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Jodi Ravaud

Ventos de Guerra e de Amor Uma hist贸ria de amor na II Guerra Mundial

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Título: Ventos de Guerra e de Amor Autora: Jodi Ravaud Capa: Caligrama Paginação: Mário Félix – Artes Gráficas © Plenty Books, 2013

Impressão e acabamento: Tipografia Lousanense ISBN: 978-989-98192-0-7 Depósito legal: 355 373/13

Rua da Nau Catrineta, lote 3.07.04 D, 2.º Dt.º 1990-185 Lisboa Tel.: 964441104

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Nota de introdução A ideia deste romance de ficção desenvolveu-se graças a uma notícia vinda no jornal Público de 13 de agosto de 2001, que dizia o seguinte:

Documentos descobertos em Espanha Restrições comerciais durante a II Guerra Mundial iludidas em rotas para a Península Ibérica Portugal importou, pelo menos, 228 toneladas de ouro nazi, confirmam vários documentos encontrados numa estação ferro­ viária de Canfranc, parcialmente desativada, em Espanha. Milhares de documen­tos foram descobertos na estação e nas suas imediações quando se procedia à limpeza do local após ter sido utilizado como cenário de um filme. Os documentos relativos à II Guerra Mundial e descobertos pelo francês Jonathan Dias, residente em Oloron-Sainte-Marie, França, referem a origem do ouro e o percurso e destino das mercadorias que 7

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incluía a ligação ferroviária até Canfranc, seguindo depois em camiões para Portugal. (…) Entre 16 de julho de 1942 e 27 de dezembro de 1943 (datas de partida do primeiro e último comboio) foram transportadas para a Península Ibérica 86.600 toneladas de mercadorias. Deste total cerca de 74.483 toneladas tiveram Portugal como destino. Daniel Sanchez, hoje com 87 anos é o único sobrevivente dos que trabalharam na estação nessa época. Ele e a mulher (com 84 anos) recordam-se do trânsito de mercadorias durante a II Guerra Mundial e explicam como se processava. A travessia da fronteira era feita por via-férrea e depois camiões garantiam o transporte do ouro para Por­ tugal e Espanha — relataram à Lusa. Em troca as testemunhas viam passar volfrâmio, vinho, azeite, café, conservas e azeitonas entre outros produtos. (…) A edição de sábado do jornal “Heraldo de Aragão” publica uma entrevista com o professor Pablo Martin Acena, diretor do Relató­ rio Espanhol, pedido pelo governo sobre a compra de ouro durante a II Guerra Mundial, na qual aquele responsável afirma que as entradas de ouro prolongaram-se até 1945, sabendo-se que globalmente, ocorre­ ram 135 envios. (…) Segundo Pablo Martin Acena, “para além desses envios houve outros de contrabando para pagar o volfrâmio”. As trocas através da Península Ibérica chegaram a representar cerca de 60 por cento do comércio alemão. Escrevi esta obra de ficção de fundo histórico sabendo, por histórias que me foram contadas sobre volfrâmio na Beira Alta, que este comércio estava muito presente nos habitantes desta região do país. Espero que as histórias de horror que em alguns casos as acompanham nunca mais sejam escritas nos tempos vindouros. A autora

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I Livro

Aqueles de nós que vivemos em campos de concentração lembram-se dos homens que percorriam as barracas a confortar os seus irmãos repartindo com eles os seus últimos pedaços de pão. Podem ter sido poucos em número mas foram a prova viva de que tudo pode ser tirado ao homem, com exceção de uma coisa: as últimas liberdades humanas — escolher a sua própria atitude que, quaisquer que sejam as circunstâncias, permitam escolher o seu próprio caminho. Viktor Frankl

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Tenho o sentimento profundo da grandeza dos tempos que vivemos, da minha responsabilidade perante eles e tenho a íntima convicção que preencho assim um dever para com a História, à qual não devo sucumbir… O meu diário será uma fonte de que se servirão os futuros historiadores. Chain Kaplan, «Diário de um judeu polaco»

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avia muitas horas que caminhavam por veredas e valados, contornando penhascos graníticos cobertos de vegetação rasteira, aqui e além uns tufos de flores silvestres. Era um fim de tarde primaveril, ameno e reconfortante. Os dois homens eram altos e de constituição atlética. Não tinham mais de vinte e cinco anos, o mais novo e trinta e poucos o outro. Um vestia-se à intelectual, estilo britânico com chapéu de feltro e fato de tweed cinzento. O outro usava um estilo mais prático e desportivo: envergava camisa deslavada de riscas que já passara por muitas águas e umas calças desbotadas que pareciam confecionadas para alguém mais corpulento do que ele. O de tez mais clara e cabelos louros apresentava-se mais cansado do que o companheiro, que possuia um rosto trigueiro e quadrado onde brilhavam olhos perspicazes e astutos encimados por uma cabeleira farta e uma barba mal feita. O louro de raça ariana era um idealista puro que acreditava em Hegel e Kierkegaard. No entanto, uma certa dissimulação desprendia-se do seu olhar. A roupa bem cuidada não condizia com a sua condição de sobrinho pobre de Himmler, nem com a de um intelectual inclinado para o estudo de 10

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Marx e de Engels. Nunca até ali encontrara o seu verdadeiro caminho. Guiava-se pelas crenças e valores do tio Himmler, com quem vivia desde os oito anos. As crenças mais humanistas estavam ao virar da esquina e em breve as adotaria. Ataca antes de ser atacado, era o lema do tio. Adapta-te ao meio, era o seu lema. A tarefa que Hitler desenvolvera havia sido a adoção de uma bandeira, um hino, um gesto de saudar semelhante aos tempos gloriosos dos imperadores romanos, e uma religião que não se baseasse no tradicional cristianismo. Uma religião autocrática que o endeusasse para lhe trazer credibilidade suficiente a fim de manter a coesão do povo alemão e transpor as glórias do passado para um governo atual. A potente máquina de propaganda de que Hitler se servia era suficientemente eficaz, permitindo esquecer a estrondosa ruína económica e a humilhação produzidas pela derrota da Alemanha na Primeira Guerra Mundial. A glória da descoberta do Cálice Sagrado, por onde bebera Jesus Cristo na sua última Ceia, seria o novo emblema religioso do novo império. Mito ou lenda, o que importava era descobrir um motivo de união do povo. Para essa tarefa fora destacado Otto Rahn, famoso arqueólogo da época, grande conhecedor dos assuntos esotéricos, lendas míticas da Antiguidade e assuntos medievais franceses. Não coubera em si de contente ao obter elevados subsídios para as investigações. Himmler, um apaixonado pela História Antiga, dera-lhe por companhia o sobrinho em quem muito confiava, tanto pelo seu saber como pela sua ligação de sangue. O jovem era simpático, conhecedor da História da Roma Antiga, e parecia inteligente, mas Otto duvidava que o seguisse apenas para servir a glória do III Reich. Na realidade, não punha muito empenho nas tarefas e parecia procurar a toda a hora algum divertimento. Naquele momento, sentado à beira do caminho, sacou de um cachimbo da algibeira e principiou a acendê-lo com cuidado e precisão, depois de enchê-lo com a mistura de ervas. Não se mostrava minimamente empenhado no trabalho que o levara ali. Fora-lhe destinado o desenho dos objetos ou paisagens mais interessantes, mas esse trabalho não parecia cativá-lo. 11

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Tant d’amour Tant de sagesse Tant d’émotion Profond comme la nuit. In «Existence, Magicien du Bonheur!»

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s dias, as semanas e os meses custavam muito a passar. Era um verdadeiro martírio sentir a figura de Helmut sempre presente a seu lado. O seu coração sangrava com a falta que a sua presença lhe impunha. Há muito que desistira de sentir as suas carícias na pele. O odor que se desprendia do seu corpo estava, contudo sempre presente. A recordação dos dias de amor vividos nos seus braços permanecia bem imprimida na sua memória. Por muitos convites que Alwyn ou a família lhe dirigissem, o pensamento de Gisella não se abstraía da imagem vívida de Helmut. Inconscientemente, nos momentos de grande desespero, amaldiçoava o momento em que haviam entrado na vida um do outro. Era verdade que, excetuando Alwyn Crawley e a família, não existiam muitos convites. Na rua, as pessoas olhavam-na de lado, mais a mais conhecendo-a como casada com um alemão, o que se tornara muito grave naqueles tempos de guerra contra os nazis. Os habitantes da pequena cidade murmuravam em voz baixa quando a encontravam nas compras da mercearia, talho ou padaria. Por todos os meios, Alwyn esforçou-se por desfazer os boatos que corriam à sua volta, argumentando que o marido da amiga possuía nacionalidade hún199

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gara. Como um rastilho de pólvora, a notícia havia envenenado toda a cidade. Várias vezes Gisella pensou que devia abandoná-la e regressar à confusão de uma cidade cosmopolita como Londres, onde a sua identidade passaria despercebida. O problema era que Helmut poderia surgir a qualquer momento para a acompanhar a Lisboa. Existia uma pessoa que tentava por todos os meios fazê-la esquecer o seu grande amor e a sua situação de refugiada. Essa pessoa era Justin Sedley que procurava tê-la a seu lado, nem que para isso a seduzisse à força. Convidava-a invariavelmente para jantarem sozinhos, à luz das velas. Nessa noite, uma vez mais os pais dele não estavam presentes. Haviam seguido viagem para umas terras que possuíam na Irlanda do Norte. Justin, emocionado por recebê-la em casa e tê-la à sua disposição, preparara minuciosamente o momento, cuidando de todos os pormenores de uma ceia romântica. Chamara Watson, um velho criado de confiança, cuja presença desde a infância fora imprescindível. Descobrindo-o apaixonado, sorrira perante a ideia de servir o seu jovem amo, no momento em que no seu caráter desabrochavam as suas qualidades mais afetivas e sentimentais. Por seu lado, Gisella envergara um belo vestido de musselina negra bordado com fios prateados, meio transparente, deixando entrever as suas formas roliças. Não usava joias, pois parecia-lhe que eram desnecessárias. Apanhara os cabelos ao alto com caracóis que caíam em cascata, entrançados com pequenos malmequeres. O jovem achara-a mais atraente e adorável do que nunca. Sentaram-se num sofá forrado a veludo azul-escuro, enquanto tomavam uma taça de champanhe para começar. Sabendo que necessitava distrair o pensamento, Gisella aceitou de bom grado a taça e bebeu o mais que pôde. Pretendia abstrair-se da dor que lhe amachucava o coração, desde que o marido partira. À hora de jantar foi servido pato com laranja acompanhado de puré de ervilhas. Justin não se esqueceu de um belo vinho tinto Caber­ net Sauvignon. Por várias vezes encheu o copo da sua apaixonada. Ela 200

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… No dia da vitória, o sofrimento do judeu e o papel que teve na luta não serão certamente esquecidos. Churchill, numa mensagem aos judeus

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itler já não tinha confiança nos seus ministros desde que começou a invasão dos Aliados. Antes de iniciar a guerra e de provocar as potências como a França e a Inglaterra julgava-se um novo Napoleão, invencível, capaz de trazer uma nova civilização à Europa. Seria o Messias de uma Europa renovada e sobretudo o líder vencedor que levaria a Alemanha a um trono de glória após as humilhações sofridas nas guerras anteriores. A diferença entre ele e Napoleão é que jamais depositou nos seus generais uma confiança absoluta nem usou táticas brilhantes. Tão-pouco foi adorado pelas suas tropas. Hitler nunca poderia ser considerado um brilhante militar como Napoleão. Tratava-se apenas de um líder com tremendos dotes de oratória que estava no local certo à hora certa para conduzir uma nação em busca de um novo ideal de mudança. Por esta altura, os generais temiam a destruição completa da Alemanha. Todos os dias aconteciam inúmeros bombardeamentos. Mais uma cidade era destruída. Aos poucos, as cidades germânicas iam desaparecendo sob os escombros das bombas. Os chefes militares estavam revoltados com a situação a que fora condenada a Alemanha. A revolta nesses meios estava a tomar grandes proporções. 236

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Nota de agradecimento Queria em primeiro lugar agradecer ao meu marido, Carlos Manuel, pelo apoio e colaboração prestada em todo o tempo que demorou a pesquisar e a escrever esta obra, baseada em factos e personagens históricas. Agradeço em especial aos meus pais que às vezes me contavam histórias da II Guerra Mundial. Baseada em factos e personagens históricas para escrever esta narrativa, servi-me de muitas obras, das quais destaco as seguintes, e outras que descobri em Espanha, em 1977 e 1978. Os segredos do Reich que os Aliados sabiam, de Richard Breitman. Um olhar sobre o Holocausto, de Inga Clendinnen. No mundo das trevas — o inferno de Treblinka e o seu carrasco, de Gitta Sereny. Témoins d’Auschwitz, adquirido numa visita a este campo de concentração. Os crematórios de Auschwitz, de Jean-Claude Pressac. Hitler, um perfil de poder, de Ian Kershaw. Os grandes enigmas do III Reich, de Philippe Aziz. Negócios com os Nazis, de António Louçã. A todos agradeço por terem escrito tais obras, que me ajudaram muito na elaboração da minha narrativa. 363

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Ventos de Guerra e de Amor: Uma Grande História de Amor na II Guerra Mundial  

Romance histórico em que Lisboa é a encruzilhada de paixões proibidas entre o sobrinho de Himmler e uma judia.

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