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distribuiçãogratuita|vendaproibida

ano3|número2|set-out-nov2013


RodolfoAthayde,Barcelona,1984

RODOLFOATHAYDE Oartistaplástico,fotógrafo,videomakeremédico,Rodolfo Athayde,responsávelpelafotografiaqueilustraacapa(e outraspáginasnestaedição)daSegundaPessoa,nasceu emJoãoPessoa-PB(1952),e,enquantocursavaseu doutoradoemAngiologia,emBarcelona,noiníciodosanos 1980,passouaseinteressarporartesplásticas,momento quecomeçouafrequentaraulascomosartistasPèreCarae CésarLopezOzornio. AovoltaraoBrasil,em1984,rendeu-sedefinitivamenteà atividadeartísticadividindoseutempoentreoateliê,o consultórioeasaulasnaUniversidadeFederaldaParaíba (nocursodeMedicina).Umdosprincipaisrepresentantes nordestinosdaGeração80,participoudosprincipaissalões deartedopaís,entreosanos1980-90,quandoabocanhou maisdedezprêmios(nacategoriaPintura),apassouter obrasemacervosdemuseuscomooMuseudeArtedeBelo Horizonte,MuseudeArteContemporâneadoParaná, MuseuNacionaldeBelasArtes(RiodeJaneiro),eMuseude ArteModernadaBahia.Também,foiconvidadopara workshops(Berlin-in-SãoPaulo,MAC/SPeFunesc/João Pessoa)erealizouexposiçõesnoexterior(Staatliche KunsthalleBerlin,Alemanha,1988;TourduRoiRené, Marselha,França,1992;Cumplicidades,Tondela,Portugal, 1994;ArteContemporâneadoNordeste,LibertyStreet Gallery,NovaYork,EUA,1996).

Alémdisso,nospoucosintervalosdesuaatividademédica, produziuimensosmuraisemcerâmica,porcelanatoe pinturaparaoHospitalUnimedJoãoPessoa,eparaassedes daUnimedParaíbaedoConselhoRegionaldeMedicina. Semdúvida,estassãoobrasdereferêncianoaindahoje acanhadoacervodeartepúblicadeJoãoPessoa. Em2001,compatrocíniodaEnergisaParaíba,viaMinistério daCultura(LeiRouanet),lançouolivro30x40-Artistas mascaradoscomfotografiasde34artistasplásticos paraibanosque,inusitado,todosaparecemsobmáscaras. Em2010,lançouoprojetoArtistasXifóides,umconjunto devídeosdocumentáriossobreartistasparaibanos,como patrocíniodoProgramaBancodoNordestedeCultura. Recentemente,em2012,realizouamostradefotografia,Se oriente,naEstaçãodasArtes,JoãoPessoa,com25imagens (174x115cm),capturadasemsuasviagenspelaTurquiae EmiradosÁrabes.“Eugostodooutro.Dapossibilidadede olharooutro,tãodistanteetãodiferentedenós,e encontrarsemelhanças.Éumdiscursoaberto,ondehá váriasinterpretaçõesdamesmaimagem”,contouRodolfo. www.rodolfoathayde.com


editorial Hánaturalmenteumardesurpresaemmuitasdaspessoasque folheiamarevistaSegundaPessoapelaprimeiravez.“Que projetográficointeressante.Tãosimples!“,dizemuns.“Que bomqueagoratemosumveículoparaconhecermelhor nossosartistas,nossaarte.“,dizemoutros.Mas,aafirmação maiscomumé:“Quelegal.Esperoquetenhavidalonga...“. Defato.Talvezsejaisso‒afaltadecontinuidade‒omaior gargaloquehánapublicaçãodeperiódicos(emtodasasáreas) nopaís,principalmentesenãoforumarevistaacadêmica, produzidapelas/nasuniversidades.Maisumavez,graçasao EditalProculturadeEstímuloàsArtesVisuais2010,daFunarte/ MinistériodaCultura‒quecontemplouaSegundaPessoa pelospróximosdoisanos‒,poderemoscontinuaracausar surpresaàstantaspessoas,artistas,professoreseestudantes. Aideiaéatingiromaiornúmerodeleitores,atrairnovos colaboradores,discutir/difundirsuaspesquisas,falarda produçãodenossaartecontemporânea,doNordesteede todasasregiões.Etambémabrirmosolequeaoutros segmentosartísticosproporcionandoque,alémdasartes visuais,possamoscontemplaramoda,odesign,aarquitetura, oartesanato... Índice Nestaedição,falamosde“passado”aoresgatarumaobra,o painelTropicália,doartistaChicoPereira,realizadoem1969 comoumlampejodepioneirismodoGrafiteedoPop.Edo “presente“hádoisartigosquecomentamarecenteprodução deartecontemporâneanordestina:aMostraNordestede ArtesVisuaiseaArteVisualPeriféricanaParaíba,porRaul CórdulaeValquíriaFarias.

     MostraNordestedeArtesVisuais porRaulCórdula     4 AfotografiaautoralnaParaíbacontemporânea porPauloRossi     10 Fotografiademodaecidadecomoexpressõesde cultura,porAgdaAquino    14 ArtecontemporâneanaParaíba:visualidades periféricas,porValquíriaFarias   19 OpainelPopTropicalistadeChicoPereira porDyógenesChaves21 Alinguagemeatransgressãodaveste porAlmandrade28

Doisoutrostextos‒deAgdaAquinoeAlmandrade‒abordam ohibridismoentrefotografia-modaeartesvisuais-moda,com direitotambémarefletirsobreafotografiaautoralnaParaíba (casosemelhanteaoutrosEstadosdopaís?),emumtextodo paulistaibano,ofotógrafoeprofessorPauloRossi. Boaleituraevisitenossosite:www.segundapessoa.com.br.

Este projeto foi contemplado com o Prêmio Procultura de Estímulo àsArtes Visuais 2010

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MostraNordestede ArtesVisuais 

RaulCórdula rcordula@hotmail.com

tecnologiaseencontravammaisoumenosnaatualidade, masaarteestavanaIdadeMédia.Paraoseminárioforam convidadosAntonioDiasePauloSérgioDuarte,vindosda Europa,eaequipelocalformadaporFranciscoPereirada SilvaJúnior,SilvinoEspínola,BrenoMattos,epormim.O resultadodosemináriofoiacriaçãodoNACquecoordenei até1984,enesteperíodoproduzimosemJoãoPessoa exposiçõesdeartistascomoTunga,PauloRobertoLeal, CildoMeireles,AnnaMariaMaiolino,MiguelRioBranco, GustavoMoura,RubensGerchman,VeraChavesBarcellos, entreoutros.

Tocadopelaexcelênciadaproduçãodeartesvisuaisna Paraíba,queespelhaaartecontemporâneadoNordeste,o compositorecantorChicoCésar,atualmenteSecretáriode CulturadoEstadodaParaíba,propôsàRepresentaçãodo MinCedaFunarteparaoNordeste,arealizaçãodeum PanoramadasArtesVisuaisdoNordeste.NaldinhoFreire atualrepresentantedaFunarteNEaceitoudecaraodesafio, eparafazeracuradoriafoiconvidadooimportanteartista paraibanoJoséRufino.Opanoramaserealizouemformade exposiçãoquepretendeserumasíntesedaarteedo pensamentodacontemporaneidadeartísticatantono sentidocoetâneo,istoé,daproduçãodeartistasque trabalhamnomesmotempo,quantonosentidode atualidadequeasvanguardaseasnovasexperiênciascom alinguagemabrangendooespaçoeamaterialidadeda arte,assumiramnasúltimascincodécadas.

ÉimportanteinformarquedesdeoImpérioaParaíbaéterra deartistas,PedroAméricoeseuirmãoAuréliode Figueiredoafirmamisto,masnamodernidadetambém reconhecemosobrilhodaobradopintor,ilustradore cenógrafoTomásSantaRosa‒orevolucionáriocenógrafo daprimeiraversãodeVestidodeNoiva,deNélson Rodrigues.

Estaexposiçãoitinerante,queestreounoMuseuMuriloLa Greca,emRecife,entre11dejunhoe04deagostode2013, pretendepercorrertodasascapitaisnordestinas.

NoRecife,foicriadoem1997oInstitutodeArte ContemporâneadaUniversidadeFederaldePernambuco‒ IAC.Anteciparam-seàUFPEoMuseudeArteAloísio Magalhães‒MAMAMquandodaatuaçãodeseudiretor,o curadorcariocaMarcosLontra,edoscoletivosdeartistas quenasceramnadécadade1980,comoaQuartaZonade Arte,oCarasparanabucoeoGrupoCamelo,paracitar apenasospioneiros.

# Costuma-se“datar”aartecontemporâneaapartirdaPop Art,quandooscânonesestéticosdosistemadaarte inauguradonoRenascimentoexauriram-se,apartaram-se desuascapacidadesinventivas.Aartecontemporânea, portanto,segundoosteóricosmaispuros,seriaaatividade artísticacarregadadotesourolinguísticoadquiridonos cincoséculosposterioresaoRenascimento,períodoque entrouemsuaretafinalcomarevoluçãoindustrial,e culminounapós-modernidadecomaPopArt.Coma globalizaçãoaartecontemporâneaviveemplenitude‒ hojesedizqueagrandeartepéaarteinternacional‒ quandoadquiresuporteteórico,críticoesociológicopara atingiragrandemassa. ONordestebrasileironãofoiexceção,aarte contemporâneaadaptou-seaoambienteartísticoregional atravésdaatuaçãodeartistaseinstituiçõescomoemtodos oslugares.Aprimeiraorganizaçãoacaucionaroadventoda artecontemporâneanoNordestefoioNúcleodeArte ContemporâneadaUniversidadeFederaldaParaíba‒NAC, fundadoem1978apartirdoresultadodeumseminário organizadopelaUFPBemCampinaGrandeapedidodo ReitorLynaldoCavalcantiqueexpressouaideiadeque,a Universidadeparaibana,oensinoeapesquisadeciênciae

Nosanosde1990aFundaçãoJoaquimNabuco,pormeio desuaSuperintendênciadeCulturaadministradapor SilvanaMeirelles,dirigiuaatividadedasartesdesenvolvidas nasvisuaisparaaartecontemporânea,eestaatitudefoi responsávelpelosurgimentodecuradorescomoMoacir dosAnjoseCristianaTejo,relacionadoscomaFundajeo MAMAM,erealizandoumasériedesemináriossobreo temaquecontoucomaassistênciadosartistas contemporâneosconsagradoshojenoRecife.

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Voltandoàdécadade1980,otrabalhodesenvolvidono NAC/UFPBteveecoemNatalRN,comarealizaçãodo seminário“SemióticaeArte”realizadanaUFRNondea equipedoNAC/UFPBparticipouativamenteaoladode convidadoscomoDécioPignatari,MirianSchneiderman, MariaLúciaSantaellaBraga,oarquitetopaulistaAriRochae osartistasdeNatalligadosaoPoemaProcesso,Jota Medeiros,FalvesSilva,AnchietaFernandeseMoacirCirne.


ObradeUlissesLociks,2008

SuperintendênciadeCulturadaFundaçãoJoaquim Nabuco,chegandoacoordenarosetordasartesvisuais.É importantelembrarqueMaceióéumacidadeque,a exemplodeJoãoPessoa,tornou-seumpolodearte contemporânea.DesdeamodernidadequePierreChalita fomentouapartirdosanosde1960,quehojesuaviúva,a pintoraecríticadearteSolangeChalitamantemcomo acervoememorial,passandoosurgimentodeumageração pós-modernadaqualquerocitarMariaAméliaVieira, DaltonCostaeRogérioGomes,enaatualidadeartistas comoDelsonUchôaeUlissesLociks,queparticipada Mostra.

Alémdisso,noNordeste,oNACrealizouexposiçõesdas coleçõesdeartepostaldeDanielSantiagoePauloBruscky. Évisívelodesempenhodosartistasdosestadosonde existiuaaçãopúblicanosetordasartesvisuais,mas observamosqueessasinstituições‒NAC,MAMAM,MAMBahia,DragãodoMaretc.‒nasceram,edealgumaforma sãocontinuidadedeatuaçõesdegruposdeartistasque independentementeprovocaramaatençãodospoderes públicose,sendoatendidos,protagonizaramaevolução quesepercebehoje. Comestasíntesepode-seterumaideiadapequenahistória daartecontemporâneanoNordestebrasileiroatravésdos artistasselecionadospelocuradorJoséRufino,elemesmo testemunhodoqueaconteceunaParaíbadadécadade80.

QuandoJeanineatuounaFundaçãoJoaquimNabucoela assistiuàimplantaçãodeumsetorcuratorialdeexcelência, comaparticipaçãodoscuradoresMoacirdosAnjose CristianaTejo.MasaposiçãodoRecifecomopolodeartes visuaisvemdemuitoantes,vemdeCíceroDias,Vicentedo RêgoMonteiro,LulaCardosoAyres,FranciscoBrennande JoãoCâmara.VicenteparticipoudaSemanadeArte Modernade1922;Cíceroéautordeumaobraseminalda modernidadebrasileira,odesenho“EuVioMundo,Ele começavanoRecife”;Lulapronunciouumaartedebase regionalista,quandoderestoVicente,CíceroeBrennando fizerameventualmente,masemLulaistoextrapolaamera funçãoelevaaexcelênciaatendênciapernambucanaàarte domural;Brennand,pintor,escultoremuralistadegrande portenãosónadimensãodaobramasprincipalmentena suauniversalidade,marcaumaposiçãosingularíssimana artebrasileira;JoãoCâmara,porsuavez,nasdécadasde 1970/80colocaemdiscussãonossarealidadepolítica atravésdeobrascomo“CenasdaVidaBrasileira”; finalmentetemosaobradeTerezaCostaRêgoquenas últimastrêsdécadastornou-setambémmuralista, passandoacomentardeformapoéticanossahistória política.

DevidoàescassezdotempoeàlimitaçãodoespaçoRufino precisousereconômico,quaseespartano,tendode selecionarapenasdoisartistasdecadaEstado.Emsituação idealumatarefacomoestaseriamaisabrangenteemsua constituição,poisoacontecimentodaartecontemporânea noNordesteéfatoconsumado. Adotandoumpartidocuratorialdecoerênciaesincronia entreastendênciasregionais‒nãoregionalistas‒Rufino traçouestapequena,porémimportante,MostraNordeste deArtesVisuais.

# TomemoscomopontodepartidaainstalaçãodeJeanine Toledo,umasequênciadefotografiasdediversasimagense tambémdeumamãoquegesticula‒umafoto,umgesto‒ deondesaiumfiodesedavermelhaqueinterliga continuamenteasmãosàsimagens,levandooleitora pensaromovimentofragmentadopercorrendoocaminho queofiotraça.Temosaíumanarrativaatravésdeimagens quenoslevaameditarsobreacomunicaçãonoseuregistro primário,otoquefísicodamão,masnoslevatambémao labirintoeofiodeAriadnequealémdesalvaroheróio reintegraaoconvíviohumano. Jeanineestánaexposiçãocomoartistaalagoanaqueé,mas suacarreiraseconsolidounasuaconvivênciacomos artistasdoRecifenoperíodoemqueelatrabalhouna

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Estabagagemnãopodeserignorada.Porexemplo,umdos pontosmáximosdestamostraéainstalação“Diáriode Bandeja1/4”dapernambucanaJulianaNotariquetema dimensãoespacialmuralistaeadimensãoestética grandiosa.Ainstalaçãoconstitui-sedeumaglomeradode bandejasdediversasdimensões,pintadasdenegrocom textosescritoscomlápisbranco,colocadasnaparedeao gostodasporcelanasusadasnoslarestradicionais.A narrativaimagísticaalia-seaotexto,eocontextomuda.É umaobraquejáfoiapresentadaanteriormentenoRecife


naGaleriaAmparo60,eemSãoPaulonoSESCPompeia.O amplotrabalhodestanotávelartistafoirecentemente editadonolivro“DezDedos‒JulianaNotari”,organizado porelaepelacuradorapernambucanaClarissaDiniz (atualmenteDiretoradeConteúdodoMuseudeArtedoRio deJaneiro‒MAR).Olivroéoregistrodeumadécadade trabalhoondeClarissaenfocaoconteúdointimistade quemseentreganaobraàautoanálise.EscreveClarissa:“Ao ofertarsuasintimidadesembandejasdeluto,Juliananos impulsionaadelaservirmo-nose,então, antropofagicamente,passamosapossuirsuasmazelas. Dessaforma,suasérieDiáriodeBandejaapresenta-se‒ apesardefacilmenteadaptávelaosenquadramentos autobiográficoserelacionaisdaproduçãodearte contemporânea‒comomaisumatosutilmenteperverso desuaobra.“

ObradeIrisHelena,2011

Seguindoomotedaacumulaçãoedanarrativa,vemosa surpreendenteobradeIrisHelena,jovemartistadeJoão Pessoa.Trata-sedeumafotografiadeumacenaderuade suacidadefragmentadaem588quadrados,eremontados comonumquebra-cabeças.Umtrabalhoquedemonstrao bomusodosmeioseletrônicos,masmesmoassimdedifícil elaboração,missãoqueelaenfrentaexemplarmente.O resultadoéumasurpreendenteimagem,umafotografia ampliadaacimadosseuslimitesondearetícularesultante dissopareceseradeformaçãodospixels,mas imediatamentesepercebeariquezaimagéticaqueos detalhesnosapresentam.Dominandoalinguagemvirtual elaafirmaoinstrumentodigitalcomraracompetência. Aindasobreacúmulostemosainstalaçãodaartistabaiana IedaOliveira.Ointeressedestaobraestánoajuntamentode ummesmoobjetodeusocomum,cintosfemininos, montadosumaoladodooutrocomoquenumamobíliade lojatomandotodooespaçodaparede.Fez-mepensarna obradeJoséPatrícioqueacumula,porémemcomposições harmônicas,milharesdeobjetoscomopedradedominós, dadosoubotõesemquadroseinstalaçõesdegrande interesse,masvem-meácabeça,maispelacumulaçãoe menospelosignificado,aobradeJacLeirner.

ObradeMarceloGhandi,2011

IedatambémrefleteahistóriarecentedeSalvadorquetem comoreferênciamodernaaobradeMárioCravoFilhoe Neto,deRubemValentimedeSanteScaldaferri,por exemplo.MasosartistasdeSalvadormergulharamna contemporaneidadenosanosde1990,comacriaçãodo SalãoMAM-BahiadeArtesPlásticasedaBienaldo Recôncavoquesetornaraminstrumentosdeatualização estéticaparaosartistaslocais.ConsequênciadistopassouseasevernasobrasdeMarepe,CaetanoDias,Paulo Pereira,VauluizoBezerra,entretantos.

ObradeBrunoVilela,2013

NamesmavertenteestáaobradeUlissesLociks,também deAlagoas:umamalhadetraçospretosdegrande dimensãotraçadaabicodepincelemsuportecoladona parede.Alémdoemaranhadográficodostraços,que seguemdireçõesdiferentes,oconjuntodasfolhascoladas formatambémumdesenhoexternoqueseconfigura independentementedoconteúdográfico.AobradeUlisses nosencaminhaparaoutrocaminhoseguidoaqui:a presença,eporquenãodizerapermanência,dodesenho.

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FotografiadeSofiaBauchwitz,2013

Esmeraldoeodesenhistaquemudouodesenhobrasileiro, AldemirMartins.HojeaobradeJoséLeonilsoneEduardo Frotaémostradanacionalmenteemgrandeseventosda artecontemporânea.

Écurioso,poisodesenho,assimcomoapintura,sãoasmais básicas,paranãodizertradicionais,daspráticasartísticas visuais,porémpermanecemnaobradeartistasda atualidade,oquenosfazpensarqueaarte,comoévista pelosteóricosquepropõemorompimentodaarte contemporâneacomaartetradicionalmenterealizada, especialmentenoqueserefereaoconceitode desmaterialização,decertaformapermanece.

OimportanteartistamaranhenseThiagoMartinsdeMelo, quefezpartedaexposiçãoZonaTórridaapresentadano SantanderCulturaldoRecifecomcuradoriadePaulo HerkenhoffeClarissaDiniz.Otextocuratorialocolocaao ladodegrandespintoresdageraçãode1960.Apinturade MartinsdeMelo,comoaobradeAntonioDiaseTunga,é campodafantasmática.Incorporaacarnalidadecomoo corposexualizadodopintortransferidoàpintura.Comesta colocaçãodedoisimportantescuradoreschega-seapensar comoemSãoLuiz,cidadetradicionalforadoscircuitosda artebrasileira,compoucacitaçãonanossapequenahistória daarte,comosurgeumpintordestaqualidade!

AlémdagrafitagemdeUlisses,quatrooutrosartistas mostramdesenhos,oudesenhosrelacionadosàpintura: YuriFirmezaeWalériaAmérico,doCeará,MarceloGandhi, doRioGrandedoNorteeBrunoVilela,doRecife.Diferente deUlissesedeBrunoVilela,artistamuitoatuantenoRecife queapresentadoisgrandesretratospintadossobrepapel, umcomtintaverdeeoutromagenta,osoutrosapresentam pequenosdesenhos,mesmoque,comoéocasodeGandhi, algunsdesenhosestejamaglomeradosemtelasdegrande formato.AobradeYuriFirmezaéumasequênciamontada emmoldurasdiferentesondesevêumacasinhaquese derretededesenhoemdesenhoformandoumanarrativa, denovo,quenoslevaaoscomicsqueparecemserumadas fontesdodesenhistaatual,aoladodografitederua.

Doisartistasapresentamobrasdefotografia:SofiaPorto Bauchwitz,deNatal,eChristusNóbrega,deJoãoPessoa. Sofiafotografourelaçõeseróticasatravésdedetalhesque somentesugeremoato.JáChristustemalgomaisformal quebuscaainvenção,emboracomalgumatraso:retratos montadosemcartãoeemolduradoscomvidro,ondeas fotografiassãovazadasporrecortesdecírculoseoutras formasgeométricas,esesuperpõemaoutrasque aparecematravésdovazado.Umtruqueestéticoque trabalhaanoçãodeespaço,profundidadeebordejao objeto.

EmNatal,emboraomeioartísticosejamenordoque,por exemplo,JoãoPessoa,destaca-seumgrupoquenosanos de1980fizeramumapartedavanguardapossível,osjá citadosJotaMedeiros,DailorVarela,FalvesSilva,Anchieta FernandeseMoacirCirne.MarceloGandhiaglomerounuma grandetelaváriosdesenhosqueseassemelhamaos pequenosdesenhosfeitosatraçossoltosdenanquimque dãosequêncianaparede.Natelatambémseencontram fragmentosdegrafites,desuaautoriaounão,espalhados aleatoriamente,semnenhumapreocupaçãocomposicional. OscearensesYuriFirmezaeWalériaAméricotrazemmini desenhos.Yuricontaahistóriadeumacasinhavermelha quesederretedequadroemquadroaojeitodasnarrativas dasHQ.Walériamostraumvídeoedesenhospequeninos. NaMostra,estedesvioparaopequeno,omínimo‒não minimalart‒nãoselimitaaodesenho,obaianoGaio Matostrazumconjuntodetrêsfotografiasdemaquetesdas mínimascasinhasdosconjuntosresidenciaisdapopulação pobrepousadasnapalmadeumamão.Fortalezaéuma cidadepioneiradamodernidadenaartenordestina,nos anosde1950láestavamopintorabstracionistainformal AntonioBandeira,oabstracionistageométricoSérvulo





TemosdoistrabalhosdoPiauí:umainstalaçãodeautoriade umgrupoteatralcompostoporJacobAlves,BebelFrotae CésarCosta,easimpressõesdeEdilsonPacheco.Ogrupo deteatroutilizaasartesvisuaisnasperformancesemcena. Éútilrecordarqueosartistasnordestinosintrojetaram tardiamenteainstalaçãocomocategoriadearte,ea performance,hojerelacionadacomohappeningdosanos 60,muitasvezeséconfundidacomaartecênica.A instalaçãoapresentadaécompostaporummanequim vestidocomtrajesdodia-a-dia,comacabeçacobertae umacâmeraquefilmaquemoobservaacena.

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JáobradeEdilsonPachecoéumconjuntodefotografiasde fezeshumanastrabalhadasemumprogramatipo photoshopeimpressasempapéisdiferentes.Nãohácomo nãomereferiraotrabalhodePieroManzonirealizadohá meioséculo(1961)intituladoMerdedʼartista(Merdade


Pelaintegraçãodoartistanordestino¹ DepoimentodeRaulCórdulaaSérgiodeCastroPinto JornalAUnião,domingo,06desetembrode1981,JoãoPessoa-PB

Maisde200artistasplásticosnordestinos‒daParaíba, Pernambuco,Ceará,AlagoaseBahia‒estiveramreunidos emSalvador,no1ºEncontroNordestinodeArtistas Plásticos,promovidopelaFundaçãoCulturaldoEstadoda BahiaatravésdoMuseudeArteModernadaBahia(Museu doUnhão).Oencontrotevetambémoapoiodas DelegaciasRegionaisdoMECedaFunarte.Aideiado EncontrofoidoartistaChicoLiberato,DiretordoMuseudo Unhão,quandodesuavisitaàFunarteparaarticulara recepçãodasobrasdosartistasnordestinosque participarãodoIVSalãoNacionaldeArtesPlásticas.Esteano aseleçãodesteSalãoestásendofeita,alémdenoRiode Janeiro,emSalvador,Brasília,SãoLuíseFlorianópolis.Os artistas,reunidos,elegeramoartistaplásticobaiano, residenteemBrasília,RubemValentim,presidentedehonra doencontro;RaulCórdula,artistaparaibanoCoordenador doNAC,vice-presidente;FernandoGuerra,daAssociação deArtistasPlásticosdePernambuco,secretário,eRomélio Aquino,professordearteepresidentedaADUF/BA,relator. Osgruposdetrabalhosforamformadossobretrêstemas:A questãodacirculaçãodasartesplásticas,daorganizaçãodo artistaplásticoedoensinodeartenoNordeste.Estestemas foramdiscutidosdurantedoisdiasdetrabalhoe,naúltima reuniãoplenária,foramlidososdocumentosfinaisdecada grupoe,apósasemendaseaaprovação,seguiram-seas moçõeseoencerramentocomumdiscursodeRubem Valentim.

artista),ondeeleembalouseusprópriosexcrementosem 90latasnumeradaseetiquetadas.Todasériefoiadquirida porcolecionadoresdaépoca,poissetratavade manifestaçãodavanguardaitaliana. DeAracajutemosapenasaparticipaçãodeEliasSantoscom umapequenainstalaçãocompostadeobjetoscomocaixas compostasnochãoondeseencontramcruzes judiciosamentecompostas.Aracajuéumacidadeonde váriosartistassereúnemsobaliderançadeAntonioCruze aégidedaONGSociedadeSemear,mesmoquevigorea tradiçãodapinturadeJennerAugustoqueestevealinhado aosartistasqueorbitavamJorgeAmado. Ébomlembrar,emboraistonãorepresenteumnúcleode influênciaparaosnovosartistas,queArturBispodoRosário ésergipano.Asexperiênciasrecentesdaarte contemporâneasergipananosleva,alémdeEliasSantos,a jovenseatuantesartistascomoAlanAdi,AnaCarolina, BenéSantana,FábioSampaio,JamsonMadureira,João ValdênioeMarcosVieira,todoselesalinhadoscoma linguagemdeagora.

QualaimportânciadestePrimeiroEncontrodeArtistas PlásticosNordestinosparaoNordesteeaParaíba? Antesquerodizerqueestepareceserrealmenteoprimeiro encontrodeartistasplásticosdoNordeste.Aocasiãoda montagemdaexposiçãodosartistasconcorrentesaoIV SalãoNacionaldeArtesPlásticasnãopoderiasermelhor porqueistopropiciouumamostrasignificativadanossa produçãorecentemontadanoMuseudeArteModernada Bahia,localdoEncontroparaojúrideseleçãododeste Salão.NumgestointeligentedeFranciscoLiberato,atual DiretordoMAM-Bahia,amostrafoientregueaopúblicono diadaaberturadoEncontro.Estaatitudefezcomqueo públicobaianotivessecontatocomaproduçãonordestina atravésdeumamostradealtonível,eosartistaspresentes pudessemterumavisãopanorâmicadenossaexpressão atualqueserviucomosubsídioparaosdebates desenvolvidoslá.Outrofatoimportantefoiapresençade maisdeduzentosartistasdeváriosEstadosedetendências diversas.AausênciadeMaranhãoedoPiauíjustifica-sepelo fatodehaveroutramovimentaçãoemSãoLuiz,outro núcleoderecepçãodasobrasparaseleçãodesteSalão Nacional(aseleçãoocorreesteanonoRio,emBrasília, Salvador,FlorianópoliseSãoLuiz).Importantíssimafoia presençadoartistaplásticobaianoRubemValentim,que resideatualmenteemBrasília,equeéumadasvozesmais atuantesnaformaçãodeumaartebrasileiracoerentecom nossasraízesculturais.

Eisoelencodeartistasvisuaisdestepanorama.Alémdos excelentesdestaquesaquicomentados,elefornecea possibilidadedeintercâmbioentreosartistaseseus públicosemtodasascapitaisdoNordeste.Trata-sedeum trabalhoquepodecrescermuitocomopassardotempo, anseiodeartistaseativistasdacausadasartesvisuaiscomo fatordeintegraçãodacultura“contemporânea”no Nordeste.

RaulCórdulaéartistavisualecríticodearte(ABCA/AICA).VicepresidenteparaoNordestedaAssociaçãoBrasileiradeCríticosde Arte-ABCA.Criadoredirigentedeinstituiçõesculturais:NAC/UFPB (JoãoPessoa);MuseudeArteAssisChateaubriand-MAAC(Campina Grande-PB);CasadaCultura(Recife);FundaçãoEspaçoCulturalda Paraíba-Funesc(JoãoPessoa);OficinaGuaianasesdeGravura (Olinda).FoirepresentantedoBrasilnaConferênciaMundialde Artesanato,México.RepresentanoBrasilaAssociationCulturelleLe Hors-Là,deMarselha(França).PublicouoslivrosAnos60(Funarte, UFPB),MemóriasdoOlhar(ediçõesLinhaDʼÁgua),Fragmentos (ediçõesFunesc)eUtopiadoOlhar(Funcultura,Fundarpe, GovernodePernambuco).

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éprópriadosartistas,entãoimaginemosoNordestecomo suasprofundasdiferençassocio-econômicaseetnográficas, suaproduçãoartísticadiversificada,tudoissoparase manifestareinformardentrodestecircuitodesejadopelos artistas.

Eoresultadodetudoisso? Primeiramenteostemasdiscutidosnosgruposdetrabalhos ‒acirculaçãodasartesvisuaisnoNordeste,aorganização dosartistasplásticoseoensinodeartenaregião‒foram esclarecedoraspoisestestemasnoslevaramadiscutiro relacionamentoentreaproduçãoartísticaeasinstituições culturais.Ora,oSalãoNacionaléumainstituiçãocultural quemerecetodorespeito,masesterespeitoestánarelação diretaaorespeitoqueainstituiçãotempeloartista, obviamente.Convivemoscomaincômodarealidadeda hegemoniadainformaçãogeradanoeixoRio-SãoPaulo. Masoquenãopodedeixardeserlevadoemcontaéa importânciadoNordestecomoregiãogeradora,em quantidadeequalidade,devaloresfundamentaisparaa formaçãodenossacultura.Alémdomaisjáépatentea capacidadequetemosdeadministrarnossosbensculturais compolíticasprópriasquenãosomentetendema preservaroolhartradicionalmastambémapropornovas visualidades. Éimportantenotarque,apesardeadministrações exógenas,nossaculturaresiste.Entãoeucreioqueamelhor propostageradanesteencontrofoiacriaçãodeumCircuito NordestinodeArtesPlásticasquejáestásendoprojetadoe pretendeatingiroartista,asinstituiçõespúblicaseprivadas etambémosespaçosalternativoscomoasruas,osmuros, oslocaisnãotradicionalmenteocupadospelaarte.Fiquei muitohonrado,mastambémmuitopreocupado,quando fuieleitopeloplenárionaúltimaassembleiageraldo encontro,paracoordenarestecircuito.Tenhodisposição paraisso,masnadapodereifazersemoapoiodosartistase dasinstituições.ComeçoaprojetaroCircuitotomando comobaseasnovasvanguardascomoaartecorreioea grafitagemdosmuros,porexemplo.Éprecisomostrara nossaarteemnossaterra,istonãoéfácilporquea produçãodequalquerexposiçãoécara.Alémdisso,não temoscuradoresdearteemonitoresdeexposições suficientesparaempreenderestatarefa.ONAC,por exemplo,fazumtrabalhodemonitoriacompetente,massó atingepequenaparceladoalunadode1ºe2ºgrausdeJoão Pessoa,imagine-seoNordestecomoumtodo,serápreciso muito,muitomais.Acreditoquesomentecomumtrabalho deaproximaçãodajuventude,doestudante,comaarte,se poderáterumaverdadeiramediaçãodaproduçãoculturale aformaçãodopúblico,coisaque,commuitoesforçoe competência,levarápelomenosumageração.Masautopia

OquemaisdeimportanteaconteceunoEncontro? Antesdetudoaconstataçãodequetemoscapacidadede nosorientar.Asdiscussõesdosnossosproblemas mostraramqueelessãocomuns,partemdesituações impostas,equeestamosacostumadosaconvivercomelas, masjáéhoradenoslibertar.Serviupararefletirsobrea situaçãodecolonizadospelosuldoPaís,sobreasituação domercadonemsempresadio,sobreaconvivênciacomas instituiçõesculturaisquetêmopapeldemediarnossa produçãocomopovo,masque,emalgunscasos,são dirigidaspelaideologiadomercadopromovendoprodução doqueparececomaarteemdetrimentodoqueé verdadeiramentearte.

Notadoeditor 1Oautorsugeriuincluirestedepoimento,publicadoemjornalda Paraíba(1981),emseguidaaoseuartigo“parasemostrarque lutamosporistohámaisdetrintaanos,estaMostraNordestede ArtesVisuaispodeserumaretomadadestaluta,mesmoque vivamosnotempodaʻestéticadaindiferençaʼ“,afirmaRaul Córdula.

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Afotografiaautoralna Paraíba contemporânea 

PauloRossi pjrossi@gmail.com

Opresenteartigopropõeumabrevereflexãosobreoatual momentovividopelafotografiaautoralnaParaíba.Hádois movimentospossíveisdenotar,umnoâmbitoda mobilizaçãoedasaçõesdealgunsdeseusagentes,eoutro noplanodaproduçãodasobrasnoqualseverificamnovas posturasdosautoresdiantedaspossibilidadesde experimentaçãodediversasformasestéticas.Arespeitodo primeiroponto,orecortetemporalédoanode2010em diante,períodoemqueocorreuumasériedeatividadesem proldafotografiaautoralnoEstado.Hápoucomaterial publicadodisponívelparasefazerumaanáliseaprofundada doperíodoproposto,oquesetemdemaisconsistenteéo textodeBertrandLira“Fiandootempocomaluz”, publicadorecentementenoFotografiaParaibanaRevista (2013).Sobreosegundotipodemovimento,proponho umareflexãoapartirdaexperiênciadoprojetoNovíssimos: talentosdafotografiaautoralnaParaíba,coordenadopor mim.

financiadopeloPrêmioMarcFerrezdeFotografia,da Funarte;eoprojetoNovíssimos:talentosdafotografia autoralnaParaíba(2013),deminharesponsabilidade, patrocinadopeloFIC-FundodeIncentivoàCultura “AugustodosAnjos”,daSecretariadeCulturadoEstadoda Paraíba. Olhandoporesteviés,afotografiaautoralnaParaíba contemporâneaestá,sim,emmovimento.Ummovimento² demobilizaçãodosagentesdafotografiaquevem buscandoseuespaçonasArtesVisuaiscomoobjetivode fomentarapráticaeopensamentoarespeitodafotografia comoformadeexpressãopessoal.Poroutrolado,apesar dosrecentesesforços,asaçõesempreendidascontinuam concentradasnacapital,etêmreduzidoalcancedepúblico geralemesmoespecializado.Hápoucoespaçoepouco estímuloparaosurgimentodenovosfotógrafosque pensamafotografiacomoexpressãoartística.Opúblico queapreciaafotografiacomoarteémuitoreduzido. Noentanto,amovimentaçãoemproldafotografianãoé umanovidadenaParaíba,umbomexemplodissofoia experiênciadosTraficantesdeImagem,que,em1994 organizouaISemanaParaibanadeFotografia.Segundo BertrandLira,esteevento

Fotografiaparaibana:atuante,masdispersa Àexceçãodealgunscentrosnacionais(exemplodas cidadesdeSãoPaulo,RiodeJaneiro,Belém,PortoAlegre, Fortaleza,BrasíliaemaisrecentementeRecife),nasdemais regiõesdoBrasilafotografiadeautoraindaépouco apreciadapelopúblicoemgeralepelasinstituiçõeslocais responsáveispelaproduçãocultural. Porémestasituaçãovemsendoalteradapaulatinamente comaspolíticasdefomentoàculturaecomaçõeslocaisde iniciativadeindivíduos,grupos,instituiçõespúblicase tambémprivadas.NaParaíba,apartirde2010,afotografia autoralvemcavandointernamenteseuespaçonasartes visuaiscomimportantesatividadesdefomentoàpráticae aopensamentoarespeitodafotografiadeautorproduzida noestadoparaibano:oprojetoLambe-lambedaAgência Ensaio;osencontrosPapodeFotógrafoorganizadospela parceriaAgênciaEnsaioeAssociaçãoParaibanadeArtee Cultura-APACem2010[criadaeextintanomesmoano];as duasediçõesdoSetembroFotográfico(2011e2012) promovidaspelaFundaçãoCulturaldeJoãoPessoaFunjope;osurgimentodaCasadasArtesVisuais-CAV (2011),umagaleriaeescolavoltadaparaafotografiaque emumprazodedoisanosorganizouimportantes exposiçõesfotográficas,etambémpromoveumesasredondas¹arespeitodafotografia;orelevanteprojeto FotografiaParaibanaRevista(2013),deGustavoMoura,

foiummarconatomadadeconsciênciaenocontatodo públicolocalcomomundodafotografiabrasileiraedo próprioestado.Umasementeplantadaequesóviriaa brotarquaseduasdécadasdepoisnoSetembro Fotográficode2011e2012(LIRA,apudMOURA,2013, p.74).

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Parece,assim,terhavidoumhiatodequaseduasdécadas entreofrutíferomovimentodosanos90eamovimentação quesenotaapartirdosquatroúltimosanos.Épossívelque estevácuoexplique,aomenosemparte,areduzidíssima expansãodafotografiaautoralproduzidanaParaíbanos quase20anosquesepassaram,eseuisolamentodentroe foradoEstado:poucosfotógrafosradicadosnaParaíba estãoinseridosnocenáriodaartefotográficalocal,regional enacional.Estesdoisproblemas,porém,tendemaserem partesuperadossemantidaafrequenciacomqueos eventosemproldafotografiaautoralvemacontecendo, especialmenteaquelesquepropiciamespaçosparaa reflexão(mesa-redonda,palestras,oficinas)edifusãode obrasfotográficaspormeiodeexposiçõesepublicaçõesde catálogos.Opontapéinicialparasesuperaroquadrode


Objetogeladeira,daobraAlucinose,emprocessoderessignificação,deLucianaUrtiga.(Fotos:LucaFiorin,2013)

isolamentointernoeexternodafotografiaautoral paraibanafoidadopelasduasediçõesdoSetembro Fotográfico:noâmbitolocal,suasatividadespropiciaramo contatoentreosfotógrafoseosdemaisinteressadosnaarte fotográfica.Noplanonacional,osdoiseventos promoveramimportantesmomentosdetrocacom fotógrafosecuradoresdeoutrasregiõesdopaís.Noplano regional,atrocacomalgunsfotógrafosdoRioGrandedo Nortepresentesnoevento,emparticularPabloPinheiro³, engendrounãoapenasumcontatomaisestreitoentre fotógrafosparaibanosepotiguares,comotambémfezver quearealidadedafotografiaautoralemambososEstados ébastantesimilar.AssimcomonaParaíba,agentesda fotografiapotiguartambémestãoprocurandodarcontade suaprópriaprodução4.

formaçãoacadêmicaemcursosnasáreasdecomunicação social,artesvisuaisearquitetura,etrêssãoformadosem cursoslivresdefotografia8.Dosseisselecionados,umé formadoemcursoslivres,eosoutroscincotêmformação acadêmica.AlessandraSoares,porexemplo,autorado ensaioDesmedidas,émestrandanoProgramadePósgraduaçãodeArquiteturaeUrbanismodaUFPB,erealiza dentrodouniversoacadêmicopesquisaseprojetos fotográficosqueabordamtemasrelativosàscidadese culturascontemporâneascujofocoéexplorar imageticamenteaspráticascotidianas. Éinegávelqueofomentoàpesquisa,ocontatocoma históriadaarte,osestudosdaimagem,oaprendizado técnicoeosespaçosdeinterlocuçãoquetaiscursos promovem,provocameestimulamasnovageraçõesa produzire,sobretudo,aexperimentardiversas possibilidadestécnicaseestéticas,aexploraruma tendênciaespiritual9típicadenossaépoca:nosdiasde hoje,naeradafotografiadigital,dasnovasmídiasedas ferramentasdeediçãoetratamentodeimagem,não apenasampliou-sesignificativamenteoacessoaoaparato técnicoeàquantidadedeimagensproduzidas,como tambémampliaram-seaspossibilidadesdeprodução,de criação,deexibiçãoedeinteraçãoentreartistaeobra,obra epúblico.Umquadroqueseaproximadomodocomo RonaldoEntler(2011)defineafotografiacontemporânea:

Experimentandoaliberdadedeexperimentar Simultaneamenteatodaestamovimentação,outrotipode movimentovemacontecendonaParaíba:váriasformas estilísticastemsemanifestado,aindaquetimidamente,no quadrodafotografiaautoral.Aexperiênciadoprojeto Novíssimos5meproporcionouumavisãomaisamplada produçãodafotografiadeautornoestadoparaibano.Dos 123inscritos6noprocessoseletivo,vinteforampréselecionadosparaentrevistaspresenciaisemostrarseusde portfólios.Destes,apenasseis7foramselecionadospara participardaexposiçãoNovíssimos:talentosdafotografia autoralnaParaíbaetersuasobraspublicadasnum catálogoimpresso.Cabedizerqueonúmerode selecionadospoderiatersidomaior,noentanto,oslimites financeirosdoprojetosópermitiamseisfotógrafos.

Tudopodeserfeitoemtermosdetécnicas,de procedimentos,delinguagem.Apenasumdadoé irrevogável:aconsciênciadessetempopresente,ede algumasdesuasconquistas.Nãoémaiscabível mistificaromeio,desconhecerseusentidocultural,seu mododefuncionamento.Umafotografiapodevoltara serdocumental,podeabordararealidadeeamemória, masdeveestarcientedaintervençãogeradapelo dispositivo.Entenda-secomodispositivonãoapenaso aparelho,masoscomportamentoseosrituaisqueele gera,asdinâmicasdeseumercado,asformasde diálogocomoutraslinguagens,seusmeiosdedifusão, suasformasderecepção.Portanto,afotografia contemporâneanãoéumtipodeimagem,masuma posturaquesepodeterdiantedequalquerimagem. [grifomeu]

Emboraconhecedordesuadiversidade,aproduçãolocal mostrou-semaisdiversadoqueeupoderiaimaginar:uma produçãosurpreendentequevaidodocumentaleda clássicafotografiaderua,asériesderetratosensaísticoseà diversidadedafotografiaexperimental;dofotógrafoquese expressasobreomundoexterior,aoqueabarcaouniverso interior;doqueprocurarepresentarooutro,aoqueprocura representaroeu. Hádoisaspectosameuverrelevantesqueajudama compreenderestadiversidade.Oprimeirodizrespeitoao pesodaformaçãodenovosfotógrafospromovidapor cursoslivresdefotografiaeespecialmentepeloscursos universitários.Dosvintepré-selecionados,onzetêm

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Osegundoaspectoquenosajudaacompreendera diversidadedafotografiaautoralproduzidanaParaíba,que extraiodaexperiênciadoprojetoNovíssimos,sebaseia


OsselecionadosparaoNovíssimos‒AdrianoFranco, AlessandraSoares,DayseEuzébio,EvertonDavid,Igor SuassunaeLucianaUrtiga‒sãoumapequena,mas representativamostradapotentediversidadedafotografia autoralproduzidanaParaíba,queaospoucosabandonao estadolatentenoqualseencontraparaconfigurarumnovo panoramanoquadrodasartesvisuaisparaibanae,porque não,nacional.

nestaconsciênciadotempopresenteenestanovapostura diantedafotografia.Durantetodootempodepreparação daexposição‒poucomaisdeummês‒curadore fotógrafosselecionadosvivenciaramumprocessocriativo colaborativonoqualseexperimentoua“liberdadede experimentar”(ENTLER,2011).Aimagememsinãopoderia representarolimitedaobra,dialogandocomopassadoou comaeradasnovastecnologias,eraprecisofocarum conjuntodeelementostécnicos,estéticos, epistemológicos,conceituaisquederivadeumpotencial criativoequeportantotranscendeaimagemdandoa devidaliberdadeparaodesenvolvimentoprocessocriativo. Aseguirrelatodoiscasosqueexemplificambemesta experiência. Porfavor,batanaporta!,deDayseEuzébio,éumbelíssimo ensaiodecunhodocumentalcujasimagensforamtomadas em2011nointeriordeocupaçãodeumprédio abandonadonacidadedeJoãoPessoa.Aautorajápossuía oensaiopronto,masduranteoprocessopostoemmarcha, trabalhamossobreumanovaconcepçãodotema,tratando detranscenderoconjuntodeimagens.Apropostafoipartir deumadasfotos‒precisamenteaqueapresentaum retratodoocupantedacasaedadisposiçãodeseusobjetos ‒edelaextrairaconcepçãodosentidodo“porfavor,bata naporta!”.Ouseja,tratando-seounãodeumaocupação,o quesevêéumlarprovidodesuaorganizaçãointerna, comotodoequalquerlar.Estaconcepção,somadaaos diferentestamanhosdasfotos,dasuadisposiçãonas paredesdagaleria,daescolhadasmolduras,conformaa essênciadoensaiodeDayseEuzébio,muitomaisdoque umconjuntodeimagenssobreumtemaqualquer. Outrocasobastanteelucidativofoiatransformaçãodo ensaioAlucinose,deLucianaUrtiga:umconjuntode fotomontagens‒quearticulamautorretratoseoutros objetoscomoalua,araizdeumaárvoreetc.‒transformouseemumainstalaçãonaqualfoiincorporadaumageladeira velha,agoraressignificada.Aolongodoprocessooobjeto geladeirafoiexperimentadodeváriasformas,suafunçãoe seusignificadodentrodaobraforampensadose repensadosmuitasvezes,comocuidadoparaqueoensaio fotográficonãoficasseemsegundoplano:fotografiase objetoressignificadotornam-seumnovoobjeto fotográficocapazdeprovocarumtipodeinteraçãocomo espectadordiferentedoqueseasfotografiasestivessem expostasnaparede. 12

PauloRossiéfotógrafohámaisde20anos.Formadoem SociologiaePolíticapelaEscoladeSociologiaePolíticadeSP,eem EstudosSociaisnaUniversitéCatholiquedeLyon.Émestreem SociologiapelaUSPcujadissertaçãodiscutiuavidaeaobrado fotógrafoAugustSander.FoiprofessornocursodeBacharelado emFotografiadoSENAC-SPondeministroudisciplinastécnicase teóricasdentreasquaisSociologia,HistóriadaFotografiana AméricaLatinaeMovimentosEstéticosdaFotografia. Notas 1Alémdeatividadesorganizadasporsuaprópriainiciativa,aCAV realizouatividadesemparceriacomopoderpúblicoecomdois outrosprojetosfinanciadostambémpelopoderpúblico.Em2012 recebeuemsuasedealgumasatividadesdoSetembroFotográfico (organizadopelaFunjope):umamesa-redondacomofotógrafo mineiroPedroDavid,umworkshopdecarátertécnicoministrado pormim,umapalestracomocoletivopaulistanoCiadeFoto,ea exposiçãododiretordefotografiaparaibanoJoãoBeltrão.Em 2013,nasuagaleria,foirealizadoolançamentodoFotografia ParaibanaRevistae,pelomesmoprojeto,aexposição“Alémda bicicleta”,deAlbertoFerreira.Tambémem2013foipalcoda exposiçãoNovíssimos:talentosdafotografiaautoralnaParaíba, edamesa-redonda“AfotografiaautoralnaParaíba contemporânea”. 2MereceserpontuadooassentodafotografianoConselho MunicipaldePolíticaCultural(CMPC)deJoãoPessoa,uma conquistaqueremontaàcriaçãoFórumdaFotografiaParaibana em2009(http://forumdafotografiaparaibana.blogspot.com.br). Nestemesmoano,oFórumconseguiuterumaatuaçãoefetivana mobilizaçãodeseusagentes,culminandocomaparticipaçãode algunsdelesnaIIConferênciaMunicipaldeCulturadeJoãoPessoa. De2010emdianteFórumsedesmobilizou,masconseguiuem 2012elegerumconselheiroeumsuplenteparaavaganoCMPC. Noiníciode2013houveumaretomadadesuasatividades,ainda quemuitotímidaecomreduzidaparticipação,emconjuntocomo FórumdeArtesVisuais. 3PabloPinheiroéfotógrafo,membrodoColetivoPotiguaredo FotoRN-FórumPermanentedeFotografiadoRioGrandedo Norte.ÉrepresentantedoNordestedoFórumNacionalSetorialde ArtesVisuais,ediretorregionaldaRededeProdutoresCulturaisda FotografianoBrasil‒RPCFB. 4Em2009oColetivoPotiguarrealizaaexposiçãoColetivo Potiguar:fotografiacontemporânea‒ImagensdaEsquinado Brasil,comcuradoriadofotógrafoRicardoJunqueira,epublicaum catálogocomaproximadamente70páginas.Foiumprojetode pesquisaeanálisecríticasobreaproduçãofotográficanoEstadoa partirdoano2000.Em2012surgeoFOTORN(FórumPermanente deFotografiadoRioGrandedoNorte),quenoanoseguinte, patrocinadopeloSebrae-RN,realizounoimportanteFotoRio,na cidadedoRiodeJaneiro,aexposiçãoAtransição:dotradicional aocontemporâneo‒produçãofotográficadoRioGrandedo Norte.Esteprojeto,coordenadopelosfotógrafosPabloPinheiroe SôniaFigueiredo,ecomcuradoriadeErikvanderWeijde, apresentouumpanoramadaproduçãofotográficaautoral potiguaregerouumcatálogoimpresso. 5Novíssimosfoiumprojetodecunhoartísticoeculturalqueteve porobjetivoselecionareapresentarseisnovostalentosda fotografiaautoralnaParaíba,epromoverumamesa-redonda,


DasériePorfavor,batanaporta!,deDayseEuzébio,2011

DasérieMemóriasdaloucura:umsonhoquasesurreal,deEvertonDavid,2013

DasérieDesmedidas,deAlessandraSoares,2013 DasérieChuvadourada,deIgorSuassuna,2012-2013

DasérieAlmadarua,deAdrianoFranco,s.d.

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Fotografiademodae cidadecomo expressõesdecultura 

AgdaAquino agdaaquino@gmail.com

abertaaopúblico,paradiscutiraproduçãodafotografiaautoralna Paraíbacontemporânea‒paraestaúltimaatividadeforam convidadosofotógrafodocumentalGustavoMouraeoartista multimídiaChicoDantas,queatuanocampodafotografia experimental. 6Dentreos123inscritos,23eramdointeriordoEstado,cincodos quaisforampré-selecionadosparaasentrevistaspresenciais,um deles,EvertonDavid,naturaldacidadedeAraralocalizadano agresteparaibano,residenteemCampinaGrande,compôso quadrodosselecionadosfinais. 7Selecionados:AdrianoFranco(ensaioAlmadarua);Alessandra Soares(ensaioDesmedidas);DayseEuzébio(ensaioPorfavor,bata naporta!);EvertonDavid(ensaioMemóriasdaloucura:umsonho quasesurreal);IgorSuassuna(ensaioChuvadourada);Luciana Urtiga(ensaioAlucinose). 8Desde2009aofertasdecursoslivresdefotografiaemJoão Pessoatêmsidomaisfrequentes(Setorprivado).Issoindicaquea demandaporcursosdessanatureza,aindaquelentamente,está aumentando.Ouseja,pareceestarcrescendoonúmerode pessoasinteressadasemestudarafotografianateoriaenaprática. Instituiçõespúblicasqueoferecemalgumtipodeformaçãolivre emfotografia:CentroCulturalBancodoNordeste‒Sousa(cursos temporários);CentroEstadualdeArte-Cenated.Instituições privadasqueoferecemalgumtipodeformaçãolivreemfotografia: CasadasArtesVisuais(oferececursosdeformaçãocontinuadaem fotografia);ZarinhaCentrodeCultura;CursodeFotografiaCácio Murilo;CursodeFotografiaRizemberg;RicardoPeixoto/Agência EnsaioBrasil. 9FranzRoh(1890-1965),artistaehistoriadordaartealemão, propôsque“Trêsfatoresdevemconvergirlogoqueumdispositivo técnicopermiteampliarnestepontoahistóriadoshomens:o acessoaestedispositivodeveserrelativamentebarato,seuuso devesertecnicamentefácil,eatendênciaespiritualdaépocadeve estarorientadanadireçãodosmesmosprazeres[visuais].”(apud HAUS;FRIZOT,1995,p.459;traduçãolivre).

Oquehojesãoconsideradasasprimeirasfotografiasde modadahistórianãoeramchamadasassimnaépocaem queforamproduzidas.EmmeadosdoséculoXIX,coma popularizaçãodafotografia,estaaospoucossubstituiua pinturanoatoderegistrarimagensdedamasdasociedade, atrizesedebutantesque,decorpointeiro,exibiame registravamseusmelhorestrajes.NoiníciodoséculoXXas imagensfotográficasdemodacomeçamasubstituiras ilustraçõesnaspublicaçõesdaáreaempaísescomoFrança eEstadosUnidos.“Nasfotoseditoriaisedepropaganda,a fotografiademodaseinspirounaculturadaépocaefoi moldadaporela,deixandoumregistrocativantedas mudançasdrásticasnopapeldamulherentre1900e1945.” (HACKING,2012,p.260).

Nosanos1930,impulsionadospeloavançotecnológicodos equipamentosfotográficos,asimagensdemoda começaramaganharmaisnaturalidadeesaíramdos estúdios.Foiquandoascidadeseaspaisagensurbanas passaramacomporafotografiademodaeoidealde beleza,inserindo-aemcenasmaisreaisecotidianas. “CâmerasportáteiscomoaLeicapossibilitaramaos fotógrafostrabalharemcomrealismofotojornalísticofora doslimitesdoestúdio.”(HACKING,2012,p.263).Durantea SegundaGuerraMundial,oregistrodaimagemdemoda passouasermaisdocumentaledireto,seguindooclimade recessãodoperíodo.PassadaaSegundaGrandeGuerra,a alta-costuraentrouemdecadênciaeoeixocentraldo mundodamodamudouparaLondres,quesetornouo centrocriativodejovensestilistasefotógrafosque fundaramummovimentobatizadode“youthquake”em 1963,porVreeland,entãoeditora-chefedaVogue(HACKING, 2012).Asdécadasseguintessãomarcadaspormais liberdadenostemasdasfotografiasdemoda,marcadas muitasvezespeloerotismoepelacríticaaoconsumo.“A fotografiademodadofimdadécadade1970einíciodade 1980muitasvezesapresentavafantasiasdeluxúriae consumo,easmaiscontroversasdessasimagenseram publicadasemrevistaseuropeias.”(HACKING,2012,p.488).

Referências ENTLER,Ronaldo.Sentimentosemtornodafotografia contemporânea.Icônica.SãoPaulo:28dejunhode2011. Disponívelemhttp://iconica.com.br/blog/?p=2088.Acessoem 21/10/2013. HAUS,Andreas;FRIZOT,Michel.Figuresdestyle:NouvelleVision, NouvellePhotographie.InFRIZOT,Michel(org.).Nouvellehistoire delaPhotographie.Paris:Bordas/AdamBiro,1995. LIRA,Bertrand.Fiandootempocomaluz.InMOURA,Gustavo (coord.).FotografiaParaibanaRevista.JoãoPessoa,PB:FUNARTE, 2013. Sitesparaconsulta: FórumdaFotografiaParaibana: http://forumdafotografiaparaibana.blogspot.com.br ProjetoNovíssimos:http://projetonovissimos.wordpress.com

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Nosanos1990ogênerofoimarcadopeloneorrealismo, tambémchamadodeantimoda.Fotografiascomforte interessepelocotidianoeporpessoasesituaçõescomuns passamaaparecerdeformamaisconstantenasdiversas revistasdemoda:seaproximamdasexpressõesdecultura dasruas.Algumasmaisconceituais,comoaDazed& Confused,aparecemesedestacamcomfotosdeconotação


ParaEasterby(2010)otrabalhodosfotógrafosdemodaé importantenãoapenascomoregistroimagéticodevenda deprodutos,elessãoregistroshistóricoseculturaisdeum povoedeumtempo.Oautorafirmaqueénecessárioter sintoniacomaidentidadeculturaldapopulaçãoaquemse destinaafotografiademodaparaqueoresultadoobtenha oalcancedesejado.“Asimagenscriadaspelosfotógrafosde modatêmumaconexãotãofortecomopúblicoque contribuemparamudarastendênciasquesustentama sociedade.”(Idem,p.30).

sexual.Oquetambémsefezpresentefoioestilo documentalderuacaracterísticodarevistai-D,osstraight up,quedefendiamumafotografiamaispura.“Punks,jovens adeptosdoestiloNewWaveeoutrospassantesvestidosde formaestilosaeramparadosnaruaeclicadosemfrentea ummuro,decorpointeiro,comasprópriasroupas.” (HACKING,2012,p.489). Desdeofimdosanos1990amanipulação(oupósproduçãoapartirdesoftwares)tornou-separte fundamentaldotrabalhodosfotógrafoseainternetum espaçodegrandeexpansão,referênciaedivulgaçãoparaos produtoresdeimagensdemoda.Alémdisso,essasimagens ganhamcadavezmaiscaracterísticasartísticaselibertárias, alémdepermitiremaosfotógrafoscriaremseuspróprios estilos,independentedapublicaçãoaqualasfotosse destinam.

QuemtambémsustentaessepensamentoéMarra(2008), paraquemamodaéalgomaisarticuladodoque simplesmentearoupa:setratadeumfenômenomaior,que relacionaoindivíduocomoseupapelnomundo;ea fotografiademodaosímbolomáximodessamensagem.“[a moda]éumfenômenocomplexoqueconcerneerelaciona entresicomportamentos,modosdeser,formasde linguagemequalqueroutraescolhagraçasàqual estruturamosonossosernomundo.Amodaéentão tambémfotografia,aliás,ofotografar,oatoeapráticade fotografar,entendidoscomodesejonãosódecriar,masde desdobraranossavidaemimagem.”(MARRA,2008,p.15).

Ajornalistaecríticadefotografia,SimonettaPersichetti, defendeaideiaqueafotografiademodahojeéa expressãomaislivredentrodahistóriadafotografia,jáque nelatudoépermitidoequesuafunçãoénostrazerum sonho,umaideia,umconceito.ParaMarra(2008,p.15-16), afotografiademodaobviamenteserveparafazercomse vejaaroupa,porémnãoapenasisso:éumsimulacroda realidade,embebidaemumaáureamágicaprópriados movimentosartísticos.Elediztambémque“Éigualmente verdadeiroquediantedeumaboaimagemdemodanós entramosemcontatocomalgomais,algomaissugestivo queapurainformaçãosobreoproduto.Dianteda fotografiademodanóssubstancialmenteexperimentamos umapossibilidadedecomportamento,oupelomenosa imaginamos,adesejamos,porqueaimagempropõe-nos umaespéciedeprotótipodevida,umaexperiênciade estilosedemodosdeser.”

Oautorrefletesobreograudeabstraçãoqueosindivíduos vivenciamquandoemcontatocomasfotografiasdemoda. Paraalémdeveraroupa,eleafirmaquediantedeumaboa imagemdemodaaspessoasentramemcontatocomum universomaissugestivodoqueapurainformaçãosobreo produto.“Diantedafotografiademodanós substancialmenteexperimentamosumapossibilidadede comportamento,oupelomenosaimaginamos,a desejamos,porqueaimagempropõe-nosumaespéciede protótipodevida,umaexperiênciadeestilosedemodos deser.”(MARRA,2008,p.16).

Existemhojebasicamentedoistiposdeeditorialdemoda pararevistas:ospublieditoriaiseoseditoriaisdecunho informacional.Oprimeirotemvinculaçõeseconômicasque pautamcomoaimagemdeveserproduzidaeoquedeve conternela,jáosegundoélivredeintervençõescomerciais epodesermaisconceitualnacriaçãodasimagensde moda,podebeberemtodasasfontesdavidacultural.“Um editorialéumareportagemfotográficasobremodaou belezaplanejadaerealizadademodoaexpressaraopinião easatitudesdoeditordemodadarevista.”(SIEGEL,2012,p. 16).

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Aidentificaçãodoobservadordaimagemcomaquiloque estárepresentadonelasetorna,então,algocrucialna conjunturaquecompõeessafotografia,compostanão apenaspelasvestimentasnelautilizadas,comotambém porcores,luzes,maquiagens,cabelosecenários,formando acomplexidadedaimagemdemoda.“[...]aquestãoque maiscaracterizatodaafotografiademodaéograude credibilidadeedeidentificaçãoquenosépropostopela imagem.Ditodeformabanal,amodanospropõeum signo,umimaginárionoqualacreditarecomoqualse identificar,é,portanto,evidentequeomecanismode




verdadeintroduzidopelafotografiadesenvolveumpapel deprimeiríssimoplanonadefiniçãoteóricadofenômeno.” (MARRA,2008,p.39).

Acidadenafotografiademoda Aidentidade(ouasdiversasidentidades)deumpovoe/ou gruposocialsedádeformacomplexa,easreferênciasde cidadeoudeurbanidadepresentesemseuscotidianos fazempartedoconjuntodeinformaçõesqueajudama moldá-la.Hall(2001)explicaqueumanaçãopodeser entendidacomoumsistemaerepresentaçãoculturalque extrapolaanoçãodelegitimidadedosersocial,poisas pessoasnãosãoapenascidadãs,jáquepartilhamumasérie designificados(narrativas,estratégiasdiscursivas,mitos). Destemodo,osdiferentesmembrosdasdiversasculturas (nacionais,regionaisoulocais),independentedesuaetnia, classeegênero,seriamunificadosnumaúnicaidentidade cultural.

produtos,masvenderumconceito.[...]DaModa,uma publicaçãoconceitual,inspiradanaliberdadedeexpressão esedentapelonovo.” Apublicaçãocomeçouaserproduzidaemsetembrode 2012eédisponibilizadagratuitamenteaopúblicoatravés dositeIssu.com¹,voltadoparapublicaçõesdigitais.Alguns dosconteúdosmaisimportantesproduzidospelarevista sãooseditoriaisdemoda,queestãopresentesemtodasas edições,muitasvezesmaisdeumporedição.Numa primeiraobservaçãoéimportanteressaltarque,pornãoter vinculaçãocomercialnemobrigaçãodepublicaranúncios publicitáriosoupeçasdeanunciantes,osprodutorese fotógrafosdaequipedispõemdecertaliberdadenahorade escolherostemasdoseditoriais,aspeçasutilizadaseas locaçõesparaasfotos.Poroutrolado,dadaasua vinculaçãoàPrefeituradacidade,parecesefazernecessário mostrarosespaçosurbanos,reconhecidoscomoturísticos ounão,sempredeformabela,excluindopossíveis situaçõesdeabandono,sujeira,pobreza,depreciaçãoetc. Umacidadeidealizada.

Oautorexplicatambémqueumadasconsequênciassobre asatuaisidentidadesculturaiséahomogeneizaçãocultural pós-moderna,quetendeaocidentalizarasrepresentações decultura,tendonosmeiosdecomunicaçãodemassasuas principaisferramentasparaisso.Mashátambémas manifestaçõesderesistênciaàglobalizaçãoporidentidades nacionaiselocais.“Emvezdepensaroglobalcomo substitutodolocal,melhorpensarnumanovaarticulação entreoglobaleolocal.”(HALL,2001,p.77). ArevistaDaModanosajudaaexemplificarecompreender, atécertoponto,aresistênciaaessahomogeinizaçãoda globalizaçãoapartirdomomentoemquereforçaas característicaslocaisnaimagemdemoda,searticulando comreferênciasglobais,representadasprincipalmentepor elementosurbanosdacapitalparaibana.Paraentender melhoressacaracterizaçãodaidentidadelocalénecessário compreenderaculturacomoumprocessocomplexoe permanentedetrocassimbólicas,eofortalecimentodessa culturalocalpodesercompreendidocomoumareaçãoa essainteração.

Atítulodeilustraçãotrazemosaqui,demaneiraresumida,o exemplodoeditorialpublicadonaprimeiraediçãoda revistasobreoMercadoCentraldeJoãoPessoa,comfotos deJoséNeto2.Acarteladecoresévasta,tantonapaisagem (jáquesetratadeumafeiraondeháapresençadeuma grandevariedadedeprodutosalimentíciosoupeças utilitárias)quantonosfigurinos.Aspeçasutilizadasno editorialforamfrutodaoficina“CéluladeCriação”eteve comoreferênciaomesmolocaldasfotos.Explicaotexto queacompanhaoeditorial:“InspiradonoMercadoCentral deJoãoPessoa,ogrupoconseguesairdoóbvioemostra umacoleçãocheiademovimento,detalhes,riquezae aspectosculturaisdolocal.”

Essaresistência,oudiálogo,comoafirmaHall(2001),pode serexercidadediversasformas.Narevistaeletrônica DaModa,publicaçãoconceitualsemcarátercomercial financiadapelaPrefeituraMunicipaldeJoãoPessoa,elaestá presenteemtodooconteúdoproduzidoesecaracteriza visualmenteprincipalmentepeloseditoriais:tantona escolhadaspeçasquantodalocaçãoparaasfotos.As imagensveiculadaspelapublicaçãooptam,nasuamaioria, porexporacapitalparaibanaembebidanumaáurea mágica,aquelaqueécaracterísticadoseditoriaisdemoda, quenosremeteaumaesferadesonhos,desejoseideais. ArevistaDaModafazpartedesseprojetodepromovera culturademodaemJoãoPessoa,eparaissoseutilizade íconesesímbolosdacapitaldaParaíbanointuitode resgataraidentidadedopessoensenaimagemdemodae, assim,reforçá-la.ComandadapelajornalistaLarissaClaro, editora-chefedapublicação,epeloestilista,produtore diretordaEstaçãodaModa,RomeroSousa,temnasualinha editorialaseguinteproposta:“Aideianãoévender

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OMercadoCentraldeJoãoPessoa,construçãodosanos 1950recuperadaentre2010e2011,fazpartedapaisagem urbanadacidadedeformamarcante.Aocontráriode outrosespalhadospelacapitalparaibana,esteficaemuma áreademuitofluxodapopulaçãodacidade,poronde passamváriaslinhasdeônibusepróximoagrandes empresasdecomunicação.Acoleçãotentourefletiroefeito desordenadoemulticoloridodaestruturaurbanadafeira naspeças,recorrendoamodelagensinusitadas,comono primeirofigurinoondeastirasdetecidosãoinspiradasna visãoqueofeirantetemdaruaestandodentrodabarraca.


CapasdarevistaonlineDaModa,2012e2013

“Vestir,nahistóriadaindumentária,podeterosentidode instalarnocorpohumanoumcenário,noqualomesmo temopapeldeagireinteragircomosefosseumpalcode representaçãodetemasapocalípticos.”(DUARTE;BARROS,

nordestino,algomuitopresentenocidadãopessoense. SegundoFlusser(2005,p.9),“asimagenssãomediações entreohomemeomundo”.Apresentam-seassimcomo “superfíciesquepretendemrepresentaralgo.Namaioria doscasos,algoqueestáláforanoespaçoenotempo”. Portanto,podemosconsiderarqueoobservadorda imagemacessareferenciaisnostálgicosaoobservaresse tipodefotografia.

2006,p.212).

Jáachitafoiquemganhouespaçodedestaquenasegunda ediçãodarevista3emcoleçãocriadapeloestilistaparaibano RomeroSousa,comfotosdeDayzeEuzébio.Cheiadecores eestampasfloraisbemcaracterísticas,otecidoque tradicionalmentedecoravaascasaspobresdointeriordo Estadoviroumatériaprimaparapeçasatuaisefoipararnas areiasdaspraiasdeJoãoPessoa.

Trazemosaindaalgumasconsideraçõessobreoeditorial publicadonaquartaediçãodarevistaonline4,comfotosde DayseEuzébioeumalocaçãoincomumparaatradiçãoda fotografiademodalocal:oRioSanhauá.AcidadedeJoão Pessoa,diferentedeoutrascapitaisdolitoralbrasileiro, nasceunomangue,norioquebanhaacidadee desembocanoRioParaíba.Sóapartirdosanos1950ela cresceparaapraiaedáascostasparaorioqueaviunascer. Hojesempraticamentenenhumareferênciahistóricado antigoPortodoCapim,oleitodorioétomadopor habitaçõesirregularesocupadasprincipalmentepor pescadoresquetiramdorioseusustento.Aregiãoé poluídaeaságuassãoimprópriasparabanho.

Apraiaéelementopulsantenavidadopessoense. Caracterizadaporumatopografiaquepermitequecasase restaurantessejamlivrementeacessadospelapraia,o cidadãodacapitalparaibanatemohábitodefrequentar diariamenteaorladacidade,sejaparaapráticade atividadesfísicas,passeiosemfamíliaoumesmopara aproveitaraareiaouomarduranteodiaounoite.Éaárea maisnobredacidade,comosmetrosquadradosmaiscaros, compostosporcincobairros,masquerecebediariamente moradoresdeváriasregiõesdacidade.Achita,porsuavez, vemaospoucosocupandoespaçonobreemcoleçõesde estilistasbrasileiros.Otecido,quejávestiuescravos, camponeses,tropicalistas,personagensdeliteratura,teatro, novelaecinema,nãoperdeuoseuardeinocênciae rusticidadeaolongodotempo,continuaremetendoao universoingênuo.(MELLAO,2005).

Aspeçastrazemumcontrasteentreapobrezadolugarea riquezaesmeradadaprincipalemaiscararendaproduzida naParaíba:aRenascença.ArendaRenascençasurgena EuropanoséculoXVeganhaespaçoempaísescomoa FrançaeaItália.ElachegaàParaíbanofinaldoséculoXVII trazidaporfreirascarmelitasquevêmparaaregiãoe acabamensinandooofícioaalgumasmoradorascomo formadegeraçãoderenda(NÓBREGA,2005).Hojea produçãoderendaépassadadegeraçãoemgeraçãoeé cadavezmenoronúmerodepessoasquedominama técnica,encarecendogradativamenteoproduto,quehoje ésinônimoderiquezaesofisticação,vendidaaaltospreços nasfeirasemercadosdaregião.

OrigináriadaÍndiaecompassagempordiversospaíses europeus,achitachegaaPortugalnoséculoXVevemao BrasilnofinaldoséculoXVIII.Poraqui,ascoresdiscretas lusitanasganhamestampasgraúdasdetonsvibrantes, tingidascomoscorantesvegetaisdisponíveisnaflorada região(GARCIA,2007).NoNordesteelasetornaproduto baratoporsuagrandeproduçãoeporserumproduto originalmentedebaixaqualidadeeacabasepopularizando entreasfamíliaspobresdaregião.Namoda,elahojeé retomadacomosímbolodeumresgateculturalbrasileiro, vividointensamentenosúltimosanos. Noeditorial,ocontrasteentreobegedaareiaeaexplosão decoresdasroupasfazaspeçassedestacaremaindamais. Achitacumpreaítambémumafunçãosaudosista,apartir domomentoemqueserefereaosantepassadosdopovo

Noeditorial,ascoresfortesdosbarcos,dasconstruçõesà beiradorioedanaturezasecontrastamcomostonssuaves darenda.Arevistaexplicaemumadasfotos“Adelicadeza darendaRenascença,artesanatotípicodoCaririparaibano, entrelaçaaculturadanossaregiãocomapelosofisticado emquerompefronteiras”,destacandoquehojeessaéuma rendadealtocustoedesejadaemváriasregiõesdopaíse domundo.

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Éimportanteressaltarqueessalocalidade,bemcomoado MercadoCentralcitadaanteriormente,nãosão consideradospontosturísticosdacidadeesimreferenciais imagéticosbemparticularesdaquelesquemoramna região,trazendoassimessereferencialdeidentidadenão necessariamentevinculadoaumvisitanteouturista,esim pertencenteaocidadãopessoense. Observaresseseditoriaiscolaboracomoentendimentode queafotografiademodapodeserusadaparafortalecerou perpetuaridentidadesculturais,bemcomoaprópriamoda emsi,funcionandonessecontextocomoumaespéciede metalinguagem.Aidentidadelocal,numdiálogocomas identidadesglobalizadas,sefazempresentesnaproposta darevistaeletrônicaDaModa.Elessãoumaformade representaromundoeaspessoasdacidade.“Instrumento decomunicação,divindade,aimagemassemelha-seou confunde-secomaquiloqueelarepresenta.”(JOLY,1996, p.19).

Emcomumatodososensaiosanalisados,percebemoso temadacidadedeformaconstante,demaneiramaisou menosóbviaesempreenvoltanumaáureadeluxoede idealdebelezacaracterísticosdoseditoriaisdemodaem todoomundo(SIEGEL,2012).Épossívelidentificarainda, numavisãomaistécnicadafotografia,quetodososensaios privilegiamafigurahumana,numareferênciaclássicaao gênero“retrato”nafotografia,algotambéminerenteaos ensaiosfotográficosdasrevistasdemoda(EASTERBY,2010). Porém,nosexemplosmostradosaqui,tambémépossível perceberdeformamaismarcanteapresençadocenário comoelementocrucialparareforçaramensagemda revista:acidadecomoreferênciademoda.“Acategoriada imagemreúneentãoosíconesquemantêmumarelaçãode analogiaqualitativaentreosignificanteeoreferente.”(JOLY, 1996,p.40).

 Arevistamostraacidadenãoapenascomoumcenário qualquerousimples,mascomoalgopensado,planejado, comobjetivosclaros,entreeles:mostraraurbanidadede formabelaelúdica;reforçarqueépossívelseinspirarnos elementoslocaisparaproduzirmoda,tantonaspeças quantonasimagensdemoda;colaborarcomacriaçãoeo fortalecimentodeumaidentidadelocalquesereconhece nesseselementosurbanoseosvaloriza.Assim,apublicação fazumrecortedacidade,mostrandoumaurbanidade idealizada,umsigno,umimagináriocapazdetransmitiro luxoquealgunssetoresdamodaalmejam. 18

Amodavemdesempenhandoaolongodetodaasua existênciaostatusdeseususuáriossendo,ainda, consideradafatordeconstruçãodaidentidadedossujeitos, muitasvezesdemonstrandosuafiliaçãoavalores específicosdeumdeterminadogrupoousociedadeea determinadasexpressõesculturais.Eaimagemdemoda propagadapelosmeiosdecomunicaçãocumpreumpapel fundamentalnesseprocessodeidentificação.

AgdaAquinoéjornalista,professoradaUniversidadeEstadualda Paraíba,pesquisadorademoda,fotografiaecomunicação.

Notas 1Disponívelem:http://www.issuu.com/damoda.Acessoemmaio de2013. 2Disponívelem:http://www.issuu.com/damoda/docs/1edicao. Acessoemmaiode2013. 3Disponívelem:http://www.issuu.com/damoda/docs/da_moda _02.Acessoemmaiode2013. 4Disponívelem:http://issuu.com/damoda/docs/4edicao.Acesso emmaiode2013. Referências DUARTE,Jorge;BARROS,Antônio(Orgs.).Métodosetécnicasde pesquisaemcomunicação.SãoPaulo:Atlas,2006. EASTERBY,John.150liçõesparaaprenderafotografar:técnicas básicas,exercícioseliçõesparafotógrafosiniciantes.SãoPaulo: EditoraEuropa,2010. FLUSSER,Villem.Filosofiadacaixapreta:ensaiosparaumafutura filosofiadafotografia.RiodeJaneiro:RelumeDumará,2005. GARCIA,Carol.Chita,chitinha,chitão:notassobreimagense andanças.In:3ºColóquiodeModa,2007.BeloHorizonte,MG. Anais.Disponívelem:http://www.coloquiomoda.com.br/anais/ anais/3-Coloquio-de-Moda_2007/3_07.pdf HACKING,Juliet.Tudosobrefotografia.RiodeJaneiro:Sextante, 2012. HALL,Stuart.Aidentidadeculturalnapós-modernidade.Riode Janeiro:DP&A,2001. JOLY,Martine.Introduçãoàanálisedaimagem.Campinas,SP: Papirus,1996. MARRA,Claudio.Nassombrasdeumsonho:históriaelinguagens dafotografiademoda.SãoPaulo:EditoraSenacSãoPaulo,2008. MELLAO,Renata(Org.).Quechitabacana.SãoPaulo:Acasa,2005 NÓBREGA,Christus.RendaRenascença:umamemóriadeofício paraibana.JoãoPessoa:SEBRAE/PB,2005. SIEGEL,Eliot.Cursodefotografiademoda.Barcelona/ES:Editorial GustavoGili,2012.


ArtecontemporâneanaParaíba: visualidadesperiféricas



ValquíriaFarias valquiriafarias@gmail.com

Brasil/Brasis,artigodeautoriadocríticodearteecurador brasileiroPauloHerkenhoff,talvezsejaamaisesclarecedora análisecríticasobrearealidadedaartebrasileiranoséculo 20.Suadiversidade;seusartistas;amultiplicidadede caminhos;linguagensemateriais;comoeraproduzidae sobquaiscondições/dificuldadespolíticas,econômicase sociaissãoaspectosabordadosporHerkenhoffempoucas linhas,quasecomoumaliteratura;naverdade,éuma iniciativainteligenteefelizparaexplicaraoleitorqueos nossosartistasvivem/sobrevivemmúltiplosterritórios, “brasis”,efazemartecomum“docesuoramargo”.

artebrasileiroemrelaçãoaoincipientemercadodearte locale,assim,buscaralternativasdeacessoecirculação. ParaPauloHerkenhoff,osistemadeartenoBrasilé equidistanteporqueseguealógicacolonialistadasrelações internacionaisdepoder.Eledizque“Amesmadistância políticaqueseparaosgrandescentrosbrasileirosdearte doscentroshegemônicoseuropeusenorte-americanos parecesepararoscentrosregionaiseperiféricosbrasileiros doscentroshegemônicosdopaís[...]”,exemplificandoque “Umaconcentraçãodeartistasedeinstituiçõesdearte correspondeaumaconcentraçãoderendainternanum quadrodegravesdesequilíbriosregionaisestruturais”.

Oartigofoiescritonofinaldadécadade1990.É atualíssimo.Jáquequasenadaparecetermudadono cenárioartísticobrasileironestenovoséculo.Daíarazãode mencioná-lologonoiníciodopresentetexto,quetratada exposiçãoArteVisualPeriféricanaParaíba,coletiva compostade24obrasproduzidaspor12artistasvisuais, jovensemsuamaioria,residenteseatuantesnesteestado.

Nestecontexto,compreende-sequeacondiçãodeserum artistaperifériconaParaíbaguardadiversasrazões relacionadasàrealidadedolocalqueescolheramparaviver comocidadãoseartistasàrealidadebrasileira,ourealidades brasileiras.Razõesestastransformadasnalgumaspectoem seustrabalhos,poissãoresultantesdevivênciaspráticase reflexivasapartirdeseusentornos.

EstaexposiçãonoMuseuAssisChateaubriand,da UniversidadeEstadualdaParaíba,emCampinaGrande, maisdoqueapresentarumconjuntosignificativodeobras querefletebemaproduçãodeartecontemporâneana Paraíba,propõeumdesafioousadoemuitoimportante: lançarnovosquestionamentoseacenderodebateacerca darealidadeaindafrágileprecáriadocircuitodeartes visuaisparaibano.Istoemrelaçãoaoutroscircuitosdearte noPaís,maisorganizadosemtermosdepolíticasculturais, distribuiçãoderecursospúblicoseprivados.

Oquequeremos“artistasperiféricos”nãoénadadenovo, maséalgofundamentalequenuncahaviasidocolocado comopautadedebatesporgeraçõesanterioresdeartistas paraibanos.Nãodestaformacompromissadaeorganizada. Discutiromeioculturallocaltambémfazpartedavidado artista.Bastaapenascomeçarecompreenderaimportância políticadeserumartista-cidadão.Comodiznovamente Herkenhoffemseuartigo:“Naexperiênciabrasileira,o artistanãoapenasfezarte,mastambémtevedeconstruir, muitasvezes,oespaçosocialearmarapossibilidade políticadeseudiscurso”.

Oentendimentodoquevemaser“artevisualperiférica” porpartedosprópriosartistas‒quesãoaomesmotempo autoresecuradoresdestaexposição,éimportantefrisar‒ expressanãosomenteaconstataçãodessadifícilrealidade localemquevivemeproduzemarte.Exprimetambéma vontadedetodosdediscuti-lacoletivamente,comoutros agentesculturais,instituições,galeriasecomasociedade,a fimdetentarsuperá-la.

Nestaexposição,nãoéintençãodosartistaso estabelecimentodeaproximaçõesestéticaseconceituais dequalquerordem(linguagens,materiais,suportes, técnicasetc.)entreosseustrabalhos.Todossãorealizações individuais,nãopautadosporumaabordagemcuratorial maiscomplexa.Emborahajamesmoanecessidadede mostrarqueexisteumaproduçãoemergentenoEstadoe queessaproduçãonãoéassimiladapelopúblicoporque, muitasvezes,asinstituiçõesculturaisnãolhedãoa visibilidadedevida,associadaaumprocessoformativo,de conhecimento.

Ouseja,existeumaaçãoestratégicadosartistasperiféricos, comoelesmesmossedefinemenquantocoletivo,de,com estamostra,mobilizar,chamaraodiálogoaclasseartística localereivindicardosrepresentantespúblicosmelhorias paraasinstituições,osmuseuseosacervos.Alémdisso, junta-setambémanecessidadedediscutiromercadode

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ObradeAntônioFilho(Fotografia:WênioPinheiro)

Porém,umaaproximaçãodassuasideiasarespeitodoque vemasera“arteperiférica”queproduzempodeser possívelnestetexto. Aquestãodasconvenções,dostratadosedasregrasde condutacriadaspelohomem,navidaenaarte,édiscutida, deformasdistintas,nosdesenhosemnanquimdeAmérico Gomes,nosretratosempasteldeCarlosNunes,nas performancesdeSandovalFagundesenosgrafitesde CybeleDantas.EmAmérico,háacertezadelidar diariamentecomosesquemasdecontrole,forjando-os.Em CarlosNunes,odesejodevestir-setambémdo“outroeu”, numareaçãoafetiva,explosivaetemporal.EmSandoval Fagundes,nogestoperformático/irônicodeescaparde amarrasdetodasorte,definiçõesemarte,dolugar-comum. “Desenharcomoquemfazpipoca”seriaomesmoque desenharcomoumacriançaqueriscaumaparede?Nunca sesaberáaocerto.AsfotografiasrecortadasdeCybele Dantassãoexemplaresperfeitosdamisturadelinguagens: afotografiaeografite,emumsuporteconvencional,atela. Suapropostaéexperimentarpossibilidadesderealizar Grafittie,aomesmotempo,desfazerpreconceitosem relaçãoàpinturatradicionalinvadindoseusespaçosde circulação.

ObradePotiraMaia(Fotografia:WênioPinheiro)

Asgeografiasdosespaçosurbano/ruraledanaturezaestão narradasnaspoéticasdesenvolvidasporAntônioFilho, SergeHuoteLuizBarroso.ParaAntônioFilho,oespaço urbanoéaqueleporondeseucorpotransita cotidianamente.Eleconstrói,porexemplo,mapaspessoais delugaresdacidadeinterligadosporartériasdeum coração,representadocomosefosseumamemorialística docorpotrafegado,subjetividadesexperimentadas partindodeelementosconcretosarquiteturais.SergeHuot éartistafrancêscujacondiçãodeestaratuandoemum territórioperiféricobrasileiro,vivendoemconstante contatocomanaturezalocal,ocolocanumaposição historicamenteprivilegiadaemrelaçãoaosdemaisartistas dogrupo.Huotcriaesculturascommateriaisjogadosna praia,restosdepoliestireno,comosedesejasseconstruir umaarquiteturadapaisagem“outroranatural”,aquelaque somenteoolharestrangeiropodeenxergar.Nãodeixade serumaformadedenúnciadaaçãodohomemsobreo meioambiente.JáLuizBarrosopercorreoscaminhosdos signosrupestresincrustadosnapaisagemruralparaibana, símbolosdenossaformaçãomaisrudimentar,para

ObradeAntônioLima(Fotografia:WênioPinheiro)

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ObradeWênioPinheiro(Foto:WênioPinheiro)


Opainel PopTropicalistade ChicoPereira DyógenesChaves dyogeneschaves@hotmail.com

construircompapelmachéumametalinguagem compromissadacomaculturadohomemnoNordestedo Brasil.

NumarecentevisitaàCampinaGrande‒segundacidade daParaíbaeoutroramaiorentrepostodepeles,algodãoe gênerosalimentíciosdaregiãoque,porsuaprivilegiada localização,interligavatodooEstadonosentidolesteoeste,sul-norte‒,fomosaoencontrodopainelTropicália, deChicoPereira,pintadosobreparedecomtintaacrílica, esmalteespray,medindo220x600cm,de1969,queadorna oantigorestauranteuniversitáriodaUniversidadeRegional doNordeste(URNe),hojeUEPB.Aobra,recentemente restaurada(finaisde2013),permaneceatualeéimportante referênciadaarteparaibana.Parasuaexecuçãooartistase utilizoudeelementosvisuais,materiaisetécnicosdo movimentoPopArt,oquesugeretambémincluiraobrana searadoGrafite(comousodesprayeestêncil,jánaquela época)edoMuralismonaregião.

AntônioLima,PotiraMaiaeTonyNetoconduzemsuas poéticasnumarelaçãodealteridadecomolugardosujeito eseusobjetoscotidianos.AntônioLimaproduzobjetose instalaçõesressignificadosdesuaiconografiaepaisagem, utilizando-sedeconceitosantropológicos,filosóficose científicospararefletirsobreatransitoriedadedavida humana.PotiraMaiaregistraemfotografiasosprocessosde destruiçãodamemóriadepersonagensdesconhecidosda cidade,transeuntes,nosinúmerossapatosachados “perdidos”ou“abandonados”nasruasdeJoãoPessoa.Tony Neto“serefaz”emcenasprecisasdemelancólicosrituaisde morte,projetando-senumaimagempotencialdosuicida anônimo.Seusvídeosaludemàsestranhasmortespor suicídiodemoradoresdaregiãodoValedoPiancó,interior paraibano.

Éimportantesituarousopioneirodestesrecursosdo GrafiteporChicoPereira,jáque,somenteapartirde1978é quesetemnotíciasemelhanteprotagonizadapeloartista etíope-brasileiro,AlexVallauri¹.

RaquelStanickeWênioPinheirorecorremàliteraturapara produzirsuasobrasapartirdaapropriaçãodetemascomo feminino,intimidade,fantasia,amor,sexo,corpoe erotismo.RaquelStanickseutilizaaindadasnovasmídias paracolocaremjogotextopoéticoversusimagemreale, assim,discutiraformaçãodosclichêsnasrelações interpessoais.ParaWênioPinheiro,interessaodesenhode traçoagressivoenervosodocorpohumano,despudorado nassuasmaisvariadasposiçõesesituaçõesíntimas,à maneiradeEgonSchiele,comodepositáriodamensagem quedesejaexprimiraoleitor.

Mesmotratando-sedeobralocalizadaemambienteinterno ‒orestaurantedaURNe‒,oquecontribuiuparamantê-la quaseintacta,aobradeChicoPereirarecebeatéhoje imensofluxodeestudantes,professoresefuncionáriosao longodestesmaisde43anos. Comaintençãodeanalisarmelhoraobraedar-lhe visibilidadeereconhecimento,optamosporfazeruma viagemnotemporevendoosprincipaismomentosvividos peloartista,aforaoutrosacontecimentossócio-culturaisna cidadequejustificamopioneirismodestemural.

Afinal,paraqueserveaarte?Acredita-sequeumadas prerrogativasmaiscontundentesdaarte,noplanopolítico ecrítico,sejaadecriarviasdeacessotantoasiprópria comoaoseuentorno.Assim,éprovávelque,seoidealpor mudançasnocenáriodaarteparaibanaformesmolevadoa caboemoutrasaçõesfuturasdoColetivoPeriféricos,com resultadossendoalcançados,nãopoderemosnegara importânciaqueteráestaexposiçãodaquiparafrente.

Estamosnoanode1967.AnacletoElói,estudantedeBelas ArtesemRecife,mastambématuanteemCampinaGrande, suaterranataleondefazpartedoprimeirocoletivode artistasdacidade‒oEquipe3‒,aoladodeChicoPereirae EládioBarbosa,éumdospoucosartistasparaibanosa participardaIBienalNacionaldeArtesPlásticasdaBahia, emSalvador.NumamatériapublicadanojornalDiárioda Borborema(CampinaGrande,29dejunho),seu depoimentoaojornalista(ecineasta)MachadoBitencourt apontaparaalgumasdaspreocupaçõesdaartelocalna época.Adúvidaquepermaneceése,hoje,suaanálise continuaatualouapenasfoipuroarrouboidealistadetodo jovemartista.Vejamos:

ValquíriaFariasécríticadearteecuradora,vinculadaatualmente àFundaçãoCulturaldeJoãoPessoa-Funjope.



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OpintorMiguelGuilherme(Foto:MachadoBitencourt)

CapadolivroOsAnos60,1979

“JoséAnacletotemideiasprópriassobreascausas origináriasdoatrasoculturaldeCampinaGrandeno queserefereàsartesplásticas.Segundoostermosde suaanálise,osmotivosfundamentaisdesseatrasosão asausênciasdasinfluênciashistóricas.Campina Grandefoiumacidadequedurantemuitosanos interpretouaartecomooagradávelouobonitinho,e queaplaudiuespetáculosmedíocres,contribuindo dessamaneiraparamanterumestágiodegritante alienação.ʻAgora,quandoCampinaGrandejátoma consciênciacultural,implantandoemantendouma universidade,oproblematendeadesaparecer(nãoa curtoprazo!)inicialmentecomopreenchimentodas lacunasexistentes.ʼ,afirmaoartista.”

ComodepõeChicoPereira:“Esseacontecimentofoi marcantenavinculaçãodosartistasdeCampinaGrande, notadamentedoEquipe3,aoutroscentrosartísticos,mais efetivamenteàCapitalJoãoPessoa.Passamosentãoa frequentarnosfinaisdesemanaosambientesartísticose intelectuaisdaCapital,ampliandoasinformaçõeseabrindo ointercâmbio.OMuseu,decertaformacontribuíapara animaropanoramaque,ajudadopelaefervescênciade criaçãonoutrasáreas,formavaaoseuladooconjuntode atividadesquemarcaramprofundamenteacultura paraibanadaípordiante.EmJoãoPessoa,sobaliderança deRaulCórdula,quemaisumavezdeixaraCampina Grande,BrenoMattos,GuyJoseph,MardemRolim,Cleófas Leonan,UnhandeijaraLisboa,PontesdaSilva,Régis Cavalcanti,JoséLucena,FlávioTavares(jovemartistaquese revelava)eMigueldosSantos,formavamogrupodos principaisartistasjovens.Juntavam-seaosmesmosos poetasecompositoresdoGrupoSanhauá:MarcusVinícius, AncoMárcio,SeverinoMarcos,SérgiodeCastroPinto, CarlosAranhaeMarcosdosAnjos.Asvisitasaexposiçõese ateliêsterminavamsempreemnoitadaspoéticasetinham comopontodepartidaobrigatórioaChurrascariaBambu, naLagoa,ondegeralmente,àmesadoescritorVirgíniusda GamaeMelo,sereuniaestageraçãodejovenseoutros intelectuaisdaterraparadiscussõesintermináveisde estéticaepolítica.Àsvezes,oEquipe3,porintermédiode Anacleto,queestudavaemRecife,sedeslocavapara encontrosdestanaturezaemPernambuco,quasesempre comJomardMunizdeBrittoeoutrosintelectuaiseartistas queatuavamentreRecife-Olinda.”

Algunsmesesdepois,em20deoutubrode1967,era inauguradoemCampinaGrandeoMuseudeArteAssis Chateaubriand,numagrandefestapúblicacomapresença depersonalidadesdomundopolítico,empresariale culturaldetodasasregiõesdopaís.“Entreosconvidados, estavamoscríticosMárioPedrosaeMárioBarataeos artistasRubensGerchman,AlexandreFilho,AnnaMaria Maolino,ogregoGaitis,EmericMerciereAntonioDias,que retornavaàsuaterranataldepoisdequase10anos.O Museu,porforçadoacordoestabelecidoentreaCampanha dosMuseusRegionais(leia-seAssisChateaubriand)ea PrefeituradeCampinaGrande,seriageridopelaFundação UniversidadeRegionaldoNordeste(FURNe)coma condiçãodepreservá-loedinamizá-locomoinstituição universitária,etambémficouacertadoanexaraomesmo umagaleriadearteparaexposiçõesperiódicas,voltada principalmenteparaaartelocal.”,afirmaoartistaeexdiretordoMuseu,ChicoPereira.

Sevoltarmosaoanode1957,vamosencontraroainda meninoChicoPereiracomoalunodepinturaedesenhoda EscoladeArtedeCampinaGrande,dosprofessoresJorge Nessemesmolocal,simultaneamenteàrecepçãopública Miranda,PedroCorrêaeNourivalGonzaga.Eraalgoraro‒o doAcervo,foiinauguradaumaexposiçãocoletivacomos ensinodearte‒numacidadequenãotinhaqualquer artistasmaisrepresentativosdaartecampinense:Raul referênciaoutradiçãonasartesplásticas‒comoabordara Córdula,EládioBarbosa,AnacletoElóieChicoPereira. AnacletoElóiemseudesabafopublicadonoDiárioda Borborema‒excetoapinturadoforrodaCatedraldeNossa AinauguraçãodoMuseu,alémdeserumagrande SenhoradaConceição,executadaporMiguelGuilherme, conquistaparaacidade,ofereciaapossibilidadedese pintornascidoemSumé,noCaririparaibano.Essaobra,que enxergaralémdoshorizonteslocais.Foi,defato,oprimeiro viriaaserdemolidaem1963porrazõesinexplicáveis,era contatocomaartebrasileiradosúltimoscemanoseo paraChicoPereiramotivodedeleitequandofrequentava comseupaiasmissasdedomingo.AobradeMiguel despertar‒peloacervoestrangeiro‒dasquestõesestéticas Guilhermeeraumbeloconjuntodepaineisdistribuídosna contemporâneas,permitindoapartirdaí,umareflexãomais navedaigrejaenassuaslateraise,curiosamente,emmeio aprofundadadoprocessocriativoeapontavasobreoque àscenasbíblicasestavamváriasfigurasdasociedadelocal fazerparaumaatualizaçãoadaptadaàscondiçõesculturais daregião. 22 retratadaspeloautornumestiloquaseingênuo.


Aolongodosprimeirosanosdadécadade60,éimportante pontuaralgunspoucoseventosdeartesplásticasem Campina.Apesardepoucos,elesforammarcantesparaa juventudequealmejavaalgumaatuaçãonaáreaartística, incluindoaíosjovensartistasdoEquipe3.Vejamos:logo em1960,novembro,aconteceaexposiçãocomartistasde JoãoPessoa‒ArchidyPicado,RaulCórdula,PontesdaSilva, LeonardoLealeIvanFreitas‒maisocampinense,Flávio BezerradeCarvalho,naFundaçãoparaoDesenvolvimento daArte,CiênciaedaTécnica(Fundact).Amostratinhapor objetivodifundirumaartemais“contemporânea”e aproximarosartistasdasduasmaiorescidadesdoEstado, notadamentetrazerobrasmaisinstigantesvistoque vingavaemCampinaGrandeumaproduçãoainda acadêmica.E,noanoseguinte,ocorreumaexposição promovidapeloDiretórioAcadêmico,daEscolade Economia,duranteaISemanadeCulturaUniversitáriade CampinaGrande,comaparticipaçãodeartistaslocais,de todasaslinguagensetécnicas.Eládio,FlávioBezerrae ChicoPereirareceberampremiaçãonesteevento. ValeaquilembrardacriaçãodaAssociaçãoCampinense Pró-Arte,entidadequedurantequasequatroanos movimentouopanoramaculturaldacidade,mais efetivamentenaáreadamúsicaerudita.APró-Arte promoveudiversosconcertoserecitaisetambémoensino damúsica.Foidefatoaprimeiraentidadevoltada especificamenteparaaculturacomtodososaspectos legaisparafuncionar,inclusivecomregistronoMec.APróArteampliousuasatividadescomcursosdedança,por exemplo,emesmoassim,comtodooesforçodosseus dirigentes,nãoconseguiusobreviverpelomesmomotivo daEscoladeArte:faltadeapoiooficial.Oanode1964 trouxediversosacontecimentosquemodificaram profundamenteavidadacidade.Asmudançaspolíticas ocorridasapartirdo“31deMarço”abalaramasrelaçõesde suaeconomiaquepraticamentesesustentavanocomércio. Arestriçãodecrédito,aseveravigilânciadosistemade descontobancárioeaausênciademoedacorrente, somando-seàcassaçãodosdireitospolíticosdealguns “líderescomunistas”provocougranderebuliço,exatamente noanodoprimeirocentenáriodacidade. “Foinomeiodessaconturbaçãoedafaltadehorizontes maislargosparaacuIturaquesecriou,tendoemvistaos festejosdos100anos,aComissãoCulturaldoCentenário, constituídaporintelectuaisepessoasdenotoriedade,com afinalidadedecoordenarasatividadesartístico-culturais, objetivamenteaediçãodedocumentoselivros,exposições dearte,atividadesmusicais,asartescênicase, principalmente,adescobertadevaloreslocais.Essa ComissãofoimaistardetransformadaemComissãoCultural doMunicípioeseresponsabilizoupordiversasedições históricaseliterárias,entreelasoJornaldeArte,coletânea decrônicasecríticasdeartedeRubemNavarra², pseudônimodeRubemAgraSaldanha,numahomenagem aessecampinensequejuntoaMárioPedrosaeAntonio Bento,tambémparaibanos(sic),formamogrande pensamentodacríticadasartesplásticasbrasileiras.”, escreveChicoPereiraemartigopublicadonolivroOsanos 60‒RevisãodasartesplásticasnaParaíba(Mec/Funarte, UFPB,1979).  23

Desde1963,estavaemfasefinaldeconstruçãooTeatro Municipal.Antesmesmodasuaconclusão,foioficialmente inaugurado,considerandoqueistocoincidiacomaposse donovoprefeito.Oteatro,apartirdaí,mesmo precariamente,transformou-senoprincipallocalparaas manifestaçõesculturaisdacidade.Emoutubro,mêsde aniversáriodeCampinaGrande,realizou-sedurantea programaçãooficial,aExposiçãodeArtedoCentenário, reunindoobrasdealunoseprofessoresdaEscoladeArtee artistasdeJoãoPessoa;entreestesajovemCeleneSitônio, nasededaFundact.Nesteperíodotrêsacontecimentosirão marcardefinitivamenteavidaculturaldacidade:oCinema deArtedoCineCapitólio,criaçãodosjovensLuisCarlos VirgolinoeHamiltonFreire,que,comaexibiçãodeclássicos “dahora”‒comoasobrasdeGlauber,Pasolini,Bergman, JohnFord,Fellini,Lattuadaentreoutros‒propõeum programadeinteressecríticoqueuniuintelectuaise aficionadospelasétimaarte,nosmoldesdeumcineclube, chegandoaprovocardeliciososdebatessobreestéticae vanguarda.OutroeventofoioISalãodeFotografia,nohall dorecéminauguradoTeatroMunicipal,sobacoordenação deMachadoBitencourteJoséClementino.Eestafoia primeiraveznacidadequesemostroufotografiaquenão fosseapenas“retratoepôrdosol”.Tambémfoicriadoo TeatroUniversitárioCampinense,sobaorientaçãode WilsonMaux,motivadopelaexistênciadonovoTeatro. Foinesseano‒1965‒enovamentenohalldoTeatroque ChicoPereirainaugurousuaprimeiramostraindividual, Artedascoisas,comgrandesucessodepúblicoedevenda. Umasemanadepois,ojovemcríticopernambucano, JomardMunizdeBritto,apresentavaoespetáculoFestival BossaI,sobacoordenaçãodeAnacletoElói,jáestudante deBelasArtesemRecife.Oeventoserviudeligação definitivaentreosartistasdeCampinaeRecife-Olinda, culminandocomapresençadosparaibanosnolançamento doManifestoTropicalistade1967,queteveapresençade GilbertoGileCaetanoVelosoemRecife. Em1966,foicriadaaUniversidadeRegionaldoNordeste, maisumespaçoparaadiscussãoculturalnacidadee,ao mesmotempo,somando-seàUFPB,tornavaCampina GrandeumpólodeeducaçãosuperiornoNordeste.Neste mesmoano,aconteceuasegundaediçãodoSalãode Fotografia,destaveznohalldoEdifícioJabre,queprestava homenagemaoscriadoresdoCinemadeArte,Virgolinoe Hamilton.Nascomemorações,numafazendapróximaà


ObraTriálogo,doEquipe3,1967(Foto:MachadoBitencourt)

cidade,faleceu,porafogamento,ojovemhomenageado, LuisCarlosVirgolino.Atragédiaabalouosjovensartistase intelectuaiselevou-osacriar,diasapóseemsua homenagem,umafundaçãocultural(comseunome)que passouapromoverváriasatividadesnasáreasdoteatro, cinema,artesplásticas,música,literaturaetc.

Calmon.O[jornal]CorreiodaParaíbaemreportagemsobre oacontecimentobatizou-ade“exposiçãoCHEouNãoCHE” emalusãoàpresençadaimagemdoguerrilheiroGuevara entretubosdekatchupderramado,numdostrabalhos.O principalobjetodaexposiçãoeraumgrandetríptico representandoumanaveespacial,amaisnovapesquisado Equipe3,experiênciarealizadaapartirdeumaplantaem escalareduzidaque,divididaemtrês,umaparteparacada artista,foiampliadacadapedaçonospainéis,tendocada artistarealizadoindividualmenteumaparte, simultaneamentepassandodemãoemmão.Eraum trabalhoinéditopelomenosnãoencontradoemnenhum dossalõesougaleriasquevisitamos.

TranscrevoaquiodepoimentodeChicoPereirasobreas “aventuras”doEquipe3,publicadonolivroOsanos60. “Oanode1967foigratificanteparanósdoEquipe3.Já vínhamosacumulandoindividualmenteexperiênciasem participardeexposiçõesoficiaisemváriaspartesdoBrasil, comprovandoanósmesmosapossibilidadede extrapolarmosacondiçãodeartistaprovinciano.Nossa preocupaçãoserevestianodesejointimoemfazerexplodir todaaenergiaacumuladapelasexperiênciaspráticase informaçõesobtidasnoscatálogos,revistasespecializadase nasleiturasquenosaprofundavanasquestõesda linguagemcontemporâneaquechegavamnointercâmbio queseabrianoMuseuenoscontatoscomoutroscentros decriação.

Nesseperíodojuntou-seanósumjovemartistaque trabalhavacomobjetosmontadoscompeçasde automóveiseformavacomesseselementosrepresentações deórgãosdocorpohumano.EraAmaroMunizque,por nossointermédio,passouafazerpartedomovimentoda jovemarteparaibana.Paradefinirnossaposiçãodiantedo público,lançamosnaexposiçãoummanifestoque representavasinteticamentenossasideias.Machado Bitencourt,quenaquelaépocaatuavanaimprensa, escreveuumartigoqueexplicavanossotrabalhoeque transcrevemosaquicomoilustração.

Talentusiasmonoslevounofinaldesseanoaempreender umaviagemdecaráterartístico-culturalquepossibilitaria umamelhorcompreensãodaartebrasileiraeinternacional. Fixamosumroteiroestratégicoquenosligasseaoque pretendíamossaber.VisitamosaBienalNacional[deArtes Plásticas]emSalvador,oSalãodeBelasArtesdaPrefeitura deBeloHorizonte,ascidadescoloniaisdeOuroPreto, CongonhaseSabará;emBrasília,oSalãoNacionaldeArte Moderna;noRiodeJaneiro,oSalãodeArteModernado Mecequasetodasasgaleriasdearte;emSãoPaulo, finalmente,visitamosoprincipalobjetivo:aIXBienal Internacional,ondeEládioforaclassificadonaáreade Desenho.NascidadeshistóricasdeMinasvimos detalhadamenteacriatividadedoBarrocoedocolonial brasileiroe,emBrasília,comsuaengenhariaurbanaeasua arquiteturacontemporânea,relacionamosoBrasildo passadoedopresente;emSãoPaulo,ocontatocomaarte internacionalcompletounossavisãoparaoentendimento daquiloquevivíamosenecessitávamoscompreender. Devoltadaviagemjáera1968.Emmarço,maisumavez,o Equipe3montouumaexposiçãoconjuntadetrabalhos individuaisedogrupo,nagaleriadoMuseu,denominada ExpressãoColetiva.Foiabertanodia4peloSenadorJoão



Emmanifestodeabrilde1967,estegrupodeartistas plásticosassimfaziaaapresentaçãodeseuprimeiro Triálogo: Desdeentãooutrasobrasforamrealizadas,masaquelas ideiaspermaneceramcomoelementocomumatodoo processocriativosubsequente.Seusautoressentem,a cadadiaquepassa,oquantooseutrabalhoéparaeles viáveleoportuno,queestasimagenscriadasaseis mãoscorrespondemaumarealnecessidadede pesquisadecadaum,aumacuriosidadeesobretudo,a umavontadedefazerjogolivremaisdoque propriamentefazerArte. Ocuriosoéqueasrealizaçõesdestestrêsartistasem nadaseassemelham.Nasocasiõesemqueexpõemseus trabalhosindividuais(IBienalNacionaldeSalvador,III SalãoNacionaldeArteModernadoDistritoFederal,IX BienaldeSãoPaulo,SalãoEssodeArtistasJovens, MuseudeArtedeCampinaGrande)ficapatenteas divergênciasnasconcepçõesenosresultadosobtidos.

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Atualmente,maisdoquenunca,essasdiferençasse fazemsentir:Anacletocompõequebra-cabeçasejogos depeçasparamontar;osdesenhosdeChicosãoum amontoadoaparentementecaóticodefiguraseobjetos, gravatas,batmans,peçasíntimasdovestuário,chapéus, guevaras,bengalas,bandeiraserótulos.Easpalavras queEládiousaparadefiniroqueelefazservetalvez comoumaapresentaçãodaobradostrêsnopoucoque elatememcomum:ʻSeeufaçoessesdesenhosépor quequerocriarimagens.FazerArte‒pelomenosno sentidoqueapalavrateveatéagora‒nãoéminha principalpreocupação.Usoumdeseusprocessos,o desenho,deumamaneiramaisoumenosortodoxa simplesmentepelofatodequetalprocessotornou-se maisfamiliardoquequalqueroutro,apresentando portantomaioresfacilidadesnafabricaçãodeminhas imagensʼ”.

VoltandoaoMuseudeArteAssisChateaubriandque,soba coordenaçãointerinadeMiriamAsfora,promoveuaIFeira deArtePopulardoNordestecomoobjetivoderompero aspectoelitistaquevinhatomandoaquelainstituição artística.Durantemaisdeumasemana,artesãos,artistas populares,poetaserepentistas,semisturaramcomasobras dosfamososartistasclássicosecontemporâneoseàs conferênciasepalestrassobrefolclorequealiserealizaram. OMuseurompiaassimatradicionalilusãode“templode arte”eseintegroudefinitivamentenacomunidade.Outras manifestaçõessesucederamdurantetodoanoentreelas umaexposiçãodeArteSacra.AEscoladeArtequevivia seusúltimosdiassobadireçãodoProf.Miranda,inaugurou nagaleriadoMuseuumaexposiçãocomseuspoucos alunos.LogodepoisaUniversidadeRegionaladquiriuo patrimôniomóveldaquelaEscola‒cavaletes,mesasde desenho,modelosdegessoesuabiblioteca.Foiumfim melancólicoparaumadasinstituiçõespioneirasdoensino artísticonaParaíba.Naverdade,erapretensãoda Universidadeutilizaresseacervoparafazerfuncionarno Museuumsetordeensinodearteeporissofoiincluídona “negociação”aincorporaçãodopróprioprofessorMiranda aoquadrodepessoaldoMuseunafunçãodeconservador. Outroevento,queantecedeuhápoucosdiasda inauguraçãodoMuseuequemereceregistroespecial,foia aberturaoficial(16/09/1967)dagaleriaFaxeiroObjetosde Arte,deFranciscoDuarte,comobrasdoEquipe3eas presençasdeAntonioDias,RubensGerchman,Solange EscosteguyeMárioPedrosa.Apesardeconsideradaatitude

dodeslumbramentoqueviviaaartelocal,issobem demonstraasuacapacidadedecompreensãodoquese passavanaartebrasileira. Nestaépoca,anos60-70,aartecontemporâneanopaíspõe contraaparedeasideiasestatusquodoModernismo, abrindo-seaexperiênciasculturaisasmaisdiferentes.Daí, instalações,happeningseperformancessãoamplamente realizados,apontandoparanovasorientaçõesdaartecomo “linkar”acriaçãoartísticaàscoisasdomundo,ànaturezaeà realidadeurbana.Aíasobrassearticulameseinterligam emtodasasmodalidades:dança,música,pintura,teatro, escultura,literaturaetc.,pondoemchequeasclassificações habituaiseaprópriadefiniçãodearte.Arteevidacotidiana, assimcomoorompimentodasbarreirasentrearteenãoartesãoasprincipaispreocupaçõesdomomento, atentandoparaaçõesecategoriascomoaperformance, happening,arteambiente,artepública,arteprocessual, arteconceitual,landartetc.,queremontamàsexperiências realizadaspelossurrealistasesobretudopelosdadaístas. Muitosoutrosacontecimentos‒exposições,happenings etc.‒seseguiramapartirdaatuaçãodosartistasdoEquipe 3emCampinaGrande,semprecarregadasdenovidades estéticasepolíticas.E,finalmente,em1969,équeentraa encomendadoreitordaURNe,EdvaldodoÓ,paraChico PereirarealizaropainelTropicália,objetodesteartigo. Mesmocomoafastamentodoreitornoandamentoda execuçãodopainel,houvecontinuidadedaobrae,ao mesmotempoemqueoartistaeraelevadoàfunçãode novodiretordoMuseudeArteAssisChateaubriand.Oque aquitorna-serelevantedestacaréocaráterconceitualda obra,sugeridoporEdvaldodoÓaoencomendá-laaChico Pereiraonde,elepróprio,afirma,em1979,nolivroOsanos 60:“Opaineldeveriaserumaobradereferênciadaartedos anos60,umdocumentovisualqueregistrasseparaa posteridadeasnovaslinguagensestéticasquesurgiamea décadaqueiacomeçar.Porinfluênciadomovimento Tropicalista,aobrarecebeuumafortedosagempictóricade colorismointensoedosquadrinhos,naépocadespontando sobacríticadeumarevisão,participaçãodeseusheróis maculadospelassituaçõescriadasnacomposição”. Realmente,vemosnaobra,inauguradaem1969,as alegorias,símbolosesignosdaPopArt‒comoosheróis dasHQʼs:Super-Homem,Fantasma,BatmaneMandrake‒ 25 alémdasimagensdeumastronautanoespaço(ligadoaum


cilindrodearcomprimidoseguradopeloSuper-Homem), outroastronautacomgarfoefacaemsuasmãos,um videocassete,váriossinaisdetrânsitoesímbolosgregos, fotogramasdeumaescovadedenteseumavistadaTerraa partirdaLua.Também,umaestradaasfaltadanoaltoda obra,umamulher“tropicalista”,floresefrutasestilizados (comousodoestêncil),acabeçadeumaáguia(osEstados Unidos?)eumautorretratoemnegativo(essafoia “assinatura”doartistanaobra).Nocantoesquerdouma placacomosdizeres“Quemandacomatenção,evita acidentes”...TudosobumcéuazultípicodeCampina Grande. Peloquefuiinformado,ocineastaRômuloAzevedoestá produzindoumvídeo-documentáriosobreaobraque continuaabertaàvisitaçãodopúbliconestemesmoprédio ‒construídonogovernodePlínioLemos,em1957‒,onde tambémfuncionavaajácitadaEscoladeArtedeCampina Grande(doProf.Miranda),abrigououtroscursos universitáriosehojeofuncionaoCentroArtísticoCultural daUEPB,queofereceàcomunidadecursosdedançade salão,teatro,música,sanfona,pintura,desenho,balletetc., naruaGetúlioVargas,portrásdosCorreios,centrode CampinaGrande.

ManifestodoEquipe3 PartimosdoprincípiodequeaArteéumaexpressãoem totalidade,particularmenteemnossoséculo,dasdiversas tendênciasemanifestaçõesdecaráterestéticodeuma comunidade.Situamo-nosnumaregiãoondeoscontatos comosmaiorescentrosdopaíssãodeacessodifícil, quandonãoalgumasvezesimpossível,eestenosso trabalhoécaracterizadoporumarespostaaonossomeio ambientenoqueelenosagrideemsuaestruturacarcomida pelosubdesenvolvimento.Anossaexperiência, individualmente,assemelha-seefoimotivadoraparaeste trabalhoqueresumeasnossasaspirações,comootema,e asnossastécnicas,comodiversidade.Cada“unidade”do trípticofoitrabalhadapelostrêsartistasdeumamaneira quasesimultânea.Sendoporsuapróprianaturezaum trabalhoquenãodeixamargemavirtuosismos,foi permitidaacadaartistaumatotalliberdadenaescolhadas técnicasaseremempregadas.Ficou,apenas,comoponto dereferência,ointuitodeseobterumaformadeexpressão coletiva,aexemplodoquejáhaviasidotentadonosjogos automáticosdepalavrasdosdadaístaseprimeiros surrealistas.Comopesquisa,estetrabalhoseriavaziosenão mostrasseumcaminhoasertrilhado:oda expressão/comunidade,arte/multidão.Énosso pensamentoque,semferirseusfundamentaisobjetivose princípios,ocampodasartesplásticasseriaenriquecido pelotrabalhoemconjuntodeartistasdeumacoletividade. Iniciamoscomtrês,masesperamosresultadosidênticos comquatro,cinco,dezoumuitomaisindivíduos trabalhandoafimdeobteremnovasperspectivasnestes domíniosdaexpressãoartística.

Enquantoovídeonãoficapronto,valeumavisitaaesta obraquedeveriaserimediatamentetombadapeloInstituto doPatrimônioHistóricoeArtísticodoEstadodaParaíba (IPHAEP).Ficaoregistro!

DyógenesChaveséartistavisual,designertêxtilemembroda ABCA/AICAedoColegiadoSetorialdeModa/SEC/Ministérioda Cultura.ÉprofessordocursosuperiordeModa/Unipê.Autordo livro2005-2010:ensaiossobreartesvisuaisnaParaíba(Programa BancodoNordestedeCultura,2ou4Editora,2013)edoDicionário dasArtesVisuaisnaParaíba(FMC,EdiçõesLinhaDʼÁgua,2010). OrganizouolivroNúcleodeArteContemporâneadaParaíba-NAC (ColeçãoFaladeArtista/EdiçõesFunarte,RiodeJaneiro,2004). EditorgeraldaSegundaPessoa.

Notas 1ApósviveremNovaYork,ondecursaartesgráficasnoPratt Institute,entre1982e1983,AlexVallauri(1949-1987),considerado artistapioneirodoGrafitenoBrasil,em1985,apresentaasérieA RainhadofrangoassadonaBienalInternacionaldeSãoPaulo. 2AobradeRubemNavarrasobreoBarrocomineiroeo Modernismo(alémdecrônicas,algumasaindainéditas),compõe umapanhadodamaiorimportânciaparaoestudoea compreensãodaartebrasileira.Infelizmente,épouquíssimo conhecidoatéemsuaterranatal,CampinaGrande.

CampinaGrande,18deabrilde1967.  EládiodeAlmeidaBarbosa FranciscoPereiradaSilvaJr. JoséAnacletoElóideAlmeida

Fontesprimárias EntrevistacomFrancisco(Chico)PereiradaSilvaJúnior,João Pessoa,emoutubrode2013. Referências CÓRDULA,Raul.SILVAJÚNIOR,FranciscoPereirada.OsAnos60: revisãodasartesplásticasdaParaíba.JoãoPessoa:Funarte/UFPB, 1979. SILVAJÚNIOR,FranciscoPereirada.Memóriaseanotações.João Pessoa:Grafset,2012. SILVAJÚNIOR,FranciscoPereirada.Paraíba-MemóriaCultural. JoãoPessoa:Grafset,2011.

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PainelTropicália(restaurado),RestaurantedaFURNe(hojeUEPB),CampinaGrande,1969 (Foto:ChicoPereira,2013)

AlípioeAntonioDias,FranciscoDuarte,MárioPedrosaeGerchman,inauguraçãodagaleria Faxeiro,1967(Foto:MachadoBitencourt)

PainelTropicália,detalhesdaobraedarestauração,2013(Fotos:RafaelSoareseChicoPereira)

ChicoPereira,ParquedoIbirapuera,SãoPaulo,1967(Foto:EládioBarbosa)

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Alinguagemea transgressãodaveste 

Almandrade almandrade2008@gmail.com

 “Otrajevesteahistória” LuizXIV

oestilodouniformeassociadosàsprofissões,crenças, identificaçãodeclasse,estaçõesdoano.Podeminformaro destinodousuário,acadalugarumcódigoouumestilo.

Aroupadesdesuaorigemfoideterminadapela necessidadedeabrigoeaparênciaparaocorpocomoa arquitetura,desdeostemposdacavernaqueohomem criouhábitosdepintarocorpooufazerusode indumentáriasconfeccionadascompelesdeanimaispara expressarseudesejodepodereexibição.Avesteeseus acessóriossãomeiosdecomunicaçãoqueespelhamo modelosocial.Amodaéumalinguagemsimbólicaque ultrapassaasuafunçãodeproteçãoparasignificaro indivíduonasociedade,éumaespéciedeidentidadeque faladesuacondiçãoe/ouopçõessocial,profissionale sexual.Emtodasasépocasaroupa,alémdesuafunção, explicitousignificados,comoumaembalagemqueprotege, embeleza,decoraeidentificaoproduto.Comsuascorese estilos,avestimentaéumsignoeumdispositivoda condiçãosocialeculturalatravésdoqualohomematende suasnecessidadesdecomunicaçãoeexpressão.

Aroupaalémdeser“umaextensãodapele”(McLuhan)é tambémumanecessidadedeconsumocriadapela publicidadedaetiqueta.WaldemirDias-Pino,umdos criadoresdapoesiaconcreta,fazrelaçõesentreosmodelos daroupaeasformasdaarquitetura:ohomemmodernode calçaepaletócomoarranha-céu,atangadoíndioeapalha quecobreataba,oárabesevestecomaformadeuma tenda,ajaponesacarreganasmangasdovestidoasformas dosbeiraisdeseustelhados. Amodadovestuárioaproximou-sedavanguarda,no processodasrevoluçõesnaslinguagensartísticas,cada épocatemassuasvesteseelasintegramoindivíduoao meioambientesocial,cultural,tecnológicoeaogrupo social.Amodapodeacentuartambémadivisãodeclasses, ouaocontrario,participardascontestaçõessociais.Comos Beatles,oTropicalismoeoshippiescomumestilo naturalistadescontraído,nosfinaisdadécadade1960,a roupatinhaumsentidocrítico,emaparentecontradição comamodacorrente,impostapelaindústriadamoda, produtodarevoluçãoindustrial.

Asobrasdeartedopassadosãooprincipalmeiode informaçãodocorpoesuasindumentárias.Grandes retratistas,comoVelásquez,naEspanhadeFelipeIV, registraramnassuaspinturasamodadeseutempo, quandoretrataramosnobresesuacorte.EmVelásquez podemospercebercomoopretoeraacorpredominante paraambosossexos,veludoscomornamentosdepratae ouro.Overmelhotambémumacorfavoritaeobrancoera usadoemrarasocasiões.Noocidente,surgeduranteo Renascimentooconceitodemoda,quandoointeressepelo trajedeixadeserumanecessidadepuramentefuncional paraafirmarposiçõeshierárquicasdepoder.

Apartirdamodernidadedesignerseartistasinteressam-se emdesenharroupaseobjetosutilitáriosqueatendamà funcionalidadedomundomoderno.Artistastransformama roupaouoatodevestiremobjetodesuaexperiência artística.Osconstrutivistasrussoscriaramaroupado trabalhador,cujaprincipalpreocupação,eraa funcionalidade.OprofessordaBauhaus,JohannesIttens, desenhouumaroupaparaserusadapelosseguidoresde umadoutrinadevida,criadaporele,quetinhacomo objetivoaperfeição.Osfuturistasitalianospregavama necessidadedeumaroupaconfortável,prática,agressiva, ágilealegre,decoradaeventualmenteporlâmpadas elétricas.

RolandBarthesesuasemiologiadamoda,faladaexistência deumalínguadovestuário,postuladaemescritorescomo Balzac,ProustouMichelet.ParaBarthes:“Amodaéuma combinatóriaquetemumareservainfinitadeelementose deregrasdetransformação.”Umalínguafaladaportodose aomesmotempodesconhecidadetodos.Aroupanãosó protege(função),informa,embeleza,contesta(significa),na condiçãodeumfenômenosemióticofaladeseuusuário. Aleituradavestimentamostraamultiplicidade,diferenças econtradiçõesdasociedade.Valoresculturaisecondições econômicasdeterminamasopçõesdofigurino.Existem sistemasdecodificação,taiscomo:acor,otipodetecidoou

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Ossurrealistasedadaístasposicionaramironicamente, apropriaram-sedaroupacomouminstrumentode transformaçãodalinguagemdaarte.MarcelDuchampque jáhaviaposadocomoRroseSélavyem1921numaprática de“ready-made”.Em1938,numaexposiçãoemParisvestiu ummanequimfemininocomchapéu,paletó,colete, gravataesapatosmasculino.


NoBrasil,algumasexperiênciassãopioneiras, principalmentenaobradedoisartistas:FláviodeCarvalhoe HélioOiticica.EmumamovimentadaruadocentrodeSão Paulo,em1956,oarquitetoeartistaplásticoFláviode Carvalho,autordacolunadoDiáriodeSãoPaulo“AModae oNovoHomem”,desfiloucomsua“indumentáriado futuro”,poreledenominada“NewLook”.Vestindocom meiasrendadasdebailarina,saiote,blusadenyloncom aberturaslaterais,oartistalançouonovotrajeparaoverão dostrópicos,provocoupânicoeescândalonapopulação. Artista,arquiteto,engenheiroeescritor,Flávio,um personagemexcêntriconahistóriadaartebrasileira, apelidadode“divinolouco”,nãoteveaindao reconhecimentoàalturadoseutalentopornossomeio cultural. DesenhodeFláviodeCarvalhoparaoseutrajedeverão,NewLook,1956

Nadécadade1960,asexperiênciasdeHélioOiticicaeseu envolvimentocomosambaresultaramemcapas denominadas“Parangolés”.Propostasparao espectador/participanteemlugardesimplesmente contemplaracor,vestir-senela.Umaestéticadaexistência enãodoobjeto/arte,ocorponãoéosuportedaobra.“O objetivoédaraopúblicoachancededeixardeserpúblico espectador,defora,paraparticipantenaatividade criadora“.(Oiticica) LygiaClarkesuas“máscarassensoriais”,queintegramafase sensorialdeseutrabalho,aexemplodaobraqueconsiste nummacacãoparaservestidoporumhomem,contendo umzíperqueaoseraberto,eleretirauma“barrigagrávida“, feitadeborrachacor-de-rosaededentrodessabarriga, retiraumaespumadeborracha.Aopraticaressaoperação “cesariana“,aspessoasexperimentamreaçõesmais inesperadas. Atéosheróisdashistóriasemquadrinhostêmsuas identidadesgarantidaspelaveste.Essaembalagemque envolveocorpoocupaumlugarnosistemadalinguageme sualeituraéumanecessidadedomundocontemporâneo. Comoformadecomunicaçãoéabordadaporváriasteorias como:aantropologia,asemiologia,asociologiaeateoria dainformação. Experiêncianº3,deFláviodeCarvalho.FotopublicadaemOCruzeiro,1956

Almandradeéarquitetoeartistavisual.

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rodolfo athayde

Lisboa,2012(Fotodacapa)

Barcelona,dĂŠcadade1980

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InstitutodosArquitetos,ladeiradoHotelGlobo,JoãoPessoa,1997(antesdarestauração)

expediente SegundaPessoa RevistadeArtesVisuais Ano3,Número2‒Set-Out-Novde2013 Editor-geral|DyógenesChavesGomes(ABCA/AICA) Jornalistaresponsável|WilliamPereiradaCostaDRT-PB792 Conselhoeditorial|DyógenesChavesGomes|Francisco PereiradaSilvaJúnior|GabrielaMarojaJalesdeSales| MadalenaZaccara|MariaCristinadeFreitasGomes|Paulo Rossi|PauloSérgioDuarte|RodolfoAugustodeAthaydeNeto |ValquíriaFarias|WilliamPereiradaCosta Projetográfico|DyógenesChaves|2ou4 Fotografia|ArquivoChicoPereira|ArquivorevistaOCruzeiro| ChicoPereira|MachadoBitencourt|RafaelSoaresPereira| RodolfoAthayde|WênioPinheiro Colaboradores|AgdaAquino|Almandrade|PauloRossi|Raul Córdula|ValquíriaFarias Impressão|UniGráfica

Contatosparaenviodeartigosecolaborações: e-mail:revistasegundapessoa@gmail.com 2ou4Editora/RevistaSegundaPessoa RuaProtásioPontesVisgueiro,111,Jardim13deMaio JoãoPessoa-PB‒58025-680 Telefones:(83)3042.7979/8808.7877 www.segundapessoa.com.br

Osartigospublicadossãodetotalresponsabilidadedeseus autores.OsinteressadosempublicarnaSegundaPessoa: devemobservarasnormasdepublicaçãonositedarevista. EstaediçãodeSegundaPessoa(ISSN2237.8081)foiimpressa emdezembrode2013,naUniGráfica,utilizandoostiposda famíliaKozukaGothiceCaslon,empapelpólen(90g/cm²),com umatiragemde10.000exemplares,sobaresponsabilidadeda 2ou4Editora.

Este projeto foi contemplado com o Prêmio Procultura de Estímulo àsArtes Visuais 2010


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Este projeto foi contemplado com o Prêmio Procultura de Estímulo àsArtes Visuais 2010


segunda pessoa set-out-nov 2013