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Vinícolas brasileiras pedem restrição a vinhos finos importados Diante do crescimento de consumo, produtoras como a Casa São Geraldo querem a superproteção

Por Fernanda Allegretti A importação de vinhos finos no país aumentou 34,4% no primeiro bimestre de 2012 em comparação com o mesmo período do ano passado. Em janeiro e fevereiro deste ano entraram no Brasil 9,11 milhões de litros de vinho fino estrangeiro, ante 6,42 milhões de litros que ingressaram no Brasil nos dois primeiros meses de 2011. Diante desse panorama, o governo brasileiro estuda restringir a importação de vinhos estrangeiros por meio do aumento do imposto dos vinhos de fora, de 27% para 55%. A medida vem de uma reivindicação do Ibravin (Instituto Brasileiro de Vinho), que responde pelas vinícolas nacionais, como a Casa São Geraldo, localizada em Andradas, sul de Minas Gerais. De acordo com o proprietário da vinícola mineira, Luiz Carlos Marcon, a medida é de extrema importância no objetivo de proteger a produção nacional. “Hoje, vemos um aumento na produção de vinhos finos no Brasil, principalmente no sul de Minas. Porém, esbarramos na dificuldade de levar esse produto à mesa do consumidor, que está acostumado a consumir o vinho estrangeiro devido às facilidades de compra”, afirma. “Só uma empresa chilena vende cinco vezes mais do que toda a produção brasileira de vinhos finos. Atualmente, quem mais sofre com a concorrência desleal dos vinhos estrangeiros são as pequenas vinícolas, que tem de concorrer com estruturas comerciais, de marketing e de logística enormes”. Outra questão que dificulta o acesso são os costumes do brasileiro. “Mesmo tendo reconhecimento pelo mundo, os vinhos nacionais ainda sofrem um certo preconceito dos consumidores no mercado interno", afirmou. Com base nos números da importação deste ano e do ano anterior, apresentados por um levantamento do MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior), ele avalia como preocupante a situação atual do vinho fino nacional. “É um volume que justifica ainda mais o nosso pedido de salvaguarda ao vinho fino brasileiro”,completa.


Para o diretor-executivo do Ibravin, Carlos Paviani, este grande aumento nas importações de vinhos verificado em janeiro e fevereiro possa ser atribuído à formalização da entrada de vinho no país. “Atualizando a divisão do mercado de vinhos finos no Brasil, com os números do primeiro bimestre do ano, temos 88,4% de domínio dos rótulos estrangeiros e 11,6% para os produtos brasileiros”. Por esse quadro, foi iniciado uma investigação para se concretizar se a presença de vinhos estrangeiros no país está prejudicando a produção nacional. “As vinícolas brasileiras pediram a ação. Para o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior já há ‘indícios suficientes’ de que o alto consumo dos importados é prejudicial aos fabricantes locais. Os importadores rebatem e dizem que o tipo de vinho em questão representa apenas 15% da produção nacional e alega ainda que o preço da bebida subiu bastante nos últimos anos”, afirma Paviani. Aplicadas em casos em que a viabilidade econômica de um setor está em risco, as salvaguardas são ações de emergência para restringir importações de determinados produtos. Segundo ele, um claro exemplo é o aumento do imposto de importação ou imposição de cotas. Com o início do processo, as entidades do setor têm até agosto para apresentar provas que comprovem a necessidade de proteger o vinho brasileiro com medidas governamentais. O pedido de salvaguarda para o vinho foi protocolado em julho de 2011, assinado por quatro entidades, todas sediadas no Rio Grande do Sul, estado que concentra a produção nacional, tanto de vinhos finos como os de mesa: o Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin), a União Brasileira de Vitivinicultura (Uvibra), a Federação das Cooperativas do Vinho (Fecovinho) e o Sindicato da Indústria do Vinho do Estado do Rio Grande do Sul (Sindivinho). Se aplicada, a medida não valerá para Argentina e Uruguai, com quem o Brasil tem um acordo comercial. Se a medida sair, será implementado também um plano de ajuste para elevar produtividade e investimentos, reduzir custos e qualificar produtos por meio de inovações tecnológicas.


O outro lado - A questão se torna polêmica quando entra em questão a voz dos importadores de vinhos no país, como a adega Best Wine, localizada em São Paulo. Para o gerente Wilson Mattos, estimular e defender a indústria local são

ações

inquestionáveis,

mas

o

governo

parece

escorregar

no

protecionismo, o que é ruim para a produção nacional, para os importadores e para o consumidor. “Vale lembrar que a taxa de importação já é de 27% e querem aumentar ainda mais”, ressalta. Ainda segundo ele, a medida será questionada pelas importadoras. “Não somos em meia dúzia. A indústria do vinho move centenas de importadoras espalhadas pelo país. Essa decisão deve ser tomada pensando por todos os lados, com conversa com todos os envolvidos”. A indústria nacional de vinho lança ainda este ano por meio de um evento da Ibravin, uma campanha pelo aumento do consumo do produto nacional. Vão ser distribuídos adesivos de carro e broches com o slogan da campanha: "Eu digo sim aos vinhos do Brasil". A campanha é mais um capítulo da disputa que vem sendo travada entre a indústria nacional e as importadoras. “Na prática, a indústria quer que haja restrições na quantidade de vinhos importados, que, segundo o Ibravin, atualmente correspondem a 80% dos vinhos finos consumidos no Brasil. Não há motivo para querer competir com produtores que têm maior vocação para fazer vinhos finos e tradição de muitos anos", disse, referindo-se a países como França, Chile, Argentina e Portugal. Em sua opinião, os números mostram que algo está errado na produção brasileira de vinhos finos. Ele questiona se o correto não é subir o preço dos importados nem limitar a importação, mas sim analisar um problema interno. “O Brasil precisa é fazer vinhos finos de boa qualidade a preços mais baixos. É só uma tentativa de salvaguardar a incompetência de algumas empresas nacionais, via interferência do governo”, conclui. A Associação Brasileira dos Importadores e Exportadores de Bebidas e Alimentos (Abba), que representa 130 importadores, alega ainda que o preço médio da garrafa de vinho fino importado aumentou entre 2009 e 2011, ou seja, tornou-se menos competitivo no mercado interno. Se há três anos cada garrafa foi importada por em média US$ 3,2, em 2011 o valor aumentou para US$ 3,6. A Abba e outras entidades que representam as indústrias estrangeiras vão apresentar sua defesa com relação à salvaguarda.


Explicação - De acordo com a economista e pesquisadora da Embrapa Uva e Vinho, Loiva Maria Rebelo de Mello, é preciso deixar claro que os produtores de vinho no Brasil só vão ganhar mercado na proporção em que melhorem a qualidade das bebidas que fazem e não com a limitação do vinho fino estrangeiro. “Isto é uma erro, pois o problema é muito mais cultural do que de qualidade. É inegável que a produção nacional de vinhos tem obtido uma melhora de qualidade expressiva e que hoje encontramos vinhos excelentes em diversas faixas de preço. No entanto, o brasileiro ainda coloca em primeiro lugar os produtos estrangeiros”, afirmou.

Ranking de importação - No ano passado, o país registrou o maior volume de vinho já importado pelo Brasil, com o ingresso de 77,6 milhões de litros de vinho estrangeiro, de 31 países. Os vinhos chilenos seguem na liderança do ranking de importação brasileira. Em janeiro e fevereiro, entraram 2,88 milhões de litros de vinho do Chile, um crescimento de 27,8% em relação a igual período de 2011. Em seguida, aparecem os argentinos, com 1,91 milhões de litros e aumento de 32,86%. A Itália aparece na terceira posição, com o envio de 1,52 milhão de litros de vinho ao Brasil (acréscimo de 12,43%), seguida de perto por Portugal, com 1,39 milhão de litros, mas com 92,5% de incremento ante o primeiro bimestre do ano passado. A importação de vinhos franceses caiu 12,5%, mas em compensação ocorreu aumento da Espanha (152,5%), África do Sul (213,2%), Estados Unidos (40%), Grécia (139%) e Uruguai (1.582%). A entrada de espumantes foi ainda maior – 44,2% – no primeiro bimestre do ano.



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