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CHUANG TZU LIÉ TZU

A BORBOLETA VOANDO NO VAZIO UM ENCONTRO COM AS RAÍZES DO TAOISMO

Tradução, Introdução e Notas Joaquim M. Palma

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A presente edição reúne duas obras basilares da filosofia taoista: O Livro de Chuang Tzu e O Livro de Lié Tzu.

© Dinalivro 2014 Título: A Borboleta Voando no Vazio – Um Encontro com as Raízes do Taoismo Autores: Chuang Tzu e Lié Tzu Tradução: Joaquim M. Palma Revisão: Nuno Miguel Marques Capa: Cítrica Design sobre fotografia da NASA Paginação: Mário Félix – Artes Gráficas Impressão e acabamento: ACDPRINT, S. A. | www.acdprint.pt ISBN: 978-972-576-632-3 Depósito legal: 375 097/14 1.ª edição: maio de 2014 Todos os direitos reservados para a língua portuguesa por DINALIVRO Rua João Ortigão Ramos, n.º 17-A 1500-362 Lisboa | Portugal Tel. 217 122 210 | 217 107 081 | Fax: 217 153 774 E-mail: info@dinalivro.com | editora@dinalivroedicoes.com Visite-nos no Facebook em: https://www.facebook.com/Dinalivro https://www.facebook.com/DinalivroEdicoes Coleção Razões de Sobra

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ÍNDICE

Introdução..............................................................................    9 Dinastias e Repúblicas Chinesas.........................................   19 Síntese histórica do Taoismo................................................   21 Sábios taoistas........................................................................   25 Parte 1 O livro de Chuang Tzu..........................................................   27 Capítulo 1 – Deambulações em liberdade...................   29 Capítulo 2 – Todas as coisas são iguais.........................   37 Capítulo 3 – O caminho do crescimento.....................   51 Capítulo 4 – O mundo dos homens..............................   55 Capítulo 5 – Os poderosos sinais da virtude...............   71 Capítulo 6 – O grande sábio dos tempos antigos........   83 Capítulo 7 – Respondendo a reis e imperadores.........   97 Textos atribuídos a discípulos de Chuang Tzu............  103 Parte 2 O livro de Lié Tzu..................................................................  135 Dádivas celestiais.............................................................  137 O Imperador Amarelo....................................................  153 O rei de Mu......................................................................  179

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Confúcio...........................................................................  193 As perguntas de Tang......................................................  211 Vontade e destino............................................................  237 Yang Chu..........................................................................  253 Compreender a mensagem............................................  275 Glossário Taoista...................................................................  303 Bibliografia.............................................................................   309

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INTRODUÇÃO

A razão por que decidimos juntar no mesmo volume Chuang Tzu e Lié Tzu, pese embora a inequívoca grandeza individual de cada um, o que por si só seria suficiente para os catapultar para uma perfeita publicação em separado, prende-se com o facto de existir uma certa similitude literária e estilística, entre as duas obras. Quanto ao conteúdo filosófico da mensagem veiculada pelos seus escritos, esse integra indiscutivelmente as bases fundacionais da filosofia taoista. Em suma, aquilo que caracteriza a forma comunicacional do legado destes dois pensadores só pode ser expresso através de uma palavra: simplicidade. Em contraste com esta realidade, o corpus filosófico universalmente conhecido por Tao Te Ching, de Lao Tzu (apelidado de «pai do taoismo»), distingue-se por assumir uma dimensão mais subjetiva e poética, onde a ideia e a palavra foram submetidas a aturado trabalho de apuramento formal e linguístico. Chuang Tzu e Lié Tzu viveram depois de Lao Tzu e é quase certo que beberam das palavras do grande mestre, mas preferiram aplicar nos seus textos uma forma e uma linguagem que fossem naturalmente acessíveis ao homem comum. Tal facto facilitou o enraizamento do taoismo nas camadas mais baixas da sociedade chinesa e a consequente difusão por áreas de grande abrangência geográfica.

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transcrição inglesa, francesa ou espanhola. É, sim, um corpo literário distinto, fecundado labirinticamente por muitos «pais» e apurado pelo joeiramento do que de melhor existe nestas duas obras tão imbuídas da mais alta sabedoria humana e que só há 150 anos é que foram passadas de forma séria por seres humanos pacientes e diligentes para linguagens facilmente acessíveis aos não falantes do idioma chinês. O título A Borboleta Voando no Vazio surgiu a partir da necessidade de se criar uma ponte entre os dois livros taoistas. A borboleta, voando feliz por entre as árvores e que é sonhada por Chuang Tzu, e o tema do «vazio» que atravessa todo o livro de Lié Tzu uniram-se naturalmente para nos facilitar o trabalho de batismo. Ainda no espaço desta introdução e também no final do livro, decidimos incluir alguma informação específica que achamos pertinente no contexto de uma obra desta natureza. Os potenciais interessados poderão assim enriquecer os seus conhecimentos sobre o taoismo em termos históricos, semânticos, conceptuais ou filosóficos, para além de tomarem contacto com a bibliografia que foi utilizada para ajudar a dar à luz este livro.

O livro de Chuang Tzu O Autor Tal como acontece com o filósofo Lao Tzu, universalmente visto como o fundador do taoismo, pouco se sabe da existência terrena de Chuang Tzu, com a lenda a envolver quase tudo o que lhe diz respeito. Sabe-se que este mestre taoista viveu entre os anos 369 e 286 antes da era cristã. Habitou na aldeia de Wei, província de Ho Nan, tendo desempenhado, por breve período de tempo, tarefas administrativas básicas.

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Na sua relação com o confucionismo, Chuang Tzu manteve sempre uma postura de completa rejeição dessa doutrina social; no entanto, na sua obra, e devido talvez a um enorme respeito pelas mudanças sociais introduzidas por Confúcio, a figura deste filósofo não sai muito maltratada. Foi um homem com um apurado conhecimento da cultura popular chinesa do seu tempo, o que fica demonstrado pela hábil utilização de parábolas, histórias e anedotas que introduziu nos seus textos filosóficos. Revelava uma natureza profundamente mística e as suas atitudes no campo social caracterizavam-no como um pensador destemido, pois a tolerância e a liberdade eram, para ele, princípios sagrados. A personalidade filosófica de Chuang Tzu teve, nos dez séculos posteriores, um poderoso impacto nas camadas culturais do continente asiático. As provas dessa influência vamos encontrá-las nos escritos poéticos de Li Po e Bashô e nas pinturas de Hiroshigue. No mundo ocidental, a sua influência fez-se sentir em pensadores como Hegel, Nietzsche e Carl Jung. A existência de situações paradoxais na obra de Chuang Tzu é hoje largamente reconhecida como tendo um papel fundamental na formação do budismo zen. A Obra Nos séculos que precederam a era cristã, nenhum filósofo, na China de então, escreveu qualquer livro no sentido estrito do termo. O que cada um fazia era inscrever os seus textos (poemas, canções, conversas) em tiras de bambu, que depois eram unidas e enroladas. E tal aconteceu também com o legado de Chuang Tzu. O conjunto de escritos a que geralmente se convencionou chamar Capítulos Interiores (para marcar a diferença com os Capítulos Exteriores, integrados em séculos posteriores) foi apa-

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recendo, ao longo dos séculos, em várias edições, sempre com um número de capítulos que variava entre sete, trinta e dois e cinquenta e dois. Hoje sabe-se que apenas os primeiros sete capítulos foram compilados, de facto, pelo próprio Chuang Tzu; os restantes (os Capítulos Exteriores) são provavelmente obra de eventuais discípulos e adicionados em épocas subsequentes. No seu livro, Chuang Tzu tem como ponto de partida a visão do seu antecessor Lao Tzu, mas enriquece-a enormemente ao envolver o seu conteúdo numa forma literária extremamente acessível à compreensão do homem comum. O que em Lao Tzu é estrutura, arquitetura, globalidade, em Chuang Tzu, é transparência, simplicidade, proximidade. No conteúdo dos primeiros sete Capítulos abundam as conversas entre amigos, as anedotas, os paradoxos, os enigmas, as parábolas. Nos diálogos estão ausentes a argumentação meramente intelectual e a arrogância de quem diz que sabe. O grande objetivo por detrás das conversas com diversos interlocutores e dos pequenos ensaios é claramente o de consciencializar cada ser humano para a necessidade de cultivar a via do autoconhecimento, condição suficiente para se poder atingir um estado de total libertação interior. Palavras como «Tao», «sábio perfeito», «suprema sabedoria», «iluminação» abundam ao longo das suas páginas – todas elas a requererem, por parte do leitor, uma ampla disponibilidade e investigação interiores, pois talvez nelas se ocultem tesouros intemporais que nos podem ensinar a viver em paz e harmonia com nós mesmos, com os nossos semelhantes e com o mundo. Em conjunto com o Tao Te Ching, de Lao Tzu, e O Livro de Lié Tzu, esta obra de Chuang Tzu faz parte da trilogia matricial que sustenta, em termos documentais, o edifício da filosofia taoista.

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À semelhança do que se tinha passado quando traduzimos a obra Tao Te Ching – O Livro do Caminho e da Sabedoria2, também neste caso não nos deparámos com um único texto original. De facto, foram aparecendo, ao longo do tempo, versões várias, com inevitáveis diferenças entre elas. Destacam-se a edição (com cinquenta e dois capítulos) realizada no primeiro século antes da era cristã e que fazia parte da Biblioteca Imperial, bem como a de Kuo Hsiang no terceiro século da era cristã (com trinta e três capítulos); são estas as duas mais importantes referências que deram origem à maioria das traduções que se vêm fazendo até aos dias de hoje. No Ocidente, a obra impressa de Chuang Tzu aparece pela primeira vez em língua inglesa no século XIX, com as traduções de Frederic Balfour (1881), de Herbert Giles (1889) e de James Legge (1891). Para esta edição em língua portuguesa, optámos por transcrever os sete primeiros capítulos, aceites como sendo obra do próprio Chuang Tzu. Adicionámos depois alguns textos, criteriosamente selecionados, retirados de vinte e cinco capítulos cuja autoria é atribuída aos seus discípulos e que não são incluídos muitas vezes em traduções ocidentais; não quisemos assim privar o leitor português de um contacto direto com autênticas pérolas intemporais da sabedoria taoista.

O livro de Lié Tzu O Autor Sobre a vida de Lié Tzu persistem ainda hoje muitas incertezas, à semelhança do que se passa com as dos seus pares Lao Tzu e Chuang Tzu. De um modo geral, os estudiosos do pensamento chinês antigo referem-se a alguém conhecedor, praticante e difusor da filosofia taoista que terá vivido algures entre   Editorial Presença, 2010.

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os séculos IV e III a.C. Nos primeiros documentos, o seu nome, Lié Yu Kou, surge ainda sem o qualificativo «Tzu» (mestre). Alguns investigadores chegam mesmo a pôr a hipótese de ele na realidade não ter tido sequer existência terrena, aparecendo como personagem fictícia criada por Chuang Tzu, e chamam-lhe «o filósofo que nunca existiu». O aparecimento do nome «Lié Tzu» dezoito vezes no livro de que é o suposto autor e a referência a este nome em alguns documentos de épocas imediatamente posteriores vêm de algum modo desmentir tal hipótese. O próprio Chuang Tzu, nos seus escritos, fala de Lié Tzu e trata-o como se fosse uma pessoa real. No início do seu livro, mas em palavras que se atribuem a um seu discípulo, existe a única fonte de informação sobre pormenores da existência deste filósofo: «Lié Tzu vivia numa reserva de caça do estado de Cheng. Durante quarenta anos permaneceu no mais completo anonimato, com o governador e os altos funcionários a considerá-lo como mais um dos vulgares camponeses. Num ano de escassez de alimentos, Lié Tzu decidiu mudar-se para o estado de Wei.» Segundo a lenda, nove anos depois de ter iniciado o estudo do Tao, Lié Tzu demonstrava ser capaz de voar pelos céus, numa alusão metafórica à capacidade de manter o corpo em absoluta imobilidade, com o espírito a viajar em completa liberdade pelo ar, como estando a ser levado pelo vento. Mais de mil anos depois, a memória de Lié Tzu recebe da sociedade culta de então os seguintes títulos honoríficos: Mestre Espiritual do Vazio (dinastia Tang, 618-707) e Mestre Espiritual do Vazio e da Sublime Contemplação (dinastia Song, 960-1279). A Obra A obra escrita de Lié Tzu é, das três principais fontes do taoismo, a menos traduzida no Ocidente. No entanto, é conhe-

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cida na Europa desde há muito tempo. Foram os missionários jesuítas que no século XVII trouxeram para o mundo ocidental os primeiros documentos de um filósofo a que chamaram «Licius», sendo esta palavra o nome latinizado de Lié. No Oriente, este clássico só é citado a partir do século II em Os Livros de Huan, apesar de hoje ser largamente aceite que Lié Tzu escreveu a sua obra vários séculos antes da era cristã. Durante a dinastia Tang (século VIII), o documento que até aí era geralmente denominado por O Livro de Lié Tzu começa a circular com o título de O Livro do Vazio Perfeito devido à distinção de honra concedida ao seu autor. No Ocidente, apenas no século XX (1912) surge a primeira tradução completa deste livro, realizada por Lionel Giles. Atualmente, esta obra é vista como sendo resultado de uma recompilação de escritos taoistas que vão desde o século IV a.C. até ao século III da nossa era. No entanto, persistem dúvidas sobre se os textos reunidos em séculos posteriores refletem de facto a natureza dos conteúdos originais. Apenas dois capítulos, dos oito que compõem a obra, são efetivamente considerados originais completos; os outros foram escritos a partir de fragmentos encontrados em diversos lugares e tentam reconstruir os seis que se tinham perdido. A estrutura interna do livro é composta por histórias, aforismos e breves reflexões agrupados à volta de um determinado tema, que, por sua vez, dá título a cada capítulo. Apenas um dos capítulos, denominado Yang Chu, parece destoar dos princípios doutrinais do taoismo ao aconselhar uma atitude hedonista perante a vida, a tal ponto que, na primeira tradução ocidental3, ele é simplesmente posto de parte e, na segunda4, o conteúdo é reduzido a uma mera dezena de linhas. Segundo   Taoist Teachings from the Book of Lie Tzu, de Lionel Giles, 1912.   Yang Chu Garden of Pleasure, de Anton Forke, 1912.

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SÍNTESE HISTÓRICA DO TAOISMO

A história do pensamento taoista mergulha as suas raízes, lendárias, é claro, ainda no período neolítico (século XXX a.C.), quando alguns grupos humanos se instalam no vale do rio Amarelo, norte da atual China. Segundo referências já do período histórico, em tempos muito remotos reinaram nessa região vários monarcas, tais como Huang Ti (Imperador Amarelo), Yao e Shun, que ficaram para a posteridade como eminentes e iluminados sábios imbuídos de grande virtude moral e sabedoria. Contam as lendas que foram eles os primeiros mestres que ensinaram as artes da civilização ao povo chinês. Mas é preciso esperar pelo período histórico (dois mil anos depois) para se obterem dados mais precisos sobre o que realmente se estava a passar no campo do pensamento filosófico e das várias correntes a ele associadas, bem como do seu reflexo na sociedade. Historicamente, sucedem-se os períodos esclavagista (até ao século VIII a.C.) e feudal (séculos VII-VI a.C.), acompanhados de uma perda progressiva do poder real sobre vastas regiões e o aparecimento de estados independentes. Segue-se, por cem anos, o período reformista, com a imposição de leis contratuais e regulamentares no que diz respeito à posse de bens e nas relações de trabalho. No século V a.C. começa a época dos «Estados Combatentes», que só cessa em 221 a.C.; caracteriza-se por guerras constantes

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entre os principais estados feudais, de cujo desfecho resulta a unificação de todo o território sob a forma de império. Os taoistas, por coerência em relação aos seus princípios éticos e morais, mantêm-se à margem de todos os conflitos entre estados, já que a sua busca de paz interior os afastava das transformações sociais e políticas que iam acontecendo à sua volta; a sua filosofia de vida leva-os, antes, a procurar a serenidade dos bosques ou a trabalhar anonimamente o seu pequeno pedaço de terra. Embora tenham existido taoistas nos séculos anteriores, só temos notícias destes homens durante a dinastia Han (séc. III a.C.), quando são associados à palavra «taoismo». Este facto está inscrito no primeiro livro de história geral da China chamado Shi ji 1, elaborado por Si Ma Qiam. Os filósofos fundacionais do taoismo, exceto o Imperador Amarelo, aparecem durante a dinastia Chou (1122-255 a.C.). São eles: Lao Tzu, Chuang Tzu e Lié Tzu; as suas obras, juntamente com as do Imperador Amarelo encontradas nos anos 70 do século passado, serão praticamente as únicas que vão chegar aos nossos dias. Nos séculos seguintes, surgiram várias personalidades (Yang Zhu, Xiang Xiu, Guo Xiang) estudiosas do taoismo mas que pouco mais deixaram do que comentários às obras dos velhos mestres. O taoismo entra em decadência a partir do século I. Só três séculos depois, em época de grande fragmentação política e social, emergem alguns filósofos (He Yan, Wang Bi) tentando revivificar os princípios taoistas, incorporando muitas vezes elementos confucianos. Em oposição, é criada a «Escola dos Sete Sábios», como tentativa de refundar o taoismo mais puro, inconformista, anticonfucionista e contestatário; são figuras destacadas desta escola sábios como Ji Kang, Ruan Ji e Xiang Xu. Por essa altura, um sábio chamado Bao Jing Yan, de que   À letra, Registo Histórico.

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≡ Lié Tzu faz do vento a sua carruagem e viaja ligeiro por onde quer. Como é maravilhoso partir por duas semanas, até sentir necessidade de voltar! Pouca gente neste mundo sentiu alguma vez tal felicidade. Contudo, apesar de não mais precisar de caminhar, ele ainda permanece preso à dependência. Se ele tivesse cavalgado a essência do céu e da terra e obedecido às mudanças de todos os elementos, poderia vaguear infinitamente. Nessa altura, do que é que ele poderia depender? Assim, diz-se: «O homem perfeito não tem ego. O líder espiritual não tem utilidade. O verdadeiro sábio não tem nome». ≡ Yao, querendo passar as rédeas governativas do seu país a Hsu Yu, afirmou: «O sol e a lua brilham nos céus, mas as tochas continuam acesas. Demasiada luz não tornará as coisas mais difíceis? Se regarmos quando está a chover, não estaremos a desperdiçar tempo e recursos? Se conseguires atuar corretamente, o país será bem governado. Embora eu tente modelar a minha conduta de acordo com a tua, não passarei de alguém que, nas cerimónias, é o representante dos espíritos de quem já partiu. Vejo agora a desordem que provoquei à minha volta. Por favor, toma ao teu cuidado o governo do país.» Hsu Yu respondeu: «Tens dirigido até hoje os destinos deste povo. Se eu assumisse o teu lugar, isso teria pouca importância para mim. Não serão os títulos e as honrarias coisas de baixo valor e próprias de amos e escravos? E por que razão me iria agora tornar servo de mim próprio? O pequeno pardal que faz o ninho na floresta apenas precisa de um pequeno ramo; o rato somente bebe a água suficiente para encher a barriga.

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deambulações em liberdade 33

Regressa ao palácio, senhor Yao, e senta-te debaixo de uma árvore que seja frondosa! Eu não sirvo para aquilo que me pedes. Quando um cozinheiro falha no aprovisionamento da sua cozinha, os convidados não saltam sobre a comida que está na mesa para tomar o seu lugar na cozinha.» ≡ Chien Wu contou a Lien Shu: «Estive a escutar o louco chamado Chien Yu, que mora em Chu. Parecia não haver limites para as suas palavras. Ele falava, falava e nunca concluía nada. Eu estava surpreendido e até amedrontado. E ele nunca conseguia chegar ao fim, como a Via Láctea fluindo continuamente. Mas aquilo era demais. E ao que ele dizia faltava o calor dos sentimentos humanos.» Lien Shu perguntou: «De que falava ele?» «Dizia “para lá da montanha Ku She existe um espírito feminino. A sua carne e os seus ossos são parecidos com gelo e neve. Ele é gentil e terno como uma donzela. Não se alimenta de cereais, mas inala brisa e bebe orvalho. Sobe às mais altas nuvens conduzindo uma carruagem puxada por dragões voadores e passeia à sua vontade por todos os oceanos. O seu espírito, quando se concentra, impede que as coisas envelheçam e proporciona fartas colheitas.” Penso que as palavras do louco são malévolas e não se lhes deve dar crédito.» Lien Shu, com ar sério, concordou: «Assim é. Aquele que é cego não pode conhecer a beleza de uma imagem ou de um objeto. O surdo não consegue aperceber-se do estranho som de um sino ou de um tambor. Mas será que a cegueira e a surdez habitam somente o corpo físico? Elas podem também exercer a sua ação no campo mental. E isto também se aplica a Chien Wu. Contudo, existe mesmo esse espírito feminino, esse princípio

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todas as coisas são iguais 45

Que coisas são essas? O sábio vive em paz com as coisas, enquanto os outros homens separam tudo e disso se vangloriam. Assim, afirmo: «Aqueles que discriminam não veem». ≡ O grande Tao não cabe dentro de qualquer definição. A verdade não precisa de palavras. A verdadeira compaixão não precisa de se mostrar. A verdadeira humildade é anónima. A verdadeira coragem não é agressiva. O Tao que se dá a mostrar não é o verdadeiro Tao. As palavras que argumentam não dizem nada. A compaixão que se exibe não vai longe. Estas coisas podem parecer simples, mas têm tendência a perder a sua essência original. Assim, aquele que sabe o suficiente para se deter às portas do Desconhecido sabe que já lá está. Quem, de entre os homens, não vai ter medo de se encontrar com a verdade do silêncio e com o Tao que não se explica por palavras? Compreende isto e tornar-te-ás a Casa do Tesouro do Céu. Nela, as coisas nunca a encherão; as que dela forem retiradas jamais se esgotarão. Não conhecerás a razão por que isto se passa assim. Passarás a ser a estrela polar, à volta da qual giram os céus. ≡ Yeh Chueh perguntou um dia a Wang Ni: «Sabes o que é que está em todas as coisas?» Wang Ni respondeu: «Como é que poderia sabê-lo?» «Conheces o que não sabes?» «Como é que poderia sabê-lo?» «Então ninguém conhece o nada?» «Como poderia eu sabê-lo? Assim sendo, vou tentar falar-te dessas coisas. Se eu disser que compreendo, como posso

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saber que o que digo pode também ser o que não compreendo? Se disser que não compreendo, de que modo posso saber que o que digo é mesmo aquilo que não compreendo? Deixa-me perguntar-te: quando as pessoas se deitam molhadas, elas apanham pneumonia e morrem. Isso acontece também aos peixes? Se alguém for viver numa árvore, vai estar cheio de medo de cair. Mas poderemos dizer o mesmo se se tratar de um macaco? Dos três, quem sabe qual é o seu lugar adequado para viver? Os seres humanos comem carne de animais que se alimentam de erva e de cereais. O veado come erva. As centopeias comem vermes. As corujas comem ratos. Dos quatro, quem sabe realmente o que deve comer? Os macacos vivem com outros macacos. Os corvos e veados andam juntos. As enguias nadam junto a outros peixes. Mao Chiang e Li Chi eram vistas pelos homens como duas belas mulheres, mas quando os peixes as viram, mergulharam imediatamente para o fundo; quando os pássaros olharam para elas, voaram para longe; quando os veados as viram, fugiram para dentro dos bosques. Dos quatro, quem conhece a verdadeira beleza debaixo dos céus? A meu ver, as linhas da compaixão e da retidão, os caminhos do “certo” e do “errado” são tão complexos que não consigo arranjar forma de os distinguir uns dos outros.» «Se não sabes distinguir o “certo” do “errado”, pode o sábio iluminado sabê-lo?» «O sábio iluminado é um ser espiritual. Quando um grande pântano seca e se incendeia, ele não sente o calor; se as águas de um rio congelam, ele não sente qualquer frio; quando os trovões ecoam pelas montanhas e as tempestades assolam os mares, ele não sente qualquer medo. A vida e a morte não o tocam; como poderão as coisas banais como o “certo” e o “errado” afetá-lo?» ≡

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O Caminho do crescimento 53

«Isto é uma coisa natural», respondeu o comandante. «Não foi obra dos homens. Nasci só com uma perna. E considero este facto uma bênção do céu, pois foi determinado por aquilo que me transcende.» ≡ O faisão dos pântanos tem de dar dez passos para encontrar alguma comida e cem passos para beber uma gota de água. Mas ele não deseja ser encarcerado numa gaiola com comida e água. Prefere viver em liberdade. ≡ Quando Lao Tzu morreu, Chin Shi foi ao funeral. A certa altura, deu três gritos e foi-se embora. Um discípulo foi atrás dele e perguntou-lhe: «Tu não eras amigo do nosso mestre, pois não?» «Era, sim.» «Se eras, porque te despediste dele daquela maneira?» «Eu despedi-me como achei que era a melhor maneira de me despedir», respondeu Chin Shi. «A princípio, pensei que eras seu discípulo, mas agora penso que não és. Quando cheguei, vi os velhos chorando como se tivessem perdido os seus próprios filhos e os jovens como se tivessem perdido as mães. O que é que os mantinha todos juntos? Porque tinham eles palavras para dizer e lágrimas para chorar que ninguém tinha encomendado? Tudo isso oculta a verdade das coisas, ficando as pessoas de costas para a realidade. Antigamente, chamava-se a isso “fugir das lições da Natureza”. O mestre veio a este mundo sabendo que era tempo de vir. Quando morreu, seguiu o movimento natural da vida. Partiu

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CAPÍTULO 6

O GRANDE SÁBIO DOS TEMPOS ANTIGOS

Sábio iluminado é aquele que conhece as leis naturais do céu e as leis naturais do homem. Quem conhece as leis do céu sabe que o céu dá uma existência a cada ser. Quem conhece as leis dos homens usa esse conhecimento para chegar ao que desconhece, conseguindo, assim, esgotar, na totalidade, o seu tempo de vida. Este é o conhecimento perfeito. Contudo, existe um problema: o conhecimento tem de basear-se em qualquer coisa de real, mas essa coisa está sempre em mudança. Como poderei saber se aquilo a que chamo «céu» não é de facto «homem» e se aquilo a que chamo «homem» não é realmente «céu»? Só quando o homem é verdadeiro, pode existir conhecimento verdadeiro. O que é um homem verdadeiro? O homem verdadeiro dos tempos antigos não se importava de estar só, não se envaidecia com as suas realizações, não fazia planos. Se falhava, não se sentia um fracassado. Se fosse bem sucedido, não se autoelogiava. Subia às altas montanhas sem sentir medo algum. Banhava-se nas águas sem ir ao fundo. Caminhava sobre o fogo sem se queimar. Esse homem crescia em sabedoria em direção ao Tao puro. O homem verdadeiro dos tempos antigos não tinha sonhos durante o sono e acordava sem a mínima ansiedade. Comia alimentos simples. A sua respiração era profunda; ela

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subia desde os calcanhares, enquanto a respiração das pessoas comuns começa na garganta. O homem comum, quando perde, faz com que as suas palavras se agarrem à boca como um vómito. Nele, a ambição é infinita e a qualidade celestial, minúscula. O homem verdadeiro dos tempos antigos não sabia amar a vida nem odiar a morte. Quando se sentia vivo, não se sentia excitado. Quando se aproximava da morte, não resistia. Vivia livremente e livremente deixava a existência terrena. Nunca esquecendo o ventre de onde tinha nascido, enfrentava o fim da vida serenamente. Recebia com gratidão as coisas que lhe eram oferecidas, sem a elas se apegar. A isto se chama «não deixar que a mente e o coração atuem contra o Tao e o céu». Assim é o homem verdadeiro. A mente e o coração desse homem são livres, a sua face irradia tranquilidade e os seus gestos são cuidadosos. Esse homem é tão sereno como o outono e tão suave como a primavera. Os seus sentimentos fluem juntamente com o movimento das estações do ano e, assim, está sempre em sintonia com a força das coisas. O seu conhecer não tem limites. Portanto, quando um sábio entra numa disputa, pode destruir um país, mas nunca perderá o coração das pessoas. Ele abençoa Tudo-o-que-existe-debaixo-do-céu1, mas não porque pretende com isso ganhar a afeição dos homens. Aqueles que têm a ambição de dominar todas as coisas não são sábios. Aqueles que se deixam afetar pelo apego não são verdadeiramente praticantes da afeição. Aqueles que são calculistas não são fiáveis. Aqueles que não conseguem situar-se além da perda e do ganho não são grandes. Aqueles que gastam tempo e energia a ser famosos não merecem o respeito dos outros. Aqueles que passam toda a existência sem pro­curar a verdade que   O mesmo que Dez-mil-coisas.

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DÁDIVAS CELESTIAIS1

Lié Tzu vivia numa reserva de caça do estado de Cheng. Durante quarenta anos permaneceu no mais completo anonimato, com o governador e os altos funcionários a considerá-lo como mais um dos vulgares camponeses. Num ano de escassez de alimentos, Lié Tzu decidiu mudar-se para o estado de Wei. Quando o souberam, os seus discípulos disseram-lhe: «Mestre, vais-te embora e não sabemos quando regressas. Como discípulos, gostaríamos de receber um último ensinamento antes de partires. O teu mestre Hu Tzu disse-te alguma coisa sábia que nos queiras contar?» «Ah, as palavras de Hu Tzu!», respondeu Lié Tzu, sorrindo. «É certo que o meu mestre teve um dia uma conversa com Po Hun, que eu escutei e que agora posso contar-vos. Foram estas as suas palavras: “Há o ser e o não-ser, o mutável e o imutável. O não-ser pode engendrar o ser; o imutável é capaz de alterar o mutável. Aquilo que nasce não pode escapar à sua condição de nascer e o mutável não pode escapar à sua natureza de estar sempre a mudar; deste modo, nascimento e  A reconciliação com a morte constitui o tema principal do primeiro capítulo. Nada escapa a esse fim, exceto o Tao, onde tudo se origina e para onde tudo retorna ao morrer. O ato de viver é posto em igualdade com o ato de morrer e ambos deverão ser aceites com serenidade.

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o imperador amarelo 173

Numa das suas viagens, Yang Chu atravessou o estado de Sung. Numa das estalagens, verificou que o dono possuía duas concubinas: uma bonita e outra feia. O homem valorizava a feia e desprezava a bonita. Quando Yang Chu lhe perguntou a razão de tal atitude, o estalajadeiro respondeu: «A que é bonita pensa que é bonita, mas eu não dou pela sua beleza; a que é feia pensa que é feia, mas eu não dou pela sua fealdade.» Yang Chu disse aos seus discípulos: «Lembrai-vos disto: se praticais a bondade sem vos considerardes bondosos, sereis recebidos em toda a parte com elevada estima.» ≡ No mundo existe um caminho através do qual se pode chegar longe e outro que nunca nos leva a lado nenhum. O primeiro chama-se «vulnerabilidade», o segundo «força». Os dois são fáceis de identificar, mas os homens têm muita dificuldade em os distinguir. Por isso nos tempos antigos se dizia: «Os fortes vencem quem é mais vulnerável; os vulneráveis vencem por si mesmos. Os primeiros, quando encontram alguém que seja tão forte como eles, ficam em perigo; os segundos, porque não lutam, jamais se encontram em perigo. Daí dizer-se que “aquele que se constrói a si mesmo não conquista os outros, vence sem lutar e é a pessoa certa para governar o mundo.”» Yang Tzu dizia: «Se te esforças em nome da dureza, deverás praticá-la através da brandura. Se te esforças em nome da força, deverás praticá-la através da vulnerabilidade. A brandura transforma-se em dureza. A vulnerabilidade transforma-se em força. Observa estas atitudes nos seres humanos e conhecerás a origem da desgraça e da felicidade. Aquele que cultiva a força «vence» o vulnerável, mas, se encontra alguém que é forte, não

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A BORBOLETA VOANDO NO VAZIO

≡ Havia um homem que, tendo nascido em Yen e crescido em Chu, voltou à terra natal já no fim da vida. Ao atravessar o estado de Chin, os companheiros de viagem pregaram-lhe uma partida. Apontaram para uma cidade ao longe e disseram-lhe: «Aquela é a capital de Yen.» O homem de Yen sentiu grande tristeza. Já dentro da cidade, indicando uma casa, disseram-lhe: «Este é o templo dedicado aos deuses da terra do teu país.» O homem suspirou profundamente. Os companheiros apontaram para outra casa e informaram-no: «Esta era a casa do teu pai.» O homem desatou a chorar devido à forte emoção. Apontaram para um monte de terra e acrescentaram: «Esta é a sepultura do teu pai.» E o homem, sem se poder conter, começou de novo a chorar. Os companheiros, rindo às gargalhadas, confessaram: «Estivemos a enganar-te todo o tempo. Esta terra pertence ainda ao estado de Chin.» E o homem de Yen sentiu-se muito embaraçado com a sua conduta. Porém, devido ao que lhe acontecera, quando chegou a Yen e viu de facto a sua cidade, o templo do seu bairro, a casa e a sepultura do pai, já não se sentiu esmagado pela emoção.

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COMPREENDER A MENSAGEM1

Lié Tzu foi discípulo de Hu Tzu. Este, um dia, disse-lhe: «Quando souberes manter-te atrás, começarei a falar-te de coisas importantes.» «Diz-me, por favor, como hei de manter-me atrás!» «Observa a tua sombra e saberás o que fazer.» Lié Tzu assim fez. Olhou bem para a sua sombra: quando o corpo se inclinava, a sombra também se inclinava; quando endireitava o corpo, a sombra fazia o mesmo. Conclui-se que a inclinação e a verticalidade dependem do corpo e não da sombra, o que significa que a natureza da nossa ação deve depender das circunstâncias e não da vontade do eu. É este o sentido da frase «situar-se à frente, mantendo-se atrás». ≡  No título deste último capítulo da obra de Lié Tzu aparece o ideograma fu, que se refere às tiras de bambu que, escritas e depois partidas ao meio, serviam de documento ou contrato, cujas metades eram partilhadas pelos portadores. Só quando se reuniam as partes, se conseguia ler e compreender o texto original. Extrapolando para o campo da filosofia taoista, esta ideia de reencontro simboliza a necessidade de haver um conhecimento direto do Tao para se apreender a mensagem que está implícita no mundo das coisas e dos seres.

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A BORBOLETA VOANDO NO VAZIO

«Sabes porque não acertas ainda bem no centro do alvo?», perguntou Kuan Yin. «Sim, já sei.» «Muito bem! Não te esqueças desse conhecimento.» E isto aplica-se não só ao tiro com arco mas também à vida de cada um e ao governo de um país. Por isso, o sábio não perde tempo a analisar com o pensamento a vida e a morte dos seres, mas antes tenta descobrir a causa dos fenómenos. ≡ Lié Tzu dizia: «Quem cultiva a aparência torna-se vaidoso; quem cultiva a força física torna-se violento. Com eles não se pode falar do Tao. Apenas quando os primeiros cabelos brancos aparecerem na tua cabeça poderás começar a falar do Caminho3 e levar os outros a percorrê-lo. Se alguém vive só para a imagem e para a brutalidade, quem quererá lidar com ele? Consequentemente, ficará sozinho e sem ajuda. O homem sábio não entra em lutas com os outros e, deste modo, chega a velho sem estar debilitado, transmitindo segurança ao espalhar a sua sabedoria. Por isso, a dificuldade em governar um país tem como causa o não reconhecimento da sabedoria dos homens livres.» ≡ Um homem de Sung esculpiu em jade uma folha de amoreira para oferecer ao seu príncipe. Demorou três anos a fazê-la; quando misturada com as folhas verdadeiras da árvore, era impossível reconhecê-la, tal era a sua perfeição.  Tao.

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A BORBOLETA VOANDO NO VAZIO

≡ O duque Wen5, de Chin, reuniu-se com os seus aliados, pois pretendia acordar com eles um ataque a Wei. Um dos senhores feudais presentes olhou para o céu e sorriu. O duque perguntou-lhe por que sorria. Resposta do aliado: «Estava a sorrir porque me lembrei, naquele momento, de um vizinho meu que acompanhava a mulher numa visita à sua família. No caminho, afastou-se da esposa e encontrou uma rapariga que apanhava amoras silvestres. Gostou dela e começaram a conversar, mas, ao virar-se para trás, reparou que um homem estava a fazer sinais maliciosos à sua mulher. Era esta a causa do meu sorriso.» O duque percebeu o sentido do que ouvira e retirou a proposta de guerra. Regressou ao seu país, mas, ainda não tinha chegado ao destino, quando foi informado de que a fronteira norte tinha sido atacada. ≡ A certa altura, o estado de Chin foi infestado por ladrões. Um homem chamado Xi Yung era capaz de os reconhecer, bastando olhar-lhes para os olhos e observar o espaço entre as sobrancelhas. Devido a isto, o marquês de Chin encarregou-o de descobrir as pessoas que andavam a roubar e ele não falhou um único em milhares de casos. O nobre estava bastante agradado com o trabalho de Xi Yung e falou no assunto a Chao Wen Tzu: «Ao descobrir este homem, consegui acabar com os ladrões em todo o país. Foi uma sorte tê-lo encontrado.»  Os governantes de Chin usaram o título de marquês (hou) até ao ano 678 a.C.; depois desta data, passaram a ostentar o de duque (gong).

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compreender a mensagem 293

≡ Chu Li estava ao serviço do duque Ao. Sentindo que o patrono não apreciava o seu trabalho, retirou-se para a beira-mar e passou a comer castanhas de água e sementes de flor de lótus, no verão; no inverno, o seu alimento consistia em bolotas e milho. Um dia, o duque Ao encontrou-se em dificuldades e Chu Li despediu-se dos amigos para ir combater ao lado do antigo patrão. Os amigos disseram-lhe: «Abandonaste o duque porque não apreciava os teus méritos. Se agora fores e morreres por ele, que queres dizer com esse ato?» «Deixei-o porque ele não apreciava o meu trabalho e, se agora vier a morrer por ele, isso provará que ele não gostava mesmo do que faço. A minha morte acabará por envergonhar os futuros governantes que não reconhecerem o mérito dos seus súbditos.» Morrer por alguém que nos aprecia e recusar morrer por alguém que não nos aprecia constituem o caminho correto que se deve percorrer, mas a decisão de Chu Li obedeceu cegamente a um ressentimento, a ponto de ele se ter esquecido de si próprio. ≡ Yang Chu dizia: «Se praticarmos o bem, os frutos da nossa ação regressarão a nós. Se o ódio nos brotar do coração, sofreremos em troca grandes calamidades. Quando somos causa e efeito, a perturbação toma conta de nós. Assim, o homem sábio dá muita atenção ao que dele sai.» ≡

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jais manter a vida dessas aves, o melhor é proibirdes a sua captura. Quando se libertam animais depois de serem apanhados, esse ato não compensa o mal que se lhes fez durante a captura.» «Está absolutamente certo o que dizeis», concordou Chao Chien. ≡ Tien, que vivia em Chi, pensou em fazer uma viagem, mas primeiro prestou reverência ao Deus dos Caminhos e organizou um banquete para mil convidados. Ao ser servido de peixe e carne de ganso, Tien, olhando para os pratos, suspirou e disse: «Como os céus são generosos com a humanidade! Fazem crescer os cinco cereais e alimentam peixes e aves para sustento dos homens!» E todas as pessoas presentes concordaram em uníssono. Porém, um rapaz de doze anos da família Pao, que estava sentado no meio dos convidados, levantou-se e disse: «Não é bem como o senhor Tien diz. Todos os seres que vivem entre o céu e a terra tiveram um nascimento como nós; embora de espécies diferentes, possuem vida como nós, os humanos. Nenhuma espécie animal é mais nobre do que a outra; o que se passa é que os mais fortes e astuciosos dominam os mais fracos. Uns comem os outros, mas não se nasce com o destino de se servir de alimento seja a quem for. O homem apodera-se dos seres que depois lhe vão servir de alimento, mas será que se pode afirmar que esses seres foram criados pelo céu e pela terra para nos alimentar? Além disso, os mosquitos picam-nos a pele, lobos e tigres comem-nos a carne; será que os céus e a terra criaram propositadamente os homens para que servissem de alimento a mosquitos e a animais selvagens?»

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GLOSSÁRIO TAOISTA

Caos – Estado primordial onde estão potencialmente – ainda que de modo indiferenciado – todas as formas que se irão manifestar futuramente. Céu – Realidade transcendente, situada para além da realidade dos sentidos, caracterizada pelo vazio e pelo não-ser; da mesma natureza do Tao; que dá e tira a vida. Chuang Tzu – Filósofo do século IV a.C., autor do clássico O Livro de Chuang Tzu, também conhecido com o título de Capítulos Interiores. Juntamente com Lao Tzu e Lié Tzu e através da criação de textos filosóficos, este grupo funda historicamente o movimento taoista. Confúcio – (551-479 a.C.) O seu nome chinês era Kong Qiu; era natural de Zou Yi, estado de Lu; foi ministro do seu país; na parte final da vida, dedicou-se a ensinar discípulos; percorreu o país oferecendo aos governantes as suas doutrinas ético-filosóficas; os seus escritos foram recompilados pelos seguidores com o título de Analectos. Figura muito presente nos textos taoistas; umas vezes, ridicularizado, outras, tolerado. Dez-mil-coisas (wan wu) – Tudo o que existe, tudo o que não existe e tudo o que poderá vir a existir; universo. O mesmo que Tudo-o-que-existe-debaixo-do-céu. I Ching – Literalmente, Livro das Mutações. Foi composto durante as dinastias Shang e Zou. Apresenta-se como

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A BORBOLETA VOANDO NO VAZIO

livro de adivinhação em que através de fórmulas oraculares o céu e os espíritos dão a conhecer os seus desígnios. Também, segundo Jung, que o estudou, pode ser entendido como um conjunto de representações simbólicas dos diversos conteúdos do inconsciente. Imperador Amarelo – (século XXVII a.C.) O seu nome era Huang Ti; foi um dos Cinco Imperadores; figura lendária fundadora da China antiga e a quem foram atribuídas várias invenções que tornaram a civilização chinesa a mais avançada da altura. Faleceu com a idade de cem anos. Lao Tzu – Figura fundacional do taoismo, viveu no século VI a.C., autor do clássico Tao Te Ching, considerado a Bíblia do pensamento taoista e um dos livros mais traduzidos de sempre. Lié Tzu – Personagem cimeira do taoismo, viveu no século IV a.C., autor da obra O Livro de Lié Tzu, também intitulada O Livro do Vazio Perfeito, clássico hoje integrado na trilogia fundacional da filosofia taoista. Livro do Imperador Amarelo – Compilação de textos sobre filosofia, governação, medicina tradicional, yoga, conceitos yin e yang, escritos pelo imperador Huang Ti (século XXVII a.C.); perdidos durante séculos, os manuscritos foram encontrados em 1973 durante escavações efetuadas em Mawangdui. Meditação Taoista – Tipo de meditação que não se serve de posturas físicas nem de métodos concebidos pela mente; é pura observação e atenção e pode acontecer em qualquer lugar e em qualquer momento; baseia-se no conceito da não-ação, da ausência de ego e da cessação do querer; tenta, sem esforço, sintonizar o indivíduo com o movimento natural da vida. Não-Ação (wu wei) – Atitude pessoal de onde está ausente a ação como causa e efeito; conceito filosófico que tem que ver com flexibilidade, paz interior e não interferência no desenvolvimento natural das coisas. Não é passividade nem desistência.

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A Borboleta Voando no Vazio  

Esta edição reúne, pela primeira vez em Portugal, duas obras filosóficas paradigmáticas do pensamento chinês antigo: «O Livro de Chuang Tzu»...

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