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A Menina  do Guia de Viagens.  Diogo Batalha 


“Mudar e melhorar são duas coisas diferentes”                                           ‐– Provérbio alemão.               


Prefácio.   

  Peço desculpas, mas eu não faço a menor idéia do que você está  lendo. Um conto? Um livro? Um romance? Não sei. Começou como um  simples conto, que foi se desenrolando e, quando dei por mim, ele  estava com vários microcapítulos e mais de cinquenta páginas. Não  considero um romance, mas também não é um conto. Então, me  desculpe, mas não sei o que é.    Esse seiláoque foi escrito em apenas um dia (uma manhã e tarde  para ser mais exato). Estava indo para a agência onde trabalho e vi,  num ônibus, uma menina lendo um guia de viagens. Me perguntei  então por que uma pessoa estaria lendo um guia de viagens de outro  país num ônibus logo pela manhã e assim surgiu a ideia do conto, que  virou esse seilaoque. Mas essa história vocês já conhecem do outro  parágrafo. Fato é que, ao chegar na agência, como tive nenhum  trabalho aquele dia (que meu chefe não leia isso), cuspi esse seiláoque.     Aqui não há fatos reais. Não há sequer nomes. Há apenas uma  história de um porquê que busquei numa viagem de ônibus para o  trabalho. Se você souber de alguma história parecida, sim. É apenas  coincidência.     Espero que goste de ler tanto quanto eu gostei de escrever.        Ps.: Peço desculpas também por eventuais erros no português. Sou  redator, mas sou um péssimo resvisor. 

               


Capítulo 1    A menina com o guia de viagem.                                             


Durantes esses longos anos da minha vida, percebi que acordar cedo é  um tormento para qualquer pessoa. Tá, não para qualquer pessoa. Sempre  tem um tiozinho maluco que, no auge dos seus 80 anos, acorda às três da  manhã para ir dar uma corrida na rua. Esses são irrecuperáveis das terras  dos sonhos. Mas, em geral, qualquer pessoa iria preferir estar deitado na  cama dormindo.  Eu não só preferia, como faço disso um estilo de vida. Infelizmente,  ninguém ainda decidiu me pagar para manter esse estilo de vida. Aí eu tenho  que trabalhar. Essa é a parte chata.  Meu dia é basicamente assim: acordo na hora para o trabalho, volto a  dormir, perco a hora para o trabalho, levanto em disparada porque o  despertador não tocou (pelo menos eu tento me convencer todo dia que a  culpa é do despertador que não tocou), engulo qualquer coisa que esteja na  geladeira, que torço para não estar mofada e eu morrer de indigestão no  caminho para o trabalho, até porque, eu não quero atrapalhar o dia de  ninguém.   Aliás, tenho a teoria que as pessoas que morrem no meio do dia são  extremamente egoístas. É tão melhor morrer dormindo. Quer dizer, não  precisa nem ser dormindo. Só não pode ser de dia.  Morrer de dia implica dizer que alguém vai te ver morrer. Talvez uma  multidão. E talvez role um alvoroço nessa multidão porque alguém está  morrendo. Talvez aquela adolescente maluca de cabelos coloridos comece a  tirar fotos e postar no twitter o exato momento da sua morte. Pronto, virou  viral na internet e defunto no chão.   Mas o fato é que morrer de dia requer muita cara de pau. Seus  familiares vão ter que sair do serviço para ir ver seu cadáver. Suas contas  vão ficar por pagar. Aliás, morrer de dia e indo pagar contas é o máximo da  tristeza que um ser humano poderia esperar. Eu tenho pena das pessoas que  morreram indo pagar contas.   Então fica aqui meu conselho. Morram a noite, por favor. Se  engasguem com um sucrilhos assistindo o filme da madrugada, corte os  pulsos numa banheira ou faça um pega e capote o carro ribanceira abaixo.  Assim você não pega ninguém de surpresa. Seus familiares ficarão sabendo  logo pela manhã e não terão que fazer aquela cara de bunda no trabalho  quando receberem um telefonema avisando: seu sobrinho morreu  atravessando a rua quando ia pagar a conta de luz.  Por falar em contas, alguém tem que pagar as minhas. E esse alguém  sou eu.   Meu trabalho não é dos melhores, mas eu gosto. Eu me divirto muito  fazendo o que faço. Tudo bem, vender vibradores não é o que eu desejava  para a minha vida, mas tem suas compensações. Ver a cara de cada cliente e  imaginar o que eles fazem é um ótimo exercício para matar o tédio.   Tem o grupo de meninas pudicas que vão e não conseguem parar de  rir no meio de tanto de pinto de borracha. Tem o casal que busca algo  diferente para introduzir (só não sei se nele ou nela) na relação, tem a 


pessoa tímida que fala baixinho perguntando “onde tem filme pornô”. Tem o  viado que vive me cantando achando que eu vou mudar de time. Enfim, é, de  fato, uma profissão diferente, mas a maior parte do tempo é tediosa.   Pode não parecer, mas ninguém está muito afim de ir no meio da  tarde comprar fantasias sexuais, muito menos ser visto por algum conhecido  saindo de uma sex shop com uma bolsa cheia de brinquedinhos. Até imagino  a cena na próxima reunião da firma: e aí, te vi um dia saindo daquela sex  shop com mó piruzão na mão, hein! Não sabia que você era chegado. ‐ Enfim,  as pessoas preferem evitar o risco.         Assim sendo, basicamente meu dia é ficar jogando vídeo game ou  usando a internet pra coisas triviais. Acreditem ou não, depois que você  passa a trabalhar numa sex shop você perde todo o interesse por  pornografia. Não me lembro a última vez que entrei num site de mulher  pelada.  Claro que nem sempre é essa calmaria toda, tem uma data específica  em que essa loja venda consolo até para freira sozinha: o dia dos namorados.   É incrível como essa data faz aflorar a libido das pessoas. O que é  ótimo, muito mais comissão para mim (sem trocadilho, por favor). Na  verdade, eu dificilmente como alguém. Não sou o cara mais bonito do mundo  (e nem o mais agradável de conviver, de acordo com minhas últimas  namoradas) e muito menos um galanteador de primeira. Na verdade, nem  de segunda. Talvez de quinta. A última vez que dei em cima de uma mulher  eu estava numa festa em um porão, bêbado de falar enrolado e dizendo que  ela era a coisa mais bonita do mundo todo. O que eu não sei era verdade,  porque não vi a cara dela. Aliás, podia ser que sequer fosse “ela”.  Mas não fui  bem sucedido o suficiente para descobrir.  No fim do dia, quando todos os pirus que eu tinha que vender já foram  vendidos, eu volto pra casa. Compro algum daqueles pratos congelados no  Supermercado e vou assistir alguma coisa na tv, a não ser que seja sexta ou  sábado. Tem sempre uma festa perdida por essa cidade. E na manhã  seguinte, é tudo igual.   Alguns finais de semana eu tiro para visitar meus pais no interior.  Nunca dura muito, é verdade. Na verdade, dura tempo o suficiente até minha  mãe começar a reclamar do local onde eu trabalho e dizer que eu já deveria  estar casado e com um emprego decente. Meu pai não fala nada, mas creio  que ele concorda com ela. Talvez ache que trabalhar em meio a fotos de  mulheres peladas e vendo filme pornô não deve ser o pior dos trabalhos do  mundo. Ele passou a vida inteira sendo fodido no trabalho, nada mais lógico  que eu pelo menos ajudar as pessoas do outro lado do balcão a se foderem  por conta própria.  Eles dois já são aposentados e eu sou filho único. Não sei se eles têm  algum desgosto pelo meu estilo de vida fora do usual ou se sente remorso  por não terem vivido comigo o suficiente para me doutrinar a ser o filho  padrão que toda mamãe gostaria de ter. Meu pai era dono de uma loja de  materiais de construção (que ele vendeu para uma empresa maior. Com o 


dinheiro, comprou um apartamento para mim e decidiu se aposentar) e  minha mãe, professora universitária.   Eu nunca fui para a universidade, para desespero da minha mãe. A  única vez que pisei em uma foi para levar uns papéis que ela esqueceu em  casa certa vez. Aquele ambiente não me atraiu em nada. Tudo bem, eu posso  não ser o filho que meus pais pediram a Deus, mas sei que eles me amam.  Nas poucas vezes que nos falamos eles sempre me perguntam se eu estou  precisando de dinheiro. Acho que o fato de eu não ser mais dependente  deles os incomoda um pouco. Então, mesmo que eu não esteja precisando,  eles me mandam alguns trocados. Eu não reclamo. Na próxima pode ser que  eles mandem menos.  E essa é minha vida de merda. Nada de muito especial. Mas tem muito  mais partes legais do que ruins. Só que toda essa inércia já estava  começando a me deixar de saco cheio. Nada de interessante acontecia.  Sempre as mesmas festas, com as mesmas pessoas, minha mãe sempre  reclamando e mandando dinheiro no fim do mês.  É um processo constante e  ritmado que seria comparável a um processo de pesquisa, se alguém se  interessasse em pesquisar alguém tão leniente quanto eu.  Mas, um dia, algo de diferente aconteceu. Sabe, tem sempre um dia  nas nossas vidas que muda ela por completo. Aquele dia em que o carro não  pega na saída da garagem e você resolve ficar em casa e descobre que a sua  mulher te traia porque houve um recado deixado de tarde na secretária  eletrônica. Ou nem precisa ser algo tão grande. Pode ser que você leia no  jornal que açúcar refinado faz mal e desde então, você só passa a usar mel e  açúcar mascavo e se sente muito bem por isso. Bem, esse era um desses dias.  A começar pelo movimento fora do normal na loja. Parecia que todos  resolveram ter uma noite quente de amor na mesma noite e a sex shop  estava lotada. Eu não gosto muito quando isso acontece sem eu estar  preparado, pois tenho que ficar de olho se alguém não esta roubando algo.  Eu sempre acho que é muito mais fácil uma mulher encaixar uns daqueles  dadinhos de posições entre o decote do que qualquer outra coisa. Mulheres  de seios fartos eram sempre as minhas principais suspeitas. Mas, aquele dia,  tive que sair da loja mais tarde porque o garoto que fica no período da noite  havia ligado dizendo que ia se atrasar. Saí da loja já escuro e peguei o  primeiro ônibus que passava mais perto da minha casa. Não estava muito  afim de esperar pelo que me deixava quase na porta. Pelo menos aquele  ônibus não estava cheio, sentei num banco perto do cobrador e fiquei  olhando a bela paisagem de carros e fumaça das grandes cidades. Aquele  não era, de fato, um ônibus muito procurado. Na verdade ele parava em  menos pontos que o que eu pegava geralmente, o que tornou a viagem  relativamente mais rápida. Até que a porta do ônibus se abriu alguns pontos  depois e era como se tivessem feito dela um portal mágico para o céu onde  os anjos poderiam caminhar pela terra (tudo bem que, se eu fosse um anjo e  pudesse vir para a terra, o ultimo lugar onde eu gostaria de ir era num  ônibus. Ainda por cima tem que pagar passagem).  


Tudo o que posso dizer é que aquela garota era a mais bonita que eu tinha  visto nos últimos tempos e eu não estava num porão, nem bêbado. Ela  entrou lendo um guia de viagem para Veneza. Deu boa noite para o  cobrador, pagou a passagem e sentou alguns bancos depois. Não pude tirar  os olhos dela nem um Segundo e ela não tirou os olhos do guia em nenhum  momento. Também não ficou tanto tempo no ônibus. Saltou quarto pontos  antes de mim, sempre sem tirar os olhos do guia. Assim que ela desceu o  cobrador virou pra mim e disse:    ‐ Bonita ela, né?  ‐ Nossa, muito.  ‐ Ela pega esse ônibus todo dia e sempre lendo um guia de viagens.  Sempre me dá boa noite mas nunca fala com ninguém.  ‐ E ela vem sempre sozinha?  ‐ Sim. Pelo menos nunca vi ninguém com ela.    No dia seguinte tudo voltou ao normal, a não ser pela minha cabeça que  havia ficado naquele ônibus ontem à noite. Não parava de pensar naqueles  olhos negros cor de jaboticaba. A sex shop estava mais vazia do que pote de  doce em festa infantil, mas eu resolvi ficar até mais tarde só para ver se  encontrava aquela menina de novo, afinal, o cobrador disse que ela pega o  ônibus todo dia.  Minhas pernas estavam bambas ao subir aqueles degraus. O ônibus estava  mais cheio que no dia anterior. Deixei cair às moedas na hora de pagar e  sentei no fundo do ônibus, perto da porta de saída. A cada minuto que  passava eu gelava mais por dentro e sem ter a certeza se ela iria entrar no  ônibus. Quando chegou no ponto dela, eu tremia mais que vara verde. Ela  entrou. Sentou na mesma poltrona do dia anterior e seguiu lendo o seu guia.  Da onde eu estava não dava para vê‐la direito, somente os cabelos negros  brilhantes. Apreciei aquele momento o máximo que eu pude, pois sabia que  não iria durar. Levantou para saltar, puxou a cordinha e veio em minha  direção (na verdade na direção da porta, mas o relato é meu, então deixa eu  sonhar em paz) e ficou na frente da porta de saída esperando o ônibus parar.          Interessante era notar que, hoje, ela lia uma guia sobre Buenos Aires.  Talvez deva fazer faculdade de turismo. Saltou do ônibus, levou consigo  aquele momento mágico e deixou a tristeza de saber que amanhã é sábado e  não iria trabalhar. Provavelmente ela também não pegue aquele ônibus. Vai  ser um longo fim de semana de espera até a segunda‐feira.           

 


Capítulo 2     You say good bye   and I say hello. 


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Cara.  Que foi?  Aconteceu alguma coisa? Tu tá parecendo um morto.  Hahaha, não não. Só tô meio sem saco pra essa festa hoje.  Que isso, tá cheio de gata aqui. Tira essa cara de zumbi e vamos para a  caça. Toma, pega aqui essa vodka com red bull e te anima. 

É, meus amigos sabem como me animar. Mas, de fato, aquele final de  semana poderia ter passado em branco. Eu estava na festa, mas não estava  na festa. Na realidade estava no ônibus olhando as costas e o cabelo negro  brilhante daquela menina. A festa aquela altura já era apenas um resquício  da noite. As luzes piscantes me cegavam e aquela batida eletrônica não me  contagiava. Cheguei a pensar em ir para casa, mas o pessoal estava se  divertindo demais para eu pagar de chato então suportei como eu podia:  vodka e red bull.   Pelo menos no sábado, eu tive a ressaca como minha companheira. Eu  devia ter parado de beber mais cedo ontem. Ou deveria ter parado de vez  em uma das muitas vezes em que eu prometi nunca mais beber. Tá, a quem  eu quero enganar? Nada que uns comprimidos e água de coco não resolvam.  Mais um sábado rolando no quarto escuro esperando a dor de cabeça passar.  Mas, nesse sábado eu não consegui dormir. Ainda pensava naqueles olhos  negros e no perfume que traziam consigo. Será que algum dia eles iriam se  cruzar com os meus? E o mais importante, será que os meus resistiriam e  continuariam a olhar para os dela? Provavelmente não.   Finalmente peguei no sono e sonhei que estava em Buenos Aires.  Ouvia o tango e passeava com ela de mãos dadas pelas ruas de Palermo.  Depois fomos até Puerto Madera e ficamos olhando a água. Até que ela virou  para mim e disse: “Good Bye” e me empurrou na água. Acordei e já era noite.  A dor já tinha passado mas a imagem dela me empurrando na água não.  Minha consciência é ótima em me deixar para baixo às vezes. Uma vez, o  meu próprio sonho me deu uma lição de moral. Sonhei que um mendigo  vinha na rua e me pedia dinheiro para comer. Neguei solenemente e disse  para ele ir trabalhar. Segui andando até que escorreguei e cai num rio, mas  consegui me segurar na borda. Comecei a gritar por ajuda e então surge o  mendigo e me estende a mão, me tirando do rio. Acordei com a cabeça  pesada e pensei “porra, consciência”. Desde aquele dia, quando um mendigo  me pede algo na rua eu compro um salgado. Nunca se sabe quando você  pode cair no rio.        Resolvi não sair de casa, ao que meus amigos protestaram e disseram  que eu estava muito esquisito. “Parece um velho”, disseram. Mas eu não  estava para festa. Eu não conseguia pensar em uma maneira de tirar aquela  garota da minha cabeça. Aliás, eu nem queria tirá‐la da minha cabeça. Mas  sou frouxo demais para colocá‐la efetivamente na minha vida. Decidi então  ficar assistindo filme na sessão coruja. Começou a passar “o mercador de  Veneza”. Só podia ser sacanagem comigo. Depois do filme, comi um miojo e 


fui fazer algo que eu não lembrava mais como era fazer num sábado à noite.  Dormir antes de nascer o dia.        No Domingo acordei com o interfone tocando. Era a sindica para  avisar que o prédio estava sem água e que só consertariam à tarde.  “Obrigado por me acordar de manhã para avisar que estou sem água até a  tarde, que é quando costumo acordar”, pensei comigo. Mas já que estava  acordado, resolvi aproveitar o domingo.        Sempre me disseram que nos domingos pela manhã há uma rodinha  de choro numa praça perto da minha casa. Sempre quis ir ver, mas nunca  acordei cedo o suficiente no domingo para ver como era. Essa era minha  chance.        Cheguei lá e encontrei um pessoal tomando caldo de cana e comendo  pastel enquanto os músicos se preparavam. Realmente eram músicas bem  legais e a praça estava relativamente cheia. Pelo visto aquele grupinho já  estava ficando famoso na região e eu nunca vi porque perdia as manhãs  dormindo. Bem, perder não, porque adoro dormir. Mas aquela música, o  caldo de cana e o pastel alegraram mais a minha manhã. Me deu até vontade  de passar a acordar cedo, mas, bem, vou ficar só na vontade. Não dá para  mudar uma tradição de anos acordando tarde aos domingos por causa do  chorinho de alguém.       De tarde voltei para casa e fiquei basicamente fazendo a minha  especialidade: nada. Foi o bastante para me fazer pensar se aquela menina  pegaria aquele ônibus também nos finais de semana e eu estaria perdendo a  chance de vê‐la. Quem sabe um outro alguém sentou do lado dela e  conseguiu puxar assunto. Tarde demais para mim. Decidi que ficar sozinho  nos domingos é uma doença da sociedade moderna. É algo que não desejo  para ninguém. Abri uma garrafa de vinho cabernet e fiquei vendo tv até  pegar no sono.       Acordei atrasado, para variar, e voei para o trabalho. Mas decidi que  hoje algo ia mudar. Logo pela manhã falei com meu chefe se eu não poderia  começar a fazer hora extra ou mudar um pouco meu horário. Inventei que  eu estava precisando de um dinheiro a mais por um tempo, mas era só  motivo para eu poder pegar aquele ônibus. Ele fez um acordo comigo e ficou  resolvido que eu poderia sair na hora que eu pretendia. Era o primeiro passo  para o plano “diga oi para ela”.   Passei toda aquela semana o mesmo ônibus. Todos os dias ela estava  lá. Sempre lendo um guia diferente. Colônia na segunda, Montreal na terça,  Tokyo na quarta e Dublin na quinta. Já era sexta‐feira e eu não tinha  conseguido sequer contato visual com ela, que dirá um “oi”.           Eu deveria saber que aquilo era um desafio alto demais para mim.  Estava curioso para saber que guia ela estaria lendo hoje. Peguei o ônibus,  que estava mais cheio do que de costume e sentei do lado de uma senhora.  Chegamos ao ponto dela, a porta se abriu e ela entrou. Estava mais linda do  que qualquer dia que eu já tivesse visto. Será que iria para alguma festa  hoje? Ela passou a catraca, mas o lugar que ela sempre costuma sentar 


estava ocupado. Nesse momento, a senhora que estava sentada ao meu lado  se levantou para saltar do ônibus. Juro que se eu pudesse descrever minha  cara de desespero por aquela velhinha sair dali, naquele exato momento,  seria comparável ao de um goleiro baixinho esperando a definição do  atacante no pênalti, aos noventa minutos na final da copa do mundo. Ou seja,  eu estava tranquilo. Quase. Tá, nem um pouco.       Então ela veio em minha direção e dessa vez não tinha porta de saída  entre ela e eu. Sentou ao meu lado e eu suava cubos de gelo. Era essa a  minha chance. Se eu tinha algo para dizer era nesse momento. Que perfume  estonteante. Que lindos cabelos presos. Que linda nuca. E nada de contato  visual. Ela estava lendo o guia de Toronto. Devia ter prova sobre o Canadá  para ler dois “Canadás”em uma só semana. Fiquei pensando no que falar.  “Oi, eu ando te seguindo há uma semana. Quer sair comigo?”. Hm, acho que  não. Talvez deva comentar sobre o perfume dela. Devo perguntar sobre o  Canadá? Já sei, vou falar que já estive em Toronto. Não, ela vai me perguntar  coisas sobre a cidade e eu não sei nada de Toronto. Ela está lendo um guia  sobre Toronto, seu burro. Já sei, vou começar com um singelo “Oi” e seja o  que Deus quiser.       Abri a minha boca, respirei fundo e, na hora em que ia falar algo, um  vendedor entrou no ônibus: “Boa noite, senhoras e senhores. Desculpe  incomodar o silêncio da sua viagem…”. Desculpar? Seu animal, você acabou  de tirar a chance da minha vida com seus berros. Ela não esboçou nenhuma  reação e não tirou os olhos do guia como de costume. Porém, puxou os fones  do MP3 player e pôs‐se a ouvir música, provavelmente para abafar os sons  daquele monstro cruel e assassino de paixões que estava vendendo balas no  ônibus.        Lá se foi a minha chance. Agora não tinha como eu falar com ela, seria  bruto demais tentar chamar atenção com ela ouvindo música alta. Mas  descobri que ela gosta de Beatles. Eu consegui ouvir algumas faixas do  Revolver saindo dos fones. Chegou o ponto dela. Ela se levantou e partiu. Eu  fiquei. Dilacerado com um vendedor me estendendo a mão oferecendo uma  bala.        Levantei, soquei o vendedor, que caiu no corredor do ônibus. Peguei  todas aquelas balas e enfiei goela dele abaixo, com papel e tudo, dizendo:  “engole essa porra! Você atrapalhou o silêncio da minha viagem!”. –  Infelizmente o que a gente imagina fazer, nem sempre se deve. Me ative a  dizer: não, obrigado.      Ela desceu. Ela e Toronto. Quando eu estava já imaginando outro final  de semana sombrio em minha vida, algum ser divino olhou para mim e me  mandou outro anjo naquele ônibus celeste. O cobrador virou pra mim e  disse:     ‐ Não vai falar com ela?  ‐ Ahn?  ‐ Aquela menina, não vai falar com ela? 


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Ah. É… por que?  Você entrou nesse ônibus semana passada e desde que viu aquela  garota está pegando‐o todos os dias. Eu percebi que não tira os olhos  dela em nenhum momento.  Ah. É. Ela é bonita. Mas não sei.  Hahaha. Você jovens são muito devagar. – (Devagar é a tua mãe de  andador) ‐ pensei.  Eu não sei o que dizer.  Olha, eu te ajudo então. Escreve um bilhete para ela que eu entrego  quando ela passar aqui na segunda.   Um bilhete?  É. Escreve um telefone ou algo do tipo. 

Puta velho esperto. Sua mãe é uma velocista! Mas telefone é coisa da  sua época. Rapidamente puxei a caneta, a prancheta do cobrador e escrevi:    “Olá menina dos olhos de jabuticaba. Sempre te vejo por aqui mas nunca quis  interromper sua leitura tão concentrada – (Aham, continua acreditando nisso,  garoto) – Por favor, me dê uma chance de nos conhecermos. Meu msn é  adimiradorsecretodalinha2361@hotmail.com.     Até breve,    Seu admirador.”       Entreguei o bilhete para o cobrador que nem leu e pôs no bolso.  Levantei para saltar, dei um beijo no cobrador e desci do ônibus com a cara  de pateta mais pateta do mundo.      Eu simplesmente não vivi o final de semana que se passou. Criei a  conta de e‐mail que escrevi no papel e viajei o resto dos dias. Eu talvez  estivesse em marte, olhando as estrelas ou viajando o mundo. Toronto,  Montreal, Tokyo… Acordei tão cedo de ansiedade que cheguei mais cedo no  trabalho. Meu chefe perguntou se eu estava doente. Engraçadinho.        As horas não passavam. Será que eu deveria ter posto um telefone? E  se ela não tiver internet? Será que o cobrador vai lembrar de entregar o  papel? Será que ele ainda tem o papel? Será que ela vai amassar e jogar fora?  E essas horas que não passam?       Ansiedade é uma praga.       Chegado o derradeiro momento, saí da sex shop e fui para o ponto  mais cedo para ter certeza de que não perderia o ônibus. Entrei. Passei pelo  cobrador, que sorriu pra mim (espero que aquele beijo de felicidade não  tenha dado uma impressão errada). Sentei na última poltrona do ônibus e  esperei.       Esperei um ponto. Esperei dois pontos. Esperei três pontos. E ela  subiu. Meu coração começou a tocar um samba de tanto que batia. Ela deu 


boa noite para o cobrado e ele retribuiu. Sussurrou algo para ela e entregou  o papel. Ela parecia surpresa. Pegou o papel. Meus olhos se arregalaram. Ela  leu o papel. Deu um sorrisinho de canto da boca e colocou o papel em uma  das páginas do guia de viagens para Madri. Nunca amei tanto a Espanha.        O ônibus parecia flutuar aquele dia e após ela descer, quis que o  motorista acelerasse a 200Km/h para que eu chegasse rápido em casa. Na  hora de descer fiz um sinal de positivo para o cobrador, que piscou para  mim. Eu amo aquele cara.       Liguei o computador, abri o msn e esperei.       Esperei uma hora. Esperei duas horas. Esperei três horas. E nada de  ela me adicionar.        Eu sabia. Aquela risadinha no canto da boca disse tudo. “Que ridículo”,  ela deve ter pensado. Provavelmente não estava afim de algum babaca sem  coragem perto dela. Eu não quereria. Até que, de repente, não mais que de  repente, ela me adicionou.  Eu aceitei.            Abri a janela do msn.  Ela disse: Olá.       Eu disse: Hello!     

                       


Capítulo 3     Quem é você? 


Ela disse: Quem é você?  Eu disse: É… bem, eu pego o mesmo ônibus que você todo dia ‐ (aham… todo  dia).  Ela disse: E porque nunca foi falar comigo então?  Eu disse: Ah. Você parece tão compenetrada lendo. Eu nunca tive coragem  de atrapalhar. – (coragem é seu segundo nome, garoto).  Ela disse: Sei sei. – (acho que ela não engoliu essa).  Eu disse: Você faz turismo? Vi que está sempre com um guia de viagens  diferente.  Ela disse: Não. Eu só gosto de ler os guias.  Eu disse: ah. – (Putz, espero que ela não seja nenhuma maluca.)  Ela disse: O que você estuda?  Eu disse: Não estudo. Só trabalho. – (por favor, não pergunte! por favor, não  pergunte! por favor, não pergunte!)  Ela disse: Ah, tá. Trabalha em quê? – (merda, perguntou).  Eu disse: Sou vendedor.  Ela disse: Ah. – (claro, um vendedor. Tudo que ela sempre sonhou num  homem).  Ela disse: Bem, senhor vendedor, quer dizer que você acha que meus olhos  são como jabuticabas?  Eu disse: É. Eles são bem pretos.  Ela disse: Hahahaha. Minha mãe me chamava assim: Olhos de jabuticaba.  Eu disse: que coincidência. – (cacete! Acertei na mosca!)  Eu disse: E o que sua mãe faz?  Ela disse: Ela era médica. Morreu faz uns 5 anos.  Eu disse: Ah. Desculpe.  Ela disse: Tudo bem, não foi culpa sua :p  Eu disse: =)  Eu disse: então os guias são só hobby?  Ela disse: Mais ou menos. Eu gosto de imaginar as ruas, os lugares, etc.  Eu disse: Mas viaja muito?  Ela disse: Não. Pra dizer a verdade, nunca entrei em um aeroporto.  Eu disse: Nossa!  Ela disse: Pois é.  Eu disse: E você��trabalha com o que?  Ela disse: Eu sou tradutora de inglês. E, aliás, eu tenho que ir dormir.  Eu disse: Ah, tudo bem. Podemos nos falar outro dia então?  Ela disse: Fala comigo no ônibus.  Eu disse: Eu não pego o mesmo ônibus.  Ela disse: Ahn? Como não? Acabou de dizer que Pegava.  Eu disse: Não, não é isso! ‐ ( Seu burro, idiota, retardado!) ‐ É que esse  ônibus não é o que me deixa mais próximo da minha casa. Eu peguei ele um  dia e te vi lá, aí o cobrador disse que você pegava aquele ônibus todo dia e eu  comecei a pegar também. ‐ ( Pronto. Assinei o atestado de maluco) 


Ela disse: Uau. Bem, então tá. Vamos marcar de nos encontrar em outro  lugar.  Eu disse: Eu topo! Você gosta de chorinho?                                                                                     


Capitulo 4     Se melhorar, estraga. 


Você já sentiu como se estivesse num filme daqueles românticos,  como se tudo fosse perfeito e as pessoas felizes? Pois é. Esse era o meu filme.  Eu era o protagonista e ela a mocinha. Tá, mocinha não, porque ela ia odiar  ser chamada assim. Ela tem personalidade forte. Quando não gosta de uma  coisa fala, mas sem ser ríspida. Ela é perfeita para mim. Independente, mas  que gosta de ter companhia. Me contou da sua vida e eu contei da minha  para ela. Menos a parte de eu trabalhar numa sex shop. Não sei, tenho medo  do que ela iria pensar. Eu já sou esquisito demais sem vender consolo.          Continuei com o horário trocado para poder ir com ela de volta para  casa de ônibus, mesmo não sendo o meu ônibus. Ainda não transamos, mas  isso parece ser questão de tempo. Estamos nos curtindo e eu nunca senti  isso por outra pessoa antes. Eu era meio indiferente com todas as minhas  namoradas anteriores. Não que eu quisesse ser. Mas não me sentia apegado  o suficiente para ser algo além. Ela me contou da mãe dela, como as duas se  davam bem. Como a mãe ensinou tudo o que ela sabe. O Pai dela é uma  incógnita, tanto para mim quanto para ela. Ele saiu de casa quando ela era  ainda pequena. Ela trabalha traduzindo textos para uma editora. Não ganha  muito, mas não é pobre também. Mora no apartamento que a mãe deixou  para ela. Me fez até sentir saudade dos meus pais, que eu ainda não  apresentei. Mas pretendo. Duas semanas depois que a conheci foi  aniversário dela. Eu comprei o Guia dos Mochileiros da Galáxia. Ela deu  risada e adorou. Parece que podemos realmente ter algo sério e vou  encontrar com ela depois do trabalho para apresentá‐la aos meus amigos. Eu  considero isso um grande passo.    *Tiling ling ling    ‐ Desculpe, mas eu já estou de saída, o outro atendente vai vir falar com…    ‐ Oi.       Se alguém naquela loja tivesse uma máquina fotográfica eu gostaria que  tirasse uma foto desse momento só para eu ter registrada a minha cara.    ‐ Então é aqui que você trabalha?  ‐ Ah… eh… ah…  ‐ Hahahaha, você devia ver a sua cara agora.  ‐ Como… como você chegou aqui?  ‐ O que? Você acha que é o único que sabe seguir as pessoas? – ( Eu  adoro essa mulher)  ‐ Ah. Bem. É aqui que eu trabalho. Sim.  ‐ Nossa, que demais.  ‐ Você acha demais?  ‐ Claro. Deve ser muito bom ver a cara das pessoas comprando essas  coisas. Deve ser bem engraçado.  ‐ Pra falar a verdade é sim. 


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Trabalhar numa Sex Shop. Deve fazer sucesso entre as meninas na  noite.  Na verdade não.  E você já usou alguma dessas coisas?  Também não.  Nossa, que Caxias.  Hahahaha. Eu nunca tive oportunidade.  Sei sei.  Bem, eu já estou me preparando pra gente ir, ok?  Como assim? Já quer me levar assim? Facinha? Não vai nem um  jantarzinho antes? Um Vinhozinho?  Hahahaha. Bem, tem o barzinho com meus amigos antes. Não conta?  Conta. 

        Saímos e fomos para o meu bar preferido. Eu estava extremamente  aliviado por ela não ter dado nenhum chilique ou acabado tudo depois de  descobrir onde eu trabalhava. Na realidade, ela realmente gostou muito.         Apresentei ela para os meus amigos e todos a adoraram tanto quanto  eu. Eu nunca vi ninguém se dar tão bem com eles em tão pouco tempo. E,  depois da festa, eu finalmente usei algum dos produtos que vendia e que ela  comprou.       Enfim, tudo ia muito bem. Nosso sentimento crescia. Passeávamos  bastante. Ela continuava com a mania dos guias. Me contou que o seu guia  preferido era o de Nova York. Disse que sempre quis conhecer a cidade que  nunca dorme. Passear no central park, ver a estátua da liberdade, ouvir  algum jazz, subir no empire state. Coisa que todo turista tem que fazer  quando vai lá, suponho eu. Não sei, porque nunca fui e, bem, ela nunca fez  turismo. Prometi que um dia ia levá‐la lá. Mas ela disse que não. Tem medo  de avião e olha que ela nem em um aeroporto entrou. Eu disse então que a  levaria de navio e ela riu.      Após um mês saindo, resolvemos firmar compromisso, uma coisa que eu  sempre repudiei. Nunca fui de ficar preso a amarras e, pelo que me disse, ela  também não. Na verdade ela só teve dois namorados durante toda a vida. O  primeiro ainda na época da escola. Era um garoto mais velho que ela e o bam  bam bam da escola. O tipo que todas as meninas babavam, inclusive ela. Me  disse que foi o primeiro amor e a primeira transa. Mas depois, sem mais nem  menos, o garoto deu um pé na bunda dela – (aquele bastardo) – e ela chorou  durante algumas semanas. Demorou até a faculdade para conseguir se  relacionar com outro alguém, que foi o segundo namorado. Um estudante de  intercâmbio, alemão.        Sorte minha que o cara tinha data certa para voltar para a Alemanha e  a mãe dela ficou doente. Sei que é uma coisa horrível de se dizer, mas  fatalmente, não fosse isso, ela teria ido para a Alemanha com ele e eu estaria  bebendo vinho e dormindo com a TV ligada até hoje.  


Claro que nem tudo foram flores na vida dela. Me contou todos os  problemas, como na vez em que engravidou de um caso que teve mas não  quis ter filho. A mãe dela resolveu o problema e depois a pôs numa  psicóloga. Imagino não ser fácil tomar uma decisão dessas. Mas até hoje ela  diz não querer filhos. Nunca mais toquei no assunto.       Alternávamos entre passar um tempo na minha casa e passar um  tempo na casa dela. A levei para conhecer meus pais e finalmente pude ir  para casa sem que minha mãe tocasse no assunto do emprego. Acho que ela  estava tão feliz pelo filho ter finalmente arranjado alguém que gostasse, que  o resto não importava. É coisa de mãe isso de querer sempre ver seu filho  feliz, não importa como. Ficamos lá um final de semana inteiro. Meus pais  contavam histórias da minha infância que me constrangiam mas que, por um  vício terrível de bom humor, faziam‐na rir de quase rolar no chão ( e tenho  certeza que um dia ela vai usar essas histórias pra me deixar envergonhado.  Eu adoro essa mulher). Mamãe chorou na hora de irmos embora e até agora  eu não sei por quê.        Veio nosso primeiro mês de namoro e eu queria fazer uma surpresa  especial para ela. Arrumei tudo para levá‐la num lugar muito especial. Íamos  jantar num ótimo restaurante. Ela estava linda como aquela sexta no ônibus.  Fiz questão de vendá‐la no táxi, afinal, surpresa é surpresa. Paguei o táxi e a  conduzi ainda vendada, mesmo que a protestos, alguns passos adentro pela  calçada.         Pronta? Tirei a venda e… ta‐dá! Estávamos no saguão do aeroporto,  onde iríamos jantar no melhor restaurante de lá. Agora ela finalmente pode  dizer que esteve em um aeroporto.        A puxei pelo braço para entramos, mas ela puxou o braço de volta. “ O  que é isso?” ela me perguntou. Percebi pela cara dela que trazê‐la até o  aeroporto não tinha sido boa ideia. Talvez o medo dela de avião fosse maior  do que eu supunha. “Eu… eu queria fazer uma surpresa. Você disse que  nunca pisou num aeroporto”. E pela expressão dela, preferia continuar sem  ter pisado. Ela correu em direção a porta e eu tentei segura‐lá. Ela puxou o  braço e disse para deixá‐la ir. E mesmo com meus pedidos para que ficasse,  se foi num táxi.        Eu fiquei lá parado sem entender nada. Não era o aniversário de mês  que eu imaginei para nós. Peguei outro táxi e fui até o apartamento dela.  Toquei a campanhia por mais de meia hora até que uma vizinha veio  protestar por causa do barulho. Passei o resto da noite na porta do  apartamento dela esperando para quando ela chegasse ou saísse. Só que ela  não apareceu.       

 


Capítulo 5     Mais sombrio que   a escuridão. 


Já faz duas semanas desde que ela sumiu. Meu coração só não saiu  pela boca porque é fisiologicamente impossível, mas meu espírito já está  estraçalhado. Liguei milhões de vezes, bati bilhões de vezes na porta e já  peguei aquele ônibus vezes o suficiente por uma vida inteira. Ela pediu  dispensa do trabalho e simplesmente sumiu no mundo sem avisar. Se existe  alguma dor maior do que quando não se tem notícias, ainda estou para  conhecer. Mas deve ser fatal. Eu já não comia direito, não saia, sequer  limpava a casa (ok, isso eu já não fazia antes). Devo ter emagrecido mais  quilos dos que eu tinha quando a conheci. Era um vazio que não tinha fim.       Três semanas e eu já havia ligado para a polícia e ela passou a ser  considerada desaparecida. Fiz retrato falado, dei testemunho e eles  prometeram investigar. Claro, porque não há crimes o suficiente no mundo.  Não acreditei, mas tive esperança dos tolos. Se eu estivesse morrendo, essa  altura deveria ser a depressão. Talvez em mais uma vida eu aceitasse. Por  que? Por que você fugiu? Era só um aeroporto.    *Tiling Ling Ling       Quando a sineta da porta tocou, eu sabia que era algo diferente. Arregalei  meus olhos e não pude acreditar no que eu via.        ‐ Passa a grana. – Gritou um dos dois indivíduos mascarados que entrou na  loja. Quem em sã consciência iria entrar numa sex shop para roubar? O pior,  o que eles fariam quando descobrissem que ali não tinha nada além de pirus  de borracha e gel lubrificante?     ‐ Deita no chão. Cadê a grana, porra?  ‐ Só tem isso no caixa! Só tem isso no caixa!  ‐ Cadê o cofre?  ‐ Eu não sei de cofre nenhum!    Ele me chutou na cara e me fez cuspir um dente. O mais agitado seguia  gritando pelo dinheiro enquanto o outro rondava a loja atrás de algo.  Bateu nas paredes. Olhava atrás dos quadros, até que, atrás de um  quadro das brasileirinhas, estava um cofre que eu nunca soube haver  ali. Ter um dente arrancado a chute, não é também a dor mais  agradável de se sentir.          Ele abriu uma bolsa de couro, tirou uns equipamentos e, mais rápido  do que se diz “puta que o pariu, por favor, não me mate”, ele abriu o cofre e  tirou de lá várias notas de cem e cinquenta reais.       “Filho da puta” – Pensei comigo – “tinha todo esse dinheiro guardado  e vivia atrasando o meu salário. Merece ser roubado. Levem tudo. Os pintos  mais caros são os que vibram.”       Feita a limpa do lugar, os ladrões me amarraram e foram embora.  Passei meia‐hora com aquele sentimento de “caralho, eu quase morri” que 


vem depois de situações desse tipo. E só depois vi que minha camisa estava  toda suja de sangue. A dor já tinha se transformado em dormência e fiquei  com medo de que meus dentes nunca mais fossem os mesmos. Depois fiquei  pensando em como me desamarrar e chamar a polícia. Não foi preciso.  Depois de uma hora e meia (ah, polícia. És tão rápida e prestativa)  apareceram uns policiais para impedir o assalto. Obviamente, tudo que  fizeram foi me desamarrar e pegar meu testemunho do que ocorreu.  Fizeram umas anotações e começaram a “buscar evidências”. Liguei para o  chefe para relatar o ocorrido e ele logo estava lá me xingando por não ter  defendido a loja dele. Na próxima prometo atirar pirus de borracha nos  assaltantes e prendê‐los com algemas de pelúcia. – Pensei comigo. Ele então  fez o que qualquer patrão insastisfeito, filho da puta e no prejuízo faria. Me  demitiu.       Agora sim minha vida estava completa. A garota que eu estava  caidinho me deu um pé na bunda sem qualquer razão aparente e, de quebra,  perdi meu emprego fácil que pagava minhas contas. E de quebra ainda gastei  uma nota preta para reinplantar o meu dente arrancado. Me deem uma  garrafa de rum e um revólver que eu mesmo termino o serviço.        Resolvi então passar uns dias na casa dos meus pais. Por incrível que  pareça, não importa quão velho você seja, seus pais sempre farão você se  sentir em casa. Eles estavam radiantes em que o filho deles estivesse  precisando de sua ajuda e eles estavam lá para ajudar.         Um mês, e uma semana na casa dos meus pais, depois de tudo, resolvi  voltar para casa. Infelizmente a louça não lavável continuava lá. É o mal de  se morar sozinho. Era um mês sem notícias dela. Mas ela não poderia estar  de licença tanto tempo. Resolvi então voltar no trabalho dela. Descobri que  ela não estava morta (graças) mas não trabalhava mais lá. Tinha pedido  demissão e não disse pra onde ia. O que é pior do que se tivesse só pedido  licença eterna do trabalho, pois eu pelo menos saberia onde ela trabalha.  Enfim, tudo estava perdido para mim. Num ato desesperado, peguei o nosso  ônibus. O único ônibus. O último suspiro de um desejo que tudo voltasse a  ser como era.      O ônibus parou e eu entrei. Os últimos passos esperançosos. Por favor  esteja aí dentro. Não. Ela não estava. Mas, como eu já disse, nesse ônibus  tinha um anjo em forma de cobrador. Ele me viu e me chamou. Olhou nos  meus olhos e disse:    ‐ Sua menina esteve aqui há uma semana e me entregou esse bilhete.  Disse que é para você.       Eu peguei o papel sem acreditar. Apalpei. Deveria abrir? Será que era o  basta definitivo? Abri:       “Querido, me desculpe por tudo.   


Sei que você deve ter quase enlouquecido, mas eu juro que tive meus motivos  para sumir. Eu precisava. Agora já não preciso. Eu preciso de você, se você  ainda me quiser.    Te amo.”         Nesse momento eu fiz algo que eu não lembro a última vez que havia  feito. Talvez tenha sido quando um grandalhão do colégio derrubou meu  lanche. Naquele momento. Naquele ônibus cheio de gente. Em frente ao  cobrador. Com um pedaço de papel na mão, eu chorei como uma criança.        Ela finalmente tinha voltado para mim.                                                               

 


Capítulo 6     Verdades e mentiras 


O Domingo tinha acordado chuvoso. Talvez se preparando para o que  viria. Eu acordei cedo nesse dia, mas passei toda a manhã deitado na cama  de olhos abertos, olhando para o teto. Peguei o papel do cobrador e olhei  para o telefone que havia no verso. Eu não conhecia. Peguei o telefone e  comecei a discar sem saber o que eu faria. Ele começou a tocar. Eu  começaria a chorar? Começaria a xingá‐la por tudo que ela me fez passar? Eu  ficaria calado? Por que você…       ‐Alô?         Juro que o tempo parou. Eu juro.        Quem você pensa que é para fazer isso comigo? Abri minha boca para  falar, mas não consegui. Eu reconheceria aquela voz mesmo se estivesse no  sentido inverso da rotação do disco de vinil da Xuxa.   Ok, péssima comparação. O que importa é que ela também reconhecia  o meu silêncio.    ‐ Oi.  ‐ Como você está?  ‐ ... Como você acha que estou?  ‐ Querendo me matar, imagino.  ‐ Bem que você merecia.  ‐ Eu sei. Você ainda quer me ver? – (não, sua idiota. Te procurei até no  inferno para te ignorar.)  ‐ Quero.  ‐ Então pode vir.         Ela estava na casa de uma amiga que tinha viajado e deixado a chave  com ela. Tinha me dito isso, mas eu não sabia onde era, por isso não fui  procurar lá e nem pensei nisso. Cheguei por volta das 19h. Toquei o  interfone e veio a voz dela dizendo “entra” e apertando o botão da porta  elétrica. Subi três lances de escada do prédio sem elevador e fui até a porta.  Não precisei bater. Ela abriu. E ali estava ela. Bem ali. Eu a abracei e não sei  quanto tempo passamos abraçados. Talvez a vida inteira não fosse suficiente  para matar a saudade. Mas só iríamos descobrir no final dela.  Fechei a porta e limpei os pés sujos no tapete. Nunca gostei de chuva,  mas daquele dia não me importava. Ela estava ouvindo um vinil dos Beatles  e me ofereceu um café. Eu odeio café. Eu a amo.       ‐Por que você fugiu?     ‐ Eu tenho muito o que te contar. Eu não sou o que você pensa.         Nesse momento ela desviou o olhar e começou a me contar que  aqueles guias não eram para ela. Que dizer, eram, mas não são as ruas que  ela imaginava. Que dizer, eram, mas ela estava procurando por alguém. 


Imaginando alguém. O único alguém que lhe restara. Naqueles guias ela  imaginava.   Seu pai.    ‐ Ele saiu de casa quando eu tinha 17 anos.  ‐ E para onde ele foi?  ‐ Eu não sei.  ‐ Ah, claro.  ‐ Tudo que eu me lembro é dele e minha mãe brigando feio. A discussão  mais feia que eu já vi. Eu não sei porque discutiam. Ela disse alguma  coisa. Ele deu um tapa no rosto dela e disse que ia embora para nunca  mais voltar. E Foi. Pegou um táxi na porta de casa. Eu corri atrás dele  em outro táxi. Segui até o aeroporto. Ele entrou e eu tentei alcançá‐lo.  Mas o perdi no meio da multidão. Procurei por três horas e depois  desisti. Voltei para casa e mamãe tinha jogado todas as coisas dele fora.    Eu não sabia o que dizer a ela. Parecia algo tão irreal para mim. Ela  continuou:    Minha mãe disse que não o queria mais em casa, mas no fundo eu sei  que ela estava estraçalhada. Tentei lhe perguntar por que papai foi  embora e deixou tudo. Mas ela nunca me respondeu. Algum tempo  depois ela ficou doente. Tentava fingir que não, mas sei que ela sentia  algo a consumindo por dentro. Meu pai ter ido embora foi demais  para ela. Foi triste vê‐la definhando por cinco anos, até que ela perdeu  a vontade de viver e partiu. Depois que ela partiu eu que fiquei  destruída. Passei muito tempo presa em casa. Presa em mim. Não  tinha onde me segurar nem em quem me segurar. Eu precisava de  uma âncora para me manter no lugar. Um dia, passei por uma banca  de jornal e vi um guia de viagens se Budapeste. E comprei. Desde  então, eu compro guias de viagens imaginando em que lugar do  mundo meu pai deve estar. Em que rua ele moraria. Porque nunca me  procurou? Nesses dez anos, eu nunca mais cheguei perto do  aeroporto. Eu simplesmente não posso. Foi por isso que eu fugi aquele  dia. Você me levou para o lugar onde eu vi meu pai pela última vez  antes que ele fizesse minha mãe adoecer e morrer.  ‐ Me desculpe.  ‐ Tudo bem. Você não sabia. Eu nunca contei. Para ninguém.         Nesse momento eu perdoei tudo que ela tinha me feito passar no  ultimo mês e percebi como eu estava sendo idiota por sofrer daquele jeito  sem saber o sofrimento que eu tinha feito ela sentir. Se havia um sofrimento  maior do que eu senti naquele mês, quem sentiu foi ela. Eu a peguei nos  braços e levei para a cama. Dormimos o sono dos justos. O amanhã era mais  tranquilo do que eu poderia planejar. Nada mais precisava ser descoberto.  


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O que você faria se encontrasse seu pai um dia?  Não sei. Talvez o matasse. Quem sabe assim eu conseguisse esquecer  tudo isso. 

       Nesse dia eu descobri como remorso pode destruir um coração e  prometi a mim mesmo que nunca mais iria machucar o coração dela.  Ficamos lá, deitados ouvindo a música vir da vitrola. “Beatles era a banda  preferida dela”. Disse isso e adormeceu. O disco de vinil continuou a tocar  até o fim.                                                                       


Capítulo 7     Pro dia nascer feliz. 


Acordamos aquela manhã com o raio de sol entrando pela janela.  Parecia que tínhamos dormido e tido um pesadelo ruim. Mas agora, tudo  voltou ao normal e ainda melhor. Era segunda‐feira e nenhum de nós dois  precisava ir trabalhar, então passamos o dia todo na cama conversando  sobre o que aconteceu no mês que passou. Falei para ela do assalto, que fui  demitido e ela ficou com uma cara de chocada imaginando o perigo que eu  corri. Falei que fiquei um tempo com meus pais e que foi muito bom. Nós  reaproximamos e prometi ir visitá‐los mais vezes. Ela, depois do dia do  aeroporto, veio para esse apartamento e ficou trancada por uma semana.  Ligou para o serviço e pediu dispensa, que foi atendida, pois ela era uma  funcionária exemplar. Então, chegaram à conclusão que pra ela pedir  dispensa algo sério tinha acontecido. Ela passou os dias lendo e traduzindo  algumas coisas por fora e conhecendo a vizinhança. O Apartamento era num  bairro meio afastado do que costumávamos frequentar, mas não era ruim.        Quando ela “se recuperou”, foi me procurar, mas eu tinha sido  demitido e viajado pro interior. Ela então resolveu esperar para ver quando  eu voltaria e, por via das dúvidas, deixou um bilhete com o cobrador do  nosso ônibus. E pensar que tudo podia ter acabado mais cedo do que foi.  Mas tudo bem. Ninguém se feriu e estávamos juntos novamente. Era isso o  que importava.   Ela me contou que o dono da sex shop estava me procurando também.  Provavelmente estava me querendo de volta porque, afinal de contas, eu era  um bom funcionário, que conhecia bem o serviço e não reclamava muito. Sei  que ele me despediu de cabeça quente, mas eu não pretendia voltar. Estava  cansado e queria passar um tempo sem fazer nada. Ele teria que me pagar a  indenização por ter me demitido, então eu ia ganhar uma boa folga e há  sempre o seguro‐desemprego. Ela também não estava com muita pressa de  arrumar outro emprego. Podia se virar bem só como freelancer de tradução.  Sempre teve muitos contatos. Aquele sorriso conseguia arrancar um sim das  pessoas. Era mágico ver como ela fazia. Se tivesse escolhido ser diplomata,  terminaria guerras só com um sorriso.  Ficamos então os dias seguintes apenas nos curtindo. Tudo estava  melhor do que era anterior e, olhando para trás, me parece que todo aquele  sofrimento foi meio bobo. Dor de paixão, não sei. Mas preferia não pensar  nisso. Havia dias em que eu cozinhava para ela. Outros dias saíamos para  jantar. Hora um cachorro‐quente na esquina, hora num restaurante que  gostávamos. Nossos amigos vibraram a nossa volta do mundo dos mortos.  Eu tinha mais do que ela, mas os dela eram bastante unidos. Foram  momentos mágicos.        Eu consegui cumprir minha promessa de visitar mais meus pais e eles  adoravam quando ela ia comigo. Resolvemos passar uma semana com eles e  fomos muito bem recebidos. Mamãe fez tortas e mais tortas que eu cheguei a  temer pela boa forma da minha menina, mas ela come menos que um sabiá,  então eu não corria tanto risco assim. Já eu, devo ter engordado 20 quilos  nessas semanas. Papai estava cansado de ficar parado então entrou para as 


aulas de dança de salão que mamãe sempre quis. Queira ou não queira, eu  acho incrível como eles conseguem se dar bem e se amar mesmo depois de  tantos anos de casados, o que me fez pensar nos pais dela. Mas foi por pouco  tempo.   Eu não tinha porque tocar nesse assunto. Porém os meus pais não  sabiam disso. Durante um jantar minha mãe indagou quando iriam conhecer  os pais dela. Eu quase engasguei nesse momento temendo o que ela poderia  sentir. Talvez eu tivesse esquecido que ela lida com isso há anos, então sabe  muito bem como não se impressionar com esse tipo de pergunta. Porém,  nesse dia ela me surpreendeu. Disse que sua mãe tinha morrido e que seu  pai havia se mudado e perderam contato. Que ela o procurou mas não achou.  Estranhei a forma como ela disse, mas soa melhor do que ele tê‐la  abandonado ainda pequena. Deve ter dito isso para não trazer algum  momento triste para a mesa.  Naquela noite, enquanto minha mãe conversava com ela na cozinha,  meu pai me chamou para fumar um dos charutos que ele tanto gostava na  varanda. Me fez lembrar uma vez, quando criança, que roubei um de seus  charutos escondido e fui fumar no quintal. Quando ele chegou, puxou a cinta  e começou a me bater. Fiquei de castigo três semanas por causa daquele  charuto. Hoje ele me convida para fumar com ele. Engraçado como o tempo  muda as coisas.        Conversamos sobre as coisas triviais da vida. Falei do meu  relacionamento com ela. Ele disse que adorou a influência que ela tem em  mim e disse que mamãe estava muito feliz de eu finalmente ter saído da Sex  Shop. Me perguntou sobre os pais dela e eu disse o mesmo que ela havia dito  na mesa. Ele então disse que eu poderia falar com meu tio que trabalhava na  receita federal. Quem sabe ele não mexeria uns pauzinhos e me daria o  endereço dele. Eu disse que não. Não sei se seria bom para ela vê‐lo depois  de tanto tempo. Ele disse que isso é bobagem. Não existe pai que não sinta  falta do filho. Aquela frase me deixou triste e pensativo sobre todo o tempo  em que passei longe dele e de casa. Naquela noite eu o abracei como se eu  tivesse 11 anos novamente.     

         


Capítulo 8     Amor de pai. 


“Quando se chega ao ponto mais alto, o próximo lugar que se vai é  para baixo”. Essa frase estava grafitada no parapeito de um prédio próximo  de casa. Eu particularmente odeio grafite e essas coisas. Quando era  adolescente era muito mais rock´n´roll.        As coisas continuavam indo bem entre eu e ela. Dei entrada no  processo de seguro‐desemprego e já estava recebendo, mas meu ex‐chefe  ainda não tinha pago a indenização que eu tinha direito, apenas o último  salário. Ela começou a trabalhar em uma editora maior do que a anterior  traduzindo livros best‐seller e coisas assim. Eu nunca fui muito de ler,  sempre preferi a TV, mas desde que a conheci ela tem passado bastante  tempo desligada. Já os guias diminuíram a frequencia. Pelo menos ela  demora mais para comprar um ou outro. O último que adquiriu foi de Nova  York. Fiquei em dúvida se era por causa do pai dela ou se ela realmente  estava planejando ir para lá. Mas com o medo que ela tem de voar e o  problema com o aeroporto, preferi não perguntar.        “Tudo está bem quando termina bem”. Eu acho uma frase bem melhor  do que aquela que está grafitada no parapeito do prédio. Grafiteiros são  muito revoltados com a vida.        Naquela noite resolvi fazer um jantar especial para ela. Iria vir direto  do trabalho então eu tinha tempo suficiente para preparar tudo. Pus velas  pela casa toda, preparei um frango ao molho de mostarda que devia estar de  lamber os beiços. Era nosso aniversário de seis meses de namoro e eu queria  fazer algo bem especial para ela. Na verdade, estávamos nos dando tão bem  que o pensamento de irmos morar juntos ou até mesmo casar estava ficando  cada vez mais forte na minha cabeça. Nossa sintonia era a melhor possível.        Pus��Beatles para tocar. Abbey Road. O preferido dela. Eu aprendi a  amar Beatles depois que ela entrou na minha vida. Antes disso eu era mais  de ouvir Ramones ou coisa que o valha. Só depois que consegui entender a  profundidade das palavras saindo da boca do Paul, Ringo, John e George. Ela  sempre preferiu o Ringo. Eu sou mais John Lennon.        Ela demorou um pouco mais do que havia planejado. Ficou presa no  trabalho e o trânsito a essa hora da noite é sempre ruim. Nada que atrapalhe  a nossa noite. Pus o quarteto para tocar e servi o vinho. O frango não ficou  tão de lamber os beiços como eu esperava, mas ela gostou. Isso que importa.  Depois a noite foi só amores e carinhos sem ter fim enrolados num lençol  branco. Dormimos abraçados os nossos seis meses.       No meio da noite eu acordei. Vinho demais, a natureza chamou.  Aproveitei para desligar o som que tinha ficado ligado e recolher os pratos  da mesa. Voltei para a cama e fiquei vendo‐a dormir. Era como um anjo. Ela  sempre dormia como um anjo e é do tipo que fala dormindo. Mas é quase um  sussurro. Cheguei mais perto para ouvir o que ela falava.    “Papai”   


Incrível... será que ela sonha com ele todas as noites? O pai dela é tão  traumático que não a deixa descansar em paz nem quando dorme? Eu penso  que jamais vou saber o tamanho da dor que ela sente por ele ter ido embora.  Mas pensando bem. Ela não parece estar tendo um pesadelo. O que será que  sonha? Lembranças de quando era criança? De quando viver com o seu pai e  sua mãe era algo bom e feliz? Será que ela sente mais falta do pai do que o  odeia? Comecei a achar que, no fundo, ela sente falta de ter alguma família,  como eu tenho. Não havia percebido que eu sou sortudo nesse ponto por ter  os pais que eu tenho. Me senti egoísta até por tê‐los por tanto tempo e não  aproveitar todo o tempo. Lembrei das palavras que meu pai me disse  naquela noite: “Não existe pai que não sinta falta do filho”. Pensei que, assim  como quando ela foi embora eu poderia ter sofrido menos se as coisas não  tivessem se desencontrado tanto, ela poderia estar sofrendo mais do que  devia. Fazer ou não fazer? Não dormi o resto da noite pensando nisso.       Pela manhã, ela acordou e o café já estava na mesa. Estranhou eu ter  acordado cedo, mas eu não comentei nada. Tomamos café e ela foi trabalhar.  Eu resolvi dar uma olhada nos guias dela que ficaram lá aqui em casa. Ela  marca as ruas em que imagina que ele mora e faz uma pequena descrição:  “Casado e com dois filhos”, “Solteiro e com cachorro”. Aquilo estava me  atormentado. Resolvi então dar um crédito ao meu velho pai. Liguei para ele,  batemos um rápido papo sobre o dia a dia. Me contou que já estão no  módulo de tango na dança de salão. Achei engraçado imaginar os dois  dançando com meu pai tendo uma rosa vermelha na boca. Pedi então o  telefone do meu tio que trabalha na receita. Ele fez uma rápida consulta na  agenda de papel e me passou.       Esse meu tio não era de frequentar muito nossa casa porque mora em  outra cidade, mas quando vem sempre se dá bem como todo mundo, sei que  iria me ajudar. O telefone tocou até a ligação cair. Resolvi ligar a tarde. Mas,  enquanto o tempo passava me perguntei se aquilo não era um sinal para eu  deixar as coisas como estão. A indecisão é uma das coisas mais torturantes  que uma pessoa pode sentir. Logo eu, que sempre fui tão certo do que fazia.        Passado o almoço peguei o telefone novamente e disquei. Chamou  uma, duas, três vezes. Eu já estava por desligar quando meu tio atendeu do  outro lado da linha. Ficou muito feliz por falar comigo. Pusemos alguns anos  de papo em dia. Contei sobre como andam meus pais, ele me falou dos filhos  que estão na faculdade, a mais nova já está de namoradinho e ele está  economizando para construir uma casa na praia. Falei para ele do que eu  tinha feito ultimamente e falei do que acontecia, sobre o pai sumido, e pedi  ajuda. Ele disse que com o nome completo dele, não seria tão difícil achá‐lo,  desde que estivesse no Brasil, é claro. Eu dei o nome e ele disse que  retornaria a ligação quando tivesse alguma informação. Me despedi e ele  mandou lembranças para o meu pai. O velho é realmente gente boa.       O dia acabou e o meu tio não me retornou. Fiquei com vergonha de  ligar de novo e parecer um chato. Provavelmente ele deve ter tido muito  trabalho por lá e não pôde ver isso naquele momento. Mas se ele disse que ia 


retornar, eu acredito. Não encontrei com ela aquela noite. Disse que estava  cansada. Eu me senti um pouco vagabundo por ficar recebendo dinheiro do  governo enquanto ela ficava trabalhando até tarde. Resolvi então ir à casa de  uns amigos jogar cartas e passar uns tempos de papo de homem. É sempre  bom de vez em quando.       Na manhã seguinte acordei com o telefone tocando. Eu odeio ser  acordado de manhã. Mas já que acordei, vamos ver quem é. Era meu tio.  Tinha notícias. Eu fiquei ansioso para saber o que era possível. Ele disse que  encontrou duas pessoas com o mesmo nome que eu tinha dado. Uma  morava aqui na nossa cidade e outra numa cidade próxima. Me deu os  números de telefone e endereços. Eu agradeci e ele mandou mais  lembranças para o meu pai. Agora era só descobrir se algum deles era quem  deveria ser.       Resolvi ligar mais tarde. Eram 10h, mas pra mim isso é madrugar.  Depois do almoço retomei os números em mãos e resolvi tentar a sorte.  Liguei para o primeiro número e uma criança atendeu. Será que ela teria  acertado sobre os filhos? Perguntei se havia algum adulto em casa e ele foi  chamar a mãe – (ótimo, vou perguntar: Oi, seu marido é um fugitivo que  traumatizou a minha namorada para o resto da vida porque abandonou ela e  a ex‐esposa? Ah é? Ótimo. Tem como ele vir aqui?). “Alô?” Disse a voz  feminina no telefone. Eu disse que era da receita federal e que precisava  confirmar com ela um cadastro do nosso banco de dados. Perguntei se era  da casa dele, dei o endereço e o telefone. Ela confirmou. Eu disse que meu  número na Receita era 9.523, caso ela quisesse anotar ( e depois ligar e  descobrir que eu da receita só conheço o nome e meu tio). Perguntei quantas  pessoas viviam na casa. Três? Ok. E a quanto tempo você e seu marido são  casados? 25 anos? Ah, obrigado então. Desculpe incomodar.        Bem, a menos que ele pulasse a cerca com duas famílias e tivesse dois  casamentos de uma só vez, esse não era ele. Sobrou o outro, da cidade  vizinha. Disquei. Chama e chama. Porque esse pessoal não atende de  primeira? “Alô?” Era a voz de um homem, meio rouca. Perguntei se era quem  eu pensava ser. Ele disse que sim. Mas, após eu perguntar se ele era casado  com a mãe dela há dez anos ele simplesmente desligou na minha cara e não  atendeu mais. Foi a comprovação de que, enfim, eu tinha encontrado‐o.                       


Capítulo 9     A viagem ao passado.                                         


Agora que eu tinha o telefone e endereço dele, as dúvidas do que fazer  ou não fazer eram ainda maiores. Ele simplesmente desligou o telefone na  minha cara quando citei o nome de sua ex. Então ele não tem lá boas  lembranças dela. Mas também, não comentei que era namorado da filha  dele. Então ele não sabe que tenho ligação com ela. Eu não vou conseguir  mentir para ela sobre o paradeiro do pai, que eu encontrei. Então eu me meti  numa rua de mão única. Tinha que ir lá e conversar com ele.         Disse para ela que essa semana iria até a casa dos meus pais ajudá‐los  com uma reforma da casa. Como ela teria que trabalhar não poderia ir junto,  mas mandou milhares de beijos para os meus pais. Liguei para o meu pai e  disse que, teoricamente, eu estaria com ele. Ele concordou. Comprei então  uma passagem de ônibus e enfrentei quarto longas horas de tormento sobre  como falar com ele sobre a filha.        Desci na rodoviária e peguei um táxi até a rua de onde ele mora. É um  bairro residencial só de casas bem simples. Eu fiquei observando o número  da casa dele de perto. Não havia resquícios de haver alguma criança na casa.  Pelo menos nenhum brinquedo infantil. Ele deve trabalhar em casa, pois  atendeu o telefone dia de semana, mas não há carro nenhum na garagem.  Será que ele saiu?       Resolvi me arriscar e chegar perto da janela. Era uma casa bem  simples mesmo. Mas parecia confortável. Havia um porta‐retrato na sala  com a foto de um homem e uma mulher. O homem deve ser ele, mas quem  seria a mulher? Um novo casamento ou namorada?        Um dos vizinhos percebeu minha movimentação e ficou me  observando. É melhor eu falar com ele antes que pense que eu sou bandido.     ‐ Boa tarde.  ‐ Pois não? – ele me olhou desconfiado.  ‐ Estou procurando o dono da casa.  ‐ Você o conhece?  ‐ Mais ou menos. Faz dez anos que não o via, então estava na cidade e  resolvi visitar. Eu liguei mas ninguém atendeu. Aí agora vim  pessoalmente e vi que a casa está vazia.  ‐ É, ele deve ter ido ao centro buscar alguma coisa. Mas não vai demorar.  ‐ Entendo. Então eu acho que vou a algum lugar comer alguma coisa e  depois volto. Tem algum retaurante aqui perto?  ‐ Tem uma lanchonete no próximo quarteirão.  ‐ Ok, obrigado.         Bem, pelo menos nada de polícia me fazendo perguntas. Mas eu  realmente estava com fome. Fui então até a tal lanchonete. A comida não era  nenhuma maravilha, mas isso não era muito o que importava. Perguntei ao  atendente se ele conhecia quem eu procurava e ele disse que sim, ele sempre  vinha comer ali quando estava sozinho em casa. “Como assim, sozinho?”, 


perguntei. “É, quando a esposa dele está viajando a trabalho. Ele não sabe  cozinhar, então come aqui.”        Esposa, não é? Ok. As coisas se tornam mais delicadas agora. Voltei  até a casa e vi a luz acesa. Ele deve ter chegado. Fui até a entrada e comecei a  suar frio. Eu nunca lidei muito bem com momentos tensos desse tipo. Toquei  a campanhia e rezei para que ele não batesse a porta na minha cara. Só que  não foi ele que atendeu. Era a mulher da foto. A esposa.     ‐ Pois não? – perguntou.   ‐ Estou procurando o seu marido.   ‐ Ele não está. Do que se trata?   ‐ Ah, eu sou um velho amigo.  ‐ Ah. Ele não deve demorar a voltar. Entre por favor, pode esperar no  sofá.          Entrei e fiquei rezando para que aquilo não acabasse mal. Eu tinha um  mau pressentimento sobre tudo. Na verdade, comecei a me perguntar o que  eu estava fazendo ali. Quinze minutos depois um carro estacionou na  garagem e minhas pernas começaram a tremer mais que vara verde. Ele  entrou pela porta e a sua esposa disse: “Querido, você tem visita”. Ele olhou  pra mim com uma cara de poucos amigos e perguntou “quem é você?”. “Eu  sou namorado da sua filha” – Falei esperando que ele não chamasse a polícia  ou que viesse parar cima de mim com um machado.        No lugar disso, houve um silêncio momentâneo. “Filha?” disse  surpresa a esposa dele. “que história é essa de filha?”. Merda, parece que ela  não sabia. “Depois eu explico, amor”, “Depois uma ova, pode ir explicando  agora que história é essa de filha!” – (nossa, que geniosa. Tem certeza que  não é ela a mãe?).     ‐ Como ela está?  ‐ Be… bem. Acho… que ela sente falta do senhor.  ‐ Que história é essa de filha?  ‐ Eu fui casado, antes de conhecer você e tive uma filha.  ‐ E por que nunca me falou dela?  ‐ Porque não quis. – ( que delicadeza.)  ‐ Eu… acho que o senhor deveria procurá‐la. Você é o único parente vivo  dela.  ‐ Como assim? O que aconteceu com a mãe dela?  ‐ Ela faleceu há cinco anos.    Fez‐se novo silêncio. O olhar do casal era de confusão. Ela por não  saber do que se trata, ele por não saber o que pensar. Até que disse:        ‐  Desculpe, mas não posso ir vê‐la.     ‐  Por favor, senhor. 


‐  Peço que retire‐se da minha casa.     ‐   Tudo bem. Mas vou deixar aqui o meu endereço e telefone, caso mude de  ideia.         Deixei um papel com meu nome, endereço e telefone e parti. Não sei  exatamente o que eu tinha feito. Mas sei que, o que estava feito, estava feito.                                                                         

 


Capítulo 10     O topo. 


Duas semanas tinham se passado desde a viagem até o pai dela. Ela  percebeu que eu estava diferente e me perguntava constantemente se estava  tudo bem. Eu sou um péssimo mentiroso. Pelo menos para ela. Estava  pensado se, enfim, tudo que podia ser feito já não havia sido feito. O pai dela  sabia onde encontrá‐la se um dia resolve ver como a filha está. Talvez meu  velho não estivesse tão certo assim. Eu achei um pai que não gostaria de ver  a filha. Nem todos são perfeitos como o senhor, pai.       Aquela semana eu estava me preparando emocionalmente para  finalmente procurar um emprego. Não dá para mamar das tetas do governo  para sempre. Então em mandava alguns currículos de dia e de noite ficava  com a minha musa. Eu estava pleno e feliz e sei que ela também estava. Mas  o fato de eu ter ido falar com o pai dela ainda me incomodava. Então, nessa  noite, eu fiz o que deveria ter feito há muito tempo.    ‐ Amor.  ‐ Ahn.  ‐ Tá dormindo?  ‐ Tô.  ‐ Então acorda. Tenho uma coisa importante para falar.  ‐ Ai, não me assusta assim.  ‐ É que eu estava pensando em uma coisa.  ‐ O que?  ‐ Você me ama?  ‐ Claro que eu te amo. Que pergunta.  ‐ Mas me ama quanto?  ‐ Tanto quanto você.  ‐ E você sabe o quanto eu te amo?  ‐ Claro que sei.  ‐ E quer que eu te ame assim pra vida toda?  ‐ Quero.  ‐ A vida inteira?  ‐ Claro, ué. Por… por que você tá falando essas coisas?  ‐ Estava pensando... Você quer casar comigo?         Os olhos dela se encheram de lágrimas. E ela abriu o sorriso mais  lindo que eu já pude presenciar alguém abrir. E com lágrimas nos olhos ela  me disse “sim”.       Na manhã seguinte eu saí para comprar as nossas alianças e me senti  como se, finalmente, minha vida tivesse um rumo que eu quisesse seguir.  Não que eu não gostasse da vida que eu tinha antes. Mas essa, era muito  melhor. Depois de escolher uma aliança que coubesse no meu orçamento  apertado, percebi que eu precisava aumentá‐lo e fui até a sex shop pegar o  meu dinheiro. Encontrei com meu ex‐chefe que realmente sentiu minha falta  como empregado e queria que eu voltasse. Mas eu já tinha decidido que  poderia arrumar coisa melhor. Agradeci por tudo que ele fez por mim, 


convidei‐o para o casamento e fui embora com a promessa dele que até o fim  da semana minha indenização estaria na conta. Na volta para casa peguei o  nosso ônibus e falei sobre o acontecimento para o nosso cobrador preferido  que ficou muito feliz. Convidei ele e o motorista para o casamento.       No final de semana seguinte preparamos a surpresa para os meus  pais. Chegamos meio de surpresa. Minha mãe estava preparando o jantar e  meu pai tentava consertar um ventilador quebrado. Anunciamos durante o  almoço na mesa de jantar. Fazia tempo que eu não via minha mãe chorar de  alegria. Meu pai abriu o melhor vinho que guarda para ocasiões festivas e,  bem, não há festa maior do que o noivado do seu filho único.  Ela começou a  ligar para todos os conhecidos da região que logo foram chegando em casa e  dando as felicitações. Alguns traziam comida, meu pai comprou alguns  salgados e cerveja no mercado e naquela tarde improvisamos uma festa de  noivado. Todos estavam muito felizes. Principalmente eu.        Na manhã seguinte, acordei cedo com o cheiro de café da minha mãe.  Deixei ela dormindo mais um pouco e desci para fazer companhia aos meus  pais. Mamãe me deu um beijo e já foi me servindo enquanto papai estava  lendo as notícias do dia. Desde que eu me lembro, meu pai todo dia pela  manhã lê as cinco primeiras páginas do jornal e não mais que isso. “se é  importante eles põe no começo. O resto é enrolação para parecer maior”,  dizia ele.  Mamãe foi arrumar algumas coisas da festa improvisada que ainda  ficaram por fazer na sala e eu comecei a conversar com meu pai sobre tudo.  Inclusive que fui até a casa do pai dela e como ele estava errado sobre o  amor paterno. “O amor nunca se engana, meu filho”. Onde esse velho  aprende essas frases tão sábias?       Partimos ao final da tarde para chegar ainda de dia em casa. Mamãe e  papai já se prontificaram a ajeitar tudo para o nosso casamento e eu não  recusei. Ela estava mais linda do que nunca. Quando voltamos, resolvi passar  no shopping para mandar gravar nossos nomes nas alianças. É uma coisa  que eu nunca pensei que faria, mas lá estava eu. Engraçado como o tempo  muda as pessoas.       Tudo estava indo perfeitamente. Com o dinheiro da indenização eu  teria uma sobrevida maior e mais tranquilidade para procurar outro  emprego. Enquanto isso poderia ajustar tudo para o casamento com meus  pais. Na volta para casa resolvi passar na pracinha do caldo de cana onde eu  e ela tivemos o primeiro encontro. Não havia chorinho, mas a barraquinha  está sempre lá. Quando chegava em casa, li novamente o grafite da parede  “Quando se chega ao ponto mais alto, o próximo lugar que se vai é para  baixo”. Me neguei novamente a concordar com essa frase. Se alguém chega  no topo ela pode muito bem se manter lá até o fim. Mas na vida a gente  descobre que o topo é lugar muito frágil. Basta vir a primeira tempestade  que ocorre um deslizamento de terra.        Quando eu voltei para casa. Encontrei ela, com a porta aberta,  olhando para seu pai.        A tempestade chegou. E eu estava no olho. 


Capítulo 11     Feridas abertas. 


Acho que aquele silêncio durou apenas alguns minutos, na verdade  não sei há quanto tempo eles estavam lá, mas pra mim, pareceu uma  eternidade. O pior é que eu não sabia como agir. Iria cumprimentá‐lo e  revelar para ela que fui eu que o procurei? Ficaria calado esperando para ver  o que diriam? Iria embora e deixaria os dois se entenderem? Resolvi ficar  para caso ela precisasse de mim. O problema entre os dois não foi uma  simples briguinha de família. Dez anos é muito tempo para se remoer.    ‐ O que… o que você está fazendo aqui? – perguntou ela.  ‐ Estava procurando por você. ‐ (Por favor, não pergunte. Por favor, não  pergunte. Por favor, não pergunte…)  ‐ E como você me achou? – (Merda, perguntou).  ‐ Seu namorado foi me procurar.         Nesse momento ela soltou um olhar para mim que parecia que a  qualquer momento ela iria sacar uma espada e me cortar em cubinhos. Ali  eu percebi que eu tinha feito algum muito ruim para ela e que,  definitivamente, ela não queria estar ali, naquela situação. E o pior, uma  situação que eu criei.     ‐ Por favor, vá embora. – Ela disse de forma seca.  ‐ Eu posso entrar?  ‐ Não.  ‐ Por favor, eu preciso falar com você.  ‐ Ah. Agora você precisa falar comigo? Depois de todos esses anos que  você passou escondido e fugindo da sua família, agora, depois de todo o  estrago que você já fez, você quer conversar?          Eu estava começando a temer aquela situação. Ela ficava cada vez  mais alterada em ter aquela pessoa ali. E cada vez mais eu me arrependia.  Ela simplesmente não deixava ele falar. Talvez eu tivesse aberto a caixa de  pandora e só ia para de cuspir coisas quando a catarse estivesse completa.    ‐ Você não sabe o mal que fez para mim e para a mãe. Você não viu ela  adoecer de desgosto porque você foi embora. Ela morreu de desgosto.  Por sua culpa. SUA!  ‐ Escuta filha…  ‐ Não me chama de filha! – (ouch. Nunca tinha visto ela tão cruel)  ‐ Tudo bem. Mas você precisa saber da verdade. Sua mãe não morreu de  desgosto. Ela provavemente estava sentindo culpa.  ‐ Culpa do quê? De ter sido uma ótima mãe?  ‐ Não! De ter traído a confiança de quem mais a amava!           Nesse  momento  ela  parou  de  falar.  Tinha  lágrimas  querendo  saltar  dos olhos vermelhos de raiva. Aliás, ela toda estava enrubescida. Seus olhos 


transbordavam  ódio  e  ela  estava  ofegante.  Eu  não  sei  quem  era  aquela  pessoa, mas  já  não  era  mais  a  minha  namorada. Talvez  aquela  fosse  ela  há  dez  anos.  Pelo  olhar,  pensava  algo  com  mais  gravidade  que  o  habitual.  Ela  entrou,  mas  deixou  a  porta  aberta.  Eu  entrei  e  o  pai  dela  entrou  logo  em  seguida. Eu fechei a porta.    ‐ Quem disse que você podia entrar?  ‐ Amor, não quer nem ouvir o que ele tem a dizer?  ‐ Você cale a boca. Já meteu a colher demais nessa história. – Nesse  momento eu gelei. Ela nunca tinha falado comigo daquele jeito. Aliás,  eu nunca tinha visto ela falar daquele jeito.  ‐ Você não conheceu sua mãe o suficiente.  ‐ Quem é você para falar algo dela?  ‐ EU SOU O HOMEM QUE AMOU A SUA MÂE.         O grito que ele deu foi tão alto que eu só pude pensar nos vizinhos  ouvindo tudo o que se dizia. Ela ficou mais enfurecida ainda com as últimas  palavras dele e então não pararam de gritar um com um outro.    ‐ Amou o suficiente para matá‐la de desgosto não é mesmo?  ‐ Sua mãe escolheu o caminho que queria seguir. Eu fui embora por  causa dela.  ‐ Sim, eu me lembro! Você sequer estava em casa para vê‐la. Nunca  esteve, alias.  ‐ Você sabe que meu trabalho tomava uma parte importante do meu  tempo.  ‐ Sim, tanto que resolveu ir embora de vez.  ‐ Eu amei sua mãe todos os anos que estivemos juntos. Mais do que você  poderia imaginar.  ‐ Mentiroso!  ‐ Foi ela que pediu. Foi ela que colheu isso.  ‐ Não ouse falar dela! Ela não pode se defender agora do que você diz.  ‐ Mass você precisa saber…  ‐ Cale a boca!  ‐ Escute filha, a sua mãe…  ‐ Não me chame de filha.  ‐ … ela tinha…  ‐ Cale a boca!  ‐ Um amante.         Nesse momento os dois pararam de gritar. E ficaram se olhando. Dava  para ver que os pensamentos na cabeça dela voavam na velocidade da luz.    ‐ Quero que você saiba, que eu te amo.  ‐ Não ouse falar isso. 


Mas você não é minha filha. 

       Essa foi a deixa para que o coração de todos naquela sala se apertasse.  No final, tudo enfim estava claro.        Aquele casamento era uma mentira todo o tempo. A mãe dela sequer  contara a verdade pra ela e o pai provavelmente só descobriu 17 anos  depois. Talvez ela o traísse até mais. Ele deixou aquele castelo de areia que  uma maré derrubou e aí, talvez, a mãe dela tivesse percebido que ele era  muito mais importante para ela do que imaginara e nunca se perdoou pelo  que fez. Olhar para filha dela, talvez a lembrasse todos os dias do que tinha  feito.        Eu me perguntava porquê? E tenho certeza que ele tentava se  perguntar isso também. Fiquei imaginando se a discussão entre os pais dela  tinha sido daquele nível que eu estava presenciando. Se depois havia  sobrado algum pedaço inteiro. E comecei a me preocupar se sobraria agora  também. Na verdade, eu estava morrendo por dentro.  Talvez certas coisas  não devessem ser vasculhadas.    ‐ É mentira.  ‐ Eu queria que fosse, querida.  ‐ Não me chame de querida.  ‐ Eu não posso. Eu criei você. Eu vi você crescer.  ‐ É e depois foi embora sem mais nem menos. Nunca me procurou.  Nunca quis saber como eu estava.  ‐ Eu não podia.  ‐ Não me venha com essa!  ‐ Eu estava estraçalhado demais. Você não imagina como é ter os sonhos  destruídos de uma hora para outra. Saber como tudo o que você  sempre quis era um mentira.  ‐ Estou sabendo agora.  ‐ Me desculpe minha filha.   ‐ Eu não sou sua filha. – ( Pelo visto, ela sabia ser cruel quando queria).  ‐ Você sempre vai ser minha filha.  ‐ Mas mesmo assim você nunca voltou para mim.  ‐ Eu não aguentaria olhar no seu rosto. Você é a cara da sua mãe.         Eu juro que, se eu pudesse descrever com clareza o ar que rondava  aquela sala, naquele momento, eu demoraria meia vida. Mas basta dizer que  o que houve depois não era esperado por ninguém, muito menos por mim.  Ela levantou a cabeça, olhou no fundo dos olhos do seu pai e lhe deu um tapa  que acertou talvez até sua alma e disse:       ‐  Eu queria que você tivesse morrido.   


Esse foi provavelmente o ponto final mais indescritível que eu já  presenciei. Eu nunca imaginei a intensidade daquela relação que ela tinha  com o pai. Todos os anos lendo guias e imaginando talvez esse momento.  Talvez outro momento qualquer. Ela pegou a bolsa e foi em direção a porta.  ”Espere!”, eu disse. Ela olhou para mim e eu sabia que talvez ela nunca fosse  me perdoar por aquilo. Era eu o causador daquilo tudo. No final, eu abri a  porta que não devia ser aberta. Eu que fiz a máquina do tempo que levou  todos para 10 anos no passado. E eu que havia prometido nunca mais  machucá‐la, abri a pior das suas feridas. Ela saiu e bateu a porta. Eu corri  atrás dela, mas ela me empurrou e disse que nunca mais a procurasse. “Você  foi um erro”, disse. “Fique com suas noites e eu fico com as minhas.” E  entrou num táxi. Partiu sem que eu pudesse fazer nada. Ou talvez, eu já  tivesse feito demais.                                                                 


Capítulo 12     De Profundis Clamavi. 


O pai dela foi embora com um brilho opaco nos olhos que  denunciavam que talvez não restasse mais alma naquele corpo pelo resto da  sua vida. Já o brilho nos olho dela quando entrou no táxi parecia um poço  sem fundo. Aqueles olhos negros pareciam ainda mais profundos. Eu fiquei o  final da tarde em casa, deitado no sofá tentando entender o que aconteceu  ou que eu poderia fazer. O que iria acontecer dali para frente. Na mesa de  centro jaziam duas alianças com nossos nomes gravados. O sol estava se  pondo e eu não conseguia entender, nem pensar. Como eu iria consertar  aquilo. O que ela estaria fazendo agora? Como eu poderia encontrá‐la.  Novamente ela sumiu da minha vida. Mas dessa vez eu não pretendia chorar  pelos cantos. Eu tinha que arrumar uma maneira de fazer tudo voltar a ser  como era.        A noite, enfim, chegou. Aquele era provavelmente o momento mais  importante da minha vida e eu não sabia o que fazer para passar por ele. Eu  havia ferrado tudo novamente e dessa vez não foi involuntário. Eu sabia que  estava cutucando um vespeiro. Eu devia saber que algumas feridas nunca  deveriam ser cutucadas. Peguei alguns dos guias dela. Roma, Johanesburgo,  Lima, Córdoba, Nova Orleans… Nova York. Ah, a cidade que não dorme. A  cidade que ela sempre quis conhecer. Podíamos ter vivido boas noitadas lá.  Por que não podemos mais? Folheando o guia vi cair de dentro um pedaço  de papel cartão. Peguei e nele estava um bilhetinho escrito a letra de “That  means a lot” dos beatles.        Foi aí que eu percebi o que estava acontecendo.       Saí correndo em disparada noite adentro em direção ao apartamento  dela. Chamei o primeiro táxi que encontrei na rua e dei 50 reais a mais para  ele ir o mais rápido que pudesse. Eu tinha que chegar lá a tempo. Nas mãos  eu levava o guia de Nova York e o pedaço de cartão. Como eu pudesse ser tão  estúpido. Como eu não percebi isso antes? “O que eu fiz? Meu Deus, o que eu  fiz?”            “Love can be deep inside,  love can be suicide.  Can't you see you can't hide  what you feel when it's real    Can't you see? yeah.”         Merda, como eu não percebi isso antes? Como eu fui tão idiota? “Fique  com suas noites e eu fico com as minhas”. Ela não precisa dos dias. Aos dias  o mundo está acontecendo.          “Morrer de dia implica dizer que alguém vai te ver morrer. Então fica  aqui meu conselho. Morram a noite, por favor.”    


Vai mais rápido taxista. Mais rápido! Mais rápido! Mais rápido!  Chegamos e eu não sei quanto de dinheiro eu dei para o taxista. Zuni escada  acima até o terceiro andar e comecei a esmurrar sua porta. “Abra! Vamos.  Abra. Por favor!” e cada vez batia mais forte. Logo todos os vizinhos estavam  com as cabeças para o corredor, tentando entender o que se passava. Eu me  afastei da porta e comecei a chutá‐la. Mais forte! MAIS FORTE! E a porta  finalmente abriu. Gritei pelo nome dela. Mas ela não respondeu. Olhei na  sala, cozinha, quarto e vi a luz do banheiro acesa e som do chuveiro ligado.  Soquei a porta gritando pelo nome dela. Mas não ouvia resposta. Era apenas  a luz acesa e o som do chuveiro ligado. Resolvi então arrombar essa porta  também. Um chute. Dois chutes. Três chutes. Vamos! Vamos! Vamos!       Enfim a porta cedeu. E lá estava ela. Deitada no box, com o chuveiro  ligado e comprimidos por todos os lados. “Acorde!Por Favor, acorde!” eu  gritava enquanto tentava reanimá‐la. Corri para a sala e peguei o telefone.  “por favor, alguém me ajude. POR FAVOR!”.                                                             


Capítulo 13     O fim. 


Será que um dia vou me recuperar? Será que um dia voltarei a ser o  que eu era? Eu não conseguia parar de pensar em como tudo pode mudar de  repente. Desde o dia em que a vi naquele ônibus, até o dia em que a  encontrei naquele banheiro, muita coisa mudou. Eu mudei, meus pais  mudaram, ela mudou e, de certa forma, acho que o pai dela também mudou.  Então é isso que a vida é? Uma constante mudança? É para isso que  vivemos? Para ficarmos em eterna mutação tentando fazer algo para ser  feliz? O mais horrível é saber que basta apenas um dia. Um único dia, para  que toda a sua vida mude. Para melhor. Para pior. Não sei, mas ela muda.        Fazia já duas semanas desde que ela veio para o hospital. Eu não saí  de perto dela nem um dia. Ela passou uma semana na UTI, sofreu um  extenso processo de desintoxicação e agora está em observação. Eu nunca  fui muito religioso. Na verdade nunca acreditei realmente em Deus. Ou pior,  nunca parei para pensar se ele realmente existia. Mas se havia um Deus, por  favor, era agora que ele deveria agir.       Meu pais vieram para a cidade me dar apoio. Ficavam no meu  apartamento e traziam coisas para mim. Eu não arredaria o pé daquele  hospital por nada nesse mundo. Se é lá que ela vai passar o resto da vida, é lá  que eu também passarei a minha. Eu já a perdi duas vezes. Não aguentaria  perder a terceira.       Passei dias, tardes e noites naquele quarto. Já conhecia cada canto,  cada ladrilho e azulejo.  Os médicos e enfermeiras diziam para eu ir para  casa descansar. Caso houvesse alguma mudança eles me informariam. Eu  não ouvia uma palavra do que eles diziam. Eu só pensava no momento em  que ela acordasse.        Na semana seguinte minha mãe veio ficar comigo no hospital e papai  voltou para casa. Minha mãe era provavelmente a pessoa mais incrível do  mundo. Ela, em apenas alguns minutos, já tinha feito amizade com meio  hospital. Já conhecia as enfermeiras e médicos pelo nome e ainda por cima  conseguia cuidar de mim. Eu não consigo imaginar como será quando ela  partir. Talvez nesse dia eu entenda como minha namorada se sentiu nos  últimos cinco anos. Ou talvez nunca entenda.       Eu estava dormindo no colo dela quando fui acordado subitamente.  “Querido, acorde! Ela está se mexendo”. Eu saltei num pulo só para o lado da  cama dela onde uma enfermeira media sua pulsação. Ela abriu rapidamente  os olhos. Aqueles mesmo olhos cor de jabuticaba que me fizeram apaixonar.  Eu chorava como um bebê e não consegui parar um segundo sequer. Após  uma rápida olhada no quarto ela voltou a dormir.        Enfim meu coração já podia bater tranquilamente. Ela estava bem.  Minha única preocupação era com o que ia acontecer depois. Esses dias  foram talvez os mais difíceis da minha vida e torço para que eles nunca mais  se repitam. Dois dias depois ela abriu os olhos de novo. Dessa vez estava  mais consciente. Perguntou onde estava e me reconheceu facilmente. Não  sei se ela lembrava de tudo. Mas também não quis perguntar. Preferi deixá‐ la em paz.  


A noite, eu estava meio desconfortável no sofá. Minha coluna já era  sombra do que foi um dia e só estava ali há três semanas. Quando abri os  olhos a vi sentada na cama do quarto, no escuro. Eu levantei rapidamente e  perguntei se estava tudo bem, mas ela não me respondeu. Ficamos em  silêncio por uns instantes. Imaginei que ela devia estar pensando ou  tentando lembrar do que aconteceu. Bem, eu que não iria contar em  detalhes. Já aprendi a não mexer com o que não se deve.    ‐ Foi você que me encontrou no banheiro?  ‐ Sim.  ‐ E por que você foi lá?  ‐ Suspeitei que você faria alguma coisa.  ‐ Suspeitou?  ‐ É. Não sei. Os sinais, acho. Alguma coisa me dizia que eu devia ir te ver.  ‐ Sei.      Ele pensou mais um pouco.    ‐ Você está se sentindo bem?  ‐ Estou.  ‐ Que bom. Eu pensei que…  ‐ Há quanto tempo estou aqui? – Ela me perguntou sem que eu  terminasse frase.  ‐ Há quase 3 semanas.  ‐ E você ficou aqui o tempo todo?  ‐ Sim.         Ela voltou a fica pensativa e deitou na cama. Voltou a dormir. Eu não  consegui. Fiquei olhando para o teto e ouvindo os barulhos do hospital.  Nunca tinha percebido como hospitais são barulhentos durante a noite.  Eu  odeio ficar sem conseguir dormir porque se pensa muito na vida e pensar na  vida é muito perigoso. Eu comecei a pensar em como a minha vida antes dela  era mais tranquila. Eu tinha o meu trabalho. Curtia as minhas festas. Não  tinha muita responsabilidade com ninguém. Mas depois que ela chegou eu  mergulhei numa euforia imensa. Mas, desde então, vivi em uma montanha‐ russa. Cheguei a conclusão que se eu não a amasse tanto, não teria feito nada  do que fiz. Fiquei provavelmente uma ou duas horas de olhos abertos  pensando em tudo e torcendo para o sono voltar.  Foi quando ela disse:    ‐ Tá acordado?  ‐ Tô. – Pelo visto ela também não conseguiu dormir.  ‐ Eu estava pensando. Passamos por muita coisa juntos. E você é muito  especial para mim.  ‐ Você também. 


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Mas… ‐ (droga, eu odeio um “mas”) … o que você fez. Não sei se eu vou  esquecer.   Eu sei. Me desculpe.  E você foi me salvar.  Eu não podia perder você. De novo.  Você me conhece muito bem, para ter percebido o que eu ia fazer.  Eles falaram que vão colocar você com o apoio de um psicólogo. Talvez  possa te ajudar.  Não. Eu já estou bem agora. Eu não penso em fazer isso de novo. –  (essas palavras soaram como “parabéns, você ganhou um milhão de  reais”, para mim).  Fico feliz em ouvir isso.  Mas eu quero que você vá embora. – ( Ok, isso eu não fico feliz em  ouvir).  Embora? Por que?  Porque eu não sou mais quem eu era. Eu estou com um buraco, um  vazio, dentro de mim. Aqueles guias já não têm mais utilidade. Acho  que minha vida era mais fácil antes de você.  E se eu não quiser ir?  Não é uma opção. Eu não te quero mais.  Mas eu te amo.  Eu também. Por isso quero que você vá. 

        Como pode ser cruel ouvir saírem palavras tão cortantes de uma boca  tão Linda. Eu me doei o máximo que pude e não foi o suficiente. Então acho  que não tem mais o que fazer.    ‐ É isso mesmo o que você quer?  ‐ Sim.  ‐ Então está bem.  ‐ Mande lembranças aos seus pais por mim.  ‐ Tudo bem.        Fui até ela e dei um beijo na sua bochecha. Percebi que estava  chorando. O que é bom, por que eu também estava.    ‐ Adeus. – Eu disse.  ‐ Adeus.    Quando eu estava saindo pela porta ela disse: “Se cuida”. E essas foram  as últimas palavras dela para mim. É preciso amar muito alguém para poder  deixá‐la ir, se ela quiser ir.   

 


Prólogo                         


Eu já não aguentava mais a comida daquele hospital. Meu estômago  doía toda vez que eu comia alguma coisa. Eu mereci. Não sei o que me deu  aquele dia para ter feito o que fiz. Eu nunca havia me descontrolado daquele  jeito. Mas agora já passou. Minha vida nos últimos meses foi bem diferente  do que costumava ser. Tudo por causa dele.       Achei lindo a forma tímida que ele me mandou um bilhete e como em  tratou no Msn. Me levou para um chorinho que aceitei ir, mesmo sem gostar,  mas porque sabia que lá estaria mais confiante para falar comigo sendo ele  mesmo. E ele era adorável. Não sei se porque eu me sentia muito sozinha,  não sei se porque eu realmente gostei dele. Mas continuamos a nos ver.       Não sinto falta dos meus guias que nada mais era do que uma prisão  que eu criei para esconder minha realidade. Minha solidão. Pensar no que  um outro alguém poderia estar fazendo, enquanto eu estive ali, indo e  voltando todos os dias, fazendo a mesma coisa. Acordava cedo, fazia meu  café, lia alguns livros e saia para o trabalho. Meu trabalho sempre foi  relativamente fácil para mim. Não me tomava muito tempo, nem requeria  muito esforço. Depois voltava para casa, terminava de ler algum livro, bebia  um pouco de Martini e ia dormir. Se eu soubesse que por escolher alguém  para dividir a minha vida seria tão complicado, não sei se eu hoje faria. Mas  não me arrependi. Com ele consegui lidar melhor comigo mesma e com o  mundo. Deixei de ser eu, eu e eu, para ser eu, tu e nós.         Não havia também como não querer ficar perto de alguém que faz  tanto por você e você nem sabe como retribuir tudo. Nunca achei que ia me  apegar a ele como aconteceu. Nunca me apeguei com ninguém antes, por  que com ele seria diferente? Ele é preguiçoso, egocêntrico, meio chato às  vezes. Mas de alguma forma, ele começou a mudar com o passar do tempo.  Não sei se amadureceu. Não sei o que ele pensava. Mas foi diferente ver a  transformação de alguém em outra pessoa. Mais estranho ainda perceber  que a mudança fui eu que inicei. Eu queria ter mudado também. Mas não  conseguia. Eu me mantive presa a esses guias malditos. Nessa história  maldita que eu mesmo inventei para me convencer que o mundo podia ser  diferente. Talvez possa. Não todo o mundo, mas o que está a minha volta.  Nunca pensei que iria encontrar essa mudança dentro de um ônibus.       Sei que ele faria tudo por mim. Que via minha angústia e por isso  tentou me ajudar. Mas não sei se deveria ter feito. A mentira é mais cômoda  para mim. Me sinto confortável com ela. Quero poupá‐lo do meu lado ruim.  Não há porquê de ele ver isso. Mas não tive como impedir depois daquilo  tudo. O que mais me dói é saber que os únicos momentos em que eu fui  realmente eu foi naquele banheiro e na cama desse hospital. Ele não merece  isso. Ele é muito melhor do que isso. Sempre foi tão verdadeiro comigo e eu  nunca fui quem deveria ser. Nunca fui eu.        Não sei se teria dado certo depois disso tudo. Apesar de ele me fazer  sentir bem. Depois de todos esses anos sozinha, ele me ofereceu um lugar  para onde ir e me entregou uma família linda. Com problemas, que toda  família tem, mas onde nunca faltou apoio. Invejei isso nele e por isso sempre 


insisti em levá‐lo mais para casa de seus pais. Ele merecia perceber a sorte  que tinha. Acho que isso eu consegui. Foi o único presente que eu poderia  dar para ele. Eu não tinha mais o que oferecer.       Por que? Por que fazer alguém ter que dormir num sofá ao lado de  uma pessoa que ele nem conhece. Por que deixar que ele tente tudo para me  fazer feliz sendo que eu nunca mostrei realmente o que eu sentia? Eu não sei  se ele merecia. Não. Não merecia. Por isso era melhor partir. Para o bem de  nós dois. Eu não gostaria que ele chegasse mais perto. Não quero que ele  veja minhas cicatrizes. Não quero que ele lamba as minhas feridas. Elas são  só minhas e não tenho porque dividi‐las com ninguém.       Por isso o fiz ir. Por isso não quis mais. Quando eu finalmente me  mostrei é porque tudo deveria terminar. Eu sei que ele não iria querer  alguém assim. Sei que ele não ia querer se me conhecesse. Talvez em outra  vida. Talvez em outro lugar. Talvez por isso tudo tenha acontecido do jeito  que aconteceu. Talvez precisasse ser assim. Precisávamos passar por isso  para finalmente sermos nós mesmos. Precisávamos disso tudo. Das alianças,  dos conflitos, das saudades, para descobrir quem realmente éramos e julgar  se poderíamos nos amar como realmente somos. Talvez por isso ele tenha  ido. Talvez por isso ele tenha voltado para mim no dia seguinte, trazendo  com ele o meu guia de Nova York e duas passagens.        “Quer mudar comigo?” – ele me perguntou.         Talvez nunca na história da humanidade uma pergunta tenha feito  tanto sentido. Talvez nunca eu tenha��sentido tanta vontade de dizer sim a  alguma coisa.         No fim de tudo. Nós nos conhecíamos, sabíamos todos os segredos e  estávamos bem com isso. Eu tinha a ele e ele tinha a mim. Embarcamos na  semana seguinte.   A minha antiga história acabou aqui.  


Conto - A Menina do Guia de Viagens