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Política

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16 de novembro de 2015

“Crise é mais política que econômica” De acordo com o professor Valeriano Costa, da Unicamp, impeachment, no entanto, não resolve

Foto: Antoninho Perri - Ascom - Unicamp

Professor Valeriano Costa do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (IFCH-Unicamp) durante palestra no Centro de Convivência

Samuel de Oliveira O Brasil vive um ano de crise política, mais do que econômica. Essa é a opinião do cientista político e professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (IFCH-Unicamp) Valeriano Costa. Para ele, a crise política é que paralisa a economia no País. Ao contrário do discurso popular, Costa não acredita na necessidade e na legalidade de um impeachment. Segundo ele, Dilma cometeu erros, mas todos os antecessores também o fizeram. O cientista acredita ainda que a discussão sobre o assunto pode prejudicar o andamento da economia em 2016. “A minha expectativa é de que, enquanto não passar essa possibilidade do impeachment, Dilma e o governo vão ficar prisioneiros dessa armadilha política”, afirma. Confira a seguir a entrevista que Costa concedeu ao Saiba+. Como avaliar este momento que vive o Brasil? A chamada crise é política, econômica ou social? Ela é basicamente uma crise política. Existe também uma desordem eco-

nômica, mas não é uma crise e, sim, um ajuste fiscal, que todos os governos praticamente fazem. Esse ajuste é um ajuste duro, mas não é mais duro do que o Lula fez em 2003. Do ponto de vista econômico, há ainda um aperto, uma situação bem difícil, mas não diria que é uma crise econômica. É um momento de dificuldade. Agora, do ponto de vista político, nós temos mesmo uma crise, que é atenuante, e nós não sabemos até aonde ela vai, mas ela está paralisando a economia. Numa escala de começo, meio e fim, essa crise está onde? Eu tenho a impressão de que ela está na metade. Já passou a primeira fase, que foi a fase de contestação da oposição da eleição da Dilma, agora eles já se conformaram que a eleição foi legítima, e que ela ganhou; agora a segunda fase é das propostas de impeachment. Eu acho ainda que há apenas mais uma proposta que seria viável, o impeachment em relação às pedaladas fiscais. A gente precisa primeiro passar por essa fase, que seria o pico da crise, a rotação dos pedidos de impeachment. Tudo para o futuro vai depender

agora das votações dos pe- afirmar na Finlândia que “o seu governo não está didos de impeachment. envolvido em corrupção” A oposição, por meio até é uma blasfêmia? Tecnicamente não. Ela de Hélio Bicudo, um dos fundadores do PT, entre- demitiu os envolvidos em gou um novo pedido de corrupção no início do impeachment de Dilma governo dela. Eles foram à Câmara baseado nas contratados pelo outro pedaladas. O presiden- governo, então, tecnicate da Câmara, Eduar- mente, ela tem razão em do Cunha (PMDB-RJ), dizer que não nomeou ameaça deferir. A tônica estes que estão sendo juldo momento é esse jogo gados e presos. Contudo, no ponto de vista que esse de interesses? Tem muitos jogos de in- governo, na verdade, é teresses. O jogo mais ime- uma continuidade do que diato é esse: o destino do vinha com o Lula, então Cunha, que está superquei- fica difícil dizer que o mado no ponto de vista da grupo político com o qual opinião pública e, claro, da a Dilma está não foi enprópria justiça. Ele é uma volvido em corrupção. figura que tem um tempo limitado de vida [política]. A oposição tem ataA aposta da oposição é uti- ques fundados ou só relizá-lo até o fim. É como pressão sem projetos e contratar um pistoleiro ideias claras? As duas coisas. A opopara matar alguém: você sabe que não é correto, mas sição tem sim algumas fundadas, ele vai executar um crime observações que, para gente, é bom. mas o que não há são eleEssa fase é perigosa, por- mentos para o impeachque ela pode dar certo e, se ment. A minha impressão der certo, com o impeach- é de que o impeachment ment fundamentado, isso exige uma vinculação divai gerar consequências reta a crimes muito espegravíssimas nos próximos cíficos, que a presidente anos, levando até um con- não cometeu. Na minha visão, o impeachment fronto, uma crise social. não é o fim do governo. Com todos os escândalos É a cassação da pessoa comprovados na Petro- (presidente), quando há brás, a presidente Dilma um grande consenso na

sociedade e provas mais que evidentes, o que ainda não temos. Temos hoje, então, uma polarização? Muito grande. Nunca tivemos uma polarização tão forte desde 1964. Naquele ano por menos que isso, visto hoje, ficamos na ditadura que durou 20 anos. Se for derrubar um presidente porque errou a política econômica do país, aí acabou o Brasil, pois todos os governantes anteriores cometeram erros. Qual é a expectativa política do senhor para o ano de 2016? Certamente vai ser um ano difícil, como deveria ter sido 2015, só que o ajuste não foi feito neste ano porque o governo entrou numa crise política. Se tivéssemos feito o ajuste fiscal, 2016 seria um ano aparentemente de recuperação. A minha expectativa é de que, enquanto não passar essa possibilidade do impeachment, Dilma e o governo vão ficar prisioneiros dessa armadilha política. Vejo que, ano que vem, enquanto não passar a ideia do impeachment, a gente vai viver um ano mais ou menos parecido com esse. Um ano muito difícil, de desgaste político e econômico.

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Saiba + - Edição de novembro de 2015  

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