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Melusina e a Nobre História dos Lusignan  21

Castelo de Lusignan, Poitou — Memória de Melusina

Passo desde já a contar a lenda de Melusina, que em palavras simples assim reza e assim começa, como descrevem os velhos perga­minhos… Naquele dia, um pouco antes do pânico do ano 1000, havia uma grande caçada promovida pelo conde Aimery de Poitiers, o velho, poderoso e justo soberano do Poitou e da Basse-Marche5. Na véspera, um forasteiro anunciara-lhe que havia na floresta de Colombiers o javali mais maravilhoso que jamais tinha visto, e desde o romper da manhã que os criados, escudeiros, barões e outros senhores da corte partiam em busca do animal. Os mais ousados, o conde e o seu sobrinho Remondin, esbelto, leal, gracioso, hábil na ciência das armas, conduziram a montaria, cavalgando velozmente por montes e vales. A fera dez vezes foi cercada e dez vezes foi ferida; despedaçara quatro cães, oito mastins e dois danois, descobrira todas as armadilhas, indo de 5 O primeiro dos condes de Lusignan foi Hugo I, dito o Monteiro ou Monteador, que viveu no reinado de Luís d’Além-Mar, filho de Carlos, o Simples, ou seja, entre o ano 921 e 954 d. C.

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40  Quinta da Regaleira (Sintra, História e Tradição)

Um barulho de água corrente guia o seu olhar para um pátio de paredes de vidro, e ele aproxima-se até surpreender aquilo que os seus olhos nunca deveriam ter visto. Desgostoso, triste, que dor a sua, que remorso lhe morde o coração e a alma de nobre! Sabe tudo agora, e a verdade é simultaneamente consoladora e terrível… Numa grande bacia de mármore com degraus até ao fundo e cheia de flores, lírios pretos e violetas, cujo tamanho era bem de quinze pés de diâmetro em esquadria com uns cinco pés de largura, vê Melusina nua, bela e ainda mais bela do que quando se encontraram pela primeira vez, entregue a uma inocente ocupação: penteava os seus longos cabelos d’oiro com um pente de ouro vendo-se num espelho de cristal, de busto arqueado, perfeita e encantadora. Mas sob esse busto que ele tanto acariciou e festejou, Remondin vê a razão secreta da reclusão voluntária da mulher amada: uma longa cauda de serpente, com escamas verdes, que prolonga o ventre e os rins numa forma ondulosa. Surpreso, foge, evitando dar sinal da sua presença, e de regresso ao castelo pouco faltou para matar o conde de Forest, cujas calúnias tinham tão vilmente despedaçado a sua felicidade.

Melusine — Pintura de Julius Hubner, 1844

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60  Quinta da Regaleira (Sintra, História e Tradição)

da Casa da Suplicação, filho de António de Sampaio Melo e Castro Moniz e Torre de Lusignano, 1.º conde de Sampaio, e de sua mulher Teresa Violante Eva Judite de Daun, filha de Sebastião José de Carvalho e Melo, e a pessoa de Perpétua Augusta Pereira de Melo, nascida em Viana do Castelo em 1852 e criada pelo seu tio Gaspar José Viana — que a terá enviado para Braga a fim de receber a educação pressupostamente em algum colégio católico para raparigas — o qual, tendo emigrado para o Brasil entre 1820 e 1825, estava estabelecido no Rio de Janeiro (Rua Direita, n.º 62) como um grande comerciante, sendo amigo próximo de Francisco Augusto Mendes Monteiro (pai de António Augusto Carvalho Monteiro), também emigrante rico na capital carioca. No seu regresso a Portugal em 1860, Gaspar José Viana passou a viver com a sobrinha no seu Palácio do Viana, na Rua das Chagas, em Lisboa. Foi aí que a apresentou ao jovem conterrâneo luso-brasileiro António Augusto Carvalho Monteiro. Nasceu o namoro entre os dois e depois o casamento em 1873.

Perpétua Augusta Pereira de Melo e António Augusto Carvalho Monteiro, 27.10.1873 (Lima & Madeira, Phot. (verso) Petrópolis, 27.Out.73)

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A Odisseia dos Lusignan  61

O nome Carvalho que antecede o de Monteiro, provém da mãe de António Augusto: Teresa Carolina de Carvalho, brasileira nascida em 1 de Outubro de 1810 em São Francisco Xavier do Engenho Velho, antiga freguesia do Rio de Janeiro que hoje tem o nome de Grande Tijuca. Faleceu em Portugal na cidade de Coimbra, em 2 de Abril de 1871. A família Monteiro provém de Rui Monteiro, fidalgo do tempo de D. Afonso Henriques, morador em Penaguião, em cujo concelho possuiu bens. Teve o padroado de Santa Ovaia de Andufe, foi muito rico e poderoso e recebeu-se com Elvira Gonçalves, filha de D. Gonçalo Moniz e de sua mulher, Maria Anes. As Armas dos Monteiro, são: — De prata, com três trompas de negro, embocadas e viroladas de ouro, os cordões de vermelho. Timbre: duas trompas do escudo, passadas em aspa, atadas de prata30. É crível que na época de D. Dinis a estirpe Monteiro tenha-se ligado à dos Carvalho, por proximidade geográfica e familiar de ambas. Nessa última família distinguiu-se o primogénito de Fernão Gomes Carvalho e Maria Rodrigues da Fonseca: D. Gil Fernandes de Carvalho, valoroso cavaleiro que chegou a Mestre da Ordem de Santiago. Parece que o apelido foi tirado do lugar do Carvalho, concelho de Penacova, situado nas abas da Serra do Carvalho. Da ligação entre as duas famílias (cujas origens remontam à vinda dos Barões de França para Portugal, acompanhando o conde D. Henrique de Borgonha), nasceu a Carvalho Monteiro. Consultando o Armorial Lusitano, pp. 144-145, verifica-se que, afinal, as Armas da família Carvalho possuem os elementos simbólicos essenciais da lenda do «Cisne de Leda» — Melusina: de fundo azul com uma estrela de ouro de oito raios centrada (simbólica da Cavalaria Espiritual — a «Massenia do Santo Graal» — designativa da Igreja de São João, dita Secreta ou Oculta, tanto por reservar-se à disciplina sacerdotal apartada dos graus menores eclesiásticos, quanto por dirigir-se directamente ao sentido iniciático de «Assembleia Invisível ou Espiritual dos Santos e Sábios», os mesmos subidos aos altares da devoção, cuja imortalidade é justificativa para certas escrituras sagradas os ­afirmarem 30  Armorial Lusitano (Genealogia e Heráldica). Representações Zairol, Lda., Lisboa, 1961.

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CAPÍTULO iV

O BUÇACO E Luigi manini Plantado no coração da Beira Litoral, o Bosque do Buçaco, velho de milhares de anos, continua a mostrar-se no limiar de um estado de graça. Transpondo-o, logo uma catedral verde ergue para o céu as suas abóbadas e o que de imediato se ressente, como sempre quando se entra num templo, é uma impressão de silêncio e paz, de frescura. Aqui a luz é filtrada através de um tule de folhagens ligeiras, polvilhada em chuva sobre os fetos, salta sobre as hortências e ensurdece no veludo espesso dos musgos, no bronze profundo das peças d’água. Sob este pálio sumptuoso do arvoredo não há mais, afinal, do que uma penetrante sensação de plenitude e de serenidade, mal se fala, basta respirar, tudo se concentra na espera do que virá a acontecer. Pelos caminhos e atalhos desta mata milenar apercebe-se, não raro, semelhanças severas a outros de Sintra, havendo demasiadas coincidências para serem simples acasos… os dois lugares desde muito cedo têm foros de «espaços sagrados» na concepção mítico-religiosa dos autóctones, tendo os capuchos franciscanos preferido a Serra de Sintra, onde constituíram «Deserto», e os carmelitas descalços a Serra do Buçaco, onde também fundaram «Deserto». A ciência etimológica reforça ainda mais o sentido sagrado do paradisíaco Bussaco ou Buçaco. Ora, o Paraíso era o «Bosque do Senhor», ao qual os antigos persas deram o nome de Paridaiza, isto é, «tapada modelo». Como lugar coberto de árvores, o «Bosque do Senhor» recebeu o nome mediterrânico de Bus-Akko, à letra: «árvore» (bus) do «lugar santo» (akko). A intervenção ligúrica vozeirou este busakko em busasko, que entrou no latim e no germânico sob as prolações correspondentes boscum e bosk. De bosk adveio o merovíngio boskione que sobrevive nos actuais vocábulos

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CAPÍTULO V

A REGALEIRA E CARVALHO MONTEIRO Ó gloriosa mansão, ó luz impregnada de grande virtude na qual reconheço tudo, qualquer que seja o meu pensamento. Dante Alighieri (Paraíso, Canto XXII, 112-114)

Uma mansão numa quinta digna dos contos das Mil e Uma Noites, instalada num dos recantos luxuriantes de Sintra, junto a Seteais, no lugar dos Pisões, é a comummente conhecida Regaleira, Torre ou, ainda mais vulgarmente, «dos Milhões». Inacessível até 1998, quando foi aberta ao público por determinação da Câmara Municipal de Sintra, que a comprara ao grupo japonês Aoki Corporation em Março de 1997, desde a primeira hora vim dizendo que o conjunto ímpar da Regaleira deveria destinar-se, sobretudo, a Quinta-Museu dos dias idos do Romantismo «neomanuelino», aberto a Portugal e ao Mundo, deixando a cada um e a cada qual a sua apreciação e leitura, conforme a sua visão e entendimento alcance, a despeito de porventura ser alheio a conotações e colagens que se fazem hoje, atribuindo-lhe filiações no mínimo bizarras, tanto quanto o desinteresse pelas mesmas da parte do proprietário original, António Augusto Carvalho Monteiro. A Quinta da Regaleira está hoje classificada como «imóvel de interesse público» de acordo com o decreto n.º 5/2002, Diário da República, 1.ª Série-B n.º 24, de 19-02-2002, abrangida pela «Paisagem Cultural e Natural de Sintra» incluída na Lista de Património Mundial — MN (n.º 7, do art.º 15, da Lei 107/2001 de 8 de Setembro). A mansão da Regaleira afigura-se um «bolo de noiva» ou um «palácio de fadas», tendo para isso contribuído o seu molde arquitectónico, num

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A Regaleira e Carvalho Monteiro  129

António Augusto Carvalho Monteiro, amigo dos pobres (Fotografia inédita oferecida ao autor pela marquesa de Pombal)

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CAPÍTULO VI

A REGALEIRA E OS SIGNOS DA TRADIÇÃO Multa paucis… Muitas coisas em poucas palavras.

Como apontei anteriormente, quem está defronte da capela da Quinta da Regaleira vê no nicho lateral direito, em tamanho natural, a imagem de Santa Teresa de Ávila ou de Jesus. Além de conectar-se à antroponímica familiar de Carvalho Monteiro por parte materna, Ana Teresa Carolina de Carvalho, devota leiga da Ordem do Carmelo no Rio de Janeiro, essa santa também o está a Portugal no contexto sebástico, facto por certo do conhecimento ilustre do encomendante que mandou impô-la onde está. Após o desastre militar de Alcácer-Quibir, ante o desespero geral que invadiu o reino com a sucessão dinástica abruptamente interrompida e não havendo sucessor para governar, aventou-se que D. Sebastião não teria morrido na desastrosa campanha africana, tão-só desaparecido… Partilha disso Teresa de Ávila: escrevendo a um dos seus amigos, lamenta que o rei se houvesse «perdido», sem contudo admitir a morte física, como era então crença geral. Esse motivo do «monarca perdido» levaria Santa Teresa a constituir, no século xvii, um dos suportes eruditos do Restauracionismo Lusitano, em que a ideia sebástica do ­Encoberto amadureceu e se propagou165. Tanto levou a que varões doutíssimos seguissem «não a vulgar dúvida da morte, mas que passassem a esperar 165 Pinharanda Gomes, A Filosofia Arábigo-Portuguesa. Guimarães Editores, Lisboa, 1991.

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CAPÍTULO XII

Carvalho monteiro E A saúde pública (O SANATÓRIO DE MONTACHIQUE) Sempre por bom caminho e segue. Francisco Grandella

A Europa do século xix ficou marcada pelo surto epidémico da tuberculose como principal causa das mortes provocadas pela inexistente prevenção nos cuidados de saúde das populações e aos ainda rudimentares avanços da ciência médica, preocupada em combater e travar a doença. Só em Portugal, em 1899, o total de mortes por tuberculose era estimado entre 15 a 20 000, equivalente a uma taxa de 297 a 396 por 100 000 habitantes. Apesar de todos os esforços despendidos, a Medicina, entre os finais do século xix até à década de 40 do seguinte, não possuía quaisquer recursos farmacológicos para combater a tuberculose, e no nosso País voltou-se para o reforço das únicas medidas realmente eficazes: isolamento e prevenção, não só através da criação de centros hospitalares e sanatoriais, como também pela implementação de regras e estratégias sociais conducentes a melhorar as condições de vida, alimentação e higiene física e psicomental das populações288. Não obstante o velho conhecimento, mais que assente, entre os praticantes da medicina hipocrático-galénica, e provavelmente entre os antigos egípcios que também sofreram essa «praga faraónica», de que o clima de altitude é favorável à cura da tuberculose, só em 1854 F ­ rancisco ­António 288 Augusto da Silva Carvalho, História da Medicina Portuguesa. Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa, 1929.

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384  Quinta da Regaleira (Sintra, História e Tradição)

— Tratado escrito por Alphonso, rei de Portugal, a respeito da Pedra Filosofal. — Impresso em Londres por Thomas Harper, para ser vendido por John Collins em Little Brittain, junto da porta da Igreja, 1652.

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ÍNDICE

INTRODUÇÃO.................................................................................   7 capítulo i

MELUSINA E A NOBRE HISTÓRIA DOS LUSIGNAN...............   15 capítulo ii

A ODISSEIA DOS LUSIGNAN.......................................................   49 capítulo iii

LAGOS DA BEIRA E FAMÍLIA MONTEIRO.................................   69 capítulo iv

O BUÇACO E LUIGI MANINI.......................................................   99 capítulo v

A REGALEIRA E CARVALHO MONTEIRO.................................  113 capítulo vi

A REGALEIRA E OS SIGNOS DA TRADIÇÃO............................  201 capítulo vii

A REGALEIRA E O 515 DE DANTE................................................ 217 capítulo viii

OS SUBTERRÂNEOS DA REGALEIRA.........................................  243 capítulo ix

CARVALHO MONTEIRO E A PENINHA DE SINTRA................  261 capítulo x

JAZIGO DA FAMÍLIA CARVALHO MONTEIRO.........................  281 capítulo xi

CARVALHO MONTEIRO E O JARDIM DO ÉDEN.....................  297 capítulo xii

CARVALHO MONTEIRO E A SAÚDE PÚBLICA (O SANATÓRIO DE MONTACHIQUE)......................................... 319 capítulo xiii

A «ABADIA» DE LISBOA E OS SEUS ARCANOS.........................  339 capítulo xiv

A TORRE DO DIABO DO «REI DO LIXO»...................................  355 capítulo xv

CARVALHO MONTEIRO E D. AFONSO V..................................  377

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Quinta da Regaleira: Sintra, História e Tradição