracterizam o alunado do curso, de maneira a iniciar uma discussão sobre as diferenças entre as duas realidades que se encontram e manifestam na realização do curso. Palavras-chave: Educação a distância, internacionalização da educação, ensino superior na pós-modernidade. Abstract – This paper proposes a reflection on the contemporary context of internationalization of higher education through distance education courses. The object of this work is the implementation of the program courses supporting the expansion of distance education by CAPES / UAB in the People's Republic of Mozambique. The novelty of the experience in particular, in a context of globalization of educational processes in the post-modernity, is the motivation of our reflections. The main author herein discussed is Boaventura de Souza Santos, focused in his reflections on the context of postmodernism and higher education. It 1


ESUD 2013 – X Congresso Brasileiro de Ensino Superior a Distância Belém/PA, 11 – 13 de junho de 2013 - UNIREDE is presented a brief analysis of surveys made through questionnaires in order to monitor and assess the various dimensions of the courses being conducted, particularly with regard to their social impacts. The selected data within the limits of this study, refer to the profile of the students of the course taught by UFJF along with the University Eduardo Mondlane, in Mozambique, in order to give a short overview of the social aspects that characterize the student body of the course, so to start a discussion about the differences between the two realities that manifest in the course. Keywords: Distance education, internationalization of education, higher education in postmodernity.

1. Introdução O presente artigo, no âmbito dos trabalhos do Grupo **** propõe uma reflexão sobre o contexto contemporâneo de internacionalização da educação superior, neste momento apoiada nas Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC), fundadas na interatividade e na convergência da linguagem das diferentes mídias, de notório desenvolvimento nas últimas décadas. O objeto aqui estudado é a implantação dos cursos do Programa de apoio à expansão da educação superior a distância na República Popular de Moçambique. O ineditismo da experiência em particular, em um contexto de globalização dos processos educativos, no âmbito da pós-modernidade, constitui a motivação de nossas reflexões. Nossas investigações encontram-se ainda em estado inicial e, além da busca de significações num quadro mais teórico, referentes aos aspectos característicos da contemporaneidade que impactam e formatam as experiências de formação nas diversas sociedades, partimos para a análise de levantamentos realizados por meio de questionários com o objetivo de monitorar e avaliar as diversas dimensões do trabalho que está sendo realizado, em especial no que se refere aos impactos sociais produzidos pelos cursos ora em carga em Moçambique, ministrados em colaboração por equipes de dois países. Neste momento, do ponto de vista empírico, iremos focar alguns dados até o momento levantados que nos dão um rápido perfil do alunado do curso ministrado pela Universidade Federal de Juiz de Fora juntamente com a Universidade Eduardo Mondlane, em Moçambique. Nosso objetivo, aqui, é dar um pequeno panorama de aspectos sociais que caracterizam o alunado do curso, de maneira a iniciar uma discussão sobre as diferenças entre as duas realidades que se encontram e manifestam na realização do curso. Iniciaremos, portanto, refletindo sobre aspectos teóricos que julgamos pertinente à questão aqui apresentada, e continuaremos com uma rápida análise, nos limites deste trabalho, do contexto social dos sujeitos-alunos envolvidos, de maneira pioneira, no processo concreto aqui discutido.

2. O contexto pós-moderno e tecnológico e a Internacionalização da Educação O ensino a distância como prática efetiva e reconhecida é um fato bastante recente no cenário nacional, tendo uma representação mais concreta na esfera educacional a partir do 2


ESUD 2013 – X Congresso Brasileiro de Ensino Superior a Distância Belém/PA, 11 – 13 de junho de 2013 - UNIREDE século XX: funcionava como alternativa empregada principalmente na educação não formal (ALMEIDA, 2002, et al). Décadas se passaram até que tal prática fosse progressivamente regularizada e regulamentada pela esfera governamental que sistematiza, de forma concreta, o ensino no Brasil. Atualmente, a educação a distância (EAD) goza de uma estabilidade, no que diz respeito a ocupação de um papel e lugar no cenário acadêmico, bastante significativa, conquistada ainda que com certas dúvidas e críticas inerentes a esse modelo de ensino. O anterior surgimento e atual aperfeiçoamento das TIC vêm se atrelando ao ensino a distância com muito sucesso, incorporadas como interface de ferramenta, proporcionando, com isso, uma intensa mudança até na própria forma de se entender e conceber o ensino a distância a partir de então (BELLONI, 1999, p.31). Não é possível, contudo, descolar a esfera educacional do contexto em que a mesma se insere, que atualmente também se mostra permeado por essas tecnologias: sociólogos contemporâneos como Castells partem da revolução da tecnologia da informação como pontapé de análise da complexidade da nova economia, sociedade e cultura em formação devido a sua penetrabilidade em todas as esferas da atividade humana. Um novo sistema de comunicação que fala mais a língua universal digital está promovendo a integração global da produção e distribuição de palavras, sons e imagens de nossa cultura como as personalizando ao gosto das identidades e humores dos indivíduos. (CASTELLS, 1999. p. 40)

Esse sistema de comunicação bastante modificado a partir do ultimo século faz parte de um contexto e universo maior, denominado usualmente de pós-modernidade, em que se conjugam e convertem as mudanças pelas quais o mundo social está passando nos últimos anos. Autores como Boaventura de Souza Santos entendem esse momento principalmente a partir da fenda que se abre na construção e na aceitação dos paradigmas que norteima a ação humana, e caracteriza esse momento como uma época característica de transição de paradigmas: Tenho vindo a afirmar que nos encontramos numa fase de transição paradigmática, entre o paradigma da modernidade, cujos sinais de crise me parecem evidentes, e um novo paradigma com perfil vagamente descortinável, ainda sem nome e cuja ausência de nome se designa por pós-modernidade. (SANTOS, 2010, p. 34)

O conceito de pós-modernidade é utilizado considerando que a modernidade esgotouse em suas propostas e objetivos, e que causam déficits de ajustamento se continuam sendo utilizados. Entender o movimento e a dinâmica da educação no período atual significa também contextualizar tal movimento nesse lócus da pós-modernidade. Nesse período, todas as esferas da sociedade assumem características comuns, como a descontinuidade e fragilidade específica do próprio momento de transição. Em Marcondes (1994, et al), assim como em Boaventura, já se fala da crise de paradigmas refletindo-se na esfera educacional, em que inovadoras práticas já vem florescendo, objetivando corresponder, portanto, a uma estrutura pós-moderna de educação e produção de conhecimento. Também no que se refere ao ensino superior, é possível perceber como as contradições advindas da crise dos paradigmas da modernidade se apresentam caracterizadas (SANTOS,

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ESUD 2013 – X Congresso Brasileiro de Ensino Superior a Distância Belém/PA, 11 – 13 de junho de 2013 - UNIREDE 2010, p. 187), também em contradições dentro das próprias universidades. Formas de atuação educacional passam a ser pensadas e formuladas com vista a dar conta de resolver as tensões advindas da crise dos paradigmas da educação e reconhecer, nela a nova racionalidade com que tem que conversar, evidenciada na diversificação das sociedades no mundo, composição cada vez mais multicultural, massificada, com tecnologias incorporadas à vida diária e referente ao caráter internacional do conhecimento contemporâneo (CHAUI, BERNHEIM, 2008, et al) A recontextualização se refere à transferência das tecnologias de informação e comunicação (TIC) da sua área original (não educacionais) para o contexto da educação à distância. As consequências que isso traz: um fenômeno complexo, envolvendo, para além de uma simples colonização, um processo de apropriação cujas características e resultados dependem das circunstâncias concretas dos diversos contextos. (BARRETO, 2006, p.33)

Políticas atuais voltadas para a maior democratização do ensino nas universidades e para o acesso à educação aparecem com vistas a dar conta das “exigências de um mercado que demanda por profissionais multifuncionais, polivalentes, inovadores e ambiciosos de uma formação continuada” (BLIKSTEIN E ZUFFO, 2006, p. 31). Peters corrobora com tal ideia quando propõe a necessária flexibilização do ensino superior, que deveria se adaptar as necessidades imperativas do contexto atual: O foco está em que as universidades têm que adaptar os seu ensino aos novos requisitos da vida em uma sociedade do conhecimento pós-industrial, pós-moderna. Essa nova forma de atuação pede formas de ensinar que sejam altamente flexíveis (...). A educação superior deve se tornar mais flexível se as universidades quiserem sobreviver. (PETERS, 2002, p. 237)

As relações transnacionais também aparecem nesse contexto como forma atual de cooperação para construção do conhecimento no ensino superior. Nesse contexto também se torna imperativo mencionar o caráter internacional do conhecimento contemporâneo. Como diz Chauí, “os estados têm fronteiras, o conhecimento, horizontes” (CHAUI, 2008, p. 14). Percebe-se uma forte concretização de uma academia mundial composta por redes que usam o ciberespaço como meio de comunicação. A emergência desse conhecimento sem fronteiras em um mundo cada vez mais globalizado vem confrontar a educação superior a uma série de desafios. A EaD reaparece, no contexto acima apresentado, renovada em suas técnicas de ensino. Ancorada no uso de novas tecnologias, o ensino a distância surge como alternativa dentro da universidade para dar conta dos imperativos pós-modernos de formação (SILVA, 2006, p. 57): No momento em que a procura da universidade deixou de ser apenas a procura de excelência e passou a ser também a procura de democracia e igualdade, os limites da congruência entre os princípios da democracia e da igualdade tornaram-se mais visíveis: como compatibilizar a democratização do acesso com os critérios de seleção interna? Como fazer interiorizar numa instituição que é, ela própria, uma “sociedade de classes” os ideias de democracia e igualdade? (SANTOS, Boaventura de Sousa, 1997, p. 212)

A incorporação das TIC’S à EaD tornou essa modalidade educacional mais complexa devido as características da tecnologia digital de flexibilizar as relações de espaço e tempo, 4


ESUD 2013 – X Congresso Brasileiro de Ensino Superior a Distância Belém/PA, 11 – 13 de junho de 2013 - UNIREDE propiciar a interação entre pessoas e destas com as informações disponibilizadas e com as tecnologias em uso, ampliar o acesso a informações hipermidiáticas continuamente atualizadas, empregar mecanismos de busca e seleção de informações, permitir o registro de processos e produtos, a recuperação, articulação e reformulação da informação, favorecer a mediação pedagógica e criar espaços para a representação do pensamento e produção de conhecimento (ALMEIDA, 2010, p. 106). No Brasil as medidas tomadas para ampliar o acesso ao ensino superior estão direcionadas a uma tentativa de massificação e democratização do mesmo. Políticas de estímulo ao alargamento da capacidade de oferecimento dos cursos superiores passam a ser centrais, e incentivos como o Programa Universidade para todos (Prouni), o Plano de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni) e a criação da Universidade Aberta do Brasil (UAB) aparecem como reflexos da intenção política do aumento de oferta de ensino superior. A EaD vai se consolidando como política pública à medida que seu oferecimento e regulação vão se institucionalizando – o que é percebido a partir da criação de uma secretaria de Educação a Distância (SEED) vinculada ao MEC em 1996, e da criação da UAB, em 2005. A educação a distância está no contexto das políticas para educação superior com forte característica transfronteiriça, que “cruza fronteiras e pode ser ajustado pelas telecomunicações e pelo transporte” (GRISI, 2004, p. 21) Em meio a essa consolidação da EaD como prática de ensino no país, o governo brasileiro publica a portaria de número 22/2010, e dá início a instituição do Programa de apoio à expansão da educação superior à distância na República Popular de Moçambique, seguida pela portaria 11/2011 que complementa a anterior e “Regulamenta a implantação do Programa de Apoio à Expansão da Educação Superior a Distância na República de Moçambique, instituído pela Portaria Normativa nº 22, de 26 de outubro de 2010”. Tem início, deste modo, um processo de implantação de alguns cursos à distância em Moçambique, que seguem parâmetros e determinações brasileiras e passam a servir de guia para uma política internacional de oferecimento de cursos à distância. O primeiro comunicado oficial de tal proposta foi em 2010, e em março de 2011 já tiveram início as primeiras aulas dos cursos de Graduação em Pedagogia, licenciaturas de Matemática e Biologia e o curso de Administração Pública, em meio a um cenário político que conjugava o fim do mandato do presidente Luís Inácio da Silva e outras ações que intencionavam aumentar a sua influência frente a países africanos. Quatro universidades brasileiras UFJF, UNIRIO, UFF e UFG se responsabilizaram por desenvolver tais cursos, com uma equipe de gestores, professores e tutores brasileiros e moçambicanas, em três polos. Esse é um projeto com previsibilidade de duração mínima de quatro anos, almejando até 2017 formar 5,5 mil professores da educação básica e 1,5 mil servidores de Administração Pública. O Programa nasceu por decisão política de dois governos, mas, sobretudo, do presidente Lula. Por causa do fim do mandato de Lula, houve um certo aceleramento nas negociações entre os dois países, entre os Ministérios da Educação e na configuração do próprio programa. No prazo de um ano, foi discutido e desenhado o sistema de EaD a ser implementado, elaborados os projetos pedagógicos de cada curso de tal forma que atendessem às especificidades de Moçambique e, ao mesmo tempo, às exigências legais das instituições de ensino superior envolvidas (PRETI, 2012, p. 4). 5


ESUD 2013 – X Congresso Brasileiro de Ensino Superior a Distância Belém/PA, 11 – 13 de junho de 2013 - UNIREDE Essa característica de internacionalização da educação em si não é fato novo no ensino superior. Acordos de cooperação entre universidades a nível mundial e associação entre instituições nacionais e estrangeiras são situações que acontecem cotidianamente nas instituições, e essa expansão torna-se inevitável diante da sociedade globalizada. Chauí aponta que a própria ideia de educação para o século XXI deve se orientar para o convívio nessa aldeia globalizada em que nos encontramos, a “aprender a aprender” nesse contexto (CHAUÍ, 2008, p. 23). Manuel Castells tem a dizer o seguinte a esse respeito: Não há outro remédio que navegar nas revoltas águas globais […]. É essencial, portanto, para essa viagem inescapável e potencialmente criativa, ter uma bússola e uma âncora. A bússola: é educação, informação, conhecimento individual e coletivo; a âncora: nossas identidades – saber quem somos e de onde viemos, para não nos perdermos do lugar para onde vamos (CASTELLS, 1999).

Esse fenômeno associa o processo de internacionalização do ensino com a própria ideia de globalização neoliberal da universidade. A ruptura de fronteiras do ensino torna-se um reflexo da natureza global do conhecimento, da pesquisa e da aprendizagem. A globalização da universidade (SANTOS, 2008, p. 70) que vem envolvendo o ensino superior e se associado à própria natureza do saber contemporâneo, não vem se efetivando de forma homogênea no contexto dos países, e com isso, não participam com igualdade da academia mundial que vem se formando. Segundo Chauí: No entanto, não podemos esquecer que a globalização pressupõe uma divisão social e econômica muito precisa entre o Norte e o Sul ou entre países centrais hegemônicos e países periféricos dependentes. Essa divisão significa que os acadêmicos, cientistas, artistas e intelectuais dos países periféricos dependentes não participam da academia mundial em condição de igualdade com os dos países centrais hegemônicos. O que acontece em pelo menos três aspectos principais: 1) há desigualdade com respeito aos recursos financeiros, instrumentais e técnicos para a pesquisa; 2) há desigualdade de oportunidades para divulgar e aplicar os resultados da pesquisa; 3) para terem entrada na academia mundial, os membros dos países periféricos dependentes concordam em restringir a sua pesquisa a problemas, assuntos, temas, métodos e técnicas definidos nos países centrais hegemônicos. (CHAUI, 2004, P. 14)

Nessa perspectiva, há a tendência de se fomentar e intensificar as formas de cooperação transnacional que já existem, a partir, principalmente, de acordos bilaterais ou multilaterais que vem aparecendo em grande número, como uma opção pertinente para pensar a formação superior. Boaventura se atenta para esse tipo de associação e no que as mesmas podem implicar para a formação dos seus alunos, assim como suas potencialidades, em específico para países de mesma língua, como é o caso de Brasil e Moçambique. No caso dos países de língua oficial portuguesa, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) é um espaço multilateral com um enorme potencial para a transnacionalização cooperativa e solidária da universidade. Aos países semiperiféricos deste espaço, Brasil e Portugal, cabe a iniciativa de dar os primeiros passos nessa direcção: cursos de graduação e de pós-graduação em rede, circulação fácil e estimulada de professores, estudantes, livros e informações, bibliotecas online, centros transnacionais de pesquisa sobre temas e problemas de interesse específico para a região, sistema de bolsas de estudos e linhas de financiamento de pesquisa destinados aos estudantes e professores interessados em estudar ou pesquisar em qualquer país da região (SANTOS, 2004, p.85)

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ESUD 2013 – X Congresso Brasileiro de Ensino Superior a Distância Belém/PA, 11 – 13 de junho de 2013 - UNIREDE É necessário, então, pensar essa experiência de implementar um modelo de ensino a distância com bases e perspectivas brasileiras em outro país dentro desse contexto globalizado. Se atentar para o fato do que essa proposta de cooperação internacional pode significar e contribuir para a formação superior em Moçambique é importante, assim como procurar perceber se essa cooperação não se caracterizaria como um neocolonialismo, que Boaventura já teme (SANTOS, 2008, p. 40), e que possibilite trazer mínimas condições de emancipação dentro desse contexto. De forma prática, é um novo e diferenciado contexto em que o ensino a distância terá de se encaixar. Isso já seria, por si só, um importante marco no desenvolvimento e reconhecimento histórico dessa modalidade de ensino no país. Implicações consequentes, relacionadas a essa implementação, se mostrarão interessantes na medida em que terão a capacidade de trazer para a discussão acadêmica pontos como a qualidade do processo de ensino e a forma de construção do conhecimento nessa modalidade. A importância de desenvolvimento de uma pesquisa relacionada ao fato dessa implementação de cursos a distância em Moçambique é dada pela possibilidade de acompanhar o processo de implementação dos mesmos, haja visto que pode trazer contribuições pertinentes para pensar o modo com que a prática de EaD se desenvolve nesse cenário e suas potencialidades de alcance e adaptação.

3. Os primeiros dados sobre o perfil dos alunos O convênio BR/MZ integra, como já foi apresentado, quatro instituições universitárias brasileiras com duas universidades de Moçambique. Elas formam, juntas, um cenário com a seguinte distribuição: Universidade Federal de Goiás, com o curso de licenciatura em Biologia; a Universidade Federal Fluminense, com a licenciatura em Matemática; a UNIRIO, com a licenciatura em Pedagogia. Esses cursos de licenciatura são ministradas juntamente com a Universidade Pedagógica de Moçambique. Já a Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo, ministra juntamente com a Universidade Federal de Juiz de Fora o curso de graduação em Administração Pública. Os cursos estão, no momento, em seu terceiro ano, acontecendo em três cidades-polo de Moçambique: Maputo, Beira e Lichinga. A importância e o ineditismo da experiência de cursos de graduação em situação de colaboração internacional na modalidade distância sugeriu, desde o seu início, um processo avaliativo de seu desenvolvimento e impacto, nas dimensões sociais, culturais e pedagógicas. Há algum tempo vem sendo intencionado sistematizar esse processo avaliativo por meio da obtenção de dados relativos aos cursos e aos alunos que estão vinculados a ele, pensando ser essencial entender quem são tais alunos e como os mesmos atuam dentro dos cursos. Atualmente, o Grupo **** tem se engajado em fazer algum trabalho que envolva o perfil de tais alunos, e teve acesso a um questionário aplicado aos alunos do curso de Administração Pública, ministrado pela Faculdade de Administração da UFJF juntamente com a Universidade Eduardo Mondlane. Esse levantamento, realizado no início do curso pela coordenação do mesmo, obteve dados socioeconômicos que nos permitem ter uma ideia geral do alunado do curso. Importante lembrar que o programa conta com quatro cursos e esses são dados referentes a sessenta e três respondente de apenas um desses cursos, trazendo dados de caráter ilustrativo para pensarmos a inserção de cursos brasileiros em outra realidade de 7


ESUD 2013 – X Congresso Brasileiro de Ensino Superior a Distância Belém/PA, 11 – 13 de junho de 2013 - UNIREDE ensino. Como foi dito acima, o curso possui três polos de apoio presencial para os estudantes. Lichinga é a província mais pobre do país; Maputo, capital da província de Moçambique, possui um número um pouco maior de alunos que o restante dos polos:

Tabela 1. Quantidade de respondentes do curso de Administração Pública convênio UAB/ Moçambique por polo em 2011.

Polos

Frequencia Percentual Percentual válido

Beira/Sofala

13

20,6

32,5

Lichinga/Niassa

12

19,0

30,0

Maputo

15

23,8

37,5

Total

40

63,5

100,0

Não respondeu

23

36,5

0,0

Total

63

100,0

100

Fonte: FACC/UFJF

No que diz respeito ao gênero dos alunos, vê-se que o alunado se divide mais ou menos de forma proporcional: não há preponderância de acesso ao curso por algum gênero em específico. Numericamente, percebe-se uma ligeira sobreposição do sexo feminino. Tabela 2. Gênero dos alunos do curso de Administração Pública convênio UAB/ Moçambique em 2011

Gênero

Frequencia

Percentual

Percentual válido

Masculino

29

46,0

46,0

Feminino

34

54,0

54,0

Total

63

100,0

100,0

Fonte: FACC/UFJF

No que diz respeito à idade dos alunos do curso de Administração Pública a distância em Moçambique percebe-se que os alunos são em sua maioria mais velhos. Pouco mais de 87% dos alunos possui mais de 29 anos. São, portanto, pessoas que não tinham contato há algum tempo com o meio acadêmico e através desse curso a distância puderam encontrar uma forma de continuar sua formação. Abaixo, segue o gráfico referente às respostas acerca da idade:

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Gráfico 1 - Idade dos alunos do curso de Administração Pública convênio UAB/ Moçambique em 2011. Fonte : FACC/UFJF

Complementando a informação acima, uma pergunta referente à formação superior questionou se os alunos já tinham feito ou iniciado algum curso superior, até então. Dos respondentes, 82,5% assinalaram que o curso a Distância oferecido pelo convênio UAB/Moçambique foi a primeira oportunidade de graduação que tiveram. Foi por meio da modalidade a distância, portanto, que a maioria desse alunos pôde ter acesso ao ensino de nível superior. Essa questão se assemelha ao perfil dos alunos desses cursos aqui no Brasil: alunos que não tiveram acesso ao ensino superior em um momento anterior e retornam ao ambiente escolar, por meio de ensino a distância.

Gráfico 2 - Alunos do curso de Administração Pública convênio UAB/ Moçambique em 2011 que iniciaram outro curso superior Fonte: FACC/UFJF

O processo de seleção dos alunos do curso de Administração pública em Moçambique

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ESUD 2013 – X Congresso Brasileiro de Ensino Superior a Distância Belém/PA, 11 – 13 de junho de 2013 - UNIREDE foi um pouco diferente daqueles realizados pelos outros cursos. Não houve vestibular ou alguma prova para seleção, os alunos forma indicados para preencher as vagas do curso a partir da necessidade de formação de servidores que já tinham algum cargo administrativo ou eram funcionários públicos. Deste modo, todos os alunos estavam empregados e exerciam algum tipo de atividade relacionada à área do curso pela qual buscam formação. Como é possível perceber na tabela abaixo, grande parte dos alunos tem formação de nível técnico, também relacionados à área de atuação em Administração. Tabela 3. Profissão principal que os alunos do curso de Administração Pública convênio UAB/ Moçambique excerciam em 2011

Profissão

Frequência

Percentual

Percentual válido

Técnico Profissional

31

49,2

50,0

Professor

2

3,2

3,2

Funcionário Público

5

7,9

8,1

Contabilista

2

3,2

3,2

Escritoraria

2

3,2

3,2

Outros

20

31,7

32,3

Total

62

98,4

100,0

Não Respondeu

1

1,6

0,0

Total

63

100,0

100,0

Fonte: FACC/UFJF

No que diz respeito ao acesso às tecnologias de comunicação, o cenário muda consideravelmente com o que se apresenta comumente no Brasil. Grande parte dos alunos não possui computador em casa, e quando possuem, poucos são os que têm acesso a internet por eles. Os que não possuem acesso a internet entram na plataforma do curso por meio dos “cafés”, casas para acesso pago a computadores e internet. Ainda, na tabela abaixo, está esquematizada a relação de posse de alguns meios de comunicação dos alunos do curso: Tabela 4. Meios de Comunicação que os alunos do curso de Administração Pública convênio UAB/ Moçambique possuiam em casa em 2011

Rádio

Telefone/ Celular

Aparelho de Som/CD

Computador

TV

f

%

f

%

f

%

f

%

f

%

Sim

44

69,8

60

95,2

36

57,1

21

33,3

46

73,0

Não

18

28,6

2

3,2

26

41,3

41

65,1

16

25,4

1,6

1

1,6

1

1,6

1

1,6

1

1,6

Não Respondeu 1

10


ESUD 2013 – X Congresso Brasileiro de Ensino Superior a Distância Belém/PA, 11 – 13 de junho de 2013 - UNIREDE Total

63

100,0 63

100,0 63

100,0

63

100,0

63

100

Fonte: FACC/UFJF

A dificuldade de acesso à internet, por meio da própria dificuldade de posse pessoal de computador e eventuais problemas de rede, nos dá uma dimensão dos desafios colocados para os cursos a distância. Sabe-se que, hoje, os cursos na modalidade tendencialmente procuram construir sua dinâmica de ação por meio de mediação tecnológica, em especial, atualmente, pelo potencial interativo da internet. Percebe-se, deste, a importância diferenciada que os centros de recurso em Moçambique – entendido no Brasil como os polos do curso – pode ter para o acesso a informação e construção de conhecimento de tal aluno, haja visto que por meio do Centro de Recursos seria possível superar eventuais dificuldades de comunicação com os alunos. Para além desta necessidade, pode ser iniciada a reflexão sobre meios alternativos de comunicação entre professores e alunos, considerando-se que o acesso ao telefone celular é quase universal entre os estudantes. Tais dados contextualizam o curso em realidade específica, que deve ser considerada ao longo do seu desenvolvimento.

4. Considerações finais Pensando no contexto da pós-modernidade, Boaventura trás algumas propostas para se pensar a educação, em específico o ensino superior, a fim de que o mesmo dê contas das novas exigências e necessidades de formação desse indivíduo pós-moderno. Sua primeira ressalva é que, para que isso aconteça, seria essencial que as ações no contexto da educação viessem sempre em consonância com o pensamento e com a própria formação do projeto de país, que diz respeito à formação e afirmação da identidade daquela nação, que se forma justamente pro meio do processo educativo (SANTOS, 2008, p. 45). É essencial construir o que Boaventura chama de “conhecimento pluriuniversitário” - ligado a própria globalização do conhecimento -, de maneira que essa ainda seja capaz de entender e sistematizar o que é especifico do país, especialmente para os países que ainda não o fizeram Para os países periféricos e semiperiféricos o novo contexto global exige uma total reinvenção do projecto nacional sem a qual não haverá reinvenção da universidade. Como se verá adiante, não há nesta exigência nada de nacionalismo. Há apenas a necessidade de inventar um cosmopolitismo crítico num contexto de globalização neoliberal agressiva e excludente. (santos, 2008, P. 48)

Neste sentido, o processo de globalização que se efetiva no plano da educação pode trazer profundos desafios, envolvendo investigações e descobertas. No contexto dos cursos implementados em Moçambique, essa é a ideia que deve guiar a consecução dos cursos, na medida em que um dos objetivos a ser alcançado por tal projeto é a transferência de conhecimento, envolvendo formação e construção de dinâmicas e estruturas na área da educação a distância, no que diz respeito ao ensino superior, haja visto que o projeto tem uma duração e, consequentemente, um término previsto. Além disso, num plano mais geral, o objetivo a ser alcançado é a melhoria na educação e na gestão pública de Moçambique, o que deve ter implicações importantes para o melhor exercício da cidadania no país e, corroborando com o que diz Boaventura, pode auxiliar na reconstrução do projeto de país na 11


ESUD 2013 – X Congresso Brasileiro de Ensino Superior a Distância Belém/PA, 11 – 13 de junho de 2013 - UNIREDE medida em que insere mais alunos no contexto da educação superior. A notar que qualquer processo educacional implica, primeiramente, em valores, que podem estar em conflito em contextos interculturais. Num momento em que o contato entre culturas e entre visões de mundo diferentes vai se tornando cada vez mais comum e necessário, também no âmbito da educação conviver e traçar ações que deem conta de mediar essa interculturalidade mostra-se como técnica imprescindível. No plano social, apenas começamos a ter, a partir do conhecimento das realidades locais, a percepção do impacto da formação superior para s atuais alunos. Observa-se que os cursos constituem oportunidade singular para eles, com a expectativa de desdobramentos positivos do ponto de vista profissional. É importante salientar, aqui, que o principal diferencial dos cursos lá implementado é a dupla certificação de seus diplomas, ou seja, aqueles alunos que se formarem nos cursos lá oferecidos também poderão, em princípio, atuar no Brasil. O ineditismo da experiência aqui apresentada e ambientada a partir da caracterização do sujeito-aluno que é parte essencial do projeto representa um grande desafio para as instituições de ensino superior envolvidas, e para os órgãos federais de ensino que também estão ligados ao mesmo. Além de todos os problemas logísticos envolvidos, considerando-se a imperativa distância entre dois continentes e a mediação tecnológica, as diferenças socioculturais implicam, para as equipes de professores e tutores, em repensar continuamente as estratégias pedagógicas no interior dos cursos, adequando as diferentes necessidades e prerrogativas que aparecem do decorrer do processo de formação desses alunos. Do ponto de vista da educação a distância no Brasil, espera-se que a experiência signifique um aperfeiçoamento das práticas pedagógicas na modalidade, sendo capaz também de mostrar a capacidade de repensar o ensino à distância visando a adequação de tal modalidade de ensino ao meio em que é inserida. Em outra vertente, essa experiência trás um reconhecimento para o própria EaD no Brasil, que se mostra como prática aceita e efetiva, capaz de alçar voos que levam a modalidade a outro continente e a faz romper fronteiras: a experiência da EaD brasileira integra-se em contexto internacional.

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Educação a distância entre realidades: A internacionalização do ensino e cursos a distância brasilei  
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