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Cronologia 1912 Agosto, 23. Nasce, no Recife, filho de Mário Rodrigues e Maria Esther Falcão, quinto filho num total de irmãos que chegaria a quatorze. 1915 Seu pai, deputado e jornalista, vem ao Rio de Janeiro, tentando transferir-se com a família para a Capital Federal, incompatibilizado com a situação política em Recife. 1916 Junho. A família se transfere para o Rio de Janeiro. São recebidos no Rio de Janeiro pelo poeta Olegario Mariano. Mario Rodrigues vai trabalhar como repórter político no jornal de Edmundo Bitencourt, Correio da Manhã, o mais importante da época. Agosto. Mudam-se para a rua Alegre, nº 135, na Aldeia Campista. 1919 Frequenta a escola pública Prudente de Morais. 1922 Muda-se com a família para rua Antônio dos Santos, atual Clóvis Beviláqua, na Tijuca. 1924 Muda-se para a rua Inhangá, em Copacabana. Assume a direção do jornal Correio da Manhã poucos meses antes da promulgação da nova Lei de Imprensa. Agosto. Por levantar suspeitas sobre o presidente da República é condenado e preso por um ano. Durante este período seu salário foi reduzido ao valor do aluguel onde a família morava. 1925 Agosto, seu pai deixa a prisão e, logo a seguir, abandona o jornal. Dezembro, 29. Entra em circulação A Manhã, primeiro jornal de Mário Rodrigues. 1926 É expulso do Colégio Batista, na Tijuca.Publica, com seu primo Augusto Rodrigues, o tabloide Alma Infantil, do qual saem cinco números. 1927 Abandona o Curso Normal de Preparatórios. Dezembro, começa a trabalhar como repórter policial no jornal de seu pai, A Manhã, quando a sede do jornal se transfere da rua Treze de Maio para a Avenida, em frente à Galeria Cruzeiro. 1928 Publica 16 colunas assinadas no jornal A Manhã. Outubro, 3. Seu pai perde o controle acionário de A Manhã, abandonando o jornal. Novembro, 21. É lançado Crítica, novo jornal de Mário Rodrigues. Em seis meses, se transforma no matutino de maior circulação do Brasil, atingindo a marca de 130 mil exemplares. Faz parte da equipe de reportagem policial conhecida como Caravana de Crítica.

1929 Publica 8 colunas assinadas em Crítica. Maio. Passa o mês no Recife. Dezembro, 26. Seu irmão Roberto é alvejado por Sylvia Seraphim, senhora de sociedade, dentro da redação de Crítica, em represália a reportagem publicada no jornal. Morre três dias depois. 1930 Março, 15. Morre Mário Rodrigues, em consequência de hemorragia cerebral. Outubro, 24. A redação de Crítica é empastelada e incendiada, com o triunfo da Revolução, o jornal não volta a circular. Inicia-se um período de grandes dificuldades financeiras para a família. 1931 Trabalha em O Tempo, O Globo, Mundo Esportivo e na firma Ponce & Irmão. Junho, o irmão Mario Filho assume a parte esportiva de O Globo. Outubro, 12, dia da inauguração do Cristo Redentor, publica sua primeira crítica literária na seção O Globo nas letras. Em dois anos, publica outras doze críticas, duas delas falando do irmão assassinado. 1935 Abril. Tuberculoso, interna-se em um sanatório em Campos do Jordão. Junho. Retorna ao Rio de Janeiro, terminado o tratamento. Novembro, 18, publica um capítulo do livro Cidade, no jornal O Globo. 1936 Março, 30, escreve sua primeira coluna sobre Ópera, na seção O Globo nas artes líricas. Em dois anos, assina 25 colunas sobre Ópera. Abril. Acompanha seu irmão Joffre, internado em um sanatório de tuberculosos em Correias. Dezembro, 16, morre o irmão Joffre. 1937 Fevereiro. Reaparecem os sintomas da tuberculose. Retorna a Campos do Jordão. É redator de O Globo Infantil. 1939 Abril. Nova internação em Campos do Jordão. Passa a trabalhar também na revista Gibi, encarte de O Globo. 1940 Abril, 29. Casa-se civilmente com Elza Bretanha, casando-se no religioso a 17 de maio. 1941 Escreve sua primeira peça, A mulher sem pecado. Agosto, 11. Nasce seu filho Joffre. 1942 Dezembro, 9. Estreia de A mulher sem pecado, pela Comédia Brasileira, no Teatro Carlos Gomes. 1943 Janeiro. Escreve Vestido de Noiva. Dezembro, 28. Estreia de Vestido de noiva, no Theatro Municipal, com Os Comediantes.

1944 Passa a trabalhar nos Diários Associados, em diversas publicações do grupo. Março, Escreve, para O Jornal, o romance, publicado na forma de folhetim, Meu destino é pecar, sob o heterônimo de Suzana Flag. Publicação em livro de Meu destino é pecar, pela Editora O Cruzeiro. Junho, Escreve, para O Jornal, o romance, publicado na forma de folhetim, Escravas do amor, sob o mesmo heterônimo, o folhetim. Julho. Publicação de Vestido de noiva. 1945 Março. Nova internação em Campos do Jordão. Junho. Retorna ao Rio de Janeiro. Junho, 23. Nascimento de seu filho Nelson. Novembro, 23. Reestreia de Vestido de noiva no Teatro Phoenix, com Os Comediantes. 1946 Janeiro, 18. Remontagem de A mulher sem pecado, pelo mesmo grupo. Fevereiro. Proibição, pela Censura Federal, de Álbum de Família, sob a alegação de preconizar o incesto e incitar ao crime. Inicia-se uma grande polêmica a respeito da peça. Publicação do livro Escravas do Amor, pela Editora O Cruzeiro. Junho. Publicação de Álbum de Família, pelas Edições do Povo. Julho, escreve, para a revista A Cigarra, o romance publicado na forma de folhetim, Minha Vida, autobiografia de Suzana Flag. Escreve Anjo negro. Setembro, publicação do livro Minha Vida, pela Editora O Cruzeiro. 1947 Escreve Senhora dos afogados. 1948 Janeiro. Interdição de Anjo Negro pela Censura Federal, e de Senhora dos afogados. Abril, 2. Estreia de Anjo negro, já liberada, no Teatro Phoenix. Julho. Escreve, para O Jornal, o romance publicado na forma de folhetim, Núpcias de fogo, como Suzana Flag. Publicado em livro em 2001. Compra uma casa no Andaraí, para onde se muda com a família. 1949 Março, Escreve, para o Diário da Noite, a coluna Myrna Escreve. Durante o ano, publica 144 colunas respondendo a cartas de leitoras. Publicado em livro em 2002. Escreve Dorotéia. Julho, Escreve, para o Diário da Noite, o romance publicado na forma de folhetim, A mulher que amou demais, sob o heterônimo de Myrna. Publicado em livro em 2003.

Da Vida e da Obra


Da Vida e da Obra

1950 Março, 7. Estreia de Dorotéia, no Teatro Phoenix. Abril. Demite-se dos Diários Associados. 1951 Junho. Publica a reportagem No Cemitério das mulheres vivas, na primeira edição do jornal Última Hora, de Samuel Weiner. Julho. Escreve, também para Última Hora, o romance publicado na forma de folhetim, O homem proibido, como Suzana Flag. Publicado em livro em 1980. Agosto, 6. Estreia de Valsa nº 6, monólogo estrelado por sua irmã Dulce, no Teatro Serrador. Setembro. Escreve, para o jornal Última Hora, a coluna poético dramática Atirem a primeira pedra. Novembro, a coluna passa a se chamar A vida como ela é... Escreve, ao longo de dez anos, em torno de duas mil colunas A vida como ela é..., se transformando na coluna mais lida de todo o Brasil. 1953 Junho, 8. Estreia A falecida no Theatro Municipal. Maio. Escreve, para o semanário Flan, edição dominical de Última Hora, o romance, publicado na forma de folhetim, A Mentira, primeiro assinado como Nelson Rodrigues. Publicado em livro em 2002. A Censura Federal libera Senhora dos afogados. Agosto. Escreve, para o semanário Flan, a coluna Pouco amor não é amor. 1954 Junho, 1. Estreia de Senhora dos Afogados, no Theatro Municipal. 1955 Março. Vitória dos herdeiros de Mário Rodrigues no processo contra a União pela destituição de Crítica, em 1930. Torna-se redator da Manchete Esportiva, continuando na Última Hora. 1957 Junho, 19. Estreia Perdoa-me por me traíres no Theatro Municipal, com Nelson Rodrigues interpretando o personagem principal, Tio Raul. Setembro, 13. Estreia de Viúva, porém honesta no Teatro São Jorge. 1958 Remontagem de Dorotéia, em São Paulo, com Dercy Gonçalves no papel-título.

Outubro, 17. Estreia de Os sete gatinhos no Teatro Carlos Gomes. É operado da vesícula, sofrendo graves complicações pós-operatórias. 1959 Escreve Boca de Ouro. Agosto. Inicia, na Última Hora, a publicação do romance em forma de folhetim Asfalto selvagem, que se estenderá até fevereiro do ano seguinte. 1960 Publicação em livro de Asfalto selvagem, em dois volumes. Abril, 21. Assiste à inauguração de Brasília como correspondente da Última Hora. Outubro, 13. Estreia de Boca de Ouro, no Teatro Federação de São Paulo, com Ziembinski no papel-título. Escreve O beijo no asfalto. Começa a participar de mesas-redondas esportivas na televisão. 1961 Julho, 7. Estreia de O beijo no asfalto, no Teatro Ginástico. 1962 Novembro, 28. Estreia de Otto Lara Resende ou Bonitinha, mas ordinária, no Teatro Maison de France. 1963 Separa-se de Elza, indo morar com Lúcia Cruz Lima, em Ipanema. Junho, 20. Nascimento de Daniela, sua filha com Lúcia. Escreve a novela de televisão A morta sem espelho, para a TV Rio. 1964 Escreve as novelas Sonho de amor e O desconhecido, para a TV Rio. 1965 Junho, 21. Estreia de Toda nudez será castigada, no Teatro Serrador. 1966 Trabalha na TV Globo com o quadro de entrevistas “A cabra vadia”. Publica o romance O casamento, pela livraria Eldorado Editora. Setembro, 16. Morre seu irmão Mário Filho. Outubro. O Casamento é proibido por ordem do ministro da Justiça. 1967 Publica as Memórias de Nelson Rodrigues, pelo Correio da Manhã. Fevereiro, 19. Morte de seu irmão Paulo, com a mulher e os filhos, no desabamento do prédio onde morava, em Laranjeiras, durante a grande enchente. Julho, 28. Estreia de Álbum de família, no Teatro Jovem.

Cronologia

Dezembro, 4. Inicia a coluna Confissões em O Globo. 1968 Publica o livro de crônicas O óbvio Ululante, pela Editora Eldorado. 1969 Vai morar na casa de sua mãe, terminando seu relacionamento com Lúcia. Muda-se para o Leblon, indo morar com Helena Maria, sua secretária em O Globo. 1970 Muda-se para o Cosme Velho. Tem hemorragia interna, provocada por duas úlceras perfuradas. É operado, sofre parada respiratória, tem enfarto e volta para o quarto com pneumonia. Publica A cabra vadia, pela Editora Eldorado. Seu filho Nelson, militante do MR8, entra na clandestinidade. 1972 Março, 30. Prisão de seu filho, no Méier, pelos agentes de repressão política. Novembro, 9. Morre Milton, o irmão mais velho. 1973 Morte de sua mãe, Maria Esther, aos 84 anos de idade. 1974 Fevereiro, 28. Estreia de Anti-Nelson Rodrigues, no Teatro do SNT. Julho. É operado de um aneurisma da aorta abdominal, em São Paulo. 1977 Abril. É internado às pressas com grave desidratação, provocada por colite ulcerativa. Julho. Publica O reacionário, pela Editora Record. Dezembro. Reata seu casamento com Elza. 1978 Escreve A serpente. 1979 Outubro, 16. Seu filho Nelson recebe a liberdade condicional. 1980 Março, 6. Estreia de A serpente, no Teatro do BNH, hoje Teatro Nelson Rodrigues. Dezembro, 21. Morre, às oito horas da manhã, de insuficiência cárdio-respiratória, no Rio de Janeiro. Observação: esta cronologia é baseada naquela que está presente na edição do Teatro Completo, organizado pelo professor Sábato Magaldi e acrescida pelas informações da pesquisa O Baú de Nelson Rodrigues, realizada pelo diretor Caco Coelho.


A MULHER SEM PECADO Escrita em 1940, estreou em 9 de dezembro de 1942 no Teatro Carlos Gomes. Direção de Rodolfo Mayer.

Programa da Peça. A mulher sem pecado Crítica de Manuel Bandeira (Jornal A Manhã, 06/02/1943) Em Dezembro do ano passado, indo à redação do”Globo”, recebi de Nelson Rodrigues, a quem fui então apresentado, um convite para assistir à sua peça de estréia - “A Mulher Sem Pecado”. Confesso que me dirigia à noite para o Teatro Carlos Gomes sem grande entusiasmo. Sou, como Ribeiro Couto,”um homem que vai pouco aos teatros”. Não que não goste. Ao contrário: tenho o teatro no sangue. Representei muito quando menino, e sabia conquistar uma platéia. Mas o nosso teatro, com todo o seu repertório”para rir” é uma coisa melancólica demais. Ora, eu costumo fazer minha higiene mental... Não tolero o tom declamado dos nossos atores, a sua insuportável indiscrição de efeitos. Houve tempo em que gostei das revistinhas populares do Rocio. Parecia-me que dali podia sair um teatro brasileiro. Afinal as revistinhas do Rocio esgotaram-se sem dar nada. “A Mulher Sem Pecado” interessou-me desde as primeiras cenas. Senti imediatamente no autor a vocação teatral. O diálogo era de classe - rápido, direto, e por ser assim, facilitaria aos atores a dicção natural, a personagem mais importante - o marido doentiamente ciumento - um falso paralítico em sua cadeira de rodas, criava em torno de si uma vida intensa, a que vinham dar maior relevo as duas personagens mudas, figuras quase que exclusivamente plásticas, sugestionadoras de mistérios inquietantes. A mentalidade mórbida do ciumento acusava-se coerente e convincente, em cada réplica. Afinal a mulher sem pecado acabou pecando... por culpa do marido. E a peça, que vinha bem conduzida, acabou também pecando, e também por culpa do marido, que, no terceiro ato, num verdadeiro “coup de théatre”, levanta-se muito lampeiro de sua cadeira de falso paralítico. Pode-se fingir uma loucura, como o Henrique IV de Pirandelo, mas uma paralisia! Mas a peça ficará de pé com o protagonista paralítico de verdade. E até mais justificado no seu tirânico ciúme. Ao sair do teatro, tomei conhecimento da reação do público, que ao sair de lá saiu discutindo, discordando, discorrendo. Remexido enfim. Bom teatro, o que sacode o público. Nelson Rodrigues sacode-o, e tem força nos pulsos.

O diretor Zygmunt Turkow e o dramaturgo Nelson Rodrigues durante ensaio de ‘A Mulher Sem Pecado’, 1946. Foto Carlos CEDOC/FUNARTE

Os diretores teatrais Zigmunt Turkow e Ziembinski, com Nelson Rodrigues no centro, durante ensaio de ‘A Mulher Sem Pecado’, 1946. Foto Carlos/ CEDOC/FUNARTE

Olegario:

“Sexo e para operario".

A atriz Stella Perry em ‘A Mulher sem Pecado’, 1946. Foto Carlos/ Cedoc-Funarte

“Eu acho que a fidelidade devia ser uma virtude facultativa"


VESTIDO DE NOIVA

Escrita em 1943, estreou em 28 de dezembro de 1943, no Theatro Municipal. Direção: Ziembinski | Cenários: Santa Rosa Vestido de Noiva Crítica de Manuel Bandeira (Jornal A Manhã, 06/02/1943) Nelson Rodrigues deu-me o prazer de a conhecer ”avant da lettre” pela leitura do manuscrito. Pediu-me, como um favor, que a lesse com a maior atenção - “religiosamente”. Mau! Pensei comigo: que será quando vista em cena uma peça que, lida, exige tamanha atenção? Fiquei até com medo de não a ter compreendido, acabado a leitura. Nelson sacudiu medroso também.  -O caso é assim, disse-lhe: Duas irmãs. Uma furta o namorado da outra e casa-se com ele. Mas a outra era “boa” também, e o cunhado continuou com ela o namoro. Os dois insensatos chegam a desejar a morte da primeira. Chegam a mesmo desejá-la mediante um crime. Mas não foi necessário o crime: a que sobrava é atropelada por um automóvel no Largo da Glória e vai para o pronto socorro. É operada. Morre. Bate o remorso na irmã, que começa a ter vertigens. Mas a perturbação foi passageira. O remorso não resiste a uma breve estação de cura fora do Rio. E ela acaba casando com o cunhado, e estava até “um amor” no seu vestido de noiva. Pelo menos é o que diz a sogra, a D. Laura, que aliás tinha dito a mesma frase no dia do casamento da nora morta. Mas é tão simples! Dirá o leitor. Não é não. O espectador tomará conhecimento do conflito entre as duas irmãs através do delírio da atropelada. Aqui é que se revela a força de um tempo realística e poético de Nelson Rodrigues. Nunca delirei alto em minha vida, e peço a Deus que me livre disso. Mas o subdelírio me é muito familiar: qualquer febrinha deslancha na minha cachola aquela mistura estapafúrdia de realidade e sonho, tão terrível, mas tão cheia de sentido poético. A criação de Nelson Rodrigues é admirável.

Elenco de Vestido de Noiva

Os Comediantes - Vestido de Noiva

“Toda oracao e linda. Duas maos postas sao sempre tocantes, ainda que rezem pelo vampiro de Dusseldorf".

Os Comediantes - Vestido de Noiva

Carlos e Stela Perry


Acervo CEDOC/FUNARTE

Madame Clessi - “... as mulheres so deviam amar meninos de 17 anos".

VESTIDO DE NOIVA


ALBUM DE FAMILIA Acervo CEDOC/FUNARTE

Escrita em 1945, estreou em 28 de Junho de 1967, no Teatro Jovem. Direção de Kleber Santos.

Pois a partir de Álbum de família – drama que se seguiu a Vestido de noiva – enveredei por um caminho que pode me levar a qualquer destino, menos ao êxito. Que caminho será este? Respondo: de um teatro que se poderia chamar assim – desagradável. Numa palavra, estou fazendo um teatro desagradável, peças desagradáveis. (...) E porque peças desagradáveis? Segundo já se disse, porque são obras pestilentas, fétidas, capazes, por si sós, de produzir o tifo e a malária na platéia. Publicado na Revista Dionysos em outubro de 1949.


Edmundo:

- “O ceu, nao depois da morte: o ceu, antes do nascimento - foi o teu utero."

Acervo CEDOC/FUNARTE

ALBUM DE FAMILIA


ANJO NEGRO

Escrita em 1946, estreou em 2 de abril de 1948, no Teatro Fênix. Direção: Ziembinski | Cenários: Sandro Polloni.

Nicete Bruno

Orlando Guy e Maria Della Costa

Itália Fausta

Sandro Polloni, Maria Della Costa, Itália Fausta e Ziembinski

ELIAS (em pleno sonho) - Voce nunca se imaginou morta? (segura Virginia pelos dois bracos) Eu mesmo - e nao ele; ele, nao - eu seria capaz de matar voce. Sem odio, sem maldade - por amor; para que ninguem acariciasse voce e para que voce mesma nao desejasse ninguem ficasse para sempre com a boca em repouso, os seios em repouso, os quadris quietos, inocentes...

Itália Fausta Orlando Guy e Nicete Bruno Maria Della Costa, Itália Fausta e Orlando Guy

Nicete Bruno

Maria Della Costa e Orlando Guy

Orlando Guy


Acervo CEDOC/FUNARTE

Discussão sobre o texto Anjo Negro, no Teatro Fênix: Nelson Rodrigues, Ziembinski, Sandro Polloni, Brício de Abreu, Emil Fahrat, Edmundo Maia Maria Della Costa e Orlando Guy Programa da Peça

Vista parcial do cenário

Ziembinski e Sandro Polloni

Itália Fausta

Maria Della Costa e Itália Fausta

ANJO NEGRO


SENHORA DOS AFOGADOS

Estreou em 1 de junho de 1954, no Theatro Municipal. Direção de Bibi Ferreira | Cenários de Santa Rosa.

MISAEL – A mulher só devia trair no leito conjugal...

D. EDUARDA – Eu não quero que meu filho me julgue pelos meus atos... Eu não tenho nada com os meus atos, nada... ********************************* MOEMA - E por que não a castigas nas mãos? As mãos são mais culpadas no amor... Pecam mais... Acariciam... O seio é passivo; a boca apenas se deixa beijar... O ventre apenas se abandona... Mas as mãos, não... São quentes e macias... E rápidas... E sensíveis... Correm no corpo...

Natália Timberg e Sônia Oiticica

Santa Rosa e Nelson Rodrigues


D. EDUARDA - Se eu pudesse encheria, hoje, a casa de pessoas, mesmo de inimigos meus... Contanto que não ficasse sozinha, ou só com você... Estar com você é a pior maneira de estar sozinha!

Companhia Dramática Nacional - Senhora dos Afogados

Sônia Oiticica e Carlos Melo

“Peçam tudo, menos que eu renuncie às atrocidades habituais do meus dramas. Considero legítimo unir elementos atrozes, fétidos, hediondos ou o que seja, numa composição estética.”

SENHORA DOS AFOGADOS


DOROTEIA

Estreou em 7 de março de 1950, no Teatro Fênix. Direção de Ziembinski. DOROTÉIA — Meus cabelos... São tão calados que a gente até esquece que eles existem D. FLÁVIA — Se eu fosse homem, gostaria deles... D.Flávia (brusco ódio) — Por isso mesmo devem ser arrancados de ti! (lenta e grave) Teus cabelos devem morrer, Dorotéia... DOROTÉIA (apavorada) — Eu sei que não fica bem uma senhora honesta ter cabelos assim... não convém... Mas...

“O Brasil é um elefante geográfico. Falta-lhe, porém, um rajá, isto e, um líder que o monte".

Mariclaire Brant, Maura Arantes, Lilita de Oliveira Lima e Maria Antonieta, numa montagem de 1968, Dir. Heleny Guariba. Foto: Darly Marques/ Arq. Multimeios-CCSP.


VALSA No. 6

Escrito em 1951 - Estreou em 6 de agosto de 1951, no Theatro Serrador. Direção de Henriette Morineau.

“O dramaturgo de Anjo Negro realiza nova experiência – ao meu ver com êxito, pela audácia da tentativa, pela solução encontrada, e o extraordinário resultado poético do espetáculo. (...) O monólogo talvez seja considerado uma forma teatral obsoleta. Mesmo admitindo a premissa de convenção cênica, é preciso uma justificativa para que a personagem fale sozinha. (...) O conflito – essência verdadeira da realidade do palco – se dilui numa criatura que não se opõe a outra, inexistente na ausência de atrito motivado por outra presença. Tudo isso torna o monólogo um gênero ingrato, propenso a conter os recursos mais discutíveis para contrabalançar as próprias deficiências, reduto das frustações que não sabem resolver no diálogo a matéria dramática. (...) O fato de ter Nelson Rodrigues criado um monólogo absolutamente teatral constitui o primeiro mérito de Valsa nº 6. A situação exposta o determina. Foram abolidos os méritos prosaicos e habituais da forma. O autor não se serviu de espetaculosidade ou complicações aleatórias para atingir o objetivo. Não importa a luz. Não importa o cenário. Não importa o tempo e não importa o espaço. A peça repousa sobre a palavra. A palavra como origem fundamental do drama. A personagem existe pelo o que dá a conhecer através da palavra. E a palavra é admirável em Valsa nº 6.” Sábato Magaldi

(comadre melíflua) Nessas ocasiões, eu tenho muita pena de quem fica! E eu de quem morre. (sofisticada) Mas nem tem comparação. Eu, hem! Claro! Porque quem fica chora... E o defunto? O defunto nem sabe que morreu!

Nelson Rodrigues, Dulce Rodrigues e Henriette Morineau.


SÔNIA – Só a morte viu o teu rosto verdadeiro e único. **************************************** SÔNIA – Além disso, um defunto contamina tudo com sua morte, tudo, a mesa e a dália.

VALSA No. 6


A FALECIDA

Estreou em 8 de junho de 1953, no Theatro Municipal. Direção de José Maria Monteiro e Cenários de Santa Rosa

Sérgio Cardoso, Sônia Oiticica e Leonardo Villar

“Todo tímido é candidato a um crime sexual".

Sônia Oiticica Sérgio Cardoso e Sônia Oiticica

Leste Iberê, Gusta Gamer, Marina Leila, José Araújo, Sônia Oiticica.

Flagrante do ensaio. Sérgio Cardoso, Sônia Oiticica, Diretor José Maria Monteiro e Nelson Rodrigues

Sérgio Cardoso, Sônia Oiticica e Leonardo Villar Sérgio Cardoso


Zulmira — “Começou na primeira noite... Ele se levantou e saiu do quarto... Para fazer sabe o quê?... Lavar as mãos!"

A FALECIDA


A FALECIDA


PERDOA-ME POR ME TRAIRES Estreou em 19 de junho de 1957, no Theatro Municipal. Direção de Leo Jusi e Cenários de Claúdio Moura.

Sônia Oiticica e Nelson Rodrigues

Glaucio Gill, Maria de Nazareth e Nelson Rodrigues

Roberto Batalin e Léa Garcia

Judite - “Eu me arrependo do marido, nao me arrependo dos amantes". Maria de Nazareth e Glaucio Gill


“Daqui a duzentos anos, os historiadores vão chamar este final de século de “a mais cínica das epocas". O cinismo escorre por toda parte, como a água das paredes infiltradas".

PERDOA-ME POR ME TRAIRES


Dr. J.B. — “A falência do Brasil sempre vendeu jornal.”

VIUVA, POREM HONESTA

Estreou em 13 de setembro de 1957, no Teatro São Jorge. Direção de Willy Keller e Cenários de Fernando Pamplona.

Nesta versão, direção de Jece Valadão.


“Sou a maior velhice da América Latina. Já me confessei uma múmia, com todos os achaques das múmias”.

VIUVA, POREM HONESTA


OS SETE GATINHOS Estreou em 17 de outubro de 1958, no Teatro Carlos Gomes. Direção de Willy Keller e Cenários de Bianco

Bibelot (p/Aurora) – Ah, eu preciso ter sempre uma mulher na zona. Aurora – Mas eu não sou da zona, o que é que há? Bibelot – Azar o teu!

Dr. Bord Seu alo Noro – O cafe nha s zinh - Po enhor o, n está r qu em á e nã prop gua o? O o gela lha: ndo um da a bord eu n depu el d ão v tado e fi ou m lhas ais nenh ! serv um.. ir .

Na foto: Tânia Scher, Carmem Palhares, Ana Rita, Thelma Reston, Diana Antonaz e Ana Maria Magalhães. (Esta montagem teve a direção de Álvaro Guimarães e cenários de Roberto Franco, em 1967.)


BOCA DE OURO

Estreou em 13 de outubro de 1960, no Teatro Federação (mais tarde Cacilda Becker), em São Paulo. Ziembinski atuou no papel principal. Direção de Ziembinski e Cenário de Gianni Ratto. As fotos são referentes à montagem que estreou no Rio, no atual Teatro Glauce Rocha, com Milton Moraes como Boca de Ouro.

Hugo Carvana Shulamita Yaari, Elizabeth Gallotti, Lícia Luagna

Maria Esmeralda e Milton Moraes

Ivan Cândido, Beatriz Veiga e Milton Moraes

Wanda Lacerda e Oswaldo Lousada

Ivan Cândido, Beatriz Veiga e Milton Moraes

Shulamita Yaari, Elizabeth Gallotti, Lícia Luagna

Milton Moraes e Wanda Lacerda Beatriz Veiga, Milton Moraes e Tereza Raquel


BOCA DE OURO (ao mesmo tempo que a derruba) – Sai pra lá! (agarra-o, novamente) Talvez eu não atire. Depende! (violento) Queres viver? Queres sair vivo daqui? LELECO (ávido) – Quero, sim! Quero! BOCA DE OURO (brutal) – Então manda a sua mulher entrar ali! LELECO (virando-se lentamente) – Ali onde? BOCA DE OURO – No quarto, ali no quarto! CELESTE (recuando) – Eu não vou... Eu não quero... BOCA DE OURO (para Leleco) – Eu podia arrastar tua mulher pelos cabelos! Tereza Raquel, Milton Moraes e Beatriz Veiga (muda de tom, baixo e caricioso) Mas quero que você mande. (feroz) Diz pra tua mulher: Vai! Manda! LELECO (num crescendo para Celeste) – Vai... Celeste, vai (com violência) Ou prefere que ele me mate? Queres que ele me mate, Celeste? (num apelo total) Celeste: eu estou pedindo: vai Celeste, vai! (chora ignobilmente) (Pausa) CELESTE – Eu vou.

Ivan Cândido e Beatriz Veiga

Ivan Cândido e Milton Moraes

Ivan Cândido, Beatriz Veiga e Milton Moraes

Tereza Raquel, Milton Moraes e Beatriz Veiga

Yolanda Cardoso e Milton Moraes Milton Moraes e Tereza Raquel

Milton Moares e Rodolfo Arêna

Ivan Cândido e Beatriz Veiga

“Hoje, a reportagem de polícia está mais árida do que uma paisagem lunar. O repórter mente pouco, mente cada vez menos”.

Tereza Raquel, Milton Moraes e Beatriz Veiga

Maria Esmeralda e Milton Moraes

BOCA DE OURO


O BEIJO NO ASFALTO

Estreou em 7 de julho de 1961, no Teatro Ginástico. Direção de Fernando Torres e Cenários de Gianni Ratto.

Oswaldo Loureiro e Fernanda Montenegro

Ítalo Rossi, Cláudio Correa e Castro.

Oswaldo Loureiro e Fernanda Montenegro

Sueli Franco, Zilka Salaberry e Fernanda Montenegro.

Francisco Cuoco e Labanca. Sérgio Brito e Carminha Brandão. Francisco Cuoco e Labanca.

Sérgio Brito e Ítalo Rossi. Sérgio Brito e Ítalo Rossi

Ítalo Rossi, Fernanda Montenegro e Sérgio Brito

Fernanda Montenegro, Maria Esmeralda e Labanca.

Sueli Franco, Zilka Salaberry e Fernanda Montenegro

Sérgio Brito, Ítalo Rossi, Renato Valente e Oswaldo Loureiro. Sueli Franco, Fernanda Montenegro e Oswaldo Loureiro

Aprígio — “O sujeito caiu de bruços, rente ao meio-fio. De bruços. Teu marido foi lá e virou o rapaz. E deu o beijo. Na boca.”


O BEIJO NO ASFALTO

Francisco Cuoco e Labanca.

“O brasileiro e um feriado".


OTTO LARA RESENDE OU BONITINHA, MAS ORDINARIA

Estreou em 28 de novembro de 1962, no Teatro Maison de France. Direção de Martin Gonçalves.

PEIXOTO – Eu também sou mau-caráter! EDGAR – Eu não sou mau-caráter. Não admito, ouviu? Está ouvindo? ************************* PEIXOTO – Mas hoje em dia. Escuta. No Brasil quem não é canalha na véspera, é canalha no dia seguinte. O Otto está certo. O mineiro só é solidário no câncer. ************************* PEIXOTO – Escuta. Toda a família tem um momento, um momento em que começa a apodrecer. Percebeu? Pode ser a família mais descente, mais digna do mundo. E lá um dia, aparece um tio pederasta, uma irmã lésbica, um pai ladrão, um cunhado louco. Tudo ao mesmo tempo. Está ouvindo, Edgar?

“O adulto não existe. O homem é um menino perene”.


OTTO LARA RESENDE OU BONITINHA, MAS ORDINARIA


TODA NUDEZ SERA CASTIGADA Estreou em 21 de junho de 1965, no Teatro Serrador.

Direção de Napoleão Moniz Freire e Cenários de Ziembinski

Cleyde Yaconis, Elza Gomes, Antônia Marzullo e Enio Gonzalvez

Cleyde Yaconis e Luis Linhares

Patrício - “Esse casamento é preciso, sabe por que? Porque você vai cornear seu pai! Compreendeu agora?” Cleyde Yaconis e Nelson Xavier


“Sou um suburbano. Acho que a vida é mais profunda depois da praça Saenz Peña. O único lugar onde ainda há o suicídio por amor, onde ainda se morre e se mata por amor, é na Zona Norte”.

TODA NUDEZ SERA CASTIGADA


ANTI-NELSON RODRIGUES Estreou em 28 de fevereiro de 1974, no Teatro do SNT. Direção de Paulo César Pereio e Cenários de Jorge Gomes Trindade.

Joyce — “Seu idiota, não quero seu dinheiro, quero teu amor".


ANTINELSON RODRIGUES


“E, sobretudo, por que investem contra mim, como se fosse eu o inventor do sexo e como se ele não existisse na vida real, nem tivesse a menor influência na natalidade, aqui e alhures? (...) Peçam tudo, menos que eu renuncie às atrocidades habituais dos meus dramas. Considero legítimo unir elementos atrozes, fétidos,hediondos ou o que seja, numa composição estética. Qualquer um pode extrair poesia de coisas aparentemente contra-indicadas. Isso é tão óbvio, que me envergonho de repeti-lo”. Publicado na Revista Dionysos em outubro de 1949

“Não vou para o inferno, mas não tenho asas".

ANTINELSON RODRIGUES


A SERPENTE

Estreou em 6 de Março de 1980, no Teatro do BNH (hoje Teatro Nelson Rodrigues). Direção e Cenários: Marcos Flaksman.

Lígia — “...Tão infeliz, que tive de me deflorar com um lápis.” Xuxa Lopes, Cláudio Marzo e Sura Berditchevsky


A SERPENTE

“Não gosto de minha voz. Eu a tenho sob protesto. Há, entre mim e minha voz, uma incompatibilidade irreversível”.


“Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico.”


Nelson Brasil Rodrigues