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INTRODUÇÃO O EVANGELHO SEGUNDO

MATEUS Autoria Desde o segundo século da era cristã, a tradição da Igreja atribui ao apóstolo Mateus a autoria do Evangelho que aparece em primeiro lugar nas várias edições da Bíblia (Mt 9.9 e 10.3). Eusébio, em sua obra História Eclesiástica, no início do século IV, já trazia citações de Papias, bispo do século II, de Irineu, bispo de Leão e de Orígenes, grande pensador cristão do século III. Todos os “pais da Igreja” (como ficaram conhecidos os notáveis discípulos de Cristo e teólogos dos primeiros séculos), concordam em afirmar que este Evangelho foi escrito (ou narrado a um amanuense, pessoa habilidosa com a escrita), primeiramente em aramaico (hebraico falado por Cristo e pelos jovens judeus palestinos de sua época) e depois, traduzido para o grego. Apesar das muitas evidências sobre a existência do original em aramaico, todas as buscas e pesquisas arqueológicas somente encontraram fragmentos e cópias em grego. Entretanto, os principais estudiosos e teólogos do mundo não duvidam que o texto grego que dispomos hoje em dia é o mesmo que circulou entre as igrejas a partir da segunda metade do século I d.C. Ainda que não apresentando explicitamente o nome do autor, o Evangelho Segundo Mateus, fornece pelo menos uma grande evidência interna que confirma sua autoria defendida pelos pais da Igreja. A história da narrativa de um banquete ao qual Jesus compareceu em companhia de grande número de publicanos e pecadores (pagãos e judeus que não guardavam a Lei e as determinações dos líderes religiosos da época) é descrita na passagem que começa com as seguintes palavras em grego original transliterado: kai egeneto autou anakeimeou em te(i) oikia(i). Ou seja: “E aconteceu que, estando Jesus em casa,...” (Mt 9.10). Considerando que os últimos três vocábulos significam “em casa”, o trecho sugere que o banquete fosse oferecido “na casa” de Jesus. Contudo, a passagem paralela em Mc 2.15 revela que essa festa aconteceu “na casa” de Levi, isto é, Mateus Levi. O texto em Marcos aparece assim transliterado: en te(i) oikia(i) autou, “na casa dele”. O sentido alternativo de Mt 9.10 esclarece que “em casa” quer dizer “na minha casa”, ou seja, “na casa” do autor, e isto concorda perfeitamente com Marcos e com os fatos apresentados em todos os Quatro Evangelhos. Mateus, que tinha por sobrenome Levi (Mc 2.14), e cujo nome significa “dádiva do Senhor”, era um cobrador de impostos a serviço de Roma, mas que abandonou uma vida de avareza e desonestidade para seguir Jesus, o Messias (Mt 9.9-13). Em Marcos e Lucas é chamado por seu outro nome, Levi. Propósitos O principal objetivo do Evangelho Segundo Mateus é relatar seu testemunho pessoal sobre o fato de Jesus Cristo ser o Messias prometido no Antigo Testamento, cuja missão messiânica era trazer o Reino de Deus até a humanidade. Esses dois grandes temas: o caráter messiânico de Jesus e a presença do Reino de Deus são indissociáveis e devem ser analisados sempre como um todo harmônico. Cada qual representa um “mistério” – uma nova revelação do plano remidor de Deus (Rm 16.25-26). Antes do grande evento da vinda do Messias, como o Filho de Deus (também chamado no AT e pelo próprio Jesus de “o Filho do homem”), em triunfo e grande glória entre as nuvens do céu, a fim de estabelecer Seu Reino sobre o planeta todo, terá em primeiro lugar, de vir sob a mais absoluta humildade entre os homens na qualidade de Servo Sofredor, cônscio de que sua missão será dedicar a própria vida em sacrifício voluntário a favor da humanidade, especialmente dos que, crendo em Seu Nome, se arrependerem dos seus pecados, nascendo para uma nova vida (Jo 1.12; 3.16). Esse é o mistério da missão messiânica. Era um ensino completamente desconhecido para os judeus do primeiro século da nossa era. Hoje, a maior parte dos cristãos que lêem o capítulo 53 de Isaías não sentem qualquer dificuldade em identificar a pessoa de Jesus Cristo com o Messias prometido. Entretanto, os judeus não observaram com cuidado a descrição do Servo Sofredor e deram mais atenção às promessas de um Messias que viria com grande poder e glória, o que realmente está registrado no contexto dessa passagem (Is 48.20; 49.3). Por esse motivo, os judeus do primeiro século esperavam ansiosamente pelo Filho de Davi, um Rei divino (uma vez que os reis humanos já haviam provado sua incompetência e limitação). O Filho de


Deus e Rei governará o Reino messiânico (Is 9 e 11 com Jr 33). Nesse Dia, todo pecado e mal serão extirpados da terra; e a paz e a justiça prevalecerão. O Filho do homem é um ser celestial a Quem está entregue o governo de todas as nações e reinos da terra. O mistério do Reino é semelhante e está intimamente ligado ao mistério messiânico. No segundo capítulo do livro do profeta Daniel temos a descrição da vinda do Reino de Deus em pinceladas vigorosas e impressionantes. Todo poder que fizer resistência à vontade do Senhor será aniquilado. O Reino virá todo, completo, de uma só vez, varrendo da sua frente todas as hostes do mal e todo império contrário a Jesus Cristo. A terra será toda transformada e uma nova ordem, universal e perfeita será instaurada. Portanto, tanto a mensagem de Cristo como a Sua pessoa foram totalmente incompreendidas pelos Seus compatriotas e contemporâneos em geral, incluindo os próprios discípulos. Todavia, a nova revelação sobre o propósito de Deus é que o Reino deveria vir em humildade e doação: poder espiritual, antes de vir em plena glória triunfante. Mateus deixa claro que deseja apresentar, em ordem histórica, o nascimento, ministério, paixão e ressurreição de Jesus Cristo. Para tanto, ele reúne os fatos em cinco grandes discursos proferidos pelo Senhor: o chamado, Sermão da Montanha (Mt 5.1 a 7.27); a comissão aos apóstolos (Mt 10.542); as parábolas (Mt 13.1-53); o ensino sobre humildade e perdão (Mt 18.1-35), e a palavra profética (Mt 24.1 a 25.46). Mateus cita várias passagens e profecias extraídas do Antigo Testamento e, de fato, interpreta essas profecias como tendo absoluto e certeiro cumprimento em Jesus Cristo; tudo é escrito e ensinado de um modo que seria para o judeu do século I prova irrefutável, a qual a Igreja cristã adota até nossos dias. Data da primeira publicação Embora alguns estudiosos considerem a forte possibilidade de o Evangelho Segundo Mateus ter sido escrito na Antioquia da Síria, as evidentes características judaicas do texto original apontam sua geração para alguma parte da antiga Palestina. Considerando o fato de a terrível destruição de Jerusalém, ocorrida por volta do ano 70 d.C., ser ainda considerada um acontecimento futuro (Mt 24.2), e que Mateus, assim como Lucas, terem sido beneficiados pela leitura dos escritos de Marcos, podemos entender que as primeiras cópias do livro de Mateus circularam entre os irmãos da recém igreja cristã (chamada de igreja primitiva), quando a Igreja era em grande parte judaica e o Evangelho pregado quase que exclusivamente aos judeus (At 11.19), por volta dos anos 50 e 60 da nossa era. Esboço Geral de Mateus 1. Nascimento e infância do Cristo, o Messias (caps. 1,2) A. A genealogia de Jesus (1.1-17). B. O anúncio do seu nascimento (1.18 – 25) C. A adoração ao bebê, filho do Homem, o Salvador (2.1-12) D. A permanência de Jesus no Egito (2.13-23) 2. Prelúdio do ministério de Jesus Cristo (caps. 3.1 – 4.25) A. João Batista e seu ministério preparatório para Jesus (3.1-12) B. O batismo de Jesus Cristo (3.13-17) C. A grande tentação de Jesus (4.1-11) D. A investidura do Senhor (4.12-25) 3. O ensino do Rei Jesus Cristo (caps. 5.1 – 7.29) A. A proposta da Vida no Reino (5.1-16) B. Os princípios espirituais para se viver no Reino (5.17-48) C. A Torá e a Lei de Moisés (5.17-20) D. A lei sobre o assassinato (5.21, 22) E. A lei sobre o adultério (5.27-30) F. A lei sobre o divórcio (5.31, 32) G. A lei sobre os votos (5.33-37) H. A lei da não resistência (5.38-42) I. A lei do amor (5.43-48) 4. Aspectos práticos da vida no Reino (caps. 6.1 – 7.12) A. Sobre as esmolas e ajudas (6.1-4) B. Sobre a oração (6.5-15)


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C. Sobre a disciplina espiritual do jejum (6.16-18) D. Sobre o dinheiro (6.19-24) E. Sobre a ansiedade e preocupações (6.25-34) F. Sobre o Juízo (7.1-5) G. Sobre a prudência (7.6) H. Sobre a oração (7.7-11) I. Sobre o trato com outras pessoas (7.12) J. Sobre o caminho estreito do Reino (7.13-29) Demonstrações da soberania de Jesus (caps. 8.1 – 9.38) A. Poder sobre a impureza (8.1-4) B. Poder sobre a distância (8.5-13) C. Poder sobre as enfermidades (8.14-17) D. Poder sobre os discípulos (8.18-22) E. Poder sobre a natureza (8.23-27) F. Poder para perdoar pecados (9.1-13) G. Poder sobre a lei e as doutrinas (9.14-17) H. Poder sobre a morte (9.18-26) I. Poder sobre as trevas (9.27-31) J. Poder sobre os demônios (9.32-34) K. Poder sobre doenças da alma e do corpo (9.35-38) A grande missão do Rei Jesus (10.1 – 16.12) A. A missão é anunciada (10.1 – 11.1) B. A missão é comprovada (11.2 – 12.50) C. O consolo aos discípulos de João (11.2-19) D. A condenação das cidades infiéis (11.20-24) E. A convocação dos discípulos para Si (11.25-30) F. As controvérsias sobre o uso do sábado (12.1-13) G. O pecado imperdoável da incredulidade (12.14-37) H. Alguns sinais extraordinários (12.38-45) I. Relacionamentos transformados (12.46-50) A missão tem seu objetivo ampliado (13.1-52) A. A parábola do semeador (13.1-23) B. A parábola do trigo e o joio (13.24-30) C. A parábola do grão de mostarda (13.31, 32) D. A parábola do fermento (13.33) E. A parábola do trigo e do joio é explicada (13.34-43) F. A parábola do tesouro escondido (13.44) G. A parábola da pérola de grande valor (13.45, 46) H. A parábola da rede (13.47-50) I. A parábola do pai de família (13.51, 52) A missão sofre fortes ataques (caps. 13.53 – 16.12) A. Pelos conterrâneos do Rei (13.53-58) B. Por Herodes – seguido de milagres (14.1-36) C. Pelos escribas e fariseus – seguido de milagres (15.1-39) D. Pelos fariseus e saduceus (16.1-12) A teologia prática de Jesus, o Messias (caps.16.13 – 20.28) A. Quanto à Sua Igreja (16.13-20) B. Quanto à Sua morte (16.21-28) C. Quanto à Sua glória (17.1-21) D. Quanto à Sua traição (17.22, 23) E. Quanto a impostos (17.24-27) F. Quanto à humildade (18.1-35) G. Alimentar uma fé pura e simples (18.1-6) H. Sincera preocupação com os perdidos (18.7-14) I. Disciplina e restauração entre os crentes (18.15-20) J. Disposição para perdoar tudo e sempre (18.21-35) K. Quanto aos dramas humanos (19.1-26)


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L. Problemas físicos (19.1, 2) M. Divórcio e novo casamento (19.3-12) N. Quanto às crianças e os pequenos na fé (19.13-15) O. Quanto ao acúmulo de riquezas (19.16-26) P. Quanto ao Reino (caps.19.27 – 20.28) Q. Recompensas no Reino (19.27-30) R. Reconhecimento no Reino (20.1-16) S. Graduação e promoções no Reino (20.17-28) A proclamação do Rei Jesus (caps. 20.29 – 23.39) A. O poder do Rei Jesus (20.29-34) B. A aclamação do Rei Jesus (21.1-11) C. A purificação realizada pelo Rei Jesus (21.12-17) D. A maldição da figueira (21.18-22) E. O desafio ao Rei Jesus (21.23-27) F. As parábolas do Rei Jesus (21.28 – 22.14) G. Quanto à rebeldia de Israel (21.28-32) H. A retribuição a Israel (21.33-46) I. A rejeição de Israel (22.1-14) J. Os pronunciamentos do Rei Jesus (caps. 22.15 – 23.39) K. Em resposta aos herodianos (22.15-22) L. Em resposta aos saduceus (22.23-33) M. Em resposta aos fariseus (22.34-40) N. Questionando os fariseus (22.41-46) O. Contra os doutores da lei e fariseus (23.1-36) P. Contra a cidade santa: Jerusalém (23.37-39) As terríveis profecias do Rei Jesus (caps. 24.1 – 25.46) A. A destruição do Templo (24.1, 2) B. As indagações dos discípulos (24.3) C. Os grandes sinais sobre o final dos tempos (24.4-28) D. O sinal do glorioso retorno de Jesus (24.29-31) E. Parábolas ilustrando as profecias (24.32 – 25.46) F. A figueira (24.32-35) G. Os dias de Noé (24.36-39) H. Os companheiros (24.40, 41) I. O pai de família atento (24.42-44) J. O servo leal (24.45-51) K. As dez virgens (25.1-13) L. Os talentos (25.14-30) M. O grande julgamento dos gentios (25.31-46) O sacrifício do Rei Jesus por nossa Salvação (caps. 26.1 – 27.66) A. A preparação da Paixão (26.1-16) B. A Páscoa da Paixão (26.17-30) C. A traição predita (26.31-56) D. Os interrogatórios e julgamentos (26.57 – 27.26) E. Diante do sumo sacerdote (26.57-75) F. Perante o Sinédrio (27.1-10) G. Respondendo a Pilatos (27.11-26) H. A crucificação (27.27-66) I. Martírio e humilhação (27.27-44) J. Jesus entrega sua vida (27.45-56) K. O sepultamento (27.57-66) A ressurreição e a comissão do Rei Jesus (28.1-20) A. O triunfo de Jesus sobre a morte (28.1-10) B. A conspiração alegada (28.11-15) C. A grande comissão dos discípulos (28.16-20)


O EVANGELHO SEGUNDO

MATEUS A linhagem real de Cristo (Lc 3.23-28)

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Livro da genealogia de Jesus Cristo, Filho de Davi, Filho de Abraão: 2 Abraão gerou Isaque, Isaque gerou Jacó, Jacó gerou Judá e seus irmãos, 3 Judá gerou Perez e Zera, de Tamar; Perez gerou Esrom; Esrom gerou Arão. 4 Arão gerou Aminadabe; Aminadabe gerou Naassom; Naassom gerou Salmom, 5 Salmom gerou Boaz, de Raabe, e Boaz gerou Obede, de Rute; Obede gerou a Jessé. 6 Jessé gerou o rei Davi, e o rei Davi gerou a Salomão, daquela que foi mulher de Urias1; 7 Salomão gerou Roboão; Roboão gerou Abias; Abias gerou Asa, 8 Asa gerou Josafá; Josafá gerou Jorão; Jorão gerou Uzias; 9 Uzias gerou Jotão; Jotão gerou Acaz; Acaz gerou Ezequias; 10 Ezequias gerou Manassés; Manassés gerou Amom; Amom gerou Josias; 11 Josias gerou Jeconias e a seus irmãos no tempo em que foram levados cativos para a Babilônia. 12 Depois do exílio na Babilônia, Jeconias gerou Salatiel; Salatiel gerou Zorobabel; 13 Zorobabel gerou Abiúde; Abiúde gerou Eliaquim, e Eliaquim gerou Azor; 14 Azor gerou Sadoque; Sadoque gerou Aquim; Aquim gerou Eliúde,

Eliúde gerou Eleazar; Eleazar gerou Matã, Matã gerou Jacó; 16 Jacó gerou José, marido de Maria, da qual nasceu JESUS, denominado o Cristo.2 17 Portanto, o total das gerações é: de Abraão até Davi, quatorze gerações; de Davi até o exílio na Babilônia, quatorze gerações; e do exílio na Babilônia até Cristo, quatorze gerações. 15

A linhagem divina de Cristo (Lc 2.1-7)

O nascimento de Jesus Cristo ocorreu da seguinte maneira: Estando Maria, sua mãe, prometida em casamento a José, antes que coabitassem, achou-se grávida pelo Espírito Santo. 19 Então, José, seu esposo3, sendo um homem justo e não querendo expô-la à desonra pública, planejou deixá-la sem que ninguém soubesse a razão. 20 Mas, enquanto meditava sobre isso, eis que, em sonho, lhe apareceu um anjo do SENHOR, dizendo: “José, filho de Davi, não temas receber a Maria como sua mulher, pois o que nela está gerado é do Espírito Santo. 21 Ela dará à luz um filho, e lhe porás o nome de Jesus, porque Ele salvará o seu povo dos seus pecados”.4 22 Tudo isso aconteceu para que se cumprisse o que o SENHOR havia dito através do profeta: 18

1 A expressão “daquela que foi mulher” não se encontra nos originais em grego; entretanto, desde 1611, a Bíblia King James traz, junto ao texto bíblico, essa explicação rabínica, cujo emprego passou a se observar na maioria das traduções e versões posteriores, em diversas línguas. 2 A expressão grega christos é o adjetivo verbal semita, equivalente a Messias, que, em hebraico, significa “o Ungido”. No AT, essa forma designava o rei de Israel (o ungido do Senhor, como em 1 Sm 16.6), o sumo sacerdote (o sacerdote ungido – Lv 4.3). No plural, essa expressão se refere aos patriarcas em seu ministério de profetas (“meus ungidos” – Sl 105.15). Jesus cumpriu a profecia messiânica, desempenhando essas três funções. 3 O noivado judaico da época era um compromisso tão solene, que os noivos passavam a se tratar como marido e mulher. A Lei, contudo, proibia qualquer relação sexual antes do casamento formal. O noivado só poderia ser desfeito por infidelidade, que era punida com repúdio público e apedrejamento (Gn 29.21; Dt 22.13-30; Os 2.2). 4 Jesus (em hebraico Yehoshú’a) significa Yahweh Salva ou “O SENHOR é a Salvação”. Yahweh é o nome judaico impronunciável, sagrado e sublime de Deus, na maioria das vezes traduzido por: SENHOR. Em hebraico: (Êx 6.3; Is 41.4). Em grego Egô Eimi.


MATEUS 1, 2

“Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, e Ele será chamado de Emanuel”, que significa “Deus conosco”.5 24 José, ao despertar do sonho, fez o que o Anjo do SENHOR lhe tinha ordenado e recebeu Maria como sua mulher. 25 Contudo, não coabitou com ela enquanto ela não deu à luz o filho primogênito. E José lhe colocou o nome de Jesus. 23

A visita dos sábios do Oriente Após o nascimento de Jesus em Belém da Judéia, nos dias do rei Herodes, eis que alguns sábios vindos do Oriente chegaram a Jerusalém.1 2 E, indagavam: “Onde está aquele que é nascido rei dos judeus? Pois do Oriente vimos a sua estrela e viemos adorá-lo”.2 3 Quando o rei Herodes ouviu isso, ficou perturbado e toda a Jerusalém com ele. 4 Tendo reunido todos os príncipes dos sacerdotes e os escribas do povo,

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perguntou-lhes onde havia de nascer o Cristo.3 5 E eles lhe responderam: “Em Belém da Judéia, pois assim escreveu o profeta:4 6 ‘Mas tu, Belém, da terra de Judá, de modo algum és a menor entre as principais cidades de Judá; pois de ti sairá o Guia, que como pastor, conduzirá Israel, o meu povo’”.5 7 Então Herodes, chamando secretamente os sábios, interrogou-os exatamente acerca do tempo em que a estrela lhes aparecera. 8 Mandou-os a Belém e disse: “Ide, e perguntai diligentemente pelo menino, e quando o achardes, comunicai-me, para que também eu vá e o adore”. 9 Após terem ouvido o rei, seguiram o seu caminho, e a estrela que tinham visto no Oriente foi adiante deles, até que finalmente parou sobre o lugar onde estava o menino.

5 Mateus demonstra de forma clara e inquestionável que Jesus Cristo é o Messias prometido nas diversas profecias do AT, como nesse texto de Is 7.14. (Mt 2.15-23; 8.17; 12.17; 13.25; 21.4; 26.54-56; 27.9; cf. 3.3; 11.10; 13.14, etc.) O próprio Jesus usa as Escrituras para comprovar sua identidade e ministério (Mt 11.4-6; Lc 4.21; 18.31; 24.44; Jo 5.39; 8.56; 17.12, etc.) Capítulo 2 1 O primeiro calendário foi elaborado por Dionísio Exíguo, de Roma (no século VI) e adotado em todo o mundo predominantemente cristão. Com o surgimento de novas e mais precisas tecnologias para a medição do tempo, constatou-se que Dionísio errou em pelo menos 4 anos em relação ao mais antigo calendário romano. Herodes, chamado “O Grande”, recebeu, do Senado romano, o título de “rei da Judéia” e, por isso, ficou conhecido como “rei dos judeus”. Durante seu reinado (de 39 a.C. a 4 a.C.) mandou matar todas as crianças de Belém, de até 2 anos de idade. Nessa época Jesus estaria em seu segundo ano de vida. E os cálculos demonstram que teria nascido quase 5 anos antes do “Anno Domini” (ano oficial do nascimento do Senhor). Quanto à expressão “sábios”, como traduzida pela Bíblia King James, refere-se a um grupo de sacerdotes babilônios, gentios, reconhecidos entre os povos medo-persas como mestres, cientistas, astrônomos, e que se dedicavam ao estudo da medicina e da astrologia. Algumas versões trazem a expressão “magos”, mas em nossos dias essa palavra tem uma conotação estritamente mística e ocultista. A tradição das igrejas cristãs acrescenta que eles eram três reis, devido aos três presentes de alto valor monetário oferecidos a Jesus, mas isso não tem comprovação bíblica. 2 Séculos mais tarde, o astrônomo Kepler calculou que essa imagem de estrela reluzente se tratava da conjunção de Júpiter e Saturno na constelação de Peixes, em 7 a.C. Na China, o mesmo fenômeno foi observado no ano 4 a.C. e interpretado como o aparecimento de uma estrela variável, com surgimento e desaparecimento periódicos. 3 Herodes convoca os responsáveis pela vida religiosa e moral da nação judaica. Os sumos sacerdotes eram os membros das grandes famílias sacerdotais de Jerusalém. Os escribas geralmente pertenciam ao partido político dos fariseus; eram também doutores da Lei e estudantes profissionais, pagos para estudar e ensinar, ao povo, a Lei e as tradições rabínicas. Também funcionavam como advogados públicos, sendo-lhes confiada à administração da lei e da ordem, como juízes no Sinédrio (22.35). Esses dois grupos se unem contra Jesus, em 21.15. Mateus associa com mais freqüência os sumos sacerdotes aos anciãos do povo (26.3,47; 27.1). O sentido em ambos os casos é o mesmo: os principais responsáveis pelo drama de um povo são seus líderes e chefes. 4 A palavra “profeta” deriva do grego “pro” que significa “para adiante” ou “à frente” e “phemi” que quer dizer “o que fala”. O profeta é aquele que traz a mensagem de Deus, o servo que anuncia prioritariamente, antes de tudo, a Palavra do Senhor. Esse ministério pode incluir a previsão de futuros eventos. Deus continua a falar através de seus profetas nas igrejas de hoje. Os arautos de Deus nos orientam e ensinam a ouvir o Espírito Santo e a obedecer à Palavra. Entretanto, a Bíblia também nos adverte quanto aos “falsos profetas”, pessoas que são lideradas por um espírito diferente do Espírito Santo e causam confusão à comunidade e grande dano a si próprios (Jr 7.4, Jr 14.14, Lm 2.4, Ez 13.6, Mt 7.15, Mt 24.11-24, 2Pe 2.1, Ap 19.20). 5 Mq 5.2; Jo 7.42; Ap 2.27


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E vendo eles a estrela, alegraram-se com grande e intenso júbilo. 11 Ao entrarem na casa, encontraram o menino com Maria, sua mãe, e prostrando-se o adoraram. Então abriram seus tesouros e lhe ofertaram presentes: ouro, incenso e mirra.6 12 E, sendo por divina revelação avisados em sonhos para que não voltassem para junto de Herodes, retornaram para a sua terra, por outro caminho. 10

A fuga para o Egito 13 Depois que partiram, eis que um anjo do SENHOR apareceu a José em sonho e lhe disse: “Levanta-te, toma o menino e sua mãe, e foge para o Egito. Permanece lá até que eu te diga, pois Herodes há de procurar o menino para o matar”. 14 José se levantou, tomou o menino e sua mãe, durante a noite, e partiu para o Egito. 15 E esteve lá até a morte de Herodes. E assim se cumpriu o que o SENHOR tinha dito através do profeta: “Do Egito chamei o meu filho”.7 16 Quando Herodes percebeu que havia sido iludido pelos sábios, irou-se terrivelmente e mandou matar todos os meninos de dois anos para baixo, em Belém e em todas as circunvizinhanças, de acordo com as informações que havia obtido dos sábios. 17 Então se cumpriu o que fora dito pelo profeta Jeremias: 18 “Ouviu-se uma voz em Ramá, pranto e grande lamentação; é Raquel que chora por seus filhos e recusa ser consolada, pois já não existem”.8

MATEUS 2, 3

O retorno para Israel 19 Após a morte de Herodes, eis que um anjo do SENHOR apareceu em sonho a José, no Egito, e disse-lhe: 20 “Dispõe-te, toma o menino e sua mãe, e vai para a terra de Israel; porque já estão mortos os que procuravam tirar a vida do menino”. 21 Então, José se levantou, tomou o menino e sua mãe, e foi para a terra de Israel. 22 Mas, ao ouvir que Arquelau estava reinando na Judéia, em lugar de seu pai Herodes, teve medo de ir para lá. Contudo, tendo sido avisado em sonho por divina revelação, seguiu para as regiões da Galiléia. 23 Ao chegar, foi viver numa cidade chamada Nazaré. Cumpriu-se assim o que fora dito pelos profetas: “Ele será chamado Nazareno”.9 João Batista prepara o caminho (Mc 1.2-8; Lc 3.1-18; Jo 1.6-8,19-36)

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Naqueles dias surgiu João Batista pregando no deserto da Judéia; e dizia: 2 “Arrependei-vos, porque o Reino dos céus está próximo”.1 3 Este é aquele que foi anunciado pelo profeta Isaías: “Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do SENHOR, endireitai as suas veredas”. 4 João tinha suas roupas feitas de pêlos de camelo e usava um cinto de couro na cintura. Alimentava-se com gafanhotos e mel silvestre. 5 A ele vinha gente de Jerusalém, de toda a Judéia e de toda a província adjacente ao Jordão.

6 Sl 72.10-11; Is 60.6 7 Os 11.1 8 Jr 31.15 9 A expressão hebraica traduzida por “nazareno” significa: desprezível ou desprezado. Nazaré era o lugar mais improvável para

o surgimento ou a residência do Messias, o Ungido de Deus e libertador do povo de Israel (Sl 22.6; Is 11.1; Is 53.3; Mc 1.24). Capítulo 3 1 João começa seu ministério no deserto da Judéia, uma região árida e estéril, ao longo da margem ocidental do mar Morto. O Reino dos céus sinaliza o domínio do céu e dos seus valores sobre a terra e o sistema econômico, político, social e religioso mundial. O povo judeu da época de Cristo esperava esse Reino messiânico (ou davídico) e seu estabelecimento. Foi exatamente esse o Reino que João anunciou como “próximo”. A rejeição de Cristo pelo povo adiou sua plena concretização até a segunda e iminente vinda de Cristo (Mt 25.31). O caráter atual do Reino está descrito na série de parábolas (histórias com objetivo didático) contadas por Jesus em Mt 13.


MATEUS 3, 4

Confessando os seus pecados, eram batizados por João no rio Jordão. 7 E, vendo ele muitos dos fariseus e dos saduceus que vinham ao seu batismo, dizia-lhes: “Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira futura?2 8 Produzi, sim, frutos que mostrem vosso arrependimento! 9 Não presumais de vós mesmos, dizendo: ‘Temos por pai a Abraão’; porque eu vos digo que mesmo destas pedras Deus pode gerar filhos a Abraão. 10 O machado já está posto à raiz das árvores, e toda árvore, pois, que não produz bom fruto é cortada e lançada no fogo. 11 Eu, em verdade, vos batizo com água, para arrependimento; mas depois de mim vem alguém mais poderoso do que eu, tanto que não sou digno nem de levar as suas sandálias. Ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo. 12 Ele traz a pá em sua mão e separará o trigo da palha.3 Recolherá no celeiro o seu trigo e queimará a palha no fogo que jamais se apaga”. 6

O batismo de Jesus (Mc 1.9-11; Lc 3.21,22; Jo 1.32-34)

Então Jesus veio da Galiléia ao Jordão para ser batizado por João. 14 Mas João se recusava, justificando: “Sou eu quem precisa ser batizado por ti, e vens tu a mim?” 13

8

Jesus, entretanto, declarou: “Deixe assim, por enquanto; pois assim convém que façamos, para cumprir toda a justiça”. E João concordou. 16 E, sendo Jesus batizado, saiu logo da água, e eis que se abriram os céus, e viu o Espírito de Deus descendo como pomba e vindo sobre Ele. 17 Em seguida, uma voz dos céus disse: “Este é meu Filho amado, em quem muito me agrado”. 15

Jesus é tentado pelo Diabo (Mc 1.12,13; Lc 4.1-13)

4

Jesus foi então conduzido pelo Espírito, ao deserto, para ser tentado pelo Diabo. 2 Depois de jejuar quarenta dias e quarenta noites, teve fome. 3 O tentador aproximou-se então dele e disse: “Se tu és o Filho de Deus, manda que estas pedras se tornem em pães”. 4 Jesus, porém, afirmou-lhe: “Está escrito: ‘Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus’”.1 5 Então o Diabo o conduziu à Cidade Santa, e colocou-o sobre a parte mais alta do templo e desafiou-lhe: 6 “Se tu és o Filho de Deus, joga-te daqui para baixo. Pois está escrito: ‘Aos seus anjos dará ordens a teu respeito, e com as mãos eles te susterão, para que jamais tropeces em alguma pedra’”.2

2 Os fariseus eram a mais influente das seitas do judaísmo no tempo de Cristo. Embora apegados às doutrinas e à ortodoxia, seu zelo, sem o entendimento espiritual da Lei de Moisés levara-os, ao longo dos séculos, a uma observância estrita das normas e regras da Lei e das tradições rabínicas. Eram justos aos próprios olhos e inimigos implacáveis de Jesus Cristo (Mt 9.14; 23.2; 23.15; Mc 12.40; Lc 18.9). Os saduceus, que pertenciam à elite econômica e às famílias sacerdotais, eram anti-sobrenaturalistas (não criam em milagres e no poder sobrenatural de Deus). Opunham-se às tradições dos ensinos e interpretações dos fariseus e colaboravam abertamente com os governantes romanos. Uniram-se aos fariseus apenas em suas perseguições a Cristo (Mt 16.1-4,6). 3 Algumas versões trazem a expressão: “...e limpará a sua eira”. A Bíblia King James optou por uma tradução mais clara dessa frase, a partir do original grego; pois a “pá”, que Jesus traz em sua mão, tem a ver com uma pá de madeira usada para lançar o cereal triturado ao ar, de modo que a palha, mais leve, fosse carregada pelo vento, e os grãos se amontoassem no solo. Isso significa “limpar a eira” e reforça o cumprimento da profecia de Malaquias (Ml 3.1-6 e 4.1). Capítulo 4 1 O objetivo do Diabo era levar Cristo, o Ungido, Filho de Deus, a pecar. Apenas um pecado seria o suficiente, desqualificando o Salvador, frustrando assim, o plano de Deus para a redenção humana. O objetivo de Deus foi provar que seu Filho – perfeitamente divino e perfeitamente humano – viveu, contudo, isento de qualquer pecado; sendo, portanto, um Salvador perfeitamente digno e suficiente (2Co 5.21; Hb 4.15, Rm 8.3; 1Jo 2.16; Tg 1.13). Jesus escolhe uma passagem das Sagradas Escrituras (Dt 8.3) para responder ao tentador e a todos quantos têm seus valores invertidos por ganância, egoísmo e inveja. 2 O orgulho, arrogância e empáfia do Diabo não lhe permitiram compreender, muito menos aceitar, a resposta que Cristo lhe dera. O Diabo tenta, então, replicar, usando também uma passagem bíblica (Sl 91.11-12), mas omitindo parte do texto sagrado


9

Contestou-lhe Jesus: “Também está escrito: ‘Não tentarás o SENHOR teu Deus’”.3 8 Tornou o Diabo a levá-lo, agora para um monte muito alto. E mostrou-lhe todos os reinos do mundo em todo o seu esplendor. 9 E propôs a Jesus: “Tudo isso te darei se, prostrado, me adorares. 10 Ordenou-lhe então Jesus: “Vai-te, Satanás, porque está escrito: ‘Ao SENHOR, teu Deus, adorarás e só a Ele servirás’”.4 11 Assim, o Diabo o deixou; e eis que vieram anjos, e o serviram. 7

Jesus inicia seu ministério (Mc 1.14-20; Lc 4.14-32; 5.1-11)

Jesus, entretanto, ouvindo que João estava preso, voltou para a Galiléia. 13 E, deixando Nazaré,5 foi habitar em Cafarnaum, situada à beira-mar, nos confins de Zebulom e Naftali. 14 Assim cumprindo-se o que fora dito pelo profeta Isaías: 15 “Terra de Zebulom e terra de Naftali, caminho do mar, além do Jordão, Galiléia dos gentios!6 16 O povo que jazia nas trevas viu uma grande luz; e aos que estavam detidos na região e sombra da morte, a luz raiou”. 17 Daquele momento em diante Jesus passou a pregar e dizer: “Arrependei-vos, porque é chegado o Reino dos céus!”. 18 E, caminhando junto ao mar da 12

MATEUS 4, 5

Galiléia, viu Jesus dois irmãos: Simão, chamado Pedro e André que lançavam a rede ao mar, pois eram pescadores. 19 Então, disse-lhes Jesus: “Vinde após mim, e Eu vos farei pescadores de homens”. 20 Eles, imediatamente deixaram suas redes e seguiram Jesus. 21 Seguindo adiante, viu Jesus outros dois irmãos: Tiago, filho de Zebedeu e João, seu irmão, que estavam no barco com Zebedeu, seu pai, consertando as redes; e chamou-os. 22 Eles imediatamente deixaram o barco e seu pai para seguirem a Jesus. 23 E percorria Jesus toda a Galiléia, ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do Reino e curando todas as enfermidades e males entre o povo. 24 E sua fama correu por toda a Síria; e trouxeram-lhe, então, todos aqueles que sofriam, acometidos de várias enfermidades e tormentos, os endemoninhados, os lunáticos e os paralíticos. E Jesus os curava. 25 E uma grande multidão da Galiléia, Decápolis, Jerusalém, Judéia e de além do Jordão seguia a Jesus. O sermão do monte (Lc 6.20-29)

5

Jesus, vendo as multidões, subiu a um monte e, assentando-se, os seus discípulos aproximaram-se dele. 2 E Jesus, abrindo a boca, os ensinava, dizendo:

que não se ajustava a seus intentos. Esse mesmo método de interpretação inescrupulosa da Bíblia tem-se repetido ao longo dos séculos, na criação e desenvolvimento de diversas seitas heréticas em todo o mundo. 3 Veja Dt 6.16 4 Somente uma análise profunda e detalhada dos diálogos aqui travados entre Satanás e Jesus pode revelar a magnitude dessa batalha espiritual vencida por Cristo por meio da Palavra de Deus (Dt 6.13; 10.20), bem como a astúcia e o poder do Diabo para iludir seus oponentes. Satanás, como príncipe do sistema econômico, político e social do nosso planeta (em grego, Kosmos, que significa: mundo), estava em seu direito ao ofertar a Jesus as glórias de todos os reinos da terra, pois de fato estes lhe foram entregues por algum tempo (Jo 12.31; 1 Jo 2.15; 5.19; Jo 3.19; Tg 1.27; 4.4). Jesus manteve-se, porém, íntegro e fiel, resistindo e vencendo a tentação e o tentador. 5 Conforme Lc 4.16-30, Jesus foi expulso de Nazaré, terra onde fora criado, por ter se apresentado ao povo (em um sábado, na sinagoga) como sendo o Filho de Deus e aquele que veio cumprir as profecias sobre a vinda do Messias, registradas no AT (Is 61.1-2 a. Veja também Is 9.1-2 e 42.6-7). 6 Os melhores originais em grego trazem a palavra “gentios” (todos aqueles que não são judeus) em vez de “nações” como consta em várias versões em português.


MATEUS 5 3 “Bem-aventurados1 os pobres2 em

espírito, pois deles é o Reino dos Céus. 4 Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados. 5 Bem-aventurados os humildes, porque herdarão a terra.3 6 Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos. 7 Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. 8 Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus. 9 Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus. 10 Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus. 11 Bem-aventurados sois vós quando vos insultarem, e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós, por minha causa.

10

Exultai e alegrai-vos sobremaneira, pois é esplêndida a vossa recompensa nos céus; porque assim perseguiram os profetas que viveram antes de vós. 12

O cristão deve ser sal e luz 13 Vós sois o sal da terra. Mas se o sal perder o seu sabor, com o que se há de temperar? Para nada mais presta, senão para se lançar fora e ser pisado pelos homens. 14 Vós sois a luz do mundo. Uma cidade edificada sobre um monte não pode ser escondida. 15 Igualmente não se acende uma candeia para colocá-la debaixo de um cesto. Ao contrário, coloca-se no velador e, assim, ilumina a todos os que estão na casa. 16 Assim deixai a vossa luz resplandecer diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai que está nos céus.

1 A KJ de 1611 traz a expressão inglesa blessed (abençoado, bendito, muito feliz) que foi adotada pela maioria das traduções em todo o mundo, inclusive pelas mais modernas. “Bem-aventurados” transmite melhor a idéia do original grego makarios referindo-se a uma felicidade que excede às circunstâncias, que tem a ver com o profundo sentimento de paz e alegria que todos os que foram “abençoados” com a Salvação em Cristo e Seu Reino devem sentir e desfrutar, mesmo em meio às aflições cotidianas. Esse discurso, conhecido como Sermão do Monte, é o primeiro dos cinco grandes temas tratados por Jesus (Mt 5 a 7; Mt 10; 13; 18 e em Mt 24 e 25). São ensinos primeiramente dirigidos aos discípulos (convertidos, que desejam proclamar ao mundo sua fé em Jesus Cristo). A expressão original: “abre a boca”, significa que Jesus passou a falar mais alto para que pudesse ser ouvido pelas demais pessoas ao redor. A proclamação do “Reino dos Céus” é o ponto central da pregação de Jesus. Essa expressão vem do hebraico malekhüth shãmayim. A KJ traduz como “Reino do Céu” mas tanto a palavra grega ouranos como a hebraica shãmayim estão no plural (céus) e têm o mesmo sentido de “Reino de Deus”. Os judeus, por respeito, não mencionavam o nome de Deus e por isso, Mateus, sensível a esse dado cultural, chamou o Reino de Deus de Reino dos Céus. O ser humano não tem em si mesmo força moral e ética para viver como Deus ordena. Por isso Jesus Cristo, que viveu essa plenitude de vida espiritual na terra e venceu o mundo, vem na forma do Espírito Santo habitar na alma humana para ajudar-nos a viver uma nova vida, com uma nova mentalidade, como cidadãos do Seu Reino, dirigidos por Deus.A plenitude dessa vida espiritual se dará no futuro (Ap 21.1-4). 2 A primeira estocada de Jesus atinge diretamente o coração arrogante e presunçoso. Jesus conhecia bem os ensinos dos escribas e fariseus: “Quem cumpre toda a Lei com exatidão é rico no Altíssimo. Quem, além disso, observa literalmente a Halachá (série de tradições judaicas transmitidas pelos pais de geração a geração) será ainda mais rico”. Jesus não estava dizendo que não há bênção em obedecer a Lei, mas sim que um coração soberbo e orgulhoso por cumprir ordenanças e preceitos, não poderá “entrar” (viver com amor, paz, alegria e liberdade) no Reino de Deus. Assim, “pobres em espírito” não é uma contradição nem se refere a pessoas tímidas ou sem poder econômico. Significa sim, que o discípulo (seguidor) de Jesus, aquele que ama a Deus sobre todas as coisas, conhece suas limitações e fraquezas e reconhece que sem a graça do Senhor é impossível viver a vida cristã e que por isso não tem qualquer motivo para se orgulhar, pois o Reino dos Céus é também uma dádiva aos quebrantados, humildes e arrependidos (Jo 3), e não pode ser alcançado através de qualquer esforço, barganha ou talento humano. Reino dos Céus é o domínio de Deus sobre toda a criação, as pessoas e o mundo; tanto no presente como no futuro (Mt 5.3; 12.28 e Rm 14.17). Às vezes refere-se também a um lugar e uma vida futura com Deus (2 Tm 4.18). 3 A KJ traz aqui a palavra inglesa meek que pode ser traduzida como: pacífico, gentil, brando, suave, amável, manso, dócil, submisso, resignado. Entretanto, a palavra: “humilde” é mais fiel ao sentido original do termo em grego e comunica melhor, em português, a idéia dessa qualidade cristã: defender a justiça com paciência e sem amargura, entregando lutas e desafios ao Senhor que tudo julga retamente. Esse caráter cristão, moldado pelo Espírito Santo, nos capacita a perseverar na fé em Cristo ainda que em meio às injustiças, ofensas e falta de reconhecimento neste mundo. A promessa é nada menos do que a terra por herança. Aqueles que aceitam perder algumas coisas nesta terra e neste tempo, mantendo uma fé serena no Senhor, serão os reis de toda a terra no futuro (Ap 5.9-14), pois já vivem no presente como cidadãos do Reino. Seres humanos esses cujas vidas estão sendo transformadas pelo Espírito Santo e cujos frutos de caráter lhes conferem a bênção de serem conhecidos como “bem-aventurados” (muito felizes).


11

A Lei se cumpre em Cristo 17 Não penseis que vim destruir a Lei ou os Profetas. Eu não vim para anular, mas para cumprir. 18 Com toda a certeza vos afirmo que, até 4 que os céus e a terra passem, nem um i ou o mínimo traço se omitirá da Lei até que tudo se cumpra. 19 Qualquer, pois, que violar um destes menores mandamentos e assim ensinar aos homens será chamado o menor no Reino dos Céus; aquele, porém, que os cumprir e ensinar será chamado grande no Reino dos Céus. 20 Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no Reino dos Céus. 21 Ouvistes que foi dito aos antigos: “Não matarás; mas quem assassinar estará sujeito a juízo”.5

MATEUS 5

Eu, porém, vos digo que qualquer que se irar contra seu irmão estará sujeito a juízo. Também qualquer que disser a seu irmão: Racá, será levado ao tribunal. E qualquer que o chamar de idiota estará sujeito ao fogo do inferno.6 23 Assim sendo, se trouxeres a tua oferta ao altar e te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, 24 deixa ali mesmo diante do altar a tua oferta, e primeiro vai reconciliar-te com teu irmão, e depois volta e apresenta a tua oferta. 25 Entra em acordo depressa com teu adversário, enquanto estás com ele a caminho do tribunal, para que não aconteça que o adversário te entregue ao juiz, o juiz te entregue ao carcereiro, e te joguem na cadeia. 26 Com toda a certeza afirmo que de maneira alguma sairás dali, enquanto não pagares o último centavo.7 22

4 A Lei e os Profetas representavam a totalidade do AT, que incluía os Escritos (Sl 78.12-16 é um exemplo desses Escritos e se refere a Êx 7-12 e Nm 13.22, que fazem parte da terceira seção da Bíblia Hebraica). Jesus é o cumprimento das profecias sobre a vinda do Messias e Seu Reino. Ao mesmo tempo, Ele foi o único ser humano a cumprir de maneira plena e fiel a essência da vontade de Deus, não se limitando a uma obediência apenas religiosa, formal e exterior. Jesus levou seu amor pelo Pai e pela humanidade às últimas conseqüências e enfatizou que toda a Palavra de Deus se cumprirá. Nem a menor letra do alfabeto hebraico: (yod); em grego: i(iôta) que corresponde à letra “i” em português; nem mesmo o menor sinal gráfico (pequeno traço) que serve para distinguir certas letras hebraicas, e que pode alterar o sentido de uma expressão, serão suprimidos das Sagradas Escrituras. Jesus usa essa bem elaborada hipérbole para evidenciar a veracidade e autoridade da Palavra de Deus até o final dos tempos. As próprias Escrituras testemunham acerca de Jesus de Nazaré como Filho de Deus, Messias (Cristo), Rei dos Reis, Senhor do Universo, nosso Salvador para toda a eternidade (Mc 14.49; Lc 24.27; Jo 10.35; At 18.24; 2Tm 3.16, 2Pe 1.20-21). Jesus desejava que os doutores da Lei observassem essa verdade nas Escrituras, uma vez que o povo já estava aceitando que Jesus Cristo era o Messias, pelas obras que realizava e o poder de suas palavras. 5 Jesus toma como exemplo a situação mais drástica da Lei: a morte (Êx 20.13; Dt 5.17) para demonstrar o que significa compreender e obedecer ao espírito da Lei e não apenas à letra. Ou seja, uma vida no sentido mais amplo e saudável dos mandamentos de Deus, em vez da interpretação meramente externa e restrita feita pela tradição rabínica. A KJ traz a palavra murder (assassinar), pois os verbos em hebraico e grego usados nesse texto e em Êx 20.13 têm especificamente esse sentido claro. 6 Jesus demonstra como entender o sentido mais abrangente da Lei, ao relacionar o pecado de tirar a vida de alguém (assassinato) com erros, aparentemente menos graves, como irar-se contra um irmão ou insultar alguém. A KJ e as versões de Almeida acrescentam “sem motivo se irar”. Entretanto, os mais antigos e melhores originais gregos não trazem essa expressão. Jesus revela que a ofensa verbal está no mesmo nível de um assassinato. Racá era uma antiga expressão aramaica rêqâ’ que originou a palavra hebraica rêquïm usada no tempo dos juízes (Jz 11.3) para indicar pessoas de mau caráter, levianas e traidoras. De maneira curiosa, essa era uma expressão freqüentemente usada na tradição rabínica, associada ao vocábulo nãbhãl (néscio), para se referir aos insensatos e sem sabedoria. Já a palavra grega more, traduzida, em algumas versões, como “louco”, tem sua origem na expressão hebraica moreh (desgraçado), alguém que por não crer em Deus merecia o inferno. O cerne do ensino de Jesus está em que o pecado que leva alguém a ofender outra pessoa é o mesmo que motiva o assassinato. O vocábulo grego synedrio cujo correspondente hebraico é sanhedrïn refere-se ao mais alto tribunal dos judeus, que se reunia em Jerusalém. A KJ traduziu o termo para o inglês council (conselho), por se tratar da reunião dos sábios que julgavam as causas do povo. Synedrion deu origem à expressão grega presbyterion que significa “corpo de anciãos” (Lc 22.66; At 22.5) e gerousia “senado” (At 5.21). A expressão “fogo do inferno” tem a ver com o vale de Hinom em hebraico ge’hinnom que deu origem ao nome grego do lugar: geena. Durante o reinado dos perversos Acaz e Manassés, sacrifícios humanos ao deus amonita Moloque foram realizados em geena. Josias profanou o vale por causa das oferendas pagãs que realizou naquele lugar (2Rs 23.10; Jr 7.31,32; 19.6). Com o passar do tempo, esse vale se transformou num grande depósito de lixo, constantemente em chamas, o que fez a palavra geena significar o lugar dos perdidos, imprestáveis e destinados ao fogo que nunca se apaga. 7 Graças a Jesus temos a bênção do perdão à nossa disposição. Não fosse essa graça seríamos todos consumidos pela Lei. Os cristãos devem, então, perdoar tudo e a todos, pedir perdão e procurar a paz com todos aqueles que se sentirem ofendidos


MATEUS 5

Adultério no coração 27 Ouvistes o que foi dito: ‘Não cometerás adultério’. 28 Eu, porém, vos digo, que qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, em seu coração, já cometeu adultério com ela. 29 Se o teu olho direito te leva a pecar, arranca-o e lança-o fora de ti; pois te é mais proveitoso perder um dos teus membros do que todo o teu corpo ser lançado no inferno. 30 E, se tua mão direita te fizer pecar, corta-a e atira-a para longe de ti; pois te é melhor que um dos teus membros se perca do que todo o teu corpo seja lançado no inferno.

12

Entretanto, Eu vos afirmo: Não jureis de forma alguma; nem pelos céus, que são o trono de Deus; 35 nem pela terra, por ser o estrado onde repousam seus pés; nem por Jerusalém, porque é a cidade do grande Rei. 36 E não jures por tua cabeça, pois não tens o poder de tornar um fio de cabelo branco ou preto. 37 Seja, porém, o teu sim, sim! E o teu não, não! O que passar disso vem do Maligno.8 34

O casamento é sagrado 31 Foi dito também: ‘Aquele que se divorciar de sua esposa deverá dar a ela uma certidão de divórcio’. 32 Eu, porém, vos digo: Qualquer que se divorciar da sua esposa, exceto por imoralidade sexual, faz com que ela se torne adúltera, e quem se casar com a mulher divorciada estará cometendo adultério.

Jamais use a vingança 38 Ouvistes o que foi dito: “Olho por olho e dente por dente”. 39 Eu, porém, vos digo: Não resistais ao perverso; mas se alguém te ofender com um tapa na face direita, volta-lhe também a outra. 40 E se alguém quiser processar-te e tirar-te a túnica, deixa que leve também a capa. 41 Assim, se alguém te forçar a andar uma milha, vai com ele duas. 42 Dá a quem te pedir e não te desvies de quem deseja que lhe emprestes algo.9

Votos e juramentos 33 Também ouvistes o que foi dito aos antigos: ‘Não jurarás falso, mas cumprirás rigorosamente teus juramentos ao Senhor’.

Ame os que o odeiam 43 Ouvistes o que foi dito: ‘Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo’. 44 Eu, porém, vos digo: Amai os vossos

com alguma de suas atitudes. Jesus não entra no mérito se o cristão está certo ou não, apenas ordena que a reconciliação seja promovida o mais rápido possível e que a iniciativa seja sempre da parte daquele que crê em Deus. Jesus usa o exemplo do judeu religioso e temente ao Senhor em um de seus atos mais sublimes — o sacrifício oferecido a Deus de acordo com a lei mosaica, para ensinar que não pode haver culto, oração ou oferta maior do que um coração limpo, sincero, humilde, perdoador e em paz com Deus e com os semelhantes. Em seguida, por meio de uma parábola, Jesus exorta os cristãos que estão em demanda com alguém a que se apressem a negociar um acordo e estabeleçam a paz, antes que a questão se prolongue demais e acabe na justiça onde não há misericórdia, apenas a lei. 8 No AT juramentos em nome do Senhor eram obrigatórios em determinadas ocasiões: quando a palavra necessitava de um fiador idôneo ou mesmo diante de um voto. A quebra da palavra empenhada era um ato sujeito às penas da Lei (Êx 20.7; Lv 19.12; Dt 19.10-19). Deus era (e é) o juiz onisciente de toda a falsidade. “...tão certo como o Senhor vive” (1Sm 14.39). Essa ênfase na santidade dos votos ocorria devido à falsidade costumeira entre as pessoas em seus acordos cotidianos. Jesus ensina que o verdadeiro cristão deve ser autêntico e sincero em suas afirmações; afastando-se de toda a ambigüidade e falsidade comuns neste mundo controlado pelas forças do Diabo. 9 Jesus trabalha as questões universais do direito. De fato toda a humanidade participa de um grande julgamento, envolvendo todos os povos de todos os tempos, no qual Cristo é nosso Advogado e garantia absoluta. Jesus começa citando a antiga Lei da Retaliação (Lv 24.20). Entre os judeus, na época de Jesus, o ato de bater na face direita de alguém, com as costas da mão, era um insulto e uma provocação; não exatamente uma agressão. O insultado poderia revidar ou ir ao tribunal pleitear uma punição, em dinheiro, pela ofensa. Jesus exorta seus discípulos a oferecer a outra face, em sinal de paz e disposição para um acordo. A próxima ilustração tem a ver com as leis dos fariseus: um credor tinha o direito de exigir a túnica do devedor por uma dívida não paga. Quando não a recebia por bem, tinha o direito de exigi-la por meio de um processo jurídico. Mas, de acordo com Dt 24.1013, deveria ceder a roupa ao dono, conforme suas necessidades diárias de uso. Diante dessas questões jurídicas mesquinhas,


13

inimigos e orai pelos que vos perseguem; 45 para que vos torneis filhos do vosso Pai que está nos céus, pois que Ele faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos. 46 Porque se amardes os que vos amam, que recompensa tendes? Não fazem os publicanos igualmente assim?10 47 E, se saudardes somente os vossos irmãos, que fazeis de notável? Não agem os gentios também dessa maneira? 48 Assim sendo, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai que está nos céus. Como viver no Reino Guardai-vos de fazer a vossa caridade e obras de justiça diante dos homens, com o fim de serem vistos por eles; caso contrário, não tereis qualquer recompensa do vosso Pai que está nos céus. 2 Por essa razão, quando deres um donativo, não toques trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Com toda a certeza vos afirmo que eles já receberam o seu galardão. 3 Tu, porém, quando deres uma esmola ou ajuda, não deixes tua mão esquerda saber o que faz a direita.

6

MATEUS 5, 6

Para que a tua obra de caridade fique em secreto: e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará. 4

A oração modelo 5 E, quando orardes, não sejais como os hipócritas, pois que apreciam orar em pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem admirados pelos outros. Com toda a certeza vos afirmo que eles já receberam o seu galardão. 6 Tu, porém, quando orares, vai para teu quarto e, após ter fechado a porta, orarás a teu Pai, que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará plenamente. 7 E, quando orardes, não useis de vãs repetições, como fazem os pagãos; pois imaginam que devido ao seu muito falar serão ouvidos. 8 Portanto, não vos assemelheis a eles; porque Deus, o vosso Pai, sabe tudo de que tendes necessidade, antes mesmo que lho peçais. 9 Por essa razão, vós orareis: Pai nosso, que estás nos céus! Santificado seja o teu Nome. 10 Venha o teu Reino. Seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu.

Jesus exorta os discípulos a serem altruístas. Se credores, a desistir do penhor; se devedores, a dar além do devido, entregando também a capa que era vestida sobre a túnica. Para o discípulo de Jesus, o direito jurídico já foi abolido na Cruz, a nova ordem é a Lei do Amor em Cristo. Outra metáfora de Jesus reforça essa idéia. Tem a ver com o costume judaico de se pedir a companhia de alguém numa viagem pelas perigosas estradas da época. Quando alguém se negava, e acontecia um crime, essa pessoa era responsabilizada pela sua comunidade local, por não ter atendido ao pedido do viajante. O verbo grego traduzido aqui por “forçar” advém de uma antiga palavra persa que significa “recrutar à força”. Curiosamente, é a mesma palavra que aparece no final deste livro, em Mt 27.32, quando os soldados romanos “recrutam à força” Simão, para ajudar Jesus a carregar sua cruz. Os fariseus haviam imposto uma lei: “devemos acompanhar somente a outro fariseu, não devemos caminhar com os incrédulos”. Jesus, entretanto, vai além, e ensina que seus discípulos, ao serem solicitados por qualquer viajante a andar 1.609 metros (uma milha), devem graciosamente estar prontos para caminhar em sua companhia por mais de três quilômetros (duas milhas). Ou seja, exceder em amor, graça e misericórdia ao que pede a Lei. 10 O termo publicano (palavra latina com origem no grego telõnês) denominava um coletor de impostos a serviço do império romano. Esses homens eram odiados por causa da impiedade com que exploravam o povo. Para os judeus, o publicano era imundo, pois estava sempre em contato com os gentios. A palavra “publicano” tornou-se sinônimo de egoísmo, desonestidade, falsidade, impiedade e incredulidade. Gentios (em hebraico gôyïm e do grego ethnikoi ou Hellênes traduzido pela Vulgata, em latim, como gentiles) era um termo geral para significar “nações”. Entretanto, na época de Jesus, esse termo era usado pelos judeus para se referir, em tom discriminatório e preconceituoso, a todas as pessoas que não fossem israelenses. Para os mestres e doutores da Lei, os “gentios” eram idólatras, imorais e pecadores. Um judeu chamado de gentio significava um publicano; ou seja, uma pessoa impura, incrédula, mau-caráter, inescrupulosa, impiedosa e digna de todo o desprezo. Jesus resgata o valor real dos “gentios” (das nações) e convida a todos para Seu Reino (Rm 1.16; Cl 3.11; Gl 2.14; Ap 21.24; 22.2). Jesus conclui essa parte do seu ensino revelando o segredo da ética cristã: o amor deve fazer muito mais do que a obrigação. Este foi o testemunho de Cristo e este deve ser o objetivo maior dos cristãos: buscar o amor perfeito do Pai e agir assim, como filhos amados de Deus, para que outros vejam a luz de Cristo e sejam libertos das trevas deste mundo.


MATEUS 6

Dá-nos hoje o nosso pão diário. Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como perdoamos aos nossos devedores. 13 E não nos conduzas à tentação, mas livra-nos do Maligno.1 Porque teu é o Reino, o poder e a glória para sempre. Amém. 14 Pois, se perdoardes aos homens as suas ofensas, assim também vosso Pai celeste vos perdoará. 15 Entretanto, se não perdoardes aos homens, tampouco vosso Pai vos perdoará as vossas ofensas. 11 12

Jejuar é adorar a Deus 16 Quando jejuardes, não vos mostreis com aspecto sombrio como os hipócritas; pois desfiguram o rosto com a intenção de mostrar às pessoas que estão jejuando. 17 Tu, porém, quando jejuares, unge tua cabeça e lava o rosto. 18 Pois, assim, não parecerá aos outros que jejuas; e, sim, ao teu Pai em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.

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Investir os recursos no céu 19 Não acumuleis para vós outros tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem destroem, e onde ladrões arrombam para roubar. 20 Mas ajuntai para vós outros tesouros no céu, onde a traça nem a ferrugem podem destruir, e onde os ladrões não arrombam e roubam. 21 Porque, onde estiver o teu tesouro, aí também estará o teu coração. Um corpo iluminado 22 Os olhos são a lâmpada do corpo. Portanto, se teus olhos forem bons, teu corpo será pleno de luz. 23 Porém, se teus olhos forem maus, todo o teu corpo estará em absoluta escuridão. Por isso, se a luz que está em ti são trevas, quão tremendas são essas trevas!SSE Servir somente a Deus 24 Ninguém pode servir a dois senhores; pois odiará um e amará o outro, ou será leal a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mâmon.2

1 Jesus ensina a seus seguidores o caminho da verdadeira adoração e comunicação com Deus. O primeiro passo é a humildade, em contraste com o estilo dos fariseus, escribas, publicanos e gentios, que viviam uma religiosidade apenas de aparência, formal e estéril. Os discípulos deveriam também evitar as “vãs repetições”, pois essa era a maneira como os pagãos (aqueles que não passaram pelo batismo, também chamados de “gentios”) tentavam sensibilizar seus deuses para obter favores. Nessa época, os adoradores de Baal (1Rs 18.26-28) estavam cativando até judeus fiéis com suas hipocrisias (encenações teatrais, do grego hupokrites, ator). Por isso Jesus oferece um modelo de oração: O nascimento espiritual dá ao cristão o direito de ser filho de Deus (Jo 3) e, portanto, pode orar a Deus como quem conversa com seu pai amado (em aramaico: Abba, Mc 14.36; Rm 8.15, Gl 4.6). Devemos desejar e trabalhar pelo estabelecimento do Reino de Deus, em nossas vidas e comunidades, ao receber pessoalmente o Espírito Santo, que traz salvação, paz, alegria, e a justiça de Cristo. Reino esse que será estabelecido de forma plena no futuro iminente, quando Jesus voltar, e o último Inimigo for vencido definitivamente (2Ts 2.8; 1Co 15.23-28). Assim a terra usufruirá a mesma glória de Deus que há nos céus (2Pe 3.13). O cristão reconhece que é o Senhor quem supre diariamente todas as nossas necessidades, e é grato por isso. A fome, as guerras e outros sofrimentos sociais não ocorrem por indiferença da parte de Deus, mas pelos pecados dos indivíduos (malignidade) e das nações. Devemos nos lembrar de perdoar as pessoas que nos devem (bens materiais ou justiça) com a mesma misericórdia e generosidade com que Deus nos perdoa sempre (1Jo 1.5-9). Observemos como Jesus ressalta a importância do perdão no Reino de Deus (6.14,15). O servo do Senhor é o alvo favorito dos ataques e artimanhas do Diabo. Mas Deus tem o poder de nos livrar de todo o mal e levar-nos, para lugar seguro, longe do alcance dos demônios. Não há amargura, decepção, fraqueza, vício, perda ou dor maiores do que o amor e o poder de Deus (Tg 1.13; 1Co 6.18; 10.14; 1Tm 6.11; 2Tm 2.22). A maioria das versões da Bíblia em português inclui a frase: “...e não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal...”. A KJ apresenta a expressão inglesa: “...and do not lead us into temptation...” (...e não nos induzas à tentação...). Os melhores originais gregos nos permitem traduzir: “...e não nos conduzas à tentação...”. A palavra grega peirasmos aqui significa “tentação”, podendo significar também: “teste ou provação” em outros trechos. Assim, a tentação, que do ponto de vista do Diabo é sempre uma cilada para nos destruir, do ponto de vista de Deus é uma oportunidade para fortalecimento da fé e crescimento espiritual (Lc 22.32). Deus controla o universo visível e invisível, incluindo o Maligno e seu reino; por isso, é ao Senhor que devemos pedir livramento das tentações e forças para vencer as provações (1Co 10.13). Jesus deixa bem claro em sua oração-modelo, que o cristão somente consegue a vitória, vigiando e orando. O próprio Jesus venceu sua grande batalha contra Satanás, com jejum (4.2), e recomendou que seus discípulos também usassem essa arma ao lado das orações, e do contínuo louvor a Deus, contra os desígnios do Inimigo (9.15; 17.21). 2 Jesus escolhe uma palavra aramaica Mâmon para personificar um dos mais poderosos deuses pagãos de todos os tempos: o Dinheiro. O adjetivo Mâmon, deriva do verbo aramaico amân (sustentar) e significa amor às riquezas e dedicação avarenta aos


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Descanso na providência divina 25 Portanto, vos afirmo: não andeis preocupados com a vossa própria vida, quanto ao que haveis de comer ou beber; nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais do que as roupas? 26 Contemplai as aves do céu: não semeiam, não colhem, nem armazenam em celeiros; contudo, vosso Pai celestial as sustenta. Não tendes vós muito mais valor do que as aves? 27 Qual de vós, por mais que se preocupe, pode acrescentar algum tempo à jornada da sua vida?3 28 E por que andais preocupados quanto ao que vestir? Observai como crescem os lírios do campo. Eles não trabalham nem tecem. 29 Eu, contudo, vos asseguro que nem Salomão, em todo o esplendor de sua glória, vestiu-se como um deles. 30 Então, se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada ao fogo, quanto mais a vós outros, homens de pequena fé? 31 Portanto, não vos preocupeis, dizendo: Que iremos comer? Que iremos beber? Ou ainda: Com que nos vestiremos?

MATEUS 6, 7

32 Pois são os pagãos que tratam de obter

tudo isso; mas vosso Pai celestial sabe que necessitais de todas essas coisas. 33 Buscai, assim, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas. 34 Portanto, não vos preocupeis com o dia de amanhã, pois o amanhã trará suas próprias preocupações. É suficiente o mal que cada dia traz em si mesmo. Amar mais e julgar menos Não julgueis, para que não sejais julgados.1 2 Pois com o critério com que julgardes, sereis julgados; e com a medida que usardes para medir a outros, igualmente medirão a vós. 3 Por que reparas tu o cisco no olho de teu irmão, mas não percebes a viga que está no teu próprio olho? 4 E como podes dizer a teu irmão: Permite-me remover o cisco do teu olho, quando há uma viga no teu? 5 Hipócrita! Tira primeiro a trave do teu olho, e então poderás ver com clareza para tirar o cisco do olho de teu irmão.2 6 Não deis o que é sagrado aos cães, nem

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interesses mundanos. Jesus orienta seus seguidores a investir suas vidas na conquista de bens espirituais agradáveis ao Senhor e adverte para a impossibilidade de se servir com lealdade a Deus e ao mesmo tempo amar o deus Dinheiro. Isso não quer dizer que Jesus seja contra os ricos e prósperos, mas, sim, que o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males (Gn 13.2; Ec 3.13; 5.1019; 10.19; 1Tm 6.10). O dinheiro é para ser usado e as pessoas, amadas. A inversão desses valores tem sido a razão de muitas desgraças (Is 52.3; 55.1; Rm 4.4; 1Tm 5.18). 3 A palavra grega psyche (alma) significa: “vida”, pois nas Escrituras, “alma” tem um sentido de algo diferente do atual, derivado da filosofia grega, especialmente a partir de Platão. Na Bíblia, a palavra “alma” vem da expressão hebraica nephesh que significa “personalidade” e indica o centro das emoções e apetites. Por isso, em toda a Bíblia, o comer e o beber são considerados como funções da alma. Algumas vezes pode também se referir à vida natural em contraste com a vida espiritual (Hb 4.12). Jesus usa uma figura de linguagem para ensinar duas verdades: “Deus existe, e você não é Ele”. As preocupações tentam minimizar o poder de Deus e colocar um peso insuportável sobre nossas costas. A versão de Almeida traduz a expressão grega helikia por “estatura”; porém, melhores originais e estudos mais acurados, mostram que o termo se refere a tempo e idade. Em certo sentido, essa expressão de Jesus poderia ser traduzida assim: “Ninguém ultrapassa, nem por meio metro, o ponto final da sua existência na terra”. Por isso, Jesus recomenda um estudo (análise, consideração filosófica) sobre a maneira cuidadosa, generosa e particular com que Deus trata cada um dos seres mais simples da terra, e os reveste de grande glória (1Rs 1-11; 1Cr 28; 2Cr 9; 1Rs 10.4-7). Concluindo: temos uma visão distorcida da vida e de nossas prioridades. Somente a busca do Reino de Deus vai nos colocar em harmonia com o Criador, e, assim, descobriremos a tão almejada paz, justiça e real felicidade (Jo 6.52-59; Jo 10.10, Rm 3.21-31 e 14.17-18). Capítulo 7 1 Jesus mostra que é possível ajudar nosso semelhante com conselhos e críticas (v. 5 e 23.13-39), bem como devemos estar sempre dispostos a aprender, avaliar e ensinar (Rm 2.1; 1Co 5.9; 2Co 11.14; Fp 3.2; 1Jo 4.1; 1Ts 5.21).Entretanto, como cristãos, nosso dever é amar antes de julgar. Um coração repleto do amor de Deus não será acusador, mesquinho, invejoso, crítico contumaz ou difamador. A marca do cristão deveria ser seu amor irrestrito e altruísta pelo próximo, em especial por seus irmãos em Cristo (Jo 13.5; Jo 14.15; Rm 12.10; 1Pe 1.22). 2 Jesus usou muitas histórias (parábolas) e figuras de linguagem para ensinar. Em 19.24, por exemplo, Ele fala de um camelo passando pelo fundo de uma agulha. Nesta outra hipérbole, Ele compara uma partícula de serragem ou pedaço de qualquer


MATEUS 7

jogueis aos porcos as vossas pérolas, para que não as pisoteiem e, voltando-se, vos façam em pedaços. Perseverança na oração 7 Pedi, e vos será concedido; buscai, e encontrareis; batei, e a porta será aberta para vós. 8 Pois todo o que pede recebe; o que busca encontra; e a quem bate, se lhe abrirá. 9 Ou qual dentre vós é o homem que, se o filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra? 10 Ou se lhe pedir peixe, lhe entregará uma cobra? 11 Assim, se vós, sendo maus, sabeis dar bons presentes aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai que está nos céus dará o que é bom aos que lhe pedirem!3 12 Portanto, tudo quanto quereis que as pessoas vos façam, assim fazei-o vós também a elas, pois esta é a Lei e os Profetas.4 Os dois únicos caminhos 13 Entrai pela porta estreita, pois larga é a porta e amplo o caminho que levam à perdição, e muitos são os que entram por esse caminho. 14 Porque estreita é a porta e difícil o caminho que conduzem à vida, apenas uns poucos encontram esse caminho!5

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Pelo fruto se conhece a árvore 15 Acautelai-vos quanto aos falsos profetas. Eles se aproximam de vós disfarçados de ovelhas, mas no seu íntimo são como lobos devoradores. 16 Pelos seus frutos os conhecereis. É possível alguém colher uvas de um espinheiro ou figos das ervas daninhas? 17 Assim sendo, toda árvore boa produz bons frutos, mas a árvore ruim dá frutos ruins. 18 A árvore boa não pode dar frutos ruins, nem a árvore ruim produzir bons frutos. 19 Toda árvore que não produz bons frutos é cortada e atirada ao fogo. 20 Portanto, pelos seus frutos os conhecereis. 21 Nem todo aquele que diz a mim: ‘Senhor, Senhor!’ entrará no Reino dos céus, mas somente o que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. 22 Muitos dirão a mim naquele dia: ‘Senhor, Senhor! Não temos nós profetizado em teu nome? Em teu nome não expulsamos demônios? E, em teu nome, não realizamos muitos milagres?’ 23 Então lhes declararei: Nunca os conheci. Afastai-vos da minha presença, vós que praticais o mal. O sábio e o insensato 24 Assim, todo aquele que ouve estas

material com uma grande trave (viga) de madeira usada na estrutura de construções, para destacar a humildade, carinho e sensibilidade que devemos ter para com nosso semelhante, quando tivermos de emitir um juízo, criticar ou aconselhar. Pois somos sujeitos a erros, fraquezas e dificuldades iguais ou maiores que os de qualquer pessoa. 3 Jesus explica que o bem e o mal têm, às vezes, certa semelhança inicial, podendo enganar alguém ingênuo ou desinformado. A pedra a que Jesus se refere era parecida com os pães orientais da época: redondos, achatados e endurecidos (por isso o pão suportava longas viagens e era quebrado para ser servido). A cobra peçonhenta é semelhante às enguias comestíveis, apreciadas pela culinária da época. O Senhor é Pai bondoso e fica feliz em dar os presentes (dádivas) que seus filhos lhe pedem, mas só Ele sabe o que é realmente bom para cada um de nós. 4 Este versículo é conhecido em todos os continentes como “A Regra de Ouro”, a manifestação prática do amor cristão. Orienta-nos Jesus aqui quanto ao procedimento diário: o amor, sem egoísmos, deve ser a força motriz das nossas ações (1Co 13.4-8), concedendo ao próximo o que buscamos para nosso próprio bem. Devemos chegar ao ponto máximo do amor e da fé em Deus, que é retribuir com o bem a qualquer pessoa que, por algum motivo, nos ferir ou fizer qualquer mal. Foi assim que Deus respondeu à rebelião e indiferença da humanidade, oferecendo-se em sacrifício, para nos salvar pela Graça (Ef 2.8-9). A “Lei e os Profetas” é uma referência a toda a Escritura Sagrada, tanto em sua letra como em seu pleno conteúdo (Rm 13.8-10; Mt 5.17). 5 Jesus denomina o caminho para o céu de “porta estreita” ou “caminho difícil”, em algumas versões “caminho apertado”. Não porque Deus tenha diminuído sua generosidade, graça e desejo de salvar a todos (2Pe 3.9), ao contrário, estamos vivendo a “Época da Graça” onde todos – mais do que nunca – são bem-vindos ao Reino de Deus. Entretanto, poucos permanecerão no Caminho, porque jamais foram dele realmente, e não suportam o negar-se a si mesmo, as renúncias do “Eu” nem os apelos de uma sociedade cada vez mais hedonista e materialista. A idéia e a figura dos dois caminhos é muito anterior a Cristo, data de 400 a.C e foi difundida através do trabalho filosófico de Sócrates. O mesmo pensamento reaparece em duas grandes obras do primeiro século depois de Cristo: Didaquê e Epístola de Barnabé.


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minhas palavras e as pratica será comparado a um homem sábio, que construiu a sua casa sobre a rocha. 25 E caiu a chuva, vieram as enchentes, sopraram os ventos e bateram com violência contra aquela casa, mas ela não caiu, pois tinha seus alicerces na rocha. 26 Pois, todo aquele que ouve estas minhas palavras e não as pratica é como um insensato que construiu a sua casa sobre a areia. 27 E caiu a chuva, vieram as enchentes, sopraram os ventos e bateram com violência contra aquela casa, e ela desabou. E grande foi a sua ruína”. 28 Quando Jesus acabou de pronunciar estas palavras, estavam as multidões atônitas com o seu ensino. 29 Porque Ele as ensinava como quem tem autoridade, e não como os mestres da lei.6 Jesus purifica o imundo Quando Ele desceu do monte, grandes multidões o seguiram. 2 E eis que um leproso, tendo-se aproximado, adorou-o de joelhos e clamou: “Senhor, se é da tua vontade podes purificar-me!” 3 Então, Jesus, estendendo a mão, tocou-lhe, dizendo: “Eu quero. Sê limpo!” E no mesmo instante ele ficou purificado da lepra.

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MATEUS 7, 8

Em seguida, disse-lhe Jesus: “Veja que não digas isto a ninguém, mas segue, mostra teu corpo ao sacerdote, e faze a oferta que Moisés ordenou, para que sirva de testemunho.”1 4

Um comandante romano crente 5 Entrando Jesus em Cafarnaum, dirigiuse a ele um centurião, suplicando:2 6 “Senhor, meu servo está em casa, paralítico e sofrendo horrível tormento”. 7 Então, Jesus lhe disse: “Eu irei curá-lo”. 8 Ao que respondeu o centurião: “Senhor, não sou digno de receber-te sob o meu teto. Mas dize apenas uma palavra, e o meu servo será curado. 9 Porque eu também sou homem debaixo de autoridade e tenho soldados às minhas ordens. Digo a um: Vai, e ele vai; e a outro: Vem, e ele vem. Ordeno a meu servo: Faze isto, e ele o faz”. 10 Ao ouvir isto, Jesus maravilhou-se, e disse aos que o seguiam: “Com toda a certeza vos afirmo que nem mesmo em Israel encontrei alguém com tão grande fé. 11 Digo-vos que muitos virão do Oriente e do Ocidente e tomarão lugares à mesa com Abraão, Isaque e Jacó no Reino dos céus. 12 Entretanto, os herdeiros do Reino serão lançados para fora, nas trevas, onde haverá choro e ranger de dentes”.3 13 Então disse Jesus ao centurião: “Vai-te, e da maneira como creste, assim te su-

6 Os doutores da lei (em grego grammateis, nomikoi) e os mestres da lei (em grego nomodidaskaloi) eram técnicos no estudo da lei de Moisés (Torah). Em princípio era uma função reservada aos sacerdotes. Esdras, um homem de Deus, acumulou as funções de sacerdote e escriba (em hebraico sôpherïm). Veja Ne 8.9. Com o passar do tempo, os escribas se tornaram extremamente formais e espiritualmente estéreis. Além disso, muitos se envolveram com o partido político dos fariseus e deixaram de ser imparciais em relação ao ensino da lei. Jesus, entretanto, ensinava com “exousia”, em grego, “poder sobrenatural” que a todos deixava maravilhados, pasmos, atônitos (1Co 2.4-5). Isso despertou a inveja e o ódio de muitos “líderes religiosos” contra Jesus Cristo. Capítulo 8 1 A lei de Moisés (Lv 13,14) ordenava que em casos de doenças de pele, especialmente a lepra, somente um sacerdote ou seu filho poderia realizar a cerimônia de purificação. O conceito de quarentena (para isolamento e tratamento de doenças infecciosas) teve início naquela época. Para os judeus, a çãra’ath, palavra hebraica para um dos tipos de hanseníase, simbolizava o pecado, por ser nojento, contagioso e incurável. Além disso, o sacerdote que tocava no leproso tornava-se cerimonialmente imundo. Jesus ao curar um homem da mais terrível doença de sua época, revela ao mundo parte de sua natureza e ministério. As instruções mosaicas para o cerimonial de purificação dos imundos tipificam a nossa redenção em Cristo (Lv 14.2-32). 2 A centúria era uma divisão do exército romano, formada por cem homens e comandada por um centurião. Cornélio, um outro centurião gentio, convertido, foi notável exemplo de cristão (At 10). 3 A tradição rabínica considerava o judaísmo como uma garantia herdada e absoluta de entrada no Reino de Deus, e por isso também se dizia: “filhos do reino” (Is 41.8). Embora, os judeus sejam de fato o povo escolhido, Jesus está comemorando a entrada dos gentios (todos os que não são judeus) no Reino do Pai, como verdadeiros filhos (Sl 107.3; Is 49.12; 59.19; Ml 1.11). Jesus demonstra seu lado humano ao ficar admirado (surpreso) com a fé e a compreensão que aquele homem, não-judeu, demonstrou


MATEUS 8

cederá!” E naquela mesma hora o servo foi curado. Jesus salva, cura e liberta 14 Tendo Jesus chegado à casa de Pedro, viu a sogra deste acamada, enferma e com febre. 15 Então, Jesus tocou a mão dela e a febre a deixou. Em seguida, levantou-se ela e passou a servi-lo. 16 No início da noite, trouxeram-lhe muitos endemoninhados; e Ele, com apenas uma palavra, expulsou os espíritos e curou todos os que estavam doentes. 17 Assim se cumpriu o que fora dito por intermédio do profeta Isaías: “Ele tomou sobre si as nossas enfermidades e pessoalmente levou as nossas doenças”.4 A prioridade do discipulado 18 Quando Jesus viu que uma multidão o rodeava, ordenou que atravessassem para o outro lado do mar. 19 Então, aproximando-se dele um escriba, disse-lhe: “Mestre, seguir-te-ei para onde quer que fores”. 20 Jesus lhe respondeu: “As raposas têm

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suas tocas e as aves do céu têm seus ninhos, mas o Filho do homem não tem onde repousar a cabeça”. 21 Outro de seus discípulos lhe disse: “Senhor, permite-me ir primeiro sepultar meu pai”. 22 Ao que Jesus lhe respondeu: “Segueme e deixa que os mortos sepultem os seus próprios mortos”. Jesus domina as circunstâncias 23 Entrando Jesus no barco, seus discípulos o seguiram. 24 De repente, sobreveio no mar uma violenta tempestade, de tal maneira que as ondas encobriam o barco. Ele, contudo, dormia. 25 Então, seus discípulos vieram despertá-lo, clamando: “Senhor, salva-nos! Vamos todos perecer!” 26 Mas Jesus disse a eles: “Por que estais com tanto medo, homens de pequena fé? E, levantando-se, repreendeu os ventos e o mar, e houve plena calmaria. 27 Então, os homens maravilhados, exclamaram: “Quem é este que até os ventos e o mar lhe obedecem?”.

ter acerca do seu poder e autoridade divina. Aproveita o evento para proclamar a salvação para todos os povos e raças (22.1-14; Lc 14.15-24), ao mesmo tempo em que adverte duramente aos judeus quanto ao fato de que a herança da vida eterna e do Reino está em crer em Deus e na aceitação de Seu Filho que veio ao mundo para salvar todos os seus. De agora em diante a humanidade não seria mais dividida entre judeus e gentios (os próximos e os distantes de Deus); mas, sim, entre crentes e descrentes. O padrão de reconhecimento da herança não repousa mais sobre a nacionalidade ou linhagem judaica, mas numa fé sincera e absoluta no Senhor (Sl 147.13,20; Mt 4.17; 9.28; Mc 4.40; 11.22; Lc 5.20; Jo 5.37-47; 8.45; At 14.16). Por isso acontecerá que do oriente e do ocidente (de todo o mundo) virão gentios para o Reino (Is 49.12) e terão o direito de se assentar ao lado dos grandes pais da fé, pois aceitaram a Graça da Salvação (Ef 2.8). Jesus conclui duramente, que muitos judeus, “herdeiros do Reino” (sacerdotes ou filhos do reino) tornaram-se “filhos da desobediência” (piores dos que os pagãos e gentios), razão pela qual serão expulsos para o “reino dos mortos” (sheol, em hebraico e hades, em grego), onde haverá tanto remorso e tristeza que se ouvirá o som do bater dos queixos das pessoas aterrorizadas. Nesse estado intermediário entre a morte e a ressurreição (sheol ou hades), os salvos gozarão de paz e descanso, enquanto os incrédulos estarão na escuridão (um lugar chamado: inferno) e sob tormentos. Na ressurreição, os salvos habitarão plenamente o Reino, e os incrédulos (judeus ou não) sofrerão a segunda morte e serão banidos para o lugar de punição e fogo eterno ou lago de fogo (em grego ten geennan tou pyros). Onde até mesmo o inferno será lançado (Ap 20). 4 Ao contrário do que alguns céticos e críticos afirmam, Jesus não andava com o AT nas mãos procurando cumprir profecias. Mas, a cada instante, um evento admirável ocorria e seus discípulos, e todos os que conheciam a Lei e os Profetas testemunhavam, na pessoa de Jesus o cumprimento de várias profecias messiânicas do AT. Tudo isso diante dos olhos atônitos de todos. Algumas dessas profecias haviam sido escritas há mais de 1.000 anos antes que Jesus começasse a andar pelas terras da Palestina pregando a Nova Aliança, como é o caso do Salmo 22 e outros (Sl 2,8,16,40,41,45,68,69,89,102,109,110 e 118). A profecia de Isaías 53.4 (cerca de 750 a.C segundo os melhores estudos sobre os Papiros do Mar Morto) nos revela que Jesus, o Messias (Palavra hebraica que significa: Rei Ungido, e que foi traduzida para o grego como: Cristo), refere-se ao ministério de cura e libertação de Jesus, cuja obra lhe custou caro fisicamente (Mc 5.30, Lc 8.46). Os cristãos, hoje em dia, podem ter uma idéia desse desgaste físico e emocional quando participam ativamente de qualquer dos ministérios da Igreja: exposição da Palavra, evangelização, louvor, adoração, missões, cura, libertação, aconselhamento, administração, contribuição, ação social e outros, pois a verdadeira obra cristã requer do Espírito Santo (que é o próprio Jesus habitando na vida de cada indivíduo que crê) o mesmo poder demandado da pessoa de Jesus Cristo.


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Jesus domina as forças do mal 28 Quando Ele chegou ao outro lado, à província dos gadarenos, foram ao seu encontro dois endemoninhados, saindo dentre os sepulcros. Eram tão agressivos que ninguém podia passar por aquele caminho. 29 E, de repente gritaram: “Que temos nós contigo, ó Filho de Deus? Vieste aqui para nos atormentar antes do devido tempo?” 30 Não muito longe deles estava pastando uma grande manada de porcos. 31 Então, os demônios imploravam a Ele: “Se nos expulsas, permite-nos entrar naquela manada de porcos!” 32 E Jesus lhes disse: “Ide!” Assim que saíram entraram nos porcos. De repente, toda a manada correu em disparada e atirou-se violentamente precipício abaixo, em direção ao mar, e nas águas pereceram. 33 Aqueles que cuidavam dos porcos fugiram, foram para a cidade e contaram tudo, inclusive o que ocorrera com os endemoninhados. 34 Então toda a cidade saiu ao encontro de Jesus; e assim que o viram, suplicaram-lhe que se retirasse da sua região. Jesus perdoa e cura E, entrando Jesus num barco, atravessou o mar e foi para a sua cidade. 2 E eis que lhe trouxeram um paralítico

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MATEUS 8, 9

deitado em sua maca. Observando-lhes a fé, disse Jesus ao paralítico: “Tem bom ânimo, filho; os teus pecados estão perdoados”. 3 Diante disso, alguns escribas diziam consigo mesmos: “Este homem blasfema!” 4 Mas Jesus, conhecendo-lhes os pensamentos, questiona: “Por que cogitai o mal em vossos corações?” 5 Pois o que é mais fácil dizer: ‘Os teus pecados estão perdoados1’, ou: ‘Levantate e anda?’ 6 Entretanto, para que saibais que o Filho do homem1 tem na terra autoridade para perdoar pecados – disse então ao paralítico: “Levanta-te, toma a tua maca, e vai para tua casa”. 7 Levantando-se, o homem partiu para sua casa. 8 Ao ver isso, a multidão se encheu de temor e glorificava a Deus, pois dera aos homens tamanha autoridade. Jesus veio para os necessitados 9 Saindo, viu Jesus um homem chamado Mateus, sentado na coletoria, e disse-lhe: “Segue-me!” Ele se levantou e o seguiu. 10 E aconteceu que, estando Jesus em casa, à mesa, muitos publicanos e pecadores vieram para cear com Ele e seus discípulos.2 11 Quando os fariseus viram isso, perguntaram aos discípulos dele: “Por que

1 Freqüentemente Jesus refere-se a si mesmo como Filho do Homem (Mc 8.38; 13.26, 14.62; Lc 17.24; 21.27). Ele usou essa expressão do AT para descrever seu caráter e missão em termos da visão de Daniel (Dn 7.13). O Filho do Homem se humilhou como verdadeiro ser humano, sendo ao mesmo tempo, o Eterno Vitorioso (Mt 24.30). Além disso, Jesus revestiu essa expressão com a necessidade e o profundo significado dos seus sofrimentos, morte e ressurreição expiatória (Mc 8.31; 9.31; 10.33; 14.2141; Lc 18.31-33; 19.10; Mt 20.18-28; 26.45; Lc 21.25-28; 22.29-30; Mc 13.26-27; 14.24-25,62; Jo 13.31-32). 2 Cafarnaum foi a cidade onde Jesus permaneceu mais vezes e por mais tempo, por isso era chamada de a “cidade de Jesus” (Mt 4.12,13; 9.9; Mc 2.1; Lc 4.13, 23, 31, 38). Mas, apesar de Cafarnaum ter sido um grande centro comercial, presenciado mais sinais e recebido mais da presença e da Palavra de Cristo do que qualquer outra localidade, Jesus encontrou ali apenas uns poucos seguidores. Por isso o Senhor exclama seu “ai” sobre a cidade (Mt 11.23). Hoje Cafarnaum é um campo de entulhos, chamado Tel Hum. Mateus era um cobrador de impostos a serviço de Roma. Os judeus se referiam a eles como “publicanos e pecadores”, pois os consideravam “amaldiçoados” como os gentios (Jo 7.49). Jesus viu, porém, em Mateus, um discípulo e o autor deste Evangelho o chamou, em aramaico akolutheo (Segue-me!), que é uma expressão que significa: “ir atrás de”. Na época, essa expressão era um convite de honra. O aluno do profeta, em sinal de respeito, passaria a caminhar atrás do seu mestre (rabino) e, por dois anos, aprenderia as leis do judaísmo. Mateus (Matias, em hebraico), deixa tudo e começa uma nova vida com Cristo (Lc 5.28). Oferece uma ceia, em sua casa (Lc 5.27), para Jesus, os discípulos e seus muitos amigos pecadores. No Oriente e naquela época, convidar alguém para cear em casa era uma grande demonstração de amizade e intimidade e por isso recebia o nome de: “comunhão de mesa”. Isso foi o suficiente para provocar a ira de um grupo de fariseus (hassïdïns – leais a Deus - em hebraico; eram os sacerdotes e doutores da Lei, temidos por seu rigor e poder político).


MATEUS 9

ceia o vosso mestre com publicanos e pecadores?” 12 Mas Jesus, ouvindo, responde: “Os sãos não necessitam de médico, mas sim, os doentes. 13 Portanto, ide aprender o que significa isto: ‘Misericórdia quero, e não sacrifícios’. Pois não vim resgatar justos e sim pecadores’”.3 O novo e definitivo vinho 14 Então, chegaram os discípulos de João e lhe perguntaram: “Por que jejuamos nós, e os fariseus, muitas vezes, e os teus discípulos não jejuam?” 15 Respondeu-lhes Jesus: “É possível que os amigos do noivo fiquem de luto enquanto o noivo ainda está com eles? Dias virão, quando o noivo lhes será tirado; então jejuarão. 16 Ninguém coloca remendo novo em roupa velha; porque o remendo força o tecido da roupa e o rasgo aumenta. 17 Nem se põe vinho novo em odres velhos; se o fizer, os odres rebentarão, o vinho derramará e os odres se estragarão. Mas, põe-se vinho novo em odres novos, e assim ambos ficam conservados”.4

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Jesus tem poder sobre a morte 18 Enquanto, Ele estava falando, um dos dirigentes da sinagoga aproximou-se e, ajoelhando-se diante dele, rogou: “Minha filha acaba de morrer; mas vem, impõe a tua mão sobre ela, e viverá”. 19 Jesus então levantou-se e seguiu com ele, e seus discípulos os acompanharam. 20 De repente, uma mulher que há doze anos vinha sofrendo de hemorragia, alcançou-o por trás e tocou na borda do seu manto. 21 Pois dizia essa mulher consigo mesma: “Se eu conseguir apenas lhe tocar as vestes, serei curada”. 22 Então Jesus voltou-se e assim que viu a mulher lhe disse: “Anime-se grandemente, filha, a tua fé te salvou!” E, desde aquele momento, a mulher ficou sã.5 23 Quando Jesus chegou à casa do dirigente da sinagoga e viu os flautistas fúnebres e a multidão em alvoroço, ordenou: 24 “Retirai-vos daqui! Esta menina não está morta, mas adormecida”. E todos zombavam dele. 25 Assim que a multidão foi retirada, Jesus entrou, tomou a menina pela mão e ela se levantou.

3 O maior e mais agradável sacrifício (holocausto) para Deus é o nosso amor sincero, sem restrições e em plena fé. A enfermidade da qual todos padecemos, inclusive muitos religiosos e líderes cristãos, é a distância do mais verdadeiro e puro amor (em grego: agape) ao Senhor (1Jo 4.16) e aos nossos semelhantes. Jesus pede que os doutores em teologia, filosofia, direito e ética da época, voltem às Escrituras, leiam atentamente Oséias 6.6, especialmente na edição grega do AT, a Septuaginta (cerca de 260 a.C.), e entendam que Ele não estava pactuando com o pecado, mas salvando todos aqueles que reconhecerem nele o Messias, o Filho de Deus. 4 Segundo a lei mosaica, apenas o jejum do Dia da Expiação era obrigatório (Lv 16.29,31; 23.27-32; Nm 29.7). Após o exílio na Babilônia, outros quatro jejuns deveriam ser feitos durante o ano (Zc 7.5; 8.19). Na época de Jesus, os fariseus jejuavam duas vezes por semana (Lc 18.12). Os casamentos judaicos eram grandes celebrações familiares, cujas festas chegavam a durar uma semana e, nessas ocasiões, os convidados eram dispensados da obrigação do jejum, uma vez que esse ato era sempre associado à tristeza. Jesus então faz uma analogia entre as festividades das bodas e seu relacionamento com seus discípulos (os amigos do noivo), dispensando-os do jejum enquanto o noivo (Ele) estiver presente. Jesus jejuava em particular, mas rejeitava a observação da Lei de forma legalista e para autoglorificação (Is 58.3-11). O jejum seria praticado por seus discípulos, após sua ascensão, voluntariamente e para edificação pessoal (Mt 4.2; 6.16-18). Jesus veio estabelecer uma nova ordem para o relacionamento das pessoas com Deus. A lei deve ceder lugar à graça (o novo vinho, a nova aliança). Os odres eram bolsas feitas de pele de cabra, onde se conservava o vinho (Gn 27.28; Êx 29.40; Lv 10.9; Sl 104.15; Ec 10.19; 1Tm 5.23; 1Tm 3.8; Tt 2.3; Rm 13.13; Rm 14.21). À medida que o suco de uvas frescas fermentava, o vinho se expandia. Os odres novos tinham maior resistência e flexibilidade, e se esticavam. Mas os odres usados e envelhecidos não suportavam a pressão e estouravam, colocando o vinho a perder. Jesus usa essa metáfora para revelar que seu novo, puro e poderoso ensino não pode ser recebido pelas antigas formas do judaísmo, nem pelo legalismo religioso. 5 Jesus se agrada da nossa fé e está sempre pronto para nos socorrer em qualquer necessidade. Basta que o procuremos com sinceridade. O verbo grego sõzein significa “salvar e curar”. A mulher pensou em salvar-se, livrar-se de uma doença horrível e antiga. Mas Jesus deu-lhe a cura integral, da alma e do corpo, quando a abençoou com a tradicional bênção dos rabinos da época: “a tua fé te salvou”. Jesus demonstrou que essa não era apenas uma frase religiosa, mas a indicação de que o Reino de Deus havia chegado para todos aqueles que nele cressem, pois que as palavras de Jesus são acompanhadas de poder.


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Então a notícia desse acontecimento espalhou-se por toda aquela região. 26

Os cegos passam a ver 27 Partindo Jesus dali, dois homens cegos o seguiram, clamando: “Filho de Davi, tem misericórdia de nós!” 28 Entrando Ele em casa, aproximaramse os cegos, e Jesus lhes perguntou: “Credes que Eu seja capaz de fazer isto?” E, responderam-lhe: “Sim, Senhor!” 29 Então, lhes tocou os olhos, dizendo: “Seja-vos feito conforme a vossa fé”. 30 E os olhos deles foram abertos. Jesus os advertiu, então, severamente: “Cuidai para que ninguém saiba disto”. 31 Contudo, ao partirem, propagaram os feitos de Jesus por toda aquela região. Os endemoninhados são libertos 32 Após terem se retirado, algumas pessoas trouxeram a Jesus um homem, mudo e possuído por um demônio. 33 Assim que o demônio foi expulso, o mudo passou a falar; e as multidões admiradas exclamavam: “Jamais se viu algo assim em Israel!”. 34 Por outro lado, os fariseus maldiziam: “Ele expulsa os demônios pelo príncipe dos demônios”. Todos os enfermos são curados 35 E Jesus ia passando por todas as cidades e povoados, ensinando nas sinagogas, pregando as boas novas do Reino e curando todas as enfermidades e doenças. Jesus pede mais discípulos 36 Ao ver as multidões, Jesus sentiu grande compaixão pelas pessoas, pois que estavam aflitas e desamparadas como ovelhas que não têm pastor. 37 Então, falou aos seus discípulos: “De fato a colheita é abundante, mas os trabalhadores são poucos. 38 Por isso, orai ao Senhor da seara e pedi que Ele mande mais trabalhadores para a sua colheita”. Jesus envia seus apóstolos Jesus, tendo chamado seus doze discípulos, deu-lhes poder para

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expulsar espíritos imundos e curar todas as doenças e males. 2 E são estes os nomes dos doze apóstolos: primeiro, Simão, chamado Pedro, e André, seu irmão; Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão; 3 Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus, o publicano; Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu; 4 Simão, o zelote, e Judas Iscariotes, o mesmo que traiu a Jesus. 5 Assim, a esses doze homens, enviou Jesus com as seguintes recomendações: “Não vos encaminheis aos gentios, nem entreis em cidade alguma dos samaritanos. 6 Antes, porém, buscai as ovelhas perdidas da casa de Israel. 7 E, à medida que seguirdes, pregai esta mensagem: O Reino dos Céus está a vosso alcance! 8 Curai enfermos, purificai leprosos, ressuscitai mortos, expulsai demônios. Graciosamente recebestes, graciosamente dai. 9 Não vos provereis de ouro, nem prata ou cobre em vossos cinturões. 10 Não leveis sacolas de viagem, nem uma túnica a mais, segundo par de sandálias ou um cajado; pois digno é o trabalhador do seu sustento. 11 Em qualquer cidade ou povoado em que entrardes, procurai alguém digno de vos receber; ficai nesta casa até vos retirardes. 12 E, quando entrardes na casa, saudai-a. 13 Se a casa for digna, que a vossa paz repouse sobre ela; se, todavia, não for digna, que a paz retorne para vós. 14 Porém, se alguém não vos receber, nem der ouvidos às vossas palavras, assim que sairdes daquela casa ou cidade, sacudi a poeira dos vossos pés. 15 Com toda a certeza vos afirmo que haverá mais tolerância para Sodoma e Gomorra, no dia do juízo, do que para aquelas pessoas. 16 Observai! Eu vos envio como ovelhas entre os lobos. Sede, portanto, astutos como as serpentes e inofensivos como as pombas. 17 E, acautelai-vos dos homens; pois que vos entregarão aos tribunais e vos açoitarão nas suas sinagogas.


MATEUS 10

Sereis levados à presença de governadores e reis por minha causa, para testemunhardes a eles e aos gentios. 19 Todavia, quando vos prenderem, não vos preocupeis em como, ou o que deveis falar, pois que, naquela hora, vos será ministrado o que haveis de dizer. 20 Isso porque, não sois vós que estareis falando, mas o Espírito de vosso Pai é quem se expressará através de vós. 21 Um irmão entregará à morte seu irmão, e o pai ao filho, e os filhos se rebelarão contra seus pais e lhes causarão a morte. 22 E, por causa do meu Nome, sereis odiados de todos. Contudo, aquele que permanecer firme até o fim será salvo. 23 Quando, porém, vos perseguirem num lugar, fugi para outro; pois com toda a certeza vos asseguro que não tereis passado por todas as cidades de Israel antes que venha o Filho do homem. 24 O pupilo não está acima do seu mentor, nem o escravo acima do seu amo. 25 Basta ao discípulo ser como seu mestre, e ao servo ser como seu senhor. Se chamaram de Belzebu ao cabeça da Casa, quanto mais aos membros da sua família! 26 Entretanto, não os temais! Nada há escondido que não venha a ser revelado, nem oculto que não venha a se tornar conhecido. 18

A entrega do temor a Deus 27 O que vos digo na escuridão, dizei-o à

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luz do dia; e o que se vos diz ao ouvido, proclamai-o do alto dos telhados. 28 E, não temais os que matam o corpo, mas não têm poder para matar a alma. Temei antes, aquele que pode destruir no inferno tanto a alma como o corpo. 29 Não se vendem dois pardais por uma moedinha de cobre? Mesmo assim, nenhum deles cairá sobre a terra sem a permissão de vosso Pai. 30 E quanto aos muitos cabelos da vossa cabeça? Estão todos contados. 31 Por isso, não temais! Bem mais valeis vós do que muitos passarinhos. 32 Assim sendo, todo aquele que me declarar diante das pessoas, também eu o declararei diante de meu Pai que está nos céus. 33 Entretanto, qualquer que me negar diante das pessoas, também Eu o negarei diante de meu Pai que está nos céus. 34 Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada. 35 Pois Eu vim para ser motivo de discórdia entre o homem e seu pai; entre a filha e sua mãe e entre a nora e sua sogra. 36 Assim os inimigos do homem serão os da sua própria família.1 37 Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim não é digno de mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim. 38 E aquele que não toma a sua cruz e não me segue, também não é digno de mim. 39 Quem encontra a sua vida a perderá.

1 Jesus não veio trazer a paz no sentido de uma religiosidade cômoda e inconseqüente. O verdadeiro cristianismo é uma mudança radical de vida com implicações conflituosas, inadequações e até perseguições cruéis. Algumas vezes na própria família (Mq 7.6) e, com certeza, neste mundo secularizado, materialista e agnóstico. A paz do cristão está em sua plena comunhão com Deus (Jo 14.27) e a terra só verá paz completa na volta do Rei Jesus (Is 2.4). Uma das ofensas que mais feriram o coração de Cristo foi ouvir dos teólogos da época (seu povo e família) que realizava milagres e sinais no poder de Belzebu (9.34; 12.24-29; Mc 3.22; Lc 11.1519; Jo 8.52). Chamar o Filho de Deus – o cabeça da raça humana – de Diabo, foi uma das maiores blasfêmias já ditas na história do mundo. Belzebu é a forma grega da expressão hebraica Baal-Zebub que se refere a Satanás, o “príncipe dos demônios” e significa: “senhor das moscas” (2Rs 1.2). Por isso, é preciso muito cuidado ao julgar e expressar publicamente opiniões dessa natureza contra qualquer pessoa ou movimento cristão. Em 10.38, pela primeira vez em Mateus, aparece a palavra “cruz”. Os cristãos não devem buscar o sofrimento, nem se desesperar diante dele, mas ter a atitude de Jesus: enfrentar as circunstâncias com fé, humildade e coragem. O império romano obrigava seus condenados à morte a caminhar com a trave de suas cruzes nas costas até o local da execução. Os discípulos já haviam visto milhares de judeus serem crucificados, por isso essa ilustração (metáfora) de Jesus foi tão significativa. O crente, salvo por Cristo, deve carregar consigo a mesma cruz: renunciar a si mesmo, para servir com total dedicação ao Senhor Jesus, como mortos para as demandas do sistema mundial e do nosso “eu” (Gl 2.20). Por isso, quem busca freneticamente se dar bem nesta vida, acabará perdendo as bênçãos inerentes à condição dos salvos, agora e eternamente (2Co 5.17). Em 10.42, Jesus conclui esse trecho bíblico fazendo menção notável de recompensa a todos aqueles que ajudam e cooperam com os servos do Senhor no estabelecimento da nova ordem: o Reino de Deus (1Co 15.58; Gl 6.9; Mt 25.35-36).


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Mas quem perde a vida por minha causa a achará. 40 Quem vos recebe, a mim mesmo recebe; e quem recebe a minha pessoa, recebe aquele que me enviou. 41 Quem recebe um profeta por reconhecê-lo como profeta, receberá a recompensa de profeta; e quem recebe um justo por suas qualidades de justiça, receberá a recompensa de justo. 42 E quem der, mesmo que seja apenas um copo de água fria a um destes pequeninos, por ser este meu discípulo, com toda a certeza vos afirmo que de modo algum perderá a sua recompensa”. João. O arauto de Jesus Havendo, pois, terminado de instruir seus doze discípulos, partiu Jesus dali para ensinar e pregar nas cidades da Galiléia. 2 Assim que, no cárcere, João ouviu falar sobre o que Cristo estava realizando, enviou dois dos seus discípulos para lhe perguntarem: 3 “És tu Aquele que haveria de vir ou devemos aguardar outro?” 4 Jesus, respondendo, disse-lhes: “Ide e contai a João o que estais ouvindo e vendo: 5 Os cegos enxergam, os mancos caminham, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e as Boas Novas estão sendo pregadas aos pobres. 6 E, abençoado é aquele que não se escandaliza por minha causa”. 7 Enquanto saíam os discípulos de João,

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começou Jesus a falar às multidões a respeito de João: O que fostes ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento? 8 E então? O que fostes ver no deserto? Um homem vestido com roupas finas? De fato, os que usam roupas finas estão nos palácios reais. 9 Mas, afinal, o que fostes ver? Um profeta? Sim, Eu vos afirmo. E mais do que um profeta! 10 Este é aquele a respeito de quem está escrito: “Eis que Eu enviarei o meu mensageiro à frente da tua face, o qual preparará o teu caminho diante de Ti”.1 11 Com toda a certeza vos afirmo: Entre os nascidos de mulher não se levantou ninguém maior do que João, o Batista; entretanto, o menor no Reino dos céus é maior do que ele. 12 Desde os dias de João Batista até agora, o Reino dos céus é tomado à força, e os que usam de violência se apoderam dele. 13 Porque todos os Profetas e a Lei profetizaram até João. 14 E, se desejarem aceitar, este é o Elias que havia de vir. 15 Aquele que tem ouvidos para ouvir, que ouça! 16 Mas, a quem hei de comparar esta geração? São como crianças que, sentadas nas praças do mercado, ficam gritando uma às outras: 17 ‘Nós vos tocamos músicas de casamento, mas vós não dançastes; entoamos lamentos fúnebres e não pranteastes!’ 18 Assim, veio João, que jejua e não bebe vinho, e dizem: ‘Este tem demônio’.

1 João Batista foi o último dos profetas do AT e o precursor de Cristo. O mensageiro do Rei (arauto) que veio anunciar a chegada do Filho de Deus à terra (Ml 3.1; 4.5-6). João estava preso em Maqueros, uma fortaleza inóspita, nas proximidades do mar Morto (14.3-12; Lc 7.18-35) e desejava confirmar se Jesus era mesmo o Messias profetizado no AT. Jesus manda sua resposta de maneira inequívoca, assim João poderia descansar e se alegrar no Senhor, pois sua missão estava cumprida: “os cegos enxergam” e os demais milagres profetizados por Isaías (730 a.C.) sobre as obras que o Messias realizaria quando chegasse (Is 35.5; 61.1). Quem saiu para ver algo tão comum e simples como um pé de cana balançando ao vento, viu e ouviu o maior dos profetas do AT, parente e amigo amado do Senhor (Lc 1.36; Jo 3.29). Entretanto, aqueles que têm o privilégio de ouvir o Filho de Deus foram contemplados com bênção ainda maior que João (Ef 5.25-32). Jesus ainda registra o comportamento infantil dos seres humanos em relação à vinda dos profetas de Deus - são como crianças: se ouvem uma música alegre, tocada com flautas, nos casamentos (da época), não ficam contentes. Se ouvem uma melodia mais triste, como as executadas nos enterros, não se emocionam. Ou seja, para muitos, infelizmente, não há como comunicar o Evangelho de modo a que este seja bem compreendido. Por isso, muito felizes (bem-aventurados) são os que ouvem e aceitam a Palavra de Deus. A KJ de 1611 traz a expressão: “a sabedoria é justificada por seus filhos” e significa que os frutos (obras) do ensino de João e Jesus são visíveis, palpáveis, práticos e têm a ver com uma nova e abençoada maneira de viver.


MATEUS 11, 12 19 Então chega o Filho do homem, comen-

do e bebendo, e dizem: ‘Eis aí um glutão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores!’ Todavia, a sabedoria é comprovada pelas obras que são seus frutos”. Ai dos povos incrédulos 20 Então, começou Jesus a admoestar severamente as cidades nas quais realizara numerosos feitos prodigiosos, porque não se arrependeram: 21 “Ai de ti Corazim! Ai de ti Betsaida! Porque se os milagres que entre vós foram realizados tivessem sido feitos em Tiro e Sidom, há muito que elas se teriam arrependido, vestindo roupas de saco e cobrindo-se de cinzas. 22 Entretanto, Eu vos afirmo que no dia do juízo haverá menos rigor para Tiro e Sidom, do que para vós outros. 23 E tu, Cafarnaum, te arrogas subir até os céus? Pois serás lançada no inferno. Porque se as maravilhas que foram realizadas em ti houvessem sido feitas em Sodoma, teria ela permanecido até o dia de hoje. 24 Eu, contudo, vos afirmo que haverá mais tolerância para com o povo de Sodoma no dia do julgamento, do que para contigo”. Vinde a Cristo, os cansados 25 Naquela ocasião, em resposta, Jesus proclamou: “Graças te dou, ó Pai, Senhor

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dos céus e da terra, pois escondeste estas coisas dos sábios e cultos, e as revelaste aos pequeninos. 26 Amém, ó Pai, pois assim foi do teu agrado! 27 Todas as coisas me foram entregues por meu Pai. Ninguém conhece o Filho senão o Pai; e ninguém conhece o Pai a não ser o Filho, e aquele a quem o Filho o desejar revelar. 28 Vinde a mim todos os que estais cansados de carregar suas pesadas cargas, e Eu vos darei descanso. 29 Tomai vosso lugar em minha canga e aprendei de mim, porque sou amável e humilde de coração, e assim achareis descanso para as vossas almas. 30 Pois meu jugo é bom e minha carga é leve”.2 O Senhor do sábado Naquela época, Jesus passou pelas lavouras de cereal, em dia de sábado. Seus discípulos estavam com fome e começaram a colher espigas e comê-las. 2 Assim que os fariseus viram aquilo, disseram-lhe: “Vê! Teus discípulos estão fazendo o que não é lícito em dia de sábado!” 3 Mas Jesus lhes respondeu: “Não lestes o que fez Davi quando ele e seus companheiros estavam com fome?

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2 Corazim, mencionada apenas duas vezes nas Escrituras (aqui e em Lc 10.13) distava cerca de quatro quilômetros ao norte de Cafarnaum. Betsaida ficava na extremidade ao norte do mar da Galiléia. Tiro e Sidom eram cidades pagãs da Fenícia. Jesus conclui esse trecho bíblico com uma “resposta” emocionada às graves circunstâncias descritas anteriormente. A expressão: “Graças te dou” (em grego exomologoumai), significa: “reconheço”. A expressão: “Amém” (em hebraico transliterado amen) vem de uma raiz que significa “digno de fé” ou “verdade” (Is 65.16), por isso a palavra grega é mera transliteração do hebraico, usada por algumas versões na forma poética: “em verdade, em verdade”. No AT era, também, uma expressão de concordância (assim seja) com uma doxologia ou bênção (1Cr 16.36; Sl 41.13). Jesus fez uso dessa expressão com autoridade messiânica, algo incomum aos rabinos e mestres de sua época (2Co 1.20). Em certo sentido, Jesus pode ser chamado de “o Amém de Deus” (Is 65.16; Ap 3.14). Muitas sinagogas usaram essa expressão, que passou para as primeiras igrejas cristãs (1Co 14.16). Nos versos 28 a 30 Jesus faz menção às Escrituras (Jr 6.16) e usa mais uma notável ilustração para mostrar como o cristão pode encontrar descanso para as suas aflições: Jesus aponta para a canga dos bois. Uma trave de madeira robusta, quase sempre ocupada por dois animais, colocados lado a lado, presos pelo pescoço e ligados ao arado ou carro que deveriam puxar. Jesus considerou sua cruz (canga), útil e boa (no original grego chrestos). Algumas versões usam a palavra: “suave”. Jesus considerou seu “fardo” leve, não pesado ou difícil de transportar até seu destino. Para alcançar o pleno descanso devemos ocupar nosso lugar ao lado de Jesus e partilhar da sua canga; que não era um instrumento de tormento para os animais, mas um meio útil e cômodo de levar mais carga com menos esforço, evitando os sofrimentos das antigas cordas amarradas pelo corpo. Jesus quer partilhar sua força conosco. Além disso, bondade, paciência, mansidão, humildade são qualidades que nos possibilitam trabalhar e descansar com fé no amor e na soberania do Senhor. Uma pessoa assim será querida e amável, e isso a ajudará a vencer muitos problemas e descansar diariamente em paz.


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Como entrou na casa de Deus, e comeram os pães da Presença, os quais a lei não lhes permitia comer, nem a ele nem aos que com ele estavam, mas exclusivamente aos sacerdotes?1 5 Ou não lestes na Lei que, aos sábados, os sacerdotes no templo violam o sábado e, contudo, são desculpados? 6 Pois Eu vos afirmo que aqui está quem é maior do que o templo. 7 Entretanto, se vós soubésseis o que significam estas palavras: ‘Misericórdia quero, e não holocaustos’, não teríeis condenado os que não têm culpa. 8 Pois o Filho do homem é o Senhor do sábado!”. 4

Jesus cura no sábado 9 Tendo Jesus saído daquele lugar, foi para a sinagoga deles. 10 Encontrava-se ali um homem que tinha uma das mãos atrofiada. Mas, procurando um motivo para acusar Jesus, eles o questionaram: “É lícito curar no sábado?” 11 Ao que Jesus lhes propôs: “Qual de vós será o homem que, tendo uma ovelha, e, num sábado, esta cair em um buraco, não fará todo o esforço para retirá-la de lá? 12 Assim sendo, quanto mais vale uma pessoa do que uma ovelha! Por isso, é lícito fazer o bem no sábado”. 13 Então, dirigiu-se ao homem e disse:

MATEUS 12

“Estende a tua mão”. Ele a estendeu e ela foi restaurada, ficando sã como a outra. 14 Diante disso, saíram os fariseus e começaram a conspirar sobre como poderiam matar Jesus. Eis meu Servo amado! 15 Mas, Jesus, sabendo disto, afastou-se daquele lugar. Uma multidão o seguiu e a todos Ele curou. 16 Contudo, os advertiu para que não divulgassem suas obras. 17 Ao acontecer isso, cumpriu-se o que fora dito pelo profeta Isaías: 18 “Eis o meu Servo, que escolhi, o meu amado, em quem tenho alegria. Farei repousar sobre Ele o meu Espírito, e Ele anunciará justiça às nações. 19 Não contenderá nem gritará; nem se ouvirá nas ruas a sua voz. 20 Não esmagará a cana rachada, nem apagará o pavio que fumega, até que faça vencer a justiça. 21 E em seu Nome os gentios colocarão sua esperança”. O pecado imperdoável 22 Depois disso, aconteceu que lhe trouxeram um endemoninhado, cego e mudo; Ele o curou, de modo que pôde falar e ver. 23 Então, toda a multidão ficou atônita e exclamava: “É este, porventura, o Filho de Davi?”

1 O sábado (em hebraico shabbãth) é estabelecido nas Escrituras como princípio: um em cada sete dias deveria ser separado (santificado) para o descanso. A raiz hebraica da palavra “sábado” é shãbhath, que significa “cessar”. Na Criação, o próprio Deus legou à humanidade o exemplo da santificação do sábado (Gn 2.2; Êx 20.8-11). Em Êx 16.21-30 há uma menção explícita sobre o sábado em relação à provisão do maná. O sábado (dia do descanso em homenagem ao Criador) nesse contexto, é representado como um dom de Deus, visando o repouso e o benefício do povo. Não era necessário trabalhar no sábado (juntar o maná), pois dupla porção era provida no sexto dia da semana. Os fariseus, no entanto, haviam acrescentado à Lei e ao sábado uma série imensa de minuciosas regras e observâncias não prescritas por Moisés. Ao entrar pelos campos de trigo, Jesus e seus discípulos estavam usufruindo um direito concedido pela Lei a todo viajante: comer para satisfazer a fome, sem levar nada (Dt 23.25), mas os fariseus implicaram com o ato de debulhar no sábado (Lc 6.1). Jesus então faz referência a 1Sm 21.1-6, lembrando que em caso de necessidade, alguns detalhes da lei cerimonial podiam ser suprimidos. Os pães da Presença ou Proposição, como em algumas versões, referem-se à presença do próprio Deus (Êx 33.14,15; Is 63.9). Os doze pães (cada um simbolizando uma tribo) representavam uma oferta perpétua, de pão, ao Senhor, mediante a qual Israel declarava consagrar a Deus os frutos do seu trabalho que, por sua vez, era uma bênção do Senhor (Lv 24.5,9). Esses pães eram colocados na mesa do lugar santo do tabernáculo, todos os sábados, e depois da cerimônia podiam ser comidos pelo sacerdote e sua família. Ocorre que os sacerdotes preparavam os pães e os sacrifícios no sábado, mesmo sob a proibição geral do trabalho nesse dia. Jesus então argumenta que se as necessidades do culto no templo permitiam que o sacerdote profanasse o sábado, com muito mais razão a missão de Cristo (o Messias) merece a mesma liberdade. Jesus ensina que a ética é mais importante que o ritual, e o espírito da Lei maior que as letras e os mandamentos. Jesus declara que Ele é Deus, ao afirmar que é Senhor do sábado (Jo 5.17) e enfatiza que o sábado foi dado à humanidade para o seu bem e não como uma obrigação prejudicial.


MATEUS 12

Mas os fariseus, ao ouvirem isso, murmuraram: “Este homem não expulsa demônios senão pelo poder de Belzebu, o príncipe dos demônios”. 25 Entretanto, Jesus compreendia os pensamentos deles, e lhes afirmou: “Todo reino dividido contra si mesmo será arruinado, e toda cidade ou casa dividida contra si mesma não resistirá. 26 Se Satanás expulsa Satanás, está dividido contra ele próprio. Como poderá então subsistir o seu reino? 27 E se Eu expulso demônios por Belzebu, por quem os expulsam vossos filhos? E, por isso, eles mesmos serão os vossos juízes. 28 Mas, se é pelo Espírito de Deus que Eu expulso demônios, então, verdadeiramente, é chegado o Reino de Deus sobre vós! 29 Ou ainda, como pode alguém entrar na casa do homem forte e roubar-lhe todos os bens sem primeiro amarrá-lo? Só depois disso será possível saquear a sua casa. 30 Quem não está comigo, está contra mim; e aquele que comigo não colhe, espalha. 31 Portanto, Eu vos assevero: Todos os pecados e blasfêmias serão perdoados às pessoas; a blasfêmia contra o Espírito Santo não será, porém, perdoada! 24

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Qualquer pessoa que disser uma palavra contra o Filho do homem, isso lhe será perdoado; porém, se alguém falar contra o Espírito Santo, não lhe será isso perdoado, nem nesta época, nem no tempo futuro. 33 Ou fazei a árvore boa e o seu fruto bom, ou a árvore má e o seu fruto mau; pois uma árvore é conhecida pelo seu fruto. 34 Raça de víboras! Como podeis falar coisas boas, sendo maus? Pois a boca fala do que está cheio o coração. 35 Uma boa pessoa tira do seu bom tesouro coisas boas; mas a pessoa má, tira do seu tesouro mau, coisas más. 36 Por isso, vos afirmo que de toda a palavra fútil que as pessoas disserem, dela deverão prestar conta no Dia do Juízo. 37 Porque pelas tuas palavras serás absolvido e pelas tuas palavras serás condenado”.2 32

O sinal da ressurreição 38 Então alguns dos mestres da lei e fariseus lhe pediram: “Mestre, queremos ver de tua parte algum milagre”. 39 Ao que Jesus respondeu: “Uma geração perversa e adúltera pede um sinal miraculoso! Todavia, nenhum sinal lhe será dado, exceto o sinal miraculoso do profeta Jonas.3

2 Filho de Davi era um título exclusivo do Messias (Mc 3.22-30; Lc 11.14-22). A vinda e a vida de Jesus eram o evidente cumprimento das profecias, especialmente de Isaías 42.1-4. Deus, assumindo a forma humana em Jesus, tratou os seres humanos com misericórdia e delicadeza: como caniços (varas de pesca) que podem ser quebrados ou esmagados com facilidade; ou ainda como pequenas chamas que podem ser apagadas com um simples movimento. Jesus percebeu, compreendeu (no original grego eidôs) o que de fato os fariseus estavam tramando. Os judeus já praticavam o exorcismo (At 19.13-16) e Jesus os questionou sob qual autoridade exerciam essa prática. Jesus já havia vencido Satanás em seus quarenta dias no deserto (4.1-11) e agora estava invadindo o reino do Maligno (1Jo 3.8), para tirar das trevas as almas de todos aqueles que nele cressem, e para destruir a “casa do homem forte” (Is 49.24-26; Lc 11.21). Por isso não pode haver neutralidade no Reino de Deus: quem não serve a Cristo está servindo ao Diabo que é o diretor-geral do sistema (econômico, político, social e religioso) deste mundo. O único pecado sem perdão é a rejeição consciente e sistemática da salvação graciosa em Cristo e a alegação de que Jesus e o Diabo são a mesma pessoa ou as duas faces da verdade (o bem e o mal), como pensam algumas correntes filosóficas (Hb 6.4-6; 10.26-31). Jesus acrescenta que o caráter de uma pessoa será sempre revelado por meio de suas palavras (Tg 3.2) e que essas palavras pesam na balança da terra e do céu (Pv 18.21). Há três palavras gregas para designar milagres: 1) teras – algo portentoso; 2) dunamis – poder maravilhoso; 3) semeion – uma prova ou sinal sobrenatural. No passado, muitos líderes de Israel haviam concedido ao povo provas de sua missão por parte de Deus. Assim, para autenticar a obra de Moisés, o Senhor enviou o maná; para Josué, o Senhor fez parar o Sol e a Lua; para Samuel, enviou o Senhor, trovões, de um céu claro e limpo, sem tempestades; para Elias, mandou Deus, fogo do céu; para Isaías, fez recuar a sombra do relógio (da época) do Sol. Mas, para confirmar a obra de Jesus Cristo, o Messias, seria realizado o maior milagre de todos: Deus ressuscitaria a Seu Filho Jesus da sepultura e esse seria um sinal ainda maior do que aquele realizado para a conversão de toda a antiga cidade de Nínive (39-41). 3 O AT usa freqüentemente a metáfora: “adúltera” para significar “infiel a Deus”. Os três dias e três noites de Jonas e de Jesus


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Portanto, assim como esteve Jonas três dias e três noites no ventre de um grande peixe, assim o Filho do homem estará três dias e três noites no coração da terra. 41 O povo de Nínive se levantará no Dia do Juízo com esta geração, e a condenará; pois eles se arrependeram com a pregação de Jonas. E eis que aqui está quem é maior do que Jonas. 42 A rainha do Sul se levantará no Juízo com esta geração e a condenará, pois ela veio dos confins da terra para conhecer os sábios ensinamentos de Salomão. E eis que aqui está quem é maior do que Salomão. 43 Quando um espírito imundo sai de uma pessoa, passa por lugares áridos procurando descanso, mas não encontra onde repousar. 44 Então diz: ‘Voltarei para a minha casa de onde saí’. E, retornando, encontra a casa desocupada, varrida e arrumada. 45 Diante disso, vai e leva consigo outros sete espíritos, piores do que ele, e, entrando, passam a morar ali. E o estado final daquela pessoa torna-se pior que o primeiro. Assim também ocorrerá com esta geração má!”. 40

MATEUS 12, 13

A mãe e os irmãos de Jesus 46 Enquanto, Jesus estava pregando à grande multidão, do lado de fora, sua mãe e seus irmãos procuravam falar com Ele. 47 Então alguém o avisou: “Tua mãe e teus irmãos estão lá fora e desejam falar-te”. 48 Jesus, entretanto, respondeu ao que lhe trouxera a informação: “Quem é minha mãe e quem são os meus irmãos?”4 49 E, estendendo a mão na direção dos discípulos, afirmou: “Eis minha mãe e meus irmãos. 50 Pois todo aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus, este é meu irmão, minha irmã e minha mãe”. A parábola do semeador (Mc 4.1-20; Lc 8.1-15)

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Naquele mesmo dia Jesus saiu de casa e foi assentar-se à beira-mar. 2 Uma grande multidão reuniu-se ao seu redor e, por esse motivo, entrou num barco e assentou-se. E todo o povo estava em pé na praia. 3 Jesus ensinou-lhes então muitas coisas por meio de parábolas, como esta: “Eis que um semeador saiu a semear.1

(Jn 1.17) referem-se ao período que vai da sexta-feira à tarde até o domingo de manhã. A expressão hebraica traduzida por algumas versões como “baleia”, significa no original: “grande monstro marinho”. A rainha do Sul (também chamada de rainha do meio-dia) é a mesma rainha de Sabá (1Rs 10) cujo reino ficava a sudoeste da Arábia, onde é hoje o Iêmen. Jesus recorre à história de Israel para fazer referência ao processo de purificação da idolatria, entre os judeus, durante o cativeiro babilônico, mas cujo estado atual – de incredulidade e dureza de coração – era muito pior que antes do exílio (Lc 11.24-26). 4 Jesus tinha quatro irmãos (mencionados os seus nomes em Mc 6.3) e mais um número de irmãs não especificado nas Escrituras. Alguns teólogos defendem a idéia de que esses seriam primos de Jesus, filhos de Alfeu com a irmã da mãe de Jesus que também se chamava Maria. Mas, Jo 7.5 e At 1.14 os distinguem claramente dos filhos de Alfeu. Jesus aproveita o que seria uma interrupção do seu discurso para ilustrar a verdadeira fraternidade: uma nova família espiritual à qual todos os cristãos pertencem e a quem devem amar como à própria mãe e aos irmãos. Em nenhum momento Jesus tem a intenção de divinizar sua mãe, muito menos de tratá-la sem o devido carinho e respeito. Capítulo 13 1 Jesus saiu da casa de Simão e André, em Cafarnaum (8.14), e dirigiu-se às margens do “mar da Galiléia”, chamado também de “o grande lago”. Os hebreus não tinham apreço pelo mar, pois as antigas crenças semíticas diziam que a profundidade (abismo) personificava o poder do mal que combatia contra Deus. Para Israel, entretanto, Deus era o criador do mar e seu controlador, fazendo que o mar coopere para o bem da humanidade (Gn 1.9; Gn 49.25; Êx 14,15; Dt 33.13; Sl 104.7-9; Sl 148.7; Mt 14.25-33; At 4.24). O triunfo final de Deus será acompanhado pelo desaparecimento total do mar (Ap 21.1). A expressão “parábola” vem do original grego paraboles, que significa, colocar coisas semelhantes, lado a lado, para estabelecer comparação, estudo e tirar um ensinamento. Em nossa língua, a parábola é uma figura de linguagem em que uma verdade moral ou espiritual é ilustrada por uma analogia derivada da experiência cotidiana. Com essa parábola, conhecida como “do semeador” Jesus inicia o primeiro grupo de histórias didáticas sobre o Reino de Deus, registradas em Mateus. Os evangelhos sinóticos contêm cerca de trinta parábolas. O evangelho segundo João não apresenta parábolas, mas emprega outras figuras de linguagem.


MATEUS 13

Enquanto realizava a semeadura, parte dela caiu à beira do caminho e, vindo as aves, a devoraram. 5 Outra parte caiu em terreno rochoso, onde havia uma fina camada de terra, e logo brotou, pois o solo não era profundo. 6 Porém, quando veio o sol, as plantas se queimaram; e por não terem raiz, secaram. 7 Outra parte caiu entre os espinhos. Estes, ao crescer, sufocaram as plantas. 8 Contudo, uma parte caiu em boa terra, produzindo generosa colheita, a cem, sessenta e trinta por um. 9 Aquele que tem ouvidos para ouvir, que ouça!”. 4

O propósito das parábolas 10 Então, os discípulos se aproximaram dele e perguntaram: “Por que lhes falas por meio de parábolas?” 11 Ao que Ele respondeu: “Porque a vós outros foi dado o conhecimento dos mistérios do Reino dos céus, mas a eles isso não lhes foi concedido.2 12 Pois a quem tem, mais se lhe dará, e terá em abundância; mas, ao que quase não tem, até o que tem lhe será tirado. 13 Por isso lhes falo por meio de parábolas; porque, vendo, não enxergam; e escutando, não ouvem, muito menos compreendem. 14 Neles se cumpre a profecia de Isaías: ‘Ainda que continuamente estejais ouvindo, jamais entendereis; mesmo que sempre estejais vendo, nunca percebereis. 15 Posto que o coração deste povo está petrificado; de má vontade escutaram com seus ouvidos, e fecharam os seus

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olhos; para evitar que enxerguem com os olhos, ouçam com os ouvidos, compreendam com o coração, convertam-se, e sejam por mim curados’. 16 Mas abençoados são os vossos olhos, porque enxergam; e os vossos ouvidos, porque ouvem. 17 Pois com certeza vos afirmo que muitos profetas e justos desejaram ver o que vedes, e não viram; e ouvir o que ouvis, e não ouviram. Jesus explica essa parábola 18 Portanto, atentai para o que significa a parábola do semeador: 19 Quando uma pessoa escuta a mensagem do Reino, mas não a compreende, vem o Maligno e arranca o que foi semeado em seu coração. Estas são as sementes que foram semeadas à beira do caminho. 20 O que foi semeado em terreno rochoso, esse é o que ouve a Palavra e logo a aceita com alegria. 21 Contudo, visto que não tem raiz em si mesmo, resiste por pouco tempo. E, quando por causa da Palavra chegam os problemas e as perseguições, logo perde o ânimo. 22 Quanto ao que foi semeado entre os espinhos, este é aquele que ouve a Palavra, mas as preocupações desta vida e a sedução das riquezas sufocam a mensagem, tornando-a infrutífera. 23 Mas, enfim, o que foi semeado em boa terra é aquele que ouve a Palavra e a entende; este frutifica e produz grande colheita: alguns, cem; outros, sessenta; e ainda outros trinta vezes mais do que foi semeado”.

2 A expressão original grega, aqui traduzida por “mistérios”, refere-se a revelações especiais a que somente os devotos (crentes, consagrados) a Jesus Cristo têm acesso. O v.12 anuncia um princípio básico do mundo espiritual: quem aceita a Palavra de Deus, com humildade e reverência, receberá muitas outras bênçãos do Senhor, mas aos arrogantes e incrédulos, até a parcela de fé e bênçãos que lhes foi concedida será retirada. Veja os exemplos do “filho pródigo” (Lc 15.17-24) e o que aconteceu com o Faraó do Egito depois de ter feito pouco caso do aviso de Moisés (Êx 8.1-32; 9.1-12). As coisas de Deus não fazem sentido para aqueles dotados apenas de crítica racional. Precisam ser iluminados em sua compreensão espiritual e isso é dom de Deus (Rm 5.15,16; 1Co 2.14-16; Ef 2.8). Os versos 14 e 15 são copiados, palavra por palavra, da Septuaginta (Is 6.9,10), que descreve o chamado do profeta Isaías, a mensagem que deveria pregar e o estado de calamidade espiritual do povo. Como no tempo de Isaías, assim também na época de Cristo, os judeus fecharam os olhos à verdade (Mc 4.12). Jesus e Sua Igreja são as últimas grandes luzes a brilhar neste mundo para todo aquele que quiser abrir os olhos (Ef 3.2-5; 1Pe 1.10-12).


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O trigo e o joio 24 Jesus lhes contou outra parábola: “O Reino dos céus é semelhante a um homem que semeou boa semente em seu campo. 25 Entretanto, quando todos dormiam, chegou o inimigo dele, lançou o joio no meio do trigo, e seguiu o seu caminho.3 26 Assim, quando o trigo brotou e formou espigas, o joio também apareceu. 27 Os servos do dono da plantação foram até ele e perguntaram: ‘Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Então, de onde vem o joio?’. 28 Ele, porém, lhes respondeu: ‘Um inimigo fez isso’. Então os servos lhe propuseram:‘Senhor, queres que vamos e arranquemos o joio?’ 29 Ao que o senhor respondeu: ‘Não, pois ao tirar o joio, podereis arrancar juntamente com ele o trigo. 30 Deixai-os, pois, crescer juntos até à

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safra, e, no tempo da colheita, direi aos ceifeiros: ‘Primeiro ajuntai o joio e amarrai-o em feixes para ser queimado; mas o trigo, recolhei-o no meu celeiro’”. O grão de mostarda 31 Outra parábola ainda lhes propôs Jesus, dizendo: “O Reino dos céus é como um grão de mostarda, que um homem tomou e plantou em seu campo. 32 Embora seja a menor dentre todas as sementes, quando cresce chega a ser a maior das plantas, e se torna uma árvore, de maneira que as aves do céu vêm aninhar-se em seus ramos”. O fermento 33 E contou-lhes mais outra parábola: “O Reino dos céus é semelhante ao fermento que uma mulher pegou e misturou em três medidas de farinha, até que toda a massa ficou levedada”. 34 Todas essas coisas falou Jesus à mul-

3 O propósito desta parábola é revelar o método por meio do qual Deus está agindo no mundo durante a era (tempo) do Evangelho (das Boas Novas de Cristo). Jesus raramente interpretava suas histórias enigmáticas (parábolas). Isso porque sabia que todas as pessoas que verdadeiramente amavam a Deus entenderiam sua mensagem. Mas, para que nada faltasse aos discípulos, ele explica algumas delas (18-23; 36-43). O joio é uma erva daninha, também chamada de cizânia ou centeio falso, que enquanto está crescendo é muito semelhante ao trigo. Apenas quando as espigas se formam é que é possível fazer uma distinção correta. A farinha de trigo feita com a mistura desse centeio falso é venenosa. A semente de mostarda era a menor semente que os agricultores da Palestina, na época de Cristo, costumavam semear. Em condições favoráveis, essas “plantas” (no original grego lachanôn) podiam alcançar cerca de três metros de altura. Jesus aproveita essa ilustração da árvore para lembrar as Escrituras (Ez 17.23, 31.5; Sl 104.12; Dn 4.12,21). Em Ez 17, por exemplo, a “árvore” é o “Novo Israel”, mas em Ez 41 e Dn 4, a árvore representa os impérios dos gentios: Assíria e Babilônia (região onde hoje se situa o Iraque). Dessa maneira, a parábola antecipa o desenvolvimento da Igreja de Cristo. Entretanto, as aves (v.19), como figura do Maligno, completam o quadro da Igreja visível (na terra) em sua apostasia (tempo de frieza espiritual da Igreja) e revelam aos discípulos que o Reino de Deus, tendo um início tão humilde quanto a menor das sementes, se expandiria até atingir domínio mundial, envolvendo pessoas de todas as nações (Dn 2.35-45; 7.27; Ap 11.15). Nas Escrituras, o fermento quase sempre é um símbolo de algo perverso ou impuro. Nesta parábola, entretanto, significa: crescimento, progresso. A expressão “uma medida” vem do hebraico seah (no original grego: sata) e corresponde a cerca de seis litros. Ou seja, assim como o bom fermento se alastra pela massa, dessa mesma maneira, o Reino de Deus envolve a alma da pessoa que recebe o Espírito Santo, e vai moldando seu caráter à imagem de Cristo (2Co 4.1-15). No v.35, a citação bíblica vem do Sl 78.2-3, sendo que a primeira parte é tirada da Septuaginta (tradução grega do AT) e a segunda parte, do hebraico. Mateus interpreta esse texto como mais uma profecia sobre Jesus Cristo. A palavra “filhos” neste contexto e no original significa: “aqueles que pertencem”. No v.41 há uma alusão ao texto hebraico de Sf 1.3, sendo que a palavra grega anomian, traduzida algumas vezes por “iniqüidade”, e aqui por “mal”, também significa: “ilegalidade”. A expressão “consumação do século” como aparece em algumas versões, aqui traduzida por “final desta era”, como base a tradução dos melhores originais; nos quais, a palavra grega, éon, significa mais propriamente: um período de tempo marcante na história da humanidade, ou seja, uma era. Literalmente: “finalização do éon” ou do período que vai do nascimento de Cristo à sua volta triunfante (Mt 24; 25; Mc 13). A expressão: “fornalha ardente”, mencionada muitas vezes nos textos apocalípticos (Ap 19.20; 20.14), ocorre mais cinco vezes em Mateus (8.12; 13.50; 22.13; 24.51; 25.30) e em nenhuma outra parte do NT. Não compete à Igreja de Jesus Cristo arrogar-se o direito de julgar e condenar pessoas antes do Dia do Juízo (a grande colheita). Essa parábola não se aplica às questões da disciplina comunitária que é tratada em Mt 18; mas, sim, da necessária e inevitável convivência que deve haver entre cristãos e descrentes enquanto estivermos neste mundo, até a segunda vinda do Senhor (1Co 4.5; 2Co 10.4). Não devemos nos preocupar em destruir o joio, mas em levar a todos a Palavra da graça salvadora de Jesus Cristo e assim brilharemos por toda a eternidade (Dn 12.3).


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tidão por meio de parábolas e nada lhes dizia sem usar palavras enigmáticas. 35 E assim cumpriu-se o que fora dito por meio do profeta: “Abrirei em parábolas a minha boca; proclamarei coisas ocultas desde a fundação do mundo”. Jesus explica a parábola do joio 36 Então, Jesus se despediu da multidão e foi para casa. Seus discípulos aproximaram-se dele e pediram: “Explica-nos a parábola do joio na plantação”. 37 E Jesus explicou: “Aquele que semeou a boa semente é o Filho do homem. 38 O campo é o mundo, e a boa semente são os filhos do Reino. O joio representa os que pertencem ao Maligno. 39 O inimigo que semeou o joio é o Diabo. A colheita é o final desta era, e os ceifeiros são os anjos. 40 Da mesma maneira que o joio é colhido e jogado ao fogo, assim será no fim desta era. 41 O Filho do homem mandará os seus anjos, e eles ceifarão do seu Reino tudo o que causa tropeço e todos os que praticam o mal. 42 Eles os lançarão na fornalha ardente e ali haverá pranto e ranger de dentes. 43 Então os justos reluzirão como o sol no Reino de seu Pai. Aquele que tem ouvidos para ouvir, que ouça! O tesouro escondido 44 O Reino dos céus assemelha-se a um tesouro escondido no campo. Certo homem, tendo-o encontrado, escondeu-o novamente. Então, transbordando de alegria, vai, vende tudo o que tem, e compra aquele terreno.

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A pérola de grande valor 45 Da mesma forma, o Reino dos céus é como um negociante que procura pérolas preciosas. 46 E, assim que encontrou uma pérola valiosíssima, foi, vendeu tudo o que tinha e a comprou. Os bons e os maus peixes 47 O Reino dos céus é ainda semelhante a uma rede que, lançada ao mar, recolhe peixes de toda espécie. 48 E, quando está repleta, os pescadores a puxam para a praia. Então se assentam e juntam os bons em cestos, mas jogam fora os ruins. 49 Assim também ocorrerá no final desta era. Chegarão os anjos e irão separar os maus dentre os justos. 50 E lançarão os maus na fornalha ardente; e ali haverá grande lamento e ranger de dentes”. O mestre é um pai de família 51 Então lhes perguntou Jesus: “Entendestes todas estas parábolas?” Ao que eles responderam: “Sim, Senhor”. 52 E Jesus lhes disse: “Portanto, todo mestre da lei, bem esclarecido quanto ao Reino dos céus, é semelhante a um pai de família que sabe tirar do seu tesouro coisas novas e coisas velhas”.4 O profeta não é honrado pelos seus 53 Havendo terminado de contar essas parábolas, retirou-se Jesus dali. 54 Chegando à sua cidade, começou a ensinar o povo na sinagoga, de tal maneira que as pessoas se admiravam, e exclamavam: “De onde lhe vem tanta

4 Depois que os judeus blasfemaram contra o Espírito Santo (12.24-30) e começaram a tramar seu assassinato (12.14), Jesus passa a revelar aspectos mais profundos sobre o Reino de Deus, apenas aos seus discípulos, preparando-os para continuar sua obra. O termo grego grammateus (escriba), significa “escrivão” ou “letrado”. Poucos sabiam ler e escrever naquela época e lugar. Os escribas eram responsáveis por copiar e arquivar as leis e tradições judaicas, e assim se tornaram mestres, doutores e advogados (Lc 5.21), pois não havia distinção entre a lei de Deus e a dos homens. A sinagoga era a principal instituição religiosa judaica daqueles dias e podia ser estabelecida em qualquer cidade com mais de dez judeus casados. Teve origem no exílio e servia de local onde os judeus podiam estudar as Escrituras e adorar a Deus. Jesus, como também Paulo (At 13.15; 14.1; 17.2; 18.4), aproveitou o costume judaico de convidar mestres visitantes para pregar nas sinagogas locais e lhes anunciou a chegada do Reino de Deus: O Evangelho de Cristo. No original grego, a palavra aqui traduzida por “carpinteiro” é a mesma usada para identificar o trabalho do “pedreiro”. Jesus, como filho mais velho da família, era o principal ajudante do pai nos trabalhos com madeira e alvenaria, ofício que desempenhou para cooperar com o sustento da família, após a morte de José (Mc 6.3; Lc 8.19).


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sabedoria e estes poderes para realizar milagres? 55 Ora, não é este o filho do carpinteiro? O nome de sua mãe não é Maria, e o de seus irmãos: Tiago, José, Simão e Judas? 56 Não vivem entre nós todas as suas irmãs? Portanto, de onde obteve todos esses poderes?”. 57 E ficavam escandalizados por causa dele. Entretanto, Jesus lhes afirmou: “Não há profeta sem honra, a não ser em sua própria terra, e em sua própria casa”. 58 E Jesus não realizou ali muitos milagres, por causa da falta de fé daquelas pessoas.5 João Batista é decapitado Por aquele tempo Herodes, o tetrarca, ouviu os relatos sobre os feitos de Jesus. 2 E disse aos seus servos: “Este é João Batista; ele ressuscitou dos mortos e, por isso, nele operam poderes para fazer milagres. 3 Porque Herodes tinha mandado prender João, amarrar suas mãos e jogá-lo na prisão. Isso por causa de Herodias, mulher de Filipe, seu irmão. 4 Pois João o havia advertido, dizendo: “Não te é lícito esposá-la”. 5 Herodes, portanto, queria matá-lo, mas temia o povo, pois este o considerava profeta. 6 Mas, tendo chegado o dia da celebração

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MATEUS 13, 14

do aniversário de Herodes, a filha de Herodias dançou diante de todos, e muito agradou a Herodes. 7 Por conta disso, ele lhe prometeu, sob juramento, conceder qualquer pedido que ela desejasse fazer. 8 Foi então que ela, influenciada por sua mãe, pediu: “Dá-me aqui, num prato, a cabeça de João Batista”.1 9 O rei ficou angustiado; contudo, por causa do juramento e da presença dos convidados, ordenou que lhe fosse dado o que ela pedira. 10 Então mandou decapitar João na prisão. 11 Sua cabeça foi levada num prato e entregue à jovem, que a entregou à mãe. 12 Os discípulos de João vieram, levaram seu corpo e o sepultaram. E foram contar a Jesus o que havia acontecido. A multiplicação dos pães 13 Assim que Jesus ouviu essas coisas, retirou-se de barco, em particular, para um lugar deserto. As multidões, entretanto, ao saberem disso, saíram das cidades e o seguiram a pé. 14 Quando Jesus deixou o barco, viu numerosa multidão; sentiu-se movido de grande compaixão pelo povo, e curou os seus doentes. 15 Ao final do dia, os discípulos se aproximaram de Jesus e disseram: “Este é um lugar deserto, e já está entardecendo. Manda embora, pois, as multidões, para

5 Existe uma clara correlação entre a fé e a realização dos milagres de Jesus em Mateus (8.10,13; 9.2,22,28,29). A arrogância dos teólogos e líderes religiosos e a presunção dos que pensavam conhecer a Jesus desde criança, fizeram com que eles perdessem a maravilhosa oportunidade de receber as preciosas revelações e bênçãos do Messias, o Filho de Deus em pessoa: Jesus Cristo. Capítulo 14 1 Herodes Antipas, que reinou de 4 a.C. a 39 a.D., era o tetrarca (em grego tetrarches), ou seja, “aquele que rege uma quarta parte do império”, no caso, a quarta parte da Palestina, mais a Galiléia e a Peréia, que foi herança de seu pai Herodes, o Grande (Mt 2.1,22), quando dividiu seu reino entre quatro de seus muitos filhos. Depois das maravilhosas viagens de Jesus pela Galiléia, muito cresceu sua fama em todas as regiões vizinhas, originando muitas idéias sobre sua pessoa e missão (16.13-14). A consciência pagã, supersticiosa, culpada e amedrontada de Herodes, o fez criar a teoria de que Jesus seria a encarnação do espírito de João Batista que ele mandara decapitar (Mc 6.16). Herodias era ex-esposa do meio irmão de Herodes, Filipe, tio de Herodias. Ela fora persuadida a abandonar o marido para casar-se com Herodes Antipas, cometendo assim, incesto (Lv 18.16; 20.21). João Batista falou francamente com o tetrarca e o chamou ao arrependimento; e Herodes sabia que João era homem de Deus e estava certo em sua denúncia (Mc 6.20). Salomé, filha de Herodias, tinha cerca de 20 anos e dançou de forma lasciva diante de muitas autoridades, agradando a todos, em especial a Herodes. O grande historiador judeu Flávio Josefo, que viveu entre os séculos I e II, conta que Salomé veio a se casar com um tio-avô, também chamado Filipe (filho de Herodes, o Grande), que reinou sobre as terras do norte (Lc 3.1). O prato (v.11), no qual a cabeça de João é apresentada, era uma peça de madeira onde serviam as carnes nas festas. João permanecera por mais de um ano no cativeiro, devido à indecisão de Herodes, que além de permitir a visita dos discípulos de João, também gostava de ouvir o profeta (11.2).


MATEUS 14

que possam ir aos povoados comprar comida”. 16 Jesus, porém, lhes respondeu: “O povo não precisa ir embora; dai-lhes vós mesmos algo para comer”. 17 Ao que eles replicaram: “Tudo o que temos aqui são cinco pequenos pães e dois peixes!” 18 Mas Jesus lhes disse: “Tragam-nos aqui para mim”. 19 E mandou que as multidões se assentassem sobre o gramado. Tomou, então, os cinco pães e os dois peixes e, olhando para o céu, os abençoou. Em seguida, tendo partido os pães, deu-os aos discípulos, e estes serviram às multidões.2 20 Todos comeram até ficar satisfeitos, e os discípulos recolheram doze cestas cheias de pedaços que sobraram. 21 Os que se alimentaram foram cerca de cinco mil homens, sem contar as mulheres e as crianças.

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Jesus anda sobre o mar 22 Imediatamente após, Jesus insistiu com os discípulos para que entrassem no barco e fossem adiante dele para o outro lado, enquanto Ele despedia as multidões. 23 Assim que mandou o povo embora, subiu sozinho a um monte para orar. Ao chegar da noite, lá estava Ele, só. 24 Todavia, o barco já estava longe, no meio do mar, sendo fustigado pelas ondas; pois o vento era contrário. 25 Na quarta vigília da noite, foi Jesus ter com eles, andando por sobre o mar.3 26 Quando os discípulos o viram andando sobre as águas, ficaram aterrorizados e exclamaram: “É um fantasma!” E gritavam de medo. 27 Mas, imediatamente, Jesus lhes disse: “Tende bom ânimo! Sou Eu. Não temais!”. 28 Ao que Pedro exclamou: “Senhor! Se és tu, manda-me ir ao teu encontro por sobre as águas”.

2 Jesus, triste pela morte do grande amigo João, e não querendo ser confundido com o líder militar que muitos esperavam que fosse, busca a solitude, um tempo a sós para orar e refletir. Atravessa o mar da Galiléia, deixando Cafarnaum e os territórios de Herodes Antipas, e segue em direção a Betsaida Júlia. A multidão, entretanto, o vê partir só e caminha cerca de 8 km por uma região deserta até se encontrar com Cristo nos planaltos do território de Felipe. Era alta primavera na Palestina (que começa no meio de fevereiro), os campos estavam cobertos de relva e a Páscoa dos judeus estava próxima (Jo 6.4). Jesus se coloca entre a multidão como o pai no meio de sua família. Esse é o único milagre de Jesus, registrado por todos os evangelistas (Mc 6.30-46; Lc 9.10-17; Jo 6.1-15). Mateus, entretanto, não tem uma preocupação cronológica em relação aos fatos, narra a história no passado (vv. 1,2,13), pois deseja apresentá-la de modo que as pessoas a gravem na memória. De acordo com a tradição judaica, o chefe da família proferia, no início de cada refeição, sobre o pão que ele partia, uma “oração de agradecimento” que era chamada de “bênção” e, por isso, na KJ de 1611, esse termo aparece como blessed (abençoou). Jesus estava revelando ao povo que, assim como o Pai libertou seu povo do Egito e os alimentou no deserto, Ele estava novamente no meio do seu povo para os salvar, curar e alimentar. A palavra grega original kophinous, traduzida no vv.20 como “cestas” refere-se a uma pequena cesta de vime ou folhas de palma, usada para compras domésticas. A “bênção” não acontece por ser costume, mas porque por meio de Jesus, a fórmula é preenchida com um novo conteúdo: a presença do Cristo, que abre o acesso ao Pai (Jo 1.51). O povo e especialmente os discípulos viram que a ação de graças de Jesus produziu milagres, e aprenderam que um método milagroso que traz bênçãos é agradecer pelo pouco que temos, e dividi-lo com o próximo. 3 Jesus “insistiu” para que os discípulos saíssem depressa. A palavra grega usada aqui é enfática e significa “compeliu”, sugerindo uma forte transição. João registra que depois do milagre dos pães e peixes, as multidões pretendiam proclamar Jesus rei dos judeus, à força (Jo 6.15), o que indicava uma compreensão totalmente errada da missão de Cristo; nesse momento os discípulos também haviam sido influenciados por essas idéias e Jesus precisou ser enérgico com eles e enviá-los para o outro lado do mar. O dia judaico, isto é, o intervalo entre a aurora e o crepúsculo, era dividido em três partes: manhã, meio-dia e tarde (Sl 55.17). Os judeus distinguiam duas tardes no dia: a primeira começava por volta das três horas, e a segunda ao pôr-do-sol (Êx 12.6, literalmente: entre as tardes). Portanto, os judeus contavam apenas três vigílias. No v. 13, trata-se da primeira tarde; no v. 23 refere-se à segunda. Mateus faz registro de Jesus orando apenas aqui e no Getsêmani (26.36-46). Para os romanos, entretanto, a noite era dividida em quatro vigílias: 1) das 18 às 21h. 2) das 21h à meia noite. 3) da meia noite às 3h e 4) das 3h às 6h. O estádio (em grego stadion), termo que aparece em algumas versões, equivalia a 1/8 de milha romana, ou cerca de 185 metros. Durante a madrugada, Jesus se aproxima do barco sobre o mar revolto e lhes pede para ter bom ânimo (na KJ de 1611 Be of good cheer!). Literalmente: “tenham coragem”. E, em seguida, revela a razão de se ter ânimo (coragem) e esperança no meio das aflições: Sou Eu, mas que no original vem grafado: Eu Sou (em grego egô eimi), o nome e o caráter de Deus (Êx 3.14). A proximidade do Senhor lança fora todo temor, destrói o mal e enche a alma de paz, alegria e vontade renovada de viver. Por isso, no Reino de Deus, ser é mais importante que ter.


33 29 Então Jesus lhe responde: “Vem!” E Pe-

dro, deixando o barco, andou por sobre as águas e foi na direção de Jesus. 30 Todavia, reparando na força do vento, teve medo, e começando a afundar, gritou: “Senhor! Salva-me!” 31 Jesus estendeu imediatamente a mão, segurou-o e lhe disse: “Homem de pequena fé, por que duvidaste?”. 32 Assim que ambos entraram no barco, cessou o vento. 33 Então os que estavam no barco adoraram-no, exclamando: “Verdadeiramente Tu és o Filho de Deus”.4 34 Depois de atravessarem o mar, chegaram a Genesaré. Jesus curou a todos que o tocaram 35 Quando os homens daquele lugar reconheceram Jesus, divulgaram a notícia em toda aquela região e lhe trouxeram todos os enfermos. 36 Suplicavam então a Ele que ao menos pudessem tocar na borda do seu manto. E todos os que nele tocaram ficaram plenamente sãos.

MATEUS 14, 15

Jesus, as tradições e a Lei (Mc 7.1-23)

15

Então alguns fariseus e escribas, vindos de Jerusalém, foram até Jesus e questionaram: 2 “Por que os seus discípulos transgridem a tradição dos anciãos? Visto que eles não lavam as mãos antes de comer!”. 3 Ponderou-lhes Jesus: “E porque transgredis vós também o mandamento de Deus, por causa da vossa tradição? 4 Pois Deus ordenou: ‘Honra a teu pai e a tua mãe’, e ainda, ‘Quem amaldiçoar seu pai ou sua mãe seja punido com a morte’. 5 Contudo, vós dizeis que se alguém disser a seu pai ou a sua mãe: ‘Oferta é ao Senhor a ajuda que de mim devias receber’; 6 esse jamais estará obrigado a honrar seu pai ou sua mãe com seus bens. E assim invalidastes a Palavra de Deus, por causa da vossa tradição.1 7 Hipócritas! Bem profetizou Isaías sobre vós, denunciando: 8 ‘Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim. 9 Em vão me adoram; pois ensinam dou-

4 Apenas Mateus registra esse episódio na vida de Pedro. A expressão em aramaico, usada pelos discípulos para concluir tudo o que se passou naquela madrugada no meio do mar da Galiléia, aqui traduzida como Verdadeiramente Tu és o Filho de Deus, significa que aqueles homens haviam reconhecido, sem sombra de dúvida, que Jesus de Nazaré e Deus (Yahweh) são a mesma pessoa. Genesaré, também conhecida como Planície Estreita, ficava do lado ocidental do mar da Galiléia, ao norte de Magdala. Essa planície era um grande jardim na Palestina, fértil e todo irrigado, com cerca 6,5 km de extensão e 3 km de largura. As pessoas receberam a Jesus com grande fé, e muitas maravilhas Ele realizou ali (Mc 5.28; At 19.12). Capítulo 15 1 Os escribas e fariseus chegaram de Jerusalém para reforçar o grupo dos inimigos de Jesus, que já estava se estruturando, como no caso dos fariseus com os herodianos (Mc 3.6). Mais tarde, até os saduceus, tradicionalmente rivais dos fariseus, se juntariam aos perseguidores do Senhor (Mt 16.6). A “tradição dos anciãos” era a interpretação oral e escrita da Lei de Moisés, mas com muitas outras doutrinas e preceitos que foram sendo adicionados com o tempo; e que tinha autoridade quase igual a da própria Lei, entre os fariseus (5.43). Todas essas orientações deram origem, mais tarde (200 a.D.) à Mishná, a parte mais importante do Talmude, que é a fonte da lei judaica. O legalismo e o volume de pequenos preceitos haviam crescido tanto que a simples tradição, por motivos higiênicos, de se lavar as mãos antes das refeições, tornou-se um ritual de purificação para afastar a mínima possibilidade de um judeu ter sido contaminado pela poeira vinda de algum pagão (10.14). A ocupação romana intensificou esse estado de “guerra contra a impureza” mediante o cumprimento de inúmeras doutrinas e obrigações religiosas. A intenção por traz dessas práticas, entretanto, era conseguir o favor de Deus para a expulsão dos pagãos (romanos). Jesus passa a citar os mandamentos (Êx 20.12; Dt 5.16; Êx 21.17; Lv 20.9), mostrando como a tradição dos judeus e muitas interpretações e práticas religiosas estavam em desacordo com a própria Lei e, portanto, se constituíam em maior pecado contra Deus. Por exemplo, se alguém desejava livrar-se da responsabilidade judaica de cuidar dos pais idosos, era só fazer uma declaração falsa de que havia doado seus bens ao templo (em hebraico korban, quer dizer, oferta). Assim, os bens dessa pessoa seriam registrados em nome do templo como uma oferta ao Senhor, até a morte dos pais, quando então se “negociaria” com os escribas, um valor a ser pago para reavê-los. Jesus censura esse tipo de amor às regras, maior do que o amor devido a Deus e às pessoas (Is 29.13). Adverte que a comida que não foi preparada segundo as tradições dos antigos mestres não prejudica o corpo ou traz pecado sobre a alma (At 10.10-15). Jesus usa um vocábulo raro (em grego aphedrôna), que significa: esgoto, privada, latrina. O que profana (em grego koinein), ou seja, torna uma pessoa comum, impura e, portanto, sem direito a participar do culto público ou, sequer, aproximar-se de Deus em oração, é o mal concentrado no íntimo do ser humano e que é expresso por meio das palavras da boca (Tg 3.6-12).


MATEUS 15

trinas que não passam de regras criadas por homens’”. 10 Então, Jesus conclamou a multidão a aproximar-se e pregou: “Ouvi e entendei! 11 Não é o que entra pela boca o que torna uma pessoa impura, mas o que sai da boca, isto sim, corrompe a pessoa”. 12 Então, aproximando-se dele os discípulos, avisaram: “Sabes que os fariseus se ofenderam quando ouviram essas tuas palavras?”. 13 Mas Ele respondeu: “Toda planta que meu Pai celestial não plantou será arrancada. 14 Deixai-os! Eles são guias cegos guiando cegos. Se um cego conduzir outro cego, ambos cairão no buraco”. 15 Então, pediu-lhe Pedro: “Explica-nos a outra parábola?”. 16 Ao que Jesus replicou: “Também vós não compreendeis até agora? 17 Não entendeis ainda que tudo o que entra pela boca desce para o estômago, e mais tarde é lançado no esgoto? 18 Entretanto, as coisas que saem da boca vêm do coração e são essas que tornam uma pessoa impura. 19 Porque do coração é que procedem os maus intentos, homicídios, adultérios, imoralidades, roubos, falsos testemunhos, calúnias, blasfêmias. 20 Essas coisas corrompem o indivíduo, mas o comer sem lavar as mãos não o torna impuro”. Jesus atende ao clamor dos gentios (Mc 7.24-30)

Deixando aquele lugar, Jesus retirouse para a região de Tiro e de Sidom. 21

34 22 E eis que uma mulher cananéia, natural

daquelas regiões, veio a Ele, clamando: “Senhor! Filho de Davi, tem compaixão de mim! Minha filha está horrivelmente tomada pelo demônio”. 23 Ele, porém, não lhe respondeu qualquer palavra. Então, os seus discípulos, aproximando-se, pediram-lhe: “Manda essa mulher embora, pois vem gritando atrás de nós”. 24 Ao que Jesus replicou: “Eu não fui enviado, senão às ovelhas perdidas da casa de Israel”.2 25 Chegou então a mulher e o adorou de joelhos, suplicando: “Senhor, ajuda-me!” 26 Ao que Jesus lhe respondeu: “Não é justo tirar o pão dos próprios filhos para alimentar os cães de estimação”. 27 Ela, porém, replicou: “Sim, Senhor, mas até os cães de estimação, comem das migalhas que caem das mesas de seus donos”. 28 Então Jesus exclamou: “Ó mulher, grande é a tua fé! Seja feito a ti conforme queres”. E naquele exato momento sua filha ficou sã. Outra multiplicação de pães (Mc 8.1-10)

Partiu Jesus dali e foi para a orla do mar da Galiléia; e, subindo a um monte, assentou-se ali.3 30 Então, multidões dirigiram-se a Ele, levando consigo mancos, aleijados, cegos, mudos e muitos outros doentes, e os colocaram aos pés de Jesus; e Ele os curou. 31 O povo ficou atônito quando viu os mudos falando, os aleijados curados, os mancos andando e os cegos enxergando. E louvaram o Deus de Israel. 29

2 A expressão “cananéia” ocorre muitas vezes no AT, mas no NT, apenas aqui. Tem a ver com os descendentes dos cananeus que Josué expulsou de Canaã, a Terra Prometida, cuja civilização ficou estabelecida na cidade de Tiro. Marcos chamava essa senhora de “grega” (gentia), quer dizer, helênica, por causa de sua origem sírio-fenícia (Mc 7.26). A palavra “cães de estimação” ou “cachorrinhos”, como em algumas versões, vem do grego original kunarion, que significa: pequenos cães de colo. Jesus precisava deixar claro que a prioridade máxima de sua missão era salvar os judeus. Por algum motivo, aquela senhora grega e gentia compreendeu perfeitamente a mensagem de Jesus, e reverentemente, usou a própria metáfora do Senhor para reivindicar seu espaço no coração compassivo de Cristo. A fé daquela mulher humilde mostrou-se maior, mais verdadeira e pura que a fé demonstrada pelos mestres e líderes religiosos que haviam contestado a santidade (pureza religiosa) de Jesus e seus discípulos. 3 O monte era uma subida para a planície atrás de Cafarnaum, no sentido de quem sobe do mar da Galiléia. Nesse lugar Jesus costumava pregar, ensinar e curar as muitas pessoas que sempre o procuravam; o mesmo local onde pregou o Sermão do Monte (5.1). Ao contrário do que pensam alguns teólogos, esse milagre não é apenas outra versão do mesmo fato ocorrido em 14.15-21. O próprio Jesus destaca claramente os dois acontecimentos (16.9 e10), além do que, essa segunda multiplicação ocorreu em


35

Chamou Jesus os seus discípulos para dizer-lhes: “Tenho compaixão destas muitas pessoas, pois há três dias permanecem comigo e não têm o que comer. Não quero mandá-las embora em jejum, porque podem desfalecer no caminho”. 33 Mas os discípulos lhe disseram: “Onde poderíamos, encontrar, neste lugar deserto, pães suficientes para alimentar tantas pessoas?” 34 Perguntou-lhes Jesus: “Quantos pães tendes?” Ao que eles responderam: “Sete, e mais uns pequenos peixes”. 35 Ele mandou, então, que o povo se assentasse no chão. 36 Tomou os sete pães e os pequenos peixes e deu graças. Em seguida os partiu e os entregou aos discípulos, e estes distribuíram à multidão. 37 Todas as pessoas comeram até se fartarem. E foram recolhidos sete grandes cestos, cheios de pedaços que haviam sobrado. 38 E assim, os que comeram eram quatro mil homens, sem contar as mulheres e as crianças. 39 A seguir, Jesus se despediu da multidão, entrou no barco e foi para a região de Magadã. 32

Religiosos pedem um sinal (Mc 8.11-13)

16

Os fariseus e os saduceus aproximaram-se de Jesus e, para o provar, pediram que lhes mostrasse um sinal vindo do céu. 2 Então Ele lhes ponderou: “Quando começa a entardecer, dizeis: ‘Haverá bom tempo, pois o céu está avermelhado’. 3 Ou, pela manhã, dizeis: ‘Hoje haverá tempestade, porque o céu está de um vermelho nublado’. Sabeis, com certeza, discernir os aspectos do céu, mas

MATEUS 15, 16

não podeis interpretar os sinais dos tempos? 4 Esta geração perversa e infiel pede um sinal; mas nenhum sinal lhe será concedido, a não ser o sinal de Jonas”. Jesus se afastou, então, deles e partiu dali. O fermento dos religiosos (Mc 8.14-21)

5 Indo os discípulos para o outro lado do

mar, esqueceram-se de levar pães. 6 E Jesus lhes falou: “Estejais alerta, e acautelai-vos do fermento dos fariseus e saduceus”. 7 Entretanto, eles discutiam entre si, dizendo: “É porque não trouxemos pães”. 8 Percebendo a desavença, Jesus indagou: “Por que discordais entre vós, homens de pequena fé, sobre o não terdes pães? 9 Não compreendeis até agora? Nem sequer lembrais dos cinco pães para cinco mil homens e de quantas cestas recolhestes? 10 Nem dos sete pães para aqueles outros quatro mil e de quantos cestos recolhestes? 11 Como não entendeis que não vos falava a respeito de pães? E, sim: tende, pois, cuidado com o fermento dos fariseus e saduceus”. 12 Compreenderam, então, que não lhes dissera que se guardassem do fermento dos pães, mas que se acautelassem da doutrina dos fariseus e saduceus. Deus revela Jesus Cristo a Pedro (Mc 8.27-30; Lc 9.18-21)

Quando Jesus chegou à região de Cesaréia de Filipe, consultou seus discípulos: “Quem as pessoas dizem que o Filho do homem é?”1 14 E eles responderam: “Alguns dizem que é João Batista; outros Elias; e ainda há quem diga, Jeremias ou um dos profetas”. 13

outro lugar (Decápolis, Mc 7.31), com um número diferente de pães e peixes, uma multidão menor, menos sobras recolhidas, os “cestos” (no original grego spyridas), mencionados aqui eram usados nos mercados da época e maiores do que as alcofas, pequenas “cestas” de vime ou folhas de palma, usadas na primeira multiplicação (14.20). Jesus toma um rumo diferente, após a segunda multiplicação, desta vez segue com seus discípulos para Magadã, também conhecida como Magdala e Dalmanuta (Mc 8.10), a cidade de Maria Madalena, que ficava entre Tiberíades e Cafarnaum. Capítulo 16 1 A cidade de Cesaréia de Filipe ficava ao norte do mar da Galiléia, perto das encostas do monte Hermom. Seu nome antigo era


MATEUS 16

Então Jesus interpelou: “Mas vós, quem dizeis que Eu sou?”. 16 E, Simão Pedro respondeu: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”.2 17 Ao que Jesus lhe afirmou: “Abençoado és tu, Simão, filho de Jonas! Pois isso não foi revelado a ti por carne ou sangue, mas pelo meu Pai que está nos céus. 18 Da mesma maneira Eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do Hades não prevalecerão contra ela.3 15

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Eu darei a ti as chaves do Reino dos céus; o que ligares na terra haverá sido ligado nos céus, e o que desligares na terra, haverá sido desligado nos céus”.4 20 E, então, ordenou aos discípulos que a ninguém dissessem ser Ele o Cristo. 19

Jesus prediz seu sacrifício (Mc 8.31-9.1; Lc 9.22-27)

A partir daquele momento Jesus começou a explicar aos seus discípulos que era necessário que Ele fosse para Jerusa21

Panéias (em homenagem ao deus grego Pan). O filho de Herodes, Filipe, reconstruiu essa cidade, como parte de sua tetrarquia, e lhe deu um novo nome, em homenagem a Tibério César e a si mesmo. Essa era, portanto, uma região extremamente pagã. Jesus costumava se intitular de “o Filho do homem”, expressão que aparece mais de 80 vezes no NT, jamais se referindo a qualquer outra pessoa. No AT, em Dn 7.13,14, esse título é usado para retratar a personalidade celestial a quem, no final dos tempos, Deus confiou toda a sua glória, honra e poder (soberania divina). 2 Havia muitas lendas e superstições nessa época e lugar. O próprio Herodes cria na reencarnação de João Batista, que foi um profeta muito estimado pelo povo e até pelo rei. A volta de Elias foi profetizada em Ml 4.5 e muitos judeus ligavam o nome de Jeremias ao profeta prometido em Dt 18.15. Contudo, em meio a tantas idéias e correntes religiosas, Pedro (Bar-Jonas ou, melhor traduzido, filho de Jonas), que falou em nome dos discípulos (v. 20), é agraciado com a maior das revelações que uma pessoa pode receber de Deus: a compreensão de que Jesus de Nazaré (o Jesus histórico) é o Filho Unigênito de Deus, o Cristo prometido (Messias, em hebraico), que significa,Ungido. Palavra que, no original hebraico, transmite a idéia de uma pessoa escolhida por Deus, separada (consagrada, santificada), e revestida de poder para a realização de uma missão divina e específica na terra (Êx 29.7,21; 1Sm 10.1,6; 16.13; 2Sm 1.14,16). No final do AT, essa palavra passou a ter uma conotação particular: referiase a um rei ideal, ungido e capacitado por Deus para libertar os judeus dos inimigos pagãos e estabelecer um reino de justiça e paz (Dn 9.25,26). Por isso, na época de Cristo, o título Messias tendia a uma compreensão política, nacionalista, revolucionária e militar e isso fez que Jesus evitasse usar o termo em relação à sua pessoa e missão (Mc 8.27-30; 14.61-63). Pedro obteve de Deus a revelação de que Jesus é o Messias prometido desde a antiguidade, o Cristo. Essa é a pedra (o alicerce) sobre a qual a Igreja seria construída e nada poderia deter o seu avanço e o cumprimento da sua missão até o Dia do Senhor. 3 Jesus comemora a bênção da revelação de Deus a Simão (nome comum em Israel, com origem no AT) conferindo-lhe um sobrenome marcante. Jesus conviveu com várias pessoas com o nome de Simão: um dos filhos de José e Maria, seu irmão (Mt 13.55; Mc 6.3), um amigo leproso, na casa do qual foi ungido (Mt 26.6; Mc 14.3), um homem de Cirene, compelido a ajudá-lo a levar sua cruz e que, mais tarde, tornou-se cristão (Mc 15.21; At 13.1), um fariseu em cuja casa os pés de Jesus foram ungidos (Lc 7.40), Simão Iscariotes, pai de Judas (Jo 6.71; 12.4; 13.2). Na época dos apóstolos, houve um outro Simão, samaritano, ilusionista, feiticeiro e enganador, que misturava elementos de magia com ensinos helenísticos e judaicos. Foi o criador da doutrina gnóstica e alegava ser o principal representante de Deus na terra. Dizia-se convertido ao cristianismo, mas desejou comprar o poder dos apóstolos e recebeu enérgica repreensão de Simão Pedro (At 8.9-24). Em Pedro, temos o exemplo de que Jesus nos concede um novo nome, a marca espiritual da salvação e da bravura cristã. O nome Pedro (em grego Petros) significa “pedra separada” ou “homem-pedra”. Na frase seguinte, Cristo usou a palavra grega petra (“sobre esta rocha”), que significa “leito de rocha resistente” e que não era um nome próprio. Jesus utilizou a arte dos significados das palavras para ampliar o poder do que desejava comunicar aos seus discípulos, e não apenas para aqueles dias. Ele não disse “sobre ti, Pedro” ou “sobre teus sucessores”, mas sim “sobre esta rocha” – sobre esta revelação de Deus e sobre este seu testemunho de fé em Jesus. O uso do tempo futuro do verbo demonstra que a formação da Igreja ainda estava por acontecer. E, de fato, a Igreja – como a conhecemos hoje – teve início no dia de Pentecostes (At 2). Nos Evangelhos a palavra Igreja (em grego ekkesia ou ekklesia; e em latim ecclesia) é usada somente por Mateus, aqui e duas vezes em 18.17. Na Septuaginta (o AT em grego), é usada para identificar a congregação (sinagoga) de Israel. Entre os gregos, nos tempos de Jesus, significava a assembléia dos cidadãos livres e votantes da cidade (At 19.32,39,41). Hades (em grego haidês, e no hebraico Sheol) é a palavra grega que consta nos originais das Escrituras neste texto e significa o lugar onde estão os espíritos dos que morreram. Onde, também, os salvos desfrutam de paz e os descrentes de aflições. Todos, no entanto, aguardam a volta de Jesus, quando os cristãos desfrutarão plenamente das bênçãos da vida eterna e os incrédulos (os que, na terra, rejeitaram a salvação) o Juízo e a pena da segunda morte: o afastamento eterno de Deus (Gn 37.35; Jó 17.16). Assim sendo, “as portas do Hades” significam “os poderes da morte” e todas as forças opostas a Cristo. Algumas versões usam a palavra “inferno” (em grego geena que deriva do hebraico gê’ hinnõm, e significa: lugar de punição para pecadores), como sinônimo de Hades. 4 A partir daquele momento, Jesus estava concedendo a Pedro e aos demais discípulos, poder e autoridade para abrir as portas da cristandade aos judeus, prosélitos e mais tarde a todos os gentios e pagãos em todo o mundo. Pedro usou essas chaves com os judeus no dia de Pentecostes (At 2) e para os gentios na casa de Cornélio (At 10). Deus, e não os apóstolos ou discípulos, é quem inicia o “ligar” e o “desligar” nos céus. Os apóstolos devem proclamar tais fatos (At 5.3,9). Em Jo 20.22-23 Jesus fala de


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lém e sofresse muitas injustiças nas mãos dos anciãos, dos chefes dos sacerdotes e dos escribas, para então ser morto e ressuscitar ao terceiro dia. 22 Pedro, porém, chamando-o à parte, começou a admoestá-lo, dizendo: “Deus seja gracioso contigo, Senhor! De modo algum isso jamais te acontecerá”. 23 E virando-se Jesus repreendeu a Pedro: “Para trás de mim, Satanás! Tu és uma pedra de tropeço, uma cilada para mim, pois tua atitude não reflete a Deus, mas, sim, os homens”.5 24 Então Jesus declarou aos seus discípulos: “Se alguém deseja seguir-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e me acompanhe. 25 Porquanto quem quiser salvar a sua vida, a perderá, mas quem perder a sua vida por minha causa, encontrará a verdadeira vida. 26 Pois que lucro terá uma pessoa se ganhar o mundo inteiro, mas perder a sua alma? Ou, o que poderá dar o ser humano em troca da sua alma?

MATEUS 16, 17

Mas o Filho do homem virá na glória de seu Pai, com os seus anjos, e então recompensará a cada um de acordo com suas obras. 28 Com toda a certeza vos afirmo que alguns dos que aqui se encontram não experimentarão a morte até que vejam o Filho do homem vindo em seu Reino”.6 27

A transfiguração de Jesus Passados seis dias, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, irmão de Tiago, e os levou, em particular, a um alto monte.1 2 Ali Ele foi transfigurado na presença deles. Sua face resplandeceu como o sol, e suas vestes tornaram-se brancas como a luz. 3 De repente, surgiram à sua frente Moisés e Elias, conversando com Jesus. 4 Expressando-se Pedro, disse a Jesus: “Senhor, é bom estarmos aqui. Se desejares, farei aqui três tendas: uma para ti, uma para Moisés e outra para Elias”. 5 Enquanto ele ainda estava falando, uma nuvem resplandecente os envolveu, e

17

pecados; aqui ele está falando de práticas. Veja um exemplo dessas práticas determinativas em At 15.20. Jesus pede aos discípulos sigilo quanto à confissão pública de Pedro. Isso porque uma multidão dos seus seguidores queria proclamá-lo libertador nacional e iniciar logo uma revolução contra Roma. Crescia a inveja dos doutores da lei e líderes religiosos, contra Jesus, e já planejavam sua morte. O Senhor queria completar sua missão, mas o entusiasmo de Pedro e dos apóstolos poderia precipitar os acontecimentos (9.30; 12.16; Mc 1.44; 5.43; 7.36; 8.4; Lc 8.56). 5 O Senhor reconheceu nas palavras de Pedro a influência de Satanás; a mesma artimanha que o Inimigo usou no deserto para tentar persuadi-lo a ter compaixão de si mesmo e trocar o alto custo da sua missão pela glória e os prazeres deste mundo. Jesus usa a palavra aramaica Enganador, não para dizer que Pedro estava endemoninhado, mas para alertar a todos que é muito fácil cairmos na ilusão do Diabo e começarmos a pensar com os valores, conceitos e argumentos do pai da mentira. Jesus recorre à força da linguagem (palavra) e usa a metáfora: “pedra de tropeço”, que no original significa: “rocha de ofensa” ou “motivo de escândalo” (Rm 9.33), para admoestar Pedro quanto à sua recente revelação, nova posição no Reino de Deus e missão. Assim como a palavra hebraica traduzida por “Satanás”, a palavra grega “Diabo” significa “Acusador” ou “Caluniador”. Em Jó, essa expressão (Jo 1.6), no original hebraico, vem sempre acompanhada do artigo definido (o Acusador, o Caluniador, ou ainda, o Enganador), mas com o passar do tempo essa palavra virou o nome próprio do Inimigo (1Cr 21.1 com 2Sm 24.1; 1Sm 16.14 com 2Sm 24.16; 1Co 5.5; 2Co 12.7; Hb 2.14; Ap 2.9). 6 Uma semana depois desses acontecimentos, Pedro, Tiago e João presenciam o cumprimento dessa profecia na experiência da transfiguração de Cristo (17.1-8), que foi também uma antevisão da plenitude do Reino, com o Senhor aparecendo em glória (Dn 7.9-14). A passagem bíblica de 16.13 a 17.8 trata do ministério do discipulado cristão. Os versículos de 13-20 falam da obra do Messias; de 21-23 tratam da expiação; 24-26 advertem para o custo da missão; 27-17.8 dizem respeito à escatologia com suas recompensas. Juntos, esses textos, tratam das verdades fundamentais da teologia bíblica do NT. Capítulo 17 1 Lucas fala em “cerca de oito dias” em seu texto paralelo (Lc 9.28), pois indica os seis dias de intervalo mais o dia em que Jesus falou e o dia em que a transfiguração aconteceu em algum ponto do monte Hermom (com cerca de 3000 metros de altura), a 20 km de Cesaréia de Filipe. Como prometera, Jesus oferece a alguns discípulos (mais íntimos), uma antevisão da exaltação futura do Senhor e do pleno estabelecimento do seu Reino. Jesus foi visto em sua forma glorificada. Moisés comparece representando a antiga aliança e a promessa da salvação (que dentro em breve seria cumprida no sacrifício de Jesus). Elias representa os profetas e o cumprimento da Palavra de Deus. Lucas acrescenta que conversavam a respeito da iminente morte de Cristo (Lc 9.31). Jesus é revelado como a realidade gloriosa à qual a totalidade do AT apresenta como o cumprimento de toda a história da redenção


MATEUS 17

dela emanou uma voz dizendo: “Este é o meu Filho amado em quem me regozijo: a Ele atendei!”. 6 Ao ouvirem isso, os discípulos prostraram-se com o rosto em terra e ficaram atemorizados. 7 Então Jesus, aproximando-se deles, tocou-osedisse:“Levantai-vos,enãotemais!”. 8 Ao erguer os olhos, a ninguém mais viram, senão somente a Jesus. 9 Enquanto desciam do monte, Jesus lhes ordenou: “A ninguém conteis a visão que tivestes, até que o Filho do homem ressuscite dentre os mortos”. 10 E os discípulos lhe perguntaram: “Então, por que os escribas ensinam que é preciso que Elias venha primeiro?”. 11 Ao que Jesus lhes respondeu: “Elias, com certeza, vem e restaurará todas as coisas.2 12 Eu, todavia, vos afirmo: Elias já veio, mas eles não o reconheceram e fizeram com ele tudo quanto desejaram. Da mesma forma, o Filho do homem irá sofrer nas mãos deles”. 13 Os discípulos entenderam, então, que era a respeito de João Batista que Ele havia falado. A cura do menino possesso 14 Ao chegarem onde se reunia a multidão, um homem aproximou-se de Jesus, ajoelhou-se diante dele e clamou: 15 “Senhor, compadece-te do meu filho, pois tem sofrido horrivelmente com ataques epiléticos. Muitas vezes cai no fogo, e outras tantas, na água.3 16 Apresentei-o aos teus discípulos, mas eles não conseguiram curá-lo”.

38 17 Então Jesus exclamou: “Ó geração sem

fé e perversa! Até quando estarei convosco? Até quando vos terei de suportar? Trazei-me aqui o menino”. 18 E Jesus repreendeu o demônio; este saiu do menino, que daquele momento em diante ficou são. 19 Então os discípulos chegaram-se a Jesus e, em particular, lhe perguntaram: “Por qual motivo não nos foi possível expulsá-lo?”. 20 E Ele respondeu: “Por causa da pequenez da vossa fé. Pois com toda a certeza vos afirmo que, se tiverdes fé do tamanho de um grão de mostarda, direis a este monte: ‘Passa daqui para acolá’, e ele passará. E nada vos será impossível! 21 Contudo, essa espécie só se expele por meio de oração e jejum”. Jesus prediz novamente seu martírio 22 Ao se reunirem na Galiléia, compartilhou com eles, dizendo: “O Filho do homem está prestes a ser entregue nas mãos dos homens. 23 Eles o matarão, mas no terceiro dia Ele será ressuscitado”. Então, profunda tristeza abalou os discípulos. Jesus paga o imposto secular 24 Quando Jesus e seus discípulos chegaram a Cafarnaum, os cobradores do imposto de duas dracmas abordaram a Pedro e questionaram: “O vosso mestre não paga o imposto das duas dracmas, ao templo?”. 25 “Sim, paga”, respondeu Pedro. Mas quando ele entrou em casa, Jesus se

humana, desde o dia em que Abraão foi chamado para obedecer a Deus e abandonou tudo o que tinha, para receber a herança prometida (Gn 12.2,3; 15.4,5). Na experiência da transformação de Jesus, Deus Pai intervém na história para consolar o Filho, que já estava a caminho da crucificação (22-23 com 16-21), e também aos discípulos, a fim de darem toda a atenção às palavras de Jesus e continuarem firmes na fé após sua morte e ascensão. Bem mais tarde, Pedro vai citar esse evento em suas pregações, como uma das provas irrefutáveis da divindade de Jesus, o Messias (2Pe 1.16-18). 2 Os mestres da lei (escribas) defendiam, com base em Ml 4.5-6, que Elias deveria reaparecer em Israel para anunciar a vinda do Messias. Contudo, Jesus demonstrou que foi João, o Batista, a pessoa que cumpriu essa missão profética, pois até suas vestes, maneira de viver e personalidade revelavam o caráter de um Elias, e esse era o sentido da profecia. 3 A expressão grega original, em algumas versões traduzida por “lunático”, significa: “epilético”. Evidentemente nem todo ataque epilético tem a ver com possessão demoníaca; mas, neste caso, o menino estava mesmo possuído por um demônio muito poderoso. Todavia, qualquer discípulo que tivesse fé e comunhão com Deus (jejum e oração) poderia expulsá-lo e curar o menino.


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antecipou e perguntou-lhe primeiro: “Simão, qual a tua opinião? De quem cobram os reis da terra impostos e tributos? Dos seus filhos ou dos estranhos?”. 26 “Dos estranhos”, respondeu Pedro. Ao que Jesus concluiu: “Logo, estão, os filhos, livres dessa obrigação”.4 27 Entretanto, para que não os escandalizemos, vai ao mar, lança o anzol, e o primeiro peixe que fisgar, tira-o, e, abrindo-lhe a boca, acharás um estáter. Retira aquela moeda e entregue a eles para pagar o meu imposto e o teu também. Quem é o maior no Reino? (Mc 9.33-37,42-26; Lc 9.46-48)

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Naquele momento os discípulos aproximaram-se de Jesus e perguntaram: “Quem é o maior no Reino dos céus?”.1 2 E Jesus, chamando uma criança, colocou-a no meio deles. 3 E disse: “Com toda a certeza vos afirmo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no Reino dos céus.2 4 Portanto, todo aquele que se tornar humilde, como esta criança, esse é o maior no Reino dos céus. 5 E quem recebe uma destas crianças, em meu nome, a mim me recebe. Jesus adverte sobre as ciladas 6 Entretanto, se alguém fizer tropeçar um destes pequeninos que crêem em mim,

MATEUS 17, 18

melhor lhe seria amarrar uma pedra de moinho no pescoço e se afogar nas profundezas do mar. 7 Ai do mundo, por causa das suas ciladas! É inevitável que tais ofensas ocorram, mas infeliz da pessoa por meio da qual elas acontecem! 8 Sendo assim, se a tua mão ou o teu pé te fizerem cair em pecado, corta-os e lançaos fora de ti; pois melhor é entrares na vida, mutilado ou aleijado, do que, tendo as duas mãos ou os dois pés, seres atirado no fogo eterno. 9 Se um dos teus olhos te faz pecar, arranca-o, e lança-o fora de ti, pois melhor é entrares na vida com um olho só, do que, tendo os dois, seres lançado no fogo do inferno. A parábola da ovelha perdida (Lc 15.3-7)

Tende todo cuidado para que não desprezeis a qualquer destes pequeninos; pois Eu vos asseguro que seus anjos nos céus vêem continuamente a face de meu Pai celestial.3 11 Porque o Filho do homem veio para salvar o que se havia perdido. 12 Que opinião tendes? Se um homem tiver cem ovelhas, e uma delas se desgarrar, não deixará ele as noventa e nove nos montes, indo procurar a que se perdeu? 13 E se conseguir encontrá-la, com toda a certeza vos afirmo que maior contentamento sentirá por causa desta do que pelas noventa e nove que não se extraviaram. 10

4 O imposto das duas dracmas era cobrado anualmente de todos os homens de 20 anos para cima, sendo destinado à manutenção do templo. Havia cobradores para outros valores e tipos de impostos (Êx 30.13; 2Cr 24.9; Ne 10.32). Valia meio estáter ou siclo, por pessoa (valor que correspondia a dois dracmas ou dois dias de trabalho braçal). Jesus se antecipa à confusão mental de Pedro, ao demonstrar que os membros da família real ficam isentos de pagar os impostos do Reino. Assim, Jesus, o Filho de Deus (dono do templo) não estaria pessoalmente obrigado a arcar com parte do sustento da casa do seu Pai (Lc 2.49). Como Pedro ainda não tinha entendido a amplitude desse conceito e, além disso, já havia se comprometido com o pagamento, Jesus ilustra para ele, e para nós, mais esse ensino sobre a Sua pessoa, Reino e Missão, além dos nossos deveres civis e religiosos (Rm 13.7). Capítulo 18 1 Este é o último grande discurso de Jesus antes de ir para Jerusalém (Mc 9.33 com 17.25). Estavam todos reunidos na casa de Pedro e Jesus notou que havia se manifestado entre seus discípulos o mal do ciúme, da inveja e da competição por proeminência no ministério. 2 A expressão grega straphete significa “virar”, “mudar completamente” e está relacionada a uma nova vida voltada (consagrada) para Deus e não apenas a adoção de certa religiosidade formal. Ser como as crianças, é admitir um novo começo e dispor-se humildemente a aprender a viver como cidadão do Reino. 3 A referência aos pequeninos pode ser tanto às crianças quanto ao novos (neófitos) na fé cristã. O escândalo e o desprezo


MATEUS 18 14 Da mesma maneira, vosso Pai, que está

nos céus, não deseja que qualquer desses pequeninos se perca.4

Como tratar o pecado de um irmão 15 Se teu irmão pecar contra ti, vai e, em particular com ele, conversem sobre a falta que cometeu. Se ele te der ouvidos, ganhaste a teu irmão. 16 Porém, se ele não te der atenção, leva contigo mais uma ou duas pessoas, para que pelo depoimento de duas ou três testemunhas, qualquer acusação seja confirmada.5 17 Contudo, se ele se recusar a considerálos, dizei-o à igreja; então, se ele se negar também a ouvir a igreja, trata-o como pagão ou publicano. 18 Com toda a certeza vos asseguro que tudo o que ligardes na terra terá sido ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra terá sido desligado no céu. 19 Uma vez mais vos asseguro que, se

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dois dentre vós concordarem na terra em qualquer assunto sobre o qual pedirem, isso lhes será feito por meu Pai que está nos céus. 20 Porquanto, onde se reunirem dois ou três em meu Nome, ali Eu estarei no meio deles”.6 Quantas vezes se deve perdoar (Lc 17.3-4)

Então, Pedro chegou perto de Jesus e lhe perguntou: “Senhor, até quantas vezes meu irmão pecará contra mim, que eu tenha de perdoá-lo? Até sete vezes?”. 22 E Jesus lhe respondeu: “Não te direi até sete vezes; mas, sim, até setenta vezes sete”.7 21

A parábola do servo que não perdoou 23 “Portanto, o Reino dos céus pode ser comparado a certo rei, que decidiu acertar contas com seus servos. 24 Quando teve início o acerto, foi trazi-

por essas pessoas teriam o efeito de uma cilada (uma armadilha provocada pelo Diabo), afastando-as da verdadeira vida em Cristo. O provocador de escândalos receberá o mais severo julgamento de Deus. Quanto aos anjos, são seres criados por Deus para Sua adoração e serviço. Há várias classes de anjos com diversas especialidades. Aqui, Jesus se refere aos anjos guardiões, destacados pelo Senhor para cuidar das crianças e do povo de Deus em geral (Sl 34.7; 91.11; At 12.15; Hb 1.14). 4 A história da ovelha perdida também se acha em Lc 15.3-7. Ali é aplicada aos incrédulos, mas aqui aos cristãos. O v.14 não exclui a possibilidade da perdição, mas ressalta que a vontade de Deus é que todos sejam salvos. A pessoa que vai para o inferno, desde já recusa a salvação e aceita – direta ou indiretamente – a condição de perdido, não porque Deus queira (25.41;1Tm 2.4). Jesus usou a mesma parábola para ensinar verdades diferentes em situações específicas. 5 Jesus orienta seus discípulos quanto aos passos que devem ser observados para resolver os problemas de relacionamento interpessoal, pecados evidentes, e casos de excomunhão da igreja (congregação local): 1) Como primeiro passo (muitas vezes ignorado), o crente que se sente vítima de alguma ofensa ou que descobre um pecado em seu irmão de fé, deve convidá-lo para uma conversa a sós (ninguém mais deve saber desse assunto) e tentar estabelecer um diálogo honesto, sincero e cordial com o ofensor, a fim de “ganhar o seu irmão”; ou seja, que haja acertos e reparações (se necessário) para que os dois obtenham paz e alegria, e sigam servindo ao Senhor, dando bom exemplo ao mundo. 2) No caso da recusa ou indiferença do ofensor, a pessoa ofendida deve convidar um ou mais irmãos maduros na fé, que chamarão o ofensor para uma conversa em grupo, onde se buscará o Conselho de Deus, as reparações necessárias e a celebração da paz em Cristo (Gl 6.1-5). Jesus cita o texto de Dt 19.15, da Septuaginta (o AT em grego), incorporando esse justo e sábio princípio da lei mosaica para benefício da Igreja Cristã. 3) No caso de total indiferença ou falta de arrependimento por parte do ofensor, os líderes espirituais da igreja devem ser informados pelo grupo que tentou trazer o irmão faltoso ao bom senso e à perfeita comunhão em Cristo. Os líderes devem fazer o possível para “não perder” o irmão faltoso. No caso de claro desrespeito à Palavra de Deus e à liderança da igreja, então esse pecador obstinado deve ser afastado da comunhão cristã, ao menos até que recobre a sensatez, reconheça suas faltas e se disponha sinceramente a viver de acordo com os princípios da Palavra de Deus (1Co 5.4-5; 1Tm 1.20). 6 Essas são promessas dirigidas a todos os discípulos de Cristo (cristãos totalmente consagrados ao Senhor), pois saberão agir com sabedoria celestial. O v.19 é uma das grandes promessas do Evangelho, em relação à oração. Entretanto, é preciso observar a conexão desse versículo com o seu contexto imediato e o conteúdo do capítulo. Ou seja, a promessa é dada aos discípulos reunidos, tendo Jesus Cristo em seu meio (v. 20), com o objetivo de restaurar um irmão que esteja vivendo no erro (pecado – v. 17). Jesus confirma a autoridade dos discípulos para o exercício dessa função (v. 18 e 16.19), e a promessa é cumprida porque agem da parte do Pai, em nome do Filho (v. 20). O verdadeiro entendimento e unidade entre os seres humanos é algo raro, mesmo entre os cristãos. Deus só exige um acordo entre as pessoas: que Jesus Cristo, seu Filho, seja a grande paixão da humanidade e o ponto comum e central da fé. Jesus é o fator básico da unidade (Jo 17.19-21). É possível discordar e viver em comunhão, respeito e cooperação no Reino. 7 Os rabis e mestres judaicos ordenavam perdoar até três vezes. Pedro sugeriu um salto espiritual: sete vezes! O número


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do à sua presença um que lhe devia dez mil talentos.8 25 Porém, não tendo o devedor como saldar tal importância, ordenou o seu senhor que fosse vendido ele, sua mulher, seus filhos e tudo quanto possuía, para que a dívida fosse paga. 26 O servo, então, com toda a reverência, prostrou-se diante do rei e lhe implorou: ‘Sê paciente comigo e tudo te pagarei!’ 27 E o senhor daquele servo, teve compaixão dele, perdoou-lhe a dívida e o deixou ir embora livre. 28 Entretanto, saindo aquele servo, encontrou um dos seus conservos, que lhe estava devendo cem denários. Agarrou-o e começou a sufocá-lo, esbravejando: ‘Paga-me o que me deves!’ 29 Então, o seu conservo, caindo-lhe aos pés, lhe suplicava: ‘Sê paciente comigo e tudo te pagarei’. 30 Mas, ele não queria acordo. Ao contrário, foi e mandou lançar seu conservo devedor na prisão, até que toda a dívida fosse saldada. 31 Quando os demais conservos, companheiros dele, viram o que havia ocorrido, ficaram indignados, e foram contar ao rei tudo o que acontecera. 32 Então o rei, chamando aquele servo lhe disse: ‘Servo perverso, perdoei-te de toda aquela dívida atendendo às tuas súplicas. 33 Não devias tu, da mesma maneira, com-

MATEUS 18, 19

padecer-te do teu conservo, assim como eu me compadeci de ti?’ 34 E, sentindo-se insultado, o rei entregou aquele servo impiedoso aos carrascos, até que lhe pagasse toda a dívida. 35 Assim também o meu Pai celestial vos fará, a cada um, se de todo o coração não perdoardes cada um a seu irmão”. Casamento e Divórcio (Mc 10.1-12)

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E aconteceu que, concluindo Jesus essas palavras, partiu da Galiléia e dirigiu-se para a região da Judéia, no outro lado do Jordão. 2 Grandes multidões o seguiam e a todos curava ali.1 3 Alguns fariseus também chegaram até Ele e, para prová-lo, questionaram-lhe: “É lícito o marido se divorciar da sua esposa por qualquer motivo?”.2 4 E Jesus lhes explicou: “Não tendes lido que, no princípio, o Criador ‘os fez homem e mulher’, 5 e os instruiu: ‘Por este motivo, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois se tornarão uma só carne’? 6 Sendo assim, eles já não são dois, mas sim uma só carne. E, portanto, o que Deus uniu, não o separe o ser humano”.3 7 Replicaram-lhe: “Então por qual razão mandou Moisés dar uma certidão de divórcio à mulher e abandoná-la?”.

perfeito, completo. Mas, Jesus lhe respondeu com uma expressão matemática e filosófica que tende ao infinito. Ou seja: sempre! O cristão, por sua fé no Senhor, deve perdoar todas as vezes que o ofensor arrependido lhe pedir perdão. Só assim será possível ao crente compartilhar do amor, misericórdia e generosidade de Deus. 8 Jesus ilustra por que devemos perdoar sem limites. O perdão que Deus nos concedeu, ao nos abençoar com o dom da salvação, é tão grandioso, que qualquer ofensa que outro ser humano venha a praticar contra nós torna-se irrisória, embora possa nos fazer sofrer por algum tempo. Perdoar sempre dará mais espaço à plenitude divina em nossa alma. O “talento” era uma medida de peso, usada para pesar ouro e prata, equivalente, a cerca de 35 quilos. Cada talento valia cerca de 6.000 denários. O “denário” era uma moeda de prata que equivalia a um dia de trabalho braçal. Deus, finalmente, julgará a todos conforme seu amor longânimo e justiça severa; e espera de nós o mesmo senso de misericórdia (Tg 2.13). Capítulo 19 1 Jesus entrou na região da Peréia, em direção a Jerusalém, onde hoje se situa a Jordânia. Na época fazia parte das terras (tetrarquia) de Herodes Antipas, ficava a leste do rio Jordão, estendendo-se do mar da Galiléia até próximo ao mar Morto (Lc 13.22). 2 Mateus escreveu com o propósito de evangelizar os judeus, por isso, usa a expressão “Reino dos céus” significando “Reino de Deus”, respeitando o cuidado extremo que os judeus tinham ao pronunciar o nome de Deus. Assim também, Mateus adiciona a frase “por qualquer motivo” a esse versículo, que não consta do texto paralelo escrito por Marcos (Mc 10.2). Isso, para esclarecer ao leitor quanto ao ensino de duas escolas rabínicas: Hillel, que permitia ao marido repudiar (rejeitar, mandar embora, abandonar, divorciar), sua esposa por qualquer motivo que o desgostasse, até mesmo pelo sabor ou preparo de uma refeição. E a escola Shammai, a qual pregava que o único motivo suficiente para um homem divorciar-se de sua esposa era a infidelidade conjugal comprovada. 3 Mais uma vez os doutores da Lei procuram desmoralizar Jesus, pois o assunto estava dividido, há muitos anos, entre duas


MATEUS 19 8 Ao que Jesus declarou: “Moisés, por cau-

sa da dureza dos vossos corações, vos concedeu separar-se de vossas mulheres. Mas não tem sido assim desde o princípio”. 9 Eu, porém, vos afirmo: “Todo aquele que se divorciar da sua esposa, a não ser por imoralidade sexual, e se casar com outra mulher, estará cometendo adultério”.4 10 Então os discípulos consideraram: “Se estes são os termos para o marido e sua esposa, não é vantagem casar!”. 11 Mas Jesus ponderou-lhes: “Nem todos conseguem aceitar essa palavra; somente aqueles a quem tal capacidade é dada. 12 Pois há alguns eunucos que nasceram assim do ventre de suas mães; outros foram privados de seus órgãos reprodutores pelos homens; e há outros ainda que a si mesmos se fizeram celibatários, por causa do Reino dos céus. Quem for

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capaz de aceitar esse conceito, que o receba”.5 Jesus abençoa as crianças (Mc 10.13-16; Lc 18.15-17)

Então, trouxeram-lhe algumas crianças, para que lhes impusesse as mãos e orasse por elas. Os discípulos, contudo, os repreendiam. 14 Mas Jesus lhes ordenou: “Deixai vir a mim as crianças, não as impeçais, pois o Reino dos céus pertence aos que se tornam semelhantes a elas”. 15 E, depois de ter-lhes imposto as mãos, partiu dali.6 13

Dificilmente os ricos serão salvos (Mc 10.17-31; Lc 18.18-30)

Eis que alguém chegou perto de Jesus e consultou-o: “Mestre, que poderei fazer de bom para ganhar a vida eterna?”.7 16

grandes e respeitadas correntes de pensamento. Mas Jesus apela, novamente, para o espírito da Lei e não apenas para a letra. Jesus leva sua audiência para o princípio da criação e para o pensamento originário de Deus – O Criador – e cita a Septuaginta (AT em grego), defendendo assim a doutrina da inspiração das Escrituras (Gn 1.27; 2.23-24). Portanto, o propósito divino na criação é de que marido e esposa se unam de forma a se tornarem a mesma carne, sendo os corpos (o sangue) o meio para a unidade indissolúvel do parentesco e comunhão, fazendo, assim, do casamento, a mais profunda forma de unidade física e espiritual. Esse conceito vital deve ser ensinado às pessoas na época do namoro. Elas precisam aprender a namorar (se conhecer bem) segundo a vontade de Deus. Isso evitaria muitos problemas no casamento. 4 A intenção dos fariseus não era compreender a verdade, mas achar um pretexto para destruir Jesus. Eles recorrem, assim, à lei de Moisés (Dt 24.1). Mas Jesus demonstra que certas concessões, na história, não foram feitas por serem o plano original de Deus para a humanidade, mas em atenção aos pedidos insistentes da sociedade; da alma dos homens, dos seus corações arrogantes, vaidosos e egoístas. Características que acompanharam o ser humano após a sua Queda e que se relacionam com a influência do Diabo na terra (Gn 3.8-13; 22-24). 5 A palavra “eunuco” (em hebraico sãrïs) é derivada de um termo assírio que significa “aquele que é cabeça” ou “o braço direito”. No NT, o vocábulo grego eunouchos, é uma derivação de eunen echõ, que pode significar “conservar o leito” ou “manter a padrão”. Nos escritos de Heródoto aprendemos que nos países orientais os eunucos eram contratados especialmente para tomar conta dos haréns dos monarcas, sendo, entretanto, reputados como dignos de confiança em todos os sentidos. Em todos os casos, a palavra refere-se a pessoas da mais alta confiança do rei e pode ser usada no sentido de: “oficial da corte” ou “castrado”. Em At 8.27 ambos os sentidos estão em foco. Aqui, porém, a expressão original é clara e refere-se ao homem castrado. O judaísmo conhecia apenas duas categorias de eunucos: Os “feitos pelo homem” (em hebraico sãrïs ’ãdhãm), e aqueles que nasceram congenitamente incapazes ou sem libido (instinto e desejos sexuais) chamados de “natural” ou “eunuco do sol” (em hebraico sãrïs hammâ). Jesus usou uma metáfora para mostrar o radicalismo do amor: na união com Deus e com o próximo, na aliança do matrimônio e no ministério cristão. Jesus surpreende seus inquiridores com uma terceira classe de eunucos: os celibatários, aqueles que, de forma livre e espontânea, sacrificaram seus desejos naturais e legítimos por amor ao Senhor e para melhor e maior dedicação ao Reino de Deus. Em nenhum momento Jesus defendeu o asceticismo (doutrina dos primeiros séculos que exigia dos líderes cristãos a total abstinência sexual e punia severamente os pensamentos impuros). Jesus e Paulo (dois celibatários) deixam claro que não é necessário que um homem ou uma mulher se privem do casamento para serem bons obreiros ou líderes espirituais da Igreja de Cristo, isso é dom de Deus; e, portanto, é graça e não maldição. Pessoas com esse dom devem ser orientadas a dedicar-se exclusivamente ao Senhor e à Igreja; caso contrário, Satanás poderá se aproveitar disso e tentar recrutá-las para servir ao reino do mal (1Co 7.7,8,26,32-35). Orígenes, um dos pais da Igreja do século II, interpretando erradamente essa palavra de Jesus, entendendo-a de forma literal, mutilou a si mesmo. 6 Era costume dos judeus levar as crianças para serem abençoadas por um rabino que fosse mestre comprovado da Lei. Ao ouvirem o ensino de Jesus, as pessoas não tiveram dúvidas em enviar seus filhos para receberem a dádiva real (Gn 27). Entretanto, Jesus aproveitou o evento para pregar sobre a chegada e a disponibilidade do Reino de Deus para todos que o recebessem com a humildade, sinceridade, fé e alegria das crianças (Mt 6.9; Rm 8.14). 7 Os judeus, no tempo de Cristo, criam que a realização de um grande e único ato digno podia garantir-lhes um lugar


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Questionou-o Jesus: “Por que me perguntas a respeito do que é bom? Há somente um que é bom. Se queres entrar na vida eterna, obedeça aos mandamentos”. 18 Ao que ele perguntou: “Quais?”. E Jesus lhe respondeu: “Não matarás, não adulterarás, não furtarás, não darás falso testemunho, 19 honra a teu pai e a tua mãe, e amarás o teu próximo como a ti mesmo”. 20 Replicou-lhe o jovem: “A tudo isso tenho obedecido. O que ainda me falta?”. 21 Jesus disse a ele: “Se queres ser perfeito, vai, vende os teus bens, dá o dinheiro aos pobres, e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me”. 22 Ao ouvir essa palavra, o jovem afastou-se pesaroso, pois era dono de muitas riquezas.8 23 Então disse Jesus aos seus discípulos: “Com toda a certeza vos afirmo que dificilmente um rico entrará no Reino dos céus. 24 E lhes digo mais: É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do 17

MATEUS 19

que um rico entrar no Reino dos céus”.9 25 Ouvindo isso, os discípulos ficaram atônitos e exclamaram: “Sendo assim, quem pode ser salvo?”. 26 Mas Jesus, fixando o olhar neles, revelou-lhes: “Isso é impossível aos seres humanos, mas para Deus todas as coisas são possíveis”. As recompensas no Reino 27 Então Pedro manifestou-se dizendo: “Veja! Nós deixamos tudo e te seguimos; o que será, pois, de nós?”. 28 Jesus lhes respondeu: “Com toda a certeza vos afirmo que vós, os que me seguistes, quando ocorrer a regeneração de todas as coisas, e o Filho do homem se assentar no trono da sua glória, também vos assentareis em doze tronos, para julgar as doze tribos de Israel.10 29 Também todos aqueles que tiverem deixado casas, irmãos, irmãs, pai, mãe, filhos ou terras, por causa do meu Nome, receberão cem vezes mais e herdarão a vida eterna.

privilegiado no céu. Outros acreditavam que a completa e restrita observância da Lei os levaria ao Reino de Deus. Lucas revela que esse jovem ocupava posição de grande prestígio (Lc 18.18). Marcos salienta que, ao aproximar-se de Jesus, correu e ajoelhou-se (Mc 10.17). O jovem possuía tudo o que alguém pode desejar, mas lhe faltava a certeza da vida eterna. Entretanto, ele não pensou na incompatibilidade que existe entre o mundanismo e o Reino de Deus (6.33). A riqueza gera soberba e arrogância, provocando rejeição à simplicidade e humildade que existe na fé em Cristo. Após a Queda, o ser humano perdeu a capacidade de ser bom e fazer o bem (continuamente). Por isso, Deus fez da Salvação um presente (dádiva), não podemos adquiri-lo, só nos é possível aceitá-lo (Ef 2.8). 8 Jesus mostra que o jovem em questão (assim como algumas pessoas) imaginava obedecer a todos os mandamentos da Lei: ele não matava, não roubava e não era um mau filho. Acontece que a própria Escritura garante que ninguém é capaz de cumprir a Lei e, por isso, precisamos desesperadamente da Graça do Senhor. O rapaz tinha tudo, e queria também ser perfeito (em grego teleios, aperfeiçoado, tendo alcançado a meta). Jesus, contudo, ao relacionar os mandamentos (Êx 20.12-16; Dt 5.16-20; Lv 19.18) omitiu “não cobiçarás”. Esse era, pois, justamente, o grande obstáculo para que o rapaz recebesse, de graça, a tão almejada vida eterna. Jesus não está ensinando que todo cristão deva ser pobre, muito menos que todo pobre vai para o céu. Ele estava provando o coração daquele homem para revelar a ele (e a nós) a necessidade de arrependimento e conversão dos pecados que, muitas vezes, pensamos que não temos. 9 Jesus recorre a outra metáfora: o maior animal na Palestina em contraste com a menor passagem conhecida pelo povo na época: o buraco de uma agulha. A expressão também se refere, curiosamente, a uma pequena entrada, situada ao lado da porta principal da cidade de Jerusalém, por onde (por motivos de segurança) um camelo não podia passar carregado e, mesmo assim, somente conseguia atravessá-la de joelhos (Mc 10.25). A salvação não é possível pelo esforço humano. É um ato sobrenatural de Deus, que busca corações humanos onde receba amor incondicional e tenha prioridade absoluta. Ele acrescentará todas as demais coisas necessárias (6.33-34). O amor ao dinheiro e às riquezas pode escravizar uma pessoa, exacerbando seu egoísmo e desviando-a do Reino (1Tm 6.9-10). Jesus faz ainda uma alusão ao AT e reafirma que para Deus nada é impossível (Gn 18.14; Jó 42.2; Zc 8.6-7). 10 A expressão grega palingenesia, aqui traduzida por “regeneração” refere-se ao mundo renovado do futuro (o novo céu e a nova terra de Ap 21.1). As doze tribos, com as dez tribos do norte (Israel), perdidas séculos antes de Cristo (pela mistura com povos gentios), serão restauradas para o julgamento (25.31; At 3.20-21; Ap 7.4-8). O outro único uso da palavra “regeneração” tem a ver com a renovação espiritual das pessoas (Tt 3.5). Jesus ensina que o Reino de Deus não é uma competição, como em quase tudo nas sociedades humanas. Jesus tranqüiliza Pedro e promete que todos os que tomarem parte em sua batalha, comparti-


MATEUS 19, 20

Entretanto, muitos primeiros serão últimos, e muitos últimos serão primeiros”. 30

A parábola dos pagamentos “Portanto, o Reino dos céus é semelhante a um proprietário que saiu ao raiar do dia para contratar trabalhadores para a sua vinha.1 2 Depois de combinar com cada trabalhador o pagamento de um denário pelo dia, os enviou ao campo das videiras.2 3 Por volta das nove horas da manhã, ao sair, viu na praça do mercado, outros que estavam parados, sem ocupação.3 4 Então lhes disse: ‘Ide vós também trabalhar na vinha, e Eu vos pagarei o que for justo’. E eles foram. 5 Tendo saído outras vezes, próximo do meio dia e das três horas da tarde, agiu da mesma maneira. 6 Ao sair novamente, agora em torno das cinco horas da tarde, encontrou outros que estavam sem trabalho, e indagou deles: ‘Por qual motivo estivestes aqui desocupados o dia todo?’ 7 E lhe informaram: ‘Porque não houve alguém que nos contratasse’. Então lhes falou: ‘Ide igualmente vós para o campo das videiras’. 8 Ao pôr-do-sol, o senhor da vinha ordenou ao seu administrador: ‘Chama

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os trabalhadores e paga-lhes o salário, começando pelos últimos contratados e terminando nos primeiros’.4 9 Chegaram os que haviam sido contratados em torno das cinco horas da tarde, e cada um deles recebeu um denário. 10 Quando vieram os que haviam sido contratados primeiro, deduziram que receberiam mais; contudo, também estes receberam um denário cada um. 11 No entanto, assim que o receberam, começaram a se queixar do proprietário da vinha, 12 dizendo-lhe: ‘Estes últimos homens trabalharam apenas uma hora; apesar disso o senhor os igualou a nós que suportamos o peso do trabalho e o calor do dia’. 13 Mas o dono da vinha, explicando, falou a um deles: ‘Amigo, não estou sendo injusto contigo. Não combinamos que te pagaria um denário pelo dia trabalhado? 14 Sendo assim, toma o que é teu, e vai-te; pois é meu desejo dar a este último tanto quanto dei a ti. 15 Porventura não me é permitido fazer o que quero do que é meu? Ou manifestas tua inveja porque eu sou generoso?’5 16 Portanto, os últimos serão primeiros, e os primeiros serão últimos. Pois muitos serão chamados, mas poucos escolhidos”.6

lharão igualmente das bênçãos de sua vitória completa e eterna. Entretanto, em 20.1-16, Ele adverte os seus seguidores sobre o perigo de julgar o assunto das recompensas divinas por um padrão meramente político, econômico e financeiro (terreno). Capítulo 20 1 A declaração de Jesus feita em 10.30, é explicada por meio desta história e repetida em 20.16, enfatizando a soberana generosidade de Deus Pai. Essa parábola foi registrada apenas em Mateus. 2 O denário ou dinheiro (em latim denarius) era uma moeda romana, de prata. Tinha o mesmo valor de um dracma (em grego drachma), ou meio shekel judaico. Correspondia a um dia de trabalho de um soldado romano na época de Jesus. Um escrivão de documentos altamente qualificado, na Palestina daquele tempo, ganhava dois denários por dia. 3 A contagem das horas começava às 6h da manhã. Portanto, a terceira hora correspondia às 9h da manhã e assim por diante. Nos originais gregos, assim como na tradução KJ de 1611 constam as expressões: “da hora terceira; sexta; nona e da décima primeira hora”. Entretanto, o Comitê Internacional de Tradução da Bíblia King James decidiu, para melhor compreensão dessa parábola, pelo uso do atual sistema de divisão do dia natural em 24 horas. Tempo que a Terra leva para fazer uma rotação completa sobre si mesma. 4 A Lei de Moisés garantia aos trabalhadores pobres (que ganhavam salário mínimo, ou um denário por dia) que fossem pagos por seus contratadores até o fim do dia ou até que o brilho das primeiras estrelas pudesse ser observado no céu (Lv 19.13; Dt 24.14,15). 5 A parte final deste versículo no original grego é: “...ou o olho teu mau é porque eu bom sou?” Essa expressão está relacionada ao suposto poder de amaldiçoar que existe nos olhos de uma pessoa que inveja (não apenas do invejoso compulsivo). Desde o AT (1Sm 18.6-16), havia uma associação entre o olhar perverso e a inveja (daí a expressão popular: mau-olhado). 6 Esta parábola está repleta de ensino e sabedoria. Não é possível um comentário extenso aqui, mas é importante dizer que Jesus usou uma história bem conhecida dos judeus para esclarecer um pouco mais sobre como é a vida no Reino de Deus.


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Outra vez Jesus prediz seu sacrifício (Mc 10.32-34; Lc 18.31-34)

17 Jesus estava, então, pronto para subir a

Jerusalém, quando chamou à parte seus doze discípulos e lhes falou: 18 “Agora estamos subindo para Jerusalém, e o Filho do homem será entregue aos chefes dos sacerdotes e aos escribas. Eles o condenarão à morte. 19 E o entregarão aos gentios para ser zombado, torturado e crucificado; mas ao terceiro dia Ele será ressuscitado!”.7 É preciso sabedoria para pedir (Mc 10.35-45)

Naquele momento, aproximou-se de Jesus a esposa de Zebedeu, com seus filhos e, prostrando-se, fez um pedido a Ele.8 20

MATEUS 20

21 “O que desejas?” - perguntou Jesus. Ela

respondeu: “Ordena que no teu Reino estes meus dois filhos se assentem um à tua direita, e o outro à tua esquerda”. 22 “Não sabeis o que pedis!”, contestoulhes Jesus. “Podeis vós beber o cálice que Eu estou prestes a beber e ser batizados com o batismo com o qual estou sendo batizado?”. E eles afirmaram: “Podemos!”. 23 Então Jesus lhes declarou: “Certamente bebereis do meu cálice; mas quanto ao assentar-se à minha direita ou à minha esquerda, não cabe a mim outorgá-lo. Esses lugares pertencem àqueles a quem foram reservados por meu Pai”.9 24 Ao ouvirem isso, os outros dez ficaram injuriados contra os dois irmãos. 25 Então Jesus os chamou e explicou:

Desde o AT, muitos mestres e rabinos usavam parábolas para comunicar seus ensinos. Acontece que essa história, em várias versões, era contada para realçar a doutrina das recompensas divinas, e seguia a mesma linha moral da conhecida fábula de La Fontaine: “A Cigarra e a Formiga”. A história rabínica, em síntese, era assim: “Um rei recrutou muitos trabalhadores, mas um deles trabalhou muitos dias para o reino. No dia do pagamento, o rei pagou pouco aos que tinham trabalhado pouco e recompensou regiamente ao que fora fiel o tempo todo”. Ou seja: muito trabalho, muita recompensa; nenhum trabalho, punição ou nenhuma recompensa. Jesus, porém, dá um desfecho novo, inusitado e ameaçador ao recontar essa parábola tradicional. Jesus declarou que Deus dá recompensas aos seus filhos (Mt 5.12,46; 6.1; 5.16; 10.41). Mas, da mesma maneira inequívoca, ensinou que todos os que servem a Deus com a principal intenção de com isso “merecer” bênçãos e favores, perderão a verdadeira felicidade, aqui e na eternidade. Quem realiza boas obras contando com as recompensas, vai se aborrecer com a misericórdia e a bondade de Deus. É por isso que os judeus, especialmente os que mais se esforçavam (escribas e fariseus), começaram a odiar a Jesus. Eles tinham um lema na época: “A Torá (a Lei) foi dada a Israel para mostrar como adquirir méritos”. É até compreensível que eles se irritassem com o novo ensino e com a generosidade de Deus; e que muitos deles, como na parábola, de “primeiros” se tornaram “últimos”, ou como o irmão mais velho, que na história do “filho pródigo” irou-se e excluiu-se da alegria de reaver o irmão perdido (Lc 15.11-32). Jesus ensina também, através dessa parábola, que os judeus, os primeiros a receber a gloriosa chamada divina, não serão os primeiros a receber o galardão final (recompensa, prêmio), pois a Salvação não vem da herança racial, nem do legalismo religioso, mas da generosidade e graça divinas. Assim também, a Salvação é a maior gratificação que um ser humano pode receber em toda a sua vida e vale por toda a eternidade. Portanto, não existem “salvos de segunda classe”. Uma vez salvo; salvo de primeira classe e para sempre. Deus é soberano e, absolutamente tudo depende dele. O ser humano não pode fazer nada para salvar-se, a não ser aceitar humildemente a vontade do Senhor e andar segundo a Palavra. Entretanto, a graça de Deus pode transformar qualquer fariseu em um dos “primeiros” (novamente), como aconteceu com Saulo de Tarso, nosso irmão Paulo (At 9.1-31). A frase: “Pois, muitos serão chamados, mas poucos escolhidos”, não consta de alguns manuscritos gregos, embora faça referência às palavras de Jesus em 19.23-26 e refíra-se a parte de todas as revisões da KJ desde 1611 até hoje. 7 Esta é a última viagem de Jesus a Jerusalém. Teve início na cidade de Efraim (Jo 11.54), passando pela Galiléia (Lc 17.11), seguindo mais para o sul, chegando a Jericó, passando pela Peréia (Lc 18.35), por Betânia (Lc 19.29), até chegar a Jerusalém (Lc 19.41). Jesus desejou muito celebrar sua última Páscoa com seus discípulos; uma multidão de peregrinos os acompanhava. Jesus seria o Cordeiro Pascal da humanidade; mas nem seus discípulos mais chegados conseguiam entender por que o Messias haveria de ser humilhado e morto se as profecias apontavam para um grande libertador, maior que Moisés. Nesta terceira predição sobre o seu sacrifício, Jesus acrescenta que Ele não seria executado pelos judeus, que o apedrejariam, mas pelos gentios (romanos). Todos esses detalhes proféticos só fariam sentido na mente dos discípulos após a morte e ressurreição de Jesus (28.6). 8 Marcos nos revela que esses filhos de Zebedeu e Salomé (irmã de Maria, mãe de Jesus) eram os primos do Senhor: Tiago e João. O pedido foi feito numa reunião com Jesus, solicitada pela mãe dos dois apóstolos (27.56; Mc 10.35; 15.40; Jo 19.25). Tanto o pedido como a indignação dos outros discípulos revela que todas aquelas pessoas aguardavam para breve o estabelecimento do poderoso reino do Messias na terra, apesar da clara profecia sobre a Paixão do Senhor. 9 Jesus usa uma metáfora bastante conhecida dos judeus, especialmente no AT (Sl 75.8; Is 51.17-23; Jr 25.15-28; 49.12; 51.7), quase sempre associada ao juízo e à ira de Deus contra o pecado. A expressão hebraica: beber o cálice significava compartilhar do destino de alguém. Assim, o cálice refere-se ao castigo divino que Jesus teria de receber em lugar de cada ser humano. O batismo é outra figura de linguagem que, assim como o cálice, explica o sentido do sofrimento e morte do Senhor (Lc 12.50; Rm 6.3,4). Jesus demonstra mais uma vez sua absoluta divindade ao revelar que conhecia o destino dos discípulos, mas que não podia usurpar a


MATEUS 20, 21

“Sabeis que os governadores dos povos os dominam e que são as pessoas importantes que exercem poder sobre as nações. 26 Não será assim entre vós. Ao contrário, quem desejar ser importante entre vós será esse o que deva servir aos demais. 27 E quem quiser ser o primeiro entre vós que se torne vosso escravo. 28 Assim como o Filho do homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida como único resgate por muitos”.10 Os cegos recuperam a visão (Mc 10.46-52; Lc 18.35-43)

Ao saírem de Jericó, uma grande multidão acompanhava Jesus. 30 De repente, dois cegos, que estavam assentados à beira do caminho, tendo ouvido que Jesus passava, puseram-se a gritar: “Senhor! Filho de Davi, tem misericórdia de nós”. 31 Entretanto, a multidão os repreendeu para que se calassem, mas eles clamavam ainda mais: “Senhor! Filho de Davi! Tem misericórdia de nós!”. 32 Jesus, parando, chamou-os e lhes 29

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perguntou: “O que quereis que Eu vos faça?”.11 33 “Senhor! Que se abram os nossos olhos”, responderam eles. 34 Jesus sentiu compaixão e tocou nos olhos deles. No mesmo instante os cegos recuperaram a visão e o seguiram. Jesus é aclamado pelas multidões (Mc 11.1-11; Lc 19.28-40; Jo 12.12-19)

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Ao se aproximarem de Jerusalém, chegaram a Betfagé, no monte das Oliveiras. Então, Jesus enviou dois discípulos,1 2 e recomendou-lhes: “Ide ao povoado que está adiante de vós e logo encontrareis uma jumenta amarrada, com seu burrico ao lado. Desamarrai-os e trazeios para mim.2 3 Se alguém vos questionar algo, deveis dizer que o Senhor necessita deles e sem demora os devolverá”. 4 No entanto, isso ocorreu para que se cumprisse o que fora dito por meio do profeta: 5 “Dizei à filha de Sião: ‘Eis que o teu rei chega a ti, humilde e montado num burrico, um potro, cria de jumenta’”.

autoridade do Pai. Assim, Tiago foi o primeiro dos apóstolos a ser martirizado (At 12.2). A última parte da pergunta de Jesus não consta de alguns originais gregos, mas é clara em Mc 10.38 e consta de todas as revisões textuais da KJ desde 1611. 10 Não é aconselhável rejeitar a ajuda e o serviço dos nossos companheiros, mas “ser servidos” não deve ser a nossa ambição. Devemos seguir o exemplo de Jesus que, sendo Deus, entregou “a sua vida” ou “a sua alma” (em grego ten psychen autou) para pagar toda a punição imposta à humanidade pela quebra da ordem (Lei) de Deus no Éden: a morte eterna. Todo pecado demanda indenização, expiação e pagamento. A Lei de Deus jamais ordenou sacrifícios humanos; mas, em relação ao pecado original, era necessário que um ser humano sem pecado fosse imolado. Jesus se ofereceu para pagar nosso “resgate” (em grego lytron), palavra derivada do verbo grego luo que significa “libertar” e usada na época ao se tratar da alforria de escravos. Jesus usou outra forte metáfora para comparar seu sacrifício ao ato de pagar o preço pedido pela venda de um escravo muito caro, comprado, todavia, para ganhar a liberdade. Por isso, os cristãos estão livres, de uma vez por todas, do poder e da escravidão do pecado (do erro) e da pena da morte eterna. Essa frase de Cristo é uma das poucas ocasiões em que a doutrina da redenção vicária é citada nos Evangelhos sinóticos (1Tm 2.6). A salvação é oferecida de graça a todos, mas apenas os “muitos” a recebem em seus corações (1Jo 1.12-14). 11 Mateus cita dois cegos, enquanto os demais sinóticos destacam apenas um (Mc 10.46-52; Lc 18.35-43). Realmente eram dois cegos, ocorre que Bartimeu, devido à sua personalidade, ganhou proeminência. A cura ocorreu durante a saída da Velha Jericó para a Nova Jericó. Capítulo 21 1 Betfagé, em hebraico significa “Casa dos Figos” (Lc 19.29). Segundo o Talmude, era uma pequena vila situada a cerca de um quilômetro a leste de Jerusalém, na encosta sul do monte das Oliveiras. Aqui tem início a última semana da vida humana de Jesus Cristo. 2 Jesus decide entrar em Jerusalém, desta vez, montado em um jumentinho (Jo 12.15). E isso, sob as homenagens das multidões, para demonstrar claramente que Ele era o Messias prometido há séculos (Zc 9.9). O Filho de Davi, escolhido para ocupar seu trono (1Rs 1.33,44). Os potros ou burricos (crias de jumenta), antes de serem submetidos a qualquer trabalho secular, eram especialmente considerados para trabalhos religiosos (Nm 19.2; Dt 21.3; Sm 6.7), e simbolizavam humildade, paz, e a majestade de Davi. Mateus revela o cuidado de Jesus em não apartar o jumentinho de sua mãe e levar ambos consigo para sua procissão triunfal como Rei de Israel.


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Então os discípulos foram e fizeram o que Jesus lhes havia mandado.3 7 Trouxeram-lhe a jumenta com o jumentinho, os selaram com mantas para cavalgar, e sobre as mantas Jesus montou. 8 Então, uma grande multidão estendia suas capas pelo caminho, muitos outros cortavam ramos de árvores e os espalhavam pela estrada. 9 E as multidões, tanto as que iam adiante dele, quanto as que o seguiam, proclamavam: “Hosana ao Filho de Davi! ‘Bendito seja Ele que vem em o Nome do Senhor!’ Hosana nas alturas!”4 10 Assim que Jesus entrou em Jerusalém, toda a cidade ficou alvoroçada, e comentavam: “Quem é este?” 11 Então as multidões exclamavam: “Este éoprofetaJesus,vindodeNazarédaGaliléia!”.

13

O templo é casa de oração!

(Mc 11.12-14; 20-25)

6

(Mc 11.15-19; Lc 19.45-48)

Tendo Jesus entrado no pátio do templo, expulsou todos os que ali estavam comprando e vendendo; também tombou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos comerciantes de pombas. 12

MATEUS 21

E repreendeu-os: “Está escrito: ‘A minha casa será chamada casa de oração’; vós, ao contrário, estais fazendo dela um ‘covil de salteadores’”.5 14 Então levaram a Jesus, no templo, cegos e aleijados, e Ele os curou. 15 Entretanto, quando os chefes dos sacerdotes e os escribas viram as maravilhas realizadas por Jesus, e as crianças exclamando no templo: “Hosana ao Filho de Davi!”, revoltaram-se e indagaram dele: 16 “Não ouves o que estas crianças estão proclamando?”. Ao que Jesus lhes respondeu: “Sim. E vós, nunca lestes: ‘Dos lábios das crianças e dos recém-nascidos suscitaste louvor’”. 17 E, deixando-os, saiu da cidade em direção a Betânia, onde passou a noite.6 A figueira que não deu fruto 18 Ao

amanhecer, quando retornava para a cidade, Jesus teve fome. 19 Avistando uma figueira à beira da estrada, aproximou-se dela, porém nada encontrou, a não ser folhas. Então decretou-lhe: “Nunca mais se produza fruto

3 O próprio Jesus usa a expressão: “Senhor” (Senhor de Israel) como seu título divino (16.18). Mateus usou as profecias registradas na Septuaginta (AT em grego), em Is 62.11 e Zc 9.9 para mostrar que a maioria do povo havia compreendido que Jesus era mesmo o Rei-Messias prometido. 4 Hosana é uma expressão grega (hõsanna), que significa “Salva-nos!” e vem do hebraico transliterado (hôshi´â nã´), que quer dizer: “Salva, Senhor, por misericórdia!” Mateus revela que expressões de júbilo emanavam da multidão, e não que fosse uma frase só a ser repetida indefinidamente. Essa aclamação do povo é baseada em 2Sm 14.4, Sl 118.25-27 e Sl 148.1-2, cantada na Festa dos Tabernáculos e, em Mateus, aplicada a Jesus. Como um ato de homenagem régia, o povo pavimentou, com seus próprios mantos (capas), o caminho por onde passou o Senhor. Com o passar do tempo, a palavra “hosana” tornou-se uma exclamação de louvor e alegria espiritual. 5 O termo grego original (to hieron), que significa “o templo”, indica toda a área sobre o monte Moriá, ocupada pelos diversos recintos e a corte do templo. No domingo, após a entrada triunfal, Jesus continua sua obra de purificação da Casa do Senhor, iniciada três anos antes (Jo 2.14). Uma atitude para demonstrar o quanto os judeus haviam ofendido ao Senhor, permitindo que seus corações fossem corrompidos pela ganância, dominados pelo pecado, e faltos de amor sincero para com Deus e com seu próximo. Isso ocorre infelizmente ainda hoje em alguns templos cristãos, e entre seus membros. Jesus citou as Sagradas Escrituras, usando, da versão Septuaginta (AT em grego), os textos de Is 56.7 com Jr 7.11. As ofertas, taxas e compras de animais para sacrifícios no templo só podiam ser pagas com moeda hebraica (siclo hebreu), pois as demais moedas eram cunhadas com a imagem de divindades pagãs ou do imperador, considerado pelos romanos e outros gentios como um deus. Entretanto, esse serviço de troca de moedas (câmbio), compra e venda de animais, e produtos para os sacrifícios, deveria ser realizado com dignidade, no “grande átrio exterior dos gentios”, um espaço reservado para essas atividades com mais de 50.000 m2. Todavia, os cambistas estavam explorando os romeiros que vinham de muito longe e com dinheiro gentio para ofertar e sacrificar no templo. Além disso, a venda dos animais cultualmente aceitáveis transformara-se apenas em lucrativo comércio, tanto que a área antes reservada já não comportava os estandes de vendas e haviam invadido até o recinto sagrado. Vários sacerdotes lideravam a corrupção institucionalizada no templo, posto que ao receberem os animais para holocausto, em vez de efetuarem o ritual do sacrifício, matavam apenas alguns deles, e repassavam todos os demais para comerciantes fraudulentos, que os revendiam sucessivas vezes. 6 Os líderes dos sacerdotes e os doutores da lei viram os milagres de Cristo e temeram por suas vidas e negócios. Tentaram enredar o Senhor num sofisma, ao alegar que um mestre tão zeloso como Jesus, não deveria deixar que crianças o adorassem


MATEUS 21

em ti!”. E, no mesmo instante, a figueira ficou completamente seca. 20 E quando viram o que ocorrera, muito se admiraram os discípulos e exclamaram: “Como foi possível esta figueira secar tão depressa?”. 21 Então Jesus explicou-lhes: “Com certeza vos asseguro que, se tiverdes fé e não duvidardes, podereis fazer não apenas o que foi feito à figueira, mas da mesma forma ordenardes a este monte: ‘Ergue-te daqui e lança-te no mar’, e assim acontecerá. 22 E tudo o que pedirdes em oração, se crerdes, recebereis”.7 Líderes religiosos duvidam de Jesus (Mc 11.27-33; Lc 20.1-8)

Tendo Jesus chegado ao templo, enquanto ensinava, acercaram-se dele os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo e o questionaram: “Com que autoridade fazes estas coisas aqui? E quem te deu essa autorização?”.8 24 Jesus, porém, replicou-lhes: “Eu igualmente vos lançarei uma questão. Se me responderdes, também Eu vos direi com que autoridade faço o que faço. 25 De onde era o batismo de João? Divino ou humano?”. E eles discutiam entre si, avaliando: “Se respondermos: divino, Ele 23

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nos indagará: ‘Sendo assim, por que não acreditastes nele?’ 26 Porém, se alegarmos: humano, tememos o povo, pois todos consideram João como profeta”. 27 Por isso disseram a Jesus: “Não sabemos!”. Ao que Jesus afirmou-lhes: “Nem Eu vos direi com que autoridade procedo.9 A parábola do pai e dois filhos 28 Agora, qual a vossa opinião? Um homem tinha dois filhos. Aproximando-se do primeiro, pediu: ‘Filho, vai trabalhar hoje na vinha’. 29 Mas este filho lhe disse: ‘Não quero ir’. Todavia, mais tarde, arrependido, foi. 30 Então chegou o pai até o segundo filho e fez o mesmo pedido. Então este lhe respondeu: ‘Sim, senhor!’ Mas não foi. 31 Qual dos dois fez a vontade do pai?”. Ao que eles responderam: “O primeiro”. Então Jesus lhes revelou: “Com toda a certeza vos afirmo que os publicanos e as prostitutas estão ingressando antes de vós no Reino de Deus. 32 Porquanto João veio para vos mostrar o caminho da justiça, mas vós não acreditastes nele; em compensação, os cobradores de impostos e as meretrizes creram.Vós, entretanto, mesmo depois

como se fosse Deus. Entretanto, Jesus citou novamente as Escrituras e revelou que mais uma profecia acerca dele se cumpria naquele momento (Sl 8.2). Jesus foi, então, para a casa dos seus queridos amigos Lázaro e suas irmãs, Marta e Maria, que ficava em Betânia, uma aldeia no declive oriental do monte das Oliveiras, uns dois quilômetros a leste de Jerusalém. 7 Mateus condensava suas narrativas, em contraste com o texto dos demais autores sinóticos (Marcos e Lucas). Marcos situa a maldição da figueira na manhã de segunda-feira, mas na terça-feira pela manhã foi que os discípulos, passando por ela outra vez, a observam completamente aniquilada (Mc 11.12-14, 20-25). Mateus, mais tarde, ao escrever seu Evangelho (testemunho ocular da vida, mensagem e sinais de Jesus), segundo a inspiração do Espírito Santo, enfatiza o caráter imediato do Juízo de Deus. Diversas podem ser as inferências teológicas acerca dessa passagem, especialmente em relação a Israel (Os 9.10; Na 3.12). Contudo, a única aplicação que o próprio Senhor Jesus faz, tem a ver com a eficácia da oração que não duvida do poder de Deus. 8 Aqui começa a terça-feira da chamada “Semana Santa”. O Sinédrio (supremo juiz da corte de Israel) decide apelar para o legalismo e pede credenciais autorizadas a Jesus por estar realizando um ato oficial no templo. Eles já haviam usado essa estratégia com João Batista (Jo 1.19-25) e, em outra ocasião, com o próprio Jesus (Jo 2.18-22). Os líderes religiosos sentiam em Jesus uma forte ameaça à sua posição, privilégios e lucros financeiros ilícitos. Por isso, procuravam apresentá-lo como um revolucionário, fora da lei, e inimigo de Roma. 9 Grandes oradores e conhecedores do poder da palavra, os líderes religiosos procuram comprometer a Jesus por meio de um questionamento ardiloso. Jesus é levado a declarar publicamente que era o Messias (como o povo aclamava). Assim poderiam prendê-lo e entregá-lo aos romanos. A outra opção seria negar sua autoridade divina, passando então a ser totalmente desacreditado pela multidão que o acompanhava. Jesus apelou para o testemunho de João Batista acerca dele e lhes propôs também uma questão (Jo 1.32-34).


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de presenciardes a tudo isso, não vos arrependestes para acreditardes nele.10 A parábola dos vinicultores maus (Mc 12.1-12; Lc 20.9-19)

E mais, atentai a esta parábola: Havia um certo proprietário de terras, que plantou um campo de videiras. Ergueu uma cerca ao redor delas, construiu um tanque para prensar as uvas e edificou uma torre. Finalmente, arrendou essa vinha para alguns vinicultores e foi viajar.11 34 Chegando a época da safra, enviou seus servos até aqueles lavradores, para receber os seus dividendos. 35 Porém os lavradores atacaram seus servos; a um espancaram, a outro mataram, e apedrejaram o terceiro. 36 Então lhes mandou outros servos, em maior número do que da primeira vez, mas os lavradores os trataram da mesma maneira. 37 Por fim, decidiu enviar-lhes seu próprio filho, considerando: ‘Eles respeitarão o meu filho’. 38 Contudo, assim que os lavradores viram o filho, tramaram entre si: ‘Este é o herdeiro! Então vamos, nos unamos para matá-lo e apoderemo-nos da sua herança’. 39 E assim, eles o agarraram, jogaram-no 33

MATEUS 21

para fora da plantação de videiras e o assassinaram.12 40 Sendo assim, quando vier o dono da vinha, o que fará com aqueles lavradores?”. 41 Diante disso, responderam-lhe: “Ele destruirá esses perversos de forma terrível e arrendará seu campo de videiras para outros cultivadores que lhe enviem a sua parte no devido tempo das colheitas”.13 42 Então Jesus lhes inquiriu: “Nunca lestes isto nas Escrituras? ‘A pedra que os construtores rejeitaram, tornou-se a pedra angular; e isso procede do Senhor, sendo portanto, maravilhoso para nós’. 43 Por isso, Eu vos declaro que o Reino de Deus será retirado de vós para ser entregue a um povo que produza frutos dignos do Reino. 44 Todo aquele que cair sobre esta pedra se arrebentará em pedaços; e aquele sobre quem ela cair ficará reduzido a pó!”.14 45 Depois que os chefes dos sacerdotes e os fariseus ouviram as parábolas que Jesus lhes havia contado, compreenderam que era sobre eles próprios que Jesus estava falando. 46 E por causa disso procuravam um motivo para prendê-lo; mas tinham receio das multidões, porquanto elas o consideravam profeta.

10 As versões de Almeida invertem a posição dos versículos 29 e 30. Entretanto, a Bíblia King James e a NVI seguem a mesma ordem original. Jesus resolve o debate com os sacerdotes, propondo duas histórias (as respostas parabólicas de Jesus). A autoridade maior vem da obediência amorosa e sincera a Deus; não de uma liderança autoritária, maquiavélica e despótica, que depende apenas de títulos e diplomas e, ainda mais, corrompida pela falta de dignidade. Como podem os eleitos para cuidar da Casa do Senhor (autoridades eclesiásticas), rejeitar o dono da Casa e o Evangelho do Reino? 11 Segundo a tradição rabínica, uma “torre” deveria ser construída na vinha, para abrigar o responsável pelo campo, que vigiava a plantação, especialmente quando chegava o tempo da colheita e as uvas ficavam maduras. Era, normalmente, uma plataforma elevada feita de madeira, com cerca de 5m de altura por 2m de lado. 12 Assim como seria um absurdo que os agricultores de um campo arrendado pudessem herdar essa terra ao assassinar seu dono, maior loucura foi os líderes espirituais e teólogos da época imaginarem que a incriminação e a crucificação de Jesus Cristo, o Filho de Deus, lhes garantiria a herança e o domínio de Israel. 13 Ao se escandalizarem com o erro dos outros, sem atentarem para seus pecados, e julgarem severamente os lavradores da parábola de Jesus, os sacerdotes estavam decretando sua própria punição: os judeus que não aceitassem a verdadeira mensagem de Deus em Cristo ficariam sem a herança espiritual. No ano 70 d.C. o Templo e toda a cidade de Jerusalém sofreram a mais arrasadora destruição até hoje registrada em sua história. Uma vez que o Evangelho foi rejeitado pelos judeus, Deus dirige sua graça salvadora aos gentios, salva e convoca Paulo para ser seu apóstolo (em grego apostellõ, enviado por Deus com uma missão específica). Já no segundo século da era cristã, a Igreja era composta, quase que totalmente, por não judeus (gentios). 14 Jesus é o alicerce seguro, a pedra fundamental, para todos aqueles que confessam o seu nome e edificam suas vidas nele, passando assim a fazer parte do grande edifício de Cristo, como pedras vivas (16.18; 1Pe 2.4-5). Entretanto, para os que rejeitam o Senhor, recusando-se a crer em Jesus, o Cristo (o Messias prometido), Ele se torna em pedra de tropeço e de condenação


MATEUS 21, 22

A parábola do banquete nupcial (Lc 14.15-24)

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Jesus continuou a pregar-lhes por meio de parábolas, dizendo: 2 “O Reino dos céus é semelhante a um rei que mandou realizar um banquete nupcial para seu filho.1 3 E, por isso, enviou seus servos a conclamar os convidados para as bodas do filho; mas estes rejeitaram o chamamento. 4 Uma vez mais, mandou outros servos, com esta ordem: ‘Dizei aos que foram convidados que lhes preparei meu banquete; os meus bois e meus novilhos gordos foram abatidos, e tudo está preparado. Vinde todos os convidados para as bodas do meu filho!’2 5 Mas os convidados nem deram atenção ao chamado dos servos e se afastaram: um para o seu campo, outro para os seus negócios. 6 E outros ainda, atacando os servos, maltrataram-nos e os assassinaram. 7 O rei indignou-se sobremaneira e, enviando seu exército, aniquilou aqueles criminosos e incendiou-lhes a cidade.3 8 Então, disse o rei a seus servos: ‘O banquete de casamento está posto, contudo os meus convidados não eram dignos. 9 Ide, pois, às esquinas das ruas e convidai para as bodas todas as pessoas que encontrardes. 10 E, assim, os servos saíram pelas estradas e reuniram todos quantos puderam

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encontrar, gente boa e pessoas más, e a sala do banquete das bodas ficou repleta de convidados. 11 Entretanto, quando o rei entrou para saudar os convidados que estavam à mesa, percebeu que um homem não trajava as vestes nupciais. 12 E indagou-lhe: ‘Amigo, como adentraste este recinto sem as suas vestes próprias para as bodas?’ Mas o homem não teve resposta. 13 Então, ordenou o rei aos seus servos: ‘Amarrai-lhe os pés e as mãos e lançaio para fora, às trevas; ali haverá grande lamento e ranger de dentes’.4 14 Portanto, muitos são chamados, mas poucos, escolhidos!”. Dai a César o que é de César (Mc 12.13-17; Lc 20.20-26)

E, assim, se afastaram os fariseus, tramando entre si como fariam para enredar a Jesus em suas próprias afirmações. 16 Então, mandaram-lhe seus seguidores juntamente com alguns herodianos, que lhe questionaram: “Mestre, sabemos que és íntegro e que ensinas o caminho de Deus, de acordo com a verdade, sem te deixares induzir por quem quer que seja, pois não te seduzes pela aparência das pessoas. 17 Sendo assim, dize-nos: que te pareces? É correto pagar impostos a César ou não?”.5 18 Contudo, Jesus percebeu a má inten15

eterna (Is 8.14-15; Lc 20.17; Rm 9.32; 1Pe 2.6-8). Assim como um vaso de barro se despedaça ao ser arremessado contra uma rocha, ou é esmagado ao ser atingido por uma enorme pedra, da mesma forma virá a destruição sobre todos aqueles que rejeitarem o senhorio de Cristo (Is 8.14; Dn 2.34,35,44; Lc 2.34). É importante notar que, mais tarde, o apóstolo Pedro fez questão de salientar que Jesus era a sua Pedra, Rocha Principal, seu Sustentador, e que cada indivíduo deve aceitar a Pedra (Jesus), para ser salvo e ganhar a vida eterna (At 4.8-12). Capítulo 22 1 Jesus apresenta o Reino dos céus em outras parábolas, veja no capítulo 13. 2 A proclamação do Evangelho é o doce e insistente convite do Rei do Universo a todo ser humano, para tomar parte em seu maravilhoso banquete de núpcias. Ainda assim, muitas pessoas estão de tal forma iludidas com suas exigências presentes e materiais que se recusam a dar atenção à generosidade divina. 3 Todos aqueles que se apresentam como inimigos declarados do Evangelho, assim como os falsos cristãos, serão destruídos. Da mesma forma como a cidade de Jerusalém foi completamente arrasada e queimada pelos romanos, no ano 70 d.C. 4 Era costume, naquela época e região, o anfitrião fornecer roupas adequadas ao casamento, para os convidados que não pudessem comprá-las. Como esse grupo de pessoas veio diretamente das ruas, todos ganharam suas roupas cerimoniais. Entretanto, um daqueles novos convidados, rejeitou também a hospitalidade e a generosidade do rei. A veste nupcial simboliza a justificação com a qual Cristo veste todas as pessoas que aceitam o dom gratuito da Salvação (Rm 13.14; Ap 19.8). 5 Os fariseus, como nacionalistas radicais, eram contra o domínio romano. Os herodianos, entretanto, como a própria denominação revela, apoiavam o império romano de Herodes. Mas, diante de uma ameaça maior, fariseus e herodianos se unem numa cilada dialética contra Jesus. Os maus se juntam no ataque ao Sumo Bem. Se a resposta de Jesus fosse “Não”, os herodianos


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ção deles e replicou-lhes: “Por que me tentais, hipócritas? 19 Deixai-me ver a moeda com a qual se pagais os tributos”. E eles lhe mostraram um denário. 20 Então lhes indagou: “De quem é esta figura e esta inscrição?”. 21 Responderam-lhe: “De César!”. Então, lhes afirmou: “Portanto, dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus!”. 22 Ao ouvirem tal resposta, ficaram perplexos e, afastando-se dele, se retiraram.6 Os saduceus e a ressurreição (Mc 12.18-27; Lc 20.27-40)

Naquele mesmo dia, os saduceus, que pregam a inexistência da ressurreição, aproximaram-se de Jesus com uma questão:7 24 “Mestre, Moisés ensinou que se um homem morrer sem deixar filhos, seu irmão deverá casar-se com a viúva e darlhe descendência. 25 Entre nós havia sete irmãos. O primeiro casou-se e morreu. Como não teve filhos, deixou a mulher para seu irmão. 26 Da mesma maneira ocorreu com o segundo, com o terceiro, até chegar ao sétimo. 23

MATEUS 22

Finalmente, após a morte de todos, a mulher também faleceu. 28 Sendo assim, na ressurreição, de qual dos sete ela será esposa, considerando que todos foram casados com ela?” 29 Então Jesus lhes esclareceu: “Vós estais equivocados por não conhecerdes as Escrituras nem o poder de Deus! 30 Na ressurreição, as pessoas não se casam nem são dadas em matrimônio; são, todavia, como os anjos do céu. 31 E, com relação à ressurreição dos mortos, não tendes lido o que Deus vos declarou: 32 ‘Eu Sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó’? Por isso, Ele não é Deus de mortos, mas sim, dos que vivem!”.8 33 Ao ouvir tudo isso, as multidões ficaram estupefatas com o ensino de Jesus. 27

O maior dos mandamentos (Mc 12.28-34)

Assim que os fariseus ouviram que Jesus havia deixado os saduceus sem palavras, reuniram-se em conselho. 35 E um deles, juiz perito na Lei, formulou uma questão para submeter Jesus à prova: 36 “Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?”9 34

o delatariam ao governador romano, que teria o direito de executá-lo por traição. Se respondesse “Sim”, então os fariseus o denunciariam diante do povo judeu, por deslealdade a Israel e ao judaísmo. 6 O dinheiro usado no império romano para pagar os impostos chamava-se “denário”. Uma moeda romana, cujo valor correspondia a um dia de trabalho braçal, criada no governo de Tibério, e que trazia, em um dos lados, o retrato do imperador, e do outro, a inscrição em latim: “Tibério César Augusto, filho do divino Augusto”. Jesus explana sua tese de forma magistral e deixa todos atônitos diante de sua devoção ao Pai, sabedoria, simplicidade e coerência. Foi Deus quem deu a César poder e autoridade (Rm 13.1-7). Todos os governos deste mundo, em todas as épocas, vivem de tributos recolhidos do povo. Entretanto, o governo espiritual tem sua moeda própria e eterna: fé, amor, bondade, compaixão, misericórdia (Lc 20.20-25; Gl 5.22-26). O Reino de Deus não é deste mundo. Seu modus vivendi (estilo de vida) é espiritual e visa o benefício de todos os seres e não a exploração do homem pelo homem. Jesus reconheceu a distinção entre responsabilidades políticas e espirituais. Ao governo devemos impostos e obediência, política justa. No tributo às autoridades cívicas, apenas retribuímos parte daquilo que oferecem. Para Deus, devemos nossa adoração, louvor, gratidão, obediência, serviço e a dedicação de todo o nosso ser. 7 Os “saduceus” formavam um partido aristocrático que dominava a vida política dos judeus, inclusive a posição do sumo sacerdote. Não acreditavam na ressurreição, nem na existência dos anjos e, muito menos, na imortalidade da alma. Para eles, a vida era apenas um “aqui e agora” e nada mais. Esse era um dos aspectos que mais lhes causava divergências com os fariseus. 8 Os saduceus apresentaram uma questão fechada para Jesus. Eles aceitavam apenas os primeiros cinco livros da Bíblia como autoridade divina, e há séculos estudavam o assunto sobre o qual interrogaram Jesus. Reivindicaram a lei do levirato (do latim levir, cunhado), promulgada a fim de proteger as viúvas, garantir as propriedades e a continuidade da linhagem familiar (Dt 25.5,6; Gn 38.8), para zombar da doutrina da ressurreição defendida por Cristo e com isso desmoralizá-lo. Entretanto, Jesus usou o próprio Pentateuco para mostrar que eles não estudavam as Escrituras com o devido amor a Deus e por isso erravam. Nos céus não há casamentos e receberemos novos corpos, como os de anjos, entre os quais não há macho ou fêmea. Portanto, debater esse assunto não faz sentido. Além disso, os crentes ressuscitados viverão eternamente, uma verdade firmada no caráter de Deus (Êx 3.6; Lc 20.28). 9 Os fariseus eram muito legalistas, tanto que se emaranhavam em suas próprias leis e decretos. Discutiam sempre sobre quais, dentre suas muitas ordenanças, eram prioritárias para que um judeu alcançasse o Reino dos céus e o Shabbãth (o grande


MATEUS 22, 23 37 Asseverou-lhe

Jesus: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e com toda a tua inteligência.10 38 Este é o primeiro e maior dos mandamentos. 39 O segundo, semelhante a este, é: ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’. 40 A estes dois mandamentos estão sujeitos toda a Lei e os Profetas”. Jesus é o Senhor de Davi (Mc 12.35-37; Lc 20.41-44)

Estando reunidos os fariseus, Jesus lhes indagou: 42 “Qual a vossa opinião acerca do Messias? De quem Ele é filho?”. Ao que eles lhe afirmaram: “É filho de Davi”. 43 Contestou-lhes Jesus: “Então, como se explica que Davi, falando pelo Espírito, o trata de ‘Senhor’? Pois ele afirma: 44 ‘O Senhor disse ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, até que Eu ponha os teus inimigos debaixo dos teus pés’. 45 Considerando que Davi o chama ‘Senhor’, como pode ser Ele seu filho?”.11 41

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E ninguém foi capaz de oferecer-lhe uma só palavra em resposta à questão; tampouco ousou alguém mais, a partir daquele dia, dirigir-lhe qualquer outra pergunta. 46

Os doutores da Lei falam, mas não agem (Mc 12.38-40; Lc 11.37-52; 20.45-47)

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Então, Jesus pregou às multidões e aos seus discípulos: 2 “Os escribas e os fariseus se assentam na cadeira de Moisés.1 3 Fazei e obedecei, portanto, a tudo quanto eles vos disserem. Contudo, não façais o que eles fazem, porquanto não praticam o que ensinam. 4 Eles atam fardos pesados e os colocam sobre os ombros dos homens. No entanto, eles próprios não se dispõem a levantar um só dedo para movê-los. 5 Tudo o que realizam tem como alvo serem observados pelas pessoas. Por isso, fazem seus filactérios bem largos e as franjas de suas vestes mais longas.2 6 Amam o lugar de honra nos banquetes e os primeiros assentos nas sinagogas. 7 Gostam de ser cumprimentados nas

Sábado, ou o descanso eterno). Eles haviam interpretado e abstraído do AT um total de 248 preceitos afirmativos. E mais 365 negativos, que acreditavam ser da vontade de Deus, pois o número coincidia com o número de dias do ano. Além disso, o total desses mandamentos: 613, era o mesmo que o número de letras contidas no Decálogo. 10 Jesus mais uma vez aproveita a oportunidade para mostrar àqueles líderes religiosos e a seus muitos discípulos ao redor, responsáveis pela continuação do ensino das Escrituras ao povo, que a mentalidade divina e o modo espiritual de raciocinar dife-riam em muito da limitada e egoísta dialética humana. Jesus então cita Dt 6.5, uma parte do Shema, orações e reflexões diárias dos judeus. Na Septuaginta (o AT em grego) a palavra aqui traduzida por “inteligência” é, literalmente, “mente” (Mc 12.30). O verbo grego traduzido aqui por “amarás” não é phileõ, como em algumas versões, que significa uma afeição entre amigos; mas, sim, o verbo agapaõ: uma obrigação de dedicação absoluta a alguém, determinada pela vontade (Mq 6.8; Am 5.4; Is 33.15; Hc 2.4). Jesus foi o primeiro líder espiritual judeu a combinar os dois mandamentos de amor, para formar o mais sintético resumo da Lei (Lv 19.18), revelando aos fariseus, e a todos nós, que não são os muitos regulamentos e leis que tornam uma pessoa santa; mas, sim, seu genuíno e sincero amor a Deus e a seu próximo mais achegado (familiares), e a seus próximos e vizinhos (comunidade, sociedade). 11 Finalmente, é Jesus quem questiona. Os fariseus eram profundos estudiosos sobre o Messias e sua vinda, como Libertador de Israel. Entretanto, há séculos interpretavam erroneamente a pessoa e a obra do Messias. Imaginavam um rei, pleno de poderes divinos, que viria como guerreiro invencível, para libertar Israel do império gentio e conceder saúde, paz e riqueza ao povo judeu. Conheciam o Messias como Filho de Davi, mas não como o Senhor de Davi (Sl 110.1), tampouco seu domínio espiritual em amor e humildade (Lc 20.42-44). Jesus desejava que os seus compreendessem que ele era o Messias prometido: o descendente humano de Davi e o seu divino Senhor. Capítulo 23 1 Os escribas, doutores e mestres da Lei, bem como os fariseus, partido político religioso que defendia a observância literal da Torah (Lei) e mais uma série de ordenanças e preceitos por eles criados para situações não diretamente cobertas pela Torah. Convencidos de que possuíam a correta interpretação da vontade de Deus, afirmavam que a tradição dos anciãos, a lei oral (tôrâ shebe‘al peh) vinha de Moisés e desde o monte Sinai. Fariseus e escribas eram, portanto, os sucessores autorizados da tradição de Moisés como mestres da Lei. 2 Os filactérios ou tefilins eram pequenos rolos ou caixinhas de couro que os judeus religiosos usavam presos à testa, perto do coração, e no braço esquerdo. Essas pequenas cápsulas continham quatro passagens da Torah: Êx 13.1-10 e 11-16; Dt 6.4-9 e 11.13-21. Com o passar do tempo, os judeus começaram a respeitar e honrar esses pequenos recipientes, tanto quanto


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praças e de serem, pelas pessoas, chamados: ‘Rabi, Rabi!’.3 8 Vós, todavia, não sereis tratados de ‘Rabis’; pois um só é vosso Mestre, e vós todos sois irmãos. 9 E a ninguém sobre a terra tratai de vosso Pai; porquanto só um é o vosso Pai, aquele que está nos céus. 10 Também não sereis chamados de líderes, pois um só é o vosso Líder, o Cristo.4 11 Porém o maior dentre vós seja vosso servo. 12 Portanto, todo aquele que a si mesmo se exaltar será humilhado, e todo aquele que a si mesmo se humilhar será exaltado. 13 Ai de vós, doutores da Lei e fariseus, hipócritas! Porque fechais o reino dos céus diante dos homens. Porquanto vós mesmos não entrais, nem tampouco deixais entrar os que estão a caminho!5 14 Ai de vós, doutores da Lei e fariseus, hipócritas! Porque devorais as casas das viúvas e, para disfarçar, encenais longas orações. E, por isso, recebereis castigo ainda mais severo! 15 Ai de vós, doutores da Lei e fariseus, hipócritas! Porque viajais por mares e

MATEUS 23

terras para fazer de alguém um prosélito. No entanto, uma vez convertido, o tornais duas vezes mais filho do inferno do que vós! 16 Ai de vós, guias cegos! Porque ensinais: ‘Se uma pessoa jurar pelo santuário, isso não tem significado; porém, se alguém jurar pelo ouro do santuário, fica obrigado a cumprir o que prometeu’. 17 Tolos e cegos! Pois o que é mais importante: o ouro ou o santuário que santifica o ouro? 18 E mais, dizeis: ‘Se uma pessoa jurar pelo altar, isso nada significa; mas, se alguém jurar pela oferta que está sobre ele, fica, assim, comprometido ao seu juramento’. 19 Embotados! O que é mais importante: a oferta, ou o altar que santifica a oferta? 20 Portanto, a pessoa que jurar em nome do altar, jura pelo altar e por tudo o que está sobre ele. 21 E quem jurar pelo santuário, jura pelo santuário e em nome daquele que nele habita. 22 E aquele que jurar pelos céus, jura pelo trono de Deus e em nome daquele que nele está assentado.6

as Escrituras, e seu tamanho era considerado um sinal de zelo espiritual de quem os ostentava. Os fariseus acreditavam que o próprio Deus usava filactérios. Por isso, eram considerados como amuletos de boa sorte e proteção contra o mal. As “franjas” eram as borlas descritas em Nm 15.37-41 que todo judeu deveria usar. Jesus também as usava nas quatro pontas de seu manto (em Mt 9.20 são chamadas de “orla”), essas borlas eram um tipo de madeixas de lã, branca e azul, e tinham a singela função de declarar o amor de quem as usava a Yahweh (o Senhor) e a vontade do seu coração de cumprir a Torah (ou Torá, a Lei) da maneira mais fiel possível. As borlas tinham o tamanho médio de até 10 cm; entretanto, os fariseus as alongavam muito mais em sinal de maior espiritualidade. O que Deus criou para ser apenas um lembrete de fé e marca de devoção, tornou-se objeto de adoração e ostentação (fetiche). 3 Os mestres da Lei e os fariseus gostavam de ocupar os melhores e mais importantes assentos na sinagoga, aqueles que ficam defronte à representação da arca e que continha os rolos das Escrituras Sagradas. Além disso, os que se assentavam ali podiam ser facilmente vistos por toda a congregação. Eles também apreciavam muito ouvir as pessoas os chamarem, insistentemente, aos gritos e em público (nas praças do mercado) de Rabbei (em grego), que significa literalmente em hebraico: “meu professor, meu mestre!” 4 A expressão “pai” ou “padre” (em hebraico ’abh) não deve ser usada como título de qualquer autoridade religiosa. Jesus faz uma séria advertência quanto à busca desenfreada por reconhecimento e prestígio, coisas que alimentam a soberba humana. Entretanto, devemos ter cautela com possíveis aplicações de literalismo insensato dessas passagens. Jesus está ensinando princípios de vida espiritual a quem só conseguia enxergar regras exatas de comportamento religioso. Os cristãos, líderes (em grego kathegetai, guias ou dirigentes) ou não, devem ser conhecidos por um espírito e atitudes diaconais (em grego diakonos, servo). 5 “Ai” é uma expressão de profunda tristeza e indignação da parte de Deus, expressa através dos lábios do seu Filho contra a falsidade (hipocrisia) dos maiores conhecedores das Sagradas Escrituras da época e líderes religiosos dos judeus, o povo do Cristo (Messias). Essa atitude apenas legalista, arrogante, soberba e desprovida de sincero amor a Deus e às pessoas, fazia que os “prosélitos” (pagãos e gentios que se convertiam ao judaísmo) se tornassem ainda piores que seus mestres e não tivessem verdadeira comunhão com Deus, o Pai (em aramaico: abba). Esses líderes religiosos e juízes de direito, eram tão dissimulados que chegavam a usar suas posições como juristas para processar viúvas ricas ou para fazer que elas lhes legassem suas propriedades. 6 Com relação aos juramentos, Jesus argumenta com os mestres fariseus, com seus próprios pressupostos em relação à Lei, para lhes revelar o verdadeiro espírito da Lei e a vontade de Deus (5.33-37).


MATEUS 23

Ai de vós, doutores da Lei e fariseus, hipócritas! Porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, mas tendes descuidado dos preceitos mais importantes da Lei: a justiça, a misericórdia e a fé. Deveis, sim, praticar estes preceitos, sem omitir aqueles!7 24 Líderes insensíveis! Pois coais o pequeno mosquito, mas engolis um camelo!8 25 Ai de vós, doutores da Lei e fariseus, hipócritas! Porque limpais o exterior do copo e do prato, mas por dentro, estes estão repletos de avareza e cobiça. 26 Fariseu que não enxerga! Limpa, antes de tudo, o interior do copo e do prato, para que da mesma forma, o exterior fique limpo! 27 Ai de vós, doutores da Lei e fariseus, hipócritas! Porque sois parecidos aos túmulos caiados: com bela aparência por fora, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos e toda espécie de imundície!9 28 Assim também sois vós: exteriormente pareceis justos ao povo, mas vosso interior está repleto de falsidade e perversidade. 29 Ai de vós, doutores da Lei e fariseus, hipócritas! Porque construís os sepulcros dos profetas, adornais os túmulos dos justos. 23

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E declarais: ‘Se tivéssemos vivido na época dos nossos antepassados, não teríamos tomado parte com eles no assassinato dos profetas!’ 31 Dessa forma, porém, testemunhais contra vós mesmos que sois filhos dos que mataram os profetas. 32 Acabai, pois, de encher a medida do pecado de vossos pais! 33 Cobras venenosas, ninho de víboras! Como escapareis da condenação do inferno? 34 Por isso, eis que Eu vos envio profetas, sábios e mestres. A uns assassinareis e crucificareis; a outros açoitareis nas vossas sinagogas e perseguireis de cidade em cidade. 35 E, dessa maneira, sobre vós recairá todo o sangue justo derramado na terra, desde o sangue do justo Abel, até o sangue de Zacarias, filho de Baraquias, a quem matastes entre o santuário e o altar.10 36 Com toda a certeza vos asseguro, que tudo isso ocorrerá a esta geração”. 30

O lamento sobre Jerusalém (Lc 13.34-35)

“Ó Jerusalém, Jerusalém, que assassinas os profetas e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes Eu quis reunir os teus filhos, como a galinha acolhe os 37

7 Oferecer ao Senhor a décima parte (o dízimo) de diversas ervas era uma prática religiosa baseada em Lv 27.30. Embora o dízimo dos grãos, frutos, vinho e azeite fosse o exigido, dos judeus, pela Lei (Nm 18.12; Dt 14.22-23), os escribas e fariseus haviam ampliado a lista dos itens especificados na Lei, para incluir o dízimo das menores e mais simples hortaliças. A hortelã era usada como tempero e para adornar o chão das casas e sinagogas. O endro era usado como medicamento e para perfumar ambientes. O cominho, que são as sementes de erva-doce, tinha vários usos culinários. Entretanto, o valor comercial dessas ervas era mínimo; mas os fariseus desejavam mostrar ao povo um zelo religioso que, na verdade, não fazia parte de suas vidas com Deus e com seus próximos. 8 Os escribas e fariseus coavam com muito cuidado toda água que bebiam através de um pano branco, bem tecido, para ter certeza de não engolir nenhum pequeno mosquito; considerado pelos religiosos como o menor ser vivo impuro. Entretanto, figuradamente, engoliam um camelo inteiro, um dos maiores animais impuros para os judeus, ao praticarem uma série de fraudes, atrocidades e pecados. 9 Por ocasião da celebração da Páscoa, época em que os peregrinos de várias partes da Palestina iam a Jerusalém, e momento no qual Jesus está falando, era costume pintar, várias vezes, toda a parte exterior dos sepulcros (túmulos) com cal. Isso para que os túmulos pudessem ser vistos inclusive à noite, uma vez que, pela Lei, se alguém pisasse sobre um túmulo ou área de sepultura tornava-se instantaneamente impuro (Nm 19.16). Por isso, todos pareciam iguais, limpos, belos e puros; mas em seu interior jazia a morte, o mau cheiro e a podridão. 10 Os líderes religiosos judaicos no tempo de Jesus estavam acrescentando pecados sobre pecados à longa lista de seus pais (antepassados) históricos. Jesus também seria um dos profetas martirizados. Seus apóstolos não seriam igualmente aceitos (10.17,23). E Jesus resume a história dos martírios no AT citando o assassinato de Abel (Gn 4.8; Hb 11.4) e o martírio do profeta Zacarias registrado no livro de Crônicas. Na Bíblia Hebraica, o último livro do AT (2Cr 24.20-22).


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MATEUS 23, 24

seus pintinhos debaixo das suas asas, mas vós não o aceitastes!11 38 Eis que a vossa casa ficará abandonada!12 39 Pois eu vos declaro que, a partir de agora, de modo algum me vereis, até que venhais a dizer: ‘Bendito é o que vem em o Nome do Senhor!’”13

ram mais perto dele para lhe apontar as construções do templo. 2 Ele, entretanto, lhes observou: “Estais vendo todas estas coisas? Com toda a certeza Eu vos afirmo que não ficará aqui pedra sobre pedra, pois que serão todas derrubadas”.1

Jesus prediz o final dos tempos

(Mc 13.3-13; Lc 21.7-19)

(Mc 13.1-2; Lc 21.5-6)

24

Então, Jesus saiu do templo e, ao caminhar, seus discípulos chega-

O princípio das dores Tendo Jesus se assentado no monte das Oliveiras, os discípulos chegaram até Ele em particular e lhe pediram: “Dize-nos 3

11 O próprio Jesus reconhece que os seus próprios irmãos não o receberam. Deus tem feito tudo para seu povo, mas a rejeição de Israel ilustra o coração empedernido da raça humana, em relação ao seu Criador (Jo 1.11). 12 Jesus faz referência a 1Rs 9.7-8; Jr 12.7, 22.5 e adverte seu povo. No ano 70 d.C. toda a nação de Israel e, em especial, a cidade de Jerusalém, foram assoladas e profanadas pelos exércitos pagãos de Roma. 13 Jesus se despede de Jerusalém e do seu povo, declarando que não os ensinaria mais em público até sua volta em glória no final dos tempos, quando Israel o receberá como o Messias que fora rejeitado (Zc 12.10). De agora em diante a salvação dos judeus, como de qualquer outra pessoa sobre a face da terra, do mais alto líder religioso ou político ao mais simples ser humano, só tem uma única possibilidade: a confissão do Senhor Jesus Cristo, como Salvador, Senhor e Filho de Deus (21.9, Sl 118.26). Capítulo 24 1 O primeiro Templo foi idealizado por Davi (2Sm 7.2; 1Cr 22.8,3; 2Sm 24.18-25). Entretanto, coube a Salomão (em hebraico transliterado shelômõh, homem de paz), seu filho com Bate-Seba (2Sm 12.24), a honra da sua construção, que teve início no quarto ano do seu reinado e foi concluída sete anos mais tarde. Mas o filho de Salomão, Reoboão, não deu a mesma atenção ao Templo e sucessivas pilhagens ocorreram desde Sisaque, do Egito (1Rs 14.26), até a invasão de Nabucodonosor em 587 a.C. (2Rs 25.9,13-17). Mesmo depois de sua destruição, alguns fiéis ainda iam oferecer sacrifícios entre suas ruínas (Jr 41.5). Hoje em dia não há qualquer estrutura do antigo Templo de Salomão acima do nível do chão. Porém, curiosamente, sobre os seus escombros foi construída a mesquita mulçumana, conhecida como “Cúpula da Rocha”, destaque na maioria dos cartões postais de Israel (2Cr 3.1; 2Sm 24.24). O segundo Templo foi erguido por ocasião do retorno dos exilados da Babilônia, cerca de 537 a.C, conforme autorização e ajuda de Ciro, rei da Pérsia, e do ministério de Neemias e Esdras (Nm 2.11-20). Toda a área teve de ser limpa do entulho do primeiro Templo destruído (Ed 1; 3.2-10). A arca havia desaparecido no tempo do exílio e jamais foi encontrada. No lugar do candelabro de Salomão, com dez lâmpadas, foi colocado um novo, com sete hastes, juntamente com uma mesa de ouro para os pães da proposição e o altar do incenso. Esses e outros objetos sagrados foram tomados como despojos pelo rei da Síria, Antíoco IV Epifânio (entre 175 e 163 a.C.), o qual colocou um altar e uma estátua pagã no lugar santo, no dia 15 de dezembro de 167 a.C. Os macabeus venceram os sírios e purificaram o Templo (1Macabeus 1.54; 4.35-59), substituindo todos os seus móveis e transformando o Templo numa fortaleza que lhes permitiu resistir durante três meses ao cerco de Pompeu (63 a.C.) quando foi, então, destruído (os livros dos Macabeus, com alguns outros, não são considerados canônicos, por isso não fazem parte da maioria das Bíblias evangélicas em língua portuguesa, entretanto, muitos de seus relatos históricos são dignos de crédito). A terceira construção, chamada de Templo de Herodes, começou no ano 19 a.C., mas seu motivo principal não foi glorificar a Deus, e, sim, reconciliar os judeus com o seu rei gentio (idumeu). Mesmo assim, o rei teve grande cuidado com a reverência ao Templo, convocou mil sacerdotes que foram treinados como pedreiros para conduzir a edificação do santuário, e procuraram construir uma cópia do Templo de Salomão. Em uma área com mais de 144.000 m2, ergueu-se uma magnífica estrutura de pedras creme, adornadas de ouro. Um muro feito com blocos de pedras com 60 cm de largura por até 5 metros de comprimento circundava o Templo. Contudo, alguns anos após o término da construção, exatamente 40 anos depois da profecia de Jesus, durante as celebrações da Páscoa judaica, as tropas do comandante romano Tito tomaram posição de combate, às portas de Jerusalém. A cidade estava em festa e repleta de judeus de todas as partes. Os dois mais poderosos partidos judaicos, que deveriam estar atentos à defesa da cidade contra Roma, achavam-se em violenta guerra interna, a ponto de incendiarem os estoques de alimentos um do outro. Somente quando os enormes aríetes dos romanos arrebentaram o primeiro portão de Jerusalém foi que os políticos decidiram se unir contra o invasor. Tarde demais. Tito incendiou tudo, e até as pedras foram separadas para colher o ouro derretido que se infiltrara nas junções. O comandante romano deixou apenas um resto da muralha, como símbolo do aniquilamento de Israel, conhecido em nossos dias como ‘Muro das Lamentações’. Mais de um milhão de judeus morreram naquela época. Todas as estradas que passavam por Jerusalém estavam tomadas por judeus crucificados. Os sobreviventes foram vendidos ou negociados como escravos. Israel desapareceu como nação e os judeus foram espalhados pelo mundo inteiro, sob a maior humilhação já sofrida por um povo até nossos dias. Em homenagem à marcha triunfal de Tito, foi construído o arco do triunfo, o “Arco de Tito”. Esse monumento persiste em Roma até hoje e mostra, em seus trabalhos de escultura, cenas das


MATEUS 24

quando ocorrerão estas coisas?2 E qual será o sinal da tua vinda e do final dos tempos?”. 4 Então Jesus lhes revelou: “Cuidado, que ninguém vos seduza. 5 Pois muitos são os que virão em meu nome, proclamando: ‘Eu sou o Cristo!’, e desencaminharão muitas pessoas. 6 E vós ouvireis falar de guerras e rumores de guerras, todavia não vos desespereis, porque é preciso que tais coisas ocorram, mas ainda não será o fim. 7 Porquanto, nação se levantará contra nação, e reino contra reino. Haverá fomes e terremotos em vários lugares. 8 Contudo, esses acontecimentos serão apenas como as primeiras dores de um parto. 9 Então eles vos entregarão para serem afligidos e condenados à morte. E sereis odiados por todas as nações por serem meus seguidores. 10 Nessa época, muitos ficarão escandalizados, trairão uns aos outros e se odiarão

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mutuamente. 11 Então, numerosos falsos profetas surgirão e enganarão a muitos. 12 E, por causa da multiplicação da maldade, o amor da maioria das pessoas se esfriará. 13 Aquele, porém, que continuar firme até o final será salvo. 14 E este evangelho do Reino será pregado em todo o mundo habitado, como testemunho a todas as nações, e então chegará o fim. A grande tribulação

(Mc 13.14-23; Lc 21.7-19)

E, assim, quando virdes a profanação horrível da qual falou o profeta Daniel, no Lugar Santo (ao ler o profeta entendereis isso),3 16 então, os que estiverem na Judéia fujam para os montes.4 17 Quem estiver sobre o telhado de sua casa, não desça para retirar dela coisa alguma. 15

legiões romanas carregando os objetos sagrados e valiosos do Templo, e os mais valorosos guerreiros judeus algemados. Tito profanou o Templo, entrando no santo lugar, despojando todo o tesouro e utensílios preciosos, tais como o grande candelabro de ouro maciço, uma réplica dourada da arca com os preciosos rolos sagrados da Lei, a mesa de ouro e muitos outros objetos preciosos. Finalmente, o imperador Vespasiano, pai de Tito, declarou toda a nação de Israel como sua propriedade particular e doou grandes propriedades a seus amigos e colaboradores, entre eles o conhecido historiador judeu e fariseu, Flávio Josefo, cujo carisma e poder intelectual haviam conquistado a amizade do rei e a cidadania romana. 2 Jesus se retira do Templo e sobe com os discípulos em direção ao monte das Oliveiras - uma cordilheira, a leste de Jerusalém, do outro lado do vale Cedrom, com quase dois quilômetros de extensão e cerca de 70 metros acima do nível da cidade (Mc 11.1). De agora em diante, nunca mais entrará no Templo. Tudo é parte da grande visão profética de Ezequiel, que viu a glória do Senhor abandonar a cidade de Jerusalém e o Templo, mais precisamente em direção ao monte das Oliveiras (Ez 8.4-6). Naquele momento estava se cumprindo a Palavra do Senhor que veio a Ezequiel em 592 a.C. Ao chegar ao alto do monte, Jesus lança um último olhar sobre a cidade amada que o rejeitou. Ao pôr-do-sol, senta-se com seus discípulos e ficam observando a noite chegar sobre o Templo e o povo de Jerusalém. Jesus não revela quando sucederão essas coisas, mas responde, em forma de profecia, às demais questões: O fim dos tempos entre os versículos 4-14; a destruição de Jerusalém entre 15-22 (Lc 21.20), e o glorioso retorno de Jesus Cristo entre 23-31. 3 A expressão grega, aqui transliterada por bdelugma tes eremoses vem do hebraico shiqquçe shõmem e significa: “a profanação horrível”, “o sacrilégio terrível”, ou ainda, como em versões antigas: “o abominável da desolação”. Essas são formas de traduzir o significado literal da frase original: “a coisa abominável que causa horror e repulsa” (Dn 9.27; 11.31; 12.11). Jesus ressalta que os leitores do livro escrito pelo profeta Daniel poderão compreender melhor o que ele está dizendo. Jesus faz referência a um tipo de idolatria tão perversa e antagônica a todos quantos crêem no Pai de Cristo, como ocorreu no ano 168 a.C., quando o rei Antíoco Epifânio erigiu um altar a Zeus no lugar do altar de Jeová (em hebraico  transliterado por Yahweh – 1Macabeus 1.54-59; 6.7; 2Macabeus 6.1-5). Assim também aconteceu no ano 70 d.C., quando os romanos ofereceram sacrifícios pagãos em Jerusalém, no lugar sagrado, ao proclamar Tito imperador supremo (2Ts 2.4; Ap 13.14-15). A história registra que muitos cristãos e judeus, pouco antes do ano 70 d.C., lembraram-se das palavras de Jesus, cumpriram à risca as orientações proféticas e tiveram suas vidas salvas daquelas catástrofes e perseguições. O Grande Retorno de Jesus, em glória, marca o final da ordem mundana, na qual vivemos. Porém, antes disso, surgirão muitos enganadores, falsos messias (cristos), o tema guerra e terrorismo dominará a mídia mundial, tribulações, terremotos, vulcões, tempestades, alterações na atmosfera, no clima, falsos profetas por toda parte, multiplicação da iniqüidade (maldade) e da arrogância cientifica, lascívia, bestialidades, esfriamento do amor e das virtudes morais e éticas. Todos esses são apenas sinais que criam o ambiente para a manifestação do maior dos sinais: a pregação do Evangelho até os confins da terra (28.18-20). Então virá o fim. 4 A história registra que muitos cristãos, pouco antes do ano 70 d.C., fugiram de Jerusalém e se refugiaram nas montanhas


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E aquele que estiver no campo, não volte para pegar sua túnica. 19 Serão dias terríveis para as mulheres grávidas e para as que estiverem amamentando. 20 E orai para que a vossa fuga não ocorra durante o inverno nem no sábado.5 21 Porquanto haverá nessa época grande tribulação, como jamais aconteceu desde o início do mundo até agora, nem nunca mais haverá.6 22 E, se aqueles dias não tivessem sido abreviados, nenhuma carne seria salva. Mas, por causa dos eleitos, aquele tempo será encurtado.7 23 Então, se alguém vos anunciar: ‘Vede, aqui está o Cristo!’ ou ‘Ei-lo ali!’ Não acrediteis. 24 Pois se levantarão falsos cristos e falsos profetas e apresentarão grandes milagres e prodígios para, se possível, iludir até mesmo os eleitos.8 25 Vede que Eu o preanunciei a vós! 26 Portanto, se vos disserem: ‘Eis que Ele está no deserto!’- não saiais. Ou ainda: ‘Ele está ali mesmo, nos cômodos de uma casa!’- não acrediteis. 27 Pois, da mesma maneira como o relâmpago parte do oriente e brilha até no ocidente, assim também se dará a vinda do Filho do homem.9 18

MATEUS 24

Onde houver um cadáver, aí se reunirão os abutres. 28

O retorno de Cristo em glória (Mc 13.24-27; Lc 21.25-28)

Imediatamente após o tormento daqueles dias, o sol escurecerá e a lua não dará a sua luz; e as estrelas cairão do céu, e os poderes celestes serão estremecidos. 30 Então surgirá no céu o sinal do Filho do homem, e todos os povos da terra prantearão e verão o Filho do homem chegando nas nuvens do céu com poder e majestosa glória.10 31 Ele enviará os seus anjos, com poderoso som de trombeta, e estes reunirão os seus eleitos dos quatro ventos, de uma a outra extremidade dos céus. 29

A lição da figueira: o Dia do Senhor (Mc 13.28-37; Lc 21.29-36)

Portanto, aprendei com a parábola da figueira: quando, pois, os seus ramos se renovam e suas folhas começam a brotar, sabeis que está próximo o verão. 33 Da mesma forma vós: quando virdes todos esses acontecimentos, sabei que Ele está muito próximo, às portas.11 34 Com toda a certeza Eu vos afirmo, que não passará esta geração até que todos esses eventos se realizem. 32

da Transjordânia, onde se localizavam as terras de Pella. Fuga semelhante haverá num período futuro de tribulação conhecido como a 70a Semana de Daniel (Dn 9.27). Entretanto, aquelas pessoas que verdadeiramente crêem no Senhor (os salvos, a Igreja), serão arrebatadas da terra no exato momento em que Cristo cruzar a atmosfera da terra. Os cristãos não precisarão fugir, apenas devem perseverar até o Dia do Senhor. 5 Gestantes, idosos e pessoas com deficiência física terão maior dificuldade naqueles dias de tribulação e perseguição. Mateus, como escreve principalmente aos judeus, observa os detalhes do inverno e do sábado, dia em que os judeus somente podiam caminhar 800 metros. 6 O historiador judeu-romano Flávio Josefo foi testemunha ocular desta terrível tribulação e narra o episódio com palavras parecidas às de Jesus. Entretanto, aquela grande tribulação foi apenas mais um sinal da maior das tribulações ainda por vir (Dn 12.1). 7 Este último e terrível tempo de aflição será abreviado em relação ao que já havia sido pré-determinado nas profecias (como a 70a Semana de Daniel – Dn 9.27, ou os 42 meses mencionados em Ap 11.2; 13.5). Os eleitos são o povo de Deus em todo o mundo, a Igreja de Jesus Cristo. 8 Compare esta descrição com a pessoa do anticristo revelada em 2Ts 2.9-10. 9 Que ninguém se iluda. A segunda e definitiva volta de Jesus Cristo será um evento portentoso. Em segundos, a glória e o brilho da sua presença varrerão o planeta, e os salvos (sua Igreja) serão arrebatados, sumindo instantaneamente de toda a terra. (27, 31, 1Co 15.12; 1Ts 4.16,17). Jesus cita um antigo provérbio para explicar que seu glorioso retorno será tão certo quanto o esvoaçar dos urubus (abutres: aves falconiformes e vulturídeas comuns no Oriente e Europa) sobre um cadáver. Ou seja, o mundo está moribundo e os urubus já sobrevoam aqueles que morrerão e lhes servirão de banquete (Lc 17.37). 10 Fenômenos cósmicos acompanharão a volta triunfal do Filho do homem (Mc 8.31, Ap 1.7). O brilho, como um relâmpago, que o mundo inteiro verá, é a Shekinah: a glória do Senhor (Is 13.10; 24.21-23; 34.4; Ez 32.7-8; Jl 2.10,31; 3.15; Am 8.9, 2Ts 1.6-10; Ap 19.11-16). 11 No Oriente as figueiras anunciam o início do verão, quando renovam seus ramos e novas folhas brotam. Esse evento é tão certo e esperado quanto o será a volta de Cristo, e por isso todos os cristãos devem estar preparados para não serem apanhados


MATEUS 24 35 O céu e a terra passarão, mas as minhas

palavras jamais passarão.

Só Deus sabe o dia e a hora exatos

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Portanto, ficai igualmente vós alertas; pois o Filho do homem virá no momento em que menos esperais.14 44

(Mc 13.32-37)

O destino do bom e do mau servo

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(Lc 12.42-46)

Entretanto, a respeito daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho, senão exclusivamente o Pai.12 37 Como aconteceu nos dias de Noé, assim também se dará por ocasião da chegada do Filho do homem. 38 Porque nos dias que antecederam ao Dilúvio, o povo levava a vida comendo e bebendo, casando-se e oferecendo-se em matrimônio, até o dia em que Noé entrou na arca, 39 e as pessoas nem notaram, até que chegou o Dilúvio e levou a todos. Assim ocorrerá na vinda do Filho do homem. 40 Dois homens estarão na lavoura: um será arrebatado, mas o outro deixado. 41 Duas mulheres estarão trabalhando num moinho: uma será arrebatada, a outra ficará pra trás. 42 Por isso, vigiai, porquanto não sabeis em que dia virá o vosso Senhor.13 43 Contudo, entendei isto: se o proprietário de uma casa soubesse a que hora viria o ladrão, se colocaria em sentinela e não permitiria que a sua residência fosse violada.

Sendo assim, quem é o servo fiel e sábio, a quem o senhor confiou os de sua casa para dar-lhes alimento no seu devido tempo? 46 Feliz aquele servo a quem o seu senhor, quando voltar, o encontrar agindo dessa maneira. 47 Com certeza vos afirmo que o senhor confiará a seu servo todos os seus bens. 48 Entretanto, supondo que esse servo, sendo mau, diga a si mesmo: ‘Meu senhor está demorando muito’, 49 e, por isso, passe a agredir os seus conservos e a comer e beber com beberrões. 50 O senhor daquele servo virá num dia inesperado e numa hora que o servo desconhece. 51 E o senhor o punirá com toda a severidade e lhe dará um lugar ao lado dos hipócritas, onde haverá grande lamento e ranger de dentes.15 45

As virgens sábias e as tolas Portanto, o Reino dos céus será semelhante a dez virgens que pe-

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de surpresa, como acontecerá com o mundo descrente. Jesus ainda afirma que a geração que presenciar o início dos sinais também verá sua volta triunfal. A expressão “geração” (em grego antigo genea), também podia significar “raça” ou “família” e, por certo, Jesus fez referência à profecia de que o povo judeu não seria exterminado da terra por mais que seus muitos inimigos, em todas as épocas, tenham se empenhado nesse objetivo (Mc 13.30; Lc 21.32). As palavras de Jesus são todas mais verdadeiras e duradouras que o Universo. 12 O Dia do Senhor é uma expressão que se refere ao AT como o dia em que Jesus voltará em glória para levar seu povo (a Igreja) para a Nova Jerusalém (Am 8.3,9,13; 9.11; Mq 4.6; 5.10; 7.11). Mas o dia exato desse evento a ninguém foi revelado, e Jesus, enquanto esteve na terra, também não pretendeu saber, pois decidiu em tudo obedecer ao Pai e viver pela fé como todo ser humano deveria. 13 Jesus dedica seis parábolas para enfatizar a extrema necessidade da vigilância, enquanto estamos vivos na terra e ele não retorna: O porteiro (Mc 13.35-37). O pai de família (Mt 24.43-44). O servo fiel (24.45-51). As dez virgens (25.1-13). Os talentos (25.14-30). As ovelhas e os bodes (25.31-46). A vida passa, e passa muito rápido. É preciso estar com a consciência tranqüila de que amamos ao Senhor e buscamos praticar sua vontade em todas as áreas de nossa vida íntima e relacional. 14 Jesus nos adverte de que perto da sua volta, o mundo estará descrente, religioso talvez, mas sem a convicção da salvação nem da militância evangélica. O poder do sistema mundial forçará muitos religiosos a se afastarem de Deus e de sua Palavra. Intérpretes de um “evangelho” que não é o de Cristo conduzirão milhões de pessoas à perdição. Até os cristãos fiéis correrão o risco de ser enganados por um estilo de vida massificado pelo sistema (globalização do pensamento humanista, cético e hedonista) e serão apanhados de surpresa pela iminente volta do Senhor. Não é sábio tentar calcular a data do retorno de Jesus. É mais errôneo, porém, negligenciar esse evento fatal. A expectativa da volta de Cristo confere senso de urgência e dinâmica à missão evangélica em toda a terra. A parábola do “bom e mau servos” ensina como o filho de Deus deve viver sua vida cristã (45-51). 15 O contexto revela que “hipócrita” é aquele cuja vida prática não corresponde à sua alegada fidelidade a Cristo. A expressão


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garam suas candeias e saíram para encontrar-se com o noivo.1 2 Cinco delas eram sábias, mas outras cinco eram inconseqüentes. 3 As que eram inconseqüentes, ao pegarem suas candeias, não levaram óleo de reserva consigo. 4 Entretanto, as prudentes, levaram óleo em vasilhas, junto com suas candeias.2 5 O noivo demorou a chegar, e todas ficaram com sono e adormeceram. 6 À meia-noite, ouviu-se um grito: ‘Eis que vem o noivo! Saí ao seu encontro!’ 7 Então, todas as virgens acordaram e foram preparar suas candeias.3 8 As insensatas recorreram às sábias: ‘Dainos um pouco do vosso azeite, porque as nossas candeias estão se apagando’. 9 Porém as sábias responderam: ‘Não podemos, pois assim faltará tanto para nós quanto para vós outras! Ide, portanto, aos que o vendem e comprai-o’. 10 Mas, saindo elas para comprar, chegou o noivo. As virgens que estavam preparadas entraram com ele para o banquete de núpcias. E a porta foi fechada. 11 Mais tarde, todavia, chegaram as virgens imprudentes e clamaram: ‘Senhor! Senhor! Abre a porta para nós!’

MATEUS 24, 25

Contudo ele lhes respondeu: ‘Com certeza vos afirmo que não vos conheço’. 13 Portanto, vigiai, pois não sabeis o dia, tampouco a hora em que o Filho do homem chegará.4 12

O investimento dos talentos 14 Digo também que o Reino será como um senhor que, ao sair de viagem, convocou seus servos e confiou-lhes os seus bens. 15 A um deu cinco talentos, a outro, dois e a outro, um talento; a cada um conforme a sua capacidade pessoal. E, em seguida, partiu de viagem.5 16 O que havia recebido cinco talentos saiu imediatamente, investiu-os, e ganhou mais cinco. 17 Da mesma forma, o que recebera dois talentos ganhou outros dois. 18 Entretanto, o que tinha recebido um talento afastou-se, cavou um buraco na terra e escondeu o dinheiro que o seu senhor havia confiado aos seus cuidados. 19 Após um longo tempo, retornou o senhor daqueles servos e foi acertar contas com eles. 20 Então, o servo que recebera cinco talentos se aproximou do seu senhor e lhe

“ranger de dentes” só é usada em Mateus (8.12; 13.50; 22.13; 24.51; 25.30) e tem a ver com o profundo, doloroso e eterno arrependimento que os incrédulos e os falsos cristãos (hipócritas) sentirão a partir do Dia do Senhor. Capítulo 25 1 Havia duas fases nos casamentos judaicos típicos da época de Cristo. Na primeira, o noivo ia à casa da noiva e participava da cerimônia de entrega da noiva. Na outra fase, o noivo voltava e a levava para um grande banquete em sua casa. As virgens eram damas-de-honra e tinham o dever cerimonial de preparar a noiva para o encontro com o noivo. 2 Essas candeias eram grandes tochas, capazes de permanecer acesas ao ar livre, feitas com longas varas, com trapos enrolados numa das pontas, embebidos em azeite de oliva. Pequenas candeias de barro eram comumente usadas no interior das residências. 3 Quando o azeite era consumido pelo fogo cortavam-se as pontas chamuscadas dos trapos e adicionava-se mais óleo para um novo período médio de iluminação de 15 minutos. 4 Essa parábola é continuação da mensagem de Jesus sobre a necessidade do cristão estar sempre preparado e vigilante, pois a volta do Senhor é certa, repentina e iminente. Essa expectativa quanto ao glorioso retorno de Jesus confere ética, dinamismo e senso de urgência à evangelização e ao estilo de vida cristão. A mensagem de Cristo é também um forte apelo aos israelitas em todo o mundo, para que coloquem sua esperança no Noivo Eterno: O Senhor Jesus. Ele é o Messias prometido. A parábola das dez virgens, como é conhecido este trecho das Escrituras, não está ensinando que Cristo arrebatará os atentos e preparados espiritualmente e deixará para trás “crentes” distraídos ou negligentes. Se cinco virgens ficaram sem óleo (o Espírito) é porque nunca creram verdadeiramente no Senhor, pois todo o que crê – recebe o Espírito Santo – e será salvo (24.13; Jo 1.12; Hb 3.13-14). 5 Um talento correspondia à cerca de 35 quilos de prata pura, o equivalente a 6.000 denários (o denário, como já vimos, era uma moeda de prata e valia um dia de trabalho de um soldado romano). Deus concede, aos cristãos, fé e capacidades espirituais para, em primeiro lugar, compreenderem a pessoa e a obra do Seu Filho Jesus, e, em seguida, para servirem no Reino: testemunhando, anunciando a Salvação e cooperando com o Corpo de Cristo, a Igreja. Curiosamente, o uso atual da expressão portuguesa “talento”, significando o conjunto de dons, capacidades e habilidades de uma pessoa, originou-se com base nessa parábola (Lc 19.13). Jesus não está ensinando que o julgamento das pessoas em geral e dos cristãos em particular tem algo a ver com o esforço pessoal e o pleno uso dos dons e capacidades, pois o caminho da Salvação é bem diferente. O uso dos talentos é


MATEUS 25

entregou mais cinco talentos, informando: ‘O senhor me confiou cinco talentos; eis aqui mais cinco talentos que ganhei’. 21 Respondeu-lhe o senhor: ‘Muito bem, servo bom e fiel! Foste fiel no pouco, muito confiarei em tuas mãos para administrar. Entra e participa da alegria do teu senhor!’. 22 Assim também, aproximou-se o que recebera dois talentos e relatou: ‘Senhor, dois talentos me confiaste; trago-lhe mais dois talentos que ganhei’. 23 O senhor lhe disse: ‘Muito bem, servo bom e fiel! Foste fiel no pouco, muito confiarei em tuas mãos para administrar. Entra e participa da alegria do teu senhor!’. 24 Chegando, finalmente, o que tinha recebido apenas um talento, explicou: ‘Senhor, eu te conheço, sei que és um homem severo, que colhe onde não plantou e ajunta onde não semeou. 25 Por isso, tive receio e escondi no chão o teu talento. Aqui está, toma de volta o que te pertence’. 26 Sentenciou-lhe, porém, o senhor: ‘Servo mau e negligente! Sabias que colho onde não plantei e ajunto onde não semeei? 27 Então, por isso, ao menos devíeis ter investido meu talento com os banqueiros, para que quando eu retornasse, o recebesse de volta, mais os juros.6 28 Sendo assim, tirai dele o talento que lhe confiei e dai-o ao servo que agora está com dez talentos. 29 Pois a quem tem, mais lhe será confiado, e possuirá em abundância. Mas a

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quem não tem, até o que tem lhe será tirado. 30 Quanto ao servo inútil, lançai-o para fora, às trevas. Ali haverá muito pranto e ranger de dentes’.7 O juízo final 31 Quando o Filho do homem vier em sua glória, com todos os anjos, então, se assentará em seu trono na glória nos céus. 32 Todas as nações serão reunidas diante dele, e Ele irá separar umas das outras, como o pastor separa os bodes das ovelhas. 33 E posicionará as ovelhas à sua direita e os bodes à sua esquerda. 34 Então, dirá o Rei a todos que estiverem à sua direita:‘Vinde, abençoados de meu Pai! Recebei como herança o Reino, o qual vos foi preparado desde a fundação do mundo. 35 Pois tive fome, e me destes de comer, tive sede, e me destes de beber; fui estrangeiro, e vós me acolhestes. 36 Quando necessitei de roupas, vós me vestistes; estive enfermo, e vós me cuidastes; estive preso, e fostes visitar-me’. 37 Então, os justos desejarão saber: ‘Mas, Senhor! Quando foi que te encontramos com fome e te demos de comer? Ou com sede e te saciamos? 38 E quando te recebemos como estrangeiro e te hospedamos? Ou necessitado de roupas e te vestimos? 39 Ou ainda, quando estiveste doente ou encarcerado e fomos ver-te?’.

apenas uma conseqüência natural na vida diária de quem já foi contemplado, abraçou a fé em Jesus e agora vive a alegria da Salvação, mesmo em meio aos sofrimentos deste mundo. É um julgamento semelhante àquele pronunciado contra o convidado que comparece à festa eterna sem vestir-se da justificação (salvação) em Cristo (22.12-14). 6 A palavra “banqueiro” vem do grego trapeza (mesa), e ainda hoje é comum ver essa palavra nas fachadas das instituições financeiras na Grécia. Na época de Jesus, os “banqueiros” eram pessoas que ficavam sentadas atrás de pequenas mesas e trocavam dinheiro (21.12). Outra palavra interessante é “juro”, que tinha o sentido de “prole”, ou seja, os juros eram considerados “filhotes” do principal emprestado ou investido. 7 Os escravos foram libertos e elevados à posição de servos (mordomos), aos quais aquele senhor confiou todos os seus bens. O servo que não fez uso do talento concedido, agiu assim porque não gostava do seu senhor e desconfiava dele. Não queria trabalhar e se arriscar apenas para tornar o senhor mais rico. Preferiu a conveniência e a tranqüilidade de uma aparente isenção de responsabilidade. Os dons e talentos de Deus multiplicam-se quando os utilizamos, pois transformam nossas vidas e ficamos preparados para receber ainda mais da plenitude do Espírito Santo. O amor de Cristo em nós gera mais amor, a fé mais fé, o caráter mais caráter de Deus nos crentes, e a obediência à Palavra do Senhor produz uma fonte de virtudes que influencia todo o ambiente (2Pe 1.3-7).


61 40 Então o Rei, esclarecendo-lhes respon-

derá: ‘Com toda a certeza vos asseguro que, sempre que o fizestes para algum destes meus irmãos, mesmo que ao menor deles, a mim o fizestes’.8 41 Mas o Rei ordenará aos que estiverem à sua esquerda: ‘Malditos! Apartai-vos de mim. Ide para o fogo eterno, preparado para o Diabo e os seus anjos. 42 Porquanto tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e nada me destes de beber. 43 Sendo estrangeiro, não me hospedastes; estando necessitado de roupas, não me vestistes; encontrando-me enfermo e aprisionado, não fostes visitar-me’. 44 E eles também perguntarão: ‘Mas Senhor! Quando foi que te vimos com fome, sedento, estrangeiro, necessitado de roupas, doente ou preso e não te auxiliamos?’ 45 Então o Rei lhes sentenciará: ‘Com toda a certeza vos asseguro que, sempre que o deixastes de fazer para algum destes meus irmãos, mesmo que ao menor deles, a mim o deixastes de fazer’. 46 Sendo assim, estes irão para o sofrimento eterno, porém os justos, para a vida eterna”.

MATEUS 25, 26

A trama para matar Jesus (Mc 14.3-9; Lc 22.1-2; Jo 11.45-53)

26

Tendo Jesus concluído esses ensinamentos, declarou aos seus discípulos: 2 “Como sabeis, daqui a dois dias, a Páscoa será celebrada; e o Filho do homem será entregue para ser crucificado”.1 3 Enquanto isso, os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo se reuniram no palácio do sumo sacerdote, cujo nome era Caifás.2 4 E fizeram um acordo para prender Jesus por meio de traição e matá-lo. 5 Porém recomendaram: “Que isso não seja feito durante a festa, para que não ocorra grande alvoroço entre o povo”. Jesus é ungido para o sacrifício (Mc 14.3-9; Jo 12.1-8)

E aconteceu que, estando Jesus em Betânia, na casa de Simão, o leproso, 7 chegou próximo dele uma mulher portando um frasco de alabastro, repleto de perfume caríssimo, e lhe derramou sobre a cabeça, enquanto ele estava reclinado à mesa. 8 Diante daquela cena, os discípulos se 6

8 Jesus ensina que o grande pecado do ser humano é a falta do exercício do amor verdadeiro: primeiro em relação ao seu Criador e depois para com seu semelhante e próximo (Tg 4.1-17). Há duas interpretações escatológicas mais aceitas, sobre esse aspecto do Julgamento: 1) Vai acontecer no início de um reino milenar na terra e definirá quem terá o direito de fazer parte do Reino (vv.31,34), com base no tratamento dispensado ao povo israelense (“meus irmãos, mesmo que ao menor deles” – vv.40-46) no período anterior à Grande Tribulação (vv.35-40, 42-45). 2) Para muitos estudiosos, o Julgamento ocorrerá diante do Trono Branco no final dos tempos (Ap 20.11-15). Seu objetivo será identificar as pessoas de todas as épocas, culturas, povos e nações que poderão ingressar no reino eterno dos salvos e aqueles que serão condenados a viver em punição eterna no inferno (vv.34,36). A base desse julgamento definitivo será a atitude de amor com a qual, aqueles que afirmam crer em Deus, trataram seus irmãos e semelhantes (1Jo 3.11-24). Capítulo 26 1 Jesus deixou o templo para nunca mais voltar a ele (24.1). Com a saída de Jesus o templo perdeu sua característica de habitação de Deus. Em frente ao templo, contemplando Jerusalém, Jesus prediz o futuro e seu glorioso retorno. Depois de um período de grande atividade, chega o momento do silêncio e do sacrifício maior. Os Evangelhos não relatam quase nada sobre a juventude de Jesus. Entretanto, narram a história do martírio e do holocausto do Salvador, praticamente, hora a hora. A Paixão (o sacrifício) e a ressurreição, que inicialmente eram fatos enigmáticos e incompreensíveis para os apóstolos, tornam-se agora o significado absoluto de suas vidas e obras. A Paixão de Cristo corresponde à Páscoa dos judeus (em hebraico Pêssach que significa “passar por cima” ou “passar ao lado”): celebração do livramento do povo hebreu do jugo egípcio ocorrido há mais de 35 séculos (Êx 12.13,23,27). Os cordeiros (simbolização de Jesus Cristo) e os cabritos eram sacrificados, em penitência (arrependimento) pelos pecados cometidos, no dia 14 de Nisã (mês judaico por volta de março e abril). A refeição da Páscoa era comida no fim dessa mesma tarde. Como o dia judaico começava após o pôr-do-sol do dia anterior, a Festa da Páscoa foi celebrada no dia 15 de Nisã, uma quarta-feira. Em seguida ocorria a Festa dos Pães sem Fermento (ou Pães Asmos), durava mais sete dias, e fazia parte das comemorações da Páscoa (Êx 12.15-20; 23.15; 34.18; Dt 16.1-8). 2 Os chefes dos sacerdotes, chamados de “principais” e os anciãos (sábios e líderes religiosos do povo), reuniram-se como Sinédrio (Supremo Tribunal dos Judeus) no palácio de Caifás, saduceu, eleito sumo sacerdote (de 18 a 36 d.C), genro e sucessor de Anás (Jo 18.13), que ocupou o cargo entre os anos de 6 a 15 d.C.


MATEUS 26

indignaram e comentaram: “Por que este desperdício? 9 Porquanto esse perfume poderia ser vendido por alto preço e o dinheiro dado aos pobres!”. 10 Percebendo isso, Jesus repreendeu-os: “Por que molestais esta mulher? Ela praticou uma boa ação para comigo. 11 Pois, quanto aos pobres, sempre os tendes convosco, mas a mim nem sempre me tereis. 12 Ao derramar sobre o meu corpo esse bálsamo, ela o fez como que preparandome para o sepultamento.3 13 Com toda a certeza vos afirmo: Em todos os lugares do mundo, onde este evangelho for pregado, igualmente será contado o que essa mulher realizou, como um memorial a ela”. O pacto da traição (Mc 14.10-11; Lc 22.3-6)

14 E aconteceu que um dos Doze, chama-

do Judas Iscariotes, foi ao encontro dos chefes dos sacerdotes e lhes propôs: 15 “O que me dareis caso eu vo-lo entre-

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gue?”. E lhe pagaram o preço: trinta moedas de prata. 16 E, desse momento em diante, procurava Judas uma ocasião apropriada para entregar Jesus. A Ceia do Senhor (Mc 14.12-26; Lc 22.7-23; Jo 13.18-30)

No primeiro dia da festa dos Pães Asmos, os discípulos aproximaram-se de Jesus e o consultaram: “Onde desejas que preparemos a refeição da Páscoa?”. 18 Ao que Jesus os orientou: “Ide à cidade, procurai um certo homem e falai a ele: ‘O Mestre manda dizer-te: É chegada a minha hora. Desejo celebrar a Páscoa em tua casa, juntamente com meus discípulos.’” 19 Os discípulos fizeram como Jesus lhes havia instruído e prepararam a Páscoa.4 17

Jesus revela o traidor (Mc 14.17-21; Lc 22.21-23; Jo 13.21-30)

Ao pôr-do-sol, estava Jesus reclinado, próximo à mesa, com os Doze.5 20

3 Era costume, no antigo Oriente, ungir a cabeça dos convidados em dias festivos, que praticamente deitavam-se sobre um tipo de almofada ou divã, ao redor de uma mesa bem mais baixa do que as nossas. Com o braço esquerdo se apoiavam sobre as almofadas e com o direito se serviam dos alimentos. Davi escreve um poema em louvor a Yahweh (O nome impronunciável de Deus, em hebraico: ), no qual descreve a felicidade que há na comunhão com Deus usando a metáfora de uma ceia preparada pelo Senhor (Sl 23.5). Jesus foi visitar alguns amigos em Betânia, uma aldeia que distava cerca de 3 km de Jerusalém. O anfitrião, Simão, fora curado de lepra por Jesus (Mc 14.3). Lázaro estava presente, Marta servia e Maria, irmã de Lázaro e Marta, assume a responsabilidade da hospitalidade amorosa e reverente (Lc 7.46), mas realiza o ato tradicional à sua maneira. Um escravo ungiria a cabeça do hóspede do seu senhor com óleo e lavaria seus pés com água. Maria ofereceu a mais preciosa e cara essência de plantas (nardo, palavra persa nard que em sânscrito nalàdá significa “óleo perfumado”) importada da Índia (em grego Myrón). Marcos (Mc 14.5) informa que o valor daquele alabastro (frasco de mármore lacrado e com gargalo longo, o qual era quebrado no instante do uso, e cujo conteúdo devia ser todo consumido em uma só aplicação para não perder suas propriedades químicas e aromáticas) era de 300 denários, o que correspondia ao salário anual de um trabalhador ou soldado romano (20.2; Jo 6.7). Maria ungiu a cabeça e os pés de Jesus (Mc 14.3-9; Jo 12.1-8) realizando a cerimônia completa de honra e hospitalidade com a qual os judeus deveriam acolher seus irmãos e amigos, numa demonstração de temor a Deus, humildade e amor ao próximo, princípios básicos da Torá (os primeiros cinco livros da Bíblia, a Lei de Deus) e dos ensinos de Jesus (Lc 7.44; Jo 13.1-17). Considerando que Judas traiu Jesus por cerca de 120 denários, é fácil imaginar sua irritação ao ver a atitude de Maria em relação unicamente à pessoa de Cristo (Jo 12.4-5). Na época da Páscoa era um costume judaico presentear os pobres. Jesus aproveita para esclarecer os discípulos e amigos quanto à proximidade do seu martírio, salientando que Maria havia compreendido verdadeiramente quem é Deus, qual o sentido da adoração (que é consagrar a Deus os nossos mais caros afetos), e que estava cuidando da preparação (somente os nobres tinham seu corpo embalsamado ou mumificado) do seu corpo para o sepultamento. Jesus ainda faz uma alusão à Lei e afirma que a ajuda e o acolhimento aos mais necessitados é tarefa contínua do povo de Deus todos os dias do ano (Dt 15.11). Jesus ergue um memorial a Maria, uma pessoa desconhecida na história, mas cujo ato inspira gerações e gerações em todo o mundo, a ter uma visão correta e prática do que significa amar a Deus. 4 Os discípulos prepararam a Ceia conforme a orientação de Jesus e as prescrições da Lei (Êx 12.1-11) e tiveram de imolar o cordeiro pascal. Jesus celebrou sua última Páscoa judaica com seus discípulos na véspera da data oficial, pois no dia do feriado religioso e nacional que marca a Páscoa, Ele mesmo estaria sendo retirado, morto, da Cruz. O Cordeiro Pascal Imolado para a Salvação de todo aquele que nele crer (Jo 1.12). 5 É interessante notar a ordem dos acontecimentos daquela noite: a refeição pascal; o ato de lavar os pés dos discípulos (Jo


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E, durante a refeição, Jesus revelou: “Com toda a certeza vos afirmo que um dentre vós me trairá”. 22 Essa declaração consternou a todos e começaram a indagar, um após outro: “Senhor! Porventura, serei eu?”. 23 Indicou-lhes Jesus: “Aquele que comeu juntamente comigo, do mesmo prato, este é o que vai me trair. 24 O Filho do homem vai, como de fato está escrito a respeito dele. Mas ai daquele que trai o Filho do homem! Melhor lhe seria jamais haver nascido”. 25 Então Judas, que haveria de consumar a traição, disse: “Acaso, seria eu, meu Mestre?”. E Jesus afirmou-lhe: “Sim, tu o declaraste!”.6 21

A Ceia do Senhor (Mc 14.22-26; Lc 22.14-20; 1Co 11.23-25)

Enquanto comiam, Jesus pegou um pão, deu graças, quebrou-o, e o deu aos seus discípulos, recomendando: “Tomai, comei; isto é o meu corpo”. 27 Em seguida tomou um cálice, deu graças e o entregou aos seus discípulos, proclamando: “Bebei dele todos vós. 28 Pois isto é o meu sangue da aliança, derramado em benefício de muitos, para remissão de pecados. 26

MATEUS 26

E vos afirmo que, de agora em diante, não mais tomarei deste fruto da videira até aquele dia em que beberei o novo vinho, convosco, no Reino de meu Pai”. 30 E assim, após terem cantado um hino de louvor, saíram para o monte das Oliveiras.7 29

Jesus prediz a traição de Pedro (Mc 14.27-31; Lc 22.31-34; Jo 13.36-38)

Então Jesus lhes revelou: “Ainda esta noite, todos vós me abandonareis. Pois assim está escrito: ‘Ferirei o pastor, e as ovelhas do rebanho serão afugentadas’.8 32 Todavia, depois de ressuscitar, seguirei adiante de vós rumo à Galiléia”. 33 Respondeu-lhe Pedro: “Ainda que venhas a ser motivo de escândalo para todos, eu jamais te abandonarei!”. 34 Replicou-lhe Jesus: “Com certeza te asseguro que, ainda nesta noite, antes mesmo que o galo cante, três vezes tu me negarás”. 35 Então Pedro lhe declarou: “Mesmo que seja necessário que eu morra junto a ti, de modo algum te negarei!”. E todos os discípulos fizeram a mesma afirmação. 31

Jesus ora no Getsêmani (Mc 14.32-42; Lc 22.39-46) 36

Seguiu Jesus com seus discípulos e

13.1-20); a revelação de Judas como o traidor (Mt 26.21-25); a deserção de Judas (Jo 13.30); a instituição da Ceia do Senhor (Mt 26.26-29); os discursos no Cenáculo e a caminho do Getsêmani (Jo 14, 15 e 16); a oração sacerdotal de Jesus (Jo 17); a angústia de Cristo no Getsêmani (Mt 26.36-46); o desfecho da traição e a prisão de Jesus (Mt 26.47-56). 6 Jesus não foi vítima involuntária das artimanhas do Diabo nem da inveja ou da avareza dos homens. Jesus não foi surpreendido pelos ardis do inferno nem pelas fraquezas da humanidade. Ele, por sua livre e espontânea vontade, se ofereceu em obediência ao Pai e em sacrifício (holocausto) para resgate de todo o mundo. Jesus respondeu, decerto, a Judas em voz baixa, para que os demais discípulos não ouvissem e viessem a impedir o intento do traidor. 7 O NT apresenta quatro relatos sobre a Ceia do Senhor (Mt 26.26-28; Mc 14.22-24; Lc 22.19,20 e em 1 Co 11.23-25). Lucas e Paulo registraram a ordem de Jesus para que a Igreja continuasse a celebrar a Ceia, como um memorial, até a Sua volta iminente. Jesus escolheu o pão sem fermento e o vinho comum para serem apenas símbolos (metáforas físicas) do que Ele é para os crentes (todos os que crêem em Cristo) e do seu ato de sacrifício, para pagar o preço do pecado de todo ser humano. Por isso, todos os seguidores de Jesus (discípulos) são convidados e devem participar da Ceia do Senhor todas as vezes em que for celebrada, comendo do pão e tomando do vinho; com consciência pura diante de Deus (1 Co 11.28), louvor e esperança no coração. A palavra “eucaristia” vem de um termo grego que significa “dar graças”. A primeira “Aliança” foi estabelecida pela aspersão do sangue de animais sacrificados (Êx 24.8; Jr 31.31; Zc 9.11; Hb 9.19-28). A nova e derradeira “Aliança” foi instaurada pelo próprio sangue do Filho de Deus, vertido sobre a verga e umbral da Cruz (Hb 8.7-13). Depois de cearem, Jesus e seus discípulos cantaram um hino tradicional de louvor a Deus, baseado nos salmos 115 a 118, chamado em hebraico Hallel (Louvor) da Páscoa. Em seguida partiram para o Getsêmani (nome que significa em hebraico “prensa de azeite”), espécie de grande pomar localizado na encosta inferior do monte das Oliveiras, também chamado de “Jardim das Oliveiras”, um dos locais preferidos de Jesus para oração e meditação (Lc 22.39; Jo 18.2) e onde se esmagava o fruto das oliveiras para a produção de azeite. 8 Todos os seguidores de Jesus, inclusive os discípulos mais chegados, abandonariam o Senhor antes do final daquela noite (verso 56) conforme já havia sido profetizado (Zc 13.7).


MATEUS 26

chegando a um lugar chamado Getsêmani disse-lhes: “Assentai-vos por aqui, enquanto vou ali para orar”. 37 Levou consigo a Pedro e aos dois filhos de Zebedeu, e começando a entristecerse ficou profundamente angustiado. 38 Então compartilhou com eles dizendo: “A minha alma está sofrendo dor extrema, uma tristeza mortal. Permanecei aqui e vigiai junto a mim”. 39 Seguindo um pouco mais adiante, prostrou-se com o rosto em terra e orou: “Ó meu Pai, se possível for, passa de mim este cálice! Contudo, não seja como Eu desejo, mas sim como Tu queres”. 40 Mas, ao retornar à presença dos seus discípulos os encontrou dormindo e questionou a Pedro: “E então? Não pudestes vigiar comigo durante uma só hora? 41 Vigiai e orai, para não cairdes em tentação. O espírito, com certeza, está preparado, mas a carne é fraca”.9 42 E afastando-se uma vez mais, orou dizendo: “Ó meu Pai, se este cálice não puder passar de mim sem que eu o beba, seja feita a tua vontade”. 43 Quando voltou, entretanto, surpreendeu novamente seus discípulos dormindo, pois não suportaram os olhos pesados de sono.

64 44 Então, retirou-se novamente, e foi orar

pela terceira vez, proferindo as mesmas palavras. 45 Passado algum tempo, voltou aos discípulos e indagou: “Ainda dormis e descansais? Eis que a hora é chegada! Agora o Filho do homem está sendo entregue nas mãos de pecadores. 46 Levantai-vos e sigamos! Eis que meu traidor está se aproximando”.10 Jesus é traído e preso (Mc 14.43-50; Lc 22.47-53; Jo 18.1-11)

E, estando Ele ainda a falar, eis que chegou Judas, um dos Doze, e trazia consigo uma grande multidão armada de espadas e porretes, vinda da parte dos chefes dos sacerdotes e dos líderes religiosos do povo.11 48 Mas o traidor havia combinado um sinal com eles, informando-lhes: “Aquele a quem eu saudar com um beijo, esse é quem procurais, prendei-o!”. 49 Então, aproximando-se rapidamente de Jesus, disse-lhe Judas: “Eu te saúdo, ó Mestre!”. E lhe deu um beijo. 50 Jesus, contudo, lhe perguntou: “Amigo, para que vieste?”. os homens avaçaram sobre Jesust?”. No mesmo instante sobre Jesus e o prenderam.12 47

9 Este é um dos trechos bíblicos onde a completa humanidade de Jesus é retratada com mais evidência (Hb 5.7). Jesus demonstra que o verdadeiro caráter de uma pessoa se revela nos momentos mais difíceis e dramáticos. Aprendemos também a aceitar que haverá ocasiões em nossa vida em que teremos de enfrentar o sofrimento sem o apoio, conforto ou companhia dos amigos. O Senhor, porém, estará sempre presente. Por isso Jesus pede que os discípulos vigiem com Ele. Não apenas para seu consolo, posto que se afasta dos discípulos à distância de um arremesso de pedra (como se relata nos originais), mas para que eles pudessem se preparar espiritualmente para a grande batalha. Jesus clama por seu Abba (em aramaico “pai querido”). Experimenta a fraqueza humana ao extremo, mas sem pecar. Cita Sl 43.5. Busca a orientação e o consolo do Pai. Sente quão terrível é ficar sem o amparo de Deus, ainda que por instantes, e assume sobre si todo o pecado que a raça humana deveria pagar por sua infidelidade para com Deus, desde os primórdios (Gn 2.15-17; 3.22-24; 4.1-8). O ato de obediência amorosa e aceitação espontânea de Jesus no Getsêmani corresponde à tentação no deserto, quando Jesus rejeitou governar o mundo sem Deus. Agora Ele concorda em morrer por nós com Deus. Por isso, sua morte e ressurreição foram ainda mais relevantes que sua vida de testemunho e milagres, ao contrário de todos os líderes que a terra já conheceu (1Co 2.2). Contudo, o Pai não responde. O Filho, em agonia, insiste por três vezes (Lc 22.44). Deus fica em silêncio na imensidão da noite; os amigos dormem. Jesus compreende que a resposta às suas aflições já havia sido dada (Hb 5.8; 12.2). O Pai tinha de permitir o cumprimento da história. Jesus se levanta da batalha, liberto dos seus temores e aflições; consciente do alto preço a pagar, mas resoluto quanto à sua missão (Lc 22.22; Hb 9.14). 10 A frase de Jesus, nos melhores originais, indica não que ele tenha procurado fugir, mas, sim, que partiu e convocou seus discípulos para se encontrarem com os oficiais que o procuravam. 11 Judas organiza sua emboscada contra Jesus acompanhado dos mais importantes sacerdotes, mestres da Lei e líderes religiosos do povo. E cerca de 500 policiais armados e serventes do Sinédrio (Tribunal), destinados a manter a ordem pública; soldados especiais da corte romana (Jo 18.3), vindos da fortaleza de Antônia, equipados com armas e lanternas (apesar da forte lua cheia da época), pois conheciam e temiam os poderes sobrenaturais de Jesus, embora Ele nunca os tenha usado em benefício próprio. 12 A palavra grega usada para descrever o beijo de Judas é kataphilein, o mesmo tipo de saudação calorosa com que o pai


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Eis que um dos que estavam com Jesus, estendendo a mão, puxou a espada e ferindo o servo do sumo sacerdote, decepou-lhe uma das orelhas. 52 Mas Jesus lhe ordenou: “Embainha a tua espada; pois todos os que lançam mão da espada pela espada morrerão! 53 Ou imaginas tu que Eu, neste momento, não poderia orar ao meu Pai e Ele colocaria à minha disposição mais de doze legiões de anjos? 54 Entretanto, como então se cumpririam as Escrituras, que afirmam que tudo deve acontecer desta maneira?”. 55 E naquele mesmo instante Jesus se dirige às multidões indagando-lhes: “Lidero Eu algum tipo de rebelião, para que venham contra mim com espadas e porretes e me prendam? Pois todos os dias estive ensinando no templo e vós não me prendestes! 56 Todavia, esses fatos todos ocorreram em cumprimento às Escrituras dos profetas”. E assim, todos os discípulos abandonaram a Jesus e fugiram.13 51

Jesus diante do tribunal (Mc 14.53-65; Lc 22.63-71; Jo 18.12-14, 19-24)

Então, os que prenderam Jesus o conduziram à presença de Caifás, o sumo sacerdote, em cuja residência estavam reunidos os mestres da lei e os anciãos. 57

MATEUS 26

58 Contudo Pedro seguiu a Jesus de longe

até o pátio do sumo sacerdote, entrou e sentou-se junto aos guardas, para sondar qual seria o fim daquela ocorrência. 59 Mas os líderes dos sacerdotes e todo o Sinédrio estavam tentando suscitar um falso testemunho contra Jesus, para que tivessem o direito de condená-lo à morte.14 60 Todavia, nada encontraram, apesar de se terem apresentado vários depoimentos inverídicos. Ao final, entretanto, compareceram duas testemunhas que alegaram: 61 “Este homem afirmou: ‘Tenho poder para destruir o santuário de Deus e reconstruí-lo em três dias’”.15 62 Então o sumo sacerdote levantou-se e interrogou a Jesus: “Não tens o que responder a estes que depõem contra ti?”. 63 Mas Jesus manteve-se em silêncio. Diante do que o sumo sacerdote lhe intimou: “Eu te coloco sob juramento diante do Deus vivo e exijo que nos digas se tu és o Cristo, o Filho de Deus!”.16 64 “Tu mesmo o declaraste”, afirmoulhe Jesus. “Contudo, Eu revelo a todos vós: Chegará o dia em que vereis o Filho do homem assentado à direita do Todo-Poderoso, vindo sobre as nuvens do céu!”.

recebeu o filho pródigo (Lc 15.20). Apesar de Judas estar cometendo uma ofensa terrível, Jesus consegue ver na pessoa de Judas a figura do ser humano distante de Deus: avarento, invejoso, arrogante, iludido, tresloucado e perdido; mas, ainda assim, alguém a quem Jesus amava e considerava como membro da sua família de discípulos. Da mesma maneira o Senhor amou os seus próprios algozes (Lc 23.34) e pela salvação de todos nós se entregou (Lc 15.1-2; Jo 3.16). 13 O discípulo amado, João, escrevendo seu Evangelho, após a morte dos protagonistas, esclarece que foi Pedro quem, num golpe de espada, cortou fora a orelha de Malco, um dos servos do sumo sacerdote (Jo 18.10). Jesus declara que poderia receber de Deus uma ajuda imediata, com mais de 72.000 anjos (considerando que, naquela época, uma legião era formada por até 6.000 soldados). Lembremos que apenas um anjo foi suficiente para ferir todo o Egito (Êx 12.23-27) e libertar o povo de Israel do cativeiro. Jesus estava consciente de que a vontade do Pai deveria ser cumprida em todos os detalhes (Zc 13.7). Aceitou tomar o cálice do sacrifício histórico e servir de holocausto para a libertação do crente (toda pessoa que crê em Sua obra vicária e Palavra). 14 O julgamento de Jesus foi injusto e ilícito por vários motivos, especialmente por ter ocorrido durante a noite e com testemunhas e acusações forjadas, contrariando as leis judaicas (Dt 19.15) e romanas da época. Jesus foi levado primeiro para uma audiência perante Anás, ex-sumo sacerdote (Jo 18.12-14, 19.23); depois para julgamento diante de Caifás, sumo sacerdote em exercício e genro de Anás, e do Supremo Concílio Judaico, chamado de Sinédrio (26.57-68; 27.1). Em seguida, levado ao julgamento romano, diante de Pilatos (Mc 15.2-5), depois levado à presença de Herodes Antipas (Lc 23.6-12), retornando à presença de Pilatos (Mc 15.6-15) para conclusão e condenação final. 15 Obrigar um réu a declarar algo sob juramento diante de Deus era uma atitude ilícita, claramente expressa na jurisprudência israelita, que não tolerava qualquer tipo de tortura ou coação moral e religiosa. 16 Jesus jamais fez tal afirmação. As falsas testemunhas distorceram as palavras de Jesus (Jo 2.19), para forjar uma acusação de blasfêmia, cuja pena era a morte.


MATEUS 26, 27 65 Diante

disso, o sumo sacerdote rasgou as suas vestes denunciando: “Ele blasfemou! Por que necessitamos de outras testemunhas? Eis que acabais de ouvir tal blasfêmia!”.17 66 “Que vos parece?”. Responderam eles: “Culpado e merecedor de morte é!”. 67 Neste momento, alguns cuspiram em seu rosto e o esmurravam, enquanto outros lhe desferiam tapas, vociferando: 68 “Profetiza-nos, pois, ó Cristo, quem é que te bateu?”.18 Quando Pedro negou a Jesus (Mc 14.66-72; Lc 22.54-62; Jo 18.15-18, 25-27)

69 Pedro encontrava-se assentado do lado

de fora da casa, no pátio, quando uma criada, aproximando-se dele, afirmou: “Tu também estavas com Jesus, o galileu!”. 70 Ele, entretanto, negou a Jesus perante todos os presentes, declarando: “Não sei do que falas.”. 71 E, saindo em direção à entrada do pátio, foi ele reconhecido por outra criada, a qual o denunciou a todos que ali se achavam, exclamando: “Este homem estava com Jesus, o Nazareno!”. 72 Mas Pedro, sob juramento, o negou uma vez mais, afirmando: “Não conheço tal indivíduo”.. 73 Algum tempo mais tarde, os que estavam ao redor aproximaram-se de Pedro e o acusaram: “Com toda a certeza és igualmente um deles, porquanto o teu modo de falar o denuncia”.19

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Então, ele começou a jurar e a pedir a Deus que o amaldiçoasse caso não estivesse dizendo a verdade, e exclamou: “Não conheço esse homem!”. No mesmo instante um galo cantou. 75 E naquele momento, Pedro se lembrou da palavra de Jesus que lhe advertira: “Antes que o galo cante, tu me negarás três vezes.” E, deixando aquele lugar, chorou amargamente.20 74

Jesus é levado a Pilatos (Mc 15.1; Lc 23.1-2; Jo 18.28-32)

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Assim que o dia amanheceu, todos os chefes dos sacerdotes, e os líderes religiosos, anciãos do povo, conspiraram para condenar Jesus à morte.1 2 Então, amarrando-o, levaram-no e o entregaram a Pilatos, o governador.2 Judas com remorso suicida-se! 3 E sucedeu que Judas, seu traidor, ao ver que Jesus havia sido condenado, sentiu terrível remorso e procurou devolver aos chefes dos sacerdotes e aos anciãos as trinta moedas de prata. 4 E declarou: “Pequei, pois traí sangue inocente”. Mas eles alegaram: “O que temos a ver com isso? Esta é tua questão!”. 5 Judas atirou então as moedas de prata dentro do templo e, abandonando aquele lugar, foi e enforcou-se. 6 Entretanto, os chefes dos sacerdotes ajuntaram as moedas e comentaram: “É

17 O sumo sacerdote era proibido pela lei de agir dessa maneira e com tamanha força emocional (Lv 10.6); mas, para caracterizar seu horror diante do suposto pecado de infâmia e jogar o público presente contra Jesus, ele se permitiu o chamado “ato extremo”. 18 Marcos informa que vendaram os olhos de Jesus (Mc 14.65), o que explica a provocação em tom de zombaria. 19 Pedro, como Jesus, tinha um sotaque indiscutivelmente galileu, facilmente identificado pelos naturais de Jerusalém. 20 A seqüência de erros cometidos por Pedro tem muito a nos ensinar: 1) Demasiada autoconfiança e falta de humildade (v.33). 2) Desobediência ao pedido de Jesus para dedicar-se à vigilância e oração (vv.40-44). Esquecimento quanto às advertências e conselhos de Jesus (v.75; conforme v.34). Conclusão: grandes quedas na vida cristã são conseqüência da prática de pequenos erros despercebidos ou tratados com displicência. Capítulo 27 1 Como a Lei não permitia que o Sinédrio (Supremo Tribunal dos Judeus) tivesse reuniões juridicamente válidas, durante a noite, formou-se um outro conselho logo ao nascer do dia com o propósito de oficializar a acusação de “traição” perante a autoridade civil (Lc 23.1-14), mais incriminadora para os romanos do que “blasfêmia” para os juízes judeus; e assim, levar Jesus à sentença de morte. 2 O Sinédrio tinha sido destituído pelo governo romano do seu poder de condenar qualquer cidadão à pena de morte. Por esse motivo, Jesus só poderia ser executado por ordem expressa de Pilatos, o governador romano da Judéia (26 a 36 d.C.). Sua residência oficial ficava em Cesaréia, no litoral do Mediterrâneo. Quando visitava Jerusalém, especialmente nas festas nacionais, para garantir a ordem e ostentar o domínio de Roma, hospedava-se no deslumbrante palácio erguido por Herodes, o Grande, localizado a oeste do Templo, onde presidiu o julgamento romano de Jesus.


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contra a lei depositarmos este dinheiro no cofre das ofertas, pois foi obtido a preço de sangue”. 7 Mas concordaram em usar aquelas moedas de prata para comprar o Campo do Oleiro, e formar um cemitério para estrangeiros. 8 Por esse motivo ele se chama Campo de Sangue até estes dias. 9 E assim se cumpriu o que fora anunciado pelo profeta Jeremias: “Então eles tomaram as trinta moedas de prata, o valor que lhe atribuíram os filhos de Israel.3 10 E as usaram para comprar o Campo do Oleiro, assim como o Senhor me havia indicado”. Pilatos lava as mãos (Mc 15.1-15; Lc 23.1-5, 13-25; Jo 18.33-19.16)

Jesus foi conduzido à presença do governador; e este o interrogou: “És tu o rei dos judeus?”. Afirmou-lhe Jesus: “Tu o dizes”.4 12 Então, passou a ser acusado pelos chefes dos sacerdotes e pelos anciãos, mas Ele nada respondeu. 13 Foi quando lhe questionou Pilatos: “Não ouves a acusação que todos levantam contra Ti?” 14 Jesus, entretanto, mantinha-se em absoluto silêncio; e, por isso, ficou o governador fortemente impressionado. 15 Contudo, por ocasião da festa, era cos11

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tume do governador dar liberdade a um prisioneiro escolhido pelo povo. 16 Detinham eles, naqueles dias, um criminoso muito conhecido de todos, chamado Barrabás. 17 Então, Pilatos dirigiu-se à multidão que ali se havia reunido e lhes propôs: “A quem desejais que eu vos solte, a Barrabás ou a este Jesus, que é chamado de Messias?”. 18 Isso porque tinha conhecimento de que o haviam entregado por inveja. 19 E aconteceu que estando Pilatos sentado no trono do tribunal, sua esposa lhe enviou a seguinte mensagem: “Não faças nada contra este homem inocente; pois hoje, em sonho, muitas coisas sofri por causa dele”.5 20 Todavia, os chefes dos sacerdotes e os anciãos influenciaram a multidão para exigir o livramento de Barrabás e a execução de Jesus. 21 Então, o governador entregou à multidão o dilema: “Qual dos dois homens quereis que eu vos deixe livre?” Exclamaram eles: “Barrabás!”. 22 Pilatos ainda questionou-lhes: “Se assim é, que farei de Jesus, que é chamado de Messias?” Bradaram todos: “Crucifica-o!”. 23 Outra vez insta Pilatos: “Por quê? Que crime cometeu este homem?”. Apesar de tudo, a multidão esbravejava ainda mais furiosa: “Crucifica-o!”.

3 Lucas (At 1.18) informa que Judas comprou um terreno argiloso (Campo de Sangue ou Vale da Matança de Jr 19.1-13 com Zc 11.12,13 e Jr 18.2-12 com Jr 32.6-9), pois pela lei judaica considerava-se a aquisição em nome da pessoa da qual provinha o dinheiro, mesmo no caso de falecimento. Enforcou-se e foi empalado (suplício persa usado algumas vezes pelos exércitos israelenses, Gn 40.19; Et 2.23, e que consistia em espetar o condenado em uma estaca, pelo ânus, deixando-o assim até morrer). Quando seu corpo caiu apodrecido sobre a terra, partiu-se ao meio. Mateus faz alusão a dois textos do AT para revelar o cumprimento desta terrível profecia (Jr 32.6-9 e Zc 11.12-13). Era comum citar-se o profeta maior quando se combinavam seus escritos com profetas menores (assim como Marcos 1,2,3 cita Ml 3.1 e Is 40.3, mas atribui todo o texto a Isaías). Judas sempre teve olhos somente para si mesmo e seus interesses. Por isso, em vez de chorar e se arrepender como Pedro, não consegue tirar os olhos de si mesmo e do seu pecado e só viu a morte como solução. Exatamente o que o Diabo espera que todo ser humano faça. 4 Flávio Josefo, historiador judeu que viveu em Roma entre os séculos I e II d.C.; narra vários atos de impiedade e falta de sabedoria de Pilatos, cujo principal registro na história está ligado exclusivamente à sua atuação na condenação de Jesus. Pilatos desviava fundos do templo, massacrou alguns samaritanos sem um julgamento justo, foi deposto pelos romanos e suicidou-se entre os anos 31 e 41d.C. 5 Pilatos era muito supersticioso e pesou-lhe o sonho de sua esposa pagã. Além disso, o nome “Barrabás” em aramaico significa “filho do pai” e Jesus era conhecido como “Filho do Pai” em relação a Deus. Pilatos percebeu a divindade de Jesus (Jo 19.11-12). Tentou aproveitar a tradição do indulto de Páscoa para influenciar a multidão a pedir a libertação de Jesus. Mas o povo, atiçado pelos sacerdotes e anciãos, sedento pela volta do bandido zelote (Mc 15.7,27; Jo 18.40) às suas atividades


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Percebendo Pilatos que não conseguia demover o povo, mas, ao contrário, um princípio de tumulto já era visível, ordenou que lhe trouxessem água, lavou as mãos diante da multidão e exclamou: “Estou inocente do sangue deste homem justo. Esta é uma questão vossa!”. 25 E todo o povo respondeu: “Caia sobre nossas cabeças o seu sangue, e sobre nossos filhos!”.”6 26 Diante disso, Pilatos soltou-lhes Barrabás, mandou que Jesus fosse flagelado e o entregou para ser crucificado.7

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Jesus é humilhado e agredido

A crucificação do Rei

(Mc 15.16-20)

(Mc 15.22-32; Lc 23.32; Jo 19.17-24)

E sucedeu que os soldados do governador conduziram Jesus ao Pretório e agruparam toda a tropa ao redor dele.8

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Despojaram-no de suas vestes e o cobriram com um manto vermelho vivo. 29 Trançaram uma coroa de espinhos e a forçaram sobre sua cabeça. Puseram em sua mão direita um caniço e, ajoelhandose diante dele, escarneciam exclamando: “Salve! Salve! Ó Rei dos Judeus!”. 30 Cuspiram nele e, tirando o caniço de sua mão, espancavam-lhe com ele a cabeça. 31 Depois de haverem zombado dele, despiram-lhe o manto e o vestiram com suas próprias roupas. Em seguida, o levaram para ser crucificado.

Assim que saíram, encontraram um homem da cidade de Cirene, chamado Simão, e o obrigaram a carregar a cruz.9

subversivas contra Roma, rejeita o “Filho de Deus” e aclama o “filho do homem pecador”. A humanidade, narcisista e hedonista, tende a ignorar o verdadeiro Deus e seus profetas e se entrega nas mãos de sua própria imagem e caráter, de um seu semelhante induzido pelo Diabo. 6 Pilatos, de sua cátedra (trono, cadeira, estrado) de juiz, evoca uma tradição judaica de obediência à Lei de Moisés (Dt 21.1-9), numa tentativa de esquivar-se da responsabilidade de condenar um justo à pena de morte, ainda mais sendo o “Filho de Deus”. Entretanto, uma pequena multidão ensandecida tomou para si e para seus descendentes todo o ônus daquele julgamento injusto. Alguns líderes justos se manifestaram contra, mas não foram ouvidos (Lc 23.51). Cerca de 40 anos mais tarde, mesmo antes do cerco a Jerusalém, o sangue dos judeus jorrava por todo país. Ao final do ano 66 foram trucidados mais de 20.000 judeus em Cesaréia, por seus próprios concidadãos gentios. Em Citópolis os sírios massacraram 13.000 judeus. Em Alexandria, mais de 50.000 judeus foram chacinados por cidadãos gregos e soldados romanos, e suas casas, reduzidas a cinzas. O massacre em Jerusalém não poupou nem os bebês. O próprio pátio do templo virou um lago de sangue. Durante o sítio, os poucos sobreviventes esfomeados eram forçados a roer as próprias sandálias e cintos de couro. Diariamente mais de 500 judeus morriam crucificados, até que não houvesse mais madeira para confeccionar cruzes. Segundo o historiador Flávio Josefo, mais de um milhão de judeus foram mortos durante todo o período do sítio romano. Cerca de 97.000 homens jovens que sobreviveram foram vendidos como escravos, transformados em gladiadores ou morreram na arena do anfiteatro, lutando contra animais ferozes. 7 Pilatos tenta evitar a morte “do divino”, como teria se referido ao Senhor mais tarde, e saciar a sede sanguinária da multidão, submetendo Jesus a uma terrível sessão de açoites. Esse tipo de castigo era tão cruel que fora proibido aos cidadãos romanos, sob qualquer motivo. Apenas escravos e provincianos eram chicoteados como preparação para a crucificação. Os chicotes eram feitos de finas tiras de couro duro, trançadas com pedaços de osso, chumbo e espinhos agudos e venenosos. O martírio de Policarpo, por exemplo, é descrito nos documentos da comunidade de Esmirna como: “dilacerado pelos açoites, a ponto de ser possível ver os vasos sanguíneos interiores e a estrutura do seu corpo”. Eusébio relata sobre o flagelo do cristão Doroteu, sob Diocleciano: “até seus ossos ficaram expostos”. Por isso, eram comuns os flagelados morrerem antes da crucificação. Mas Jesus suportou tudo em silêncio (Is 53). Muito sacrifício foi oferecido para que os discípulos de hoje possam servir a Cristo com liberdade e alegria. 8 O Pretório era a fortaleza de Antônia, residência de Pilatos quando estava em Jerusalém. Dizia-se que uma “tropa” ou “coorte” era composta de um décimo dos soldados que formavam uma “legião”, algo entre 360 e 600 homens. 9 Tem início a via crucis ou via-sacra, o caminho da cruz. O Talmude relata que era costume oferecer ao condenado, antes da crucificação, uma bebida anestesiante, que algumas mulheres piedosas de Jerusalém mandavam preparar às suas custas. Entretanto (v.34), Jesus nega-se a aceitar esse tipo de alívio (Sl 69.19-21; Pv 31.6; Mc 15.23). A cruz era composta de duas peças de madeira, uma viga vertical staticulum e outra horizontal antenna. Na primeira, mais ou menos no centro, era fixado um pino de madeira, chamado de cornu chifre, sobre o qual o crucificado ficava montado. Os crucificados viviam em média cerca de doze horas. A febre que logo se manifestava causava um tipo de sede ardente. A crescente inflamação das feridas nas costas, mãos e pés, o ataque dos insetos e aves carniceiras que se aproximavam devido ao odor de sangue e dos excrementos, assim como a pressão do fluxo sanguíneo contra a cabeça, o pulmão e o coração, e o inchaço de todas as veias provocavam a mais horrível agonia e dor. Cícero dizia: “A crucificação é o mais cruel e terrível dos castigos”. A execução tinha de ocorrer fora da cidade (Lv


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a um lugar conhecido como Gólgota, que significa Lugar da Caveira.10 34 Deram-lhe para beber uma mistura de vinho com absinto; mas ele, depois de prová-la, negou-se a beber. 35 E aconteceu que após sua crucificação, dividiram entre si as roupas que lhe pertenciam, jogando sortes. 36 E se acomodaram ali, para o vigiar. 37 Acima de sua cabeça fixaram por escrito a acusação forjada contra ele: “ESTE É JESUS, O REI DOS JUDEUS”. 38 Dois ladrões foram crucificados com ele, um à sua direita e outro à sua esquerda. 39 As pessoas que passavam lançavamlhe impropérios, balançando a cabeça. 40 E exclamavam: “Ó tu que destróis o templo e em três dias o reconstróis! Agora salva-te a ti mesmo. Desce desta cruz, se és o Filho de Deus!”. 41 Do mesmo modo, os chefes dos sacerdotes, os mestres da lei e os anciãos zombavam dele, vociferando: 42 “Salvou a muitos, mas a si mesmo não pode salvar-se. É o Rei de Israel! Desça agora da cruz, e passaremos a crer nele. 43 Pregou sua confiança em Deus. Então que Deus o salve neste instante, se ver-

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dadeiramente por ele tem piedade, pois afirmou: ‘Sou Filho de Deus!’”. 44 Igualmente o ultrajavam os ladrões que ao seu lado haviam sido também crucificados.11 A morte de Jesus na cruz (Mc 15.33-41; Lc 23.44-49; Jo 19.28-30)

Então, profundas trevas caíram por sobre toda a terra, do meio-dia às três horas da tarde daquele dia.12 46 E, por volta das três horas da tarde, Jesus clamou com voz forte: “Eloí, Eloí, lamá sabactâni?”, que significa “Meu Deus, Meu Deus! Por que me abandonaste?”. 47 Mas alguns dos que ali estavam, ao ouvirem isso, comentaram: “Ele chama por Elias”.13 48 Sem demora, um deles correu em busca de uma esponja, embebeu-a em vinagre, colocou-a na ponta de um caniço, ergueu-a até Jesus e deu-lhe a beber. 49 Entretanto, os outros o censuraram: “Deixa! Vejamos se Elias vem livrá-lo”. 50 Então Jesus exclamou, uma vez mais, em alta voz e entregou o espírito.14 51 No mesmo instante, o véu do santu45

24.14), como um sinal da exclusão da sociedade humana (Hb 13.12). João relata que Jesus saiu da cidade (Jo 19.17) e, segundo o costume (Mt 10.38), carregou pessoalmente sua cruz. Um seu discípulo africano, chamado Simão, de Cirene (região localizada na Líbia, onde viviam muitos judeus), foi constrangido (em grego, engareusan – palavra que tem a ver com o costume militar romano de obrigar os civis a entregar cartas) a seguir o caminho do Calvário, carregando a cruz de Jesus. Mais tarde, Simão e sua família serviram à comunidade cristã que se formava (Mc 15.21; At 6.9; Rm 16.13). 10 A palavra Gólgota é a tradução latina do nome em aramaico da nossa palavra Calvário. Um monte fora dos muros de Jerusalém, que, visto de longe, se assemelha a uma caveira humana. 11 Jesus, Deus encarnado, foi cravado e erguido numa cruz entre o céu e a terra, fora da sua cidade amada, como sinal de vergonha e horror, com uma acusação escrita nas três principais línguas da sua época. Posto entre dois criminosos, foi escarnecido principalmente pelos mais religiosos e conhecedores das Escrituras. Cumpriram-se todas as profecias sobre o Messias, notadamente as descritas por Davi no Salmo 22 (mil anos antes do nascimento de Jesus). Cristo morreu pelos nossos pecados (1Co 15.3-4). Felizes são os que, humildemente, reconhecem esse fato. 12 Jesus foi crucificado às 9 horas da manhã (a terceira hora dos judeus da época, contada desde o raiar do sol). Ao meio dia (12 horas), densas trevas cobriram a terra. Às três da tarde Jesus expirou. As sete frases que Jesus pronunciou durante essas seis horas de martírio, estão registradas na seguinte ordem: Lc 23.34; Jo 19.26-27; Lc 23.43; Mt 27.46; Jo 19.28; Jo 19.30 e em Lc 23.46. 13 Jesus, num último fôlego, brada em seu dialeto de família, aramaico nazareno, o início do Salmo 22. Chegamos ao mais profundo do mistério da redenção. O Filho de Deus e Filho do homem experimenta a terrível e momentânea separação do Pai, para que seu sacrifício pudesse ser aceito e consumado em resgate de todos os que nele cressem em todas as eras (2Co 5.21). Os circunstantes não compreenderam bem essas palavras e deduziram que Jesus chamava por Elias. 14 Cristo não foi morto diretamente por alguém ou vencido por qualquer infecção (comum aos crucificados na época). Ele, voluntariamente, e no auge do seu poder espiritual entregou a sua vida humana (Jo 19.31-37). Depois do seu brado de vitória, Jesus explode seu próprio coração. Especialistas afirmam que foi por isso que, ao perfurarem seu lado com uma lança, imediatamente verteu uma mistura de sangue coagulado e soro (este tem aparência de água). Esse quadro clínico ocorre nos casos de ruptura


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ário rasgou-se em duas partes, de alto a baixo. A terra estremeceu, e fenderam-se as rochas.15 52 Os sepulcros se abriram, e os corpos de muitos santos que haviam morrido foram ressuscitados. 53 E, deixando as sepulturas, logo após a ressurreição de Jesus, entraram na cidade santa e apareceram para muitas pessoas. 54 E aconteceu que o centurião e os que com ele vigiavam a Jesus, vendo o terremoto e tudo o que se passava, foram tomados de grande pavor e gritaram: “É verdade! É verdade! Este era o Filho de Deus!”. 55 Estavam presentes várias mulheres, observando de longe; eram discípulas, que vinham seguindo Jesus desde a Galiléia, para o servirem.16 56 Entre as quais estavam Maria Madalena; Maria, mãe de Tiago e de José; e a mãe dos filhos de Zebedeu. O sepultamento do corpo de Jesus (Mc 15.42-47; Lc 23.50-56; Jo 19.38-42) 57 Ao pôr-do-sol chegou um homem rico,

de Arimatéia, por nome José, o qual havia se tornado discípulo de Jesus. 58 Teve ele uma audiência com Pilatos para pedir-lhe o corpo de Jesus, e Pilatos ordenou que lhe fosse entregue. 59 Então, José tomou o corpo e o envolveu com um lençol limpo de linho. 60 E o colocou em um sepulcro novo, o

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qual ele próprio havia mandado cavar na rocha. E, fazendo rolar uma grande pedra sobre a entrada do sepulcro, retirou-se. 61 Estavam ali, assentadas em frente ao sepulcro, Maria Madalena e a outra Maria. Pilatos manda vigiar o sepulcro 62 No dia seguinte, isto é, no sábado, reuniram-se os principais sacerdotes e os fariseus e foram até Pilatos e argumentaram: 63 “Senhor, recordamo-nos de que aquele enganador, enquanto vivia, prometeu: ‘Passados três dias ressuscitarei’. 64 Manda, portanto, que o sepulcro dele seja guardado até o terceiro dia, para que não venham seus discípulos e, raptando o corpo, proclamem ao povo que ele ressuscitou dentre os mortos. E esta derradeira fraude cause mais dano do que a primeira”. 65 Ao que ordenou Pilatos: “Levai convosco um destacamento! Ide e guardai o sepulcro como melhor vos parecer”. 66 Seguindo eles, organizaram um sistema de segurança ao redor do sepulcro. E além de manterem um destacamento em plena vigilância, lacraram a pedra.17 Jesus foi ressuscitado! (Mc 16.1-8; Lc 24.1-12; Jo 20.1-9)

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Tendo passado o sábado, ao raiar do primeiro dia da semana, Maria

do pericárdio (o tecido celular que reveste o exterior do coração). Esse episódio anula uma teoria surgida no século XIX, a qual tentando explicar a ressurreição, alegava que Jesus desmaiou nesse momento, para então despertar no túmulo. 15 Desde Moisés sempre houve, no santuário, uma cortina (véu) de tecido que separava o ambiente do Santo dos Santos (Êx 26.37; 38.18; Hb 9.3). Lugar sagrado onde ninguém podia entrar a não ser o sumo sacerdote, e este apenas no Dia da Expiação. Este acontecimento foi trágico para os judeus, mas um grande sinal para os cristãos de todos os povos, culturas e épocas: Em Cristo ficou abolida toda e qualquer separação entre o pecador arrependido (adorador) e Deus, nosso Pai (Jo 14.6). O fato de o véu ter-se partido de alto a baixo, sem contato humano, demonstra que o próprio Senhor abriu um novo e vivo caminho para Sua Santa presença (Hb 10.20; Ef 2.11-22). E muitos vieram a ser reconciliados para sempre com Deus (At 6.7). 16 Jesus sempre tratou as mulheres com o respeito e a dignidade que Deus requer, diferentemente da forma como os homens as tratavam em sua época. Era proibido às mulheres aproximarem-se do crucificado. Aquela cena foi um escândalo. Várias discípulas seguiram o Senhor desde o início do seu ministério, na Galiléia, e permaneceram servindo até sua morte e novo começo (28.1; Jo 20.11-18). O perfeito amor lança fora o medo (1Jo 4.18). 17 Dois juízes e membros do Sinédrio, que não compactuaram com a condenação de Jesus, José, da cidade de Arimatéia (uma próspera aldeia montanhosa a cerca de 32 km ao noroeste de Jerusalém) e Nicodemos (Jo 19.38-39), cuidaram do sepultamento de Cristo. Trataram das formalidades civis, das despesas, e proveram um túmulo novo (Is 53.9), nunca antes usado, que pertencia a José de Arimatéia e localizava-se no monte do Calvário (Jo 19.41). Os líderes civis e religiosos, para evitar qualquer tentativa de remoção do corpo e possível versão sobre a ressurreição do Mestre, violaram o sábado de Páscoa para tomar todas as providências necessárias e vigiar a área do túmulo.


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Madalena e a outra Maria foram visitar o túmulo.1 2 E eis que aconteceu um forte terremoto, pois um anjo do Senhor desceu dos céus e, chegando ao túmulo, rolou a pedra da entrada e assentou-se sobre ela. 3 O anjo tinha o aspecto de um relâmpago, e suas vestes eram alvas como a neve.2 4 Os guardas foram tomados de grande pavor e ficaram paralisados de medo, como mortos. 5 Contudo, o anjo dirigiu-se às mulheres e lhes anunciou: “Não temais vós! Sei que viestes ver a Jesus, que foi crucificado. 6 Mas aqui Ele não está. Foi ressuscitado, como havia dito. Vinde e vede vós onde Ele jazia. 7 Ide caminhando depressa e anunciai aos seus discípulos: Ele ressuscitou dentre os mortos e está seguindo adiante de vós rumo à Galiléia. Lá o vereis. Atentai para o que vos disse!”. 8 As mulheres abandonaram o túmulo correndo, amedrontadas, mas com grande júbilo, e foram imediatamente anunciá-lo aos seus discípulos. 9 De repente, Jesus veio ao encontro delas e as saudou: “Alegrai-vos!” Elas se aproximaram dele, jogaram-se aos seus pés abraçando-os, e o adoraram. 10 Então Jesus lhes declarou: “Não temais! Ide e dizei aos meus irmãos que sigam para a Galiléia, lá eles me verão”.

MATEUS 27, 28

Os sacerdotes subornam os guardas 11 E sucedeu que enquanto as mulheres estavam a caminho, alguns dos guardas foram à cidade e contaram aos chefes dos sacerdotes tudo o que havia ocorrido. 12 Então, os chefes dos sacerdotes reuniram-se em conselho com os anciãos e tramaram outro plano. Deram aos soldados vultosa quantia em dinheiro. 13 E lhes recomendaram que declarassem a todos: “Os discípulos dele vieram durante a noite e raptaram o corpo, enquanto cochilávamos. 14 Se isso chegar ao conhecimento do governador, nós o persuadiremos a vosso favor e vos livraremos de qualquer reprimenda”.3 15 Os soldados receberam o dinheiro e fizeram como haviam sido orientados. E, por isso, essa versão dos acontecimentos se conta entre os judeus até o dia de hoje. A Grande Comissão 16 Os onze discípulos rumaram para a Galiléia, em direção ao monte que Jesus lhes determinara. 17 Assim que o viram, prostraram-se e o adoraram, mas alguns ficaram em dúvida. 18 Então, Jesus aproximando-se deles lhes assegurou: “Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra.

1 Conforme o horário judaico, o domingo começava logo após o pôr-do-sol do sábado. Lucas nos informa que Maria Madalena e Maria, mulher de Clopas (Lc 24.1; Jo 19.25) saíram de madrugada, ainda escuro (Jo 20.12), para visitar o corpo de Jesus, lamentar e ungi-lo com mais especiarias. Chegaram ao túmulo com os primeiros raios da aurora na esperança de que lhes fosse autorizada a entrada para a continuação do ritual fúnebre (período de luto) judaico da época (Mt 28.1; Mc 16.2-3). 2 Deus manda seus anjos anunciarem o nascimento e a ressurreição de Jesus. Ele é concebido e ressuscitado pelo poder do Altíssimo (Lc 1.35; Rm 6.4; Ef 1.20). Essas mensagens são comunicadas em primeiro lugar a mulheres devotas e humildes e que receberam um nome simples, mas conhecido em todo o mundo: Maria (forma helenizada do nome hebraico Miriã, que foi derivado de um antigo vocábulo egípcio Marye, e que significa: princesa, amada, mulher de esperança). O anjo não rolou a pedra para que Jesus saísse do sepulcro, a pedra foi rolada para que as mulheres e, mais tarde, outras pessoas, entrassem e verificassem o túmulo vazio, o selo (lacre estatal feito com cordas que envolviam a pedra e eram atadas ao sepulcro com as marcas de Roma e do Sinédrio) rompido e nenhum outro sinal ou dano. Séculos mais tarde, expedições arqueológicas, como as organizadas pelo General Christian Gordon, localizaram esse túmulo e confirmaram algumas alterações para acomodar um corpo maior do que o de José de Arimatéia (segundo a tradição de baixa estatura). Contudo, análises físicas e químicas jamais atestaram qualquer vestígio de restos mortais na sepultura. O túmulo era novo quando foi oferecido para sepultar o corpo do Senhor e continuou novo após sua ressurreição. 3 Agostinho (354-430 d.C.) observou: “Se acordados, por que permitiram a alguém raptar o corpo de Jesus? E, se dormindo, como podiam declarar que foram os discípulos?” De qualquer modo seriam todos condenados à morte, não fosse o interesse dos


MATEUS 28

Portanto, ide e fazei com que todos os povos da terra se tornem discípulos, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; 19

72 20 ensinando-os a obedecer a tudo quanto

vos tenho ordenado. E assim, Eu estarei permanentemente convosco, até o fim dos tempos”.4

líderes religiosos judaicos em divulgar uma falsa versão sobre o desaparecimento do corpo de Cristo e levar a população a não crer na intervenção divina, presenciada por soldados e discípulos, nas primeiras horas daquele domingo no monte Calvário. 4 Jesus recebeu todo o poder de Deus (em grego ) e do Senhor Ressuscitado parte a ordem plenipotenciária: Ide! (literalmente “indo”, em grego ~). Agora esse “envio” não é provisório, limitado e transitório como em Mt 10, mas definitivo, ilimitado e permanente. Rompeu-se o estreitamento étnico das sinagogas e abriu-se a Salvação (comunhão com Deus) para todos os povos, raças e culturas. A comunidade de Jesus que abrange o mundo inteiro substituiu a “velha aliança” pela “nova aliança”, que congrega toda e qualquer pessoa cujo coração creia no Senhor para ser convertido em discípulo. Jesus ensinou e demonstrou com a sua própria vida o que significa ser um discípulo do Senhor (obediência a Deus). A tríplice ordem missionária (discipular, batizar e ensinar a discipular) é emoldurada pela garantia da onipresença de Jesus na alma daquele que crê (o crente). A essência da Igreja de Jesus é que o Ressuscitado continua vivo e atuante no indivíduo e na comunidade. Ao orarmos, não é mais necessário buscarmos a Deus nos céus, mas, sim, em nossos corações. A promessa da presença contínua de Deus é a chave de ouro com a qual vários livros da Bíblia são concluídos (Êx 40.38; Ez 48.35; Ap 22.20). Jesus, após ressuscitar, apareceu a várias pessoas em diversas ocasiões: a Madalena (Jo 20.11-18), a algumas discípulas (28.9-10), aos discípulos a caminho de Emaús (Lc 24.13-33), a Pedro (Jo 21.15-19; Lc 24.34-35), a dez discípulos no Cenáculo (Jo 20.19), aos onze discípulos (Jo 20.24-29), a sete discípulos na Galiléia (Jo 21.24-29), aos onze no monte, na Galiléia (Mt 28.16-17), a Tiago e a todos os apóstolos (1Co 15.7), a uma multidão no monte das Oliveiras (Lc 24.44-49), ao apóstolo Paulo (At 9.3-8).


INTRODUÇÃO A O EVANGELHO SEGUNDO

MARCOS Autoria Desde os primeiros séculos a Igreja Cristã atribui a autoria do segundo evangelho do Novo Testamento a João Marcos, filho de Maria, uma mulher de posses e muito prestígio em Jerusalém (At 12.12). Marcos era primo de Barnabé, amigo e companheiro de ministério dos apóstolos Paulo e Pedro. A igreja primitiva também nos informa que Pedro teve participação decisiva na evangelização e no discipulado de João Marcos, e que ambos desen-volveram laços de profunda amizade e respeito mútuo. Pedro se referia a Marcos como “meu filho Marcos” ((1Pe 5.13).) É de aceitação geral que Marcos recebeu de Pedro grande parte das informações contidas no Evangelho que leva seu nome. Com a autoridade apostólica de Pedro subjazendo este livro sagrado, ele jamais sofreu qualquer contestação à sua inclusão no cânon das Escrituras. Isso em muito cooperou para o rápido reconhecimento deste livro sagrado, bem como sua extraordinária disseminação por toda a Itália e regiões do império romano. Segundo Papias (por volta do ano 140 d.C.), citando uma fonte ainda mais antiga, Marcos foi grande cooperador de Pedro e seu amigo íntimo, de quem ouviu sobre os ensinos e realizações de Jesus Cristo. O comitê de tradução da Bíblia King James acredita que o Evangelho Segundo Marcos consiste, basicamente, na pregação e no ensino do apóstolo Pedro, ordenada e interpretada por João Marcos (At 10.37). Ainda muito jovem João Marcos teve o privilégio de acompanhar Paulo e Barnabé em sua primeira viagem missionária. Depois viajou com Barnabé para Chipre, pregando a Palavra do Senhor (At 15.38-40). Cerca de doze anos mais tarde, é convidado por Paulo para acompanhá-lo (Cl 4.10; Fm 24). Pouco antes de ser executado pelo império romano, Paulo manda chamar João Marcos (2Tm 4.11) para seguir anunciando o Evangelho a todos os povos. Propósitos Enquanto Mateus teve como principal propósito levar o Evangelho aos judeus, Marcos escreveu objetivando evangelizar e discipular os gentios, particularmente, ensinar os cristãos da Igreja de Roma. Por isso Marcos se preocupa em explicar alguns dos costumes judaicos (Mc 7.2-4; 15.42), traduz palavras aramaicas, idioma falado na Palestina na época de Jesus e muito diferente do hebraico antigo (Mc 3.17; 5.41; 7.11-34; 15.22) e dá ênfase à perseguição e ao martírio dos crentes ocorrida por volta dos anos 64 e 67 d.C. O grande incêndio de Roma, um plano diabólico do próprio imperador romano Nero, para acentuar a adoração do seu povo à sua pessoa, lançando a culpa sobre os cristãos e justificar uma perseguição que condenou sumariamente milhares de pessoas ao martírio e à morte. Marcos, antevendo essa chacina, procurou preparar os cristãos – de forma explícita e velada – durante todo o seu texto do Evangelho (Mc 1.12,13; 3.22,30; 8.34-38; 10.30,33-45; 13.8-13). Data da primeira publicação Os primeiros estudiosos das Sagradas Escrituras acreditavam que o Evangelho Segundo Mateus tinha sido escrito e publicado antes da obra de Marcos. Entretanto, atualmente, muitos teólogos e biblistas são unânimes em afirmar que o Evangelho Segundo Marcos foi o primeiro dos Evangelhos a chegar ao grande público leitor. Isso por volta do final da década de 50 d.C. Devido ao fato de Marcos ter sido o intérprete do apóstolo Pedro, havendo preparado sua obra sobre o Evangelho em estreita sintonia com os ensinos e orientações do seu querido mestre, tanto Mateus quanto Lucas utilizaram os textos de Marcos como principal fonte documentária na produção dos seus relatos sobre a vida e a obra de Jesus Cristo em seus Evangelhos. De acordo com alguns pais da Igreja, como Irineu e Clemente de Alexandria, o Evangelho Segundo Marcos foi escrito nas regiões da Itália, mais precisamente, em Roma. Pesquisas históricas indicam que Pedro e Marcos estavam em Roma, pouco antes do martírio de Pedro que se deu na mesma cidade e no qual o apóstolo teria solicitado que sua crucificação se desse de cabeça para baixo, pois acreditava não ser digno do mesmo tipo de martírio e morte que foram impostos ao Senhor Jesus.


No final de sua primeira carta, Pedro indica claramente que está com Marcos, em Roma, criptografando (codificando) a palavra “Roma” por “Babilônia” (1Pe 5.13) a fim de proteger a Igreja que se reunia naquela cidade das perseguições do império. Esboço Geral de Marcos 1. O ministério do Servo (1.1 –10.52) A. A preparação para o ministério de Jesus (1.1-13) B. Por meio da vida e obra de João Batista (1.1-8) C. Por meio do seu próprio batismo (1.9-11) D. Por meio da vitória sobre a tentação (1.12, 13) 2. Seu ensino e poder (1.14 – 3.12) A. Sobre uma espécie de demônio (1.21-28) B. Sobre a doença (1.29-39) C. Sobre a impureza e a lepra (1.40-45) D. Sobre toda a paralisia (2.1-12) E. Sobre a corrupção (2.13-20) F. Sobre doutrinas equivocadas (2.21, 22) G. Sobre o uso do sábado (2.23-28) H. Sobre as deformidades (3.1-6) I. Sobre os demônios (3.7-12) 3. Ministério posterior na Galiléia (3.13-6.29) A. Escolha e convocação dos Doze (3.13-21) B. Condenação dos rejeitadores (3.22-30) C. A família espiritual de Jesus (3.31-35) 4. As parábolas de Jesus (4.1-34) A. O semeador (4.1-34) B. A candeia (4.21-25) C. O desenvolvimento do grão (4.26-29) D. A semente de mostarda (4.30-34) 5. As virtudes do Senhor Jesus (4.35 – 9.1) A. Sobre as tempestades (4.35-41) B. Sobre os demônios (5.1-20) C. Sobre a doença e a morte (5.21-43) D. Ao comissionar os apóstolos (6.7-13) E. Afetando o assassino Herodes (6.14-29) F. Ao alimentar 5.000 homens (6.30-44) G. Ao caminhar sobre as águas (6.45-52) H. Sobre as enfermidades (6.53-56) I. Sobre as tradições religiosas (7.1-23) J. Para com uma mulher gentia (7.24-30) K. Para com um homem surdo (7.31-37) L. Ao alimentar mais 4.000 homens (8.1-9) M. Ao condenar os fariseus (8.10-13) N. Em seu ensino sobre o fermento (8.14-21) O. Sobre a falta de visão (8.22-26) P. Sobre a vida do apóstolo Pedro (8.27-33) Q. Sobre todos os discípulos (8.34 – 9.1) 6. Suas profecias (9.2-50) A. Quanto a Sua glória (9.2-29) B. Quanto a Sua morte (9.30-32) C. Quanto às recompensas (9.33-41) D. Quanto ao inferno (9.42-50) 7. Seus ensinos na região da Peréia (10.1-52) A. Sobre o divórcio (10.1-12) B. Sobre os pequeninos (10.13-16) C. Sobre a vida eterna (10.17-31) D. Sobre Sua morte e ressurreição (10.32-34)


E. Sobre a ambição humana (10.35-45) F. Quando da cura do cego Bartimeu (10.46-52) 8. A Paixão de Cristo (11.1 – 15.47) A. Domingo: A entrada triunfal (11.1-11) B. Segunda-feira: Purificação (11.12-19) C. Terça-feira: Ensinos (11.20 – 13.37) D. Sobre a fé (11.20-26) E. Sobre Israel (12.1-12) F. Sobre os deveres cívicos (12.13-17) G. Sobre a ressurreição (12.18-27) H. Sobre o maior dos mandamentos (12.28-34) I. Sobre a divindade de Jesus (12.35-37) J. Sobre a questão da arrogância (12.38-40) K. Sobre as ofertas e ajudas (12.41-44) L. Sobre o futuro (13.1-37) M. Quarta-feira: A unção e a traição (14.1-11) N. Quinta-feira: A ceia e a traição (14.12-52) O. Preparativos para a ceia (14.12-16) P. A última Páscoa com Jesus (14.17-21) Q. Rumo ao Getsêmani (14.26-31) R. Oração e pranto no Getsêmani (14.32-42) S. Traição e prisão no Getsêmani (14.43-52) T. Sexta-feira: Juízo e execução (14.53 – 15.47) U. Cristo julgado por Caifás (14.53-65) V. Pedro nega a Jesus (14.66-72) W. Cristo julgado por Pilatos (15.1-15) X. O martírio de Cristo (15.16-20) 9. Crucificação, morte e ressurreição (15.21 – 16.20) A. A crucificação do Senhor Jesus (15.21-32) B. A morte de Jesus Cristo (15.33-41) C. O sepultamento e o Sábado (15.42-47) D. Domingo: A ressurreição de Jesus! (16.1-8) E. Jesus prova que está vivo (16.9-18) F. Jesus ascende ao Céu de onde voltará (16.19, 20) Observação ç O Evangelho Segundo Marcos também pode ser sumarizado a partir dos deslocamentos geográficos feitos por Jesus Cristo durante sua peregrinação na terra: 1. Os preparativos para a vinda de Deus encarnado (1.1-13) 2. A pregação do Filho de Deus na Galiléia (1.14 – 9.50) 3. A pregação de Jesus, o Cristo na Peréia (10.1-52) 4. A Paixão do Filho do homem em Jerusalém (11.1 – 16.20).


O EVANGELHO SEGUNDO

MARCOS João Batista revela o caminho (Mt 3.1-12; Lc 3.1-18, Jo 1.19-28)

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Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, o Filho de Deus.1 2 Conforme está escrito no livro do profeta Isaías: “Eis que Eu envio o meu mensageiro diante de ti, a fim de preparar o teu caminho; voz do que clama no deserto: 3 ‘Preparai o caminho do Senhor, tornai retas as suas veredas’”.2 4 E foi assim que chegou João, batizando no deserto e pregando um batismo de arrependimento para perdão dos pecados.3 5 Vinham encontrar-se com ele pessoas de toda a região da Judéia e todo o povo de Jerusalém, e eram batizados por ele no rio Jordão, confessando seus pecados. 6 João vestia roupas tecidas com pêlos

de camelo, usava ao redor da cintura um cinto de couro e se alimentava de gafanhotos e mel silvestre.4 A mensagem de João (Mt 3.11-12; Lc 3.15-17; Jo 1.19-28)

E esta era a pregação de João: “Depois de mim vem aquele que é mais poderoso do que eu, do qual não sou digno sequer de curvar-me para desamarrar as correias das suas sandálias. 8 Eu vos batizei com água; Ele, entretanto, vos batizará com o Espírito Santo”.5 7

Jesus é batizado (Mt 3.13-17; Lc 3.21-22; Jo 1.32-34)

Aconteceu, naqueles dias, que chegou Jesus, vindo de Nazaré da Galiléia, e foi batizado por João no rio Jordão. 9

1 A expressão “Evangelho” no grego mais antigo significa “um prêmio conferido a quem levava boas notícias”. Com o tempo, essa palavra passou a significar “boas novas”. Cristo é em si a “boa notícia” para a humanidade e, ao mesmo tempo, é portador das “boas novas” de Salvação (cada indivíduo precisa ser salvo, liberto, do poder do pecado original, do sistema mundial dirigido por Satanás e do inferno eterno). A palavra “princípio” indica a introdução do Evangelho. O livro de Marcos teria sido o primeiro a ser escrito, servindo como base para Mateus e Lucas, sendo os três, conhecidos como os “Sinóticos” (termo de origem grega que significa: “análise dos fatos a partir de um determinado ponto de vista” ou “estudo comparativo”). A palavra “Cristo” é um adjetivo de origem grega que significa “Ungido” (em hebraico, Messias). No AT, reis, sacerdotes e profetas foram “ungidos”, o que confirmava sua escolha divina. “Filho de Deus” tem um sentido amplo no NT, mas quando aplicado a Jesus salienta sua Deidade (Sl 2.7; Jo 10.38; 14.10; Hb 1.2) e sua Missão (10.45). 2 “Está escrito”, frase muito usada para lembrar ou citar passagens do AT. Marcos faz alusão às profecias de Is 40.3; Ml 3.1. Conforme a tradição entre os mestres judaicos, citava-se apenas o nome do “profeta maior” ou mais antigo. Fica claro, no contexto, que o Senhor (Jeová ou Javé) do AT é plenamente identificado com Jesus Cristo no NT (Rm 10.9-13). 3 João é a forma simplificada do nome hebraico Johanen, que significa “dom de Jeová”. Era parente de Jesus, porquanto suas mães eram primas (Lc 1.36). Seu ministério público teve início por volta do ano 27 a.C., proclamando a vinda iminente do Messias e Seu Reino. João insistia na urgência do “arrependimento” (em grego, metanoia, quer dizer: “mudança radical de pensamento e volta ao juízo”) devido à aproximação da vinda do Senhor. A mesma necessidade impreterível dos nossos dias. O ato simbólico de João “mergulhar” (palavra derivada da expressão grega baptizô) as pessoas nas águas, após confissão pública e oral dos pecados, entrou para a história da Igreja. 4 As roupas e o tipo de alimentação de João revelam sua austeridade e desprendimento dos interesses materiais deste mundo. Seu jeito de vestir-se era típico dos profetas e lembrava Elias (2 Rs 1.8; Zc 13.4), a quem João muito se assemelha (9.13). Alimentar-se de gafanhotos era uma prática comum entre as comunidades pobres (Lv 11.22), especialmente as que viviam a oeste do mar Morto, entre cujos habitantes (a seita dos essênios) estão os que escreveram e preservaram os Rolos do mar Morto (a mais importante descoberta arqueológica do século XX e que muito ajudou nesta tradução da Bíblia King James). Alguns grupos de beduínos ainda hoje comem gafanhotos tostados ou salgados. 5 João batiza apenas com água, simbolizando a purificação dos pecados reconhecidos e renunciados. Entretanto, Jesus Cristo oferecerá o dom do Espírito e com Ele a filiação adotiva e perene de Deus (em hebraico Yahweh), nosso Pai (em aramaico, Abba, que significa: pai querido), conforme Jo 3.3-6. O batismo cristão é muito mais importante que o batismo judaico de prosélitos, dos essênios (que batizavam os judeus que entravam para sua seita) e o praticado por João. Isso porque somente no batismo cristão está implícito o ato simbólico de identificação do pecador restaurado com a morte e a ressurreição de Jesus Cristo.


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E, imediatamente após deixar a água, viu os céus rasgando-se e o Espírito descendo até Ele na forma de uma pomba. 11 Então houve uma voz vinda dos céus: “Tu és o meu Filho amado; em ti muito me agrado”.6 10

Jesus é tentado (Mt 4.1-11; Lc 4.1-13)

Logo em seguida, o Espírito o dirigiu para o deserto. 13 Ali esteve Ele por quarenta dias sendo tentado por Satanás; viveu entre as feras selvagens, e os anjos o serviram.7 12

Jesus convoca seus discípulos (Mt 4.12-22; Lc 4.14,15; 5.1-11; Jo 1.35-42) 14 E depois que João foi levado à prisão, Jesus partiu para a Galiléia, pregando a todos as boas novas de Deus:8 15 “Cumpriu-se o tempo e está chegando o Reino de Deus; arrependei-vos e crede no Evangelho”.9

MARCOS 1

Caminhando pela praia do mar da Galiléia, viu Jesus a Simão e seu irmão André lançando suas redes ao mar, pois eram pescadores. 17 Então, dirigiu-se a eles Jesus dizendo: “Vinde em minha companhia, e Eu vos tornarei pescadores de pessoas”. 18 Naquele mesmo momento, eles abandonaram as suas redes e seguiram Jesus. 19 Andando um pouco mais adiante, Jesus avistou Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João. Eles estavam num barco consertando as redes. 20 Sem demora os chamou. E eles, deixando o pai, Zebedeu, com os empregados no barco, partiram seguindo a Jesus.10 16

Jesus ensina na sinagoga (Lc 4.31-37) 21 Dirigiram-se para Carfanaum e, assim que chegou o sábado, tendo entrado na sinagoga, Jesus passou a ensinar.11

6 Jesus insistiu em ser batizado para endossar a autoridade de João; identificar-se com os pecadores que sinceramente buscavam o perdão de Deus (2 Co 5.21); anunciar e confirmar publicamente seu ministério; permitir que João o apresentasse ao mundo como o Messias prometido (Jo 1.53) e que ele (Jesus) recebesse a plena unção do Espírito de Deus (Lc 3.22). A forma de pomba era real e visível e não apenas uma analogia espiritualizada para descrever romanticamente o fenômeno, pois Lucas ainda é mais preciso, usando a expressão “em forma corpórea” (Lc 3.22). Esse mesmo fenômeno ocorreu também por ocasião da Criação (Gn 1.2). O próprio Deus fala sobre o amor e a alegria que sente por Jesus, Seu Filho (Jo 12.28), e Suas palavras relembram Gn 22.2; Sl 2.7 e Is 42.1. Temos aqui uma visão clara da Trindade, doutrina cristã que só pode ser bem aceita após o verdadeiro encontro com a pessoa de Cristo, o Filho de Deus. 7 Sem dúvida foi o próprio Jesus quem relatou aos seus discípulos os detalhes desta batalha histórica (Mt 4.1-11; Lc 4.1-14). Todos os sinóticos dão ênfase à relação existente entre o “batismo” e a “tentação” de Cristo. Jesus, dirigido (ou impelido) pelo Espírito, foi ativo no Seu batismo e passivo na tentação. Por meio do batismo Ele cumpriu toda a justiça, e pela tentação Sua justiça foi provada. Antes de iniciar seu ministério de destruir o poder de Satanás nas vidas dos seres humanos, foi necessário que Ele vencesse o Inimigo no campo de batalha da sua própria vida na terra (Hb 2.18; 4.15). A magnitude de toda essa batalha se observa no fato de que anjos vieram servi-lo (Mt 4.11, Lc 22.43). Em menor grau, cada discípulo que é chamado a uma missão desafiadora no Reino e impactante no mundo deve estar preparado para semelhante conflito e vitória. 8 Entre a tentação de Jesus e a execução de João Batista ocorreram os eventos registrados em Jo 1.19 – 4.54. Os fatos que levaram à prisão estão narrados em Mc 6.17-20. 9 A palavra grega metanoia (que significa mudar de mentalidade e voltar ao juízo correto) reflete a expressão hebraica shub que freqüentemente (cerca de 120 vezes) ocorre no AT com a conotação espiritual de “retornar” a Deus. No contexto da conversão cristã, aponta para uma mudança radical de vida, em conseqüência da fé depositada na pessoa e obra de Jesus Cristo (At 3.19; 26.20; 1Ts 1.9). 10 Marcos emprega (cerca de 50 vezes) em seus escritos, como parte do seu estilo, uma palavra grega traduzida de várias maneiras: “sem demora, logo, então, assim, em seguida, rapidamente” e outras semelhantes, que revelam seu senso de urgência em comunicar o Evangelho ao mundo (especialmente aos gentios). Jesus ensina que a vocação do discípulo missionário implica: no discipulado (“vinde em minha companhia” ou “após mim”); em ser capacitado por Cristo (“Eu vos tornarei”); num esforço pessoal para explicar as boas novas às pessoas (“pescadores”) e na disposição de colocar as ambições e os interesses seculares em segundo plano (“abandonaram as suas redes”). 11 A sinagoga sempre teve uma importância vital para as comunidades judaicas em todo o mundo desde sua fundação, na época do exílio, até nossos dias. Uma sinagoga podia ser estabelecida em qualquer cidade ou povoado onde houvesse ao menos dez homens judeus casados, e seu propósito maior era ensinar as Escrituras e adorar a Deus. Era costume entre os líderes das sinagogas, convidar os mestres visitantes a participarem da adoração e ministrarem a Palavra na reunião do sábado (em hebraico


MARCOS 1

E todos ficavam maravilhados com o seu ensino, pois lhes ministrava como alguém que possui autoridade e não como os mestres da lei.12 23 Mas, naquele exato momento, levantou-se na sinagoga um homem possuído de um espírito imundo, que vociferava: 24 “O que queres de nós, Jesus Nazareno? Vieste para nossa destruição? Conheço a ti, sei quem tu és: o Santo de Deus!” 25 Mas Jesus o repreendeu severamente: “Fica quieto e sai dele!”13 26 Então, o espírito imundo, sacudindo aquele homem violentamente e gritando com poderosa voz, saiu dele. 27 Todos ficaram atônitos e assustados perguntavam uns aos outros: “O que é isto? Novo ensinamento, e vejam quanta autoridade! Aos espíritos imundos Ele dá ordens, e eles prontamente lhe obedecem!” 28 Assim, rapidamente as notícias sobre a sua pessoa se espalharam em várias direções e por toda a região da Galiléia. 22

O poder de Jesus sobre doenças e demônios (Mt 8.14-15; Lc 4.38-39)

E assim que saíram da sinagoga, dirigiram-se para a casa de Simão e André, juntamente com Tiago e João.14 30 A sogra de Simão estava deitada, com 29

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muita febre, e logo falaram com Jesus a respeito dela. 31 Então, aproximando-se, Ele a tomou pela mão e a levantou. A febre imediatamente a deixou e ela se pôs a serví-los. 32 Ao final da tarde, logo após o pôr-dosol, o povo levou até Jesus todos os que estavam passando mal e os dominados por demônios. 33 E, assim, a cidade inteira se aglomerou à porta da casa. 34 Jesus curou a muitos de várias enfermidades, bem como expulsou diversos demônios. Entretanto, não permitia que os demônios falassem, pois eles sabiam quem era Ele.15 Jesus retira-se para orar (Lc 4.42-44)

De madrugada, em meio a escuridão, Jesus levantou-se, saiu da casa e retirouse para um lugar deserto, onde ficou orando.16 36 Simão e seus amigos saíram para procurá-lo. 37 Então, quando o acharam, informaram: “Todos estão te procurando!” 38 E Jesus os instruiu: “Vamos seguir para outros lugares, às aldeias vizinhas, a fim de que Eu pregue ali também. Pois foi para isso que vim”. 35

shabbãth que significa: o dia do descanso). Jesus, assim como Paulo mais tarde (At 13.15; 14.1; 17.2; 18.4), aproveitou essa oportunidade cultural para anunciar as novas e boas notícias do Reino de Deus (o Evangelho). Jesus escolheu Carfanaum, importante centro de comércio e distribuição de peixes, como sede do seu ministério após a rejeição que sofreu em sua terra natal, Nazaré (Lc 4.16-31). Os romanos mantinham um centurião na cidade (8.5) e uma coletoria de impostos (Mt 9.9). 12 Marcos dedica boa parte dos seus escritos a salientar o quanto os ensinos e as atitudes de Jesus tocavam os corações das pessoas e as deixavam impressionadas (2.12; 5.20,42; 6.2,51; 7.37; 10.26; 11.26; 11.18; 15.5). Sua autoridade provinha direta e absolutamente de Deus e por isso não citava os grandes mestres da Lei como era costume dos rabinos. 13 Com exceção do texto correspondente de Lc 4.34, o título “O Santo de Deus” foi usado apenas em Jo 6.69 e se refere à origem divina de Jesus, mais do que ao seu messianato (Lc 1.35). Esse título foi usado pelos demônios com base na crença do ocultismo de que o uso exato do nome de uma pessoa permitia certo controle sobre ela. O homem estava possesso de mais de um demônio, mas apenas o líder deles gritou e falou. Entretanto, Jesus, em plena autoridade divina, ordena que o demônio “fique impedido de expressar-se”, literalmente em grego que significa “seja amordaçado!” ou “fique imobilizado e com a boca amarrada”. 14 Jesus e seus discípulos certamente foram almoçar com a família de Pedro (1Co 9.5), pois a refeição principal do sábado era tradicionalmente servida logo após o encerramento do culto matinal das sinagogas. 15 O povo aguarda o final do pôr-do-sol e, conseqüentemente, o encerramento do sábado, para carregar seus enfermos e possessos (Jr 17.21,22) e os levar à presença de Cristo a fim de serem curados e libertos. Marcos retrata com clareza a perfeita humanidade e divindade de Jesus. Ele sentiu compaixão pelo povo (6.34) e os curou, mas sabia da Sua prioridade: anunciar o Reino e a Salvação (1.15). Soube evitar a publicidade e não permitiu que pessoas nem o Inimigo o enganassem com falsa adoração ou lisonja (1.24,34; 3.11; 5.7). 16 A expressão grega transliterada proii indica a última vigília da noite, das três às seis horas da manhã. Jesus reage ao crescente aumento de sua popularidade e se retira para um lugar tranqüilo e isolado onde possa conversar a sós com o Pai.


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E aconteceu que Ele percorreu toda a Galiléia, pregando nas sinagogas e expelindo os demônios. 39

A cura do leproso que creu (Mt 8.1-4; Lc 5.12-16)

Certo leproso aproxima-se de Jesus e suplica-lhe de joelhos: “Se for da tua vontade, tens o poder de purificar-me!” 41 Movido de grande compaixão, Jesus estendeu a mão e, tocando nele, exclamou: “Eu quero. Sê purificado!” 42 No mesmo instante toda a doença desapareceu da pele daquele homem, e ele foi purificado.17 43 Em seguida Jesus se despede dele com forte recomendação: 44 “Atenta, não digas nada a ninguém; contudo vai, mostra-te ao sacerdote e oferece pela tua purificação os sacrifícios que Moisés prescreveu, para que sirvam de testemunho”.18 45 Contudo, assim que o homem saiu, começou a proclamar o que acontecera e a divulgar ainda muitas outras coisas, de modo que Jesus não mais conseguia entrar publicamente numa cidade, mas via-se obrigado a ficar fora, em lugares desabitados. Mesmo assim, pessoas de todas as partes iam ter com Ele.19 40

MARCOS 1, 2

Jesus perdoa e cura (Mt 9.1-8; Lc 5.17-26)

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Chegando de novo em Cafarnaum, depois de alguns dias, o povo ficou sabendo que ele estava em casa.1 2 E foram tantos os que se aglomeraram ali, que já não havia lugar nem à porta; e Ele lhes pregava a Palavra.2 3 Vieram trazer-lhe um paralítico, carregado por quatro homens. 4 Não conseguindo levá-lo até Jesus, por causa da multidão, removeram parte da cobertura sobre o lugar onde estava Jesus e, por essa abertura no teto, baixaram a maca na qual se achava deitado o paralítico.3 5 Observando a fé que eles demonstravam, declarou Jesus ao paralítico: “Filho! Estão perdoados de ti os pecados”. 6 Entretanto, alguns dos mestres da lei que por ali estavam sentados, julgaram em seu íntimo: 7 “Como pode esse homem falar desse modo? Está blasfemando! Quem afinal pode perdoar pecados, a não ser exclusivamente Deus?”4 8 Jesus imediatamente percebeu em seu espírito que era isso o que eles estavam urdindo e lhes questionou: “Por que cogitais desta maneira em vossos corações?

17 O termo grego usado no original não se refere apenas e especificamente à lepra ou hanseníase (como se conhece hoje), mas a vários tipos de doenças e cânceres de pele. Todavia, como implicou em imundícia, segundo o AT (Lv 13 e 14), era natural que se tornasse um símbolo do pecado: ambos são repugnantes; espalham-se pelo corpo e são contagiosos; são incuráveis, a não ser pela misericórdia de Deus; só Cristo pode oferecer plena solução, e isso por causa do seu compadecimento, do seu poder que vem de Deus (Jo 3.2) e porque foi para cumprir essa missão que Ele veio ao mundo (10.45). 18 Os sacrifícios serviam de comprovação diante dos sacerdotes e para o povo de que a cura era genuína (e que Jesus respeitava a Lei). A cura era um testemunho concreto e visível do poder divino de Jesus, pois os judeus acreditavam que somente Deus podia curar uma doença de pele como a lepra (2Rs 5.1-4). 19 A inevitável popularidade de Jesus Cristo (1.28; 3.7,8; Lc 7.17) e a inveja e oposição cada vez mais intensa dos líderes religiosos (2.6,7,16,23,24; 3.2,6,22) forçaram Jesus a se retirar da sua amada Galiléia e peregrinar pelos territórios circunvizinhos. No entanto, o povo, sedento, viajava de todas as partes para receber a bênção da Sua Palavra e Poder. Capítulo 2 1 Pedro e sua família (1Co 9.5) faziam questão de hospedar Jesus sempre que ele estava em Cafarnaum, e Jesus se sentia em casa (1.21,29). 2 A Palavra é o Evangelho: Cristo e as boas novas da Salvação eterna (1.15). As multidões estavam à espera do Senhor e o receberam com o mesmo entusiasmo de antes (1.32,33,37). 3 Uma casa típica da Palestina daqueles tempos tinha o telhado plano, onde se podia chegar por uma escada externa. O telhado era geralmente coberto com uma camada de barro apoiada por esteiras feitas de ramos de palmeiras e sustentadas por vigas de madeira. 4 Na teologia judaica, nem mesmo o Messias teria poder para perdoar pecados, somente e exclusivamente o Altíssimo (Deus, em hebraico Yahweh). Jesus, de forma simples e natural, age como perfeito ser humano (compassivo e solidário em relação ao próximo), e perfeitamente como Deus (oferecendo solução à mais profunda e dramática necessidade humana: o perdão). Essa demonstração prática, pública e visual da deidade de Jesus foi considerada pelos teólogos locais (escribas ou mestres da lei) como uma grave e escandalosa blasfêmia.


MARCOS 2

O que é mais fácil dizer ao paralítico: ‘Estão perdoados de ti os pecados’, ou falar: ‘Levanta-te, toma a tua maca e sai andando’?5 10 Todavia, para que saibais que o Filho do homem tem na terra autoridade para perdoar pecados...” – dirigiu-se ao paralítico – 11 “Eu te ordeno: Levanta-te, toma tua maca e vai para tua casa”. 12 Então, ele se levantou e, no mesmo instante, tomando sua maca saiu andando à frente de todos, que, estupefatos, glorificaram a Deus, exclamando: “Nunca vimos nada semelhante a isto!”6 9

Jesus convoca Mateus (Mt 9.9-13; Lc 5.27-32) 13 Uma vez mais, saiu Jesus e foi caminhar na praia, e toda a multidão vinha ao seu encontro, e Ele os ensinava. 14 Enquanto andava, viu a Levi, filho de Alfeu, sentado à mesa da coletoria, e o chamou: “Segue-me!” Ao que ele se levantou e o seguiu.7

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Jesus à mesa com pecadores (Mt 9.10-13; Lc 5.29-32)

Aconteceu que, em casa de Levi, publicanos e pessoas de má fama, que eram numerosas e seguiam Jesus, estavam à mesa com Ele e seus discípulos.8 16 Quando os mestres da lei que eram fariseus o viram comendo com os publicanos e outras pessoas mal afamadas, perguntaram aos discípulos de Jesus: “Por que Ele se ali-menta na companhia de publicanos e pecadores?” 17 Ao ouvir tal juízo, Jesus lhes ponderou: “Não são os que têm saúde que necessitam de médico, mas, sim, os enfermos. Eu não vim para convocar justos, mas sim pecadores”.9 15

Jesus explica o jejum (Mt 9.14-17; Lc 5.33-39) 18 Os discípulos de João e os fariseus estavam

jejuando. Algumas pessoas vieram ter com Jesus e inquiriram: “Por que os discípulos de João e os discípulos dos fariseus jejuam, mas os teus discípulos não jejuam?”10

5 Para Jesus seria mais fácil apenas curar o paralítico e chamar a atenção do público para sua pessoa. Mas perdoar tinha a ver com a glória de Deus e lhe custaria uma vida de sacrifício e seu próprio holocausto na cruz (10.45). E para os mestres? O que seria mais fácil? Curar ou perdoar? A expressão de Jesus: “Estão perdoados de ti os pecados”, é a tradução literal dos melhores originais, em grego . 6 Jesus intitulou a si mesmo de “Filho do homem” por cerca de 80 vezes nos evangelhos. Segundo o profeta Daniel (Dn 7.13,14), o filho de um ser humano é retratado como personagem celestial a quem, no final dos tempos, Deus confiou plena autoridade, glória máxima e poder soberano. Fica claro que um dos propósitos dos muitos milagres, sinais e prodígios realizados por Jesus era apresentar provas indiscutíveis da sua divindade (Jo 2.11; 20.30,31). Com certeza o paralítico e a multidão presente compreenderam claramente quem era Jesus e sua atitude, pois glorificaram a Deus. 7 Levi era o nome de infância de Mateus e nome apostólico que significa “dádiva do Senhor” (Mt 9.9; 10.3). Levi era publicano e cobrador de impostos (Lc 5.27), sujeito às ordens de Herodes Antipas, tetrarca da Galiléia. A coletoria era quase sempre uma espécie de bilheteria onde eram cobrados pedágios para aqueles que transitassem pela estrada internacional que ligava Damasco ao litoral do Mediterrâneo e ao Egito, passando por Cafarnaum. A maioria dos publicanos cobrava impostos além da lei e prestava falsos relatórios ao governo de Roma. Eram odiados pelo povo; para os fariseus eram iguais aos pecadores (literalmente: gente de má fama) que desprezavam a Lei. Em vista de viverem na companhia dos gentios eram excluídos da sinagoga. 8 Na cultura oriental e especialmente na judaica, fazer uma refeição na casa de alguém era um grande sinal de amizade entre os participantes. O termo “pecadores” era em geral uma maneira de se referir aos cobradores de impostos, mentirosos, enganadores, adúlteros, assaltantes, criminosos, e pessoas de má reputação. Jesus e seus discípulos eram os convidados de honra de um grupo com essas qualificações gerais. Jesus compartilha as bênçãos de sua mesa com os pecadores remidos (Ap 3.20). 9 Os fariseus eram um grupo de religiosos e sucessores dos hassidins, judeus piedosos que juntaram suas forças às dos macabeus durante a guerra pela liberdade da Síria (166 a 142 a.C). Os fariseus surgiram no reinado de João Hircano, entre 135 e 105 a.C. Embora alguns realmente fossem homens de Deus, a maioria dos que conflitaram com Jesus eram hipócritas, invejosos, formalistas e envenenados por sórdidos interesses políticos. Segundo o farisaísmo, a graça de Deus era oferecida somente para aqueles que cumprissem a Lei. 10 Os discípulos de João jejuaram porque seu mestre estava preso, por estarem em oração pela redenção proclamada por João e por causa da doutrina (ascetismo) de purificação e arrependimento pregada por João como preparação para a vinda de Cristo. Entretanto, a Lei de Moisés prescrevia apenas um jejum obrigatório: no Dia da Expiação (Lv 16.29,31; 23.27-32; Nm 29.7). Após o Exílio na Babilônia, quatro outros jejuns anuais eram observados (Zc 7.5; 8.9). Na época de Jesus os fariseus tinham o costume de jejuar duas vezes por semana (Lc 18.12).


9

Explicou-lhes Jesus: “Como podem os convidados do noivo jejuar enquanto o têm consigo?11 20 Contudo, virão dias quando o noivo lhes será arrancado; e então, nessa ocasião, jejuarão. 21 Ninguém costura remendo de pano novo em roupa velha, porquanto o remendo novo forçará o tecido velho e o rasgará ainda mais, aumentando a ruptura. 22 Assim como não há pessoa que deposite vinho novo em recipiente de couro velho; caso o faça, o vinho arrebentará o recipiente, e dessa forma, tanto o vinho novo quanto o recipiente se estragarão. Ao contrário, põe-se o vinho novo em um recipiente de couro novo”.12 19

Jesus é Senhor do Sábado (Mt 12.1-14; Lc 6.1-11) 23 E aconteceu que, passava Jesus num dia

de sábado pelas plantações de cereal. Os seus discípulos, enquanto caminhavam, começaram a colher algumas espigas. 24 Então os fariseus advertiram-no: “Vê! Por que teus discípulos fazem o que não é permitido aos sábados?”13

MARCOS 2, 3 25 Mas Ele esclareceu: “Nunca lestes como

agiu Davi e seus companheiros, quando sofreram necessidade e tiveram fome? 26 Na época do sumo sacerdote Abiatar, Davi entrou na casa de Deus e se alimentou dos pães dedicados à oferta da Presença, que somente aos sacerdotes era permitido comer, e os ofereceu também aos seus companheiros”.14 27 E então concluiu: “O sábado foi criado por causa do ser humano, e não o ser humano por causa do sábado. 28 Assim sendo, o Filho do homem é Senhor inclusive do sábado”.15 Jesus cura as deformidades (Mt 12.9-14; Lc 6.6-11)

3

Em outra ocasião, Jesus entrou na sinagoga e encontrou ali um homem que tinha atrofiada uma das mãos. 2 Alguns dos fariseus estavam procurando uma razão para acusar Jesus; por isso o observavam com toda a atenção, a fim de constatar se Ele iria curá-lo em pleno sábado. 3 Então convidou Jesus ao homem da mão atrofiada: “Levanta-te e vem aqui para o meio”.

11 A expressão “noivo” refere-se a Cristo (Ef 5.23-32). No AT, o “noivo” é Deus (Os 1.1-11; Is 54.5; 62.45; Jr 2.2). Os casamentos judaicos eram uma ocasião para alegria geral e a sua celebração chegava a durar uma semana. Não fazia o menor sentido pensar em jejum durante essas festividades. O jejum sempre esteve relacionado a momentos de dificuldade, grandes desafios e tristeza. Enquanto o “noivo” estava na festa era tempo de regozijo, o tempo triste e amargo chegaria, quando Jesus seria “tirado com violência” (literalmente em grego aparthç) ç , e naqueles dias, sim, os discípulos jejuariam. Certamente que a analogia de Jesus foi bem compreendida pelos inquiridores. 12 Estas duas parábolas (Mt 9.16,17; Lc 5.36) ensinam claramente sobre a impossibilidade de se misturar o velho ritualismo da Lei (o Judaísmo em todas as suas formas e ramificações) com a Nova Aliança da graça e da liberdade em Cristo: o Evangelho (Gl 5.1,13). 13 A lei mosaica permitia a todo viajante colher espigas de trigo ao longo das estradas com o objetivo específico de comêlas, na hora, para matar a fome (Dt 23.25). Os fariseus não estão criticando essa prática, mas, sim, o fazer isso no sábado. É impressionante a calma e a segurança de Jesus diante das sucessivas investidas dos seus inquiridores, pois segundo o Talmude judaico, a ofensa de trabalhar (colher) no sábado incorria em pena de morte por apedrejamento, desde que o acusado fosse advertido e sua falta ficasse comprovada pelo testemunho de duas ou três autoridades religiosas, por isso o “Vê!” dos fariseus, tem o sentido de: “Atenção! Foste pego em flagrante delito”. 14 Jesus busca em sua defesa um episódio ocorrido com o venerado (pelos judeus fariseus especialmente) rei Davi (1Sm 21.16). A relação entre os acontecimentos está no fato de homens de Deus terem feito algo proibido pela Lei. Como no direito judaico é sempre permitido praticar o bem e salvar vidas (ainda que seja no sábado), tanto Davi quanto os discípulos estavam dentro do chamado “espírito da lei” (Is 58.6,7; Lc 6.6-11; 13.10-17; 17.1-6). Havia, portanto, uma jurisprudência formada e os fariseus tiveram de aceitar a argumentação pública de Jesus. De acordo com 1 Sm 21.1-9, Aimeleque, pai de Abiatar, era sumo sacerdote na ocasião (2Sm 8.17; Mt 12.4). 15 A tradição judaica havia criado tantas restrições e normas sobre a guarda do dia do sábado, que a maioria das pessoas sentia-se culpada por não conseguir cumprir rigorosamente todas as ordenanças estabelecidas. Jesus enfatiza o propósito que Deus tem para o sábado: um dia para descanso; restauração espiritual, mental e física. Jesus conclui sua alusão à história judaica, mostrando que se a lei do sábado não tinha aplicação no caso do servo do templo, muito menos teria qualquer restrição sobre Cristo, o Senhor do Templo. Somente no evangelho de Marcos encontramos a importante definição “O Filho do homem é Senhor inclusive do sábado”, um dia especial consagrado a Deus.


MARCOS 3

Em seguida Jesus indaga deles: “O que nos é permitido fazer no sábado: o bem ou o mal? Salvar vidas ou matar as pessoas?” No entanto, eles ficaram calados.1 5 Indignado, olhou para os que estavam ao seu redor e, profundamente entristecido com a dureza do coração deles, ordenou ao homem: “Estende a tua mão”. Ele a estendeu, e eis que sua mão fora restaurada. 6 Diante disso, retiraram-se os fariseus e iniciaram, em acordo com os herodianos, uma conspiração contra Jesus, e tramavam um meio de condená-lo à morte.2 4

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evitar que a massa de pessoas o apertasse, tirando-lhe os movimentos. 10 Pois Ele havia curado grande multidão, de modo que todos os que padeciam de alguma enfermidade se acotovelavam na tentativa de vê-lo e tocá-lo. 11 E acontecia que todas as vezes que as pessoas com espíritos imundos o viam, atiravam-se aos seus pés e berravam: “Tu és o Filho de Deus!” 12 Todavia, Jesus repreendia tais espíritos severamente, ordenando que não revelassem quem era Ele. Jesus convoca os Doze (Mt 10.1-4; Lc 6.12-16)

Jesus cura multidões na praia 7 Jesus retirou-se com seus discípulos e foi na direção do mar, e uma numerosa multidão vinda da Galiléia o seguia. 8 E assim que ouviram a respeito de tudo o que Ele estava realizando, grande quantidade de pessoas provenientes da Judéia, de Jerusalém, da Iduméia, das regiões do outro lado do Jordão e das cercanias das cidades de Tiro e Sidom, veio ter com Jesus.3 9 Então, por causa das multidões, Ele pede aos discípulos que passem a manter um pequeno barco à sua disposição, para

Jesus subiu a um monte e convocou para si aqueles a quem ele queria. E eles foram para junto dele. 14 E escolheu doze, qualificando-os como apóstolos, para que convivessem com ele e os pudesse enviar a proclamar. 15 E tivessem autoridade para expulsar demônios.4 16 Ele constituiu, pois, os Doze: Simão, a quem atribuiu o nome de Pedro. 17 Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, aos quais deu o nome de Boanerges, que quer dizer, “filhos do trovão”. 18 E depois, André; Filipe; Bartolomeu; 13

1 O argumento de Jesus é claro: ser capaz de fazer o bem e preferir fazer o mal é pecado (em aramaico o sentido geral da palavra “pecar” é “errar”), pois há pouca diferença entre fazer o mal e deixar de fazer o bem (Tg 4.17). Os mestres judaicos pregavam que o sábado era um dia dedicado ao descanso, amor e misericórdia, por isso, o socorro a quem estivesse em perigo era permitido. Entretanto, Jesus os confronta com suas próprias e cruéis intenções, uma vez que estavam usando o sábado para tramar o seu assassinato. 2 A partir desta controvérsia, os mestres e as autoridades eclesiásticas judaicas foram tomados por terrível ódio contra Jesus, a ponto de se juntarem com os herodianos, um partido político nacionalista muito influente que apoiava Herodes e sua dinastia contra Roma (Mt 22.16). Os fariseus (que significa “os separados”) formavam um partido do povo, com pessoas de classe baixa, e se opunham aos herodianos e aos saduceus, ricos e aristocratas (12.18-23). Entretanto, para matar Jesus todo conchavo foi aceito entre eles. 3 A popularidade de Jesus crescia assustadoramente. Essa rápida lista de Marcos mostra que as multidões vinham não apenas das áreas adjacentes a Cafarnaum, mas também de longas distâncias. As regiões mencionadas incluem praticamente a totalidade das principais regiões de Israel e países vizinhos. Iduméia (forma grega da palavra hebraica Edom) aqui se refere a uma grande área da Palestina ocidental ao sul da Judéia, e não ao antigo território edomita de Edom. 4 O próprio Jesus discipulou os Doze por meio do ensino constante e de estreita convivência, por isso foram designados apóstolos (em grego appostellç forma verbal de “apóstolo”, ou seja “comissionado”, “designado para uma missão”). Além dos discípulos esse termo se aplica à pessoa de Jesus (Hb 3.1), a Barnabé (At 14.14), a Paulo e a Matias (At 1.16-26), a Tiago, irmão do Senhor (Gl 1.19), e a alguns outros discípulos (Rm 16.7). No NT essa palavra é usada muitas vezes com um sentido mais genérico (Jo 13.16), sendo traduzida por “mensageiro”. O apostolado foi o dom principal concedido pelo Espírito Santo para estabelecer a Igreja de Cristo. Era necessário que o apóstolo fosse testemunha ocular da ressurreição ou comissionado por Jesus (1Co 1.1). Nem as Escrituras (AT e NT), nem a tradição da Igreja, desde os primórdios, apóiam a hierarquia eclesiástica com a instituição de um papa soberano e infalível no comando de apóstolos, bispos e ministros paroquianos.


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Mateus; Tomé; Tiago, filho de Alfeu; Tadeu; Simão, o zelote; 19 e Judas Iscariotes, que o traiu. O pecado sem perdão (Mt 12.22-32; Lc 11.14-23)

Foi então Jesus para casa. E uma vez mais grande multidão se apinhou, de tal maneira que Ele e os seus discípulos não conseguiam nem ao menos comer pão. 21 Quando os familiares de Jesus tomaram conhecimento do que estava acontecendo, partiram para forçá-lo a voltar, pois comentavam: “Ele perdeu o juízo!”5 22 Mas os mestres da lei, que haviam descido de Jerusalém exclamavam: “Ele está possuído por Belzebu!”, e mais: “É pelo príncipe dos demônios que ele expulsa os demônios”. 23 Foi então que Jesus os chamou mais para perto e lhes admoestou por parábolas: “Como é possível Satanás expulsar Satanás? 24 Se um reino estiver dividido contra si mesmo, não poderá subsistir. 25 Se uma casa se dividir contra si mesma, igualmente não conseguirá manterse firme. 26 Portanto, se Satanás se atira contra si próprio e se divide, não poderá subsistir, mas se destruirá. 27 De fato, ninguém pode entrar na casa do homem forte e furtar dali os seus bens, sem que primeiro o amarre. Só depois conseguirá saquear a casa dele. 20

MARCOS 3, 4

Com toda a certeza Eu vos asseguro que todos os pecados e blasfêmias dos homens lhes serão perdoados. 29 Todavia, quem blasfemar contra o Espírito Santo jamais receberá perdão. Pelo contrário, é culpado de pecado eterno”. 30 Jesus explicou isso porque eles estavam exclamando: “Ele está possesso de um espírito imundo”.6 28

Jesus, sua mãe e seus irmãos (Mt 12.46-50; Lc 8.19-21)

Foi quando chegaram a mãe e os irmãos de Jesus. E ficando do lado de fora, mandaram alguém chamá-lo. 32 E havia grande número de pessoas sentadas em torno dele; e lhe avisaram: “Olha! Tua mãe, teus irmãos e tuas irmãs estão lá fora e buscam por ti”. 33 Então, Ele lhes respondeu com uma questão: “Quem é minha mãe, ou meus irmãos?” 34 E, repassando com o olhar a todos que estavam sentados ao seu redor declarou: “Aqui estão minha mãe e meus irmãos! 35 Pois qualquer pessoa que fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, irmã e mãe”.7 31

A parábola do semeador (Mt 13.1-9; Lc 8.4-8)

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Retornou Jesus à beira-mar para ensinar. E a multidão que se juntou ao seu redor era tão numerosa que o forçou a entrar num barco, onde assentou-se. O

5 Um grupo de parentes e amigos de Jesus parte de Nazaré (terra natal de Jesus e sua parentela) e viaja cerca de 48 km para tentar levá-lo à força de volta para a casa de seus pais e irmãos (José já havia morrido nessa época), pois se preocupavam muito com a maneira como ele se entregava ao ministério de servir às multidões (Mt 1.25; Mt 12.46-50; Lc 2.7; Lc 8.19). Em hebraico, a maneira como Jesus responde não é agressiva, mas enaltece os laços espirituais que devem unir a família de Deus para que sejam ainda mais seguros, leais e duradouros, pois devem ter como princípio a obediência à Palavra. Esse foi o conceito-base que originou a Igreja. 6 Belzebu é uma antiga expressão hebraica (Baal-zebude significa “senhor das moscas”, 2Rs 1.2,16) ligada ao líder máximo dos demônios. A declaração de Jesus sobre a blasfêmia contra o Espírito Santo é das mais solenes. Entretanto, o pecado imperdoável não é um pensamento, ato ou palavra isolada, mas sim a persistente atitude de arrogância, oposição intencional e rejeição explícita a Jesus Cristo e Sua Palavra. Essa é a maneira de ser de todos aqueles que amam mais as trevas do que a Luz (Jo 3.19). Jesus não declarou que os mestres e líderes religiosos haviam efetivamente cometido esse pecado, mas que estavam em iminente perigo. 7 Os parentes de Jesus ainda não acreditavam na Sua pessoa como Filho de Deus e Senhor dos Senhores (Jo 7.5). Não há razão para concluir que os irmãos e irmãs de Jesus pudessem ser primos, filhos de José antes de seu casamento com Maria. Assim como não há base bíblica e histórica para se aceitar a doutrina da virgindade perpétua de Maria, mãe de Jesus, dogma católico instituído pelo Papa Pio IX em 1854.


MARCOS 4

barco estava no mar e todo o povo agrupava-se na praia.1 2 E, assim, Ele lhes transmitia muitos ensinamentos por parábolas, e enfatizava ao ministrar:2 3 “Escutai! Eis que o semeador saiu a semear. 4 Enquanto lançava a semente, parte dela caiu à beira do caminho, e chegaram as aves e a devoraram. 5 Outra parte caiu em solo pedregoso e, não havendo terra suficiente, nasceu rapidamente, pois a terra não era profunda. 6 Contudo, ao raiar do sol, as plantas se queimaram; e porque não tinham raiz, secaram. 7 Outra parte ainda caiu entre os espinhos; estes espinhos cresceram e sufocaram as plantas, e por isso não pôde dar frutos. 8 Finalmente, outras partes caíram em terra boa, germinaram, cresceram e ofereceram grande colheita, a trinta, sessenta e até cem por um”.3 9 E alertou: “Aquele que tem ouvidos para ouvir, ouça!”

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Jesus explica a parábola (Mt 13.10-23; Lc 8.9-15)

Quando se afastaram das multidões, os Doze e alguns outros que o seguiam lhe pediram para elucidar as parábolas. 11 Então, lhes revelou: “A vós foi concedido o mistério do Reino de Deus; aos de fora, entretanto, tudo é pregado por parábolas,4 12 com o propósito de que: ‘mesmo que vejam, não percebam; ainda que ouçam, não compreendam, e isso para que não se convertam e sejam perdoados’”.5 13 Então Jesus os questionou: “Se não compreendeis essa parábola, como podereis entender todas as outras? 14 O semeador semeia a Palavra. 15 Algumas pessoas são como a semente à beira do caminho, onde a Palavra foi semeada. Mas assim que a ouvem, Satanás vem e toma a Palavra nelas semeada. 16 Assim também ocorre com a que foi semeada em solo pedregoso: são as pessoas que, ao ouvirem a Palavra, logo a recebem com alegria. 17 Entretanto, visto que não têm raízes em si mesmas, são de pouca perseve10

1 Jesus posicionou-se de forma a facilitar a transmissão do ensino para um grande número de pessoas de uma só vez. Precisava evitar também o assédio das massas que literalmente o sufocavam na busca exclusiva da cura física. Jesus deseja ensinar seu povo a viver em plena comunhão com Deus, e esse era um desafio maior do que curar as enfermidades do corpo. Sentar-se era a postura tradicional dos mestres judeus da época (Mt 5.1; Lc 5.3; Jo 8.2). 2 As parábolas eram histórias tiradas da vida diária e usadas para ilustrar verdades espirituais e morais (Mt 13.3). Muitas vezes na forma de comparações, analogias ou ditos proverbiais. Essas histórias eram um valioso recurso didático usado pelos grandes mestres (2Sm 12.1-7 e Talmude). Conquistavam a atenção, prendiam o interesse, tornavam concretas idéias abstratas, levavam o ouvinte a uma decisão correta, e, no caso de Jesus, guardavam em sigilo o mistério do Reino para os desprovidos de interesse em adorar sinceramente a Deus e desenvolver uma sociedade justa (Mt 4.11-12; Lc 4.23, 15.3). 3 As sementes eram lançadas com o auxílio das mãos naquela época, e isso para que caíssem exatamente nas covas preparadas para o plantio. Entretanto, algumas caíam em terreno improdutivo. Todavia, Jesus anuncia uma colheita excepcional (Gn 26.12), chegando a render 100 plantas produtivas por semente plantada. A colheita sempre foi uma figura (símbolo) da consumação dos tempos e do Reino de Deus (Jl 3.13; Ap 14.14-20). 4 Em grego, a expressão “mistério” tem o sentido de “oculto”, “insondável”, “secreto”. No NT refere-se ao conhecimento do verdadeiro Deus. Verdade essa, outrora oculta, mas agora revelada na pessoa e obra de Jesus Cristo, o Filho de Deus. Porém, esse mistério não é acessível exclusivamente à razão humana; mas, sim, ao mais profundo dos sentimentos humanos (simbolizado no ocidente pelo coração, por ser um órgão vital, além do cérebro). A vontade de buscar a Deus e submeter-se à Sua Palavra, ilumina o coração do crente. O principal mistério é a revelação de Deus e Seus propósitos na pessoa de Cristo (Mt 16.17). Por isso, todos nós que fomos contemplados com essa revelação, devemos sentir grande júbilo e comemorar a Salvação todos os dias, agindo para com Deus e na sociedade como cidadãos do Reino: com amor e reverência, graça e justiça. Compreendese o “Reino” em dois momentos: o presente reino reconhecido pelos cristãos sinceros e que reside nos mesmos, os quais se submetem à vontade de seu Rei, Jesus Cristo, e o chamado “Reino Milenar”, que será inaugurado por ocasião da segunda (e iminente) volta de Cristo (Ap 20.2). 5 O estilo de pregação e ensino de Jesus se assemelha ao ministério de Isaías, o qual conquistou muitos discípulos (Is 8.16), mas igualmente desmascarou a falsidade e a dureza de muitos corações incrédulos face aos inúmeros apelos de Deus.


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rança. Ao surgir alguma tribulação ou perseguição por causa da Palavra, rapidamente sucumbem. 18 Outras ainda, como a semente lançada entre os espinhos, escutam a Palavra, 19 porém, quando chegam as preocupações da vida diária, a sedução da riqueza e todas as demais ambições, agridem e sufocam a Palavra, tornando-a infrutífera.6 20 Todavia, outras pessoas são como as que foram semeadas em terra boa: estas ouvem a Palavra, acolhem-na e oferecem farta colheita: a trinta, sessenta e até cem por um”.

MARCOS 4

A parábola do Reino (Mt 13.31-35; Lc 13.18-21)

Então contou-lhes que: “O Reino de Deus é semelhante a um homem que lançou a semente sobre a terra. 27 Enquanto ele dorme e acorda, durante noites e dias, a semente germina e cresce, embora ele desconheça como isso acontece. 28 A terra por si mesma produz o fruto: primeiro surge a planta, depois a espiga, e, mais tarde, os grãos que enchem a espiga. 29 Assim que as espigas amadurecem, o homem imediatamente lhes passa a foice, pois é chegado o tempo da colheita”.8 26

A parábola da luz encoberta (Lc 8.16-18)

A parábola do grão de mostarda

E lhes propôs: “Quem, porventura, traz uma candeia para colocá-la sob uma vasilha ou debaixo de uma cama? Ao invés, não a traz para ser depositada no candelabro? 22 Pois nada há de oculto que não venha a ser revelado, e nada em segredo que não seja trazido à luz do dia. 23 Se alguém tem ouvidos para ouvir, ouça!” 24 E seguiu ensinando: “Ponderai atentamente o que tendes ouvido! Pois com a medida com que tiverdes medido vos medirão igualmente a vós; e ainda mais vos será acrescentado! 25 Porquanto, ao que tem mais se lhe dará; de quem não tem, até o que tem lhe será retirado”.7

(Mt 13.31-35; Lc 13.18-21)

21

E contou-lhes mais: “Com o que compararemos o Reino de Deus? Que parábola buscaremos para p representá-lo? p 31 É como um grão de mostarda, que é a menor das sementes que se planta na terra. 32 Porém, uma vez semeada, cresce e se transforma na maior das hortaliças, com ramos tão grandes, a ponto de as aves do céu poderem abrigar-se sob a sua sombra”.9 30

O ensino parabólico de Jesus (Mt 13.34-35) 33 Assim, por meio de muitas parábolas semelhantes Jesus lhes comunicava a Palavra, conforme a medida das possibili-

6 A prosperidade, a cultura e a boa formação acadêmica podem oferecer uma falsa e temporária sensação de auto-suficiência e segurança (10.17-25; Dt 8.17,18; 32.15; Ec 2.4-11; Tg 5.1-6). Por outro lado, a pobreza, as perdas e os sofrimentos, podem produzir rancor e mágoas injustas contra Deus (Ec 7.29; Rm 8.28). 7 Aqui temos uma exortação para não ficarmos reclamando do que nos falta, mas juntarmos tudo o que temos – no sentido de condições humanas e recursos vários – e investirmos em nosso crescimento espiritual e humano no Reino de Deus. Deus conhece bem todas as nossas limitações e não espera que venhamos a ser perfeitos, ou consigamos isso ou aquilo, para vivermos plenamente (Jo 10.10). Quanto mais nos apropriamos da Verdade (a Palavra) agora, tanto mais recebe-remos no futuro. Se não valorizarmos e correspondermos ao pouco de revelação que temos recebido, aqui e agora, nem isso nos adiantará no futuro. 8 Esta parábola foi registrada apenas no livro de Marcos. Enquanto a história do semeador revela a importância de um solo fértil para receber a boa semente (a Palavra); aqui se evidencia o poder misterioso da própria semente: com o passar do tempo, vai realizando seu trabalho de fazer germinar, crescer e dar frutos (1Pe 1.23-25). Devemos, portanto, semear sempre e em todos os corações humanos sobre a face da terra. 9 Embora possua uma das menores sementes dentre as hortaliças, a mostarda palestina pode crescer até uma altura de 4 metros. A parábola ilustra a expansão poderosa e impressionante do Cristianismo em todo o mundo, apesar do seu humilde início: um pobre mestre vindo de uma inexpressiva família e cidade da Galiléia que, seguido por um pequeno grupo de homens – quase todos incultos – pregou durante alguns anos sobre a chegada do Reino, afirmando ser Deus encarnado.


MARCOS 4, 5

dades de compreensão de seus ouvintes. 34 E nada lhes transmitia sem usar alguma parábola. Entretanto, quando estava em particular com os seus discípulos, explicava-lhes tudo clara-mente. A tempestade se submete a Jesus (Mt 8.23-27; Lc 8.22-25)

Naquele mesmo dia, ao cair da tarde, pediu aos seus discípulos: “Passemos para a outra margem”.10 36 Eles, então, despedindo-se da multidão, o levaram no barco, assim como estava. E outros barcos o seguiam. 37 Aconteceu que levantou-se um tremendo vendaval, e as grandes ondas se jogavam para dentro do barco, de maneira que este foi se enchendo de água.11 38 Jesus estava na popa, dormindo com a cabeça sobre um travesseiro. Os discípulos o despertaram e suplicaram: “Mestre! Não te importas que pereçamos?”12 39 Então, Ele se levantou, repreendeu o vento e ordenou ao mar: “Aquieta-te!

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Silencia-te!” E logo o vento serenou, e houve completa bonança. 40 E indagou aos seus discípulos: “Por que sois covardes? Ainda não tendes fé?” 41 Os discípulos, contudo, estavam tomados de terrível pavor e comentavam uns com os outros: “Quem é este que até o vento e o mar lhe obedecem?”13

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A libertação de um possesso (Mt 8.28-34; Lc 8.26-39)

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E assim, atravessaram o mar e foram para a região dos gerasenos.1 2 Logo que Jesus desceu do barco, veio dos sepulcros, caminhando ao seu encontro, um homem possuído por um espírito imundo. 3 Esse homem vivia em meio aos sepulcros e não havia quem conseguisse dominá-lo, nem mesmo com correntes. 4 Muitas vezes já haviam acorrentado seus pés e mãos, mas ele arrebentava os grilhões e estraçalhava algemas e correntes. Ninguém tinha força para detê-lo. 5 E, noite e dia, sem repouso, perambula-

10 Jesus partiu do território da Galiléia com o objetivo de ir até a margem leste do mar da Galiléia; a região dos gerasenos (5.1). 11 O mar (ou grande lago) da Galiléia, localizado numa bacia cercada por montanhas, onde se destaca o monte Hermon, ainda

hoje é sujeito a grandes tempestades, que descem às vezes dos altos montes e atingem com violência o lago de Quinerete (ou Tiberíades), que fica 200 metros abaixo do nível do mar Mediterrâneo. 12 A impetuosidade e o temor dos discípulos ilustram claramente o comportamento humano diante das várias situações adversas da vida. Temos a tendência de perguntar: Por quê? Ou de instigar a Deus como se Ele fosse nosso segurança pessoal: O Senhor não está vendo? Em contraste, temos a segurança tranqüila de Jesus ao nosso lado (Lc 8.23). Mais tarde, a Igreja Primitiva veria nesta experiência um grande consolo, diante das terríveis perseguições que sofreria por amor a Cristo e à evangelização dos povos. Por isso, desde os primórdios, a figura do barco passou a ser identificada como um dos símbolos da Igreja, na arte cristã. É compreensível que sintamos medo e insegurança. Todavia, Jesus não admite que seus filhos sejam covardes (literalmente em grego , pessoas que perdem o ânimo, a vontade de lutar, e se desesperam; tímidos - no sentido de medrosos – pois não confiam em um amigo que os possa ajudar). Nossa fé deve ir além da certeza de que Jesus está conosco e pode sanar qualquer dificuldade; devemos crer que – haja o que houver – Ele nos ajudará a atravessar os problemas e a chegar em terra firme (Sl 23). 13 Esta é a grande e angustiante pergunta da humanidade. Todas as pessoas, um dia, terão de dar uma resposta objetiva a essa questão. Se respondermos a ela como fez Marcos (1.1), devemos seguir a Jesus como Nosso Rei e Filho de Deus. Se nossa resposta for qualquer coisa diferente disso, devemos assumir as conseqüências da incredulidade (3.28-29). Deus demonstrou Sua presença em Cristo, e não apenas o Seu poder (Sl 65.7; 107.25-30; Pv 30.4). Jesus ainda investiria muito tempo e energia em ensino e discipulado; realizaria também muitos outros milagres e sinais até que seus seguidores se dessem conta da Sua plena divindade; de que eram pessoas salvas e cidadãos do Reino, e da missão para a qual foram escolhidos e chamados como discípulos. Capítulo 5 1 Gerasa ficava cerca de 60 km a sudeste do mar da Galiléia e chegou a possuir terras no litoral leste do mar, dando seu nome à pequena aldeia onde Jesus e seus discípulos aportaram. Hoje é conhecida como Khersa. Próximo dali, menos de 2 km ao sul, há um precipício íngreme, e não distante encontram-se ruínas de cavernas que abrigaram antigos túmulos. Algumas pessoas, especialmente gentios (não judeus), doentes e sem família costumavam viver nessas cavernas em meio aos sepulcros. Alguns manuscritos gregos de Mateus (Mt 8.28-34), denominam os habitantes desse território de “gadarenos”, outros originais dizem “gergesenos”. A maioria da população dessa região era formada por gentios, como revela a grande criação de porcos. Animais considerados impuros pelos judeus e, portanto, proibidos de servirem como alimento ou sequer serem tocados.


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va por entre os sepulcros e pelas colinas, gritando e cortando-se com lascas de rocha.2 6 Ao avistar Jesus, ainda de longe, correu e atirou-se aos seus pés. 7 E clamou aos berros: “Que queres de mim, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Suplico-te por Deus que não me atormentes!”3 8 Pois Jesus já lhe havia ordenado: “Sai deste homem, espírito imundo!” 9 Todavia, Jesus o interrogou: “Qual é o teu nome?” Respondeu ele: “Meu nome é Legião, porque somos muitos”.4 10 E implorava insistentemente para que Jesus não os mandasse para fora daquela região.5 11 Enquanto isso, perto dali, numa colina vizinha, uma grande manada de porcos estava pastando. 12 Foi então que os demônios rogaram a Jesus: “Manda-nos para os porcos, para que entremos neles”. 13 E Jesus lhes deu permissão, e os espíritos imundos deixaram o homem e entraram nos porcos. E a manada com cerca de dois mil porcos atirou-se pre-

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cipício abaixo, em direção ao mar, e nele se afogaram. 14 As pessoas que apascentavam os porcos fugiram e relataram esses fatos na cidade e nos campos, e todo o povo correu para ver o que se havia passado. 15 Quando chegaram próximo de Jesus, observaram ali o homem que fora tomado por uma legião de demônios, assentado, vestido e em perfeito juízo. E ficaram assustados. 16 Os que presenciaram os fatos narraram ao povo o que havia ocorrido com o endemoninhado, e contaram também sobre os porcos. 17 Então o povo começou a implorar a Jesus que se afastasse daquela região que lhes pertencia. 18 E, quando Jesus estava entrando no barco, o homem que fora possuído pelos espíritos imundos, rogava-lhe que o deixasse seguir com Ele. 19 Jesus não consentiu; entretanto, orientou-o: “Vai para tua casa, para a tua família e anuncia a eles tudo quanto Deus tem realizado a teu favor, e como teve misericórdia de ti”.6

2 A descrição do estado deste homem, invadido e dominado por um exército de demônios, representa em detalhes a situação da humanidade em todas as partes do mundo. O propósito e a força de Satanás e seus espíritos fica igualmente bem evidente (Jo 10.10). O ser humano é a mais preciosa obra de Deus; no qual projetou Sua própria imagem (em grego eikõn cujo significado é “semelhança derivada, que implica num arquétipo” – Gn 1.27; 9.6). Os demônios têm a missão de atormentar e destruir a semelhança divina (em latim imago Dei) nos seres humanos. 3 O sentido original da frase em hebraico traz a idéia de “O que temos a ver um com o outro?” Expressões semelhantes são encontradas no AT (2Sm 16.10; 19.22), e que podem significar: “Cuide dos seus assuntos!” Ao perceber que seria castigado severamente, o líder dos demônios ironizou um apelo, reconhecendo com precisão a majestade da pessoa de Cristo. A expressão “Altíssimo” era um vocábulo muito especial, usado principalmente por gentios, para se referir à soberania de Deus. Em grego transliterado Hupistos e, em hebraico Elyon (Gn 14.18-22; Nm 24.16; Is 14.14; Dn 3.26; 4.2). 4 A expressão latina “legião” era muito conhecida na época, pois representava uma força militar romana composta de até 6.000 soldados. O termo indica que o homem estava possuído por grande quantidade de demônios. Era comum entre os mestres em exorcismo, procurar conhecer o nome individual dos espíritos que haviam tomado o corpo de determinada pessoa. Eles acreditavam que só assim podiam dominar totalmente cada um desses demônios e expulsá-los. Jesus demonstrou que incorporava em si o poder de Deus, expulsando milhares de espíritos sem lhes pedir qualquer identificação. Apenas mencionando o nome do líder, que estava absolutamente fragilizado e apavorado com a simples presença de Jesus. 5 Satanás e seus demônios são estrategistas sagazes, podem se organizar em exércitos para tentar o domínio de territórios e regiões (o termo grego chõran, foi traduzido em algumas versões da Bíblia como “país”, entretanto, sua tradução mais apropriada é “região”). Porém, o grande temor desses espíritos é serem mandados para o castigo eterno. Ou seja, “para o abismo”, lugar de confinamento destinado aos espíritos malignos e ao próprio Satanás (Ap 9.1-11). 6 Jesus envia o homem gentio, agora salvo, como missionário (Mt 28.19), para pregar aos seus. Entre os gentios pagãos não havia necessidade de guardar temporariamente o segredo messiânico que tantas vezes Jesus pediu aos seus irmãos judeus (Mt 8.4; Mc 1.34,44; 3.12). A palavra “Senhor” (Lc 8.39), em hebraico e no dialeto aramaico, refere-se a “Deus” (nome que os judeus não pronunciam em sinal de respeito, e quando o escrevem em português o fazem com um hífen no lugar da letra “e”, ou seja: “D-us”, tendo em mente o tetragrama hebraico impronunciável do AT ).


MARCOS 5

Então, partiu aquele homem, e começou a pregar por toda a Decápolis as coisas que Jesus havia feito por ele. E todos ficavam maravilhados.7 20

Jesus vence a doença e a morte (Mt 9.18-26; Lc 8.40-56)

E retornando Jesus de barco para a outra margem, numerosa multidão, uma vez mais, se formou ao seu redor, enquanto estava na praia. 22 Foi quando chegou ali um dos dirigentes da sinagoga local, chamado Jairo. Ao ver Jesus, prostrou-se aos seus pés.8 23 E lhe pediu aos prantos e com insistência: “Minha filha pequena está à beira da morte! Vem, impõe tuas mãos sobre ela, para que seja curada e viva”. 24 Então Jesus foi com ele. E uma enorme multidão o acompanhava, apertando-o de todos os lados. 25 E estava por ali certa mulher que, havia doze anos, vinha padecendo de hemorragia. 26 Ela já tinha sofrido demasiado sob os cuidados de vários médicos e gastara tudo o que possuía; porém, em vez de melhorar, ia de mal a pior.9 27 Tendo ouvido falar a respeito de Jesus, passou pelo aglomerado de pessoas e conseguiu tocar em seu manto. 28 Pois dizia consigo mesma: “Se eu puder ao menos tocar as suas vestes, ficarei curada”.10 21

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E, naquele instante, se lhe estancou a hemorragia, e a mulher sentiu em seu corpo que estava liberta do seu sofrimento. 30 No mesmo momento, ao sentir que do seu interior fora liberado poder, Jesus virando-se em meio à multidão, inquiriu: “Quem tocou em meu manto?”11 31 Ao que os discípulos alegaram-lhe: “Vês a multidão que te comprime de todos os lados e perguntas: ‘Quem me tocou?’” 32 No entanto, Jesus continuou olhando ao seu redor, esperando ver quem havia feito aquilo. 33 Então, a mulher, assustada e trêmula, sabendo o que lhe tinha sucedido, aproximou-se e prostrando-se aos seus pés declarou-lhe toda a verdade. 34 E Jesus afirmou-lhe: “Minha filha, a tua fé te salvou! Vai-te em paz e estejas liberta do teu sofrimento”. 35 Enquanto Jesus ainda estava falando, chegaram algumas pessoas vindas da casa de Jairo, o dirigente da sinagoga, a quem informaram: “Tua filha já está morta! Não adianta mais incomodar o Mestre”. 36 Mas Jesus não deu atenção àquelas notícias, e voltando-se para o dirigente da sinagoga o encorajou: “Não temas, tão somente continue crendo!”12 37 E ordenou que ninguém o acompanhasse a não ser Pedro, Tiago e João, irmão de Tiago.13 29

7 Decápolis era uma confederação formada por dez cidades gregas, localizadas ao nordeste da Palestina, e incluía a famosa cidade de Damasco. 8 O dirigente de uma sinagoga, ou numa forma arcaica: “o principal”, era comumente um leigo com habilidades e responsabilidades administrativas, entre elas: zelar pelo patrimônio, atender às necessidades legais e sociais exigidas e cooperar para que os rabinos pudessem dedicar-se completamente ao ministério pastoral e do ensino. Em grandes sinagogas podia haver até uma equipe de “administradores” (At 13.15). 9 Além do sofrimento físico crônico, a mulher ainda sofria o desprezo da sociedade da época por ser considerada impura. Pela lei qualquer pessoa que se aproximasse dela ficaria igualmente impura (Lv 15.25-33). O Talmude (interpretação e aplicação da Lei de Moisés ao contexto da vida diária dos judeus) registrava uma série de remédios e tratamentos receitados para doenças de vários tipos. 10 Mateus especifica que o toque ocorreu “na orla” do manto (Mt 23.5). 11 A palavra grega aqui traduzida como “poder” é dunamis, o termo mais usado para designar “milagre” e significa o poder sobrenatural e pessoal de Deus. Curiosamente, o termo grego, usado por Jesus, está no feminino, indicando assim que o Senhor tinha conhecimento de “quem” o tocara, porém, desejava que a mulher testemunhasse e solidificasse sua fé em Deus. Embora a cura tivesse sido importante (como sempre é), Jesus fez uso de um jogo de palavras para revelar claramente ao coração daquela mulher que ainda mais importante do que a saúde física é a salvação eterna da alma, e por isso escolheu a palavra “salvou” (vs.34), no original em grego . 12 Os tempos verbais no original grego formam a seguinte frase literal: “Pára de temer; continua crendo”. 13 Pedro, Tiago e João tinham um relacionamento especial, mais chegado com Jesus (At 3.1). Jesus permitiu a presença de


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Assim que chegaram à casa do dirigente da sinagoga, Jesus observou grande agitação, com muitas pessoas consternadas, chorando e se lamentando em alta voz. 39 Ao entrar na casa lhes questionou: “Por que estais em alvoroço e pranteais? A criança não morreu, mas está dormindo!” 40 E todos ali menosprezaram o juízo feito por Jesus. Ele, contudo, mandou que saíssem, chamou para perto de si o pai e a mãe da criança, bem como os discípulos que estavam em sua companhia, e adentrou o recinto onde jazia a criança. 41 Então, pegando na mão da menina, ordenou em aramaico: “Talitha koum!”, que significa “Filhinha! Eu te ordeno, levanta-te!”14 42 E no mesmo instante, a menina que tinha doze anos de idade, ergueu-se do leito e começou a andar. Diante disso, todos ficaram assombrados. 43 Então Jesus lhes recomendou expressamente para que nenhuma outra pessoa viesse a saber do que haviam presenciado. E mandou que dessem algo de comer à menina. 38

Jesus é rejeitado pelos seus (Mt 13.53-58; Lc 4.16-30)

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Então, partiu Jesus dali e foi para sua terra natal, na companhia dos seus discípulos.

MARCOS 5, 6

2 Com a chegada do sábado, começou a ensinar na sinagoga local, e muitos dos que o escutavam ficavam admirados e exclamavam: “De onde lhe vem tudo isto? E que sabedoria é esta que lhe foi outorgada? 3 Não é este o carpinteiro, filho de Maria e irmão de Tiago, José, Judas e Simão? E não convivem conosco suas irmãs?” E ficaram escandalizados por causa dele.1 4 Contudo Jesus lhes afirmou: “Somente em sua própria terra, junto aos seus parentes e em sua própria casa, é que um profeta não é devidamente honrado”.2 5 E, por isso, não podia realizar ali nenhum milagre, com exceção feita a alguns doentes, que ao impor de suas mãos foram curados. 6 E perplexo com a falta de fé por parte dos seus, passou a percorrer os povoados vizinhos e os ensinava.

Jesus envia os Doze em Missão (Mt 10.5-15; Lc 9.1-6)

Convocou então os Doze para junto de si e os enviou de dois em dois, concedendo-lhes autoridade sobre os espíritos imundos.3 8 E determinou que nada levassem pelo caminho, a não ser um cajado somente; nem pão, nem mochila de viagem, nem dinheiro em seus cintos. 9 Que andassem calçados com sandálias, 7

apenas cinco testemunhas, na ocasião deste milagre. Isso para evitar uma divulgação imediata e incontrolável da notícia. Era de vital importância, para sua Missão, que Jesus não fosse alvo da atenção das autoridades religiosas judaicas, especialmente na Judéia. 14 Marcos é o único dos Evangelhos que, nesse caso, conserva a expressão original em aramaico, dialeto hebraico falado mais precisamente na cidade de Nazaré, por Jesus, seus familiares e discípulos. A expressão transliterada Talitha koum! (pronuncia-se “Talita cumi!”), e significa literalmente “Cordeirinha, levante-se!” Capítulo 6 1 Mateus apresenta Jesus como “o filho do carpinteiro” (Mt 13.55), Marcos informa que ele também foi carpinteiro. A palavra grega usada por Marcos descreve o trabalho de um artesão, análise que leva à conclusão de que Jesus poderia igualmente ter trabalhado como escultor, ferreiro ou marceneiro, juntamente com seus familiares. O termo “escândalo” foi literalmente usado nos originais em grego para descrever a reação de alguns parentes e conhecidos de Jesus, que sabendo que ele era um trabalhador braçal (como a maioria deles), nascido em uma família humilde, não conseguiam compreender, nem aceitar, como Jesus podia pregar com tanta unção e sabedoria. Justino Mártir (por volta de 160 d.C.) relata em seus escritos que em sua época era comum às pessoas procurarem artigos de madeira feitos por Jesus. 2 Jesus revelou várias profecias antigas que anteviam sua chegada e ministério messiânico, uma delas é sobre o Profeta de Dt 18.15,18. O primeiro dos grandes sermões de Pedro, em Atos, mostra claramente que Jesus é o sucessor maior de Moisés e Davi (At 3.22). 3 Os discípulos saíram para ministrar em duplas, isso reforçaria a credibilidade dos testemunhos, conforme a lei (Dt 17.6), além de oferecer encorajamento mútuo durante o tempo de ministério no campo missionário. Eles receberam autoridade da mesma fonte que abastecia Jesus (Jo 17.2), a qual Ele concede aos seus discípulos ainda hoje (Lc 9.1; Jo 20.21-23).


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mas não carregassem duas túnicas.4 10 E recomendou-lhes: “Sempre que entrardes em uma casa, nela permanecei até vos retirardes de lá. 11 Contudo, se alguma aldeia não vos receber nem vos quiser ouvir, ao partirdes desse lugar, sacudi a poeira de debaixo de vossos pés como testemunho contra eles”.5 12 Eles partiram e pregavam que todos se arrependessem. 13 E expulsavam muitos demônios; ungiam com óleo a inúmeros doentes e os curavam.6 João Batista é executado (Mt 14.1-12; Lc 9.7-9)

E essas notícias chegaram aos ouvidos do rei Herodes, porquanto o nome de Jesus já havia se tornado célebre. Algumas pessoas estavam comentando: “João Batista ressuscitou dos mortos! Essa deve ser a razão pela qual através dele se operam poderes milagrosos”. 15 Entretanto, outros alegavam: “Ele é Elias!”. E ainda outros declaravam: “Ele é profeta, como um daqueles profetas do passado”.7 16 Mas quando Herodes tomou conheci14

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mento do que se comentava, exclamou: “João, a quem mandei decapitar, ressuscitou dos mortos!”. 17 Porque o próprio Herodes havia expedido as ordens para que prendessem João e o acorrentassem no cárcere por influência de Herodias, esposa de Filipe, seu irmão, com a qual viera a se casar. 18 Pois, na ocasião, João havia admoestado a Herodes: “Não te é lícito viver com a mulher do teu irmão!”.8 19 E por esse motivo Herodias o odiava e tencionava matá-lo. Contudo não conseguia realizar seu intento. 20 Porquanto Herodes temia a João, e sabedor de que era um homem justo e santo, o protegia. E quando o ouvia ficava admirado, e o escutava com prazer.9 21 Finalmente Herodias teve a ocasião oportuna que ansiava. No dia do aniversário dela, Herodes ofereceu um banquete aos seus líderes mais destacados, aos comandantes militares e às principais personalidades da Galiléia. 22 E aconteceu que a filha de Herodias se apresentou dançando e muito agradou a Herodes e aos convidados. Então, o rei brindou a jovem: “Pede-me o que desejares, e eu te darei!”.

4 Ganhar a vida comunicando mensagens de otimismo e legalismo, sem uma sólida base bíblico-teológica não é uma invenção do capitalismo, nem apenas prática comum nos dias de hoje. Na época de Cristo já havia muitos mestres que cobravam altos cachês para pregar mensagens meramente humanas, mas apresentadas como divinas (2Co 2.17). Uma característica desses falsos mestres era a preocupação exagerada com o próprio suprimento financeiro. Por isso, Jesus mandou que seus discípulos se preocupassem exclusivamente em servir a Deus proclamando o Evangelho, e descansassem absolutamente na provisão divina quanto à totalidade das suas demais necessidades (Mt 10.10; 1Co 9.7-11; Gl 6.6). Dependeriam da sua fé no Senhor, que tocaria o coração dos seus ouvintes para suprí-los do pão, das vestes e do alojamento de cada dia. Uma túnica, extra, poderia servir de cobertor durante as frias noites no deserto, mas Jesus prometeu-lhes uma família para compartilhar as Boas Novas, e uma casa onde se alimentar e repousar. Não ficariam ao relento e sem amparo, como muitos falsos mestres. 5 Os pagãos eram tão repugnantes para os judeus, que até o pó de suas sandálias era motivo de rejeição. Jesus usa essa metáfora para ilustrar o mal que a rejeição ao Evangelho e aos verdadeiros ministros do Evangelho pode causar. Recusar as Boas Novas reduz qualquer pessoa, inclusive um judeu, ao nível do mais asqueroso dos pagãos. E essa é uma advertência igualmente válida para os nossos dias. Isso aumenta a responsabilidade do povo de Deus de não dar motivos para que os que ainda não crêem rejeitem a mensagem das Boas Novas. 6 Jesus curou inúmeras pessoas e multidões sem jamais ter usado óleo, mas recomendou aos discípulos que assim o fizessem, pois era uma prática antiga dos judeus, e esse deveria ser mais um sinal de dependência do Senhor (Is 1.6; Lc 10.34; Tg 5.14). 7 João passou a vida pregando e preparando o coração das pessoas para a vinda de Jesus (Ml 4.5-6), sem nunca ter realizado um milagre (Jo 10.41), mas havia o temor de que, se ele viesse a ressuscitar, todos os milagres lhe seriam possíveis (Mt 12.39-40). Marcos usou o título popular de Herodes, uma vez que ele não era rei de fato, mas o tetrarca da região. 8 Flávio Josefo relata em seus escritos que João ficou encarcerado em Maquero, uma fortaleza localizada na Peréia, a leste do mar Morto. Herodias era neta de Herodes, o grande, e Marianne; sobrinha de Herodes. Enquanto o irmão de Herodes vivia, este último não podia se casar com sua cunhada ainda que divorciada do marido; visto que, pela lei, isso é considerado adultério (Lv 18.16; 20.21).


19 23 E sob juramento lhe assegurou: “Se pedires, ainda que seja a metade do meu reino, eu te darei!”.10 24 Diante disso, saiu a moça e consultou sua mãe: “O que devo pedir?”. Ao que ela recomendou: “A cabeça de João Batista!”. 25 Sem demora, retornando imediatamente à presença do rei, formalizou seu pedido: “Quero que me dês agora mesmo a cabeça de João Batista sobre um prato!” 26 Então, grande angústia sobreveio ao rei, mas devido ao juramento que fizera e aos convivas que se reclinavam ao redor da sua mesa, não quis deixar de atendê-la. 27 Mandou, portanto, imediatamente um carrasco com ordens para trazer a cabeça de João. O executor foi e decapitou João na prisão. 28 E, trazendo a cabeça de João sobre um prato, a entregou à jovem, e esta, em seguida, a ofereceu à sua mãe. 29 Assim que souberam do fato, os discípulos de João foram até lá, resgataram o corpo e o depositaram em um sepulcro.

Jesus multiplica o pão (Mt 14.13-21; Lc 9.10-17; Jo 6.1-15) 30 Retornaram os apóstolos e reuniramse com Jesus para lhe relatar tudo quanto haviam realizado e ensinado. 31 Então convidou-lhes Jesus: “Vinde somente vós comigo, para um lugar deserto, e descansai um pouco”. Pois, a multidão dos que chegavam e partiam

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era tão grande que eles sequer tinham tempo para comer. 32 E saindo de barco foram para um local despovoado. 33 Entretanto, muitos dos que os viram retirar-se, tendo-os reconhecido, saíram correndo a pé de todas as cidades e chegaram lá antes deles. 34 Quando Jesus desceu do barco e observou aquele enorme ajuntamento de pessoas, sentiu compaixão por elas, porquanto eram como ovelhas sem pastor. E, sem demora, passou a ministrar-lhes muitas orientações.11 35 Com o passar das horas, o final da tarde estava chegando, e por isso, os discípulos se aproximaram de Jesus e avisaram: “Este lugar é deserto e a hora já muito avançada!12 36 Despede, pois, a multidão para que possam ir aos campos e povoados vizinhos comprar para si o que comer”. 37 Jesus porém os instruiu: “Provede-lhes vós mesmos de comer”. Ao que lhe replicaram: “Devemos ir e comprar cerca de duzentos denários de pão para dar-lhes de comer?”13 38 Mas Jesus lhes indaga: “Quantos pães tendes? Ide verificar!”. E tendo-se informado, comunicaram: “Cinco pães e dois peixes”. 39 Então Jesus determinou-lhes que fizessem com que todo o povo se acomodasse em grupos, reclinados sobre a relva verde do campo.14

9 Herodes gostava de ouvir a mensagem de João e chegava a ficar confuso em relação à sua vida e à proposta do Reino. Entretanto, como infelizmente ocorre com muitas pessoas, seu coração não se arrependia e, portanto, não podia haver conversão (At 26.28). Gostar dos princípios bíblicos ou acreditar que a vida cristã é um bom caminho não é o suficiente para salvar qualquer pessoa. 10 Oferecer metade do reino era uma força de expressão antiga e típica dos monarcas que durante celebrações especiais gostavam de demonstrar sua generosidade com a finalidade de bem impressionar seus convidados (Et 5.3,6). Herodes não era rei, embora apreciasse ser considerado assim, segundo os escritos de Josefo. Meio embriagado, prometeu a Salomé, filha de Herodias, o que não podia dar, pois era vassalo de Roma. 11 Jesus viu as pessoas como ovelhas sem pastor (Sl 23.1,2), pois: 1) Carecem de alimento espiritual e da água da vida (Jo 6.35). 2) Necessitam de direção para encontrar o aprisco eterno (Jo 10.16) e 3) Precisam de proteção contra o Inimigo (Jo 10.28). 12 O vocábulo “deserto”, embora signifique apenas um lugar não habitado, e que se situava a nordeste do grande lago (chamado de mar) da Galiléia, liga o milagre de Jesus à provisão de Deus para seu povo no deserto, quando lhes enviou o maná (Êx 16). 13 Um dia de trabalho braçal correspondia, em geral, a um denário (Mt 20.2). Os discípulos estavam calculando um valor equivalente a cerca de oito meses de trabalho de uma pessoa. 14 Ao redor da Galiléia é comum a grama ficar bem verde nos finais de inverno. Jesus usou a expressão “reclinar”, que era a maneira típica como os povos orientais da época se postavam às refeições. Era como se os discípulos estivessem avisando que o almoço seria servido em breve.


MARCOS 6

E assim o fizeram, assentando-se em grupos de cem em cem e de cinqüenta em cinqüenta.15 41 E, tomando Ele os cinco pães e os dois peixes, elevou os olhos ao céu, rendeu graças e partiu os pães. A seguir, os entregou aos seus discípulos para que os servissem ao povo. Da mesma maneira repartiu os dois peixes entre toda a multidão ali reunida. 42 Todas as pessoas comeram à vontade e ficaram satisfeitas.16 43 Os discípulos ainda recolheram doze cestos repletos de pedaços de pão e de peixe. 44 E foram alimentados cinco mil homens naquele dia. 40

Jesus caminha sobre as águas (Mt 14.22-36; Jo 6.16-24)

Logo em seguida, insistiu com os discípulos para que entrassem no barco e seguissem adiante dele para Betsaida, enquanto Ele se despedia do povo.17 46 Tendo-o despedido, subiu a um monte para orar. 45

20

Chegando a noite, o barco estava no meio do mar, e Jesus encontrava-se sozinho em terra. 48 Ele notou que os discípulos remavam com dificuldade, pois o vento soprava contra eles. Em plena madrugada, Jesus vinha na direção deles, andando sobre o mar; e já estava prestes a passar por eles.18 49 Assim que o viram caminhando sobre as águas, logo pensaram se tratar de um fantasma. E por isso gritaram.19 50 Pois todos o tinham visto e ficaram apavorados. Contudo, Jesus lhes anunciou: “Tende coragem! Sou Eu! Não tenhais medo!”. 51 Então logo subiu no barco para junto deles, e o vento se acalmou; e eles ficaram pasmos. 52 Afinal, eles nem tinham entendido o milagre dos pães, porquanto seus corações se mantinham endurecidos.20 47

Muitos creram e foram curados (Mc 14.34-36)

Depois de atravessarem o mar, chegaram a Genesaré e ali aportaram.21 53

15 Essa formação relembra a ordem do acampamento mosaico no deserto (Êx 18.21). A palavra “grupos” (em grego,

) significa: “canteiros de jardim”. 16 O antigo ato de graças judaico pelo pão era baseado na Torá: “Louvado sejas Tu, ó Senhor, nosso Deus, Rei do mundo, que

tiras pão da terra” (Lv 19.24). Os pães e os peixes passaram a representar a ceia do Senhor nas obras de arte da igreja primitiva, e muitas delas foram encontradas nas catacumbas de Roma. Alguns historiadores e teólogos tentam diminuir o impacto deste milagre de Jesus alegando que ele teria repartido seu almoço com os discípulos, e esses orientado os grupos para, da mesma forma, dividir entre si o alimento que cada pessoa teria trazido. Entretanto é sugestivo que o próprio Jesus tenha pedido aos discípulos para verificarem quantos pães e peixes havia entre eles (v.38); e foi a partir da multiplicação dessas poucas unidades que se produziu o suficiente para fartar 5.000 homens (na época não se contavam as mulheres e crianças) a ponto de sobrar doze cestos cheios de pedaços que, conforme a tradição judaica, deveriam ser recolhidos do chão (Mt 15.37). Além disso, havia profecias por meio das quais Deus prometera que com a chegada do verdadeiro Pastor, o deserto se tornaria em pastagens verdejantes onde as ovelhas seriam acolhidas e alimentadas (Ez 34.23-31), e aqui o Messias celebra um banquete com seus seguidores no deserto (Is 25.6-9). Considerando que as cidades vizinhas, Cafarnaum e Betsaida, tinham uma população de cerca de 2500 pessoas cada, a multidão que se reuniu com Jesus veio de vários lugares e representou um ajuntamento significativo para os padrões da época. E essas notícias abalaram os líderes judaicos e romanos. 17 João informa que o povo estava disposto a levar Jesus à força, e coroá-lo rei dos judeus (Jo 6.14,15), por isso, ele mandou seus discípulos para o outro lado do lago enquanto, sem ser notado, subia o monte para orar só. 18 A expressão “por volta da quarta vigília da noite”, como consta dos originais, significa um período de tempo que vai das três às seis horas da manhã (Mt 14.25). Ao andar sobre as águas, Jesus demonstra uma vez mais o poder majestoso e transcendente do Senhor, que reina sobre o mar (grande motivo de temor dos judeus) e todas as demais forças da natureza (Sl 89.9; Is 51.10,15; Jr 31.35). 19 As lendas e superstições alimentadas entre a população judaica afirmavam que a visão de um fantasma perambulando durante a noite, era sinal de grande desgraça iminente. Somado ao medo natural que os judeus tinham do mar, é certo que os discípulos ficaram aterrorizados com a impressão de que estavam sendo atacados por um terrível espírito das profundezas das águas. 20 Para Deus é mais fácil dominar as forças da natureza e do cosmo, do que fazer o coração humano acreditar em Jesus com fé e obediência amáveis. Como os israelitas no deserto, os discípulos presenciaram muitos milagres portentosos; mesmo assim, em seu íntimo, eram incrédulos; seus corações estavam empedernidos, à semelhança dos opositores de Jesus (8.17-21; Êx 4.21). 21 Genesaré era uma planície muito fértil, localizada a sudoeste de Cafarnaum. Uma analogia à fertilidade da fé que as


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Logo que desembarcaram o povo reconheceu Jesus. 55 Multidões viajavam por toda aquela região, levando seus enfermos em macas, para onde ouviam que Ele estava. 56 E onde quer que Ele fosse ministrar, povoados, cidades ou campos, a população trazia os doentes para as praças. E imploravam-lhe que pudessem ao menos tocar na borda do seu manto; e todos os que nele tocavam eram curados. 54

Jesus e os mestres da lei (Mt 15.1-20)

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E ocorreu que alguns mestres da lei e fariseus, vindos de Jerusalém, reuniram-se em volta de Jesus.1 2 Observaram que alguns dos seus discípulos comiam os pães com as mãos impuras, isto é, sem lavá-las.2 3 Pois os fariseus e todos os judeus não se alimentam sem lavar as mãos de forma cerimonial, preservando a tradição dos antigos. 4 Quando chegam da rua, não tocam nos alimentos sem antes se banharem. Além disso há muitos outros costumes que guardam, tais como o lavar de copos, jarros e vasilhas de metal.3

MARCOS 6, 7

Então os fariseus e os mestres da lei questionaram a Jesus: “Por qual razão os seus discípulos não andam em conformidade com a tradição dos anciãos, mas tomam o pão com mãos impuras?” 6 Ele, entretanto, lhes afirmou: “Bem profetizou Isaías a respeito de vós, hipócritas; pois assim está escrito: ‘Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim. 7 Em vão me adoram; as doutrinas que ensinam não passam de ordenanças humanas’.4 8 E assim abandonais o mandamento de Deus, apegando-vos às tradições dos homens”.5 9 E acrescentou-lhes: “Sabeis sempre encontrar um meio de negligenciar os mandamentos de Deus, com o propósito de estabelecerdes a vossa própria tradição! 10 Porquanto Moisés afirmou: ‘Honra a teu pai e a tua mãe’. E mais: ‘Quem amaldiçoar a seu pai ou a sua mãe será condenado à pena de morte’. 11 Contudo, vós afirmais: ‘Se uma pessoa disser a seu pai ou a sua mãe: ‘Os bens com os quais eu vos poderia ajudar são Corbã’, isto é, uma oferta dedicada ao Senhor, 5

pessoas daquela região demonstraram em Jesus. Tanto que, ao tocar na borda do manto do Senhor, eram imediatamente salvas de suas enfermidades. Capítulo 7 1 Os líderes religiosos dos judeus na época, movidos principalmente por inveja e motivos políticos escusos, mandaram uma delegação de mestres da lei (fariseus) para fazer uma espécie de auditoria teológica e devassa no comportamento social e privado de Jesus, com o objetivo de encontrar ou forjar um motivo pelo qual Jesus pudesse ser condenado à pena de morte (Mt 2.4; 15.1-11). 2 A visão dos judeus, notadamente os líderes religiosos, sobre a pureza espiritual era extremamente cerimonial. Portanto, facilmente perdiam de vista o espírito da lei (o principal propósito) e restringiam-se ao cumprimento de ritos e procedimentos. Assim, para eles, todo contato com pagãos (inclusive respirar muito próximo o mesmo ar), ou mesmo com outros judeus que não guardavam as leis cerimoniais, se constituía numa imundícia (ou contaminação) espiritual; e, por isso, se fazia necessário passar pelos ritos cerimoniais de lavar as mãos e os braços até os cotovelos, derramando sobre eles água pura e fresca (v.4). Portanto, era comum nas festas prolongadas e com muitos hóspedes, reservarem-se grandes recipientes com água. 3 O cerimonial de purificação, realizado todas as vezes que um judeu retornava para casa, era repleto de detalhes ritualísticos. Algumas versões da Bíblia trazem a expressão “se aspergirem” em vez de “se banharem”, cujo significado literal é “se batizarem”, ou seja, observar um ritual de imersão. 4 A hipocrisia, ao lado da arrogância, é um dos mais perversos e sutis dos pecados; e ataca especialmente aos líderes religiosos. Quanto maior expressão um líder granjeia, mais vulnerável se torna. Hipócrita é toda pessoa falsa e dissimulada, cujas palavras de apologia à moral e ao cumprimento rígido das leis, normas, convenções e rituais (especialmente religiosos) não têm qualquer respaldo ou correspondência direta com suas atitudes públicas e vida íntima. Isaías denunciou severamente os líderes religiosos de sua época (Is 29.13). Malaquias, embora muitos pensem que seu principal tema fosse o dízimo, na verdade, era a corrupção e a hipocrisia generalizada do povo de Israel, a começar por seus líderes e mestres (sacerdotes) religiosos. 5 Os mandamentos de Deus estão todos registrados na Bíblia e são obrigatórios. As tradições, normas de conduta e estatutos dos antigos mestres, não são bíblicos e, portanto, não são autorizados, muito menos, obrigatórios. Os anciãos (líderes da religião


MARCOS 7

vós o desobrigais do dever de prestar qualquer ajuda de que seu pai ou sua mãe necessite.6 13 Assim, conseguis anular a eficácia da Palavra de Deus, por intermédio da tradição que vós próprios tendes transmitido. E, dessa mesma maneira, procedeis em relação a vários outros assuntos”.7 14 Jesus conclamou novamente a multidão para junto de si e lhes anunciou: “Ouvi-me, todos, e entendei! 15 Nada existe fora da pessoa humana que, entrando nela, a possa tornar impura. Ao contrário, o que sai do ser humano é que o faz impuro. 16 Se alguém tem ouvidos para ouvir, ouça!”. 17 Então, após haver deixado a multidão e entrado em casa, os discípulos lhe pediram uma explanação sobre aquela parábola.8 18 Ao que Ele lhes declarou: “Ora, pois nem vós tendes tal entendimento? Não conseguis compreender que nada que 12

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entre no homem tem o poder de tornálo impuro? 19 Porque efetivamente não entra em seu coração, mas sim em seu estômago, sendo digerido e depois expelido”. Ao fazer essa afirmação, Jesus proclamava puros todos os alimentos.9 20 E disse mais: “O que sai do ser humano é o que o torna impuro”. 21 Pois é de dentro do coração dos homens que procedem aos maus pensamentos, as imoralidades sexuais, os furtos, os homicídios, os adultérios, 22 as ambições desmedidas, as maldades, o engano, a devassidão, a inveja, a difamação, a arrogância e a insensatez. 23 Ora, todos esses males procedem do interior, contaminam a pessoa humana e a tornam impura.10 Uma gentia manisfesta sua fé (Mt 15.21-28) 24 Então, partiu Jesus daquele lugar e foi para os arredores de Tiro e de Sidom.

judaica) se ocupavam da interpretação e exposição da Lei de Moisés, mais tarde codificada num manual chamado de Mishná, que por sua vez, deu origem ao Talmude, que é um comentário extenso e detalhado da Mishná. 6 “Corbã” é a transliteração de uma palavra hebraica que significa “oferta”. Muitos judeus religiosos estavam afirmando que haviam feito “Corbã” com seus bens, ou seja, doado o dinheiro da aposentadoria dos pais para Deus (mais propriamente para os sacerdotes do Templo) e, por isso, não tinham como ajudá-los. Ocorre que a Lei não prescrevia que todo o dinheiro devia ser doado. Além disso, muitos jovens judeus estabeleciam um acordo com os sacerdotes e recebiam parte da “oferta” de volta. 7 A mente humana é facilmente enredada por falsos juízos em função de suas muitas ambições. Por isso devemos agir sempre como os cristãos bereanos (At 17.11). Os fariseus estavam recorrendo a um texto isolado da Lei (Nm 30.1,2) para defender o voto do “Corbã”. Jesus aproveita para ensinar uma regra básica de interpretação bíblica: a obediência a um mandamento específico das Escrituras jamais pode anular os outros mandamentos gerais de Deus. A conclusão tirada pelos anciãos sobre Nm 30.1,2 satisfazia a letra do texto bíblico, mas era contrário ao sentido (espírito) global da Lei. 8 Em hebraico, mashal, o termo traduzido aqui por “parábola”, significa “ilustração, figura, imagem” e tem o sentido de uma expressão proverbial ou história de moral, que acompanha a vida de uma pessoa como um sinal luminoso. Este acende sempre que necessário, para avisar de algum perigo iminente ou trazer à memória uma maneira sábia de agir. 9 Marcos, primo de Barnabé e grande amigo dos apóstolos Pedro e Paulo, preocupa-se em fazer comentários sobre a Lei, usos e costumes dos judeus. Seu objetivo era esclarecer sua principal audiência: os gentios, mais precisamente, o número elevado de romanos que estavam sendo convertidos pelo Espírito Santo (entre 50 e 70 d.C.). Os discípulos tiveram de aprender com Jesus sobre a desobrigação de os cristãos guardarem as leis e cerimônias do AT referentes às comidas puras e impuras (Lv 11; Dt 14; At 10.15). 10 Jesus ensina e adverte que a fonte do pecado humano é o coração (centro das emoções e da razão), e não o estômago. O coração tem para o mundo ocidental o mesmo significado que “as entranhas” ou “os intestinos” têm no mundo oriental. Ou seja, representam o centro da personalidade, incluindo o intelecto, a volição, e todas as emoções e desejos humanos. Por isso, a comunhão (amizade reverente) com Deus não pode ser interrompida por causa de mãos ou alimentos com impurezas, mas, sim, pelo pecado consciente, intencional e renitente. Mais do que lavar as mãos, é necessário limpar (lavar, purificar) a mente, pois Deus não faz distinção entre pecados elaborados e alimentados nos pensamentos, e os consumados por ação. Segue-se uma lista, como exemplo, de alguns pecados comuns, mas que não deveriam fazer parte da vida diária de um cristão pleno do Espírito Santo. A palavra “inveja” no original grego é: “olho mau”, cujo sentido não é apenas o desejo ardente pelas posses de outrem, mas igualmente a falta de generosidade, literalmente, o ser “pão duro”. A palavra “insensatez”, traduzida em algumas versões por “loucura”, não tem o sentido de uma enfermidade mental, mas sim, de total negligência do pecador (aquele que aprecia seu estilo de vida mundano) em relação às suas responsabilidades para com Deus, com seu próximo e com a sociedade (religião e ética).


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Entrou em uma casa e desejava que ninguém o soubesse; porém, não foi possível manter sua presença em segredo.11 25 De fato, assim que ouviu falar sobre Ele, certa mulher, cuja filha pequena estava com um espírito imundo, chegou e atirou-se aos seus pés. 26 A mulher era grega, de origem siro-fenícia, e implorava a Jesus que expulsasse o demônio de sua filha.12 27 Mas Jesus lhe explicou: “Deixa primeiro que os filhos se alimentem até ficarem satisfeitos; pois não é justo tirar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos”.13 28 Ao que replicou-lhe a mulher: “Sim, Senhor, mas até os filhotes dos cães, debaixo da mesa, comem das migalhas das crianças!”14 29 Então Ele lhe declarou: “Por causa dessa tua resposta, podes ir em paz; o demônio já saiu de tua filhinha”. 30 Ao retornar ela para sua casa encontrou a criança jogada sobre a cama, pois o demônio a havia abandonado.

MARCOS 7, 8

Então, algumas pessoas lhe apresentaram um homem que era surdo e mal podia falar, e lhe suplicaram que impusesse sua mão sobre ele. 33 Jesus conduziu o homem, a sós, para longe da multidão, e colocou os dedos nas orelhas dele. Em seguida, cuspiu e tocou na língua daquele homem. 34 Depois, levantando os olhos para o céu e, com um profundo suspiro, ordenou: “Efatá!”, que quer dizer: “Abre-te!”15 35 Imediatamente, os ouvidos do homem se abriram, sua língua desprendeu-se e ele começou a falar fluentemente.16 36 Entretanto, Jesus ordenou-lhes que não dissessem a ninguém o que ali se passara. Contudo, quanto mais Ele recomendava, tanto mais eles o divulgavam. 37 As multidões ficavam sobremodo maravilhadas e proclamavam: “Ele faz tudo de forma esplêndida! Faz tanto os surdos ouvirem como os mudos falarem”.17 32

Nova multiplicação dos pães (Mt 15.32-39)

A cura de um surdo-gago 31 Outra vez, saindo Jesus das terras de Tiro, seguiu em direção ao mar da Galiléia, passando por Sidom e atravessando a região de Decápolis.

8

Naqueles dias, uma grande multidão novamente se ajuntou, e não tendo as pessoas com o que se alimentar, chamou Jesus os discípulos e lhes compartilhou:1 2 “Tenho compaixão desta multidão; já

11 Tiro era uma cidade povoada por gentios. Localizada na Fenícia, onde hoje é o Líbano, fazia fronteira com a Galiléia, a noroeste. Jesus viajou cerca de 50 km de Cafarnaum até os arredores de Tiro. Desde o milagre da multiplicação dos pães e peixes (6.30-44), Jesus e seus discípulos passaram a evitar os grandes centros e a ministrar nas periferias da Galiléia. Jesus procurava evitar os confrontos infrutíferos com os fariseus e escribas, e dedicar-se cada vez mais ao discipulado dos Doze (9.30,31). A palavra grega koinos, aqui traduzida por “contaminam”, significa “comum”, e seu sentido tem a ver com o fato de os pecados poderem assumir a condição de parte integrante do ser humano, caso não haja arrependimento, confissão e perdão. O Espírito Santo é o grande aliado dos cristãos na tarefa de manter suas mentes sensíveis e purificadas (Jo 14.16-27). 12 A mulher apresentada por Marcos falava grego e vivia numa cultura grega, mas era de nacionalidade siro-fenícia, uma vez que naquele q tempo p a Fenícia pertencia p administrativamente à Síria. 13 Jesus se refere aos israelitas que, pela primeira aliança eram os filhos prediletos de Deus (Êx 4.22; Dt 14.1). Jesus segue a missão designada ao Servo (Is 49.6), trazendo, em primeiro lugar, Salvação aos judeus (Rm 15.8). 14 Essa é a única ocasião, no evangelho segundo Marcos, em que Jesus é chamado “Senhor”. 15 Jesus usa uma palavra do seu dialeto hebraico, o aramaico Efatá, que o próprio Marcos logo traduz em benefício da compreensão dos seus leitores gentios. 16 Jesus estava realizando, na prática, o que Deus prometera há muitos séculos por meio das profecias (Is 35.5,6). Ele procurava, porém, manter seu ministério, especialmente o de curas e sinais, longe da propaganda de massa, a fim de não atrair tão cedo a perseguição dos líderes religiosos e políticos da época (Mt 8.4; 16,20; Mc 1.44; 5.19,43). 177 Tanto o Pai, quanto q o Filho, fazem tudo muito bem (maravilhosamente ( perfeito p – Gn 1.31; Jo 5.17).) Um dia toda a terra reconhecerá esse fato. É importante lembrar que Deus criou a terra e o ser humano, mas o Diabo criou este mundo caótico no qual vivemos. Hoje, pela fé, os cristãos devem assumir sua condição de embaixadores do Rei, cuja missão é proclamar a Salvação e os valores do Reino de Deus por toda a terra. Capítulo 8 1 O próprio Senhor nos afirma (vv.18-20) que este relato (8.1-10) é distinto do ocorrido anteriormente (6.34-44), muito embora sejam notáveis as semelhanças dos fatos.


MARCOS 8

se passaram três dias que estão comigo e não têm o que comer.2 3 Se Eu os enviar de volta às suas casas, em jejum, vão desfalecer pelo caminho, pois alguns deles vieram de longe”. 4 Entretanto, os discípulos alegaram: “Onde, neste lugar desabitado, seria possível alguém conseguir pão suficiente para alimentar a todos?” 5 Indagou-lhes Jesus: “Quantos pães tendes?” Ao que afirmaram eles: “Sete”. 6 Então Ele orientou o povo a reclinar-se sobre o chão. E, após tomar os sete pães e dar graças, partiu-os e os entregou aos seus discípulos, para que estes servissem à multidão; e assim foi repartido entre todas as pessoas. 7 Havia também alguns peixes pequenos; da mesma forma Ele deu graças e ordenou aos discípulos que os distribuíssem. 8 Todas as pessoas ali reunidas comeram até se saciar; e ainda recolheram sete cestos grandes, cheios de pedaços que sobraram. 9 Na multidão havia cerca de quatro mil homens. Então, Jesus despediu-se do povo. 10 Logo depois, entrou no barco com seus discípulos e dirigiu-se para a região de Dalmanuta.3 Os fariseus querem um sinal (Mt 16.1-4)

Os fariseus se aproximaram e começaram a questionar Jesus. Então o tentaram

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e, para prová-lo, pediram que lhes apresentasse um sinal miraculoso do céu.4 12 No entanto, Jesus suspirou profundamente e lhes afirmou: “Por que pede esta geração um sinal dos céus? Com certeza vos asseguro que para esta geração não haverá sinal algum”. 13 E, deixando-os, voltou a embarcar e rumou para o outro lado. O perigo das más influências (Mt 16.5-12) 14 Aconteceu que os discípulos se esqueceram de levar pães e, no barco, tinham consigo apenas um único pão. 15 E Jesus passou a recomendar a eles: “Cuidado! Guardai-vos do fermento dos fariseus e do fermento de Herodes”.5 16 Eles, p porém, especulavam p entre si, argumentando: “É por que não trouxemos pão!” 17 Ao notar a discussão, Jesus questionou: “Por que discorreis sobre o não terdes pão? Até agora não considerastes, nem ainda compreendestes? Permaneceis com o coração petrificado? 18 Tendo olhos, não vedes? E, possuindo ouvidos, não escutais? Não vos recordais? 19 Quando dividi os cinco pães para os cinco mil homens, de quantos cestos cheios de pedaços que sobraram recolhestes? E, afirmaram-lhe: ‘Doze!’

2 Como este episódio aconteceu na Decápolis (7.31), certamente havia um grande número de gentios na multidão. Jesus se compadece (em grego: agapç) do povo que demonstrava grande fome da Palavra, pois há três dias o seguia e ouvia seus ensinos sem se alimentar. Um grande exemplo para os cristãos atuais. 3 Dalmanuta ficava ao sul da Planície de Genesaré, local em que Jesus desembarcou. Mateus chama a região de Magadã ou Magdala (Mt 15.39). Da mesma maneira como agiu na primeira multiplicação dos pães (Mt 14.13-21; Mc 6.30-44; Lc 9.10-17; Jo 6.1-15), Jesus usa uma expressão original (vs.6 – em grego: , “a reclinar-se”), que tem a ver com a atitude cultural dos judeus daquela época de quase deitarem sobre almofadas diante de mesas baixas, um ao lado do outro, em círculos, para fazerem suas refeições cotidianas. Ao solicitar que as pessoas “reclinassem sobre o chão” (se assentassem), Jesus estava comunicando a todos que o desjejum seria servido em seguida. 4 O pedido dos fariseus brotava da incredulidade. Tentaram fazer com que Jesus provasse ser um profeta maior do que Elias (1Rs 18.20-40). Queriam apenas ver um show cosmológico, mas Jesus apontou para o povo e sua longa história de fome espiritual e de justiça; assim como ocorreu no deserto com Moisés. O pão partido e multiplicado era o maior sinal para aquela “geração” (maneira de se referir a um tipo de gente mesquinha e hipócrita). 5 Os judeus, por causa dos mandamentos de Deus (Êx 13.7) evitam o uso de qualquer tipo de levedo (agentes de fermentação empregados na preparação de algumas bebidas alcoólicas não destiladas, tipo cervejas, e na panificação) na semana imediatamente após a Páscoa. Na época de Cristo a levedura era um símbolo comumente usado pelos mestres para se referir à má inclinação humana. Jesus faz uso desta metáfora para mostrar a procedência maligna dos pedidos dos fariseus e de Herodes Antipas (Lc 23.8) por um sinal espetacular nos céus para comprovação da sua divindade. Jesus enfatiza que o grande sinal estava na terra, junto à vida das pessoas a quem Deus amava.


25 20 E quando Eu parti sete pães para aque-

les quatro mil, quantos cestos grandes, repletos de sobras recolhestes do chão?” Responderam eles: ‘Sete!’6 21 Ao que lhes concluiu Jesus: “E então, ainda não compreendeis?” Um cego em Betsaida é curado E, chegando a Betsaida, algumas pessoas trouxeram um cego à presença de Jesus e rogavam-lhe que o tocasse.7 23 Então, Ele tomou o cego pela mão e o conduziu para fora da aldeia. Em seguida, cuspiu nos olhos daquele homem e lhe impôs as mãos. E indagou: “Vês alguma coisa?” 24 O homem levanta os olhos e afirma: “Vejo pessoas; mas elas se parecem com árvores caminhando”. 25 Mais uma vez, Jesus colocou suas mãos sobre os olhos do homem. E, no mesmo instante, tendo sido completamente restaurado, via com clareza, e podia discernir todas as coisas. 26 Então Jesus enviou aquele homem para casa, recomendando-lhe: “Nem sequer no povoado entres!” 22

Pedro confessa Jesus como Messias (Mt 16.13-20; Lc 9.18-21)

Jesus e seus discípulos partiram para os povoados nas cercanias de Cesaréia 27

MARCOS 8

de Filipe. No caminho, Ele lhes inquiriu: “Quem dizem as pessoas que Eu Sou?”8 28 Ao que eles informaram: “Alguns comentam que és João Batista, outros, Elias; e ainda há quem afirme que és um dos profetas”. 29 Então lhes questionou: “Mas vós, quem dizeis que Eu Sou?” E, asseverando Pedro, declarou: “Tu és o Cristo!” 30 Jesus, por sua vez, lhes recomendou que nada divulgassem a seu respeito. Jesus anuncia sua Paixão (Mt 16.21-23; Lc 9.22)

Então, passou Jesus a ensinar-lhes que era imperioso que o Filho do homem fosse vítima de muitos sofrimentos, viesse a ser rejeitado pelos líderes religiosos, pelos chefes dos sacerdotes e pelos mestres da lei; então fosse assassinado, para depois de três dias ressuscitar.9 32 E Jesus falou sobre esse assunto de maneira clara. Mas Pedro, chamandoo em particular, começou a censurá-lo energicamente. 33 Entretanto, Jesus voltou-se, olhou para seus discípulos e repreendeu severamente a Pedro, exclamando: “Para trás de mim, Satanás! Pois não estais pensando na obra de Deus, mas sim nas ambições humanas”.10 34 Em seguida, convocou Jesus a mul31

6 Mais uma prova de que Jesus fala de dois eventos parecidos, mas distintos é que no primeiro a palavra grega usada para “cestos” indica um pequeno cesto da época, feito de junco; e no segundo, a palavra grega usada para “cestos” refere-se a um tipo de cesto grande, feito de tecido e capaz de suportar o peso de uma pessoa, como foi o caso ocorrido com o apóstolo Paulo (At 9.25). 7 Betsaida significa “casa de pesca” e se localizava numa planície ao norte do mar da Galiléia. Era a cidade natal de Pedro, André e Filipe (Jo 1.44). 8 Com a confissão de Pedro tem início a segunda metade de Marcos. A partir de agora Jesus muda a direção principal dos seus ensinos, deixa as grandes multidões e concentra-se no discipulado dos Doze. Ao grupo dos discípulos passa a revelar mais e mais sobre sua missão, morte e ressurreição. 9 A necessidade do sofrimento expiatório de Jesus é claramente apresentada no AT (Sl 22, 69, 118; Is 50.4, 52.13-53.12; Zc 13.7). Jesus costumava se referir a si mesmo como “Filho do homem” (81 vezes nos evangelhos). Título jamais usado por qualquer outra pessoa. Em Daniel (Dn 7.13,14), o filho de um homem é retratado profeticamente como personagem celestial a quem, no final dos tempos, Deus confiou autoridade, glória e poder soberano. O próprio Jesus passa a reforçar esse título junto aos seus discípulos. Pedro compreendeu que Jesus era o Messias prometido pelo uso que faz do termo grego “Cristo” (Messias, em hebraico). Os líderes religiosos eram os membros leigos (anciãos) do Sinédrio (Supremo Tribunal dos Judeus), os chefes dos sacerdotes (Mt 2.4), entre eles o sumo sacerdote em exercício, Caifás; o sumo sacerdote anterior, Anás, e as respectivas famílias sacerdotais. 10 O sofrimento e a humilhação não correspondiam ao “Messias” que estava na mente de Pedro: o Libertador de Israel. Ao tentar persuadir Jesus a ter compaixão de si mesmo para não se entregar ao martírio e à morte, Pedro incorreu no mesmo discurso usado por Satanás no início do ministério do Senhor (Mt 4.8-10), e por isso Jesus precisou mostrar a todos os discípulos


MARCOS 8, 9

tidão e os discípulos, e os desafiou: “Se alguém deseja seguir-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e venha após mim.11 35 Quem quiser, pois, salvar a sua vida perdê-la-á; mas quem perder a sua vida por minha causa e pelo Evangelho salvala-á! 36 Portanto, de que adianta uma pessoa ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? 37 Ou ainda, o que uma pessoa pode-ria dar em troca de sua alma? 38 Assim sendo, numa época como esta, de incredulidade e perversidade, se alguém tiver vergonha de mim e dos meus ensinamentos, então o Filho do homem, quando voltar na glória do seu Pai, juntamente com os santos anjos, também a essa pessoa não oferecerá honra”.12 A transfiguração de Jesus (Mt 17.1-8; Lc 9.28-36)

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Então lhes falou Jesus: “Com toda a certeza vos asseguro que alguns dos

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que aqui estão de modo algum passarão pela morte, até que vejam o Reino de Deus chegando com poder”. 2 Passados seis dias, tomou Jesus consigo a Pedro, Tiago e João e os conduziu a um lugar retirado, no alto de um monte, onde puderam ficar a sós. E ali Ele foi transfigurado diante deles.1 3 Suas vestes tornaram-se alvas, de um branco reluzente, como nenhum lavandeiro em toda a terra seria capaz de alvejá-las. 4 Então, apareceu à sua frente Elias com Moisés, e estavam conversando com Jesus. 5 E Pedro, tomando a palavra, sugeriu: “Rabi, é muito bom estarmos aqui! Vamos erguer três tabernáculos: um será teu, um para Moisés e um para Elias”.2 6 Pedro não sabia o que falar, pois eles haviam ficado aterrorizados. 7 Em seguida, surgiu uma nuvem que os envolveu, e dela soou uma voz, que declarou: “Este é o Meu Filho amado, a Ele dai ouvidos!”3

que tentar se desviar da vontade de Deus – não importa a razão – é cair nas artimanhas de Satanás e “errar o alvo” (expressão que em hebraico significa: pecado). 11 Jesus faz um convite não apenas aos Doze, mas a todas as pessoas. Devemos permitir que o Espírito Santo assuma o controle total das nossas vidas, antes dirigida pelo “eu” ou “ego” (fonte das nossas vontades, quase sempre contrárias à vontade de Deus). Tomar a cruz é a disposição de começar a seguir ao Senhor do jeito que somos e com aquilo que temos; e depois, aceitarmos a glória de vivermos e morrermos por Ele. Ao concluir, conclamando todos a segui-lo, Jesus estava dizendo que mostraria pessoalmente o caminho da verdadeira entrega a Deus, do sofrimento, do martírio, da morte e da ressurreição para uma vida eterna de comunhão com o Pai (Sl 49.8, Hb 9.27, Ap 21.8). 12 O mundo é um sistema globalizado de valores e princípios (filosóficos, políticos, econômicos e sociais) que, a cada geração, se afasta mais e mais da Palavra de Deus. Por isso, desde a Queda (Gn 3), Deus tem procurado corrigir a rota dessa humanidade perdida (Hb 1.1-2). Quem preferir se ajustar à sua geração (aos ditames do mundo de sua época) mais do que seguir a Cristo e aos princípios da Sua Palavra não poderá fazer parte do Reino de Deus, tanto aqui e agora, como na Nova Jerusalém, na eternidade futura e iminente (Ap 21.1-4). Ter “vergonha” de Jesus é muito mais que um simples ato externo de usos e costumes, timidez ou inabilidade de expressão. Esta palavra, em seu sentido original, tem a ver com a “honra de cultivar um caráter idôneo e amoroso em relação a Deus e ao próximo em todas as atitudes pessoais”. Ou seja, envergonhar-se do Evangelho é não aceitar o compromisso com o discipulado de Cristo e preferir levar a vida conforme a ordem mundial impõe às pessoas de todas as culturas (Rm 1.16, 12.1). Entretanto, na volta triunfal de Cristo, todos aqueles que creram no Senhor o suficiente para enfrentar o mundo com um estilo de vida verdadeiramente cristão, serão honrados por Jesus e participarão da Sua glória eterna (1Ts 1.6-10). Capítulo 9 1 No NT, a palavra grega metamorphothe foi usada apenas em Mt 17.2, Rm 12.2 e 2Co 3.18, sempre com o sentido de transformação radical de um ser em outro ser. Em relação à vida diária dos cristãos, significa uma mudança total de caráter, abandonando os costumes mundanos e adotando um estilo de vida próprio dos cidadãos do céu. O objetivo da transfiguração foi manifestar, ainda que brevemente, aos discípulos mais chegados, a glória de Jesus encoberta por causa de sua encarnação. Jesus antecipou a visão da sua ressurreição e do seu glorioso retorno. 2 Rabii ou Rabbii é a p palavra hebraica comumente traduzida por p “Mestre”. Pedro se prontificou, p ainda que q estarrecido, a recriar o antigo ponto de encontro de Deus com seu povo (conhecido como tenda, cabana ou tabernáculo – Êx 29.42; Lv 23.42). 3 O sentido mais amplo da expressão: “a Ele dai ouvidos”, ou simplesmente, “a ele ouvi”, como aparece em algumas versões, está relacionado à profecia de Dt 18.15, onde o termo “ouvir”, nos originais hebraicos significa “ouvir e obedecer”. Quando se trata da voz de Deus a única maneira correta de ouvir é obedecendo (Tg 1.22-25).


27 8 E, de repente, quando olharam ao redor,

a ninguém mais viram, a não ser Jesus. 9 Durante a caminhada, descendo o monte, Jesus lhes ordenou que a ninguém revelassem o que haviam presenciado, até que o Filho do homem tivesse ressuscitado dos mortos. 10 Eles mantiveram esse assunto exclusivamente entre si, mas comentavam sobre qual o significado da expressão “ressuscitado dos mortos”. 11 Então questionaram-lhe: “Por que os mestres da lei afirmam que é preciso que Elias venha primeiro?” 12 E Jesus lhes esclareceu: “Realmente, Elias vindo primeiro, restaura todas as coisas. Agora, por que está escrito também que é necessário que o Filho do homem sofra penosamente e seja rejeitado com desprezo? 13 Pois Eu lhes digo: Elias também já veio, e fizeram contra ele tudo o que desejaram, como está escrito a respeito dele”.4 Jesus cura um menino possesso (Mt 17.14-23; Lc 9.37-45)

Assim que chegaram onde estavam os demais discípulos, observaram um grande aglomerado de pessoas ao redor deles e os mestres da lei discutindo com eles. 15 Logo que a multidão percebeu Jesus, tomada de surpresa correu para Ele e o saudava. 16 Então, Jesus dirigiu a palavra aos escri14

MARCOS 9

bas e os inquiriu: “O que discutíeis com eles?” 17 Contudo, um homem, no meio da multidão, replicou: “Mestre! Trouxe-te o meu filho, que está tomado por um demônio que o impede de falar.5 18 Onde quer que este o toma, joga-o no chão. Então ele espuma pela boca, range os dentes e fica todo enrijecido. Roguei aos teus discípulos que expulsassem o tal espírito, p mas eles não conseguiram”. g 19 Admoestou-lhes Jesus: “Ó geração sem fé, até quando estarei Eu junto a vós? Até quando vos supor-tarei? Trazeio a mim!” 20 E logo o trouxeram. Assim que o espírito viu Jesus, no mesmo instante provocou uma convulsão no menino. Este caiu no chão e começou a rolar, espumando pela boca. 21 Então Jesus indagou ao pai do menino: “Há quanto tempo isto lhe está acontecendo?” E o pai declarou: “Desde a infância. 22 Muitas vezes esse demônio o tem jogado no fogo e na água, para matálo. Todavia, se Tu podes fazer algo, tem compaixão de nós e, de alguma maneira, ajuda-nos!” 23 “Se podes?”, contestou-lhe Jesus: “Tudo é possível para aquele que crê!”6 24 Imediatamente o pai do menino asseverou: “Creio! Ajuda-me a vencer a minha falta de fé”.

4 Jesus faz referência à vinda de João Batista (Mt 17.10-13). João, assim como Elias, sofreu a oposição de um rei inseguro, influenciado por uma rainha pagã e perversa. Elias realizou a obra de restauração do culto a Deus, especialmente no monte Carmelo, e foi uma prefiguração de João, que veio iniciar (preparar o caminho) a restauração total do ser humano. Obra essa concluída por Jesus (Ef 1.7-10). As ameaças de Jezabel em relação a Elias concretizaram-se na vida e no ministério de João e preanunciaram a chegada do Messias (1Rs 19.1-10). 5 Possessão demoníaca é a ação de demônios (seres espirituais, anjos caídos, comandados por Satanás, e absolutamente malévolos), que invadem e dominam o sistema nervoso, a consciência sensorial, a sede da vontade humana; e que, enfim, tomam posse do corpo físico de uma pessoa, na qual ainda não habita o Espírito Santo, controlando suas ações e, por vezes, submetendo esse corpo humano a todo tipo de humilhações e sofrimentos. 6 Os discípulos, que já haviam expelido vários espíritos malignos, não puderam expulsar aquele demônio por absoluta incredulidade (Mt 17.14-21). Jesus adverte para o fato de que há graduação de poderes nas trevas, e que certa espécie de inimigos espirituais só podem ser expulsos por meio de profunda comunhão com Deus em oração e persistente devoção, que inclui o jejum. Apesar de a palavra “jejum” não aparecer em muitos originais gregos, é certo que Jesus e a Igreja primitiva praticavam o jejum como disciplina espiritual. Jesus aproveita aquele momento tenso e constrangedor para evidenciar que todas as coisas são realizáveis mediante a fé, e que a grande questão do ser humano é exatamente esta: a falta de fé. Deus pode tudo e a qualquer momento, mas as pessoas costumam “crer duvidando” e, por isso, o Senhor não pode honrar uma “fé falsa” ou “incompleta”. A verdadeira fé elimina todas as barreiras espirituais na vida (Tg 1.5-8).


MARCOS 9 25 Percebendo que o povo estava se ajuntando, repreendeu o espírito imundo, determinando: “Espírito mudo e surdo, Eu te ordeno: Deixa este jovem e jamais o tomes novamente!” 26 Então o demônio berrou, agitou o jovem violentamente e o abandonou. O menino ficou desfalecido, a ponto de todos afirmarem: “Ele morreu!” 27 Entretanto Jesus, pegando a mão do menino, o levantou, e ele ficou em pé. 28 Mais tarde, quando Jesus estava em casa, seus discípulos o consultaram em particular: “Por que razão não fomos capazes de expulsá-lo?” 29 E Jesus lhes advertiu: “Essa espécie de demônios só é expelida com oração e jejum”.

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que no caminho haviam discutido sobre quem era o maior. 35 Assentando-se, Jesus reuniu os Doze e lhes orientou: “Se alguém deseja ser o primeiro, será o último, e servo de todos”. 36 E, conduzindo uma criança, colocoua no meio deles e, tomando-a nos braços, revelou-lhes: 37 “Quem recebe uma destas crianças, por ser meu seguidor, do mesmo modo estará a mim recebendo; e qualquer que me recebe, não está apenas me recebendo, mas igual-mente àquele que me enviou”.8 Quem não é contra, está a favor (Lc 9.49,50)

Contou-lhe João: “Mestre, vimos um homem que, em teu nome, estava expulsando demônios e procuramos impedi-lo; pois, afinal, ele não era um dos nossos”. 39 “Não o impeçais!”- ponderou Jesus. “Ninguém que realize um milagre em meu nome, é capaz de falar mal de mim logo em seguida. 40 Portanto, quem não é contra nós, está a nosso favor.9 41 Com toda a certeza vos asseguro, qualquer pessoa que vos der de beber um copo de água, pelo fato de pertencerdes a Cristo, de maneira alguma perderá a sua recompensa”. 38

O segundo anúncio da Paixão (Mt 17.22-23; Lc 9.43-45)

Eles partiram daquele lugar e atravessaram a Galiléia. E Jesus evitava que qualquer pessoa soubesse onde se achavam.7 31 Pois estava dedicado ao ensino dos seus discípulos e lhes revelava: “O Filho do homem está prestes a ser entregue nas mãos dos homens. Eles o matarão, mas três dias depois ressuscitará”. 32 Todavia, eles não conseguiam entender o que Ele desejava comunicar, mas tinham receio de inquiri-lo a este respeito. 30

Quem é o maior no Reino? (Mt 18.1-5; Lc 9.46-48)

Então chegaram a Cafarnaum. Quando já estavam em casa, indagou-lhes: “Sobre o que discorríeis pelo caminho?” 34 Eles, porém, ficaram em silêncio; por33

Evitar o pecado a todo custo (Mt 18.6-9) 42 “Se alguém fizer tropeçar um destes pe-

queninos que crêem em mim, seria me-

7 Jesus havia completado seu período de ministério às grandes massas na Galiléia e regiões vizinhas. Agora estava a caminho do seu próprio holocausto em Jerusalém (10.32-34). Jesus passou então a concentrar, ainda mais, seus ensinos e discipulado na vida dos seus Doze seguidores mais próximos. 8 Dúvidas sobre a posição hierárquica no Reino ocupavam a mente dos discípulos. A posição social sempre foi uma grande ambição humana, especialmente na cultura judaica daquela época e em função da possibilidade da instauração de um novo “reino” (sistema político-religioso). Entretanto, Jesus esclarece que a honra e o poder no Reino de Deus são conquistados por amor, humildade, generosidade e serviço ao próximo. Como os bons pais cuidam de seus filhos pequenos (Lc 9.47). Por “pequeninos” pode-se entender: as crianças, os novos convertidos e os cristãos em fase de amadurecimento espiritual (Rm 14; 1Co 8 e 9). 9 Jesus desaprova o sectarismo (partidarismo ferrenho das doutrinas e preceitos de uma seita) e o proselitismo (ação ostensiva visando mover pessoas de uma seita para outra). Devemos manter comunhão com todos os cristãos que foram regenerados pelo Espírito de Deus, isto é, com todos os Salvos, independentemente do seu grupo doutrinário. Por outro lado, é inadmissível


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lhor que fosse lançado no mar com uma pedra de asno amarrada ao pescoço.10 43 E, se a tua mão te fizer tropeçar, cortaa, pois é melhor entrares para a Vida mutilado do que, possuindo as duas mãos, ires para o inferno, onde o fogo que arde jamais arrefece.11 44 Naquele lugar, os teus vermes devoradores não morrem, e as chamas nunca se apagam. 45 E, se o teu pé te fizer tropeçar, cortao, pois é melhor entrares para a Vida aleijado do que, tendo os dois pés, seres lançado no inferno. 46 Onde o teu verme não morre, e o fogo é inextinguível. 47 E ainda, se um dos teus olhos te levar a pecar, arranca-o. É melhor entrares no Reino de Deus com um dos teus olhos do que, possuindo os dois olhos, seres atirado no inferno. 48 Naquele lugar, os teus vermes devoradores não morrem, e as chamas nunca se apagam. Os cristãos são o sal da terra (Mt 5.13; Lc 14.34-35) 49

Pois todos serão salgados com fogo.12

MARCOS 9, 10

O sal é bom; mas se o sal perder o seu sabor, como restaurar as suas propriedades? Tende o bom sal em vós mesmos e vivei em paz uns com os outros”.13 50

Casamento e Separação (Mt 19.1-12)

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Partindo dali, foi Jesus para a região da Judéia e para o outro lado do Jordão. E, outra vez, grande multidão chegou-se a Ele e, como era seu costume, passou a ensinar as pessoas ali reunidas.1 2 Alguns fariseus se aproximaram de Jesus e, p para colocá-lo à prova p questionaq ram: “É permitido ao homem separar-se de sua esposa?” 3 Inquiriu-lhes Jesus: “O que lhes ordenou Moisés?” 4 E eles replicaram: “Moisés permitiu que o homem desse à sua mulher uma certidão de divórcio e a mandasse embora”. 5 Esclareceu-lhes Jesus: “Moisés vos deixou escrita essa lei por causa da dureza dos vossos corações!”2 6 Entretanto, no princípio da criação Deus ‘os fez homem e mulher’. 7 ‘Por esta razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua esposa,

que um cristão verdadeiro seja neutro em relação ao senhorio de Cristo. Ou se é, ou não se é cristão. Para Jesus não existe o “cristão nominal”, ou seja, aquela pessoa que crê em Deus, mas não procura viver uma vida em comunhão com o Espírito Santo. A unidade da Igreja nem sempre será obtida por meio de uma unanimidade teológica; porém, muitas vezes, no serviço humilde, generoso e compreensível do amor fraternal em Cristo (Mt 25.34-46 conforme Mt 18.1-10 e Lc 17.1). 10 O amor de Deus por seus filhos é tão grande que o suicídio seria a melhor solução para alguém que deliberadamente tentasse desviá-los do verdadeiro Caminho. Jesus usa literalmente o termo “pedra de asno”, para referir-se a uma grande placa de pedra, comumente girada por jumentos, para moer grãos e cereais. 11 Jesus usa uma hipérbole (figura de linguagem que transmite um ensino por meio do exagero das afirmações ou comparações) para ressaltar a necessidade de uma ação drástica. Muitas vezes o pecado ou um mau hábito só poderá ser vencido por uma “cirurgia espiritual radical”. A palavra grega geenna é traduzida por “inferno” e aparece apenas nos Evangelhos e em Tg 3.6. Seu sentido original corresponde a um “grande depósito de lixo”. Jesus cita a última palavra de advertência proferida por Isaías em relação ao perigo da condenação eterna daqueles que teimam em viver rebeldes ao Espírito de Deus (Is 66.24). Num “grande depósito de lixo” há sempre vermes se revolvendo (Mt 5.22). 12 No AT era exigido que se colocasse sal sobre o sacrifício (Lv 2.13 com Ez 43.24). Todo cristão deve ser um sacrifício para Deus (Rm 12.1). Na vida cristã, o sal é representado, por provas, purificação pelo fogo da justiça divina, perseguições do Inimigo e deste mundo (1Co 3.13; 1Pe 1.7; 4.12). 13 Na época de Jesus o sal era vital para temperar, dar sabor e conservar os alimentos, especialmente as carnes vermelhas e os peixes. Ele se compara, portanto, à firme convicção do cristão que vive corajosa e intensamente o Evangelho (8.35-38). Capítulo 10 1 Os capítulos de 1 a 9 relatam o ministério de Jesus na Galiléia. De 10 a 15 focalizam a outra parte da missão do Senhor, já na Judéia. 2 O ser humano, por causa de sua pecaminosidade inata, tem a forte tendência de se ater mais ao teor da Lei do que ao seu espírito. Tanto Jesus como todo judeu convicto reconhecem a plena autoridade da Bíblia. Cristo não nega o ensino registrado em Dt 24.1, mas revela que a separação ou divórcio, jamais foi plano de Deus para os matrimônios. Os fariseus não estavam conseguindo discernir entre a vontade absoluta de Deus e Sua permissão, levando em conta a fraqueza humana diante do pecado. A


MARCOS 10

e os dois se tornarão uma só carne’. Dessa forma, eles já não são dois, mas sim uma só carne.3 9 Portanto, o que Deus uniu, não o separe o ser humano!” 10 Mais tarde, quando estavam em casa, uma vez mais os discípulos indagaram Jesus sobre o mesmo assunto. 11 Então Ele lhes explicou: “Todo homem que se separar de sua esposa e se unir a outra mulher, estará cometendo adultério contra a sua esposa. 12 Da mesma maneira, se uma mulher se divorciar de seu marido e se casar com outro homem, estará igual-mente caindo em adultério”.4 8

Jesus abençoa as crianças (Mt 19.13-15; Lc 18.15-17)

E aconteceu que as pessoas traziam crianças para que Jesus lhes impusesse a mão, mas os discípulos repreendiam o povo. 14 Todavia, quando Jesus notou o que se passava, ficou indignado e lhes advertiu: “Deixai vir a mim os pequeninos. Não os impeçais, pois deles é o Reino de Deus. 15 Com toda a certeza vos asseguro: aquele que não receber o Reino de 13

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Deus como uma criança, jamais terá acesso a ele”. 16 Em seguida, abraçou as crianças, impôs-lhes as mãos e as abençoou.5 O homem que deseja possuir tudo (Mt 19.16-30; Lc 18.18-30)

E, colocando-se Jesus a caminho, correu um homem ao seu encontro e, ajoelhando-se, indagou-lhe: “Bom Mestre! O que devo fazer para herdar a vida eterna?” 18 Replicou-lhe Jesus: “Por que me chamas bom? Ninguém é bom, a não ser um, que é Deus!6 19 Tu conheces os mandamentos: ‘Não matarás, não adulterarás, não furtarás, não dirás falso testemunho, não enganarás ninguém, honra a teu pai e tua mãe’”.7 20 Ao que o homem declarou: “Mestre, tudo isso tenho obedecido desde minha adolescência”. 21 Então Jesus o olhou com compaixão e lhe revelou: “Contudo, te falta algo mais importante. Vai, vende tudo o que tens, entrega-o e receberás um tesouro no céu; então, vem e segue-me!”8 22 Diante disso, o homem abateu-se profundamente e retirou-se entristecido, pois possuía muitos bens. 17

separação entre marido e mulher nunca contou com a aprovação de Deus, a não ser como o menor entre dois males. O termo grego “sklerokardia”, sempre usado no sentido espiritual para denotar um tipo de “coração inflexível e arrogante”, traduz um estilo de vida permanentemente em rebelião contra Deus e Sua Palavra. 3 O casamento cria um novo tipo de relação familiar (Gn 29.14), onde o amor e a vida conjugal são exclusivos (Ef 5.30). A santidade no casamento faz parte do plano original de Deus para o homem e a mulher. 4 Jesus usa sua autoridade para invalidar a doutrina rabínica da época que não considerava o adultério do homem contra sua esposa. Na prática judaica, o marido podia mandar sua mulher embora de casa, por qualquer motivo e sem qualquer direito ou mediação jurídica. Por isso, Jesus salienta que Deus, nosso Juiz, é quem promove a união das pessoas. O homem, ao separar-se de sua esposa, coloca-se igualmente sob condenação divina. 5 Só aquele que aceitar o Reino de Deus com o coração receptivo e puro de uma criança, como um dom gracioso do Senhor, poderá desfrutar plenamente de todos os seus privilégios (Ef 2.8,9). 6 Jesus procura ajudar o homem a refletir sobre a soberania de Deus. Só Ele é bom no sentido absoluto. Assim, referir-se a Jesus como “bom” seria o mesmo que chamá-lo de Deus. Ele é o único caminho para todo ser humano, independentemente do seu grau de instrução, nacionalidade, cultura ou poder econômico, político e financeiro. Lucas (18.18,19) informa que este homem era “importante”, e a expressão no original nos leva a pensar em um membro do concílio ou do tribunal oficial dos judeus. Mateus diz que era um “jovem rico” (Mt 19.20). Religioso, cheio de planos e vontade de acertar, pronto a pagar pelo que desejava adquirir. 7 Os judeus e cristãos são proibidos de cometer fraudes. Este mandamento tem a ver com a cobiça. Nesse trecho Jesus decidiu mencionar seis ordenanças contra atitudes erradas em relação ao próximo (Êx 20.12-16; Dt 5.16-21). 8 Jesus não está interessado em que o homem se torne pobre, mas, sim, que humildemente se lembre de que a ordenança mais importante é amar a Deus sobre todas as coisas. Exatamente o primeiro mandamento da Lei (Dt 6.4,5). O jovem tinha a idéia de um tipo de obediência exterior (Fp 3.6), normalmente ensinada nas sinagogas aos meninos, a partir dos 13 anos, idade em que passavam a assumir a responsabilidade de cumprir os mandamentos da Lei.


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Com Deus tudo é possível (Mt 19.23-30; Lc 18.24-30)

Então, Jesus, observando ao redor, declarou aos seus discípulos: “Quão difícil é para aqueles que possuem muitos bens ingressar no Reino de Deus!” 24 Os discípulos ficaram perplexos diante de tais palavras; no entanto, Jesus insistiu em lhes afirmar: “Filhos, entrar no Reino de Deus é, de fato, muito difícil! 25 É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus”. 26 Os discípulos ficaram muito assustados e comentavam uns com os outros: “Sendo assim, quem conseguirá se salvar?”9 27 E Jesus, fixando neles o olhar lhes revelou: “Para o homem isso é impossível; todavia, não para o Senhor. Pois para Deus tudo é possível!” 28 Então Pedro começou a declarar para Jesus: “Eis que nós tudo abandonamos para te seguir”. 29 Garantiu-lhes Jesus: “Com toda a certeza vos asseguro que ninguém há que tenha deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos ou bens, por causa de mim e do Evangelho, 30 que não receba, já no presente, cem vezes mais, em casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e propriedades, e com eles perseguições; mas no mundo futuro, a vida eterna. 31 Todavia, muitos primeiros serão úl-

MARCOS 10

timos; e muitos últimos serão primeiros”.10

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Jesus outra vez prediz sua Paixão (Mt 20.17-19; Lc 18.31-34)

E sucedeu que estavam no caminho, subindo para Jerusalém. Jesus à frente os conduzia. Os discípulos estavam admirados, enquanto os demais seguidores sentiam medo. Uma vez mais Ele reuniu à parte os Doze e compartilhou o que lhe aconteceria:11 33 “Eis que subimos para Jerusalém, e o filho do Homem será entregue nas mãos dos chefes dos sacerdotes e dos mestres da lei. Eles o condenarão à morte e o entregarão aos gentios, 34 que zombarão dele, lhe cuspirão, torturarão e finalmente o matarão. Contudo, após três dias Ele ressucitará”. 32

No Reino o servo é o mais poderoso (Mt 20.20-28)

Foi então que Tiago e João, filhos de Zebedeu, chegaram mais perto dele e lhe solicitaram: “Mestre, desejamos que nos concedas o que vamos te pedir”. 36 E lhes indagou Jesus: “Que quereis que Eu vos faça?” 37 Ao que rogaram: “Permite-nos que, na tua glória, nos assentemos um à tua direita e o outro à tua esquerda”. 38 Ponderou-lhes Jesus: “Não sabeis o que estais pedindo. Podeis vós beber do cálice que Eu vou beber e ser batizados 35

9 Para alguns arqueólogos havia nos muros de Jerusalém uma porta muito pequena, chamada de “agulha”, através da qual um camelo só conseguia passar de joelhos. Por outro lado, é evidente que Jesus procura mostrar o contraste que havia entre o maior animal da Palestina, na época, e a abertura diminuta de uma agulha comum, usada na confecção das redes e roupas. Isso para mostrar que não há obra ou habilidade humana que possa granjear mérito suficiente para que alguém tenha acesso ao Reino. Isso só é possível a Deus, que, por sua vez, oferece esse dom graciosamente aos Seus (Jó 42.2; Zc 8.6; Jo 3.3-6). 10 Nenhuma obra ou ministério tem valor a menos que esse trabalho seja movido pelo amor a Deus e ao próximo (1Co 13.1-3). A fraternidade produzida pelo Evangelho faz dos cristãos uma grande família (At 2.44-47; 4.32-35; Rm 16.13). Juntamente com as imensas e deliciosas bênçãos, virão as provas, perseguições e o sofrimento, a fim de moldar o caráter do discípulo à imagem de Cristo. O julgamento final trará muitas surpresas. É preciso ficarmos alertas em relação ao pecado da arrogância e do orgulho. Lembremo-nos dos destinos finais de Judas Iscariotes, (que fora escolhido por Jesus como um dos seus Doze apóstolos), e Paulo, anteriormente um perseguidor de cristãos, e que trocaram de posição no Reino, mesmo nesta vida. O importante não é começar bem, mas terminar bem. 11 Esta é a última viagem de Jesus a Jerusalém. Iniciada na cidade de Efraim (Jo 11.54), indo para a Galiléia (Lc 17.11), mais ao sul a Jericó, passando pela região da Peréia (Lc 18.35), depois até Betânia (Lc 19.29), chegando a Jerusalém (Lc 19.41). Jesus estava sendo seguido por uma multidão de romeiros a caminho das celebrações da Páscoa em Jerusalém. Comparando-se mais essa predição da Paixão de Cristo com as demais, encontramos vários detalhes proféticos, todos cumpridos nos últimos dias e horas do ministério de Jesus na terra.


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com o batismo com que estou sendo batizado?”12 39 “Podemos!” Replicaram eles. Então Jesus lhes revelou: “Sim, bebereis o cálice que Eu bebo e, de fato, recebereis o batismo com que Eu sou batizado; 40 todavia, o assentar-se à minha direita ou à minha esquerda não cabe a mim conceder. Esses lugares pertencem àqueles para quem foram preparados”. 41 Assim que os outros dez ouviram esse assunto, ficaram indignados contra Tiago e João. 42 Jesus, por sua vez, os convocou e orientou: “Sabeis que aqueles que são considerados governantes das nações as dominam e as pessoas importantes exercem poder sobre elas. 43 Contudo, não é assim que ocorre entre vós. Ao contrário, quem desejar tornarse importante entre vós deverá ser servo; 44 e quem ambicionar ser o primeiro entre vós que se disponha a ser o escravo de todos. 45 Porquanto, nem mesmo o Filho do homem veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos”.13 A cura do cego Bartimeu (Mt 20.29-34; Lc 18.35-43) 46 Chegaram

pois a Jericó. Quando Jesus e seus discípulos, e mais uma grande

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multidão, estavam deixando a cidade, o filho de Timeu, chamado Bartimeu, que era cego, estava assentado à beira do caminho, pedindo esmolas. 47 Assim que ouviu que era Jesus de Nazaré, começou a gritar: “Jesus! Filho de Davi, tem misericórdia de mim!” 48 Muitos o advertiam severamente para que se calasse, contudo ele gritava ainda mais: “Filho de Davi! Tem compaixão de mim!”14 49 Foi então que Jesus parou e pediu: “Chamai-o!” E assim foram chamar o cego: “Ânimo, homem! Levanta-te, Ele te chama”. 50 Jogando sua capa para o lado, de um só salto colocou-se em pé e foi ao encontro de Jesus. 51 Indagou-lhe Jesus: “Que queres que Eu te faça?” Rogou-lhe o cego: “Raboni, que eu volte a enxergar!”15 52 E Jesus lhe ordenou: “Vai em frente, a tua fé te salvou!” No mesmo instante o homem recuperou a visão e passou a seguir a Jesus pelo caminho. A entrada triunfal de Jesus (Mt 21.1-11; Lc 19.28-40; Jo 12.12-19)

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Quando estavam se aproximando de Jerusalém, chegando a Betfagé e Betânia, perto do monte das Oliveiras, enviou então Jesus dois dos seus discípulos,1

12 A expressão usada originalmente por Jesus, aqui traduzida por “beber do cálice”, significa em hebraico “compartilhar o mesmo destino de alguém”. No AT o cálice de vinho era sempre usado como uma metáfora em relação à ira de Deus contra o pecado e, especialmente, contra a rebelião deliberada do ser humano (Sl 75.8; Is 51.17-23; Jr 25.15-28; 49.12; 51.7). Portanto, o cálice que Jesus tinha de beber diz respeito ao castigo divino dos pecados que Ele mesmo suportou no lugar de toda a humanidade condenada. Jesus usa a palavra “batismo”, cujo significado tem a ver com “mergulho na água”, para enfatizar seu “mergulho” no mais profundo dos sofrimentos para nos salvar da pena do afastamento eterno do Pai (Lc 12.50; Rm 6.3,4). 13 Esse é considerado por muitos teólogos e exegetas como o versículo-chave de Marcos: Jesus veio ao mundo como o Único Servo (só Ele é bom, Ele é a síntese do bem), que viveria e entregaria sua vida à morte para a redenção de todo ser humano que nele crer; como profetizou claramente Isaías (Is 52.13 – 53.12). A palavra “resgate” em seu sentido original traz o significado do preço total pago pela libertação de um escravo. No original grego, a palavra diakonos é usada para demonstrar essa atitude de Jesus, bem como o serviço voluntário, movido por amor, de um cristão em ajuda ao seu próximo. A expressão grega doulos significa o serviço obrigatório do “escravo” e tem a ver com nosso procedimento dentro da comunidade cristã. 14 Essa é a única passagem em Marcos em que o título messiânico é dirigido a Jesus de Nazaré como forma de tratamento (Is 11.1-3; Jr 23.5,6; Ez 34.23,24; Mt 1.1; 9.27). 15 Bartimeu, falando em aramaico, a língua familiar de Jesus, o chama de rabonii ou rabbúni, que significa: meu mestre. Capítulo 11 1 Aqui tem início a etapa derradeira do ministério de Jesus, que acontecerá dentro dos limites de Jerusalém, chamada de Cidade Sagrada. O monte das Oliveiras fica a leste de Jerusalém, chega a uma altura de 823 metros, um pouco mais alto do que o monte Sião. Do seu cume é possível ter uma linda visão panorâmica da cidade, especialmente do templo.


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e lhes recomendou: “Ide ao povoado que está logo adiante de vós e, assim que entrardes, achareis um jumentinho amarrado, sobre o qual ninguém ainda montou. Soltai-o e trazei-o aqui.2 3 Se alguém vos inquirir: ‘Por que fazeis isso?’ Replicai: ‘O Senhor precisa dele e sem demora o enviará de volta para aqui’. 4 Eles partiram e logo encontraram um jumentinho na rua, amarrado a um portão, e o desprenderam. 5 E alguns dos que ali estavam censuraram-lhes: “Que fazeis, soltando o jumentinho?” 6 Eles, todavia, justificaram-se conforme Jesus os orientara; diante do que lhes permitiram seguir. 7 E, assim, trouxeram o jumentinho até onde estava Jesus, selaram-no com seus mantos, e Jesus o montou. 8 Então, muitas pessoas estendiam seus mantos pelo caminho, outras espalhavam ramos que tinham cortado nos campos.3 9 Tanto os que caminhavam adiante dele, como os que seguiam após, proclamavam: “Hosana! Bendito é o que vem em nome do Senhor! 2

MARCOS 11

10 Bendito seja o Reino vindouro de nos-

so pai Davi! Hosana nos mais elevados céus!”4 11 Então, Jesus entrou em Jerusalém e dirigiu-se ao templo. Observou tudo à sua volta e, como já era tarde, partiu para Betânia com os Doze. Jesus purifica o templo (Mt 21.12-17; Lc 19.45-48) 12 No dia seguinte, enquanto estavam saindo de Betânia, Jesus teve fome. 13 E, avistando ao longe uma figueira com folhas, foi verificar se encontraria nela algum fruto. Chegando perto dela, nada encontrou, a não ser folhas, porque não era a época de figos. 14 Então a repreendeu: “Nunca mais, em tempo algum, coma alguém fruto de ti!” E os discípulos escutaram quando proferiu isso.5 15 Assim que chegou a Jerusalém, Jesus entrou no templo e começou a expulsar os que ali estavam apenas comprando e vendendo. Derrubou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que comercializavam pombas.6

2 A entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, evento assim conhecido pela maneira efusiva com que as multidões aclamaram essa chegada de Jesus Cristo à Cidade Santa, abre a Semana da Paixão, lembrada dessa forma para marcar os dias em que Jesus entregou sua própria vida em holocausto, por causa da sua paixão pela humanidade, e para resgatar todo aquele que nele crer da sentença perpétua do abandono de Deus. Mais uma vez as profecias se cumprem até nos detalhes (Zc 9.9; Mt 21.5; Jo 12.15), como foi o caso de Jesus solicitar um jumentinho sobre o qual ninguém ainda houvesse montado, numa demonstração do uso santificado dos elementos para o ritual do sacrifício (Nm 19.2; Dt 21.3). Esse foi um ato messiânico deliberado, de Jesus, revelando-se claramente ao povo como o Messias prometido, e permitindo que os líderes religiosos e políticos que viviam tentando surpreendê-lo em alguma falta, agora passassem a ter um pretexto. 3 Parte das vestes de Jesus foi colocada sobre o lombo do jumentinho. Os profetas do AT foram dirigidos por Deus para ministrarem ao povo por meio de atitudes de grande efeito visual e dramático (Jr 19; Ez 4.1-3). A entrada triunfal, como a purificação do templo, a maldição da figueira, e a ceia do Senhor foram ações dessa natureza. Jesus se apresenta como o Messias. Entretanto, diferentemente de como imaginavam muitos judeus, sem armas ou exércitos, nem mesmo a natural arrogância dos monarcas e grandes líderes. Jesus foi o Messias da Paz (Lc 19.38-40). 4 A expressão hebraica hosana já era de uso comum (e por isso Marcos não a traduz para o grego) e proferida na aclamação de reis e governadores. O verso 10 indica que o povo reconheceu plenamente em Jesus a pessoa do Messias. O vocábulo tem origem na antigüidade judaica e foi usado por Davi em seus salmos de Hallell (Louvor). A passagem do Sl 118.25,26 era cantada na ocasião da celebração da Páscoa e como expressão de boas-vindas proferida pelos sacerdotes aos peregrinos de todas as partes que chegavam a Jerusalém. Portanto, muito adequada para aquele momento. Hosana tornou-se um grito de júbilo e louvor a Deus por seus feitos maravilhosos. 5 As figueiras da região de Jerusalém costumam brotar folhas novas no final de março, mas só produzem frutos quando toda folhagem está completa, por volta de junho. Essa figueira – como Israel – era uma exceção, já estava coberta de folhas muito antes do tempo, na Páscoa, mas sem oferecer nenhum fruto. O episódio serviu de grande recurso didático para que Jesus revelasse especialmente aos discípulos mais uma parábola sobre o Juízo, com a figueira servindo de perfeita ilustração (Os 9.10; Na 3.12). O acontecimento no templo e o evento com a figueira explicam-se mutuamente. 6 Jesus dirigiu-se ao “átrio dos gentios”, a única parte do templo em que os gentios tinham acesso permitido para adorar a Deus e reunir-se para as orações. Os romeiros que vinham de todas as partes da Palestina, para as celebrações da Páscoa, tinham de


MARCOS 11 16 Também não permitia que ninguém transportasse mercadorias pelo templo. 17 E os admoestava exclamando: “Não está escrito: ‘A minha casa será chamada casa de oração para todos os povos’? Vós, contudo, a tendes transformado em ‘covil de ladrões’”. 18 Os chefes dos sacerdotes e os mestres da lei escutaram essas críticas e começaram a tramar um meio para assassiná-lo, pois o temiam, haja vista que todo o povo estava maravilhado com o seu saber e ministração.7 19 E, ao pôr-do-sol, eles saíram da cidade.

O poder da oração de fé (Mt 21.18-22) 20 E, caminhando eles pela manhã, viram

que a figueira secara desde as raízes.8 21 Pedro, recordando-se do ocorrido, informou a Jesus: “Rabbi! Eis que a figueira que amaldiçoaste secou!” 22 Observou-lhes Jesus: “Tende fé em Deus!9 23 E, com toda a certeza eu vos asseguro, que se qualquer pessoa ordenar a este monte: ‘Levanta-te e lança-te no mar, e não houver dúvida em seu coração, mas crer que se realizará o que pede, assim lhe será feito’. 24 Portanto, vos afirmo: Tudo quanto em

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oração pedirdes, tenhais fé que já o recebestes, e assim vos sucederá. 25 Mas, quando estiverdes orando, se tiverdes algum ressentimento contra alguma pessoa, perdoai-a, para que, igualmente, vosso Pai celestial vos perdoe as vossas ofensas. 26 Entretanto, se não perdoardes, vosso Pai que está nos céus também não vos perdoará os vossos pecados”. A autoridade de Jesus é divina (Mt 21.23-27; Lc 20.1-8) 27 Mais tarde, chegaram outra vez a Jerusalém. E Jesus, ao caminhar pelo templo, foi abordado pelos chefes dos sacerdotes, os mestres da lei e os líderes religiosos, que lhe questionaram: 28 “Com que autoridade ages como vens agindo? Ou quem te outorgou tal autoridade para fazeres o que fazes?10 29 Jesus lhes replicou: “Eu também vos proporei uma questão; respondei-me, e Eu vos revelarei com que autoridade tenho ministrado. 30 O batismo de João provinha do céu ou dos seres humanos? Replicai-me pois!” 31 E aconteceu que eles passaram a discutir entre si: “Se afirmarmos: Do céu, ele nos indagará: ‘Então, por qual razão não acreditastes nele?’

comprar animais que satisfizessem as exigências rituais. Os sacerdotes mantinham um acordo com os vendedores e somente os animais comprados (a preços exorbitantes) dentro dessa área do templo recebiam uma espécie de visto de aprovação sacerdotal: “sem defeito” e, portanto eram aceitos na hora do sacrifício. Ao lado dos abrigos dos animais, os vendedores montavam mesas para troca (câmbio) do dinheiro estrangeiro pela moeda local. As pombas eram oferecidas para a purificação das mulheres (Lv 12.6; Lc 2.22-24) e para determinadas doenças de pele (Lv 14.22), além de outros fins específicos (Lv 15.14,29). Havia também as ofertas que deviam ser entregues pelos pobres (Lv 5.7), e vários outros tipos de sacrifícios. Jesus entrou no templo naquele dia como o verdadeiro Sumo Sacerdote (Ml 3.1) e agiu como responsável que é sobre o Templo do Espírito de Deus. 7 A indignação dos líderes religiosos é compreensível. Afinal eram os sacerdotes e seus chefes, Anás e Caifás, que embolsavam o lucro ilícito do comércio geral no templo. 8 Esta era a manhã de terça-feira da Paixão. O detalhe salientado por Marcos, informando que a figueira estava seca desde as raízes, foi uma admoestação ao grave estado de corrupção do povo de Israel a partir dos seus líderes religiosos máximos, e o aviso de que a destruição seria absoluta (Jo 18.16). Além disso, ninguém mais, em futuro algum, seria beneficiado pelos frutos espirituais de Israel. Uma vívida ilustração do terrível juízo que ocorreria no ano 70 d.C. (Mt 24.2). 9 Pedro observa que a figueira secou completamente, de um dia para o outro, e se dirige a Jesus em hebraico usando a expressão: Rabbi, que significa: “meu mestre”. Jesus ensina que a nossa fé (que em hebraico tem o sentido de depositar toda a confiança), deve ser dedicada de forma pura e absoluta a Deus, o Pai. Mesmo a fé em Jesus é fé em Deus, que o enviou e o declarou Seu Filho pleno em poder (Jo 5.24; Rm 1.4; Fl 2.9). Era comum entre os mestres judaicos da época o uso da expressão “remover montes” em relação à solução de problemas muito complicados de interpretação e aplicação prática da Lei. Do alto do monte das Oliveiras era possível avistar o mar Morto. Quem ora com verdadeira fé em Deus não enfrenta dificuldades insolúveis nem insuportáveis; é vital não duvidar e não guardar rancor (Tg 1.6; 2.4). 10 O Sinédrio perguntava ao Senhor por que ele estava realizando um ato oficial sem reter cargo formal (Lc 20.2).


35 32 Se, por outro lado, declararmos: Dos seres humanos...” Neste caso, temiam as multidões, pois todos realmente consideravam João um profeta. 33 Finalmente responderam a Jesus: “Não sabemos!” E, Jesus, por sua vez, concluiulhes: “Ora, nem Eu tampouco vos revelarei com que autoridade estou realizando estas obras!”11

Parábola dos vinicultores maus (Mt 21.33-46; Lc 20.9-19)

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Jesus então passou a ministrarlhes por meio de parábolas: “Certo homem plantou uma vinha, ergueu uma cerca ao redor dela, cavou um tanque para esmagar as uvas e construiu uma torre de vigia. Depois arrendou a vinha para alguns lavradores e partiu de viagem.1 2 Chegando a época da colheita, enviou um servo aos lavradores, com o objetivo de receber deles sua parte do fruto da vinha.2 3 No entanto, eles o agarraram, o espancaram e o mandaram embora de mãos vazias. 4 Então lhes enviou um outro servo; e também lhe bateram na cabeça e o humilharam. 5 E enviou outro ainda, o qual assassinaram. Então enviou muitos outros; mas a alguns agrediram e a outros mataram.

MARCOS 11, 12

Finalmente, restava-lhe enviar seu próprio e amado filho; a este lhes enviou com a seguinte intenção: ‘A meu filho respeitarão’.3 7 Todavia, aqueles lavradores combinaram entre si: ‘Este é o herdeiro! Ora, venham, vamos matá-lo, e assim a herança será toda nossa’.4 8 Então o agarraram, assassinaram e o jogaram para fora da vinha. 9 Diante disso o que fará o proprietário da vinha? Virá, destruirá aqueles lavradores e outorgará a vinha a outros vinicultores. 10 Ainda não lestes esta passagem nas Escrituras? ‘A pedra que os construtores rejeitaram, essa veio a ser a pedra principal, angular; 11 isto procede do Senhor, e é obra de grande maravilha para todos nós’”.5 12 Por isso começaram a tramar um jeito de prendê-lo, pois perceberam que Ele havia narrado aquela história com o propósito de acusá-los. Contudo, tinham receio da multidão; e acharam melhor se afastarem. 6

Adorar a Deus e honrar o Estado (Mt 22.15-22; Lc 20.19-26) 13 Mais tarde enviaram a Jesus alguns dos

fariseus e herodianos para tentar condená-lo em alguma palavra que proferisse.6

11 Os jjudeus usavam a expressão p “céu” ou “céus”, muitas vezes em substituição ç ao vocábulo divino “Deus” ((ou como muitos judeus grafam ainda hoje: “D-us”), procurando evitar, assim, um possível mau uso do nome de Deus (Êx 20.7). Com sua pergunta Jesus deu a entender que sua autoridade provinha de Deus, da mesma maneira que o batismo de João. Capítulo 12 1 Jesus continua a falar com os mesmos líderes religiosos de 11.27. Esta história ilustrativa e repleta de ensinamentos (parábola) fala dos homens que desconfiam da autoridade divina de Jesus. As expressões hebraicas: “plantou uma vinha”, “cerca ao redor”, “cavou um tanque”, “torre de vigia” vêm citadas na versão grega de Isaías 5.1,2, na tradução das Escrituras chamada Septuaginta ou, simplesmente “LXX”. 2 A palavra “servo” aqui usada é doulos (em grego: escravo). Neste caso indica uma das grandes características do Profeta de Jeová, do AT: “obediente e submisso a Deus” (Jr 7.25; Am 3.7; Zc 1.4). 3 A derradeira possibilidade de reconciliação dos seres humanos com o Criador está na intermediação de Cristo, o Filho amado. A ênfase de todo o NT está na incomparabilidade de Jesus Cristo (Hb 1.1,2). Quem rejeitar o Filho fica sem qualquer esperança de aceitação da parte de Deus, o Pai. 4 Pela lei judaica, em vigor na época, qualquer propriedade não reclamada por seu herdeiro legal passava a ser declarada “terra sem dono”, e poderia ser outorgada propriedade da primeira pessoa que se identificasse como dono dessas terras. Os vinicultores, embriagados pela avareza e cobiça, logo perceberam que assassinando o filho do dono poderiam tornar-se os novos e ricos proprietários das terras. 5 Esta passagem é composta integralmente com expressões extraídas da tradução grega Septuaginta (LXX) do Salmo 118.22,23. A pedra principal ou angular era a pedra que unia e completava as grandes construções da época (At 4.11; 1Pe 2.7,8). Deus permitiu o assassinato de seu Filho único, apenas para, em seguida, exaltá-lo como Senhor supremo e Juiz dos pecadores inveterados (Fp 2.6-11). 6 Este episódio ocorreu na terça-feira da Paixão, em um dos átrios do templo. Os herodianos eram partidários de Herodes


MARCOS 12 14 E, ao se aproximarem, lhe questionaram: “Mestre, sabemos que és verdadeiro e que não te deixas influenciar por ninguém, pois não te impressionas com a aparência exterior das pessoas, mas ensinas o caminho de Deus em conformidade com a mais pura verdade. Assim sendo, diga-nos, é lícito pagar imposto a César ou não? 15 Devemos pagar ou podemos nos recusar?”. Jesus, porém, conhecendo o quão hipócritas estavam sendo, lhes inquiriu: “Por que me tentais? Trazei-me um denário para que Eu o veja!” 16 E eles lhe trouxeram a moeda, ao que Ele lhes indagou: “De quem é esta imagem e esta inscrição?” 17 “Ora, de César”, replicaram eles. 18 Então Jesus lhes asseverou: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus!” E todos ficaram pasmos com Ele.7

A ressurreição de todos os mortos (Mt 22.23-33; Lc 20.27-40) 18 Depois chegaram os saduceus, que pregam não haver qualquer ressurreição, com a seguinte questão:8 19 “Mestre, Moisés nos deixou escrito que, se um homem morrer e deixar sua esposa sem filhos, seu irmão deverá se casar com a viúva e gerar filhos para seu irmão. 20 Ora, havia sete irmãos. O primeiro

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casou-se e faleceu sem deixar filhos. 21 Então o segundo desposou a viúva, mas também morreu sem deixar descendentes. O mesmo ocorreu com o terceiro. 22 E, dessa forma, nenhum dos sete irmãos deixou filhos. Finalmente, faleceu também a mulher. 23 Na ressurreição, de quem essa mulher será esposa, haja vista que os sete irmãos foram casados com ela?”. 24 Então Jesus os admoestou: “Não é sem motivo que errais tanto, pois não compreendeis as Escrituras nem o poder de Deus!9 25 Quando os mortos ressuscitam não se casam mais, nem são dados em casamento. Pois se tornam como os anjos nos céus. 26 A respeito da ressurreição dos mortos, ainda não tendes lido no livro de Moisés, no texto referente à sarça, como Deus lhe declarou: ‘Eu Sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó?’ 27 Ora, Ele não é Deus de mortos, e sim o Deus dos vivos!’. Estais absolutamente enganados!”10 O principal dos mandamentos (Mt 22.34-40; Lc 10.25-28)

Um dos mestres da lei achegou-se e os ouviu argumentando. Observando como

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Antipas, rei da Galiléia. O plano para matar Jesus, tramado logo depois do início do seu ministério na Galiléia, estava agora amadurecendo rapidamente e ganhava força nos meios religiosos e políticos de Jerusalém. 7 O NT apresenta alguns princípios básicos referentes à nossa obediência ao Estado: 1) O Estado não é maior nem mais poderoso que o Senhor. Deve, portanto, ser submisso à vontade expressa de Deus (Rm 13.1). 2) O Estado tem deveres e direitos para com seu povo que, por sua vez, também deve cumprir com suas responsabilidades cívicas. Existem obrigações para com o Estado que não entram em choque com nossas obrigações prioritárias para com Deus (Rm 13.1-7; 1Tm 2.1-6; Tt 3.1,2; 1Pe 2.13-17). 3) O limite dessas responsabilidades para com o Estado não deve ultrapassar a vontade de Deus, claramente expressa pelo Espírito Santo aos cristãos e escrita em Sua Palavra (At 4.19). 8 Os saduceus representavam o partido judaico aristocrata dos sacerdotes e das classes ricas, na época subordinado aos romanos. Estabelecidos principalmente em Jerusalém, fizeram do templo e de sua administração seu interesse principal. Embora pequeno em número, na época de Jesus, esse grupo exerceu poderosa e decisiva influência política e religiosa em Israel, e até em Roma. Negavam a ressurreição dos mortos, aceitavam somente a autoridade divina dos primeiros cinco livros de Moisés (o Pentateuco ou a Torá), e rejeitavam totalmente a tradição oral dos judeus. Essas doutrinas geravam grande conflito entre os saduceus, os fariseus e a fé comum judaica. 9 As doutrinas e pressuposições teológicas dos saduceus os incapacitavam de entender coerentemente (conhecer) o AT como um todo e não apenas o Pentateuco. 10 Era comum os mestres judeus referirem-se ao evento da “sarça” ao falar do maravilhoso encontro de Deus com Moisés no deserto ou para lembrar o texto bíblico de Êx 3.1-6 (ver Rm 11.2, em que “Elias” se refere a 1Rs 19.1-10). Nesta passagem, Jesus confirma a inspiração e a historicidade do texto de Êx 3. Os planos do Criador e Fonte da vida não serão vencidos pela


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Jesus lhes houvera respondido esplendidamente, perguntou-lhe: “De todos os mandamentos, qual é o mais importante?”11 29 Esclareceu-lhe Jesus: “O mais importante de todos os mandamentos é este: ‘Ouve, ó Israel, o Senhor, o nosso Deus é o único Senhor. 30 Amarás, portanto, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de toda a tua força’.12 31 E o segundo é: ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’. Não existe qualquer outro mandamento maior do que estes”. 32 Então o escriba exaltou Jesus: “Muito bem, Mestre! Estás absolutamente certo ao afirmares que Deus é único e que não existe outro que se compare a Ele. 33 E que amar a Deus de todo o coração e de todo o entendimento, e com todas as forças, bem como amar ao próximo como a si mesmo é muito mais importante do que todos os sacrifícios e ofertas juntos”. 34 Jesus, por sua vez, vendo que o homem havia respondido com sabedoria, revelou-lhe: “Não estás distante do Reino de Deus!” E, a partir disto, não havia mais alguém que ousasse lhe questionar coisa alguma.

MARCOS 12

Cristo é o Senhor de Davi (Mt 22.41-46; Lc 20.41-44)

Mais tarde, Jesus estava ensinando no templo, quando levantou uma questão: “Como podem os mestres da lei pregar que o Cristo é filho de Davi? 36 Sendo que o próprio Davi, expressando-se pelo Espírito, afirmou: ‘O Senhor disse ao meu Senhor: Senta-te à minha direita, até que Eu ponha os teus inimigos debaixo de teus pés’.13 37 Se o próprio Davi o chama de ‘Senhor’. Como é possível, então, ser Ele seu filho?” E numeroso ajuntamento de pessoas o ouvia com grande deleite! 35

Jesus condena os escribas (Mt 23.1-7,14; Lc 20.45-47)

E, continuando seu ensino, advertia Jesus: “Acautelai-vos dos escribas. Pois eles fazem questão de andar com roupas especiais e de receber saudações em praças públicas,14 39 de sentar nos lugares de maior destaque nas sinagogas, e ainda de ocupar as posições mais honrosas à mesa dos grandes banquetes.15 40 Eles devoram as casas das viúvas e, para dissimular, fazem longas orações. 38

morte, nem pelo pecado (Sl 73.23). Deus é Senhor dos vivos, pois ainda que morramos, seremos ressuscitados e estaremos vivos para sempre. 11 Os antigos rabinos judeus contavam 613 ordenanças da Lei e procuravam diferenciar entre mandamentos “pesados” ou “mais importantes” (graves), e aqueles considerados “leves” ou “menos importantes”. Os escribas eram fariseus, teólogos e eruditos da lei, criadores e transmissores da interpretação tradicional dos mandamentos de Deus. 12 Jesus recita o Shema, em razão de ser a primeira palavra hebraica de Dt 6.4, que significa “Ouve” (preste atenção para praticar). Citar este trecho das Escrituras tornou-se uma espécie de confissão de fé judaica, recitada por judeus piedosos e consagrados, todas as manhãs e ao pôr-do-sol. Até hoje é usada para iniciar os cultos nas sinagogas em todo o mundo. No entanto, especialmente na vida dos líderes religiosos que combatiam Jesus, o Shema havia se tornado apenas uma “reza” ou “oráculo”, repetição meramente ritualística de palavras, as quais se imagina que possam tocar a divindade. Jesus resgatou o verdadeiro sentido do Shema e acrescentou-lhe o mandamento de Lv 19.18, para demonstrar que é impossível amar a Deus sem honrar ao próximo com o mesmo sentimento de cuidado que devotamos a nós mesmos. O amor a Deus tem como expressão natural o amor aos irmãos de raça e à terra em geral. O primeiro e o segundo mandamentos são inseparáveis (1Jo 4.20). Agostinho proclamou: “Ama a Deus e faze o que queres”, pois o amor sincero a Deus purifica todas as nossas intenções. A ênfase na unidade absoluta do Deus único é usada para negar qualquer idéia de politeísmo, comum a todos os povos não judeus da antigüidade. 13 Jesus usa habilmente as Sagradas Escrituras para mostrar que o Cristo (o Messias) era mais que descendente de Davi. Era o Senhor de Davi (Sl 110.1). 14 Os escribas (mestres da lei) gostavam de usar túnicas compridas de linho branco com franjas que quase tocavam o chão. Colocavam boa parte de sua respeitabilidade na aparência exterior. 15 Os lugares mais destacados e importantes nas sinagogas ficavam em frente a uma réplica da “Arca” que era usada para guardar os rolos sagrados (cópias manuscritas dos originais). Aqueles que tinham o privilégio de sentar-se ali podiam ser vistos na sinagoga por toda a congregação.


MARCOS 12, 13

Estes, certamente, receberão condenação ainda mais severa!”16 A valiosa oferta da viúva pobre (Lc 21.1-4)

E Jesus foi sentar-se em frente ao local onde eram depositadas as contribuições financeiras e observava a multidão colocando o dinheiro nas caixas de coleta de ofertas. Muitos ricos lançavam ali grandes quantias.17 42 Foi então que uma viúva pobre se aproximou e depositou duas moedas bem pequenas, de cobre e, portanto, de bem pouco valor.18 43 E chamando para perto de si os seus discípulos, Jesus lhes declarou: “Com toda a certeza vos afirmo que esta viúva pobre depositou no gazofilácio mais do que o fizeram todos os demais ofertantes. 44 Porquanto, todos eles ofertaram do que lhes sobrava; aquela senhora, entretanto, da sua penúria deu tudo quanto possuía, todo o seu sustento”. 41

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Os sinais do final dos tempos (Mt 24.1-35; Lc 21.5-37)

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E ocorreu que ao sair Jesus do templo, observou-lhe um de seus discípulos: “Olhai Mestre! Que pedras enormes. Que construções magníficas!”1 2 Entretanto Jesus lhe revelou: “Vês estas suntuosas construções? Pois aqui não restará pedra sobre pedra; serão todas derrubadas!” 3 Então, havendo Jesus se assentado no monte das Oliveiras, de frente para o templo, Pedro, Tiago, João e André o consultaram em particular: 4 “Dize-nos quando acontecerão estes eventos, e que sinal haverá quando todos eles estiverem prestes a cumprir-se?” 5 E Jesus passou a preveni-los: “Vede que pessoa alguma vos induza ao erro.2 6 Pois serão muitos os que virão em meu nome, afirmando: ‘Sou eu’; e iludirão multidões. 7 No entanto, assim que ouvirem notícias sobre guerras e rumores de guerras,

16 Os mestres da lei não recebiam um salário fixo e regular. Dependiam de ofertas voluntárias dos irmãos judeus. As senhoras viúvas eram, em geral, as mais generosas e muitas vezes vítimas de exploração. 177 Os gazofilácios ou caixas de ofertas ficavam no átrio das mulheres. Nele se achavam treze receptáculos em forma de trombeta para receber as contribuições trazidas pelos adoradores. De maneira curiosa, os homens tinham permissão para entrar nesse recinto, mas as mulheres não podiam ir a qualquer outra parte do templo. 18 As moedas de cobre (em grego, lepta, “finas”) eram as menores em circulação em toda a Palestina e correspondiam ao mínimo valor monetário, valiam apenas 1/6 de um denário. Todavia Jesus observou o desprendimento da pobre senhora que ofereceu ao Senhor tudo o que tinha (2Co 8.12). Capítulo 13 1 Este capítulo é conhecido por muitos teólogos como “O Sermão Profético”, é também chamado de “Pequeno Apocalipse”. Marcos consegue sintetizar as grandes e dramáticas verdades em relação aos sinais que surgirão na terra prenunciando o iminente e glorioso retorno de Cristo, o final dos tempos e o início de uma nova era (Mt 24; Lc 21 e todo o Apocalipse). O propósito de Marcos não é esclarecer os seus leitores sobre os eventos futuros, mas sim encorajar os cristãos a resistir ao mal; permanecer firmes na fé em Jesus, não importa o quanto às circunstâncias possam ser adversas; manter sempre a Esperança e estar pronto, a todo o momento, para o magnífico encontro com Cristo em glória. O Templo era uma construção suntuosa e exemplar. Refletia o poder e a capacidade do gênio humano. Herodes, o Grande, começou sua reconstrução no século 19 a.C., tornando-a uma das maravilhas do mundo antigo. O historiador judeu Flavio Josefo dizia que as pedras talhadas e usadas na construção eram brancas e muitas mediam até 11,5m de comprimento, 3,7m de altura e 5,5m de largura. Contudo, no ano 70 d.C., antes mesmo da sua conclusão (14.58; 15.29; Jo 2.19, Mt 23.38), o Templo foi completamente destruído, a ponto de não ficar uma só pedra sobre outra. Jerusalém foi toda queimada, as praças públicas tornaram-se lagos de sangue e os soldados romanos cobriram, com sal, os cadáveres e todo o chão da cidade. Esse foi o grande sinal do início dos eventos que marcarão o final dos tempos e da humanidade como a conhecemos hoje. Portanto, a volta triunfal de Cristo pode ocorrer a qualquer momento em nossos dias. 2 Um dos principais propósitos deste sermão é alertar os discípulos quanto ao perigo dos ataques místicos de enganadores e falsos profetas. Durante séculos essas pessoas têm surgido em toda a terra, iludindo e destruindo inúmeras vidas humanas. À medida que o final dos tempos se aproxima, mais defraudadores da verdade arrebanharão multidões de incautos. Por isso Jesus enfatiza o cuidado e o zelo, usando expressões como “ficai vós alertas”, “estai vigilantes” e “vigiai” (9, 23, 33, 35, 37).


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não vos assusteis; é necessário que assim ocorra, contudo, ainda não é o fim.3 8 Porquanto nação se levantará contra nação, e reino contra reino. Sucederão terremotos em vários lugares e muita fome por toda parte. Esses acontecimentos são o início das dores! 9 Ficai vós alertas, pois vos denunciarão aos tribunais e sereis açoitados nas sinagogas. Por minha causa vos farão comparecer à presença de governadores e reis, e isso se constituirá em testemunho para eles.4 10 Contudo, é indispensável que primeiro o Evangelho seja anunciado para todas as nações.5 11 Todas as vezes que fordes presos e levados a julgamento, não vos preocupeis com o que haveis de declarar, porém, o que vos for concedido naquele momento, isso proclamai; porque não sois vós os que falais, mas, sim, o Espírito Santo! 12 E sucederá que um irmão trairá seu próprio irmão, entregando-o à morte, e dessa mesma maneira agirá o pai para com seu filho. Filhos haverá que se revoltarão contra seus próprios pais e os assassinarão. 13 Sereis odiados de todos por minha causa, todavia, aquele que permanecer firme até o seu fim receberá a glória da salvação.

MARCOS 13

A grande tribulação (Mt 24.15-28; Lc 21-24)

Então, quando virdes o sacrilégio horrível posicionado no lugar onde não deve estar (aquele que lê as Escrituras entenderá), os que estiverem na Judéia fujam para os montes. 15 Quem estiver sobre a laje que cobre as vossas casas, não desça nem entre para retirar dela qualquer de vossos pertences.6 16 Quem estiver no campo não retorne para apanhar seu manto. 17 Como serão terríveis aqueles dias, principalmente para as grávidas e para as mães que estiverem amamentando! 18 Orem para que estes eventos não venham a ocorrer no inverno. 19 Pois aqueles serão dias de tamanho sofrimento, como jamais houve desde que Deus criou o mundo até agora, nem nunca mais haverá. 20 Portanto, se o Senhor não tivesse reduzido aquele período, nenhum ser de carne e osso sobreviveria. Contudo, por causa dos eleitos por Ele escolhidos, tais dias foram abreviados pelo Senhor.7 21 Se, todavia, alguém lhes anunciar: ‘Eis aqui o Cristo!’ Ou ainda: ‘Ei-lo logo ali!’ Não deis qualquer crédito a isso! 22 Pois surgirão falsos cristos e falsos profetas, realizando sinais e maravilhas, 14

3 Jesus se refere ao final da História da Criação e encoraja os cristãos a não se desesperarem, pois assim deve prosseguir a História (Rm 8.22; Hb 12.26). Os falsos mestres e a própria perversão do sistema político, religioso, econômico e social mundial apressarão a volta do Senhor. Entretanto, o cristão, por estar salvo, não deve pensar de forma egoísta: “quanto pior, melhor”. Mas, sim, em tornar-se um canal de bênçãos para a salvação do maior número de pessoas possível. 4 Perseguições e incompreensões aguardam todos aqueles que se lançam ao desafio da proclamação do Evangelho em todo o mundo. Os tribunais religiosos eram dirigidos pelos anciãos (administradores) das sinagogas. As infrações dos regulamentos e estatutos judaicos eram sujeitos a uma punição de até 39 açoites (At 8.1; 9.1; 2Co 11.23,24). Contudo, governadores, reis e grandes autoridades (judeus e gentios) terão a oportunidade de receber o Evangelho do Senhor por meio do testemunho dos cristãos. 5 Jesus prediz que o Evangelho será pregado em todas as nações (em grego: ethnç, a mesma palavra para “gentios”). Todos os gentios sobre a face da terra terão ao menos uma oportunidade de ouvir e receber o Evangelho, e não apenas os judeus (Ap 7). Infelizmente, isso não quer dizer que o mundo se tornará melhor e mais cristão com o passar do tempo, mas que é missão da Igreja ir e proclamar. 6 Aquele que perseverar será salvo do Juízo final, não das perseguições temporais em virtude da sua fé em Jesus Cristo. A expressão aqui traduzida por “laje” tem a ver com um tipo especial de cobertura plana das casas judaicas na época de Cristo, muito diferente dos tradicionais telhados brasileiros e europeus (Mt 24.17; Mc 2.4; Lc 17.31). 7 O Senhor toma o cuidado de não ser muito claro em suas profecias para que apenas aqueles fiéis, que se dedicam à oração e ao estudo da Palavra, possam compreender o verdadeiro sentido das predições. Especialmente as dos versos 14 a 20, para as quais, muitos anos mais tarde, Lucas nos legaria sua interpretação (Lc 21), tendo em vista os acontecimentos que culminaram com a destruição de Jerusalém, entre os anos 66 e 70 d.C., de cujos fatos ele foi testemunha ocular. Os ídolos do imperador e as atitudes bárbaras dos soldados romanos, absolutamente tomados pelo ódio, profanaram o Templo em 70 d.C. (Dn 9.27; 11.31;


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com o objetivo de enganar, se possível, os próprios eleitos.8 23 Desse modo estai vigilantes, pois sobre tudo isso vos avisei com antecedência!

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passará esta geração até que todos esses eventos ocorram.10 31 Os céus e a terra passarão, contudo as minhas palavras nunca passarão.

O glorioso retorno de Jesus

Só Deus sabe o dia e a hora. Vigiai!

(Mt 24.29-31; Lc 21.25-28)

(Mt 24.36-51)

24 Porém, naqueles dias, depois do referi-

32 Todavia, a respeito daquele dia ou hora

do período de tribulação, ‘o sol escurecerá e a lua não dará a sua luz;9 25 as estrelas cairão do céu e os poderes celestes serão abalados’. 26 Então o Filho do homem será visto chegando nas nuvens, com grande poder e glória. 27 Ele enviará os seus anjos e reunirá os seus eleitos dos quatro ventos, das extremidades da terra até os confins do céu.

ninguém sabe; nem os anjos no céu, nem o Filho do homem, senão apenas o Pai. 33 Estai, pois, atentos e vigiai! Porquanto não cabe a vós saber quando será este tempo. p 34 É como um homem que viaja para outro país e, deixando a sua casa, encarrega cada um de seus servos das suas tarefas e ordena ao porteiro que vigie.11 35 Vigiai, pois, uma vez que não sabeis quando regressará o dono da casa: se à tarde, à meia-noite, ao cantar do galo ou mesmo ao raiar do dia. 36 E, em vindo repentinamente, que não vos surpreenda dormindo. 37 O que vos tenho dito, proclamo a todos: Vigiai!”12

A parábola da boa figueira (Mt 24.32-44; Lc 21.29-36) 28 Portanto, aprendei com o ensino da fi-

gueira: Quando seus ramos se renovam e suas folhas começam a brotar, sabeis que o verão vem chegando. 29 Dessa mesma maneira, assim que observardes esses eventos ocorrendo, sabei que o tempo está próximo, já às portas. 30 Com toda a certeza vos afirmo que não

Trama para matar Jesus (Mt 26.1-5; Lc 22.1-2)

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Restavam somente dois dias para a Páscoa e para a festa dos pães

12.11) e tornaram-se uma advertência explícita, quanto ao que, no futuro, o anticristo poderá fazer contra os cristãos e a Igreja, o Templo de Deus na atualidade (2Ts 2.4; 1Pe 2.5). 8 Satanás é o pai da mentira, do engano e do ódio. Seu plano é, antes do final do seu domínio sobre o mundo, enganar e iludir o maior número de seres humanos que puder. Com especial empenho em relação àqueles que foram chamados pelo Senhor para a Salvação e uma nova vida em Cristo (Jo 8.44; 1Jo 2.26,27). 9 O foco dessa passagem está sobre o glorioso retorno de Jesus Cristo (Dn 7.13). As profecias anteriores são indicativos do grande evento do fim. Os fenômenos astronômicos e climáticos são registrados sempre do ponto de vista do observador leigo e sem preocupação científica. Pois era vital apresentar aos povos de todas as épocas, culturas e línguas as grandes pistas da volta triunfal de Cristo, o final das eras, o Juízo e o estabelecimento de uma nova ordem na terra sob o governo de Jesus, o Rei do Universo (Is 13.10; 24.4; Am 8.9; Dn 7.13; Ap 1.7; 21.1-4). Deus realizará seu sonho de reunir todo o seu povo disperso (seus eleitos e amados), de todas as partes e épocas, em torno de si, em espírito de adoração e fraternidade absoluta (Gn 16.7; Ap 14.14-16 com Dt 30.3,4; Is 43.6; Jr 32.37; Ez 34.13; 36.24). 10 O cumprimento das profecias referentes à destruição total de Jerusalém foi visto pela geração contemporânea de Jesus Cristo, inclusive por alguns dos seus discípulos. Além disso, o Senhor é o Deus dos vivos; e, portanto, aqueles que nele crêem não morrem (no sentido de serem destruídos ou deixarem de existir), mas – como adormecidos – aguardam seguros o grande dia da volta de Cristo e a ressurreição dos justos para a glória eterna (os ímpios, para o Juízo e a condenação sem fim). 11 Os verdadeiros cristãos recebem os dons do Espírito para capacitá-los a servir ao Senhor, aos irmãos e ao mundo perdido (1Co 12; Rm 12; 1Pe 4.10). O termo “porteiro” tem o mesmo sentido do “mordomo” de Lc 12.42, e refere-se principal-mente aos líderes espirituais da Igreja. 12 Jesus consegue resumir numa única e simples expressão: Vigiai, todas as principais obrigações que qualquer pessoa – que o siga como discípulo (com fé e devoção) – deva cumprir até o seu glorioso retorno.


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sem fermento. Os chefes dos sacerdotes e os mestres da lei buscavam um meio de surpreender Jesus em qualquer erro e assim poder condená-lo à morte.1 2 Entretanto, comentavam: “Que não seja durante as festividades, para que o povo não se tumultue”. Jesus é ungido em Betânia (Mt 26.6-13; Jo 12.1-8) 3E

estando Jesus em Betânia, reclinado à mesa na casa de certo homem conhecido como Pedro, o leproso, achegou-se dele uma mulher portando um frasco de alabastro contendo valioso perfume, feito de nardo puro; e, quebrando o alabastro, derramou todo o bálsamo sobre a cabeça de Jesus.2 4 Diante disso, indignaram-se alguns dos presentes, e a criticavam entre si: “Para que este desperdício de tão valioso perfume? 5 Um bálsamo como este poderia ser vendido por trezentos denários, e o dinheiro ser doado aos pobres”. E a censuravam severamente.3 6 “Deixai-a em paz!”- ordenou-lhes Jesus. “Por que causais problemas a esta mulher? Ela realizou uma boa ministração para comigo”. 7 Quanto aos pobres, sempre os tendes ao vosso lado, e os podeis ajudar todas

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as vezes que o desejardes, todavia a mim nem sempre me tereis. 8 A mulher fez tudo que estava ao seu alcance. Derramou o bálsamo sobre mim, antecipando a preparação do meu corpo para o sepultamento.4 9 Com toda a certeza Eu vos asseguro: onde quer que o Evangelho for pregado, por todo o mundo, será também proclamada a obra que esta mulher realizou, e isso para que ela seja sempre lembrada”. 10 E, depois disso, Judas Iscariotes, um dos Doze, foi encontrar-se com os chefes dos sacerdotes com o propósito de lhes entregar Jesus. 11 Ao ouvirem a proposta, eles ficaram muito satisfeitos e se comprometeram a lhe pagar algum dinheiro. E, por isso, ele procurava uma oportunidade para entregá-lo. A Ceia do Senhor (Mt 26.17-30: Lc 22.7-23; Jo 13.18-30)

E, no primeiro dia da festa dos pães sem fermento, quando tradicionalmente se sacrificava o cordeiro pascal, os discípulos de Jesus o consultaram: “Onde desejas que vamos e façamos os preparativos para ceares a Páscoa?”5 13 Então Ele enviou dois de seus discípulos instruindo-lhes: “Ide à cidade, e certo 12

1 As celebrações da Páscoa (Êx 12.13,23,27) em Jerusalém reuniam até três milhões de pessoas. Considerando que a população média da cidade era de apenas 50 mil habitantes, é compreensível a grande preocupação das autoridades israelenses e romanas com possíveis tumultos e revoluções. A conhecida Festa dos Pães Asmos ou Festa dos Pães sem Fermento ocorria logo após a Páscoa e durava sete dias (Êx 12.15-20; 23.15; 34.18; Dt 16.1-8). 2 A mulher era Maria, irmã de Marta e Lázaro. No evangelho de João, este evento ocorreu antes de começar a Semana da Paixão (Jo 12.1-3). Mateus e Marcos enfatizam o contraste entre o ódio dos líderes religiosos, a covardia dos discípulos e a traição de Judas Iscariotes, e o amor, coragem de se expor e desprendimento material de Maria. O alabastro era um frasco lacrado, de gargalo longo, que continha valioso perfume, normalmente usado na unção de personalidades notáveis da época ou no preparo mortuário de monarcas e pessoas ricas (Sl 23.5; Lc 7.46). Ao narrar este episódio, Marcos se refere a “alguns dos presentes”, Mateus concentra-se nos “discípulos” (Mt 26.8) e João destaca a participação objetiva e comprometedora de “Judas Iscariotes” (Jo 12.4,5). 3 Trezentos denários correspondiam a quase um ano de trabalho de um soldado romano. Jesus prevê que, até o seu retorno, haverá muitas pessoas que dependerão da ajuda de seus semelhantes. Jesus sempre teve um coração compassivo em relação aos pobres (Mt 6.2-4; Lc 4.18; 6.20; 14.13.21; 18.22; Jo 13.29). 4 Era costume judaico ungir um corpo com óleos aromáticos para o sepultamento (16.1). Entretanto, os corpos de pessoas condenadas por crimes não mereciam tal atenção, cuidado e honra. A “antecipação” de Maria revela que Jesus percebeu que ela tinha compreendido o propósito da vinda do Cristo (o Messias) ao mundo como Servo sofredor (Is 53). 5 Os cordeiros eram tradicionalmente sacrificados no dia anterior ao primeiro dia da Festa dos Pães sem Fermento (Êx 12.6), ou seja, no dia 14 de Nisã (mês que corresponde a abril, quando celebramos nossa Páscoa). O cordeiro tinha de ser sacrificado à tarde (por volta das 15h) e comido em grupos de pelo menos dez pessoas, entre o pôr-do-sol e a meia-noite.


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homem carregando um cântaro de água virá ao vosso encontro.6 14 Segui-o e dizei ao proprietário da casa onde ele entrar que o Mestre deseja saber: ‘Onde está a minha sala de jantar onde cearei a Páscoa com os meus discípulos?’7 15 E aquele homem vos mostrará um amplo cenáculo todo mobiliado e pronto; ali fazei os preparativos”. 16 Partiram, pois, os discípulos e chegaram na entrada da cidade onde encontraram tudo como Jesus lhes havia predito. E ali prepararam a Páscoa.8 17 Ao pôr-do-sol chegou Jesus com seus Doze. 18 E quando estavam ceando, reclinados à mesa, Jesus lhes revelou: “Com toda a certeza vos afirmo que um dentre vós, este que come comigo, me trairá”.9 19 Eles ficaram consternados e lhe afirmavam: “É certo que q não serei eu!” 20 Mas, asseverou-lhes Jesus: “É um dos Doze, aquele que come comigo do mesmo prato.10 21 O Filho do homem vai, conforme está escrito a respeito dele. No entanto, infeliz

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daquele que trai o Filho do homem! Melhor lhe fora jamais haver nascido!” O ato de partilhar o pão e o cálice (Mt 26.26-30; Lc 22.19-23; 1Co 11.23-25)

E, enquanto ceavam, tomou Jesus um pão e, tendo dado graças, o partiu, e o serviu aos seus discípulos, declarando: “Tomai, isto é o meu corpo”.11 23 Em seguida, tomou Jesus um cálice, deu graças e o entregou aos discípulos, e todos beberam dele. 24 Então lhes revelou: “Isto é o meu sangue da Aliança, o qual é derramado para o bem de muitos.12 25 Com toda a certeza vos afirmo que não voltarei a beber do fruto da videira, até aquele dia em que beberei o vinho novo no Reino de Deus”.13 26 E, depois de haverem cantado um salmo, partiram para o monte das Oliveiras. 22

Jesus prediz a traição de Pedro (Mt 26.31-35; Lc 22.31-34; Jo 13.36-38) 27 Então, Jesus lhes advertiu: “Todos vós

6 Um homem carregando um pote de água poderia ser facilmente reconhecido na cidade; pois, naquela época e região, apenas as mulheres transportavam água dessa maneira. Pedro e João foram encarregados por Jesus para ir ao encontro previsto (Lc 22.8). 7 Outro costume judaico na época da Páscoa em Jerusalém era o de ceder uma grande sala (salão de hóspedes ou cenáculo), disponível, mediante solicitação prévia, aos peregrinos, para que pudessem cear a Páscoa com seu grupo. 8 Uma grande casa judaica sempre tinha seus cenáculos, amplas e bem ventiladas salas no primeiro andar, cujo acesso se dava por meio de uma escada externa. Em geral os preparativos para a ceia de Páscoa incluíam: O cordeiro pascal, lembrando o sangue que protegeu os filhos de Israel do anjo da morte no Egito (Êx 12.2); os pães asmos, isto é, sem levedura (fermento), como sinal de urgência e rapidez na saída do Egito; água salgada, uma recordação do pranto derramado no Egito e das águas do mar Vermelho; ervas amargas, em memória das amarguras passadas na escravidão; uma sopa de frutas, como lembrança da obrigação de produzir tijolos; quatro copos de vinho, recordando as quatro promessas de Êx 6.6,7. 9 No AT, a Páscoa era comida em pé (Êx 12.11), mas nos tempos de Jesus o costume havia mudado e os judeus, mesmo os mais pobres, faziam suas refeições reclinados sobre almofadas, ao redor de uma mesa baixa, em sinal do direito à liberdade do povo judeu. 10 Jesus se refere à sopa de frutas (em hebraico, charosheth) que ambos estavam degustando do mesmo prato, conforme o costume judaico. Judas foi advertido por Jesus sem que os demais discípulos notassem. 11 A Ceia do Senhor é uma celebração dramática do evento do sacrifício do Senhor para nossa total e completa redenção (Jr 27.28; 10,11; Ez 4.1-8), da mesma maneira que a Páscoa judaica. São quatro os relatos da Ceia no NT (Mt 26.26-28; Mc 14.22-24; Lc 22.19,20 e 1Co 11.23-25). A expressão “dado graças”, deriva da palavra eucaristia em grego. 12 A velha Aliança dependia dos israelitas (e dos gentios) guardarem a Lei (Êx 24.3-8). A nova Aliança, em Cristo, não está alicerçada na dependência das obras da lei, mas no sacrifício vicário de Jesus Cristo (Rm 4.23-31). Assim, todos aqueles que aceitam e recebem pela fé, e para si, esse sacrifício expiatório do Filho de Deus, herdam o Reino e deveriam viver como cidadãos da Nova Jerusalém. O cálice com o sumo do fruto da videira (as uvas são ricas em açúcares e por isso fermentam com rapidez, gerando o vinho), representa o sangue de Jesus que significa sua vida derramada pela nossa salvação. As promessas de Deus ao povo da Nova Aliança só podem ser válidas mediante a morte expiatória de Cristo (Jr 31.31-34; Hb 8.8-12; Lc 22.20 com Êx 24.6,8 e Rm 5.15). 13 Jesus entrega-se à morte por seu voto de nazireu (Nm 6.1-21), enquanto antevê sua ressurreição, após o que se reunirá com seus discípulos em outras épocas festivas e ceará com eles (At 1.4; 10.41). A partir desses eventos, teve início a Ceia do Senhor. Na igreja primitiva era costume a realização de uma grande ceia com muita comida para todos. Com o passar do tempo essa


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me abandonareis. Pois está escrito: ‘Ferirei o pastor, e as ovelhas serão dispersas’. 28 Contudo, depois da minha ressurreição, partirei adiante de vós rumo à Galiléia”. 29 Pedro exclamou: “Mesmo que todos te abandonem, eu nunca te deixarei!” 30 Replicou-lhe Jesus: “Com toda a certeza te asseguro que ainda hoje, nesta noite, antes que por duas vezes cante o galo, tu me negarás três vezes”. 31 Entretanto, Pedro insistia com eloqüência: “Ainda que seja preciso que eu morra ao teu lado, jamais te negarei!” E da mesma maneira responderam todos os demais. Jesus Cristo no Getsêmani (Mt 26.36-46; Lc 22.39-46)

Então caminharam para um lugar chamado Getsêmani e, tendo chegado, solicitou Jesus aos seus discípulos: “Assentai-vos aqui, enquanto Eu vou orar”.14 33 E levou consigo a Pedro, Tiago e João, e começou a sentir grande temor e profunda angústia. 34 E compartilhou com eles: “Minha alma está extremamente triste até à morte; ficai pois aqui e vigiai”. 35 Caminhou um pouco mais adiante e, prostrando-se, orava para que, se possí32

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vel, àquela hora fosse afastada dele. 36 E rogava: “Abba, Pai, todas as coisas são possíveis para ti, afasta de mim este cálice; todavia, não seja o que Eu desejo, mas sim o que Tu queres”.15 37 Ao voltar para seus discípulos, os surpreendeu dormindo: “Simão!”- chamou Ele a Pedro. “Estais dormindo? Não conseguistes vigiar nem por uma hora? 38 Vigiai e orai, para não cairdes em tentação, pois, de um lado, o espírito está pronto, mas, por outro lado, a carne é fraca”. 39 E, uma vez mais, Ele se afastou e orou, repetindo as mesmas expressões.16 40 Ao regressar, novamente os encontrou dormindo, porque seus olhos estavam pesados, mas não sabiam como justificar-se. 41 Voltando ainda uma terceira vez, Ele lhes admoestou: “Ainda dormis e descansais? Basta! Eis que a hora é chegada! O filho do Homem está sendo entregue nas mãos dos pecadores. 42 Levantai-vos, pois, e vamos! Eis que chegou aquele que me está traindo!” Jesus é traído e preso (Mt 26.47-56; Lc 22.47-53; Jo 18.1-11)

Jesus ainda não havia terminado de falar, quando surgiu Judas, um dos Doze. 43

celebração restringiu-se mais ao seu simbolismo principal, o qual devemos preservar até a volta de Cristo. Antes das orações finais da Páscoa, Jesus e seus discípulos cantaram trechos dos salmos 114, 118 e 136. 14 Um dos significados da expressão hebraica getsêmanii é “prensa de azeite”, e refere-se a um belo jardim, com pomar, situado na encosta inferior do monte das Oliveiras. Um dos locais preferidos por Jesus para oração e meditação. Jesus sabia que Judas iria para lá e foi ao encontro do seu destino. Jesus levou alguns dos seus discípulos mais chegados para que compartilhassem de sua luta espiritual. Anos mais tarde esses discípulos testemunhariam ao mundo sobre esses fatos. Jesus previu claramente a agonia espiritual e física que teria de suportar. Uma nova e decisiva batalha contra o príncipe deste mundo (Jo 12.31; 14.30), no fim da qual, ainda teria de suportar, (sustentar sobre as costas), o castigo pelos pecados de toda a humanidade (Is 53.10). 15 A oração alerta, persistente e relevante é o único caminho para vencer as tentações (1Pe 5.8). Abba, que significa, “papai” ou “meu pai querido”, é uma expressão aramaica, a língua natural de Jesus, e que denota um relacionamento fraterno, íntimo e especialmente amigo, de pai para filho e vice-versa. A morte não horrorizava tanto Jesus quanto o motivo e o modo de sua morte: como um criminoso, peçonhento e rejeitado por todos (Rm 8.15; Gl 4.6). Jesus jamais duvidou do amor de Seu Pai, nem mesmo no Getsêmani. 16 Jesus previne os discípulos sobre o perigo de serem desleais, refere-se especialmente a Pedro que havia demonstrado certa arrogância inconseqüente (vv. 29-31). Quando a parte espiritual do ser humano está em perfeita sintonia com o Espírito de Deus, luta contra a carne, ou seja, contra as tendências egocêntricas e pervertidas das fomes (vontades) humanas. Essa expressão é tirada do Sl 51.12. A solução é “vigiar” e para isso é necessário: que se conheça o inimigo e suas artimanhas (2Co 2.11); que nos revistamos de toda a armadura de Deus (Ef 6.11-18); que permaneçamos acordados espiritualmente (Ef 5.14-16; 1Ts 5.6-10). Da mesma forma, é vital “orar”, e isso requer: uma fé inabalável, com toda a confiança depositada em Deus (1Jo 5.14-15); certeza dos propósitos de Deus comunicados a nós pelo Seu Espírito e Palavra (Rm 8.16; Ef 6.18; Jd 20).


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E com ele chegou uma multidão armada de espadas e cassetetes, vinda da parte dos chefes dos sacerdotes, mestres da lei e líderes religiosos.17 44 Ora, o traidor tinha combinado um sinal com eles: “Aquele a quem eu saudar com um beijo, é Ele: prendei-o e levai-o sob forte segurança”. 45 Então, assim que chegou, dirigiu-se imediatamente para Jesus e o saudou: “Rabbi!” E o beijou.18 46 Em seguida, os homens agarraram Jesus e o prenderam. 47 Nesse momento, um dos que estavam bem próximos puxou da espada e feriu o servo do sumo sacerdote, decepando-lhe a orelha.19 48 Exclamou-lhes Jesus: “Acaso estou Eu liderando alguma rebelião, para virdes me prender com espadas e cassetetes? 49 Pois diariamente tenho estado convosco no templo, vos ensinando, e não me prendestes. Contudo, é para que se cumpram as Escrituras”. 50 Logo em seguida, todos fugiram e o abandonaram.20 51 Certo jovem, vestindo apenas um lençol de linho, estava seguindo Jesus, quando também tentaram prendê-lo. 52 Mas ele, largando o lençol, fugiu desnudo.21

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Jesus perante o Sinédrio (Mt 26.47-56; Lc 22.47-53; Jo 18.1-11) 53 Levaram Jesus ao sumo sacerdote; e então se reuniram todos os chefes dos sacerdotes, os líderes religiosos e os mestres da lei.22 54 Pedro o seguiu de longe até o pátio do sumo sacerdote. E permaneceu assentado entre os criados, aquecendo-se junto ao fogo. 55 Os chefes dos sacerdotes e todo o Sinédrio estavam buscando denúncias contra Jesus, todavia não conseguiam encontrar nenhuma. 56 Várias pessoas também testemunharam falsamente contra Ele, contudo, suas declarações não se mostraram coerentes.23 57 Então, outros se levantaram para testemunhar inverdades contra Ele: 58 Nós o ouvimos exclamar: “Eu destruirei este templo construído por mãos humanas e em três dias edificarei outro, não erguido por mãos de homens”. 59 Entretanto, nem mesmo quanto a essa acusação o testemunho deles era congruente. 60 Então o sumo sacerdote levantou-se diante de todos e interrogou a Jesus: “Nada contestas à denúncia que estes levantam contra ti?”

177 Um bando (ou turba) formado de guardas do templo, com ordens expressas do Tribunal Supremo dos Judeus (Sinédrio), para prender a Jesus e manter a ordem pública; os escravos a serviço do sumo sacerdote, e mais alguns soldados romanos, como nos informa João (18.3). 18 A expressão hebraica Rabbi, que significa “Meu Mestre”, juntamente com um ou mais beijos em cada lado do rosto era um sinal de respeito e gratidão manifestados pelos discípulos judaicos em relação aos seus mestres (Lc 22.47). 19 João nos revela que era Pedro quem estava junto a Jesus e que ele decepou a orelha do servo, que se chamava Malco (Jo 18.10; Lc 22.51). Jesus protesta pela maneira como vieram prendê-lo, uma vez que apenas os revolucionários e criminosos eram agredidos e presos com aquela brutalidade. Aos mestres era destinado um tratamento menos violento e mais respeitoso. 20 O ministério de Jesus em Jerusalém foi bem mais amplo do que Marcos apresenta. Entretanto, João nos oferece uma visão mais completa e detalhada sobre a atividade ministerial do Senhor, na Judéia. Jesus faz uma referência a partes das Escrituras que revelam os acontecimentos da sua missão e sacrifício (Is 53 com Zc 13.7). 21 Historiadores e outros estudiosos bíblicos crêem que este jovem de família rica seja o próprio autor deste evangelho, portanto, João Marcos (At 12.12,25; 13.13; 15.37-39; Cl 4.10; 2Tm 4.11).Em geral, a roupa exterior era de lã, porém, Marcos não teve tempo para vestir-se completamente. 22 O sumo sacerdote chamava-se Caifás e permaneceu nesse ofício desde o ano 18 até 36 d.C. O Supremo Tribunal Judaico (Sinédrio), na época do NT, era composto por 71 membros, divididos em três categorias: os chefes (principais) dos sacerdotes, líderes religiosos (anciãos) e os mestres da lei (escribas). Sob jurisdição do império romano, o Sinédrio tinha grande poder. Entretanto, lhes era vedado o direito de decretar a pena de morte (Jo 18.31 com Mt 27.2). 23 No processo jurídico dos judeus da época, as testemunhas agiam como promotores de acusação. De acordo com a lei (Nm 25.30; Dt 17.6; 19.15), uma pessoa não podia ser jamais condenada à pena de morte a não ser mediante dois ou mais testemunhos. Contudo, esses depoimentos precisavam ter total coerência entre si, sem contradições. O testemunho contra Jesus tinha base falsa, apoiado em uma compreensão distorcida da profecia de Jesus em 15.29 e Jo 2.19.


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Ele, contudo, permaneceu em silêncio e nada replicou. p Mas o sumo sacerdote voltou a indagá-lo: “És tu o Messias, o Filho do Deus Bendito?”24 62 Jesus asseverou: “Eu Sou! E vereis o Filho do homem assentado à direita do Poderoso e chegando com as nuvens do céu”.25 63 Diante disto, o sumo sacerdote rasgou suas vestes e esbravejou: “Por que ainda necessitamos de outras testemunhas?” 64 “Ouvistes a blasfêmia! Que vos parece?” E todos o julgaram merecedor da pena de morte.26 65 E assim alguns começaram a cuspir nele; encapuzaram-no, vendando seus olhos e, esmurrando-o, exclamavam: “Profetiza!” E os guardas o levaram debaixo de bofetadas.27 61

Pedro nega a Jesus (Mt 26.69-75; Lc 22.54-62; Jo 18.15-18, 25-27)

Continuando Pedro na parte de baixo, no pátio, uma das criadas do sumo sacerdote passou por ali.28 67 E, vendo a Pedro se aquecendo, fixou bem seus olhos nele e afirmou: “Tu também estavas com Jesus, o Nazareno!”

MARCOS 14, 15

Todavia, ele o negou, assegurando: “Não o conheço, nem ao menos sei do que estás falando”. Então foi para fora, em direção ao pórtico. E um galo cantou. 69 Quando a criada o viu lá, começou novamente a falar às pessoas que estavam em derredor: “Este é um deles!” 70 Porém, uma vez mais, ele o negou. E, pouco tempo mais tarde, os que estavam sentados ali perto identificaram Pedro: “Com toda a certeza, tu és um deles, pois és galileu também!” 71 Pedro começou a amaldiçoar-se e a jurar: “Não conheço esse homem de quem falais!”29 72 E, em seguida, o galo cantou pela segunda vez. Então Pedro se lembrou da palavra que Jesus lhe dissera: “Antes que duas vezes cante o galo, tu me negarás três vezes”. E, percebendo o que fizera, caiu em profundo pranto. 68

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Jesus impressiona Pilatos (Mt 27.1-2.11-26; Lc 23.1-7.13-25; Jo 18.28-19.16)

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Ao raiar do dia, entraram em assembléia os chefes dos sacerdotes com os líderes religiosos, os mestres da lei

24 O sumo sacerdote usa a palavra “Messias” (Cristo, em grego) para fazer com que Jesus se autocondenasse, uma vez que a maioria dos judeus não acreditava que o Messias seria divino e Jesus reivindicava sua plena divindade (v.62). “Bendito”, era uma das maneiras de os judeus se referirem à excelsa pessoa de Deus, sem precisar mencionar o seu nome. 25 O Filho do homem, que estava sendo julgado e condenado por homens ímpios e pecadores, voltará um dia, após Seu reinado à destra de Deus, para julgar definitivamente todos os incrédulos (Dn 7.13 com Sl 110.1 e At 2.34-36). 26 Um antigo costume dos reis e profetas judeus era rasgar as vestes, numa demonstração dramática de horror, escândalo ou ultraje (Gn 37.29; 2Rs 18.37; 19.1). O Sinédrio tinha poder para condenar alguém à pena de morte por apedrejamento(At 7.59), em especial nos casos de cunho religioso. Todavia, ainda assim, precisava de um “referendo” (palavra latina para “autorização”) das autoridades romanas. O crime de blasfêmia incluía não somente a difamação do nome precioso de Deus (Lv 24.10-16), mas também qualquer ofensa à sua majestade ou poder (Mc 2.7; 3.28,29; Jo 5.18; 10.33). Ao ouvir a declaração de Jesus, a multidão presente foi incitada por Caifás para condená-lo à morte. Para Caifás, o fato de Jesus afirmar que era o Messias prometido e que possuía os mesmos atributos de Deus eram razões mais que suficientes para sujeitar Jesus à penalidade estipulada na lei de Moisés: a morte por apedrejamento (Lv 24.16). 27 Uma antiga interpretação judaica dos textos de Isaías (11.2-4) dizia que o Messias seria capaz de conhecer as pessoas e julgá-las ainda que de olhos vendados, apenas pelo olfato. Por isso a zombaria de alguns mais exacerbados (Nm 12.14; Dt 25.9; Jó 30.10; Is 50.6). 28 Enquanto Jesus estava sendo torturado num dos cômodos superiores da casa de Caifás, no pátio, na parte baixa da casa, Pedro procurava não se afastar demais do seu amigo e Messias. A história da negação de Pedro é contada em todos os evangelhos para evidenciar a graça perdoadora e restauradora do Senhor desprezado. 29 Os galileus, como Jesus, eram facilmente identificáveis pelo dialeto marcante que falavam (aramaico). Sua presença no átrio (alpendre) entre os cidadãos de Judá era mais uma evidência de que era um seguidor de Jesus de Nazaré. Essa parte do texto de Marcos foi fornecida diretamente pelo próprio Pedro. As expressões gregas: anathematizein kai amnynai, não sugerem palavras profanas, mas sim que ele teria invocado uma maldição ç divina sobre si mesmo, caso estivesse mentindo, e retirando-se chorou amargamente (em grego: kai epibalon eklaien. É importante lembrar que essa maldição foi quebrada pelo próprio Jesus em um dos seus aparecimentos após a ressurreição (Jo 21.15-19).


MARCOS 15

e todo o Supremo Tribunal dos Judeus e tomaram uma decisão: amarraram Jesus, levaram-no e o entregaram g a Pilatos.1 2 Então Pilatos o interrogou: “És tu o rei dos judeus?” Ao que Jesus lhe replicou: “Tu o dizes”. 3 E os chefes dos sacerdotes passaram a levantar várias outras acusações contra Ele. 4 Por isso Pilatos indagou uma vez mais: “Nada respondes? Vê quantas acusações te fazem!” 5 Mas Jesus não respondeu uma só palavra, a ponto de Pilatos ficar muito impressionado.2 6 Ora, por ocasião da festa, fazia parte da tradição libertar um prisioneiro por aclamação popular. 7 Um homem conhecido por Barrabás estava na prisão junto a rebeldes que haviam cometido assassinato durante uma rebelião.3 8 Concentrando-se a multidão, clamaram a Pilatos que lhes outorgasse o direito de costume nessas ocasiões. 9 E Pilatos lhes ofereceu: “Quereis que eu vos liberte o rei dos judeus?” 10 Porquanto ele bem sabia que fora por inveja que os chefes dos sacerdotes lhe haviam entregado Jesus. 11 Então os chefes dos sacerdotes instigaram a multidão a rogar a Pilatos que, ao contrário, soltasse Barrabás. 12 Contudo Pilatos lhes questionou: “Assim sendo, que farei com este a quem

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chamais o rei dos judeus?” Mas eles gritavam: “Crucifica-o!” “Por quê? Que mal fez este homem?” Inquiriu Pilatos. Todavia, eles clamavam ainda mais decididos: “Crucifica-o!” 15 Então, Pilatos, para satisfazer a todo aquele povo reunido, soltou-lhes Barrabás; ordenou que Jesus fosse açoitado e depois o sentenciou à crucificação. 13 14

Jesus é humilhado pelos soldados (Mt 27.27-31)

Em seguida, os soldados agarraram Jesus e o conduziram para dentro do palácio, isto é, ao Pretório, e agruparam toda a tropa. 17 Vestiram-no com um manto de cor púrpura real, depois teceram uma coroa de espinhos e a cravaram sobre sua cabeça. ç 18 E começaram a saudá-lo: “Salve! Ó rei dos judeus!”4 19 Espancavam-lhe a cabeça com uma vara e cuspiam sobre ele. Ajoelhavam-se e lhe rendiam adoração. 20 Depois de haverem zombado dele, despiram-lhe o manto de cor púrpura e o vestiram com suas próprias roupas. Então o levaram para fora, a fim de crucificá-lo. 16

O ato da crucificação (Mt 27.32-44; Lc 23.26-43; Jo 19.16-27) 21 E ocorreu que certo homem de Cirene,

chamado Simão, pai de Alexandre e de

1 A primeira reunião do Sinédrio (Supremo Tribunal dos Judeus) ocorreu informalmente durante a noite, envolvendo apenas alguns integrantes pactuados com a idéia de eliminar Jesus. Logo ao amanhecer, quando começava o dia de trabalho de um oficial romano, foi necessário formalizar, por escrito, a decisão de entregá-lo a Pilatos perante a maioria do Sinédrio reunido. Era sexta-feira (da Paixão, como viria a ser conhecida até hoje) e o sumo sacerdote e alguns outros membros do Sinédrio resolveram denunciar Jesus, a Pilatos, por traição e blasfêmia (Lc 23.1-14). Pilatos era o governador romano da Judéia (de 26 a.C. a 36 d.C.). Sua residência oficial ficava em Cesaréia, no litoral do Mediterrâneo. Todos os anos, quando visitava Jerusalém, costumava hospedar-se no suntuoso palácio construído por Herodes, o Grande, localizado próximo do Templo. Em uma das salas do palácio, chamada Pretório, ocorreu o julgamento romano de Jesus sob a autoridade civil de Pilatos. 2 Conforme profetizado em Is 52.15 e Is 53.7. 3 Barrabás era membro dos zelotes, um grupo judaico revolucionário. Sob o governo dos prefeitos romanos, ações de insurgência e tumulto eram freqüentes, especialmente nos grandes ajuntamentos e festas nacionais como a Páscoa (Lc 13.1). Curiosamente, alguns manuscritos de Mt 27.16 revelam que o outro nome de Barrabás era Jesus, o mesmo nome humano do Senhor. Marcos fala sobre a insurreição liderada por Barrabás como sendo um fato histórico, bem conhecido dos judeus da época. 4 Os oficiais romanos vestiam uma capa, cuja cor, vermelho vivo, representava a realeza e o poder do império romano sobre o mundo. Para zombar da majestade de Jesus, o vestiram com uma velha capa e sobre sua cabeça forçaram uma coroa feita de uma planta (em grego significa “abrolhos”) venenosa e espinhosa comum na Palestina. E para completar a humilhação lhe dirigiam uma paródia da tradicional saudação de reverência a César: “Salve, César!”


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Rufo, passava por ali, vindo do campo. Eles o forçaram a carregar a cruz.5 22 Levaram Jesus para um lugar denominado Gólgota, que significa local da Caveira. 23 E lhe deram vinho misturado com mirra, mas Ele não o bebeu.6 24 Então o crucificaram. Dividindo suas vestes, jogaram sortes para saber com que parte cada um iria ficar. 25 Eram nove horas da manhã quando o crucificaram.7 26 E assim ficou escrito na acusação contra Ele: O REI DOS JUDEUS. 27 Junto a Jesus crucificaram dois criminosos, um à sua direita e outro à sua esquerda.8 28 Cumpriu-se assim a Escritura que diz: “Ele foi contado entre os malfeitores”. 29 Os transeuntes lançavam-lhe impropérios, gesticulando a cabeça e exclamando: “Ah! Tu que destróis o templo e, em três dias, o reconstróis! 30 Agora desce da cruz e salva-te a ti mesmo!”

MARCOS 15

Da mesma maneira os chefes dos sacerdotes e os mestres da lei zombavam dele entre si, exclamando: “Salvou a tantos, mas a si mesmo não pode salvar-se! 32 Que o Cristo, o Rei de Israel, desça agora da cruz, para que o vejamos e creiamos!” E, de igual modo, os que com Ele foram crucificados o insultavam.9 31

Jesus brada em sua morte (Mt 27.45-56; Lc 23.44-49; Jo 19.28-30) 33 E aconteceu que toda a terra foi cober-

ta pelas trevas, desde o meio-dia até às três horas da tarde.10 34 Então, por volta das três horas da tarde, Jesus bradou em alta voz: “Elohi, Elohi! Lemá sabachtháni?”- que traduzido, quer dizer: “Meu Deus, meu Deus! Por que me abandonaste?”11 35 Alguns dos que presenciavam o que estava ocorrendo, ouvindo isso, comentavam: “Vede, Ele clama por Elias!”12 36 Então, um deles correu e ensopou uma esponja em vinagre, colocou-a na ponta de uma vara e a estendeu até Jesus para

5 Este Simão foi o pai do mesmo Rufo de Rm 16.13. Era natural de Cirene, importante cidade da Líbia, na África do norte (At 13.1), onde vivia uma grande população judaica. Era conhecido como “Níger” (negro). 6 Era um costume jjudaico amenizar a dor do martírio, oferecendo ao crucificado uma mistura de entorpecentes p com vinho (Pv 31.6). A mirra é uma especiaria extraída de plantas nativas dos desertos da Arábia e de partes da África (Gn 37.25). Jesus, entretanto, preferiu suportar todo o sofrimento completamente lúcido, pois ninguém estava lhe tirando a vida. Em submissão voluntária ao Pai, Ele a estava ofertando como holocausto pela remissão do pecado de todos aqueles que crêem no seu sacrifício vicário (Zc 13.1; Mc 10.45; Rm 5.8). 7 Em algumas versões da Bíblia aparece a forma judaica usada na época para marcar as horas (traduzido do grego como: “a hora terceira”), e que corresponde às nove horas da manhã (Lc 23.44; Jo 19.14). João, por sua vez, usa a maneira romana (“a hora sexta” ou próximo ao “meio-dia”). Conforme o costume, escrevia-se a acusação numa tábua de madeira, que seguia à frente do sentenciado até o local da execução, quando era então pregada na cruz logo acima da sua cabeça. Marcos sumariza a inscrição, mas João percebe na frase acusatória um relevante dado teológico e profético (Jo 19.19-22). 8 Algumas versões trazem a expressão “ladrões”, todavia o termo grego: evoca o sentido de que aqueles homens eram culpados por crimes de alta traição (insurgência), contra o império romano e por banditismo. O crime de latrocínio não era considerado um delito capital, a não ser quando seguido de morte. 9 Sem perceber, o próprio sumo sacerdote e os principais teólogos da época, estavam afirmando com clareza o poder e a missão do Cristo (o Messias) sobre todo o Israel, ou seja, todo o povo de Deus (Gl 6.16). A verdadeira fé salvadora não se apóia em sinais e maravilhas visíveis, mas na firme convicção criada no coração de cada pessoa pelo próprio Espírito Santo (Jo 20.29). E este é um milagre envolto em grande mistério, graça e maravilha. 10 Algumas versões preservam a maneira grego-judaica de contar as horas: “da hora sexta até a hora nona”. 11 Jesus falou no seu dialeto de família, uma mistura de aramaico com hebraico. Suas palavras, traduzidas aqui por Marcos, continham as expressões proféticas do Salmo 22.1. Ao se identificar com nossos pecados e assumir os erros de cada ser humano (2Co 5.21; Gl 3.13), Jesus, por um momento, teve de sentir a dor da separação do Pai. Enquanto o sacrifício vicário ia sendo aceito por Deus, a humanidade era salva e restaurada. A separação do Pai é o maior sofrimento destinado àqueles que preferem viver em pecado. Deus não pode ter qualquer comunhão com o pecado (o mal), embora ame o pecador e lhe ofereça a salvação pela graça da fé em Cristo, Seu Filho. 12 Algumas pessoas compreenderam mal as palavras de Jesus e pensaram tê-lo ouvido dizer: “Eli, Eli!”, ou seja, “Elias, Elias”. Os judeus, em momentos de grande necessidade, costumavam clamar por “Elias”, pois se cria que Elias, por haver sido arrebatado à presença de Deus, viria em socorro dos justos e inocentes, sempre que estes passassem por grandes aflições.


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que sorvesse. E explicou: “Deixai! Vejamos se Elias vem para tirá-lo daí”. 37 Todavia, Jesus, com um forte brado, expirou.13 38 Então, o véu do Lugar Santíssimo rasgou-se em duas partes, de alto a baixo.14 39 E, quando o centurião, que estava bem em frente de Jesus, ouviu o seu brado e viu a maneira como expirou, exclamou: “Verdadeiramente, este homem era o Filho de Deus!”15 40 Algumas mulheres acompanhavam tudo de longe. Entre elas estavam Maria Madalena, Salomé e Maria, mãe de Tiago, o mais jovem, e de José. 41 Na Galiléia elas tinham seguido e servido a Jesus. Muitas outras mulheres haviam subido com Ele para Jerusalém e, de igual modo, estavam ali presentes.16

do Supremo Tribunal dos Judeus, que também aguardava o Reino de Deus, dirigiu-se corajosamente a Pilatos e solicitou o corpo de Jesus.18 44 Pilatos recebeu com espanto a notícia de que Jesus já havia falecido. E, chamando o centurião, perguntou-lhe se fazia muito tempo que morrera. 45 Sendo informado pelo centurião, consentiu em ceder o corpo a José. 46 Então José comprou um lençol de linho, desceu o corpo da cruz, envolveu-o no lençol e o colocou num sepulcro cavado na rocha. Depois, fez rolar uma pedra sobre a entrada do sepulcro.19 47 Ora, Maria Madalena e Maria, mãe de José, viram onde Ele fora depositado.

O sepultamento de Jesus

Jesus é ressuscitado

(Mt 27.57-61; Lc 23.50-56; Jo 19.38-42)

(Mt 28.1-10; Lc 24.1-12; Jo 20.1-9)

Este era o Dia da Preparação, isto é, a véspera do sábado.17

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43 E José de Arimatéia, membro honrado

Ao encerrar-se o sábado, Maria Madalena, Salomé e Maria, mãe

13 João nos revela que o grito de triunfo de Jesus foi: “assim está”, que em grego significa: “consumado” (Jo 19.30). O brado de Jesus é mais uma demonstração de que Ele entregou sua vida e não foi consumido pela morte. Os crucificados passavam, em geral, por longos períodos de intensa agonia, exaustão e perda dos sentidos até que a morte os vencesse. 14 O véu do santuário ou do Lugar Santíssimo (Hb 6.19; 9.3; 10.20) era a cortina que separava o Lugar Santo do Santo dos Santos (Êx 26.31-33). O partir desse véu tem profundo significado para toda a humanidade. Cristo entra e abre as portas do céu, a fim de que todo cristão sincero tenha acesso à presença de Deus Pai (Hb 9.8-10,12; 10.19,20). Os sacerdotes estavam no templo para a liturgia das tardes. 15 Um centurião era um militar romano que respondia pelo comando de pelo menos cem soldados. O original grego indica que este homem reconheceu Jesus como “O” Filho de Deus, e não apenas “um” filho de Deus (Mt 27.54; Lc 23.47). Seu testemunho de espanto diante do poder de Jesus passou para a história da Igreja de muitas maneiras. 16 Por causa da compaixão e da dignidade com que Jesus tratava as mulheres (marginalizadas pela cultura do seu povo e época), muitas foram salvas, tornaram-se discípulas e seguiram o Senhor. Em 16.9 e Lc 8.2, somos informados de que Jesus expulsou sete demônios de Maria Madalena. Havia também Maria, mãe de Tiago, o mais jovem, e de José (de quem não se sabe mais nada). Salomé era mãe de João e Tiago, mulher de Zebedeu (Mt 27.56). 177 Jesus morreu na sexta-feira (dia em que os judeus se preparam para o sábado), às três horas da tarde (v.34). Restavam apenas três horas para o início do Shabbãth, sábado judaico, no qual todo trabalho era proibido. Por isso a urgência em retirar o corpo da cruz e prepará-lo para o sepultamento. Mais uma forte alusão à urgência com que os judeus tiveram de comer a Páscoa antes de saírem para a terra prometida, e a urgência que temos de nos prepararmos para a segunda vinda do Senhor e do Grande Dia (Mt 22.1-14; 24.32-44; 25.1-13). 18 Muitos historiadores e teólogos afirmam que as informações sobre o julgamento forjado pelo Sinédrio contra Jesus chegaram a Marcos por intermédio de José. Um justo e eminente juiz, da cidade de Arimatéia (Ramataim, Sm 1.1), que ficava cerca de 30 km a noroeste de Jerusalém. José era também um discípulo de Jesus, que manteve sua fé em sigilo até este ato de grande coragem (Mt 27.57; Lc 23.52). Os corpos dos crucificados por crimes de traição não eram liberados para os ritos judaicos de sepultamento nem mesmo aos familiares mais próximos. 19 José ofereceu o próprio túmulo da família, nunca antes usado, cravado na rocha (Mt 27.60). Esse túmulo ficava num jardim, próximo ao local da crucificação (Jo 19.41). No primeiro século esse lugar se transformou-se num cemitério, onde hoje está situada a Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém. O sepulcro era fechado por uma grande pedra em forma de disco que girava sobre um sulco e, no caso de Jesus, lacrada com o selo imperial romano.


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de Tiago, compraram especiarias aromáticas para ungir o corpo de Jesus.1 2 Ao raiar do primeiro dia da semana, elas caminharam até o sepulcro. 3 E questionavam umas às outras: “Quem poderá remover para nós a grande pedra que fecha a entrada do sepulcro?”2 4 Contudo, ao se aproximarem do local, viram que aquela enorme pedra, havia sido removida da entrada. 5 E, entrando no sepulcro, viram um jovem vestido de túnica branca, assentado à direita, e ficaram muito assustadas.3 6 “Não vos amedronteis”, disse ele. “Vós buscais a Jesus, o Nazareno, que morreu na cruz. Pois Ele foi ressuscitado! Não está mais aqui. Vede o lugar onde o haviam depositado.4 7 Agora ide, dizei aos discípulos dele e a Pedro que Ele está seguindo adiante de vós para a Galiléia. Lá vós o vereis, assim como Ele vos predisse”.5 8 Apavoradas e trêmulas, as mulheres saíram e fugiram do sepulcro. E não informaram nada a ninguém, pois estavam assombradas e com medo. Jesus aparece primeiro a Madalena (Jo 20.11-18) 9

Quando Jesus ressuscitou, ao alvorecer

MARCOS 16

do primeiro dia da semana, apareceu primeiramente a Maria Madalena, de quem havia expulsado sete demônios.6 10 Então, ela foi e comunicou aos que com Ele tinham estado. Eles, porém, estavam desolados e em prantos. 11 Quando receberam a notícia de que Jesus estava vivo e fora visto por ela, não conseguiram acreditar. Jesus aparece a outros dois discípulos (Lc 24.13-35)

Depois Jesus apareceu, em uma outra forma, a outros dois seguidores que estavam a caminho do interior.7 13 Então, eles retornaram e informaram tudo isso aos demais. Contudo, também no depoimento deles não creram. 12

Jesus aparece e ordena aos discípulos 14 Mais tarde Jesus apareceu aos Onze, enquanto estavam reclinados, ceando. Repreendeu-lhes a falta de fé e a dureza dos corações, porque não acreditaram no testemunho daqueles que o tinham visto depois de ressurreto. 15 E lhes ordenou: “Enquanto estiverdes indo pelo mundo inteiro proclamai o Evangelho a toda criatura. 16 Aquele que crer e for batizado será

1 Os judeus não tinham o costume de embalsamar (como aparece em algumas versões) os corpos de seus mortos. Logo após as 18 horas, ao encerrar o Shabbãth (período do sábado judaico), as mulheres foram comprar especiarias para ungir o corpo de Jesus como mais um ato de devoção, amor e luto. Entretanto, não havia entre elas qualquer expectativa da ressurreição de Jesus. 2 Rolar aquele tipo de pedra em forma de disco para fechar a entrada do sepulcro era uma ação relativamente fácil. Todavia, depois que a grande pedra era encaixada no sulco cortado na rocha maciça, em frente da entrada, ficava muito difícil e pesado qualquer deslocamento, ainda que mínimo. 3 Os sepulcros dos nobres da época eram espaçosos. Dentro da grande entrada, na frente do sepulcro, havia uma antecâmara e, no fundo desta, uma abertura baixa e retangular que conduzia à câmara da sepultura. Mateus nos informa que um anjo, com a aparência de um jovem humano, estava postado junto ao túmulo vazio do Senhor (Mt 28.2-5). 4 Nos originais gregos o verbo está na voz passiva “foi ressuscitado”, uma ênfase ao poder soberano de Deus Pai (At 3.15; Rm 4.24). O ponto alto da teologia de Marcos é a ressurreição de Jesus, sem a qual todo o trabalho e morte de Jesus teriam sido inúteis à salvação de todos que nele crêem. Por causa da ressurreição, Jesus é declarado Filho de Deus (Rm 1.4). 5 Como já havia revelado, Jesus rumou para a Galiléia, com o propósito de manifestar-se o mais breve possível a muitos dos Seus discípulos (14.28; Mt 28.9,16; 1Co 15.6). Jesus sabia que, apesar dos erros, Pedro o amava com sinceridade. E, por isso, estava desanimado e necessitado de uma cura interior que somente o Senhor, com seu amor e perdão, poderia realizar (Jo 21.15-19). 6 Jesus apareceu em primeiro lugar a Maria Madalena que, juntamente com outras discípulas, foi demonstrar sua devoção e consagrá-lo a Deus, conforme os rituais fúnebres judaicos, logo ao romper da manhã do domingo (Jo 20.11-18). Depois Jesus apareceu às demais mulheres que o seguiam (Mt 28.8-10); em seguida a Pedro (Lc 24.34; 1Co 15.5); aos dois discípulos no caminho de Emaús (Lc 24.13-32); aos discípulos reunidos, mas sem Tomé (Lc 24.36-43; Jo 20.19-25); no domingo seguinte, com a presença de Tomé (Jo 20.26-31); a sete discípulos, no mar da Galiléia (Jo 21); aos apóstolos e a mais de 500 seguidores (Mt 28.16-20; 1Co 15.6); a Tiago, irmão de Jesus (1Co 15.7); e antes da ascensão aos céus, a um grupo de seguidores e discípulos (Lc 24.44-53; At 1.3-12). 7 Jesus assumiu a forma humana de um simples peregrino da época, mas o conteúdo de suas palavras foi revelando Sua pessoa e reanimando Seus desconsolados discípulos, no caminho de Emaús (Lc 24.16). Também a Maria Madalena, sua discípula, surgiu como um humilde jardineiro, mas, ao falar, revelou-se o Cristo amado e poderoso (Jo 20.11-18).


MARCOS 16

salvo. Todavia, quem não crer será condenado! 17 E estes sinais acompanharão aos que crerem: em meu nome expulsarão demônios; em línguas novas falarão.8 18 Pegarão serpentes com as mãos; e, se algo mortífero beberem, de modo nenhum a eles fará mal, sobre os enfermos imporão as mãos e eles serão curados!”9

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Jesus sobe à direita do Pai (Lc 24.50-53; At 1.6-11)

Concluindo, depois de lhes ter orientado, o Senhor Jesus foi elevado aos céus e assentou-se à direita de Deus.10 20 Então, os discípulos saíram e pregaram por toda parte; e o Senhor cooperava com eles, confirmando-lhes a Palavra com os sinais que a acompanhavam. 19

8 Novas línguas e outros sinais chegaram para marcar uma nova época histórica. O tempo da Igreja de Cristo e a nova vida dos salvos (2Co 5.17). 9 Jesus volta, na forma do Espírito Santo, para habitar com poder no corpo dos seus discípulos e apóstolos. E realiza muitas maravilhas por meio deles ao estabelecer Sua Igreja em muitas partes do mundo, até os confins da terra (At 1.8; At 2.42-43; At 28.3-6). 10 Como afirmou Calvino: “Assentar-se à direita do Pai, não se refere à posição do corpo físico de Jesus em algum lugar específico do céu, mas sim à sua posição de majestade e poder como imperador do Universo ao lado de Deus, Seu Pai”, em conformidade com o Sl 110.1 e a palavra profética de Jesus Cristo em Mc 14.62.


INTRODUÇÃO O EVANGELHO SEGUNDO

LUCAS Autoria Desde os primeiros cânones das Sagradas Escrituras, como o Cânon muratório, o terceiro evangelho do Novo Testamento é reconhecido como de autoria de Lucas, o médico de homens e de almas; o médico amado, como ficou conhecido (Cl 4.14). Irineu, um dos pais da Igreja, já citava o Evangelho Segundo Lucas em suas obras, por volta do ano 180 d.C. Lucas, grande amigo e companheiro de ministério do apóstolo Paulo (2Tm 4.11; Fm 24), é o único autor gentio do Novo Testamento. Embora não tenha sido testemunha ocular da vida de Jesus Cristo, andou com Deus, cheio do Espírito Santo, o qual o inspirou a escrever este Evangelho e o livro de Atos e a servir como missionário até sua morte. Lucas nos informa que seu trabalho foi beneficiado pela obra de outros (Lc 1.1), que ele consultou várias testemunhas oculares (Lc 1.2), e que selecionou e dispôs as informações com extremo cuidado, sob a direção do Espírito Santo (Lc 1.3), a fim de instruir Teófilo quanto à fidedignidade da fé em Jesus Cristo (Lc 1.4). Propósitos O Evangelho Segundo Lucas é especificamente endereçado a Teófilo, cujo nome significa “aquele que ama a Deus”. Entretanto, o Espírito Santo ampliou em muito o alcance dessa obra, destinando-a a todos aqueles que amam a Deus e desejam saber a verdade sobre Jesus Cristo, Seu Filho, nosso Salvador. Lucas trata Teófilo por “excelentíssimo” o que reforça a idéia de que esse livro tinha como principal objetivo um leitor em especial: Teófilo, um alto oficial do império romano que, segundo historiadores renomados, desejoso de conhecer a verdade, patrocinou Lucas nesse projeto e investigação acurada de todos os fatos concernentes à vida e obra de Jesus Cristo; cujo ensino já invadia Roma, convertendo multidões. Na mesma época surgiam vários relatórios falsos sobre Jesus e, tanto Teófilo, quanto o próprio discípulo Lucas, tinham grande interesse em produzir um documento histórico claro e verdadeiro sobre a pessoa e a obra de Jesus de Nazaré, o Cristo. Embora particularmente destinado a Teófilo, o Evangelho Segundo Lucas se inclina para todos os gentios. O autor revela interesse especial por detalhes médicos (Lc 4.38; 7.15; 8.55; 14.2; 18.35; 22.50). Há grande ênfase nos acontecimentos relacionados ao nascimento de Cristo. Curiosamente, somente Lucas registra a anunciação a Zacarias e Maria, os cânticos de Isabel e Maria, o nascimento e a infância de João Batista, o nascimento de Jesus, a visita dos pastores, a circuncisão de Jesus e Sua apresentação no Templo, detalhes da infância de Jesus e até alguns dos pensamentos íntimos de Maria, mãe de Jesus. Lucas demonstra grande interesse por fatos que se deram com indivíduos: os relatos de Zaqueu q ((Lc 19.1-10); ); do ladrão qque se arrepende p ((23.39-43),), e nas pparábolas do filho perdulário (15.11-32) e do publicano arrependido (18.9-14). É Lucas quem nos relata a história sobre o bom samaritano (10.29-37) e do ex-leproso agradecido (17.11-19). Lucas ainda dá especial atenção à disciplina espiritual da oração: falar com Deus (Lc 3.21; 5.16; 6.12; 9.18, 28-29; 10.21; 11.1; 22.39-46; 23.34, 46). O Evangelho Segundo Lucas dá grande destaque às mulheres, algo incomum na época (Veja os capítulos: 1, 2, 7.11-17, 36-50; 8.1-3; 10.38-42, 21.1-4; 23.27-31, 49). O livro apresenta quatro belos cânticos, conhecidos como: o Magnificatt de Maria (Lc1.46-55), o Benedictus de Zacarias (Lc1.67-79), o Gloria in Excelsis Deo dos anjos (Lc 2.14) e o Nunc Dimitris de Simeão (2.29-32). Lucas ainda reflete sobre o contraste da pobreza em relação à riqueza (1.52-53; 4.16-22; 6.20, 24-25; 12.13-21; 14.12-13; 16.19-31). Este é o Evangelho do misericordioso Filho de Deus que oferece Salvação a toda humanidade (19.10). Data da primeira publicação ç Considerando que os últimos capítulos do livro de Atos mostram Paulo em Roma, e que o Evangelho Segundo Lucas foi publicado antes de Atos (At 1.1), podemos concluir que este Evangelho foi escrito entre os anos 59 e 64 d.C., em Cesaréia, durante os dois anos em que Paulo esteve preso ali por pregar a Palavra de Deus (At 24.27).


Lucas tinha completo domínio da língua grega da época. Seu vocabulário é amplo e rico, e seu estilo, algumas vezes se aproxima do grego clássico, como ocorre logo no prefácio (Lc 1.1-40), ao passo que em outras ocasiões assume um tom bem semítico (1.5 – 2.52), assemelhando-se à Septuaginta (tradução do Antigo Testamento para a língua grega). Seu vocabulário é sensível à cultura e geografia de cada lugar sobre o qual narra fatos passados. Por exemplo, quando Lucas se refere a Pedro num contexto judaico, emprega uma linguagem mais semítica que nos momentos em que descreve Paulo, num contexto helenístico (grego). Esboço geral de Lucas 1. Prefácio e objetivos da obra (1.1-4) 2. O Filho de Deus e a humanidade (1.5 – 4.13) A. O nascimento de João Batista (1.5-25) B. O nascimento do Filho do homem (1.26-56) C. O advento de João Batista (1.57-80) D. O advento do Filho de Deus (2.1-20) E. Adoração ao bebê Jesus (2.21-38) F. A infância de Jesus (2.39-52) G. O batismo de Jesus (3.1-22) H. A genealogia de Jesus (3.23-38) I. A tentação do Filho de Deus (4.1-13) 3. O ministério do Filho de Deus (4.14 – 9.50) A. O anúncio do Seu ministério (4.14-30) B. A autoridade da Sua obra (4.31 – 6.11) C. Sobre todos os demônios (4.31-37) D. Sobre todas as doenças (4.38-44) E. Sobre todos os discípulos (5.1-11) F. Sobre toda a impureza (5.12-16) G. Sobre todas as limitações (5.17-26) H. Sobre todos os desprezados (5.27-39) I. Sobre todas as deformidades (6.6-11) 4. Os colaboradores de Seu ministério (6.12-49) A. A convocação dos discípulos (6.12-16) B. O perfil dos discípulos (6.17-49) 5. As realizações do Seu ministério (7.1 – 9.50) A. Ministração na doença (7.1-10) B. Ministração na morte (7.11-17) C. Ministração aos pecadores (7.36-50) D. Ministração sustentada (8.1-3) E. Ministração por parábolas (8.4-21) F. Ministração nas tempestades (8.22-25) G. Ministração sobre demônios (8.26-39) H. Ministração no desespero (8.40-56) I. Ministração pelos discípulos (9.1-9) J. Ministração às necessidades (9.10-17) K. Ministração de predições (9.18-50) 6. O Filho de Deus é rejeitado pelos homens (9.51 – 19.27) A. Rejeição pelos samaritanos (9.51-56) B. Rejeição das pessoas mundanas (9.57-62) C. A comissão dos setenta e dois (10.1-24) D. Rejeição de um teólogo (10.25-37) E. Recepção em Betânia (10.38-42) F. Ensino sobre a oração (11.1-13) G. Rejeição por Israel (11.14-36) H. Rejeição pelos fariseus e doutores (11.37-54) I. Ensinos diante da rejeição (12.1 – 19.27) J. Sobre a hipocrisia (12.1-12) K. Sobre a avareza e cobiça (12.13-34)


L. Sobre a fidelidade (12.35-48) M. Sobre discórdias e sinais (12.49-59) N. Sobre o arrependimento (13.1-9) O. Sobre a falsidade (13.10-17) P. Sobre o Reino de Deus (13.18-35) 7. Pregações para os corações endurecidos (14.1-6) A. Sobre os que são convidados (14.12-14) B. Sobre os que são indiferentes (14.15-24) C. Sobre os que são indulgentes (14.25-35) D. Sobre o amor de Deus (15.1-32) E. Sobre a riqueza (16.1-31) F. Sobre a necessidade do perdão (17.1-6) G. Sobre a importância do serviço (17.7-10) H. Sobre a gratidão (17.11-19) I. Sobre o estabelecimento do Reino (17.20-37) J. Sobre a oração (18.1-14) K. Sobre o ingresso no Reino (18.15-30) L. Sobre a Sua morte (18.31-34) M. Sobre a Salvação (18.35 – 19.10) N. Sobre fidelidade (19.11-27) 8. A Paixão do Filho de Deus (19.28 – 23.56) A. Domingo (19.28-44) B. Segunda-feira (19.45-48) C. Terça-feira (20.1 – 21.38) D. Autoridade contestada (20.1-8) E. Autoridade revelada (20.9-18) F. Autoridade resistida (20.19-40) G. Autoridade demonstrada (20.41 – 21.4) H. Discurso apocalíptico (21.5-38) I. Quarta-feira (22.1-6) J. Quinta-feira (22.7-53) K. A Ceia do Senhor (22.7-38) L. O jardim do Getsêmani (22.39-46) M. Jesus é traído e preso (22.47-53) N. Sexta-feira (22.54 – 23.55) O. Jesus é negado por Pedro (22.54-62) P. Jesus é ridicularizado (22.63-65) Q. Jesus é levado ao Sinédrio (22.66-71) R. Jesus é levado a Pilatos (23.1-5) S. Jesus é levado a Herodes (23.6-12) T. Jesus novamente diante de Pilatos (23.13-25) U. A condenação e crucificação (23.26-49) V. O sepultamento (23.50-55) W. Sábado (23.56) 9. A vindicação do Filho de Deus diante dos homens (24.1-53) A. Domingo: a vitória sobre a morte (24.1-12) B. Jesus cumpre suas profecias (24.13-35) C. O padrão da vida ressurreta (24.36-43) D. O Senhor da Igreja (24.44-48) E. O doador do Espírito Santo (24.49) F. O Senhor exaltado eternamente (24.50-53).


O EVANGELHO SEGUNDO

LUCAS Prefácio e dedicatória a Teófilo Tendo em vista que muitos já se empenharam em elaborar uma narrativa histórica sobre os eventos que se cumpriram entre nós, 2 conforme nos transmitiram os que desde o princípio foram testemunhas oculares dos fatos e servos dedicados à Palavra, 3 eu, pessoalmente, investiguei tudo em minúcias, a partir da origem e decidi escrever-te um relato ordenado, ó excelentíssimo Teófilo.1 4 E isso, para que tenhas plena certeza das verdades que a ti foram ministradas.

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Gabriel anuncia o nascimento de João 5 Na época de Herodes, rei da Judéia, havia um certo sacerdote chamado Zacarias, que fazia parte do grupo sacerdotal de Abias. E Isabel, sua esposa, também era uma das descendentes de Arão.2 6 Os dois andavam em justiça aos olhos de Deus e obedeciam de forma irrepreensível a todos os mandamentos e doutrinas do Senhor.3 7 Contudo, eles não tinham filhos, porque

Isabel era estéril, e ambos eram avançados em idade. 8 Em certa ocasião, quando seu grupo estava de serviço, Zacarias ministrava como sacerdote diante de Deus. 9 Ele foi escolhido por sorteio, de acordo com a tradição do sacerdócio, para ter acesso ao altar do Santo dos Santos e ali oferecer a queima do incenso.4 10 E, chegando o momento da oferta do incenso, uma multidão de pessoas estava orando do lado de fora. 11 Foi então que um anjo do Senhor apareceu a Zacarias, à direita do altar do incenso. 12 Assim que Zacarias o viu, ficou perplexo e um grande temor o dominou completamente. 13 Entretanto, o anjo lhe assegurou: “Não tenhas medo, Zacarias; eis que a tua súplica foi ouvida. Isabel, tua esposa, te dará à luz um filho, e tu lhe porás o nome de João.5 14 Ele te será motivo de grande felicidade e regozijo. E muitos se alegrarão com o seu nascimento.

1 A palavra grega anothen, traduzida por “origem”, quer dizer: “de cima”, “dos altos céus” (Jo 3.31; Tg 1.17), e se refere também a uma análise criteriosa de “alto a baixo”, “do começo ao fim”. Teófilo, que em latim e grego significa “querido por Deus” ou “aquele que ama a Deus”, foi um militar de alta patente do exército romano que, convertido ao Senhor, patrocinou a pesquisa e a publicação deste relatório fiel sobre a vida e a obra de Jesus, livro que veio a tornar-se parte do cânon bíblico (livros inspirados por Deus) do NT e cujo propósito, assim como João (Jo 20.31), é proporcionar a seus leitores plena certeza quanto aos tremendos fatos relacionados à história de Cristo e à nossa salvação eterna. 2 Herodes, o Grande, reinou de 37 a 4 a.C. por toda a Samaria, Galiléia e grande parte da Peréia e da Celo-Síria (Mt 2.1). O tempo referido pelo texto situa-se entre os anos 7 e 6 a.C. Zacarias e Isabel eram ambos de ascendência sacerdotal, da linhagem de Arão, grupo sacerdotal de Abias. Tradicionalmente, desde os tempos de Davi, os sacerdotes foram organizados em 24 grandes divisões, sendo Abias um dos líderes das famílias dos sacerdotes (Ne 12.12; 1Cr 24.10). 3 Zacarias e Isabel não eram impecáveis, mas amavam ao Senhor de coração, e Deus observava essa “adoração interior” em seus servos, a qual se refletia “exteriormente” no cumprimento irrepreensível dos preceitos religiosos (Fp 3.6) e, especialmente, no relacionamento com as pessoas. Um grande contraste em relação às atitudes apenas “cosméticas” dos fariseus (Mt 5.20; 23.2-5). 4 Uma das grandes responsabilidades do sacerdote era manter o incenso queimando em louvor a Deus, no altar diante do Santo dos Santos. Ele colocava ali incenso novo todas as manhãs, antes do sacrifício matinal, e, outra vez, logo após o sacrifício vespertino (Êx 30.6-8). Era raro que um sacerdote tivesse o privilégio de ministrar ao Senhor no Santo dos Santos, pois eles eram muitos e a determinação dessa tarefa se fazia por lançamento de sortes. Além disso, essa era uma experiência única na vida de muitos sacerdotes (2Sm 6.7) que, por não estarem vivendo de acordo com a vontade de Deus, eram fulminados pela ira do Senhor em pleno ato de ministração (Ne 11.1; Pv 16.33; Jo 1.7; At 1.26). 5 A expressão usada pelo anjo, traduzida por “não tenhas medo”, no hebraico tem o sentido de “não perder a confiança em


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Pois ele será grande aos olhos do Senhor, jamais beberá vinho nem qualquer outra bebida fermentada, e será pleno do Espírito Santo desde antes do seu nascimento. 16 E conduzirá muitos dos filhos de Israel à conversão ao Senhor, seu Deus.6 17 Ele avançará na presença do Senhor, no mesmo espírito e poder de Elias, com o propósito de fazer voltar o coração dos pais a seus filhos e os desobedientes à sabedoria dos justos, deixando um povo preparado para o Senhor”.7 18 Então, Zacarias indagou do anjo: “Como poderei certificar-me disso? Pois já sou idoso, e minha esposa igualmente de idade avançada”.8 19 Ao que o anjo lhe replicou: “Sou Gabriel, aquele que está permanentemente na presença de Deus e fui encarregado de vir para falar e transmitir-te estas boas notícias.9 20 Porém, eis que permanecerás em silêncio, pois não conseguirás falar até o dia em que venha a ocorrer tudo quanto te revelei, porquanto não acreditaste nas 15

LUCAS 1

minhas palavras, as quais, no seu devido tempo, se cumprirão”. 21 Enquanto isso, o povo estava aguardando Zacarias e preocupava-se com o fato de que demorasse tanto no santuário do Senhor.10 22 Mas, ao sair, nenhuma palavra conseguia pronunciar; as pessoas perceberam que ele tivera uma visão no santuário. Zacarias tentava comunicar-se através de sinais, permanecendo todavia mudo. 23 Ao completar seus dias dedicados ao serviço, ele regressou para casa. 24 E, passado esse tempo, Isabel, sua esposa, engravidou, mas durante cinco meses ocultou-se das pessoas não saindo de casa. 25 E ela dizia a si mesma: “Isto é dádiva do Senhor para mim! Eis que seus olhos me contemplaram, para retirar de sobre mim a grande humilhação que sentia diante de todos”.11 Gabriel anuncia o nascimento de Jesus 26 Então, no sexto mês, Deus enviou o anjo Gabriel para Nazaré, uma cidade da Galiléia,

Deus”, sendo uma palavra de encorajamento muito usada em toda a Bíblia (no verso 30 e em 2.10; 5.10; 8.50; 12.7,32; Gn 15.1; 21.17; 26.24; Dt 1.21; Js 8.1). O nome João deriva do hebraico antigo e significa: “O Senhor é bom e misericordioso”. 6 A grandeza de João seria reconhecida pelas qualidades de profeta precursor do Senhor, nazireu (Nm 6.3) e sacerdote. O permanente estado de plenitude e dependência do Espírito Santo capacitaria João a proclamar a Palavra de tal maneira que muitos seriam convertidos de seus caminhos mundanos e formariam um povo de coração preparado para a vinda de Jesus Cristo e do Reino de Deus (At 19.4). João cumpriu as profecias de Ml 3.1; 4.5,6 e as registradas em Is 40.3,4 (veja Lc 7.24-35). João também se submeteu ao voto nazireu de abstinência de bebidas alcoólicas (Nm 6.1-4). Em seu caso, desde o ventre de sua mãe, como Sansão (Jz 13.4-7) e Samuel (1Sm 1.11). 7 Não há qualquer possibilidade de Elias ter voltado na pessoa de João (Jo 1.21). A Bíblia não oferece nenhuma base textual para as teorias da reencarnação ou mediunidade. Entretanto, João foi Elias na semelhança do seu amor e fidelidade ao Senhor (Mt 11.14). Na sua mensagem poderosa e destemida, convocando os seres humanos ao mais sincero e absoluto arrependimento de seu deliberado e contínuo afastamento de Deus. 8 À semelhança de Abraão (Gn 15.8), de Gideão (Jz 6.17) e de Ezequias (2Rs 20.8), Zacarias pediu um sinal (1Co 1.22), talvez não da melhor maneira, mas o anjo o atendeu e nos deixou uma lição sobre jamais duvidar da Palavra do Senhor. Um estudo comparativo de Abraão e Sara em relação a Zacarias e Isabel, focalizando especialmente Isaque e João, será de grande valor (Gn 15 a 18). 9 O nome Gabriel em hebraico antigo significa: “o poderoso homem de Deus”. Apenas dois anjos têm seus nomes identificados nas Sagradas Escrituras: Gabriel (Dn 8.16; 9.21) e Miguel (Dn 10.13,21; Jd 9; Ap 12.7). 10 A multidão estava aguardando com apreensão e ansiedade que o sacerdote (Zacarias) saísse do Santo dos Santos para proferir a tradicional bênção arônica (Nm 6.24-26). Entretanto, ele saiu mudo. Todo sacerdote tinha a obrigação de trabalhar durante uma semana nas dependências do templo, uma vez a cada seis meses (vs. 23, 39). 11 Especialmente no AT, a ausência de filhos ou o empobrecimento eram considerados sinais do desfavor divino, ou de sérios pecados ocultos, o que sujeitaria as pessoas ao castigo de Deus. No caso da infertilidade, toda a responsabilidade pela falta de filhos e, portanto, pelo descontentamento divino, recaía sobre a mulher, a qual era vítima das mais variadas e deprimentes formas de julgamento e rejeição por parte da comunidade e, muitas vezes, do próprio marido. Jesus e seus discípulos jamais aprovaram esse tipo de teologia simplista e distante dos propósitos gerais de Deus para a humanidade (Gn 16.2; 25.21; 30.23; 1Sm 1.1-18; Lv 20.20,21; Sl 128.3; Jr 22.30).


LUCAS 1 27 a uma virgem prometida em casamen-

to a certo homem chamado José, descendente de Davi. E o nome da virgem era Maria.12 28 O anjo chegou ao lugar onde ela estava e ao se aproximar lhe declarou: “Alegra-te, mui agraciada! O Senhor está contigo!”.13 29 Diante de tais palavras, Maria ficou intrigada, imaginando qual poderia ser o motivo daquele tipo de saudação. 30 Mas o anjo lhe revelou: “Maria, não temas; pois recebeste grande graça da parte de Deus. 31 Eis que engravidarás e darás à luz um filho, a quem chamarás pelo nome de Jesus.14 32 Ele será Grande, e será chamado Filho do Altíssimo. O Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi,15 33 e Ele reinará para sempre sobre o povo de Jacó, e seu Reino nunca terá fim”.16 34 Então, perguntou Maria ao anjo: “Como acontecerá isso, pois jamais tive relação sexual com homem algum?”.17

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Então o anjo lhe esclareceu: “O Espírito Santo virá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. E por esse motivo, o ser que nascerá de ti será chamado Santo, Filho de Deus.18 36 Saiba também que Isabel, tua parenta, dará à luz a um filho mesmo em idade avançada, sendo que este já é o sexto mês de gestação para aquela a quem julgavam estéril. 37 Porquanto para Deus não existe nada que lhe seja impossível!”. 38 Diante disso, declarou Maria: “Eis aqui a serva do Senhor; que se realize em mim tudo conforme a tua palavra!”. Em seguida o anjo partiu. 35

O encontro de Maria com Isabel 39 Durante aqueles dias, Maria preparou-se e saiu rapidamente em viagem para uma cidade da região montanhosa da Judéia. 40 Chegou à casa de Zacarias e foi saudar Isabel. 41 Assim que Isabel ouviu a saudação de

12 Lucas trata o assunto da concepção virginal de Jesus de forma clara e objetiva (observe os versos 27, 34 e 35 e Mt 1.18-25). A fecundação foi obra do Espírito Santo que, ao cobrir Maria, na forma de uma sombra, gerou em seu ventre o embrião que seria Jesus, a eterna segunda pessoa da Trindade. Jesus jamais deixou de ser Deus, mas Deus assumiu completamente corpo e alma humanas, possibilitando que Jesus fosse plenamente homem e plenamente Deus a um só tempo (Jo 1.14). Maria havia sido desposada, o que significa no judaísmo da época, uma espécie de noivado definitivo. Um compromisso de casamento sem possibilidade de arrependimento. Qualquer infidelidade por parte da mulher a partir desse pacto matrimonial, era punida com a pena de morte por apedrejamento para a virgem que cometera adultério e para o homem que a tivesse seduzido (Dt 22.23,24). Maria e José eram descendentes diretos de Davi (vs.32,69 e 2.4). 13 Em algumas versões traduzidas a partir da Vulgata latina, conservou-se a palavra “Ave” (de onde teve origem a frase: “Ave Maria”) uma expressão comum de saudação em latim, e que significa: “Salve!” ou “Seja Feliz!”, mais propriamente traduzida aqui por “Alegra-te!”. Outra expressão que aparece em algumas versões da Bíblia é: “cheia de graça”, numa referência ao favor de Deus para com sua serva. A tradução e o sentido mais literal dessa frase nos originais gregos são: “tu que foste e permaneces repleta do favor divino”. 14 O nome próprio “Jesus” deriva do hebraico antigo (cwSy - Yeshua) e significa: “Josué”, que quer dizer: “Yahweh Salva” ou “Jeová é o Salvador” (Mt 1.21). 15 “Grande” era um título de destaque dado a personalidades notáveis, especialmente aos imperadores da época. O anjo comunica que o Reino de Cristo é imenso e jamais terá fim. A expressão hebraica traduzida por “Altíssimo” é igualmente um título honroso, muitas vezes usado no AT e no NT em referência à pessoa de Deus (nos versos 35,76; 6.35; 8.28; Gn 14.19; 2Sm 22.14; Sl 7.10), e tem dois sentidos. Refere-se ao divino Filho de Deus e ao Messias (o Cristo, em grego). O messianato de Jesus é claramente abordado nos versos 32b e 33. Quanto ao trono de Davi, que significa o comando do mundo, foi profetizado no AT que seria entregue por Deus ao Messias, da descendência de Davi (2Sm 7.13,16; Sl 2.6,7; 89.26,27; Is 9.6,7). 16 A missão de Cristo como mediador um dia se encerrará (1Co 14.24-28) e dará lugar ao Reino unificado do Pai e do Filho que durará eternamente (Sl 45.6; Rm 1.3,4; Fp 2.9-11; Hb 1.8; Ap 11.15). 177 Maria não se assusta tanto com o anjo quanto com as palavras dele. Entretanto, mesmo sendo uma jovem simples de pequena aldeia do interior da Galiléia, não duvida da revelação divina que recebe, como ocorreu com o experiente teólogo e dedicado sacerdote Zacarias. Maria apenas – compreensivelmente – desejava saber “como” tal evento se daria. Muito embora as revelações comunicadas a Maria tenham sido ainda mais extraordinárias do que as anunciadas a Zacarias, a serva do Senhor não precisou de provas ou sinais para aceitar, com alegria submissa, a missão que o Senhor lhe confiara. 18 Alguns séculos depois da ressurreição do Senhor, surgiram certos escritos seculares questionando o período da primeira


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LUCAS 1

Maria, o bebê agitou-se em seu ventre, e Isabel ficou plena do Espírito Santo.19 42 E, com um forte grito, exclamou: “Bendita és tu entre todas as mulheres, e bendito é o fruto de teu ventre! 43 Mas, qual o motivo desta graça maravilhosa, que me venha visitar a mãe do meu Senhor? 44 Pois, no mesmo instante em que a tua voz de saudação chegou aos meus ouvidos, o bebê que está em meu ventre agitou-se de alegria. 45 Bem-aventurada é aquela que acreditou que o Senhor cumprirá tudo quanto lhe foi revelado!”.

braço; dispersou aqueles cujos sentimentos mais íntimos são soberbos. 52 Derrubou governantes dos seus tronos, mas exaltou os humildes. 53 Supriu abundantemente os famintos, mas expulsou de mãos vazias os que se achavam ricos.21 54 Ajudou a seu servo Israel, recordandose da sua misericórdia infinda 55 a favor de Abraão e sua descendência, para sempre, assim como prometera aos nossos antepassados”.22 56 E Maria permaneceu com Isabel por cerca de três meses, quando então retornou à sua casa.23

Magnificat, o cântico de Maria 46 Então declarou Maria:20 “Engrandece minha alma ao Senhor, 47 e o meu espírito se regozija em Deus, meu Salvador, 48 pois contemplou a insignificância da sua serva. Mas, de hoje em diante, todas as gerações me chamarão bem-aventurada, 49 porque o Poderoso realizou maravilhas a meu favor; Santo é o seu Nome! 50 A sua misericórdia estende-se aos que o temem, de geração em geração. 51 Ele operou poderosos feitos com seu

Nasce João Batista 57 Ao se completar o tempo de Isabel dar à luz, nasceu-lhe um filho. 58 Todos os seus vizinhos e parentes ouviram falar da grande misericórdia com a qual o Senhor a havia contemplado e muito se alegraram com ela. 59 No oitavo dia levaram o menino para ser circuncidado, e desejavam dar-lhe o nome do pai, Zacarias. 60 No entanto sua mãe tomou a palavra e afirmou: “Não! O nome dele deverá ser João”. 61 Ponderaram-lhe: “Mas ninguém há en-

juventude de Jesus, sobre o qual a Bíblia nada fala. Foram sugeridas várias hipóteses e uma delas levanta a possibilidade de Jesus ter passado por uma fase em que teria cometido alguns pecados para se assemelhar ainda mais aos seres humanos. As Sagradas Escrituras, entretanto, são claras em afirmar que Jesus nasceu Santo (a expressão hebraica original significa: separado para habitação de Deus) e jamais cometeu um só pecado (2Co 5.21; Hb 4.15; 7.26; 1Pe 2.22; 1Jo 3.5). Não foi o nascimento virginal de Jesus que o fez “Santo”, e muito menos, “Filho de Deus”. Esse foi o meio pelo qual o Filho, preexistente (que sempre existiu), revelou Sua Deidade (Jo 1.1,14; Fp 2.6). 19 Lucas dá grande ênfase à ação do Espírito Santo, não apenas no evangelho, mas, especialmente no livro de Atos. Algumas versões trazem a expressão “possuída” para descrever o quanto Isabel ficou cheia (em plenitude) do Espírito. Foi pelo Espírito que Isabel reconheceu Maria como mãe do Redentor (v.43) e é só pelo Espírito Santo que o pecador pode conhecer a Cristo como seu único, suficiente e eterno Salvador e Senhor (Jo 16.8,9). 20 Maria (e não Isabel como sugerem algumas versões), na plenitude do Espírito Santo, a exemplo de Ana (1Sm 2.1-10), louva ao Senhor por sua graça e misericórdia para com todos, especialmente para com os humildes e desprotegidos. A tradição da Igreja transformou esse cântico (salmo) num hino conhecido como Magnificat, pois na tradução desse texto em latim, na Vulgata, a primeira palavra é “Magnificat”, que significa: “Engrandece”. 21 Maria, usando uma forma de expressão profética, refere-se às maravilhas que a vinda do Cristo (o Messias) produziria (Tg 5.1-6). Deus supre os “famintos” de bênçãos espirituais e bens materiais (de pão e justiça – Ef 1.3 com 1Sm 2.5), especialmente quando eles aprendem o que é “temer ao Senhor” (viver em harmonia e respeito à vontade revelada de Deus na sua Palavra). 22 A expressão “seu servo”, em grego transliterado é paidos, e significa: “servo filho”. “Filhos de Deus” é uma expressão que, em grego, se refere a outras duas palavras: tekna ou huioi. Além do servo Israel, também Davi e Cristo são como “servos” de Deus (v.69; conforme At 3.13,26; 4.25,27,30). Israel, como o Servo de Yahweh (Jeová), tendo cumprido sua missão, cede seu lugar ao Messias (Jesus Cristo) nas maravilhosas profecias sobre o “Meu Servo” (Is 41.8,9; 42.1; 44.1,2,21; 45.4). O cântico termina garantindo que Deus será fiel às promessas que fez a Seu povo (Gn 22.16-18). 23 Maria ficou com Isabel, sua parenta e amiga querida, até o nascimento de João Batista, quando retornou para casa, em Nazaré.


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tre teus parentes que se chame assim”. 62 Então, através de sinais, consultaram o pai do menino que nome queria que lhe dessem. 63 Ele pediu uma tabuinha e, para surpresa de todos, escreveu: “O nome dele é João”.24 64 No mesmo instante sua boca se abriu, sua língua se soltou e ele começou a falar, louvando a Deus. 65 Toda a vizinhança foi tomada de grande temor e por toda a região montanhosa da Judéia se comentavam esses fatos. 66 E aconteceu que todos quantos ouviam falar dessas ocorrências ficavam imaginando: “O que virá a ser este menino?”. Pois a boa mão do Senhor estava com ele. Benedictus, o cântico de Zacarias 67 Então, seu pai Zacarias foi cheio do Espírito Santo e profetizou:25 68 “Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, pois que visitou e redimiu o seu povo. 69 Ele concedeu poderosa salvação na casa de Davi, seu servo.26 70 Assim como prometera por meio dos seus santos profetas desde a antigüidade.

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Salvando-nos dos nossos inimigos e das mãos de todos os que nos odeiam, 72 para demonstrar sua misericórdia aos nossos antepassados e recordar sua santa aliança, 73 o juramento que prestou ao nosso pai Abraão. 74 Que nos resgataria da mão de todos os nossos inimigos, a fim de o servirmos livres do medo, 75 em santidade e justiça na sua presença, durante todos os dias de nossas vidas. 76 Tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo, pois marcharás à frente do Senhor, para lhe preparar o caminho.27 77 Para proclamar ao seu povo o conhecimento da salvação, mediante o perdão dos seus pecados. 78 E isso, por causa das profundas misericórdias de nosso Deus, através das quais dos céus nos visitará o sol nascente,28 79 para iluminar aqueles que estão vivendo em meio às trevas, e guiar nossos pés no caminho da paz”.29 80 E o menino crescia e se robustecia em espírito; e viveu no deserto até o dia em 71

24 Na antigüidade judaica era usado um pedacinho de madeira coberto com cera e um buril (um pequeno instrumento de metal usado para gravar textos e imagens em madeira), como uma espécie de livro de anotações. A importância dos nomes atribuídos às pessoas é algo notável em toda a Bíblia. No início da Nova Dispensação, temos Zacarias – “Deus se recorda de Sua aliança” (v.54); Isabel – “Deus é fiel”; João – “Deus é bom e misericordioso” (Mt 3.1); Maria – “aquela que guarda em seu coração”, e o próprio Jesus – “Deus é o Salvador” (v.31; Mt 1.21). 25 A exemplo de Maria, com seu salmo, Zacarias também expressa sua alegria espiritual e louvor (agora com a voz livre do sinal punitivo do anjo, devido ao cumprimento da promessa), por meio de um hino profético. Esse cântico ficou conhecido pela Igreja como Benedictus, que em latim significa “Bendito” ou “Louvado seja”, pois se trata da palavra que inicia este hino na Vulgata latina. 26 A salvação de Deus para Israel não se limitará à redenção nacional (v.71), mas, principalmente, à salvação espiritual (vs.75,77). A expressão hebraica, aqui interpretada por “poderosa” se traduz literalmente por “chifre de boi”, numa alusão à força e ao poder (conforme Dt 33.17; Sl 18.1-3; 22.21; 92.10,11; 132.17,18; Mq 4.13). Jesus – o Messias da Casa de Davi – tem poder para salvar e libertar seu povo de todo tipo de opressão e escravidão. 277 João foi chamado profeta do Altíssimo, enquanto Jesus foi reconhecido como Filho do Altíssimo (v.32). O principal ministério de João foi testificar de Cristo (Jo 1.7,29,32-36). O maior ministério do cristão é também ser testemunha de Jesus Cristo (At 1.8). João recebeu a missão de preparar os caminhos do Senhor para sua primeira vinda, enquanto nós devemos apressar o glorioso retorno de Cristo por meio do nosso testemunho e da evangelização de todos os povos (2Pe 3.11,12). 28 Assim como o sol nascente desvanece as trevas, Cristo aniquilou o poder e a culpa do pecado. Veja figuras de linguagem semelhantes em: Nm 24.17; Is 9.2; 60.1. Ele conquistou o império que estava nas mãos de Satanás e destruiu o poder da morte (Rm 5.12-21). O sacerdote Zacarias, não apenas exaltou seu filho, o profeta João, mas louvou o Messias Jesus que chegaria em breve (vs.78,79). 29 Os que vivem nas trevas são os que estão perdidos, a caminho da morte (separação de Deus) eterna (Is 9.1,2; Mt 4.16). A humanidade busca desesperadamente por paz, entretanto o que se vê é o aumento constante da violência e da brutalidade entre pessoas e nações. O vocábulo “paz” no original grego (transliterado: irene), significa: “estado de descanso, tranqüilidade e segurança, devido a um harmonioso relacionamento entre Deus e a pessoa humana”. Jesus Cristo é o Príncipe da Paz e todos os seus discípulos já podem desfrutar dessa Paz que será completa e mundial, quando o Senhor estabelecer seu Reino de forma plena e definitiva na terra renovada (Ap 21.1).


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que havia de revelar-se publicamente a Israel.30 Nasce Jesus de Nazaré, o Cristo

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e ela deu à luz o seu primogênito. Envolveu-o com tiras de pano e o colocou sobre uma manjedoura, pois não havia lugar para eles na hospedaria.5 7

(Mt 1.18-25)

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Naquela época, César Augusto publicou um decreto, convocando para um recenseamento, todos os moradores das terras dominadas por seu império.1 2 Este foi o primeiro cadastramento da população de todo o império romano, quando Quirino era governador da Síria.2 3 E todos seguiam para as cidades onde haviam nascido, a fim de serem arrolados. 4 Por isso, José também viajou da cidade de Nazaré da Galiléia para a Judéia, até Belém, cidade de Davi, porque pertencia à casa e à descendência de Davi.3 5 E partiu com o propósito de alistar-se, juntamente com Maria, sua esposa prometida, que estava grávida.4 6 Enquanto estavam em Belém, chegou o momento de nascer o bebê,

“Gloria in Exelsis Deo!” 8 Nas proximidades havia pastores que estavam nos campos e que durante a noite cuidavam dos seus rebanhos. 9 E aconteceu que um anjo do Senhor apareceu a eles e a glória do Senhor reluzindo os envolveu; e todos ficaram apavorados. 10 Todavia o anjo lhes revelou: “Não temais; eis que vos trago boas notícias de grande alegria, e que são para todas as pessoas: 11 Hoje, na cidade de Davi, vos nasceu o Salvador, que é o Messias, o Senhor!6 12 Isto vos servirá de sinal: encontrareis um recém-nascido envolto em panos e deitado sobre uma manjedoura”. 13 E no mesmo instante, surgiu uma

30 Zacarias e Isabel, já idosos quando João nasceu; morreram quando ele era ainda muito jovem. Segundo historiadores e arqueólogos, João teria sido levado para o deserto da Judéia, onde viveu cerca de trinta anos e muito aprendeu com os essênios da região de Qunram. A semelhança de terminologia da sua pregação com os chamados Rolos do Mar Morto é notável. João Batista começou seu ministério público com cerca de trinta anos, idade em que os profetas tinham, em geral, sua maioridade e maturidade espiritual reconhecidas pelos conselhos de rabinos. Capítulo 2 1 Lucas procura sempre relacionar sua narrativa aos grandes fatos históricos de seu tempo. César Augusto (30 a.C. a 14 d.C) foi o primeiro e o maior dos imperadores romanos. Estabeleceu a chamada “Pax Romana”, trocou o sistema republicano por uma forma imperial de governo, conquistou todo o mundo civilizado do Mediterrâneo e estabeleceu a idade áurea das artes, arquitetura e literatura romanas. No ano 27 a.C. o senado romano lhe concedeu o título de “augusto”, que em latim significa: “exaltado” ou “digno de toda a reverência”. Embora os judeus estivessem isentos do serviço militar romano, e por isso não eram obrigados a atender às convocações militares, não estavam livres de pagar os impostos, e esse recenseamento ou cadastramento visava exatamente alistar todos os cidadãos e moradores sob o domínio romano, especialmente para recolhimento de impostos. Deus usou o decreto de um imperador pagão para cumprir a profecia de Mq 5.2. 2 Quirino foi um oficial romano que coincidentemente trabalhou neste censo e em um segundo alistamento geral que ocorreu de 6 a 9 d.C., registrado por Lucas em At 5.37, no qual Judas se levantou contra o governo romano da época, alegando que Deus era o único e legítimo Rei de Israel, sendo, portanto, ilícito (um pecado) pagar impostos a qualquer outra autoridade. 3 Belém é a mesma cidade onde nasceu o rei Davi cerca de 1000 anos antes destes eventos (1Sm 17.12; 20.6) e se localizava a uma distância aproximada de 10 km ao sul de Jerusalém. Naquela época, uma viagem de pelo menos três dias até Nazaré. “Judéia”, era a maneira greco-romana de chamar a parte sul da Palestina, no passado abrangida pelo reino de Judá. 4 Na Síria, província romana na qual se localizava a Palestina, as mulheres acima de 12 anos deviam pagar um imposto individual ao governo, e para isso tinham de ser cadastradas (recenseadas). Maria também pertencia à casa de Davi. 5 No ocidente e por motivos não históricos nos acostumamos a celebrar o natal (nascimento de Jesus Cristo) em dezembro. Entretanto, segundo muitos historiadores e arqueólogos de prestígio, a data mais provável deve ter sido na primavera palestina (entre maio e junho). Era costume entre as mães judias envolver os filhos recém-nascidos com tiras de tecido para que ficassem bem agasalhados e protegidos. A cidade estava lotada com pessoas de todas as partes vindas para ser arroladas no censo. Maria sentia as dores de parto e a única solução foi se acomodarem em um estábulo. Ao nascer, Jesus foi posto em uma manjedoura, uma espécie de cocho onde se colocava o alimento dos animais. 6 Os líderes religiosos e o povo judeu estavam divididos em suas expectativas quanto à obra do Messias prometido. Uns esperavam que ele fosse um grande líder militar e os livrasse do domínio romano. Outros desejavam cura para as enfermidades e os muitos sofrimentos físicos. E, outros ainda, ambicionavam um Messias que os livrasse da fome e da pobreza. Contudo, a


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grande multidão do exército celestial que se juntou ao anjo e louvavam a Deus entoando: 14 “Glória a Deus nos mais altos céus, e paz na terra às pessoas que recebem a sua graça!”.7 15 Quando os anjos partiram e foram para os céus, os pastores combinaram entre si: “Vamos até Belém, e vejamos este acontecimento que o Senhor nos deu a saber”. 16 Então correram até o local e chegando, encontraram Maria e José, e o recémnascido deitado numa manjedoura. 17 E depois de o contemplarem, comunicaram a todos o que lhes fora revelado a respeito daquele menino, 18 Ao ouvirem o que os pastores relatavam ficaram sobremodo assustados. 19 Maria, contudo, observava silenciosa todos os acontecimentos, e refletia sobre eles em seu coração. 20 Os pastores retornaram glorificando e louvando a Deus por tudo quanto tinham visto e ouvido, assim como lhes fora predito.

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Jesus é apresentado no templo 21 Completando-se os oito dias para o ritual de circuncisão do menino, foi-lhe dado o nome de Jesus, o qual já havia sido outorgado pelo anjo antes de Ele nascer.8 22 De igual modo, ao completar-se o tempo da purificação deles, de acordo com a Lei de Moisés, José e Maria levaram o bebê Jesus até Jerusalém para apresentá-lo a Deus no templo.9 23 Assim como está escrito na Lei do Senhor: “Todo primogênito nascido do sexo masculino deverá ser dedicado ao Senhor”. 24 Também um sacrifício deveria ser oferecido, como proclama a Lei do Senhor: “duas rolinhas ou dois pombinhos”.10 “Nunc Dimittis” 25 Entrementes, havia um homem em Jerusalém chamado Simeão, homem justo e piedoso e que almejava a consolação de Israel; e o Espírito Santo estava sobre Ele.11 26 O Espírito Santo lhe havia revelado

missão prioritária do Cristo, anunciada pelos anjos, é que Ele viria resgatar a humanidade, pagando o preço pelo pecado: a morte (Mt 1.21; Jo 4.42). A pessoa e a obra de Cristo neste mundo significam: maior glorificação de Deus Pai nos céus (17.4,5) e paz divina eterna para todos os habitantes da terra que receberem seu Espírito com amor e sinceridade (v.14; Rm 5.1,2). A expressão hebraica: “Senhor”, até a vinda de Cristo, era usada exclusivamente para se referir a Deus (At 2.36; Fp 2.11). 7 Um grande coral de anjos entoou um cântico de louvor a Deus. As primeiras palavras deste pequeno hino, registrado em latim na Vulgata, são: Gloria in exelsis Deo! Os anjos exaltam a majestade de Deus em todo o universo, nos céus, onde Deus habita (Mt 6.9). O mundo da época vivia sob a Pax romana, uma paz exterior e temporária, imposta por um imperador humano. Os anjos anunciam a “Paz de Deus”, eterna e absoluta, garantida a todos quantos se agradam (recebem com gratidão, sinceridade g ç de Deus (Lucas ( usa a palavra p “agrado” g em vários momentos 3.22; 10.21; 12.32).) A “Paz de Deus” só ppode e lealdade)) a graça ser recebida por quem crer que Ele é o Único doador e Salvador. Em resumo: é um ato de fé (Rm 5.1). O Messias davídico era chamado de “Príncipe da Paz” (Is 9.6). De outro lado, embora Cristo tenha prometido essa Paz aos seus discípulos (Jo 14.27), Ele deixou bem claro que haveria lutas, aflições e tensões (Mt 10.34-36; Lc 12.49; Jo 16.33), pois manter a paz com Deus significa viver em oposição diária a Satanás e seus ardis (Tg 4.4). 8 Jesus, o Filho de Deus, relacionou-se de perto com a Lei e a Velha Aliança. Nasceu, cresceu e foi educado sob a Lei para resgatar todos os que estavam sob a Lei e suas conseqüências. Obedeceu a Lei e foi além, para nos ensinar a viver sob o espírito da lei; ou seja, livres da formalidade da letra, mas conduzidos pelo Espírito de Deus, nosso Advogado e Orientador quanto ao que devemos fazer para agradar ao Pai Celestial (Jo 14.25-27; Gl 4.4-5). Lucas usa muitas vezes a expressão “louvando ao Senhor” (1.64; 2.13,28; 5.25,26; 7.16; 13.13; 17.15,18; 18.43; 19.37; 23.47; 24.53). 9 Depois de dar à luz a um filho, a mãe judia, precisava aguardar 40 dias (resguardo), para dirigir-se ao templo e oferecer os sacrifícios chamados de “purificação”. Se fosse pobre e não pudesse comprar um cordeiro e uma rolinha (espécie de pombo pequeno), como ocorreu com José e Maria, eram aceitáveis dois pombinhos (Lv 12.2-8; 5.11). 10 Belém distava de Jerusalém cerca de 10 km. Todos os p primogênitos g dos seres humanos e dos animais deviam, ppela Lei, serem consagrados (dedicados) ao Senhor (Êx 13.12-13). Os animais eram sacrificados, pois somente o sangue e a morte dos inocentes podia pagar o preço dos pecados humanos. Cristo tomou sobre si esta penalidade (Is 53.6; 2Co 5.21) e se deu em sacrifício único, suficiente e perpétuo. Os primogênitos humanos eram simbolicamente oferecidos aos cuidados do Senhor (Rm 8.29), e seus pais se obrigavam a educá-los para adorar e servir a Deus. Os filhos deviam seguir a fé dos pais durante toda a vida, mas eram os levitas quem, de fato, dedicavam suas vidas inteiras ao serviço religioso diário, como ministros, representando a adoração de todos os primogênitos masculinos de Israel (Nm 3.11-13; 8.17,18). 11 A consolação que os judeus piedosos (fiéis e adoradores sinceros de Deus) aguardavam era a vinda do Messias (Cristo,


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que não morreria sem ter a oportunidade de ver o Cristo de Deus. 27 Movido pelo Espírito Santo, ele dirigiu-se ao templo. Assim que os pais trouxeram o menino Jesus para realizarem com Ele o ritual de consagração exigido pela tradição da Lei, 28 Simeão o tomou em seus braços e louvou a Deus, exclamando: 29 “Ó Soberano! Como prometeste, podes agora despedir em paz o teu servo. 30 Porquanto os meus olhos já contemplaram a tua Salvação,12 31 a qual preparaste à vista de todos os povos: 32 luz para revelação aos gentios, e para glória do teu povo de Israel”. 33 O pai e a mãe do menino ficaram admirados com a proclamação feita a respeito dele. 34 Então Simeão os abençoou e revelou a Maria, mãe de Jesus: “Eis que este menino está destinado a ser o responsável pela queda e pelo soerguimento de multidões em Israel, e a ser um sinal de contradição, 35 de maneira que a intimidade dos pensamentos de muitos corações será re-

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velada. Quanto a ti, todavia, uma espada traspassará a tua alma”.13 As profecias de Ana 36 Estava também presente a profetiza Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser. Era uma senhora de idade avançada; tinha vivido com seu marido durante sete anos depois de se casar,14 37 e desde então permanecera viúva até a idade de oitenta e quatro anos. Jamais deixava o templo: adorava a Deus, jejuando e orando dia e noite. 38 Havendo chegado ali, naquele exato momento, deu graças a Deus e proclamava acerca do bebê Jesus para todos os que anelavam pela redenção de Jerusalém”.15 39 Depois de terem cumprido tudo quanto era requerido pela Lei do Senhor, retornaram para a sua própria cidade, Nazaré, na Galiléia. 40 E o menino crescia e se fortalecia, tornando-se pleno em sabedoria; e a graça de Deus permanecia sobre Ele.16 O menino Jesus no templo 41 Todos os anos seus pais viajavam até Jerusalém para celebrar a festa da Páscoa.

em grego) e a implantação de um Reino de justiça, paz e felicidade (vs. 26,38; 23.51; 24.21; Is 40.1,2; Mt 5.4). O Espírito Santo, antes do evento de Pentecostes, vinha “sobre” as pessoas e as agraciava com sua presença por algum tempo. Após a ascensão de Cristo, o Espírito vem “habitar”, ou, como no sentido original do AT, “tabernacular” permanentemente na vida do crente (Jo 14.16-18). Lucas dá grande atenção em seus textos à pessoa e ao tríplice ministério do Espírito Santo: Primeiro como condutor da graça preveniente e sensibilizadora que leva o ser humano a buscar a Deus (Jo 16.8), em seguida, revelando a Cristo e iniciando a obra salvadora do Senhor (Jo 3.5; Rm 8.9), e santificando a vida do crente e o preparando para herdar a vida eterna com Cristo (Rm 8.14). 12 Todo aquele que tem uma fé viva e verdadeira na pessoa e na obra de Cristo pode, com toda a certeza e tranqüilidade, morrer em plena paz (1Jo 1.1 em relação a Gn 15.15). Simeão declama um salmo que se tornaria um hino da Igreja conhecido como: Nunc dimittis, que são as primeiras palavras deste cântico em latim, como aparece na Vulgata, e significam: “Agora despede”. Lucas, não sendo judeu, teve o cuidado de ressaltar a verdade de que a Salvação é uma graça disponível também aos gentios e não apenas aos judeus (v.32; Mt 24.14; Mc 13.10; Ap 7.9). 13 Cristo veio para reabilitar o caído, consolar os que sofrem e restaurar os que se consideram perdidos. Aos que não se acham necessitados, Cristo veio para, literalmente, “derrubar a casa” (em grego, ptõsis), pois Jesus é pedra de tropeço para os incrédulos (20.17-18; 1Co 1.23; 1Pe 2.6-8). Jesus causa divisão entre o que prefere viver nas trevas e aqueles que atendem ao apelo do seu amor (Jo 3.19), e entre o criminoso arrependido e o blasfemo (Lc 23.39-43). Lucas, pela primeira vez, fala sobre os sofrimentos e o martírio de Cristo, salientando que sua mãe sofreria tanto quanto Ele, como se uma espada varasse seu coração. No entanto não se tem notícia de que Maria tivesse ficado amargurada, ressentida com Deus ou amaldiçoasse seu destino. 14 A Bíblia apresenta outras profetizas: Miriã (Êx 15.20), Débora (Jz 4.4), Hulda (2 Rs 22.14) e as filhas de Filipe (At 21.9). Curiosamente, essa Ana do NT louvou a Deus pelo menino Jesus, assim como, a Ana do AT exaltou ao Senhor pelo menino Samuel. Ambas foram divinamente inspiradas para revelar a Palavra de Deus. O nome “Ana” significa em hebraico antigo: “misericordiosa” (1Sm 2.1-10). 15 Jerusalém é a cidade santa do povo escolhido de Deus (Is 40.2; 52.9). Neste texto representa a nação de Israel como um todo. 16 Lucas não menciona a vinda dos magos (astrônomos), o perigo da parte de Herodes, nem ainda a fuga para o Egito e a viagem de retorno de lá (Mt 2.1-23).


LUCAS 2, 3 42 Assim

sendo, no ano em que Ele completou doze anos de idade, eles subiram à festa, de acordo com a tradição.17 43 Encerradas as comemorações, voltando seus pais para casa, o menino Jesus ficou em Jerusalém, sem que eles notassem. 44 Imaginando que Ele estivesse entre os muitos companheiros de viagem, caminharam por um dia inteiro. Então começaram a buscá-lo entre os seus parentes e conhecidos. 45 Como não conseguiam encontrá-lo, retornaram a Jerusalém para procurá-lo. 46 Após três dias o acharam no templo, sentado na companhia dos mestres, ouvindo-os e propondo-lhes questões. 47 Todos os que o ouviam ficavam maravilhados com a sua capacidade intelectual e com a maneira como comunicava suas conclusões.18 48 Assim que seus pais o avistaram, ficaram perplexos. Então sua mãe o inquiriu: “Filho, por que agiste assim conosco? Teu pai e eu nos angustiamos muito à tua procura!”.

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Então Ele lhes perguntou: “Por que me procuráveis? Como não sabíeis que era meu dever tratar de assuntos concernentes ao meu Pai?”. 50 Mas eles não compreenderam bem o que lhes explicara.19 51 Contudo, Ele seguiu com eles para Nazaré, pois lhes era obediente. Sua mãe, entretanto, meditava silenciosamente em seu coração sobre todos estes acontecimentos. 52 E Jesus se desenvolvia em sabedoria, estatura e graça na presença de Deus e de todas as pessoas.20 49

João Batista proclama a Palavra (Mt 3.1-12; Mc 1.2-8)

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No décimo quinto ano do reinado de Tibério César, época em que Pôncio Pilatos foi governador da Judéia; Herodes, tetrarca da Galiléia; seu irmão Filipe, tetrarca da Ituréia e Traconites; e Lisânias, tetrarca de Abilene, e1 2 Anás e Caifás exerciam o ofício de sumo sacerdotes. Foi nesse mesmo ano que João, filho de Zacarias, recebeu

177 José e Maria tinham o zelo de cumprir tudo quanto a Lei requeria, e assim educavam o menino Jesus. Aos doze anos, a tradição judaica considerava o jovem menino como “filho da lei”, e seu dever era aprender os preceitos mais amplos da Lei, para no ano seguinte começar a cumprir as exigências cerimoniais relacionadas às festas, jejuns, orações e estudos teológicos. Jesus estava certo de que seus pais sabiam da necessidade que ele tinha – no ano em que completava doze anos – de dedicar-se a esse aprendizado e aprofundamento na cultura judaica junto aos rabinos e mestres da Lei do seu tempo. 18 Na época de Jesus as aulas eram gravadas na memória e no coração dos alunos, não havia as facilidades modernas dos muitos livros, cadernos e computadores. As respostas orais dos alunos às seguidas perguntas dos mestres demonstravam o quanto do ensino havia sido retido e compreendido. Jesus assombrou até os doutores de seu tempo com seu saber e carisma pessoal. 19 Jesus tentou gentilmente lembrar seus pais terrenos sobre seu compromisso de obediência ainda maior a Seu Pai celeste, e por isso contrapôs a expressão: “teu pai”, usada por Maria, com a frase: “meu Pai”. Ao doze anos Jesus já tinha grande compreensão sobre quem Ele era e qual sua missão na terra. Sua mãe, entretanto, procurou compreender o que havia se passado ponderando tudo silenciosamente em seu coração, e assim agiria durante toda a vida de seu filho na terra. Lucas faz questão de frisar que Jesus foi obediente aos seus pais e os seguiu para casa. Na época em que Lucas estava escrevendo seu Evangelho (entre 60 e 70 d.C.), muitas lendas sobre a adolescência e a primeira juventude de Jesus circulavam por todo o império romano. Uma delas dizia que Jesus passou por uma fase de rebeldia contra seus pais, bem como transformava pequenas peças de barro em pássaros apenas para demonstrar seu poder. O problema, como sempre, é que muitos acreditaram mais na ficção do que na realidade. 20 Lucas afirma a perfeita e completa humanidade pela qual Deus passou ao encarnar-se em Jesus de Nazaré, seu Filho. Como qualquer pessoa, Cristo passou pelas diversas fases do desenvolvimento humano, porém sempre de forma brilhante, perfeito e sem pecado. José, o pai terreno de Jesus, morreu quando Ele era ainda muito jovem, deixando para Ele toda a responsabilidade de cuidar de Maria, sua mãe, e dos demais irmãos. E Jesus ajudou a sustentar sua família por muito tempo, trabalhando como carpinteiro e pedreiro (Mc 6.3). Capítulo 3 1 Tibério passou a ter autoridade sobre as províncias romanas por volta de 11 d.C, e Pilatos exerceu a suprema autoridade de Roma na Judéia, entre os anos de 26 e 36 d.C, enquanto Herodes Antipas (filho de Herodes, o Grande) a exerceu na Galiléia e Peréia, de 4 a.C. até 39 d.C. O “décimo quinto ano”, citado por Lucas, refere-se ao ano 25 ou 26 d.C.


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uma palavra convocatória do Senhor, no deserto.2 3 Então ele percorreu toda a região próxima ao Jordão, proclamando um batismo de arrependimento para perdão dos pecados.3 4 Assim como está escrito no livro das palavras do profeta Isaías: “Voz do que clama no deserto: ‘Preparai o caminho do Senhor, tornai retas as suas veredas. 5 Pois que todo o vale será aterrado e todas as montanhas e colinas, niveladas. As estradas tortuosas se transformarão em retas e os caminhos acidentados serão aplanados. 6 E todos os seres viventes contemplarão a salvação que Deus oferece’”. 7 João repreendia as multidões que vinham para ser batizadas por ele: “Raça de víboras! Quem lhes persuadiu a fugir da ira vindoura?4 8 Produzi, então, frutos que demonstrem arrependimento. E não comeceis a cogi-

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tar em vossos corações: ‘Abraão é nosso pai!’. Pois eu vos asseguro que destas pedras Deus pode fazer surgir filhos a Abraão.5 9 O machado já está posto à raiz das árvores, e toda árvore que não der bom fruto será cortada e jogada ao fogo”. 10 E as multidões lhe rogavam: “O que devemos fazer então?”. 11 Diante do que João as exortava: “Quem tiver duas túnicas dê uma a quem não tem nenhuma; e quem possui o que comer, da mesma maneira reparta”. 12 Chegaram inclusive alguns publicanos para ser batizados. E indagavam: “Mestre, como devemos proceder?”. 13 E João lhes respondeu: “Não deveis exigir nada além do que vos foi prescrito”.6 14 Então um grupo de soldados lhe inquiriu: “E quanto a nós, o que devemos fazer?”. E ele os orientou: “A ninguém molesteis com extorsões, nem denun-

2 Embora Roma tivesse substituído o sumo sacerdote Anás, sucedido por seu filho Eleazar no ano 15 d.C., os judeus continuavam a reconhecer sua autoridade (Jo 18.13; At 4.6), e por isso Lucas incluiu o nome dele junto com Caifás, a quem os romanos tinham nomeado. Depois de 400 anos sem um profeta oficial, o Senhor convoca (chama) João para ser Sua voz e anunciar a vinda do Messias. João foi o último dos profetas da Antiga Aliança, por isso seu estilo característico, um tanto diferente dos profetas do NT. O chamado de Deus veio a João da mesma maneira como vinha aos profetas do AT (Jr 1.2; Ez 1.3; Os 1.1; Jl 1.1). A palavra “deserto” nos originais, nem sempre se refere a uma região seca e arenosa, mas principalmente a um lugar desolado e desabitado. 3 João foi chamado por Deus para pregar arrependimento ao povo. Somente um coração contrito e quebrantado é caminho pavimentado para a vinda de Jesus e a habitação do Espírito Santo. O batismo de João era um ato simbólico, no qual as pessoas demonstravam publicamente sua compreensão e tristeza pelos erros e pecados cometidos, e a sincera disposição de buscar uma vida em plena harmonia com a vontade de Deus. A morte do homem interior é a única maneira de revelar o caráter de Deus: a Imago Deii (Imagem de Deus). Quanto mais parecidos com Deus, mais verdadeiramente humanos nos tornamos. A remissão total dos pecados viria na Salvação de Deus: Jesus Cristo (v.6), que seria oferecida a todas as pessoas da terra e, por fim, virá a eterna condenação dos rebeldes (v.7). Somente Jesus Cristo tem o poder de perdoar todos os nossos pecados e cancelar (pagando por nós), a pena de condenação já decretada contra nós (Rm 8.1). 4 Deus mandou que João quebrasse a arrogância daqueles que imaginavam a salvação apenas como uma promessa hereditária e mais nada. João lhes fala da única maneira capaz de os fazer acordar para a realidade. Advertindo-os severamente para o fato de que estavam sendo enganados pela “mãe das víboras”: o Diabo. Eram, portanto, uma geração de serpentes venenosas (Jo 8.44). Os verdadeiros filhos de Abraão são aqueles que amam a Deus e aos seus semelhantes (Rm 8.44). A ira de Deus manifestou-se no ano 70 d.C. quando toda Jerusalém foi destruída (21.20-23); e o será de maneira global, por ocasião do Juízo final (Jo 3.36). Os arrogantes, os ímpios e todos aqueles que vivem longe de um arrependimento genuíno, e de uma vida cristã sincera, estão diariamente sujeitos ao Juízo de Deus (v.9; Mt 7.19; 13.40-42). 5 Os frutos que surgem em função de um verdadeiro arrependimento diante de Deus são: O reconhecimento da responsabilidade pessoal e social. A disposição para evitar o mal. A prática espontânea de boas obras. A partilha amorosa e voluntária dos bens pessoais com aqueles que mais necessitam. Um caráter honesto e justo em todos os relacionamentos e assuntos. Uma atitude paciente em todas as situações. A prática da verdade. Um espírito alegre e otimista mesmo em meio às grandes dificuldades da vida, compreendendo que a esperança não vem das pessoas, nem das coisas, mas de Deus, nosso Pai (1Tm 6.6). João usa um trocadilho em hebraico, facilmente compreendido naquela época por seus conterrâneos. A palavra aramaica transliterada: “filhos” banim, muito se assemelha à palavra “pedras” abanim, significando que Deus pode dar aos que carecem de dignidade humana, a mais alta posição com Seu Filho. 6 Os publicanos eram agentes judeus contratados pelo império romano para receberem os impostos cobrados pelo governo. Eram detestados pelo povo judeu por várias razões, entre as quais por colaborarem com o conquistador romano pagão e, por muitas vezes fraudarem e oprimirem seus próprios irmãos (Lc 19.2,8). Entretanto, os publicanos que se arrependiam, passavam a ter um comportamento honesto e justo.


LUCAS 3

cieis falsamente. Contentai-vos com o vosso próprio salário”.7 João exalta a Jesus: o Caminho (Mt 3.11-12; Mc 1.7-8; Jo 1.19-17)

A esta altura as pessoas estavam em grande expectativa, imaginando em seus corações se porventura João não seria o Cristo. 16 Então João esclareceu a todos: “Eu, de fato, vos batizo com água. Entretanto, chegará alguém mais poderoso do que eu, tanto que não sou digno sequer de desamarrar as correias das suas sandálias. Ele sim, vos batizará com o Espírito Santo e com fogo.8 17 Ele traz uma pá em suas mãos, a fim de limpar a sua eira e juntar o trigo em seu celeiro; todavia queimará a palha com o fogo que jamais se apaga”.9 18 E com muitas outras palavras João entusiasmava as multidões e lhes pregava as Boas Novas. 15

14 19 Contudo, quando João admoestou He-

rodes, o tetrarca, por causa de Herodias, mulher do próprio irmão de Herodes, e devido a muitas outras obras perversas que havia praticado, 20 Herodes acrescentou a todas essas maldades a de mandar João para a prisão.10 O batismo e a ascendência de Jesus (Mt 1.1-17; 3.13; Mc 1.9-11)

E ocorreu que, quando todo o povo estava sendo batizado, da mesma maneira Jesus o foi; e no momento em que Ele estava orando, o céu se abriu11 22 e o Espírito Santo desceu sobre Ele em forma corporal, como uma pomba. E do céu surgiu uma voz: “Tu és o meu Filho amado; e em ti me agrado sobremaneira”. 23 Jesus tinha cerca de trinta anos de idade quando iniciou seu ministério. Ele era, como se dizia, filho de José; filho de Eli,12 24 filho de Matate, filho de Levi, filho de Melqui, filho de Janai, filho de José, 21

7 Os publicanos contavam com a cooperação de uma escolta romana para realizar o trabalho de coletar impostos. Era comum os publicanos se juntarem aos soldados e armarem situações para defraudarem os judeus que deviam impostos ao governo. A orientação clara de João é que, uma vez arrependido e comprometido com o Reino, o comportamento deve ser digno e ético. Uma autoridade que teme a Deus jamais deveria usar seu cargo ou posição para intimidar com o propósito de extorquir, ou acusar (denunciar) com objetivos escusos. 8 João tinha o ministério do arauto. Na cultura oriental da época, um proclamador adiantava-se à caravana do monarca com o objetivo de anunciar a chegada de tão importante personalidade, a fim de que o povo se preparasse adequadamente para recebê-lo. Normalmente as pessoas se vestiam com roupas de gala, arrumavam suas casas e decoravam a cidade de forma festiva. Em termos espirituais, o arrependimento era a grande preparação para a vinda do Messias (o Cristo) e a inauguração de um novo tempo, no qual Jesus concederia o Seu Espírito aos que nele cressem (Jo 3.3,5), o que veio a ocorrer a partir do Pentecostes (At 1.5; 2.4,38). A expressão “fogo”, nos originais, está ligada ao Juízo (v.17; 12.49-53), ao Pentecostes (At 2.3) e às provações (1Co 3.13). 9 A palha representa os infiéis e impenitentes (Rt 1.22), e o trigo, os justos e fiéis. Deus, em relação às pessoas, sempre faz separação entre os que humildemente desejam Sua Graça e os arrogantes e rebeldes, que preferem uma vida de pecado, e, conseqüentemente, seu salário. O vocábulo grego transliterado: “asbestõ”, significa uma qualidade do fogo que, devido à sua fúria e poder de combustão, não pode ser apagado. Muitos judeus imaginavam que na vinda do Messias somente os pagãos seriam julgados e condenados ao fogo eterno. Entretanto, João deixa bem claro que o Juízo vem para todos quantos não se arrependem, inclusive os judeus de nascimento. 10 Esse foi Herodes Antipas, filho de Herodes, o Grande, que mandou matar todas as crianças judias de Belém. Conforme os escritos de Josefo, historiador judeu, João foi encarcerado em Maquero, a leste do mar Morto (Jo 3.22-24). Lucas antecipa a narração deste fato para encerrar a seção sobre o ministério de João e iniciar sua descrição do ministério de Jesus (Mt 4.12; Mc 1.14), mais tarde faz breve menção à morte de João (9.7-9). 11 Lucas chama atenção para o fato de que Jesus estava em oração por ocasião do seu batismo, assim como o faz em muitos momentos (5.16; 6.12; 9.18-29; 11.1; 22.32,41; 23.34,46), oferecendo aos seus discípulos um grande exemplo e demonstrando sua total humanidade e dependência do Pai (Hb 4.15; 5.7). O Espírito assumiu uma forma corpórea (uma espécie de pombo), para que os presentes pudessem reconhecer a Jesus como o Messias (Is 11.2,3; 42.1; Sl 2.7; Hb 1.5) e para sinalizar o início de um tempo em que seus discípulos poderiam viver plenos do Espírito do Pai (4.1,14). Este evento demonstra que a Trindade está presente no batismo e na vida do cristão sincero (Mt 28.19). 12 Lucas segue a linhagem de Maria, mãe natural de Jesus, e seu parentesco consangüíneo; enquanto Mateus destaca a ascendência de José (o pai jurídico de Jesus). Tanto José, quanto Maria, pertenciam à Casa de Davi. Mateus preocupa-se em demonstrar o parentesco de Jesus com Abraão, enquanto Lucas ressalta a importância de Maria na genealogia de Jesus e sua


15 25 fi lho de Matatias, fi lho de Amós, fi lho

de Naum, fi lho de Esli, fi lho de Nagai, 26 fi lho de Máate, fi lho de Matatias, fi lho de Semei, fi lho de José, fi lho de Jodá, 27 fi lho de Joanã, fi lho de Resa, fi lho de Zorobabel, filho de Salatiel, fi lho de Neri, 28 fi lho de Melqui, fi lho de Adi, fi lho de Cosã, fi lho de Elmadã, fi lho de Er, 29 fi lho de Josué, fi lho de Eliézer, fi lho de Jorim, fi lho de Matate, fi lho de Levi, 30 fi lho de Simeão, fi lho de Judá, fi lho de José, fi lho de Jonã, fi lho de Eliaquim, 31 fi lho de Meleá, fi lho de Mená, fi lho de Matatá, fi lho de Natã, fi lho de Davi, 32 fi lho de Jessé, fi lho de Obede, fi lho de Boaz, fi lho de Salá, fi lho de Naassom, 33 fi lho de Aminadabe, fi lho de Admim, fi lho de Arni, fi lho de Esrom, fi lho de Peres, fi lho de Judá, 34 fi lho de Jacó, fi lho de Isaque, fi lho de Abraão, fi lho de Terá, fi lho de Naor, 35 fi lho de Serugue, g fi lho de Ragaú, g fi lho de Faleque, fi lho de Éber, fi lho de Salá, 36 fi lho de Cainã, fi lho de Arfaxade, fi lho de Sem, filho de Noé, filho de Lameque, 37 fi lho de Matusalém, fi lho de Enoque,

LUCAS 3, 4

fi lho de Jarede, fi lho de Maalaleel, fi lho de Cainã, 38 fi lho de Enos, fi lho de Sete, fi lho de Adão, fi lho de Deus. Jesus vence o ataque satânico (Mt 4.1-11; Mc 1.12,13)

4

Pleno do Espírito Santo, retornou Jesus do Jordão e foi conduzido pelo Espírito ao deserto,1 2 onde enfrentou as tentações do Diabo por quarenta dias. Durante todos esses dias não comeu nada e, ao fim desse período, estava faminto. 3 Indagou-lhe, então, o Diabo: “Se tu és o Filho de Deus, ordena que esta pedra se transforme em pão”.2 4 Mas Jesus lhe contestou: “Está escrito: ‘Nem só de pão viverá o ser humano’”. 5 Então o Diabo o levou a um lugar muito alto e lhe mostrou, em uma fração de tempo, todos os reinos do mundo. 6 E lhe propôs: “Eu te darei todo o poder sobre eles e toda a glória destes reinos, porque me foram entregues e tenho autoridade para doá-los a quem bem entender.

solidariedade com toda a humanidade em Adão. Não era nada comum descrever uma árvore genealógica pelo lado materno. Todavia, Lucas se propusera a fazer uma narrativa o mais lógica e ordenada possível dos acontecimentos. Como já havia sido muito franco e direto ao explicar a geração virginal de Jesus (1.34,35), fato ainda mais inusitado, não podia omitir a maneira como a paternidade de Jesus ocorrera: de um lado, José, “como se dizia” ou “como se imaginava” (v.23; 4.22), ou seja, o pai juridicamente responsável por Jesus; e o Espírito de Deus que o gerou. Aos trinta anos de idade Jesus inicia seu ministério, assim como era costume entre os levitas (Nm 4.47), quando um servo judeu era considerado maduro para os variados serviços religiosos. Jesus cumpriu toda a Lei, e foi além. Capítulo 4 1 Lucas é inspirado por Deus (aqui e no livro de Atos) para dar especial destaque à ação da terceira pessoa da Trindade – o Espírito Santo – no mover do coração do Senhor e de seus discípulos para fazerem a vontade do Pai (1.35; 41.7; 2.25-27; 3.16,22; 4.14,18; 10.21; 11.13; 12.10,12). Durante toda a sua vida na terra, Jesus suportou fortes e complexas tentações, em algumas delas a Bíblia não nos revela os detalhes. Todavia, esse embate mereceu especial destaque, pois esteve em questão todo o futuro dos seres humanos. Os ataques do Diabo foram contra o Messias (o Ungido de Deus, Seu Filho), o cabeça da Nova Humanidade (Cl 2.15). Jesus foi tentado de forma extremamente sutil, ardilosa e não menos poderosa. Contudo, venceu por nós. Em contraste com Adão (em hebraico: homem – Gn 2.20, enquanto Eva, significa: humanidade), que se tornou o cabeça da Velha Humanidade, pois não conseguiu obedecer ao Criador, embora vivendo em condições ideais; e caiu, cometendo o primeiro pecado da humanidade, com conseqüências mortais, o qual acompanhará o gene de cada indivíduo humano, de geração em geração, até o final dos tempos. O Segundo Adão (Jesus – o Novo Homem), venceu o Diabo em total fraqueza da carne. Adão havia inaugurado a humanidade com toda a autoridade e glória do mundo (Gn 1.28-30), enquanto Jesus foi glorificado através do sofrimento, da humilhação e da morte (Rm 1.4; Fp 2.9-11). O primeiro Adão não aceitou cumprir a vontade de Deus e fez prevalecer os seus próprios desejos, rebelando-se contra a única restrição imposta a ele por Deus. O Segundo Adão, o Filho de Deus, aceitou, de livre vontade, cumprir todos os desejos do Pai (Gl 4.4; Fp 2.6-8). 2 Após 40 dias em absoluto jejum, os originais hebraicos e gregos revelam que Jesus não apenas estava com “fome” (como consta em algumas versões), mas sim que ele estava sôfrego de fome (esfomeado). O Diabo nem sempre é horrível e violento, pois pode travestir-se de luz e justiça. Sua estratégia foi induzir Jesus a abdicar de sua condição humana, usar de seus poderes divinos, e deixar o caminho do sofrimento inevitável. O Diabo sempre fará as tentações parecerem irresistivelmente atraentes.


LUCAS 4

Portanto, se prostrado me adorares, tudo isso será teu!”.3 8 Contudo Jesus lhe afirmou: “Está escrito: ‘Ao Senhor teu Deus adorarás e só a Ele darás culto’”. 9 Em seguida o Diabo o levou para Jerusalém, e o colocou sobre a parte mais alta do templo e o desafiou: “Se tu és o Filho de Deus, lança-te daqui para baixo. 10 Pois, como está escrito: ‘Aos seus anjos ordenará a teu respeito, para que te protejam; 11 eles te sustentarão sobre suas mãos para que não batas com teu pé contra alguma pedra’”.4 12 Repreendeu-lhe Jesus: “Dito está! ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’”. 13 E assim, tendo concluído todo o tipo de tentação, o Diabo afastou-se dele até o tempo oportuno. 7

Jesus volta pleno do Espírito (Mt 4.12-17; Mc 1.14-15)

Então, Jesus retornou para a Galiléia, no poder do Espírito, e por toda aquela região se espalhou sua fama. 15 Ensinava nas sinagogas e, de todos, recebia manifestações de grande apreciação. 14

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Jesus é rejeitado pelos seus (Mt 13.54-58; Mc 6.1-4)

Jesus viajou para Nazaré, onde havia sido criado e conforme seu costume, num dia de sábado, entrou na sinagoga. E posicionou-se em pé para fazer a leitura. 17 Foi-lhe entregue o livro do profeta Isaías. Desenrolando-o achou o lugar onde está escrito:5 18 “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para pregar o Evangelho aos pobres. Ele me enviou para proclamar a libertação dos aprisionados e a recuperação da vista aos cegos; para restituir a liberdade aos oprimidos, 19 e promulgar a época da graça do Senhor”. 20 Em seguida, enrolou novamente o livro, devolveu-o ao assistente e assentouse. E na sinagoga todos estavam com os olhos fixos em sua pessoa. 21 Então Ele começou a pregar-lhes: “Hoje se cumpriu a Escritura que acabais de ouvir”.6 22 E todos exclamavam maravilhas sobre Ele, e estavam admirados com as palavras de graça que saíam dos seus lábios. Mas questionavam entre si: “Não é este o filho de José?”. 16

Entretanto, Jesus – o Novo Homem - apegou-se à Palavra de Deus e, citando a Torá (Lei), mais precisamente, passagens em Deuteronômio (8.3; 6.13-16), enfatiza que o pão e a fartura material nada valem sem a bênção de Deus. Jesus não diz que não podia fazer o que o Diabo lhe sugeria, mas sim que sua vontade maior era agradar ao Pai. 3 Uma tentação aparentemente inteligente, considerando que Jesus veio para dominar sobre todos os reinos da terra. Depois deste lugar, Jesus foi conduzido ao canto sudeste da colunata do templo, o seu ponto mais alto (ou pináculo do templo), um declive de cerca de 30 metros para o vale do Cedrom. Todavia, o ardil de Satanás estava no fato de tentar fazer com que Jesus evitasse os sofrimentos do caminho da cruz, os quais veio especificamente suportar como única maneira, divinamente legal, de libertar a humanidade do estigma do pecado (Mc 10.45), herança do Velho Homem. Pecado esse que somente poderia ser pago (resgatado), com a morte (sacrifício) de um homem inocente (sem pecados). Uma vez que o Diabo não conseguiu iludir Jesus apelando para as suas necessidades físicas, tenta seduzi-lo com toda a glória e poder que este mundo pode oferecer e que estão (temporariamente) sob seu domínio, mas é novamente rechaçado (1Jo 5.19). 4 Satanás questiona a filiação de Jesus a Deus, cita as Escrituras corretamente (Sl 91.11-12), porém aplica o ensino de forma tendenciosa e errônea, como fizera em Gn 3.1, e tenta fazer com que Jesus teste a fidelidade do seu Pai e chame a atenção do público sobre sua pessoa de forma espetacular. O príncipe do mal é afastado quando Jesus reafirma sua total humanidade ao usar a Palavra para confirmar que não cabe ao homem testar a Deus; e sua total divindade ao chamar a atenção de Satanás para o fato de que ele não deveria estar provocando a Deus. Entretanto, o Diabo continuou tentando ao Senhor (o arrogante é surdo) durante todo o seu ministério (Mc 8.33), até culminar com a prova maior, no Getsêmani (Jo 14.30; Lc 22.53). 5 Jesus foi para Nazaré cerca de um ano depois do início do seu ministério. Os acontecimentos narrados por João, de Jo 1.19 até 4.42, foram sintetizados por Lucas em Lc 4.13-14. Jesus voltou para sua terra natal apenas duas vezes (Mt 13.53-58 e 6.1-6). Em ambos os casos se destaca a falta de fé daqueles que mais conviveram com Ele, mas o conheciam apenas como um jovem e bom judeu do interior, que ajudava seu pai José a manter a família como carpinteiro e construtor (pedreiro). Os livros do AT eram escritos em rolos de couro, guardados em lugar especial e honroso na sinagoga (como ainda ocorre em nossos dias), e oferecidos, por um funcionário, ao pregador do dia ou a um mestre visitante (no caso de Jesus naquele dia). Jesus leu o texto de Is 61.1,2 em hebraico e o pregou em aramaico, sua língua materna e de seus conterrâneos. 6 O texto do AT lido por Jesus descreve o ministério do Messias, na emancipação dos pobres, através da riqueza que há no


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No entanto, Jesus lhes replicou: “Com toda a certeza citareis a mim o conhecido provérbio: ‘Médico, cura-te a ti mesmo! Faze aqui em tua terra o que soubemos que fizeste em Cafarnaum’”.7 24 E continuou a falar Jesus: “Realmente vos afirmo: Nenhum profeta é bem recebido em sua própria terra. 25 No tempo de Elias, posso lhes afirmar com certeza, que havia muitas viúvas em Israel, quando o céu foi fechado por três anos e meio, e grande fome ocorreu em toda a terra. 26 Contudo, Elias não foi mandado a nenhuma delas, senão somente a uma viúva de Sarepta, na região de Sidom.8 27 Assim também, no tempo do profeta Eliseu, havia muitos leprosos em Israel, mas nenhum deles foi purificado, a não ser Naamã, o sírio”. 28 Então, todos os que estavam na sinagoga foram tomados de grande raiva ao ouvirem tais palavras.9 29 E, levantando-se, expulsaram a Jesus da cidade, levando-o até o topo da colina sobre a qual a cidade havia sido edificada, com o propósito de jogá-lo de lá, precipício abaixo. 23

LUCAS 4

Todavia, Jesus passou por entre eles, e seguiu seu caminho.10

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O poder da Palavra de Jesus (Mc 1.21-28)

Então Jesus desceu para Cafarnaum, cidade da Galiléia, e, noutro sábado, começou a ensinar o povo. 32 E todos ficavam deslumbrados com o seu ensino, pois que sua palavra era ministrada com autoridade. 33 Entrementes, na sinagoga, havia um homem possesso de demônio, ou seja, de um espírito imundo, que berrou com toda a força:11 34 “Ah! Que tu queres conosco, Jesus de Nazaré? Vieste destruir a nós? Sei bem quem tu és: o Santo de Deus!”. 35 Mas Jesus o repreendeu, ordenando: “Fica quieto e sai deste homem!”. Imediatamente o demônio jogou o homem no chão, perante todos, e saiu dele sem o ferir. 36 Todas as pessoas ficaram maravilhadas e diziam umas às outras: “Que Palavra é esta? Pois até aos espíritos demoníacos Ele dá ordens com autoridade e poder, e eles se vão?”. 31

Evangelho (em grego: Boas Novas, Ef 1.3); dos cativos, através da libertação da Graça abundante (Gl 5.1,13); dos deficientes visuais (em todos os sentidos), através do seu jugo, pois Ele toma para si o nosso fardo (Mt 11.28-30; 1Pe 5.7). Durante todo o Evangelho, Lucas demonstra que Jesus, o Cristo (o Messias) foi Ungido (escolhido, separado), não apenas por um ritual da tradição judaica (Êx 30.22-31), mas pelo próprio Espírito de Deus. Sua missão foi proclamar um novo tempo da graça de Deus, no qual as pessoas de toda a terra alcançariam a salvação (vida eterna) ao receberem a Palavra de Jesus Cristo em seus corações com fé, amor e sinceridade (2Co 6.2). Jesus interrompe sua leitura antes de citar “o dia da vingança”, que ocorrerá com sua segunda vinda no futuro iminente. A expressão grega, transliterada por: dektos (que significa: “aceitável”, “bem recebido”), refere-se não a um ano civil de doze meses, mas a um período, a chamada Era Messiânica. 7 Embora Jesus tenha nascido em Belém, foi criado e passou toda a adolescência em Nazaré, na Galiléia (1.26; 2.39,51; Mt 2.23). 8 Sidom foi uma das mais antigas e importantes cidades da Fenícia, e localizava-se a cerca de 32 km ao norte de Tiro. 9 Jesus descreve a si como um dos profetas de Deus, que também haviam sido rejeitados pelos seus próprios e amados concidadãos. Lucas faz ainda questão de observar a referência feita por Jesus à graça dispensada por Deus a uma mulher e a um homem, ambos gentios, ou seja, que não eram judeus (1Rs 17.1-15; 2Rs 5.1-14). O que mais enfureceu os nazarenos, membros da sinagoga, foi o fato de Jesus dizer que, quando Israel rejeitou o mensageiro da redenção, especialmente mandado por Deus, este o enviou aos gentios, e que isso aconteceria uma vez mais, caso eles se recusassem a aceitar o ensino e a graça de Jesus (10.13-15; At 14.46 Rm 9 e 11). 10 Lucas nos deixa em suspense quanto aos detalhes dessa saída de Jesus das garras de seus oponentes. Os originais revelam que Jesus “saiu andando e seguiu para onde devia ir”. Algumas versões apenas traduzem por “...passando por eles, retirou-se.” De qualquer forma, a grande lição deste evento é que o tempo de Jesus ainda não havia chegado, prova de que ele tinha plena consciência e controle do momento exato no qual ofereceria sua vida em prol da humanidade, ninguém seria capaz de tirar a vida do Senhor, ele, espontaneamente, a daria. 11 Para os povos pagãos a expressão “demônio”, significava apenas “um ser sobrenatural”, que podia ser “bom” ou “mau”. Lucas, quis que os gentios o compreendessem corretamente e deixa claro que esse era mesmo um espírito maligno. Esses demônios, ao se incorporarem a uma pessoa, podiam provocar distúrbios mentais (Jo 10.20), atitudes violentas (Lc 8.26-29), doenças e enfermidades físicas diversas (13.11,16) e a própria rebelião contra Deus (Ap 16.14).


LUCAS 4, 5 37 E as notícias a respeito de Jesus se espalhavam por todas as regiões vizinhas.

O poder de Jesus sobre todo o mal (Mt 8.14-17; Mc 1.29-34)

Saindo da sinagoga dirigiu-se Jesus à casa de Simão. A sogra de Simão estava atormentada, ardendo em febre, e rogaram a Jesus que a ajudasse de alguma forma.12 39 Estando Ele em pé próximo a ela, inclinou-se e repreendeu aquela febre, que no mesmo instante a deixou. Ela rapidamente se levantou e passou a servi-los. 40 Ao cair da tarde, o povo trouxe à presença de Jesus todos os que tinham diversos tipos de doenças e Ele os curou, impondo suas mãos sobre cada um deles. 41 Além disso, de várias pessoas saíam demônios gritando: “Tu és o Filho de Deus!”. Ele, contudo, os repreendia e não permitia que se expressassem, pois sabiam que Ele era o Cristo. 38

Jesus ora em solitude ao amanhecer (Mc 1.35-39) 42 Ao raiar do dia, Jesus foi para um lugar

solitário. De outro lado, as multidões o procuravam, e assim que conseguiram chegar ao local onde Ele estava, suplicaram para que não as deixasse.

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Contudo, Ele ponderou: “É necessário que Eu anuncie também as Boas Novas do Reino de Deus em outras cidades, pois precisamente para isso fui enviado”.13 44 E assim, prosseguia pregando pelas sinagogas da Palestina.14 43

Jesus convoca seus discípulos (Mt 4.18-22; Mc 1.16-20; Jo 1.35-42)

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E aconteceu que, num determinado dia, Jesus estava próximo ao lago de Genesaré, e uma multidão o espremia de todos os lados para ouvir a Palavra de Deus.1 2 Ele observou junto à beira do lago dois barcos, deixados ali pelos pescadores, que havendo desembarcado, cuidavam de lavar suas redes. 3 Então, entrou num dos barcos, o que pertencia a Simão, e lhe solicitou que o afastasse um pouco da praia. E, assentando-se, do barco ensinava o povo.2 4 Assim que acabou de ministrar, dirigiuse a Simão e aos demais, e lhes pediu: “Ide para onde as águas são mais profundas e lançai as vossas redes para a pesca!”. 5 Ao que lhe replicou Simão: “Mestre, tendo trabalhado durante a noite toda, não pegamos nada. Todavia, confiando em tua Palavra, lançarei as redes.3 6 Assim procederam e pegaram enorme

12 Ao contrário do que muitos teólogos pregam para defender especialmente a teoria do celibato, Pedro foi casado (1Co 9.5). Os três evangelhos sinóticos discorrem sobre esse milagre, mas apenas Lucas, por ser médico, acrescenta expressões tipicamente técnicas, como: “com muita febre” ou “febre alta”. 13 Ao pôr-do-sol encerrava-se o Shabbãth (em hebraico: o sábado judaico), isso se dava por volta das 18h. Antes dessa hora, conforme a tradição dos anciãos, os judeus eram proibidos de viajar mais que um quilômetro de distância, ou sequer carregar um fardo. Somente a partir do entardecer do sábado as multidões podiam levar seus enfermos a Jesus, o que faziam ansiosa e confiantemente em Cafarnaum, sendo por isso abençoadas por Jesus, com curas e outros milagres em profusão. Entretanto, a missão do Senhor deveria continuar e sua graça ser estendida aos limites da terra. Os originais deixam transparecer o coração compassivo de Jesus em sua despedida. 14 Algumas versões, utilizando manuscritos historicamente mais recentes, e os relatos paralelos de Mt 4.23; Mc 1.39, informam que Jesus se dirigiu para a Galiléia. Entretanto, originais mais antigos, trazem “Judéia”, no sentido de toda a região da Palestina, que inclui a Galiléia (Jo 2.13 – 4.3), e por isso o Comitê de Tradução da Bíblia King James optou por essa designação mais abrangente e fiel aos melhores originais. Capítulo 5 1 Lucas é o único dos evangelistas que se refere ao grande lago da Galiléia, que fica a 220m abaixo do nível do mar e mede 21 km de comprimento por 12 km de largura, chamando-o, de forma tecnicamente correta, de lago. Os demais escritores o chamam de “mar da Galiléia”, e João o denomina por duas vezes de “mar de Tiberíades” (Jo 6.1; 21.1). 2 O barco de Pedro foi posicionado de forma estratégica de modo que Jesus pudesse ser visto e ouvido por toda a multidão. Além disso, era costume judaico que um mestre ao ensinar, deveria fazê-lo assentado, bem como seus ouvintes, para que a comunicação se desse da maneira mais confortável possível. 3 A palavra “Mestre”, em grego transliterado: epistata, só aparece em Lucas, e significa: “aquele que tem o direito de mandar”. Quando todos os indicativos apontavam para um novo insucesso: o melhor horário para a pesca era durante a noite e não em


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quantidade de peixes, tanto que as redes começaram a se romper. 7 Por esse motivo acenaram aos seus amigos no outro barco, para que viessem ajudá-los. Eles chegaram e lotaram ambos os barcos, a ponto de começarem a afundar.4 8 Diante de tamanho evento, Simão se prostrou aos pés de Jesus e declarou: “Afasta-te de mim, Senhor, pois sou homem pecador!”. 9 Porquanto, ele e seus companheiros estavam maravilhados com a pesca que haviam realizado,5 10 assim como de Tiago e João, os filhos de Zebedeu, que eram sócios de Simão. Todavia, Jesus revela a Simão: “Não tenhas medo; a partir deste momento tu serás um pescador de vidas humanas”.6 11 Então, eles arrastaram seus barcos para a praia, renunciaram a todas as coisas e seguiram a Jesus.7

LUCAS 5

Jesus cura um homem leproso (Mt 8.1-4; Mc 1.40-45)

Estando Jesus em uma das cidades, eis que um homem coberto de lepra veio em sua direção. Assim que contemplou a Jesus, ajoelhou-se e colocando o rosto rente ao chão, suplicou-lhe: “Senhor! Se for da tua vontade, sei que podes me purificar”.8 13 Jesus estendeu a mão, tocou nele e proferiu: “Quero. Sê purificado!”. E, no mesmo instante a lepra se retirou daquele homem. 14 Em seguida, Jesus lhe ordenou:“Não fales sobre este acontecimento a ninguém; porém, vai, mostra-te ao sacerdote e oferece pela tua purificação os sacrifícios que Moisés determinou, para servir de testemunho ao povo.9 15 Contudo, as notícias a respeito de Jesus se espalhavam ainda mais, de maneira que multidões convergiam para 12

pleno dia; a experiência profissional de Pedro e de seus companheiros contra a inexperiência de Jesus no ramo, pois era um carpinteiro ligado às artes e letras; o fato de terem trabalhado arduamente durante toda aquela noite e terem apenas sujado as redes, Pedro decide obedecer à Palavra de Jesus. Preparou e lançou sua rede com esperança. 4 Curiosamente a expressão grega transliterada: buthizesthaii (que significa: afundar), usada por Lucas, traduzida em algumas versões por irem a pique e aqui por começarem a afundar, tem a ver com a mesma expressão usada em 1Tm 6.9, onde descreve o mergulho para a perdição daqueles que ambicionam exclusivamente as riquezas materiais. 5 Pedro assombrou-se mais com sua falta de fé e indignidade do que com o evento em si. Ele tinha confiança em Jesus, mas não tinha certeza absoluta de que o milagre se daria, ainda mais naquelas proporções. A reação de Pedro revela a atitude normal de todas as pessoas ao chegarem sinceramente à conclusão de que são pecadores e indignos de permanecerem na presença santa de Deus; portanto carentes e dependentes absolutamente da graça do Senhor (Ap 6.16). Desta mesma maneira se sentiram os grandes líderes espirituais da antiguidade. Entre eles: Abraão (Gn 18.27); Jó (42.6) e Isaías (6.5). 6 É digno de nota o fato de Jesus haver escolhido seus discípulos entre homens que estavam dedicados a um trabalho árduo, não entre líderes religiosos preguiçosos e desocupados. Contudo Pedro foi convocado duas vezes para servir a Cristo após duas pescarias milagrosas. Primeiro para o discipulado e algum tempo mais tarde, para o apostolado (Jo 21.1-18), quando – uma vez mais – achava-se indigno para o ministério. 7 Jesus já conhecia esses homens aos quais agora faz uma convocação formal (Jo 1.40-42; 2.1,2). Os originais e outras passagens dão a entender que eles não abandonaram tudo de forma irresponsável e tresloucada; mas sim que renunciaram a seus lucros – especialmente os dessa última pescaria – e entregaram a administração da empresa a Zebedeu, pai de João e Tiago, ou a outros membros da família (Mt 4.18-22). 8 A expressão original grega, muito usada em escritos médicos da época, e aqui traduzida como “lepra”, refere-se a uma série de doenças e cânceres de pele. Os evangelhos sinóticos registram esse acontecimento de forma diferente: Mateus o cita como parte de uma galeria de milagres (Mt 8.1-4). Marcos e Lucas o colocam como um dos primeiros sinais maravilhosos realizados por Jesus no início de sua peregrinação pela Galiléia. O homem doente e transfigurado por uma doença que o excluía socialmente, contrariando a Lei (Lv 13), busca a Jesus com todas as suas forças como única solução para seu grave problema. Ele se aproxima do Senhor com fé, humildade e vontade de obedecer ao que Jesus lhe mandasse fazer; exatamente como todo pecador arrependido deve agir. O perdão assim como a cura se materializam instantaneamente ao toque do Senhor, e o homem renasce, livre do pecado e da enfermidade que o escravizavam. 9 Jesus tentava evitar que o povo interpretasse mal sua pessoa e ministério, pois muitos o aclamavam como grande curandeiro, milagreiro e líder nacionalista revolucionário, que era a visão simplista que alimentavam quanto ao Messias prometido. Além disso, suas atitudes começavam a irritar os líderes religiosos e provocavam neles enorme inveja e medo de perderem o poder sobre o povo. Jesus manda que o homem vá apresentar-se ao sacerdote de plantão; e com isso, o estimula a guardar a Lei, apresentar todas as provas de sua cura e receber a certidão ritual de purificação para que pudesse ser reintegrado à sociedade (Mt 8.4; 16.20; Mc 1.44).


LUCAS 5

ouvi-lo e para serem curadas de suas enfermidades. 16 Todavia, Jesus procurava manter-se afastado, indo para lugares solitários, onde ficava orando. Jesus cura um homem paralítico (Mt 9.1-8; Mc 2.1-12)

Num outro dia, quando Jesus ministrava, estavam sentados ali fariseus e professores da Lei, vindos de todos os povoados da Galiléia, da Judéia e de Jerusalém; e Ele tinha o poder de Deus para realizar curas.10 18 Chegaram, então, uns homens trazendo um paralítico numa maca e tentaram fazê-lo entrar na casa, a fim de apresentá-lo perante Jesus. 19 Não tendo sucesso nessa tentativa, devido à grande multidão aglomerada, subiram ao terraço e o baixaram em sua maca, através de uma abertura no teto, até o meio da multidão, bem diante de Jesus.11 20 Observando a fé que aqueles homens demonstravam, Jesus declarou: “Ho17

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mem! Os teus pecados estão perdoados”.12 21 Diante disto, os escribas e os fariseus começaram a cogitar: “Quem é este que profere blasfêmias? Quem tem poder para perdoar pecados, a não ser somente Deus?”.13 22 Jesus, entretanto, tendo pleno discernimento do que estavam pensando, questionou-lhes: “Que censurais em vossos corações? 23 Que é mais fácil declarar: ‘Os teus pecados estão perdoados’, ou ‘Levanta-te e anda’?14 24 Todavia, para que vos certifiqueis de que o Filho do homem tem na terra autoridade para perdoar pecados” – dirigindo-se ao paralítico declarou – “Eu te ordeno: Levanta-te! Pega a tua maca e vai para casa”. 25 Então, naquele mesmo instante, o homem se levantou diante de todos os presentes, pegou a maca em que estivera prostrado e correu para casa louvando e bendizendo a Deus.15 26 E todos ficaram estupefatos e glorifi-

10 Os fariseus (em hebraico original: separados), citados aqui por Lucas pela primeira vez, mas que já haviam questionado o ministério e a pessoa de Jesus anteriormente, eram mestres autoritários e muito respeitados nas sinagogas. Formavam uma confraria e um partido político, com mais de seis mil membros, espalhados por toda a Palestina. Eles se autodenominavam “guardiões da Lei”. Pregavam que suas tradições e interpretações teológicas eram tão importantes quanto as Escrituras Sagradas (Mc 7.8-13). Jesus já havia confrontado alguns líderes judaicos em Jerusalém (Jo 5.16-18). Agora o seguiram até uma casa em Cafarnaum, com o objetivo de analisar suas palavras e vigiar seus movimentos. Os “escribas” (v.21) eram estudiosos com grande habilidade para a escrita (arte rara na época, permitida apenas aos homens, e de muito prestígio). Eles eram responsáveis pelo estudo, interpretação e ensino da Lei (escrita e oral) e das tradições judaicas. A maioria dos “escribas” pertencia ao partido (popular) dos fariseus e os demais eram vinculados ao partido aristocrático dos saduceus. 11 O estilo palestinense de construção já havia incorporado a maneira greco-romana de cobrir as casas com uma espécie de laje pré-moldada em ladrilhos de barro cozido (Mc 2.4). 12 A grande causa das doenças no mundo reside no pecado: nos cometidos por cada um de nós em função de nossas vontades perversas (Jo 9.3), e naqueles praticados pela humanidade como um todo desde a Queda (Gn 3). O homem paralítico, pela fé, reconhece o pecado como a raiz do seu problema e, por isso, obedece à ordem de Cristo. Os amigos revelam igualmente grande fé em Jesus e amor ao amigo incapacitado, e não desistem ao primeiro obstáculo, pelo que também são abençoados. Esse episódio nos leva a concluir que a oração e o esforço dos amigos e parentes em levar seus “atrofiados pelo pecado” ao Senhor, serão eficazes e galardoados com alegrias espirituais. 13 Para os fariseus e os escribas (doutores da Lei), a blasfêmia (palavra que ultraja a Deus ou a religião), era o pecado mais grave e terrível que alguém poderia cometer, sendo sujeito à pena de morte (Mc 14.64). 14 Aqui temos mais uma evidência da divindade de Jesus, pois ele conhece plenamente os pensamentos e os mais profundos sentimentos de cada ser humano (Mc 2.8). Os corações das pessoas, quando não entregues ao Senhor, são levados a condenar tudo o que se refere a Deus e à verdade. A cura para Deus é um ato muito mais fácil do que levar o homem a reconhecer seus pecados e decidir por uma vida de adoração espontânea ao Criador. A restauração de um doente pode ser comprovada num instante, mas a restauração da alma pode levar algum tempo, e somente Deus é capaz de atestar esse milagre (Mc 2.9-10). 15 A autoridade de Jesus não era humana, nem fora outorgada por líderes religiosos, mas sim de Deus. O vocábulo grego transliterado: exousia, que significa: “proveniente de Deus” (Mt 28.18), enfatiza este atributo de Jesus. Seu título: “Filho do homem”, bem como sua plena divindade, são prerrogativas exclusivas do Messias (o Cristo) prometido (Dn 7.13,14). A operação de milagres e maravilhas é uma prova da presença do Rei e do Reino entre nós (10.9).


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cavam a Deus; e, tomados de grande temor, exclamavam: “Hoje vimos grandes prodígios!”. Jesus torna um publicano em discípulo (Mt 9.9-13; Mc 2.13-17)

Passados estes eventos, saindo Jesus, encontrou-se com um publicano, chamado Levi, sentado à mesa da coletoria, e o convocou: “Segue-me!”. 28 Levi levantou-se, abandonou tudo e seguiu a Jesus.16

LUCAS 5

Ao que Jesus lhes ponderou: “Os que têm saúde não precisam de médico, mas sim os enfermos. 32 Eu não vim para convocar os justos, mas sim, para chamar os pecadores ao arrependimento!”.17 31

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Jesus num banquete com pecadores (Mt 9.10-13; Mc 2.15-17) 29 Então

Levi ofereceu a Jesus uma grande festa em sua casa; e uma multidão de publicanos e de outras pessoas estava à mesa comendo com eles. 30 Os fariseus e seus escribas reclamaram dos discípulos de Jesus: “Por que comeis e bebeis com os publicanos e pecadores?”.

Jesus é questionado quanto ao jejum (Mt 9.14-17; Mc 2.18-22)

Em seguida eles lhe observaram: “Os discípulos de João jejuam e oram com grande freqüência, assim como os discípulos dos fariseus; no entanto, os teus vivem comendo e bebendo”.18 34 Jesus então lhes propôs: “Podeis fazer jejuar os convidados para o casamento, enquanto está com eles o próprio noivo? 35 Contudo, dias virão, em que lhes será tirado o noivo; naqueles dias, verdadeiramente, jejuarão”.19 36 E lhes acrescentou esta parábola para pensar: “Ninguém tira um remendo de roupa nova e o costura sobre roupa velha; 33

16 Levi era o nome de família de Mateus (3.12; Mc 2.14), o apóstolo rico do colegiado de Jesus (Mt 10.3; At 1.13). Como “publicano”, chefe dos fiscais da coletoria de impostos para o governo romano, a serviço do tetrarca Herodes (Mt 9.9), era odiado pelo povo judeu, pois os publicanos eram, em geral, desonestos e maldosos. Jesus havia ministrado em Cafarnaum durante algum tempo, quando conheceu Levi e se tornaram amigos. Alguns discípulos de Jesus, que eram pescadores, voltaram a trabalhar em seu ramo em certas ocasiões. Mateus tomou uma decisão só de ida. Sabia que o preço de seguir a Jesus implicaria em mudança total de vida sem direito a volta, ainda que momentânea. Entretanto, Levi o fez com grande alegria de alma. E ao invés de o fazer em surdina, deu uma grande festa “evangelística”, convidando todos os seus amigos para verem e conhecerem o Messias que lhe confiara a gloriosa missão de proclamar Seu Reino e libertar a todos das ilusões e das amarras do pecado. Conta-se ainda que, após a ressurreição de Jesus, Mateus foi um valoroso missionário em muitos lugares da Palestina e em terras distantes, onde morreu. 177 Os publicanos se davam bem com os “pecadores”. Enquanto os primeiros extorquiam e roubavam seus próprios irmãos judeus; os outros, tratavam com desleixo os diversos preceitos cerimoniais exigidos pelos fariseus e escribas. Contudo, os dois grupos não tinham paz nem desfrutavam de alegria real em seus corações. Enquanto os líderes religiosos e mestres da época procuravam a salvação por meio da segregação, ou seja, “seleção natural dos mais dedicados no cumprimento formal das inúmeras leis judaicas”, Jesus chegava com Seu Reino oferecendo a Graça de Deus aos que, de coração sincero, desejassem simplesmente amar a Deus de verdade e viver este ato de adoração no dia-a-dia. Esta proposta de Deus tocou as almas espiritualmente famintas dos publicanos e pecadores, que não tiveram muita dificuldade para enxergar seus muitos erros, e arrependidos, sentiram-se bem-vindos ao banquete de Jesus. Já os fariseus e escribas tinham grande dificuldade para reconhecer qualquer pecado em si mesmos; e, por isso, ficaram fora da festa. Um dos principais temas das parábolas de Jesus sobre a salvação eterna é: os que se julgam justos, separam-se da Graça Salvadora de Cristo (18.9-14; Mc 2.17). 18 João Batista não era o Filho de Deus. Porém, veio com uma missão poderosa e específica: preparar o coração da humanidade para a chegada de Cristo e a implantação do Reino de Deus. João foi criado e educado no deserto, junto a um grupo de judeus teologicamente muito restritos e sérios em relação a Deus. Aprendeu a sobreviver com uma dieta limitada e austera, própria do lugar que habitava, composta de uma espécie de gafanhotos (que até hoje são torrados e degustados pelo povo da região) e mel silvestre. Seu ministério foi marcado por uma mensagem urgente, grave, forte e direta quanto ao arrependimento dos pecados, mediante testemunho público e um ritual de passagem pelas águas, repleto de simbolismos ligados à implementação do Reino, que se completaria com o batismo trazido por Jesus Cristo: o Filho de Deus. Os fariseus também pregavam um modo de vida rigoroso (18.12). Mas Jesus aceitava convites para casamentos, banquetes e festas, pois tinha interesse em estar onde mais se precisava dele: no coração daqueles que se reconhecem perdidos e necessitados da direção e do amor de Deus. Embora Jesus rejeitasse todo o tipo de atitude apenas legalista e exterior, com finalidade de autoglorificação (Is 58.3-11), é fato que ele próprio jejuava e orava muito em particular e defendia o jejum voluntário para benefício espiritual (Mt 4.2; 6.16-18). 19 Neste trecho, Jesus faz a primeira referência à sua morte. A tristeza e a vontade de estar com o Senhor levaria seus discípulos


LUCAS 5, 6

se o fizer, certamente estragará a roupa nova; e, além disso, o remendo novo jamais se ajustará à velha roupa. 37 Da mesma maneira, não há alguém que coloque vinho novo em recipiente de couro velho. Ora, se o fizer, o vinho novo, ao fermentar, arrebentará o recipiente, se derramará e danificará o recipiente onde fora colocado. 38 Ao contrário! O vinho novo deve ser posto em um recipiente de couro novo. 39 Pois, pessoa alguma, depois de beber o vinho velho, prefere o novo; porquanto se diz: ‘O vinho velho é bom o suficiente!’”.20 Jesus é Senhor do Sábado (Mt 12.1-14; Mc 2.23-28)

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Em um certo dia de sábado, enquanto Jesus caminhava pelos campos, onde se plantavam cereais, seus discípulos começaram a colher e a debulhar espigas com as mãos, e se alimentavam dos grãos.1 2 Foi quando alguns dos fariseus os inquiriram: “Por que fazeis o que não é permitido durante o sábado?”. 3 Então Jesus os questionou: “Nem ao menos tendes lido o que fez Davi, quando teve fome, ele e os seus companheiros?

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Pois ele entrou na casa de Deus e, tomando os pães da Presença, alimentou-se do que apenas aos sacerdotes era permitido comer, e os entregou de igual modo aos seus amigos”. 5 E Jesus lhes asseverou: “O Filho do homem é Senhor do sábado!”.2 4

O homem da mão atrofiada (Mt 12.9-14; Mc 3.1-6)

Num outro sábado, Ele entrou na sinagoga e iniciou o seu ensino; e estava ali um homem cuja mão direita era atrofiada. 7 Os doutores da Lei e os fariseus estavam ávidos para achar algum motivo pelo qual pudessem acusar Jesus; e por isso o observavam com toda a atenção, a fim de perceber se Ele o haveria de curar durante o sábado. 8 Todavia, Jesus tinha conhecimento do que eles pensavam, mesmo assim pediu ao homem da mão atrofiada: “Levanta-te, vem à frente e permanece em pé aqui no meio”. E o homem se levantou e atendeu a Ele.3 9 Jesus então dirigiu-se a eles: “Eu vos apresento uma questão: O que é permitido realizar no sábado: o bem ou o mal? Salvar uma vida ou destruí-la?”. 6

ao jejum e à oração até o seu glorioso retorno e o final dos tempos (Mt 28.20). A Igreja primitiva ensinou e praticou o jejum com orações, especialmente nas épocas de provação e dificuldades (At 9.9; 13.2,3; 14.23). 20 Assim como seria tolice estragar uma veste nova para remendar outra roupa, o novo Caminho oferecido graciosamente por Jesus, não pode ser remendado e estragado com os antigos rituais e obrigações cerimoniais, exclusivamente legalistas e exagerados do judaísmo (como o fato de não mencionar o nome de Deus, apenas para evitar pronunciá-lo em vão). Ainda que o AT esteja intimamente relacionado ao NT, que é o cumprimento das promessas registradas nas Sagradas Escrituras do AT, é preciso cuidado para não se confundir profecias com o seu cumprimento, nem as sombras com a realidade (Gl 5.1-6). Somos livres em Cristo, para adorar a Deus com toda a sinceridade de nossos corações, na beleza da santidade do Senhor (Rm 3.28). Capítulo 6 1 Jesus e seus discípulos estavam em jornada de ministério, e passando por uma plantação de cereais, como era permitido pela Lei (Dt 23.25), colheram algumas espigas para delas se alimentarem. Mas, as autoridades judaicas os censuraram por estarem agindo assim durante o shabbãth (sábado judaico, que significa no hebraico original: tempo de paz, misericórdia, adoração ao Criador, gozo espiritual e descanso), Jesus então vai lhes explicar que perante a Lei, atos de misericórdia (como este e os que se seguirão), não apenas são permitidos, mas obrigatórios e prioritários sobre qualquer outra lei (Jo 7.23-24; ver Mc 2.14). 2 Nem Deus nem os doutores e intérpretes da Mishna (tratado das interpretações das leis sagradas judaicas), condenaram a Davi por esta transgressão (Mt 12.4-8; Mc 2.23-25). Davi foi orientado por Deus para agir daquela maneira, a fim de preservar sua vida e a de seus companheiros para servir ao Senhor. O mesmo Deus do Shabbãth (sábado judaico), tem o direito, como Autor do mandamento, de interpretar suas exceções, não sendo engessado pela Lei, mas tendo-a sob o controle absoluto da Sua vontade. Essa é a flexibilidade divina que se move em função da misericórdia e do amor. 3 Num claro gesto de contraste em relação aos líderes religiosos, que sorrateiramente foram espionar seus procedimentos, Jesus age abertamente e sem receio. Pede para o homem sair do seu lugar e vir para o centro do salão de cultos da sinagoga, onde todos poderiam ver e ouvir claramente o que se passava. Aquele que segue a Cristo deve ser sincero, franco e corajoso (Mt 5.34-37; Tg 5.12).


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E Jesus olha atentamente para cada um dos que estão à sua volta e ordena ao homem: “Estende a tua mão!”. O homem a estendeu, e ela foi instantaneamente restaurada. 11 Contudo, eles ficaram enraivecidos e começaram a tramar entre si sobre que fim dariam a Jesus.4 10

LUCAS 6

seu irmão André; Tiago; João; Filipe; Bartolomeu; 15 Marcos; Tomé; Tiago, filho de Alfeu; Simão, conhecido como Zelote; 16 Judas, filho de Tiago; e Judas Iscariotes, que se tornou traidor.7 Jesus cura e liberta multidões (Mc 4.23-25)

Jesus escolhe seus doze apóstolos (Mc 3.13-19) 12 E ocorreu naquela ocasião que Jesus se retirou para um monte a fim de orar, e atravessou toda a noite em oração a Deus.5 13 Logo ao nascer do dia, convocou seus discípulos e escolheu dentre eles, doze, a quem também designou como apóstolos:6 14 Simão, a quem deu o nome de Pedro;

Então, desceu Jesus com os apóstolos e parou num lugar plano. Estavam ali reunidos muitos dos seus discípulos, e uma enorme multidão vinda de toda a Judéia, de Jerusalém e do litoral de Tiro e de Sidom,8 18 pessoas que vieram para serem ensinadas por Ele e curadas de suas doenças. Aqueles que eram atormentados por espíritos impuros foram curados, 19 e cada pessoa da multidão procurava 17

4 Jesus já havia suportado muitos ataques e provocações dos fariseus, escribas e líderes religiosos (todos também líderes políticos). Então Ele inverte as posições e passa a questionar seus oponentes e a todos na sinagoga (Mc 3.4). As autoridades judaicas ficaram furiosas, pois não conseguiram resistir ao raciocínio brilhante, simples e cheio de compaixão do Senhor. E por isso, começaram a planejar um meio de eliminá-lo (Jo 5.18; ver Mc 3.6). Os líderes religiosos precisam ter cuidado, pois a religião, muitas vezes, transforma a justiça em transgressão, e o ilícito (planejar a morte ou a exclusão de um inocente), num ato legal perante a lei (os estatutos). 5 Para o próprio Filho de Deus encarnado, a oração era a perfeita comunhão com o Pai. Por isso, Jesus, freqüentemente se dedicava a longos períodos de oração, muitas vezes em jejum, especialmente quando precisava tomar uma decisão importante. O fato de Jesus dar tanta atenção a esse diálogo com Deus, deve nos servir de inspiração. Jesus passou aquela noite inteira em oração e ao raiar do dia saiu para escolher, segundo a vontade soberana do Pai, aqueles discípulos que – cada qual com a sua contribuição – seriam responsáveis pelos alicerces da Igreja (Ef 2.20), tarefa que desde o início foi distribuída a um grupo de cristãos e não exclusivamente a uma pessoa. 6 A expressão em aramaico (o dialeto hebraico que Jesus falava), aqui transliterada por Shaliah, quer dizer “apóstolos” (em grego: ajpostovloud), e se refere a alguém que recebeu comissão e autoridade explícitas daquele que o enviou, todavia sem o poder para transferir seus atributos para outra pessoa. Ou seja, “enviados com uma missão específica” (Mc 6.30; 1Co 1.1; Hb 3.1). Entre a multidão que veio ouvir ao Senhor naquele dia, havia um grupo que o seguia regularmente e se dedicava aos seus ensinos, havia ao todo cerca de 72 homens, considerando que esse fora o número de missionários que Jesus enviou em missão evangelística (10.1,17). Mais tarde, logo após sua ascensão aos céus, cerca de 120 cristãos o aguardavam e adoravam em Jerusalém (At 1.15). 7 Bartolomeu é o outro nome de Natanael (Jo 1.45). Judas, filho de Tiago (At 1.13), é chamado de Tadeu por Mateus e Marcos. Todas as três listas citam Pedro em primeiro lugar e Judas Iscariotes no fim. O nome Iscariotes quer dizer: “homem de Queriote”, sua cidade natal. Judas foi o único não galileu entre os Doze. Todos os evangelistas mencionam o ato de traição de Judas. Somente Lucas ressalva que ele “se tornou traidor”, mostrando que alguém pode começar bem, mas terminar mal. Contudo, enquanto há vida, há tempo para o arrependimento, como ocorreu com Pedro, que também traiu ao Senhor mas se arrependeu e recebeu o pleno perdão de Deus (Mt 26.71-45; Jo 21.15-19). 8 É importante notar que Jesus teve um tempo particular com seus discípulos, no alto da montanha (Mt 5.1) e, em seguida, desce para o planalto (ou planura), onde exorta a todos os fiéis na multidão, e aos discípulos em particular, a terem uma vida na terra verdadeiramente à imagem de Deus (imago Dei), testemunhando ao mundo caído o projeto original de Deus para a humanidade. Jesus proferiu naquele dia uma de suas mais profundas mensagens em relação ao comportamento do verdadeiro filho de Deus: aquela pessoa que crê e é dirigida pelo Espírito do Senhor. O chamado Sermão do Planalto, registrado resumidamente, sob a ótica de Lucas, é o mesmo e conhecido Sermão do Monte ou da Montanha (Mt 5 a 7). Curiosamente, partes do sermão descrito por Mateus, podem ser encontradas em várias passagens de Lucas (11.2-4; 12.2231, 33, 34), o que demonstra o esforço de Jesus em fazer com que os crentes (da sua época e do futuro) compreendessem, com clareza, o âmago do Evangelho e da vida com Deus.


LUCAS 6

tocar nele, pois dele emanava poder que curava a todos.

24

porquanto imensa é a vossa recompensa no céu. Pois, desta mesma maneira, os seus antepassados agiram contra os profetas.11

As bem-aventuranças (Mt 5.1-12)

Então, dirigindo o olhar para os seus discípulos, Jesus lhes declarou:9 “Bem-aventurados vós, os pobres, porquanto a vós pertence o Reino de Deus.10 21 Bem-aventurados vós, que agora tendes fome, porque sereis saciados. Bem-aventurados vós, que neste momento estais chorando, pois haveis de sorrir. 22 Bem-aventurados sois, quando as pessoas vos odiarem, vos expulsarem do convívio delas, vos insultarem, e excluírem vosso nome, julgando-o execrável, por causa do Filho do homem. 23 Regozijai-vos nesse dia e saltai de alegria, 20

Os pesares de Jesus 24 Porém, ai de vós, os ricos! Pois já ganharam toda a vossa consolação. 25 Ai de vós, que viveis agora em fartura, porque vireis a passar fome.12 Ai de vós, que agora rides, pois haveis de muito lamentar e prantear. 26 Ai de vós, quando todos vos louvarem! Porquanto, foi assim também que agiram os vossos antepassados com os falsos profetas. Jesus ensina a amar aos inimigos (Mt 5.38-48)

Contudo, tenho a declarar a vós outros que me estais ouvindo: amai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam; 27

9 As beatitudes, bem-aventuranças ou ainda bênçãos de felicidade, não se restringem à pobreza material (v.20) e à fome física (v.21). A narrativa de Mateus revela que Jesus referiu-se à pobreza “em espírito” (Mt 5.3) e à fome “de justiça” (Mt 5.6). A arrogância e a utilização de quaisquer meios para se atingir a um fim almejado, parecem ser características demoníacas incorporadas pela humanidade desde a Queda (Gn 3). Nos versículos seguintes Jesus apresenta o verdadeiro mapa da felicidade: A humildade que troca os bens deste mundo pela herança incorruptível de Cristo (Fp 3.7,8; 1Pe 1.3-9); a fome que privilegia o Pão do Céu em relação ao alimento físico (4.4; Jo 6.35); o arrependimento que lamenta profundamente o pecado a ponto de abandoná-lo (2Tm 2.19); a piedade que se espelha no exemplo de Cristo, provoca – nos mundanos e falsos religiosos – o mesmo ódio que o crucificou (2Tm 3.12). Em suma: Todo sacrifício por causa de Jesus Cristo e sua Igreja terá sua recompensa (prêmio, galardão) aqui mesmo na terra, assim como no céu. O verbo no original grego indica que a ação se passa no presente e se estende por todo o futuro: “vosso é o Reino” (no original grego: uJmetevra ejsti;n hJ basileiva). 10 Jesus não está falando da pobreza em si, pois ela pode ser tanto uma maldição quanto uma bênção. Jesus está se referindo à pessoa dos discípulos. Devem ser mesmo pobres (humildes), conscientes de que não têm recursos e que dependem de Deus para realizar absolutamente tudo. Esse é o sentido que o AT dá a esta expressão, muitas vezes equivalente a “piedosos” (Sl 40.17; 72.2,4). Mateus ressalta o significado de “pobres de (ou em) espírito”. Os arrogantes, aqueles que se acham “ricos” e, portanto, confiam sua estabilidade aos recursos financeiros e materiais que possuem, desenvolvem freqüentemente uma auto-estima além do normal (complexo de superioridade), menosprezando e usando as pessoas das quais se aproximam. Como se habituam a comprar e conseguir tudo o que desejam, não conseguem receber a Graça do Reino, da qual os pobres e humildes tomam posse com grande alegria e louvor a Deus. 11 Nesta passagem, Jesus não está ensinando sobre a questão do sofrimento universal, mas refere-se a um tipo de sofrimento específico: “por causa do Filho do homem”. Ou seja, o preço da humilhação, perdas e dor, que o discípulo de Cristo paga por desejar viver uma vida digna do Senhor, num mundo comandado pelas forças de Satanás, que influenciam o sistema geral de valores e a moda (o estilo de vida) de todos os povos e culturas do planeta. Contudo, aqueles que sofrem por esse motivo devem muito se alegrar, pois já são considerados por Deus como: bem-aventurados (no original grego: benditos, felizes). Pois foram escolhidos, assim como os profetas do AT, para testemunho vivo da ignorância e da perdição humana em contraste com o amor e a sabedoria de Deus. 12 Somente Lucas cita os “ais” de Jesus em relação à rebeldia instalada na alma dos seres humanos, inclusive nos religiosos. A expressão original no grego é: oujaiv, e indica profundo lamento por uma desgraça que poderia ser evitada. Jesus se refere aos “ricos” (pessoas presunçosas e arrogantes, que depositam sua fé nos bens financeiros e materiais que são capazes de conquistar a qualquer preço), e lhes garante que já receberam toda a recompensa que merecem. Jesus usa um verbo freqüentemente empregado, em sua época, em recibos de pagamento, significando: “Integralmente Pago!” Quando tudo quanto uma pessoa tem é a sua riqueza mundana, estamos diante de um ser humano muito pobre mesmo. Jamais devemos confundir conforto material com bem-aventurança (felicidade).


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28 abençoai aos que vos amaldiçoam, orai

33 E se fizerdes o bem aos que vos fazem o

pelos que vos acusam falsamente.13 29 Ao que te bate numa face, oferece-lhe igualmente a outra; e, ao que tirar a tua capa, não o impeças de tirar-te também a túnica.14 30 Dá sempre a todo aquele que te pede; e, se alguém levar o que te pertence, não lhe exijas que o devolva. 31 Como quereis que as pessoas vos tratem, assim fazei a elas da mesma maneira. 32 Pois se amais os que vos amam, que galardão pode haver nisso? Porquanto, até mesmo os ímpios amam aqueles que os amam.

bem, qual é o vosso mérito? Até os infiéis agem deste mesmo modo. 34 E ainda, se emprestais àqueles de quem esperais receber de volta, qual é a vossa recompensa? Também os incrédulos emprestam aos incrédulos, a fim de receberem seu retorno desejado.15 35 Concluindo, amai os vossos inimigos, fazei o bem e emprestai, sem se desesperar por receber de volta. Então, sendo assim, grande será o vosso prêmio, e sereis filhos do Altíssimo. Porquanto Ele é bondoso até mesmo para com os ingratos e ímpios. 36 Sede misericordiosos para com os

13 O principal objetivo de Jesus, especialmente neste sermão, é conscientizar seus discípulos de que eles são filhos do Amor e devem ter amor incondicional. Essa é a essência de Deus e do homem, todavia a alma dos seres humanos está ferida de morte desde a Queda (Gn 3), e tornou-se arrogante, revoltada contra Deus, egoísta, ímpia, amargurada, insegura e desesperada. Quando o Espírito Santo é recebido em nossos corações, uma transformação radical se inicia (conversão), o homem sai de si mesmo, e, neste sentido, da influência escravizadora de Satanás, volta à comunhão (amizade) com o Pai – de onde jamais deveria ter saído – e ganha paz, liberdade, poder, verdadeira compreensão do que é amar e ser amado, e a vida eterna por herança com todos os seus tesouros. Em grego havia várias palavras para “amor”. Jesus não está pedindo que sintamos storge, “afeição natural”, nem philia, “amor amizade”, nem muito menos eros, “amor romântico, erótico, sensual”. A expressão usada por Jesus foi agape, que significa o amor perdão, misericórdia, graça, compreensão, paciência, sacrifício. O amor que Deus tem pela humanidade e que Jesus demonstrou diante dos seus oponentes, carrascos e executores. Um amor justo, mas compassivo, que não é atraído pelo mérito da pessoa amada, mas sim pelo fato de que o cristão recebe poder espiritual para “ser uma pessoa amorosa, misericordiosa”; e, portanto, pode suportar e perdoar os demais seres humanos e suas ofensas. Mateus mostra que as pessoas têm disposição natural para amar seu amigo e odiar seu inimigo (Mt 5.43), não é de admirar tantas guerras, terrorismos e violência assolando o mundo em nosso século assim como o foi na antigüidade. Jesus, entretanto, vai além, para o cerne da vontade de Deus, e revela que seu discípulo não pode ser seletivo quanto ao amor agape, mas deve amar inclusive o seu mais odioso e repugnante inimigo. E não basta refrear os atos hostis ou vingativos, é preciso “fazer o bem aos que vos odeiam”. Não é difícil imaginar a expressão no rosto daqueles discípulos, judeus nacionalistas e guerreiros, ao ouvir seu mestre dizendo que deveriam ser pacíficos e cordiais com o dominador romano. E Jesus ainda acrescenta: abençoem os que os amaldiçoam; e orem (só orem) por aqueles que falam mal a seu respeito, espalhando mentiras e calúnias. 14 A expressão grega original transliterada siagon, aqui e em várias versões traduzida por “face”, mais propriamente se refere ao queixo. Portanto, Jesus está falando de levar um soco no lado do queixo. A reação natural diante de um ataque como esse, é ferir o agressor da mesma maneira, aliás, como era previsto pela Lei (Êx 21.12-35). Jesus está se referindo à atitude; ou seja, ao sermos decepcionados, traídos ou mesmo agredidos, não devemos guardar amargura contra a humanidade e generalizar uma prevenção odiosa contra todas as pessoas; mas, sim, abrir-nos para novos relacionamentos (dar a outra face, mudar de lado). Contudo, oferecer – literalmente – o rosto para um outro golpe nem sempre será a melhor maneira de cumprir esse mandamento. Afinal, o próprio Senhor nos deu um exemplo ao ser golpeado no rosto (Jo 18.22-23). Quanto à capa (em grego: himation), que era a roupa externa usual, e a túnica (em grego: chiton), normalmente a veste interna, elas representam alguns de nossos mais importantes e necessários bens materiais. No entanto, Jesus nos ensina que – seremos felizes (benditos) – quando o amor agape nos controlar, a ponto de não reagirmos com ódio, ou qualquer tipo de retaliação, quando alguém – por qualquer motivo – nos privar ou roubar qualquer de nossos pertences, ainda que mais caros. Esse é um ótimo conselho diante do crescente número de furtos e assaltos em nossos dias. 15 Mais uma vez é importante observar o “espírito do ensino” de Jesus, e não querer ser mais real do que o Rei, literalizando as figuras de linguagem do mestre. Se os cristãos tivessem que agir, com total literalidade neste caso, haveria uma classe de “santos indigentes” perambulando pelas cidades do mundo inteiro, e outra classe de “incrédulos e prósperos ladrões”. O que Jesus está enfatizando é que seu discípulo, por amor, jamais deve perder o sentimento de colaboração, ajuda e graça. O cristão deve estar sempre pronto a dar e a contribuir com todas as suas posses se for necessário. Entretanto, esse não é um ato meramente automático e sem reflexão, pois em muitos casos, dar não seria a melhor forma de amar. O verdadeiro amor – aquele que se preocupa com a real felicidade da outra pessoa – deve ser o juiz que decidirá se devemos dar ou reter em cada uma das situações da vida, e não a estima que temos por nossos bens. O verbo “dar” no grego original está num tempo contínuo, o que reforça a idéia de que este não é um ato ou impulso de generosidade ocasional, mas sim uma atitude habitual. Um estilo de vida. Jesus resume com sua regra de ouro: faça aos outros o que gostaria que as pessoas lhe fizessem. Esse é um princípio judaico


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outros, assim como vosso Pai é misericordioso para convosco.16 Não cabe ao discípulo julgar o próximo (Mt 7.1-5)

Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai e sereis perdoados. 38 Dai sempre, e recebereis sobre o vosso colo uma boa medida, calcada, sacudida, transbordante; generosamente vos darão. Portanto, à medida que usares para medir o teu próximo, essa mesma será usada para vos medir.17 37

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Parábola do cego que conduz outro cego 39 Então, Jesus lhes p propôs p também uma parábola: “É possível um cego guiar outro cego? Não acontecerá que ambos venham a cair em algum buraco?18 40 O discípulo não pode estar acima do seu mestre e; entretanto, todo aquele que completar condignamente seu aprendizado, será como seu mestre. 41 Por que reparas no cisco que está no olho do teu irmão e não percebes o tronco que está no teu próprio olho? 42 Como poderás advertir a teu irmão dizendo: ‘Irmão! Permita que eu tire

ensinado desde muito antes do nascimento de Cristo. Entretanto, sempre fora pregado pelos sábios em sua forma negativa: “O que é odioso a ti, não faz ao teu próximo: isto é a Torá inteira, o restante é comentário disto” (Hillel em Shabbãth 31.a). Jesus foi o primeiro a dar um sentido totalmente positivo a este ensino áureo: não basta ao discípulo evitar atos que não gostaria que alguém praticasse contra ele. Os cristãos devem ser pró-ativos na prática do bem. Jesus ilustra sua exortação para que os cristãos sejam mais humanos (refletissem mais a imago Deii – imagem de Deus) do que os pagãos. Pois, até mesmo, pessoas que não professam qualquer religiosidade ou fé em Deus, praticam certas virtudes. Amam aos que as amam, retribuem o bem que lhes é feito e emprestam, especialmente se podem ter certeza de recebê-los de volta. O verbo original usado neste trecho indica um “emprestar sob juros”. Se os cristãos assim procederem, não estão fazendo mais do que o mundo faz. 16 Em resumo, Jesus nos orienta a tomar seus mandamentos pelo lado positivo e de forma pró-ativa: “amai aos vossos inimigos, fazei o bem e emprestai”. Como cristãos sempre devemos nos antecipar na prática e defesa do bem. O verbo grego original, aqui transliterado por alpelpizo, é usado no sentido de “não desesperar-se”, e não com o significado de “sem esperar nenhuma paga”, como aparece em várias versões bíblicas. Os cristãos devem emprestar, de forma justa, como um ato de louvor e serviço a Deus e ao próximo, sem nunca se desesperarem por nada e por ninguém. O Senhor nos conclama a nunca servir, tendo em vista uma recompensa – ainda que seja um galardão no céu – pois, se assim agirmos, estaremos simplesmente trocando o egoísmo e a vaidade material pelo espiritual. Deus é benigno e misericordioso até para com os ímpios, pois lhes proporciona suas boas dádivas, tais como o sol, a chuva, o solo fértil e a boa colheita, na expectativa de que essas almas – um dia – percebam seu amor e salvação. O sonho de Deus é que todos os seus filhos fossem como Jesus é em relação ao seu Pai. A perfeição de Deus deve ser nosso grande exemplo de vida (Mt 5.9,48). 17 O cristão não deve censurar, muito menos se entregar aos comentários sobre a vida de qualquer pessoa, com o propósito de destruir sua reputação e levar ao desprezo o seu caráter. O julgamento dos motivos íntimos de alguém, bem como qualquer vingança ou pena a serem aplicadas, pertencem ao Senhor (Rm 12.19). Entretanto, não estamos isentos da responsabilidade de desenvolvermos senso crítico sobre tudo e todos, bem como discernirmos quanto ao certo e o errado (vs. 43-45). Afinal, foi essa a escolha feita pela humanidade no jardim do Éden (Gn 3). Contudo, Jesus nos exorta a não agirmos com hipocrisia, como é próprio dos incrédulos. O perdão, em vez de condenação, revela o verdadeiro amor cristão em exercício. Jesus salienta que a pessoa perdoada e salva tem um coração aberto e generoso. Esse estilo de vida sensibilizará a Deus e aos homens, e uma correspondência de bênçãos será inevitável. E não apenas na mesma proporção, mas tão abundante que transbordará. Jesus tira essa metáfora a partir da maneira usada pela multidão que estava à sua volta naquele momento, para quantificar e qualificar os grãos colhidos. A expressão grega aplicada aqui e transliterada por kolpon, tem a ver com as expressões: “boa medida” e “generosamente”, referindo-se a uma espécie de bolsa, que se fazia ao dobrar parte da veste externa ou com uma peça de roupa gasta, que ficava pendurada sobre o cinto, e era usada para guardar uma medida de trigo. Jesus relembra o antigo dito dos sábios judeus: “Há mais felicidade em dar do que em receber” (At 20.35). 18 Jesus faz uso de mais uma série de metáforas para ressaltar a importância de seus discípulos viverem acima da mediocridade dos religiosos formais. Este trecho adverte a todos nós sobre o perigo de condenarmos alguém, esquecendo-nos de que também somos réus de crimes semelhantes. Entretanto, a advertência maior é em relação aos líderes espirituais (Tg 3.1). Em primeiro lugar, somente aquele que anda na luz e pode ver com nitidez (Jo 8.12; 1Jo 1.7) consegue evitar os perigos do caminho e conduzir outros em segurança. Os jovens líderes devem ter paciência e humildade para esperar o devido tempo, quando serão – se aprovados por Deus e pela vida – semelhantes aos seus mestres. Da mesma maneira, o discípulo de Jesus deve estabelecer, como seu alvo pessoal, o ser semelhante a Ele. A expressão “bem instruído” (como aparece em algumas versões), vem do grego: katartizo, que tem um significado mais amplo: “tornar digno” ou “completo”. É um termo normalmente usado para consertar algo que foi quebrado (Mc 1.19), ou no sentido de “suprir plenamente” (como quando o mundo foi “plenamente formado” – Hb 11.3). O discípulo de Jesus, tenha a experiência e a formação acadêmica que tiver, não pode relegar o mandamento do amor a segundo plano, acreditando que – de alguma forma – está acima do nível de servo que deve seu amor a Deus e ao próximo.


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o cisco do teu olho’, se tu mesmo nem sequer notas o tronco que repousa no teu olho? Hipócrita! Retira, antes de tudo, a trave do teu olho e, só assim, verás com nitidez para tirar o cisco que está no olho de teu irmão.19 Parábola da árvore e seu fruto (Mt 7.24-27)

Não existe árvore boa produzindo mau fruto; nem inversamente, uma árvore má produzindo bom fruto. 44 Pois cada árvore é conhecida pelos seus próprios frutos. Não é possível colher-se figos de espinheiros, nem tampouco, uvas de ervas daninhas. 45 Uma pessoa boa produz do bom tesouro do seu coração o bem, assim como a pessoa má, produz toda a sorte de coisas ruins a partir do mal que está em seu íntimo, pois a boca fala do que está repleto o coração.20 43

A parábola do sábio e do insensato (Mt 7.24-27) 46 E por que me chamais: ‘Senhor, Senhor’,

e não praticais o que Eu vos ensino?

LUCAS 6, 7 47 Eu vos revelarei com quem se compara àquela pessoa que vem a mim, ouve as minhas palavras p e as pratica. p 48 É como se fosse um homem que, ao construir sua casa, cavou fundo e firmou os alicerces sobre a rocha. E sobrevindo grande enchente, o rio transbordou e as muitas águas avançaram sobre aquela casa, mas a casa não se abalou, por ter sido solidamente edificada. 49 Entretanto, aquele que ouve as minhas palavras e não as pratica, é como um homem que construiu sua casa sobre a terra, sem alicerces. No momento em que as muitas águas chocaram-se contra ela, a casa caiu, e a sua destruição foi total”.21

Um centurião revela sua fé em Jesus (Mt 8.5-13)

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Havendo concluído suas instruções aos discípulos e ao povo, Jesus entrou em Cafarnaum. 2 E o servo de um centurião, a quem este muito estimava, estava doente e à beira da morte.1 3 O centurião havia ouvido falar de Jesus e, por isso, lhe enviou alguns líderes

19 Jesus retoma outro antigo ensino dos rabinos judeus, com certo toque de humor, uma vez que usa a paródia para evidenciar seu ponto de vista. Retrata o hipócrita com um enorme tronco (trave ou viga) projetando-se do seu olho, enquanto busca, cuidadosamente, tirar uma partícula do olho do seu irmão. Freqüentemente as atitudes egoístas, arrogantes e preconceituosas dos seres humanos chegam a ser hilariantes, devido ao evidente contra-senso por elas transmitido. Contudo, a lição apresentada por Jesus é muito séria: a leve imperfeição ou erro de outras pessoas é freqüentemente mais notado por nós, do que um grande defeito ou pecado em nós mesmos. O verbo “reparar” vem do original grego blepeis que significa: atenção e observação prolongadas. Jesus nos exorta a um rígido auto-exame antes de nos lançarmos ao julgamento de qualquer um de nossos semelhantes. 20 Jesus frisa que o caráter de uma pessoa não pode ser alterado apenas por força de vontade ou pelas circunstâncias. Somente o novo nascimento, que é a invocação e a habitação do Espírito de Deus em nossa alma (Jo 3.5; 15.5,16), pode transformar a essência das pessoas e desenvolver um ser humano celestial (cidadão do Reino). Jesus nos faz lembrar do ensino do profeta Jeremias, sobre a maldade que reside no coração do homem (Jr 17.9), acerca da qual Paulo também nos adverte (Rm 3.23), para nos legar um princípio fundamental ao conhecimento da pessoa humana: “a boca fala do que está repleto o coração”. Ou seja, nossas palavras revelam quem somos na realidade, em nosso íntimo. Por isso, mais do que um cuidado com a língua, precisamos avaliar corretamente o centro das nossas emoções e sentimentos (para os ocidentais modernos: o coração, mas no oriente antigo: os intestinos). Portanto, no amor e nos negócios é bom ouvir muito, e bem, antes de celebrar sociedade. 21 Alguns discípulos já mostravam sinais de falsidade e deslealdade, pois o chamavam formalmente de “Senhor” (em grego: kurios), que significa “mestre a quem se deve seguir com lealdade absoluta”, mas não praticavam o que Ele lhes ensinava. É possível que Jesus tenha repetido este sermão em outra ocasião, porém com o mesmo sentido, pois em Mateus a diferença entre os dois homens da parábola, é que escolheram terrenos diferentes para construir (Mt 7.24-27), e aqui, diferem quanto à maneira de edificar sobre os terrenos. Embora Jesus esteja advertindo que um bom alicerce é vital nas horas de provação e dificuldades proporcionadas pela vida, seu principal objetivo é alertar para o teste supremo, no Juízo final, quando somente sobreviverão aqueles que estiverem firmados na Rocha, que é o Filho de Deus (1Co 3.11). Capítulo 7 1 Um centurião era um oficial militar romano, em geral, responsável por um grupamento igual ou superior a 100 soldados. O NT cita alguns centuriões notáveis, como esse homem de fé apresentado por Lucas (At 10.2; 23.17,18; 27.43). Embora gentio, os próprios líderes judeus admiravam sua honradez, cooperação e sensibilidade (vs. 5,6).


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religiosos dos judeus, pedindo que fosse curar seu servo. 4 Então, aproximando-se de Jesus, apelaram-lhe com muitas súplicas: “Este é um homem que merece que lhe concedas esse favor, 5 pois trata nosso povo com elevada consideração, e ele mesmo construiu nossa sinagoga”. 6 Então Jesus seguiu com eles. Mas, ao chegarem nas proximidades da residência, o centurião enviou-lhe alguns amigos para lhe entregarem a seguinte notícia: “Senhor, não te incomodes, porque sei que não sou digno de receber-te sob o teto da minha casa. 7 Por isso, nem mesmo me considerei merecedor de ir ao teu encontro. Mas ordena, com uma só palavra, e o meu servo será curado. 8 Pois eu também sou homem sujeito à autoridade, e tenho soldados sob o meu comando. Mando a um: vai, e ele vai; e a outro: vem, e ele vem; e ao meu servo: faze isto, e ele o faz.2 9 Ao ouvir esta declaração, Jesus muito se admirou dele e, voltando-se para a multidão que o acompanhava, exclamou: “Asseguro-vos que nem mesmo em Israel encontrei uma fé como esta”. 10 E aconteceu que os homens que ha-

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viam sido enviados, retornaram para a casa do centurião, e ao chegarem lá, encontraram o servo dele totalmente curado.3 Jesus ressuscita um jovem na multidão 11 No dia seguinte, partiu Jesus para uma cidade chamada Naim, e com ele caminhavam seus discípulos e uma grande multidão.4 12 Ao se aproximar da porta da cidade, estava saindo o enterro do filho único de uma viúva; e grande multidão da cidade a acompanhava. 13 Ao observá-la, o Senhor se compadeceu dela e a encorajou: “Não chores!”.5 14 E aproximando-se, tocou no esquife. Então, os que o carregavam pararam. E Jesus exclamou: “Jovem! Eu te ordeno: levanta-te!”. 15 No mesmo instante, o jovem que estivera morto se pôs sentado, e começou a conversar, e assim Jesus restituiu o jovem à sua mãe.6 16 Todos foram tomados de grande temor e louvavam a Deus proclamando: “Grande profeta foi levantado entre nós!” e “Deus veio salvar o seu povo!”. 17 Estas notícias a respeito de Jesus circularam por toda a Judéia e regiões circunvizinhas.7

2 A fé que opera milagres, como a demonstrada por esse oficial romano, tem os seguintes componentes básicos: parte de um coração profundamente humilde, consciente da sua insignificância e pecado, da santidade e do poder de Deus. É uma fé pura, que não precisa da presença física de Jesus nem, muito menos, de outros elementos, mas apenas da sua Palavra (Tg 5.15-18). Também não se restringe a qualquer nacionalidade, cor ou raça. Lucas nos revela que a fé do gentio foi não apenas aceitável, mas elogiada pelo Senhor. 3 Em apenas duas ocasiões o NT registra que Jesus se admirou: nesta passagem - devido à fé que observou em um gentio - e, em Nazaré, por causa da incredulidade de muitos dos seus amigos e parentes judeus (Mc 6.6). 4 Naim localizava-se a cerca de três quilômetros, o oeste de En-Dot, aproximadamente a um dia de viagem, a pé, de Cafarnaum. 5 O vocábulo grego usado aqui para se referir ao Senhor é kurios. O único com poder para extinguir toda a tristeza e dor dos nossos corações, e expulsar a morte de nossas almas (1Co 15.55-57). O Senhor é movido pelo amor e por sua compaixão em relação à morte do ser humano. Jesus sabia que o ente humano fora criado para viver eternamente em harmonia com Deus; e, por isso, várias vezes, demonstra sua dor e indignação em relação à morte. 6 Conforme a tradição judaica, o jovem morto estava sendo conduzido num tipo de caixão aberto. Essa é a primeira de três ocasiões citadas nos evangelhos em que Jesus ressuscitou alguém, as demais são: a filha de Jairo (8.40-56), e seu amigo Lázaro (Jo 11.38-44). Quadrato, pensador e historiador, que viveu no ano 125 d.C, em suas cartas a Adriano, relata o fato de que algumas das pessoas curadas e ressuscitadas por Jesus ainda viviam em seu tempo e davam testemunho do Senhor. Curiosamente, vários milagres de ressurreição de mortos narrados na Bíblia, ocorreram devido à participação de mulheres de fé, humildes, corajosas e piedosas (1Rs 17.23; 2Rs 4.36; Jo 11.22,32; At 9.41; Hb 11.35). 7 Por mais de 400 anos o povo de Israel esperou pelo Messias prometido. João surge, vindo das regiões desérticas, com poder e unção de Deus para anunciar a chegada do Messias. Diante dos inúmeros milagres de Jesus por toda a Palestina, e de sua palavra e autoridade espiritual, as multidões começam a aclamá-lo como o Ungido (o Cristo), reconhecendo a presença de Deus em Israel após gerações e gerações de silêncio.


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João manda saber quem é Jesus

Jesus confere honras a João

(Mt 11.2-6)

(Mt 11.7-19)

18 Então, os discípulos de João lhe relata-

24 Havendo partido os mensageiros de João,

ram todos esses acontecimentos. E João, chamando dois deles, 19 enviou-os ao Senhor p para lhe p pergung tar: “És Tu aquele que estava para chegar ou havemos de esperar outro?”.8 20 Assim que os discípulos de João se aproximaram de Jesus lhe explicaram: “João Batista mandou-nos p para vos indagar: ‘És Tu aquele que estava para chegar ou havemos de esperar outro?’”. 21 E naquela mesma hora Jesus curou muitos de doenças e todos os tipos de sofrimento, bem como de espíritos malignos, e concedeu visão a muitos que eram cegos. 22 E, depois disto, declarou aos mensageiros: “Ide e relatai a João tudo o que vistes e ouvistes: os cegos vêem, os aleijados andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados e o Evangelho é pregado aos pobres. 23 E mais, bem-aventurado é aquele que não se escandalizar por minha causa!”.9

passou Jesus a testemunhar às multidões acerca da pessoa e da obra de João: “Que saístes a ver no deserto? Um caniço movido de um lado para o outro pelo vento? 25 Que saístes a contemplar? Um cavalheiro vestido de roupas finas? Ora, os que vestem roupas suntuosas se entregam ao luxo e vivem em delícias estão nos palácios. 26 Afinal, que fostes observar? Um profeta? Eu vos asseguro que sim, e muito mais do que um profeta. 27 Este é aquele a respeito de quem está escrito: ‘Eis que enviarei o meu mensageiro à tua frente; pois ele preparará o teu caminho diante de Ti’. 28 Eu vos afirmo que dentre os nascidos de mulher não há um ser humano maior do que João. Todavia, o menor no Reino de Deus é maior do que ele”.10 29 E todo o povo, inclusive os publicanos, ao ouvirem as palavras de Jesus, reconheceram que o caminho de Deus era justo, e se submeteram ao batismo de João.11

8 João estava no cárcere por ter colocado sua lealdade ao Senhor e sinceridade quanto à sua missão muito acima da subserviência aos poderosos desta terra. Estava preocupado e ansioso para ver o Messias, a quem anunciara durante toda a sua vida, e continuaria a fazer através dos seus discípulos, libertar Israel e estabelecer seu Reino. 9 Jesus respondeu para seu querido amigo João de maneira que ele, como profeta, entenderia bem e não teria qualquer dúvida: através dos sinais e maravilhas que os profetas do AT haviam dito que acompanhariam o Messias (Is 29.18-21; 35.5,6; 61.1 e Lc 4.18). Em nossos dias, essa confirmação é obra da fé, e entra em nossa alma com o Espírito Santo, quando – humildemente – aceitamos a Palavra de Deus e recebemos a Cristo em nossos corações sem restrições. Jesus exorta a João e aos discípulos dele a não duvidarem e com isso se “escandalizarem” (nos originais gregos: skandalizõ). O sentido original desta palavra tem a ver com a ação das gaiolas para caçar passarinhos, “skandalon” é exatamente o mecanismo que dispara o alçapão e prende o pássaro. Jesus receava que o tempo e a distância pudessem servir de “laço” skandalon para que seus amados amigos caíssem na terrível e fatal armadilha da dúvida e do desânimo. 10 Jesus explica aos seus discípulos e à multidão quem era João, pois muitos o achavam apenas um pregador excêntrico. Mas, Jesus faz isso de maneira muito especial. Começa perguntando o que as multidões tinham ido fazer no deserto. O povo tinha ido ouvir a palavra de João e, muitos, arrependidos, já haviam passado pelo batismo. Jesus informa que ele era autêntico e corajoso, como os maiores profetas de Deus. Não era uma vareta que se move ao sabor do vento das vontades de ninguém (Mt 14.3-5), nem tampouco um lacaio dos aristocratas; era um homem simples, talhado pela vida dura do deserto, onde havia se disciplinado ao extremo, e ensinava a todos quantos estavam afastados da santidade de Deus e necessitavam desesperadamente de arrependimento e salvação. Jesus conclui declarando que João era aquele a quem Malaquias anunciara há mais de 400 anos (Ml 3.1). Mais que um profeta, pois foi o precursor imediato de Cristo. Pregou sobre Ele e sua vinda e O revelou ao mundo. Jesus, entretanto, salienta que os nascidos de novo (Jo 3.1-21), gozam do direito de serem Filhos de Deus (Jo 1.12). E isso faz com que, o menor deles, seja maior do que qualquer membro da Antiga Aliança, da qual João foi o último e magnífico profeta. 11 A palavra de Jesus produziu em todas as pessoas e, particularmente, nos coletores de impostos, o reconhecimento dos seus erros e, ao mesmo tempo, da Graça Salvadora de Deus. Havendo sido justificados, se submeteram de bom grado aos princípios da Palavra e ao ensino de João.


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Entretanto, os fariseus e os doutores da lei rejeitaram o conselho de Deus para eles próprios, e não se dispuseram a ser batizados por ele.12 31 “Sendo assim, a que compararei as pessoas da presente geração?”, prosseguiu Jesus, “Com que se assemelham?”. 32 “Ora, são como crianças que ficam sentadas na praça e gritam umas às outras: ‘Nós vos tocamos flauta, e vós não dançastes; entoamos lamentações e vós não chorastes’. 33 Assim tendes agido, pois veio João Batista, que não come pão e não bebe vinho, e julgais: ‘Este está com demônio!’. 34 Então chegou o Filho do homem, comendo pão e bebendo vinho, e condenais: ‘Eis aí um glutão e beberrão, amigo de publicanos e pecadores!’. 35 Todavia, os filhos da Sabedoria reconhecem e acolhem as suas obras”.13 30

Uma pecadora unge a Jesus 36 Tendo sido convidado por um dos fariseus para jantar, Jesus foi à casa dele

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e reclinou-se, como era o costume, junto à mesa.14 37 Assim que tomou conhecimento que Jesus estava reunido à mesa, na casa do fariseu, certa mulher daquela cidade, uma pecadora, trouxe um frasco de alabastro cheio de perfume. 38 E, posicionando-se atrás de Jesus, prostrou-se a seus pés e começou a chorar. Suas lágrimas molharam os pés de Jesus, mas ela, em seguida os enxugou com os próprios cabelos, beijou-os e os ungiu com o perfume. 39 Diante de tal cena, o fariseu que o havia convidado falou consigo mesmo: “Se este homem fora de fato profeta, bem saberia quem nele está tocando e que espécie de mulher ela é: uma pecadora!”.15 40 Então, voltou-se Jesus para o fariseu e lhe propôs: “Simão, tenho algo para dizer-te”. Ao que ele aquiesceu: “Sim, Mestre, dize-me”. 41 “Dois homens deviam a certo credor. Um lhe devia quinhentos denários e o outro, cinqüenta.

12 “Doutores ou peritos” da lei foi a maneira como Lucas se referiu aos escribas e mestres da lei, que muitas vezes também pertenciam ao partido dos fariseus (5.17; 10.35,37: 11.45,52; 14.3 e em Mt 22.35). Esses teólogos e juristas judeus, que tiveram o privilégio de ouvir esse sermão diretamente dos lábios de Jesus, não conseguiram perceber que aquela Palavra de Deus era dirigida a eles, e demonstraram que o livre arbítrio capacita o homem a anular o propósito divino de conceder-lhe a salvação. 13 Em geral, as pessoas demonstram um comportamento infantil em relação à decisão de se consagrarem a Deus e à verdade. Elas agem como aquelas crianças da época de Jesus: se lhes era apresentado algo alegre, elas não se alegravam; se melancólico, não se sensibilizavam. Não haviam se associado a João com seu conservadorismo e rigidez ascética em relação à Lei e à devoção ao Senhor; nem tampouco aceitaram o convite de Jesus para um novo tempo de Graça, liberdade e plenitude espiritual como membros do Reino. Preferiram acusar João e a Jesus de falsos e endemoninhados (Jo 7.20; 8.48; 10.20) e seguiram seus próprios e danosos caminhos. Entretanto, Jesus deixa claro que os que são de Deus (Sabedoria), reconhecem as suas grandes obras e maravilhas e atendem ao seu chamado (Jo 10.1-18). 14 Para os judeus, uma refeição era um convite de alto valor social, representava um selo de amizade e reconhecimento entre os convidados. Como as mesas eram baixas, e ao redor havia uma série de divãs e almofadas, os convidados se reclinavam sobre eles, com os pés pra trás, a fim de degustarem as iguarias que eram trazidas por escravos ou empregados. Estes, além de servirem à mesa, cuidavam da recepção aos convivas, que incluía ungir com óleos e perfumes, lavar e enxugar os pés, especialmente dos mestres da Torá (Lei). Alguns senhores ou patrões, dispensavam seus criados da cerimônia de recepção e a realizavam eles próprios, numa atitude de elevada estima e consideração por seus amigos. Assim, a sala de refeição ficava, em geral, repleta de pessoas; umas comendo e descansando, outras, entrando e saindo para servir aos comensais. É neste contexto que uma mulher, desejosa de abandonar sua vida de prostituição e encontrar a paz (Jo 8.11), entra na sala em busca do Senhor, trazendo o melhor que possuía: amor no coração, fé no Filho de Deus, arrependimento, desejo de mudar e adoração (um frasco caríssimo de óleos aromáticos). Jesus estava reclinado, com os pés estendidos e distantes da mesa central. A mulher, não querendo se interpor entre Jesus e o fariseu anfitrião, preferiu, humildemente, ungir os pés de Jesus à sua maneira, mas com especial e genuína devoção. O frasco era feito de alabastro (uma rocha branca e fácil de moldar). Uma garrafa globular, com gargalo comprido, contendo ungüento (óleo) perfumado, cujo valor correspondia à cerca de 300 dias de trabalho braçal. O frasco (vaso) precisava ter seu gargalo quebrado, e usava-se todo o conteúdo numa única aplicação. Ato semelhante foi realizado por Maria de Betânia, poucos dias antes da crucificação (Jo 12.3). 15 Jesus é realmente o Salvador dos pecadores. A contradição é quase sempre marcante: para o fariseu, Jesus era um profeta e deveria agir com o rigor e o legalismo que ele (fariseu) esperava de um profeta. Para a mulher, prostituta e pecadora, carente de amor, perdão e consideração, Jesus era Deus encarnado, Senhor de misericórdias e da salvação; o único que tinha poderes


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Nenhum dos dois tinha com que pagar, por isso o credor decidiu perdoar a dívida de ambos. Qual deles o amará mais?”. 43 Replicou-lhe Simão: “Imagino que aquele a quem foi perdoada a dívida maior”. Ao que Jesus o congratulou: “Julgaste acertadamente!”. 44 Então, virou-se em direção à mulher e declarou a Simão: “Vês esta mulher? Entrei em tua casa, e não me trouxeste água para lavar os pés, como é o costume. Esta, porém, molhou os meus pés com suas lágrimas e os enxugou com os próprios cabelos. 45 Da mesma maneira, tu não me saudaste com um beijo na face, como é tradicional; ela, todavia, desde que cheguei não cessa de me beijar os pés. 46 E mais, tu não me ungiste a cabeça com óleo, como era de se esperar, mas esta mulher, com puro bálsamo, ungiu os meus pés. 47 Por tudo isso, te asseguro: o grande amor por ela demonstrado prova que seus muitos pecados já foram todos perdoados. Mas onde há necessidade de pouco perdão, pouco amor é revelado. 48 Em seguida, Jesus afirmou à mulher: “Perdoados estão todos os teus pecados!”. 49 Então, os demais convidados começa42

LUCAS 7, 8

ram a comentar: “Quem é este que pod e até perdoar pecados?”. 50 E Jesus revela à mulher: “A tua fé te salvou; vai-te em permanente paz”.16 As muitas discípulas de Jesus Havendo passado esses acontecimentos, caminhava Jesus por todos os povoados e cidades proclamando as boas novas do Reino de Deus, e os Doze estavam com Ele.1 2 E também algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e doenças: Maria, conhecida como Madalena, de quem haviam saído sete demônios; 3 Joana, esposa de Cuza, administrador da casa de Herodes; Susana e muitas outras. Essas mulheres cooperavam no sustento deles com seus bens.2

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A parábola do semeador (Mt 13.1-9; Mc 4.1-9)

E ocorreu que uma grande multidão se reuniu, e pessoas de todas as cidades vieram ouvir a Jesus. Foi quando Ele lhes propôs a seguinte parábola:3 5 “Eis que um semeador saiu a semear. Enquanto lançava a semente, parte dela caiu à beira do caminho; foi pisoteada, e as aves do céu a devoraram. 6 Outra parte caiu sobre as rochas e, 4

para perdoá-la e purificar sua vida. E Jesus olhou para a alma daquele ser humano e além do seu pecado, viu uma filha de Deus, uma irmã e herdeira do seu Reino (Tg 2.1-5). 16 Jesus dá toda atenção à pobre mulher e a abençoa com paz. Nos originais, o verbo desta frase está no tempo presente do indicativo, o que descreve um estado de “constante paz interior com Deus”. Literalmente: vai para dentro da paz. Os antigos rabinos costumavam dizer: vai em pazz aos mortos e vai para dentro da pazz aos vivos. É importante notar, que o amor da mulher não foi a causa da sua salvação, mas sim a conseqüência. O fruto de uma vida salva e consagrada ao Senhor. Só a fé em Jesus nos salva do Diabo, do mundo e de nós mesmos. Capítulo 8 1 Jesus havia concentrado seu ministério nas sinagogas em Cafarnaum. Mas agora voltava ao interior da Galiléia, ministrando em todas as cidades ao longo deste segundo percurso. Quanto à primeira viagem missionária ver: 4.43,44; Mt 4.23-25; Mc 1.38,39. Em relação à terceira viagem veja: 9.1-6. 2 Lucas salienta a importância das mulheres no ministério de Jesus, como discípulas e cooperadoras financeiras daquele que se fez pobre para nos fazer ricos (2Co 8.9). Maria Madalena, da cidade de Magdala, é normalmente confundida com a mulher pecadora do cap.7, e com Maria de Betânia (Jo 11.1). 3 Jesus passa a dirigir seu ensino mais aos realmente interessados em se tornarem filhos de Deus e, como discípulos (não apenas os Doze, mas todos – Mc 4.10), fazerem parte do seu Reino. Por isso, Jesus escolhe as metáforas e as parábolas para comunicar as grandes e surpreendentes verdades sobre o estilo de vida dos cidadãos do Reino (Mt 13.3; Mc 4.2). Embora as parábolas fossem histórias com fundos espirituais e morais fáceis de compreender, havia alguns elementos enigmáticos que careciam de esclarecimento. Essa era a maneira como Jesus filtrava e atraía para si apenas os mais interessados, aquelas pessoas que continuavam a segui-lo não apenas pelas curas milagrosas, mas para entender melhor sua mensagem, com todos os


LUCAS 8

quando germinou, as plantas secaram, pois não havia umidade suficiente. 7 Outra parte ainda, caiu entre os espinhos, que com ela cresceram e sufocaram suas plantas. 8 Todavia, uma outra parte, caiu em boa terra. Germinou, cresceu e produziu grande colheita, a cem por um”. Tendo concluído esta parábola, exclamou: “Aquele que tem ouvidos para ouvir, ouça!”.4 Jesus explica a parábola (Mt 13.10-23; Mc 4.10-20)

Seus discípulos lhe perguntaram o que Ele queria comunicar com aquela parábola. 10 Ao que Ele lhes replicou: “A vós outros é concedido saber os mistérios do Reino de Deus; aos demais, contudo, anuncio através de parábolas, para que ‘vendo, não vejam; e ouvindo, não compreendam’.5 11 Eis, portanto, o esclarecimento desta parábola: A semente é a Palavra de Deus. 12 As que caíram à beira do caminho representam todos os que ouvem, mas 9

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então chega o Diabo e tira a Palavra do coração deles, para que não venham a crer e não sejam salvos. 13 As que caíram sobre as rochas simbolizam os que recebem a Palavra com alegria assim que a ouvem, contudo não possuem raiz. Crêem por um período, mas desistem no tempo da provação.6 14 As que caíram entre os espinhos, significam os que ouvem; todavia, ao seguirem seu caminho, são sufocados pelas muitas ansiedades, pelas riquezas e pelos prazeres desta vida, e não conseguem amadurecer. 15 No entanto, as que caíram em boa terra, são os que, de bom coração e com sinceridade, ouvem a Palavra, a entesouram, e com perseverança, frutificam.7 A parábola da luz manifesta (Mc 4.21-25)

Não há ninguém que, depois de acender uma candeia, a esconda debaixo de um jarro ou a coloque sob a cama. Ao contrário, coloca-a num lugar apropriado, de maneira que todos aqueles que entram, vejam o resplandecer da luz.8 16

detalhes sobre como viver sob a plena direção de Deus. Nas parábolas, os inimigos de Jesus não conseguiram achar declarações claras e diretas para usar contra ele. A conhecida “parábola do semeador”, é uma das três histórias enigmáticas registradas em todos os evangelhos sinóticos (Mt 13.1-23; Mc 4.1-20). As outras são: “a do grão de mostarda” (13.19; Mt 13.31,32; Mc 4.30-32) e da “vinha” (20.9-19; Mt 21.33-46; Mc 12.1-12). 4 A narração de Lucas é mais sucinta que a de Mateus (13.8), e a de Marcos (4.8). Entretanto, a lição central é a mesma: a quantidade da colheita depende da qualidade do terreno. Jesus exorta a todos que receberam capacidade espiritual para ouvir a voz de Deus, abram completamente seu entendimento e vivam como cidadãos do Reino, ainda que neste mundo materialista e injusto. 5 Muitos ensinos e conceitos de vida transmitidos por Deus aos seres humanos são considerados – especialmente pelos incrédulos – como grandes enigmas e mistérios. Dependemos das misericórdias do Senhor para recebermos a correta e clara revelação da verdade (Mc 4.11; Ef 3.2-5; 1Pe 1.10-12). A citação de Isaías (Is 6.9), não quer dizer que há uma disposição divina de vetar o acesso ao conhecimento da verdade para algumas pessoas. Mas essa é simplesmente uma triste constatação: todos aqueles que não estiverem dispostos a receber e incorporar a mensagem de Jesus perceberão o quanto a verdade (o caminho da paz e da plena felicidade) escapou ao seu entendimento. E seu destino final fica subentendido na citação complementar de Mt 13.14,15 (veja também Mc 4.12). 6 Denomina-se “Palavra de Deus” toda a mensagem proveniente diretamente do Senhor. O principal objetivo do Diabo, até o final dos tempos, será provar que Deus falhou em seus juízos e que a humanidade não quer nem precisa de Deus. O Diabo é o pai da mentira e da arrogância (uma forma de mentira), e por isso, embora saiba do seu final no lago do fogo eterno, juntamente com todos os seus correligionários, simpatizantes e “inocentes úteis” (aquelas pessoas que dizem que não se envolvem em religião, pois não matam, não roubam, e ajudam o próximo quando possível; consideram a si mesmas tão boas que não precisam de arrependimento, muito menos da salvação), não pode admitir que isso venha realmente a acontecer. O soberbo é também, espiritualmente, surdo e cego. Mas existe um outro tipo de pessoa, cujo coração (terreno para o plantio da Palavra) se anima com a mensagem de Jesus e com a amizade dos cristãos, e por algum tempo vive como crente. Entretanto sua fé é superficial e, portanto, não própria do salvo. É semelhante a fé que Tiago chama de “morta” (2.17,26) e “inútil” (2.20). 7 Há um coração e uma alma comparáveis à terra fértil e irrigada. O Senhor ressalta que só a perseverança na fé – mesmo em meio às lutas, derrotas e vitórias – é a marca do cristão, a prova da fé salvadora, que garante a vida eterna e proporciona os mais belos frutos em palavras e, sobretudo, em ações concretas (1Co 16.13-14). 8 Jesus estimula seus discípulos a proclamarem a verdade em todas as partes (11.33; 12.2; Mt 5.15). A luz corresponde à


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Porquanto não há nada oculto que não venha a ser revelado, e nada escondido que não venha a ser conhecido e trazido à luz. 18 Assim sendo, vede, pois, como ouvis; porque ao que tiver, mais se lhe con-cederá; e ao que não tiver, até mesmo aquilo que imagina possuir lhe será tirado”.9 17

Os fiéis formam a família de Jesus (Mt 12.46-50; Mc 3.31-35) 19 Então a mãe e os irmãos de Jesus vieram para falar com Ele, entretanto, não conseguiam aproximar-se dele, pois grande era a multidão à sua frente.10 20 Certa pessoa comunicou a Jesus: “Tua mãe e teus irmãos estão lá fora e desejam ver-te”. 21 Contudo, Ele lhe replicou: “Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a praticam!”.

A tempestade é neutralizada por Jesus (Mt 8.23-27; Mc 4.35-41) 22 E aconteceu que, em um daqueles dias, ao entrar no barco, pediu Jesus aos seus discípulos: “Passemos para a outra margem do lago”, e partiram. 23 Enquanto navegavam, Ele adormeceu. E abateu-se sobre o lago uma grande

LUCAS 8

tempestade com fortes ventos, de modo que o barco estava sendo inundado, e eles corriam o risco de naufragar. 24 Então os discípulos correram para acordá-lo, exclamando: “Mestre! Mestre, estamos a ponto de morrer!”. Ele se levantou e repreendeu a tempestade e a violência das águas. Tudo então se acalmou e houve perfeita paz. 25 Jesus, no entanto, dirigiu-se aos seus discípulos e indagou: “Onde está a vossa fé?”. Mas eles, amedrontados e maravilhados, interrogavam uns aos outros: “Quem é este que até aos ventos e às ondas dá ordens, e eles lhe obedecem?”.11 A libertação de um endemoninhado (Mt 8.28-34; Mc 5.1-20)

Zarparam então, para a região dos gerasenos, que se localiza do outro lado do lago, na fronteira da Galiléia. 27 Assim que Jesus desembarcou, foi ao encontro dele um homem daquela cidade, possesso de demônio que, fazia muito tempo, não usava roupas, nem habitava em casa alguma, mas vivia nos sepulcros.12 28 Ao contemplar Jesus, berrou, prostrouse aos seus pés e exclamou com voz forte: “Que desejas comigo, Jesus, Filho do 26

semente (11), que é a Palavra de Deus. A pessoa que irradia a luz do Evangelho – através de uma conduta exemplar e pela comunicação dos princípios bíblicos – cumpre bem seu propósito. Entretanto, para manter uma vida reluzente é fundamental: ouvir e obedecer (41). 9 A verdade (semente) não assimilada, e, portanto, não colocada em prática no dia-a-dia será perdida. E mais, tudo quanto foi conquistado, porém sem a compreensão da verdade, igualmente se perderá (19.26). Os discípulos deveriam dar toda a atenção à prática da Palavra de Deus, não apenas para si próprios, mas especialmente por causa daqueles que estão perdidos e precisam da graça do maravilhoso conhecimento do Senhor em suas vidas (Mc 4.24; Tg 1.19-22). 10 Alguns estudiosos questionam o fato de Jesus haver tido irmãos consangüíneos, filhos de Maria, sua mãe. Contudo as provas são incontestes neste caso (Mc 6.3). Entretanto, nem o mais estreito parentesco humano é maior e mais importante do que a filiação de uma pessoa a Deus e seus relacionamentos dentro da família de Cristo. Por isso, os cristãos costumam se chamar de “irmãos” (Mc 3.21,31,32; Jo 7.5). 11 Jesus notou a participação das forças malignas naquela tempestade inusitada, exatamente quando ele e seus discípulos rumavam para a terra dos gerasenos (gadarenos ou ainda gergesenos). Um povo gentio, que vivia isolado, e que tinha como fonte de renda a criação de porcos, animal considerado impuro pelos judeus em todos os sentidos. Com esse milagre, Jesus confirma mais uma vez, seu poder sobre todas as forças impessoais. Ele as criou e as controla (Jo 1.3; Cl 1.17). “Onde está a vossa fé?” Se estiver depositada em uma capacidade ou criação humana, como um bom barco com navegadores experientes, por exemplo, poderá afundar. Se estiver na dedicação e nas obras morais e beneficentes, com certeza, as forças contrárias serão maiores. Entretanto, se estiver firmada em Cristo: tranqüilize-se e comece a desfrutar da bonança (Ef 2.8,9). 12 Mateus faz referência a dois endemoninhados (Mt 8.28). Entretanto, Marcos e Lucas ressaltam a ação daquele que se adiantou para interagir com Jesus (Mc 5.2). Esses homens, vítimas do domínio absoluto do demônio, foram ao encontro de Jesus para maltratá-lo, no entanto, ao se aproximarem do Filho de Deus, prostraram-se diante do poder do Altíssimo e lhe suplicaram por misericórdia. Essas pessoas atormentadas viviam ainda mais isoladas, em lugares desolados que serviam de cemitérios (Mc 5.3).


LUCAS 8

Deus Altíssimo? Imploro a Ti, não me castigues!” 29 Porquanto Jesus ordenara ao espírito imundo que abandonasse o corpo daquele homem. Diversas vezes o demônio havia se apoderado dele. Mesmo com os pés e as mãos acorrentados, e vigiado por guardas, arrebentava as cadeias e os grilhões, e era impelido pelo demônio para lugares desolados. 30 Jesus lhe inquiriu: “Qual é o teu nome?”. Ao que ele replicou: “Legião!”, pois eram muitos os demônios que tinham invadido aquele homem.13 31 E suplicavam a Jesus que não os mandasse para o Abismo. 32 Entrementes, uma grande manada de porcos estava pastando naquela colina. Os demônios imploraram que Jesus lhes permitisse entrar nos porcos. E Jesus consentiu. 33 Então, saindo do homem, os demônios invadiram os porcos, e a manada jogou-se precipício abaixo em direção ao grande lago e todos os porcos se afogaram. 34 Ao observar tudo o que acontecera, as pessoas responsáveis pelo cuidado dos porcos fugiram e foram contar esses fatos na cidade e pelos campos.14

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Um homem geraseno se torna discípulo (Mt 8.34; Mc 5.14-20)

E ocorreu que o povo saiu para ver o que tinha sucedido. Quando se aproximaram de Jesus, viram aquele homem de quem os demônios haviam saído, assentado aos pés de Jesus, vestido e em perfeito juízo, e todos ficaram apavorados. 36 As pessoas que haviam testemunhado todos os fatos, contaram também como fora liberto aquele homem dos muitos demônios que o haviam tomado.15 37 Então, todo o povo da região dos gerasenos rogou a Jesus para que se retirasse de suas terras, pois estavam aterrorizados. 38 Contudo, o homem de quem haviam sido expulsos os demônios, imploravalhe que o deixasse ir com Ele; mas Jesus despediu-se, recomendando-lhe: 39 “Volta para tua casa e compartilha tudo quanto Deus fez por ti!”. E assim o homem partiu, e anunciou na cidade inteira todas as obras que Jesus havia realizado em sua vida.16 35

A súplica do dirigente da sinagoga (Mt 9.18-19; Mc 5.21-24) 40

Assim que Jesus regressou, a multidão

13 Os gentios, em geral, se referiam ao Senhor como “Deus Altíssimo” (1.24,32; 4.34; Gn 14.19; At 16.17). O reino de Satanás não tem absolutamente nada em comum com o Reino de Deus (11.14-22), por isso o questionamento dos demônios, haja vista que eles dominavam aquela região e, mais especificamente, aqueles homens. Jesus pergunta o nome do homem com quem está falando, mas quem responde é “Legião” (palavra usada para identificar uma corporação romana com até 6000 soldados), o chefe de uma multidão de demônios que havia tomado o corpo daquela pessoa; numa demonstração clara de posse e comando daquela vida, cuja própria identidade havia sido confiscada. 14 O Abismo (lugar de confinamento de Satanás e dos espíritos malignos), sempre será o destino final dos demônios e das almas incrédulas (Ap 9.1; 20.3). O desejo invejoso de Satanás é controlar a vida dos seres humanos, e isso ele buscará de todas as maneiras até o final dos tempos. A criação de porcos era uma atividade econômica expressamente proibida pela Lei de Deus em todo o território israelense (Lv 11.7-8). Entretanto, essa região, pertencia a Decápolis, território predominantemente gentílico. Os demônios e a população do lugar perceberam que Jesus e suas palavras e maravilhas poderiam alterar todo o modus vivendi (modo de vida) da cidade. Contudo, não foi Jesus quem matou os porcos, mas sim os próprios demônios, que no ímpeto de se afastarem da santidade de Deus, para dominar e destruir desvairadamente, voltaram para o abismo e se afogaram no lago. Uma clara ilustração do Juízo final. 15 O termo grego original: esõthe, é muito rico em significados paralelos, podendo ser traduzido como: “salvar”; “curar”; “resgatar” e “libertar”. É a mesma expressão usada várias vezes no NT para descrever o novo relacionamento de ser humano “resgatado” por Deus. No verso 48 temos um sentido duplo: salvação em relação à morte física e espiritual. 16 Contraste entre o pedido dos gerasenos e do homem liberto. A população valorizou os bens materiais acima dos espirituais. Ficaram com medo de perder sua fonte de renda, segurança e da destruição que Jesus poderia promover na cidade. E preferiram permanecer oprimidos pelas forças malignas. O geraseno, salvo e curado, reconheceu em Jesus o Filho de Deus e a fonte da vida; valorizou sua salvação acima de todos os bens, e teve pavor de voltar à vida antiga. Em seu coração, disposto


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o recebeu com grande júbilo, pois todos o estavam aguardando com ansiedade. 41 Eis que se aproximou de Jesus um homem chamado Jairo, que era dirigente da sinagoga local, e, prostrando-se aos pés de Jesus, lhe implorou que fosse até a sua casa. 42 Pois tinha uma filha única com cerca de doze anos, que estava à beira da morte. E, enquanto Ele caminhava, as multidões o comprimiam.

LUCAS 8

Então a mulher, compreendendo que não haveria de passar despercebida, aproximou-se tremendo e prostrou-se aos pés de Jesus. E, diante de todo o povo, declarou o motivo pelo qual o tocara daquela maneira, e como naquele mesmo momento fora totalmente curada. 48 Ao que Jesus lhe afirmou: “Filha! A tua fé te curou; vai-te em perfeita paz”.17 47

Jesus ressuscita a filha de Jairo (Mt 9.23-25; Mc 5.35-43)

A cura de uma mulher no caminho (Mt 9.20-22; Mc 5.24-34)

Nas proximidades estava certa mulher que, havia doze anos, vinha sofrendo de hemorragia e já tinha gasto tudo o que podia com os médicos, mas ninguém fora capaz de curá-la. 44 Ela conseguiu se aproximar de Jesus, por trás, e tocou na borda de seu manto, quando no mesmo instante se lhe cessou completamente a hemorragia. 45 Ao que Jesus indagou: “Quem tocou em mim?” Como todos negassem, Pedro pondera: “Mestre, a multidão se aglomera e te espreme. E, ainda assim, desejas saber quem te tocou? 46 Contudo, Jesus insistiu: “Certamente alguém me tocou, pois senti que de mim emanou poder!”. 43

Falava Ele ainda, quando chegou uma pessoa da casa do dirigente da sinagoga, informando: “Tua filha já está morta. Não adianta mais incomodar o Mestre”.18 50 Ao ouvir tais notícias, Jesus declarou a Jairo: “Não temas, tão-somente crê, e ela será salva!”. 51 Assim que chegou à casa de Jairo, não permitiu que ninguém entrasse com Ele, a não ser Pedro, João, Tiago, bem como, o pai e a mãe da menina. 52 Enquanto isso, grande comoção atingiu a multidão, e todos choravam e se lamentavam por ela. Diante disto Jesus os encorajou: “Não pranteeis! Ela não está morta, mas dorme”.19 53 E muitos zombavam dele, pois tinham certeza de que ela estava morta. 49

a seguir e servir a Deus, aceitou com alegria a orientação missionária de Jesus e, a caminho de casa, pregou o evangelho em várias cidades por toda Decápolis (liga das cidades livres, localizadas além do rio Jordão, caracterizadas pelo alto nível de cultura grega, portanto, gentios). 17 Uma hemorragia crônica (fluxo de sangue) havia tirado a saúde e excluído aquela mulher da sociedade (tornando-a impura segundo a Lei – Lv 15.19-30), por doze anos (Mt 5.26). Jesus sente e abençoa a fé demonstrada por ela, curando sua enfermidade, e a restituindo ao convívio familiar e social através do testemunho público. Para uma pessoa que passou tanto tempo sendo desprezada e humilhada, Jesus reserva uma palavra especial: “filha”, expressão de ternura que não aparece em nenhuma outra citação de Jesus nos evangelhos. É a confiança na esperança (Jesus) que produz a ação (17.19), e uma paz que independe das circunstâncias (7.50). 18 Jairo (nome que significa em hebraico: “Deus dará luz”), era responsável pela sinagoga local e um homem piedoso. Aparentemente o atraso de Jesus em socorrer a filha de Jairo cooperou para sua morte. Incidente semelhante ocorreu com Lázaro, um grande amigo de Jesus (Jo 11.5,6). Esses são dois grandes temores humanos: o tempo e a morte. Para Deus, entretanto, estes aspectos limitantes da vida não existem. A razão nos encoraja a crer no possível; a experiência afirma que ninguém voltou do lugar dos mortos revelando detalhes sobre esse caminho (Lc 16.30); as emoções nos fazem sentir preocupados e assustados em relação à morte (Sl 55.4). Mas Jesus nos afirma que confiando (confiança é a palavra hebraica para fé) nele, como nossa única e suficiente esperança, testemunharemos que o finis da morte (o final de tudo) se transforma no prelúdio da vida verdadeira: plena e eterna (Jo 11.25). 19 Jesus faz uma grande diferença entre a morte eterna e o estado de descanso temporário da alma, fora do corpo, enquanto aguarda a volta de Cristo, e o final da era humana como a conhecemos hoje. A morte para Jesus é o estado de eterno banimento da comunhão e das misericórdias de Deus. Destino este reservado para Satanás, seus anjos e todos aqueles que rejeitarem a graça salvadora do Senhor durante suas vidas. Sendo assim, Jesus adverte a Jairo de que sua filha não estava (permanentemente)


LUCAS 8, 9

Entretanto, Ele a tomou pela mão e, em voz alta, lhe ordenou: “Menina, levanta-te!”. 55 Imediatamente o espírito dela retornou, e no mesmo momento ela se levantou, e Ele mandou que lhe dessem algo para comer. 56 Os pais da menina ficaram maravilhados, contudo Jesus lhes ordenou que não contassem a ninguém o que se passara ali.20 54

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necei até que chegue a hora da vossa saída.2 5 Porém, se não vos receberem, sacudi o pó das vossas sandálias assim que sairdes daquela cidade, como testemunho contra aquela gente”.3 6 E assim, partiram os Doze e percorreram todos os povoados, pregando o evangelho e realizando curas por toda a parte.4 Herodes tenta encontrar Jesus

Jesus envia os Doze em missão

(Mt 14.1-12; Mc 6.14-29)

(Mt 10.1-15; Mc 6.7-13)

7 O tetrarca Herodes ouviu comentários sobre o que estava ocorrendo e ficou assustado, pois algumas pessoas divulgavam que João havia ressuscitado dos mortos. 8 Outros, alegavam que Elias tinha ressurgido; e outros ainda falavam que um dos profetas do passado havia voltado à vida. 9 Herodes, entretanto, afirmava: “Eu mandei decapitar a João; quem é, pois, este a respeito do qual tenho ouvido tais coisas?”. E se empenhava por conhecê-lo.5

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Havendo Jesus convocado os Doze, concedeu-lhes poder e completa autoridade para expulsar todos os demônios, assim como para realizarem curas.1 2 Igualmente os enviou para proclamar o Reino de Deus e curar os doentes. 3 E lhes orientou: “Nada leveis convosco pelo caminho: nem bordão, nem mochila de viagem, nem pão, nem dinheiro e nem mesmo uma túnica extra. 4 Na casa em que entrardes, ali perma-

morta. Mas, como ocorre com “os mortos no Senhor”, estava “adormecida” ou “descansando” (1Ts 4.13), na expectativa da ressurreição. Jesus demonstra a veracidade das suas palavras, despertando a menina da morte, concedendo-lhe uma ressurreição antes da ressurreição definitiva, e comprovando, uma vez mais, que para Deus não há impossíveis (Mt 5.38; Jo 11.11-14). 20 Jesus sempre se preocupou com a maneira como as pessoas o estavam recebendo, bem como a sua mensagem. Ele não queria que o povo o seguisse de forma utilitarista, ou seja, somente a troco dos benefícios físicos que Ele proporcionava aos que nele criam: saúde física e emocional, libertação dos demônios, segurança, alimentação (Jo 6.26) e até ressurreição. Pois todos querem ir para o céu, mas ninguém deseja morrer (Lc 9.24). Desde a Criação no Éden, o plano de Deus é que o ser humano lhe fosse um amigo leal, adorando-o como seu Criador e Pai. Uma comunhão que resulta em glória a Deus (Jo 5.44; Fp 3.11). Capítulo 9 1 O Cristo (forma grega de: o Messias, em hebraico), Soberano do Novo Reino, compartilha seu “poder” (em grego: dunamis), e sua “autoridade” (em grego: exousia), com seus “apóstolos”, termo que em grego significa: “enviados em lugar daquele que os comissionou”, ou seja “embaixadores”. Essa é uma nova fase do ministério de Jesus, quando envia seus plenos representantes para colocarem em prática o estilo de vida, proclamação, curas e maravilhas que haviam visto diariamente em sua pessoa (Mt 9.35). Essa foi também a terceira viagem pelas terras da Galiléia realizada por Jesus e seus discípulos (8.1). 2 A estratégia espiritual de Jesus para vencer o Diabo e o mundo – e que durante muito tempo foi seguida pela Igreja primitiva – consistia em: sair em missão de proclamação do Evangelho por todo o mundo (Mt 28.16-20); manter um estilo de vida simples sem preocupações materiais (Mc 6.8); confiar na generosidade da provisão divina; ter senso de urgência, remindo o tempo e aproveitando bem todas as oportunidades para apresentar a Salvação em Cristo (1Co 7.29); fixar a base do seu ministério numa casa hospitaleira – e não mudar de casa, buscando melhores acomodações. Jesus deu grande ênfase ao ministério da “Igreja nas casas” (Rm 16.5; 1Co 16.19; Cl 4.15; Fm 2). 3 Sacudir a poeira das sandálias era um ato simbólico praticado pelos judeus piedosos, ao retornarem à Palestina, e que neste contexto significa uma expressão de relações cortadas, responsabilidade cessada, e um eloqüente e derradeiro apelo ao arrependimento. Esse passou a ser um sinal de total repúdio pela rejeição da mensagem de Deus (10.11; Mt 10.14; At 13.51). 4 O objetivo principal de Jesus é trazer todos os seres humanos para o Seu Reino, visto que a humanidade está afastada de Deus, perdida e condenada à morte eterna (Rm 3.23), e essa missão deve ser realizada levando em conta todas as necessidades básicas das pessoas. O amor não separa o bem-estar espiritual e eterno do material e presente (1Jo 3.17). 5 Lucas não informa os detalhes sobre a morte de João Batista (Mt 14.1-12; Mc 6.17-29), que ocorreu naquela época. Entretanto, Herodes Antipas, filho de Herodes, o Grande (Mt 2.1-19), perturbado pelo medo e remorso, ansiava ver se Jesus era


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A primeira multiplicação dos pães (Mt 14.13-21; Mc 6.30-44; Jo 6.1-15)

Entrementes, ao regressarem os apóstolos, relataram a Jesus tudo quanto tinham realizado. Então Ele os levou consigo, e retiraram-se para uma cidade chamada Betsaida. 11 Contudo, as multidões ficaram sabendo, e o seguiram. Ele as acolheu, e ensinava-lhes acerca do Reino de Deus, e atendia a todos que tinham necessidade de qualquer cura. 12 Ao cair da tarde, os Doze se aproximaram de Jesus e lhe sugeriram: “Despede a multidão para que possam ir aos campos vizinhos e aos povoados, e encontrem alimento e pousada, pois aqui estamos em lugar desabitado”. 13 No entanto, Ele lhes ordenou: “Dailhes vós algo com que possam se alimentar”. Mas eles replicaram: “Não temos nada além de cinco pães e dois peixes, a não ser que compremos comida para todo esse povo”. 14 Pois estavam ali reunidos cerca de cinco mil homens. Ele, então, orientou aos seus discípulos: “Fazei-os sentar em grupos de cinqüenta pessoas”. 15 E assim procederam os discípulos, e todos se assentaram. 16 Então, tomando os cinco pães e os dois peixes, e erguendo o olhar em direção ao céu, deu graças e os partiu. Em seguida, 10

LUCAS 9

entregou-os aos discípulos para que os servissem para toda a multidão. 17 E aconteceu que todas as pessoas se alimentaram até ficarem plenamente satisfeitas, e os discípulos recolheram doze cestos repletos de pedaços que haviam sobrado.6 Pedro confessa que Jesus é o Cristo (Mt 16.13-20; Mc 8.27-30)

Certa ocasião, estava Jesus orando em particular, e com Ele estavam seus discípulos; então lhes indagou: “Quem as multidões afirmam que sou Eu?”.7 19 Ao que eles replicaram: “Alguns comentam que és João Batista; outros, Elias; e ainda outros afirmam que és um dos profetas do passado que ressuscitou”. 20 “Mas vós”, inquiriu Jesus, “quem dizeis qque Eu Sou?”. Então Pedro tomou a p palavra e declarou: “És o Cristo de Deus!”.8 18

Jesus prediz sua morte e ressurreição (Mt 17.1-8; Mc 9.2-8)

Então Jesus os preveniu veementemente e ordenou que a ninguém revelassem esse fato. 22 E acrescentou: “Pois é necessário que o Filho do homem passe por muitos sofrimentos e venha a ser rejeitado pelos líderes religiosos, pelos chefes dos sacerdotes e pelos mestres da lei; seja assassinado e, ao terceiro dia, ressuscite”.9 21

João Batista, que ele assassinara (13.31; 23.8). Entretanto seu desejo de ver a Cristo só se concretizou no julgamento de Jesus (23.8-12). Somente as pessoas que recebem a Cristo em seu coração, por meio de fé pura e sincera, ganham a capacidade de vê-lo (9.27; 13.35; Jo 11.40). O “crer” sempre precede o “ver” no Reino de Deus. Tanto Herodes, quanto os judeus e qualquer outra pessoa que procure um sinal de Deus, são exortados – antes de tudo – ao arrependimento sincero e à entrega da alma aos cuidados do Senhor (Mt 12.38-42). 6 A multiplicação dos pães e peixes, além da ressurreição de Jesus, é o único milagre narrado nos quatro evangelhos (Mt 14.13-21; Mc 6.30-44; Jo 6.1-15). Esse evento marca o clímax do ministério do Senhor na Galiléia. Lembrava os judeus sobre o milagre do maná no deserto. Identificava a Jesus como sendo o cumprimento da profecia de Moisés (Dt 18.18; Jo 6). Por isso, a Igreja primitiva reconheceu neste milagre um paralelo com a última Ceia (22.19; Jo 6.48-58), fazendo com que os discípulos de Cristo sejam o Novo Povo de Deus que, pela Páscoa e o Êxodo (saída do mundo pecaminoso), são conduzidos para a eterna Terra Celestial (Hb 3 e 4). 7 Lucas dá especial atenção ao relato de Jesus em oração (conversando com o Pai): Antes do batismo; da escolha dos Doze; da confissão de Pedro; da transfiguração e da traição. 8 Pedro era o porta-voz natural dos Doze. Há séculos, o Messias era aguardado com ansiedade (Cristo é a tradução grega do termo hebraico: Mashiah), que significa: “o Ungido”. Expressão que na antiguidade se referiu ao Sumo Sacerdote (como na Septuaginta – Lv 4.5), e depois designou o Rei (1Sm 2.10,35; Sl 2.2; Dn 9.25), e foi interpretado pelos doutores e mestres judaicos – ao tempo de Jesus – como o Salvador e Libertador prometido, cuja vinda era considerada iminente. 9 O povo judeu nutria há séculos uma falsa expectativa em relação à figura do Messias. Esperavam um revolucionário, guerreiro


LUCAS 9

Tome a sua cruz e siga a Jesus (Mt 16.24-28; Mc 8.34 – 9.1)

E Jesus proclamava às multidões: “Se alguém deseja seguir-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz dia após dia, e caminhe após mim. 24 Pois quem quiser salvar a sua vida, a perderá; mas quem perder a sua vida por minha causa, este a salvará. 25 Porquanto, de que adianta ao ser humano ganhar o mundo inteiro, mas perder-se ou destruir a si mesmo?10 26 Se alguém se envergonhar de mim e das minhas palavras, o Filho do homem, igualmente, se envergonhará dele, quando voltar em sua glória e sob as honrarias do Pai e dos santos anjos. 27 Com certeza vos asseguro que alguns que aqui se encontram, de modo algum passarão pela morte antes de verem o Reino de Deus”.11 23

Alguns vêem a glória de Jesus (Mt 17.1-13; Mc 9.2-13)

Passados quase oito dias após o pronunciamento destas palavras, Jesus tomou consigo a Pedro, João e Tiago e subiu a um monte para orar. 29 Enquanto orava, a aparência do seu rosto foi se transformando e suas roupas ficaram alvas e resplandeceram como o brilho de um relâmpago. 28

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Então, surgiram dois homens que começaram a conversar com Jesus. Eram Moisés e Elias. 31 Apareceram em glorioso esplendor e falavam sobre a partida de Jesus, que estava para se cumprir em Jerusalém. 32 Pedro e seus amigos estavam dormindo profundamente, mas despertaram de súbito, e viram a fulgurante glória de Jesus e os dois homens que permaneciam com Ele. 33 Quando estes iam se afastando de Jesus, Pedro sugeriu: “Mestre, como é bom que estejamos aqui! Vamos erguer três tabernáculos: um será teu, outro para Moisés, e outro, de Elias”. Mas Pedro não sabia, ao certo, o que estava propondo. 34 Entretanto, enquanto ele ainda falava, uma nuvem surgiu e os encobriu, e grande foi o temor que sentiram os discípulos ao verem aqueles homens desaparecerem dentro da espessa nuvem. 35 Então, dela propagou-se uma voz, afirmando: “Este é o meu Filho, o Escolhido; a Ele dai toda atenção!” 36 Passado o som daquela voz, Jesus ficou só. Os discípulos, então, guardaram o que viram e ouviram somente para si; durante aquele tempo não compartilharam com ninguém o que acontecera.12 30

e estrategista militar, que libertaria Israel do império romano e instalaria seu reino de glória e poder a exemplo de Davi. Portanto, em primeiro lugar, Jesus se revelou aos Doze e esforçou-se para que eles compreendessem bem quem Ele era e qual a sua missão na terra. O próximo passo era comunicar essa revelação ao seu povo antes de Jesus se identificar publicamente (Mt 8.4; 16.20; Mc 1.34). Jesus gostava de se apresentar como “o Filho do homem”, pois essa expressão no original é uma clara indicação do Messias profetizado em Daniel 7.13. A figura do Servo Sofredor (Is 53), é sobreposta à imagem do Messias (Mt 8.20) para retratar adequadamente a pessoa e a obra de Jesus. 10 Seguir a Jesus exige sacrifício do ser humano: consagração, abnegação, dedicação, disciplina e absoluta obediência voluntária à Palavra de Deus. Lucas ainda dá ênfase ao aspecto da continuidade, ou seja, viver assim “dia após dia”, haja o que houver. A imagem da crucificação era comum e clara para todos os discípulos. Era a maneira como o império romano executava os traidores, criminosos e revolucionários da época. Contudo, Jesus assegura ao fiel, que ainda que lhe seja necessário dar a própria vida em holocausto por amor a Deus, uma nova vida de paz e felicidade lhe será outorgada. Pessoas que aceitam o convite do Senhor e decidem abandonar uma vida mundana (morrer para o mundo), passando a dedicar-se à obra de Cristo, são grandes testemunhas desse milagre (viver para Cristo – Gl 2.19-20; Fp 1.21). Nenhuma outra declaração de Jesus recebeu tanto destaque por parte dos quatro evangelistas (Mt 10.38,39; 16.24,25; Mc 8.34,35; Lc 14.26,27; 17.33; Jo 12.25). 11 A palavra grega heos (morte antes...), indica que Jesus não se refere aqui à sua segunda e gloriosa vinda (pois não haverá morte depois – 1Ts 4.17). Jesus está falando da manifestação do início de um novo tempo do Reino: na ressurreição de Cristo e no dia do Pentecostes. Alguns dos que ali estavam veriam o Rei ressurreto (1Co 15.5-6), enquanto os incrédulos só o verão em seu retorno triunfal para o Juízo (Mc 14.62). Pedro, João e Tiago tiveram uma antecipação desta visão gloriosa cerca de uma semana depois. 12 Conforme estudos de respeitáveis arqueólogos e historiadores cristãos, o lugar onde ocorre o milagre da transfiguração é o monte Hermom, cujo cume coberto de neve, acima de 2.740 metros de altura (Mc 9.2), pode ser avistado de muitas partes da


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A cura de um menino possesso

Jesus prediz a sua morte outra vez

(Mt 17.14-23; Mc 9.14-32)

(Mt 17.22-23; Mc 9.33-37)

No dia seguinte, assim que desceram do monte, uma grande multidão veio ao encontro de Jesus.13 38 De repente, um homem surgiu do meio da multidão clamando em alta voz : “Mestre! Suplico-te que socorras meu filho, o meu único filho! 39 Um espírito se apodera dele; e no mesmo instante faz o menino berrar, joga-o no chão, provoca-lhe convulsões até espumar pela boca, jamais o deixa por muito tempo, e por meio de muitos ferimentos o está destruindo. 40 Roguei aos teus discípulos que expulsassem o espírito maligno, mas eles não conseguiram”. g 41 Então, declarou Jesus: “Ó geração sem fé e perversa! Até quando estarei convosco e sofrerei com vossa incredulidade? Trazei-me aqui o teu filho”.14 42 Enquanto o menino caminhava em sua direção, o demônio o lançou por terra, em convulsão. Porém Jesus repreendeu o espírito imundo, curou o menino e o entregou de volta a seu pai. 43 Diante disto, todos ficaram pasmos perante o poder majestoso de Deus.15

E, enquanto todas as pessoas estavam maravilhadas com seus feitos, todos prodigiosos, Ele comunicou aos seus discípulos: 44 “Dai toda a vossa atenção às palavras que vos passo a revelar: o Filho do homem está prestes a ser entregue nas mãos dos homens”. 45 Todavia, eles não conseguiam entender o significado de tais palavras, pois foi-lhes vedado esse entendimento, a fim de que não as compreendessem. E tinham receio de pedir mais explicações a Jesus a este respeito.

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Quem é o maior no Reino? (Mt 18.1-5; Mc 9.33-41) 46 Emergiu entre os discípulos uma discussão sobre quem, dentre eles, seria o maior. 47 Mas, Jesus, conhecendo os seus anseios mais íntimos, tomou uma criança e a colocou em pé, ao seu lado. 48 Então afirmou: “Quem recebe esta criança em meu Nome, recebe a minha própria pessoa; e quem me recebe, está recebendo Aquele que me enviou. Por-

Palestina, brilhando como ouro polido à luz do sol. Moisés e Elias, os grandes representantes da Lei e dos Profetas, aparecem em glória, porém não como espíritos imateriais, e sim em forma corpórea como Jesus estava. Elias havia sido trasladado corporeamente para o céu (2Rs 2.11), e o testemunho de Judas (Jd 9) dá a entender que Moisés fora ressuscitado da morte. A obra de Moisés havia sido completada por seu discípulo Josué, assim como a de Elias por seu discípulo Eliseu (uma variação do nome Josué). Agora estavam conversando com Jesus (nome grego correspondente a Josué, que em hebraico significa: “Deus Salvador” ou “Jeová é Salvação”), e Lucas nos informa que o assunto era o exodon (em grego: a partida) de Jesus (2Pe 1.15): a obra redentora de Cristo na cruz ((sua morte)) e, conseqüentemente, q a sua ressurreição, ç ascensão e gglória final. Esse encontro extraordinário, ppresenciado ppor três apóstolos do Senhor, indica o momento exato do cumprimento de tudo quanto o AT prenuncia. A tipologia do Êxodo fornece o pano de fundo; Jesus supera a Moisés na formação e no governo do Novo Israel de Deus, por ser o Filho (v.35; Hb 2.9,10). O título “Escolhido” aparece nos rolos do mar Morto, ecoando Is 42.1; 23.35. O termo “Escolhido” corresponde à expressão “Amado” (Mt 17.5; 2Pe 1.17). Jesus, mediante o seu “êxodo” livrou o seu povo (seus seguidores) da escravidão do pecado que domina o nosso sistema mundial, levando a bom termo a obra tanto de Moisés quanto de Elias (1Rs 19.16). 13 O milagre da transfiguração ocorreu à noite. No outro dia, após o grande êxtase no monte, Jesus e os discípulos descem para o vale e reencontram a vida normal, cotidiana, com suas aflições, inquietações e necessidades básicas. Toda essa seqüência de acontecimentos demonstra a necessidade do serviço cristão ser uma extensão do culto. A permanência no monte, na contemplação ou busca de experiências, sem o esforço prático para melhorar a vida das pessoas no vale, e vice-versa, resulta em falta de poder e autoridade. A possessão demoníaca afeta suas vítimas de maneiras diversas (Mt 17.15; Mc 9.17; 4.33; 8.28; 13.11,16). Na vida deste jovem, o espírito maligno catalisou os efeitos nocivos da epilepsia amedrontando e confundindo as pessoas, e os próprios discípulos de Jesus que haviam ficado no vale. 14 As pessoas estavam vendo os milagres de Jesus como maravilhas e oportunidades de se livrarem de situações incuráveis ou insolúveis, mas não conseguiam ver nos prodígios das palavras e das realizações de Jesus os sinais da presença de Deus na terra, entre seu povo. O lamento de Jesus é contra a incredulidade de todas as pessoas que se aproximam de Deus apenas para testar seu poder, para assistir a um exemplo da ação extraordinária e especial do Criador. Esquecidas de que precisam de arrependimento, buscam apenas uma solução rápida, prática e a baixo custo para seus problemas imediatos (Dt 32.5; Nm 14.27). 15 Jesus refletia de maneira tão clara a imagem de Deus (imago Dei), que as multidões admiravam nele a sublimidade e a


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tanto, aquele que entre vós for o menor, este sim, é grandioso”.16 Jesus não aprova o sectarismo (Mc 9.38-40)

Então replicou João: “Mestre, vimos um homem expulsando demônios em teu nome e nos dispusemos a tentar impedi-lo, pois afinal, ele não caminha conosco. 50 Jesus, entretanto, lhes advertiu: “Não o proibais! Pois quem não é contra vós outros, está a vosso favor”.17 49

Jesus não é aceito pelos samaritanos 51 E ocorreu que, ao se cumprirem os dias em que seria elevado aos céus, Jesus manifestou em seu semblante a firme resolução de ir em direção a Jerusalém.18 52 E, por isso, enviou mensageiros à sua frente. Indo estes, chegaram a um povoado samaritano a fim de lhe preparar pousada. 53 Contudo, o povo daquela aldeia não o

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recebeu por notar que Ele estava prioritariamente a caminho de Jerusalém. 54 Diante de tal situação, os discípulos Tiago e João, propuseram: “Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu para que sejam aniquilados?”. 55 Mas Jesus, mirando-os, admoestoulhes severamente: “Não sabeis vós de que espécie de espírito sois? 56 Ora, o Filho do homem não veio com o objetivo de destruir a vida dos seres humanos, mas sim para salvá-los!”. E assim, rumaram para um outro povoado.19 O alto custo do discipulado (Mt 8.19-22)

Quando estavam andando pelo caminho, uma pessoa declarou a Jesus: “Eu te seguirei por onde quer que andares”. 58 Mas Jesus lhe replicou: “As raposas têm suas tocas e as aves do céu têm seus ninhos, mas o Filho do homem não tem onde repousar a cabeça”.20 59 Entretanto, a outro homem fez um 57

realeza do Senhor (2Pe 1.16). Contudo, Jesus não se deixava envolver pelos louvores e bajulações do povo, e procurava sempre lembrá-los de que rumava resoluto para entregar sua vida como holocausto para a salvação da humanidade, a quem sempre muito amou (Jo 3.16). 16 A grandeza no Reino de Deus é proporcional ao serviço humilde, sincero e totalmente em louvor ao Senhor. É o próprio significado da cruz (44,45; Fp 2.7,8). Essa polêmica surgiu algumas vezes entre os discípulos (22.24; Mc 10.35-45). O verdadeiro e desinteressado amor é provado por sua operação em favor daqueles que são considerados pela sociedade como os mais insignificantes. Esse amor será exaltado e premiado por Deus. 17 João responde (literalmente no original grego: “respondendo”) ao esclarecimento do Senhor sobre a grandeza de servir com humildade no Reino, com mais uma questão: como pode alguém estranho ao seu grupo expelir demônios em nome de Jesus (especialmente quando alguns discípulos não conseguiram)? Não é a posição oficial que mede a grandeza de uma pessoa, mas sim a qualidade do seu propósito. Para os discípulos, preocupados, naquele momento, com a hierarquia e o fluxograma do ministério, não bastava que aquela pessoa, possivelmente conhecida de Jesus (50), estivesse realizando prodígios em nome do Senhor, era fundamental que fosse membro do grupo e se comportasse segundo “os estatutos” e a doutrina comuns. Esse tem sido, há séculos, o erro de muitos cristãos. Jesus não diz que o homem era contra Ele, mas adverte que se aquela pessoa não os estava prejudicando, certamente havia cooperado com eles de alguma forma, pois trabalhava pela mesma causa. Não pode haver neutralidade na guerra contra o mal. Todo o homem que se opõe aos demônios e às suas influências, em nome de Jesus, deve ser bem recebido, e não alvo de inveja e oposição. 18 Começa neste ponto a seção central do livro de Lucas que é concluída em 19.44 e focaliza especialmente o ensino de Jesus. Lucas usa literalmente a expressão: “firmou o rosto para ir para Jerusalém”, numa alusão a Is 50.7, ressaltando a determinação inabalável de Jesus em cumprir sua missão até o fim (13.22). Essa viagem a Jerusalém não é a mesma onde ocorreu a crucificação, porém marca o início de um período de ministério na Judéia, cuja cidade principal era Jerusalém. 19 Tiago e João eram conhecidos como “filhos do trovão” (Mc 3.17). À semelhança de Elias desejaram mais do que apenas “sacudir o pó de suas sandálias” (2Rs 1.9-16). Entretanto, Jesus os alerta para o fato de pertencerem a outro espírito e demonstra o tipo de amor que estava ensinando aos seus discípulos (Mt 5.44). Para alguns estudiosos, partes dos versos 55 e 56 foram introduzidos por copistas ao longo dos primeiros séculos. No entanto, o Comitê de Tradução da KJ decidiu manter o texto inalterado como vem sendo publicado originalmente desde 1611 e sobre os quais as novas descobertas nada apresentam em contrário. 20 Quais são as pessoas que não podem seguir a Jesus? As que valorizam a segurança e o conforto acima do Senhor. As que dão total preeminência à família e aos amigos, muito acima do Salvador. As que permanecem contemplando o que deixam para trás (a velha vida) enquanto caminham (Gn 19.26; Ef 5.17-24).


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convite: “Segue-me!” Ele, contudo, argumentou: “Senhor, permite-me ir primeiramente sepultar meu pai”. 60 Todavia, insistiu Jesus: “Deixa os mortos sepultarem os seus próprios mortos. Tu, porém, vai e proclama o Reino de Deus”.21 61 Outro ainda lhe prometeu: “Senhor, eu te acompanharei, mas deixa-me primeiro despedir-me dos meus familiares”. 62 Ao que Jesus lhe asseverou: “Ninguém que coloca a mão no arado, e fica contemplando as coisas que deixou para trás, é apto para o Reino de Deus”.22 Jesus envia setenta e dois discípulos Havendo passado estes acontecimentos, o Senhor nomeou outros setenta e dois; e os enviou de dois em dois, adiante dele, a todas as cidades e lugares que Ele estava prestes a visitar.1

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LUCAS 9, 10

E lhes recomendou: “A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos. Rogai, pois, ao Senhor da plantação que mande obreiros para fazerem a colheita.2 3 Portanto, ide! Eis que Eu vos envio como cordeiros para o meio dos lobos.3 4 Não leveis bolsa, nem mochila de viagem, nem sandálias; e a ninguém saudeis longamente pelo caminho. 5 Assim que entrardes numa casa, dizei em primeiro lugar: ‘Paz seja para esta casa!’4 6 Se morar ali um filho da paz, a vossa bênção de paz repousará sobre ele; caso não haja, ela voltará para vós. 7 Permanecei naquele domicílio. Comei e bebei do que vos for oferecido, pois digno é o trabalhador do seu salário. Não andeis a mudar de casa em casa.5 8 Quando entrardes em uma cidade e ali 2

21 Conforme as tradições e rituais fúnebres observados no judaísmo, se o pai daquele homem já estivesse morto, ele não poderia estar ali no meio do caminho, deveria estar se ocupando de todos os detalhes e cerimônias que envolviam um sepultamento judaico naqueles dias. O que o homem pede na verdade, é um tempo para ficar em casa até que seu pai morra, para depois, mais maduro e livre de certas obrigações, poder avaliar com calma as vantagens e desvantagens de aceitar o convite de Cristo. Mas Jesus e o Reino têm urgência e necessitam de pessoas dispostas e resolutas. Jesus usa um jogo de palavras (em grego, logioni, aplica-se duplamente ao sentido, físico e espiritual, da palavra: “morto”), para chocar aquele homem com a verdade de que restarão muitas pessoas no mundo que não atenderão ao chamado de Deus para a vida eterna, e que, portanto, aos mortos espirituais caberá cuidar dos rituais de um mundo que perece (Ef 2.1). 22 Esse trecho bíblico (9.57-62) se passa justamente “ao longo do caminho”. Enquanto Jesus viajava, Lucas nos conta alguns dos muitos casos de pessoas que se apresentaram ou foram convidadas a seguir Jesus e fazer parte do Reino de Deus. Nos três exemplos narrados por Lucas, todas as pessoas tinham uma razão para adiar ou recusar esse compromisso. Claramente tiveram boas intenções, mas não haviam percebido a natureza das exigências que a nova vida e o Reino faz aos seres humanos que habitarão a Nova Jerusalém. A missão de Cristo é mais urgente do que aquela que Elias estabeleceu para Eliseu (1Rs 19.20). Todo trecho mostra que Jesus não exige aquilo que Ele mesmo – enquanto ser humano – não praticou ou suportou. Assemelhar-se ao Mestre é o grande alvo e o preço do discipulado (6.40). Capítulo 10 1 Os melhores e mais antigos manuscritos gregos de Lucas, nos informam que Jesus enviou 72 de seus discípulos (uma alusão a Nm 11.16-17), em duplas (9.1-6; Mc 6.7; At 13.2; 15.27,39,40; 17.14; 19.22), com a missão de proclamar o Reino de Deus e fazer novos arautos do Senhor (discípulos). Lucas salienta a universalidade do Evangelho (16 vezes), para os pecadores de todos os povos e raças, tanto samaritanos como gentios e os próprios judeus (24.47). O número de discípulos demonstra que Jesus tinha um grupo de seguidores fiéis de tempo integral muito maior do que os Doze mais próximos, e uma agenda repleta. Orientações semelhantes foram dadas por Jesus aos Doze (Mt 9.37,38; 10.7-16; Mc 6.7-11; conforme Lc 9.3-5). 2 O campo (a seara) é enorme e a grande missão é fazer discípulos de Cristo em todas as nações, pois o Dia do Juízo se aproxima (Mt 13.39, Jo 4.35; Ap 14.15). Esse é o desafio missionário: a grandeza da plantação e a urgência da missão. A oração contínua para que Deus mande servos dedicados à obra. O “Ide” de Jesus é um apelo para todos os discípulos, cada qual com seu dom e campo de ação (Rm 10.15; Rm 12). 3 A estratégia de Cristo é completamente diferente de qualquer outro imperador. Seus discípulos devem ser totalmente dependentes do Onipotente Pastor na conquista pacífica do território de posse do inimigo. 4 Os discípulos não deveriam se preocupar com o sustento, muito menos com o acúmulo de bens. Não levariam sacos de viagem (alforjes), nem um par extra de sandálias. Sua manutenção viria de Deus, através de pessoas generosas, que cuidariam plenamente de suas necessidades. As saudações orientais tradicionais eram (e ainda o são em muitos lugares) prolongadas, consumindo horas de conversa. Jesus adverte a todo cristão sobre o sentido de urgência e otimização do tempo. O tradicional shalom, saudação hebraica que significa “paz e bem-estar”, passa a ter um sentido ampliado e mais profundo: reconciliação do pecador com Deus (Rm 5.1,10; Ef 2.16; Cl 1.21,22). 5 Ordem de Jesus citada em 1Tm 5.18 como Escritura, numa indicação clara de que o livro de Lucas já era considerado inspi-


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fordes bem recebidos, alimentai-vos do que for colocado diante de vós. 9 Curai os doentes que houver na cidade e proclamai-lhes: O Reino de Deus está à vossa disposição! 10 No entanto, quando entrardes numa cidade e não fordes bem recebidos, saí por suas ruas e exclamai a todos: 11 ‘Até a poeira da vossa cidade, que se nos pegou às sandálias, sacudimos contra vós outros!’. Apesar disto, sabei que o Reino de Deus está próximo. 12 Eu vos asseguro que, naquele Dia, haverá mais tolerância para Sodoma do que para aquela cidade.6 Ai daqueles que não se arrependem (Mt 11.20-24) 13 Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Porque se as maravilhas que foram realizadas entre vós o fossem em Tiro e Sidom, há muito tempo elas teriam se arrependido, vestindo roupas de saco e cobrindo-se de cinzas. 14 Contudo, no Juízo haverá menor rigor para Tiro e Sidom do que para vós outras. 15 E tu, Cafarnaum: serás, porventura, elevada até ao céu? Não! Serás derrubada até o Hades.7

42 16 Portanto, qualquer pessoa que vos der ouvidos, a mim está dando ouvidos; mas aquele que vos rejeitar, estará rejeitando a mim mesmo; e quem me rejeitar, rejeita Aquele que me enviou”.

Os setenta e dois regressam felizes 17 Então, os setenta e dois discípulos retornaram muito felizes e relataram: “Senhor! Até os demônios se submetem ao nosso comando, em teu Nome”. 18 Ao que Jesus lhes revelou: “Eu vi Satanás caindo do céu como relâmpago. 19 Atentai! Eu vos tenho dado autoridade para pisardes serpentes e escorpiões, assim como sobre todo o poder do inimigo, e nada nem ninguém vos fará qualquer mal. 20 Contudo, regozijai-vos, não apenas porque os espíritos vos obedecem, mas sim porque os vossos nomes estão inscritos nos céus”.8 A grande alegria de Jesus no Espírito (Mt 11.25-27)

Naquele q mesmo momento, Jesus exultando no Espírito Santo exclamou: “Ó Pai, Senhor do céu e da terra! Louvo a ti, pois ocultaste estas verdades dos sábios e cultos e as revelaste aos pequeninos. 21

rado (canônico). Os líderes cristãos devem receber justo sustento de todas as suas necessidades. Entretanto, não devem mudar de casas (igrejas ou comunidades) apenas por interesses materiais ou melhor remuneração. 6 A proximidade do Reino tinha a ver com a pessoa de Cristo e de seus arautos (missionários), não em relação ao tempo (Mc 12.34). Apesar de Sodoma ter sido tão pecaminosa que Deus precisou destruí-la (Gn 19.24-28; Jd 7), o povo que ali estava tendo o privilégio de ver e ouvir a Jesus, e os seus discípulos, estava contraindo culpa ainda maior, devido à sua incredulidade, a ser cobrada no Dia do Juízo final. Tiro e Sidom, cidades gentílicas da Fenícia, ainda não haviam tido a oportunidade de receber a mensagem de Cristo e observar seus milagres, oportunidade dada à maior parte da população da Galiléia. Privilégios maiores sempre resultam em maior responsabilidade. 7 Cafarnaum foi o centro do ministério de Jesus na fronteira norte da Galiléia (Mt 4.13). Seus habitantes tiveram todas as chances para verem e ouvirem a Jesus e, a maioria, não se arrependeu. Portanto, maior será sua condenação. A palavra “inferno” vem do grego transliterado haidou ou “hades”, que corresponde à expressão hebraica do AT sheol, a qual significa: lugar dos mortos ou sepulcro. 8 Os discípulos receberam poder e autoridade do Espírito de Deus, pela Palavra de Jesus, para expulsar demônios de todos os tipos e derrotar a Satanás e seus terríveis ataques. Esse momento histórico, contemplado pelo Senhor (v.18), representou um marco no ministério de Jesus com seus discípulos em relação ao estabelecimento do Reino de Deus. Jesus aproveita a euforia dos discípulos para lhes advertir sobre o grande perigo da arrogância, soberba e orgulho, que acomete a todos aqueles que se deixam inebriar pelas glórias do sucesso. Assim se deu a queda de Lúcifer, nome original do Diabo, em hebraico transliterado: helel, que significa: “glorioso”, “luzente”; vocábulo que a Vulgata latina traduziu pela expressão: “estrela da manhã”. Evento este, de tremendo impacto no universo e testemunhado por Jesus Cristo no céu (Is 14.12). Jesus previne aos seus discípulos para manterem a humildade e o louvor a Deus por suas virtudes e realizações. Caso contrário, correm o risco de terem o mesmo destino do império babilônico, rebaixado ao nível do pó, depois de ter sido exaltado como o mais poderoso entre os poderosos reinos da terra. O próprio rei da Babilônia (região onde hoje se localiza o Iraque) foi usado pelos profetas do Senhor como


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Amém, ó Pai, porque Tu tiveste a alegria de proceder assim.9 22 Tudo me foi entregue por meu Pai. Ninguém sabe quem é o Filho, a não ser o Pai; e nenhuma pessoa sabe quem é o Pai, senão o Filho e aqueles a quem o Filho o desejar revelar”.10 23 Então, mirando os seus discípulos, declarou-lhes em particular: “Bem-aventurados são os olhos de quem vê as revelações que vós vedes.11 24 Pois vos asseguro que muitos profetas e reis almejaram ver o que estais vendo, mas não viram; e ouvir o que ouvis e não ouviram”. A parábola do bom samaritano 25 Certa vez, um advogado da Lei levantou-se com o propósito de submeter Jesus à prova e lhe indagou: “Mestre, o que preciso fazer para herdar a vida eterna?”.12

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Ao que Jesus lhe propôs: “O que está escrito na Lei? Como tu a interpretas?”. 27 E ele replicou: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e com toda a tua capacidade intelectual’ e ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’”. 28 Então, Jesus lhe afirmou: “Respondeste corretamente; faze isto e viverás”.13 29 Ele, no entanto, insistindo em justificar-se, questionou a Jesus: “Mas, quem é o meu próximo?”.14 30 Diante do que Jesus lhe responde assim: “Certo homem descia de Jerusalém para Jericó, quando veio a cair nas mãos de alguns assaltantes, os quais, depois de lhe roubarem tudo e o espancarem, fugiram, abandonando-o quase morto. 31 Coincidentemente, descia um sacerdote pela mesma estrada. Assim que viu o homem, passou pelo outro lado. 32 Do mesmo modo agiu um levita; quan26

prefiguração da “besta”, que se reerguerá e comandará a Babilônia dos últimos dias (Ap 13.4; 17.3; segundo a descrição do dirigente de Tiro em Ez 28). O próprio Satanás, ao admirar e exaltar seus atributos pessoais – deixando de considerar que todos lhe foram concedidos por Deus, e para Sua glória – cogitou ser semelhante a Deus e por isso foi execrado da presença do Senhor, banido dos céus e rebaixado às regiões do inferno com a violência e a velocidade de um raio. Portanto, a Salvação do ser humano é mais importante que o poder para realizar maravilhas e vencer o Diabo. A Salvação nos mantém humildes diante dos grandes feitos, e nos encoraja quando erramos e caímos. Ela registra o nosso nome no céu (Sl 69.28; Dn 12.1; Fp 4.3; Hb 12.23; Ap 3.5). 9 Uma das principais características do evangelho escrito por Lucas é mencionar a alegria e felicidade por mais de 20 vezes, o cântico e a glorificação de Deus (1.64; 2.13; 2.28; 5.25; 7.16; 13.13; 17.15; 19.37; 24.53). Nossa maior alegria não deve estar nas coisas nem nas pessoas, mas no fato de termos sido eleitos para a Salvação pelo amor onisciente de Deus, condição privilegiada, que jamais será anulada (Ef 1.4), a qual devemos honrar. Jesus demonstra seu grande júbilo (em grego: agalliaõ, que significa: “exultação”, “demonstração pública de gozo profundo”). O motivo de tamanho contentamento de Jesus foi testemunhar a revelação da justiça e bondade de Deus para com os humildes em detrimento dos arrogantes e soberbos. A alegria da redenção (1.14,47; At 2.26; 1Pe 4.13), da qual o Espírito Santo é o agente do gozo espiritual (Gl 5.22 e Fp 4.4). 10 Deus entregou a Seu Filho, Jesus, a chave da reconciliação definitiva entre o Criador e a humanidade: o Evangelho (1Co 15.1-3). Essa revelação não vem dos pais (tradição judaica), mas do Pai em Cristo (Jo 14.6-11). 11 A fé abre a visão para a verdade, a realidade de Jesus, o Cristo (Messias), e o Reino. Enquanto, o pecado, cega a humanidade (Jo 9.39-41). 12 A palavra grega transliterada nomikos, significa originalmente: “advogado”, como consta da Bíblia King James desde 1611. As versões posteriores usaram expressões como “intérprete”, ou ainda “perito na lei”. Tratava-se de um teólogo judeu, autoridade na Lei (a Torá) de Deus (11.45) e que nesta passagem procura submeter Jesus à prova (Mt 4.7; Tg 1.3), mas é provado pelo Senhor através de seus próprios argumentos legalistas. 13 Em outra situação Jesus agrupa os mandamentos formando um só (Mt 22.35-40; Mc 12.28-32 com base em Dt 6.5; Lv 19.18). Se considerarmos que o amor tem quatro aspectos (coração, alma, forças e entendimento ou inteligência – como aqui e em Mc 12.30), ou apenas três (Dt 6.5; Mt 22.37; Mc 12.33), o princípio maior a ser observado é a ampla e irrestrita dedicação do nosso ser a Deus. Esses dois mandamentos resumem toda a Lei (Rm 13.9). Como – após a Queda (Gn 3) – tornou-se impossível ao ser humano, cujo pecado habita no coração, atingir esse padrão; Cristo o fez por nós: a dupla Lei do Amor (1Jo 4.7-19). 14 O advogado busca demonstrar o valor de sua questão. No entanto, oferece ainda mais elementos para que Jesus destrua os argumentos da Lei e revele a verdade da Graça. A autojustificação ambicionada pelo mais rigoroso fariseu (18.9-14; Fp 3.6) é negada na parábola do Bom Samaritano. A justiça do sacerdote, que representa a suprema autoridade religiosa, e a do levita (que trabalhavam em parceria no templo a serviço de Deus) ainda que zelosos no cumprimento da Lei, omitem o verdadeiro “amor de Deus” (11.42) e passam “de largo” (pelo outro lado da estrada) para evitar um contato frontal com aquele ser humano (semelhante e próximo) mortalmente ferido.


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do chegou ao lugar, observando aquele homem, passou de largo. 33 Mas um samaritano, estando de viagem, chegou onde se encontrava o homem e, assim que o viu, teve misericórdia dele.15 34 Então, aproximou-se, enfaixou-lhe as feridas, derramando nelas vinho e óleo. Em seguida, colocou-o sobre seu próprio animal, levou-o para uma hospedaria e cuidou dele. 35 No dia seguinte, deu dois denários ao hospedeiro e lhe recomendou: ‘Cuida deste homem, e, se alguma despesa tiverdes a mais, eu reembolsarei a ti quando voltar’. 36 Qual destes três te parece ter sido o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes? 37 Declarou-lhe o advogado da Lei: “O que teve misericórdia para com ele!”. Ao que Jesus lhe exortou: “Vai e procede tu de maneira semelhante”. A adoração de Marta e Maria 38 Caminhando Jesus e os seus discípulos, chegaram a um povoado, onde certa mulher chamada Marta o recebeu em sua casa.16

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Maria, sua irmã, ficou sentada aos pés do Senhor, ouvindo o que Ele ensinava. 40 Marta estava inquieta, ocupada com os muitos afazeres. E, aproximando-se de Jesus inquiriu-lhe: “Senhor, não te importas de que minha irmã tenha me deixado só com todo o serviço? Peça-lhe, portanto, que venha ajudar-me!”. 41 Orientou-lhe o Senhor: “Marta! Marta! Andas ansiosa e te afliges por muitas razões. 42 Todavia, uma só causa é necessária. Maria, pois, escolheu a melhor de todas, e esta não lhe será tirada”. 39

O ensino de Jesus sobre a oração (Mt 6.5-15; 7.7-12)

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Certa ocasião, Jesus estava orando em um determinado lugar; quando concluiu, um dos seus discípulos lhe solicitou: “Senhor, ensina-nos orar, assim como João ensinou aos discípulos dele”.1 2 Então, Ele passou a ensiná-los: “Quando orardes, dizei: Pai! Santificado seja o teu Nome; venha o teu Reino;2 3 o pão nosso de cada dia, continua nos dando hoje e sempre. 4 Perdoa-nos os nossos pecados, pois assim também devemos perdoar a todos que er-

15 Jesus usa de certa ironia ao eleger como o benfeitor da história um samaritano. Considerado pelos judeus da época como o mais asqueroso dos hereges, excluído do direito de ser “próximo” do judeu, um pecador tanto em relação à doutrina como à prática da religião (Jo 4.20); mesmo assim, era capaz de compadecer-se e ter misericórdia de um inimigo necessitado, sacrificando-se e pagando alto preço para salvá-lo. Dois denários de prata correspondiam a dois dias de trabalho e eram suficientes para custear cerca de dois meses numa hospedaria. Uma ilustração clara da obra de Cristo por nós (Rm 5.8). 16 Maria e Marta eram irmãs de Lázaro (Jo 11; 12.1-3), grandes amigos de Jesus. Viviam em Betânia, um povoado que ficava a uma distância de quatro quilômetros de Jerusalém. Jesus ensina a Marta, e a nós, que freqüentemente aplicamos nossas forças e preocupações na performance (realizar, conquistar). Quando o correto, mais sábio e proveitoso é empenhar nossos sentidos a ouvir e adorar o Senhor, assim como fez Maria. Esse princípio oferece o equilíbrio ideal em relação ao estímulo para o serviço que aprendemos com a parábola do Bom Samaritano. Em vez da preocupação e ansiedade pelo servir um banquete digno do Senhor, um prato seria suficiente; e Maria preferiu o banquete espiritual aos pés de Cristo: a melhor causa (At 6.2,4; Mc 10.45; Jo 4.32-34). Capítulo 11 1 Jesus conversava (orava) com Deus costumeiramente (5.16; Mt 14.23; Mc 1.35) e, mais ainda em ocasiões especiais, como em seu batismo (3.21), na escolha dos seus apóstolos (6.12), no Getsêmani (22.41). Os discípulos observaram essa prática devocional e disciplina espiritual de Jesus e quiseram aprender como estabelecer esse nível de comunicação com Deus. Diante desse desejo manifestado pelos discípulos, Jesus nos ensina um modelo de oração e não um mantra ou reza repetitiva. Por isso temos uma sugestão em Mateus (Mt 6.9-13) no Sermão no Monte, e outra, de forma resumida, aqui. 2 Jesus ensina que devemos iniciar nossas orações expressando a mesma intimidade, carinho e respeito que uma criança amorosa e obediente tem por seu pai. Mais uma vez Jesus faz um jogo com as palavras para demonstrar o quanto é fácil confundir “religião formal” com “adoração sincera”. Jesus afirma que devemos nos dirigir a Deus como Abba (em aramaico, papai ou paizinho querido – Mc 14.36; Rm 8.15. Gl 4.6), denotando assim o verdadeiro sentimento que há no coração de Deus para com seus filhos. Sentimento este que deveria igualmente inundar nossa alma e que nos ajudaria a compreender melhor a pessoa do Senhor e seu modo de agir na história. Os líderes religiosos judeus costumavam iniciar suas preces com a palavra hebraica transliterada Abinu com o acréscimo de alguma expressão que significasse que Deus estava no céu. Este tipo de formalismo e


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ram contra nós. E não nos deixes sucumbir à tentação, mas livra-nos do Maligno”.3 A parábola do amigo insistente 5 E acrescentou-lhes Jesus: “Imaginai que um de vós tenha um amigo e que precise recorrer a ele à meia-noite e lhe peça: ‘Amigo, empresta-me três pães, 6 porque um amigo meu acaba de chegar de viagem, e não tenho nada para lhe oferecer’. 7 E o que estiver dentro da casa lhe responda: ‘Não me incomodes. A porta já está fechada, e eu e meus filhos já estamos deitados. Não posso me levantar e dar-te o que me pedes’. 8 Eu vos afirmo que, embora ele não se levante para dar-lhe o pão por ser seu amigo, por causa da insistência se levantará e lhe dará tudo o que precisar. Jesus ensina perseverança na oração (Mt 7.7-11) 9

Portanto, vos asseguro: Pedi, e vos será

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concedido; buscai e encontrareis; batei e a porta será aberta para vós. 10 Pois todo o que pede recebe; o que busca encontra; e a quem bate se lhe abrirá. 11 Qual pai, dentre vós, se o filho lhe pedir um peixe, em lugar disso lhe dará uma cobra? 12 Ou se pedir um ovo, lhe dará um escorpião? 13 Ora, se vós, apesar de serdes maus, sabeis dar o que é bom aos vossos filhos, quanto mais o Pai que está nos céus dará o Espírito Santo àqueles que lho pedirem!”.4 Uma casa dividida não prospera (Mt 12.22-32; Mc 3.20-30)

De outra feita, Jesus expulsou um demônio que estava mudo. Assim que o demônio saiu, o homem falou, e a multidão ficou maravilhada. 15 Entretanto, alguns deles O censuraram: “Ora, ele expulsa os demônios pelo poder de Belzebu, o príncipe dos demônios!”. 14

protocolo – jamais requerido por Deus – tendia a colocar o ser humano numa posição de quase inacessibilidade a Deus. Um tipo de relacionamento parecido com o que os pagãos tinham com seus deuses, e por isso precisavam lhes oferecer sacrifícios, autoflagelos e mantras infindáveis a fim de obter um pouco da atenção e graça divinas. 3 Depois de certificar-se de que pode chamar a Deus de Pai (Jo 1.12), o discípulo deve exaltar o nome do Senhor. Os nomes na antiguidade judaica tinham um significado intrínseco muito maior do que nos dias de hoje que resumia a totalidade do caráter de uma pessoa. Por isso, Jesus mudou o nome de algumas pessoas quando foram convertidas, pois suas filosofias de vida (a maneira de pensar e viver) haviam sido completamente alteradas ao se tornarem seguidoras de Cristo. Deus é Pai, que significa o Criador: Aquele que dá origem ao ser humano. É nosso “paizinho” mas também é nosso Senhor, esse é o caráter de Deus (amor e justiça) e merece toda a nossa reverência (de alma). Expressamos o Deus que vive em nós através de nossas atitudes (1Pe 1.14-21; 3.15). Logo em seguida, enquanto ora, o discípulo deve almejar a implantação do Reino de Deus na terra. Esse alvo de Jesus deve ser a missão dos seus discípulos: que todos os povos, raças e culturas, sejam contemplados com a Salvação e que um sistema global de amor e justiça permeie toda a terra (Mt 28.18-20). Devemos orar, pois essa missão cumpre-se parcialmente quando uma pessoa aceita a Jesus como seu Salvador e Senhor pessoal, mas ainda esperamos pela total e perpétua remissão de toda terra, quando Cristo voltar em glória. A oração continua, e agora o discípulo está pronto para, reconhecendo que Deus é quem provê o sustento diário e eterno (em grego epiousion, que significa, “dia a dia”, “cotidiano”, “para amanhã e depois”), suplicar agradecido pela provisão de amanhã enquanto coloca mãos à obra. Seu trabalho não visa apenas ganhar o sustento, mas sim prestar glória ao Senhor e dar testemunho ao mundo (Jo 6.35 e 4.32 com Pv 30.8 e Ap 19.9). Esta perspectiva cristã do trabalho faz toda a diferença. O pecado é considerado como uma dívida que precisa ser paga. Deus é o Criador de toda a terra e da humanidade, portanto, tudo o que somos e temos pertence a Deus. Quando desobedecemos ao Senhor, estamos roubando os direitos de Deus e ficamos em pecado (em dívida). Assim como o Senhor provê diariamente recursos para nosso sustento, também nos oferece seu perdão em Jesus Cristo. Da mesma maneira, devemos estar dispostos a perdoar nossos semelhantes todos os dias. Viver a vida cristã dentro desse padrão é correr o risco de ser tentado (em grego peirasmos que também significa um tipo de “teste” ou “prova”) a todo o momento. Deus não “tenta” a ninguém, mas “prova” a todos os seus filhos (Mt 9.1; 6.9-15; Dt 8.1-5; Tg 1.13; Hb 2.17); Jesus está nos ensinando a ficar alertas e fugir das inúmeras ciladas do Inimigo, que tem o objetivo de nos persuadir a viver abaixo do padrão moral de Deus para nos condenar (1Co 6.18; 10.14; 1Tm 6.11; 2Tm 2.22) e com isso, neutralizar nossa missão de testemunharmos e implementarmos o Reino de Deus no mundo. 4 Lucas é o evangelho da oração e nos revela o apelo de Jesus para que sejamos ousados e perseverantes na oração (vs. 5-8), nos oferecendo total garantia de que Deus responde às nossas súplicas (vs. 9-13). O argumento é que se nós que estamos sob a influência do pecado universal (13.1-9), ainda assim, somos amorosos para com nossos filhos, quanto mais o Pai da humanidade


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E outros ainda, apenas para prová-lo, pediam dele um sinal do céu.5 17 Mas, conhecendo Ele o que se lhes passava pela mente, afirmou-lhes: “Todo reino dividido contra si mesmo será arruinado; da mesma forma que uma casa dividida contra si mesma ruirá. 18 Ora, se assim também Satanás estiver dividido contra si mesmo, como é possível que seu reino subsista? Expresso-me desta forma pois dizeis que Eu expulso demônios por Belzebu. 19 Sendo assim, se Eu expulso demônios por Belzebu, por quem os expulsam vossos filhos? Por isso, eles mesmos serão os vossos juízes. 20 Todavia, se é pelo dedo de Deus que Eu expulso os demônios, então, com toda certeza, é chegado o Reino de Deus sobre vós. 21 Quando um homem forte, bem armado, guarda sua casa, seus bens estão seguros.6 22 Mas, quando alguém mais forte o ataca e o vence, tira-lhe a armadura em que confiava e divide os bens que lhe restaram. 23 Toda pessoa que não está comigo, contra mim está, e aquele que comigo não ajunta, espalha.7 16

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A maneira de agir de Satanás (Mt 12.43-45)

Quando um espírito sai de uma pessoa, passa por lugares áridos procurando refrigério, mas não o encontrando, então cogita: ‘Voltarei para a casa de onde saí’. 25 Assim que chega, encontra a casa varrida e em ordem. 26 Então vai e traz outros sete espíritos piores do que ele, e entrando passam a viver ali. E a situação final daquela pessoa torna-se pior do que a primeira”.8 24

Felizes os que recebem a Palavra 27 Entrementes, enquanto Jesus comunicava esses ensinos, uma mulher da multidão exclamou: “Bem-aventurada aquela que te deu à luz, e os seios que te amamentaram!”. 28 Ele, porém, afirmou: “Antes disso, mais felizes são todos aqueles que ouvem a Palavra de Deus e lhe obedecem”.9 O sinal de Jonas (Mt 12.38-42)

Enquanto as multidões convergiam em sua direção, Jesus passou a admoestar-lhes: “Esta é uma geração perversa! Pede um sinal miraculoso, mas nenhum sinal lhe será concedido, a não ser o sinal de Jonas.10 29

fica feliz em presentear seus filhos com os dons espirituais, sendo o primeiro e maior deles o dom da Salvação (1Co 12.13). Todo crente em Jesus tem o Espírito Santo (At 1.8; Gl 5.22), mas quando pedimos para que o Espírito dirija nossas vidas abrimos a alma para sua maravilhosa e completa ação (Ef 4.30 com 1Ts 5.19). 5 O sinal que tanto buscavam estava diante deles. Jesus acabara de expulsar o Mal e curar aquele homem cego, surdo e mudo (Mt 2.22-30; Mc 3.20-27). Mas, os olhos dos legalistas, obscurecidos pelo pecado, não podiam enxergar as maravilhas realizadas por Jesus em palavras e atitudes. Ao afirmar que Jesus exorcizava sob o poder do inferno (Mt 12.24), não compreendiam que aquele esconjuro era a maior prova que Jesus agia pelo poder de Deus, pois que o reino do mal não está dividido. Os demônios não lutam entre si, somente os homens agem assim. A expulsão do demônio evidencia a chegada do Reino de Deus e a derrota do príncipe deste mundo. 6 O Reino de Deus havia chegado no sentido de o Rei estar presente na pessoa de Cristo (4.43) e de os poderes do mal estarem sendo vencidos. O Diabo (também chamado de “valente” ou “homem forte”) prende e escraviza a todos que consegue dominar, mas somente até a chegada de Jesus, que tem plena autoridade e poder para destruí-lo; bem como aos seus exércitos e resgatar a humanidade (Cl 1.13; 2.15; Hb 2.14). 7 A neutralidade no Reino de Deus é inaceitável e impossível. Quem não apóia sinceramente a Jesus, seus ensinos e Igreja, opõem-se ao Senhor. Entretanto é preciso cuidado para não censurar os que estão do lado de Cristo como se não estivessem. Aquele obreiro citado em 9.50 não era membro do grupo dos Doze, nem dos setenta e dois, mas fazia a obra em nome de Jesus e o Senhor não o condenou (Mc 9.38-39). 8 O ministério dos exorcistas judeus era ineficaz (v.19), pois afugentavam os demônios por algum tempo, mas não aceitavam o Reino de Deus em seus corações (Mt 12.43-45). Quando uma pessoa é liberta da opressão do mal deve abrir seu coração para que seja cheio do Espírito Santo de Deus: a única maneira de viver livre do controle do Diabo. Uma vida reformada, mas sem a presença do Espírito Santo fica sujeita a ser novamente tomada pelo mal. 9 Maior privilégio do que ser a própria mãe de Jesus e compartilhar da humanidade de Deus é compreender e aceitar a mensagem salvadora de Jesus Cristo e participar do seu corpo espiritual (Tg 1.22). 10 O profeta Jonas ficou três dias “sepultado” no interior de um grande peixe e depois voltou à terra de Israel. Desta mesma forma, Jesus seria ressuscitado depois de três dias do seu sepultamento (Mt 12.40; Jo 14.11; Jn 3.4).


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Porquanto, assim como Jonas foi sinal para os ninivitas, o Filho do homem o será para esta geração. 31 A rainha do Sul se levantará, no dia do Juízo, juntamente com os homens desta geração e os condenará, pois ela veio dos confins da terra para ouvir a sabedoria de Salomão. 32 A população de Nínive se levantará, no dia do Juízo, com esta geração e a condenará; pois eles se arrependeram com a pregação de Jonas. Contudo, agora aqui está quem é maior do que Jonas.11 30

A parábola da candeia (Mt 6.22-23) 33 Ninguém acende uma candeia e a coloca

em lugar onde fique escondida, nem debaixo de uma vasilha. Ao contrário, colocaa num local apropriado, para que os que entram na casa possam ver seu luminar. 34 São os teus olhos a luz do teu corpo; se teus olhos forem humildes, todo o teu corpo será cheio de luz. Porém se teus olhos forem malignos, todo o teu corpo estará tomado pelas trevas.12 35 Certifica-te, pois, que o fulgor que há no teu interior não sejam trevas. 36 Portanto, se todo o teu corpo estiver pleno de luz, sem ter nenhuma parte dele em trevas, então ele estará verdadei-

LUCAS 11

ramente iluminado, assim como quando a luz de uma forte candeia resplandece sobre vós”. Jesus condena a hipocrisia religiosa 37 Ao concluir essas palavras, um fariseu o convidou para comer em sua companhia. Jesus, aceitando, foi e reclinou-se junto à mesa conforme o costume.13 38 Entretanto, o fariseu, notando que Jesus não se lavara de acordo com a tradição cerimonial que antecede às refeições, ficou surpreso. 39 Então o Senhor lhe declarou: “Vós, fariseus, purificais o exterior do corpo e do prato; mas vosso interior está entulhado de avareza e perversidade. 40 Insensatos! Aquele que criou o exterior não criou igualmente o interior?14 41 Portanto, dai ao necessitado do que está dentro do prato, e vereis que tudo vos será purificado.15 42 Mas ai de vós, fariseus! Porque dais o dízimo da hortelã, da arruda e de todas as hortaliças e desprezais a justiça e o amor de Deus; devíeis, contudo, praticar essas virtudes, sem deixar de proceder daquela forma. 43 Ai de vós, fariseus! Pois amais os lugares de honra nas sinagogas e as saudações em público!

11 Gentios, como a rainha de Sabá (1Rs 10.1-10) e os ninivitas, testemunharão, no juízo, contra os incrédulos judeus; porque, ao perceberem um pouco da glória de Deus, não endureceram ainda mais seus corações e se arrependeram de seus pecados. Entretanto, os judeus estavam diante do fulgor da luz divina irradiada de Jesus Cristo e não conseguiam ver o Reino e a glória de Deus. Todos têm alguma luz; todavia, a responsabilidade aumenta, conforme a intensidade da luz do evangelho (Jo 1.9; Rm 1.20; 2.5). 12 As pessoas que pedem sinais não precisam de mais luz e sim de ampliar sua percepção, a capacidade de ver e analisar com olhos espirituais. A candeia tem o poder de iluminar todos aqueles que se aproximam dela, tanto mais quanto mais perto estiverem. A luz de Cristo e de Sua Igreja jamais será apagada, mas continuará brilhando até os confins da terra, oferecendo a oportunidade da Salvação a todos os povos, raças e culturas; atraindo para Si todos os que têm “olhos bons” (abençoados por Deus), fazendo-os ingressarem no Reino e participarem da fulgurante luz de Cristo. 13 A expressão “fariseus” significa em hebraico “os separados”, e era usada para identificar uma seita político-religiosa que lutava pela segregação da cultura judaica. Eles aguardavam a vinda de um Messias político, que obrigasse o povo a seguir todas as leis e ordenanças da tradição rabínica e legalista criada por eles para explicar o AT. O ato cerimonial de se lavar (verbo grego: baptizõ) várias vezes antes das refeições, não era ordenado na Lei, mas fora acrescentado pelos fariseus (Mt 7.3; Mt 15.9). 14 A mais perigosa insensatez é pensar que Deus se preocupa mais com as cerimônias exteriores do que com o sentimento sincero da alma humana (Is 1.10-17). Jesus nos adverte para que não tentemos ser mais reais do que o Rei em nossos procedimentos e relacionamentos. Os fariseus estavam dando muito mais atenção a formas rígidas de comportamento do que a uma vida moral limpa e generosa para com Deus e os nossos semelhantes (Mc 7.20-23). 15 O amor sincero ao próximo, que se reflete em atitudes práticas e concretas de respeito, solidariedade e cooperação, é um dos mais significativos atos de purificação espiritual e adoração a Deus. Os líderes religiosos e políticos devem ter muito cuidado com a demagogia, pois é comum falarem do que não fazem. Exortam o povo às atitudes humanitárias e projetos sociais; contudo, eles próprios não se desprendem de seus bens materiais, amor ao poder, egoísmo e vaidades (19.8).


LUCAS 11 44 Ai de vós, porque sois como sepulturas

que não são vistas, por sobre as quais os homens andam sem o saber!”.16 Ai dos doutores da Lei! 45 Então, um dos advogados da Lei advertiu a Jesus: “Mestre, quando dizes essas palavras, também nos ofendes a nós outros!”. 46 Todavia, Ele afirmou: “Ai de vós também, advogados da Lei! Porque sobrecarregais as pessoas com fardos que dificilmente podem carregar; no entanto, vós mesmos não levantais um só dedo para ajudá-las.17 47 Ai de vós! Porque edificais os túmulos dos profetas, sendo que foram os vossos próprios antepassados que os assassinaram. 48 Assim, sois testemunhas e aprovais com cumplicidade essas obras dos vossos antepassados; porquanto eles mataram os profetas, e vós lhes edificais os túmulos. 49 Por isso, também, Deus advertiu em

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sua sabedoria: ‘Eu vos enviarei profetas e apóstolos, dos quais assassinarão alguns, e a outros perseguirão’. 50 Pelo que, esta geração será considerada responsável pelo sangue de todos os profetas, derramado desde o início do mundo:18 51 desde o sangue de Abel até o sangue de Zacarias, que foi morto entre o altar e o santuário. Sim, Eu vos asseguro, contas de tudo isso deverão ser prestadas por esta geração!19 52 Ai de vós, advogados da Lei! Porque vos apropriastes da chave do conhecimento. Contudo, vós mesmos não entrastes nem permitistes que entrassem aqueles que estavam prestes a entrar”.20 A trama para matar Jesus tem início 53 Enquanto Jesus se afastava dali, começaram os fariseus e os mestres da Lei a criticá-lo com veemência, buscando confundi-lo acerca de muitos assuntos. 54 Tudo isso para tentar extrair de suas

16 Os judeus costumavam pintar seus túmulos com cal para que ninguém por acidente tropeçasse ou tocasse neles e, dessa forma, ficasse contaminado ou “imundo cerimonialmente” por sete dias (Nm 19.16; Mt 23.27). Assim como tocar em um túmulo resultava em “impureza”, Jesus afirma que associar-se aos “fariseus” (aos legalistas) podia levar à “impureza moral” e proclama três maldições contra isso: Aqueles que colocam as normas e estatutos religiosos acima do amor a Deus (1Co 16.22) e da justiça (Fp 3.9); aqueles que valorizam a honra e os elogios das pessoas acima da glória de Deus (Jo 12.43); e aqueles que contaminam seus semelhantes ao invés de conduzi-los a Jesus Cristo e, portanto, à Salvação (Hb 12.15 com Tg 5.20). 17 Os advogados da Lei (peritos e intérpretes da Lei) sobrecarregavam o povo com regras e regulamentos acrescentados à Lei original de Moisés (Mt 15.2), sem nada fazer para ajudar as pessoas a guardar essas leis (Mt 23.4). De outro lado, eles estavam criando atalhos legais e normas especiais para se safarem incólumes da necessidade de eles próprios terem que cumprir tais leis. Esses “homens da lei” eram demagogos. Honravam a memória dos profetas construindo ou reformando seus túmulos e monumentos; porém, no íntimo e na prática, rejeitavam a Cristo e a proclamação dos ensinos dos profetas, da mesma maneira como acontecera com seus antepassados. 18 O genocídio ocorrido em Israel entre os anos 66 e 70 d.C. foi o cumprimento dessa terrível advertência profética. Os exércitos romanos dizimaram impiedosamente quase toda a nação judaica (21.20-24). Esse é um dos eventos históricos que demonstra a implacável justiça de Deus contra aqueles que rejeitam seu conselho e mandamentos. Pior ainda será o castigo contra aqueles que rejeitarem o Filho de Deus (20.14). 19 Os judeus suplicaram por profetas de Deus, mas quando eles chegaram – a exemplo de Jesus – foram perseguidos, injuriados e assassinados. O sangue inocente de cada um desses homens de Deus será requerido pelo Senhor dessa geração incrédula e perversa. Abel foi o primeiro servo do Senhor martirizado (Gn 4.8), considerado por Jesus como profeta. A morte de Zacarias foi a última morte de um profeta do AT, levando em conta a seqüência dos livros na ordem hebraica tradicional, começando com o Gênesis e terminando em 2 Crônicas (2Cr 24.21-22). Jesus está afirmando que o sangue de todos aqueles que sofreram e foram mortos por sua fidelidade a Deus seria requerido. As contas desses atos criminosos seriam prestadas pela geração que compartilhou plenamente das atitudes que levaram a efeito a morte dos profetas (incluindo o próprio Filho de Deus). 20 O “Ai” final de Jesus vai para os escribas (advogados e intérpretes da Lei) e teólogos. Aqueles que dominam o conhecimento e têm a responsabilidade de comunicar o saber à sociedade e apontar o Caminho de Deus ao povo. Tomaram posse da chave da ciência que destrava o significado mais profundo das Escrituras. Mas, ao invés de tornar simples e prático o viver com Deus, angustiavam o povo com a imposição de ordenanças e mitos teológicos. Por fim, esses próprios doutores da Lei, transformaram a Bíblia num livro de obscuridades e foram enredados por suas próprias teorias místicas. Não conseguiam perceber a Graça, a amplitude e o poder da Palavra de Jesus nem mesmo deixavam prosseguir no Caminho aqueles que se aproximavam da Verdade (Jo 14.6) e do Reino de Deus.


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próprias palavras algum motivo para o acusarem formalmente. Os fiéis devem evitar a hipocrisia Enquanto isso, uma multidão de milhares de pessoas, aglomerava-se, a ponto de pisotearem uma às outras. Foi quando Jesus começou a ensinar primeiramente aos discípulos, prevenindo-os: “Acautelai-vos com o fermento dos fariseus, que é a hipocrisia.1 2 Pois não existe nada escondido que não venha a ser revelado, ou oculto que não venha a ser conhecido. 3 Porque tudo o que dissestes nas trevas será ouvido em plena luz, e o que sussurrastes ao pé do ouvido, no interior de quartos fechados, será proclamado do alto das casas.2

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Jesus ensina o temor do Senhor 4 Eu vos afirmo, meus amigos: não temais os que podem matar o corpo; todavia, além disso, nada mais conseguem fazer. 5 Contudo, Eu vos revelarei a quem deveis temer: temei Aquele que, depois de matar o corpo, tem poder para lançar a alma no inferno. Sim, Eu vos afirmo, a esse deveis temer.3

LUCAS 11, 12

Não se costuma vender cinco pardais por duas pequenas moedas? Entretanto, nenhum deles deixa de receber o cuidado de Deus. 7 Portanto, até os fios de cabelo da vossa cabeça estão todos contados. Não temais! Valeis muito mais do que milhares de pardais.4 6

Testemunhe sua fé ao mundo 8 Digo-vos mais: todo aquele que me confessar diante das pessoas, também o Filho do homem o confessará diante dos anjos de Deus. 9 No entanto, o que me negar diante dos homens será negado diante dos anjos de Deus. 10 Todo aquele que disser uma palavra contra o Filho do homem será perdoado, mas quem blasfemar contra o Espírito Santo jamais receberá perdão.5 11 Quando vos levarem forçados às sinagogas e perante governantes e autoridades, não vos preocupeis quanto à maneira que deveis responder, nem tampouco quanto ao que tiverdes de falar. 12 Porquanto, naquele momento, o Espírito Santo vos ministrará tudo o que for necessário dizer”.6

1 Somente Lucas usa a expressão “multidão de milhares” (miríades) de pessoas, que deriva da palavra grega murias (dez mil). Em Atos 19.19, “cinco miríades” correspondem a 50.000 denários. Entretanto, o termo é freqüentemente usado de modo indefinido, referindo-se às grandes multidões que seguiam Jesus à toda parte. O fermento é a influência que corrompe (1Co 5.6). O perigo da hipocrisia e arrogância não se limita aos fariseus e líderes religiosos, mas aos crentes em geral. 2 Nesse contexto, o sentido é que nada há escondido pela hipocrisia e arrogância que não venha a ser, de fato, transparecido ou dado a conhecer pela convivência e ao longo do tempo. Assim também, como a Palavra de Deus traz à luz os segredos e as verdadeiras motivações da alma (Hb 4.12), o juízo final revelará tudo o que não for objeto de confissão, arrependimento e perdão (1Jo 1.9). 3 Durante os tempos de provação e perseguição, a fé dependerá da consciência clara em relação à infinita diferença que há entre a simples morte física e a morte eterna da alma. Tememos ao Senhor por sua justiça implacável (Tg 4.12), mas nele confiamos, pois Ele é amor e governa sobre tudo e todos (Rm 8.28-39). Somente Deus tem em suas mãos o poder da vida e da morte. Os versos 6 e 7 apresentam os fundamentos da nossa confiança. A palavra grega traduzida aqui por inferno é geenna, e não deve ser confundida com outra expressão grega hades, que se refere ao nome genérico do lugar dos mortos (Mt 5.22). É importante notar, que no NT, inferno é usado somente em Mateus, Marcos, nessa passagem de Lucas e em Tiago 3.6. 4 Deus dedica grande cuidado às pequenas criaturas, mesmo àquelas que, em geral, os seres humanos atribuem pouco interesse e valor. Na época, os pardais faziam parte da alimentação dos pobres. Existem três palavras que denotam moedas romanas: denarius (Mt 18.28), assarion (Mt 10.29) e kodrantes (ou centavo - Mt 5.26). O lepton era uma moedinha que valia apenas metade de um centavo. 5 Aqui essa expressão tem uma aplicação mais ampla do que em Mt 12.31 e Mc 3.28,29. Desde os pensadores cristãos dos primeiros séculos da Igreja (também chamados de “pais da Igreja”), essa passagem é compreendida como sendo uma advertência à imperdoável apostasia daqueles que assumiram um compromisso de fé ao lado de Cristo e da Igreja (Hb 6.4-8), em comparação com a palavra de rejeição a Cristo, própria daqueles que não têm fé, e, portanto, passível de perdão pela Salvação ainda disponível a eles. 6 Não existe melhor advogado do que o Espírito Santo, nem melhor defesa do que um coração completamente controlado pelo Senhor (1Pe 3.15).


LUCAS 12

Jesus condena a avareza 13 E aconteceu que, nesse ponto, um homem que estava no meio da multidão lhe requereu: “Mestre, ordena a meu irmão que divida comigo a herança”. 14 Porém Jesus lhe replicou: “Homem, quem me designou juiz ou negociador entre vós?”.7 15 Em seguida lhes advertiu: “Tende cautela e guardai-vos de toda e qualquer avareza; porquanto a vida de uma pessoa não se constitui do acúmulo de bens que possa conseguir”.8 A parábola do rico insensato 16 E lhes propôs uma parábola: “As terras de certo homem rico produziram com abundância. 17 E ele começou a pensar consigo mesmo: ‘Que farei agora, pois não tenho onde armazenar toda a minha colheita?’. 18 Então lhe veio à mente: ‘Já sei! Derrubarei os meus celeiros e construirei outros ainda maiores, e ali guardarei toda a minha safra e todos os meus bens. 19 E assim direi à minha alma: tens grande quantidade de bens, depositados para muitos anos; agora tranqüiliza-te, come, bebe e diverte-te! 20 Contudo, Deus lhe afirmou: ‘Tolo! Esta mesma noite arrebatarei a tua alma. E todos os bens que tens entesourado para quem ficarão?’. 21 Isso também acontece com quem pou-

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pa riquezas para si mesmo, mas não é rico para com Deus”.9 Os fiéis não devem viver ansiosos (Mt 6.25-34)

Então, dirigindo-se aos seus discípulos, Jesus os exortou: “Portanto, vos afirmo: não andeis preocupados com a vossa própria vida, quanto ao que haveis de comer, nem muito menos com o vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir. 23 Porquanto a vida é mais preciosa do que o alimento, e o corpo, mais importante do que as roupas.10 24 Observai os corvos, os quais não semeiam, nem ceifam, não possuem armazéns nem celeiros; contudo, Deus os alimenta. Quanto mais valeis vós do que as aves! 25 Quem de vós, por mais ansioso que possa estar, é capaz de prolongar, por um pouco que seja, a duração da sua vida? 26 Considerando que vós não podeis fazer nada em relação às pequenas coisas da vida, por que vos preocupais com todas as outras?11 27 Olhai as flores do campo; elas não fiam, nem tecem. Eu, todavia, vos asseguro que nem mesmo Salomão, em todo o seu esplendor, pôde se vestir como uma delas. 28 Ora, se Deus veste assim uma simples erva do campo, que hoje vive e amanhã é lançada ao fogo, muito mais dará a vós, vestindo-vos de glória, homens fracos na fé! 22

7 Jesus não pode mediar um coração dominado pela avareza, para isso já existe a Lei (Dt 21.17), que promulgou a regra geral de que um filho mais velho receberia o dobro da porção de um filho mais jovem. Essas eram questões comumente ajuizadas pelos rabinos que, em muitos casos, recebiam uma porcentagem dos acertos firmados. Entretanto, esse homem estava completamente tomado pelo egoísmo e materialismo e precisava, portanto, em primeiro lugar, arrepender-se para entender as grandes prioridades do Reino e poder aceitar de bom grado as orientações de Jesus. 8 A vida é muito mais do que possuir. O rico era louco porque não compreendia que as suas posses eram apenas emprestadas (1Tm 6.17). Ninguém consegue poupar (guardar) as bênçãos de Deus apenas em benefício próprio (1Tm 6.18). A vida terrena não tem mais valor do que a vida eterna. Conclusão: A única riqueza duradoura é receber o Espírito Santo, guardá-lo no coração e investir seus dons em benefício do próximo e da sociedade (v.21 e Jo 17.3). 9 Tolo (insensato ou louco) é uma expressão de grande impacto em sua forma original, e procura demonstrar o disparate que há em buscar segurança nos bens e riquezas deste mundo em detrimento da presença e bênçãos eternas de Deus (11.40 e Ef 5.17). 10 Jesus passa agora a ensinar àqueles que o amam e o seguem a maneira sábia de viver, em contraste com a visão tresloucada do egoísta e avarento da parábola anterior. Embora nossa visão do futuro deva concentrar-se no Reino de Deus (v.32) e na vida eterna, a vida terrena é decisiva para determinar nossa condição eterna (Mc 8.35-37). 11 A cada dia os seres humanos se preocupam mais e mais com a manutenção da boa saúde e o prolongamento da vida (Mt 6.27). O medo da morte é inversamente proporcional à certeza da salvação. Contudo, somente o Senhor é capaz de nos fazer crescer, ainda que alguns centímetros, ou aumentar nossos dias de vida na terra (Is 38.1-8).


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Não procurareis, pois, ansiosamente, o que haveis de comer ou beber; não empenhareis o vosso coração nessas preocupações.12 30 Porquanto o mundo pagão é que peleja por essas coisas; entretanto, o vosso Pai sabe perfeitamente que as necessitais. 31 Buscai, pois, em primeiro lugar, o Reino de Deus, e todas as demais coisas vos serão providenciadas. 32 Nada temais, pequeno rebanho, pois de bom grado o Pai vos concedeu o seu Reino.13 33 Vendei os vossos bens e ajudai os que não têm recursos; fazei para vós outros bolsos que não se gastem com o passar do tempo, tesouro acumulado nos céus que jamais se acaba, onde ladrão algum se aproxima, e nenhuma traça o poderá corroer. 34 Por isso, onde estiverem os vossos bens mais preciosos, certamente aí também estará o vosso coração.14 29

A parábola do servo leal e do infiel 35 Estejais prontos para servir, e conservai acesas as vossas candeias.15

LUCAS 12

Sede vós semelhantes aos servos, quando esperam seu senhor voltar de um banquete de casamento; para que, assim que chegar e anunciar-se, possais abrir-lhe a porta sem demora. 37 Felizes aqueles servos a quem o Senhor, quando vier, os encontre vigilantes; com toda a certeza vos asseguro que Ele se vestirá para os servir, fará que se reclinem ao redor da mesa, e pessoalmente irá ao encontro deles para servi-los.16 38 Ainda que Ele chegue durante a alta noite ou ao raiar do dia, bem-aventurados os servos que o senhor encontrar preparados. 39 Compreendei, entretanto isto: se o pai de família soubesse a que hora havia de vir o assaltante, não permitiria que a sua casa fosse invadida.17 40 Ficai também vós alertas, pois o Filho do homem virá no momento em que menos o esperais”. 41 Então, Pedro indagou: “Senhor, estás propondo esta parábola para nós ou para todas as pessoas?”.18 42 Ao que o Senhor lhe asseverou: “Quem 36

12 A expressão grega zeteite significa muito mais do que “indagar” como aparece em algumas versões. Seu sentido tem a ver com uma busca obstinada e concentrada: “buscai”. Jesus explica que podemos aplicar todos os nossos esforços em ganhar o mundo (títulos, bens, poder), ou o Reino de Deus. Aquele, entretanto, que “busca” o reino receberá tanto um quanto outro, conforme a sua necessidade e o propósito do Pai para cada um dos seus filhos. 13 Desde a Criação o grande desejo do Pai é partilhar seu Reino com seus filhos, por isso, é com muita alegria e satisfação que, agora, em Cristo, o Senhor pode realizar plenamente sua vontade. Jesus adverte que, nesse sentido, “temor” e “ansiedade” são características dos incrédulos (verdadeiros “gentios” v.30), mas não dos “filhos” de Deus (minoria fiel). O Reino de Deus começa pela soberania do Senhor sobre a vida dos seus súditos (Rm 14.17). Para nós, não acostumados aos regimes monárquicos, e com um sistema político carente de verdadeiros homens e mulheres de Deus, fica um tanto difícil compreender esse tipo de nobre metáfora. 14 Lucas é o evangelista que mais enfatiza a ação social cristã, com vistas a oferecer aos pobres as mesmas condições medianas da sociedade (3.11; 6.30; 11.41; 14.13,14; 16.9; 18.22; 19.8). Os bens e a riqueza que estiverem impedindo o cristão de buscar e adentrar o reino devem ser doados aos mais necessitados (Mc 10.21-27; 1Tm 6.9,18). É fácil notar onde está depositado nosso verdadeiro ideal de vida e paixão: onde nosso coração mais se dedica, cuida e zela. 15 Esse versículo é um resumo da parábola das dez virgens (Mt 25). Algumas versões trazem a frase “cingido esteja o vosso corpo”, optando, nesse caso, por uma tradução mais literal do original. Essa expressão tem a ver com o antigo costume oriental de amarrar as longas vestes à altura da cintura, a fim de possibilitar, em caso de necessidade, uma movimentação mais livre e acelerada. Jesus, por certo, fez uma alusão ao fato dos cristãos deverem estar sempre prontos para servir, livres de qualquer embaraço (1Pe 1.13). 16 O Senhor continuará a ser o grande provedor dos seus servos (filhos e amigos) que se mantiverem “vigilantes”, “despertos”, “preparados”, “prontos”, em contraste com os que estão “dormindo (mortos) em pecados” (Ef 5.14; 1 Ts 5.10). A morte (v.20) e o glorioso retorno estão sempre iminentes (vv 36-40). As exigências do reino (atenção, prontidão e vigilância) são relevantes tanto para os que morrem antes do Juízo como para os que estarão vivos naquele grande dia. 177 O “assaltante” é aquele que vem de sobressalto, repentinamente e surpreendendo a todos. Não há tempo para se preparar, é preciso viver em condição de prontidão, pois a qualquer momento se dará o “assalto”. Esse era um meio de comunicar o estado de alerta espiritual aos judeus cristãos, haja vista que o povo judeu sempre viveu – e vive – em estado de contínua atenção e vigilância em relação aos ataques inimigos (21.34; 1Ts 5.2; 2Pe 3.10; Ap 3.3; 16.15). 18 Tanto as honrarias quanto os castigos, segundo o mérito pelo procedimento de cada um, não aguardam somente os apóstolos; mas, a todos os servos do Senhor que viverem no intervalo histórico entre a ascensão e o glorioso retorno de Jesus Cristo. Quanto maiores os privilégios, mais severa será a punição dos infiéis e incrédulos (Rm 2.12-16).


LUCAS 12

é, portanto, o administrador fiel, que age com bom senso, a quem seu senhor encarrega dos seus servos, para ministrarlhes sua porção de alimento no tempo devido? 43 Feliz o servo a quem o seu senhor surpreender agindo dessa maneira quando voltar. 44 Asseguro-vos que Ele o encarregará de todos os seus bens. 45 Todavia, imaginai que esse servo pense consigo mesmo: ‘Meu senhor tarda demais a voltar’, e por isso comece a agredir os demais servos e servas, entregando-se à glutonaria e à embriaguez. 46 Entretanto, o senhor daquele servo voltará no dia em que ele menos espera e num momento totalmente imprevisível e o punirá com todo o rigor e lhe condenará ao lugar dos infiéis.19 47 Aquele servo que conhece a vontade de seu senhor e não prepara o que ele deseja, nem age para agradá-lo, será castigado com extrema severidade. 48 Contudo, aquele que não conhece a vontade do seu senhor, mas praticou o que era sujeito a castigo, receberá poucos açoites. A quem muito foi dado, muito será exigido; e a quem muito foi confiado, muito mais ainda será requerido.20 Jesus veio trazer fogo à terra 49 Eu vim para trazer fogo sobre a terra e como gostaria que já estivesse em chamas!21

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Tenho, porém, que passar por um batismo; e muito me angustio até que ele se consuma! 51 Pensai que Eu vim para trazer paz à terra? Não, Eu vo-lo asseguro. Ao contrário, vim trazer separação! 52 De agora em diante haverá cinco em uma família, todos divididos uns contra os outros: três contra dois e dois contra três. 53 Estarão em litígio pai contra filho e filho contra pai, mãe contra filha e filha contra mãe, sogra contra nora e nora contra sogra”. 50

Discernindo o final dos tempos 54 Então admoestava Ele à multidão: “Quando vedes surgir uma nuvem na direção do pôr-do-sol, logo dizeis que é sinal de chuva, e, de fato, assim ocorre. 55 Também, quando sentis soprar o vento sul, proclamais: ‘Haverá calor!’, e acontece como previstes. 56 Hipócritas! Sabeis muito bem interpretar os sinais da terra e do céu. Como não conseguis discernir os sinais do tempo presente?22 Buscar a paz enquanto há tempo 57 E por que não julgais também por vós mesmos o que é justo? 58 Quando um de vós estiver caminhando com seu adversário em direção ao magistrado, fazei tudo o que estiver ao vosso alcance para se reconciliar com

19 O galardão pela fidelidade em cumprir a vontade do Senhor será “honra” e “responsabilidade” ainda maiores. Os crentes e líderes cristãos que levam uma vida sem disciplina no presente, enfrentarão a ira de Deus (Mt 7.15-27). 20 Jesus estabelece um contraste entre os líderes irresponsáveis (vv 45-47), e os demais cristãos, mal instruídos que se permitem viver sob a direção do egoísmo, da arrogância e que duvidam das promessas gloriosas; todos receberão o justo castigo no tribunal de Cristo (2Co 5.10). Certamente haverá um castigo para aqueles que deixam de cumprir seu dever. A responsabilidade recai sobre aqueles que muito receberam (Am 3.2). As pessoas não serão castigadas apenas pelo mal que praticaram, mas também pelo bem que deixaram de fazer (Tg 4.17). O fato de não conhecer a Palavra ou a ignorância não podem ser usados como desculpa para evitar a punição futura, pois não existe ignorância moral absoluta (Rm 1.20; 2.14,15), e nossa ignorância faz parte de nosso pecado. 21 Aqui o “fogo” é uma metáfora do Juízo que começou a “arder” na crucificação de Jesus Cristo. Jesus afirma também que suportará o julgamento de Deus no lugar dos crentes, e estabelece um forte vínculo entre “batismo” e “morte” (Mc 10.38-39 e 1Jo 5.6-8). Jesus contemplava com horror o momento da cruz, mas com submissão total e resoluta à sua inevitável missão de salvar a humanidade. Por isso, seu Espírito foi derramado com poder sobre todos os crentes (At 1.8; 2.1). Entretanto, aqueles que rejeitarem o seu sacrifício e apelo serão condenados ao juízo do fogo eterno (3.16; Mt 25.46). 22 O poente ficava na direção do mar Mediterrâneo (1Rs 18.44). Os ventos do sul sopravam do deserto do Neguebe e traziam muito calor. Embora as pessoas, desde a antiguidade, soubessem compreender e usar esses indicadores atmosféricos para prever climas, estações e tempos, não conseguiam perceber a gravidade da sua incredulidade e dos próprios pecados,


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ele; isso para que ele não vos conduza ao juiz, e o juiz vos entregue ao oficial de justiça, e o oficial de justiça vos jogue no cárcere. 59 Eu vos asseguro que não saireis da prisão enquanto não pagardes o último centavo devido”.23 Os impenitentes perecerão Naquela mesma época, alguns dos que estavam presentes foram dizer a Jesus que Pilatos havia misturado o sangue de alguns galileus com os próprios sacrifícios que ofereciam.1 2 Ao que Jesus lhes advertiu: “Julgais que esses galileus fossem mais pecadores do que todos os demais galileus, por haverem sofrido dessa forma? 3 Pois Eu vos asseguro que não! Todavia, se não vos arrependerdes, todos vós, semelhantemente perecereis.2 4 Ou pensais vós, que aquelas dezoito pessoas, sobre as quais desabou a torre de Siloé e as matou eram mais culpadas que todos os outros habitantes de Jerusalém? 5 Com certeza não eram, Eu vo-lo afirmo. Porém, se não vos arrependerdes, todos vós, da mesma maneira perecereis.3

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LUCAS 12, 13

A parábola da figueira estéril 6 Em seguida, Jesus lhes propôs a seguinte parábola: “Certo homem possuía uma figueira cultivada em meio a uma grande plantação de videiras; contudo, vindo procurar fruto nela, não encontrou nem ao menos um.4 7 E, por isso, recomendou ao vinicultor: ‘Este é o terceiro ano que venho buscar os frutos desta figueira e não acho. Sendo assim, podes cortá-la! Para que está ela ainda ocupando inutilmente a boa terra?’.5 8 O vinicultor, porém, lhe rogou: ‘Senhor, deixa-a ainda por mais um ano, e eu cuidarei dela, cavando ao seu redor e a adubando. 9 Se vier a dar fruto no próximo ano, muito bem; caso contrário, mandarás cortá-la!’”.6 Uma mulher é curada no sábado 10 Aconteceu em certo sábado, quando Jesus estava ensinando numa das sinagogas, 11 que se aproximou uma mulher possuída há dezoito anos por um espírito de enfermidade que a mantinha doente.

a importância histórica daqueles momentos em que Deus andou sobre a terra na pessoa de Cristo, a chegada do Reino de Deus, e muito menos, o terrível julgamento que se avizinhava com o massacre do povo judeu pelos exércitos de Roma e suas conseqüências eternas. 23 Jesus nos ensina que acima das tradições religiosas e dos sistemas de leis de um povo, está a Palavra de Deus. Os sinais dos tempos eram nítidos (como o são hoje) e uma decisão radical e urgente de arrependimento e volta à Palavra se fazia necessária, mas as pessoas não conseguiam ver o terrível furacão do juízo tomando forma. É preciso acertar as contas antes que seja tarde demais. A expressão grega lepton foi traduzida como “último centavo” e representava uma pequena moeda de cobre ou bronze cujo valor correspondia à metade da kodrantes (um centavo). Capítulo 13 1 Segundo o historiador judeu Flávio Josefo, contemporâneo dos apóstolos de Cristo, em sua obra “Antiguidades”, os galileus eram conhecidos como insurgentes, e Pilatos, por sua crueldade ilimitada. 2 Na antiguidade, especialmente no AT, acreditava-se que grandes desgraças aconteciam aos crentes que cometiam grandes pecados. Esse, por exemplo, foi o argumento de alguns dos amigos de Jó (Elifaz em Jó 4.7; 22.5). Jesus, porém, adverte aos que se acham “justos” sobre o pecado da arrogância espiritual e da auto-suficiência (18.9-14), pois não percebem a sua necessidade de arrependimento diário. O pecado é inerente ao ser humano desde a Queda (Gn 3); contudo, Deus não usa o castigo conforme a lógica humana (Jo 9.1,2). 3 Somente Lucas, em toda a Bíblia, cita esse acontecimento, observado por Jesus para lembrar a doutrina do pecado original e a necessidade que todos temos de arrependimento. 4 Essa parábola tem um sentido muito amplo, pode referir-se a Israel como também a cada um de nós (Mc 11.14). 5 Os três anos citados por Jesus nessa parábola representam um período de vários séculos de graça e oportunidade que Deus garantiu a Israel por ocasião da Aliança e que culminaram com a chegada e a proclamação do Evangelho (Cristo). 6 Deus exige frutos e não simplesmente folhas; vida e não somente palavras e promessas (Mt 7.21-27). A aparente demora no juízo não significa indiferença ou inoperância, pelo contrário, é Deus usando de sua incomensurável paciência e bondade, na esperança do fruto de arrependimento (3.8 com 2Pe 3.4-10). Todavia, mais cedo ou mais tarde a lâmina do machado da justiça punitiva de Deus cairá com severidade sobre toda raiz de vida inútil, a qual não aceitou o enxerto da nova vida em Jesus (Mt 7.16;


LUCAS 13

Ela caminhava encurvada, sem condição alguma de se endireitar. 12 Ao observá-la, Jesus pediu que viesse à frente e lhe afirmou: “Mulher, estás livre da tua enfermidade”. 13 Em seguida, lhe impôs as mãos; e naquele mesmo instante ela se endireitou, e passou a glorificar a Deus. 14 Entretanto, o dirigente da sinagoga, indignado ao ver Jesus curando no sábado, admoestou a multidão: “Há seis dias em que se deve trabalhar; vinde, portanto, nesses dias para serdes curados e não no sábado!”.7 15 Então o Senhor exclamou: “Hipócritas! Porventura, cada um de vós não desamarra, no sábado, o seu boi ou jumento do estábulo e o leva dali para servir-lhe água? 16 Sendo assim, por qual motivo não se deveria libertar, em dia de sábado, esta mulher, uma filha de Abraão, a quem Satanás escravizava por dezoito anos?”8 17 Havendo Jesus pronunciado estas palavras, todos os seus oponentes se envergonharam. De outro lado, o povo

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muito se alegrava diante de todos os sinais miraculosos que estavam sendo realizados por Jesus. A parábola do grão de mostarda (Mt 13.31-32; Mc 4.30-32)

Então Jesus os questionou: “Com o que se assemelha o Reino de Deus? Com o que q o compararei? p 19 É parecido com o germinar do grão de mostarda que uma pessoa semeou em sua horta. O grão cresceu e se tornou uma árvore, e as aves do céu armaram ninhos sobre seus ramos”.9 18

A parábola do fermento (Mt 13.33) 20 Novamente

Jesus levanta a questão: “A que assemelharei o Reino de Deus? 21 É comparável ao trabalho do fermento, que uma mulher misturou com três medidas de farinha, e toda a massa ficou levedada!”.10 Estreita é a porta do Reino 22 Mais tarde, seguiu Jesus a percorrer

Rm 11.16-24; Cl 1.6,10). O juízo deveria ter caído sobre Israel imediatamente após a crucificação do Filho de Deus, entretanto, o Senhor concedeu – a pedido do Vinicultor – uma derradeira oportunidade especial que ocorreu entre o Pentecostes e a destruição completa de Jerusalém (66-70 d.C.). 7 O chefe da congregação dos judeus (sinagoga) preocupou-se mais com sua tarefa de pôr ordem no serviço religioso (culto) do que com a salvação (cura) de um ser humano (Êx 20.9,10). Passagens anteriores que relatam a dificuldade que mestres e líderes judaicos tinham em compreender o significado do sábado, revelam a autoridade de Jesus Cristo sobre esse dia (6.1-11; 14.1-6; Mt 12.1-8,11,12; Jo 5.1-18). Aqui se evidencia o significado do dia do descanso. Desde o princípio, o sábado (em hebraico transliterado shabbãth – descanso no mais amplo e absoluto sentido da palavra), era profético, relembrando a reconsagração da Criação à sua finalidade original, o que só se realizará de maneira completa por meio da derrota final de Satanás (v.16). Essa vitória total é prevista na libertação da mulher de quem foi expulso o espírito de enfermidade (v.11,12), cuja tradução literal e original da frase de Jesus seria: “foste libertada para permanecerdes livre”. Jesus usou o exemplo vivo daquela mulher para deixar seu último ensino e a maravilha das suas ações de poder na congregação dos judeus. Jesus jamais voltaria a uma sinagoga. 8 Jesus exalta o valor da mulher, ressaltando que ela, como todos os homens, é herdeira nacional e espiritual do Pai dos fiéis (1Pe 3.6) e que, pela fé, viu sua busca de muito anos ser agraciada com o chamado (Jesus a viu e a chamou ao centro da congregação) e o toque salvador (curador) do Senhor (v.12). Os líderes religiosos estavam dando mais valor e respeito aos animais de carga do que aos seus semelhantes; e, por isso, Jesus afirmou que eram hipócritas, pois fingiam ter zelo pela Lei, mas tramavam desmoralizá-lo e matá-lo. 9 Tanto nas plantações quanto na cozinha (onde a alimentação é preparada), como no mundo e nas almas humanas, a implantação e o desenvolvimento da nova natureza do reino não podem permanecer ocultos ou tímidos. A vida do Espírito de Deus se manifestará em todo indivíduo que aceitar a salvação de Jesus, depois se refletirá na congregação dos justificados pelo sangue do Cordeiro (a Igreja) e, como conseqüência, afetará e influenciará o mundo todo (Ap 5.9). Em geral, árvores e aves simbolizam nações, nessa passagem, Israel (Ez 17.23; 31.6; Dn 4.12,21) e os gentios salvos que – em Cristo – terão livre acesso ao Evangelho e à mesma assembléia dos filhos de Deus (Ef 3.6). 10 No original, a expressão grega três satos significa uma grande quantidade de farinha (pouco mais de 10 quilos). A mesma quantidade usada por Sara em Gn 18.6. No primeiro século da Igreja, a ignorância dos pagãos (gentios) em relação ao Reino de Deus em Cristo era quase total. Entretanto, com o passar dos séculos, o Cristianismo se tornou a maior das religiões da terra.


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muitas outras cidades e povoados, ensinando e caminhando em direção a Jerusalém.11 23 Foi quando alguém lhe indagou: “Senhor, haverão de ser poucos os salvos?”. 24 E Ele lhes exortou: “Esforçai-vos por adentrar pela porta estreita, pois Eu vos asseguro que muitas pessoas procurarão entrar e não conseguirão. 25 Quando o proprietário da Casa tiver levantado e fechado a porta, e vós, do lado de fora, começardes a bater, exclamando: ‘Senhor, abre-nos a porta!’ Ele, contudo, vos responderá: ‘Não vos conheço, nem sei de onde sois vós!’. 26 E vós insistireis: ‘Comíamos e bebíamos reclinados ao redor da Tua mesa, e pregavas em nossas ruas’. 27 No entanto, Ele vos afirmará: ‘Não vos conheço, tampouco sei de onde sois. Retirai-vos para longe de mim, vós todos os que viveis a praticar o mal!’ 28 Ali haverá grande lamento e ranger de dentes, quando virdes Abraão, Isaque e Jacó, bem como todos os profetas no Reino de Deus, mas vós, porém, absolutamente excluídos.

LUCAS 13 29 Pessoas virão do oriente e do ocidente,

do norte e do sul, e ocuparão seus lugares à grande mesa no Reino de Deus. 30 Com toda a certeza, existem últimos que virão a ser primeiros, e primeiros que serão os últimos”.12 O lamento profético de Jesus (Mt 23.37-39) 31 Naquele mesmo momento, alguns fari-

seus aproximaram-se de Jesus e lhe avisaram: “Parte agora mesmo e vai-te daqui, pois Herodes intenta matar-te!”.13 32 Ele, entretanto, lhes ordenou: “Ide anunciar a essa raposa que, hoje e amanhã, expulso demônios e curo enfermos e, no terceiro dia estarei pronto.14 33 Contudo, prosseguirei meu caminho hoje, amanhã e depois de amanhã. Afinal, nenhum profeta deve morrer fora de Jerusalém!15 34 Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados! Quantas vezes Eu quis reunir os teus filhos como a galinha reúne os seus pintinhos debaixo das suas asas, mas vós não o aceitastes!16

11 Em algum momento entre os acontecimentos registrados em 11.1 e 13.21, Jesus partiu da Judéia para iniciar sua ministração aos povos da Peréia e terras vizinhas (Mt 19.1; Mc 10 e Jo 10.40-42). Embora realizasse grande obra na Peréia e em muitas outras terras, onde repetiu vários de seus ensinos e prodígios, seus olhos e coração estavam voltados para a Cidade Santa (terra das profecias), para onde caminhava resoluto, ao encontro do seu destino final nesta terra em benefício da humanidade. 12 No verso 22 começa uma seção que vai até 16.13, com o objetivo de responder a duas questões especiais, que muito preocupavam os teólogos da época de Jesus e de hoje: “Quem entrará no Reino de Deus?” e “Serão poucos ou muitos os que terão esse acesso privilegiado?”. Apesar das multidões que vinham à procura de curas e outras bênçãos, Jesus não é claro sobre o número dos salvos, mas adverte que muitos tentariam buscar a salvação (entrar no Reino) depois de ser tarde demais (portas fechadas). O verdadeiro salvo não é necessariamente o religioso e bem instruído, mas sim aquela pessoa que, arrependida de sua condição mundana e pecadora, sente o desejo inesgotável de, em Cristo, lutar (no original grego transliterado agõnizõ – concentrar toda a atenção e força), pois a porta é estreita e não permite que passemos carregando nosso “Eu” nem o “mundo” (v.24). Além disso, devemos passar com urgência – sem deixar essa decisão para amanhã – pois poderá não haver mais tempo (2Co 6.2). Imbuídos de toda a santificação, sem a qual não é possível ver o Senhor (Hb 12.14), e cheios do Espírito Santo (Rm 8.4). A mesa no Reino se refere ao grande banquete messiânico (Mt 22.2; Ap 19.9) onde, para surpresa dos judeus ortodoxos e outros legalistas, muitos gentios cristãos estarão presentes (Rm 11.11-25). 13 Herodes Antipas não admitia qualquer perturbação ou revolta nas suas terras, e Jesus estava na Transjordânia, que juntamente com a Galiléia, fazia parte da sua jurisdição. 14 Jesus refere-se a Herodes como a um animal sanguinário, astuto e traiçoeiro. A expressão “hoje e amanhã” era de uso corrente entre os líderes semíticos e significava um período indefinido de tempo, mas determinado exclusivamente por quem expressava a frase (4.43; 9.22). Jesus faz uma referência clara à conclusão da sua obra redentora na terra. 15 Jesus contemplava a parte final da sua vida de sacrifícios e tinha horror do que via, mas estava resoluto. Sua hora ainda não havia chegado, e ele controlava cada momento que antecedia o seu próprio holocausto. Todavia ninguém o sangraria como a qualquer cordeiro, ele daria sua vida no lugar de cada ser humano que aceitasse o seu sacrifício diante de Deus e se arrependesse de seus pecados (Jo 1.12). Morreria em Jerusalém, como os grandes profetas de Deus que pregaram e foram mortos na Cidade Santa antes dele (2.38; Jo 7.30; 8.20; de acordo com Jo 8.59; 10.39; 11.54). 16 Jesus lamenta-se profundamente por Jerusalém e pela nação israelense não haverem dado o devido valor aos muitos e


LUCAS 13, 14

Eis que a vossa Casa vos ficará desabitada! E, com toda a certeza vos asseguro, que não mais me vereis até que venhais a proclamar: ‘Bendito o que vem em nome do Senhor!”.17 35

Jesus cura um hidrópico no sábado Certo sábado, chegando Jesus para comer na casa de um importante fariseu, todos o observavam com atenção.1 2 E aconteceu que à frente dele estava um homem doente, com o corpo todo inchado.2 3 Jesus indagou g aos fariseus e aos mestres na Lei: “É permitido ou não curar no sábado?”. 4 Eles, todavia, ficaram em silêncio. Jesus, por sua vez, tomando o homem pela mão o curou e despediu-se dele. 5 Em seguida, lhes questionou: “Qual de vós, se o seu jumento ou boi cair num poço, não o salvará rapidamente, ainda que seja dia de sábado?”.3 6 Diante disto, eles ficaram sem palavras para responder.

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Os humildes serão exaltados 7 Observando como os convidados escolhiam os lugares de maior destaque ao redor da mesa, Jesus lhes propôs uma parábola:4 8 “Quando por alguém fores convidado para um banquete de casamento, não busques o lugar de honra; pois é possível que tenha sido convidada também outra pessoa, ainda mais digna do que tu. 9 Sendo assim, o anfitrião que aos dois convidou, se aproximará e te pedirá: ‘Dá o lugar onde estás a este’. Então, sob grande humilhação, irás ocupar o último lugar.5 10 Por esse motivo, quando fores convidado, dá preferência aos lugares menos importantes, de forma que, quando passar o anfitrião do banquete, te saúde exaltando: ‘Amigo! Vem, assume um lugar mais importante’. E assim serás honrado na presença de todos os convidados. 11 Portanto, todo o que se promove será envergonhado; mas o que a si mesmo se humilha receberá exaltação”.6

grandes privilégios concedidos por Deus aos judeus (2Pe 3.9). Muitas foram às vezes em que Jesus esteve pregando sobre o Reino em Jerusalém (Jo 2.13; 4.45; 5.1; 7.10; 10.22). Essa mesma exclamação de dor e lamento foi proferida na terça-feira da Semana da Paixão (Mt 23.37,38). 177 Jesus faz um anúncio tremendo! Após sua morte e ressurreição o Espírito de Deus será retirado da Casa de Deus – o Templo de Jerusalém – e será transferido para um outro templo, não feito de pedras ou por mãos humanas, composto dos salvos, os crentes em Cristo (2Co 6.16; 1Pe 2.5). Deus abandonaria o seu Templo e sua Cidade (21.20,24; Jr 12.7; 22.5 de acordo com Zc 12.10; Ap 1.7; Is 45.23; Rm 14.11; Fp 2.10,11), e só seria novamente visto por Jerusalém no dia do seu glorioso retorno. Capítulo 14 1 Os evangelhos registram sete milagres realizados por Jesus em dias de sábado, sendo que cinco deles aparecem em Lucas e os outros dois são narrados por João (Jo 5.10; 9.14). Todas as refeições que os judeus fariseus comiam no sábado eram preparadas no dia anterior conforme as normas da Lei por eles interpretadas. 2 Lucas chama a doença que o homem apresentava pelo nome médico em grego hidropisia, que se refere ao acúmulo de líquidos e fluidos; afetava outras partes do corpo e provocava inchaço generalizado. 3 Manuscritos antigos e fiéis, assim como a KJ de 1611 trazem a expressão “jumento” ao invés de “filho” como aparece em algumas versões. O Comitê de Tradução da KJ entende que essa variante combina melhor com a expressão “boi” que acompanha a frase, e com o contexto mais amplo do ensino de Jesus (13.10-17). Em Dt 5.14 a Lei é determinada tanto para seres humanos quanto para os animais. A ação de Jesus não seria permitida pela lei rabínica dos mestres judaicos, mas sim conforme a Lei mosaica. A letra da Lei, para a pessoa legalista, nega o espírito da própria Lei (Rm 7.6), enquanto a autoridade do Espírito no coração produz a verdadeira justiça da Lei (Rm 8.4). Esse era o ponto de vista que Jesus queria ensinar aos líderes religiosos de sua época: a vida, o amor e a justiça são mais importantes do que milhares de regulamentos e decretos de lei. 4 Jesus já antevia as discussões insensatas por posições e poder na comunidade dos cristãos (22.24) e recomenda que o servo entregue esse assunto ao Pai e aguarde sua promoção em paz, serviço e humildade. 5 Jesus não está falando apenas de boas maneiras, mas da vida espiritual, na qual a humildade é o primeiro requisito para a exaltação, especialmente no Juízo final. 6 Deus não honrará os seus filhos segundo a prática mundana de exaltar aos que têm influência nesta vida, mas conforme o testemunho de Cristo que se doou completamente, revelando uma atitude de total abnegação (Fp 2.6 de acordo com Tg 2.2-4).


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Então Jesus dirige-se ao que o havia convidado e lhe exorta: “Quando deres um banquete ou um jantar, não convides os teus amigos, irmãos, ou parentes, nem teus vizinhos ricos; se assim procederes, eles poderão, da mesma maneira, convidar-te, e desta forma sempre serás recompensado. 13 Pelo contrário, ao dares uma grande ceia, convida os pobres, os deficientes físicos, os mutilados e os que não podem ver. 14 Feliz serás tu, porque estes não têm como te pagar. Entretanto, receberás tua régia recompensa na ressurreição dos justos”.7 12

A parábola do grande banquetee (Mt 22.1-14)

Ora, ao ouvir tais ensinos, um dos que estavam reclinados ao redor da mesa, enunciou: “Feliz será aquele que partilhar do pão no banquete do Reino de Deus!”.8 16 Jesus, contudo, declarou: “Certo homem estava preparando um notável banquete e convidou muitas pessoas. 17 Próximo à hora do início da ceia, enviou seu servo para anunciar aos que haviam sido convidados: ‘Vinde! Eis que tudo está preparado para vós’. 18 Contudo, um por um, começaram a declinar com desculpas. O primeiro alegou: ‘Acabei de adquirir uma grande propriedade, e preciso ir vê-la. Por favor, queiras desculpar-me!’. 15

LUCAS 14 19 Outro conviva explicou-se: ‘Acabei de comprar cinco juntas de bois e preciso ir experimentá-las. Rogo-te que me tenhas por perdoado!’. 20 E outro ainda argumentou: ‘Acabo de me casar, e por esse motivo, não posso ir’.9 21 Diante disso, voltou o servo e tudo relatou ao seu senhor. Então, o dono da casa irou-se sobremaneira e ordenou ao seu servo: ‘Sai agora mesmo para as ruas e becos da cidade e traze para aqui os pobres, os aleijados, os cegos e os coxos’. 22 Mais tarde lhe relatou o servo: ‘Tudo o que o senhor mandou está feito conforme a tua vontade, mas ainda há lugar!’. 23 Então ordenou o senhor ao seu servo: ‘Ide por vários caminhos e atalhos e os que encontrar obriga-os a entrar, para que a minha casa fique repleta. 24 Porquanto vos asseguro que nenhum daqueles que previamente foram convidados provará da minha ceia’”.10

O custo de ser discípulo de Cristo 25 Milhares de pessoas acompanhavam Jesus; então, dirigindo-se �� multidão lhes declarou: 26 “Se alguém deseja seguir-me e ama a seu pai, sua mãe, sua esposa, seus filhos, seus irmãos e irmãs, e até mesmo a sua própria vida mais do que a mim, não pode ser meu discípulo.11 27 Da mesma forma, todo aquele que não

7 Todas as nossas intenções e ações têm sua recompensa. Por isso, o cristão sábio é aquele que age de maneira a agradar a Deus e obter sua aprovação na ressurreição dos justos. Há doutrinas que separam a ressurreição dos justos (1Co 15.23; 1Ts 4.16; Ap 20.4-6) da ressurreição geral (1Co 15.12,21; Hb 6.2; Ap 20.11-15). Todavia, todos serão ressuscitados (Dn 12.2; Jo 5.28,29; At 24.15). Os “justos” são os que forem justificados por Deus por causa do sacrifício expiatório de Jesus Cristo e que tiveram comprovado sua fé mediante as suas ações na terra (Mt 25.34-40). 8 Era comum aos estudiosos das Escrituras associarem o reino futuro de Deus a um grande banquete (13.29; Is 25.6; Mt 8.11; 25.1-10; 26.29; ap 19.9). Jesus aproveita a manifestação deste homem para adverti-los, em forma de parábola, sobre o fato de que nem todos entrariam no Reino de Deus. 9 Os homens deram uma série de desculpas falsas, uma vez que ninguém compra terras e propriedades sem ver, ou bois de arado sem experimentá-los. Nem mesmo a rigidez das cerimônias matrimoniais dos antigos judeus privaria o jovem marido de levar sua esposa ao banquete e atender ao convite do seu senhor. 10 A parábola do maravilhoso banquete (grande Ceia) nos ensina: Deus convida a humanidade para entrar em Seu Reino e cear com Ele e seus amigos. Obviamente não há desculpas para não aceitar tal honra, e qualquer recusa será entendida como uma afronta. O evangelho é ministrado de graça e tudo já está preparado para o grande evento. Os homens procuram eximir-se da responsabilidade de atender ao convite do Senhor, pois preferem cuidar de suas propriedades terrenas a fazer parte do Reino (Jo 3.3,5); preferem trabalhar, ganhar, comprar e vender seus bens temporais a receber o Reino eterno de graça (Ef 2.8,9); preferem seus relacionamentos no mundo, como o casamento, às bodas no céu. Assim que a Casa estiver com sua lotação preenchida, virá o fim dos séculos e a completa implantação do Reino de Deus (Rm 11.25). 11 Jesus apreciava o uso das figuras de linguagem a fim de dar maior significado e amplitude aos seus ensinos. Aqui, ele


LUCAS 14, 15

carrega a sua própria cruz e segue após mim não pode ser meu discípulo.12 28 Porquanto, qual de vós, desejando construir uma torre, primeiro não se assenta e calcula o custo do empreendimento, e avalia se tem os recursos necessários para edificá-la? 29 Para não acontecer que, havendo providenciado os alicerces, mas não podendo concluir a obra, todas as pessoas que a contemplarem inacabada zombem dele, 30 proclamando: ‘Este homem começou grande construção, mas não foi capaz de terminá-la!’13 31 Ou ainda, qual é o rei que, pretendendo partir para guerrear contra outro rei, não se assenta primeiro para analisar se com dez mil soldados poderá vencer aquele que vem enfrentá-lo com vinte mil? 32 Se chegar à conclusão de que não poderá vencer, enviará uma delegação, estando o inimigo ainda longe, e solicitará suas condições de paz. 33 Assim, portanto, todo aquele dentre

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vós que não renunciar a tudo quanto de mais estimado possui não pode ser meu discípulo.14 34 Portanto, bom é o sal, mas ainda ele, se perder o sabor, como restaurá-lo? 35 Não serve nem para o solo nem mesmo para adubo; será apenas lançado fora. Aquele que tem ouvidos para ouvir, ouça!”.15 Jesus come com os pecadores E aconteceu que todos os pecadores, como os coletores de impostos e pessoas de má fama estavam se reunindo para ouvir a Jesus. 2 Entretanto, os fariseus e os mestres da Lei o censuravam murmurando: “Este saúda e se mistura a pessoas desqualificadas e ainda partilha do pão com elas”.1

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A parábola da ovelha perdida (Mt 18.10-14)

Foi então que Jesus lhes propôs a seguinte parábola:2 4 “Qual, dentre vós, é homem que, pos3

se vale de uma hipérbole vívida (exagero) para revelar que o ser humano deve amar a Deus (Cristo) de forma mais completa e abnegada, que a si próprio e à sua família imediata (Mt 10.37). A expressão “aborrece” como aparece em algumas versões, tem o sentido de “amar menos...” e significa submeter tudo, de forma absoluta, inclusive a própria pessoa, a um compromisso total com Cristo (16.13). 12 A expressão grega original carregar a sua cruzz aparece em algumas versões como tomar a sua cruz, mas tem o mesmo sentido de seguir o exemplo de Cristo, consagrar-se absolutamente a Deus, não exatamente numa rebelião política ou militar contra Roma, mas na causa do Reino, até o martírio. Em contraste com a vinda de Cristo para a salvação (Mt 11.28), devemos segui-lo em todos os momentos, dia após dia, como discípulos fiéis. O custo do discipulado é a nossa rendição total ao Espírito Santo em amor. Essa consagração deve ser maior e mais íntima do que todas as nossas afeições familiares (v.26), maior do que todas as nossas vontades pessoais de carreira e sucesso (v.27), e maior do que nossa estima ao dinheiro, bens e poder (33). Paulo compreendeu e pregava esse mistério (Fp 3.8). 13 Jesus é bem claro em nos advertir quanto à importância de não aceitarmos o compromisso do discipulado sem pensar bem sobre seu alto custo e implicações eternas. Por isso não é correto pregarmos somente sobre as bênçãos de andarmos com Cristo; devemos igualmente explicar a todos sobre a grande responsabilidade assumida com Deus por meio dessa decisão pessoal. O perigo de uma decisão irresponsável e insincera é duplo: a zombaria pelo fracasso nesta vida, e a perda total na outra (Hb 2.1-3). 14 Jesus usa mais duas parábolas para frisar o custo de viver como cidadão do Reino na terra, bem como o preço que será pago por todos aqueles que não aceitarem o convite do Senhor para o notável banquete. O ser humano sábio é como o rei consciencioso, que ao perceber o poder do Reino que se avizinha, não espera o confronto final, mas se rende e busca a paz. 15 Cristo compara o crente morno, espiritual e moralmente irresponsável, que não reflete sobre a importância da sua decisão de seguir o Evangelho, com um tipo de sal que havia na Palestina no século I, o qual era tão impuro que perdia o pouco cloreto de sódio que abrigava. Não servia para fertilizar o solo, nem mesmo para decompor-se de modo útil em meio ao esterco (Ap 3.16). Capítulo 15 1 Os fariseus e os escribas (mestres da Lei) eram visceralmente contra os coletores de impostos (publicanos) e contra toda pessoa que não cumprisse rigorosamente as suas doutrinas e normas religiosas de comportamento. Referiam-se a essas pessoas como “pecadores” (pessoas de má reputação). Cristo não apenas recebe o “pecador” como oferece a ele a Salvação (representada na partilha do pão). É importante lembrar que Jesus jamais participou do pecado, mas sempre amou aos pecadores e para libertá-los das garras do pecado foi que Ele veio e entregou sua vida (3.12, vs. 4,8; Mc 2.15; At 11.3; 1Co 5.11; Gl 2.12). 2 Jesus responde ao questionamento dos legalistas com histórias de fundo teológico, filosófico e moral que contrapunham o amor longânime de Deus ao exclusivismo dos fariseus, escribas e líderes religiosos. As três parábolas que se seguem: a do


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suindo cem ovelhas e perdendo uma delas, não deixa no campo as noventa e nove e vai em busca da que se extraviou, até que a encontre?3 5 E assim que a encontra, coloca-a por sobre os ombros cheio de júbilo 6 e ruma para casa. Ao chegar, reúne seus amigos e vizinhos e anuncia: ‘Alegrai-vos comigo, pois hoje encontrei minha ovelha perdida’. 7 Eu vos afirmo que, da mesma maneira, haverá muito mais alegria no céu por um pecador que se arrepende do que por noventa e nove justos que não carecem de arrependimento.4 A parábola da moeda perdida 8 Ou ainda, qual é a mulher que, possuindo dez dracmas e, perdendo uma delas, não acende uma candeia, varre a casa e a procura diligentemente até encontrá-la? 9 E, tendo-a achado, reúne suas amigas e vizinhas e proclama: ‘Alegrai-vos comigo, porque agora achei minha dracma perdida’. 10 Eu vos asseguro que, de igual modo,

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há grande júbilo na presença dos anjos de Deus por um pecador que se arrepende”.5 A parábola do filho perdido 11 E Jesus continuou: “Um homem tinha dois filhos. 12 O mais novo reivindicou do seu pai: ‘Pai, dá-me a parte da herança a que tenho direito’. E consentindo, o pai repartiu sua propriedade entre eles.6 13 Não se passou muito tempo, e o filho mais novo reuniu tudo o que tinha, partindo para terras distantes; e lá esbanjou todos os seus bens, vivendo de forma irresponsável. 14 Coincidentemente, após haver gasto tudo o que possuía, abateu-se sobre toda aquela região uma grande fome, e ele começou a passar muita necessidade.7 15 Por esse motivo foi empregar-se com um dos cidadãos daquela região, que o mandou para o campo a fim de cuidar dos porcos.8 16 Ali, chegou a ter vontade de encher o estômago com as vagens de alfarrobeira com as quais os porcos eram alimenta-

pastor que busca; a da mulher que sofre com a perda; e do pai que jamais deixa de amar e perdoa, ensinam o significado do arrependimento (12.54). A volta dos que se extraviaram produz um enorme regozijo no coração de Deus. 3 Referências ao pastor e o pastoreio eram comuns durante toda a história do povo judeu. Grandes líderes nacionais e profetas apreciavam esse tema (Sl 23; Is 40.11; Ez 34.11-16). Algumas versões trazem a expressão “deserto”, todavia não tem a ver com dunas de areia, mas com campos de pasto não cultivados (Jo 6.10). Jesus nos exorta, como cristãos, a “ir em busca” dos perdidos – como maior estratégia de evangelização – e não simplesmente adotarmos uma postura insensível, crítica e punitiva (14.21,23). Deus em Cristo é nosso maior exemplo de evangelista. Seu amor e persistência em procurar salvar a humanidade ultrapassam a gravidade do pecado humano e a sua própria soberania intocável (Ez 34.6,11 em relação a Gn 3.9,10). 4 Jesus, em algumas ocasiões, valia-se da ironia para destacar o pecado e completa miopia espiritual daqueles que deveriam ser homens de Deus perante seu povo. Os que se consideram justos não sentem a necessidade de se arrepender dos seus pequenos delitos, e acabam pecando por sua arrogância, orgulho e insensibilidade. 5 Lucas faz referência a uma moeda grega (dracma) e não romana (denário). O valor monetário dessas moedas era próximo e equivalia a um dia de trabalho (Mt 20.2). As casas da Palestina, na época de Jesus, não tinham janelas, e o chão era de barro, o que tornava ainda mais difícil a localização de uma pequena moeda. 6 Um pai judeu podia dividir sua herança entre os filhos quando desejasse (garantindo ao filho mais velho o dobro de todos os bens da família, conforme Dt 21.17 e outros textos da Torá), retendo para si, entretanto, as respectivas rendas que obtinha com a propriedade, até sua morte. Contudo, era extremamente incomum dar ao filho mais novo a sua porção na herança mediante qualquer solicitação. Jesus mostra filosoficamente que foi a humanidade, representada pela nação judaica, que insistiu para deixar a companhia de Deus, retirando-se para regiões distantes, áridas e sombrias. 7 A intenção do filho de abandonar suas terras onde vivia com a família e sob os cuidados do seu pai, para viver em completa liberdade, sem precisar prestar contas de seus atos, numa região distante, junto a um povo com outros costumes e cultura, fica bem clara quando ele parte levando consigo tudo o que possuía, sem deixar para trás absolutamente nada à espera de um possível retorno. Queria ficar livre das orientações e restrições impostas pelo pai, gastando conforme o seu bel prazer (hedonismo) sua parte das riquezas que a família havia conquistado, com trabalho árduo, ao longo de muito tempo de disciplina e força de vontade (Sl 107). 8 A maior das vergonhas e dos castigos para um judeu era ter que se aproximar ou lidar com porcos, pois desde a antiguidade judaica esses animais representavam a impureza, a imundícia e o afastamento total de Deus (Lv 11.7).


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dos, no entanto, ninguém lhe dava absolutamente nada. 17 Foi quando, caindo em si, falou consigo mesmo: ‘Quantos empregados de meu pai têm comida com fartura, e eu aqui, morrendo de fome!9 18 Levantar-me-ei, tomarei o caminho de volta para meu pai, e ao chegar lhe confessarei: Pai, pequei contra o céu e contra ti. 19 Não sou mais digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus trabalhadores’. 20 E, logo em seguida, levantou-se e saiu na direção do pai. Vinha caminhando ele ainda distante, quando seu pai o viu e, pleno de compaixão, correu ao encontro do seu filho, e muito o abraçou e beijou. 21 Então, o filho lhe declarou: ‘Pai, pequei contra o céu e contra ti. Não sou mais digno de ser chamado teu filho!’. 22 Entretanto, o pai ordenou aos seus servos: ‘Trazei depressa a melhor roupa, vesti-o com distinção, ponde-lhe o anel de autoridade e as sandálias de filho.10 23 Também trazei o novilho gordo e o preparai. Comamos, façamos uma grande festa e regozijemo-nos! 24 Porquanto este meu filho estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi encontrado’. E começaram a celebrar o seu regresso.11 25 Entrementes, o filho mais velho estava

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no campo. Quando foi se aproximando da casa do pai, ouviu o som da música e das danças. 26 Então chamou um dos servos e indagou-lhe sobre o que estava acontecendo. 27 Este informou: ‘Teu irmão regressou, e teu pai mandou matar o novilho gordo, porque o recebeu de volta são e salvo!’. 28 Mas o filho mais velho encheu-se de ira, e negou-se a entrar. Então o pai saiu e insistiu com ele.12 29 Porém ele replicou ao pai: ‘Há tantos anos tenho trabalhado como um escravo para ti sem nunca ter desobedecido a uma só ordem tua. Contudo, tu nunca me ofereceste nem ao menos um cabrito para que pudesse festejar com meus amigos. 30 No entanto, chegando em casa esse teu filho, que pôs fora os teus bens com prostitutas, tu ordenaste matar o novilho gordo para ele!’.13 31 Então, lhe arrazoou o pai: ‘Meu filho, tu sempre estás comigo; tudo o que possuo é igualmente teu.14 32 Porém, nós tínhamos que celebrar muito à volta deste teu irmão e regozijarmo-nos, porque ele estava morto e reviveu, estava sem esperança e foi salvo!’”. A parábola do administrador infiel E contou Jesus ainda aos seus discípulos: “Havia um homem rico

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9 Os revezes, quedas, erros e toda sorte de insucessos representam grandes oportunidades para nos achegarmos ao Senhor, confessarmos amarguras, ressentimentos, fraquezas e pecados, e abraçarmos uma nova perspectiva de vida que não se limita a esta terra, nem a este tempo: é eterna. A Bíblia revela uma humanidade insensata afastando-se do seu Criador, desesperadamente necessitada de recobrar o bom senso (cair em si). 10 No contexto cultural da época e, em respeito ao significado dos termos originais do texto bíblico, cada um dos elementos do vestuário que o pai ordenou que fossem trazidos para seu filho maltrapilho (apenas um símbolo da sua condição espiritual), tinha um significado maior, que não pode ficar ausente do texto correspondente em língua portuguesa. A longa veste representava distinção, o anel de sinete era um símbolo de autoridade e tradição de família (Gn 41.42), e as sandálias demonstravam que ele era filho do senhor daquelas terras, uma vez que os escravos andavam descalços. Um novilho era engordado (cevado) por anos, na expectativa de ser abatido, assado e comido por todos, em uma ocasião memorável. 11 Morto ou perdido é o estado de uma pessoa que perdeu o contato com Deus (Rm 6.13; Ef 2.1) e, por isso, não participa mais da vida de ressurreição e completo resgate em Cristo (Jo 11.25). 12 O amor misericordioso e perdoador do pai simboliza a divina misericórdia de Deus, e o ressentimento punitivo do irmão mais velho assemelha-se à atitude legalista dos fariseus e líderes religiosos que se opunham aos pecadores, gentios e, muito especialmente, a Jesus. 13 O irmão mais velho havia obedecido a seu pai por medo e mera obrigação ritual. Entretanto, colecionava cada amargura em silêncio. O cabrito era considerado um alimento inferior, bem menos caro do que um novilho gordo. O preconceito e o ódio do irmão mais velho não permitiram que ele reconhecesse em seu irmão mais novo o mesmo sangue de família, e, portanto, pudesse também comemorar a sua salvação (livramento, cura). 14 O mesmo ocorre com muitos filhos de Deus; tudo está ao nosso dispor – todas as riquezas do Pai – em Cristo (Ef 1.3). A inveja e a arrogância, contudo, impedem o seu amplo e completo usufruto.


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que mantinha um administrador; este porém, foi acusado de estar esbanjando os bens do seu patrão.1 2 E aconteceu, que mandando-o chamar, o interrogou: ‘Que é isso que chega a mim a teu respeito? Presta contas da tua administração, porquanto já não podes continuar com essa responsabilidade!’. 3 Diante disso, falou o administrador consigo mesmo: ‘Meu senhor está me despedindo. Que farei? Trabalhar na terra, não tenho força; quanto a viver esmolando, tenho vergonha. 4 Já sei o que farei para que, quando perder o cargo de administrador, as pessoas continuem a me receber em suas casas’.2 5 Tendo chamado cada um dos seus devedores, indagou ao primeiro: ‘Quanto deves ao meu senhor?’. 6 Replicou ele: ‘Cem potes de azeite’. Ao que o administrador lhe autorizou: ‘Toma a tua conta, assenta-te depressa e escreve cinqüenta!’.3 7 Em seguida, questionou outro: ‘E tu,

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quanto deves?’ Respondeu ele: ‘Cem tonéis de trigo’. E o administrador lhe orientou: ‘Toma a tua conta e escreve oitenta!’.4 8 Então, o senhor elogiou aquele administrador da injustiça, pois agiu com sabedoria. Porquanto os filhos deste mundo são mais sagazes entre si, na conquista dos seus interesses, do que os filhos da luz em meio à sua própria geração.5 9 Portanto, Eu vos recomendo: Usai as riquezas deste mundo ímpio para ajudar ao próximo e ganhai amigos, para que, quando aquelas chegarem ao fim, esses amigos vos recebam com alegria nas moradas eternas.6 10 Quem é fiel no pouco, também é fiel no muito, e quem é desonesto no pouco, também é desonesto no muito.7 11 Assim, se vós não fores justos em lidar com as riquezas deste mundo ímpio, quem vos confiará a verdadeira riqueza? 12 Se, portanto, não vos tornastes dignos

1 Esta parábola tem forte ligação com a anterior. Aqui, um mordomo ou gerente de patrimônio é denunciado como esbanjador (pródigo, defraudador, dissipador) dos bens do dono das terras e propriedades sobre as quais tinha o dever de bem administrar e gerar lucros. 2 Uma antiga prática comercial judaica era aumentar excessivamente os preços, no caso de pagamentos a longo prazo. Isso para evitar a cobrança de juros, o que não era permitido pela Torá, especialmente entre os judeus (Dt 23.19). Muitos estudiosos defendem a tese de que o administrador procurou os devedores do seu patrão e, renegociando as dívidas com base em valores justos, para pagamento à vista, conseguiu receber um alto volume de recursos financeiros, agradando e conquistando assim o bom favor dos seus devedores, bem como satisfazendo os interesses do seu senhor. 3 Cem potes de azeite, ou como aparece em algumas versões: “cem cados de azeite”, correspondem à produção de aproximadamente 450 oliveiras. Cerca de 400 litros de azeite puro. Normalmente os administradores colocavam um preço ainda mais alto no azeite, pois no caso de apropriação, por falta de pagamento, era costume adulterar o azeite com outros óleos para aumentar o volume devolvido. 4 Cem tonéis de trigo, ou como aparece em algumas versões: “cem coros de trigo”, correspondem à produção de aproximadamente 100 acres de terra plantada. Cerca de 36.000 quilos de trigo colhido. 5 O que Jesus elogia não é, evidentemente, a desonestidade do administrador, mas sim a sua engenhosidade em usar os problemas e as oportunidades que estavam presentes para se preparar para um futuro inóspito que ele antevia. Da mesma forma, o cristão deveria investir todos os recursos que possui nesta vida no serviço de Deus e do Evangelho, em benefício dos seus semelhantes, a fim de assegurar galardões e grandes recompensas no céu e na vida eterna. A expressão “filhos deste mundo” (no original grego transliterado: tou aionos toutou) era uma frase comum para indicar o período anterior à vinda do Messias e o Seu Reino. Os cristãos fiéis, “os filhos da luz”, devem dar mais valor e atenção à eternidade (Jo 8.12; 12.36; Ef 5.8). 6 O vocábulo grego original transliterado: adika, traduzido aqui, por algumas versões, como iníqua não indica uma falta de justiça ou ética pessoal; mas, a característica geral desta era, portanto, “deste mundo” (sociedade) em que vivemos (v.11; 1Jo 5.19). O povo de Deus deve estar disponível e motivado para usar todos os recursos que o próprio Senhor lhe tem concedido, na gloriosa tarefa de ajudar o próximo, e fazer discípulos de Cristo por meio da amizade sincera. A obra de amor ao próximo deve ser realizada com fidelidade, quer seja com poucos ou com muitos recursos. Esses amigos, discípulos de Cristo, estarão no céu (nos tabernáculos ou moradas eternas) e serão eternamente gratos por nossas atitudes de amor cristão. Dessa forma, as riquezas acumuladas neste mundo podem ser investidas para conquistar benefícios eternos. 7 A lealdade e a fidelidade não são determinadas pelo montante confiado, mas pelo caráter da pessoa que faz uso dele (19.17; Mt 25.21).


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de confiança em relação ao que é dos outros, quem vos dará o que é vosso?8 13 Nenhum servo pode devotar-se a dois senhores; pois odiará um e amará outro, ou dedicar-se-á a um e desprezará ao outro. Jamais podereis servir a Deus e ao Dinheiro!”.9

João. Dessa época em diante estão sendo pregadas as Boas Novas do Reino de Deus, e todos tentam conquistar sua entrada no Reino. 17 Contudo, é mais fácil os céus e a terra desaparecerem do que cair um traço da menor letra de toda a Lei.11

Jesus reprova a avareza 14 Os fariseus, conhecidos por sua avareza, escutavam tudo isso e procuravam ridicularizar a Jesus. 15 Ele, no entanto, lhes admoestou: “Vós sois os que justificais a vós mesmos à vista das pessoas, todavia Deus conhece o vosso coração; pois àquilo que as pessoas atribuem grande valor é detestável aos olhos de Deus.10

Cuidado para não deturpar a Lei

A Lei, os Profetas e o Reino 16 A Lei e os Profetas profetizaram até

(Mt 19.9; Mc 10.10-12)

Quem se separar de sua esposa e se unir a outra mulher estará cometendo adultério; assim como, o homem que se casar com uma mulher divorciada estará igualmente adulterando.12 18

O rico avarento e Lázaro 19 Havia um certo homem rico que se vestia de púrpura e de linho finíssimo e que despendia todos os dias de sua vida de forma regalada.

8 Nessa vida nada nos pertence, somos apenas administradores (mordomos) dos bens do Senhor. No céu, entretanto, receberemos nossa herança e o direito de possuí-la (Sl 24.1). 9 A palavra grega original para “servir” é douleuen, que significa “ser escravo” (Rm 1.1). Nem sempre a escravidão era cruel ou jugo involuntário. Havia muitos senhores sábios e justos para com seus escravos, bem como algumas pessoas que se voluntariavam para servir com absoluta dedicação a certos senhores em troca de proteção e segurança. A expressão grega: mamõna, é uma palavra de origem aramaica que significa tudo o que pode ser adquirido por meio das riquezas. Lucas, mais que qualquer outro evangelista, destaca os “santos pobres” e o perigo do amor a Mâmon: o deus do dinheiro. Uma pessoa pode dedicar-se de todo o coração ao serviço de um ou outro, mas não de ambos (Cl 3.5; Mt 6.24 conforme Tg 4.4). 10 Os fariseus apreciavam receber o louvor e os elogios das pessoas, especialmente por causa de sua cultura, aparente rigidez religiosa e oratória (Jo 5.44; 12.43), mas Deus, que sonda os corações e o íntimo de cada ser humano, vê os motivos egoístas que são abomináveis para Ele. 11 A vida e o ministério de João Batista, que preparou o caminho para Jesus, o Messias, marcou a linha divisória entre o AT (a Lei e os Profetas) e o NT (o Evangelho da Nova Aliança – Hb 8.6-12 conforme Jr 31.31-34). No Evangelho, a salvação é dada inteiramente pela graça, de modo que, mesmo não sendo judeus “zelosos da Lei”, como os fariseus, muitos estão – a cada dia – entrando no Reino de Deus seguindo o difícil, estreito e desprezado Caminho de Cristo (14.27). É a vida e o ministério de Cristo que trazem uma nova e derradeira oportunidade de salvação à humanidade caída (Nova Aliança). Cumprindo assim, nos menores detalhes, toda a Lei (Antiga Aliança). Jesus ilustra o completo cumprimento da Lei e suas profecias, assegurando que nem um pequeno traço gráfico (algumas versões o chamam impropriamente de “til” ao tentar uma correspondência com a língua portuguesa) da menor letra do alfabeto hebraico se apagaria da Lei até que fosse cumprido (Mt 5.17-18). 12 Jesus toca sabiamente em um assunto delicado já naquela época. Os fariseus, apesar de todo o seu zelo e legalismo, haviam se tornado extremamente permissivos em relação ao divórcio. Alguns mestres judaicos como Hillel concediam divórcio pelos motivos mais triviais; por exemplo, se uma esposa deixasse queimar ou azedar o almoço do marido. Aquibá, outro jurista fariseu, chegou ao ponto de permitir o divórcio a maridos que se queixaram da beleza de suas esposas e desejavam casar com outra mais bonita. Além disso, apenas aos homens era dado o direito do divórcio. As mulheres eram obrigadas a permanecer casadas enquanto os maridos as desejassem. Jesus notou que os fariseus haviam transformado a Lei numa zombaria e, por isso, fazia questão de expor os juristas e religiosos da época ao ridículo de suas práticas injustas. Jesus ensinou que o alvo maior da Lei não é o divórcio, mas sim orientar o casal para que se ame, respeite e viva em harmonia e companheirismo por toda a vida terrena. Deus criou o casamento de modo que dois seres humanos se tornem um e dêem seqüência à raça humana como uma grande família (Gn 2.24). O divórcio nada mais é do que uma disposição por causa do egoísmo, insensibilidade e arrogância – “dureza de coração” – a que chegaram os homens (Mc 10.5). Descasar e casar de novo é uma alteração (adultério, deformação) da vontade original de Deus para o homem e a mulher; assim como os fariseus estavam fazendo com toda a Lei. De passagem, Jesus estava defendendo publicamente a posição de João a respeito do procedimento de Herodes Antipas para se unir a Herodias (Mt 14.1-4). Mateus revela mais sobre o ensino de Jesus em relação ao divórcio (Mt 5.31,32; 19.9), tema que também aparece em outros textos bíblicos (Mc 10.11,12; 1Co 7.10,11).


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E havia também um outro homem, chamado Lázaro, que coberto de chagas, vivia a esmolar, e fora abandonado no portão do homem rico.13 21 Lázaro ansiava por alimentar-se ao menos das migalhas que porventura viessem a cair da mesa do rico. Até os cães vinham lamber suas feridas. 22 E assim, chegou o dia em que o mendigo morreu e os anjos o levaram para junto de Abraão. Entretanto, o homem rico também morreu e foi sepultado.14 23 Mas no Hades, onde estava em tormentos, ele olhou para cima e observou Abraão ao longe, com Lázaro ao seu lado. 24 Então, gritou: ‘Pai Abraão! Tem compaixão de mim e manda a Lázaro que molhe em água a ponta do dedo e me refresque a língua, porquanto 20

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estou sofrendo muito em meio a estas chamas!’15 25 No entanto, Abraão lhe replicou: ‘Filho, recorda-te de que recebeste todos os teus bens durante a tua vida, e Lázaro foi afligido por muitos males. Agora, entretanto, aqui ele está sendo consolado, enquanto tu estás padecendo.16 26 E, além do mais, foi colocado um grande abismo entre nós e vós, de maneira que os que desejem passar daqui para vós outros não consigam, tampouco passem de lá para o nosso lado’. 27 Diante disso, suplicou: ‘Pai, então eu te imploro que mandes Lázaro à casa de meu pai, 28 pois tenho cinco irmãos. Permite que ele os avise, a fim de que eles também não venham para este terrível lugar de sofrimento’.

13 Jesus conta uma outra história. Desta feita um homem rico e avarento vivia de forma perdulária. Insensível, não atentava para as necessidades de Lázaro, um mendigo cujo nome em hebraico significa: “Deus me socorreu”, e que fora deixado na entrada da mansão do homem rico. A palavra grega transliterada: esbebleto significa literalmente, “foi jogado”. Lucas, como médico, nos informa sobre a extensão e a gravidade das feridas do pobre Lázaro, usando uma expressão médica, muito específica em grego, e que só aparece aqui no NT “chagas”. 14 O Talmude menciona tanto o paraíso (23.43) quanto o lado de Abraão (tradicional e literalmente chamado de “seio de Abraão”), como sendo o lar eterno dos justos. Estar junto a Abraão significa estar em um lugar de paz e felicidade (o verdadeiro Shabbãth – repouso), para onde vão todos os justos após a morte e ficam aguardando o Dia do Senhor, a vindicação futura e final. O rico avarento demonstra todas as características de um saduceu da época: riquezas, amor excessivo ao luxo, dinheiro e bens materiais. Também não acreditavam na vida após a morte (At 23.8), e limitavam o cânon bíblico aos livros de Moisés (a Torá). Em contraste com o “administrador astuto” e sua preocupação quanto ao seu futuro (v.4-9), este rico, como o “tolo” (12.16), foi indiferente à sua própria condição e ao sofrimento dos seus semelhantes no presente, e não se preocupou com o juízo futuro. Sua atitude quanto à vida ilustra bem o princípio revelado no v.15b. 15 Algumas versões trazem aqui a palavra “inferno”. Entretanto, Hades não é geena, como em Mt 5.22. Hades ou Sheoll (em hebraico), refere-se ao lugar para onde vão todas as almas após a morte física. O Hades é dividido em duas áreas: o paraíso e o lugar de tormento, onde os ímpios esperam pelo Juízo final para a condenação (Ef 4.9; Ap 20.11-15). Que os tormentos começam no Hades fica evidenciado pela lastimável situação desse rico avarento. O Hades inclui os castigos característicos do fogo do inferno (lago de fogo e enxofre, Ap 20.10; agonia extrema, Ap 14.11; separação total e definitiva, Mt 8.12). O paraíso (seio de Abraão – 22; 13.28) está separado por um abismo instransponível entre o mundo inferior e os “lugares celestiais” (2Co 12.4; Ap 2.7; 6.9). Nesta história o Senhor ensinou que existe plena consciência após a morte. A memória do passado não é anulada no outro mundo. O inferno é um lugar de sofrimento eterno. Não existe uma segunda chance de salvação após a morte. É impossível qualquer comunicação entre mortos e vivos. Todavia, há alguns teólogos que entendem de modo menos literal essa descrição feita por Jesus sobre estar “no seio de Abraão” ou no Hades. 16 Os dois homens desejaram muito algumas coisas. O rico avarento desejou e amou suas riquezas e o glamour do luxo e do poder, e recebeu tudo do que mais queria. Durante toda a sua vida perdulária, muitas vezes passou ao lado do mendigo, mas jamais sentiu compaixão pelo seu semelhante atirado a uma situação tão degradante, sem forças nem qualquer auxílio. Lázaro sonhava com uma oportunidade de vida digna, a cura física e qualquer alimento ou ajuda que viesse daquele seu semelhante tão próximo e tão rico. Esperou até a morte pela realização dos seus sonhos, mas morreu em silenciosa esperança, resignado. Aceitou a vontade de Deus até o fim. Entretanto, a vida não acaba na sepultura, e na eternidade, a situação desses dois seres humanos sofreu grande inversão. O rico avarento, que jamais precisara pedir coisa alguma, agora experimenta o que significa mendigar, e suplica algumas gotas de água a Abraão (a quem chama de Pai, mas em nome de quem nunca agiu como filho) usando palavras semelhantes às que Lázaro usara para lhe implorar algumas migalhas de pão. Mesmo assim, considerava que Lázaro poderia servi-lo. O inferno é um lugar de padecimento constante e eterno, de onde pode ser contemplado o que jamais se alcançará (v.23), e de onde os condenados se lembrarão do passado com saudade insaciável e terrível remorso (v.25), como uma espécie de sede sem alívio (v.24).


LUCAS 16, 17 29 Contudo, Abraão lhe afirmou: ‘Eles têm

Moisés e os Profetas; que os ouçam!’.17 30 Mas ele insistiu: ‘Não, pai Abraão! Se alguém dentre os mortos for ter com eles, certamente se arrependerão’. 31 Abraão, concluindo, lhe afirmou: ‘Se não ouvem a Moisés e aos Profetas, tampouco se permitirão converter, ainda que ressuscite alguém dentre os mortos!’.18 Aviso quanto aos escândalos (Mt 18.6-7; Mc 9.42)

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Então Jesus declarou aos seus discípulos: “É inevitável que fatos ocorram que levem o povo a tropeçar na fé, mas ai da pessoa por meio de quem vêm os escândalos! 2 Seria melhor que tal pessoa fosse atirada ao mar com uma pedra de moinho amarrada ao pescoço, do que induzir um destes pequeninos a pecar.1 Repreender e perdoar os irmãos (Mt 18.21-22) 3 Tende cuidado de vós mesmos. Se teu irmão pecar contra ti, repreende-o e, caso ele venha a se arrepender, perdoa-lhe.

64 4 Se, contra ti pecar sete vezes ao dia, e por sete vezes vier a ter contigo, dizendo: ‘Arrependo-me do que fiz’. Perdoa-lhe!”. 5 Diante disso, pediram os apóstolos ao Senhor: “Aumenta a nossa fé!”.2 6 Ao que encorajou-os o Senhor: “Se tiverdes fé do tamanho de uma semente de mostarda, podereis dizer a esta amoreira: ‘Arranca-te e transplanta-te no mar; e ela vos obedecerá’.3 7 Qual de vós, tendo um escravo arando a terra ou apascentado as ovelhas, assim que ele chegar do campo, o convidará: ‘Podes vir agora mesmo, reclina-te junto à mesa para cear’? 8 Ao contrário. Conforme o costume direis a ele: ‘Prepara o meu jantar, aprontate devidamente e então vem e serve-me enquanto como e bebo; depois tu, comerás e beberás também’. 9 Porventura, deverá agradecer ao escravo porque este fez o que lhe havia mandado? 10 Assim igualmente vós, depois de haverdes realizado tudo quanto vos foi ordenado, dizei: ‘Somos servos inúteis, pois tão somente cumprimos o nosso dever!’”4

177 Referir-se a “Moisés e os Profetas” era um meio comum de mencionar todo o AT. O rico avarento não prestara atenção às Escrituras e aos seus ensinamentos, e agora temia que seus irmãos caíssem no mesmo erro. 18 Lucas mostra que essa história não trata apenas do cuidado que devemos ter com nossos desejos, ambições e atitudes durante esta vida. No final Jesus menciona sua ressurreição (v.31; 9.22) para fazer uma importante revelação: se a mente e o coração de uma pessoa estiverem refratários ao Espírito do Senhor, e as Escrituras Sagradas forem rejeitadas, nenhum tipo de prova – nem mesmo uma ressurreição – fará essa pessoa mudar de opinião (Jo 5.45-47). Nem a ressurreição de Lázaro, amigo de Jesus, em Betânia, nem mesmo a de Cristo foram capazes de persuadir os arrogantes e legalistas líderes religiosos a se arrependerem (Jo 11.47 – 12.11), mas no coração de muitas outras pessoas houve fé, e foram salvas. Capítulo 17 1 Jesus se refere especialmente aos líderes religiosos e previne seus discípulos para evitarem qualquer escândalo (em grego: skandala – que significa literalmente, “tentações ao pecado”). Lucas coloca esse texto numa seqüência de advertências sobre o uso das riquezas e o correto ensino das Escrituras. Todos os cristãos devem cuidar-se para não se tornarem “pedra de tropeço”. Ou seja, motivo de desânimo espiritual ou pecado que afaste os mais novos na fé (de qualquer idade) ou os imaturos do Caminho do Senhor (17.23; 21.8; Mt 18.6; Mc 9.43; Rm 14.13). 2 A palavra original, aqui traduzida por “repreende-o” tem o sentido de “corrigir com amor”. Jesus ensina que seus seguidores devem perdoar tudo, em todos, e sempre (Mt 18.21). Como cristãos temos não somente a obrigação, mas o poder de perdoar o arrependido, assim como Deus perdoa (15.1-32; Mt 6.14,15). Apesar de todas as dificuldades para cumprir esse mandamento do Senhor, sua prática produz enormes, profundas e eternas bênçãos. Evidentemente, a fé é tão essencial para perdoar quanto para pedir e receber perdão. 3 Os apóstolos imediatamente pediram mais fé ao Senhor para conseguirem cumprir o mandamento do perdão. Jesus nos ensina que para cumprir essa ordenança e viver a vida cristã com coerência e frutos espirituais (abundância, plenitude, Jo 10.10), não é necessário uma grande fé, mas fé em um grande Deus. J