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Sa mo

CHARLES HADDON SPURGEON


Sa mo “CHARLES H a d d o n S p u RGEON nasceu em 1834 e faleceu em 1892. Seu prim eiro pastorado, aos 17 anos de idade, foi num a igreja em Cam bridgeshire. M udou-se para New Park Street Chapei, Londres, em 1854, e em 5 anos tornou-se o m inistro mais fam oso da cidade. A pedra fundam ental de um novo edifício cham ado M etropolitan Tabernacle foi lançada em 1859, e aí Spurgeon pregou constantem ente para um a congregação de cerca de 6.000 pessoas. Também alcançou um a audiência m aior de aproxim adam ente um milhão de pessoas a quem se dirigia sem analm ente através de seus serm ões im pressos”. (Extraído de Sermões Sobre a Salvação, Publicações Evangélicas Selecionadas, p. 7.)

H fJE D IÇ Õ E S ± Z J PARAKLETOS


Sai mo © ^ â k lfa b e í o c fe (P )iu r o

de

CHARLES HADDON SPURGEON

Tradução Valter G raciano M artins


Do original em inglês Psalm 119 - The Golden Alphabet Os direitos desta edição são reservados

I a edição - 2001 3000 exemplares

Editoração e capa Eline Alves Martins

EDIÇÕES PARAKLETOS Rua Clélia, 1254 • Cj. 5B •V ila Romana • 05042-000 ■São Paulo, SP • Brasil Telefax: 55 11 3673-5123 ■e-mail: parakletos@uol.com.br


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(w. 1-8) Bem-aventurados os impolutos em seus caminhos, que andam na lei do Senhor. Bem-aventurados os que guardam seus testemunhos, e que o buscam de todo seu coração. Eles também não praticam iniqüidade, mas andam em seus caminhos. Tu nos ordenaste que guardássemos teus preceitos com diligência. Quem dera que meus caminhos fossem bem direcionados para que eu observe teus estatutos. Então não fica­ ria envergonhado, quando tiver respeito para com todos teus manda­ mentos. Louvar-te-ei com retidão de coração quando tiver aprendido teus justos juízos. Observarei teus estatutos; oh, não me desampares totalmente! Estes oito primeiros versículos são associados à contemplação da bem-aventurança que procede da observância dos estatutos do Senhor. O tema é tratado de uma forma devocional, e não num estilo didático. Sincera comunhão com Deus se desfruta através tio amor àquela Palavra que é a maneira de Deus com unicar-se com a alma através de seu Espírito Santo. Oração e louvor, bem como toda sorte de atos e sentimentos devocionais, perpassam esses versículos como os raios da luz solar refletidos através da folhagem de um a árvore frondosa. Você se sente não só instruído, mas também influenciado com santa emoção e levado a expressar o mesmo. Os que amam a Santa Palavra de Deus são bem-aventurados, porque são preservados de contaminação (v. 1), porque se tornam santos na prática (w. 2, 3) e guiados a ir a Deus sincera e intensa­ mente (v. 2). E evidente que se deve desejar um viver santo, por­ que é isso que Deus ordena (v. 4); por isso a alma pia ora por esse vivei- santo (v. 5) e sente que seu conforto e coragem devem de­ pender de sua obtenção (v. 6). No prospecto da oração respondi­ 5


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da, sim, enquanto a oração está sendo respondida, o coração se enche de gratidão (v. 7) e se fixa em solene disposição de não perder a bênção, se o Senhor lhe der a graça que o capacita (v. 8). As mudanças começam nas palavras ‘caminho’ — “retos em seus caminhos”, “andam em seus caminhos”, “Quem dera meus caminhos fossem direcionados”; ‘guardar’ - “guardar seus teste­ munhos”, “guardar diligentemente teus preceitos”, “levados a guar­ dar”, “guardarei”; e ‘andar’ - “andar na lei”, “andar em seus ca­ m inhos”. Contudo, não existe tautologia; nem é reiterado o m es­ mo pensamento, ainda que ao leitor displicente possa parecer assim. A mudança de afirmações sobre outros e sobre o Senhor, para mais tratam ento pessoal com Deus, começa no quarto versículo, e se torna mais evidente à medida que avançamos, até nos últimos versículos a comunhão tornar-se mais intensa, comovendo a alma. “Louvar-te-ei. Guardarei teus estatutos. Oh, não te esqueças de mim totalmente.” Que todo leitor possa sentir incandescente de­ voção pessoal enquanto estuda esta primeira seção do Salmo! [v. 1] Bem-aventurados os impolutos em seus caminhos, que andam na lei do Senhor. Bem-aventurados. O salmista se sente tão arrebatado pela lei do Senhor, que considera como estando conformado a ela seu mais elevado ideal de bem-aventurança. Ele está olhando adm ira­ do para as belezas da lei perfeita; e, como se nesse versículo en­ contrasse a suma e resultado de todas suas emoções, ele exclama: “Bem-aventurado é o homem cuja vida é a transcrição prática da vontade de D eus.” A religião genuína não é apática nem árida; ela tem suas exclamações e êxtases. Não só julgamos ser a guarda da lei de Deus uma atitude sábia e correta, mas nos sentimos arden­ temente extasiados ante sua santidade, e clamamos em extasiante adoração: “Bem-aventurados são os imaculados!” Significando com isso que ardentemente desejamos tornar-nos assim. Nosso desejo por felicidade não é maior que o de sermos perfeitamente santos. E possível que o escritor tenha laborado sob o senso de sua própria falha, e portanto invejado a bem-aventurança daqueles cuja •6 •


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vida havia sido mais perfeita e santa que a dele; aliás, a própria contemplação da lei perfeita do Senhor na qual ele agora tem in­ gresso fosse suficiente para levá-lo a deplorar suas imperfeições pessoais e a suspirar pela bem-aventurança de um viver sem mácula. A religião genuína é sempre prática, pois ela não nos permite deleitar-nos numa regra perfeita sem excitar em nós profundo anelo de conformar a essa regra nossa conduta diária. Uma bênção per­ tence aos que ouvem, lêem e entendem a Palavra do Senhor; não obstante, uma bênção ainda maior advém da real obediência a ela e concretiza em nosso andar e conversação o que aprendemos em nosso exame das Escrituras. A mais genuína bem -aventurança consiste na pureza de nosso caminho e de nossa caminhada. Este primeiro versículo constitui não só um prefácio a todo o Salmo, mas pode também ser considerado como o texto sobre o qual o resto é um discurso. E semelhante à bênção do primeiro Salmo, o qual é o próprio cabeçalho de todo o livro: há certa se­ melhança entre este Salmo 119 e o Saltério, e este é só um ponto dele, que começa com uma bênção. Neste também vemos algumas prefigurações do Filho de Davi, que começou seu grande sermão como Davi começou seu grande Salmo. E bom abrir nossa boca com bênçãos. Quando não podemos concedê-las, podemos apon­ tar o caminho de sua obtenção; e ainda quando nem mesmo as possuamos, pode ser proveitoso contemplá-las, para que nossos desejos sejam excitados e nossas almas movidas a buscá-las. Se­ nhor, se não sou ainda tão abençoado ao ponto de não ser ainda contado entre os imaculados em teu caminho, contudo meditarei intensamente na felicidade que desfrutam, e a porei diante de meus olhos como uma ambição a ser concretizada em minha vida. Do modo como Davi começa seu Salmo, os jovens deveriam começar suas vidas; os recém-convertidos deveriam iniciar sua profissão de fé; todos os cristãos deveriam começar cada dia. Assentem em seus corações como primeiro postulado e sólida regra da ciência prática qu e santidade é sinônimo de felicidade-, que nossa sabedoria consiste em primeiramente buscar o reino de Deus e sua justiça. O bom começo já é meio triunfo. Começar com uma idéia veraz de bem-aventurança é importante além de toda m edi­ •7 •


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da. O homem começou sendo bem-aventurado em sua inocência; e se nossa raça caída visa a ser bem-aventurada outra vez, então ela deve encontrar a bem-aventurança onde ela a perdeu no prin­ cípio, ou seja, conformando-se com os mandamentos do Senhor. Os impolutos em seu caminho. Estão no caminho; o caminho reto; o caminho do Senhor; e guardam o caminho, andando com santa prudência e lavando seus pés diariamente, para que não sejam maculados pelo contato com o mundo. Desfrutam de grande bemaventurança em suas próprias almas; aliás, já sentem uma prelibação do céu, onde a bem-aventurança é absolutamente impossível de ser maculada; e onde poderão prosseguir plena e perfeitamente sem mancha; na verdade, devem viver já seus dias celestiais na terra.'O mal externo pouco nos feriria se fôssemos inteiramente isentos do mal do pecado, cuja obtenção, mesmo para o melhor dentre nós, ainda se encontra na região do desejo, o qual ainda não se concretizou plenamente, ainda que tenhamos uma visão bem nítida do que consideramos ser bem-aventurança propria­ mente dita, e portanto nos precipitamos avidamente em sua direção. Bem-aventurado é aquele cuja vida é, no sentido evangélico, impoluta, sem mácula, porque jamais lhe seria possível alcançar esse ponto se infindas bênçãos ainda não lhe houvessem sido der­ ramadas. Somos por natureza impuros e extraviados do caminho; e por isso temos que ser lavados no sangue expiador para que a impureza seja removida, e temos que ser convertidos pelo poder do Espírito Santo, do contrário não nos ingressaremos na vereda da paz, nem seremos íntegros em seu percurso. Mas isso não é tudo, pois faz-se mister que o poder contínuo da graça m antenha o cristão na vereda direita e o preserve da poluição. E preciso que todas as bênçãos do pacto sejam, em certa medida, derramadas sobre aqueles que, dia a dia, são capacitados a aperfeiçoar sua santidade no temor do Senhor. Sua vereda é a evidência de serem eles os bem-aventurados do Senhor. Davi fala de um elevado grau de bem-aventurança; pois há aqueles que já se encontram no caminho e que são genuínos ser­ vos de Deus; todavia se acham ainda maculados de diversas for­ mas e ainda atraem sobre si muitas máculas. Outros andam envol­ •8 •


tos em luz mais plena e mantêm com unhão mais íntima com Deus, e são aptos a manter-se imunes das impurezas do mundo, os quais desfrutam de mais paz e alegria do que seus irmãos menos vigilan­ tes. Sem dúvida, quanto mais profunda é nossa santificação, mais intensa é nossa bem-aventurança. Cristo é o nosso caminho, e não só estamos vivos em Cristo como também devemos viver nele. O lamentável é que nós salpicamos sua santa vereda com nosso ego­ ísmo, nossa vangloria, nossa obstinação e nossa carnalidade, per­ dendo com isso, em grande medida, a bem -aventurança que se acha nele como nosso caminho. O cristão que erra continua salvo, porém deixa de experimentar a alegria de sua salvação; continua redimido, porém não enriquecido; muitíssimo disposto, porém não muitíssimo abençoado. Q uão facilmente pode sobrevir-nos impureza, mesmo em nos­ sas coisas santas, sim, até mesmo no caminhol E até mesmo pos­ sível achegarm o-nos para o culto público ou privativo maculados em nossa consciência, quando ainda nos achamos de joelhos. Não havia assoalho no tabernáculo, mas apenas areia; daí os sacerdo­ tes, para o serviço junto ao altar, careciam constantemente de la­ var seus pés; e, pela bondosa provisão de seu Deus, o lavatório lhes estava sempre à disposição para que se purificassem. Quanto a nós, nosso Senhor ainda se dispõe a lavar nossos pés, para que estejam os totalmente limpos. E assim nosso texto preanuncia a bem -aventurança dos apóstolos no cenáculo, quando Jesus lhes assegura: “Vós já estais limpos.” Q ue gloriosa bem-aventurança aguarda os que seguem o C or­ deiro para onde quer que ele vá, e são preservados do mal que im pregna o m undo de luxúria! Estes atrairão a inveja de toda a hum anidade “naquele dia”. Ainda que agora sejam m enospreza­ dos com o fanáticos e puritanos, os mais prósperos dos pecadores então desejarão que possam trocar de lugar com eles. O minha alma, busca tua bem-aventurança em seguir os passos de teu Se­ nhor, o qual foi santo, inculpável, imaculado; pois se até aqui desIrutaste de paz, haverás de desfrutá-la para todo o sempre. Q ue andam na lei do Senhor. Neles se acha presente a santi­ dade habitual. Seu andar, sua vida cotidiana, é de obediência ao •9 •


Salmo

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Senhor. Vivem segundo uma norma, que é segundo o m andam en­ to do Senhor Deus. Quer comam, quer bebam, quer façam qual­ quer outra coisa, tudo fazem no nome de seu grande Mestre e Modelo. Para eles, religião não é outra coisa senão viver no cami­ nho, é seu andar diário; ela molda tanto suas ações comuns quan­ to suas devoções especiais. Isso lhes assegura a bem-aventurança. Aquele que anda na lei de Deus, anda na companhia de Deus, é portanto abençoado; desfruta do sorriso de Deus; da força de Deus; da intimidade com Deus: como não seria ele abençoado? Vida santa é um andar, um progredir constante, um avançar sereno, um perseverar contínuo. Enoque andava com Deus. Os homens bons se tornam cada vez melhores, e por isso vão sempre em frente. Os homens bons não conhecem a indolência, e por isso não caem prostrados nem delongam na jornada, mas continuam sempre caminhando rumo a seu almejado porto. Não se apres­ sam, nem se azucrinam, nem se perturbam; apenas se mantêm no curso de seu caminho, caminhando firmemente rumo ao céu. Não se deixam dominar por perplexidade acerca de como devem conduzir-sc, porque possuem uma regra perfeita, a qual orienta seu ditoso caminhar. A lei do Senhor não lhes é enfadonha; seus m an­ damentos não lhes são penosos; suas restrições, em seu apreço, não os fazem servis. Não a visualizam como uma lei impossível, teoricamente admirável, praticamente absurda; senão que andam por meio dela e nela. Não a consultam de vez em quando como um tipo de retificador de suas andanças, mas a usam como uma bússola de seu velejar diário, um mapa da estrada que devem per­ correr em sua vida de peregrinação [rumo a Canaã], Tampouco sentem saudade depois de se haverem ingressado na vereda da obediência, nem a deixam ao contemplarem as dificuldades, m es­ mo ante as multiformes tentações que lhes oferecem a chance de regressarem; seu andar contínuo na lei do Senhor é seu melhor testemunho da bem-aventurança de tal condição de vida. Sim, são bem-aventurados mesmo agora. O próprio salmista é uma teste­ munha desse fato: ele o pôs à prova, o experimentou e o escreveu como um fato que arrostou toda negação. Aqui jaz no frontispício da opus magnum de Davi, no cume mais elevado do maior de seus • 10 •


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salmos — “Bem-aventuraclos são aqueles que andam na lei do Se­ nhor.” Áspero pode ser o caminho; inflexível, a regra; severa, a disciplina - disso temos plena consciência. Todavia, um acúmulo de milhares de bem-aventuranças ainda se encontra no viver pie­ doso, pelo quê bendizemos ao Senhor. Temos neste bendito versículo pessoas que desfrutam de cinco coisas benditas: um caminho bendito, uma pureza bendita, uma lei bendita, dada por um Senhor bendito, e um abençoado cam i­ nhar nela. A estas podemos acrescentar o bendito testem unho do Espírito Santo, dado nesta mesma passagem, para que tais pes­ soas sejam, em seus feitos, os benditos do Senhor. Devemos almejar a bem-aventurança que é posta diante de nós, mas não devemos imaginar que podemos obtê-la sem solícito es­ forço. Davi tinha sobeja razão em falar sobre ela; seu discurso neste Salmo é longo e solene, e nos sugere que não se aprende num só dia o m étodo da perfeita obediência; é mister que haja preceito sobre preceito, norma sobre norma; e depois de esforços bastante prolongados, pondo-nos diante do versículo 176 deste Salmo, é possível que ainda clamemos: “Desgarrei-me como uma ovelha perdida; busca teu servo, pois não me esqueço de teus m an­ dam entos.” Entretanto, nosso plano deve ser guardar a palavra do Senhor no recôndito de nossa mente; pois este discurso sobre a beni-aventurança tem por seu clímax o testemunho do Senhor, e unicam en­ te pela com unhão diária com ele, mediante sua Palavra, é que po­ demos nutrir a esperança de aprender seu caminho, ser purifica­ dos de toda mácula e esforçar-nos por andar em seus estatutos. Tomando como ponto de partida esta exposição sobre a bem -aven­ turança, visualizamos o caminho para ela, e sabemos onde sua lei pode ser encontrada. Oremos para que, prosseguindo em nossa meditação, desenvolvamos o hábito de andar em obediência, e por fim sintamos a bem-aventurança da qual lemos aqui. [V. 21

Bein-aventurados os que guardam seus testemunhos, e que os buscam de lodo o coração. • 1I •


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O quê! Uma segunda bênção? Sim, são duplamente abençoa­ dos aqueles cuja vida é nutrida por um zelo íntimo pela glória de Deus. No primeiro versículo, tivemos um caminho impoluto, e fi­ cou estabelecido que a pureza nesse caminho não é uma obra m e­ ramente superficial, mas é assistida pela verdade no íntimo e pela vida procedente da graça divina. Aqui, o que era implícito se torna explícito. Atribui-se bem-aventurança aos que entesouram os tes­ temunhos do Senhor; no quê está implícito que eles examinam as Escrituras, que adquirem compreensão delas, que as amam e en­ tão passam a praticá-las. Primeiro temos que adquirir um a coisa antes de podermos guardá-la. A fim de guardá-la bem, é preciso que nos apoderemos firmemente dela. Não podemos guardar no coração aquilo que não abraçamos sinceramente pelas afeições. A palavra de Deus é sua testemunha ou que comunica o testemunho e importantes verdades que dizem respeito a ele e a nossa relação com ele. Isso devemos desejar conhecer; conhecendo-o, devemos crer nele; crendo-o, devemos amá-lo; e amando-o, devemos retêlo com firmeza contra todos os que se opuserem. Há um a obser­ vância doutrinai da palavra quando nos dispomos a m orrer em sua defesa, e uma observância prática dela quando realmente vive­ mos sob seu poder. A verdade revelada é preciosa como diam an­ tes, e deve ser guardada ou entesourada na memória e no coração como jóias num escrínio, ou como a lei era guardada na arca; isso, contudo, não basta; pois ela se destina ao uso prático, e por isso deve ser guardada ou seguida, como os homens se m antêm no caminho ou seguem uma linha de negócios. Se guardarm os os testemunhos de Deus, eles por sua vez nos guardarão; nos m ante­ rão retos na opinião, confortáveis no espírito, santos na conversa­ ção e esperançosos na expectativa. Se foram sempre de real valor, e nenhum a pessoa sensata põe isso em dúvida, então são dignos de ser guardados; seu efeito designado não é uma conquista tem ­ porária, mas vem por uma perseverante posse deles: “em os guar­ dar há grande recompensa.” Somos obrigados a guardar a Palavra de Deus com todo cui­ dado, porque ela são seus testemunhos. Ele no-los deu, mas ainda são dele. E preciso que os guardemos como um vigilante guarda a • 12 •


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casa de seu patrão; como um mordomo administra os bens de seu senhor; como um pastor guarda o rebanho de seu proprietário. Somos obrigados a prestar contas, porquanto o evangelho nos foi confiado, e ai de nós se formos encontrados infiéis. Não podemos combater o bom combate, nem concluir nossa carreira, a menos que guardemos a fé! Com este alvo em vista, o Senhor nos guarda­ rá; somente aqueles que são guardados pelo poder de Deus, para a salvação, é que serão capazes de guardar seus testemunhos. Por­ tanto, que bem-aventurança se evidencia e se testifica mediante meticulosa convicção na Palavra de Deus e uma contínua obe­ diência a ela! Deus os tem abençoado, os está abençoando e os abençoará para sempre. A bem-aventurança que Davi visualizou em outros, ele a concretizou em si, pois ele diz no versículo 168: “Tenho guardado teus preceitos e teus testem unhos”; e nos versí­ culos 54 a 56, ele associa seus cantos jubilosos e suas felizes m e­ mórias a esta mesma observância da lei, e confessa: “E isto eu fiz, porque guardei teus m andam entos.” As doutrinas que ensinamos a outros, antes devemos experimentar em nós mesmos. E que os buscam de todo o coração. Os que guardam os tes­ tem unhos do Senhor se asseguram de que vão em busca deles mesmos. Se sua Palavra é preciosa, podemos estar certos de que ele mesmo é ainda mais precioso. O tratam ento pessoal com um Deus pessoal é a aspiração de todos quantos se asseguram de que a Palavra do Senhor tenha seu pleno efeito sobre eles. Uma vez tenham os experimentado realmente o poder do evangelho, é m is­ ter que busquemos o Deus do evangelho. Nosso sincero clamor será este: “Oh, que eu saiba onde posso encontrá-lo!” Veja o de­ senvolvimento que essas frases indicam: primeiro, no caminho; então, no transpô-lo; em seguida, descobrindo e guardando o te­ souro da verdade; e, acima de tudo, ir após o Senhor da maneira com o ele preceitua. Note também que, à medida que uma alma avança na graça, mais divinas e espirituais são suas aspirações: o andar externo não satisfaz à alma agraciada, nem mesmo os teste­ m unhos entesourados; no devido tempo, ela se entrega a Deus pessoalmente, e quando, em certa medida, o encontra, ainda o deseja muito mais, e continua a buscá-lo. • 13 •


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Buscar a Deus significa o ardente desejo de ter comunhão com ele de maneira mais íntima, segui-lo mais plenamente, m anter a mais perfeita união com sua mente e vontade, promover sua glória e compreender plenamente tudo o que ele é para os corações san­ tos. O homem abençoado já possui a Deus, e por esse motivo ele o busca. Isso pode parecer contraditório; mas é apenas um paradoxo. Deus não é buscado genuinamente pelas frias ponderações do cérebro; é preciso que o busquemos com o coração. O amor se manifesta amando; Deus manifesta seu coração no coração de seu povo. E vão esforçarmo-nos em compreendê-lo através da razão; é preciso compreendê-lo através da afeição. O coração, porém, não deve ser dividido entre muitos objetos, se porventura o Se­ nhor é buscado por nós. Deus é um só, e não o conheceremos até que nosso coração seja um com o dele. Um coração quebrantado não necessita de ser dominado pela angústia, porque nenhum co­ ração é tão íntegro em sua busca por Deus como o coração que­ brantado, do qual cada fragmento suspira e clama pelo rosto do grande Pai. E o coração dividido que a doutrina do texto censura, e, por estranho que pareça, na fraseologia bíblica um coração pode estar dividido sem estar quebrantado, e pode estar quebrantado, porém não dividido; e no entanto pode ser quebrantado e estar curado, e nunca pode estar curado antes de ser quebrantado. Q uan­ do nosso coração inteiro busca o Deus santo em Cristo Jesus, en­ tão ele se chega para aquele de quem está escrito: “Tantos quantos o tocavam, ficavam perfeitamente curados.” O que o salmista admira neste versículo ele reivindica no déci­ mo, onde diz: “De todo meu coração te busquei.” Fica tudo bem quando a admiração de uma virtude leva à obtenção da mesma. Os que não crêem na bem -aventurança de buscar o Senhor pro­ vavelmente não terão seus corações estimulados para a deseja­ rem; mas aquele que acena para outro bem -aventurado por cau­ sa da graça que nele vê, está no caminho de granjear para si a mesma graça. Se os que buscam o Senhor são bem -aventurados, o que di­ zer daqueles que realmente habitam com ele e sabem que ele lhes pertence? • 14 •


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“Quão bondoso és para com os Que caem! Quão benigno, para com os Que te buscam! Mas, o Que dizer daoueles Que te acham? Ah! isto nenhuma língua nem pena pode expressar: O amor de )esus - o

quc

é,

Ninguém, senão seus amados, pode saber." [v. 31

Também não praticam iniqüiclacle, mas andam em seus caminhos. Também não praticam iniqüidade. Aliás, bem -aventurados devem ser todos aqueles de quem se pode isso afirmar sem reserva e sem explicação: Teremos atingido a região da perfeita bem -aven­ turança quando cessarmos totalmente de pecar. Os que seguem a Palavra de Deus não amam a iniqüidade; a regra é perfeita, e se ela for constantemente seguida não haverá erro. A vida, para o obser­ vador do lado de fora, consiste em atos; e aquele que, em suas atividades, nunca se desvia da eqüidade, quer em relação a Deus, quer em relação aos homens, realmente tomou o caminho da per­ feição, e estejamos certos de que seu coração é íntegro nele. Então notamos que um coração íntegro se desvia do mal, porquanto o salmista diz: “Que o buscam de todo o coração. Também não pra­ ticam iniqüidade.” Receamos que ninguém tenha como alegar ser absolutamente destituído de pecado; todavia nutrimos confiança de que existam muitos que podem alegar que intencional, voluntá­ ria, consciente e continuamente fogem de fazer o que é perverso, ímpio ou injusto. A graça conserva a vida íntegra, mesmo quando o cristão se põe a deplorar as transgressões do coração. Conside­ rados como seres humanos, julgados por seus semelhantes de acor­ do com as norm as que os homens impõem aos homens, o genuíno povo de Deus não pratica iniqüidade: são honestos, íntegros e cas­ tos e, no que tange à justiça e moralidade, são inculpáveis. Portan­ to são bem-aventurados. Andam em seus caminhos. Inclinam-se não só para os gran­ des princípios da lei, mas também para os mínimos detalhes de preceitos específicos. Uma vez que fogem de perpetrar qualquer pecado de comissão, assim também esforçam-se por se ver livres de todo pecado de omissão. Não lhes basta ser inculpáveis, tam ­ 15


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bém desejam ser ativamente justos. É possível que um ermitão fuja para a solidão a fim de não praticar a iniqüidade; um santo, toda­ via, vive em sociedade a fim de servir a seu Deus andando em seus caminhos. Precisamos ser justos tanto positiva quanto negativa­ mente: jamais teremos a posse do segundo, a menos que tomemos posse do primeiro; pois os homens terão que percorrer um cami­ nho ou outro, pois se não seguirem a vereda da lei de Deus, logo/ estarão praticando a iniqüidade. A mais segura maneira de absterse do mal é vivendo totalmente ocupados na prática do bem. Este versículo descreve os cristãos como existem entre nós: embora se­ jam falhos e frágeis, todavia odeiam o mal e não se permitirão viver nele; amam as veredas da verdade, da justiça e da genuína piedade, e habitualmente andarão nelas. Não alegam ser absoluta­ mente perfeitos, exceto em seus anseios, nos quais são de fato puros; pois anseiam ser guardados de todo pecado e de ser guia­ dos a toda a santidade. Gostariam de andar sempre segundo o anseio de seus corações renovados, de seguir o Senhor Jesus em cada pensamento, palavra e ação; sim, gostariam que todo seu ser fosse a encarnação da santidade. [v. 4] Tu ordenaste teus mandamentos, para que diligentemente os obser­ vássemos. De tal sorte que, quando tivermos feito tudo, nos sintamos servos inúteis, tendo feito somente aquilo que nos competia fazer, não indo além do mandamento de nosso Senhor. Os preceitos de Deus requerem criteriosa obediência, não sua observância por aci­ dente. Há quem presta a Deus um serviço displicente, uma sorte de obediência à revelia; o Senhor, porém, não ordenou tal serviço, tampouco o aceita. Sua lei dem anda o amor de todo nosso cora­ ção, de toda nossa mente, de toda nossa alma e de toda nossa força; e uma religião displicente não contém nada disso. Somos também chamados a uma zelosa obediência. Devemos guardar os preceitos sobejamente: os vasos de obediência devem estar cheios até à borda; e o mandamento concretizado, à plenitude de seu significado. Como um profissional diligente se ergue para fazer • 16 •


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tanto negócio quanto possa, assim devemos ser solícitos em servir ao Senhor o máximo que pudermos. Tampouco devemos poupar sacrifícios em agir assim, pois uma obediência diligente também será laboriosa e saturada de renúncia. Os que são profissionais diligentes levantam mais cedo e assentam mais tarde, e negam a si o merecido conforto e repouso. Não se mostram logo cansados; ou, se o sentem, perseveram mesmo com a fronte dolorida e os olhos pesados. É assim que devemos servir ao Senhor. Tal Mestre merece servos diligentes; tal serviço ele demanda e nada menos que isso o satisfaz. Quão raram ente os homens o atendem! Por isso muitos, por sua negligência, perdem a duplicada bênção ex­ pressa neste Salmo. Alguns são diligentes em superstição e indispostos a cultuar; é nosso dever ser diligentes em observar os preceitos de Deus. Não viajaremos com rapidez se não estivermos habituados com a rodo­ via. Os homens se fazem diligentes numa empresa que está gerando prejuízo; quanto mais negócio fazem, mais perda têm: se isso é um grande mal no comércio, pior ainda o é no tocante a nossa religião. Deus não nos ordenou ser diligentes em fazer preceitos, mas em guardá-los. Há quem põe jugo em seu próprio pescoço e faz algemas e norm as para outros; mas uma diretriz sábia se satisfaz com as normas da Santa Escritura, em relação a todos os homens e em todos os aspectos. Caso não ajam os assim, podemos tornarnos eminentes em nossa própria religião, mas não teremos obser­ vado o m andamento de Deus, nem seremos por ele aceitos. O salmista começou com a terceira pessoa: “Bem-aventurados são os retos.” Ele está agora aproxim ando-se do pessoal, atingin­ do a primeira pessoa do plural: “Tu [nos] ordenaste teus m anda­ m entos.” Logo o ouviremos clam ando pessoalmente para si m es­ mo: “Quem dera meus cam inhos fossem dirigidos para observar teus m andam entos.” Q uando o coração se avoluma em am or pela santidade, mais interesse pessoal temos nela. A Palavra de Deus é um livro repassado de afeto; e quando começamos a entoar os louvores divinos, ele logo nos dom ina interiormente e passamos a orar para sermos conformados a seus ensinamentos. Não gostaria o leitor de parar aqui, e de entregar-se à extasiante meditação dc . 17 •


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seu próprio coração na autoridade divina das Escrituras, a fim de devotar-se pessoalmente a cuidadosa, meditativa, constante, pon­ tual e alegre observância dos preceitos do Senhor? [v. 5] Quem dera meus caminhos fossem dirigidos para observar teus man­ damentos! Os mandamentos divinos devem inspirar o tema de nossas ora­ ções. Nós mesmos não podemos guardar os estatutos de Deus exatamente como ele quer que sejam guardados, e contudo aspi­ ramos fazê-lo; o que fazer, senão orar? Precisamos pedir ao Se­ nhor que realize em nós suas obras, do contrário jamais cum prire­ mos seus mandamentos. Este versículo expressa um lamento de dor do salmista por sentir que não guardava os preceitos de Deus diligentemente; é um clamor do fraco que pede socorro a alguém que podia ajudá-lo; é uma súplica de alguém em profunda perple­ xidade, que perdeu seu caminho e se dispõe a caminhar nele nova­ mente; e é a petição da fé de alguém que ama a Deus e confia nele para receber a graça. Nossos caminhos são, por natureza, opostos ao caminho de Deus, e é preciso que nos deixemos orientar pelo Senhor naquela direção que originalmente seu caminho nos conduzia, do contrá­ rio seremos conduzidos à destruição. Deus pode dirigir a mente e a vontade sem violar nossa livre agência, e fará isso em resposta a nossas orações. Aliás, ele já começou a operar naqueles que since­ ramente oram em harmonia com o padrão encontrado neste versí­ culo. O desejo por santidade atual emana do coração crente: oh, que bom que ela já estivesse presente em mim! Mas também signi­ fica uma perseverante santidade para o futuro; pois o salmista an­ seia pela graça de guardar doravante e para sempre os estatutos do Senhor. O texto realmente expressa uma oração em forma de suspiro, ainda que não assuma exatamente essa forma. Desejos e anelos fazem parte da essência da súplica, e pouco importa que forma eles tomem. A oração aceitável é repassada de expressão como esta: “Oh, nosso Pai!” • 18 •


Alguém dificilmente teria esperado uma oração por direciona­ mento; antes, teríamos esperado uma petição por capacitação. Podemos sozinhos tomar uma direção certa? Se não podemos re­ mar, podemos obedecer. O salmista, inclusive, confessa que m es­ mo na m enor parte de seu dever ele se sentia incapaz sem a graça. Ele ansiava que o Senhor influenciasse tanto sua vontade quanto o vigor de suas mãos. Carecemos de uma vara que nos oriente no caminho e de um cajado que nos sirva de apoio. O anseio do texto é inspirado pela admiração da bem-aventurança provinda da santidade, pela contemplação da beleza de ca­ ráter do homem justo e pelo reverente tem or ao m andam ento de Deus. E uma aplicação pessoal, extraída da própria experiência do escritor, das verdades que ele esteve considerando. “Oh, que meus caminhos sejam orientados em guardar teus estatutos.” Que bom seria se todos os que ouvissem esta palavra copiassem este exemplo e revertessem em oração tudo o que ouvissem. Teríamos mais guar­ dadores dos estatutos se tivéssemos mais quem suspirasse e cla­ masse por aquela graça que nos impede de vaguearmos sem rumo. [v. 6]

Então não serei envergonhado, quando tiver respeito por todos teus mandamentos. Então não serei envergonhado. Ele tinha conhecimento da vergonha [ou perturbação do espírito], e aqui se regozija ante a visão de ver-se livre dela. O pecado traz vergonha, e quando o pecado se vai, dissipa-se o motivo para envergonhar-se. Que grande livramento é este! Pois, para certas pessoas, seria preferível a m or­ te do que a vergonha! Quando tiver respeito por todos teus man­ damentos. Ao respeitarmos a Deus, aprendemos a respeitar-nos e a ser respeitados. Sempre que errarmos, estamos nos preparando para o rubor da face e o abatimento do coração. Se ao cometer iniqüidade ninguém sentir vergonha de mim, eu mesmo me senti­ rei envergonhado. Nossos primeiros pais nunca haviam conheci­ do a vergonha, até que se tornaram amigos da antiga serpente; e cia nunca mais os deixou, até que seu gracioso Deus lhes cobriu a nudez com peles de animais sacrificados. A desobediência os to r­ • 19 •


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nou nus e confusos. Nós também teremos sempre motivo para sentir-nos confusos, até que cada pecado seja vencido e cada de­ ver, cumprido. Quando tivermos devotado um respeito contínuo e universal pela vontade do Senhor, então seremos capazes de visua­ lizar nosso próprio rosto no espelho da lei, e não nos envergonhare­ mos diante dos homens e dos demônios, por mais profunda ira e malícia possam eles revelar, tentando culpar-nos de alguma coisa. Muitos sofrem de excessiva timidez, e neste versículo temos a sugestão da cura. Um senso permanente do dever nos fará ousa­ dos; teremos medo de ter medo. Nenhum acanhamento na pre­ sença do homem nos estorvará quando o temor de Deus tomar posse plena de nossas mentes. Quando estivermos na estrada do rei em plena e radiante aurora, e estivermos engajados na ativida­ de do Soberano, então não precisaremos pedir nenhum a perm is­ são ao homem. Seria um a desonra a um rei envergonhar-se de sua criadagem e de seu serviço; nenhuma vergonha desse tipo jamais deveria enrubescer a face de um cristão, nem lhe faltará a devida reverência pelo Senhor seu Deus. Não existe num a vida santa motivo algum para envergonhar-se: alguém pode envergonhar-se de seu orgulho, de sua opulência, de seus próprios filhos; porém jamais se envergonhará de haver em tudo respeitado a vontade do Senhor seu Deus. É digno de nota que Davi não promete a si nenhum a im unida­ de de sentir vergonha até que tenha cuidadosamente prestado ho­ menagem a todos os preceitos. Pondere na palavra ‘todos’ e não deixe que um mandamento fique sem ser respeitado por você. A obediência parcial ainda nos deixa sujeitos a prestar conta dos mandamentos que negligenciamos. Uma pessoa pode possuir mil virtudes, e ainda uma única falha pode cobri-la de vergonha. A um pobre pecador que se vê mergulhado em desespero pode parecer totalmente improvável que seja um dia libertado da vergo­ nha. Enrubesce-se e se sente confuso, como se nunca mais haverá de novamente erguer seu rosto. Deveria ler estas palavras: “Então não terei de que me envergonhar.” Davi não está sonhando nem idealizando um caso impossível. Ele assegura-lhe, querido amigo, que o Espírito Santo pode renovar em você a imagem de Deus, de • 20 •


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sorte que poderá levantar o rosto sem medo. Oh, santificação que nos põe novamente no caminho de Deus! A qual nos dá a ousadia de fitar a Deus e a seu povo, e nos faz dar adeus ao rubor e ao espírito conturbado. O Dr. Watts expressa a idéia em sua admirável estrofe, que nos leva a cantar com ele: Então meu coração se alegrará: E meu rosto não mais mostrará rubor, Quando obedecer teus estatutos E honrar teu santo Nome. [v. 7]

Render-te-ei graças com integridade de coração, quando tiver apren­ dido teus retos juízos. Render-te-ei graças. Da oração ao louvor nunca é uma jorna­ da longa demais nem difícil. Esteja certo de que aquele que ora por santidade um dia há de louvar agradecido pela felicidade. A vergonha uma vez desvanecida, o silêncio é quebrado, e a pessoa outrora muda passará a cantar: “Louvar-te-ei.” Ela não pode fa­ zer outra coisa senão com prometer-se a louvar enquanto busca a santificação. Isso revela que ela sabe muito bem em que cabeça porá a coroa: “Louvar-T£-ei.” Poderia sentir-se um a pessoa lou­ vável, mas prefere considerar a Deus como o único digno de seu louvor. Pelo prisma da dor e da vergonha provenientes do pecado, ela mede suas obrigações para com o Senhor, o qual lhe ensina a arte de viver, levando-a primeiramente a escapar, purificando-se de sua miséria. Com integridade de coração. Seu coração será íntegro, se o Senhor instruí-lo para em seguida poder louvar seu Mestre. Existe algo chamado louvor falso e fingido, o qual o Senhor abomina; porém não existe música comparável àquela que brota de um a alma purificada e que permanece em sua integridade. E na escola em que se ensina a integridade que se requer louvor sincero que brota da retidão do coração. O coração íntegro certamente bendirá o Senhor; pois a adoração agradecida é parte de sua integridade 21


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ninguém poderá ser justo enquanto não for impoluto para com Deus; e isso envolve o dever de render-lhe louvores. Quando tiver aprendido teus retos juízos. Precisamos apren­ der a louvar; aprender que podemos louvar; e louvar quando tiver­ mos aprendido. Quando estivermos abertos ao aprendizado, en­ tão o Senhor poderá ensinar-nos, especialmente diante de um tema como teus juízos, pois eles são um abismo profundo. Enquanto passam diante de nossos olhos, e começamos a aprendê-los, pas­ samos a louvar a Deus; pois o original não é: “Quando tivermos aprendido”, e, sim: “durante minha aula”. Enquanto sou ainda estudante, serei um corista: meu íntegro coração louvará tua reti­ dão; minha mente purificada admirará teus juízos. A providência divina é um livro cheio de instruções, e para aqueles cujo coração é íntegro ele é um hinário, no qual entoam os cânticos de Jeová. A Palavra de Deus é repassada de registros de suas justas providên­ cias, e quando a lemos nos sentimos compelidos a irromper-nos em expressões de santo deleite e de ardente louvor. Quando lemos os juízos de Deus e participamos efusivamente deles, somos d u ­ plamente movidos a cantar - cânticos sem qualquer formalidade, sem hipocrisia, sem indiferença; pois o coração se revela íntegro na apresentação de seu louvor. [v. 8] Guardarei teus estatutos. Não me desampares completamente. Guardarei teus estatutos. Uma calma resolução. Quando lou­ vamos calmamente, em sólida resolução, estará tudo bem com nossa alma. O zelo que se esmera em cantar, porém não deixa nenhum resíduo prático de um viver santo, é bem pouco digno: “Louvar te-ei” está em íntima parceria com “Guadarei”. Essa firme resolu­ ção é de nenhum a forma jactanciosa, no dizer de Pedro: “Ainda que eu m orra contigo, contudo não te negarei”; porque vem se­ guido de uma humilde oração por auxílio divino: “Oh, não me desampares completamente!” Sentindo sua própria incapacidade, ele trem e de medo de ficar sozinho, e tal medo é agravado pelo horror ante a possibilidade de cair em pecado. O ‘guardarei’ soa justam ente agora que o humilde clamor é ouvido juntam ente com • 22 •


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ele. Eis um ditoso amálgama: resolução e dependência. Encontra­ mo-nos com aqueles que oram aparentando humildade, mas não vemos neles nenhum a força de caráter, nenhuma decisão e, con­ seqüentemente, o recurso da meditação não se acha incorporado em sua vida; em contrapartida, nos deparamos com abundância de resolução acompanhada de total ausência de dependência de Deus, e isso faz um caráter tão paupérrimo como a primeira atitu­ de. Que o Senhor nos conceda possuirmos uma tal combinação de excelências, para que sejamos “perfeitos e íntegros, em nada deficientes”. Esta é uma oração que indubitavelmente será ouvida; pois ousa­ damente se põe a rogar a Deus que olhe para uma pessoa que se dispõe a obedecer a sua vontade, e por isso deve ser-lhe muitíssimo agradável estar presente com tal pessoa e socorrê-la em seus esfor­ ços. Como poderia ele esquecer alguém que não esquece sua lei? A reverência peculiar que matiza esta oração com cores som ­ breadas é o medo do total abandono. E natural que a alma clame contra tal calamidade. Viver isolados para podermos descobrir o quanto somos frágeis é uma prova suficientemente terrível; ser totalmente abandonado eqüivale a ruína e morte. Ocultar Deus o rosto num laivo de ira, por um instante apenas, produz em nós profunda humilhação - absoluta desolação nos mergulharia final­ mente no mais profundo inferno. O Senhor, porém, jamais esque­ cerá seus servos completamente, e bendito seja seu Nome, porque ele nunca quer fazer issoí Se aspirarmos guardar seus estatutos, ele nos guardará; sim, sua graça nos levará a cum prir sua lei. Há uma descida abrupta do m onte de bênção, que começa no primeiro versículo, ao quase pranto deste oitavo versículo; todavia isso é espiritual e experimentalmente um decidido e gracioso cres­ cimento; pois da simples admiração da benevolência de Deus che­ gamos ao ardente anelo por ele, anelando pela com unhão com ele e vendo-nos dom inados por intenso horror de não desfrutá-la. O suspiro do versículo 5 é agora suplantado por uma oração verbal que procede das profundezas de um coração cônscio de sua indig­ nidade e sensível a sua inteira dependência do am or divino. Os dois verbos no futuro —“louvar-te-ei” e “guardarei teus estatutos” • 23 •


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—precisam ser temperados com uma humilde petição, do contrá­ rio poder-se-ia imaginar que a dependência da pessoa bondosa estava até certo ponto fixa em sua própria determinação. Ele apre­ senta suas resoluções como sacrifício, mas clama ao céu pelo fogo. O querer está nele, mas não pode concretizar aquilo que tanto gostaria, a menos que o Senhor o habite e o habilite. Este último versículo da primeira oitava tem um elo de ligação com o primeiro da próxima [oitava, v. 9], nesta forma: Senhor, não te esqueças de mim, pois de que maneira purificarei meu ca­ minho se não caminhas comigo, e tua lei cessa de exercer poder sobre mim?

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(w. 9-16) De que maneira poderá o jovem guardar puro seu caminho? Obser­ vando-o segundo tua palavra. De todo o coração te busquei; não me deixes fugir de teus mandamentos. Guardei no coração tuas palavras, para não pecar contra ti. Bendito és tu, ó Senhor; ensina-me teus esta­ tutos. Com meus lábios tenho narrado todos os juízos de tua boca. Mais me regozijo com o caminho de teus testemunhos do que com todas as riquezas. Meditarei em teus preceitos e a tuas veredas terei respeito. Deleitar-me-ei em teus estatutos; e não me esquecerei de tua palavra. Estes versículos começam nos primórdios da vida. Embora es­ critos por um ancião, foram escritos visando a todos os jovens. Somente aquele que começa com Deus no verdor da juventude é que será capaz de escrever assim com base na experiência e na maturação da idade. Logo que Davi termina de introduzir seu tema com uma oitava de versículos, ele passa a focalizar os jovens na presente estrofe de oitava. Como teria ele ponderado sobre a ju ­ ventude piedosa! No hebraico, cada versículo, nesta seção, com e­ ça com B. Se pensamentos sobre o Bendito Caminho forma seu A, então os pensam entos sobre a Bendita Juventude saturarão a pró­ xima letra. Que glória estar primeiramente com Deus! Oferecerlhe o orvalho da aurora da existência é fazer da vida a suprema felicidade. [v. 9] De que maneira poderá o jovem guardar puro seu caminho? Obser­ vando-o segundo tua palavra. De que maneira poderá o jovem guardar puro seu cami­ nho? Como poderá ele tornar-se e manter-se santo na prática? • 25 •


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Ele não passa de um jovem, cheio de quentes paixões e carente de conhecimento e experiência; como poderá conquistar o certo e conservar o certo? Nunca houve uma pergunta mais importante para qualquer pessoa; nunca haverá um tempo mais oportuno para fazê-la do que no início da vida. Não é uma tarefa de forma algu­ ma fácil para um jovem ver-se no espelho da realidade. Deseja escolher um caminho limpo, sendo ele mesmo limpo, ver seu ca­ minho isento de qualquer imundície que porventura surja no futu­ ro e encerrar mostrando um curso límpido desde o primeiro passo até o último. Mas, ai de mim!, dirá ele, meu caminho já é impuro pelo pecado atual que já cometi, e eu mesmo possuo em minha própria natureza a tendência para aquilo que contamina. Mas essa é uma questão muito difícil: primeiro, de começar certo; em se­ guida, de ser sempre capaz de saber escolher o certo e de prosse­ guir agindo certo até que a perfeição seja por fim alcançada —se isso é difícil para qualquer pessoa, como um jovem poderá conse­ gui-lo? O caminho, ou a vida, de uma pessoa tem que ser purifica­ da dos pecados de sua juventude atrás de si, e mantida pura dos pecados que surgirão diante de si: eis a obra; eis a dificuldade. Nenhuma ambição mais nobre que esta poderá um jovem de­ parar diante de si, nenhuma para a qual é ele chamado a assegurar uma vocação; porém nenhuma em que encontrará maiores difi­ culdades. Entretanto, que ele jamais se esquive do glorioso em pre­ endimento de viver uma vida pura e graciosa; ao contrário, que ele descubra no caminho todos os obstáculos que precisam ser venci­ dos. Tampouco pense ele que já conhece a estrada para uma vitó­ ria fácil, nem sonhe que pode guardar-se por sua própria sabedo­ ria. Fará bem seguindo o exemplo do salmista, tornando-se um solícito inquiridor, perguntando como poderá purificar seu cam i­ nho. Que se torne um discípulo prático do santo Deus, o único que pode ensiná-lo como vencer o mundo, a carne e o diabo, esta tríade de conspurcadores por meio da qual a vida promissora de muitos se torna conspurcada. Ele é jovem e inexperiente na estra­ da, por isso não se acanhe de freqüentemente inquirir sobre o ca­ minho de alguém que está pronto e habilitado para instruí-lo no mesmo. • 26 •


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Nosso caminho é um tema que nos preocupa profundamente, c é muitíssimo preferível inquirir sobre ele do que especular acerca de temas misteriosos que antes fascina do que ilumina a mente. Dentre todas as perguntas que um jovem faz, e são muitas, que esta seja a primeira e principal: “De que maneira poderei guardar puro meu cam inho?” Esta é uma pergunta sugerida pelo senso comum e acossada pelas ocorrências diárias; mas não deve ser respondida pela razão desamparada; nem, quando respondida, as diretrizes podem ser confirmadas pelo poder humano impotente. Nossa tarefa é formular a pergunta; a Deus cabe fornecer-nos a resposta e capacitar-nos para torná-la concreta. Observando-o segundo tua palavra. Querido jovem, que a Bíblia seja seu mapa, e que você exerça grande vigilância para que seu caminho se amolde a suas diretrizes. Você deve cuidar para que sua vida diária seja pautada pelo estudo de sua Bíblia, e deve estudá-la para que aprenda a precaver-se em sua vida diária. Com o máximo cuidado, uma pessoa ainda poderá extraviar-se, caso seu mapa a conduza equivocadamente; porém, com um bom mapa, ela ainda poderá perder sua estrada, caso esteja desatenta. O ca­ minho estreito jamais poderá ser achado por acaso, tam pouco uma pessoa descuidosa jamais viverá uma vida santa. Podemos pecar sem refletir; o que temos a fazer é apenas negligenciar a grande salvação e arruinar nossa alma. Obedecer, porém, ao Senhor e andar retamente carece de todo nosso coração, alma e mente. Que os displicentes recordem isso. Não obstante, a palavra é absolutamente necessária; pois, caso contrário, a prudência se transform ará em mórbida ansiedade e a cscrupulosidade poderá transformar-se em superstição. Um capi­ tão poderá vigiar de seu tombadilho a noite inteira; mas se nada conhecer da região costeira e não tiver a bordo nenhum piloto apto, com toda sua prudência poderá apressar-se para o naufrá­ gio. Não basta querer ser certo; pois a ignorância pode levar-nos a pensar que estamos fazendo o serviço de Deus, quando, na verda­ de, o estamos provocando; e o fato de nossa ignorância não rever­ terá o caráter de nossa ação, por mais que ela mitigue seu poder criminoso. Se uma pessoa demarcar cuidadosamente o que crê • 27 •


Saim o 11? ser uma dose de medicamento útil, ela m orrerá se vier a perceber que lançou mão de um frasco errado e que serviu-se de um vene­ no mortífero; o fato de fazer isso ignorantemente não alterará o resultado. Ainda assim, um jovem poderá cercar-se de dez mil males ao valer-se cuidadosamente de um critério imponderado e recusar o recebimento da instrução da Palavra de Deus. Ignorância inten­ cional por si só eqüivale a pecado intencional, e o mal advindo daí é injustificado. Que cada pessoa, seja jovem ou idosa, que anseia ser santa, então mantenha em seu coração uma santa vigilância, e mantenha sua santa Bíblia aberta bem diante de seus olhos. Aí ela encontrará assinalada cada curva da estrada, cada lamaçal, cada atoleiro indicado, com a via de chegada desimpedida; e aí, tam ­ bém, achará luz para suas trevas, conforto para sua exaustão e companhia para sua solidão, de modo que, com seu auxílio, alcan­ çará a bênção do primeiro versículo do Salmo, a qual inspirou a solicitação do salmista e despertou seus anseios. Note a posição que a primeira seção de oitos versículos m an­ tém para com seu primeiro versículo: “Bem-aventurados os irre­ preensíveis em seu caminho”, e a segunda seção corre paralela a ele, com a pergunta: “De que maneira poderá o jovem guardar puro seu cam inho?” A bem-aventurança que é posta diante de nossos olhos num a promessa condicional deve ser buscada de for­ ma prática na forma designada. Diz o Senhor: “Por isso eu serei buscado pela casa de Israel para agir por eles.” Quanto mais depressa nos valemos de uma promessa de Deus, melhor; especialmente quando no raiar do dia nos nutrimos de ânimo, pois disse a Sabedoria: “Aqueles que no alvorecer me bus­ cam, encontrar-m e-ão.” E lamentável que por um ano, ou mesmo um dia ou uma hora, percamos a bem-aventurança que pertence à santidade. [v. 10] De todo meu coração te busquei; não me deixes fugir de teus manda­ mentos. De todo meu coração te busquei. Seu coração saíra em busca de Deus como tal; não só desejava obedecer a suas leis, mas tam ­ • 28 •


bém comungar com sua pessoa. Essa é uma busca real, justa e persistente, e pode muito bem ser continuada de todo o coração. O modo mais seguro de purificar o caminho de nossa vida é bus­ cando a Deus como tal e diligenciando-nos em perm anecer em comunhão com ele. E agradável ver como o coração do escritor se volve distinta e diretamente para Deus. Ele estivera considerando uma im portan­ te verdade no versículo anterior; aqui, porém, ele mais poderosa­ mente sente a presença de seu Deus, e lhe fala e ora a ele como alguém que se encontra bem perto. Um coração sincero não pode viver por muito tempo sem comunhão com Deus. Sua petição se fundamenta no propósito de sua vida; ele está buscando o Senhor e roga a que o Senhor não permita que ele' desista de sua busca. E através da obediência que vamos após Deus; daí a oração: “Não me deixes fugir de teus m andam entos.” Pois se desistirmos dos caminhos designados por Deus, certam ente não acharemos o Deus que os designou. Quanto mais a totalidade do coração hum ano é posta na santidade, mais ele teme cair em peca­ do. Ele não se sente suficientemente temeroso de cometer trans­ gressão deliberadamente quando não passa de um viandante dis­ plicente. Ele não pode tolerar um aspecto displicente nem um pen­ samento disperso que vagueia para longe dos limites do preceito. Devemos ser como os que sinceramente buscam a Deus, os quais não têm tempo nem vontade de perambular, e juntam ente com nossa sinceridade devemos cultivar um zeloso temor para não va­ guearmos longe da vereda da santidade. Duas coisas podem ser bem parecidas e ao mesmo tempo total­ mente distintas: os santos são ‘peregrinos" - “Sou peregrino na ter­ ra” (v. 19) -, mas não são andarilhos; estão de passagem pelo país dos inimigos, mas sua rota segue em frente; estão buscando seu Senhor enquanto atravessam essa terra estrangeira. Seu caminho não é visto pelos homens; porém ainda não perderam sua rota. O homem de Deus se exercita, mas não confia em si mesmo; seu coração está em seu caminhar com Deus; mas ele sabe que mesmo toda sua força não basta para mantê-lo no rum o certo, a menos que seu Rei seja seu guardador; e Aquele que fez os m an­ • 29 •


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damentos o fará perseverante em obedecê-los; daí a oração: “Não me deixes fugir.” Não obstante, tal senso de carência jamais se converteu em apologia da indolência; pois enquanto orava para ser guardado na rota certa, ele se precavia para percorrê-la, bus­ cando o Senhor com todas as veras de seu coração. Note como a segunda oitava deste Salmo se harmoniza com a primeira: onde o versículo 2 declara que o homem, para ser bemaventurado, deve buscar o Senhor de todo seu coração; o presente versículo reivindica a bênção declarando o caráter: “De todo meu coração te busquei.” [v. 11] Guardo no coração tuas palavras para não pecar contra ti. Quando uma pessoa piedosa suplica pelo favor divino, ela deve criteriosamente usar todos os meios para sua obtenção; e, con­ seqüentemente, como o salmista suplicara que fosse preservado de vaguear sem rumo, ele aqui nos mostra a santa precaução que tomara para evitar de cair em pecado. “Guardei no coração tuas palavras.” Seu coração seria guardado pela palavra, visto haver guardado a palavra em seu coração. Tudo quanto escrevera sobre a palavra, e tudo quanto lhe fora revelado pela voz divina - tudo, sem exceção, ele armazenara em suas afeições, como um tesouro a ser preservado num escrínio, ou como uma semente selecionada para ser depositada no solo fértil - que solo mais fértil há do que um coração renovado, totalmente dedicado a buscar o Senhor? A palavra era do próprio Deus, e por isso era preciosa ao servo de Deus. Ele não usa a palavra sobre seu coração como um talismã, mas a ocultou em seu coração como uma norma. Ele a deposita onde habita o amor e a vida, e ali ela encheu as recâmaras com doçura e luz. Devemos imitar a Davi, imitando tanto sua atitude subjetiva quanto seu caráter objetivo. Primeiro, devemos ponde­ rar que o que cremos é genuinamente a palavra de Deus; isso fei­ to, devemos ocultá-la ou entesourá-la, cada um de per si; e é pre­ ciso que notemos bem que isso deve ser feito não como uma proe­ za da memória, mas como um jubiloso ato das afeições. Para não pecar contra ti. Eis aqui o objetivo almejado. Como • 30 •


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disse alguém corretamente: Aqui está a coisa mais preciosa - tua palavra; oculta no melhor lugar - em meu coração; com o melhor dos propósitos - para não pecar contra ti. Isso foi feito pelo sal­ mista com cuidado pessoal, como alguém que oculta cuidadosa­ mente seu dinheiro quando receia a presença de ladrões; neste caso, o temível ladrão era o pecado. “Pecar contra Deus” é o con­ ceito cristão de mal moral; as demais pessoas só se preocupam quando ofendem seus semelhantes. A palavra de Deus é o melhor preventivo para a ofensa contra Deus, pois ela expressa sua mente e vontade e se propõe a levar nosso espírito a conformar-se com o divino Espírito. Nenhuma cura para o pecado na vida se compara à palavra na sede da vida, que é o coração. Obtém-se uma agradável variedade de significado pondo a ênfase nas palavras ‘tua’ e ‘ti’. Ele fala a Deus, ama a palavra por­ que ela é a palavra de Deus e odeia o pecado porque ele é pecado contra o próprio Deus. Se porventura aborrece alguém, sua con­ clusão é que com isso ele ofendeu a Deus. Se não provocamos o desprazer de Deus é porque entesouramos sua própria palavra. É também digno de nota o modo pessoal como alguém tem en­ te a Deus faz isso: “De todo meu coração te busquei.” Seja o que for que outros escolham fazer, ele já fez sua escolha e já colocou a Palavra nos recessos mais íntimos de sua alma como seu mais de­ sejável deleite; e se porventura outros preferem transgredir, seu alvo é seguir após a santidade: “Para eu não pecar contra ti.” Isso não era o que se propusera fazer, mas o que já havia feito. Muitos são ostensivos em prometer; o salmista, porém, fora autêntico em concretizar; por isso esperava ver um resultado seguro. Quando a Palavra está escondida no coração, a vida estará resguardada do pecado. O paralelismo entre a segunda oitava e a primeira ainda conti­ nua. O versículo 3 fala de não praticar iniqüidade, enquanto que este versículo trata do método de não pecar. Quando formamos uma idéia de alguém abençoadamente santo (v. 3), ela nos leva a lazer um ardente esforço para atingirmos a mesma sacra inocên­ cia c divina felicidade; e isso só pode ocorrer através de um cora­ ção piedoso alicerçado nas Escrituras. • 31 •


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[v. 12] Bendito és tu, ó Senhor; ensina-me teus estatutos. Bendito és tu, ó Senhor. Estas palavras de adoração são oriun­ das de intensa admiração pelo caráter divino, o qual o escritor humildemente almeja imitar. Ele bendiz a Deus por tudo o que lhe revelara e operara nele; ele o louvo com a calidez de reverente amor e com a profundidade de santa admiração. Estas são tam ­ bém palavras de percepção que emanam da consciência da pro­ funda e infinita felicidade de Jeová em seu interior. O Senhor é e deve ser bendito, pois ele é a perfeição da santidade; e essa prova­ velmente seja a razão por que isso é usado como uma súplica neste lugar. E como se Davi dissesse: Vejo que de conformidade contigo meu caminho para a felicidade foi encontrado, pois tu és supre­ mamente bendito; e se em minha estatura assimilei tua própria santidade, também serei participante de tua bem-aventurança. Mal chegou a palavra em seu coração quando um ardente de­ sejo veio à tona para assimilá-la e guardá-la. Quando o alimento é deglutido, 0 próximo passo é digeri-lo; e quando a palavra é rece­ bida no âmago da alma, a primeira oração é: Senhor, ensina-me seu significado. “Ensina-me teus estatutos.”; pois somente assim posso aprender o caminho da bem-aventurança. Tu és tão bemaventurado, que estou certo de que te deleitarás em abençoar ou­ tros; e imploro-te que me dês esta dádiva a fim de que eu seja instruído em teus mandamentos. As pessoas felizes geralmente sentem o maior prazer em fazer outros felizes; e com toda certeza o Deus feliz se disporá em comunicar santidade que é a fonte da felicidade. A fé inspirou esta oração e a alicerçou, não em algo visto no homem orando, mas exclusivamente na perfeição do Deus a quem se faz a súplica. Senhor, tu és bendito, por isso abençoame com tua doutrina. Precisamos ser discípulos ou aprendizes - ensina-me. Que honra ter Deus pessoalmente como professor! Quão ousado é Davi em suplicar ao Deus bendito que o ensine! Todavia foi o Senhor mesmo quem pôs tal desejo em seu coração quando a sacra pala­ vra foi depositada ali, e portanto podemos estar certos de que ele • 32 •


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não se mostrou exageradamente ousado em expressá-la. Quem não se dispõe a entrar na escola de tal Professor com o fim de aprender dele a arte do santo viver? A este Instrutor devemos submeter-nos, caso queiramos guardar de maneira prática os estatu­ tos da retidão. O Rei que ordenou os estatutos sabe perfeitamente seu significado, e visto serem eles o produto de sua própria natu­ reza, ele pode inspirar-nos melhor com o espírito dos mesmos. A petição se impõe a todos quantos desejam purificar seu caminho, visto ser ela muito prática e solícita por instrução, não com base na erudição secreta, mas com base na lei na forma de estatuto. Se porventura conhecemos os estatutos do Senhor, então possuímos uma educação que é muitíssimo essencial. Que cada um de nós saiba dizer: Ensina-me teus estatutos. Eis aqui uma doce oração para ser feita a cada dia. Ela está a um passo do versículo 10: “Não me deixes fugir”, como este está a um passo do versículo 8: “Não me desampares jamais.” Sua resposta se acha nos versículos 98-100: “Teus mandamentos me fazem mais sábio que meus inimigos; porque, aqueles, eu os tenho sempre comigo. Compreendo mais que todos meus mestres, porque m e­ dito em teus testemunhos. Sou mais prudente que os idosos, por­ que guardo teus preceitos.” Não, porém, até que fosse repetido ainda pela terceira vez no “Ensina-me” dos versículos 33 e 66, para o quê solicitei a atenção de meus leitores. Mesmo depois des­ ta terceira súplica, a oração ocorre novamente em diversas pala­ vras nos versículos 124 e 139, e o mesmo anseio se aproxima do final do Salmo, no versículo 171: “Profiram louvor meus lábios, pois me ensinas teus decretos.” [v. 13]

Com os lábios tenho narrado todos os juízos de tua boca. O aluno do versículo 12 é aqui o próprio professor. O que aprendemos em secreto devemos proclamar dos telhados. O sal­ mista havia feito isso. A medida que conhecia, ele falava. Deus revelara com sua própria boca, por assim dizer, muitos de seus juízos através de revelação clara e pública; esses juízos é nosso dever repetir, transformando, por assim dizer, em ecos infinitos e • 33 •


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exatos de sua própria e infalível voz. Há juízos divinos que são um profundo abismo, os quais ele não revela e nos quais seremos sábi­ os em não intrometer-nos. O que o Senhor ocultou nos será pre­ sunçoso tentar descobrir; mas, em contrapartida, o que o Senhor revelou nos será vergonhoso manter velado. Ao cristão é um gran­ de conforto, em tempo de tribulação, volver seus olhos para a vida pregressa e poder exclamar haver cumprido seu dever à luz da Palavra de Deus. De haver sido, como Noé, um pregador da justi­ ça; desfrutar de grande alegria quando vierem os dilúvios e o mundo ímpio estiver sendo destruído. Os lábios que tiverem sido usados na proclamação dos estatutos de Deus estão certos de ser aceitos quando implorarem que Deus cumpra suas promessas. Se tiver­ mos tal respeito por aquilo que procede da boca de Deus, aquilo que temos publicado longe e amplamente, podemos descansar ple­ namente certos de que Deus também respeitará as orações que forem pronunciadas por nossa boca. Um método eficaz para um jovem purificar seu caminho é de­ dicando-se ele continuamente à pregação do evangelho. Ele não pode deixar de notar aqueles cuja alma se ocupa totalmente em proclamar os juízos do Senhor. Ao ensinarmos, aprendemos; ao treinarmos a língua para a santa proclamação, dominamos todo o corpo; ao nos familiarizarmos com o divino procedimento, nos deleitamos na justiça; e assim, de uma tríplice forma, nosso cam i­ nho é purificado enquanto proclamamos o caminho do Senhor. Que alegria para alguém que é capaz de retroceder sua visão para o fiel testemunho em prol da divina verdade! Quando os can­ sativos e sacros serviços dominicais cheguem ao fim, quão doce é sentir que proclamamos, não nossas próprias palavras, mas as doutrinas da divina revelação! Quando chegar o dia de nossa par­ tida, que imensa consolação poder dizer: “Guardei a fé.” Segura­ mente Cristo rogou por aqueles cujas vidas são gastas em implo­ rar a ele. [v. 14] Mais me regozijo com o caminho de teus testemunhos do que com todas as riquezas. • 34 •


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Deleitar-se na Palavra de Deus é uma prova infalível de que ela de fato tomou posse do coração, e assim está purificando a vida. O salmista não só afirma que se regozija, mas que se regozijara. Durante anos sua alegria e bênção tinham sido dedicar sua alma ao ensino da Palavra. Seu júbilo não só procedia da Palavra de Deus, mas também das características práticas dela. O caminho lhe era tão precioso quanto a Verdade e a Vida. Com Davi não era uma simples questão de pegar e escolher, mas que escolheu pri­ meiro o mais prático. “Do que com todas as riquezas.” Ele com ­ parou seu intenso prazer na vontade de Deus com grandes e vari­ adas situações que uma pessoa possui, e seu coração se regozija nessas coisas. Davi tinha experiência com as riquezas oriundas da soberania cuja posse veio de conquistas; ele valorizava a riqueza que procede do labor ou que vem de herança: ele conhecia “todas as riquezas”. O gracioso rei se alegrava em ver o ouro e a prata lançados em seu tesouro para empregar grandes quantias na cons­ trução do Templo de Jeová no Monte Sião. Alegrava-se em todas as sortes de riquezas consagradas e destinadas aos mais nobres usos; e todavia o caminho da Palavra de Deus lhe injetara muito mais prazer do que mesmo tais riquezas. Observe que sua alegria era pessoal, distinta, compensadora e sobeja Não admira que no versículo anterior tenha ele se gloriado em haver falado muito da­ quilo em que tanto se regozijava: uma pessoa pode falar com boca cheia daquilo em que se deleita. [v. 15] Meditarei em teus preceitos e a tuas veredas terei respeito. Meditarei em teus preceitos. Aquele que se deleita interior­ mente em algo não afasta do mesmo sua mente. Como o avarento amiúde volta a falar de seu tesouro, assim o crente devoto, por meio de freqüente meditação, se volve para a principesca riqueza que descobriu no Livro do Senhor. Para algumas pessoas, m edita­ ção é uma tarefa; para a pessoa de caminho purificado, ela é uma alegria. Aquele que tem meditado voltará a meditar; aquele que diz: “regozijei-me” é o mesmo que acrescenta: “meditarei” . N e­ nhum exercício espiritual é mais gratificante à alma do que o da • 35 •


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meditação devota; por que, pois, muitos de nós somos tão excessi­ vamente relapsos quanto a ela? E digno de observação que a parté preceptiva da Palavra de Deus era um especial tema de meditação para Davi; e isso é muito natural, porquanto estava ainda em sua mente a pergunta concernente ao jovem que purifica seu caminho. Piedade prática é piedade vital. E a tuas veredas terei respeito. Ou seja, pensarei muito sobre elas à medida que sei o que teus caminhos significam; e ainda: Pensarei muito nelas à medida que vai crescendo a reverência que nutro por teus caminhos. Avaliarei o que teus caminhos significam para mim, para que me encha de reverência, de gratidão e de amor; e então observarei quais são os caminhos nos quais queres que te siga; desses terei cuidadosa vigilância, para que eu me torne obe­ diente e prove ser um genuíno servo de um Senhor tão amável. Note como os versículos se tornam mais íntimos à medida que avançam: do resultado do versículo 13 avançamos para a alegria do versículo 14; e então chegamos à secreta meditação do espírito feliz. As graças mais ricas são aquelas que habitam no recôndito mais profundo da alma. [v. 16] Terei prazer em teus decretos; não me esquecerei de tua palavra. Terei prazer em teus decretos. Neste versículo, o deleite segue a meditação, da qual advém o florir e o amadurecer. Quando não contamos com nenhum outro lenitivo, mas nos achamos totalmente sozinhos, é uma profunda alegria para o coração meditar consigo mesmo e suavemente sussurrar: “Deleitar-me-ei em mim mesmo. Mesmo que o tempo do gorjeio dos pássaros ainda não tenha che­ gado, e a voz da rola não se ouviu em nossa terra, todavia me deleitarei em mim m esmo.” Essa é a melhor e a mais nobre de todas as alegrias; de fato, é a boa parte que jamais nos será tirada; mas nenhum deleite nosso em algo que esteja abaixo de Deus se destina a ser a satisfação eterna da alma. O livro de estatutos se destina a ser a alegria de toda pessoa leal. Quando o cristão se delonga sobre as sacras páginas, sua alma arde em seu íntimo quan­ do ele se volta para uma e então para outra das grandes e régias • 36 •


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palavras do grande Rei - palavras copiosas e sólidas, imutáveis e divinas. Não me esquecerei de tua palavra. Os homens não esquecem facilmente o que entesouraram (v. 14), aquilo em que muito pen­ sam (v. 15) e aquilo de que muito falam com freqüência (v. 13). Todavia, visto que nossa memória sempre nos trai, é bom que a amarremos com um nó bem forte, usando este cordão: “Não me esquecerei.” Note bem como duas ‘vontades’ (w. 13 e 14) seguem duas ‘posses’. Não podemos nos dar ao luxo de prom eter para o futuro se fracassamos totalmente no passado; mas enquanto a graça nos capacitar para a realização de algo, podemos confiadamente espe­ rar que ela nos capacite a fazer muito mais. Uma ação reiterada se torna um hábito, e quando os hábitos são bem formados, podemos sem alarde conservá-los bem, e ain­ da implantá-los em outros exercícios mais importantes. Não obs­ tante, é bom nunca permitirmos que nosso querer resolva exceder nosso ter. É curioso observar como estes dezesseis versículos estão m ol­ dados no versículo 8: as mudanças são expressas nas mesmas pa­ lavras, mas o significado é completamente diferente; não há sus­ peita de haver uma repetição fútil. O mesmo pensamento nunca pára neste Salmo. E simplório quem assim pensa. Algo na posição de cada versículo afeta seu significado, de modo que mesmo onde suas palavras são quase idênticas com as de outro, o sentido é deliciosamente variado. Se não vemos uma variedade infinita de lênues sombras de pensamento neste Salmo, podemos concluir que somos daltônicos; se não ouvimos muitas doces harmonias, podemos julgar nossos ouvidos como sendo insensíveis, porém não podemos acusar o Espírito de Deus de monotonia.

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Y X PQ 51Ç Â Q 5 (w. 17-24) Sê generoso para com teu servo, para que eu viva e observe tua pala­ vra. Desvenda meus olhos, para que eu contemple as maravilhas de tua lei. Sou peregrino na terra; não escondas de mim teus mandamen­ tos. Consumida está minha alma por desejar, incessantemente, teus juízos. Repreendeste os soberbos, os malditos, que se desviam de teus mandamentos. Remove de mim o opróbrio e o desprezo, pois tenho guardado teus testemunhos. Assentaram-se príncipes e falaram contra mim, mas teu servo ponderou em teus decretos. Com efeito, teus teste­ munhos são meu deleite e meus conselheiros. Nesta seção, as provações do caminho parecem ter-se m ani­ festado à mente do salmista, e ele ora, portanto, pelo socorro que atenda sua causa. Como nos últimos versículos ele orou como jo­ vem recentemente ingressado no mundo, assim aqui ele suplica como servo e peregrino que paulatinamente vai descobrindo ser um estranho num país inimigo. Seu apelo é dirigido a Deus so­ mente, e sua oração é especialmente direta e pessoal. Ele fala com o Senhor como uma pessoa fala com seu amigo. [v. 17] Sê generoso para com teu servo, para que eu viva e observe tua palavra. Sê generoso para com teu servo. Ele tem prazer em reconhe­ cer seu dever para com Deus, e é cônscio de que a alegria de seu coração se deve ao fato de estar ele a serviço de seu Deus. Nessa condição ele faz uma súplica, pois um servo desfruta de alguma influência da parte de seu senhor; mas, neste caso, o vocabulário da súplica desfaz a idéia de reivindicação legal, visto que ele busca compreensão, e não galardão. Seja minha recompensa segundo tua benevolência, e não segundo meu mérito. Retribui-me segun­ • 38 •


do a grandeza de tua liberalidade, e não segundo a deficiência de meu serviço. Os servos contratados pelo nosso Pai têm abundân­ cia e disponibilidade de pão, e ele não deixará sequer um de seus domésticos perecer de fome. Se o Senhor simplesmente nos tratar como trata o m enor de seus servos, temos motivo para contenta­ mento; pois todos seus verdadeiros servos são filhos, príncipes de sangue, herdeiros da vida eterna. Davi sabia que suas grandes ne­ cessidades requeriam abundante provisão, e que seu ínfimo m éri­ to jamais granjearia tal suprimento. Daí haver ele de esconder-se na graça divina e buscar as grandes coisas de que necessitava na infinita benevolência do Senhor. Ele suplica pela liberalidade da graça, segundo a forma de outra oração que fez: “O Senhor, ou me dês grande misericórdia, ou nenhuma; pois pouca m isericór­ dia não me ajudará a voltar.” Para que eu viva. Ele não poderia viver a não ser com profu­ são de misericórdia. Requer-se uma graça muito rica para que um santo se m antenha vivo. Mesmo a vida é um dom da divina libera­ lidade para um demérito tão grande como o nosso. Som ente o Senhor pode guardar-nos com vida; e é sua poderosa graça que nos preserva a vida a cujo direito perdemos em decorrência de nosso pecado. E natural querer viver; é um direito orar pela vida; mas é justo atribuir a longevidade ao favor de Deus. A vida espi­ ritual, sem a qual esta vida natural é mera existência, deve também ser buscada na liberalidade do Senhor; porquanto ela é a mais nobre obra da graça divina, e nela a liberalidade divina é gloriosa­ mente exibida. Os servos do Senhor não podem servi-lo movidos por sua própria força, pois nem mesmo podem viver se sua graça não encher ricamente a vida deles. E observe tua palavra. Esta deve ser a norma, o objetivo e a alegria de nossa vida. E possível que não queiramos viver em pe­ cado; mas é preciso que oremos por um a vida que tenha a Palavra de Deus em íntima consideração. A existência é algo pobre se não desfrutar o bem-estar. A vida só é digna quando observamos a Palavra de Deus; aliás, não há vida nenhuma, no mais elevado sen­ tido, senão aquela que se associa à santidade —vida que não res­ peita a lei de Deus não passa de m ero vocábulo. • 39 •


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A oração deste versículo mostra que é somente através da divi­ na liberalidade ou graça que podemos viver como fiéis servos de Deus e manifestar obediência a seus mandamentos. Se prestamos serviço a Deus, isso se deve ao fato de ele nos conceder sua graça. Trabalhamos para ele porque ele trabalha em nós. Podemos for­ mar uma corrente dos versículos iniciais das três primeiras oitavas deste Salmo: o versículo 1 bendiz a pessoa santa; o versículo 9 indaga como podemos obter essa santidade; e o versículo 1 7 liga essa santidade com sua fonte secreta, e nos mostra como buscar a bênção. Quanto mais uma pessoa preza a santidade, e quanto mais solicitamente se esforça em buscá-la, mais vai a Deus com o fim de obtê-la; pois essa pessoa percebe claramente que sua força pes­ soal é insuficiente, e que não pode nem mesmo viver sem a liberal assistência do Senhor seu Deus. [v. 18] Desvenda meus olhos, para que eu contemple as maravilhas de tua lei. Desvenda meus olhos. Esta é uma parte da divina liberalidade pela qual ele tem indagado. Nenhuma liberalidade é maior do que aquela que beneficia nossa pessoa, nossa alma, nossa mente e traz benefício a um órgão tão importante como os olhos. E muitíssimo preferível ter os olhos abertos do que ver-se no seio dos mais no ­ bres prospectos e contudo permanecer cego para as belezas que nos cercam. Para que eu contemple as maravilhas de tua lei. Certas pessoas não conseguem perceber nenhuma maravilha no evangelho. Davi, porém, estava convencido de que havia coisas gloriosas na lei - ele não possuía sequer a metade da Bíblia, mas a valorizava mais que muitas pessoas que possuem-na toda. Ele sentia que Deus pusera grandes belezas e abundância em sua Palavra, e então solicita poder para percebê-la, apreciá-la e dela tirar provei­ to. Necessitamos não tanto que Deus nos conceda mais benefíci­ os, e, sim, que nos dê capacidade de ver o que ele já nos deu. A oração subentende a consciência da existência de trevas, de imprecisão da visão espiritual, de impotência de remover o defeito e da plena certeza de que Deus pode removê-las. Ela m ostra tam ­ bém que o escritor sabia da existência de vastos tesouros na Pala­ • 40 •


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vra que ele possuía, os quais não eram plenamente vistos; de m a­ ravilhas que não havia ainda contemplado, de mistérios nos quais escassamente cria. As Escrituras são ricas em maravilhas; a Bíblia é um país encantado; ela não só relata milagres, mas ela mesma é um universo de prodígios. Não obstante, o que vale tudo isso se nossos olhos estão fechados? Deus mesmo deve trazer iluminação a cada coração. As Escrituras precisam ser abertas, mas não meia abertura como agora ocorre com nossos olhos. O véu não está no livro, mas em nosso coração. Que perfeitos preceitos, que precio­ sas promessas, que inestimáveis privilégios são negligenciados por nós, só porque perambulamos como por entre cegos que, por sua vez, perambulam por entre as belezas da natureza, as quais são para nós um a bela paisagem oculta na escuridão! A oração de Davi, neste versículo, é uma boa seqüência ao versículo 10, que lhe corresponde na posição em sua oitava. Ali ele disse: “Oh, não me deixes vaguear [fugir]”; e quem c mais apto a vaguear que um cego? E ali também ele declarou: “De todo meu coração tenho te buscado”; daí o desejo de ver o objeto de sua busca. Singulares são os entrelaçamentos dos galhos da vetusta árvore deste Salmo, os quais revelam entre si infindas maravilhas, se porventura tivermos os olhos abertos para divisá-las. [v. 19] Sou peregrino na terra; não escondas de mim teus mandamentos. Sou peregrino na terra. Isso traz implícito um pleito judicial. Por ordem divina, os homens se vêem obrigados a viver como es­ trangeiros ou peregrinos; e o que Deus ordena em outros, ele exem­ plificará nele próprio. O salmista era um estrangeiro por amor a Deus. Ele não era estrangeiro em relação a Deus, mas estrangeiro cm relação ao mundo, um homem banido enquanto estivesse fora do céu. Portanto suplica: não escondas de mim teus mandamen(os. Se estes [mandamentos] me forem suprimidos, o que será de mim? ]a que nada do que me cerca é meu, o que será de mim se perder tua Palavra? Já que dos que me cercam ninguém sabe nem procura saber o caminho que leva a ti, o que será de mim se não puder ver teus mandamentos, somente por meio dos quais posso • 41 •


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guiar meus passos em direção à terra onde habitas? Davi insinua que os mandamentos de Deus eram o lenitivo em seu exílio; trazi­ am-lhe recordações do lar e lhe indicavam o longo caminho, e portanto suplica que nunca fossem escondidos dele, já que ele, por si só, era incapaz de entendê-los ou de obedecê-los. Se a luz espiritual for subtraída, o m andamento se oculta, e isso um cora­ ção agraciado condena profundamente. O que adiantaria os olhos abertos, se o mais deleitoso objeto de sua contemplação for afas­ tado de seu alcance? Enquanto peregrinamos aqui, podemos su­ portar com paciência todos os males provindos desta terra estra­ nha, se a Palavra de Deus for aplicada a nossos corações pelo Es­ pírito de Deus; mas, se as coisas celestiais que produzem nossa paz forem ocultas de nossos olhos, ficaremos em maus lençóis aliás, nos veremos em alto mar, sem bússola; num deserto, sem guia; num país inimigo, sem amigo. Esta oração é um suplemento a “abre meus olhos”, como al­ guém que ora para ver e outro condena ver, ou seja, o m andam en­ to ser oculto, e ficar assim fora da vista. Faremos bem em visuali­ zar ambos os lados da bênção que estamos buscando para vê-los de todos os ângulos. As orações são apropriadas para os caracte­ res mencionados: como um servo, ele roga que seus olhos sejam abertos para que jamais deixe de contemplar seu Senhor como bom servo; como um peregrino, ele roga que não seja um estranho na estrada pela qual caminha rumo ao lar. Em cada caso, sua in­ teira dependência é exclusivamente de Deus. Note que o terceiro versículo da segunda oitava (11) tem a mesma palavra-chave, como a tem o terceiro versículo da terceira oitava: “Escondi tuas palavras”; “Não escondas de mim teus m an­ dam entos.” Isso convida à meditação nos sentidos distintos de esconder em e esconder de. [v. 20] Consumida está minha alma por desejar, incessantemente, teus juízos. A genuína piedade está em grande medida nos desejos. Como não somos o que seremos, assim também não somos o que deverí­ amos ser. São intensos os desejos que as pessoas agraciadas nutrem • 42 •


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pela santidade; ou causam um desgaste cardíaco, ou um estresse mental, até que estejam prontas a saborear o céu. Um elevado valor dado aos mandamentos do Senhor conduz a um forte desejo de conhecê-los e cumpri-los, e isso tanto pesa na alma que ela se dispõe a despedaçar-se sob o peso de seus próprios anseios. Que grande bênção quando todos nossos desejos têm por alvo as coisas de Deus! Os juízos divinos são suas decisões sobre questões que estão cm controvérsias. Cada preceito é um juízo pronunciado do mais elevado tribunal sobre uma questão de ação, uma infalível e im utá­ vel decisão sobre um a questão moral ou espiritual. A Palavra de Deus é um código de justiça à luz do qual não há apelação. “ Há um Juiz Que põe termo à discórdia, Onde a perspicácia e a razão fracassam; Nosso Guia através das tortuosas veredas da vida, Nosso Escudo Quando as dúvidas nos assaltam."

Davi nutria tal reverência pela Palavra, tal anseio de conhecêla e de conform ar-se a ela, que seus anelos geravam nele o quebrantamento que ele aqui põe diante de Deus. Solicitude é a alma da oração, e quando a alma geme até quebrantar-se, não desiste até que a bênção lhe seja concedida. A mais íntima com unhão en ­ tre a alma e seu Deus é concretizada pelo processo descrito no texto. Deus revela sua vontade, e nosso coração suspira por ver-se conformado a ela. Deus julga, e nosso coração se alegra com o veredicto. Esta é a mais real e completa comunhão do coração. Note bem que nosso desejo segundo a mente de Deus deve ser constante; devemos sentir santos anelos “em todo tem po”. D ese­ jos que podem ser despidos e vestidos como fazemos com nossas roupas, podendo ser melhores, porém meros desejos, e dificilmen­ te poderão ser chamados por esse nome —não passam de emoções temporárias oriundas de excitamento e se destinam a m orrer quan­ do o coração que os gerou se arrefece. Aquele que sempre anela em conhecer e fazer o que é certo é realmente um ser hum ano certo. Seu juízo é sadio, pois ama todos os juízos divinos e os segue com perseverança. Seus tem pos serão bons, visto que anela ser bom e fazer o bem em todo tempo. • 43 •


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Observe como este quarto versículo da terceira oitava se har­ moniza com o quarto versículo da quarta oitava. “Consumida está minha alma”; “Minha alma, de tristeza, verte lágrimas”. Segura­ mente há alguma secreta arte poética em tudo isso, e nos é acon­ selhável a prudência quando estudamos o que o salmista solicita­ mente compunha. [v. 21] Repreendeste os soberbos, os malditos, que se desviam de teus manda­ mentos. Repreendeste os soberbos, os malditos. Aqui está um dos juí­ zos divinos: indubitavelmente, ele trata aqui de uma terrível por­ ção dos homens de aparência altiva. Deus puniu Faraó com terrí­ veis pragas; e no Mar Vermelho, “os fundamentos do m undo fo­ ram descobertos por tua repreensão, ó Senhor”. Na pessoa dos arrogantes egípcios, ele instruía a todos os soberbos de que certa­ mente os humilharia. Os soberbos são pessoas malditas: ninguém os abençoa, e logo se convertem num fardo para si próprios. A soberba por si só é uma praga e um tormento. Ainda que nenhuma maldição proviesse da lei de Deus, a própria lei da natureza ensina que os soberbos são pessoas infelizes. Isso levou Davi a abominar a soberba; ele temia a repreensão divina e a maldição da lei. Os pecadores soberbos de seu tempo eram seus inimigos, e sentiu-se venturoso de Deus não se pôr em controvérsia contra ele. Que se desviam de teus mandamentos. Somente os corações humildes são obedientes, pois somente eles se deixarão adm inis­ trar e governar. Os soberbos aparentam altivez, tanta altivez que seus pés são mantidos longe do caminho do Senhor. A soberba é a raiz de todo pecado; se os homens não fossem arrogantes, não seriam desobedientes. Deus repreende a soberba mesmo quando as multidões lhe prestem homenagem, pois a vê como franca rebelião contra sua própria majestade e vê nela a semente de futuras rebeliões. Ela é a essência do pecado. Os homens falam de uma soberba honesta; porém se fossem sinceros veriam que ela, à luz de todos os peca­ dos, longe está de ser honesta, e longe está de assentar-se bem • 44 •


numa criatura, especialmente uma criatura apostatada. Todavia, bem poucos soberbos conhecem sua própria e verdadeira condi­ ção sob a maldição divina, que se erguem para censurar os santos e expressar desdém por eles, como se pode ver no próximo versí­ culo. Eles pessoalmente são desprezíveis, e todavia são altivos em relação a seus superiores. Fazemos bem em amar os juízos divi­ nos, quando os vemos tão decisivamente direcionados contra a altiva arrogância daqueles que prazerosam ente dominam sobre os justos; e fazemos bem em consolar-nos ante as repreensões dos ímpios, visto que seu poder de ferir-nos é destruído pelo próprio Senhor. “O Senhor te repreenda”, é resposta satisfatória a todas as acusações dos homens e dos demônios. No quinto versículo da oitava anterior, o salmista escreveu: “Com os lábios tenho narrado todos os juízos de tua boca”, c aqui ele prossegue no mesmo diapasão, apresentando um exemplo par­ ticular dos juízos do Senhor contra os rebeldes arrogantes. As duas próximas porções do quinto versículo tratam da menlira e da vai­ dade, e a soberba é uma das formas mais comuns desses males. [v. 22] Tira de sobre mim o opróbrio e o desprezo, pois tenho guardado teus testemunhos. Tira de sobre mim o opróbrio e o desprezo. Aqui temos coi­ sas por demais dolorosas para se conservarem na mente. A Davi foi possível suportá-las por am or à justiça, mas foram-lhe um pe­ sado jugo e levou muito tempo para livrar-se delas. Ser caluniado e em seguida ser desprezado em conseqüência das vis acusações é uma aflição muitíssimo dolorosa. Ninguém gosta de ser difamado, muito menos desprezado. Aquele que diz: “Não dou a m enor im ­ portância a minha reputação” não é uma pessoa sábia; pois, no conceito de Salomão, “um bom nome é melhor que o ungüento precioso”. A melhor forma de tratar a calúnia é orar a respeito: Deus ou a removerá ou removerá o espinho dela. Geralm ente fra­ cassam nossas tentativas pessoais de nos justificarm os. Somos como o garoto que queria remover a mancha de seu copo, que, com seu grande empenho, acabou fazendo dez vezes pior. Ao so• 45 •


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frermos um a difamação, é melhor orarmos sobre o problema do que recorrerm os à lei para resolvê-lo, ou mesmo exigir desculpas por parte do inventor. Quando você for acusado, leve seu proble­ ma perante o supremo tribunal e deixo-o aos pés do Juiz de toda a terra. Deus repreenderá seu soberbo acusador; fique tranqüilo e deixe seu Advogado defender sua causa. Pois tenho guardado teus testemunhos. A inocência pode com razão pedir esclarecimento sobre a causa da repreensão. Se por­ ventura houver razão nas acusações alegadas contra nós, o que podemos exigir de Deus? Se, não obstante, formos injustamente acusados, nosso apelo tem um locus standi no tribunal e não pode ser rejeitado. Se pelo medo do opróbrio ignorarmos o testem unho divino, mereceremos a sentença de covardia; nossa segurança está em m anter-nos à sombra da verdade e da justiça. Deus guardará os que guardam seus testemunhos. Uma sã consciência é a melhor segurança para o bom nome; o opróbrio não habitará com aqueles que habitam com Cristo, nem o desprezo permanecerá sobre aque­ les que permanecem fiéis nos caminhos do Senhor. Este versículo faz paralelo com o sentido e a posição do versí­ culo 6, e forma o slogan de ‘testemunhos’, por meio do qual se harmoniza com o versículo 14. [v. 23] Assentaram-se príncipes e falaram contra mim, mas teu servo ponde­ rou em teus decretos. Assentaram-se príncipes e falaram contra mim. Davi estava num a partida de alto nível, e os grandes da terra eram seus adver­ sários. Os príncipes viam nele uma grandeza de causar inveja, e por isso abusavam dele. Em seus tronos, podiam encontrar algo superior a considerar e de que falar, mas converteram o trono de juízo em trono de escárnio. A maioria dos homens cobiça a boa palavra dos príncipes, e ser difamado por um grande homem é motivo de grande desânimo; o salmista, porém, suportou sua pro­ vação com santa tranqüilidade. Muitos daqueles que exerciam se­ nhorio eram seus inimigos, e seu hobby era falar mal dele; conver­ teram seus tronos em escândalo, suas reuniões em calúnia, seus • 46 •


parlamentos em falsidade; todavia, Davi sobreviveu a todas as suas tentativas contra ele. Mas teu servo ponderou em teus decretos. Isso na verdade foi um ato de bravura. Ele era servo de Deus, e por isso atentava para os negócios de seu Senhor; era servo de Deus, e por isso estava certo de que o Senhor o defenderia. Ele não deu atenção a seus principescos caluniadores; nem ainda permitiu que seus pen­ samentos fossem perturbados com a informação que recebia das tramas que teciam em suas reuniões. Quem eram esses virulentos para desviar a atenção que este servo punha em seu Senhor, ou para privar o eleito do Senhor de dedicar um m omento de com u­ nhão? A turba de príncipes não era digna da atenção de cinco minutos, se tais cinco minutos tivessem que ser subtraídos da san­ ta meditação. E em extremo glorioso ver os dois tronos: os prínci­ pes assentados para lançar opróbrio contra Davi; e Davi assenta­ do com seu Deus e sua Bíblia, como resposta aos caluniadores, não respondendo-lhes absolutamente nada. Os que se nutrem da Palavra crescem fortes e pacíficos, e são pela graça de Deus defen­ didos da difamação das línguas perversas. Note que no final da oitava anterior ele dissera: “M editarei”; e aqui ele m ostra como redimira sua promessa, mesmo sob grande risco de esquecê-la. E algo digno de nota quando a decisão de nossas horas felizes é devidamente tomada em nossos momentos de aflição. [v. 241 Com efeito, teus testemunhos são meu maior prazer e meus conselheiros. Eles não constituíam simplesmente temas para meditação, mas ‘tam bém ’ fontes de deleite e meios de orientação. Enquanto seus inimigos tomavam conselho entre si, o santo homem tomava con­ selho com os testemunhos de Deus. Os caçadores não podiam espantar a ave de seu ninho com toda sua algazarra. O deleite deles era caluniar; o deleite dele era meditar. As palavras do Se­ nhor nos servem para muitos propósitos: em nossas tristezas, elas são nosso deleite; em nossas dificuldades, são nosso guia; deriva­ mos delas alegria e nelas descobrimos sabedoria. Se desejarmos • 47 •


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encontrar conforto nas Escrituras, que então nos submetamos a seu conselho; e quando seguirmos seu conselho, não façamos isso com relutância, mas com deleite. Eis o modo seguro de tratar com aqueles que fazem planos para arruinar-nos; que demos mais aten­ ção aos verdadeiros testemunhos do Senhor do que aos falsos tes­ temunhos de nossos desafetos. A melhor resposta à acusação de príncipes é a Palavra do Rei que justifica. No versículo 16, diz Davi: “Terei prazer em teus decretos”; e aqui ele diz: “Eles são meu maior prazer.” E assim as resoluções formadas na força de Deus produzem fruto; e os desejos espiritu­ ais sazonados, em reais obtenções. Que esse seja o caso em rela­ ção a todos os leitores destas linhas!

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(w. 25-32) Minha alma está apegada ao pó; vivifica-me segundo tua palavra. Eu te expus meus caminhos, e tu me valeste; ensina-me teus estatutos. Faz-me compreender o caminho de teus preceitos, e falarei de tuas maravilhas. Minha alma, de tristeza, verte lágrimas; fortalece-me se­ gundo tua palavra. Afasta de mim o caminho da mentira e concedeme graciosamente tua lei. Escolhi o caminho da verdade e teus juízos os tenho diante dos olhos. A teus testemunhos me apego; não permitas, ó Senhor, seja eu envergonhado. Percorrerei o caminho de (eus imuidamentos, quando me alegrares o coração. Aqui, a meu ver, temos o salmista a deplorar aflitivamente a servidão às coisas terrenas às quais ele descobrira estar sua mente cativa. Sua alma se apega ao pó, se desintegra pelo peso e grita pela dilatação de sua prisão espiritual. Nestes versículos veremos a influência da palavra divina num coração que lamenta suas de­ cadentes tendências e se vê saturado de pranto em decorrência de suas trevosas circunstâncias. A Palavra do Senhor evidentemente desperta a oração (vv. 25-29), confirma a opção (v. 30) e inspira a resolução renovada (v. 32); ela é em toda tribulação, quer do corpo quer da mente, a mais infalível fonte de socorro. Esta porção tem D por sua letra alfabética; ela celebra a D e­ pressão, no espírito de Devoção, Determinação e Dependência. [v. 25] Minha alma está apegada ao pó; vivifica-me segundo tua palavra. Minha alma está apegada ao pó. Ele, em parte, tenciona di­ zer que estava dom inado pela tristeza; pois os pranteadores no oriente lançavam pó sobre suas cabeças e sentavam-se sobre cin­ zas, e o salmista sentia com o se essas insígnias de dor lhe estives• 49 •


Saimo I!?

sem grudadas, e sua própria alma se destinasse a viver inseparável delas, em virtude de sua impotência pairar acima de sua tristeza. Não sentia ele pronto até mesmo para m orrer? Não sentia ele sua vida absorvida e assenhoreada pela argila da sepultura, já meio agredida pelo pó da morte? E possível que a linguagem não seja bem afinada, se imaginarmos que ele também sentia e lamentava sua inclinação m undana e entorpecimento espiritual. Havia uma tendência em sua alma para o apego a este mundo, pela qual de­ plorava grandemente. Seja qual for a causa de seu lamento, o mal não era superficial, mas uma luta de espírito mais secreta; sua alma apegava-se ao pó; e não era um a questão de cair casual e aciden­ talmente no pó, mas uma tendência contínua e poderosa, ou um forte apego às coisas terrenas. Que grande misericórdia, porém, esse bom homem podia sentir e deplorar tudo quanto havia de mal nesse apego! A semente da serpente pode encontrar seu alimento no pó, mas a semente da mulher jamais suportaria ser assim de­ gradada. Muitos são os amantes deste mundo, e nunca lamentam por isso; somente o espírito nascido do alto, e que paira nas altu­ ras, é que reluta para que sua mente não se apegue a este m undo e não se deixe engodar por suas tristezas ou por seus prazeres. Vivifica-me segundo tua palavra. Vida abundante é a cura para todas as nossas doenças. Somente o Senhor pode concedêla. Ele pode concedê-la, e concedê-la imediatamente, e fazê-lo se­ gundo sua palavra, sem afastar-se do curso usual de sua graça, como vemos indicado nas Escrituras. E bom saber pelo que orar — Davi busca vivificação — ele poderia ter orado por conforto ou ascensão. Ele, porém, sabia que essas coisas viriam da vida enri­ quecida, e por isso buscou aquela bênção que é a raiz do descan­ so. Quando uma pessoa se vê com espírito oprimido, fraca e arro­ jada ao chão, a principal coisa a fazer é aum entar sua energia e imbuir-se de mais vida; então seu espírito revive e seu corpo se põe ereto. Na vivificação da vida o homem, em sua totalidade, é renovado. Sacudir o pó é por si só uma coisa insignificante; mas, quando ela segue a vivificação, é uma bênção do maior valor; as­ sim como as nobres atitudes, que fluem de uma boa saúde, tam ­ bém se dá entre as mais seletas de nossas mercês. A frase, “segun• 50 •


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tio tua palavra”, significa segundo teu método revelado de vivificar teus santos. A Palavra de Deus nos m ostra que aquele que prim ei­ ro nos criou também nos guardará vivos; e nos informa que o Espírito de Deus, através de suas ordenanças, derrama nova vida em nossas almas. Roguemos ao Senhor que aja em nós através de seu método regular de conceder sua graça. E provável que Davi recordasse da Palavra do Senhor como está em Deuteronôm io 32.39, onde a Jeová compete tanto m atar quanto fazer viver, e ele roga ao Senhor que exerça aquele poder vivificante em favor de seu servo já quase a expirar. Com certeza o homem de Deus não contasse com tantas e ricas promessas sobre as quais descansar como hoje temos; mas um a única palavra lhe era suficiente, e ele solicitamente opta por argum entar “segundo tua palavra”. E algo comprovado ver um crente no pó e, contudo, reivindicar a pro­ messa, pessoa essa que clama já na entrada da sepultura: “viviíicame”, esperando que assim se fará. Note como este primeiro versículo da quarta oitava corres­ ponde ao primeiro da terceira oitava (v. 17): “Para que eu viva”; “Vivifica-me”. Enquanto se vê num a situação ditosa, ele ora para ser tratado com liberalidade; e quando se vê numa condição de desamparo, ele ora por vivificação. A vida, em ambos os casos, é o objeto de busca —para que possa ter vida, e vida com abundância. Isso realmente eqüivale a sabedoria. Os tolos anseiam por alim en­ to, e contudo perdem a vida; os sábios, porém, sabem que a vida é mais que o alimento. Nutrir ansiedade por riquezas, e negligenciar a alma, é o pecado corriqueiro dos incrédulos; e buscar as verda­ deiras riquezas visando ao aumento de vida é a prudente trajetória dos cristãos verdadeiros. Vida, eterna vida, é o tesouro genuíno. Nosso Senhor veio não só para que tivéssemos vida, mas também para que a tivéssemos com muita abundância. Senhor, derram aste lua abundante vida em nós, para que fôssemos vivificados e para alcançarmos a plenitude de nossa humanidade e sermos cheios de toda a plenitude de Deus. [v. 26] Eu te declarei meus caminhos, e tu me ouviste; ensina-me teus estatutos. • 51 •


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Eu te declarei meus caminhos. A confissão pública é algo muito saudável para a alma. Nada traz mais tranqüilidade e mais vida a uma pessoa do que o reconhecimento franco do mal que causou tristeza e letargia. Tal declaração [ou exposição] prova que o ho­ mem conheceu sua própria condição, e não é mais cego pela so­ berba. Nossas confissões não pretendem fazer Deus conhecer nos­ sos pecados, mas fazer-nos conhecê-los. E tu me ouviste. Sua confissão fora aceita; não foi perda de tempo; através dela, Deus aproximou-se dele. Não devemos jamais exercer um dever sem antes sermos aceitos para tal função. O perdão acompanha uma confissão penitente, e Davi sentia que o obtivera. E próprio dc Deus perdoar nosso caminho pecaminoso quando sinceramente confessamos o erro. Ensina-me teus estatutos. Uma vez sentindo profundamente seu erro, e uma vez havendo obtido o pleno perdão, Davi se em pe­ nha a evitar cometer nova ofensa, e por isso ele roga que a obedi­ ência lhe seja ensinada. Ele não se dispunha a pecar motivado pela ignorância; deseja conhecer a mente de Deus através da instrução ministrada pelo melhor dos mestres. Ele se fatigava em busca da santidade. As pessoas justificadas estão sempre ansiosas por mais santificação. Quando Deus perdoa nossos pecados, todos nos sen­ timos temerosos de pecar novamente. A mercê que perdoa a trans­ gressão nos faz ansiosos pela graça que previne a transgressão. Podemos ousadamente pedir mais, depois de Deus já nos haver dado muito; aquele que já lavou a mancha de outrora não recusará aquilo que nos preservará da contaminação presente e futura. Esse ciamor por instrução é freqüente no Salmo; no versículo 12, ele procedeu de uma visão de Deus; aqui, ele procedeu de uma visão de si mesmo. Cada experiência deve levar-nos a pleitear assim junto a Deus. [v. 27]

Faz-me compreender o caminho de teus preceitos, e falarei de tuas maravilhas. Faz-me compreender o caminho de teus preceitos. Dá-me uma profunda percepção do significado prático de tua palavra; • 52 •


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que eu tenha uma idéia clara do caráter e teor de tua lei. A obedi­ ência cega tem um a beleza muito pequena; Deus quer que o siga­ mos com nossos olhos abertos. Obedecer à letra da palavra é tudo quanto se pode esperar do ignorante; se desejamos guardar os preceitos em seu espírito, devemos chegar-nos para compreendêlos, e isso não se recebe em parte alguma senão das mãos do Se­ nhor. Nosso entendimento precisa de iluminação e diretriz; aquele que fez nosso entendimento também tem de fazer-nos entender. A última frase foi: “ensina-me teus estatutos”; e as palavras: “fazeme com preender” são uma ampliação e exposição instrutivas des­ ta frase: precisamos ser tão instruídos, que cheguemos a entender o que aprendemos. E preciso notar que o salmista não está ansio­ so para entender as profecias, e, sim, os preceitos, e não está preo­ cupado com as sutilezas da lei, mas com as normas comuns e diá­ rias dela, as quais são descritas como “o caminho de teus preceitos”. E falarei de tuas maravilhas. [Ou: E assim falarei de tuas maravilhosas obras.] Continua falando do que não entendemos. Temos de ser instruídos por Deus até que entendamos, e então podemos esperar comunicar nosso conhecimento a outros com a esperança de favorecê-los. Falar sem inteligência é mero e fútil tagarelar; as palavras dos instruídos, porém, são como pérolas que adornam os ouvidos daqueles que ouvem. Quando nosso coração é aberto ao entendimento, nossos lábios devem abrir-se para compartir conhecimento; e nós mesmos podemos esperar ser instruí­ dos quando sentirmos em nosso coração a disposição para ensi­ nar o caminho do Senhor àqueles entre os quais moramos. Tuas maravilhas. [Ou: luas obras maravilhosas.] Observe que o entendimento mais claro não nos faz cessar de maravilhar-nos ante os caminhos e obras de Deus. O fato é que, quanto mais conhecemos os feitos de Deus, mais os admiramos e mais prontos estamos a falar deles. M etade da admiração do m undo nasce da ignorância; mas a santa admiração é filha do entendimento. Quando uma pessoa entende o cam inho dos preceitos divinos, jamais fala de suas próprias obras; e quando a língua tem algum assunto so­ bre o qual falar, tal pessoa com eça exaltando as obras do Senhor absolutamente perfeito. 53


Saimo ll?

H á quem lê neste lugar ‘m editar’ ou ‘refletir’, em vez de ‘falar’; é singular que as palavras sejam parentes tão próximos, e no en­ tanto é um fato que não o eram, pois ninguém, a não ser um in­ sensato, falará sem pensar. Se lermos a passagem neste sentido, devemos tomá-la no sentido de que, em proporção ao que Davi entendia a palavra de Deus, ele meditava nela cada vez mais. G e­ ralmente é assim; o displicente não cuida de conhecer o cerne das Escrituras, enquanto que os que as conhecem mais detidamente são as pessoas que se esforçam em familiarizar-se mais profunda­ mente com elas, e portanto se dedicam a refletir sobre elas. Observe o terceiro versículo da oitava anterior (19), e veja como o sentido é afim a este. Naquele lugar ele se descreveu como um estranho [ou peregrino] na terra, e aqui ele ora para conhecer seu caminho; lá, também, ele orou para que a palavra não lhe fosse oculta, e aqui ele promete que não a ocultará dos outros. [v. 28] Minha alma, de tristeza, verte lágrimas; fortalece-me segundo tua palavra. Minha alma, de tristeza, verte lágrimas. Ele se derretia em lágrimas. A sólida robustez de sua constituição se convertia em líquido, como se fosse derreter-se na ígnea fornalha de suas afli­ ções. A opressão sobre a alma é algo mortífero, e quando aum enta em intensidade ameaça converter a vida numa morte duradoura, quando um a pessoa parece transformar-se num a perene gota de tristeza. As lágrimas são o destilar do coração; quando uma pes­ soa chora, ela definha sua alma. Alguns de nós sabemos o que significa uma opressão intensa, pois somos cada vez mais agarra­ dos por seu poder, e amiúde nos sentimos derramados como água e à mercê de ser como água entornada no chão, sem jamais poder ser ajuntada de novo. Há uma boa questão neste estado de depres­ são, pois é melhor derreter-se de tristeza do que ser endurecido pela impenitência. Fortalece-me segundo tua palavra. Ele se deparara com uma antiga promessa de que os santos serão fortalecidos, e então aqui a reivindica. Sua esperança, em seu estado de depressão, não pro­ cede dele mesmo, mas de seu Deus; se ele pode ser fortalecido • 54 •


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com o poder do alto, então lançará de si a opressão que sente e se alegrará novamente. Observe como ele reivindica a prom essa da Palavra, e nada mais solicita senão que seja tratado segundo a mercê do Senhor como se acha registrada. Não cantara Ana: “Ele dá força a seu rei, e exalta o poder de seu ungido”? Deus nos fortale­ ce ao infundir graça através de sua Palavra: a Palavra que cria certamente pode sustentar. A graça pode capacitar-nos para su­ portarm os a constante impaciência por causa de um a tristeza re­ nitente; ela pode reparar a dilapidação causada pelo perene lacri­ mejar e conceder ao cristão as vestes do louvor para o espírito oprimido. Recorramos sempre à oração em nossos m om entos de desapontamento, pois tais momentos são o caminho mais certo e mais curto para o abismo. Nessa oração, por nada mais roguemos além da Palavra de Deus; pois não há nenhum pleito que se asse­ melhe a uma promessa divina; nenhum argumento que se assem e­ lhe a uma palavra que procede do Deus do pacto. Note como Davi registra a intimidade de sua alma. No versí­ culo 20, diz ele: “Consumida está minha alma”; no versículo 25: “Minha alma está apegada ao pó”; e aqui: “Minha alma verte lá­ grimas [se derrete].” Além do mais, no versículo 81, ele clama: “Desfalece-me a alma”; no versículo 109: “Minha alma está conti­ nuam ente em minhas m ãos” [“Estou de contínuo em perigo de vida”]; no versículo 167: “Viva minha alma para louvar-te.” Há pessoas que nem mesmo sabem que têm uma alma, e aqui Davi é todo alma. Que tremenda diferença há entre espiritualmente vivo e espiritualmente morto! [v. 29] Afasta de mim o caminho da mentira e concede-me graciosamente tua lei. Afasta de mim o caminho da mentira. Este é o caminho do pecado, do erro, da idolatria, da estupidez, da autojustiça, do for­ malismo, da hipocrisia. Davi não só seria guardado desse cam i­ nho, mas também se manteria longe dele; ele não podia tolerar que tal caminho estivesse a seu alcance, e tudo faria para bani-lo de sua vista. Ele deseja ser justo e um a coluna bem estabelecida; 55


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mas temia que uma medida de falsidade lhe aderisse, a menos que o Senhor a afastasse, e por isso clamava ansiosamente por sua remoção. Os falsos motivos podem às vezes apossar-se de nós, e é possível que venhamos a cair em noções equivocadas de nossa própria condição espiritual diante de Deus, que conceitos errône­ os sejam nutridos por um natural preconceito de nossa parte, e assim sejamos confirmados no embuste e permaneçamos em erro, a menos que a graça venha resgatar-nos. Nenhum coração veraz pode descansar num falso conceito de si mesmo; ele não encontra nenhum ancoradouro, mas é arremessado de um lado para outro até que tenha acesso à verdade, e a verdade, acesso a ele. O filho legítimo do céu contempla e clama contra uma impostura, dese­ jando tê-la longe como alguém que deseja ver-se distante de uma serpente venenosa ou de um leão que ruge. E concede-me graciosamente tua lei. Encontra-se num esta do de graça aquele que mira a própria lei como um dom da graça. Davi deseja ter a lei acessível a seu entendimento, esculpida em seu coração e concretizada em sua vida; pois ele busca o Senhor e luta por ela como uma graciosa concessão. Não há dúvida de que ele via isso como o único modo de livrar-se do poder da falsidade; se a lei não estiver em nossos corações, a mentira tom ará posse deles. Davi parecia haver se lembrado dos tempos em que, segun­ do o costume oriental, ele praticava a fraude para sua própria pre­ servação e descobriu que fora fraco e errara nesse ponto; portan­ to, ele sentiu seu espírito encurvado e suplicou para ser vivificado e impedido de transgredir novamente. Os homens santos não po­ dem rever seus pecados sem lágrimas, nem pranteá-los sem im ­ plorar que sejam salvos de futuras ofensas. Há uma evidente oposição entre a falsidade e o gracioso poder da lei de Deus. A única maneira de expulsar a mentira é aceitando a verdade. A graça também tem uma nítida afinidade com a verda­ de; no mesmo instante em que ouvimos o som da palavra ‘gracio­ sam ente’, também ouvimos os passos da verdade: “Eu tenho pre­ ferido o caminho da verdade.” A graça e a verdade estão sempre juntas; e a convicção quanto às doutrinas da graça é imenso pre­ servativo contra o erro fatal. • 56 •


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No quinto versículo da oitava precedente (21), Davi vocifera contra a soberba; e aqui ele clama contra a mentira - ambas eqüi­ valem a mesma coisa. Porventura a soberba não é a maior de todas as mentiras? [v. 30]

Tenho escolhido o caminho da verdade e teus juízos tenho posto diante de mim. Tenho escolhido o caminho da verdade. Já que ele abominava o caminho da falsidade [ou mentira], então escolheu o caminho da verdade. Uma pessoa tem que escolher uma ou outra: não lhe é possível optar pela neutralidade, neste caso. Os homens não su r­ gem no caminho certo por acaso; eles têm que escolhê-lo e conti­ nuar a escolhê-lo, ou logo se afastarão dele. Aqueles a quem Deus elegeu, no devido tempo escolhem seu caminho. Há um caminho doutrinai da verdade que devemos escolher, rejeitando todo e qual­ quer dogma de invenção humana; há um cerimonial da verdade que devemos seguir, detestando todas as formas que igrejas após­ tatas têm inventado; e então há um caminho prático da verdade, o caminho da santidade, ao qual devemos aderir, seja qual for nossa tentação de abandoná-lo. Que nossa escolha seja feita, e feita irrevogavelmente. Que respondamos a todos os sedutores: “Já esco­ lhi, e o que escolhi, está escolhido.” Por tua graça, ó Senhor, conduz-m e com um coração espontâneo a escolher fazer tua vontade; e assim nossa eterna eleição produzirá o fim que designaste. E teus juízos tenho posto diante de mim. O que ele escolheu também guardou na mente, pondo-o diante dos olhos de sua mente. Os homens não se tornam santos através de um desejo displicen­ te; tem de haver esforço, consideração, deliberação e solícita in­ quirição, ou se perderá o caminho da verdade. Os mandamentos de Deus devem pôr diante de nós a sinalização rum o ao alvo, o modelo pelo qual lutar, a estrada na qual caminhar. Se pusermos os juízos divinos como um cenário diante de nós, logo nos vere­ mos cam inhando em sua direção. Aqui uma vez mais nas seis estrofes da terceira e quarta oitavas vibram uma nota similar. “Eu tenho guardado teus testem unhos” • 57 •


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(v. 22) e “e teus juízos tenho posto diante de mim.” Aqui temos uma feliz confissão, e não surpreende que a mesma seja reiterada. [v. 31]

A teus testemunhos me apego; não permitas, ó Senhor, seja eu enver­ gonhado. A teus testemunhos me apego - ou: Tenho aderido; pois a palavra é a mesma do versículo 25. Ainda que aderisse ao pó da tristeza e da morte, contudo guardava firmemente a palavra divi­ na. Esse era seu conforto, e sua fé se lhe apegava, seu amor e obediência se lhe agarravam, seu coração e sua mente nele persis­ tiam em meditação. Sua escolha fora tão sincera e deliberadam en­ te consistente, que se lhe apegara para a vida, e não tinha como ser removido dela ante o opróbrio daqueles que desprezavam o cam i­ nho do Senhor. O que poderia haver ganho renunciando o sacro testemunho? Ou, melhor, o que teria perdido se desistisse da ade­ são à palavra divina? E prazeroso retroceder à perseverança pregressa e esperar que a graça continue igualmente inabalável no futuro. Aquele que nos capacitou a buscar seu amparo, segura­ mente nos amparará. Em nossos dias, quando tantos fazem alarde de seus “pensa­ mentos avançados”, pode soar estranho falar de aderir aos testem u­ nhos de Deus; mas, seja ou não estranho, imitemos o homem de Deus. Perseverar na verdade quando ela se acha deformada é um bom teste para o crente. A fé dos eleitos de Deus usa a constância como sua coroa. Outros podem vaguear ao léu em busca das novi­ dades da opinião humana; mas o filho legítimo de Deus se gloria em confessar a seu Pai celestial: “Tenho aderido a teus testemunhos.” Não permitas, ó Senhor, seja eu envergonhado, isso ocorre­ ria, se as promessas de Deus não se cumprissem, e se o coração do servo de Deus desfalecesse. Tal coisa não precisamos temer, já que o Senhor é fiel a sua Palavra. Mas é possível também que ocorra através da ação do cristão de uma maneira inconsistente, como Davi mesmo certa vez procedera, quando tomou a via da mentira e insinuou ser louco. Se não formos verdadeiros em nossa vida cristã, corremos o risco de ser desamparados para am ontoarm os • 58 •


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o fruto de nossa insensatez, cujo amargo nome é ‘vergonha’. D a­ qui se faz evidente que o cristão nunca deve deixar-se envergo­ nhar, mas, sim, deve agir como um bravo homem que não tem de que envergonhar-se, senão crer em seu Deus, e que de forma al­ guma carece assumir um maneirismo covarde na presença dos ini­ migos do Senhor. Se rogarmos ao Senhor que não nos deixe en­ vergonhar, seguramente não precisaremos envergonhar-nos na pre­ sença do adversário. A oração deste versículo se encontra no versículo paralelo da próxima seção (v. 39): “Afasta de mim o opróbrio, que tem o.” Indubitavelmente é uma petição que estava continuamente no co­ ração do salmista. Um coração valente se sente mais ferido pela vergonha do que por qualquer espada que porventura a mão de um soldado venha a brandir. [v. 32] Percorrerei o caminho de teus mandamentos, quando me cdegrares o coração. Percorrerei o caminho de teus mandamentos. Com energia, prontidão e zelo, ele faria a vontade de Deus, mas carecia de mais vida e liberdade provindas da mão divina. Quando me alegrares o coração. Sim, o coração exerce o predomínio; os pés correm ágeis quando o coração é livre e cheio de energia. Que as afeições se expandam e se fixem avidamente nas coisas divinas, e então nos­ sas ações serão plenas de força, vivacidade e deleite. Primeiro Deus tem que operar em nós, e então o querer e o fazer estarão em nós, segundo o beneplácito divino. Temos que transformar o coração, unificar o coração, encorajar o coração, fortalecer o coração e alargar o coração, e então o curso da vida será gracioso, sincero, feliz e solícito; de modo que, desde nosso mais humilde até o mais elevado estado de graça, atribuiremos tudo ao gracioso favor de nosso Deus. Temos que apressar-nos; pois a graça não é uma for­ ça esmagadora que compele a mente indisposta a agir contra sua vontade; nossa marcha é o salto espontâneo para frente de uma mente que foi posta em liberdade pela mão de Deus e se deleita em exibir sua liberdade, m archando com determinação. • 59 •


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Que mudança extraordinária do versículo 25 para este, do apego ao pó para a marcha no caminho! E a excelência de uma santa tristeza que opera em nós aquela vivificação que tanto buscamos, e então exibimos a sinceridade de nossa tristeza e a realidade de nossa renovação, dem onstrando zelo no caminho do Senhor. Pela terceira vez uma oitava termina com “eu quero”. Esses “eu quero” do salmista são dignos de ser, cada um deles, temas de estudo e de discurso. Note como o coração tem sido expresso até aqui: “todo o co­ ração” (v. 2); “retidão do coração” (v. 7); “escondi em meu cora­ ção” (v. 11); “quando alegrares meu coração”. Há muitas outras alusões, e todas visam a m ostrar o que a religião de Davi fazia no coração. Uma das grandes carências de nossa época é que a cabe­ ça é levada mais em conta do que o coração, e que os homens se dispõem muito mais a aprender do que a amar, ainda que de for­ ma alguma revelem solicitude em ambas as direções.

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(w. 33-40) Ensina-me, ó Senhor, o caminho de teus estatutos, e o seguirei até o fim. Dá-me entendimento, e guardarei tua lei; de todo meu coração a observarei. Faz-me caminhar pela vereda de teus mandamentos, pois nela me deleito. Inclina-me o coração a teus testemunhos e não à cobiça. Desvia meus olhos de contemplar a vaidade, e vivifica-me em teu caminho. Confirma tua palavra para teu servo que se devota a teu temor. Afasta de mim o opróbrio, que temo, porque teus juízos são bons. Eis que tenho suspirado por teus preceitos; vivifica-me em tua justiça. Um senso de dependência e uma consciência de extrema n e­ cessidade permeiam toda esta seção, sendo a mesma toda elabora­ da de oração e apelo. Nos oito versículos anteriores, o salmista tremeu ante o senso do pecado, palpitando com um senso infantil de debilidade e leviandade, o que leva o homem de Deus a clamar por socorro, somente pelo qual sua alma poderia ser preservada de recair em pecado. Esse clamor por socorro é aqui expresso em termos de súplica por doutrinação, edificação, inclinação, estabi­ lização e vivificação. A seção é um favo de orações. Pronunciemos petições semelhantes enquanto lemos, assegurando-nos de que as orações assim ministradas a nós pelo Senhor serão igualmente respondidas por ele. [v. 33] Ensina-me, ó Senhor, o caminho de teus estatutos, e o guardarei até o fim. Ensina-me, ó Senhor, o caminho de teus estatutos. Palavras singelas, confiantes, benditas, pronunciadas pelos lábios de um ancião, crente experiente, sendo ele um rei e um inspirado homem 61


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de Deus. Ai daqueles que nunca se deixam instruir! Aqueles que caducam em sua própria sabedoria, mas que sua estultícia é evi­ dente a todos os de são juízo. O salmista deseja ter o Senhor como seu professor; pois sente que seu coração não aprenderia se não tivesse um instrutor eficiente. O senso de profunda lentidão em aprender nos leva a buscar um grande professor. Que grande con­ descendência da parte de nosso infinito Jeová que se propõe ensi­ nar os que o buscam! A lição almejada é totalmente prática; a pes­ soa santa não aprende só os estatutos, mas também o caminho para eles, o uso diário deles, seu teor, espírito, diretriz, hábito, tendência. Ela sabe que a vereda da santidade é cercada pela lei divina, junto à qual os mandamentos do Senhor se posicionam como placas de sinalização, indicações de quilometragem, orien­ tando e demarcando nosso avanço. O próprio desejo de conhecer essa vereda é por si só a certeza de que a aprenderemos; pois aquele que nos predispôs a aprender certamente também satisfará tal desejo. E o guardarei até o fim. Os que são instruídos por Deus ja­ mais esquecem suas lições. Quando a graça divina põe uma pes­ soa no caminho certo, ela será certa para ele. A mera tendência e vontade hum anas não possuem uma influência tão duradoura; existe um fim para toda perfeição carnal, mas a graça celestial nunca finda, mas avança para alcançar seu próprio objetivo que é o aper­ feiçoamento da santidade no temor do Senhor. A perseverança em tal propósito é certamente vaticinada em relação àqueles cujo prin­ cípio está em Deus, e com Deus, e por meio de Deus. Mas os que começam sem a instrução do Senhor logo esquecem o que apren­ deram e começam a afastar-se do caminho que antes confessavam estar trilhando. Ninguém pode gloriar-se de permanecer firme em seu caminho por sua própria força, visto que dependemos conti­ nuam ente da instrução do Senhor: se confiarmos em nossa pró­ pria firmeza, cairemos como sucedeu a Pedro. Se Deus nos guar­ dar, sem dúvida nos manteremos em seu caminho —e é um grande conforto saber que é o propósito de Deus guardar os pés de seus santos! Não obstante, é nosso dever vigiar como se nossa conser­ vação no caminho dependesse totalmente de nós mesmos; pois, • 62 •


EXPOSIÇÃO 5

segundo este versículo, nossa perseverança repousa não em qual quer força ou compulsão, mas na instrução do Senhor; e indubi­ tavelmente, quem quer que seja o professor, a instrução requer aprendizado daquele que é instruído; ninguém pode instruir a quem rejeita a instrução. Bebamos, pois, avidamente da instrução divi­ na, para que solidifiquemos nossa integridade, e no último instan­ te de nossa vida prossigamos ainda na vereda da retidão! Se rece­ bermos a semente viva e incorruptível da palavra de Deus, viva­ mos por ela; à parte dela não temos vida eterna, mas apenas o mero nome de que vivemos. O ‘fim’ de que fala Davi é o término da vida terrena ou a pleni­ tude da obediência. Ele confiava na graça que o fazia fiel ao máxi­ mo, sem nunca fugir um a vírgula ou dizer à obediência: “Até aqui virás comigo, mas não mais.” O fim de nossa observância da lei só terminará quando o fôlego cessar. Ninguém pensará em marcar uma data e dizer: “Basta, agora posso relaxar minha vigilância e viver segundo os costumes dos hom ens.” Como Cristo nos ama até o fim, assim também o sirvamos até o fim. O fim da instrução divina é para que o sirvamos até o fim. As porções da oitava revelam ainda um a relação. Gimel com e­ ça com oração pela vida, para que ele pudesse guardar a palavra (v. 17); Daleth clama por mais vida, segundo a mesma palavra (v. 25); e agora He abre com uma oração por instrução, para que o homem de Deus possa guardar o caminho dos estatutos de Deus. Uma atenção aguçada voltada para estes versículos discernirá uma afinidade mais estreita entre eles. [v. 341 Dá-me entendimento, e guardarei tua lei; de todo meu coração a ob­ servarei. Dá-me entendimento, e guardarei tua lei. Há aqui a mesma oração ampliada, ou, melhor, um suplemento que a intensifica. Ele não só necessita de instrução, mas também de poder para apren­ der; quer não apenas entender, mas também a obtenção de enten­ dimento. A quanta miséria o pecado nos arrastou; pois ainda nos falta a faculdade para a compreensão das coisas espirituais, e sere­ • 63 •


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mos com pletamente incapazes de conhecê-las até que sejamos dotados de discernimento espiritual! Deus, em cada ato, nos dará compreensão? Esse é um milagre da graça! Entretanto, jamais será operado em nós até que tenhamos consciência de nossa necessi­ dade; e nem mesmo descobriremos que somos carentes, até que Deus nos dê uma medida de compreensão para percebê-lo. Vive­ mos num estado de complicada ruína, da qual nada, senão a multiforme graça, pode livrar-nos. Aqueles que sentem sua estultícia são, mediante o exemplo do salmista, encorajados a orar por en­ tendimento; que cada um, pois, pela fé clame: “Dá-me entendi­ m ento.” Outros o tiveram; por que ele não me atinge? Ele foi um dom para eles; o Senhor não mo concederá graciosamente tam ­ bém a m im ? Não devemos buscar esta bênção simplesmente para nos to r­ narmos famosos em sabedoria, mas para que sejamos abundantes em amor pela lei de Deus. Aquele que tiver entendimento apren­ derá, recordará, entesourará e obedecerá à lei do Senhor. O evan­ gelho nos dá a graça para guardarm os a lei; o dom gratuito nos guia ao serviço santo; não há outro caminho para se alcançar a santidade senão pela aceitação do dom divino. Se Deus no-lo der, guardemo-lo; porém jamais guardemos a lei a fim de obter a gra­ ça. O resultado seguro da regeneração, ou a obtenção do enten­ dimento, é uma pia reverência pela lei e uma firme resolução de guardá-la no coração. O Espírito de Deus nos faz conhecer o Se­ nhor e entender o máximo de seu amor, sabedoria, santidade e majestade; e o resultado é que passamos a honrar a lei e a entregar nosso coração à obediência da fé. Mathew Henry sabiamente observa que “um entendimento ilu­ minado consiste nisto: aquilo pelo que somos devemo-lo a Cristo; pois ‘o Filho de Deus veio e nos deu entendim ento’” (ljo 5.20). Qualquer escritor pode oferecer-nos algo para compreender, mas somente o Senhor Jesus pode dar-nos entendimento propriamente. De todo o coração a observarei. O entendimento opera sobre as emoções; ele convence o coração da beleza da lei, de m odo que a alma a ame com suas faculdades; e então ele revela a majestade do Legislador, e toda a natureza se curva diante de sua suprema • 64 •


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vontade. Um juízo iluminado cura as divisões do coração c sub­ mete os afetos unidos a uma estrita e vigilante observância da no r­ ma de vida. Só obedece a Deus quem pode dizer: “Meu Senhor, eu te sirvo, e o faço de todo meu coração”; e ninguém pode real­ mente dizer isso enquanto não houver recebido como concessão gratuita a iluminação interior do Espírito Santo. Observar a lei de Deus de todo o coração, em todo tempo, é uma grande graça, e poucos há que a encontram; contudo ela só poderá ser possuída se consentirmos em ser instruídos pelo Senhor. Olhe de trás para diante e observe o paralelo deste versículo nos versículos 2 e 10, onde toclo o coração é expresso em referên­ cia a buscar, e então observe no paralelo similar do versículo 58 a súplica por misericórdia; e isso ocorre em todos os segundos ver­ sículos em suas oitavas. A freqüente repetição da frase todo o co­ ração m ostra a importância do amor indiviso; o coração nunca é íntegro ou santo enquanto não for íntegro e totalmente unido no temor do Senhor. O coração nunca é um só indiviso para com Deus enquanto não for uno em si mesmo; e nunca c uno em si mesmo enquanto não for um todo indiviso para com Deus. [v. 351 Faz-me caminhar pela vereda de teus mandamentos, porque nela me deleito. “Pois o querer o bem está em mim; não, porém, o efetuá-lo.” Tu me fizeste am ar o caminho; agora faz-me andar nele. Ele é uma vereda plana na qual outros estão tentando andar por tua graça; vejo-a e admiro-a; capacita-me a caminhar por ela. Esse é o cla­ mor de um a criança que anela caminhar, mas que ainda é frágil demais; de um peregrino que se sente exausto, mas que ainda in­ siste em sua marcha; de um aleijado que acredita ser capaz de correr. Deleitar-se na santidade é algo em extremo bendito; e cer­ tamente aquele mesmo que nos deu tal deleite operará em nós a alegria ainda mais profunda de possui-lo e vivê-lo. Aqui está nossa única esperança; pois não transitaremos pela vereda estreita en­ quanto não vivermos assim pelo poder de nosso próprio Criador. O tu que uma vez me criaste, rogo-te que me cries de novo. Tu me • 65 •


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fizeste conhecer; agora me faças prosseguir! Certamente nunca serei feliz até que o consiga, pois meu único deleite está em andar em tua presença. O salmista não pede ao Senhor que faça por ele o que ele m es­ mo deve fazer; ele deseja ‘prosseguir’ ou trilhar a vereda do m an­ damento. Ele não pede que seja levado enquanto permanece pas­ sivo; mas que Deus faça com que ele ‘vá’. A graça não nos trata como toras de madeira ou pedras, que são arrastadas por animais adestrados ou máquinas, mas como criaturas dotadas de vida, ra ­ zão, vontade e forças ativas que se dispõem e são capazes de mover-se se porventura houver necessidade. Deus opera em nós, mas é para que possamos querer e agir de acordo com seu beneplácito. A santidade que buscamos não é uma aquiescência forçada por mandamento, mas a indulgência de uma sincera emoção que im ­ pulsiona para a bondade, de modo que conforme nossa vida com a vontade do Senhor. O leitor poderá dizer: Nela eu me deleito? E piedade prática, a própria jóia da alma, o cobiçado galardão da mente? Se esse é o caso, então a vereda externa da vida, por mais íngreme que seja, será luminosa e guiará a alma ao deleite mais inefável. Aquele que se deleita na lei não deve nutrir dúvida de que será capaz de percorrer suas veredas; pois onde o coração já en­ controu sua alegria, os pés são firmados para avançar. Note que o versículo correspondente na oitava anterior (v. 35) foi: “Faz-me entender”; e aqui temos: “Faz-me prosseguir.” O b­ serve a ordem: primeiro, entendimento; e então, prosseguimento. Pois um entendimento esclarecido é uma grande assistência para a ação prática. [v. 36] Inclina-me o coração a teus testemunhos, e não à cobiça. Inclina-me o coração a teus testemunhos. Esta oração não parece supérflua, já que, evidentemente, o coração do salmista es­ tava posto na obediência? Estamos convencidos de jamais haver sequer uma palavra sobrando [ou supérflua] na Escritura. Depois de rogar por um a virtude ativa, era indispensável que o homem de Deus rogasse para que seu coração fosse posto em tudo quanto • 66 •


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ele fizesse. O que seriam seus avanços se seu coração não avan­ çasse também? E possível que Davi sentisse um desejo flutuante, uma propensão desordenada de sua alma por lucros materiais; possivelmente, mesmo instruído em suas mais devotas meditações, de repente clamasse por mais graça. A única forma de curar uma inclinação errônea é m anter a alma voltada para a direção oposta. A santidade do coração é a cura para a cobiça. Que bênção poder­ mos pedir ao Senhor até mesmo uma inclinação! Nosso querer é livre; todavia, mesmo sem violar sua liberdade, a graça pode incli­ nar-nos na direção certa. Isso pode ser feito através da iluminação do entendim ento quanto à excelência da obediência, através do fortalecimento dos hábitos de nossa virtude, pela experiência da doçura da piedade e por muitos outros meios. Se algum dever se nos torna maçante, cabe-nos oferecer-lhe esta oração com especi­ al referência; é preciso que amemos todos os testemunhos do Se­ nhor; e se falharmos em algum deles, então que prestemo-lhe d u ­ plicada atenção. A tendência do coração é o caminho para o qual a vida se inclina; daí a força da petição: “Inclina meu coração.” Fe­ lizes seremos quando nos sentirmos habitualmente inclinados a tudo quanto é bom! Esse não é o modo como um coração carnal sempre se inclina; todas as suas inclinações estão em franca opo­ sição aos testemunhos divinos. E não à cobiça. Esta é a inclinação da natureza, e a graça tem de pôr um basta nela. Este vício é tão injurioso quanto comum; é tão banal quanto miserável. E idolatria, e portanto destrona a Deus; é egoísmo, e portanto é cruel a todos em seu poder; é sórdida ambição, e portanto venderia o próprio Senhor por dinheiro. E um pecado degradante, aviltante, obstinado, mortal, que destrói tudo o que o rodeia, tudo o que é amável e cristão. O cobiçoso pertence à confraria de Judas, que com toda probabilidade se to r­ nará pessoalmente o filho da perdição. O crime da cobiça é co­ mum, porém bem poucos se dispõem a confessá-lo; pois quando uma pessoa cumula ouro em seu coração, o pó dele embaça seus olhos, de m odo que não consegue divisar seu próprio erro. Nosso coração provavelmente tenha algum objeto de desejo, e a única maneira de isentá-lo do lucro profano é pondo em seu lugar os • 67 •


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testemunhos do Senhor. Se nos sentirmos inclinados a tom ar uma vereda, seremos atraídos para outra; a virtude negativa com certe­ za é mais facilmente dominada quando a graça positiva predomina. [v. 37] Desvia meus olhos de contemplar a vaidade, e vivifica-me em teu ca­ minho. Desvia meus olhos de contemplar a vaidade. Ele havia orado por seu coração, e alguém poderia pensar que os olhos pudessem ser influenciados pelo coração, de modo que não houvesse neces­ sidade de fazê-los objetos de petição especial; nosso autor, porém, está resolvido a fazer a certeza duplamente infalível. Se os olhos não vêem, talvez o coração não deseje. De qualquer forma, fechase uma porta para a tentação quando deixamos de olhar para al­ guma quinquilharia bem adornada. O pecado inicialmente pene­ trou a mente hum ana através dos olhos, e estes continuam ainda sendo a porta favorita para as inconvenientes seduções de Sata­ nás; daí a necessidade de uma dupla vigilância sobre esse portal. A oração não visa tanto a que os olhos sejam fechados, mas que sejam ‘desviados’; pois nos é indispensável que eles estejam aber­ tos, porém direcionados para os objetos certos. E possível que você esteja neste exato momento fitando alguma tolice; se esse é o caso, você preciso desviar os olhos; e se estiver contemplando as coisas celestiais, será sábio rogar que seus olhos sejam guardados da vai­ dade. Por que olhamos para a vaidade? —elas se desvanecem como o vapor. Por que não contemplamos as coisas eternas? O pecado é vaidade; o lucro injusto é vaidade; a auto-apreciação exagerada é vaidade; aliás, tudo o que não procede de Deus pertence ao m es­ mo catálogo. De tudo isso temos que nos desviar. E uma prova do senso de fraqueza sentido pelo salmista, bem como de sua inteira dependência de Deus, por isso ele mesmo pede que seus olhos fossem voltados para Deus; sua intenção não é ser passivo, mas revelar seu total desamparo quando longe da graça de Deus. Te­ mendo que esquecesse de si próprio e viesse a fitar dem oradam ente algo que fosse proibido, ele implora que o Senhor im ediatam en­ te fizesse seus olhos retrocederem, livrando-o de tão perigosa parla• 68 •


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mentação com a iniqüidade. Se formos protegidos da atenção dada à vaidade, seremos também preservados de amar a iniqüidade. E vivifica-me em teu caminho. Dá-m e tanta vida, que a m or­ tífera vaidade não tenha poder algum sobre mim. Capacita-me a transitar tão rapidam ente na estrada para o céu, que não tenha como deter-m e demoradamente à vista da vaidade que ali fascina. A oração indica nossa extrema necessidade - mais vida em nossa obediência. Revela o poder preservador da vida enriquecida para guardar-nos dos males que nos cercam, e também nos diz onde essa vida mais rica deve ser encontrada, a saber, somente no Se­ nhor. A vitalidade é a cura da vaidade. Quando o coração trans­ borda de graça, os olhos são purificados da impureza. Em contra­ partida, se nos enchermos de vida no tocante às coisas de Deus, teremos como proteger-nos do pecado e da futilidade; do contrá­ rio, nossos olhos prontamente cativarão a mente e, como Sansão, que pôde matar seus milhares, venceremos a luxúria que entra pelos umbrais dos olhos. Este versículo é paralelo aos versículos 21 e 29 nas oitavas anteriores: ‘opróbrio’, ‘remoção’, ‘desvio’; ou ‘soberba’, ‘m entira’, ‘vaidade’. [v. 38] Estabelece tua palavra para teu servo que se devota ao teu temor. Estabelece tua palavra para teu servo. Faz-me seguro de tua palavra infalível; que eu tenha certeza quanto a mim, e que eu tenha certeza quanto a ela. Se possuímos o espírito de serviço, e contudo nos deixamos afligir com pensamentos cépticos, não po ­ demos fazer algo melhor do que orar para que sejamos solidifica­ dos na verdade. Tempos virão quando toda doutrina e promessa parecerão estar abaladas e nossa mente sem qualquer repouso. Então teremos que apelar para que Deus estabeleça a fé; pois ele quer que todos os seus servos sejam bem instruídos e confirmados em sua palavra. Mas é preciso que tenhamos bem fixo em nossa mente que somos servos do Senhor, do contrário não teremos longa e saudável permanência em sua verdade. A santidade prática c um grande auxílio para a convicção doutrinai; se somos servos • 69 •


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de Deus, confirmaremos sua palavra em nossa experiência. “Se alguém fizer a vontade dele, esse saberá se a doutrina procede dele ou não” ; e assim saberemos se estamos plenamente convictos dela. O ateísmo no coração é uma praga terrível para alguém temente a Deus; ele traz mais tormento do que é possível descrever; e nada, senão a visitação da graça, pode estabilizar a alma que se vê vio­ lentam ente assaltada. A vaidade ou falsidade é má para os olhos, mas é ainda pior quando macula o entendimento e lança dúvida sobre a palavra do Deus vivo. Que se devota ao teu temor. Ou, seja, faz boa tua palavra sempre que existir piedoso temor. Fortalece todo o corpo da pes­ soa reverente. Estabelece tua palavra, não só em relação a mim, mas em relação a todas as pessoas piedosas debaixo do sol. “Esta­ belece tua palavra para teu tem or”, ou, seja, para que os homens possam ser guiados a temer-te; visto que uma fé inabalável na di­ vina prom essa é a fonte e fundamento do santo temor. Não pode­ mos buscar o cumprimento das promessas em nossa experiência, a menos que vivamos sob a influência do temor do Senhor. O estabelecimento em graça é o resultado de santa vigilância e ener­ gia provinda da oração. Jamais seremos radicados e solidificados em nossa convicção, a menos que diariamente pratiquemos o que professamos crer. Plena certeza é o galardão da obediência. Res­ postas à oração são dadas àqueles cujo coração corresponde ao mandamento do Senhor. Se nos devotamos ao temor de Deus, seremos livres de todo e qualquer medo. Aquele que não se arreceia da veracidade da Palavra, é porque está cheio do tem or do Autor da Palavra. O cepticismo é ao mesmo tempo pai e filho da impiedade; mas a fé forte ao mesmo tempo produz piedade e é dela gerada. Recomendamos todo este versículo a qualquer cris­ tão piedoso cuja tendência pende para o cepticismo; ele constitui­ rá uma admirável oração para ser usada em ocasiões de dúvidas inusitada mente fortes. Temos aqui uma oração argumentativa. Como diz o bom Bispo Cowper: “Aquele que tem recebido do Senhor a graça de temê-lo pode ser ousado em buscar nele qualquer bem necessário; porque o temor de Deus se lhe anexou a promessa de todas as demais bênçãos.” • 70 •


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[v. 39] Afasta de mim o opróbrio, que temo, porque teus juízos são bons. Afasta de mim o opróbrio, que temo. Ele temia justam ente o opróbrio, temendo que fosse a causa de o inimigo blasfemar por alguma inconsistência solerte de sua parte. Devemos temer isso, e vigiar para que o evitemos. A perseguição na forma de calúnia pode também ser motivo de oração, pois que isso constitui dolo­ rosa provação, talvez a mais dolorosa das provações para as pes­ soas de mentes sensíveis. Muitos prefeririam queimar-se num a estaca de martírio do que enfrentar a provação proveniente de cruéis zombarias. Davi era um homem que se acalmava facilmente, e pro­ vavelmente tivesse muito medo da calúnia, visto despertar ela sua ira, e não soubesse dizer o que aconteceria se fosse provocado. Se Deus desvia nossos olhos da falsidade, podemos também esperar que ele desvie a falsidade para que a mesma não prejudique nosso bom nome. Seremos protegidos da mentira, sc também nos guar­ darmos dela. Os juízos dos ímpios são perversos, e por isso podemos apelar deles para o tribunal de Deus. Não obstante, se agirmos assim quando estivermos expostos às censuras dos homens, que motivo temos nós de temer os mais justos juízos do Senhor? Porque teus juízos são bons. Por isso ele se sente solícito de alguém vir falar mal dos caminhos de Deus, ao ouvir as más notí­ cias acerca dele. Lastimamos quando somos caluniados; visto que o vexame é lançado mais sobre nossa religião do que sobre nós mesmos. Se os homens se sentem felizes por atribuir-nos mal, e não passa disso, podemos suportá-lo, porquanto somos maus; mas nossa angústia consiste em que eles lançam estigma sobre a pala­ vra e caráter de Deus, cuja benevolência é impossível de qualquer com paração. Q uando os homens se irritam com o governo que Deus exerce no mundo, é nosso dever e privilégio defendê-lo e publicamente declarar diante dele: “Teus juízos são bons.” E deve­ mos fazer o mesm o quando assaltam a Bíblia, o evangelho, a lei, ou o nome de nosso Senhor Jesus Cristo. Mas devemos atentar bem que não podem fazer qualquer acusação fidedigna contra nós, do contrário nosso testemunho seria pura perda de tempo. 71


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Esta oração contra o opróbrio é um paralelo ao versículo 31, e em geral a muitos outros dos sete versículos nas oitavas, os quais geralmente implicam oposição externa e um a sacra satisfação in­ terior. Observe as coisas que são boas: “Teus juízos são bons” (v. 39); “Tu és bom e fazes o bem ” (v. 68); “Bom é para mim ter sido afligido” (v. 71); “Ensina-me o bom juízo” (v. 66). [v. 40] Eis que tenho suspirado por teus preceitos; vivifica-me em tua justiça. Eis que tenho suspirado por teus preceitos. Ele pode pelo menos alegar sinceridade. Acha-se profundamente prostrado pelo senso de sua fraqueza e pela necessidade da graça; mas deseja em todas as coisas conformar-se à vontade divina. Onde nossos anelos estão, ali estamos nós diante dos olhos de Deus. Se ainda não atingimos a perfeição, não devemos desistir de suspirar por ela. Aquele que nos deu o desejo há de nos dar também a obtenção. Os preceitos são penosos para os ímpios, e portanto, quando nossa transform ação corresponde a nossa aspiração por eles, temos cla­ ra evidência de conversão, e podemos com segurança concluir que aquele que começou a boa obra também a completará. Qualquer pessoa pode ansiar pelas promessas; porém ansiar pelos preceitos é a marca registrada de um coração renovado. Vivifica-me em tua justiça. O salmista já tinha vida suficiente, mas anela por mais vida para poder mais perfeitamente conhecer e observar os preceitos do Senhor. Dá-m e mais vida com quê seguir tua justa lei; ou dá-m e mais vida, pois prometeste ouvir as ora­ ções; e é em sintonia com tua justiça que guardo tua palavra. Quão amiúde Davi implorava por vivificação! Mas nunca tão amiúde como neste Salmo. Carecemos de vivificação a cada instante do dia, pois somos dolorosamente disçostos a agir com lentidão e languidez nos caminhos de Deus. E o Espírito Santo que pode derram ar nova vida em nosso coração; não cessemos de clamar a ele. A criação da vida é uma obra divina; da mesma forma é o aumento dela. Não nos esqueçamos jamais de orar por vivificação em cada e em todas as atividades. Os preceitos podem parecer uma letra morta, até que sintamos vida em nossa obediência a • 72 •


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eles. Nada é pior na religião do que a morte espiritual. O Deus vivo só pode ser servido através de um culto vivo. Os últimos versículos das oitavas geralmente apresentam uma visão progressiva de resolução, esperança e oração. Aqui frutos passados da graça são motivos de súplica por mais bênção. “Pro­ gresso na vida celestial!” é o clamor deste versículo. Que a graça me faça prosseguir e diariamente m archar rumo ao céu.


(w. 41-48) Venham também sobre mim tuas misericórdias, ó Senhor, e tua salva­ ção, segundo tua palavra. E saberei responder a quem me insulta, pois confio em tua palavra. Não tires jamais de minha boca a palavra da verdade, pois tenho esperado em teus juízos. Assim, observarei de con­ tínuo tua lei, para todo o sempre. E andarei em liberdade, pois eu busco teus preceitos. Também falarei de teus testemunhos na presença dos reis e não serei envergonhado. Deleitar-me-ei em teus manda­ mentos, os quais eu amo. Também para teus mandamentos, que amo, levantarei minhas mãos e meditarei em teus estatutos. Nestes versículos um santo temor se faz evidente e proem inen­ te. O homem de Deus treme para que, de maneira alguma ou em grau algum, o Senhor remova dele seu favor. Os oito versículos formam uma súplica contínua pela permanência da graça em sua alma, e é apoiada por argumentos tão santos, que desvendam um espírito ardente de amor por Deus. [v. 41] Venham também sobre mim tuas misericórdias, ó Senhor, e tua salva­ ção, segundo tua palavra. Venham também sobre mim tuas misericórdias, ó Senhor. Davi desejava ao mesmo tempo misericórdia e instrução, pois era a uma só vez culpado e ignorante. Ele era carente de muita m iseri­ córdia e de variada misericórdia, daí o pedido estar no plural. Era carente das misericórdias divinas mais do que das humanas, e por isso suplica por “tuas misericórdias”. O caminho da graça parecia estar bloqueado, e por isso ele implora que as misericórdias desentulhassem e iluminassem seu caminho para Deus, e assim pu ­ desse aproximar-se dele. Aquele que disse: “Haja luz”, também • 74 •


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diz: “Haja misericórdia.” É possível que, sob o senso de indigni­ dade, o escritor temesse que as misericórdias fossem dadas a ou ­ tros, e não a ele; por isso clama: “Que elas venham a m im ”-, “Aben­ çoa-me, inclusive a mim, ó meu Pai!” As palavras são equivalentes a nossa bem conhecida estrofe: "Senhor, tenho ouvido das chuvas de bênçãos Que espalhas abundante e graciosamente: Chuvas para quc se refresQue a terra sedenta. Que algumas gotas desçam sobre mim, Sim, até mesmo sobre mim."

Senhor, quando teus inimigos vierem a mim para me trazer opróbrio, que tuas misericórdias se revelem e me defendam; as provações e tribulações são abundantes, e não poucos trabalhos e sofrimentos me cercam; Senhor, que tuas misericórdias, em gran­ de medida, entrem pelo portão da graça; pois não cs íu “o Deus de minhas misericórdias”? E tua salvação. Esta é a suma e coroa de todas as misericórdi­ as - o livramento de todo o mal, tanto agora como no porvir. Aqui a salvação aparece pela primeira vez no Salmo, e se acha associa­ da à misericórdia: “Pela graça sois salvos.” A salvação é qualifica­ da de “tua salvação”, atribuindo-a, assim, totalmente ao Senhor: “Aquele que é o nosso Deus é o Deus da salvação.” Que infinita massa de misericórdias é acumulada na única salvação provinda de nosso Senhor Jesus! Inclui a misericórdia que nos poupa até sermos convertidos, e ela mesma nos conduz à conversão. Temos a misericórdia que nos chama, a que nos regenera, a que nos con­ verte, a que nos justifica, a que nos perdoa. Tampouco podemos excluir da salvação plenária qualquer um a das muitas m isericórdi­ as que conduzem o cristão em segurança à glória. A salvação é um conjunto de misericórdias, incalculáveis em número, cujo valor é sem preço, cuja aplicação é incessante, cuja duração é eterna. Ao Deus de nossas misericórdias seja a glória no porvir eterno. Segundo tua palavra. O caminho da salvação é descrito na Palavra; a própria salvação é prometida na Palavra; e sua m anifes­ tação interior é operada pela Palavra; de modo que, em todos os • 75 •


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aspectos, a salvação que está em Cristo Jesus está em harmonia com a Palavra de Deus. Davi amava as Escrituras, mas anelava, no âmbito da experiência, conhecer a salvação nelas contida. Ele não se contentava em ler a Palavra; anelava experimentar seu sentido interior. Ele valorizava toda a esfera da Escritura em virtude de descobrir nela o mais valioso tesouro. Não se contentava em ter um capítulo ou um versículo: ele queria as misericórdias e a salvação. Note que no primeiro versículo da seção que traz a letra He (v. 33), o salmista orou para que pudesse guardar a Palavra de Deus; e aqui, na letra Vau, ele suplica ao Senhor que fosse capacitado a guardar sua Palavra. No primeiro caso, ele anelava aproximar-se do Deus das misericórdias; e aqui, ele quer que as misericórdias do Senhor estejam perto dele: no primeiro caso, ele buscava a gra­ ça para perseverar na fé; e, neste, ele busca o alvo de sua fé - a salvação de sua alma. [v. 42] E saberei responder a quem me insulta, pois confio em tua palavra. E saberei responder a quem me insulta. Esta é uma resposta incontestável. Quando Deus, ao conceder-nos a salvação, respon­ de nossas orações com paz, nos sentimos imediatamente prepara­ dos para dar resposta às objeções dos infiéis, aos sofismas dos cépticos e às zombarias dos escarnecedores. E muito mais desejá­ vel que os ultrajes sejam respondidos, e daí podemos esperar que o Senhor salve seu povo a fim de que um a espada seja posta em suas mãos com a qual disperse seus inimigos. Quando os que nos humilham são também humilhados por Deus, podemos rogar-lhe que nos ajude a silenciá-los com provas incontestáveis de sua m i­ sericórdia e fidelidade. Pois confio em tua palavra. Sua fé foi vista por ser ele confi­ ante enquanto se achava sob provação, e roga que pudesse repelir os escarnecedores através de uma experiência feliz. A fé é nosso argumento quando buscamos as misericórdias e a salvação; fé no Senhor que nos fala em sua Palavra. “Confio em tua palavra” é uma declaração mais digna de se fazer do que qualquer outra; pois aquele que pode realmente fazê-la certamente recebeu o po­ • 76 •


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der de tornar-se filho de Deus e ser assim herdeiro das m isericór­ dias infinitas. Deus nutre mais respeito pela confiança de um a pes­ soa do que por tudo mais que se acha nela; pois o Senhor escolheu a fé para ser a m ão aberta a receber suas misericórdias e sua salva­ ção. Se alguém nos reprova por confiarmos em Deus, repliquemo-lhe com argumentos conclusivos, m ostrando que Deus cum ­ priu suas promessas, ouviu nossas orações e supriu nossas neces­ sidades. Ainda o mais céptico se vê forçado a curvar-se diante da lógica dos fatos. Neste segundo versículo desta oitava, o salmista faz uma con­ fissão de fé, e um a declaração de sua certeza e experiência. Note que ele faz o mesmo nos versículos correspondentes das seções que se seguem. Veja o versículo 50: “Tua palavra me vivifica”; ver­ sículo 58: “Imploro tua graça”; versículo 66: “Pois creio em teus m andam entos”; versículo 74: “Porque cm tua palavra tenho espe­ rado.” Um sábio pregador pode encontrar nestas expressões uma valiosa série de sermões em torno da experiência humana. [v. 43] Não tires jamais de minha boca a palavra da verdade, pois tenho espe­ rado em teus juízos. Não tires jamais de minha boca a palavra da verdade. Não me impeças de rogar-te que não me deixes destituído de livramen­ to; pois como poderia eu continuar a proclamar tua palavra se achar-m e caído? Esse parece-me ser o curso do significado. A palavra da verdade não pode ser alegria em nossa boca, a menos que tenham os experiência dela em nossa vida, e m anter silêncio não pode ser demonstração de sabedoria se não podemos apoiar nosso testem unho no veredicto de nossa consciência. Esta oração pode também indicar outros modos pelos quais podemos ser im ­ pedidos de falar em nome do Senhor: como, por exemplo, por cairmos em pecado público; por nosso aspecto deprimido revelar frustração; por nosso labor sob enfermidade ou aberração mental, por não encontrarm os nenhuma chance de proclamação ou não encontrarm os nenhum auditório disposto. Aquele que outrora pre­ gou o evangelho com entusiasmo fica cheio de horror ante a idéia • 77 •


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de ser despojado de seu ministério; ele implorará que lhe seja per­ mitido partilhar um pouco seu santo testem unho e considerará seus domingos silenciosos como dias de banimento e punição. Pois tenho esperado em teus juízos. Ele esperava que Deus surgisse e defendesse sua causa, para que pudesse falar com con­ fiança acerca de sua fidelidade. Deus é o Autor de nossas esperan­ ças, e podemos mais oportunam ente rogar-lhe que as concretize. Os juízos de sua providência são o resultado de sua Palavra; o que ele diz nas Escrituras realmente põe em obra em seu governo providente; podemos, pois, rogar-lhe que se mostre forte no meio de suas próprias ameaças e promessas, e que não esperaremos em vão. Os ministros de Deus são às vezes silenciados diante dos peca­ dos de seu povo, e isso os leva a rogar contra tal juízo; seria m ui­ tíssimo preferível que sofressem enfermidade ou pobreza do que ser apagada a chama do evangelho entre eles, e que, portanto, fossem deixados a perecer sem remédio. Livre-nos o Senhor de que seus ministros se transformem em instrumentos na aplicação de tal penalidade. Dem onstrem os um a esperançosa alegria em Deus, para que possamos suplicar em oração diante dele quando ameaçar fechar nossos lábios. No final deste versículo há um a declaração do que o salmista tinha feito em referência à Palavra do Senhor, e nisto três das oita­ vas se assemelham com freqüência. Veja o versículo 35: “Pois nela me deleito”; versículo 43: “Tenho esperado em teus juízos”; versí­ culo 51: “Não me afasto de tua lei”; versículo 59: “E volto meus passos para teus testemunhos”; e os versículos 67, 83, 99 etc. Es­ tes versículos fornecem uma admirável série de meditações. [v. 44] Assim, observarei de contínuo tua lei, para todo o sempre. Nada mais eficazmente retém uma pessoa no caminho do Se­ nhor do que a experiência da veracidade de sua Palavra, incorpo­ rada na forma de misericórdias e livramentos. A fidelidade do Se­ nhor não só abre nossas bocas contra seus adversários, mas tam ­ bém une nossos corações a seu temor, e faz nossa união com ele mais e mais sólida. As grandes misericórdias nos levam a sentir • 78 •


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uma inexprimível gratidão, a qual, deixando no tempo de expri­ mir-se, prom ete encher a eternidade com louvores. Para um cora­ ção inflamado com gratidão, os “para sempre, de eternidade a eter­ nidade”, do texto, não parecerão ser redundância. A hipérbole de Addison, em seu famoso verso, é apenas um vislumbre de seu só­ lido sentido: “ Por toda a eternidade a ti Um jubiloso cântico entoarei: Mas, oh! a eternidade é breve demais Para entoar todo teu louvor.”

Somente a graça de Deus nos capacita a guardar seus m anda­ mentos sem interrupção e sem fim; o am or eterno deve transm itirnos vida eterna, e desta vida eterna nos advém obediência eterna. Não há outra forma de a verdade permanecer em nós, como Davi orou para que ela permanecesse nele. O versículo começa com “Assim”, como fez o versículo 42. Quando Deus concede sua salvação, somos assim favorecidos para silenciar nosso pior inimigo e glorificar nosso melhor Amigo. A misericórdia responde a todas as coisas. Se Deus pelo menos nos der a salvação, podemos vencer o inferno e com unicar-nos com o céu, respondendo aos opróbrios e guardando a lei, e isso para todo o sempre. Não podemos ignorar outro sentido que aqui se insinua. Davi orou para que a Palavra da verdade não fosse retirada de sua boca, e assim pudesse guardar a lei de Deus; ou, seja, mediante o teste­ munho público e a vida pessoal, ele pudesse satisfazer a vontade divina e confirm ar os laços que o uniam para sempre a seu Se­ nhor. Indubitavelmente, a graça que nos capacita a dar testem u­ nho com os lábios é de grande ajuda, para nós e para outros. Sen­ timos que os juram entos do Senhor estão sobre nós, e que não podemos recuar. Nosso ministério é útil primeiramente a nós m es­ mos, ou ele não seria, em segundo lugar, útil a outros. Devemos assim pregar e ensinar a Palavra de Deus para que, por ela, se cumpra nossa vida ativa e cumpramos a lei do amor, constante e consistentemente. E algo horrível quando a pregação hum ana só • 79 •


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faz aum entar o pecado do homem, visto ela contrariar o que a Escritura ensina. [v. 45] E andarei em liberdade, pois eu busco teus preceitos. Os santos não vêem escravidão na santidade. O Espírito de santidade é um espírito livre; ele põe os homens em liberdade e os capacita para que resistam todo empenho para serem trazidos em sujeição. O caminho da santidade não é uma pista para escravos, mas a rodovia do Rei para homens livres que jubilosamente viajam do Egito da servidão para a Canaã do repouso perene. As mise­ ricórdias de Deus e sua salvação, ao ensinar-nos a amar os precei­ tos da Palavra, nos põem em deleitoso descanso; e quanto mais buscarmos a perfeição de nossa obediência, mais desfrutaremos a completa emancipação de toda forma de servidão espiritual. Davi em certa época de sua vida se viu em grande servidão por haver seguido uma política tortuosa. Ele enganou Aquis tão persistente­ mente que foi levado a atos de ferocidade a fim de ocultar a frau­ de, o que o teria feito sentir-se infeliz em sua inusitada posição como aliado dos filisteus e capitão da guarda de seu rei. Ele teria temido que, através de seu fracasso nas tortuosas veredas da falsi­ dade, a verdade não mais estivesse em sua língua, e portanto orou para que Deus, de alguma forma, operasse seu livramento e o liber­ tasse de tal escravidão. Por meio de coisas terríveis, com justiça, o Senhor respondeu a Ziklague: a rede foi rompida, e ele escapou. O versículo está unido ao que vem antes; pois ele começa com a palavra: ‘E’, a qual funciona como um gancho para ligá-lo aos versículos precedentes. Ele faz menção de outro dos benefícios esperados da chegada das misericórdias de Deus. O homem de Deus mencionou o silêncio de seus inimigos (v. 42), o poder para dar testem unho (v. 43) e a perseverança em santidade; agora ele habita em liberdade, a qual, associada à vida, é a mais desejada de todos os homens bravos. Diz ele: ‘andarei’, indicando seu pro­ gresso diário pela vida a fora; ‘em liberdade’, como alguém fora da prisão, desimpedido dos adversários, desvencilhado dos fardos, desalgemado, com uma ampla visão e pairando sem medo. Tal • 80 •


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liberdade seria perigosa se uma pessoa visasse a si própria e a seus próprios prazeres; mas quando o único objeto buscado é a vonta­ de de Deus, não pode haver necessidade de constranger a quem busca. Não é preciso circunscrever a quem pode dizer: “Eu busco teus preceitos.” Observe, no versículo precedente, que ele disse que guardaria a lei; aqui, porém, ele fala de buscá-la. Não tem ele em mente que obedeceria o que conhece, e se em penharia em co­ nhecer mais? Não é esse o caminho para a mais elevada forma de liberdade —estar sempre labutando por conhecer a mente de Deus e conformar-se a ela? Aqueles que guardam a lei estão certos de buscá-la, e afana-se em guardá-la mais e mais. [v. 46] Também falarei de teus testemunhos na presença dos reis, e não serei envergonhado. Isso é parte desta liberdade; ele está livre do medo dos homens mais eminentes, mais soberbos, mais tiranos. Davi foi cham ado a pôr-se diante dos reis quando era um exilado; e depois, quando ele mesmo veio a ser um monarca, já conhecia a tendência dos homens de sacrificar sua religião à pom pa e à política; mas tom ara a resolução de não fazer nada disso. Ele santificaria os princípios políticos e faria os estadistas saberem que somente o Senhor é soberano entre todas as nações. Como rei, ele falaria aos reis acer­ ca do Rei dos reis. Diz ele: ‘Falarei’: a prudência poderia sugerirlhe que sua vida e conduta seriam suficientes, e que seria aconse­ lhável não tocar em questões de religião na presença de persona­ gens da realeza que cultuavam outros deuses e reivindicavam o direito de assim o fazer. Ele já havia oportunam ente tomado esta resolução mediante a declaração: ‘A ndarei’; mas não fizera de sua conduta pessoal uma justificativa para o silêncio pecaminoso, pois acrescenta: ‘Falarei.’ Davi reivindicava sua liberdade religiosa e to ­ mava cuidado em usá-la, pois falava daquilo em que ele cria m es­ mo quando se achava na mais eminente companhia. No que ele dizia, tomava cuidado em guardar a própria Palavra de Deus, pois diz: “Falarei de teus testemunhos.” Nenhum tema se assemelha a este, e não há o que fazer para que o tema fique oculto no livro e


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usar seu pensamento e linguagem. Nossa grande dificuldade em falar sobre tópicos sacros em todas as companhias é a vergonha, porém o salmista afirma: “Não terei vergonha.” Não há nada de que envergonhar-se, e não há justificativa para envergonhar-se, e não obstante muitos ficam mudos como cadáveres de medo que alguma criatura como nós se sinta ofendida. Quando Deus conce­ de a graça, a covardia logo se desvanece. Aquele que fala como arauto de Deus, no poder de Deus, não se envergonha quando começa a falar, nem enquanto está falando, nem depois de falar; pois seu tema é próprio para reis, indispensável para reis e benéfi­ co para reis. Se os reis objetarem, poderemos sentir vergonha de­ les, porém jamais de nosso Senhor que nos enviou, nem de sua mensagem, nem de seu propósito em enviá-la. [v. 47] Deleitar-me-ei em teus mandamentos, os quais eu amo. Em companhia da liberdade e da coragem vem o deleite. Q uan­ do tivermos cumprido nosso dever, acharemos uma grande re­ compensa nele. Se Davi não houvera falado por seu Senhor diante dos reis, teria tido medo de meditar na lei que negligenciara; mas depois de falar por seu Senhor ele sentia a suave serenidade de coração, quando pondera sobre a Palavra. Obedeça ao m anda­ mento, e então você o amará; suporte o jugo, e ele será suave e o descanso procederá dele. Depois de falar da lei, o salmista não se cansava de seu tema, mas retirou-se para meditar nele. Depois de discursar, ele se deleitava; depois de pregar, ele recorria a seu es­ tudo para renovar sua força, nutrindo-se uma vez mais da precio­ sa verdade. Quer deleitasse outros quer não, quando falava, nunca deixava de deleitar-se enquanto ponderava sobre a Palavra do Se­ nhor. Ele declara que amava os m andamentos do Senhor; e atra­ vés de sua confissão ele revelava a razão de deleitar-se neles — onde nosso am or está, aí está nosso deleite. Davi não se deleitava nas cortes dos reis, pois ali encontrava ocasiões de tentação para envergonhar-se; nas Escrituras, porém, era como estar em casa; seu coração estava nelas, elas eram seu supremo prazer. Não sur­ preende que falasse de guardar a lei, a qual amava. Disse Jesus: • 82 •


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“Se alguém me ama, guardará minhas palavras.” Não surpreende que falasse de andar em liberdade e falar ousadamente, pois o ge­ nuíno amor é sempre livre e destemido. O am or é o cum prim ento da lei; onde o amor pela lei de Deus reina no coração, a vida se enche de bem-aventurança. Senhor, que tuas misericórdias nos encontrem, para que possamos amar tua Palavra e teu caminho, e para que encontremos neles todo nosso deleite. O versículo está no tempo futuro, e daí ele expressa, não só o que Davi fizera, mas o que ele pretendia fazer; ele queria oportu­ namente deleitar-se nos mandamentos de seu Senhor. Ele sabia que eles não podem ser alterados, nem deixar de produzir nele alegria. Ele sabia também que a graça o guardaria na mesma con­ dição de seu coração am ar os preceitos do Senhor, de modo que, ao longo de toda sua vida, desfrutaria de supremo deleite na san­ tidade. Seu coração estava tão fixo no amor para com a vontade de Deus, que tinha certeza de que a graça scmpTe o sustentaria sob sua deleitosa influência. Todo o Salmo é uma constante expressão de amor pela Pala­ vra; aqui, porém, pela primeira vez, ele é verbalmente expresso. Ele aqui se acha associado ao deleite; e no versículo 165, à “gran­ de paz”. Todos os versículos em que o amor se expressa em tantas palavras são dignos de nota. Veja os versículos 47, 97, 113, 119, 127, 140, 159, 163, 167. [v. 48] Levantarei minhas mãos para teus mandamentos, que amo, e medita­ rei em teus estatutos. Levantarei minhas mãos para teus mandamentos, que amo. Ele estende os braços para a perfeição até onde pode, esperando um dia poder alcançá-la. Quando suas mãos penderem, ele recuperar-se-á do langor pela visão prospectiva de glorificar a Deus através da obediência; e dará solene sinal de seu cordial assenti­ mento e consentimento quanto a tudo o que seu Deus ordena. A frase, “levantarei minhas m ãos”, é muito significativa, e sem dúvi­ da o terno cantor tinha em mente tudo quanto podia ver nela e mais uma grande medida. Uma vez mais ele declara seu amor; • 83 •


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pois um coração sincero ama para expressar-se; é um gênero de fogo que espalharia suas chamas. Era natural que ele tivesse a seu alcance uma lei na qual se deleitava, como se fosse uma criança que estende sua mão para receber um presente muito desejável. Quando um objeto tão amável, como a santidade, é posto diante de nós, somos impulsionados em direção a ele em penhando toda nossa natureza, e enquanto não for plenamente concretizado, no mínimo estenderemos nossas mãos em oração para recebê-lo. Aonde mãos santas e corações santos vão, o homem todo, um dia, também irá. E meditarei em teus estatutos. E possível que nunca tenha meditação bastante. Os súditos zelosos desejam familiarizar-se com os estatutos de seus soberanos para não ofendê-los em decorrên­ cia da ignorância. Oração com mãos erguidas, e meditação com olhos direcionados para o alto, num a ditosa união, produzirão os melhores resultados interiores. A oração do versículo 41 já se cum ­ priu na pessoa que luta olhando para cima e estuda visando às profundezas de seu coração. A totalidade deste versículo está no tempo futuro, e pode ser vista não só como uma determinação da mente de Davi, mas como um resultado que ele sabia se seguiria de enviar-lhe o Senhor suas misericórdias e sua salvação. Quando a misericórdia desce até nós, nossas mãos se erguem; quando des­ frutamos a consciência de que Deus pensa em nós com um amor especial, nos asseguramos de pensar também nele.

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(w. 49-56) Lembra-te da palavra proferida a teu servo, na qual me tens feito es­ perar. O que me consola em minha aflição é isto: que tua palavra me tem vivificado. Os soberbos zombam intensamente de mim; todavia não me afastei de tua lei. Lembrei-me de teus juízos de outrora e me sinto consolado, ó Senhor. De mim se apoderou a indignação, por causa dos perversos que abandonaram tua lei. Teus estatutos têm sido meus cânticos na casa de minha peregrinação, lenho recordado de teu nome, ó Senhor, durante a noite, e tenho guardado tua lei. 1'em-se dado assim comigo, porque guardo teus preceitos. Esta oitava trata do conforto oriundo da Palavra. Começa bus­ cando a principal consolação, ou, seja, o cum primento da pro­ messa do Senhor, e então m ostra como a Palavra nos sustenta na aflição e nos faz tão inacessíveis ao ridículo, movidos pela ríspida conduta dos ímpios, mais pelo horror de seu pecado do que por alguma submissão a suas provocações. Somos, pois, informados como a Escritura apresenta cânticos para os peregrinos e m em óri­ as para os vigias noturnos; e a porção termina com a afirmação geral de que toda sua felicidade e conforto são oriundos de guar­ darem eles os estatutos do Senhor. [v. 49] Lembra-te da palavra que proferiste a teu servo, na qual me tens feito esperar. Lembra-te da palavra que proferiste a teu servo. Ele indaga não de uma nova promessa, mas da antiga palavra cumprida. Ele está agradecido por haver recebido tão boa palavra, a qual abraça com todas as veras do coração, e agora suplica ao Senhor que o trate de acordo com ela. Ele não diz: “Lembra-te de meu serviço a • 85 •


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ti prestado”, mas de “tua palavra [ou promessa] que proferiste a mim”. As palavras dos senhores a seus servos nem sempre são tais que os servos queiram que seus senhores as repitam; pois geral­ mente anotam as faltas e falhas no trabalho feito, naquilo que não correspondem à palavra de ordem. Mas servimos o melhor dos senhores, sem medo de uma de suas palavras cair ao chão, visto que o Senhor tão bondosamente nos lembra de sua palavra de ordem, quando nos dá a graça para que possamos obedecer e nos traz à memória igualmente sua promessa, de modo que nosso co­ ração seja consolado. Se a palavra de Deus dirigida a nós como seus servos é tão preciosa, que diremos de sua palavra dirigida a nós como seus filhos? O salmista não teme estar ausente na memória do Senhor, se­ não que faz uso da promessa como uma reivindicação, e esta é a forma na qual ele fala, segundo a maneira dos homens quando argumentam uns com os outros. Quando o Senhor lembra os pe­ cados de seus servos, e os põe diante de sua consciência, o peni­ tente clama: Senhor, lembra-te de tua palavra de perdão, e por­ tanto lembra-te de meus pecados e não inquiras nada mais. Há um universo de significado no verbo ‘lem brar’, quando dirigido a Deus; é usado na Escritura no mais terno sentido, e se adequa à depressão e ao deprimido. O salmista clamou: “Senhor, lembra-te de Davi e de todas as suas aflições”; Jó também orou para que o Senhor lhe designasse um tempo determinado e se lembrasse dele. No presente exemplo, a oração é tão pessoal como o “Lembra-te de m im ” do ladrão, pois sua essência está nas palavras: “de teu servo”. Ser-nos-ia tudo em vão se a promessa fosse lembrada em relação a todos os outros, e não se concretizasse em relação a nós; porém não existe tal probabilidade; pois o Senhor nunca olvidou sequer uma promessa, feita a algum crente nele. Na qual me tens feito esperar. O argumento consiste em que Deus, havendo nos dado a graça para esperarmos, jamais nos de­ sapontará nessa espera. Ele não pode fazer-nos esperar sem m oti­ vo. Se esperamos em sua palavra, temos a base infalível sobre a qual edificar - nosso gracioso Senhor jamais zombará de nós, nos incitando a falsas esperanças. A esperança indeferida faz o cora­ • 86 •


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ção enfermo; daí a petição para imediata lembrança da palavra de ânimo. Além do mais, ela é a esperança de um servo, e não é pos­ sível que um grande e bom senhor decepcione seu dependente. Se a palavra de um tal senhor não for guardada, isso só se daria atra­ vés de um descuido; daí o aflitivo clamor: “Lem bra-te.” Nosso grande Senhor não esquecerá seus próprios servos, nem frustrará a expectativa que ele mesmo suscita; porque somos do Senhor, e nos esforçaremos por lembrar de sua palavra para obedecê-la; e estejamos certos de que ele se lembrará de seus próprios servos, e se lembrará de sua própria promessa, fazendo com que se cumpra. Este versículo é a oração de amor de alguém que teme ser es­ quecido; de humildade de alguém que é cônscio de sua insignifi­ cância e que teme ser ignorado; de arrependim ento de alguém que treme, esperando que o mal de seu pecado não tolde a promessa; de ardente desejo de alguém que anela pela bênção; c de santa confiança de alguém que sente que tudo o que se deseja eslá com ­ preendido na Palavra. Simplesmente deixemos que o Senhor se lembre de sua promessa; e o ato prometido é tão bom como o concretizado. [v. 50] O que me consola em minha aflição é isto: que tua palavra me tem vivificado. Sua intenção é: Tua palavra é meu conforto; ou: meu conforto está no fato de que tua palavra me traz vivificação. Ou quis dizer que a esperança que Deus lhe deu era seu conforto, pois Deus o vivificara através dela. Seja qual for o sentido exato, é evidente que o salmista sofria aflição —aflição peculiar a sua pessoa, a qual ele chama “minha aflição”; que ele experimentava conforto nela —, conforto própria e especialmente seu, porquanto o denominou de “meu conforto”; e ele sabia qual era o conforto e donde viera, pois exclama: “Eis meu conforto.” Os profanos seguram sua bolsa de dinheiro, e dizem: “Eis meu conforto”; o perdulário aponta para a jovialidade e grita: “Eis meu conforto”; o ébrio ergue sua garrafa e canta: “Eis meu conforto”; mas a pessoa cuja esperança vem de Deus sente a vida gerada pelo poder da Palavra do Senhor e testi­ • 87 •


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fica: “Eis meu conforto.” Paulo diz: “Eu sei em quem tenho crido.” O conforto é desejável em todo tempo; mas o conforto na afli­ ção é como uma lâmpada num lugar escuro. Muitos são incapazes de achar conforto na tribulação; mas esse não é o caso com os cristãos, pois seu Salvador lhes disse: “Não vos deixarei órfãos.” Alguns têm conforto, porém não aflição; outros têm aflição, po­ rém não conforto; mas os santos têm conforto em sua aflição. O termo freqüentemente nos conforta, aumentando a força de nossa vida interior: “Este é meu conforto; tua palavra me tem vivificado.” Vivificar o coração é imprimir espírito jovem à pessoa toda. As vezes o modo mais prático para consolação é através da santificação e revigoramento. Se não podemos afastar o nevoeiro, podemos subir a um ponto mais alto e ficar acima dele. As prova­ ções que nos fazem vergar enquanto nos sentimos meio mortos se tornam mera irrisão quando nos achamos no vigor da vida. E as­ sim às vezes nosso espírito é soerguido pela graça que vivifica; e o mesmo às vezes se repete, pois o Consolador está ainda conosco, a Consolação de Israel sempre vive e o próprio Deus de Paz é perenemente nosso Pai. Ao volvermos nossos olhos para nossa vida pregressa, nos deparamos com motivos de conforto no que tange a nosso estado - a Palavra de Deus nos vivificou e nos conservou assim. Estávamos mortos, mas não continuamos mortos. Desse fato alegremente inferimos que, se o Senhor pretendesse destruirnos, ele não nos teria vivificado. Se fôssemos apenas hipócritas dignos de irrisão, como os soberbos costumam dizer, ele não nos teria renovado por sua graça. Uma experiência de vivificação pela Palavra de Deus é uma fonte de efusivo bem. Veja como a experiência deste versículo se transform a em ora­ ção no versículo 107: “Estou mui aflito; vivifica-me, ó Senhor, segundo tua palavra.” A experiência nos ensina como orar e for­ nece os argumentos para a oração. [v. 51] Os soberbos zombam intensamente de mim; todavia, não me afastei de tua lei. Os soberbos zombam intensamente de mim. Os soberbos • 88 •


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nunca amam as pessoas agraciadas; e visto que as temem, disfar­ çam seu temor com pretenso desprezo. Neste caso, seu ódio se manifesta no ridículo, e tal ridículo é altissonante e duradouro. Quando queriam divertir-se, divertiam-se às custas de Davi, visto que ele era servo de Deus. Os homens devem ter olhos estranhos para serem capazes de ver farsa na fé e comédia na santidade; não obstante, é algo doloroso que os homens que são de pouca imagi­ nação geralmente conseguem provocar uma profusa gargalhada ao ridicularizar um santo. Pecadores conceituados conseguem di­ vertir-se de pessoas piedosas. Conseguem provocar ruidosa brin­ cadeira quando caricaturam um membro fiel de “O Clube Santo”: seus métodos de vida organizada são matéria de gracejos, cha­ m ando-o de “o m etodista”; e seu pecaminoso ódio põe suas lín­ guas a falarem jocosidade contra o carrancudo e escrupuloso pu­ ritano, cham ando-o de hipocrisia. Se Davi era grandem ente es­ carnecido, não podemos esperar escapar do escárnio dos ímpios. Existem ainda na face da terra hostes de pessoas soberbas, e se encontrarem um cristão em aflição serão bastante maldosas e bas­ tante cruéis para fazerem troças em seu detrimento. Faz parte da natureza do filho da escrava escarnecer do filho da promessa. Todavia, não me afastei de tua lei. E assim os escarnecedores erraram o alvo: deram gargalhada, porém não venceram. O piedo­ so, ainda que se desvie de seu reto caminho, nem assim se extin­ gue sua paz, nem em qualquer sentido se desprende de seus hábi­ tos santos. M uitos ter-se-iam declinado; muitos têm se declinado; Davi, porém, não se declinou. Prestar demasiada honra aos insen­ satos eqüivale a conceder-lhes meia vitória. Sua profana hilaridade não nos prejudicará se não lhe prestarmos atenção, porquanto a lua nada sofre dos cães que uivam olhando para ela. A lei de Deus é nossa suprem a via de paz e segurança, e os que mofam de nós não nos desejam nenhum bem. A luz do versículo 61, notamos que Davi não se deixaria ven­ cer pelo espólio de seus bens embora sofresse à vista de motejos tão cruéis. Veja também o versículo 157, onde a multidão de per­ seguidores e inimigos se viu frustrada em suas tentativas de fazêlo desistir dos caminhos de Deus. • 89 •


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[v. 52] Lembrei-me de teus juízos de outrora e me sinto consolado, ó Senhor. Ele havia pedido ao Senhor que se lembrasse; aqui ele se lem­ bra de Deus e de seus juízos. Q uando não divisarmos nenhuma manifestação atual do poder divino, é sábio voltarmos aos regis­ tros de épocas anteriores, visto que são tão valiosos como se as transações fossem de ontem, já que o Senhor é sempre o mesmo. Nosso verdadeiro conforto deve ser encontrado no que nosso Deus opera no interesse da verdade e do direito, e como as histórias dos tempos de outrora estão saturadas das intervenções divinas, é bom nos familiarizarmos totalmente com elas. Além do mais, se somos de idade avançada, temos diante de nós as providências de nossos primeiros anos, e elas não devem de forma alguma ser esquecidas nem deixadas fora de nossos pensamentos. O argumento é bom e sólido: aquele que se tem dem onstrado forte em favor de seu povo crente é o Deus imutável, e portanto podemos esperar o livramen­ to que vem de suas mãos. O sarcasmo dos soberbos não nos afligi­ rá quando guardamos na m emória como o Senhor tratou seus predecessores nos períodos primevos: os destruiu no dilúvio; os confundiu em Babel; os afogou no Mar Vermelho; os expulsou de Canaã - em todas as épocas ele desnudou seu braço contra os arrogantes, e os esmiuçou como se fossem vasos nas mãos do oleiro. Enquanto em nosso próprio coração humildemente bebermos da misericórdia divina em quietude, não ficaremos sem conforto em tempos de tumulto e escárnio; pois em tais momentos recorrere­ mos à justiça divina e nos lembraremos como Deus escarnece dos escarnecedores: “Ri-se aquele que habita nos céus, o Senhor zomba deles.” Ao ver-se profundamente escarnecido, o salmista não sentouse em desespero, mas recobrou seu ânimo. Ele sabia que o confor­ to é indispensável ao vigor no serviço e à paciência na persegui­ ção, portanto procurou confortar-se. Ao agir assim, ele recorreu não tanto ao lado dócil, mas ao lado austero dos tratos do Senhor - ele permaneceu em seus juízos. Se podemos achar suavidade na justiça divina, quanto mais a sentiremos no amor e na graça de Deus! O homem precisa estar em paz com Deus de tal forma que • 90 .


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o conforto lhe seja assegurado, não só em suas promessas, mas também em seus juízos! Mesmo as coisas terríveis de Deus são alvissareiras para o coração dos cristãos. Eles sabem que nada é mais vantajoso a todas as criaturas de Deus do que serem elas governadas por uma mão forte que intervém com justiça. A pessoa justa não teme a espada do soberano, a qual só é terror para os malfeitores. Q uando o piedoso é injustamente tratado, ele encon­ tra conforto no fato de existir um Ser que é o Juiz de toda a terra, o qual vingará seus próprios eleitos e compensará os males desses tempos desordenados. [v. 53] De mim se apoderou a indignação, por causa dos perversos que aban­ donaram tua lei. Ele ficou horrorizado com a ação deles, com a soberba que os levou a agirem assim e com o castigo que certamente recairia so­ bre eles por causa de sua atitude. Ao meditar sobre os antigos juízos de Deus, ele encheu-se de horror ante a sorte dos ímpios, a qual poderia ser sua também. Seus zombadores não lhe causaram angústia, mas foi afligido pela antevisão da ruína deles. As verda­ des que lhes serviam de troça, para ele eram motivo de espanto. Ele os via totalmente apostatados da lei de Deus, deixando-a como uma vereda deserta e coberta de vegetação por falta de trânsito, e tal abandono da lei o encheu das mais dolorosas em oções. Ele estava atônito com a impiedade deles, estupefato com sua presun­ ção, alarmado com a expectativa de sua súbita ruína, espantado ante o terror de sua infalível destruição. Veja os versículos 106 e 158, e note a ternura que se harm oni­ za com tudo isso. Os que nutrem a mais firme convicção do eterno castigo dos ímpios são os que mais se entristecem com sua des­ truição. Não é evidência de ternura fechar alguém os olhos para a pavorosa destruição dos ímpios. A compaixão é m uitíssim o m e­ lhor dem onstrada ao tentarm os salvar os pecadores do que a ten­ tativa de tornar agradáveis as coisas que cercam a todos. Ah! se Iodos nós nos sentíssemos mais aflitos ao meditar na sorte que aguarda os ímpios no inferno! O costume geral é fechar os olhos • 91 •


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para ela, ou tentar ignorá-la; mas o servo fiel de Deus pode dizer: “Não agi assim porque temo a Deus.” [v. 54] Teus estatutos têm sido meus cânticos na casa de minha peregrinação. Como outros servos de Deus, Davi sabia que ele não tinha casa neste mundo, mas era um peregrino nele, buscando um país superior. Não obstante, ele não lastimava este fato, mas cantava a despeito dele. Ele não nos diz nada acerca de seus lamentos pere­ grinos, mas fala de seus cânticos peregrinos. Mesmo o palácio em que habitava não passava de “a casa de suas peregrinações”, a estalagem onde repousava, a estação onde parava por algum tem ­ po. Os homens costumam cantar enquanto se acham em suas estalagens, e assim faziam estes ímpios hóspedes de passagem. Ele, porém, cantava os cânticos de Sião, os decretos do grande Rei. Os mandamentos de Deus lhe eram sobejamente conhecidos como as baladas de seu país, e eram agradáveis a seu paladar e sonoros a seus ouvidos. Feliz é o coração que acha sua alegria nos m anda­ mentos de Deus e faz da obediência sua recreação! Quando há música na religião, tudo fica bem. Quando cantamos nos cam i­ nhos do Senhor, isso mostra que nosso coração está neles. N os­ sos Salmos são peregrinos, ou Cânticos dos Degraus; mas são de tal natureza que podemos cantá-los por toda a eternidade; pois os decretos do Senhor são o saltério dos mais altos céus. Os santos acham horror no pecado e harmonia na santidade. Os ímpios se esquivam da lei; os justos a celebram com cântico. Nos dias de outrora cantávamos os decretos do Senhor, e neste fato podemos extrair conforto para a aflição no presente. Visto que nossos cânticos são tão diferentes daqueles dos soberbos, po­ demos esperar reunir-nos num coral muito diferente, no futuro, daquele em que ora cantamos, e compor música num lugar muito distante daquele em que os soberbos habitam. Note como nos sextos versículos de suas respectivas oitavas encontramos amiúde disposição para bendizer a Deus, ou regis­ tros de testemunhos. No versículo 46, temos: “Falarei”; e no 62: “para te dar graças”; enquanto que aqui ele fala de cânticos. • 92 •


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[v. 55] Tenho recordado, ó Senhor, de teu nome durante a noite, e tenho guar­ dado tua lei. Tenho recordado, ó Senhor, de teu nome durante a note. Enquanto outros dormiam, eu ficava acordado pensando em ti, em tua pessoa, em tuas ações, em teu pacto, em teu nome — termo este no qual ele envolve o caráter divino até onde é ele revelado. Ele vivia tão ansioso pelo Deus vivo que acordava nas horas m or­ tas da noite a meditar sobre ele. Estes eram os “pensamentos no­ turnos” de Davi. Se não eram “memórias luminosas”, eram m e­ mórias do Sol da Justiça. E ótimo quando nossa memória nos for­ nece consolação, de modo a podermos dizer com o salmista: sen­ do inicialmente instruído a conhecer-te, só tinha que recordar as lições de tua graça, e meu coração foi consolado. Este versículo revela não só que o homem de Deus recordava, mas também que ele ainda lembra do Senhor seu Deus. Temos que santificar o nome de Deus, e não podemos fazer isso se ele escapa a nossa memória. E tenho guardado tua lei. Ele encontrou santificação através da meditação; através dos pensamentos noturnos ele administrava as ações diurnas. Como as ações diurnas às vezes criam os sonhos noturnos, assim os pensamentos noturnos produzem os feitos diur­ nos. Se não guardarm os o nome de Deus em nossa memória, não guardaremos a lei de Deus em nossa conduta. A negligência m en­ tal nos leva à negligência no viver diário. Quando ouvimos as canções noturnas dos farristas, temos nisso segura evidência de que não guardam a lei de Deus; mas as silentes meditações das pessoas agraciadas são prova positiva de que o nome do Senhor lhes é mui querido. Por suas canções podemos julgar as nações, e o mesmo se dá no tocante aos homens; e no caso dos justos, seu cantar e seu meditar são ambos indicações de seu am or a Deus: quer elevem suas vozes, quer se quedem em silêncio, continuam glorificando o Senhor. Bem-aventuradas são as pessoas cujos “pensamentos noturnos” são memórias da luz eterna; serão lem bradas pelo Senhor quando a noite da m orte che­ gar. Amado leitor, seus pensamentos na escuridão são cheios de luz, por serem cheios de Deus? Seu Nome é o tema natural de • 93 •


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suas reflexões noturnas? Então ele dará um doce matiz a suas ho­ ras noturnas e meridianas. Ou seria o caso de você dedicar toda sua mente a preocupações evanescentes e a deleites deste m undo? Se esse é o caso, não surpreende de você não viver como deveria. Ninguém é casualmente santo. Se não nutrimos nenhuma m em ó­ ria de Jeová, é evidente que também não nos lembraremos de seus mandamentos; se não pensamos nele secretamente, não o obede­ ceremos publicamente. [v. 56] Tem-se dado assim comigo porque eu guardei teus preceitos. Ele estava de posse deste conforto, desta lembrança de Deus, deste poder para cantar, desta coragem para encarar o inimigo, desta esperança na promessa, porque tinha ardentemente obser­ vado os mandamentos de Deus e se diligenciava em andar neles. Não somos galardoados por nossas obras, mas há nelas um a re­ compensa. Para muitos, o conforto só é obtido por um viver zelo­ so. Podemos seguramente dizer de tal consolação: “Eu obtive isto por guardar teus preceitos.” Como podemos vencer o ridículo se estamos vivendo de maneira inconsistente? Como podemos con­ fortavelmente lembrar-nos do Nome do Senhor se vivemos displi­ centemente? É possível que Davi quisesse dizer que ele fora capacitada a guardar a lei em virtude de haver considerado os preceitos separa­ damente; que havia tomado os mandamentos detalhadamente, e assim atingira a santidade de vida. Aquele que não é zeloso das partes da lei não pode guardá-la como um todo. Ou é possível que ele quisesse dizer que, ao guardar determinados preceitos, adqui­ rira força espiritual para guardar os outros. Pois Deus dá mais graça aos que têm alguma medida dela, e os que aperfeiçoam seus talentos descobrirão que eles mesmos são aperfeiçoados. Talvez seja melhor deixar a passagem aberta justamente como faz nossa versão; de modo que possamos dizer de mil bênçãos inestimáveis: “Elas nos alcançaram no caminho da obediência.” Todas as nos­ sas possessões são dons da graça, e no entanto é inquestionavel­ mente verdadeiro que algumas delas nos vêm na forma de galar­ • 94 •


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dão. Mesmo quando as coisas boas nos vêm nesta forma de galar­ dão, não assumem o caráter de dívida, mas de graça. Deus prim ei­ ro opera em nós as boas obras, e em seguida nos galardoa em função delas. Esta é uma condescendência complexa, um fruto da benevolência. Neste versículo temos uma conclusão apropriada para esta se­ ção do Salmo, visto que ela contém um forte argumento em prol da oração que abriu a seção. Se temos sido auxiliados a recordar os mandamentos de nosso Senhor, podemos estar certos de que ele se lembrará de nossas necessidades. O terno cantor tinha cer­ teza de haver guardado os preceitos de Deus, e portanto podia suplicar mais apropriadamente que o Senhor mantivesse suas pro­ messas. Por toda a passagem podemos deparar-nos com apelos, especialmente nas duas lembranças. “Tenho lembrado de teus juí­ zos” e “Tenho lembrado de teu nom e”; “Lembra-te de tua palavra para com teu servo”.

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(w. 57-64) Tu és minha porção, ó Senhor; eu disse que guardaria tuas palavras. Imploro de todo o coração teu favor; sê misericordioso para comigo, segundo tua palavra. Pondero em meus caminhos e volto meus passos para teus testemunhos. Apresso-me, não me detenho em guardar teus mandamentos. Os laços dos perversos me enleiam; contudo não me esqueci de tua lei. Levanto-me à meia-noite para te render graças, movido por teus retos juízos. Companheiro sou de todos os que te te­ mem e dos que guardam teus preceitos. A terra, Senhor, está cheia de tua misericórdia; ensina-me teus estatutos. Nesta seção, o salmista parece tomar sólida posse de Deus mesmo: apropriando-se dele (v. 57); clamando a ele (v. 58); vol­ tando-se para ele (v. 59); consolando-se nele (w. 61, 62); associ­ ando-se a sua pessoa (v. 63); e suspirando por sua instrução pes­ soal (v. 64). Note como o primeiro versículo desta oitava é vincu­ lado ao último da anterior, do qual ele é de fato uma expansão. “Tem-se dado assim comigo, porque guardo teus preceitos. Tu és minha porção, ó Senhor; eu disse que guardaria teus preceitos.” Embora sejam muitos, estes versículos são apenas um único pão. [v. 57] Tu és minha porção, ó Senhor; eu disse que guardaria tuas palavras. Tu és minha porção, ó Senhor. Uma expressão interrompida. Os tradutores a têm melhorado com algumas inserções, mas é pro­ vável que o melhor seja deixá-la como está, e então apareceria como uma exclamação — “Minha porção, ó Senhor!” O poeta se sente absorto em perplexidade enquanto se dá conta de que o im en­ surável e glorioso Deus é toda sua possessão! E bem provável que seja assim, porque não há possessão como o próprio Jeová. A for­ • 96 •


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ma da sentença expressa jubiloso reconhecimento e apropriação “M inha porção, ó Jeová!” Davi amiúde presenciava a divisão da presa e ouvia os gritos dos vitoriosos em torno dela; aqui ele se regozija como alguém que toma posse de parte do despojo; ele escolhe o Senhor para ser sua parte do tesouro. Como os levitas, ele tomou Deus para ser sua porção, e deixou outras partes para aqueles que as cobiçavam. Eis aqui um a grande e duradoura he­ rança, pois ela inclui tudo, e mais que tudo, e que dura mais que tudo; e no entanto ninguém a escolhe para si enquanto Deus não o houver abençoado, separado e renovado. Quem é realmente sábio que hesitaria por um instante quando o Deus infinitamente bemaventurado se põe diante dele para ser o objeto de sua escolha? Davi aproveitou a oportunidade e apoderou-se da inestimável d á­ diva. Nosso autor, aqui, ousa exibir o certificado de propriedade de sua porção na presença do próprio Senhor, pois ele expressa sua jubilosa declaração diretamente a Deus, a quem ousadamente chama minha porção. Tendo amplo campo onde escolher, pois ele era rei e um homem de grandes recursos, deliberadamente volta as costas a todos os tesouros do m undo e declara que o Senhor, Jeo­ vá mesmo, é sua porção. Eu disse que guardaria tuas palavras. Nem sempre podemos relembrar com conforto daquilo que dissemos, mas neste exemplo Davi expressou-se sabiamente e muito bem. Ele declarou sua es­ colha; ele preferiu a palavra de Deus às riquezas mundanas. Era sua firme resolução guardar - ou seja, entesourar e observar - as palavras de seu Deus; e como havia outrora solenemente expresso na presença do próprio Senhor, assim aqui ele confessa a penhorada obrigação de seu juramento anterior. Disse Jesus: “Se al­ guém me ama, guardará minhas palavras”, e esse é um caso que ele podia citar como uma ilustração; pois o amor do salmista por Deus, como sua porção, o levou a guardar as palavras de seu Deus. Davi tomou a Deus tanto como seu Príncipe quanto como sua Porção. Ele estava confiante quanto a seu interesse por Deus, e por isso estava resoluto em sua obediência a ele. A plena convic­ ção é uma poderosa fonte de santidade. As próprias palavras de Deus devem ser harmazenadas; pois quer se relacionem com a • 97 •


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doutrina, com a promessa, ou com o preceito, são muitíssimo pre­ ciosas. Quando o coração está determ inado a guardar essas pala­ vras, e tenha registrado seu propósito no tribunal celestial, está preparado a enfrentar todas as tentações e provações que porven­ tura lhe recaiam; pois, com Deus por sua herança, ele sempre des­ fruta a boa atmosfera. [v. 58] Imploro de todo o coração teu favor; sê misericordioso para comigo, segundo tua palavra. Imploro de todo o coração teu favor. Uma posse plenamente assegurada de Deus não descarta a oração; ao contrário, nos im ­ pele para ela. Aquele que sabe ser Deus o seu Deus buscará sua face, anelando por sua presença. Buscar a presença de Deus é a idéia comunicada pela leitura marginal, “tua face”, e isso condiz com o hebraico. A presença de Deus é a mais elevada forma de seu favor [graça], e por isso é o mais urgente desejo das almas agraci­ adas. A luz de seu semblante nos transmite um a prelibação do céu. Oh, que sempre desfrutemos dela! O bom homem suplicou o sor­ riso de Deus como alguém que implorava por sua vida, e toda a força de seu desejo acompanhava a súplica. Apelos tão ardentes garantem o sucesso; aquilo que vem de nosso coração certamente irá ao coração de Deus. Todas as graças de Deus estão à disposi­ ção daqueles que as buscam de todo seu coração. Sê misericordioso para comigo, segundo tua palavra. Ele implorou por graça, e a forma em que mais necessitava dela é a da misericórdia; pois ele é mais pecador do que todos os demais. Ele nada pede além da promessa, apenas roga por aquela misericórdia revelada pela palavra. E o que mais poderia ele querer ou desejar? Deus revelou essa infinita misericórdia em sua palavra, de modo que seria impossível conceber mais que isso. Veja como o salmista insiste no favor e misericórdia; ele nunca sonha com mérito. Ele não exige; suplica. Pois sente sua própria indignidade. Note como ele permanece um suplicante, embora soubesse que em seu Deus ele possuía todas as coisas. Deus é sua porção, e mesmo assim ele implora para contemplar sua face. Nunca entrou em sua mente a • 98 •


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idéia de qualquer outra posição diante de Deus além daquela de alguém imerecidamente favorecido. Aqui temos seu “sê m isericor­ dioso para comigo” emanando com tal intensidade de humilde apelo como se ainda permanecesse entre o mais trem ente dos pe­ nitentes. A confiança da fé nos torna ousados em oração, mas ela nunca nos ensina a vivermos sem oração, ou a nos justificarmos em ser algo mais além de humildes suplicantes diante do portão da misericórdia. [v. 59] Pondero em meus caminhos e volto meus passos para teus testemu­ nhos. Enquanto estudava a Palavra, ele era levado a estudar sua pró­ pria vida, e isso provocava poderosa revolução. Ele chegava-sc à Palavra e em seguida volvia para si próprio, e isso o fazia erguer-se e chegar-se a seu Pai. A ponderação é o início da conversão. Pri­ meiro pensamos; e então nos volvemos. Quando a mente se arre­ pende dos maus caminhos, os pés são logo guiados aos bons ca­ minhos. Mas não há arrependimento algum enquanto não houver reflexão profunda e sincera. Muitas pessoas são contrárias a qual­ quer tipo de reflexão; e no que tange à ponderação sobre seus caminhos, não podem suportá-la, pois seus caminhos não supor­ tam que sejam examinados. Os caminhos de Davi não eram tudo aquilo de que ele desejava que fossem, e assim seus pensamentos eram temperados com o ânimo extraído do pesar; mas ele não concluiu com lamentações frívolas, mas deu início a uma repara­ ção prática: volveu-se e revolveu-se, buscou os testemunhos do Senhor e apressou-se em desfrutar um a vez mais o inconfundível favor de seu Amigo celestial. Ação sem reflexão é estupidez; e re­ flexão sem ação é indolência. Refletir cuidadosamente e então agir determ inadamente é uma feliz combinação. Ele implorara por co­ munhão renovada, e agora prova a genuinidade de seu anelo de­ m onstrando obediência renovada. Se nos encontrarm os em trevas c sentirmos a ausência de Deus, nosso mais sábio m étodo será não tanto ponderar sobre nossas angústias, mas sobre nossos ca­ minhos: ainda que não possamos reverter o curso da providência, • 99 •


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podemos reverter o caminho de nossa jornada, e isso eqüivale a imediata reparação. Se podemos endireitar imediatamente os pés para uma santa jornada, podemos endireitar imediatamente nos­ sos corações para um santo viver. Deus aprim orará seus santos quando se volverem para ele; sim, ele já os favoreceu com a luz de seu rosto quando começaram a pensar e a dar meia volta. [v. 60] Apresso-me, e não me detenho em guardar teus mandamentos. Ele preparou tudo rapidamente para reaver a estrada real da qual se desviara e voltou a percorrê-la com os caminheiros do Rei. Prontidão no arrependimento e prontidão na obediência são dois fatores excelentes. Tão amiúde nos apressamos para o pecado. Tomara que tenhamos mais pressa rumo à obediência! Delonga em arrepender-se propicia o arrefecimento no pecado. Ser lento em guardar os mandamentos eqüivale a transgredi-los. Há muito mal em retardar o passo quando o mandamento de Deus precisa ser seguido. Um santo entusiasmo no serviço deve ser bem culti­ vado. Ele é operado em nós pelo Espírito Santo, e os versículos precedentes descrevem o método dele —passamos a perceber e a chorar nossos erros, somos levados de volta à vereda certa e então nos animamos a recuperar o tempo perdido, lançando-nos ao cum ­ primento do preceito. Sejam quais forem as escorregadelas e desvios de um coração honesto, ainda resta nele bastante da vida genuína para produzir piedade ardente quando for vivificado pela visitação de Deus. O salmista suplicou por misericórdia, e quando a recebeu tornou-se entusiasta e veemente nos caminhos do Senhor. Ele os am ara sem ­ pre, e por isso, quando foi enriquecido com a graça, demonstrou grande vivacidade e deleite neles. Ele foi duplamente dinâmico: positivamente, “apressou-se”; negativamente, recusou a dar qual­ quer motivo que insinuasse procrastinação - ele “não delongou” . E assim fez rápidos avanços e realizou muito serviço, cumprindo assim o juram ento que está registrado no versículo 57: “Eu disse que guardaria tuas palavras.” Os mandamentos que ele nutria tan­ ta solicitude em obedecer não eram ordenanças humanas, e, sim, 100 •


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preceitos do Altíssimo. Muitos são zelosos em obedecer a costu­ mes e a agremiações religiosas, e no entanto são relapsos em ser­ vir a Deus. E um clamoroso vexame que os homens sejam servidos com toda presteza, e que a obra de Deus seja encarada com des­ consideração ou realizada com displicente negligência. [v. 61 ] Os laços dos perversos me enleiam; contudo não me esqueci de tua lei. Os laços dos perversos me enleiam. Outrora zombavam dele; agora o defraudam. Os ímpios se tornam piores e ficam cada vez mais ousados, ao ponto de passarem do ridículo ao roubo. Muita dessa ousada oposição surge de se juntarem em bandos. Muitas pessoas ousam fazer em grupos o que não ousariam nem mesmo pensar quando sozinhas. Quando se põem tições juntos, não há como dizer que tipo de chama poderão produzir. Tudo indica que juntaram todos os bandos com o intuito de assaltar este filho de Deus; são suficientemente covardes para qualquer coisa; embora não pudessem matá-lo, todavia o roubavam; os cães de Satanás atorm entam os santos, caso não possam devorá-los. Os inimigos de Davi fizeram seu máximo: primeiro, as serpentes silvam; em seguida, picam. Já que as palavras não surtiram efeito, os perver­ sos recorreram aos golpes. Quanto os ímpios têm saqueado os santos em todos os tempos, e quão amiúde têm os justos suporta­ do alegremente o espólio de seus bens! Contudo não me esqueci de tua lei. Isso foi muito bom. Nem seu senso de justiça, nem sua mágoa em suas perdas, nem suas tentativas em defender-se o desviou dos caminhos de Deus. Ele preferiu não errar para impedir o sofrimento proveniente do erro, nem fazer o mal como vingança contra o mal. Ele levava a lei em seu coração, e por isso nenhuma perturbação de seu espírito po­ deria desviá-lo de segui-la. Ele preferia esquecer de si próprio an ­ tes que esquecer da lei. Estava pronto a perdoar e esquecer as injúrias feitas contra si, pois seu coração estava saturado com a Palavra de Deus. Os bandos de perversos não o espoliaram de seu mais precioso tesouro, visto que não lhe roubaram sua santidade e sua felicidade.


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Há quem lê esta passagem assim: “Bandos de perversos me cercam .” Encurralaram-no; suprimiram-lhe todo e qualquer so­ corro; bloquearam toda via de escape; o homem de Deus, porém, tinha consigo um protetor; um a consciência límpida confiava na promessa, e com uma brava resolução aferrou-se ao preceito. Ele não podia ser nem seduzido nem manobrado pelo pecado. O cor­ dão dos ímpios não podia ocultar Deus dele, nem ele de Deus. Deus era sua porção, e ninguém podia privá-lo dela, nem por for­ ça, nem por fraude. Eis a genuína graça que pode suportar o teste. Alguns são graciosos apenas entre o círculo de seus amigos; este homem, porém, era santo mesmo rodeado por seus inimigos. [v. 62] Levanto-me à meia-noite para te dar graças, por causa de teus justos juízos. Ele não nutria medo algum dos ladrões; erguia-se do leito não para vigiar sua casa, mas para louvar a Deus. Meia-noite é a hora dos arrombadores, e havia uma horda deles em torno de Davi, mas eles não ocupavam seus pensamentos; foram todos apanha­ dos e destruídos pelo Senhor seu Deus. Ele não cogitava de la­ drões, mas de dar graças; não do que eles poderiam roubar, mas do ele daria a seu Deus. Um coração grato é uma bênção tal que afasta os temores e dá lugar ao louvor. Ações de graças convertem noite em dia e consagram todas as horas ao culto divino. Cada hora é canônica para um santo. O salmista observava a postura; ele não continua deitado en­ quanto louva. Não existe muita importância na posição do corpo, mas há algo, e esse algo tem de ser observado sempre que o m es­ mo seja útil à devoção e expresse nossa diligência ou humildade. Muitos ajoelham sem orar; alguns oram sem ajoelhar; mas o pre­ ferível é associar joelhos e oração. Isso ocorreu aqui; não teria havido virtude alguma levantar-se do leito sem render graças, e não haveria pecado algum em dar graças sem levantar-se do leito; mas levantar-se e dar graças são uma ditosa combinação. Era um tempo de quietude e solidão, quando seu zelo foi provado. A meianoite ninguém o estaria observando nem o perturbando; era seu 102 •


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merecido tempo, o qual reservara para dormir, quando estaria isen­ to de sacrificar os deveres públicos e dedicar-se a suas devoções privativas. M eia-noite encerra um dia e começa outro; era, po r­ tanto, necessário entregar-se a m omentos solenes de com unhão com o Senhor. No meio da noite ele apresentava-se a seu Deus. Ele tinha ações de graças a oferecer pelas misericórdias que Deus exercera para com ele. Ele tinha em sua mente a verdade contida no versículo 57: “Tu és minha porção”; e se algo pode levar al­ guém a cantar no meio da noite, aqui está esse algo. Os feitos justos do grande Juiz alegraram o coração deste san­ to homem. Os juízos divinos são o lado sombrio de Deus, mas não exercem terror algum nos justos; eles os admiram e adoram o Se­ nhor deles; eles se erguem do leito no meio da noite para bendizer a Deus, para que ele vingue seu próprio eleito. Há quem odeia a própria noção de justiça divina, e nisso constituem o polo oposto deste homem de Deus, que se enchia de jubilosa gralidão ante a m emória das sentenças do Juiz de toda a terra. Não há dúvida de que na expressão, “teus justos juízos”, Davi se refere também aos juízos escritos de Deus sob vários pontos da conduta moral; aliás, todos os preceitos divinos podem ser visualizados p o r esse pris­ ma; são todos eles as decisões legais do Supremo Arbitro quanto ao certo e errado. Davi sentia-se fascinado com esses juízos. Como Paulo, ele pôde dizer: “Deleito-me na lei de Deus em consonância com o homem interior.” E possível que não achasse tempo sufici­ ente durante o dia para estudar as palavras da divina sabedoria, ou para bendizer a Deus por elas, e assim renunciava seu merecido sono para que pudesse expressar sua gratidão por tão santa Lei e por tão soberano Legislador. Este versículo é um avanço no sentido do 52, e contém, em adição, a essência do 55. Nosso autor nunca se repete; embora suba e desça a mesma escala, sua música tem uma variedade infi­ nita. As permutas e combinações que podem ser formadas com umas poucas verdades vitais são inumeráveis. [v. 63] Companheiro sou de todos os que te temem e dos que guardam teus preceitos. 103 •


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Companheiro sou de todos os que te temem. O último versí­ culo diz: “Levanto-me”; e este diz: “Eu sou”. E difícil nutrir certe­ za quanto ao futuro, a menos que estejamos certos agora. O santo homem gastava suas noites com Deus e seus dias com o povo de Deus. Os que temem a Deus amam os que o temem, e fazem uma seleção muito diminuta do núm ero de seus companheiros sobre a base de serem eles homens tementes a Deus. Davi era um rei, não obstante era amigo de todos os que temiam ao Senhor, quer fos­ sem obscuros ou famosos, pobres ou ricos. Ele era membro do colégio de todos os santos. Ele não selecionou uns poucos santos especialmente em inen­ tes e deixou os crentes comuns fora. Ele sentia-se feliz por perten­ cer à sociedade daqueles que tinham apenas o princípio da sabe­ doria na forma de “o temor do Senhor”. Ele sentia-se prazeroso em sentar-se com eles nas mais humildes formas da escola da fé. Ele buscava o temor piedoso do coração, mas também esperava ver a piedade externa naqueles a quem ele admitia em sua socieda­ de; daí acrescentar: e dos que guardam teus preceitos. Se guar­ dassem os mandamentos do Senhor, o servo do Senhor conserva­ ria sua companhia. Davi tinha consciência de estar do lado piedo­ so; ele sempre pertencera à confraria puritana. Os homens de Belial o odiavam por isso, e sem dúvida o desprezavam por conservar essa incomensurável companhia de homens e mulheres humildes, escrupulosos e religiosos; mas o homem de Deus de forma alguma se envergonhava de seus associados; por isso até mesmo se glori­ ava em confessar sua união com eles - que seus inimigos façam o que puderem com ela. Ele encontrou prazer e proveito nessa santa sociedade; ele cresceu mais associando-se aos bons e recebendo honra por conservar tão honrosa companhia. O que diz o leitor? Você confia nessa santa sociedade? Sente-se em casa entre essas pessoas agraciadas? Se a resposta é positiva, então você pode ex­ trair conforto desse fato. As aves da mesma espécie se mantêm juntas. Uma pessoa é conhecida pela companhia que mantém. Os que não nutrem o temor de Deus em seu coração dificilmente de­ sejarão a companhia dos santos; isso seria muito desconcertante; seria maçante demais. Eis nosso conforto quando somos entre 104 •


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gues à morte: congregar-nos-emos com aqueles que amaram os santos na terra; seremos contados em seu número nas regiões ce­ lestiais. Há um tesouro de paralelismo entre a oitava sete e oito, entre a sétima de Teth e de Jod (v. 79); mas, como regra, as similaridades que foram tão claras nos versículos iniciais estão agora se tornan­ do indistintas. A medida que o sentido se aprofunda, a forma arti­ ficial de expressão é menos perceptível. [v. 64] A terra, Senhor, está cheia de tua misericórdia; ensina-me teus estatutos. A terra, Senhor, está cheia de tua misericórdia. Davi tem vivido em exílio, porém nunca esteve longe da misericórdia, pois descobrira que o m undo está por toda parte saturado dela. Ele vagueara pelos desertos e vivera escondido pelas cavernas, e ali vira e sentira a munifícência do Senhor. Aprendera que, longe dos limites da terra da promessa e da raça de Israel, o amor dc (eová ali se estendia, e neste versículo ele expressa a idéia da m agnani­ midade de Deus que é tão raram ente vista entre os judeus m oder­ nos. Que doce nos é saber que não só há misericórdia estendida por todo o mundo, mas também que há um a imensa profusão dela permeando toda a terra! Não há que estranhar que o salmista, já que conhecia o Senhor como sua porção, esperasse obter para si uma boa m edida de misericórdia. Ele desejava conhecer mais de alguém tão bondoso; e como o Senhor tão graciosamente se tem revelado na natureza, ele sentiu-se encorajado a orar: “ensina-me teus estatutos”. Ser ensinado pessoalmente por Deus era-lhe uma idéia magnífica, bem como ser instruído na própria lei de Deus. Não lhe era possível imaginar uma misericórdia m aior que essa. Seguramente, aquele que enche o universo com sua graça atende­ rá a um pedido como este, provindo de seu próprio filho. Anelemos pelo Jeová Todo-misericordioso, e que nos asseguremos de que isso se cum pra em nós. O primeiro versículo desta oitava é arom atizado com plena certeza e forte resolução, e este último versículo transborda com a convicção da plenitude divina e com a dependência pessoal do 105 •


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salmista. Isso serve de ilustração para o fato de que a plena certeza não desencoraja a oração nem serve de obstáculo à humildade. Não seria erro algum se disséssemos que ela cria a humildade e estimula a súplica. “Tu és minha porção, ó Senhor” é seguido bem de perto por “ensina-me”; pois o herdeiro de um grande estatuto deve ser plenamente educado, para que seu com portamento esteja em plena harmonia com seu bom êxito. Que exemplo de discípu­ los devemos revelar cuja herança é o Senhor dos Exércitos! Aque­ les que têm Deus por sua Porção anseiam tê-lo como seu Mestre. Além do mais, aqueles que decidiram obedecer são os mais solíci­ tos em deixar-se instruir. “Eu disse que guardaria tuas palavras” é lindamente seguido de “ensina-me teus estatutos”. Os que dese­ jam guardar uma lei também anseiam conhecer todas as suas cláu­ sulas e provisões para que não ofendam pela inadvertência. Aque­ le que não se preocupa em deixar-se instruir pelo Senhor jamais nutrirá honesta resolução de ser santo. W

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(w. 65-72) Tens tratado bem a teu servo, ó Senhor, segundo tua palavra. Ensiname bom juízo e conhecimento, pois tenho crido em teus mandamentos. Antes de ser afligido, eu andava errante, mas agora guardo tua pala­ vra. Tu és bom e fazes o bem; ensina-me teus estatutos. Os soberbos têm forjado mentiras contra mim; não obstante, guardarei teus precei­ tos de todo o coração. Tornou-se-lhes o coração insensível, como se fosse de sebo; mas eu me deleito em tua lei. Foi bom ter eu sido afligi­ do, para que aprendesse teus estatutos. Para mim vale mais a lei que procede de tua boca do que milhares de ouro ou de prata. Nesta nona seção, os versículos no hebraico começam todos com a letra Teth. Estes versículos são os atributos da experiência testificando da benevolência divina, da graciosidade de suas ativi­ dades em relação a nós e da preciosidade de sua Palavra. Especial­ mente, o salmista proclama o excelente uso da adversidade e da bondade de Deus ao ser ele afligido. O versículo 65 é o textochave de toda a oitava. [v. 65] Tens feito bem a teu servo, ó Senhor, segunda tua palavra. Este é o sumário de sua vida, e com certeza é o de nossa pró­ pria vida. O salmista dá ao Senhor o veredicto de seu coração. Ele não pode ficar em silêncio, e tem de expressar sua gratidão na presença de Jeová, seu Deus. A luz da bondade universal de Deus na natureza, no versículo 64, é um passo simples e agradável a uma confissão da invariável bondade do Senhor para com nossa personalidade. E algo com que Deus por fim terá que tratar com cada um de nós, seres insignificantes e destituídos de méritos. E seu trato conosco é muitíssimo bom, maravilhosamente bom. Ele 107 •


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fez todas as coisas bem; não há exceção nesta regra. Ao providen­ ciar, ao agraciar, ao proporcionar prosperidade e ao enviar adver­ sidade, em tudo isso Jeová nos tem tratado bem. E agir bem de nossa parte dizer ao Senhor que sentimos que ele tem agido bem em relação a nós. Pois tal louvor é especialmente oportuno e con­ veniente. Essa bondade do Senhor não é de forma alguma casual. Ele prom eteu agir assim, e o tem cumprido segundo sua palavra. É muitíssimo precioso ver a palavra do Senhor sendo cumprida em nossa ditosa experiência. Ela faz com que a Escritura se nos torne muitíssimo valiosa e nos leva a amar o Senhor da Escritura. O livro da Providência corresponde ao livro da Promessa. O que lemos na página da inspiração encontramos nas folhas da história de nossa vida. Nem imaginávamos que fosse assim; mas nossa incredulidade é desfeita assim que vemos a misericórdia do Se­ nhor em nosso favor e sua fidelidade para com sua Palavra. D o­ ravante nos vemos forçados a exibir um a fé mais sólida, tanto em Deus quanto em sua promessa. O mesmo que falou fielmente tam ­ bém age fielmente. Ele é o melhor dos senhores; pois é em favor de servos por demais indignos e incapazes que ele age assim tão gra­ ciosamente. Não é esta, porventura, a causa de nos deleitarmos mais e mais em seu serviço? Não podemos dizer que temos trata­ do corretamente nosso Senhor; pois quando tivermos feito tudo, ainda seremos servos inúteis. No caso de nosso Senhor, porém, ele nos tem dado trabalho leve, proteção sobeja, encorajamento amoroso e salários liberais. Porventura nos surpreende se ele há muito tempo nos haja desobrigado, ou, pelo menos, reduziu nos­ sas porções e nos tratou asperamente? Contudo não temos sofri­ do maus tratos; tudo tem sido ordenado com tanta consideração, como se tivéssemos prestado perfeita obediência. Temos tido pão suficiente e até de sobra; nossa vida tem sido suprida e seu serviço nos tem enobrecido e nos feito felizes como reis. Não temos m oti­ vo algum para queixa. Entregamo-nos a ações de graças adorativas e nos achamos outra vez ocupados em render graças. [v. 66] Ensina-me bom juízo e conhecimento, pois creio em teus mandamentos. 108 •


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Ensina-me bom juízo e conhecimento. Uma vez mais ele roga por instrução, como no versículo 64, e uma vez mais usa a m iseri­ córdia divina como argumento. Visto que Deus o tratara bem, ele se vê animado a orar por juízo a fim de apreciar a bondade do Senhor. O dom do bom juízo é um a forma de bondade de que o piedoso mais carece e mais deseja, e é aquela que o Senhor está mais pronto a conceder. Davi sentia que fracassava com freqüên­ cia no juízo em questão do trato do Senhor com ele —da falta de conhecimento que o levava a julgar mal a mão disciplinadora do Pai celestial, e por isso pede que agora que seja melhor instruído, já que percebe a injustiça que fizera ao Senhor por suas conclu­ sões precipitadas. Eis o que ele quer dizer: Senhor, tu me Iratavas bem quando eu pensava estivesse sendo duro e arbitrário; que te aprazas dar-m e mais bom senso, para que em mom ento algum pense eu tão injustamente de meu Senhor. Um vislumbre de nos­ sos erros e um senso de nossa ignorância podem tornai'-nos dó ­ ceis. Não somos aptos a julgar, porquanto nosso conhecimento ó lamentavelmente inexato e imperfeito; se o Senhor nos ministrar conhecimento, obteremos bom juízo, mas não de outra forma. Só o Espírito Santo pode encher-nos de luz e dar-nos discernimento equilibrado. Que anelemos ardentemente por suas instruções, vis­ to ser mais desejável que não mais sejamos meras crianças em conhecimento e discernimento. Pois creio em teus mandamentos. Seu coração era reto, e por isso esperava que sua cabeça também o fosse. Ele tinha fé, e por isso esperava receber sabedoria. Sua mente estabelecera a convic­ ção de que os preceitos da Palavra do Senhor eram, portanto, ju s­ tos, sábios, saudáveis e proveitosos. Ele cria na santidade, e visto que tal convicção com certeza é obra da graça na alma, ele busca­ va ainda mais operações da graça divina. Aquele que crê nos m an­ damentos é a pessoa que pode conhecer e entender as doutrinas e as promessas. Se olharmos para trás, para nossos equívocos e ignorâncias, poderemos ver se ainda amamos sinceramente os p re­ ceitos da vontade divina; teremos boas razões de esperar que seja­ mos discípulos de Cristo e que ele nos ensinará e nos fará pessoas de bom juízo e de são conhecimento. A pessoa que aprende o dis­ 109 •


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cernimento através da experiência, e dessa maneira se torna al­ guém de são juízo, é um valioso membro da igreja e o instrum ento de muita edificação para outros. Sejamos todos muitíssimo úteis, apresentando a oração deste versículo: “Ensina-me bom juízo e conhecim ento.” [v. 67] Antes cie ser afligido, eu andava errante, mas agora guardo tua palavra. Antes de ser afligido, eu andava errante. Em parte, quem sabe, pela ausência de provação. As vezes nossas provações funci­ onam como uma cerca de espinho a proteger-nos na boa pasta­ gem; nossa prosperidade, porém, é uma fenda através da qual nos extraviamos. Se algum de nós se lembra de alguma vez em que não tinha provação, provavelmente também recorde que então a graça era lenta e a tentação muito forte. E provável que algum cristão clame: “Oh, está acontecendo comigo o m esmo que na­ queles dias antes de ser afligido!” Esse é um lamento muito estul­ to, e procede de um amor carnal por boa vida. A pessoa espiritual que prega o crescimento em graça bendirá a Deus pelo fato de que aqueles dias podem vir; e se o tempo for tempestuoso demais, isso também será muito saudável. E bom quando a mente é aberta e cândida, como no presente caso. E provável que Davi jamais hou­ vera conhecido e confessado seus próprios extravios, não fora ele golpeado pela vara divina. Por que razão um pouco de tranqüili­ dade nos causa tanta mazela? Nunca podemos descansar sem en­ torpecer-nos? Nunca estar cheios sem engordar? Nunca subir em relação a um m undo sem descer em relação ao outro? Que criatu­ ras somos sendo incapazes de suportar um pouco de prazer?! Que corações vis são os que convertem a abundância da bondade divi­ na em ocasião para pecar?! Mas agora guardo tua palavra. A graça está no coração que tira proveito de sua disciplina. Não existe proveito algum em arar um solo improdutivo. Quando não há vida espiritual, a aflição não produz benefício espiritual. Mas quando o coração é saudável, a dificuldade desperta a consciência, o desvio é confessado, a alma se torna uma vez mais obediente ao mandamento e continua firme 110 •


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nessa vereda. Chorar não converte um rebelde em filho; mas ao verdadeiro filho um toque de vara é um corretivo infalível. No caso do salmista, a medicina da aflição operou uma m udança — “m as”; uma m udança imediata - “agora”; uma m udança final - “guar­ do”; uma mudança em direção a Deus - “tua palavra”. Antes que lhe sobreviesse tribulação, ele andou errante; mas depois que con­ servou no íntimo a cerca da Palavra, e deparou-se com boa pasta­ gem para a alma, a provação o acorrentou a seu devido lugar; ela o guardou, e ele, por sua vez, guardou a palavra de Deus. Doces são as utilidades da adversidade, e esta é uma delas. Ela põe um freio na transgressão e fornece uma espora para a santidade. [v. 68] Tu és bom e fazes o bem; ensina-me teus estatutos. Tu és bom e fazes o bem. Mesmo na aflição, Deus c bom c faz o bem. Aqui está uma confissão provinda da experiência. Deus c inerentemente bom, e em cada atributo de sua natureza ele c bom na plenitude do termo; aliás, ele possui o monopólio da bondade, pois ninguém há que seja bom senão Deus. Seus atos são segundo sua natureza - de um a fonte pura só pode fluir águas puras. Deus não é bondade latente e inativa; ele se manifesta por meio de seus feitos; ele é ativamente beneficente; ele faz o bem. Todo o bem que ele nos faz nenhum a língua poderia contar! Quão bom ele é ne­ nhum coração pode conceber! E bom adorar o Senhor, como faz o poeta aqui, ao descrevê-lo. Os fatos acerca de Deus são o m e­ lhor louvor que se pode atribuir a Deus. Toda glória que podemos tributar a Deus é refletir sua própria glória sobre ele mesmo. Não podemos expressar a bondade de Deus melhor do que ele mesmo o faz. Cremos em sua bondade, e assim o honram os por meio de nossa fé; admiramos sua bondade, e assim o magnificamos por meio de nosso testemunho. Ensina-me teus estatutos. A mesma oração de antes, secun­ dada pelo mesmo argumento. Ele ora: “O Senhor é bom e me faz o bem, para que eu seja igualmente bom e faça o bem através de sua instrução.” O homem de Deus era um erudito e se deleitava na instrução. Ele atribuía isso à bondade do Senhor, e esperava que, • 111 .


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pela mesma razão, lhe fosse permitido permanecer na escola e aprender ainda que pudesse praticar perfeitamente cada lição. Sua cartilha preferida eram os estatutos [decretos] divinos; ele não queria nenhum a outra. Conhecia o doloroso resultado de trans­ gredir esses estatutos [ou decretos], e através de uma dolorosa experiência foi reconduzido ao caminho da justiça; e por isso ro ­ gava, como o maior exemplo possível da bondade divina, que pudes­ se adquirir um perfeito conhecimento da lei e uma completa con­ formidade com ela. Aquele que lamenta não haver guardado a pala­ vra, anela por ser instruído nela. E aquele que se regozija no fato de que pela graça tem sido instruído a guardá-la, não se sente menos ansioso para que a mesma instrução tenha seguimento para ele. No versículo 12, que é o quarto versículo de Beth, temos o mesmo sentido que neste quarto versículo de Teth. [v. 69] Os soberbos têm forjado mentiras contra mim; não obstante, eu guar­ darei teus preceitos de todo o coração. Os soberbos têm forjado mentiras contra mim. Primeiramen­ te, zombaram dele (v. 51); em seguida, o defraudaram (v. 61); e agora, o difamam. Ao injuriarem seu caráter, recorreram à falsida­ de, pois, se falassem a verdade, nada encontrariam contra ele. For­ jaram mentira como o ferreiro que, na bigorna, dá forma a uma arma de aço; ou falseavam a verdade como os homens que forjam uma moeda falsa. O original pode sugerir uma expressão comum: “Eles improvisaram uma mentira contra mim.” Para a mentira não se revelavam tão soberbos. A soberba é uma mentira; e quando um soberbo pronuncia mentiras, “fala do que lhe é próprio”. Os so­ berbos geralmente são os mais amargos oponentes dos justos. Nutrem inveja de sua boa fama e são ávidos em arruiná-la. A calú­ nia é uma arma vulgar e sempre à mão, se o objetivo for a destrui­ ção de uma reputação agraciada; e quando muitos soberbos en­ tram em conluio para exagerar e divulgar falsidade maliciosa, ge­ ralmente conseguem ferir suas vítimas, e não é por falta de esforço se não conseguem matá-las de vez. Oh, veneno viperino que corre dos lábios dos mentirosos! Muitas vidas felizes têm sido am argu­ 112-


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radas por ele, e muita reputação intocável tem sido envenenada como se fosse por uma droga letal. E em extremo doloroso ouvir pessoas inescrupulosas malhando persistentem ente na bigorna do diabo a fim de forjar uma nova calúnia; o único antídoto contra ela é a doce promessa: “Nenhuma espada desembainhada contra ti prosperará, e condenas toda língua que age contra ti em juízo.” Não obstante, eu guardarei teus preceitos de todo o coração. Minha ansiedade consiste em atentar para minha própria situação e aderir aos mandamentos do Senhor. Se a lama lançada contra nós não cegar nossos olhos, nem m acular nossa integridade, pou­ co prejuízo nos causará. Se guardarm os os preceitos, estes m es­ mos preceitos nos guardarão no dia da afronta e da calúnia. Davi renova sua resolução — “guardarei”; e tem um a nova visão dos mandamentos, e os vê como sendo realmente do Senhor — “teus preceitos”; e desperta toda sua natureza para a atividade - “de todo meu coração”. Quando os ditamadores nos lorçam a uma obediência mais resoluta e atenta, eles contribuem para (ornar nosso bem mais durável. A falsidade proferida contra nós pode ser uma arma a promover nossa fidelidade à verdade, e a malícia dos ho­ mens pode contribuir para o aum ento de nosso am or por Deus. Se tentarm os responder às mentiras verbalmente, podemos ser batidos na batalha; uma vida santa, porém, é uma refutação inde­ fensável contra todas as calúnias. A malevolência é desviada se perseverarmos em santidade a despeito de toda oposição. [v. 70] Tornou-se-lhes o coração insensível, como se fosse de sebo; eu, porém, me deleito em tua lei. Tornou-se-lhes o coração insensível, como se fosse de sebo. Eles se deleitam na gordura; eu, porém, me deleito em ti. Seus corações, pela indulgência sensual, tornaram -se insensíveis, gros­ seiros e torpes; tu, porém, me salvaste de tal destino por tua mão disciplinadora. Os soberbos engordam-se pelas luxúrias carnais, e isso os torna ainda mais soberbos. Espojam-se em sua prosperi­ dade, e com isso enchem seus corações ainda mais, tornando-se insensíveis, efeminados e amantes dos prazeres. Um coração se­


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boso é algo horrível; é uma sebosidade que leva uma pessoa a to r­ nar-se estulta, um a degeneração oleosa do coração que conduz à debilidade e morte. A gordura em tais pessoas eqüivale a destrui­ ção da vida nelas. Dryden escreveu: “ Oh almas! Nas Quais não se vê nenhum fogo celestial, Mentes sebosas, sempre rastejantes pela terra."

Nesta conexão, os homens não têm o coração posto em nada mais senão na luxúria; seu próprio ser não parece outra coisa fa­ zer senão cozinhar lentamente na gordura da panela para o ban­ quete. Vivendo da gordura da terra, sua natureza é subjugada por aquilo que os tem alimentado; os músculos de sua natureza se tornam frágeis e sebosos. Eu, porém, me deleito em tua lei. Quão melhor é alegrar-se na lei do Senhor do que alegrar-se nas indulgências sensuais! Isso faz o coração saudável e mantém a mente submissa. Ninguém que ame a santidade tem o mais leve motivo de invejar a prosperidade de pessoas mundanas. O deleite na lei enaltece e enobrece, en­ quanto que o prazer carnal obstrui o intelecto e degrada as afei­ ções. Há e sempre haverá um vivido contraste entre o cristão ge­ nuíno e o moralmente depravado, e esse contraste se vê tanto nas afeições do coração quanto nas ações da vida: o coração deles é gordo e seboso; e o nosso se deleita na lei do Senhor. Nossos deleites são o melhor teste de nosso caráter do qualquer outra coisa: o homem é exatamente o que é seu coração. Davi lubrificava as rodas da vida com seu deleite na lei de Deus, e não com a gordura da sensualidade. Ele tinha suas delícias e requintes, suas festas e deleites, e tudo isso ele desfrutava fazendo a vontade do Senhor seu Deus. Quando a lei se converte em deleite, a obediên­ cia é uma bênção. A santidade no coração leva a alma a alimentarse da abundância da terra. Tendo a lei por nosso deleite, produzirá em nossos corações os efeitos opostos da própria soberba: o en­ torpecimento, a sensualidade e a obstinação serão curados, e nos tornamos dóceis à instrução, sensíveis e espirituais. Quão criteri­ osos devemos ser, vivendo sob a influência da lei divina, para não cairmos debaixo da lei do pecado e da morte! 114-


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Foi bom ter sido eu afligido, para que aprendesse teus estatutos. Foi bom ter sido eu afligido. Mesmo quando a aflição prove­ nha de pessoas ruins, ela conduzia a fins benéficos; ainda que fos­ se prejudicial quando provinda de tais pessoas, para Davi ela era boa. Ele sabia muito bem que ela o beneficiava de muitas m anei­ ras. Quaisquer que fossem os pensamentos que lhe sobreviessem enquanto enfrentava a provação, ele tinha consciência de que era melhor assim. Não era bom ver os soberbos prosperando, pois seus corações se tornavam ainda mais sensuais e insensíveis; mas a aflição tinha um caráter positivo para o salmista. Nosso pior nos é melhor que o melhor para os pecadores. Para os pecadores, a alegria se torna nociva; e para os santos, a tristeza é benéfica. In findos benefícios nos têm sobrevindo através de nossas dores c tristezas; e no mais, permanece isto: que assim temos sido instruí­ dos na lei. Para que aprendesse teus estatutos. Nosso conhecimento c nossa observância destes estatutos nos vieram enquanto sentía­ mos os golpes da vara. Oramos ao Senhor para que nos instruísse (v. 66), e agora percebemos que ele já fez isso. Aliás, na verdade ele nos tem tratado bem, pois nos tem tratado de forma muito sábia. Temos sido guardados, através de nossas provações, da ig­ norância e de um coração seboso, e isso, se porventura não exis­ tisse nada mais, seria causa suficiente de constante gratidão. Ser engordado pela prosperidade não é saudável para a soberba; mas, em prol da verdade, ser instruído pela adversidade é saudável para a humildade. Mui pouco se tem a aprender sem aflição. Para ser­ mos bons alunos, temos de ser bons sofredores. Como dizem os latinos: Experientia clocet - a experiência ensina. Não há estrada régia para se aprenderem estatutos régios; os m andamentos de Deus são melhor lidos por olhos úmidos de lágrimas. [v. 72] Para mim vale mais a lei que procede de tua boca do que milhares de ouro ou de prata. A lei que procede de tua boca. Um título docemente expressi­


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vo para a Palavra de Deus. Ela vem da própria boca de Deus com frescor e poder para nossas almas. Coisas escritas são como ervas secas; mas a expressão verbal tem em si jovialidade e bálsamo. Fazemos bem em buscar a Palavra do Senhor como se ela fosse uma nova expressão para nossos ouvidos; pois em cada verdade não se vê a defasagem dos anos, mas é tão eficaz e veraz como se fosse expresso pela primeira vez. Os preceitos são apreciados quan­ do se descobre que saíram dos lábios de nosso Pai que está no céu. Os mesmos lábios que nos comunicaram a existência, com unica­ ram a lei pela qual devemos governar essa mesma existência. D on­ de é possível que uma lei proceda tão docemente como aquela que procedeu da boca do Deus do pacto? Bem que poderíamos avaliar acima de todo e qualquer preço aquilo que provém de uma tal fonte! Para mim vale mais do que milhares de ouro ou de prata. Se um pobre houvera dito isso, as pretensões do m undo teriam insi­ nuado que as uvas são ácidas e que os homens que não possuem riquezas são os primeiros a desprezá-las; mas este é o veredicto de um homem que era dono de riquezas, e que podia julgar, com base na experiência real, o valor do dinheiro e o valor da verdade. Ele fala de grandes riquezas; as am ontoara aos milhares; ele faz menção das variedades de suas formas — “ouro e prata”; e então põe a Palavra de Deus em primeiro lugar, como sendo o melhor para si mesmo, ainda que outros não cressem que ela fosse melhor para eles. A riqueza é benéfica em alguns aspectos, mas a obediên­ cia é melhor em todos os aspectos. E bom guardar os tesouros desta vida; porém muito mais recomendável é guardar a lei do Senhor. A lei é melhor que o ouro e a prata, pois estes podem ser roubados de nós, porém não a Palavra; ouro e prata podem criar asas, porém a Palavra de Deus permanece; ouro e prata são inúteis no momento da morte; mas é nesse momento que a promessa é mais preciosa. Os cristãos instruídos reconhecem o valor da Pala­ vra do Senhor, e ardorosamente a expressam, não apenas em seu testemunho, a seus semelhantes, mas, em suas devoções, a Deus. E um sinal indelével de um coração que aprendeu os estatutos de Deus quando temos por eles um valor superior a todas as posses­ 116-


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sões terrenas; e é igualmente uma marca infalível da graça quando os preceitos da Escritura são tão preciosos quanto suas prom es­ sas. O Senhor nos leva assim a valorizar a lei de sua boca. Veja como esta porção do Salmo está sazonada com benevo­ lência. Os tratos de Deus são bons (v. 65); seu santo juízo é bom (v. 66); a aflição é boa (v. 67); Deus é bom (v. 68); e aqui a lei é não apenas boa, mas melhor que o melhor tesouro. Senhor, faznos bons, através de tua boa Palavra! Amém.


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(w. 73-80) Tuas mãos me fizeram e me formaram; dá-me entendimento para apren­ der teus mandamentos. Os que te temem alegrar-se-ão quando me vi­ rem; porque tenho esperado em tua palavra. Bem sei, ó Senhor, que teus juízos são retos, e que em tua fidelidade me afligiste. Rogo-te que tua misericordiosa benevolência seja para meu conforto, segundo tua pa­ lavra a teu servo. Que tuas temas misericórdias venham sobre mim, para que eu viva; pois tua lei é meu deleite. Sejam os soberbos enver­ gonhados; pois sem causa me trataram perversamente; eu, porém, meditarei em teus preceitos. Voltem-se para mim os que te temem, e aqueles que têm conhecido teus testemunhos. Que meu coração seja íntegro em teus testemunhos, para que eu não seja envergonhado. Chegamos agora à décima porção, a qual em cada instância começa com Jod; mas certamente não trata de coisas mínimas, rótulos e outras futilidades. O profeta está profundam ente triste, porém espera ser libertado e tornar-se alvo de bênção. Esforçando-se na vereda da instrução, o salmista primeiro busca ser instruído (v. 73), se persuade de que será bem recebido (v. 74) e então repe­ te o testemunho que tencionava transmitir (v. 75). Ora por mais experiência (w. 76, 77), pela frustração dos soberbos (v. 78), pela reunião dos piedosos a seu redor (v. 79) e, uma vez mais, por si mesmo, para que pudesse ser plenamente equipado para dar seu testem unho e fosse sustentado no mesmo propósito (v. 80). Este é um ansioso, porém esperançoso, clamor de alguém que se sente profundamente aflito em virtude dos cruéis adversários, e portan­ to faz seu apelo a Deus como seu único Amigo. [v. 73] Tuas mãos me fizeram e me formaram; dá-me entendimento para aprender teus mandamentos. I 18 •


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Tuas mãos me fizeram e me formaram. É proveitoso recor­ dar nossa criação; é agradável ver que a mão divina tem muito a ver conosco; pois ela nunca se move à parte do pensamento divi­ no. Excita a reverência, a gratidão e a afeição para com Deus quan­ do o visualizamos como nosso Criador, exercendo ele a criteriosa habilidade e poder de suas mãos em formar-nos e m oldar-nos. Ele tom ou um pessoal interesse por nós, fazendo-nos com suas pró­ prias mãos; foi duplamente solícito, pois ele é descrito tanto como a criar-nos como a moldar-nos. Seja em dar existência, ou em organizar a existência, o Senhor manifestou amor e sabedoria; e portanto achamos motivo para louvor, confiança e expectativa em nosso ser e bem-estar. Dá-me entendimento para aprender teus mandamentos. Uma vez que me fizeste, agora ensina-me. Aqui está o vaso que formaste: enche-o, ó Senhor! Tu me deste tanto a alma como o corpo: concede-m e agora tua graça para que minha alma saiba o que queres, e que meu corpo se lhe una plenamente para fazer tua vontade. A súplica é muito vivaz; é uma ampliação do clamor: “Não te esqueças da obra de tuas próprias m ãos.” Sem discernirmos a lei do Senhor e nos tornarmos obedientes a ela, somos imperfeitos e inúteis; mas podemos racionalmente esperar que o grande Olei­ ro complete sua obra e lhe dê o toque final, comunicando-lhe sa­ cro conhecimento e santo caráter. Se Deus nos fizera toscamente e não nos formara elaboradamente, este argumento perderia m ui­ tíssimo sua força; mas seguramente à luz da delicada arte e m ara­ vilhosa habilidade como o Senhor demonstrou na formação do corpo humano, podemos inferir que ele está pronto a exercer igual empenho para com a alma, até que ela assuma perfeitamente sua imagem. Uma pessoa sem mente é um idiota, um mero arremedo de ser humano; e um a mente sem a graça [divina] é ímpia, a dolorosa perversão de uma mente. Oramos para que não sejamos deixados sem juízo ou discernimento espiritual: isso o salmista buscou no versículo 66, e aqui suplica novamente pelo mesmo: sem ele não há como realmente conhecer e guardar os mandamentos. Os tolos podem pecar; mas somente os que são instruídos por Deus podem


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ser santos. Às vezes falamos de pessoas dotadas; mas aquele que tem os melhores dons é a quem Deus tem dotado com um discer­ nimento santificado para assim conhecer e valorizar as veredas do Senhor. Note bem que a oração de Davi por discernimento não é uma busca de conhecimento especulativo, para o deleite de sua própria curiosidade: ele deseja um juízo iluminado, para que pos­ sa aprender os mandamentos de Deus e assim tornar-se obediente e santo. Não há melhor aprendizado do que este. Uma pessoa pode permanecer no colégio onde esta ciência é ensinada todos os dias, e todavia clamar por aquela habilidade que a faça aprender mais. O mandam ento de Deus é excessivamente amplo, e portanto pro­ picia liberdade de ação para que a mente seja ainda mais vigorosa e instruída; de fato, ninguém possui, por natureza, um entendi­ mento capaz de ultrapassar tão amplo campo; daí a oração: “Dáme entendim ento”; como costuma-se dizer: posso aprender outra coisa com a mente que tenho, mas tua lei é tão pura, tão perfeita, espiritual e sublime, que necessito de uma mente alargada antes de tornar-m e proficiente nela. Ele apela a seu Criador para que faça isto, como se sentisse que nenhum poder tacanho o poderia fazer sábio para a santidade. Necessitamos de nova criação, e quem no-la pode conceder senão o próprio Criador? Aquele que nos fez viver deve fazer-nos aprender; aquele que nos concede poder tem condi­ ção de dar-nos a graça para discernir. Que cada um de nós sussurre ao céu a oração deste versículo antes de avançar mais um passo; pois estaremos perdidos mesmo nessas petições a menos que alce­ mos nossa oração dessa forma e clamemos a Deus por discernimento. [v. 74] Os que te temem alegrar-se-ão quando me virem; porque tenho espe­ rado em tua palavra. Quando uma pessoa temente a Deus obtém graça para si, ela se torna uma bênção para outrem, especialmente se essa graça a fez uma pessoa de são entendimento e santo conhecimento. As pessoas tementes a Deus são encorajadas quando se deparam com cristãos experientes. Uma pessoa cheia de esperança é enviada de Deus quando as coisas estão se declinando ou à beira do abismo. 120 •


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Quando as esperanças de um cristão se concretizam, seus com pa­ nheiros são reanimados e solidificados, e passam também a ter esperança. E agradável aos olhos ver alguém cujo testem unho con­ fessa que o Senhor é fidedigno; é uma das alegrias dos santos m anter diálogo com seus irmãos mais maduros. O temor de Deus não é uma graça mesquinha, como alguns a chamam; ela é plena­ mente consistente com a alegria; pois se a mera presença de um amigo alegra os tementes a Deus, quão alegres devem ser aqueles que se encontram na presença do próprio Senhor! Não só procu­ ramos levar os fardos uns dos outros, mas também procuramos partilhar as alegrias uns com os outros, e assim as pessoas agra­ ciadas contribuem sobejamente para o aumento da felicidade m ú­ tua; os esperançosos levam no âmago de sua alma a felicidade. Os espíritos desanimados disseminam o contágio da depressão, e por isso dificilmente alguém se alegra em sua companhia; enquanto que, aqueles cujas esperanças se fundamentam na Palavra de Deus, levam em si o resplendor em suas faces e recebem as boas-vindas de seus amigos. Quando os que confessam a Cristo trazem em seus lábios palavras frias e indiferentes, todos os corações dos pie­ dosos evitam sua companhia. Que este jamais seja o nosso caráter! [v. 75] Bem sei, ó Senhor, que teus juízos são retos, e que em tua fidelidade me afligiste. Bem sei, ó Senhor, que teus juízos são retos. Aquele que aprende mais deve ser mais grato pelo que já sabe e estar disposto a declará-lo para que Deus seja glorificado. O salmista tinha sido dolorosamente provado, mas continuou a esperar em Deus em meio a sua provação, e agora declara sua convicção de que havia sido disciplinado justa e sabiamente. Ele não só imaginava isso, mas também tinha convicção de que assim era, de m odo que foi taxativo e falou sem sequer um momento de hesitação. Os santos estão certos sobre a justa razão de suas tribulações, mesmo quan­ do não consigam ver o propósito delas. Os piedosos se alegraram ao ouvirem Davi dizer isso: E que em tua fidelidade me afligiste. Visto que o amor requeria severidade, então o Senhor a exerceu.


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Não é por Deus ser infiel que o cristão às vezes se encontra em momentos dolorosos, mas justamente por razões opostas: é a fi­ delidade de Deus a seu pacto que traz a vara sobre os eleitos. Pode não ser necessário que outros sejam provados da mesma forma; mas era necessário ao salmista, e por isso o Senhor não reteve a bênção. Nosso Pai celestial não é Eli: ele não pode ver seus filhos pecarem sem repreendê-los; seu amor é imenso demais para que isso aconteça. A pessoa que faz a confissão deste versículo já está progredindo na escola da graça, e está assimilando os m andam en­ tos. Este terceiro versículo da seção corresponde ao terceiro do Teth (v. 67), e forma um degrau para os outros vários versículos que fazem as terças em suas oitavas. [v. 76] Rogo-te que tua misericordiosa benevolência seja para meu conforto, segundo tua palavra a teu servo. Havendo confessado a retidão do Senhor, ele agora apela para sua mercê e, enquanto não solicita que a vara seja afastada, fervo­ rosamente roga para que ela lhe traga conforto. Retidão e fidelida­ de não nos propiciam conforto se também não provarmos a mercê divina e, bendito seja Deus, esta nos é prometida na Palavra, e portanto podemos aguardá-la. As palavras “misericordiosa bene­ volência” são uma feliz combinação, e expressam exatamente o de que necessitamos na aflição: misericórdia que perdoa o pecado e benevolência que nos sustenta na tristeza. Com estas podemos ser confortados no dia nublado e frio, e sem elas ficamos, de fato, expostos à miséria; por isso, pois, oremos ao Senhor, a quem te­ mos desagradado com nossos pecados, e apelemos para a palavra de sua graça como nossa única razão para esperar seu favor. Ben­ dito seja seu nome, pelo fato de, não obstante nossas faltas, ser­ mos ainda seus servos e servirmos a um Senhor tão compassivo. Há quem lê assim a última cláusula: segundo teu provérbio a teu servo; alguma palavra especial do Senhor teria sido lembrada e apresentada em forma de apelo. E possível lem brarmo-nos de al­ guma “palavra fiel”, e fazer dela a base de nossa petição? A frase: “segundo tua palavra” é uma muitíssimo favorita; revela o motivo 122 •


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para a misericórdia e o método da misericórdia. Nossas orações estarão de acordo com a mente de Deus quando estiverem de acor­ do com a Palavra de Deus. [v. 77] Que tuas ternas misericórdias venham sobre mim, para que eu viva; pois tua lei é meu deleite. Que tuas ternas misericórdias venham sobre mim, para que eu viva. Ele se sentia tão deprimido, que se via ante a porta da morte, caso Deus não o socorresse. Ele carecia não só de m iseri­ córdia, mas de misericórdias, e estas deveriam ser de um gênero mui gracioso e obsequioso; sim, ternas misericórdias, pois ele so­ fria com suas dolorosas feridas. Esses ternos favores são proveni­ entes do Senhor, pois nada menos seria suficiente; e devem todos ‘vir’ ao coração do sofredor, pois ele não era capaz de sair em busca deles; tudo o que ele podia fazer era vislumbrá-los de longe e rogar: “Oh, que eles venham!” Se o livramento não viesse logo, ele sentia como já a expirar; e todavia nos disse em apenas um versículo que havia muito que esperava na palavra do Senhor. Quão genuína é essa viva esperança quando a morte parece estar escrita em todos os lugares! Disse um pagão: “dum spiro spero” — en­ quanto respiro, espero. O cristão, porém, pode dizer: “dum expiro spero” - mesmo quando expiro ainda espero a bênção. Não obs­ tante, nenhum genuíno filho de Deus pode viver sem a terna m ise­ ricórdia do Senhor; ver-se sob o desprazer de Deus lhe é morte. Observe outra vez a feliz combinação das palavras de nossas ver­ sões. Há, porventura, um som mais doce do que este: “ternas m i­ sericórdias”? Aquele que tem sido gravemente afligido, e todavia socorrido com ternura, é o único ser hum ano que conhece o signi­ ficado da escolha de tal linguagem. Quão realmente vivemos quando somos atingidos pelas ternas misericórdias de Deus! Então não existimos meramente, mas vive­ mos; somos lépidos, cheios de vida, vivazes e vigorosos. Não sa­ beremos o que é vida enquanto não conhecermos a Deus. Há quem diz que a visitação de Deus o faz morrer; nós, porém, dizemos que ela nos faz viver. 123 •


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Pois tua lei é meu deleite. Oh, ditosa fé! Ele não quis dizer que o crente se regozija na lei mesmo quando seus preceitos trans­ gredidos o fazem sofrer. Deleitarmo-nos na Palavra quando ela nos repreende é prova de que extraímos proveito dela. Segura­ mente esta é uma súplica que prevalecerá diante de Deus, por mais amargas sejam nossas tristezas; se ainda nos deleitamos na lei do Senhor, ele não permitirá que m orramos; ele deseja e quer lançar sobre nós sua ternura e confortar nossos corações. [v. 78]

Sejam os soberbos envergonhados; pois sem causa me trataram per­ versamente; eu, porém, meditarei em teus preceitos. Sejam os soberbos envergonhados. Ele rogou que os juízos de Deus não mais caíssem sobre ele, mas sobre seus cruéis adver­ sários. Deus não permitirá que os que esperam em sua Palavra sejam envergonhados, pois é para os de espírito arrogante que ele reserva tal galardão: eles serão surpreendidos pela confusão e tornar-se-ão objetos de desprezo, enquanto os aflitos de Deus ergue­ rão novamente suas cabeças. Vergonha aguarda os soberbos, por­ quanto vergonhosa coisa é ser soberbo. A vergonha não é para os santos, pois nada há na santidade de que envergonhar-se. Pois sem causa me trataram perversamente. Sua malícia era arbitrária; ele não os havia provocado. Empregavam a falsidade para forjarem acusação contra ele; teriam que desviar suas ações de sua verdadeira condição antes que pudessem assaltar seu cará­ ter. Evidentemente, o salmista sentia agudamente a malícia de seus inimigos. Sua consciência de inocente em relação a eles gerou um ardente senso de injustiça; então apelou para o justo Senhor para que tomasse seu partido e vestisse seus falsos acusadores com um manto de opróbrio. Provavelmente os mencionou como “os so­ berbos” em virtude de saber que o Senhor sempre toma vingança contra os soberbos e vinga a causa daqueles a quem eles oprimem. As vezes ele menciona os soberbos e às vezes os perversos, mas sempre tem em mente as mesmas pessoas; as palavras são alterna­ das: certamente quem é soberbo é também perverso, e os perse­ guidores arrogantes são os piores dentre os homens perversos. 124 •


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Eu, porém, meditarei em teus preceitos. Ele deixaria os so­ berbos nas mãos de Deus, e se entregaria aos santos estudos e contemplações. Para obedecermos os divinos preceitos carecemos de conhecê-los e meditar muito sobre eles; daí sentir esse santo perseguido que a meditação devia ser seu principal em preendi­ mento. Estudaria a lei de Deus, e não a lei da retaliação. Os sober­ bos não são dignos de tal pensamento. A pior injúria que podem nos fazer é afastando-nos de nossas devoções; frustremo-los, pois, conservando nossa mais íntima comunhão com Deus enquanto se conservam ainda mais maliciosos em suas investidas. Numa posição similar a esta, nos temos deparado com os so­ berbos em outras oitavas, e ainda nos depararemos com eles no­ vamente. São evidentemente uma grande praga para o salmista; ele, porém, se ergue acima deles. [v. 79] Voltem-se para mim os que te temem, e aqueles que têm conhecido teus testemunhos. É provável que a língua do caluniador tenha alienado alguns dos santos, e provavelmente as faltas reais de Davi se tenham agra­ vado muito mais. Ele roga a Deus que se volte para ele e que então volva seu povo para ele. Os que são retos para com Deus são tam ­ bém solícitos em ser retos para com seus filhos. Davi apegou-se ao amor e solidariedade de homens graciosos de todos os graus —dos que eram principiantes na graça e dos que eram maduros na com ­ paixão - “os que te temem” e “os que têm conhecido teus teste­ m unhos”. Não podemos propiciar a perda do am or ao m enor dos santos; e se porventura já perdemos sua estima, então temos mais motivo para orar a fim de que lhe seja restaurada. Davi era o líder daquela porção piedosa da nação, e lhe feria o coração quebrantado quando percebia que os que temiam a Deus não se sentiam tão felizes como se sentiam outrora. Ele não provocou tumulto, e diz que, se podiam provocar sem ele, ele poderia muito bem provocar sem e/es; mas ele sentia tão profundam ente o valor de sua solida­ riedade, que fez dela um assunto de oração para que o Senhor volvesse uma vez mais seus corações para ele. Os que são queri­ 125 •


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dos de Deus, e são instruídos em sua Palavra, devem ser mui pre­ ciosos a nossos olhos, e devemos fazer o máximo possível por vi­ ver bem com eles. Davi faz dupla descrição dos santos: são tementes a Deus e conhecedores de Deus. Possuem tanto devoção quanto instrução; possuem tanto espírito de ciência quanto de genuína religião. Sa­ bemos de alguns cristãos que são generosos, porém destituídos de inteligência; e, em contrapartida, também sabemos de certos reli­ giosos professos que possuem boa cabeça, porém não bom cora­ ção: o salmista era alguém que combinava devoção com inteligên­ cia. Tampouco nos preocupamos com estúpidos devotos, nem com icebergues intelectuais. Quando o temor e o conhecimento de Deus andam de mãos dadas, levam os homens a munir-se sobejamente de toda boa obra. Se tais espíritos escolheram tanto os que amam a Deus quanto os aprendem dele, esses são meus companheiros favoritos e espero ser membro de sua confraria. Concede, ó Se­ nhor, que tais pessoas sempre me busquem, porque vão encontrar em mim um companheiro à altura! [v. 80] Que meu coração seja íntegro em teus testemunhos, para que eu não seja envergonhado. Isso é ainda mais importante do que ser tido em estima pelos homens bons. Eis a raiz da questão. Se o coração for sólido na obediência a Deus, tudo está bem, ou estará bem. Se nosso cora­ ção é reto, nossa força será sólida. Se não formos íntegros diante de Deus, nosso nome como piedosos não passará de som vazio. A mera profissão de fé será um fracasso, e nossa imerecida estima se dissipará como uma bolha quando perfurada; somente a sinceri­ dade e a veracidade suportarão os dias maus. Aquele que é de coração reto não tem motivo para envergonhar-se, e jamais terá algum. Os hipócritas devem envergonhar-se, e virá o dia quando sofrerão vergonha eterna: seus corações serão apodrecidos e seus nomes, desarraigados. Este versículo 80 é uma variação da oração do versículo 73; ali o salmista busca um discernimento sólido; aqui ele vai mais fundo, e suplica por um coração íntegro. Os que têm 126 •


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aprendido de sua própria fragilidade, através das dolorosas expe­ riências, são levados a mergulhar abaixo da superfície e a clam ar ao Senhor pela verdade nas partes mais recônditas. Ao concluir­ mos a consideração destes oito versículos, unam o-nos com o es­ critor em oração: “Que meu coração seja íntegro para com teus estatutos.”

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(w. 81-88) Minha alma desfalece por tua salvação; porém espero em tua palavra. Meus olhos desfalecem por tua palavra, dizendo: Quando tu me consolarás? Pois sou semelhante a um odre na fumaça; contudo não me es­ queço de teus estatutos. Quantos são os dias de teu servo? Quando executarás juízo contra os que me perseguem? Os soberbos me cavaram um poço, os quais não são conformes a tua lei. Todos os teus manda­ mentos são verazes; injustamente me perseguem; ajuda-me. Quase me consumiram sobre a terra; mas eu não deixei teus preceitos. Vivifica-me segundo tua benignidade; assim guardarei o testemunho de tua boca. Esta porção do gigantesco Salmo visualiza o salmista in extremi [no auge do sofrimento]. Seus inimigos arrastaram -no à mais vil condição de languidez e depressão; todavia ele é fiel à lei e con­ fiante em seu Deus. Esta oitava é a meia-noite do Salmo, e mui densas e lúgubres são suas trevas. Entretanto as estrelas brilham, e o último versículo apresenta a promessa da aurora. A melodia vai paulatinamente tornando-se alegre; mas, entrementes, ela nos m i­ nistra conforto e nos faz visualizar um servo de Deus tão eminente e tão difícil de ser usado pelos ímpios. Evidentemente, em nossas perseguições pessoais, não estranhamos aquilo que nos acontece. [v. 81] Minha alma desfalece por tua salvação; mas espero em tua palavra. Minha alma desfalece por tua salvação. Seu anseio não era por livramento, mas por aquilo que viesse de Deus: seu único de­ sejo era que lhe viesse “tua salvação”. Mas, por esse divino livra­ mento ele ardia até o último grau - até a última medida de sua força; sim, e além dela, até o desfalecimento. Tão forte era seu desejo que ele produziu-lhe prostração de espírito. Ele tornou-se 128 •


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exausto de tanto esperar, se desfalece de vigiar, enferma-se com urgente carência de atendimento. E assim a sinceridade e a solici­ tude de seus desejos foram provadas. Nada mais podia satisfê-lo senão o livramento operado da mão de Deus; sua natureza mais profunda suspirava e se espicaçava pela salvação do Deus de toda graça; e ele, ou a teria, ou se desfaleceria definitivamente. Mas espero em tua palavra. Portanto, ele sentia que a salva­ ção viria; pois Deus não pode quebrar sua promessa, nem frustrar a esperança que sua própria palavra incitara: sim, o cum prim ento de sua palavra está às portas quando nossa esperança é firme e nosso desejo fervoroso. A esperança só pode guardar a alma do desfalecimento, ao usar o alabastro da promessa. Todavia a espe­ rança não acende o anseio por uma imediata resposta à oração; ela aumenta sua importunação, pois tanto estimula o ardor quan­ to sustém o coração ante a delonga. Desfalecer-se pela salvação, e ser poupado do total desfalecimento da esperança é a freqüente experiência do cristão. “Desfalecemos, porém não somos destruí­ dos.” A esperança se mantém quando o desejo se exaure. Enquan­ to a graça do desejo nos lança abaixo, a graça da esperança nos soergue uma vez mais. [v. 82] Meus olhos desfalecem por tua palavra, dizendo: Quando tu me consolarás? Seus olhos se escancaravam desmesuradamente, fixando-se na aparição do Senhor, enquanto seu coração, em fadiga, clamava por conforto imediato. Ler a palavra até que os olhos não possam mais ver é algo bem minúsculo em comparação com a vigilância pelo cumprimento da promessa antes que os olhos interiores da expectativa comecem a diminuir sua opacidade ante a esperança deferida. Não podemos impor tempo a Deus, pois isso seria limi­ tar o Santíssimo de Israel; todavia podemos insistir em nossa im ­ portunação e apresentar fervente inquirição quanto à razão por que a promessa tarda tanto. Davi não buscava conforto a não ser aquilo que vem de Deus; sua pergunta é: “Quando tu me confortarás?” Se o socorro não vier do céu, então jamais virá; todo bem 129 •


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que o ser hum ano espera vem dessa maneira; ele não tem como arremessar sua visão em qualquer outra direção. Essa experiência de esperar e desfalecer é bem conhecida dos santos já bem desen­ volvidos, e ela lhes ensina muitas lições preciosas que jamais apren­ deriam pelo uso de qualquer outro método. Entre os resultados escolhidos, este é um deles: que o corpo, erguendo-se em solidari­ edade com a alma, ambos, coração e carne, clamam pelo Deus vivo, e até mesmo os olhos acham um idioma para expressar-se: “Quando tu me confortarás?” Teria sido um intenso anelo que não se satisfazia expressando-se com os lábios, mas fala com os olhos, com aqueles olhos que esmaecem pela intensa vigília. Os olhos podem falar bem eloqüentemente; usam tanto a mudez quan­ to as lágrimas, e podem às vezes dizer mais que as línguas. Davi diz em outro lugar: “O Senhor ouviu a voz de meu pranto” (SI 6.8). Nossos olhos são especialmente eloqüentes quando com e­ çam a diminuir com o cansaço e desgosto. Um olhar súplice, er­ guido ao céu em silente oração, pode refletir a chama que derrete­ rá os ferrolhos que obstruem a entrada da oração vocal, e assim o céu será tomado pela comoção provocada pela artilharia das lágri­ mas. Benditos são os olhos que estão acostumados a olhar para Deus. Os olhos do Senhor verão que tais olhos realmente não des­ falecem. Quão preferível é aguardar o Senhor com olhares ansio­ sos do que tê-los lampejantes com o brilho da vaidade! [v. 83] Pois sou semelhante a um odre na fumaça; contudo não me esqueço de teus estatutos. Pois sou semelhante a um odre na fumaça. Os odres usados para guardar-se vinho, quando vazios, eram pendurados na ten­ da; e quando o ambiente era dominado por fumaça, os odres fica­ vam negros e fuliginosos, e ao calor tornavam-se enrugados e p u ­ ídos. A face do salmista, em decorrência da aflição, tornara-se es­ cura e melancólica, sulcada e enrugada; aliás, todo seu corpo se solidarizara tanto com sua mente angustiada que perdera seu vi­ gor natural, tornando-se semelhante a um odre seco e surrado. Seu caráter tinha sido enfumaçado com calúnias, e sua mente, 130 •


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crestada com perseguição; seu receio é que se tornasse inútil e incapaz, com tanto sofrimento mental, ao ponto de as pessoas olha­ rem para ele como se vissem um odre velho e puído, sem nenhum conteúdo e sem corresponder a qualquer propósito. Que metáfora para um homem usar, sendo ele um poeta, um santo e mestre em Israel, se não um rei e um homem segundo o coração de Deus! Não admira se nós, parte do povo comum, somos levados a pen­ sar bem pouco de nós mesmos e a deixar-nos dominar pela aflição mental. Alguns de nós conhecemos o significado secreto deste sí­ mile, pois nós também nos sentimos denegridos, sombrios e in­ dignos, próprios tão-som ente para o lixo. Quão negra e quente tem sido a fumaça que nos tem envolvido; parece vir não só das fornalhas egípcias, mas também dos abismos sem fundo; e possui um poder de grudar-se que a fuligem dela nos adere e nos enegre­ ce com miseráveis pensamentos. Contudo não me esqueço de teus estatutos. Aqui está a paci­ ência dos santos e a vitória da fé. Aquele homem de Deus podia estar enegrecido pela falsidade, mas a verdade estava nele e jamais a renunciaria. Ele era fiel a seu Rei mesmo quando parece deserta­ do e abandonado aos usos mais ignóbeis. As promessas lhe vieram à mente, e, o que era ainda melhor evidência de sua lealdade, os estatutos estavam ali também: ele aferrou-se a seus deveres da mesma forma que a seus confortos. As piores circunstâncias não podem destruir os verdadeiros cristãos que se apegam a seu Deus. A graça é um vivo poder que sobrevive àquilo que sufocaria a to ­ das as formas de existência. O fogo não pode consumi-la e a fu­ maça não pode enfumaçá-la. Uma pessoa pode ser reduzida a um odre e a ossos secos, e todo seu conforto pode estar ausente dela, contudo pode m anter sua integridade e glorificar a seu Deus. E n­ tretanto, não é de estranhar que em tais casos os olhos que são atorm entados pela fumaça se ergam para o céu e clamem pela mão libertadora do Senhor, e o coração, veemente e desfalecido, suspi­ re pela divina salvação. [v. 84] Quantos são os dias de teu servo? Quando executarás juízo contra os que me perseguem ?


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Quantos são os dias de teu servo? Não posso esperar viver ainda muito em tal condição; ou tu vens imediatamente em meu socorro, ou então morrerei. Será o caso de toda minha curta vida ser consumida em aflições tão destrutivas? A brevidade da vida é um bom argumento contra a longa permanência de uma aflição. Senhor, um a vez que vou viver por um tão curto tempo, agrada-te em abreviar também minha aflição. É provável que o salmista quisesse dizer que seus dias pareci­ am longos demais para vivê-los somente em tais angústias. Como ele desejava que as mesmas chegassem ao fim, aflito pergunta: “Quantos são os dias de teu servo?” Uma vida longa agora parecia-lhe antes uma calamidade do que uma bênção. Como um ser­ vo contratado, ele tinha um certo acordo a cumprir, e não se quei­ xaria do que teria que suportar; visto, porém, que o tempo parecia longo demais em razão de suas tristezas, isso era pesado demais. Ninguém conhece o número designado de nossos dias, a não ser o Senhor; e por isso ele apela para que Deus não os prolongasse além da resistência de seu servo. Não pode estar na mente do Se­ nhor que seu próprio servo sempre seria tratado injustamente; quando isso teria fim? Quando executarás juízo contra os que me perseguem? Ele havia posto seu caso nas mãos do Senhor, e então orava para que a sentença fosse dada e posta em execução. Nada desejava além da justiça; que seu caráter fosse inocentado e seus perseguidores, si­ lenciados. Ele sabia que Deus certamente vingaria seu próprio elei­ to, mas tardava o dia do resgate; as horas eram terrivelmente lon­ gas, e esse perseguido clamava dia e noite por livramento. [v. 85] Os soberbos me cavaram poços, os quais não são consoantes a tua lei. Como os homens que caçam animais selvagens costumam fa­ zer foças e armadilhas, assim os inimigos de Davi envidavam es­ forços para apanhá-lo. Com grande empenho e astúcia, procura­ vam arruiná-lo: “cavaram poços”; não apenas um, porém muitos. Se um não o apanhasse, talvez o outro o tivesse êxito; e assim cavavam mais e mais. E possível que alguém pense que pessoas 132 •


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tão arrogantes não sujariam seus dedos em cavar; porém engoli­ am seu orgulho na esperança de engolirem sua vítima. Enquanto deveriam envergonhar-se de tal rebaixamento, não tinham consci­ ência do vexame; ao contrário, se orgulhavam de seu engenho; de arm ar uma rede para o santo varão. Os quais não são consoantes a tua lei. Nem os homens, nem seus poços, eram consoantes à lei divina: eram cruéis e matreiros enganadores, e seus poços eram contrários à lei levítica e contrári­ os ao mandam ento que nos ordena a amar nosso próximo. Se os homens guardassem os estatutos do Senhor, ergueriam do poço aquele que ali caíra, ou tampariam o poço para que ninguém ali caísse, mas jamais perderiam um momento sequer em causar injú­ ria a outros. Quando, porém, se tornam soberbos, se sentem se­ guros em desprezar a outros; e por essa razão buscam enredá-los para que possam mais tarde expô-los ao ridículo. Era bom para Davi que seus inimigos fossem inimigos de Deus, e que seus ataques contra ele não tivessem a sanção do Senhor. Era também para seu próprio lucro que não ignorasse seus intui­ tos, pois assim se pôs em guarda e foi levado a espreitar bem seu caminho para não cair em seus poços. Enquanto guardasse a lei do Senhor, estava em segurança, ainda quando lhe fosse algo des­ confortável ter sua vereda cheia de perigosas armadilhas e abom i­ nável malícia. [v. 86] Todos os teus mandamentos são verazes; injustamente me perseguem; ajuda-me. Todos os teus mandamentos são verazes. Ele não encontrava nenhum a falta na lei de Deus, mesmo quando se via dominado por dolorosas tribulações provindas de desobedecê-la. O que quer que o m andam ento lhe custasse, era justo. Sentia que o caminho de Deus podia ser obstruído, porém era reto; podia encontrar nele inimigos, porém ainda assim ele era seu melhor amigo. Cria que no fim o m andamento de Deus se lhe converteria em seu próprio benefício; que ele nada perderia em ser-lhe obediente. Injustamente me perseguem. A falta está em seus perseguido­ 133


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res, e não em Deus ou em si mesmo. Ele não fizera injúria a nin­ guém, nem agiu de outra forma que não fosse de conformidade com a verdade e a justiça; portanto confiadamente apela para seu Deus e clama: “Ajuda-me.” Eis aqui uma oração de ouro, tão precio­ sa como breve. As palavras são poucas, porém o significado, com ­ pleto. Era indispensável que o perseguido fosse socorrido para evitar a armadilha, pudesse suportar o opróbrio e pudesse agir com suficiente prudência diante das investidas de seus inimigos. Nossa esperança está posta no socorro divino. Seja quem for que nos fira, não importa que tempo leve para Deus nos socorrer; pois se realmente o Senhor nos socorre, então ninguém poderá real­ mente nos ferir. Estas palavras têm sido muitas vezes o sussurro dos santos atribulados, pois se adequam a milhares de condições de carência, dores, angústias, fraquezas e pecado. “Socorro, Se­ nhor”, será uma oração adequada para jovens e idosos; para as iutas e sofrimentos; para a vida e para a morte. Nenhum outro socorro é suficiente; porém o socorro divino é por si só suficiente; lancemo-nos sobre ele sem temor. [v. 87]

Quase me consumiram sobre a terra; porém eu não deixei teus preceitos. Quase me consumiram sobre a terra. Seus inimigos quase conseguiram destruí-lo, quase ao ponto de completo desfalecimento. Se pudessem o teriam devorado, ou queimado vivo; de sorte que teriam dado um fim último ao bom homem. Evidentemente, ele caíra no poder deles por um longo tempo, e tinham assim usa­ do tal poder para que ele fosse quase consumido. Ele fora quase que lançado fora da terra; porém quase não é totalmente, e assim ele escapou por um triz. Os leões estão acorrentados; não podem devastar além do que Deus permite. O salmista percebe o limite do poder deles; no máximo, só podiam consumi-lo “sobre a ter­ ra”; podiam tocar sua vida terrena e bens materiais. Sobre a terra, quase que podiam devorá-lo; ele, porém, possuía uma porção eterna que jamais poderiam nem mesmo mordiscar. Mas eu não deixei teus preceitos. Nem temores, nem dores, nem perdas poderiam fazer Davi retroceder do límpido caminho 134 •


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dos mandamentos de Deus. Nada poderia dissuadi-lo de obedecer ao Senhor. Se aderirmos aos preceitos divinos, seremos socorri­ dos pelas promessas divinas. Se formos cruéis, podemos desviar o santo oprimido da vereda do direito; o propósito do perverso pode ter êxito e não seremos ouvidos mais que Davi; pela graça divina, porém, ele não foi subjugado pelo mal. Se nos dispusermos a morrer caso venhamos a esquecer-nos do Senhor, dependendo dele para não morrermos, então viveremos para ver a ruína daqueles que nos odeiam. [v. 88] Vivifica-me segundo tua benignidade; assim guardarei o testemunho de tua boca. Vivifica-me segundo tua benignidade. Mui sábia e mui bendi­ ta oração é esta! Se formos vivificados em nossa própria piedade pessoal estaremos fora do alcance dos assaltantes. Nossa melhor proteção dos tentadores e perseguidores é o cultivo de mais vida. A própria benignidade não pode fazer-nos maior serviço do que levando-nos a ter vida mais abundante. Quando somos vivifica­ dos, somos capacitados a suportar a aflição, a rebater a astúcia e a vencer o pecado. Olhemos para a benignidade de Deus como a fonte de vivificação espiritual, e roguemos-lhe que nos vivifique, não segundo nossos méritos, mas segundo a imensurável energia de sua graça. Que bendita palavra é esta: ‘benignidade’! Tome-a por partes, querido leitor, e admire seu duplo conteúdo: força e amor. Assim guardarei o testemunho de tua boca. Se formos vivifi­ cados pelo Espírito Santo, guardaremos o testemunho de Deus no exercício de um caráter santo. Quando o Espírito nos visita e nos faz fiéis, nos tornam os também fiéis à sã doutrina. Ninguém guar­ da a palavra dos lábios do Senhor, a menos que a palavra de seus lábios o vivifique. Devemos admirar grandem ente a prudência es­ piritual do salmista, o qual não somente ora por isenção da prova, como também pela vida renovada, para que ele pudesse suportar enquanto estivesse sob seu peso. Quando a vida íntima é vigorosa, tudo fica bem. Davi, no versículo final da última oitava, orou por 135 •


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um coração íntegro; e aqui ele busca um coração vivificado; isso nos leva à raiz da questão: a busca daquilo que é a mais necessária de todas as coisas. Senhor, realiza tua obra em nosso coração para que ele seja reto a teus olhos.

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f " XPQ5IÇÀQ 12 (w. 89-96) Para sempre, ó Senhor, tua palavra está estabelecida no céu. Tua fide­ lidade é por todas as gerações; estabeleceste a terra e ela permanece. Continuam até hoje, segundo tuas ordenações; porque são todos ser­ vos teus. Se tua lei não fosse meu deleite, então eu já teria perecido em minha aflição.}amais me esquecerei de teus preceitos; pois por eles me tens vivificado. Eu sou teu, salva-me; pois tenho buscado teus precei­ tos. Os ímpios têm esperado por mim, para me destruir; eu, porém, considerarei teus testemunhos, lenho visto um fim de toda perfeição, mas teu mandamento é excessivamente amplo. [v. 89] Para sempre, ó Senhor, tua palavra está estabelecida no céu. O tom é ainda mais jubiloso, pois a experiência muniu o mavioso cantor de um consolador conhecimento da Palavra do Senhor, e isso proporciona um alegre tema. Depois de ser acossado por um m ar de provações, o salmista, aqui, desce à praia e sobe numa rocha. A Palavra de Jeová não é instável nem incerta; é estabeleci­ da, determinada, fixa, segura, inamovível. Os ensinos humanos m udam tão amiúde que nunca estão bem estabelecidos; a palavra do Senhor, porém, é a mesma desde os tempos de outrora, e per­ manecerá eternamente imutável. Algumas pessoas nunca se sentem tão felizes do que quando se põem a inquietar a tudo e a todos; a mente de Deus, porém, não é como a delas. O poder e a glória do céu têm confirmado cada uma das sentenças que os lábios do Se­ nhor têm pronunciado, e assim as têm confirmado para que toda a eternidade seja sempre a mesma - estabelecida no céu, onde nada pode alcançá-la. Na seção anterior, a alma de Davi desfalecia; aqui, porém, o bom homem olha para si e percebe que o Senhor não desfalece, nem se afadiga, nem há qualquer falha em sua Palavra. 137 •


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O versículo assume a forma de uma atribuição de louvor; a fidelidade e a imutabilidade de Deus são temas apropriados para o canto sacro, e quando estamos cansados de fitar as m udanças no cenário desta vida, a lembrança da promessa imutável de Deus enche nossa boca de melodia. Os propósitos, as promessas e os preceitos de Deus estão todos bem estabelecidos em sua própria mente, e nenhum deles será perturbado. O pacto bem estabelecido não será removido, por mais num erosos sejam os pensamentos humanos; portanto, que o firmemos em nossa mente para que permaneçamos na fé de nosso Jeová enquanto durar nossa exis­ tência [terrena]. [v. 90] Tua fidelidade é por todas as gerações; tu estabeleceste a terra, e ela permanece. Tua fidelidade é por todas as gerações. Esta é uma glória adicional: Deus não é afetado pelo avanço das eras; ele não só é fiel a um ser humano durante sua existência terrena, mas também a seus filhos e a seus netos depois dele, sim, e a todas as gerações enquanto guardarem sua aliança e recordarem de seus m anda­ mentos para pô-los em prática. As promessas são antigas, porém não são gastas por séculos de uso, pois a fidelidade divina dura para sempre. Aquele que socorreu seus servos milhares de anos atrás ainda se m ostra forte em favor de todos aqueles que confi­ am nele. Estabeleceste a terra, e ela permanece. A natureza é governa­ da por leis fixas; o globo mantém seu curso pelo comando divino e não exibe nenhum movimento equivocado: as estações observam sua ordem predestinada; o mar obedece à norma de íluxo e refluxo; e todas as demais coisas marcham em sua ordem designada. Há uma analogia entre a Palavra de Deus e suas obras, especial­ mente nisto: que ambas são constantes, fixas e imutáveis. A Pala­ vra de Deus que estabeleceu 0 mundo é a mesma que ele incorpo­ rou nas Escrituras; pela Palavra do Senhor os céus foram feitos, especialmente por aquele que é enfaticamente O VERBO. Q uan­ do vemos o mundo conservar seu lugar, e todas suas leis perm a­ 138 •


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necendo as mesmas, temos nisso a certeza de que o Senhor será fiel a sua aliança e não permitirá que a fé de seu povo seja frustra­ da. Se a terra permanece, a criação espiritual permanecerá; se a Palavra de Deus é suficiente para estabelecer o mundo, segura­ mente ela é suficiente para o estabelecimento do indivíduo crente. Virá o tempo quando a terra passará, mas ainda então a Palavra do Senhor permanecerá; portanto, fiquemos firmes, inamovíveis. [v. 91 ] Continuam até hoje, segundo tuas ordenações; porque são todos ser­ vos teus. Continuam até hoje, segundo tuas ordenações. Uma vez que o Senhor ordenou que o universo permanecesse, portanto ele per­ manece, e todas as suas leis continuam a operar com precisão c poder. Uma vez que o poder de Deus está sempre prcsenle para mantê-las, portanto todas as coisas prosseguem. A palavra que ordenou que todas as coisas viessem à existência as tem sustenta­ do até o presente, e continuará a sustentá-las em existência e bemestar. A ordenança de Deus é a razão para a existência contínua da criação. Que importantes forças são essas ordenanças! Quantas são todas as ordenanças de Deus, assim são tidas em reverência! Porque são todos servos teus. Criados no princípio por tua palavra, eles obedecem a essa palavra, correspondendo assim ao propósito de sua existência com a operação do desígnio de seu Criador. Tanto as grandes coisas quanto as pequenas prestam h o ­ menagem divina ao Senhor. Nenhum átomo escapa a sua norma, nem o m undo foge a seu governo. Desejaríamos ser livres do do­ mínio do Senhor e tornar-nos senhores de nós mesmos? Se esse fosse o caso, seriamos uma tremenda exceção a uma lei que asse­ gura o bem -estar do universo. Ao contrário, enquanto lemos acer­ ca de todas as demais coisas - que prosseguem e servem —, que continuemos a servir, e a servir mais perfeitamente enquanto nos­ sa vida prossegue. Podemos ser estabelecidos por essa palavra que é estabelecida; podemos ser estabelecidos por essa voz que estabe­ lece a terra; e por essa ordem, à qual todas as coisas criadas obe­ decem, podemos ser feitos servos do Senhor Deus Onipotente. 139 •


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[v. 92] Se tua lei não fosse meu deleite, então eu já teria perecido em minha aflição. Essa palavra que tem preservado os céus e a terra também pre­ serva o povo de Deus em seus momentos de provação. Essa pala­ vra nos encanta e nos é uma mina de deleite. Nela temos um duplo e triplo deleite e dela extraímos um múltiplo deleite, e este é um bom lugar quando todos os deleites nos forem suprimidos. Já estaríamos prontos a nos deitarmos e morrermos em nossas triste­ zas se os confortos espirituais provindos da Palavra de Deus não nos soerguessem; mas, mediante sua influência mantenedora, te­ mos pairado acima de todas as depressões e desesperos que natu­ ralmente aumentam a severa aflição. Alguns de nós podemos pôr nosso selo nesta afirmação. Nossa aflição, não fosse pela divina graça, já nos teria eliminado a existência, de sorte que já teríamos perecido. Em nossos momentos mais escuros, nada nos protege­ ria do desespero, exceto a promessa do Senhor; sim, às vezes nada resta entre nós e a autodestruição salvo a fé na eterna Palavra de Deus. Quando gememos com dores, até o âmago, nos sentimos aturdidos e a razão quase extinta, um doce texto nos sussurra uma certeza íntima, e nossa pobre e relutante mente recebe a resposta vinda do coração de Deus. Aquilo que era nosso deleite na prospe­ ridade tem sido nosso deleite na adversidade; aquilo que durante o dia nos guardou de conjeturar, durante a noite nos tem guardado de perecer. Este versículo contém uma lamentosa suposição — “a não ser q u e descreve uma horrível condição — “quase pereci em minha aflição”; e implica livramento; pois ele não morreu, senão que viveu para proclamar as honras da Palavra de Deus. [v. 93] /amais me esquecerei de teus preceitos; pois por eles me tens vivificado. Quando sentimos o poder vivificante de um preceito, jamais nos esquecemos dele. Podemos lê-lo, aprendê-lo, repeti-lo e ter receio de que ele escape de nossa mente; mas, se uma vez ele nos deu vida, ou renovou nossa vida, não há motivo para temermos que ele escape de nosso reconhecimento. A experiência ensina, e 140 •


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ensina com eficácia. Quão bendita é a sorte de termos os preceitos escritos no coração com a pena de ouro da experiência, e gravada na memória com o divino estilete da graça! O esquecimento é um grande mal em relação às coisas santas; vemos aqui o homem de Deus lutando contra ele, e o seguro senso da vitória, porque ele conhecia a energia geradora de vida da Palavra em sua própria alma. Aquilo que vivifica o coração certamente vivificará a memória. Parece singular que ele atribua aos preceitos a vivificação, e todavia ela está neles e igualmente em todas as palavras do Se­ nhor. Deve-se notar que, quando o Senhor ressuscitava os m or­ tos, dirigia-lhes a palavra de ordem. Disse ele: “Lázaro, vem para fora”; ou: “Menina, levanta-te”. Não carece que receemos decla­ rar os preceitos evangélicos aos pecadores espiritualmente m or­ tos, visto que, por meio deles, o Espírito lhes comunica vida. O b­ serve que o salmista não diz que os preceitos o vivificavam, mas que o Senhor o vivificou por meio deles; assim ele traça a vida a partir do canal até a fonte, e põe a glória no devido lugar. Todavia, ao mesmo tempo ele valorizava os instrum entos da bênção, e deci­ diu jamais olvidá-los. Ele já os havia recordado, quando com pa­ rou-se a um odre na fumaça, e agora sente que, quer na fumaça ou no fogo, a memória dos preceitos do Senhor jamais se desvanece­ rá de sua mente. [v. 94] Eu sou teu, salva-me; porque tenho buscado teus preceitos. Eu sou teu, salva-me. Uma oração abrangente com um argu­ mento prevalecente. A consagração é um a boa súplica por preser­ vação. Se somos cônscios de que pertencemos ao Senhor, então podemos nutrir a confiança de que ele nos salvará. Somos do Se­ nhor por criação, eleição, redenção, rendição e aceitação; e daí nossa firme esperança e sólida convicção de que ele nos salvará. Seguramente, uma pessoa salvará a seu próprio filho: Senhor, sal­ va-me. A necessidade de salvação é melhor visualizada pelo povo do Senhor do que por qualquer outra pessoa, e daí a oração de cada um deles é: “salva-me”; sabem que somente Deus pode sal­ vá-los, e por isso clamam unicamente a ele; sabem que nenhum 141


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mérito será encontrado em si mesmos, e por isso apresentam uma razão extraída da graça de Deus - “Eu sou teu.” Porque tenho buscado teus preceitos. E assim provou ele ser do Senhor. Não havia atingido toda a santidade que almejava, mas almejara exaustivamente ser obediente, e por isso suplicou que fosse salvo até o fim. Uma pessoa pode estar buscando as doutri­ nas e as promessas, e não obstante não ter um coração renovado; buscar os preceitos, porém, é um seguro sinal da graça; ninguém jamais ouviu de um rebelde ou de um hipócrita que buscasse os preceitos. O Senhor, evidentemente, operara uma grande obra no salmista, e por isso ele rogou-lhe que a completasse. Salvar está associado a buscar - “salva-me, porque eu te tenho buscado”; e quando o Senhor nos vê buscando-o, ele nos vem ao encontro salvando-nos. Aquele que busca santidade já está salvo; se temos buscado o Senhor, podemos estar certos de que o Senhor já nos buscou, e ele certamente nos salvará. [v. 95] Os ímpios têm esperado por mim, para me destruírem; eu, porém, con­ siderarei teus testemunhos. Eram como bestas selvagens agachadas à beira do caminho, ou um salteador a saltar sobre um viajante indefeso; o salmista, porém, avançava em seu caminho sem levá-los em conta, pois ti­ nha algo melhor em mente, a saber: o testemunho que Deus dava dele [Davi] aos filhos dos homens. Ele não permitia que a malícia dos ímpios lhe roubasse a santa meditação na divina palavra. Ele estava calmo demais para poder “considerar”; tão santo que se deleitava em considerar os “testem unhos” do Senhor; vitorioso demais acima de todas as tramas dos inimigos para lhes permitir desviá-lo de suas pias contemplações. Se o inimigo não pode le­ var-nos a abandonar nossos pensam entos do santo estudo, ou nossos pés do santo caminho, ou nosso coração das santas aspira­ ções, ele ter-se-ia nutrido com um pobre sucesso em seu assalto. Os ímpios são os inimigos naturais das pessoas santas e dos pen­ samentos santos; se pudessem, não só nos causariam dano, mas nos destruiriam; e se não podem fazer isso, então esperarão por 142 •


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outras oportunidades, sempre na esperança de que seus maus d e­ sígnios sejam concretizados. Até agora esperaram em vão, e terão que esperar muito mais ainda; pois se somos tão indiferentes, que nem mesmo lhes cedemos um pensamento, sua esperança de destruir-nos deve ser pobre demais. Note a dupla espera - a paciência dos ímpios que velam muito e cuidadosamente por uma chance de destruir os santos; e, então, a paciência dos santos que não desistirão de suas meditações, mesmo para apaziguar seus inimigos. Veja como a serpente se­ meia a mentira de emboscada como uma víbora que morde as per­ nas dos cavalos; veja, porém, como os escolhidos do Senhor vi­ vem acima de seu veneno, e não mais podem notá-la, como se não mais existisse. [v. 96] Tenho visto um fim de toda perfeição; teu mandamento, porém, é ex­ cessivamente amplo. Tenho visto um fim de toda perfeição. Ele vira seu limite, pois ela andara apenas meio caminho; vira sua evaporação sob as pro­ vações da vida, sua detecção sob a mira perscrutadora da verdade, sua exposição pela confissão do penitente. Não há perfeição abai­ xo da lua. As pessoas perfeitas, no sentido absoluto do termo, só vivem num m undo perfeito. Algumas não vêem nenhum fim para sua própria perfeição, mas isso se deve ao fato de que são perfeita­ mente cegas. O cristão experiente tem visto um fim de toda perfei­ ção em si mesmo, em seus irmãos, nas melhores obras do melhor dos homens. Seria bom se alguém que professa ser perfeito p u ­ desse ainda ver o princípio da perfeição; pois tememos que não possam ter começado bem, ou que não falem tão arrogantem ente. Não é o princípio da perfeição lamentar sua imperfeição? Não existe tal coisa como perfeição em algo que é obra do homem. Teu mandamento, porém, é excessivamente amplo. Q uando a excessiva amplitude da lei se faz notória, se desvanece a noção de perfeição na carne: que a lei toca cada ato, palavra e pensam en­ to, e ela é de natureza tão espiritual que julga os motivos, desejos e emoções da alma. Revela a perfeição que nos convence tanto das 143 •


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deficiências quanto das transgressões, e não nos permite reparar as deficiências em nenhuma direção pela atenção especial em ou­ tras. O divino ideal de santidade é tão amplo para esperarmos co­ brir toda sua ampla área, e ainda não é tão ampla quanto deveria ser. Quem desejaria ter uma lei imperfeita? Não só isso, sua per­ feição é sua glória; porém é a morte de toda vangloria em nossa própria perfeição. Há uma amplitude no mandam ento que jamais foi levada à plenitude por uma amplitude correspondente de santi­ dade num mero ser humano enquanto vive aqui em baixo; som en­ te em Jesus a vemos plenamente incorporada. A lei é, em todos os aspectos, um código perfeito; cada m andam ento separado desse código está longe de ser atingido por nós em seu sacro significa­ do, e todos os dez cobrem tudo, e não deixam sequer um espaço em si para o prazer de nossas paixões. Bem que poderíamos ado­ rar a ínfinitude da santidade divina, e então medir-nos por seu padrão, e curvar-nos diante do Senhor em toda nossa vileza, reco­ nhecendo quão longe estamos dela.

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P XPQS1ÇÂO 15 (w. 97-104) Oh, quanto amo tua lei! é minha meditação todo o dia. Tu, por meio de teus mandamentos, me tens feito mais sábio que meus inimigos; pois eles estão sempre comigo. Tenho mais entendimento que todos meus mestres, porque teus testemunhos são minha meditação. Enten­ do mais que os antigos, porque guardo teus preceitos. Refreei meus pés de todo mau caminho, para poder guardar tua palavra. Não me apar­ tei de teus juízos; pois me tens ensinado. Quão doce a meu paladar são tuas palavras! sim, são mais doces que o mel a minha boca. Através de teus preceitos obtive entendimento; por isso odeio todo falso caminho. [v. 971 Oh, quanto amo tua lei! é minha meditação todo o dia. Oh, quanto amo tua lei! Aqui está uma nota de exclamação. Seu am or é tão forte que ele tem que expressá-lo, e o expressa diante de Deus em extasiante devoção. Ao fazer a tentativa, ele percebe que sua emoção é inexprimível, e portanto clama: “Oh, quanto amo!” Não só reverenciamos a lei, mas também a amamos, a obedecemos com amor, e ainda quando ela nos reprove por de­ sobediência, não a amamos menos. A lei é a lei de Deus, e portanto ela é objeto de nosso amor. Amamo-la por sua santidade, e anelamos por ser santos; amamo-la por sua sabedoria, e nos esforça­ mos por ser sábios; amamo-la por sua perfeição, e suspiramos por ser perfeitos. Os que conhecem o poder do evangelho percebem na lei uma beleza infinita, quando a vemos cumprida e incorpora­ da em Jesus Cristo. Ela é minha meditação todo o dia. Esse foi tanto o efeito de seu am or à lei quanto a causa desse amor. Ele meditava na palavra de Deus, porque a amava; a amava ainda mais, porque nela m edi­ 145 •


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tava. Ele não poderia ter dela o suficiente, por isso ardentem ente a amava; todo o dia não lhe era suficiente para dialogar com ela. Sua oração matinal, sua meditação ao meio-dia, sua oração ves­ pertina, tudo procedia do Santo Escrito; sim, em suas atividades seculares, ele ainda mantinha sua mente saturada com a lei do Senhor. Ouvimos acerca de algumas pessoas que, quanto mais as conhecemos, menos as admiramos; mas o reverso se dá no tocan­ te à Palavra de Deus. A familiaridade com a Palavra de Deus gera afeição, e a afeição busca ainda maior familiaridade. Quando “tua lei” e “minha m editação” se juntam a “todo o dia”, o dia se torna santo, devoto e feliz, e o coração vive com Deus em am or a sua Palavra e se deleita nela. Davi desviava-se de tudo mais em prol da Palavra e da vontade do Senhor, pois no versículo precedente ele nos informa que vira um fim de toda perfeição; mas se volvia para a lei e aí ficava todos os dias de sua vida na terra, tornando-se cada vez mais sábio e mais santo. [v. 981

Tu, por meio de teus mandamentos, me tens feito mais sábio que meus inimigos; porque eles estão sempre comigo. Tu, por meio de teus mandamentos, me tens feito mais sábio que meus inimigos. Os mandamentos eram seu Livro, porém Deus era seu Mestre. A letra pode levar-nos a conhecer, porém só o Espírito divino pode fazer-nos sábios. Sabedoria é conhecimento posto em uso prático. A sabedoria nos vem através da obediência: “Se alguém fizer a vontade de Deus, conhecerá a doutrina.” Não aprendemos só da promessa, da doutrina e da história sacra, mas também do preceito e do mandamento; de fato, dos m andamentos deduzimos a mais prática sabedoria e aquilo que nos capacita a melhor competir com nossos adversários. Uma vida santa é a mais elevada sabedoria e a mais segura defesa. Nossos inimigos desfru­ tam de renome através de sutileza, de seu primeiro pai, a antiga serpente, procedente do último basilisco que saiu do ovo; e sernos-ia inútil tentar formar um par com eles na astúcia e no m isté­ rio da velhacaria; pois os filhos deste m undo são, em sua geração, mais sábios que os filhos da luz. Temos de ir a outra escola e apren­ 146 •


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der de um diferente instrutor, e então, com integridade, m alogra­ remos a fraude; com a simples verdade venceremos seu esquema astuciosamente elaborado; e, com um a candura franca, derrotare­ mos os caluniadores. Uma pessoa totalmente sem rodeios, desvi­ ando-se de toda politicagem, é um terrível quebra-cabeças para os diplomatas; suspeitam que ela esconde uma sutil duplicidade atra­ vés da qual não podem ver; enquanto ela, indiferente a suas suspei­ tas, mantém-se no mesmo ritmo de seu caminho e se desvencilha de suas artimanhas. Sim, “a honestidade é a melhor política”. Aquele que é ensinado por Deus tem uma sabedoria prática tal que a malí­ cia não pode fornecer ao astuto; enquanto é simples como uma pomba, ele também exibe uma sabedoria maior que a da serpente. Porque eles estão sempre comigo. Ele sempre foi estudioso e obediente aos mandamentos; estes eram seus escolhidos e cons­ tantes companheiros. Se desejarmos tornar-nos proficientes, te­ mos de ser infatigáveis. Se guardarmos a lei sábia sempre junto ao coração, nos tornaremos sábios; e quando nossos adversários nos assaltarem, estaremos preparados para eles com aquela sabedoria cuja base é a Palavra de Deus que a tudo sonda. Como um soldado na batalha nunca deve pôr de lado seu escudo, assim nunca deve­ mos nós ter a Palavra de Deus fora de nossa mente; ela tem de ir sempre conosco. [v. 99] Tenho mais entendimento que todos meus mestres; porque teus teste­ munhos são minha meditação. Tenho mais entendimento que todos meus mestres. Aquilo que o Senhor lhe havia ensinado fora útil no campo, e agora ele o encontra igualmente valioso nas escolas. Nossos mestres nem sem ­ pre são confiáveis; aliás, nem sempre podemos seguir implicita­ m ente alguns deles, pois Deus nos chamará a prestar contas de nossos discernimentos. Quando mesmo nosso piloto errar, cabenos seguir bem o mapa da Palavra de Deus, para que sejamos ca­ pazes de salvar a embarcação. Se nossos mestres são em todas as coisas íntegros e seguros, ser-nos-á uma grande alegria podermos excedê-los, e eles serão os primeiros a confessar que o ensino do 147 •


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Senhor é melhor que qualquer ensino que porventura possam m i­ nistrar-nos. Os discípulos de Cristo, que se assentam a seus pés, com freqüência são melhor habilitados nas coisas divinas do que os doutores em teologia. Porque teus testemunhos são minha meditação. A meditação na própria Escritura é o melhor modo de adquirir entendimento. Podemos ouvir o mais sábio dos mestres e permanecer obtusos; mas, se meditarmos na sacra Palavra, certamente nos tornaremos sábios. Há mais sabedoria nos testemunhos do Senhor do que em todos os ensinos dos homens, se forem todos reunidos num a vasta biblioteca. O Livro dos livros excede em peso a todo o resto. Davi não hesita em falar a verdade neste ponto acerca de si mesmo, ainda quando é para sua própria honra, pois ele é total­ mente inocente da autoconsciência. Ao falar de seu ‘entendim en­ to’, sua intenção é enaltecer a lei e o Senhor, e não a si próprio. Não há um vislumbre sequer de vangloria nessas expressões ousa­ das, mas somente um desejo infantil de enaltecer a excelência da Palavra do Senhor. Aquele que conhece as verdades ensinadas na Bíblia não será culpado de egoísmo, se ele crê estar de posse das verdades mais importantes do que professam todos os gnósticos. [v. 100] Entendo mais que os antigos, porque guardo teus preceitos. Os homens idosos, e os homens de outrora, eram excedidos pela juventude mais santa e mais culta. Ele tinha sido instruído a observar no coração e na vida os preceitos do Senhor, e isso era mais do que o pecador mais venerável jamais aprendera; mais do que o filósofo da antigüidade tanto aspirara conhecer. Ele possuía em si a Palavra, e assim superava seus inimigos; ele meditava nela, e assim ultrapassava seus amigos; ele a praticava, e assim eclipsa­ va seus anciãos. A instrução derivada da Santa Escritura é útil em muitas direções, superior a muitos pontos de vista, sem rival por toda parte e de todas as maneiras. Como nossa alma pode orgu­ lhar-se no Senhor, assim ela pode orgulhar-se em sua Palavra. “Nada existe que se lhe assemelhe; eu a quero”, disse Davi da espada de Golias, e podemos dizer o mesmo da Palavra do Se­ 148 •


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nhor. Se os homens prezam a antigüidade, aqui eles a têm. Os antigos são tidos em elevada conta; porém, o que todos sabiam daquilo que percebem nos divinos preceitos? “O antigo é m elhor”, diz um; mas o mais antigo de todos é o melhor de todos, e o que é isso senão a palavra do Ancião de dias? [v. 101] Tenho refreado meus pés de todo mau caminho, para que possa guar­ dar tua palavra. Não há como entesourar a santa palavra, a menos que nos desvencilhemos de toda impureza; se guardarm os a boa Palavra, estaremos livres do mal. Davi tinha zelosamente vigiado seus pés e posto um freio a sua conduta - tinha refreado seus pés. Nenhuma forma de mal podia assenhorear-se dele, pois sabia que, se sim ­ plesmente se deslizasse para uma estrada, ele teria, praticamente, abandonado o caminho da justiça; portanto, ele evitava todo gê­ nero de vício. Os atalhos eram planos e floridos, mas clc sabia muito bem que eram nocivos, e assim desviou dali seus pés e ar­ rastou-se em direção à vereda estreita e espinhosa que conduz a Deus. E um prazer voltar-se em direção às autoconquistas - “"le­ nho refreado” —, um deleite ainda maior é saber que viver com nossos semelhantes não procede de um mero desejo, mas do m o­ tivo de guardar a lei do Senhor. A essência deste versículo é evitar o pecado de que a obediência pode ser perfeita; ou pode ser que o salmista nos ensine que não há reverência real pelo Livro onde não há o cuidado de evitar toda e qualquer transgressão de seus pre­ ceitos. Como é possível que nós, servos do Senhor, guardemos sua Palavra, se não guardamos nossas próprias obras e palavras de trazer sobre ela a desonra? [v. 102] Não me apartei de teus juízos; porque me tens ensinado. São bem instruídos aqueles a quem Deus instrui. O que apren­ demos do Senhor jamais esquecemos. A instrução de Deus tem um efeito prático —seguimos seu caminho quando ele nos ensina; e tem um efeito perm anente - não nos apartamos da santidade. 149 •


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Leia este versículo em conexão com o precedente, e você verá o “eu tenho” e “não tenho” do cristão: ele é bom tanto positiva quanto negativamente. O que ele fez, ou seja, “refreou seus pés”, o pre­ servou de fazer o que, de outra forma, poderia ter feito, ou, seja, “Não me apartei de teus juízos”. Aquele que é prudente não vai sequer uma polegada ao lado de quem abandona a estrada reta. Aquele que nunca toca o copo inebriante jamais ficará em briaga­ do. Aquele que nunca pronuncia um a palavra ociosa jamais será profano. Se começarmos a afastar-nos um pouco que seja, nunca poderemos dizer onde acabaremos. O Senhor nos leva a perseverar em santidade através da abstinência da inauguração do peca­ do; mas, seja qual for o método, o Senhor é o operador de nossa perseverança, e a ele seja toda a glória. A Palavra de Deus pronuncia juízos contra as ações morais, e faremos bem em m anter esses juízos como nossa regra infalível do pensamento e da vida. [v. 103] Quão doces a meu paladar são tuas palavras! sim, mais doces que o mel a minha boca! Quão doces a meu paladar são tuas palavras! Ele havia não só ouvido as palavras de Deus, mas as havia deglutido; afetaram seu paladar, como haviam feito a seus ouvidos; exerceram um efeito interior a seu paladar como haviam feito a sua audição. As pala­ vras de Deus são muitas e variadas, e todas elas formam o que chamamos “a Palavra”. Davi amava a cada uma delas, individual­ mente, e a todas elas como um todo, e por isso experimentou nelas um a indescritível doçura. Ele expressa o fato de sua doçura; mas, como não expressa o grau dessa doçura, ele clama: “Quão doces!” Sendo as palavras de Deus, elas eram divinamente doces para o servo de Deus; aquele que pôs nelas a doçura, preparou o paladar de seu servo para discerni-la e desfrutá-la. Davi não faz distinção entre promessas e preceitos, doutrinas e ameaças; estão todos in­ clusos nas palavras de Deus, e todos são preciosos em sua estima. Oh, que profundo am or o Senhor tem revelado a todos nós, seja qual for a forma que ele assuma! 150 •


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Sim, mais doces que o mel a minha boca! Quando ele não só a comeu, mas também a expressou verbalmente, instruindo a ou ­ trem, ele sentiu um crescente deleite nela. A mais doce de todas as coisas temporais provém da infinita delícia da Palavra eterna: o próprio mel, em sua doçura, é excedido pela Palavra do Senhor. Quando o salmista alimentou-se dela, ele a achou doce; mas quando deu testem unho dela, então ela se tornou ainda mais doce. Quão sábio será de nossa parte guardar a Palavra em nosso paladar atra­ vés da meditação; e em nossa língua, através de nossa confissão! Ela será doce a nosso paladar quando pensarmos nela; ou não será doce a nossa boca, quando falarmos dela. Provaremos no es­ tudo o que pregarm os no púlpito. Devemos, antes, tornar-nos homens espiritualmente de paladar, e então teremos um verdadei­ ro desfruto em anunciar a beleza c doçura da verdade divina. [v. 104] Através de teus preceitos obtive entendimento; por isso odeio todo ca­ minho falso. Através de teus preceitos obtive entendimento. A orientação divina é nossa instrução. A obediência à vontade divina gerará sa­ bedoria mental e ativa. Como o caminho de Deus é sempre m e­ lhor, os que o seguem estão certos de ser justificados por seus resultados. Se o Legislador fosse insensato, sua lei seria o mesmo, e a obediência a tal lei nos envolveria em milhares de equívocos; mas como o caso é bem outro, podemos considerar-nos felizes em possuir uma lei tão sábia, prudente e benéfica como a norm a de nossas vidas. Seremos sábios, se a obedecermos; e é pela obediên­ cia que crescemos em sabedoria. Por isso odeio todo caminho falso. Porque tinha entendim en­ to, e por causa dos preceitos divinos, ele detestava o pecado e a falsidade. Todo pecado é falsidade; pecamos porque cremos numa mentira, e no fim o mal promissor se converte em mentiroso, e descobrimos que fomos traídos. Os corações verdadeiros não são indiferentes ante a falsidade, sua indignação se inflama; como amam a verdade, daí odeiam a mentira. Os santos nutrem um horror universal por tudo o que é contrário à verdade; não toleram qual­


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quer falsidade ou insensatez; reagem contra todo erro doutrinai ou vida perversa. Aquele que é amante de um pecado está inscrito no exército de todos os pecados; não devemos dar trégua nem parlamentar sequer com um dos amalequitas, pois o Senhor faz guerra contra eles de geração em geração, e assim devemos fazer o mesmo. E bom ser alguém que saiba odiar. O que isso significa? Alguém que odeia corretamente não odeia gente, mas odeia “todo caminho falso”. O caminho do livre-arbítrio, da autojustiça, da busca egoísta, do mundanismo, da soberba, da descrença, da hi­ pocrisia, da luxúria —esses são, todos eles, caminhos falsos, e por isso não só devem ser evitados, mas também abominados. Este último versículo da estrofe marca um grande avanço no caráter, e mostra que o homem de Deus está se tornando mais forte, mais ousado e mais feliz do que antes. Ele já foi instruído pelo Senhor, de modo que discerne entre o precioso e o vil, e en­ quanto ama a verdade fervorosamente, odeia intensamente a falsi­ dade. Que todos nós alcancemos este estado de discriminação e determinação, de modo a podermos glorificar a Deus gloriosa­ mente!

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(w. 105-112) Tua palavra é lâmpada para meus pés, e luz para meu caminho. Jurei, e cumprirei, que guardaria teus justos juízos. Estou muitíssimo aflito; vivifica-me, ó Senhor, segundo tua palavra. Aceita, eu te rogo, as ofe­ rendas voluntárias de minha boca, ó Senhor, e ensina-me teus juízos. Minha alma está continuamente em minhas mãos; todavia não me esqueço de teus preceitos. Os ímpios me armaram uma rede; contudo não me desviei de teus preceitos. Teus testemunhos os tenho por heran­ ça, para sempre, pois eles são o júbilo de meu coração. Inclinei meu coração a guardar teus estatutos, para sempre, até o fim. [v. 105] Tua palavra é lâmpada para meus pé, e luz para meu caminho. Tua palavra é lâmpada para meus pés. Somos andarilhos pela cidade deste mundo, e amiúde somos chamados a sair de sua escuridão; que jamais nos aventuremos ali sem a Palavra geradora de luz, para que não escorreguem nossos pés. Cada um de nós deve usar a Palavra de Deus pessoal, prática e habitualmente, para que visualizemos seu caminho e percebamos o que ele contém. Quando as trevas descem e me cercam, a Palavra do Senhor, como um a chama, uma tocha, ilumina meu caminho. Não havendo lâm ­ padas fixas nas cidades orientais, nos tempos antigos, cada um levava consigo uma tocha para que não caísse num esgoto aberto, ou tropeçasse nos montes de esterco que infestavam a estrada. Este é um quadro genuíno de nossa vereda por este m undo escu­ ro; não conheceríamos o caminho, nem saberíamos andar nele, se a Escritura, como um luminoso refletor, não o iluminasse. Um dos benefícios mais práticos da Santa Escritura é sua diretriz nos atos do cotidiano: não para estarrecer-nos com sua radiância, mas para guiar-nos por sua instrução. E verdade que a cabeça necessi­ 153


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ta de iluminação; os pés, porém, necessitam ainda mais de dire­ ção, senão cabeça e pés, ambos, poderiam cair num a vala. Feliz a pessoa que se apropria pessoalmente da Palavra de Deus e a usa de maneira prática como seu consolador e conselheiro —uma lâm ­ pada para seus pés. E luz para meu caminho. E uma lâmpada durante a noite, uma luz durante o dia e um deleite em todos os momentos. Davi guiou seus próprios passos pela instrumentalidade dela, e tam ­ bém, através de seus raios, viu as dificuldades de sua jornada. Aquele que anda nas trevas está certo da possibilidade de um momento para outro tropeçar. Enquanto que, aquele que anda em plena luz do dia, ou que leva sua lâmpada no meio da noite, não tropeça, porém mantém sua retidão. A ignorância é dolorosa em questões práticas; gera indecisão e perplexidade, e isso traz desconforto. A Palavra de Deus, comunicando conhecimento celestial, conduz à decisão, e quando isso é seguido de determinada resolução, como neste caso, ela traz consigo profundo repouso para o coração. Este versículo dialoga com Deus em termos adorativos e em tons familiares. Temos, porventura, algo de teor semelhante com que falar com nosso Pai celestial? Note o quanto este versículo se assemelha ao primeiro versícu­ lo da primeira oitava, e o primeiro da segunda e das demais oita­ vas. As alternâncias às vezes são também uníssonas. fv. 106] Jurei, e cumprirei, que guardaria teus juízos. Sob a influência da clara luz do conhecimento, ele tinha firm e­ mente moldado sua mente e solenemente declarado sua resolução aos olhos de Deus. Talvez desconfiando de sua própria mente vo­ lúvel, ele se penhora na sacra forma de permanecer fiel às determ i­ nações e decisões de seu Deus. Qualquer que fosse a vereda que se lhe abrisse, ele jurara seguir somente aquela na qual a lâmpada da Palavra fosse resplandecente. As Escrituras são os juízos divinos, ou os veredictos nas grandes questões morais; eles são todos jus­ tos, e daí os homens justos devem viver determinados a guardá-los sob quaisquer riscos, visto ser sempre certo fazer o que é certo. A 154 •


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cxperiência comprova que, quanto menos acordo e juram ento os homens formalmente assumam, melhor será, e o gênio do ensino de nosso Salvador é contra toda promessa e juram ento desneces­ sários; e todavia sob o evangelho devemos sentir-nos como que obrigados a obedecer à Palavra do Senhor como se fizéssemos um juram ento de assim o fazer. Os vínculos do amor não são menos sacros do que as restrições da lei. Quando um a pessoa assume um compromisso, ela deve ser cuidadosa em ‘cum pri-lo’; e quando uma pessoa não assume um compromisso com base num grande volume de palavras, de guardar os juízos de Deus, ainda assim ela é igualmente obrigada a fazê-lo com base nas obrigações que exis­ tem à parte de qualquer promessa de nossa parte — obrigações fundamentadas na eterna exatidão das coisas e confirmadas pela bondade do Senhor nosso Deus, a qual obriga a consciência. Não está cada cristão obrigado para com o Senhor e Redentor de se­ guir seu exemplo e de guardar suas palavras? Sim, os votos do Senhor estão sobre nós, especialmente pelo fato de termos feito o compromisso de discipulado, tendo sido batizados no nome três vezes santo, comido os elementos consagrados do sacram ento e falado no nome do Senhor Jesus. Estamos inscritos, ajuramentados e obrigados como leais soldados para a guerra. Portanto, ten­ do recebido a Palavra em nosso coração, com a firme resolução de obedecê-la, temos uma lâmpada nos recessos de nossa alma, da mesma forma que se encontra no seio do sacro Livro, e nossa trajetória será luminosa até o fim. [v. 107] Estou muitíssimo aflito; vivifica-me, ó Senhor, consoante tua palavra. Estou muitíssimo aflito. De acordo com o último versículo, ele havia jurado como um soldado do Senhor; neste próximo ver­ sículo, ele é chamado a enfrentar dificuldades nessa função. N os­ so serviço prestado ao Senhor não nos exime de provação, ao con­ trário, ela nos é assegurada. O salmista era um homem consagra­ do, e todavia um homem castigado; e seus castigos não eram le­ ves, pois era como se, quanto mais obediente, mais afligido fosse. Evidentemente, ele sentia a vara a vergastá-lo com a máxima se­ 155 •


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veridade, e ele põe diante do Senhor a gravidade de sua aflição como uma razão pela qual devesse ser sustentado nela por um enriquecimento de sua vida interior. Ele fala não num a tonalidade de murmuração, mas de súplica; no meio de sua profunda aflição ele insiste em prol de uma profunda vivificação. Vivifica-me, ó Senhor, consoante tua palavra. Há para a tribulação um remédio superior; a alma é soerguida acima das cogi­ tações da presente angústia, e se enche de santo júbilo que expan­ de todo o vigor da vida espiritual, e assim a aflição se converte em luz. Jeová somente é capaz de vivificar-nos: ele tem vida em si mesmo, e por isso pode comunicá-la graciosamente; ele pode darnos vida a qualquer momento; sim, neste exato momento; pois é da natureza da vivificação ser imediata em sua operação. O Se­ nhor prometeu, preparou e providenciou esta bênção de vida re­ novada a todos os seus servos que nela esperam; é uma bênção proveniente do pacto, e é tão acessível quanto necessária. A aflição se faz com freqüência o meio da vivificação, mesmo quando a es­ timulação de um fogo promove o calor da chama. Em sua aflição, alguns preferem a morte; nós, porém, oramos pela vida. Nossos pressentimentos, em meio à provação, às vezes se tornam lúgubres demais; então devemos rogar ao Senhor que nos trate, não consoante nossos temores, mas consoante sua própria Palavra. Davi tinha apenas umas promessas a citar, e algumas delas se acham registradas em seus próprios salmos, todavia ele declara a l^alavra do Senhor; quanto mais devemos agir assim, uma vez que tantas pessoas santas nos têm falado pelo Espírito Santo do Senhor atra­ vés desta maravilhosa biblioteca que hoje é nossa Bíblia! Visto que temos mais promessas, ofereçamos mais orações e manifestemos mais do poder vivificante da Palavra. [v. 108] Aceita, te rogo, ó Senhor, as espontâneas oferendas de minha boca, e ensina-me teus juízos. Aceita, te rogo, ó Senhor, as espontâneas oferendas de mi­ nha boca. Louvor vivo, ao Deus vivo, e com isso o vivificado apre­ senta seu sacrifício. Ele oferece oração, louvor, confissão e teste­ 156 •


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munho; estes, apresentados com sua voz na presença de um audilório, eram o tributo de sua boca, a Jeová. Ele treme, receando que os mesmos fossem mal expressos causando o desprazer divino, e por isso implora que sejam aceitos. Roga que a homenagem de sua boca fosse prestada com alacridade e espontaneamente: todas suas declarações eram oferendas espontâneas. Não pode haver valor algum nas confissões obtidas pela violência; as receitas de Deus não se derivam de impostos forçados, mas de doações espontâne­ as. Não pode haver aceitação onde não há espontaneidade; não existe qualquer obra da livre graça onde não existe nenhum fruto da vontade livre. A aceitação é um favor a ser obtido do Senhor, com toda solicitude, pois sem ela nossas oferendas são piores que inúteis. Que espantosa graça é que o Senhor aceite algo tão indig­ no como o somos nós! E ensina-me teus juízos. Ao oferecermos ao Senhor nosso melhor, nos tornam os ainda mais preocupados em fazer o melhor. Q uando descobrimos que o Senhor nos aceitou, então anelamos por mais instrução, para que sejamos ainda mais aceitáveis. Após a vivificação, necessitamos de aprender mais: a vida sem luz, ou o zelo sem conhecimento, seria menos de meia bênção. Esses reite­ rados clamores por instrução revelam a humildade do homem de Deus, e também traz a lume nossa própria necessidade de sem e­ lhante instrução. Nosso juízo deve ser educado até que saibamos, concordemos e ajamos em consonância com os juízos do Senhor. Esses juízos nem sempre são assim tão claros que sejam percebi­ dos imediatamente; necessitamos de ser instruídos neles até adm i­ tirmos sua sabedoria e adorarmos sua bondade tão logo as perce­ bamos. [v. 109] Minha alma está continuamente em minha mão; todavia não me es­ quecerei de tua lei. Minha alma está continuamente em minha mão. Ele vivia em meio aos perigos. Tinha de estar sempre lutando pela existên­ cia - escondendo-se em cavernas, ou digladiando-se nas batalhas. Essa é um a condição de vida muito desconfortável e dolorosa, e o 157 •


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ser hum ano está sempre pronto a inventar algum expediente justi­ ficável pelo qual possa pôr termo a tal condição. Davi, porém, não procurava achar segurança no pecado, pois diz: Todavia não me esquecerei de tua lei. Ouvimos que todas as coisas são lícitas no am or e na guerra; aquele santo homem, po­ rém, não pensava assim: enquanto levava sua vida em sua mão, também levava a lei de Deus em seu coração. Não há perigo para o corpo que nos faça pôr em risco nossa alma pelo esquecimento do que é certo. A tribulação tende a levar as pessoas a esquecerem seu dever, e teria o mesmo efeito sobre o salmista não houvera obtido a vivificação (v. 107) e o ensino (v. 108). Ele sentia-se se­ guro em recordar a lei do Senhor; e com certeza não se esquecia de seu Deus, porquanto este jamais se esquecia do salmista. E uma prova especial da graça quando nada consegue desviar a ver­ dade de nossos pensamentos, nem a santidade de nossas vidas. Se nos lembrarmos da lei, ainda quando a m orte nos desvende sua face, podemos nutrir toda certeza de que o Senhor nos tem em sua memória. [v. 110] Os ímpios me armaram uma rede; todavia não me desviei de teus preceitos. Os ímpios me armaram uma rede. A vida espiritual é o cená­ rio de perigo constante: o crente vive com sua vida em sua mão, enquanto tudo parece tram ar arrebatá-la dele, através de astúcia, caso não possa fazê-lo pela violência. Não acharemos nada mais difícil de se fazer do que viver uma vida de fidelidade. Os espíritos perversos e os homens ímpios não deixarão sequer um a pedra no lugar visando a nossa destruição. Quando todos os engenhos fra­ cassam, e ainda os poços ocultos não surtem efeito, os ímpios ain­ da perseverarão em seus traiçoeiros empenhos, tornando-se ainda mais astutos, armando redes para as vítimas de seu ódio. Os m e­ nores gêneros de jogos são geralmente usados por este método: laço, armadilha, rede ou cilada. Os ímpios são totalmente indife­ rentes quanto à maneira como poderão destruir a pessoa de bom coração; não pensam dela nada superior a um coelho ou um rato. 158 •


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A astúcia e a traição são sempre os aliados da malícia, e tudo quanto tenha a aparência de generosidade ou sentimento de fidalguia é totalmente desconhecido entre os que são destituídos da graça, que tratam os santos como se fossem vermes que têm de ser exter­ minados. Quando uma pessoa sabe que é assim assaltada, ela é também suscetível de tornar-se timorata e de inventar precipita­ damente um meio de livramento, não sem pecar na tentativa; Davi, porém, calmamente se mantinha em seu caminho e foi capaz de escrever: Todavia não me desviarei de teus preceitos. Não caíra numa armadilha por m anter seus olhos abertos e bem perto de Deus. Não fora enredado nem roubado, visto que seguia a reta estrada do Rei, que é de santidade, onde Deus garante segurança a todo transeunte. Não se desviara da retidão, e não fora impedido de segui-la, porque atribuía ao Senhor sua orientação, e assim a ob­ teve. Se nos desviarmos dos preceitos, não temos parte nas pro­ messas; se fugirmos da presença de Deus, vaguearemos por an ­ tros inóspitos, onde os caçadores livremente espalham suas redes. A luz deste versículo, aprendamos a viver em guarda, pois também temos inimigos, tão astutos como ímpios. Os caçadores espalham suas armadilhas por onde geralmente os animais passam, e nossas piores armadilhas são armadas em nossos próprios caminhos. Ao conservarm o-nos nos caminhos do Senhor, estaremos também escapando das redes de nossos adversários, pois os caminhos do Senhor são seguros e livres de traição. [v. 111] Teus testemunhos os tenho por herança, para sempre, porque são o júbilo de meu coração. Teus testemunhos os tenho por herança, para sempre. Ele os escolheu como sua sorte, sua porção, sua condição; e o que é mais: ele se manteve firme neles e fez deles sua possessão e júbilo. A escolha de Davi é também a nossa. Se pudermos ter o que deseja­ mos, então que desejemos guardar perfeitamente os m andam en­ tos de Deus. Conhecer a doutrina, desfrutar da promessa, praticar o m andamento - eis um reino suficientemente amplo para nós. 159 •


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Aqui temos uma herança que não pode fenecer nem ser alienada; ela dura para sempre e será eternamente nossa, se é que temos tomado posse dela. As vezes, como Israel em seu primeiro ingres­ so em Canaã, temos que tom ar posse de nossa herança pela via de dura luta, e quando é assim, ela é digna de todo nosso labor e sofrimento; mas ela terá sempre de ser apossada por uma escolha decidida do coração e pelas garras da vontade. E preciso que a eleição divina seja também a nossa eleição. O que Deus dá pela graça temos de tomar posse pela fé. Porque são o júbilo de meu coração. O júbilo que lhe veio através da Palavra do Senhor o levou a fazer uma escolha inalterá­ vel dela. Todas as partes da Escritura despertavam prazer em Davi, e ainda continuavam, e por isso ele as m antinha e pretendia tê-las em sua posse para sempre. Aquilo que traz regozijo ao coração merece ser escolhido e entesourado. Não é o conhecimento inte­ lectual, e, sim, a experiência do coração que traz a genuína alegria. Neste versículo, que é o sétimo de sua oitava, atingimos a m es­ ma suavidade do sétimo da última oitava (103). E digno de obser­ vação que, em diversas das sétimas contíguas, o deleite é evidente. Quão deleitoso é quando a experiência se aprimora na alegria, passando pelo sofrimento, oração, conflito, esperança, decisão, e o santo contentamento culmina no regozijo! A alegria firma o es­ pírito. Quando uma vez o coração humano se regozija na divina Palavra, ele grandemente a valoriza, e por isso se m antém para sempre unido a ela. [v. 112] Inclinei meu coração a guarclar teus estatutos, para sempre, até o fim. Ele era ativo e enérgico em dominar seu próprio coração. Não só podia dizer: “Estou inclinado”, mas: “Tenho inclinado.” Não estava meio inclinado para a virtude, mas sinceramente inclinado para ela. Seu coração inteiro se inclinava para a santidade prática e persistente. Estava resolvido a guardar todos os estatutos do Senhor, de todo seu coração, ao longo de todo seu tempo, sem desviar-se e sem deter-se. Ele tomou como seu objetivo máximo, guardar a lei até o fim, e isso sem desistir. Através da oração, da 160 •


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m editação e da resolução, ele inclinara todo seu ser para os m an­ damentos de Deus; ou, como diríamos em outros termos: a graça de Deus o inclinara para que seu coração se inclinasse num a dire­ ção santificada. Muitos são inclinados a pregar; o salmista, p o ­ rém, estava inclinado à praxe. Muitos são inclinados a realizar ce­ rimônias; ele, porém, estava inclinado a cumprir os estatutos divi­ nos. Muitos estão inclinados a obedecer ocasionalmente; Davi, porém, estava inclinado a obedecer sempre. E, infelizmente, m ui­ tos estão inclinados à religião temporária; este santo homem, po­ rém, estava tão inclinado, que se sentia obrigado, por toda a eter­ nidade, a cumprir os estatutos de seu Senhor e Rei. Senhor, envianos essa celestial inclinação do coração; e então demonstraremos que nos vivificaste e nos instruíste. Para esse fim, cria em nós um coração puro, e renova diariamente, em nosso íntimo, um espírito reto; pois somente assim nos inclinaremos na direção certa. Muitos se têm inclinado quando percebem que ali estão as melhores coisas; que o Senhor assim governe nossos corações para que jamais percamos a irrestrita inclinação para o viver santo!


(w. 113-120) Odeio os pensamentos vãos, porém amo tua lei. Tu és meu refúgio e meu escudo; espero em tua palavra. Afastai-vos de mim, malfeitores, pois guardarei os mandamentos de meu Deus. Sustenta-me consoante tua palavra, para que eu possa viver, e não me deixes frustrado em minha esperança. Sustenta-me, e serei salvo; e continuamente terei respeito por teus estatutos. Tu tens pisado aos pés todos os que se des­ viam de teus estatutos, pois a ilusão deles é a falsidade. Tu tiraste da terra todos os ímpios, como a escória; por isso amo teus testemunhos. Minha carne estremece de temor por ti; e eu tenho temido teus juízos. Esta oitava, cuja letra inicial é Samech, ou S., se assemelha a Sansão em sua morte, quando se apoia nas colunas do edifício e o faz desabar sobre os filisteus. Assinala como ele se agarra às colu­ nas do poder divino, com o clamor: “Sustenta-m e”, e “Dá-m e tua força”, e vê como o edifício desaba, como o juízo divino, sobre os ímpios! “Tu tiraste da terra todos os ímpios, como a escória.” Esta seção conduz à guerra no país do inimigo e exibe o crente como guerreando contra a falsidade e a iniqüidade. [v. 113] Odeio os pensamentos vãos, porém amo tua lei. Neste parágrafo, o salmista trata dos pensam entos, coisas e pessoas que se opõem aos santos pensamentos e cam inhos de Deus. Ele é evidentemente movido de profunda indignação con­ tra os poderes das trevas e seus aliados; e toda sua alma se agita e se lhes opõe com determ inada oposição. Precisamente como ele começou com a oitava, no versículo 97: “Oh, como am o tua lei!”, assim ele começa aqui com a declaração de intenso amor; mas o prefacia com um a declaração igualmente fervorosa de ódio 162 •


XPO SIÇÂO 1^

contra aquele que transgríde a lei. O oposto do testem unho fixo e infalível de Deus é o oscilante e mutável pensam ento dos h o ­ mens. Davi sentia um completo desprezo e aversão pelas vãs opi­ niões da conceituada sabedoria humana; toda sua reverência e respeito se centravam na infalível Palavra da veracidade divina. Em proporção a esse am or pela lei estava seu ódio pelas m aqui­ nações hum anas. A palavra ‘vãos’ é mui apropriadam ente usada pelos tradutores; pois a palavra original significa “coxear entre dois pensam entos”, e daí inclui as dúvidas dos cépticos. Os p en ­ samentos dos hom ens são vaidade; porém os pensam entos de Deus são a pura verdade. Ouvimos m uito nos dias atuais de “h o ­ mens de pensam ento”, “mestres pensadores” e “pensam ento m oderno” . O que é isso senão a antiga soberba do coração h u ­ m ano? O hom em fútil deve aprender a ser sábio. O salm ista não se gloria em seus pensamentos; e aquilo que ele cham ou ‘pensa­ m ento’, em seus dias era algo de que detestava. Quando o h o ­ m em pensa que seus pensamentos são melhores, mais elevados, estes se encontram muito abaixo dos pensam entos da revelação divina, como abaixo está a terra dos céus. Alguns pensam entos são especialmente fúteis no sentido de vangloria, soberba, p re­ conceito e autoconfiança; outros, no sentido de atrair desapon­ tam ento, tal com o a ambição crédula, a esperança infundada e a confiança proibida no homem. M uitos pensam entos são vãos no sentido de vacuidade e frivolidade, tais como os sonhos infunda­ dos e os rom ances inglórios aos quais tantos se entregam . Uma vez mais, muitos pensamentos são vãos no sentido de ser peca­ minosos, nocivos e tolos. O salmista não é indiferente aos m aus pensam entos com o fazem os inconseqüentes; porém m irava es­ tes com um ódio tão real como era o am or com que ele aderia aos pensam entos puros de Deus. A última oitava pertence à esfera prática; esta pertence à esfera da reflexão íntima. Naquela, o homem de Deus atentava para seus pés; e nesta, para seu coração. As emoções da alma são tão im por­ tantes como os atos da vida, pois eles são a fonte e fluxo donde procedem nossas ações. Quando amamos a lei, ela se torna uma lei de amor, e aderimos a ela de todo nosso coração. 163 •


Salm o 115*

[v. 114] Tu és meu refúgio e meu escudo; espero em tua palavra. Tu és meu refúgio e meu escudo. Deus era seu refúgio e escu­ do. Ele corria para seu Deus a fim de escapar dos pensamentos vãos; ali ele se escondia de sua torm entosa intrusão, e em solene silêncio da alma encontrava em Deus seu santuário. No burburinho do mundo, se não pudesse ficar a sós com Deus como um lugar de refúgio, o homem de Deus podia ter consigo o Senhor como seu escudo, e por esse meio ele podia precaver-se das fle­ chas peçonhentas da má insinuação. Este é um versículo experi­ mental, e testifica daquilo que o escritor sabia de seu próprio co­ nhecimento pessoal: não podia fugir de seus próprios pensam en­ tos, nem escapar deles, enquanto não fugisse para seu Deus e ali encontrasse livramento. Observe que ele não fala da Palavra de Deus como sendo sua dupla defesa, mas atribui sua proteção a Deus mesmo: “Tu és meu refúgio e meu escudo.” Quando nos virmos cercados por assaltos espirituais sutis, tais como aqueles que surgem dos pensamentos vãos, faremos bem em fugir direta­ mente para a presença real de nosso Senhor, escondendo-nos em seu poder e amor. O Deus verdadeiro, realmente compreendido, é a morte da falsidade. Feliz quem pode realmente dizer ao Deus Triúno: “Tu és meu refúgio e meu escudo!” Ele é quem contempla Deus dentro daquele glorioso aspecto pactuai que assegura ao que contempla a mais forte consolação. Eu espero em tua palavra. Ao máximo que ele pudesse, visto que a experimentava e a provava. Aquilo que foi verdadeiro no passado, podia ser objeto de confiança para o futuro. O salmista procurava proteção contra todo perigo, bem como a preservação contra toda tentação, no Senhor que fora a torre de sua defesa em toda ocasião. E fácil exercer esperança onde temos experimentado o socorro. Às vezes, quando lúgubres pensamentos nos afligem, a única coisa que podemos fazer é esperar; e, felizmente, a Palavra de Deus sempre põe diante de nós objetos de esperança, razões para esperança e acenos da esperança, em abundância tal que ela se torna a própria esfera e suporte da esperança, e assim os pensa­ mentos timoratos e tentadores são vencidos. Em meio aos aborre­ 164 •


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cimentos e preocupações, nutrir esperança do céu é um golpe íinal e eficaz contra os mesmos. [v. 115] Afastai-vos de mim, malfeitores, porque guardarei os mandamentos de meu Deus. Afastai-vos de mim, malfeitores. Os que estão bem cientes de seus pensamentos não se dispõem a tolerar a má companhia. Se fugirmos para Deus, procurando escapar dos pensamentos vãos, muito mais evitaremos os homens levianos. Os reis são por demais propícios a deixar-se cercar por certa classe de bajuladores, e ao mesmo tempo se dão o direito de transgredir as leis de Deus. Davi purgou seu palácio de tais parasitas; ele não os acolheria sob seu teto. Não admira que atraíssem sobre ele um mau nome; pois seus feitos lhe eram imputados, uma vez que os atos dos cortesãos ge­ ralmente são dados como atos da própria corte; portanto o rei os enxotou, com armas e bagagens, dizendo: “Afastai-vos de mim.” Com isso ele antecipou a sentença do último grande dia, quando o Filho de Davi disser: “Apartai-vos de mim, obreiros da iniqüida­ de.” Não podemos com isso despachar todos os malfeitores de nossos lares, mas é possível que, em ocasião própria, sejamos obri­ gados a agir dessa maneira. O direito e a razão demandam que não devemos permitir ser importunados por servos incorrigíveis ou inquilinos sem crédito. Uma casa é de todos o melhor lugar para abrigar mentirosos, larápios, vagabundos obscenos e caluni­ adores. Onde podemos escolher nossos próprios companheiros, somos obrigados, sob quaisquer riscos, a m anter-nos limpos de associados duvidosos. Assim que tivermos motivo de crer que seu caráter é vicioso, ser-nos-á preferível ter seu espaço desocupado do que sua companhia importuna. Malfeitores são maus conse­ lheiros, e por isso não devemos assentar-nos com eles. Os que dizem a Deus: “Afasta-te de nós” devem ouvir imediatamente o eco de suas próprias palavras procedentes dos lábios dos filhos de Deus, dizendo-lhes: Afastem-se de nós.” Não podemos comer pão com traidores, a fim de não sermos também acusados de alta traição. Porque guardarei os mandamentos de meu Deus. Já que ele 165


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achava difícil guardar os m andamentos do Senhor na companhia dos ímpios, então deu-lhes ordem de desocupação. Ele guardaria os mandamentos; e assim não era obrigado a manter a companhia dos malfeitores. Que glorioso título para o Senhor contém este versículo: “meu Deus!” A palavra Deus só ocorre neste único lugar ao longo deste extenso Salmo; e então se acha acom panhada da palavra pessoal ‘m eu’ —“meu D eus.” Meu Deus! - Quão encantador isso soa! Que delícia é isso repetir! No coração, alegremente, reboa, Onde Deus fixou seu trono e o faz sentir.

Uma vez sendo Jeová nosso Deus, portanto resolvemos obe­ decê-lo e lançar fora de nossa vista aqueles que nos prejudicam em seu serviço. E algo maravilhoso para a mente chegar a uma firme decisão e manter solidamente fixo com santa determinação: “Guardarei os mandamentos de meu Deus.” A lei de Deus é o nosso deleite, já que o Deus da lei é 0 nosso Deus. [v. 116]

Sustenta-me consoante tua palavra, para que eu possa viver; e não me deixes frustrado em minha esperança. Sustenta-me consoante tua palavra, para que eu possa vi­ ver. Era tão necessário que o Senhor sustentasse seu servo, que ele nem mesmo podia viver sem sua Palavra. Nossa alma morreria, e toda a graça da vida espiritual também extinguiria, caso o Se­ nhor lhe negasse sua mão mantenedora. E mui doce conforto que essa grande necessidade de sustento esteja oferecida na Palavra, e não temos que pedi-la com base numa mercê não prometida, mas simplesmente implorar pelo cumprimento da promessa, dizendo: “Sustenta-me consoante tua palavra.” Aquele que nos deu vida eterna, nesse dom nos assegurou tudo o que nos é essencial até aqui; e sustento gracioso é aquele que tange às coisas necessárias; portanto, estejamos certos de que o teremos. Note que, quando Davi se viu livre dos malfeitores, nem por isso se sentiu seguro quando sozinho. Sabia que necessitava de ser preservado em sua 166 •


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própria fraqueza da forma como se viu livre do mau exemplo dos maus, e assim orou pela graça que nutre e sustenta. E que eu não seja frustrado em minha esperança. No versí­ culo 114, ele menciona sua esperança como que fundam entada na Palavra do Senhor, e agora roga pelo cumprimento da promessa, para que sua esperança fosse justificada aos olhos dos homens. Uma pessoa se sente logo frustrada em sua esperança se esta não possui base sólida; mas isso jamais sucederá em nosso caso, visto que confiamos num Deus fiel. Podemos scr frustrados em nossos pensamentos, em nossas palavras, em nossos atos, porquanto eles fluem de nós mesmos; jamais, porém, nos envergonharemos de nossa esperança, porquanto ela flui do Senhor. Podemos, com ra­ zão, envergonhar-nos de nossa dúvida, porém não precisamos ja ­ mais envergonhar-nos de nossa esperança. Tal é a fragilidade de nossa natureza que, a menos que sejamos continuam ente susten­ tados pela graça, cairíamos tão abominavelmente, que nos enche­ ríamos de pasmo e vergonha de nós mesmos, e nos dominaria a frustração de todas aquelas graciosas esperanças que ora são a coroa e a glória de nossa vida. Esse pode ser o caso até mesmo da solidão: quando os malfeitores se vão, podemos ainda cair vítimas de nossos tolos temores. O homem de Deus tinha firmado sólida resolução, mas não podia confiar em suas próprias resoluções, por mais solenes fossem elas; daí essas orações. Não é errôneo tomar resoluções, mas é inútil fazê-las se não as temperarm os bem com convictos clamores a Deus. Davi pretendia guardar a lei do Senhor, mas, antes, era preciso que o Senhor da lei o guardasse! [v. 117] Sustenta-me, e eu serei salvo; e continuamente terei respeito por teus estatutos. Sustenta-me - como uma babá sustenta uma criancinha. E eu serei salvo, não outro. Pois a menos que tu me sustentes, cairei como uma criancinha que não tem firmeza em suas pernas. Fo­ mos salvos pela graça passada, mas ainda não estamos a salvo, a menos que recebamos a graça presente. Realmente necessitamos desta bênção em toda forma em que ela porventura nos venha, 167 •


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pois nossos adversários buscam, de todas as formas, lançar-nos fora do caminho. Estar salvo é uma feliz condição; só há um cam i­ nho para ela, ou seja, pelo sustento divino. Graças a Deus que esse caminho está aberto para o mais frágil dentre nós. “Sustenta-m e” pode ser também uma súplica para a elevação da mente. “Mais perto quero estar, meu Deus, de ti”, é a mesma oração. Devemos ser soerguidos acima do ego e do pecado e de tudo o que avilta; só então é que estaremos com certeza a salvo. E continuamente terei respeito por teus estatutos. Sendo as­ sim sustentados, então obedecemos; e, ao obedecer, estamos a sal­ vo. Ninguém, externamente, guardará os estatutos do Senhor, a menos que nutra um profundo e íntimo ‘respeito’ por eles; e isso jamais se dará, a menos que a mão do Senhor sustente perpetua­ mente o coração em santo amor. Perseverança até o fim, ou obedi­ ência contínua, só vem através do poder divino; nos desviaremos como a flecha num arco defeituoso, a menos que sejamos guarda­ dos por aquele que, antes, nos deu a graça. Feliz a pessoa que aplica este versículo ao longo de sua vida; sustentada ao longo de toda sua vida, num curso de invariável integridade, ela se torna um a “pessoa salva”, uma pessoa confiante. Tal pessoa salva m ani­ festa uma sacra sensibilidade de consciência que é estranha a ou­ tros. Ela sente um terno ‘respeito’ pelos estatutos do Senhor, que a guardam pura das inconsistências e conformidade com o m undo que são tão comuns entre os outros. Então se torna uma coluna na casa do Senhor. Infelizmente conhecemos alguns professos que não são retos, e por isso se inclinam para o pecado, e ainda caem nele; ainda quando são restaurados e novamente estabelecidos, nunca estão salvos nem são confiáveis e tampouco têm aquela doce pureza de alma que é o encanto daqueles que têm sido guardados de cair no lamaçal. [v. 118] Tu tens pisado aos pés todos os que se desviaram de teus estatutos; pois a ilusão deles é a falsidade. Tu tens pisado aos pés todos os que se desviaram de teus estatutos. Não há proteção para eles; são precipitados abaixo, e 168 •


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então pisados; pois escolheram precipitar-se nos tortuosos cam i­ nhos do pecado. Mais cedo ou mais tarde, Deus porá seu pé no pescoço daqueles que volvem seu calcanhar contra os santos m an ­ damentos. Foi sempre assim, e sempre será até o fim. Se o sal perder seu sabor, para nada mais presta senão para ser pisado sob os pés. Deus consome os ímpios como a escória, os quais só ser­ vem para deitar fora como o cascalho que é pisado. Pois sua ilusão é a falsidade. Cham am -na plano de previdên­ cia, mas é falsidade absoluta, e será tratada como tal. Os hom ens ordinários cham am -na diplomacia inteligente, mas o hom em de Deus a chama pelo próprio nome, e a declara ser falsidade, e nada menos que isso; pois ele sabe que ela é assim aos olhos de Deus. As pessoas que se desviam da rota certa inventam atraentes escu­ sas com que enganar a si e a outros, e assim tentam tranqüilizar sua consciência e m anter seu crédito; mas sua máscara de falsida­ de é por demais transparente. Deus calca aos pés as falsidades; só servem para ser tratadas a pontapés e esmagadas no pó. Horrivel­ mente serão tratados os que gastam toda sua vida m aquinando uma religião de confeitaria, quando a vêem toda pisoteada por Deus como um a impostura que não pode durar! [v. 119] Tu tiraste da terra todos os ímpios, como a escória; por isso amo teus testemunhos. Tu tiraste da terra todos os ímpios, como a escória. Ele não regateia com eles, nem os trata com luvas de pelica. Não, eles os julga como refugo da terra, e os trata da maneira merecida, lan­ çando-os para longe. Ele os expulsa de sua igreja, longe de suas honras, longe da terra e, por fim, longe dele próprio. “Apartai-vos de mim”, diz ele, “malditos." Se mesmo uma pessoa boa se sente forçada a afastar de si os malfeitores, muito mais o Deus três vezes Santo expulsará os ímpios. Pareciam metal precioso, se confundi­ am intimamente com ele, estavam postos na mesma pilha; o Se­ nhor, porém, é um purificador, e cada dia ele remove alguns dos ímpios do meio de seu povo, seja pela vergonha de descobrirem sua hipocrisia ou consumindo-os da face da terra. São removidos 169 •


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como a escória, nunca mais serão lembrados. Como o melhor para o metal é a perda de sua liga, assim o melhor para a igreja é a remoção dos ímpios. Esses ímpios são “deste m undo” - “os ímpi­ os da terra” —, e não têm nenhum direito de estar com aqueles que “não são deste m undo”; o Senhor vê que estão fora de lugar e são injuriosos, e por isso os tira fora, iodos eles, não deixando nenhum deles deteriorar seu povo. O processo um dia será aperfeiçoado; nenhuma escória será poupada, e nem se permitirá que o ouro seja impuro. Onde estaremos nós quando a grande obra for finalizada? Seremos entesourados com o ouro, ou pisoteados com a escória? Por isso eu amo teus testemunhos. Mesmo a severidade do Senhor desperta o amor de seu povo. Se ele permitisse os homens pecarem impunemente, então não seria tão plenamente o objeto de nossa amorável admiração. Ele é glorioso em santidade, por isso livra seu reino dos rebeldes e seu templo, daqueles que o m a­ culam. Nestes dias maus, quando o castigo divino sobre os peca­ dores se tornou motivo de soberbo cepticismo, podemos conside­ rar como uma marca do verdadeiro filho de Deus o fato de que ele não ama menos o Senhor, mas uma grande medida a mais, por causa de seu condigno juízo dos ímpios. Valorizamos grandem en­ te aquelas passagens da Escritura que são mais terríveis em sua denúncia do pecado e dos pecadores. Amamos aqueles testem u­ nhos que predizem a ruína do mal e a destruição dos inimigos de Deus. Um Deus mais indulgente seria um Deus menos amante e menos amado. Os corações santos amam mais um Deus perfeita­ mente justo. [v. 120] Minha carne estremece de temor por ti; e eu tenho temido teus juízos. Minha carne estremece de temor por ti. Ele não exultava no castigo que era desferido sobre outros, mas estremecia acerca de si próprio. Tal era sua reverente admiração na presença do Juiz de toda a terra, sobre cujo juízo ele acabara de ponderar, ou, seja, que ele nutria extremo temor e tremor. A familiaridade com Deus arrancara dele uma santa admiração. Até mesmo a parte mais gros­ seira da pessoa de Davi, sua carne, sentia uma tão solene expecta170 •


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ção em sua mente, temendo ofender Aquele que é tão bom e tão imenso, que se dispunha a expulsar de vez os ímpios dentre os justos. Ah! miserável carne, isso é o de mais sublime que você não logrou alcançar! Todavia isso é muito melhor que sua soberba quan­ do você se exalta contra teu Criador. E eu tenho temido teus juízos. As palavras do Deus do juízo são solenes, e seus feitos de juízo são terríveis; eles nos arrancam temores e tremores. No pensamento do Juiz de todos —seus olhos penetrantes, seus livros de registro, seu dia de inquérito judicial, sua terrível sentença e a execução de sua justiça - faremos bem em clamar por pensamentos, corações, caminhos puros, a fim de que os juízos sejam mais leves contra nós. Q uando vemos o grande Purificador separando o precioso do vil, é possível que sintamos um santo temor, receando ser expulsos de sua presença e pisotea­ dos sob a planta de seus pés. Mesmo seus juízos, como os encon­ tramos na Palavra, nos enchem de tremor; e isso se nos afigura como uma evidência da graça. O que será, porém, quando seus juízos forem concluídos? Oh! trem or e temor, que serão a eterna porção daqueles que baterão de encontro com o Jeová dos Exérci­ tos, desafiando sua ira! O amor, no versículo anterior, é plenamente consistente com o temor, neste versículo: o temor que atorm enta é eliminado, mas não o temor filial que conduz à reverência e obediência.

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(w. 121-128) Tenho exercido juízo e justiça; não me abandones ao poder de meus opressores. Sê o fiador de teu servo para o bem; não deixes que os soberbos me oprimam. Meus olhos desfalecem por tua salvação e pela palavra de tua justiça. Trata teu servo consoante tua misericórdia, e ensina-me teus estatutos. Eu sou teu servo; clá-me entendimento, para eu discernir teus testemunhos. Já é tempo, ó Senhor, de agires; pois eles têm invalidado tua lei. Por isso amo teus mandamentos mais que o ouro, sim, mais que o ouro depurado. Por isso estimo todos teus preceitos con­ cernentes a todas as coisas que são retas; e odeio todo caminho falso. Nesta oitava o salmista, antes de tudo, implora ao Senhor que interfira em seu favor: solicita o juízo do grande Rei, ainda quan­ do ele mesmo distribuía justiça entre seu povo. Então declara seu contentamento sincero e irrestrito com todos os mandamentos e preceitos do Senhor, e roga-lhe que defenda sua própria lei. Es­ creve do ponto de vista de sua experiência oficial. Em nossa posi­ ção pública, tanto quanto em nossa posição privada, a Palavra de Deus é extremamente preciosa. [v. 121] Tenho exercido juízo e justiça; não me abandones ao poder de meus opressores. Tenho exercido juízo e justiça. Isso era algo muito im portante para um governante oriental dizer naquele tempo; pois a maioria desses déspotas se preocupava mais com lucro do que com justiça. Alguns deles negligenciavam totalmente seu dever, e o juízo não estava de forma alguma em sua cogitação, preferindo seus deleites a seus deveres; e a maioria deles vendia seus juízos a quem pagas­ se mais, aceitando subornos ou levando em conta a posição social 172 •


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dos homens. Alguns governantes não ministravam nem juízo nem justiça; outros ministravam juízo sem justiça. Davi, porém, m inis­ trava juízo e justiça, e cuidava para que suas sentenças fossem executadas. Ele podia alegar diante do Senhor que havia distri­ buído justiça e continuava a distribuí-la. Sobre este fato ele basea­ va uma súplica com a qual apresentava a oração: Não me abandones ao poder de meus opressores. Aquele que, quanto está em seu poder, vive fazendo o bem pode ter espe­ rança de ser libertado de seus opressores quando tentam de todas as formas prejudicá-lo. Se eu não oprimir outros, posso orar espe­ rançosamente de que a outros não se permitirá oprimir-me. Uma vida de conduta íntegra é o que nos faz ousados em apelar para o G rande Juiz, para que nos livre da injustiça dos hom ens maus. Tampouco se deve censurar esse tipo de súplica, como sendo autojustiça; é uma oração muito apropriada e aceitável. Q uando nos pomos diante de Deus e falamos com ele sobre nossas insuficiên­ cias, usamos um tom bem diferente daquele com que encaramos as censuras de nosso semelhante. Quando acusações injustas es­ tão em foco, e somos limpos de culpa aos olhos de nossos acusa­ dores, então estamos certos em apresentar nossa inocência. A in­ tegridade moral é um grande amparo para nosso conforto espiri­ tual. Se somos íntegros em nossa conduta, podemos estar certos de que o Senhor não nos abandonará, e certamente não nos dei­ xará à mercê de nossos inimigos. fv. 1 2 2 ]

Fica por Fiador de teu servo para o bem; não deixes que os soberbos me oprimam. Fica por Fiador de teu servo para o bem. Esse foi o clamor de Jó e de Ezequias, e é o clamor de cada alma que crê no grande Intercessor e Ancião de Dias. Responde-me. Não deixes teu hu ­ milde servo m orrer nas mãos de seus e teus inimigos. Toma meus interesses e os entrelaces com os teus e cuida de mim. Como meu Senhor, faz prevalecer a causa de teu servo e representa-me ante a face dos homens arrogantes, até que percebam que augusto aliado eu tenho no Senhor meu Deus. Nossa suprema salvação vem da 173 •


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fiança divina. O Filho de Deus, como nosso Fiador, sofreu as con­ seqüências em nosso lugar, e com isso nos tem feito o bem e nos salvou de nosso arrogante opressor, o arqui-inimigo de nossas almas. Neste versículo, não temos a menção da lei em qualquer de seus muitos títulos, e este é o único exemplo, em todo o Salmo, em que um versículo omite a menção da Palavra do Senhor. Todavia, essa não é nenhuma exceção ao espírito da regra; pois aqui encon­ tram os menção de nosso Fiador, o qual é o cumprimento da lei. Onde a lei fracassa, temos Cristo, o Fiador de um pacto superior. Essa fiança é sempre para o bem, mas quanto de bem nenhum a língua pode dizer. Não deixes que os soberbos me oprimam. Tua interposição corresponderá ao propósito de meu resgate; quando os soberbos perceberem que tu és meu Advogado, cobrirão suas cabeças. Terí­ amos sido esmagados debaixo de nosso soberbo adversário, o di­ abo, se nosso Senhor Jesus não se interpusesse entre nós e o acu­ sador, e não se tornasse nosso Fiador. É através de sua fiança que escapamos como um pássaro escapa da rede do caçador. Que bên­ ção poderm os deixar nossos problemas nas mãos de nosso Fia­ dor, sabendo que tudo estará bem, já que ele tem uma resposta para cada acusador, uma repreensão para cada injuriador. Os homens bons têm pavor da opressão, pois ela faz demente até mesmo a pessoa mais sábia, e enviam ao céu seus clamores por livramento; tampouco clamam em vão, pois o Senhor se encarre­ gará da causa de seus servos, e enfrenta suas batalhas contra os soberbos. A palavra ‘servo’ é sabiamente usada como uma súplica em favor de si próprio, e a palavra ‘soberbo’ é usada como argu­ mento contra seus inimigos. Parece inevitável que os soberbos se tornem opressores, e que eles se deleitem em oprimir os verdadei­ ros servos de Deus. Suas opressões logo se desvanecerão, porque elas são opressões, já que seus obreiros são soberbos e já que seus objetos são os servos do Senhor. [v. 123]

Meus olhos desfalecem por tua salvação e pela palavra de tua justiça. Meus olhos desfalecem por tua salvação. Ele chorava, espe­ 174 •


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rava, vigiava pela mão salvífica de Deus, e esses exercícios subm e­ tiam os olhos de sua fé quase ao desvanecimento. Ele olhava uni­ camente para Deus; seu olhar era ávido; olhava para o horizonte longínquo; tanto que seus olhos ardiam. A misericórdia consiste no fato de que, se nossos olhos ofuscarem, Deus não falhará, nem seus olhos ofuscarão. Os olhos são órgãos sensíveis; assim tam ­ bém nossa fé, esperança e expectativa. O Senhor não nos provará além do que somos capazes de suportar. E pela palavra de tua justiça. Palavra esta que silenciaria as injustas acusações de seus opressores. Seus olhos, bem como seus ouvidos, aguardavam pela Palavra do Senhor. Ele procurava divi­ sar a Palavra divina manifestando-se como um fiai em seu livra­ mento. Ele “aguardava pelo veredicto” — o veredicto da própria justiça. Quão felizes somos quando temos a justiça do nosso lado! Porquanto aquilo que é o terror do pecador é esperança nossa; aquilo que aterroriza o soberbo é nossa expectativa e deleite. Davi deixou sua reputação inteiramente nas mãos do Senhor, e ansiava por ver tudo esclarecido pela palavra do Juiz, em vez de escudarse em qualquer defesa de sua parte. Ele sabia que tinha agido cor­ retamente, e portanto, em vez de evitar a suprema corte, rogava pela sentença que, ele sabia, operaria seu livramento. Ainda vigia­ va com olhares ávidos pelo juízo e pelo livramento, pela palavra de justiça de Deus, a qual significava salvação para si próprio. [v. 124]

Trata teu servo segundo tua misericórdia, e ensina-me teus estatutos. Trata teu servo segundo tua misericórdia. Aqui ele recorda de si mesmo; ainda que diante dos homens ele se achasse tão lim ­ po que podia desafiar a palavra de retidão, todavia, diante do Se­ nhor, como seu servo, ele sentia-se em necessidade de apelar para a misericórdia. Neste ponto sentimos a maior segurança. Nosso coração se sente mais seguro em clamar: “Ó Deus, tem m isericór­ dia de mim” do que em apelar para a justiça. E muito agradável poderm os dizer: “Tenho distribuído juízo e justiça”, e então acres­ centar, com toda humildade: “Trata teu servo segundo tua m iseri­ córdia.” O título ‘servo’ envolve uma súplica; um senhor deve p u ­ 175 •


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rificar o caráter de seu servo, caso seja este falsamente acusado, e livrá-lo daqueles que porventura o oprimem; e, além do mais, o Senhor deve dem onstrar misericórdia para com o servo, ainda quando severamente tratado como se fosse um estranho. O Se­ nhor trata seus servos munido de condescendência, ou mantendo com unhão com eles, não os tratando com repulsa, mas com diálo­ go e brandura; e isso ele faz de uma forma terna e compassiva, pois em qualquer outra forma de tratamento seriamos esmagados na cinza e no pó. E ensina-me teus estatutos. Esta será uma forma de trata­ mento entranhada de misericórdia em nosso favor. Podemos es­ perar que um senhor ensine a seu próprio servo o significado de suas próprias ordens. Todavia, uma vez que nossa ignorância amiúde provenha de nossa própria estupidez pecaminosa, é mui grande misericórdia da parte de Deus que ele se condescenda em instruirnos em seus mandamentos. Para nosso rei tornar-se nosso profes­ sor depende de um ato de infinita graça, pelo qual não há como sermos excessivamente agradecidos. Entre nossas mercês, esta é a mais preferida. [v. 125] Eu sou teu servo: dá-me discernimento para que eu possa conhecer teus testemunhos. Eu sou teu servo. Esta é a terceira vez que ele repete este título nesta mesma seção. Evidentemente ele apreciava este título e en­ tende ser o mesmo muitíssimo eficaz numa súplica. Quem de nós se deleita em ser filho de Deus de m odo algum se deleita menos em ser seu servo. Não é verdade que o Filho unigênito de Deus assumiu a forma de servo e cumpriu essa função de forma plená­ ria? Que honra maior podem os irmãos mais jovens desejar que sejam eles feitos herdeiros de todas as coisas? Dá-me discernimento para que eu possa conhecer teus tes­ temunhos. No versículo anterior, ele buscou instrução; aqui, po­ rém, ele avança mais e suspira por discernimento. Usualmente, se o instrutor ministra a lição, o aluno expande seu discernimento; em nosso caso, porém, somos muito mais dependentes, e deve­ 176 •


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mos implorar tanto por discernimento quanto por instrução: isto o professor comum não pode dar —somos felicíssimos por nosso Divino Tutor poder munir-nos com ambos. E preciso que confes­ semos nossa estultícia, para que, então, nosso Senhor nos faça sábios, como também nos dê conhecimento. O melhor discerni­ mento é aquele que nos capacita a prestar perfeita obediência e exibir fé inteligente, e isso é o que Davi deseja - “discernimento para que eu possa conhecer teus testem unhos.” Há quem não co­ nhece bem essas coisas; preferem permanecer tranqüilamente nas trevas antes que possuir a luz que conduz ao arrependim ento e diligência. O servo de Deus anela por discernir inteligentemente tudo o que o Senhor revela do homem e para o homem. Ele deseja ser tão instruído, que chegue a apreender e com preender aquilo que lhe é ensinado. Um bom servo não deve ignorar quem seja seu senhor, nem os negócios de seu senhor; ele tem de estudar a m en­ te, a vontade, o propósito e o objetivo daquele a quem serve, pois só assim ele executará seu serviço. E como ninguém conhece essas coisas tão bem quanto o conhece seu próprio senhor, assim com freqüência vamos a ele em busca de instruções, a fim de que não com menos zelo, o sirvamos bem e não passemos por crassos idiotas. É notável que o salmista não ore por entendimento via aquisi­ ção de conhecimento, mas roga ao Senhor primeiro que para que ele possua o gracioso dom do entendimento, e então que ele obti­ vesse a desejada instrução. Tudo o que conhecemos antes de pos­ suirmos entendimento é porta aberta para prejudicar-nos e infla­ mar-nos a vaidade; porém, se primeiramente o entendimento esti­ ver presente em nosso coração, entã^ o tesouro de conhecimento enriquecerá a alma e espantará o pècado e a tristeza. Além do mais, esse dom do entendimento age também na forma de discer­ nimento, e assim a pessoa boa é poupada de entesourar qualquer elemento falso e danoso; ela sabe quais são e quais não são os testemunhos do Senhor. fv. 126] ]á ê tempo de agires, ó Senhor, pois eles têm invalidado tua lei. Davi era servo, e portanto seu tempo de agir era contínuo. 177 •


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Mas, sentindo-se oprimido à vista do comportamento de um ho ­ mem ímpio, ele sente falta da mão de seu Senhor, e por isso apela para que ele aja contra a operação do mal. Os homens tentam invalidar a lei de Deus, negando ser ela a lei de Deus, prom ulgan­ do m andamentos e doutrinas para fazer-lhe oposição, estabele­ cendo em seu lugar tradição [humana] ou desrespeitando e escar­ necendo sumariamente da autoridade do Legislador. O pecado se torna a moda e o viver santo é considerado desprezível puritanismo; o vício é intitulado prazer e a vaidade vai adiante. Então os santos buscam a presença e o poder de seu Deus. Oh! tom ara que o Rei surja em seu trono com o cetro de ferro em sua mão! Oh! ansiamos por outro pentecostes com todos seus prodígios, exibin­ do a energia de Deus esmagando os que contradizem e fazendoos ver que existe Deus em Israel! O extremo do homem, seja de necessidade ou de pecado, é a oportunidade de Deus. Quando a terra era sem forma e vazia, o Espírito vinha e se movia sobre a face das águas; não devia vir ele quando a sociedade está à mercê de transform ar-se em caos? Quando Israel no Egito se viu reduzi­ do ao ponto extremo de humilhação, e tudo fazia crer que o pacto seria extinto, então Moisés apareceu em cena e operou portento­ sos milagres; assim também, quando a igreja de Deus é tripudia­ da, e sua mensagem ridicularizada, então podemos esperar ver surgir a mão do Senhor estendida para o avivamento da religião, para a defesa da verdade e para a glorificação do Nome divino. O Senhor pode operar, ou através de juízos que derrubem os baluar­ tes do inimigo, ou de avivamento que reconstrua os muros de sua própria Jerusalém. Quão ardentemente devemos orar ao Senhor para que levante novos evangelistas, que vivifique os que já exis­ tem, que faça o fogo crepitar em toda sua igreja e que conduza o m undo a seus pés! A obra de Deus é sempre digna e gloriosa; e nossa obra, sem sua operação, não passa de nulidade. [v. 127] Por isso amo teus mandamentos acima do ouro; sim, acima do ouro refinado. Como era o tempo de Deus agir, assim era o tempo de Davi 178 •


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amar. Longe de deixar-se influenciar pelo exemplo dos homens maus, unindo-se a eles e negligenciando as Escrituras, ao contrá­ rio penetrava cada vez mais na vereda de um amor veemente por essas revelações divinas. Ele amava não só as doutrinas, mas tam ­ bém os mandamentos. Ao ver os m andamentos sendo negligenci­ ados pelos ímpios, seu coração se punha em sintonia com o de Deus e sentia um ardente afeto por seus santos preceitos. A marca de um cristão genuíno é sua dependência de outros no exercício de sua religião, porém bebe água de seu próprio poço, a qual em a­ na sempre quando as cisternas da terra estão todas secas. Em meio a uma depreciação geral da lei, nosso santo poeta nutria profunda estima por ela, muito acima do valor do ouro e da prata. A riqueza traz consigo tantas conveniências, as quais levam os homens a naturalmente cobiçá-la, e o ouro como símbolo dela é ainda mais cobiçado. Contudo, no juízo do sábio, as leis de Deus são sua maior riqueza, e trazem consigo mais conforto do que os tesouros mais desejáveis. O salmista não podia gabar-se de sempre guardar os mandamentos; mas podia declarar que os amava; em seu cora­ ção, ele era perfeito e de bom grado ansiava por ser perfeito no viver diário. Ele considerava os santos mandamentos de Deus como melhores que a melhor coisa terrena - o ouro! Sim, melhor que o melhor tipo da melhor coisa terrena - o ouro refinado! E esse apreço foi confirmado e reforçado em expressão por aquelas mesmas oposições do m undo que levam os hipócritas a esquecer o Senhor e seus caminhos. O avarento vigia seu tesouro da forma mais ansiosa, ao ouvir que há ladrões na redondeza arquitetando privá-lo do mesmo. Quanto mais os homens odeiam as vèrdades eternas, mais nós as amamos. [v. 128] Por isso estimo todos teus preceitos, concernentes a todas as coisas, como retos; e odeio todo caminho falso. Por isso estimo todos teus preceitos, concernentes a todas as coisas, como retos. Uma vez que os ímpios descobriam erros nos preceitos de Deus, por isso Davi estava totalmente convicto de 179 •


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que eles eram retos. A censura dos perversos é um certificado de mérito; podemos com razão suspeitar daquilo que sancionam, mas podemos ardentem ente admirar aquilo que abominam. E franco o deleite que o homem bom sente na lei de Deus; ele crê em todos os preceitos de Deus acerca de todas as coisas. Declaramos nossa fé a todos os quadrantes em proporção à oposição do inimigo. A crítica negativa contrapomos com uma fé destemida. Quando nossa confiança em Deus é reputada como algo vil, dispomo-nos a ser ainda mais vis. E odeio todo caminho falso. O am or à verdade gera ódio à falsidade. Aquele que dá de presente um vestido tem aversão da boca que o desdenha. Este homem piedoso não era indiferente às coisas do m undo moral e espiritual; mas aquilo que ele não am a­ va, odiava. Ele não era uma torrada na sopa sem sabor; era, sim, alguém que sabia amar e também sabia odiar, mas que nunca era um irresoluto. Sabia muito bem o que sentia, e o que sentia ex­ pressava francamente. Não era nenhum irresponsável que de nada cuidava. Sua aversão era tão franca quanto sua afeição; ele não tinha uma boa palavra para qualquer prática que não suportasse a luz da verdade. O fato de que tão imensas multidões, seguindo por uma ampla estrada, não exerciam influência sobre este santo va­ rão, a não ser torná-lo mais determinado a evitar toda forma de erro e pecado. Possa o Espírito Santo governar nossos corações para que nossas afeições estejam na mesma condição determinada para com os preceitos da Palavra! Possamos nós assumir nosso lugar ao lado de Deus e da justiça, e jamais portar a espada em vão! Não sejamos belicosos, mas ousemos repudiar a indiferença pecaminosa. Odiemos todo e qualquer pecado; pois qualquer um dentre toda turba será nossa ruína se formos indulgentes. Sobracem as armas, ó soldados da cruz!

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(w. 129-136) Maravilhosos são teus testemunhos; por isso minha alma os guarda. A entrada de tuas palavras produz luz, produz entendimento nos símplices. Abri minha boca, e suspirei; pois tenho saudade de teus manda­ mentos. Olha para mim, e sê compassivo para comigo, como costumas fazer com os que amam teu nome. Ordena meus passos em tua pala­ vra; e que a iniqüidade não exerça nenhum domínio sobre mim. Livrame da opressão do homem; assim guardarei teus preceitos. Faz que teu rosto resplandeça sobre teu servo, e ensina-me teus estatutos. Rios de águas correm de meus olhos, porque não guardam tua lei. [v. 129] Maravilhosos são teus testemunhos; por isso minha alma os guarda. Todos os versículos desta seção começam com a décima séti­ ma letra do alfabeto hebraico; cada versículo, porém, com uma palavra diferente. Esta décima sétima letra é o P. A seção é precio­ sa, prática, proveitosa, poderosa. Oremos por um a bênção em prol de sua leitura. Maravilhosos são teus testemunhos. Cheios de maravilhosas revelações, mandamentos e promessas. Maravilhosos em sua natu­ reza, isentos de todo erro e, portando, em seu âmago esmagadora auto-evidência de sua veracidade; maravilhosos em seus efeitos, ins­ truindo, enobrecendo, fortalecendo e confortando a alma. Jesus, o Verbo Eterno, é chamado Maravilhoso, e todas as palavras pronun­ ciadas por Deus são maravilhosas em sua intensidade. Os que as conhecem ainda mais se extasiam diante delas. E maravilho que Deus tenha dado testemunho a todos os homens transgressores; e ainda mais maravilhoso é que seu testemunho seja de um caráter tão celestial, tão límpido, tão pleno, tão gracioso, tão poderoso. 181


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Por isso minha alma os guarda. Seu maravilhoso caráter es­ tava tão impresso em sua mente que ele os guardava em sua m e­ mória; sua maravilhosa excelência atraía tanto seu coração que ele os guardava em sua vida. Algumas pessoas se extasiam ante as palavras de Deus e as usam para suas especulações; Davi, porém, era sempre prático, e por isso mais se extasiava à medida que as obedecia. Note bem que sua religião era operosa na alma; não era só com a cabeça e com as mãos que ele guardava os testemunhos; mas os m antinha firmes com sua alma, seu ego mais confiante e mais real. O salmista se sentia tão fascinado pela vontade revelada de Deus que se sentia obrigado a exibir seu poder em sua vida diária. Sua perplexidade e sua ponderação produziam reverente obediência. [v. 130] A entrada de tuas palavras produz luz, produz entendimento nos símplices. A entrada de tuas palavras produz luz. Tão pronto logrem elas admissão à alma, esta é iluminada. Que bendita luz podemos esperar de sua prolongada permanência! Sua própria entrada inun­ da a mente com instrução, pois elas são plenas e claríssimas; que radiância se deve esperar de sua constante presença! Por outro lado, essa ‘entrada’ é indispensável para que também haja ilumi­ nação. O mero ouvir a Palavra com os ouvidos externos é por si só de pouquíssimo valor; mas quando as palavras de Deus penetram as recâmaras do coração, então a luz se difunde por todos os can­ tos. Essa é uma obra de Deus; somente ele pode fazer com que sua Palavra penetre em nós. Enquanto a graça não abrir-lhe a porta, em vão batemos à porta. A Palavra não acha entrada em nossas mentes porque as mesmas se acham bloqueadas pelo conceito pessoal, ou preconceito, ou indiferença. Mas onde se lhe dá a devida atenção, a iluminação divina seguramente leva a mente a um profundo co­ nhecimento de Deus. O Senhor, ilumina a entrada de minha alma! Faz com que tuas palavras, quais raios de sol, entrem pelas janelas de m eu entendimento e dispersem as trevas de minha mente! Produz entendimento nos símplices. Os sinceros e cândidos 182 •


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são os verdadeiros discípulos da Palavra. A esses ela dá não só conhecimento, mas também entendimento. Esses de coração sin­ gelo são amiúde desprezados, e sua simplicidade tem outro senti­ do infuso nela, por exemplo, o de tornar-se tema de ridículo; mas, que importa? Aqueles a quem o m undo intitula de tolos se acham entre os verdadeiramente sábios, se são instruídos por Deus. Que divino poder repousa na Palavra de Deus, visto que ela não só outorga luz, mas ainda confere aquele olho mental pelo qual a luz é recebida - “ela produz entendim ento”! Daí o valor das palavras de Deus aos símplices, que não podem receber a misteriosa Pala­ vra a menos que suas mentes sejam ajudadas para vê-las e prepa­ radas para assenhorear-se delas. [v. 131]

Abri minha boca, e suspirei; pois tenho saudade de teus mandamentos. Abri minha boca, e suspirei. Um desejo expandido é um dos primeiros frutos do entendimento outorgado pelo Senhor. Tão animado era o desejo do salmista, que ele buscou no m undo ani­ mal um quadro dele. Os homens restringem suas expressões; mas no m undo animal tudo é natural e, portanto, verídico e vigoroso. Daí, enchendo-se de intensa saudade, o santo Davi não se enver­ gonhava de descrevê-lo, lançando mão de um símbolo muito ex­ pressivo, natural, todavia singular. Como a corça que, ao ser caça­ da nos vaiados, e é duramente acossada e fica intensamente arquejante, assim o salmista suspira pela entrada da Palavra de Deus em sua alma. Nada mais lhe interessa. Tudo o que o m undp pode­ ria propiciar-lhe o deixa ainda mais anelante. Sua alma suspirava por Deus, pelo Deus vivo, e para que a graça caminhasse com ele no caminho da santidade. Pois tenho saudade de teus mandamentos. Ansiava conhecêlos; ansiava obedecê-los; ansiava ser conformado com seu espíri­ to; ansiava ensiná-los a outros . Ele era servo de Deus, sua industriosa mente ansiava por receber ordens; era um aprendiz na esco­ la da graça, e seu espírito ardente ansiava ser instruído pelo Se­ nhor. Oh, eu quero mais desse ardor faminto, sedento, lamentoso, suspirante! 183 •


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[v. 132] Olha para mim e sê compassivo para comigo, como costumas ser para com os que amam teu nome. Olha para mim. Uma pessoa piedosa não pode viver sem ora­ ção. Nos versículos anteriores, ele expressou seu amor à Palavra de Deus; aqui, porém, ele está uma vez mais de joelhos. Esta ora­ ção é especialmente breve, mas profundamente enérgica e solene: “Olha para mim.” Enquanto ficava com a boca aberta, respirando com dificuldade pelos mandamentos, implorava ao Senhor que olhasse para ele e permitisse que sua condição e seus suspiros inex­ primíveis o defendessem. Ele deseja ser conhecido de Deus e dia­ riamente observado por ele. Deseja também ser favorecido com o divino sorriso que se acha incluso na palavra ‘olha’. Se um olhar nosso para Deus possui em si eficácia salvífica, o que não espera­ ríamos nós de um olhar divino para nósll E sê compassivo para comigo. O olhar de Cristo para Pedro foi de compaixão, e todos os olhares do Pai celestial são igualm en­ te compassivos. Se nos olhasse com estrita justiça, não suportarí­ amos seu olhar; porém nos olhando com clemência, ele nos poupa e nos abençoa. Se Deus nos olha e nos vê suspirantes, ele não deixa de exercer sua compaixão em nosso favor. Como costumas ser para com os que amam teu nome. Olha para mim como olhas para os que te amam; tem misericórdia de mim como costumas ter dos que verdadeiramente te servem. Há uma prática e costume que Deus observa em relação aos que o amam, e Davi cria poder experimentá-los. Seu desejo é que o Se­ nhor não o trate nem melhor nem pior do que costumava tratar seus santos —pior que isso, ele não se salvaria; melhor, seria im ­ possível. Com efeito ele ora: “Eu sou teu servo; trata-m e como tratas teus servos. Eu sou teu filho; trata-m e como tratas o restan­ te de teus filhos.” Especialmente óbvio à luz do contexto, ele dese­ java um a entrada tal da Palavra, e um discernimento tão nítido dela, como Deus costumeiramente dá aos seus, segundo sua pro­ messa: “Todos teus filhos serão ensinados pelo Senhor.” Leitor, você ama o nome do Senhor? Seu caráter é nobilíssimo 184 •


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a seus olhos? amantíssimo a seu coração? Eis uma marca infalível da graça; pois nenhum a alma jamais amou o Senhor exceto como resultado do amor recebido do próprio Senhor. [v. 133] Ordena meus passos em tua palavra; e que a iniqüidade não exerça nenhum domínio sobre mim. Ordena meus passos em tua palavra. Esta é um a das costu­ meiras mercês do Senhor em favor de seus eleitos - “ele guarda os pés de seus santos”. Assim ele costuma fazer àqueles que amam seu nome. Por sua graça ele nos capacita a pôr nossos pés, passo a passo, precisamente no lugar que sua Palavra ordena. Esta oração busca um favor muito seleto, ou, seja: que um ato muito distinto, o próprio passo, seja disposto e governado pela vontade de Deus. Isso não interrompe a santidade, nem os desejos dos cristãos se­ rão satisfeitos com algo inferior à bendita consumação. E que a iniqüidade não exerça nenhum domínio sobre mim. Este é o lado negativo da bênção. Pedimos para que façamos tudo o que é certo, e não caiamos sob o poder de algo que seja errôneo. Deus é nosso soberano, e nossa segurança está em nos subm eter­ mos a seu domínio. Os cristãos não têm pecados favoritos ante os quais estariam dispostos a curvar-se. Eles suspiram pelo livramento perfeito do domínio do mal, e têm consciência de que não podem obtê-lo por suas próprias forças, por isso clamam a Deus por sua posse. Em conexão com a cláusula anterior, aprendemos que, para evitar todo e qualquer pecado, temos que observar todo dever. Somente através de uma obediência real é que podemos ser pre­ servados de ceder ao mal. Omissões conduzem a comissões. So­ mente uma vida bem ordenada pode salvar-nos da desordem e da iniqüidade. [v. 134] Livra-me da opressão do homem; e assim guardarei teus preceitos. Livra-me da opressão do homem. Davi nutria aversão por toda a amargura proveniente desse grande mal. Pois ele fora exila­ 185 •


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do de seu país e banido do santuário do Senhor. Por isso implora que seja poupado dele. Diz-se que a opressão faz de um sábio um sádico, e sem dúvida ela tem transform ado muitos justos em trans­ gressores. A opressão é inerentemente perversiva e conduz os ho­ mens ao caminho da perversidade. Poucos de nós sabemos quanto de nossa virtude se deve a nossa liberdade; se estivéssemos em conluio com os tiranos arrogantes estaríamos sob sua sujeição, e em vez de sermos testemunhas de Deus poderíamos ser neste momento apóstatas. Aquele que nos ensinou a orar: “Não nos dei­ xes cair em tentação” sancionará esta oração: “Livra-nos da opres­ são do hom em ”, pois ela contém o mesmo elemento que a prim ei­ ra. Ser oprimido é ser tentado. Senhor, conserva-nos em retidão. E assim guardarei teus preceitos. Quando o estresse oriundo da opressão se assenhoreava dele, ele prosseguia em seu caminho; e esse caminho não era outro senão o caminho do Senhor. Ainda que não devamos ceder às ameaças dos homens, todavia muitos agem precisamente assim; a esposa é, em muitos casos, compelida pela opressão de seu esposo a agir contra sua consciência; filhos e empregados, famílias e sociedades, e até mesmo nações inteiras, todos têm sido forçados a encarar a mesma dificuldade. Pecados cometidos pela intimidação serão fartamente postos à porta do opressor; e comumente é do agrado de Deus conduzir à ruína os poderes e pessoas que compelem seus semelhantes à prática do mal. O pior de tudo é que algumas pessoas, quando pressionadas a imitar seus opressores, seguem após a injustiça, de sua livre von­ tade. E assim comprovam que são pecadores por prazer. No caso dos justos, com eles sucede o que sucedeu aos antigos apóstolos: “Sendo-lhes permitido ir, foram por sua própria conveniência.” Quando os santos se vêem livres dos tiranos, deleitosamente ado­ ram seu Senhor e Rei. fv. 135]

Faz com que teu rosto resplandeça sobre teu servo, e ensina-me teus estatutos. Faz com que teu rosto resplandeça sobre teu servo. Os opres­ sores franzem o cenho; tu, porém, sorris. Eles fazem minha vida 186 •


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trevosa; tu, porém, resplandeces sobre mim, e tudo o que me cerca se torna luminoso. O salmista outra vez se declara servo de Deus; e por isso valoriza o sorriso de seu Senhor. Ele não busca favor em nenhum outro, exceto em seu próprio Senhor e Mestre. E ensina-me teus estatutos. Ele busca santa instrução como o principal emblema do am or divino. Este é o favor que ele conside­ ra como sendo o resplendor do rosto de Deus sobre ele. Se o Se­ nhor for prodigam ente gracioso, e fizer dele seu favorito, então ele não pedirá bênção mais elevada que ser instruído nos estatutos divinos. Veja como o bom homem se aferra à santidade! Em sua estima, esta é a preferida entre todas as gemas. Como costum a­ mos dizer: entre os homens, uma boa educação eqüivale a uma grande fortuna; assim como ser instruído pelo Senhor eqüivale a um dom especial da graça. O cristão mais afortunado necessita dc instrução; mesmo quando anda em meio à luz do semblante de Deus, ele tem ainda de ser instruído nos estatutos divinos, do con­ trário os transgredirá. [v. 136]

Rios de águas correm de meus olhos, porque eles não guardam tua lei. Em sua solidariedade em relação a Deus, ele pranteava ao ver a santa lei desprezada e quebrada. Pranteava movido de com pai­ xão para com os homens que estavam assim atraindo sobre si a ira ardente de Deus. Sua tristeza era tal que não conseguia impedirlhe a vazão; suas lágrimas não eram simples gotas de tristeza, eram rios de águas, torrentes de dor. ; Nesta sacra tristeza, o homem de Deus chegou a assemelharse ao Senhor Jesus, que contemplou a cidade e pranteou sobre ela; e como o próprio Jeová, que não sente prazer na m orte de quem está espiritualmente morto, mas em que o mesmo se converta e viva. A experiência deste versículo indica um grande avanço quan­ to a tudo o que já lemos neste cântico divino: o Salmo e o salmista estão ambos crescendo. Este homem é um crente m aduro, que sente tristeza por causa dos pecados de outros. Os pranteadores de Sião se encontram entre os principais dos santos. No versículo 120, sua carne tremia na presença de Deus; aqui, porém, ela pare­ 187 •


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ce derreter-se e borbotar em dilúvios de lágrimas. “Ensina-me teus estatutos” é seguido por uma expressão de profunda ternura do coração. Ninguém é tão afetado pelas coisas celestiais como aque­ les que mergulham no estudo da Palavra, e assim recebem a verda­ de e essência das coisas. Os homens carnais arreceiam da força bruta e choram as perdas e dissabores; os homens espirituais, po­ rém, sentem um santo temor pelo próprio Senhor, e lamentam profundamente quando vêem a desonra enlamear seu santo nome. *3.^— vV

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Tu és justo, ó Senhor, e retos são teus juízos. Teus testemunhos que ordenaste são justos e fidelíssimos. Meu zelo me tem consumido, por­ que meus inimigos se esqueceram de tuas palavras. Tua palavra ép u ­ ríssima; por isso teu servo a ama. Eu sou pequeno e desprezado; toda­ via não me esqueço de teus preceitos. Tua justiça é uma justiça eterna, e tua lei é a verdade. Aflição e angústia têm se apoderado de mim; todavia teus mandamentos são meu deleite. A justiça de teus testemu­ nhos é eterna; dá-me entendimento e eu viverei. Esta passagem trata da justiça perfeita de Jeová e de sua pala­ vra, e expressa as lutas de uma alma santa no que respeita a essa justiça. A letra inicial com que cada versículo começa tem um som que lembra o leitor hebreu da palavra equivalente a justiça. A notachave desta seção é justiça. Oh! pela graça, deleitemo-nos na justiça! [v. 137]

Tu és Justo, ó Senhor, e retos são teus juízos. Tu és justo, ó Senhor. O salmista não tem usado com muita freqüência o título Jeová nesta vasta composição. Todo o Salmo revela que ele era um homem profundamente religioso, plenamente familiarizado com as coisas de Deus; e tais pessoas nunca usam o santo nome de Deus displicentemente, nem ainda o usam com tanta freqüência em comparação aos prudentes e aos ímpios. Neste caso, a familiaridade gera reverência. Aqui ele usa o sacro nome em ado­ ração. Ele louva a Deus atribuindo-lhe justiça perfeita. Deus é sem­ pre reto, e ele é sempre ativamente reto, ou, seja Justo. Esta qualida­ de está arraigada em nossa própria idéia de Deus. Não podemos ima­ ginar um Deus que fosse injusto. Louvemo-lo atribuindo-lhe justiça, ainda quando seus caminhos nos forem dolorosos à carne e sangue. 189 •


Salm o 115?

E retos são teus juízos. Aqui ele enaltece a Palavra de Deus, ou os juízos registrados, como sendo retos, mesmo porque seu Autor é justo. Aquilo que promana do Deus justo é por si só tam ­ bém justo. Jeová diz e faz somente aquilo que é reto. Isso constitui uma poderosa coluna para a alma em tempo de angústia. Quando somos dolorosamente afligidos, e não conseguimos divisar razão alguma para a dispensação, então podemos retroceder-nos a este fato certíssimo de que Deus é justo e seus métodos de lidar conos­ co são igualmente justos. Nossa glória é podermos cantar esta denodada confissão, quando todas as coisas que nos cercam nos sugerem o contrário. Essa é a mais rica adoração que promana dos lábios da fé, quando a razão carnal m urm ura contra a severi­ dade aparentemente injusta. [v. 138]

Teus testemunhos que ordenaste são justos e fidelíssimos. Tudo aquilo que Deus tem testificado em sua Palavra é reto e fidedigno. Seus testemunhos são justos e dignos de nossa confi­ ança no presente; são fiéis e dignos de nossa confiança no futuro. Em cada porção dos testemunhos inspirados há uma autoridade divina; são publicados pela ordenação divina e levam em si a im ­ pressão do estilo régio que traz em seu bojo a onipotência. Não apenas os preceitos, mas também as promessas, são todos orde­ nados pelo Senhor, e assim se dá com todos os ensinos da Escri­ tura. Não é uma questão de decisão nossa, se são aceitos ou não; são emitidos por ordem real e não devem ser questionados. Sua característica consiste em que são como o Senhor que os tem pro­ clamado, são a essência da justiça e a alma da verdade. A Palavra de Deus é justa e não pode ser impugnada; é fiel e não pode ser questionada; é genuína desde o princípio e o será assim até o fim. Há uma ênfase na doce expressão - fidelíssimos. Que mercê temos no Deus que trata com aquele que é escrupulosamente fiel, fidedigno em todos os pontos e detalhes de suas promessas, pon­ tual e firme o tempo todo! De fato podemos arriscar tudo nessa palavra que é “sempre fiel e sempre infalível”. Visto que nesses versículos o salmista realça a justiça de Deus 190 •


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e de suas palavras, cabe-nos considerar o caráter divino e tudo fazer para imitá-lo. “Se vós sabeis que ele é justo, sabeis também que todo aquele que pratica a justiça é nascido dele” (ljo 2.29). [v. 1391 Meu zelo me tem consumido, porque meus inimigos têm olvidado tuas palavras. Nos dois últimos versículos Davi falou de seu Deus e de sua lei; aqui ele fala de si mesmo. Isso sem dúvida foi ocasionado por nutrir ele tão agudo senso do admirável caráter da Palavra de Deus. Seu zelo era como um fogo a arder em sua alma. Diante do fato de o homem esquecer-se de Deus, seu íntimo era como veementes labaredas de fogo a devorá-lo e a consumi-lo. Davi não podia su­ portar que os homens olvidassem as palavras de Deus. Ele estava disposto a esquecer a si próprio, sim, a consumir-se, só porque tais pessoas esqueceram-se de Deus. Os ímpios eram inimigos de Davi; eram seus inimigos porque o odiavam por sua piedade; eram seus inimigos porque ele os abominava por sua impiedade. Tais pessoas tinham ido longe demais em sua iniqüidade; não só viola­ vam e negligenciavam os m andamentos de Deus, mas também aparentavam que realmente que os ignoravam. Isso deixava Davi com um fogo na alma; sua indignação o devorava. Como ousam pisotear as coisas sacras? Como era possível que ignorassem com ­ pletamente os mandamentos do próprio Deus? Ele estava atônito e transbordante de ira santa. Não é verdade que temos quem professa ser cristão, que co­ nhece a verdade, porém vive como se a esquecera completamente? [v. 140] Tua palavra é puríssima; por isso teu s^rvo a ama. Tua palavra é puríssima. Ela é verdade destilada, santidade em sua quintessência. Na Palavra de Deus não há mescla de erro ou pecado. Ela é pura em seu significado; pura em sua linguagem; pura em seu espírito; pura em sua influência; e tudo isso no mais elevado grau e superlativo - puríssima. Por isso teu servo a ama. O que prova que ele mesmo era 191


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puro de coração; pois somente os que são puros amam a Palavra de Deus justamente por ela ser pura. Seu coração estava jungido à Palavra por causa de sua gloriosa santidade e verdade. Ele a adm i­ tia; deleitava-se nela; esforçava-se por praticá-la; e ansiava por viver sob seu poder purificador. [v. 141] Eu sou pequeno e desprezado; todavia não me esqueço de teus preceitos. Essa falta de memória que condenava em outros (v. 139) não podia ser lançada sobre ele. Seus inimigos não faziam conta dele; consideravam-no como um homem destituído de poder ou habili­ dade, e por isso olhavam-no com desdém. Ele parece aceitar a situação e humildemente ocupa um lugar inferior, porém leva con­ sigo a Palavra de Deus. Quantos têm praticado o mal com o fim de corresponder ao desprezo de seus inimigos! Para tornar-se proe­ minentes, eles falavam e agiam de uma forma imponderada! A be­ leza da piedade do salmista consistia em ser ele calmo e pondera­ do; e como não se deixava levar por lisonjas, também não era ven­ cido pelo opróbrio. Se era pequeno, ele ainda mais zelosamente atentaria para os menores deveres; e se era desprezado, então mais ardorosam ente guardaria os mandamentos de Deus, os quais eram por eles desprezados. [v. 142] Tua justiça é uma justiça eterna, e tua lei é a verdade. Tua justiça é uma justiça eterna. Tendo num versículo anteri­ or atribuído justiça a Deus, ele agora prossegue declarando que tal justiça é imutável e dura de eras em eras. Eis aqui a alegria e a glória dos santos: 0 que Deus é ele sempre será, e seu modo de proceder para com os filhos dos homens é imutável, tendo m anti­ do sua promessa e realçado sua justiça entre seu povo; ele agirá assim no m undo até o fim. Tanto a justiça quanto a injustiça dos homens têm um limite, mas a justiça de Deus é ilimitada e infindável. E tua lei é a verdade. Como Deus é amor, assim sua lei é a verdade, a própria essência da verdade; verdade aplicada à ética, verdade em ação, verdade no tribunal. Ouvimos grandes disputas 192 •


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sobre “O que é a verdade?” As Santas Escrituras são a única res­ posta a essa pergunta. Note que elas não são apenas fidedignas, mas são a própria verdade. Não podemos dizer que elas contêm a verdade, mas que são a própria verdade: “tua lei é a verdade.” Não há nada falso acerca da lei ou apenas um a parte da Escritura que seja preceptiva. Aqueles que são obedientes descobrem por esse meio que estão andando num caminho consistente com os fatos. Enquanto aqueles que agem em contrário estão percorrendo uma via ilusória. Porque a Palavra é verdade, há nela uma justiça eterna. Alterar, diminuir ou acrescentar algo é mentir contra Deus. [v. 143] Aflição e angústia têm se apoderado de mim; todavia teus manda­ mentos são meu deleite. Aflição e angústia têm se apoderado de mim. E possível que essa aflição tenha surgido de circunstâncias [pessoais], ou da cru­ eldade de seus inimigos, ou de seus próprios conflitos íntimos. O certo é que ele se encontrava dominado por profunda angústia, angústia que o envolvera e o fizera cativo de seu poder. Suas tris­ tezas, como cães ferozes, se assenhoreara dele, e ele sentia suas presas. Ele sentia uma dupla aflição: aflição por fora; ansiedade por dentro. Como o apóstolo o expressa: “enfrentei lutas por fora e temores por dentro.” Todavia teus mandamentos são meu deleite. E assim se trans­ formara numa peneira: tentava separar a aflição do deleite; a an­ gústia do prazer. O filho de Deus pode entender esse enigma, pois bem sabe ele que enquanto se vê precipitado num abismo, o qual percebe em seu próprio interior, ele se sente precipitado nas altu­ ras pelo que percebe na Palavra [de Deus], Deleita-se nos m anda­ mentos [divinos], sendo ao mesmo tempo atribulado pela visão de suas imperfeições. Ele acha luz abundante nos m andamentos, e pela influência dessa luz descobre e lamenta suas próprias trevas. Só a pessoa que se familiariza com as lutas da vida espiritual po ­ derá entender a expressão que se acha diante de nossos olhos. Que o leitor possa encontrar uma balança de precisão na qual pese 193 •


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a si próprio. Mesmo quando se vê envolto em tristezas, ainda as­ sim você se deleita na vontade do Senhor? Você encontra mais alegria em ser santificado do que em ser castigado pela tristeza? Então a marca dos filhos de Deus está impressa em você também. [v. 144] A justiça de teus testemunhos é eterna; dá-me entendimento, e eu vi­ verei. A justiça de teus testemunhos é eterna. Antes ele dissera que os testemunhos de Deus são justos; em seguida, que eles são eter­ nos; agora, que sua justiça é eterna. E assim, ao prosseguir, ele nos dá um relato mais amplo e mais detalhado da Palavra de Deus. Quanto mais ele se vê engajado em descrevê-la, mais ainda pros­ segue descrevendo-a. Quanto mais ele tenta expressar acerca do santo escrito, mais tem o que expressar e mais poderá expressar. Os testemunhos de Deus dados ao homem não podem ser dene­ gridos; eles são justos do começo ao fim. Ainda que os ímpios se oponham à justiça divina, especialmente ao plano da salvação, sem ­ pre fracassam em estabelecer alguma acusação contra o Altíssimo. Enquanto a terra durar, enquanto houver uma criatura inteligente no universo, haverá quem confesse que os planos de Deus em usar de misericórdia são em todos os aspectos maravilhosas provas de seu am or pela justiça: embora seja ele o gracioso Jeová, não pode­ rá ser injusto. Dá-me entendimento, e eu viverei. Aqui está uma oração que ele faz sem cessar: que Deus lhe desse entendimento. Aqui, ele evidentemente considera que esse dom é essencial a sua vida. Vi­ ver sem entendimento não é uma vida que mereça ser vivida, mas é estar m orto enquanto se vive. Somente quando conhecemos e discernimos as coisas de Deus é que podemos dizer que desfruta­ mos da vida. Quanto mais o Senhor nos ensina a admirar a eterna perfeição de sua Palavra, e quanto mais nos dinamiza a amar tal perfeição, mais felizes e melhores seremos. Assim, como amamos a vida e buscamos dias longos para que vejamos o bem, cabe-nos buscar a imortalidade na Palavra eterna que é viva e permanece para sempre, e buscar o bem naquela renovação de toda nossa 194 •


f~XPOSIÇÃOlá

natureza que tem como ponto de partida a iluminação do entendi­ mento que segue o curso da regeneração do hom em todo. Aqui há total dependência do Espírito Santo, o Senhor e Doador da vida, o Guia de todos quantos são vivificados, aquele que nos conduz a toda a verdade. Oh! que as visitações de sua graça ocorram neste precioso momento! Vivemos pela Palavra de Deus, no sentido em que ela nos pre­ serva dos caminhos pecaminosos que nos conduziriam à morte. Entender e imitar a justiça de Deus é o melhor preservativo contra todos nossos inimigos letais. Se o Senhor nos der entendim ento para que vivamos assim, deveras viveremos no mais elevado e su­ blime sentido, a despeito dos poderes da morte e do inferno!

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XPQ51ÇÂQ (w. 145-152) Clamei com todo meu coração: ouve, ó Senhor, e guardarei teus esta­ tutos. Clamei a ti: salva-me, e guardarei teus testemunhos. Antecipei o alvorecer do dia, e clamei; esperei em tua palavra. Meus olhos anteci­ pam as vigílias da noite para que eu possa meditar em tua palavra. Ouve minha voz segundo tua benignidade; vivifica-me, ó Senhor, se­ gundo teu juízo. Aproximam-se os que seguem após o mal; andam longe de tua lei. Tu estás perto, ó Senhor, e todos teus mandamentos são verazes. A luz de teus testemunhos tenho conhecido que desde a antigüidade tu os fundaste para sempre. Esta seção é dedicada às memórias de oração. O salmista des­ creve o tempo e o método de sua súplica, e roga que Deus o liberte de suas tribulações. Ele que tem vivido com Deus de maneira tão íntima, certamente o achará na fornalha. Se realmente clam ar­ mos, certamente seremos ouvidos. Respostas adiadas podem levar-nos a oportunidades; mas é preciso que não temamos os re­ sultados últimos, uma vez que as promessas de Deus não são in­ certas, mas estão “fundadas para sempre”. A passagem como um todo nos revela: como ele orava (v, 145); pelo quê orava (v. 146); quando orava (v. 147); quanto tempo orava (v. 148); o que pedia (v. 149); o que acontecia (v. 151); como foi salvo (v. 150); qual foi seu testemunho sobre toda a questão (v. 152). Que o Senhor abençoe nossas meditações sobre esta instrutiva passagem! [v. 145] Clamei com todo meu coração; ouve-me, ó Senhor, e guardarei teus estatutos. Clamei com todo meu coração. Sua oração era sincera, quei­ xosa, dolorosa, uma expressão natural, como que provinda de uma 196 •


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criatura que sente profunda dor. Não podemos dizer se todas as vezes ele usava sua voz quando assim clamava; mas somos infor­ mados de algo que é de maior importância - ele clamava com seu coração. Clamores do coração são a essência da oração. Ele m en­ ciona a integridade de seu coração neste santo empreendimento. Toda sua alma preiteava perante Deus; todos seus afetos, seus de­ sejos unificados, sim, tudo nele o impelia para o Deus vivo. E bom quando uma pessoa pode dizer tudo isso em suas orações. E de temer que muitos jamais clamaram a Deus com todo seu coração durante toda sua vida. Não pode haver beleza de elocução em tais orações, nenhum alcance de expressão, nenhuma profundidade doutrinai, nenhuma exatidão de dicção. Mas se a totalidade do coração estiver neles, encontrarão seu caminho rumo ao coração de Deus. Ouve-me, ó Senhor. Seu desejo diante de Jeová é que seus clamores não se percam no ar, mas que Deus atente bem para eles. Os verdadeiros suplicantes não ficam satisfeitos com o exercício em si; eles têm um fim e objetivo quando oram, e saem em sua perseguição. Se Deus não ouvisse a oração, oraríamos em vão. O termo ‘ouve’ é amiúde usado na Escritura para expressar atenção e consideração. Num sentido, Deus ouve cada som que é produzi­ do na terra, e cada desejo de cada coração. Davi, porém, tinha em mente muito mais que isso: ele desejava ter diante de si um ouvinte bondoso e solidário, tal como o médico faz com seu paciente quan­ do lhe conta sua deplorável história. Ele pediu que o Senhor esti­ vesse bem perto e o ouvisse, com ouvidos de amigo, a voz de seu queixume, com visão de piedade posta nele e o ajudasse. Observe que sua oração de todo o coração se direciona unicamente para o Senhor; ele não possui uma segunda esperança nem um segundo ajudador. “Ouve-me, ó Senhor” é a medida plena de sua petição e expectativa. E guardarei teus estatutos. Ele não poderia esperar que o Senhor o ouvisse se primeiro ele não ouvisse o Senhor; nem seria procedente se orava com todo seu coração a menos que manifes­ tasse que esforçava com toda sua força para ser obediente à von­ tade divina. Seu objetivo em buscar livramento era para que esti­ 197 •


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vesse livre para praticar sua religião; livre para cumprir cada orde­ nança da lei; livre para servir o Senhor. Note bem que uma santa resolução vai bem com uma súplica que importuna. Davi está determinado a ser santo; todo seu cora­ ção acompanha essa resolução, bem como suas orações. Ele guar­ dará os estatutos de Deus em suas meditações, em suas afeições e em suas ações. Ele não negligenciará voluntariamente, nem es­ pontaneamente violará qualquer uma das leis divinas. [v. 146] Clamei a ti: salva-me, e guardarei teus testemunhos. Clamei a ti. Novamente menciona que sua oração se direcionava exclusivamente a Deus. A sentença implica que ele orava com veemência e com muita freqüência; e que se tornara um dos m ai­ ores elementos de sua vida o costume de clamar a Deus. Salva-me. Esta era sua oração; ninguém, senão o Senhor, po­ dia salvá-lo; ao Senhor ele clamou: Salva-me dos perigos que me cercam; dos inimigos que me perseguem; das tentações que me sitiam; dos pecados que me acusam. Não multiplicava palavras, mas simplesmente clamava: “Sal­ va-me.” O ser hum ano nunca usa excesso de palavras quando se vê dominado por forte emoção. Davi não multiplica os objetivos; simplesmente solicitava que fosse salvo. O ser hum ano raram ente é prolixo quando tem em mente uma necessidade específica. E guardarei teus testemunhos. Este era seu grande objetivo ao desejar a salvação: para que fosse capacitado a prosseguir numa vida íntegra de obediência a Deus, bem como para que fosse capaz de crer no testemunho de Deus e ele mesmo fosse uma testem u­ nha de Deus. E muito importante quando os homens buscam a salvação por um fim tão elevado. Ele não pede para ser libertado com o fim de pecar impunemente; seu clamor é para que fosse libertado do próprio pecado. Comprometera-se a guardar os esta­ tutos ou leis de Deus; aqui resolve guardar os testemunhos ou doutrinas de Deus e assim ser íntegro de mente e puro de mãos. A salvação produz todas essas coisas boas em seu séquito. Davi não 198 .


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tinha idéia de uma salvação que lhe permitisse viver em pecado ou a estabelecer-se no erro. Ele bem sabia que ninguém está salvo enquanto permanece em desobediência e ignorância. [v. 147] Antecipei o alvorecer do dia, e clamei; esperei em tua palavra. Antecipei o alvorecer do dia, e clamei. Ele se ergueu antes que saísse o sol e começou suas súplicas antes que o orvalho co­ meçasse a secar-se da relva. Tudo quanto é digno de ser feito, é digno de ser feito diligentemente. Esta é a terceira vez que ele faz menção de seu clamor. Ele clamou, e clamou, e tornou a clamar. Suas súplicas se tornaram tão freqüentes, tão ferventes e tão in­ tensas, que dificilmente se poderia dizer que ele fazia algo mais além de clamar a seu Deus desde o alvorecer até o anoitecer. Tão veemente era seu desejo pela salvação, que não conseguia repou­ sar em seu leito; tão ardorosamente ele a buscava, que na primeira chance possível ele era visto debruçado em seus joelhos. Esperei em tua palavra. A esperança é um meio poderosíssi­ mo em nosso fortalecimento para a oração. Quem porventura oraria se não nutrisse esperança de que Deus o ouve? Quem não oraria quando nutre firme esperança de um bendito resultado de seus rogos? A esperança do salmista estava posta na Palavra de Deus; e essa é uma âncora segura, porque Deus é veraz, e em hipótese alguma ele recuaria de sua promessa, ou alteraria aquilo que foi emitido por seus lábios. Aquele que é diligente em orar jamais se verá destituído de esperança. Observe que, como a ave bem de manhã sai do ninho para comer insetos, assim a oração matutina é tão logo bafejada com esperança. [v. 148] Meus olhos antecipam as vigílias da noite para que possa meditar em tua palavra. Meus olhos antecipam as vigílias da noite. Antes que o vigia anunciasse a hora, ele lançava seu clamor a Deus. Ele não carecia de ser informado sobre quantas horas haviam passado; porque a cada hora seu coração voava rum o ao céu. Ele começava o dia 199 •


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com oração e continuava em oração ao longo dos labores do dia e das vigílias da noite. Os soldados costumavam perm utar a guarda; Davi, porém, não perm uta sua santa ocupação. Especialmente durante a noite ele conservava seus olhos abertos, e dele fugia o sono, para que pudesse manter comunhão com seu Deus. Sua adoração ia de uma vigília a outra, à semelhança do viajante cuja viagem é de escala a escala. Para que eu pudesse meditar em tua palavra. Isso veio a ser comida e bebida para ele. A meditação era o alimento de sua espe­ rança e o consolo em sua tristeza: o tema sobre o qual seus pensa­ mentos se debatiam era a bendita ‘Palavra’ continuamente mencio­ nada por ele e na qual seu coração tão profundamente se regozijava. Ele preferia estudar a dormitar, e aprendeu a abster-se de seu sono necessário em troca de uma devoção muito mais necessária. E ins­ trutivo encontrar meditação tão constantemente conectada com oração fervorosa. Ela é o combustível que sustenta a chama. Quão raro artigo é esse em nossos dias! Quando é que nos deparamos com alguém que gasta noites em oração? Nós mesmos temos feito isso? [v. 149] Ouve minha voz segundo tua benignidade; vivifica-me, ó Senhor, se­ gundo teu juízo. Ouve minha voz segundo tua benignidade. Os homens acham ser muito útil usar suas vozes na oração; é muito difícil m anter a intensidade da devoção, exceto quando nos ouvimos falar; daí Davi por fim quebra seu silêncio, interrompe a quietude de suas m edi­ tações e começa a clamar com sua voz e com seu coração ao Se­ nhor seu Deus. Note bem que ele não pleiteia seus próprios m ere­ cimentos, nem por um momento apela para a quitação de um dé­ bito por conta do mérito; ele toma a via da livre graça e a expressa “segundo tua benignidade”. Quando Deus ouve a oração de acor­ do com sua benignidade, ele passa por alto todas as imperfeições da oração; ele esquece a pecaminosidade de quem ora e, com amor compassivo, atende o desejo, ainda quando o suplicante seja in­ digno. A resposta imediata vem de acordo com a benignidade de Deus —sua resposta freqüente, abundante, sim, resposta que ex­ 200 •


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cede muitíssimo a tudo quanto pedimos ou mesmo pensamos. A benignidade é uma das palavras mais doces de nosso idioma. A bondade tem em si algo que é preciosíssimo; a benignidade, p o ­ rém, é duplamente amorável; é a própria nata da bondade. Vivifica-me, ó Senhor, segundo teu juízo. Esta é uma das o ra­ ções mais sábias e ardentes de Davi. Ele primeiro grita: “salvame!” Em seguida: “Ouve-me!” E agora: “Vivifica-me!” Esta é às vezes a melhor maneira de libertarmo-nos da tribulação - com vistas a dar-nos mais vida, a fim de nos escaparmos da morte; e ao acrescentar mais força a essa vida, somos capazes de desvencilhar-nos de seus fardos. Observe bem que ele solicita por vivificação de acordo com o juízo divino, ou seja, andar num caminho que seja consistente com a sabedoria e a prudência infinitas. Os m éto­ dos divinos de comunicar maior vigor a nossa vida espiritual são excessivamente sábios; ser-nos-ia provavelmente debalde tentar­ mos entendê-los; e ser-nos-á sábio nutrirmos o desejo de receber a graça, não segundo nossa noção de como ela nos viria, mas se­ gundo o método celestial e divino de no-la conceder. E prerroga­ tiva sua vivificar ou tirar a vida; e é melhor deixar esse ato sobera­ no a seu próprio e infalível critério. Porventura já não nos deu ele a graça dessa vida e a bênção de tê-la abundantem ente? Nesse dom “ele nos tem enriquecido com toda sabedoria e prudência”. [v. 150] Aproximam-se os que seguem a maldade; eles se afastam de tua lei. Aproximam-se os que seguem a maldade. Ele quase podia ouvir atrás de si o som dos passos deles. Não o estão seguindo para seu bem, mas para seu mal, e portanto o som de sua aproxi­ mação é algo terrível. Não estão perseguindo um bom objetivo, mas estão perseguindo um bom homem. Como se não bastasse a maldade que habitava o próprio coração deles, se põem à caça de algo mais. Ele os via correndo e saltando pelos montes e vales a fim de fazer-lhe dano; e ele os mencionà diante de Deus e roga ao Senhor que fixe seus olhos neles e os trate de modo que fiquem confusos. Já estavam para agarrá-lo, quase já com ele nas mãos, e por isso ele clama com mais ardor.


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Eles se afastam de tua lei. A vida de perversidade não pode ser uma vida obediente. Antes que esses homens decidissem con­ verter-se em perseguidores de Davi, eles se viram obrigados a desvencilhar-se das restrições da lei de Deus. Não podiam odiar um santo e ao mesmo tempo amar a lei. Os que guardam a lei de Deus não fazem dano a si próprios e nem tam pouco a outrem. O pecado é o maior de todos os malfeitores. Davi menciona o caráter de seus adversários em oração diante do Senhor, sentindo algum gê­ nero de conforto no fato de que os que o odiavam, odiavam tam ­ bém a Deus e violavam sua santa lei quando o buscavam com o intuito de fazer-lhe mal. Ao sabermos que nossos inimigos são igualmente inimigos de Deus, são nossos inimigos porque o são também dele, então desse fato extraímos conforto para nossos corações. [v. 1511 Tu estás perto, ó Senhor, e todos teus mandamentos são verdade. Tu estás perto, ó Senhor. Por mais perto estivesse o inimigo, Deus estava ainda mais perto: aqui está um dos confortos que os perseguidos filhos de Deus mais escolhem. O Senhor está perto para ouvir nossos clamores e para oferecer-nos imediatamente seu socorro. Ele está perto para rechaçar nossos inimigos e dar-nos descanso e paz. E todos teus mandamentos são verdade. Deus não ordena a mentira, tampouco mente em seus m andamentos. Virtude é a ver­ dade em ação, e isso é o que Deus ordena. Pecado é a falsidade em ação, e isso é o que Deus condena. Se todos os m andamentos de Deus são verdade, então o homem veraz se alegrará em m anter-se perto deles, e nisso achará o Deus veraz perto de si. Esta sentença será a proteção do homem perseguido contra os corações falsos que buscam fazer-lhe mal: Deus está perto e Deus é veraz, por isso seu povo está seguro. Se em algum tempo cairmos em perigo por guardarmos os mandamentos de Deus, não precisamos supor que temos agido estultamente; podemos, ao contrário, estar ple­ namente convictos de que estamos no caminho certo; pois os pre­ ceitos de Deus são retos e verazes, e por essa mesma razão os • 202 •


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ímpios nos assaltam. Os corações falsos odeiam a verdade, e por isso odeiam os que praticam a verdade. Sua oposição pode ser nossa consolação; enquanto a presença de Deus estiver conosco, ela é nossa glória e deleite. [v. 152] Acerca de teus testemunhos, aprendi desde a antigüidade que tu os fundas te para sempre. Davi descobriu bem cedo que Deus fundara seus testemunhos desde a antigüidade, e que eles seriam inabaláveis ao longo de to ­ das as eras. É algo muitíssimo bendito ser desde bem cedo ins­ truído por Deus para que conheçamos as doutrinas essenciais do evangelho desde nossa juventude. Os que conhecem a eterna ver­ dade em seus primeiros dias refletirá acerca desse conhecimento com prazer nos dias de sua maturidade. Os que crêem que Davi era jovem quando escreveu este Salmo descobrirão que é bem difícil conciliar este versículo com sua teo­ ria; é muito mais provável que já estivesse encanecido e que esti­ vesse fazendo uma retrospectiva sobre o que aprendera muito an ­ tes disso. Ele aprendera desde sua infância que as doutrinas da Palavra de Deus foram estabelecidas muito antes da fundação do mundo, e que elas jamais mudaram e jamais poderiam, por qual­ quer possibilidade, ser alteradas. Em seus primórdios, ele se pôs a edificar sobre a Rocha, tendo consciência de que os testemunhos divinos foram ‘fundados’, ou seja, lançados como o fundamento, postos e estabelecidos; e que foram assim estabelecidos com vistas a durarem por todas as eras futuras, em meio a todas as mudanças que viessem à existência. Foi por Davi conhecer tudo isso que ele nutria tal confiança em oração e se fez tão insistente nela. E mui doce pleitear as imutáveis promessas diante do Deus imutável. Foi em decorrência desse fato que Davi aprendeu a esperar. Uma pes­ soa não pode nutrir muita expectativa direcionada para um amigo mutável; porém pode muito bem depositar sua confiança num Deus que não pode mudar. Foi em decorrência disso que ele se deleitava em viver perto do Senhor, pois a coisa mais bendita é m anter ínti­ mo diálogo com um amigo que jamais varia. Saibam todos os que


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escolhem seguir após os calcanhares da escola moderna em busca do raiar de nova luz, que faça desaparecer a velha luz, que nós vivemos felizes com a verdade que é tão antiga como as colinas e tão fixas como as grandes montanhas. Inventem os “intelectos cultos” outro deus mais manso e mais atraente que o Deus de Abraão, porque estamos bem contentes em cultuar a feová que é eternamente o mesmo [Hb 13.8]. As coisas eternamente estabele­ cidas são a alegria dos santos estabelecidos. As ilusões agradam as crianças; os homens, porém, prezam aquelas coisas que são sóli­ das e substanciais, com um fundamento e alicerce que as façam suportar a prova das eras.


p X POSIÇÃO 20 ( w . 153-160)

Considera minha aflição e livra-me; pois não me esqueci de tua lei. Pleiteia minha causa e livra-me; vivifica-me segundo tua palavra. A salvação está longe dos perversos, porque não buscam teus estatutos. Imensuráveis, ó Senhor, são tuas ternas misericórdias; vivifica-me se­ gundo teus juízos. Muitos são meus perseguidores e meus inimigos; todavia não me desvio de teus testemunhos. Vi os transgressores, e fiquei angustiado, porque eles não guardavam tua palavra. Considera como amo teus preceitos; vivifica-me, ó Senhor; segundo tua benigni­ dade. Tua palavra é verdadeira desde o princípio; e cada um de teus justos juízos dura para sempre. Nesta seção, o salmista parece chegar ainda mais perto de Deus em oração, declarando seu problema e invocando o divino socor­ ro com muito mais ousadia e expectativa. E uma passagem de uma causa em juízo, e sua palavra-chave é ‘considera’. Com muita ousa­ dia, ele pleiteia sua íntima união com a causa do Senhor como a razão pela qual ele precisa de auxílio. O auxílio especial que ele busca é a vivificação pessoal, pela qual ele clama ao Senhor vezes e mais vezes. [v. 153]

Considera minha aflição e livra-me; porque não me esqueço de tua lei. Considera minha aflição e livra-me. O escritor tem uma boa causa, ainda que a mesma lhe seja dolorosa, e ele está pronto, aliás ansioso, a submetê-la ao divino Arbitro. Seus problemas são..justos, e ele está pronto a pô-los diante da suprema corte. Sua atitude é a de alguém que se sente seguro diante do trono. Todavia, não se vê impaciência; ele não solicita uma ação rápida, e, sim, que haja consideração. De fato ele clama: “Olha para minha tristeza e vê se • 205 •


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não há necessidade de que eu seja socorrido. Que minha dolorosa condição seja julgada pelo uso de um método próprio e justo e em tempo para que eu seja resgatado.” O salmista almeja duas coisas, e essas duas coisas combinadas: primeiro, um a plena considera­ ção de sua dor; segundo, livramento; e, então, esse livramento deve ser seguido de uma consideração de sua aflição. Seria o desejo de um homem muito agraciado e que está envolto por adversidade; e que o Senhor olharia para sua necessidade e a amenizaria de tal modo que a mesma se reverteria na glória divina e em seu próprio benefício. As palavras “minha aflição” são pitorescas; é como se fosse a própria herança do escritor; ele a possui como nenhum outro jamais teria experimentado, e roga ao Senhor que mantenha essa porção especial diante de seus olhos. Era como o lavrador que observa todo seu campo a fim de selecionar uma boa parte. Sua oração é eminentemente prática, pois ele busca o livramento, ou, seja, poder sair de seus problemas e ser poupado de enfrentar algum sério dano por isso. Pedir que Deus ‘considere’ é pedir que ele aja no tempo próprio - os homens consideram e nada fazem, mas essa jamais foi a atitude de Deus. Porque não me esqueço de tua lei. Mesmo com toda sua am ar­ gura, sua aflição não era suficiente para dissipar de sua mente a memória da lei de Deus; tampouco podia levá-lo a agir contraria­ mente ao m andam ento divino. Ele esqueceu-se da prosperidade, porém não se esqueceu da obediência. Essa é uma boa causa, quan­ do pode ser honestamente defendida. Se nos conservarmos fiéis aos preceitos de Deus, podemos estar certos de que Deus perm a­ necerá fiel a sua promessa. Se não nos esquecermos de sua lei, o Senhor não se esquecerá de nós. Ele não abandonará por muito tempo uma pessoa em sua angústia, cujo único medo é de aban­ donar o caminho da justiça. [v. 154] Pleiteia minha causa, e livra-me; vivifica-me segundo tua palavra. Pleiteia minha causa, e livra-me. Ele já havia orado no último versículo: “livra-me.” Aqui ele especifica um método no qual esse livramento se concretizasse, a saber: pela defesa de sua causa. Em • 206 •


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sua providência, o Senhor tem muitos meios de limpar o calunia­ do das acusações lançadas contra ele. Deus pode fazer manifesto a todos que ele foi caluniado, e com isso pode praticamente defen­ der sua causa. Além do mais, ele pode levantar amigos em defesa do piedoso que não deixará pedra sobre pedra até que seu caráter esteja limpo. Ou pode ferir seus inimigos com tal tem or de cora­ ção que se esforçarão por confessar sua falsidade, e assim o justo será poupado, sem sequer arremessar uma única flecha. O Dr. Alexander o lê assim: “Luta minha luta, e redime-me” — ou seja, põe-te em meu lugar, carrega meu fardo, luta minha luta, quita minha dívida e conduz-m e à liberdade. Quando nos sentimos em u­ decidos diante de nossos inimigos, aqui está uma oração a nosso alcance. Que conforto sabermos que, se pecarmos, temos um ad­ vogado; e que, se não pecarmos, o mesmo defensor estará em pe­ nhado e bem a nosso lado! Vivifica-me. Tivemos esta oração na última seção, e a teremos mais de uma vez nesta. E um desejo que não pode ser sentido e expresso com demasiada freqüência. Visto ser a alma o centro de tudo, assim a vivificação é a bênção central. Mais vida significa mais amor, mais graça, mais fé, mais coragem, mais força; e se tomarmos posse desses elementos, manteremos nossas cabeças erguidas diante de nossos adversários. Unicamente Deus pode darnos essa vivificação; mas para o Senhor e Doador da vida a obra é bastante fácil, e ele se deleita em realizá-la. Segundo tua palavra. Davi descobrira a bênção da vivificação entre as coisas prometidas, ou, pelo menos, percebeu que ela estava em harm onia com o teor geral da Palavra de Deus de que os cren­ tes provados seriam vivificados e soerguidos novamente do pó da terra; portanto ele apela para a Palavra e deseja que o Senhor aja nele em consonância com o teor usual dessa palavra. E uma pro­ messa implícita, se não explícita, que o Senhor vivificará a seu povo. Que poderoso pleito é este: “segundo tua palavra”! N enhu­ ma arma, em todos nossos arsenais, poderia rivalizar-se com ela. [v. 155]

A salvação está longe dos perversos, porque eles não buscam teus estatutos. 207 •


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A salvação está longe dos perversos. Por sua perseverança no mal, eles quase foram totalmente excluídos do cenário da esperan­ ça. Falam em ser salvos, porém não podem conhecer nada da sal­ vação, ou não permaneceriam na perversidade. Cada passo que dão na vereda do mal, mais se afastam do reino da graça. Vão de um a outro grau de dureza, até que seus corações se convertem em pedras. Quando caem em tribulação, isso se lhes torna uma condição irremediável. Todavia falam grandeza, como se não ca­ recessem de qualquer salvação, ou pudessem salvar a si próprios, sempre que sua fantasia os volvia para esse caminho. Têm andado tanto tempo longe da salvação que nem sequer sabem o que ela significa. Porque não buscam teus estatutos. Não envidam esforço al­ gum no caminho da obediência; o reverso é que é verdadeiro. Bus­ cam agradar a si próprios; buscam o mal; por isso nunca se depa­ ram com o caminho da paz e da justiça. Quando os homens quebrantam os estatutos do Senhor, seu curso mais sábio é rum o ao perdão, via arrependimento; rumo à salvação, via fé. Então a sal­ vação se põe perto deles, tão perto que não podem deixar de vê-la. Mas quando os perversos persistem em ir após o malefício, a sal­ vação se põe mais e mais longe deles. A salvação e os estatutos de Deus seguem sempre juntos: os que são salvos pelo Rei da graça, passam a amar os estatutos do Rei da glória. A razão primordial por que os homens não são salvos é que fogem da Palavra de Deus. [v. 156]

Imensuráveis, ó Senhor, são tuas temas misericórdias; vivifica-me se­ gundo teus juízos. Este versículo é muitíssimo semelhante ao 149, e no entanto ele não é uma vã repetição. Há uma tal diferença na idéia princi­ pal, que um versículo destaca a distinção do outro. No primeiro caso, ele menciona sua oração, porém deixa à sabedoria e ao juízo de Deus o método de sua concretização. Enquanto aqui ele não apresenta nenhuma oração propriamente dita, mas simplesmente as misericórdias do Senhor, e roga que seja vivificado pelos juízos, em vez de entregar-se à letargia espiritual. Podemos tomar como • 208 •


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axiomático o fato de que um autor inspirado nunca seja tão sucin­ to em seus pensamentos que se veja obrigado a repeti-los. E se porventura concluirmos que temos neste Salmo uma repetição da mesma idéia, somos ludibriados por nossa negligência de um es­ tudo mais criterioso. Cada versículo é uma pérola distinta. Cada folha de grama neste campo tem sua própria gota do orvalho celestial. Imensuráveis, ó Senhor, são tuas ternas misericórdias. Aqui o salmista apela para a imensurabilidade da misericórdia de Deus, a imensidão de seu terno amor; aliás, ele fala de misericórdias muitas misericórdias, ternas misericórdias, grandes misericórdi­ as. E diante do glorioso Jeová ele faz disto um apelo em prol de sua oração principal, a oração por vivificação. A vivificação pro­ vém da imensurável e terna misericórdia; e são muitas m isericór­ dias numa só. Aquele que é tão incomensuravelmente bom perm i­ tirá que seu servo m orra? Não injetará nele seu terno fôlego de nova vida? Vivifica-me segundo teus juízos. Uma medida de alento vem com os juízos divinos; eles são alarmantes e excitantes; por isso o crente recebe vivificação por meio deles. A primeira cláusula deste versículo pode ser assim traduzida: “M uitas” ou “Multiformes, ó Jeová, são tuas compaixões.” Ele se lembra disso em conexão com “muitos perseguidores”, de quem fala no versículo seguinte. M e­ diante todas essas muitas miseriçórdias ele espera a graça do avivamento, e assim ele tem muitas cordas para seu arco. Nunca se­ remos carentes de argumentos se os extrairmos de Deus mesmo e se insistirmos com ele que nos conceda misericórdias e juízos como as razões de nossa vivificação. [v. 157]

Muitos são meus perseguidores e meus inimigos; todavia não me des­ vio de teus testemunhos. Muitos são meus perseguidores e meus inimigos. Os que realmente me assaltam, ou que secretamente nutrem aversão por mim, são em grande número. Ele confronta isso com as muitas e ternas misericórdias de Deus. Soa estranho que um homem tão


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profundam ente piedoso como Davi tivesse tantos inimigos; po­ rém tal coisa era inevitável. O discípulo não pode ser amado onde seu Mestre é odiado. A semente da serpente se opõe à semente da mulher —faz parte de sua natureza. Todavia não me desvio de teus testemunhos. Ele não se des­ viava da verdade de Deus, mas prosseguia na reta vereda por mais numerosos fossem seus adversários e por mais que tentassem pôr pedras em seu caminho. Algumas pessoas têm sido desviadas por um só inimigo; aqui, porém, está um santo que se mantinha em seu caminho entre os dentes de muitos perseguidores. Há muito nos testemunhos de Deus que compensa nosso avanço contra to ­ das as hostes que porventura tramem contra nós. Enquanto não puderem conduzir-nos nem atrair-nos ao declínio espiritual, nos­ sos inimigos não nos farão grande dano; aliás, com sua malícia nada conseguem concretizar. Se não cedermos, não poderemos ser derrotados. Se não conseguem levar-nos a pecar, terão perdi­ do sua força. A fidelidade à verdade promove vitória sobre nossos inimigos. [v. 158] Vi os transgressores, e fiquei aflito, porque não guardaram tua palavra. Vi os transgressores. Vi os traidores; entendi seu caráter, seu objetivo, seu caminho e seu fim. Não pude impedir-me de vê-los, porque se impeliram em meu caminho. Visto que fui obrigado a vê-los, fixei neles meus olhos para aprender deles o que eu pudesse. E fiquei aflito. Fiquei magoado em ver esses pecadores. Ao vê-los, fiquei doente e desgostoso; não pude suportá-los. Não tive neles nenhum prazer; foram para mim uma dolorosa visão, por mais fino seja seu vestuário ou mais chistoso seu palavrório. M es­ mo quando uma visão deles fosse muito jubilosa, ela fez meu cora­ ção pesado; não consegui tolerar nem a eles próprios nem a seus feitos. Porque não guardaram tua palavra. Minha tristeza foi ocasi­ onada mais pelo pecado deles contra Deus do que por sua inimi­ zade contra mim. O que não pude suportar, ó Senhor, não foi o modo como trataram minhas palavras, mas o fato de negligencia­ • 210 •


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rem tua Palavra. Tua Palavra me é tão preciosa, que quem não a guarda provoca minha indignação. Não posso conservar a com ­ panhia daqueles que não conservam a Palavra de Deus. O fato de não me amarem não tem a menor importância; desprezar, porém, a doutrina do Senhor me é uma abominação. [v. 159] Considera como amo teus preceitos; vivifica-me, ó Senhor, segundo tua benignidade. Considera, ou atenta, como amo teus preceitos. É a segunda vez que ele roga por consideração. Como ele disse antes: “Consi­ dera minha aflição”, assim ele agora diz: “Considera minha afei­ ção.” Ele amava os preceitos de Deus - amava-os inexprimivel­ mente —, amava-os ao ponto de sentir-se trucidado ante a visão daqueles que não os amavam. Eis um teste infalível: muitos há que sentem profunda paixão pelas promessas, porém não conseguem suportar os preceitos. O salmista, ao contrário, amava tudo quan­ to era bom e excelente; ele amava tudo quanto Deus ordenara. Os preceitos são todos eles sábios e santos, por isso o homem de Deus os amava de forma extremada: amava conhecê-los, pensava neles, proclamava-os e, principalmente, praticava-os. Ele pediu que o Senhor se lembrasse desse fato e o considerasse, não com base em seus méritos pessoais, mas para que servisse como resposta às acusações caluniosas que naquela época lhe constituíam como que um espinho em sua ferida. Vivifica-me, ó Senhor, segundo tua benignidade. Aqui ele retrocede a sua oração anterior: “Vivifica-me” (v. 154), “vivificam e” (v. 156), “vivifica-me”, aqui. Ele ora novamente pela terceira vez, usando as mesmas palavras. Não há mal algum em usar repe­ tições; o que é proibido é o uso de vãs repetições, como fazem os pagãos. Davi se sentia como alguém meio atordoado com os assaltos de seus inimigos, quase a desfalecer sob sua incessante malícia. Daí clamar: “Vivifica-me.” O que lhe faltava era avivamento, res­ tauração, renovação; portanto ele implorava por mais vida. O tu que me vivificaste quando eu estava morto, vivifica-me novamente •211-


Salm o

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agora para que eu não volte para o m undo dos mortos! Vivificame para que eu possa sobreviver aos golpes de meus inimigos, à debilidade de minha fé e ao desfalecimento procedente de minha tristeza. Desta vez ele não diz: “Vivifica-me segundo teus juízos”, mas: “Vivifica-me, ó Senhor, segundo tua benignidade.” No amor e mercê de Deus ele deposita sua máxima e final confiança. Eis a grande arm a que ele saca para debilitar o conflito; é seu último argumento. Se não fosse bem sucedido, ele desfaleceria. Ele estivera por muito tempo batendo ante o portão da misericórdia; e com esta súplica ele desfere seu mais pesado golpe. Ao cair em grande pecado, esta fora sua súplica: “Tem misericórdia de mim, ó Deus, segundo tua benignidade”; e agora que está em grande tribulação, ele dá asas ao mesmo raciocínio eficaz. Visto Deus ser amor, ele nos dará vida; visto ser bondade, ele acenderá novam en­ te a chama celestial dentro de nós. [v. 160] Tua palavra é verdadeira desde o princípio; e cada um de seus justos juízos dura para sempre. O dolente cantor termina esta seção da mesma forma que a última: realçando a infalibilidade da verdade de Deus. E aconse­ lhável que o leitor note bem a semelhança entre os versículos 144, 152 e este. Tua palavra é verdadeira. Seja o que for que os transgresso­ res digam, Deus é verdadeiro e verdadeira sua Palavra. Os ímpios são falsos, porém a Palavra de Deus é veraz. Eles nos acusam de sermos falsos, porém nosso consolo está no fato de que a Palavra de Deus nos purificará. Desde o princípio. A Palavra de Deus tem sido verdadeira desde o primeiro momento em que ela foi verbalizada; verdadeira ao longo de toda a história; verdadeira para nós desde o instante em que cremos nela. Aliás, ela nos é verdadeira antes que fôssemos verda­ deiros para ela. Alguns lêem: “Tua palavra é verdadeira desde a cabeça”: verdadeira como um todo, verdadeira de alto a baixo. A experiência ensinara a Davi esta lição; e a experiência nos está ensinando a mesma coisa. As Escrituras são tão verdadeiras em • 212 •


XPOS1ÇAO 20

Gênesis como em Apocalipse; e os cinco livros de Moisés são tão inspirados como os quatro Evangelhos. E cada um de teus justos juízos dura para sempre. Aqui o que decidiste permanece irreversível em cada caso. Contra as de­ cisões do Senhor não se pode dem andar nenhum escrito de erro, nem jamais haverá rescisão de nenhum dos atos de sua soberania. Não existe um único equívoco, seja na Palavra de Deus, seja nas atividades providenciais de Deus. Nem no Livro da Revelação nem da Providência haverá qualquer necessidade de apor uma única linha de errata. Não existe no Senhor nenhum arrependim ento nem retratação; nenhum a emenda nem reversão. Todos os juízos de Deus, seus decretos, seus m andamentos e seus propósitos são justos; e visto que são justos, duram para sempre; cada um deles sobreviverá às próprias estrelas. “Enquanto existirem céus e terra, de forma alguma desaparecerá da Lei a m enor letra ou o m enor traço, até que tudo se cum pra” (Mt 5.18). A justiça de Deus dura para sempre. Eis aqui um glorioso pensamento. Todavia existe um muito mais doce, o qual outrora era o cântico dos sacerdotes no templo, e que o mesmo seja também o nosso: “Sua misericórdia dura para sempre.”

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^ XPQ5IÇÃQ 21 (w . 161-168)

Príncipes me perseguiram sem causa; meu coração, porém, nutre te­ mor por tua palavra. Regozijo-me em tua palavra, como alguém que acha um grande despojo. Odeio e aborreço a mentira; amo, porém, tua lei. Sete vezes ao dia eu te louvo por causa de teus justos juízos. Grande paz desfrutam aqueles que amam tua lei; e nada os ofenderá. Tenho esperado, ó Senhor, em tua salvação, e tenho cumprido teus mandamentos. Minha alma tem guardado teus testemunhos; e os amo extremamente. Tenho guardado teus preceitos e teus testemunhos, por­ que todos meus caminhos estão diante de ti. Estamos caminhando para o final. O pulso do Salmo bate com mais rapidez do que o costumeiro; as sentenças são mais curtas; o sentido, mais vivido; os acordes, mais cheios e profundos. O vete­ rano de mil batalhas, o recipiente de dez mil misericórdias, enu­ mera suas experiências e uma vez mais declara sua lealdade ao Senhor e sua lei. Oh! que ao chegarmos ao final da vida terrena sejamos capazes de falar como Davi falou ao encerrar sua vida ao som de salmos! Não vangloriosamente, porém ousadamente, ele se põe entre os servos obedientes do Senhor. Oh! que bom que a consciência continue luminosa quando o sol da vida se põe! [v. 161]

Príncipes me têm perseguido sem causa; meu coração, porém, nutre temor por tua palavra. Príncipes me têm perseguido sem causa. Essas pessoas deve­ riam ter melhor conhecimento; deveriam sentir-se solidárias para com alguém de sua própria estirpe. Um hom em espera um julga­ mento justo por parte de seus iguais. E ignóbil alguém sentir-se prejudicado; pior ainda é que pessoas nobres ajam assim. Se a 214 •


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honra for banida do coração de todos os demais, ela deve perm a­ necer na vida dos reis; e, por certo, a honra proíbe a perseguição ao inocente. Os príncipes são designados para a proteção dos vir­ tuosos e a vingança em prol dos oprimidos; e a ignomínia triunfa quando se convertem nos próprios assaltantes dos justos. Quão doloroso era que este homem se sentisse acossado pelos juizes da terra, pois sua eminente posição adicionava opressão e veneno a sua inimizade. Era indispensável que o sofredor pudesse verazmente asseverar que tal perseguição era “sem causa”. Ele não h a­ via transgredido as leis deles, não os havia injuriado, não desejara vê-los injuriados, não havia sido advogado de rebeldes ou anar­ quistas, nem havia pública nem secretamente feito oposição ao poder deles e, portanto, enquanto isso tornava sua opressão ainda mais inescusável, removia uma parte de sua picada e ajudava o bravo servo de Deus a suportar suas opressões. Meu coração, porém, nutre temor por tua palavra. Ele pode­ ria ter-se deixado vencer pela admiração dos príncipes, não ocor­ resse que um temor maior afastasse o menor, e não fora vencido pela adm iração que nutria pela Palavra de Deus. Quão poucas são as coroas e os cetros no julgamento daquele homem que percebe uma realeza mais majestosa nos mandamentos de seu Deus! Pro­ vavelmente nãd nos sentiremos desencorajados pela perseguição, nem levados por ela a pecar, se a Palavra de Deus exercer em nos­ sas mentes o supremo poder. [v. 162] Regozijo-me em tua palavra como alguém que acha um grande despojo. Sua estupefação não destruía sua alegria; seu tem or de Deus não era do tipo que o am or perfeito lança fora, mas de um tipo que é nutrido pelo amor. Ele tremia da Palavra do Senhor e toda­ via se regozijava nela. Ele com para sua alegria com a de alguém que esteve por muito tem po no campo de batalha e que por fim conquista a vitória e divide o despojo. Com um ente isso faz parte da porção dos príncipes; e ainda que Davi se visse separado de outras m onarquias em virtude de ser perseguido por elas, toda­ via ele lograra suas próprias vitórias, as quais eles não entendi­


Salm o 115?

am, e tesouros dos quais não podiam partilhar. Ele podia dizer: "Sem causa sou odiado e caçado por príncipes; Todavia pus tua Palavra em meu coração. Essa Palavra eu temo; essa Palavra eu retenho, Ela me é mais preciosa Que montões de ouro apossados."

“O despojo de Davi” eqüivalia muito mais que os ganhos de todos os homens poderosos. Sua presa de guerra, apossada por sua enérgica polêmica em prol da verdade de Deus era maior que todos os troféus que ele poderia ter ganho na guerra. A graça se­ para maior despojo do que o provindo da espada ou do arco. Nos dias maus temos que lutar arduam ente em defesa da ver­ dade divina: cada doutrina nos custa uma batalha. Mas quando ganhamos uma plena compreensão da verdade eterna através de lutas pessoais, cia se nos torna duplamente preciosa. Se tivermos inusitadamente que batalhar pela Palavra de Deus, que tenhamos por nosso despojo a inapreciável Palavra de Deus! Talvez a passagem signifique que o salmista se alegrava como alguém que toma posse de um tesouro escondido pelo qual não havia lutado, em cujo caso encontramos a analogia no homem de Deus que, enquanto lê a Bíblia, faz grandes e abençoadas desco­ bertas da graça de Deus a ele oferecida - descobertas que o su r­ preendem, pois ele parecia não encontrar para elas qualquer pre­ ço. Se nos aproximarmos da verdade como descobridores ou como guerreiros a lutar por ela, o tesouro celestial ser-nos-ia igualmente precioso. Com que imensa alegria o lavrador volta para casa com o ouro que achou! É como os vitoriosos que gritam quando repar­ tem o despojo! Quão feliz deve ser aquele que descobre sua por­ ção nas promessas da Santa Escritura e se vê no desfruto daquela porção que lhe pertence, sabendo pelo testemunho do Espírito Santo que ela é totalmente sua! [v. 163] Eu odeio e aborreço a mentira; amo, porém, tua lei. Eu odeio e aborreço a mentira. Uma dupla expressão para uma inexprimível aversão. Falsidade na doutrina, na vida ou na 216 •


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linguagem, falsidade em qualquer forma ou aspecto, se tornara totalmente detestável ao salmista. Essa era uma notável afirmação para um oriental fazer; pois, geralmente, mentir constitui o deleite dos orientais, pois o único erro que vêem nesse ato é quando per­ cebem que sua habilidade falhou, de modo que a m entira é desco­ berta. Davi mesmo fizera muito progresso ao chegar a esse ponto, pois ele também, em seus dias, havia praticado a astúcia. Entre­ tanto, ele não só se referia à falsidade na conversação, mas eviden­ temente sua intenção é a perversidade na fé e na doutrina. Ele atribui à m entira toda e qualquer oposição ao Deus da verdade, e então volve toda sua alma contra ela com a mais intensa forma de indignação. Os homens piedosos devem detestar a falsa doutrina mesma, porque abominam qualquer outra mentira. Amo, porém, tua lei. Não meramente se dedicava a ela, mas sentia profundo prazer nela. Obediência mal-hum orada eqüivale essencialmente a rebelião. Somente um amor cordial assegurará lealdade sincera à lei. Davi amava a lei de Deus, porque ela é ini­ miga da falsidade e a guardiã da verdade. Seu amor era tão arden­ te como seu ódio. Ele amava intensamente a Palavra de Deus, a qual é inerentemente a pura verdade. Os homens verdadeiros amam a verdade e odeiam a mentira. E é bom que saibamos que os cam i­ nhos de nosso ódio e de nosso amor correm paralelos. E podemos prestar serviço essencial a outros, declarando quais os objetos de nossa admiração e de nossa aversão. Ambos, o amor e o ódio, são contagiosos, e quando são santificados, quanto maior a extensão de sua influência, melhor. [v. 164] Sete vezes ao dia eu te louvo por causa de teus justos juízos. Ele labutava com integridade para louvar seu Deus íntegro, e portanto cumpria o número perfeito de cânticos: o núm ero sete. Ele atingia um Sábado em seu louvor; e antes de repousar em seu leito, ele achava doce descanso na alegre adoração a Jeová. Sete também poderia ter a notável intenção de freqüência. Freqüente­ mente ele alçava seu coração em ação de graças a Deus por sua divina doutrina na Palavra e por suas divinas ações na Providên­ • 217 •


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cia. Ele exaltava com sua voz a justiça do Juiz de toda a terra. Enquanto ele meditava nos caminhos de Deus, um cântico brota­ va de seus lábios. A vista dos príncipes opressores, e ao ouvir da proliferação da falsidade a circundá-lo, ele sentia ainda mais forte vontade de adorar e magnificar a Deus, o qual em todas as coisas é verdade e justiça. Quando alguém nos calunia, ou de alguma forma nos rouba o justo prêmio do louvor, isso deve constituirnos motivo para não cairmos na mesma conduta em relação a Deus, o qual é muitíssimo mais digno de honra. Se louvarmos a Deus quando formos perseguidos, nossa música lhe será muitíssimo mais doce por causa de nossa constância em meio ao sofrimento. Se nos mantivermos isentos de toda mentira, nosso canto será ainda mais aceitável, visto que o mesmo emana de lábios honestos. Se nunca bajularmos os homens, estaremos em melhor condição de honrar ao Senhor. Porventura louvamos a Deus sete vezes ao dia? Aliás, a pergunta precisa ser alterada: louvamo-lo pelo menos uma vez em sete dias? O fraude deprimente, que priva o eternamente Bendito da música desta esfera inferior! A preeminente santidade das leis e dos atos de Jeová deveria produzir em nós louvor contínuo. Felizes os santos que se deixam governar por um justo Soberano que jamais erra! Cada am ante da justiça dirá em seu coração: "Justas são tuas leis; eu diariamente te apresento o sétuplo tributo de meu louvor.” [v. 165]

Grande paz desfrutam aqueles que amam tua lei; e nada os ofenderá. Grande paz desfrutam aqueles que amam tua lei. Que extra­ ordinário versículo é este! Ele não trata daqueles que guardam perfeitamente a lei - pois onde acharíamos tais pessoas? -, mas daqueles que a amam, cujos corações e mãos são feitos para ajus­ tar-se a seus preceitos e mandamentos. Tais pessoas estão sempre se esforçando, de todo seu coração, para andar em obediência à lei; e ainda que seja com freqüência perseguidas, todavia desfru­ tam de paz, sim, de grande paz; pois aprenderam o segredo do sangue que traz reconciliação, já experimentaram o poder do E s­ - 218-


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pírito Consolador e já se puseram perante o Pai como pessoas aceitáveis. O Senhor lhes concedeu sentir sua paz, a qual vai m ui­ to além de toda compreensão. Enfrentam muitos problemas e pro­ vavelmente serão perseguidos pelos soberbos; porém sua condi­ ção costumeira é a de profunda calma - um a paz profunda demais para que “essas doces afeições” sejam desfeitas. E nada os ofenderá; ou, “nada realmente os prejudicará”. “To­ das as coisas cooperam juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo seu decreto.” Faz-se necessário que venham as ofensas; mas esses amantes da lei são pacificadores, e por isso não ofendem nem são ofendidos. Essa paz que se acha fundam entada na conformidade com a vontade de Deus é viva e perene, digna de ser escrita com entusiasmo, como aqui faz o salmista. [v. 166]

Senhor, tenho esperado em tua salvação, e tenho cumprido teus man­ damentos. Aqui temos a salvação pela graça e os frutos provenientes dela. Toda a esperança de Davi estava posta em Deus, e buscava a sal­ vação tão-som ente nele; e então se esforçava mais energicamente ainda por cum prir os m andamentos de sua lei. Os que depositam a mínima confiança nas boas obras humanas são com muita fre­ qüência os que mais as exibem. Esta mesma doutrina divina que nos livra da confiança em nossos próprios feitos nos leva a uma rica produção de boas obras para a glória de Deus. Em vez de angústia, há duas coisas a serem feitas: primeiro, esperar em Deus; segundo, fazer aquilo que é correto. A primeira sem a segunda seria mera presunção; a segunda sem a primeira seria mero for­ malismo. E bom que olhemos para trás para vermos se podemos alegar que agimos da forma ordenada pelo Senhor. Se porventura agimos corretamente para com Deus, então estamos certos de que agiremos com indulgência para conosco. [v. 167]

Minha alma tem guardado teus testemunhos; e eu os amo excessiva­ mente. • 219-


Salm o 115*

Minha alma tem guardado teus testemunhos. M inha vida externa tem guardado teus preceitos; e minha vida íntima, minha alma, tem guardado teus testemunhos. Deus tem testificado de muitas verdades sacras, e estas mantemos firmes com todo nosso coração e alma, pois as valorizamos como a própria vida. O ho­ mem agraciado entesoura a verdade de Deus em seu coração como um tesouro excessivamente querido e precioso - ele o guarda. Sua alma secreta, seu Eu mais íntimo, vem a ser o guardião desses ensinamentos divinos que são sua única autoridade nas questões da alma. Para ele, torna-se um grande regozijo em sua velhice po­ der dizer: “M inha alma tem guardado teus testem unhos.” E eu os amo excessivamente. Essa foi a razão por que os guar­ dava; e, tendo-os guardado, esse foi o resultado de os haver guar­ dado. Ele não entesourou a verdade revelada meramente à guisa de dever, mas em virtude da profunda e inexprimível afeição por ela. Ele sentia que, assim que morresse, poderia vir a renunciar parte da revelação de Deus. Quanto mais nossas mentes entesourem a verdade celestial, mais profundamente a amaremos; quanto mais percebemos as excessivas riquezas da Bíblia, mais nosso amor excederá em medida e excederá em expressão. [v. 168] Tenho guardado teus preceitos e teus testemunhos; porque todos meus caminhos estão diante de ti. Tenho guardado teus preceitos e teus testemunhos. Ele ente­ sourou ambas as partes da Palavra de Deus: a prática e a doutrinai, e as preservava e as seguia. E algo bendito ver as duas formas da Pala­ vra divina igualmente conhecidas, igualmente valorizadas, igualmen­ te confessadas. Conhecemos aqueles que se esforçam por ser cuida­ dosos no tocante aos preceitos, mas que parecem concluir que as doutrinas do evangelho são meras questões de opinião, e que podem adaptá-las para si mesmos. Esta não vem a ser uma condição perfeita das coisas. Temos conhecimento de outros que são por demais rígi­ dos quanto a doutrinas, e dolorosamente relaxados em referência aos preceitos. Isso também está longe de ser correto. Quando ambos são ‘guardados’ com igual solicitude, então temos o homem perfeito. • 220 •


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Porque todos meus caminhos estão diante de ti. Provavel­ mente, sua intenção era dizer que esse era o motivo de sua diligên­ cia em viver com retidão na cabeça e no coração, porque sabia que Deus o via e temia errar impulsionado pelo senso da divina pre­ sença. Ou, ainda, ele está assim apelando a Deus a que testificasse acerca da veracidade do que ele dizia. Em ambos os casos, não é uma pequena consolação sentir que nosso Pai celestial sabe tudo sobre nós, e que se os príncipes falam contra nós, e as pessoas m undanas enchem suas bocas com mentiras cruéis, todavia ele pode defender-nos, porquanto não há nada secreto para ele e nada que possa ocultar-se dele. Ficamos chocados com o contraste entre este versículo, que é o último de sua oitava, e o versículo 176, que é semelhantemente colocado na próxima oitava. Este é um protesto de inocência: “Te­ nho guardado teus preceitos”, e a confissão de pecado: “Tenho me desviado como um a ovelha perdida.” Ambos eram sinceros; am ­ bos, acurados. A experiência torna um paradoxo muito claro; e este é um deles. Diante de Deus podemos ser purificados de uma falta pública, e no entanto, ao mesmo tempo, estar de luto m ilha­ res de corações oscilantes que necessitam de sua mão restauradora.


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( w . 169-176)

Que meu clamor, ó Senhor, chegue diante de ti; dá-me entendimento segundo tua palavra. Que minha súplica chegue diante de ti; livra-me segundo tua palavra. Meus lábios proclamarão louvores, quando me tiveres ensinado teus estatutos. Minha língua falará de tua palavra; porque todos teus mandamentos são justiça. Que tua mão me socorra; porque tenho escolhido teus preceitos. Tenho suspirado, ó Senhor, por tua salvação; e tua lei é meu deleite. Que minha alma viva, e ela te louvará; e que teus juízos me ajudem. Tenho me desviado como uma ovelha perdida; busca teu servo, porque não me esqueço de teus man­ damentos. O salmista está agora na última seção do Salmo, e suas peti­ ções ganham ainda mais vigor e mais fervor; é como se tivesse rompido o círculo íntimo da comunhão divina e se precipitado aos pés do grande Deus cujo auxílio se põe a implorar. Essa proximi­ dade gera a mais abjeta visão de si próprio e o leva a concluir o Salmo, prostrando-se no pó, na mais profunda humilhação pesso­ al, rogando que fosse buscado, à semelhança de uma ovelha perdida. [v. 169]

Que meu clamor, ó Senhor, chegue diante de ti; dá-me compreensão segundo tua palavra. Que meu clamor, ó Senhor, chegue diante de ti. Ele está tre­ mendamente temeroso de não ser ouvido. Está cônscio de que sua oração em nada é melhor que o ‘clamor’ de um pobre filho, ou o gemido de um animal ferido. Ele teme não fazer-se ouvir pelo Al­ tíssimo; porém com muita ousadia ora para que possa chegar-se diante de Deus, para que seja por ele ouvido, estar sob sua obser­ vação e contemplado por sua aceitação. Aliás, ele avança mais e • 222 •


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implora: “Que meu clamor, ó Senhor, chegue diante de ti.” Ele deseja que a atenção do Senhor, para sua oração, seja muito ínti­ ma e considerada. Ele usa uma figura de linguagem e personifica sua oração. Podemos descrever sua oração como Ester, aventu­ rando-se a entrar na presença real, introduzindo-se num a audiên­ cia e rogando por mercê aos olhos do bendito e único Potentado. E algo muitíssimo agradável para um suplicante saber que há ga­ rantia de sua oração ser ouvida, quando tiver pisado o m ar de vidro diante do trono e tiver ainda chegado ao escabelo do glorio­ so trono em torno do qual o céu e terra adoram. E a Jeová que esta oração é pronunciada com tremente ardor - nossos tradutores, cheios de santa reverência, grafam a palavra toda maiúscula: O SENHOR. Não clamamos a nenhum outro, porque não confia­ mos em nenhum outro. Dá compreensão segundo tua palavra. Esta é a oração acerca da qual o salmista está tão extremamente ansioso. Com todas suas conquistas ele poderia obter compreensão, e com todas suas per­ das ele está resolvido a não perder este inapreciável privilégio. Ele deseja luz e entendimento espirituais, como estão prometidos na Palavra de Deus, como procedem da Palavra de Deus e como pro­ duzem obediência à Palavra de Deus. Ele suplica como se não pos­ suísse entendimento algum e solicita que algo dele lhe fosse dado. “Dá-m e compreensão.” Aliás, ele tinha aquela compreensão ou entendimento segundo o critério humano; porém, o que ele bus­ cava era uma compreensão proveniente da Palavra de Deus, que é algo completamente distinto. Compreender as coisas espirituais é dom de Deus. Ter um discernimento iluminado pela luz celestial e conformado com a verdade divina é um privilégio que somente a graça pode conferir. Muito daquilo que leva uma pessoa a ser con­ siderada sábia de acordo com o critério deste m undo não passa de estultícia, à luz da Palavra do Senhor. Estejamos, pois, entre os filhos ditosos, os quais serão todos ensinados pelo Senhor! [v. 170]

Que minha súplica chegue diante de ti; livra-me segundo tua palavra. Que minha súplica chegue diante de ti. É o mesmo pedido • 223 •


Salm o

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com uma leve m udança de termos. Ele humildemente denom ina seu clamor de súplica, uma espécie de petição do indigente; e novamente suplica que seja ouvido e atendido. Poderia haver obs­ táculos entre ele e Aquele a quem dirigia sua oração, e então roga que fossem removidos: “Que minha súplica chegue.” Outros cren­ tes são ouvidos pelo Grande Senhor, pessoalmente - que minha oração chegue diante de ti; que eu também seja ouvido por meu Deus. Livra-me segundo tua palavra. Desvencilha-me de meus ad­ versários; poupa-m e de meus caluniadores; preserva-me dos que me tentam; redime-me de todas minhas aflições, mesmo porque tua palavra me tem levado a esperar que o faças por mim. E por isso que no versículo anterior ele busca compreensão ou discerni­ mento. Seus inimigos, com sua estultícia, prevaleciam - se é que prevaleciam. Se ele, porém, exercesse uma sólida diretriz, eles se­ riam frustrados, e ele escaparia deles. O Senhor, em resposta à oração, amiúde livra seus filhos, fazendo-os sábios como serpen­ tes e símplices como pombas. [v. 171]

Meus lábios proclamarão louvores, quando me tiveres ensinados teus estatutos. Ele nem sempre é visto suplicando por si mesmo; ele se põe acima de todo egoísmo; rende graças pelos benefícios já recebi­ dos. Promete louvar a Deus quando tiver recebido instrução práti­ ca na vida de piedade. Este é um grande motivo de louvor, porque não há bênção mais preciosa. O melhor louvor possível é aquele que procede dos cristãos que honram a Deus, não só com seus lábios, mas também em suas vidas. Aprendemos a música celestial na escola do santo viver. Aquele cuja vida honra ao Senhor com certeza é uma pessoa que sabe louvar. Davi não se calaria em sua gratidão, mas a expressaria com termos apropriados: seus lábios proclamariam o que sua vida havia praticado. Discípulos em inen­ tes costumam falar bem do mestre que os instruíra. E este santo homem, ao ser instruído nos estatutos do Senhor, promete render toda a glória Aquele a quem ela pertence. . 224 •


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[v. 172] Minha língua falará de tua palavra; porque todos teus mandamentos são justiça. Minha língua falará de tua palavra. Assim que começou a can­ tar, ele também começou a proclamar. As ternas misericórdias de Deus são tais que podem ser ou proclamadas ou cantadas. Quando a língua fala a Palavra de Deus, ela encontra um tema muitíssimo frutífero. Tal linguagem será como uma árvore de vida, cujas folhas são para a cura dos povos. Os homens se reunirão para ouvir tal proclamação, e a entesourarão em seus corações. O que há de pior em nós é o fato de que, em grande maioria, estamos satura­ dos de nossas próprias palavras, e falamos muito pouco a Palavra de Deus. Oh! se pudéssemos chegar à mesma resolução deste pie­ doso salmista, e dizer doravante: “Minha língua proclamará tua palavra!” Então romperíamos nosso pecaminoso silêncio; não mais agiríamos covardemente e não mais seriamos timoratos; mas seri­ amos genuínas testemunhas de Jesus. Não é só as obras de Deus que temos de contar; temos também que falar sua Palavra. Pode­ mos enaltecer sua verdade; sua sabedoria; sua riqueza; sua graça; seu poder. E então podemos falar de tudo o que ele tem revelado, de tudo o que tem prometido, de tudo o que tem ordenado e de tudo que tem efetuado. O tema nos confere uma amplitude infini­ ta de recursos; podemos falar dele para sempre; a história está sendo sempre repetida, sem, porém, jamais chegar ao fim. Porque todos teus mandamentos são justiça. A impressão que Davi nos passa é que ele era principalmente afeiçoado da par­ te preceptiva da Palavra de Deus; e concernente ao preceito, seu principal deleite estava em sua pureza e excelência. Quando um cristão pode falar assim de seu coração, este realmente se trans­ forma em templo do Espírito Santo. Ele disse anteriormente (v. 138): “Teus testemunhos são justos”; aqui, porém, ele declara que eles são a própria justiça. A lei de Deus é não só o padrão do certo, mas é a essência da justiça. Isso o salmista afirma de cada um e de todos os preceitos sem exceção. Seu sentimento era o de Paulo: “A lei é santa, e o mandamento, santo, justo e bom .” Quando um cristão possui uma opinião tão elevada dos mandamentos de Deus, • 225 •


Salm o 115*

não surpreende que seus lábios estejam sempre prontos a enalte­ cer o eternamente glorioso. [v. 173]

Que tua mão me socorra; porque tenho escolhido teus preceitos. Que tua mão me socorra. Dá-me socorro prático. Não me confies a meus amigos, nem a teus amigos, mas põe-me em tua própria mão para a realização de tua obra. Tua mão confere habi­ lidade e poder; prontidão e tenacidade: exibe todas essas qualida­ des em meu benefício. Pretendo fazer o máximo que puder; porém necessito de teu auxílio; e isso requer tanta urgência, que se eu não o tiver, sucumbirei. Não retenhas teu socorro. Grande como é tua mão, que ela sempre me guie luminosamente. A oração nos lem ­ bra Pedro caminhando sobre o mar e então começa a submergirse. E a seguir ele grita: “Senhor, salva-m e/’ E a mão de seu Mestre se estende para seu salvamento. Porque tenho escolhido teus preceitos. Um ótimo argum en­ to. Uma pessoa pode pedir convenientemente o socorro da mão de Deus quando tiver dedicado suas próprias mãos inteiramente à obediência da fé. Ele fez sua escolha; sua mente foi edificada. Em preferência a todas as normas e caminhos terrenos; em preferên­ cia ainda a sua própria vontade, ele decidira ser obediente aos mandamentos divinos. Deus não ajudará tal pessoa na obra santa e no serviço sacro? Seguramente que sim. Se a graça nos deu coração para querer, ela também nos dará mãos com as quais pos­ samos realizar. Sempre, sob a coerção da vocação divina, que nos vemos engajados em algum empreendimento elevado e sublime, e sentimos que nossa força é por demais pequena, podemos invocar a destra de Deus com palavras semelhantes a estas. [v. 1 74]

Tenho suspirado, ó Senhor, por tua salvação; e tua lei é meu deleite. Tenho suspirado, ó Senhor, por tua salvação. Ele fala como o velho Jacó em seu leito mortuário. Aliás, todos os santos, quer em oração quer na morte, é como se fossem apenas um: em pala­ vra, em ação e em mente. Ele conhecia a salvação de Deus, porém 226 •


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suspirava por ela, ou, seja: ele havia experimentado certa medida dela, e agora era levado a desejar algo ainda mais elevado e mais completo. A fome santa dos santos aum enta até que seja saciada. H á uma salvação ainda por vir, quando estivermos libertados do corpo desta morte, isentos de toda chaga e tribulação desta vida mortal, elevados acima das tentações e assaltos de Satanás e con­ duzidos para bem perto de nosso Deus, para sermos como ele e estarmos com ele para todo o sempre. “Tenho suspirado, ó Senhor, por tua salvação; e tua lei é meu deleite.” A primeira cláusula nos diz pelo quê o santo suspira, e isso nos informa qual é sua presente satisfação. A lei de Deus, contida nos Dez M andamentos, comunica alegria ao coração do crente. A lei de Deus, ou seja, toda a Bíblia, é uma fonte donde emana consolação e fruição a todos quantos a recebem. Ainda que não tenhamos alcançado a plenitude de nossa salvação, todavia achamos na Palavra de Deus o suficiente da presente salvação, que mesmo agora já nos deleitamos nela. [v. 175] Que minha alma viva, e então ela te louvará; e que teus juízos me ajudem. Que minha alma viva. Enche-a da plenitude de vida, preser­ va-a de vaguear pelas veredas da morte; dá-lhe a alegria de ser habitada pelo Espírito Santo; que ela viva a plenitude de vida, até à possibilidade máxima de ser recriada. E então ela te louvará. Ela te louvará para a vida, para a nova vida, para a vida eterna, porque tu és o Senhor e Doador da vida. Quanto mais viver, mais ela te louvará; e quando viver em perfei­ ção, ela te louvará em perfeição. A vida espiritual consiste em ora­ ção e louvor. E que teus juízos me ajudem. Enquanto leio o registro do que tens feito, em temor e amor, que eu seja vivificado e desfrute de progresso. Enquanto vejo tua mão realmente em ação sobre mim, e sobre outros, punindo o pecado e sorrindo para a justiça, que eu seja ajudado a viver bem e louvar-te bem. Que todos teus feitos na Providência me instruam e me ajudem na luta para vencer o peca­ • 2.27 •


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do e para a santidade prática. Essa é a segunda vez, nesta porção, que ele suplica por auxílio. Ele era sempre carente dele, assim como nós também o somos. [v. 175]

Eu me desviei como uma ovelha perdida; busca teu servo; porque não me esqueço de teus mandamentos. Este é o final, a conclusão de toda a matéria: Eu me desviei como uma ovelha perdida - freqüente, espontânea, tem erária e mesmo inutilmente, porém pela interposição de tua graça. Em vez de avançar, antes de eu ser afligido e antes que me ensinasses ple­ namente teus estatutos, eu me desviei. “Eu me desviei” da prática dos estatutos, das doutrinas instrutivas e das experiências celesti­ ais que puseste diante de mim. Perdi m inha estrada e perdi a mim próprio. Ainda agora minha tendência é perambular e, de fato, tenho perambulado. Portanto, Senhor, restaura-me. “ Não sou tua ovelha extraviada? Busca-me, ó Bom Pastor; Encontra-a e, com teu esforço, guarda A querida [ovelha] comprada com teu sangue: Se te afastares, ela novamente se perderá; Por isso oculta-me, ó Salvador, em teu coração.”

Busca teu servo. Ele era não como um cão que, de um m odo ou de outro, pode encontrar seu caminho de volta; mas era como uma ovelha perdida, que quanto mais avança mais se extravia do redil. Ele, porém, ainda era uma ovelha, e ovelha do Senhor, sua propriedade e preciosa a seus olhos, e por isso esperava ser busca­ do a fim de ser restaurado. Por mais distante pudesse ter vaguea­ do, ele era ainda não só uma ovelha, mas também um ‘servo’ de Deus, e portanto desejava estar novamente na casa de seu Dono e uma vez mais ser honrado com os serviços de seu Senhor. Houve­ ra ele sido apenas uma ovelha perdida, não teria orado para ser buscado; sendo, porém, também um ‘servo’, estava apto a orar. Ele clama: “busca teu servo”, e espera não só ser buscado, mas também perdoado, aceito e recebido novamente no serviço graci­ osamente prestado a seu Dono. • 228 •


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Preste atenção nesta confissão. Diversas vezes no Salmo Davi defende sua própria inocência contra os acusadores obscenos; mas quando chega à presença do Senhor seu Deus, ele se prontifica a confessar suas próprias transgressões. Ele aqui resum e não só seu passado, mas ainda sua vida presente, sob a imagem de uma ove­ lha que abandonara suas pastagens, afastara-se do rebanho, virara as costas para o pastor e se embrenhara pelos desertos, onde se tornara como que algo perdido. A ovelha bale, e Davi ora: “Busca teu servo.” Seu argumento é convincente: porque não me esqueci de teus mandamentos. Eu conheço o certo, aprovo e admiro o certo. Ain­ da mais: amo o certo e anelo pelo certo. Não posso viver satisfeito por continuar em pecado; preciso ser restaurado nas veredas da justiça. Tenho saudade de meu Deus; anelo pelas veredas da paz; não me esqueço nem posso esquecer-me de teus mandamentos; jamais deixo de saber que sempre sou mais feliz e mais seguro quando escrupulosamente obedeço a tua lei e acho minha alegria em agir assim. Se a graça de Deus nos capacita a m anter em nossos corações a amável m emória de seus mandamentos, ela seguramente ainda nos restaurará à santidade prática. Uma pessoa não pode estar irremediavelmente perdida, se seu coração ainda permanece em Deus. Se ela extraviar-se em muitos aspectos, ainda assim, se n u ­ trir realmente em sua alma os mais íntimos desejos por Deus, ela será encontrada outra vez e plenamente restaurada. Todavia, que o leitor lembre-se do primeiro versículo do Salmo enquanto lê o último: a maior bem-aventurança está não em ser restaurado de nossa peregrinação, mas em sermos sustentados na vereda da vida irrepreensíveis até o fim. Cabe-nos guardar nossa coroa ao longo da jornada, jamais deixando a estrada do Rei pelos atalhos das campinas virentes, nem por outra vereda florida de pecado. Possa o Senhor sustentar-nos até o fim. Todavia, ainda então não estare­ mos aptos a brasonar-nos com o fariseu, mas continuemos oran­ do com o publicano: “O Deus, sê propício a mim pecador”; e com o salmista: “Busca teu servo.” Que a última oração de Davi neste Salmo seja a nossa, ao en­ • 229 •


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cerrarmos este livro e elevarmos nosso coração ao Eminente Pas­ tor das ovelhas. Amém.


NOSSAS OBRAS Com entários de João Calvino ♦Romanos ♦1 Coríntios ♦2 Coríntios ♦Gálatas ♦Efésios ♦As Pastorais (Timóteo, Tito e Filemom) ♦Hebreus ♦Salmos - vol. 1 ♦Salmos - vol. 2 ♦Daniel —vol. 1 Outros Autores » Salmo 1 1 9 - 0 Alfabeto de Ouro de Spurgeon ♦Servos e Versos e Vice-versa de Percília e Alvaro Almeida Campos ♦Inovações do Romanismo de Carlos Hastings Collette ♦TULIP —Os Cinco Pontos do Calvinismo à Luz das Escrituras (2a edição) de Duane Edward Spencer ♦Socorro! Sou Equipante de Acampamento de Norman Wright - A.EA. ♦O Acampamento Cristão nos Dias de hoje de Lloyd Mattson -A.E.A. ♦O Caminho de Deus para a Santidade deHoratius Bonar ♦O Livro da Vida de Valter Graciano Martins Obras em Preparação ♦Romanos (2a edição) de Jo ã o C alvin o ♦EU C R EIO no Pai, no Filho e no Espírito Santo de Herm isten M a ia Pereira da Costa ♦Salmos - vol. 3 de Jo ã o C alvino » Daniel - vol. 2 de Jo ã o C alvino

Salmo 119 o alfabeto de ouro charles haddon spurgeon  
Salmo 119 o alfabeto de ouro charles haddon spurgeon  
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