Page 1

Foto: Sarah Bulhões

Acompanhe o dia a dia dos grafiteiros de Campinas Pág. 9

Desde 2006

Faculdade de Jornalismo - PUC Campinas

Maio de 2016

Foto: Thiago Carrico/ 17/05/15 Foto: Divulgação

Atletas de Campinas

e região são grandes apostas para as Olimpíadas 2016 Wagner Cardoso é um dos esportistas que treinam na cidade e devem estar nos jogos do RJ

A menos de 100 dias para competições, atletas que treinam no Centro Esportivo de Alto Rendimento (Cear) intensificam preparo. Cerca de 50% das vagas já estão preenchidas. Pág. 12

#SAIASEMPRECONCEITO Como um homem que usa saia é recebido nas ruas? Depois da polêmica envolvendo o professor Vitor Pelegrin, de Campinas, o Saiba+ acompanhou a reação das pessoas ao verem um homem caminhando de saia. Pág. 4

Saúde

Educação

Transporte

Infectologista Escolas públicas Sistema ensina como sofrem com falta Ponto a se prevenir Ponto já de tecnologia contra a gripe nas salas de soma 88 mil H1N1 adeptos aula Pág. 3 Pág. 7 Pág. 5

Cultura

Crise não afeta a indústria do Show Business Pág. 8

Crenças

Artistas Grupos extremistas independentes geram visão se unem para fomentar a negativa da religião no País cultura local Pág. 11

Pág. 10


Opinião

Página 2 RÁPIDAS

Maio de 2016

CARTA AO LEITOR

THAÍS DE OLIVEIRA

ISABEL BARROS E PAULA CARRIEL

Safra de cana reduz preço do etanol O Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo de Campinas (Recap), divulgou que o preço do litro do álcool teve queda de R$ 0,20 em Campinas. Apesar da crise econômica, a queda de preço tem relação com o início da safra da cana-de-açúcar. Ainda de acordo com a Agência Nacional do Petróleo (ANP), o preço médio do álcool na cidade é de R$ 2,767, sendo que o valor mínimo é de R$ 2,559.

EDITORES

Campineiros sofrem com falta de sono A pesquisa ISACamp Sono, que teve início em março de 2015, pelo Centro Colaborador em Análise da Situação de Saúde (CCAS), da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), revelou que 38,8% dos campineiros sofrem de insônia. Da parcela de adultos estudados, 38,8% dormem mal. Esse número é menor, mas significante entre os adolescentes, que somam 32,8%. Porém, quem lidera a pesquisa são os idosos: 48,2%. O estudo, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), contou com mais de 3 mil participantes e terá uma segunda parte em 2016, para avaliar a qualidade do sono dos campineiros.

Bar no Botafogo sedia mostra de fotos Foto: Divulgação Para expressar visão criativa do artista, Martini e Touché fazem uso de fotos fine art

A exposição fotográfica “Arte a La Vista, baby”, com fotos de Isabela Martini e Touché, acontece no bar Linguiceria, na rua Barão Geraldo de Rezende, n.º 220, no Botafogo, em Campinas, até 5 de julho. A entrada é gratuita. A exposição pode ser visitada de segunda a sexta, das 11h30 às 15h e de quinta a sábado, a partir das 17h. Para mais informações (19) 3324-9744.

Expediente Jornal laboratório produzido por alunos da Faculdade de Jornalismo da PUC-Campinas. Centro de Comunicação e Linguagem (CLC): Diretor: Rogério Bazi Diretora-Adjunta: Cláudia de Cillo Diretor da Faculdade: Lindolfo Alexandre de Souza Tiragem: 2 mil. Impressão: Gráfica e Editora Z Professor responsável: Fabiano Ormaneze (Mtb 48.375). Edição: Isabel Barros e Paula Carriel Diagramação: Manoella Curi e Rafaela Rodrigues

E

m meio a tantas notícias conflituosas no cenário político e social do país, o segundo Saiba+ de 2016 não quis fugir do assunto geral, mas decidiu exaltar outras discussões, como a cultura. Sim, a cultura, a fonte de conhecimento mais importante para discussões saudáveis, a base para pessoas estudiosas e envolvidas com a sociedade, o nascimento do saber. Essa edição mostra desde a cultura de rua, independente, que incentiva o mercado alternativo, até a indústria cultural, alvo das grandes massas em busca de entretenimento. Mostra também a falta de valorização da cultura, em que

a precariedade do incentivo ao ensino e a intolerância política e social exibem que nem todos valorizam esse saber tão essencial. A cultura é o que nos faz aceitar o outro em sua totalidade, exercer a tolerância e, principalmente, o compartilhamento do saber. Em um jornal composto por universitários que sonham com um futuro melhor para a sociedade, a exaltação da cultura não é nada mais que obrigação geral. E, se cada um absorver um pouco de cultura diariamente, os conflitos políticos e sociais que tanto envolvem nosso cotidiano seriam amenizados, ou quem sabe, discutidos com um pouco mais de sabedoria.

CRÔNICA

Brasil Intolerante

1. Falta de tolerância. 2. Violência. Esse é o significado de intolerância, segundo o Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. De modo geral, ser intolerante faz parte da rotina do brasileiro, mas ouso dizer que a política encontra os mais passionais. Não importa o que você defende ou o que você abomina, a chave é não mais tolerar nada, até optar pela violência, como exemplifica o dicionário. Num café, há poucos dias, dois senhores conversavam vividamente sobre a situação econômica e política do Brasil. O que aparentava ser mais calmo, o vulgo tolerante, bebia com calma seu suco de laranja, enquanto ouvia o amigo dizer: “Mas não tem mais jeito. Agora, o País pede medidas drásticas, mudança mesmo. A gente não aguenta mais”.

THAÍS DE OLIVEIRA O senhor que “pedia mudanças” falava alto e, aparentemente, não se importava com o resto das pessoas. O outro, um pouco envergonhado, tentava acalmar o amigo, com palavras que eu não conseguia ouvir. “Se nem o Exército respeita mais a presidente, por que eu deveria?”, esbravejou o primeiro, deixando o café esfriar. “Eu não quero mais saber. É uma vergonha”. Nesse momento, o homem com o suco de laranja havia desistido de pedir calma, escutando o companheiro de mesa com desconfortável silêncio. Infelizmente, são cada vez mais raras as conversas lúcidas entre as pessoas, sejam amigas ou não. O homem mais tranquilo, provavelmente, desistiu de discordar ou simplesmente expor seus pensamentos, por um único motivo: o medo. O outro, que estava verdadeiramente

incomodado e inflamado, poderia com facilidade esquecer a amizade que existia entre os dois e partir para ações mais radicais. E eis que surge a problemática: cada vez mais pessoas vivenciam isso, deixando de expor suas opiniões, ainda mais para desconhecidos, que, teoricamente, tendem a ser mais explosivos. O Brasil democrático, que conseguiu eleger seu primeiro presidente com voto direto há tão pouco tempo, vive um dos momentos mais extremos e intolerantes. Algo tão perigoso para a manutenção da liberdade política, conquistada com o começo da democracia, fica cada vez mais eminente. O mesmo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, define tolerância como: “2. Boa disposição dos que ouvem com paciência opiniões opostas às suas”. Algo tão necessário ao País.


Saúde

Página 3

Maio de 2016

H1N1 provoca corrida pela vacina Clínicas têm fila; cidade registrou 5 mortes, mas infectologista diz que situação não é preocupante

No primeiro trimestre deste ano, a Região Metropolitana de Campinas (RMC) confirmou seis casos da gripe H1N1, sendo cinco em Campinas e um em Sumaré. No ano de 2015 Campinas não registrou nenhum caso da doença. O surto causou uma corrida às clínicas de vacinação, o que resultou no esgotamento das doses da vacina na cidade. Com o aumento da procura, algumas clínicas tomaram medidas para evitar a fila e espera nas portas. A Imunocamp, por exemplo, não atende mais ao telefone e as recepcionistas não informam uma data exata para o recebimento da vacina. “Fique de olho no site que lá em todas as informações”, afirma a atendente. Para a infectologista Teresa Christina Petry, a antecipação do surto da doença neste ano é consequência da proximidade com o período de férias escolares em que muitas famílias viajam para o Exterior, principalmente para os Estados Unidos. “O grande trânsito internacional de pessoas acelerou a vinda do vírus para o Hemisfério Sul”, explica. Apesar dos números serem preocupantes se comparados ao ano anterior, a especialista afirma que a população não deve se alarmar, pois o surto irá passar após o encerramento das campanhas de vacinação em todo o estado de São Paulo. “As pessoas devem ficar atentas aos sintomas específicos da gripe H1N1, pois, como estamos em um período em que temos surtos de outras doenças, como zika, dengue e chicungunya, que também têm sintomas parecidos, o diagnóstico fica mais difícil”, diz Teresa. Com a falta de vacinas, estabelecimentos de diversos segmentos

Foto: Isabella de Vito

Isabella de Vito e Letícia Pires

Simone Vaccari Batista, diretora do Colégio Lyon, explica que as medidas contra a H1N1 envolveram, além do álcool gel, palestras e a adoção de novos produtos de limpeza

com grande circulação de pessoas criaram seus próprios métodos de conscientização e prevenção da doença. O Colégio Lyon, no Jardim Proença, foi a primeira instituição educacional da cidade a adotar medidas para a prevenção da doença. “Trouxemos um químico até a escola para nos ensinar como fazer a limpeza correta do local, inclusive com novos produtos, mais fortes, como de hospitais”, afirma a diretora, Simone Vaccari Batista. Com 350 alunos e cerca de 60 funcionários, a escola ainda realiza palestras de conscientização regularmente, incentiva o uso de garrafas de água próprias para evitar o contato nos bebedouros e fez uma parceria com uma clínica para vacinar estudantes, pais e colaboradores. “Além disso, nossas salas com ar-condicionado agora estão sempre com portas e janelas abertas para promover a melhor circulação do ar”, explica Simone. Outra instituição de ensino que aposta nos próprios métodos de prevenção contra a H1N1 é o Senai-SP. De acordo com o diretor da unidade de Itatiba, Vilson Polli, cartazes informativos sobre a doença foram espalhados por toda a escola além da realização

de palestras ministradas por profissionais da saúde pública municipal. “Já lotamos o auditório com capacidade para 100 pessoas para realizar as palestras e observamos um aumento na conscientização tanto de alunos como de funcionários”, comenta. Outra medida adotada foi a aquisição da vacina a preço de custo para funcionários de todas as unidades do Sesi e Se-

nai. “As vacinas serão aplicadas no polo mais próximo da unidade do funcionário. Alguns funcionários optaram pela vacinação em clínica particular, porém a direção da escola incentiva a vacinação de todos”, explica Polli. O Arcebispo Metropolitano de Campinas, Dom Airton José dos Santos, emitiu um comunicado a todas as paróquias, comunidades e

capelas, informando algumas mudanças durante as celebrações litúrgicas para evitar a propagação do vírus. Agora, os fiéis são orientados a não mais dar as mãos durante o pai-nosso, evitar o cumprimento de saudação de paz. As hóstias devem ser dadas diretamente nas mãos dos fiéis e os ministros do altar devem estar sempre com as mãos devidamente higienizadas.

Mito ou Verdade? Nos últimos dias, está circulando nas redes sociais digitais diversas dicas para quem quer se prevenir da gripe H1N1. Apesar das receitas parecerem “milagrosas”, a infectologista Teresa Christina Petry explica a eficácia dos métodos: 1. Lavar as mãos frequentemente – VERDADE O método é eficaz, pois as mãos são uma das principais portas de entrada para o vírus. Não adianta lavar as mãos apenas com água, é necessário usar sabão. 2. Evitar tocar no rosto muitas vezes – VERDADE Durante o dia, as mãos ficam sujas e podem carregar o vírus. Além de evitar tocar no rosto muitas vezes, é essencial lavar as mãos com água e sabão frequentemente. 3. Fazer gargarejos com água morna e sal duas vezes por dia – MITO Esse método não evita que o vírus se instale. 4. Limpar as narinas com água morna e sal uma vez por dia – MITO Limpá-las promove uma sensação de limpeza e bem-estar, porém não descarta a necessidade de lavar as mãos com água e sabão, além de tomar a vacina. 5. Usar máscaras e luvas em lugares públicos – MITO O método é recomendado apenas quando a pessoa procura um hospital ou um pronto socorro. Porém, não protege contra a transmissão do vírus da gripe H1N1. 6. Usar álcool gel nas mãos frequentemente – VERDADE O método deve ser usado apenas em situações de emergência, pois não substitui a lavagem com água e sabão. Para uma assepsia mais completa, deve-se também usar o gel após a lavagem.


Cotidiano

Página 4

Maio de 2016

Saiaços reforçam discussão de gênero Apoio a professor que usou traje em evento escolar atinge proporções internacionais; até na Espanha já houve protesto Foto: Mayara Rauen Manifestantes se reúnem em frente à Prefeitura Municipal de Campinas para protestar a favor do saiaço e da diversidade de gênero nas escolas da cidade

Mayara Rauen As manifestações em apoio ao professor Vitor Pelegrin, afastado da Escola Municipal de Ensino Fundamental Caic Zeferino Vaz por 60 dias, ultrapassam os limites da cidade. Manifestações vindas de Sorocaba (SP), Araraquara (SP), Governador Valadares (MG) e até mesmo Madrid, na Espanha, mostram apoio. Manifestantes realizam saiaços, debates de gênero e levantam cartazes com a hashtag #Saiasempreconceito, contrariando a decisão tomada pela Secretaria Municipal de Educação de Campinas que, atualmente, move um processo administrativo contra Vitor. “Seja de alunos, colegas de trabalho ou de pessoas de outras áreas, o apoio demonstra o quão absurdo é o processo e a necessidade de valorizarmos esse

tipo de trabalho nas escolas”, explica Pelegrin. Em Sorocaba, a subsede da Associação dos Professores da Rede Oficial de Ensino de São Paulo (Apeoesp) divulgou moção de apoio, na qual ressalta a importância da discussão de gênero nas escolas e reivindica um sistema inclusivo, que crie ações de combate às discriminações. “Discutir gênero nas escolas significa questionar a violência contra a mulher e desconstruir a mentalidade machista. O Brasil é o primeiro lugar no ranking mundial de assassinatos homofóbicos, concentrando 44% do total de execuções de todo o planeta”, diz a moção. Internacionalizando o #Saiasempreconceito, brasileiros residentes em Madrid também se juntaram ao movimento, realizando um saiaço na Puerta del Sol, conhecida

praça da capital espanhola. Segundo Daniel Fonsêca, participante do evento, “a violência discursiva já é absolutamente negativa. Imagine num país que tem níveis mais do que preocupantes de violência física, assassinatos contra esses segmentos sociais, principalmente a população LGBT e mulheres?”. Em Governador Valadares, o campus da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) foi local de protesto com debates a respeito de identidade de gênero e também sobre os desdobramentos do processo. O começo O docente foi afastado de sua função depois que compareceu ao desfile da escola em comemoração ao 7 de setembro vestindo uma saia como protesto. O desfile fazia parte de um projeto desenvolvido

na escola sobre temas relacionados a direitos humanos e igualdade de gênero. Os alunos que participaram estavam com adereços e mensagens pedindo “paz”, “homofobia não” e “respeito”. No dia 11 de março, Vitor recebeu a suspensão preventiva. Os primeiros sinais de insatisfação foram dados pelos próprios alunos, reclamando até mesmo sobre a forma como ficaram sabendo do afastamento. “Ficamos sabendo pelo relato que ele escreveu no Facebook. Todos ficamos chocados e bravos”, conta Maria Isabel da Silva, de 13 anos, organizadora do saiaço realizado no dia 4 de abril em frente à Prefeitura. Ela explica que a direção da escola tentou repreender a manifestação. Mesmo assim, o ato foi feito e, segundo ela, com apoio dos pais e 150 manifestantes. Moda A discussão sobre identidade de gênero ganha cada vez mais espaço entre os jovens. Algumas empresas conhecidas no ramo da moda já se arriscam a fazer as chamadas “coleções sem gênero”, como a Zara e a C&A. Apesar da iniciativa, as roupas não foram muito bem recebidas. Conhecido na faculdade e na região que mora como “o menino da saia”, o estudante de moda Weslley Bravo, de 21 anos, conta que chama atenção. “As pessoas sempre estão olhando, ficam olhando na cara dura e algumas fazem comentários do tipo ‘o que é Foto: Mayara Rauen

Também conhecido como “o menino da saia”, o estudante de moda Weslley Bravo apoia o movimento #Saiasempreconceito e diz que esse estilo de se vestir o torna único

isso?’, ‘um homem usando saia?’, outras olham com cara de nojo”. A respeito do professor Vitor Pelegrin, que usou saia na manifestação, Bravo acredita que dois paradigmas foram quebrados – o de homem usando saia e o de professor conservador. “Ele sabe que trabalhando com as crianças essas questões de gênero, ela vai crescer com cabeça diferente”, explica.

Jovem gera olhares de reprovação A reportagem do Saiba+ passou uma manhã com o estudante para saber qual seria a reação das pessoas e comprovou que os olhares tortos predominam. Ao passar na frente de um bar no centro de Americana, cidade na qual Weslley reside, o estudante foi alvo de comentários indiscretos e até mesmo fotos. “Eu nunca vi homem de saia, onde já se viu!”, disse uma das pessoas. “Vou te comprar uma igual, Biro, o que você acha?”, comentou um homem com o amigo. “Imagina se vira moda!”, indignou-se outro. Essas foram algumas das frases ouvidas em menos de dez minutos de passeio, sempre acompanhadas de muitas risadas e dedos apontando. No Tivoli shopping, segundo local da experiência, os olhares permaneceram, porém mais discretos e desacompanhados de qualquer manifestação verbal, apenas o julgamento silencioso. Apesar dos comentários negativos, usar saia já se tornou parte da identidade do estudante e isso não o incomoda. “Quando eu coloco uma saia, eu tenho uma conexão comigo mesmo. Saio me sentindo poderoso. Quando as pessoas olham, aí que eu vejo o retorno. O fato de as pessoas olharem pra mim faz eu lembrar que sou diferente e que eu gosto muito disso, me faz ser único”.


Educação

Página 5

Maio de 2016

Falta de recursos prejudica ensino público Apesar de plano de investimento do Estado, alunos e docentes reclamam de condições tecnológicas

Com o fim do contrato de 5 anos com uma empresa de técnologia, professores têm que usar lousa até para provas

60% em comparação ao ano passado, segundo o Portal da Transparência do Estado. Parte desse investimento é voltado para a tecnologia. “Nas escolas convencionais, o investimento do Governo do Estado é o @cessa, que seriam as salas de informática”, explica Eliane Honorato, da Diretoria de Ensino de Capivari, responsável pelo núcleo tecnológico. Apesar do investimento na escola da estudante, os 12 computadores não são suficientes para os 35 alunos de cada turma, o que torna a ida ao laboratório de informática menos frequente. “O que tem não é suficiente para o tanto de alunos. Nas poucas vezes que usamos a sala você tem que dividir e não consegue fazer o trabalho direito”, conta Talita.

A tecnologia tem sido vista como uma ótima aliada para a educação, porém, segundo a professora Ana Paula, o Estado não tem estrutura para lidar com os avanços tecnológicos. “Nós temos que unir forças a tecnologia, eu sou totalmente a favor do uso desses instrumentos, mas o Estado precisa acompanhar esses avanços”, afirma. Fim de contrato O fim de um contrato firmado há 5 anos entre o Estado e uma empresa de tecnologia retirou todas as impressoras das escolas públicas estaduais em São Paulo. Agora, além da falta de computadores para os alunos realizarem os trabalhos escolares, os professores não têm onde imprimir as provas e estão tendo que improvisar. Algumas escolas ainda

contam com o mimeógrafo, uma máquina que produz cópias xerográficas, mecânica e manual, utilizada com frequência até o início dos anos 90. Outras, utilizam impressoras antigas e que demandam um gasto muito grande com cartuchos. Em nota, a Secretaria de Educação do Estado respondeu que estão sendo repassadas verbas para a compra dos materiais necessários e negou prejuízo às atividades escolares. A professora de uma escola estadual em Campinas, que não quis se identificar por meio de represálias, diz que a situação é completamente diferente. “A verba repassada pelo Estado é de R$ 500,00 para um período de três meses e esse dinheiro não chega a suprir a compra dos cartuchos para um mês. As

impressoras que temos nas escolas são antigas, muitas impressões saem falhas e, para economizar, estamos imprimindo até os documentos, em formato de rascunho. As provas e exercícios estão sendo passados oralmente pelos professores porque nós não temos material, não tem como imprimir”, explica. De acordo com o diretor do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp) Eduardo Martins Rosa, a falta das impressoras aumentará a precariedade nas condições de trabalhos dos professores e alunos nas instituições. Por enquanto, o Estado não iniciou um novo processo de licitação para repor as impressoras. As escolas continuarão se virando com o que têm por tempo indeterminado. “O ensino estadual está retrocedendo, em vez de se adequar às novas tecnologias. Estamos tendo que lidar com a falta de materiais e de estrutura nas escolas, além de professores e alunos desestimulados. Em uma era digital e tecnológica como essa, a grande dificuldade é prender a atenção dos estudantes e os métodos rudimentares utilizados nas escolas do Estado não estão dando conta, o que dificulta muito a qualidade do ensino público estadual, como também o trabalho dos professores”, comenta a professora. Fotos: Larissa Batajelo

Talita Gutierrez, 13 anos, está no Ensino Fundamental II, em uma escola estadual no interior de São Paulo. O primeiro contato da aluna com a internet aconteceu na sala de informática da escola, em 2007. “Eu nunca tive computador em casa, então eu só usava o da escola”, conta. A jovem faz parte da realidade de muitos estudantes brasileiros, em que mais de 80% estão matriculados no ensino público, segundo dados do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais). Esse contato com a tecnologia, no entanto, fica apenas na lembrança da aluna. O laboratório está fechado e os computadores empoeirados. A sala de informática só pode funcionar com um estagiário do programa @cessa, responsável por monitorar o uso dos computadores, mas a escola não o possui. A falta do monitor prejudica os alunos, como explica Talita: “Hoje eu não posso fazer os trabalhos, já que antes usava os computadores da escola e agora não temos mais esse acesso”. Segundo a professora da escola Ana Paula Baldini, o único recurso tecnológico disponível para os professores é um projetor de imagem. “Os professores precisam se desdobrar para elaborar algo que possa chamar a atenção do aluno. No nosso caso só resta a apresentação no datashow, que é sem a participação ativa do aluno”. Mesmo assim, a escola conta com apenas um aparelho para nove salas, o que limita o uso. “Como a nossa TV queimou, a gente usa o datashow para ver os filmes, quando dá”, conta Talita. Em contraponto com a realidade e, apesar da crise econômica enfrentada pelo País, o Estado tem a previsão de investir, até o final do ano, mais de R$ 40 bilhões em educação, um aumento de mais de

Fotos: Larissa Batajelo

Larissa Batajelo

As salas de informática não podem ser utilizadas por conta da falta de telas , os 12 computadores que funcionam devem ser divididos entre 35 alunos para realizar atividades


Transportes

Página 6

Maio de 2016

Cai o número de assaltos em ônibus

Total de crimes foi de 424, em 2014, e 92 em 2015; atualmente, 98% dos usuários pagam tarifa com cartão Nicole Zuñiga

Foto: Nicole Ziñiga

Depois de um ano e seis meses da implantação do projeto de eliminação do uso do dinheiro dentro dos ônibus de Campinas, 98% dos usuários do transporte público da cidade pagam a tarifa com cartões eletrônicos. De acordo com a Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas (Emdec), a principal preocupação da administração municipal, quando iniciou o projeto em 2014, foi com a segurança de passageiros e dos funcionários. Com menos dinheiro em circulação nos transportes públicos, o número de assaltos caiu de 424, em 2014, para 92 em 2015. “Antes, eu voltava para a garagem com R$350,00, agora volto com no máximo R$60,00”, comenta o motorista Cristiano de Souza Santos, que há dez anos trabalha na mesma linha, a 140 – Vila União/ Terminal Central.

Valéria de Almeida faz parte dos 98% de usuários que utilizam cartão Bilhete Único

O medo dos assaltos, muitas vezes, fez com que o serviço prestado à população fosse comprometido. Santos começou a trabalhar com transportes públi-

cos como cobrador e dois anos depois passou a ser motorista. Ele já foi assaltado quatro vezes e afirma que esse número é pequeno perto de outros colegas.

“Já passei reto em vários pontos à noite, com medo de alguém que subiria no ônibus. Eu sei que a gente não pode julgar ninguém, mas na hora do medo...”, afirma o motorista. Com o sistema de bilhetagem eletrônica, a função do cobrador foi extinta. Pouco antes da mudança, foi lançado o Programa de Aperfeiçoamento Profissional (PAP), uma parceria entre a Emdec e a Associação das Empresas de Transporte Urbano de Campinas (Transurc), para a requalificação e a recolocação profissional dos cobradores. De acordo com o presidente do sindicato da classe, Matusalém de Lima, a promessa foi cumprida. “A maioria dos cobradores fez o curso para ser motorista, mas uma parte preferiu sair da empresa e mudar de profissão”, afirma. Apesar do cartão eletrônico dar mais agilidade ao embarque dos passageiros, ainda há a possibilida-

de de pagar em dinheiro a tarifa, que atualmente custa R$ 3,80, já que a implantação do sistema ainda passa pela fase final. Ser motorista e cobrador ao mesmo tempo era uma das grandes preocupações do Sindicato dos Cobradores e Motoristas de Campinas, mas como a adesão ao bilhete eletrônico foi grande, poucos passageiros pagam em dinheiro. “Os motoristas não reclamam muito de ter que cobrar o dinheiro porque, em linhas centrais, realmente circula menos dinheiro e, na verdade, é proibida a cobrança com o transporte em movimento”, explica Lima. Por essa dupla função, houve um aumento de R$ 400,00 no salário dos motoristas. De acordo com Santos, o trabalho, inicialmente, foi complicado, mas os motoristas já se adaptaram. “A maioria dos passageiros também ajuda com o dinheiro já trocadinho”, conta.

Sistema ponto a ponto dá desconto de até 80%

Moradores da RMC instalam dispositivo e pagam menos, facilitando o trânsito de quem estuda ou trabalha em outra cidade Marina Fais O sistema ponto a ponto (PaP), regulamentado pela Agência de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp), já alcançou a marca de 88 mil adeptos pelas rodovias do estado. Isso porque ele facilita a vida de muitos motoristas cobrando um valor proporcional com base no trecho percorrido. Até o momento, quatro rodovias no Estado são contempladas com esse sistema: a Engenheiro Constâncio Cintra (SP-360), a Santos Dumont (SP-75), a Governador Adhemar Pereira de Barros (SP-340) e a Rodovia Prof. Zeferino Vaz (SP- 332). Todas passam pela região de Campinas e beneficiam moradores de cidades como Artur Nogueira, Campinas, Cosmópolis, Indaiatuba, Itatiba, Itu, Jundaí, Mogi Guaçu, Paulínia, Sorocaba e Salto. Após o cadastro (veja informações nesta página), o motorista é cobrado de acordo com sua passagem por pórticos ou praças de pedá-

gio. O custo varia de acordo com a distância e com a rodovia, mas pode representar uma redução de até 80%. Um usuário comum, por exemplo, que passe pela praça de pedágio do Km 62 da Santos Dumont, pagará R$ 11,50. Se for adepto ao sistema PaP, esse valor cairá para R$ 2,10. Só para ter uma ideia da economia, para um morador de Indaiatuba que trabalhe em Campinas de segunda a sexta-feira, no sistema convencional, o custo mensal com pedágio é de R$ 460,00, considerando 20 dias de trabalho no mês, com ida e volta. Com o PaP, esse valor cai para R$ 84,00. A usuária desse sistema Jacqueline Odenheimer, faz esse mesmo caminho com frequência e reconhece que, de fato, essa economia é valiosa. “Gasto menos da metade da tarifa cobrada na cabine do pedágio. Também há um caminho que desvia do pedágio para os moradores com placa de Indaiatuba, no entanto ele é inseguro e repleto de lombadas. Com a

ponto a ponto, posso usufruir da pista principal e acabo economizando com a manutenção do carro”. O sistema começou a ser implantado em 2012 e a última rodovia contemplada até o momento, SP-332, aderiu ao PaP em 2014. Apesar de fazer parte desse sistema há quatro meses, o estudante de Jornalismo Gabriel Furtado faz o trajeto Campinas-Amparo todos os dias e aprova as medidas. Segundo ele, o sistema funciona bem, ainda

que o SAC da Rota das Bandeiras demore para responder quando é solicitado. “Nada está barato ultimamente. Então, o que a gente consegue economizar é uma maravilha. Não é pouco dinheiro, por isso me ajuda bastante”. Gabriel economiza cerca de R$ 200 por mês e explica que esse dinheiro é utilizado para o pagamento de outras contas. Se o sistema não existisse, ele ainda continuaria indo de carro para o trabalho, mas conta que teria

que cortar outros gastos. Sobre a demora para responder às solicitações via telefone, a Rota das Bandeiras informa que o usuário deve entrar em contato com a concessionária apenas por e-mail. Só para se ter uma ideia da economia, segundo a Artesp, a economia média na rodovia Engenheiro Constâncio Cintra pode chegar até R$ 588,60 por ano. Na Santos Dumont esse valor é ainda maior, R$ 1.536,00.

Saiba Como Funciona

Para se cadastrar, é necessário ter no carro uma tag, que opere na frequência 915 MHz, de alguma Operadora de Sistema de Arrecadação (Sem Parar, Auto Expresso ou ConectCar). Rodovia Engenheiro Constâncio Cintra e Rodovia Professor Zeferino Vaz – Rota das Bandeiras Envie e-mail para pap@rotadasbandeiras.com.br. Na mensagem, informe nome completo, data de nascimento, CPF, RG e cópias do comprovante de residência e do documento do veículo. Rodovia Santos Dumont - Colinas Envie e-mail para pontoaponto@colinasnet.com.br. O corpo da mensagem deve conter cópia do documento do veículo, nome completo e CPF. Rodovia Governador Adhemar Pereira de Barros – Renovias O PaP nesta rodovia é aberto para qualquer usuário e qualquer veículo. Para aderir é necessário somente comunicar a sua Operadora de Sistema de Arrecadação da intenção de pagar a tarifa Ponto a Ponto


Tecnologia

Página 7

Maio de 2016

Busca por dispositivo móvel aumenta Preço alto e preferência por smartphones e tablets derrubam venda de computadores e notebooks

Segundo a consultoria IDC, especializada em pesquisa de telecomunicações e mercados de consumo de tecnologia, e a Gartner, consultoria internacional especializada em pesquisas e informações tecnológicas, no primeiro trimestre de 2016, ocorreu queda na venda de computadores e notebooks. De acordo com a primeira, a redução foi de 5,4%. Já a segunda indica 9,6%. As possíveis causas para essa redução, de acordo com o especialista de telecomunicações Flávio Tonioli envolvem o preço, que ficou mais alto, devido à elevação do dólar, afetando diretamente o custo da produção de computadores no País, e o crescimento na preferência de smartphones e tablets. A diferença nos números dos dados se dá pela forma de contabilizar os computadores. Para a Gartner, os tablets com teclados separados foram considerados compu-

tadores domésticos. De acordo com dados do Banco Central, o dólar comercial passou de R$2,69 para R$3,90, com alta de 45%. Como os preços subiram, ocorreu queda nas vendas, que representou de acordo com a consultoria IDC, a maior desde o primeiro trimestre de 2013. A segunda questão é o fato das pessoas estarem optando pelo uso de celulares e tablets em vez de computadores. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2014, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), constatou que o acesso à internet via celulares subiu de 53,6% para 80,4%. Já o acesso por meio de computadores caiu de 88,4% para 76,6% no mesmo período. Para Tonioli, a facilidade que os equipamentos móveis disponibilizam é uma das principais razões. “Os celulares e tablets estão disponíveis para nós em qualquer momento. A rapidez que po-

Foto: Natália Mariotto

Natália Mariotto

Sofia furtado, estudante de ciências sociais da UNICAMP, usa apenas o celular para estudar e fazer os trabalhos da faculdade

demos conferir informações nesses equipamentos os torna convenientes e indispensáveis. ” A estudante de Ciências Sociais na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Sofia Furtado é um exemplo da preferência por equipamentos móveis. Ela não possui computador ou notebook, e todo seu acesso à internet é por meio do celular e do tablet. “Faço todos os meus trabalhos da faculdade

pelo tablet. Já me acostumei e não vejo mais dificuldades. ” O caso do psicólogo Vitor Rocha de Abreu é um pouco diferente. Ele possui um notebook da empresa em que trabalha e outro aparelho, híbrido, junção de tablet e laptop, para uso pessoal. “Onde eu trabalho, não existem computadores, só notebooks. Fora isso, faço todas as minhas coisas pelo meu próprio computador que

também é um tablet. Quando preciso escrever muito uso o notebook. Quando são coisas pequenas, o tablet. ” Mas, apesar dessa grande preferência pelos equipamentos móveis, para Tonioli, o nicho de computadores e notebooks continuará existindo. “Computadores não vão acabar. Eles continuam tendo suas aplicações específicas, principalmente em atividades mais complexas”, explica.

Livros digitais registram baixo crescimento E-books ainda não conquistaram público brasileiro, mas editoras fazem plano de expansão do mercado

Beatriz Meirelles O mercado de livros digitais no Brasil, na contramão de outras tecnologias, caminha a passo lentos. Segundo pesquisa FIPE, em conjunto com a Câmara Brasileira do Livro e o Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL), as vendas de livros digitais, em 2014, tiveram um faturamento de cerca de R$ 17 milhões (contra R$ 13 milhões em 2013). Mas isso significa apenas 0,3% do faturamento apurado com as vendas totais de livros impressos em 2014 (cerca de R$ 5,5 bilhões). Entanto, as editoras acreditam que o mercado digital tende a crescer nos próximos anos. O mercado de livros digitais no Brasil é recente e ainda traz pouco retorno às editoras que comercializam os e-books. O primeiro e-reader, o

Kindle, surgiu há apenas seis anos, em contrapartida, o livro impresso existe há mais de cinco séculos. No mercado, a proporção também destoa, explica Alessandra Ruiz, Publisher da Editora Arqueiro, grupo Sextante. “Nos Estados Unidos, a venda dos e-books representa 30% a 40% do mercado. No Brasil, onde o mercado digital começou mais tarde, em 2009, a representatividade digital é apenas de 3% a 5% do mercado”, afirma. O mercado digital é muito recente, mas se mostra promissor gradativamente; as vendas de e-readers passaram de US$ 2,3 milhões em 2014 para US$ 2,4 milhões no ano passado no Brasil, segundo a Eromonitor. Em Campinas, a Editora do Mercado de Letras, Maria Elisa Meirelles, acredita na coexistência dos mercados e aposta no futuro digital. “Nós acre-

ditamos que o livro digital será promissor logo mais, mas ainda não é de fato. Nossa experiência com o processo de impressão por demanda nos diz que o livro digital e o livro impresso irão caminhar juntos”, explica a editora. Para a recém-formada em Jornalismo, Bruna de Aro, 21 anos, que faz parte da “geração Y”, conhecida como a geração da internet, o livro digital tem muitas vantagens, como a facilidade no transporte e na hora da compra e as opções de títulos crescem cada dia mais. “O livro digital pode ser transportado para qualquer lugar e lido em qualquer tipo de dispositivo. Eu tenho o Kindle, mas acabo usando muito o meu celular também”, conta a jornalista. Segundo dados do Global e-book Report, os livros digitais perfazem

4,27% das vendas de livros no Brasil. Apesar de ainda ser pouco, não é um número insignificante. Para Alessandra, um erro comum é avaliar o desempenho do mercado de livros digitais em função do número de e-readers vendidos, uma vez que não se leva em conta a leitura em tablets e smartphones. Segundo o Instituto de Pesquisa IDC, só no ano passado foram vendidos 5,8 milhões de tablets e 47 milhões de smartphones em todo o Brasil; e ainda dados do IBGE demonstram que o celular já é o principal meio de acesso à internet nos domicílios brasileiros. O gerente de produção editorial da Editora Unicamp, Ricardo Lima, acredita que dentro de alguns anos o leitor brasileiro vai se render às leituras digitais. Alguns autores, por exemplo, estão começando a escrever

livros já pensando no formato. “São livros feitos para o digital, com recursos que só cabem nele, como por exemplo, o uso de música”, explica o gerente. O mesmo acontece na Editora Setembro. Para Jaime Lisandro Pacheco, as vendas digitais ainda não trazem muitos lucros, mas crescem a cada ano. “Tivemos um aumento de 5% nas vendas do ano passado para cá”, afirma. Nesse cenário, as editoras de Campinas que ainda não possuem mercado digital, caminham para tal, como é o caso da Editora Mercado de Letras, onde existe um projeto para entrar nesse mercado dentro de, no máximo, 2 anos. “As novas gerações estão cada vez mais inseridas nas tecnologias e nós temos que acompanhar esse avanço, se não, ficamos para trás”, conclui a editora Maria Elisa.


Cultura

Página 8

Maio de 2016

Shows movimentam US$ 42 bi no País Festivais de música e espetáculos internacionais atraem multidões, mesmo com crise econômica

Nathalia Nasser

Foto: Marília Schuh

O setor de entretenimento está acostumado a gerar resultados positivos. Segundo dados da PricewaterhouseCoopers (PwC), empresa do ramo de auditoria e consultoria, em 2014, o setor movimentou 42 bilhões de dólares no Brasil. A receita total deste segmento aumentou de 165 milhões de dólares em 2010 para 205 milhões em 2014, e deverá atingir 280 milhões de dólares em 2019, com um crescimento médio de 6,4%. Com a infraestrutura construída para a Copa do Mundo, o País entrou na rota dos principais festivais do mundo, e as capitais passaram a ter espaços que possibilitam trazer concertos internacionais além do eixo Rio-São Paulo. Considerando todo o mercado da música, o Brasil em especial tem uma projeção de crescimento médio de 1,8% nos próximos cinco anos, maior do que o crescimento global de 0,8%. José Norberto Flesch, editor de diversão e arte no jornal Destak, justifica esse destaque de rentabilidade com a conexão emocional do público. “Ao contrário de outros setores, o show envolve diretamente a emoção. O fã paga para ver seu ídolo, principalmente se imaginar que

Festival Lollapalooza, realizado em 12 e 13 de março, em Interlagos, São Paulo, vendeu cerca de 160 mil ingressos para os dois dias

será sua última oportunidade, caso dos Rolling Stones. Outras áreas do entretenimento podem ter efeitos similares no público. Por exemplo, uma oportunidade única de ver tal atriz em tal papel. O mesmo vale se o fã imaginar que nunca mais verá a atriz no palco.” O segmento musical é responsável pela maior concentração de público, acontecimentos e rentabilidade da indústria do entretenimento, inclusive com a geração de empregos. Para Milton Saito, dono da produtora paulistana XLive, a característica que movimenta o universo da música é a velocidade de sua capacidade de resposta: “O show business é uma ati-

vidade que traz pra todos os envolvidos retornos rápidos. É um mercado de riscos que oferta produtos perecíveis e demanda muito planejamento e conhecimento, mas vale a pena investir. O ciclo de maturação é diferente e muito mais veloz do que o de outros segmentos.” Por mais que o entretenimento esteja enraizado em nossa cultura, o momento econômico impactou o comportamento dos consumidores e os tornou mais seletivos em relação à quantidade e tipos de eventos que escolhem investir. Allan Turano, advogado, vai a quatro shows por ano, em média, e conta que o empecilho que pode con-

vencê-lo a não ir a um show de que gostaria é o preço do ingresso aumentar em relação aos últimos anos. “Assisti Jason Mraz ano passado por menos de R$ 200,00. Neste ano, Coldplay e Maroon 5 estavam acima de R$ 300,00. A questão é: considerei não ir a esses shows porque estavam absurdamente caros e não porque estava com menos dinheiro.” Rodrigo Quinan, estudante de Comunicação Social, costuma ir a pelo menos seis shows por ano. Ele afirma não sentir grande diferença nos preços por conta da crise econômica. “Os ingressos são sempre caros, eventualmente, dá para pegar com alguma economia. Eles são caros

para o que se propõem, mas não inacessíveis. Pelo investimento emocional, continuo pagando e apenas por isso. O preço é absurdo. Se fosse um outro produto, eu não compraria.” Segundo Flesch, é importante para a indústria do entretenimento um posicionamento certeiro, que garanta a lembrança da marca no futuro e que mantenha sua solidificação econômica. Isso porque o público continua investindo em diversão e lazer mesmo com uma crise estabelecida no País. “Mesmo crises em governos passados mostraram que, em épocas de vacas magras, o público gasta com diversão.” A economista Lillian de Pellegrini Elias afirma que a crise hoje instaurada deve durar no máximo mais meia década e justifica o crescimento do setor com a desenvoltura do público brasileiro. “O crescimento no setor tem relação ao fato de sermos um mercado consumidor ‘novo’. Com certeza, o mercado consumidor brasileiro se comporta diferente do resto do mundo e por isso se cobra mais, em relação ao poder de compra, do que em países da Europa, por exemplo. Por isso, é muito provável que a crise não atinja o show business.”

Mario de Andrade, em domínio público

Obra do escritor de Macunaíma, morto em 1945, pode ser reproduzida sem pagamento de direitos autorais Foto: Mariana Rodrigues Obra de Mário de Andrade em HQ

Mariana Rodrigues Neste ano, pelo menos quatro novas edições de obras de Mário de Andrade já chegaram às livrarias. Isso porque o autor caiu em domínio público, ou seja, editoras não precisam pagar pelos direitos autorais. Isso ocorre, no Brasil e na maior parte dos países, no

primeiro dia do ano seguinte depois de 70 anos da morte do autor. Esses direitos que antes iam para um herdeiro, no caso de Mário de Andrade, um sobrinho-neto, agora não são devidos. No entanto, isso não quer dizer que as editoras gastem menos para publicar a obra. Felipe Lindoso, consultor de políticas públicas para o livro e leitura, afirma que a publicação de uma obra clássica, ou em vias de se tornar, requer um cuidado editorial maior com a preparação de textos complementares, críticas, comentários ou traduções, se o autor não for de língua portuguesa. Decisões e adaptações quanto ao uso vigente da língua também são revistos. O interesse das editoras, no entanto, é com as comemorações e a importância do nome dos autores para

as vendas. Os direitos morais - que exigem à referência ao autor - nunca são perdidos. O professor Ricardo Gaiotto, da Faculdade de Letras da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), ressalta a importância de um autor como Mário de Andrade em domínio público: “A criação de mais edições permite que mais gente pesquise o autor e se tenham versões mais acabadas da obra.” Ele também acredita que o número maior de publicações

facilita o contato do grande público que pode ter acesso a livros em formatos e preços diferentes. A obra, assim, ganha outros sentidos. Macunaíma, por exemplo, já conta com uma edição em histórias em quadrinhos, publicada em fevereiro pela editora Peirópolis. Textos inéditos que o autor não publicou em vida também ficam disponíveis, e já estão sendo preparados para a publicação. A editora Penguin já relançou o clássico Macunaíma. Já Ivan

Marques, professor da Universidade de São Paulo (USP), reuniu em uma antologia contos e poemas, Briga das Pastoras e outras histórias: Mário de Andrade e a busca pelo popular, publicada pela Edições SM. Outras duas estudiosas da vida e obra de Mário, Telê Lopez e Tatiana Figueiredo, laçam O turista aprendiz, diário de viagens do autor que acompanha um CD-ROM com fotografias e um DVD com o documentário A casa de Mário, de Luiz Bargmann.

Mário de Andrade, o Papa do modernismo brasileiro (1893 - 1945)

Foto: Divulgação

Autor paulistano, um dos criadores da Semana de Arte Moderna de 1922, e grande nome do modernismo brasileiro. Mário não se limitou apenas à literatura, era também músico, crítico e estudava história da arte. Em suas obras, exaltava o folclore, a linguagem popular e os elementos nacionalistas da cultura brasileira. Seus principais livros são Há uma gota de sangue em cada poema (1917), Paulicéia Desvairada (1922), Amar, verbo intransitivo (1927), Macunaíma (1928) e Os filhos da Candinha (1943).


Cultura

Página 9

Maio de 2016

Grafite campineiro projeta artistas

Além de colorir as ruas da cidade, o trio Ots, Audi e Dimi já tem obras em várias cidades e até fora do Brasil Foto: Sarah Bulhões Inspirada em desenhos animados e herois, “Vagando”, obra do grafiteiro Tiago Barreto, mais conhecido como Ots, está localizada na rua Sampaio Ferraz, esquina com Antônio da Lapa, no bairro Cambuí, em Campinas.

Sarah Bulhões

Quero que elas olhem, parem e que aquilo alivie e seja uma paz dentro de um caos”, conta ele, enquanto se acomodava num sofá, no fundo do estúdio Perímetro Urbano, onde ganha a vida fazendo tatuagens e pintando telas. Com grafites espalhados por quase toda Campinas, Audi escolhe colorir lugares onde o movimento e as buzinas de carro são intensas. A Rua Carolina Florence, no Taquaral, ruas do Cambuí, a Avenida Francisco Glicério, a Rua Luzitana, no Centro, e a Avenida Orozimbo Maia são alguns dos locais em que o artista faz florescer mandalas, ou, como ele mesmo diz, “organismos vivos”. Com intuito de ser um analgésico para Campinas, a prática das mandalas abstratas veio acompanhada da desistência da psicologia, profissão em que chegou a atuar no início da carreira. “Desde pequeno eu gostava de colorir. Isso só foi

aumentando. Era uma vontade incontrolável de só ficar desenhando. Ver a tinta saindo da caneta me fascinava. Precisava passar essa sensação para algo bem maior”, completa o artista plástico, que alcançou o auge da carreira apostando, principalmente, em eventos beneficentes. Natural de Itapira, o artista largou o interior e se aventurou por outros caminhos. Assim como Ots, Audi não tirava a mochila de tintas das costas e assim, coloriu mandalas não só pelo Brasil, em Jericoacoara (CE) e na Praia da Pipa (RN), como também na Itália, Espanha, Áustria e Nova Zelândia. De volta ao Brasil, a Lei Municipal 13903/2004 representa os vários artistas que buscam, nos muros da cidade, a identidade e personalidade do grafite, que ganhou data de comemoração no dia 27 de março. Para Dimi, que conhece o grafite há 14 anos e tira Foto: Sarah Bulhões

Para colorir a cidade, os grafiteiros Ots, Audi e Dimi não têm data nem horário. No embalo de uma trilha alternativa intitulada “Bonobo”, Tiago Barreto, mais conhecido como Ots, inicia o grafite no interior de uma van e, de repente, o único som vem do chacoalhar do spray e da tinta saindo da lata. Já para José Flávio Audi é preciso encontrar um tempo na agenda de tatuagem, seu ganha-pão. De segunda a sexta, Daniel Araújo de Almeida não tem tempo para grafitar. Precisa cuidar da loja que vende produtos para grafitagem na Avenida da Saudade. Aos domingos, no entanto, é na rua em busca de um muro que ele está. De Campinas, os três grafiteiros dão cores à cidade e ainda ajudam projetos beneficentes com sua arte. Tudo é feito com calma e, contrariando algumas ideias, o desenho tem lá sua demora, umas três horas de duração. No entanto, quando se fala em muros, o tempo pode se estender até dias, pois são detalhes, que, ao final, não só estamparão a cidade, mas dirão quem ela é. Pelo menos é assim que pensa Ots, de 30 anos. “Muros cinzentos mostram uma cidade calada. Campinas não é assim. Além de ter ótimos artistas, tem o entusiasmo das pessoas que amam esse tipo de expressão. Falta muito ainda, mas está caminhando bem”, diz. Da mochila cheia de tintas, Ots deu vida a diversas

ruas e avenidas em Campinas, no Cambuí, na Avenida Carlos Grimaldi, no Centro de Convivência e até mesmo dentro da galeria de esgoto da Norte e Sul, onde foram coloridos desenhos, que, segundo ele, são “as fantasias da cabeça transformadas em uma fuga da realidade”. Com início na infância, a escolha por esse tipo de arte sempre o acompanhou e hoje é refletida nos grafites, inspirados em personagens, super-heróis e desenhos animados. Formado em design gráfico, Ots continua grafitando por hobby e também dá aulas de desenho no Centro de Campinas. Do Centro até algumas vielas do Cambuí, o som muda. Sai o alternativo de Ots e entra o rock de Audi. Com essa sonoplastia, ele consegue animar a produção de grafites supercoloridos, que usam toda a paleta de cores. “Eu desenho na cidade para atingir positivamente as pessoas.

Mandala pintada por José Flávio Audi, na Rua Luzitana, no Centro. Além de Campinas, ele tem obras no CE, no RN e no Exterior

dele o sustento de sua família, o dia nacional do grafite “será sempre no domingo”, dia em que fecha a loja e se dedica apenas às ruas. Dessa vez, ao som de rap. Muito rap. De segunda a sexta, Dimi mantém a loja New Family Crew, uma das mais conhecidas no ramo do grafite, que, além de comercializar produtos específicos como tintas e roupas, serve também como um local de encontro e discussão de novas ideias. Aos finais de semana, ele vai em busca de muros para grafitar letras. Sim, letras. “Comecei pichando em 1999 e aí conheci pessoas na rua que faziam grafite, não foi difícil de me interessar. Foi natural até porque eu sempre desenhei”, conta. Ele acredita que Campinas ainda é recém-nascida em relação a essa expressão cultural. “O grafite daqui ainda não fala pela sua cidade. Está engatinhando em relação a grandes centros como São Paulo e Rio de Janeiro. Vai demorar uns 15 anos para o grafite ser respeitado na cidade, pois ele não é levado tão a sério”, pontua. A falta de reconhecimento da Prefeitura também é um dos problemas que colabora para o atraso de Campinas em relação à arte urbana. “Falta uma ajuda da Secretaria de Cultura, que poderia apoiar mais o movimento da arte de rua, até como um método de conscientizar sobre a diferença do grafite e a pichação”, explica Ots.


Cultura

Página 10

Maio de 2016

Grupos se unem para sobreviver

Músicos, atores e dançarinos dividem funções e fazem “vaquinha” para garantir espaço e dinheiro para apresentações Henrique Fernandes Foto: Isabel Barros Diego Carvalho, ao lado de Manuela Dalcin, ensaiam na Jukebox Cia Musical, cooperativa em que há troca de serviços entre profissionais e mensalidades com custo reduzido

cresce e reúne artistas que veem na cooperativa uma oportunidade. “Eu vejo o grupo como uma união inacreditável de talento e boas intenções, vontade pura de sucesso. E isso se encaixa na proposta do grupo, que é a progressão da arte em cada artista, crescendo de todas as formas, abrindo portas”, conta Diego Carvalho, de 19 anos. Ele entrou no grupo quando o diretor o ouviu cantar e fez o convite. Dançarino, cantor e ator, ele estuda Educação Física e pretende, depois que se formar, dedicar-se integralmente ao teatro e à dança. A Jukebox, para ele, é uma das formas de trilhar o caminho na arte. “Em Campinas, eu acho complicado ser artista. Vontade não basta, tem que saber buscar e saber lidar com os

diferentes tratamentos que existem. Se você não conhece muita gente, muitos lugares, as oportunidades ficam ainda mais escondidas. É questão de saber trilhar um caminho e preservá-lo”, afirma o estudante. No mundo da música, a ajuda entre bandas é um dos motivos para que o cenário independente de Campinas possa existir. André Vinco, vocalista da banda Ceano, teve seu primeiro grupo aos 12 anos e, desde então, teve inúmeros projetos musicais. Para ele, a cidade peca em estrutura para que os músicos possam divulgar seus trabalhos. Diante disso, os serviços de streaming como Spotify, Deezer e YouTube aparecem como opção. “Com os meios de massa cada vez mais fechados para novos artis-

tas, esses sites se colocam como uma maneira fácil e com praticamente nenhum custo para a promoção do artista”, explica Vinco. O baixista da Ceano, Leonardo Rodrigues, conta também que a banda sofre com o maior problema dos artistas: a falta de recursos. “Ainda estamos longe de nos autossustentar. Conseguimos dinheiro com cachês dos shows, venda de CDs e com os serviços de streaming. Mas, mesmo assim, precisamos colocar dinheiro próprio no projeto”. Atualmente, em estúdio gravando o segundo CD, eles vão gastar aproximadamente R$ 9 mil. A maior parte desse valor veio dos integrantes. “Todos trabalhamos e juntamos dinheiro para a realização desse nosso sonho”, diz Rodri-

gues que, assim como Vinco, quer viver exclusivamente da música que produz. Eles contam ainda que é muito comum que as bandas também se ajudem. É comum, por exemplo, que uma faça convite a outra para se apresentar no mesmo palco de suas cidades, promovendo trocas de espaços. Apesar de tudo, a Ceano tem rendido bons momentos para os integrantes. Além de Campinas, já tocaram em São Paulo, Jaboticabal e até em um festival do Rio de Janeiro. “Felizmente, os artistas independentes conseguem se ajudar com frequência e, ao contrário do que parece à primeira vista, existe muita gente bem-intencionada que quer fazer as coisas direito”, diz Vinco.

Foto: Henrique Fernandes

A falta de espaço e apoio para artistas fazem com que músicos, atores e dançarinos se unam em grupos para produzir arte e impulsionar a carreira. Nesse processo, vale ajuda mútua à “vaquinha” para bancar gravações, passando por troca de serviços e espaços. Tiago Rodrigues Bezerra, de 32 anos, viu na dificuldade do mercado de musicais em Campinas uma oportunidade de criar um grupo que preenchesse essa lacuna. Em 2015 ele criou a Jukebox Cia Musical, uma cooperativa estudantil de artistas que tem como objetivo fazer com que os integrantes cresçam, aprendam e experimentem. A ideia foi criar um grupo – composto por jornalistas, publicitários, artistas plásticos, coreógrafos e professores de canto e teatro – em que todos se ajudassem, de acordo com suas habilidades. “Todos trabalham de maneira gratuita em prol da companhia firmando uma relação de cooperação entre os membros” explica. A Jukebox estreou em abril o primeiro musical produzido por eles. A adaptação de “Les Miserables”, livro do escritor francês Victor Hugo (1802-1885), tomou os palcos do auditório de Valinhos depois de muito ensaio. Nesse começo de existência do grupo, várias dificuldades foram encontradas. Renuir pessoas com agendas diferentes e demandas distintas para um projeto de médio a longo prazo foi maior delas, segundo o fundador. Hoje, conseguir recursos financeiros é a principal preocupação. Bezerra explica que o grupo se sustenta financeiramente por meio de uma contribuição mensal de cada integrante, usada para cobrir os gastos com confecção de cenário e figurinos, artes impressas para divulgação, taxas e aluguéis de teatros e confecção de ingresso. Além disso, toda a arrecadação vai para a estruturação do grupo em infraestrutura. Mesmo com todas as dificuldades, a companhia

Otávio Oliveira, Leonardo Rodrigues, André Vinco e Arthur Balista, integrantes da banda Ceano, já tocaram em São Paulo e no Rio de Janeiro graças ao autossustento


Religião

Página 11

Maio de 2016

Intolerância mancha imagem de igrejas Pesquisa da UFSCar mostra que diversas denominações religiosas enfrentam contradições entre discurso e ação

Talita Trevisan Foto: Talita Trevisan

O fato de alguns princípios religiosos no Brasil terem funcionado como empecilhos na lista pelos direitos humanos, em vez de serem aliados, têm prejudicado a imagem das religiões no País. O professor do Departamento de Sociologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) André Ricardo de Souza explica que isso acontece porque líderes de algumas instituições ainda cultivam posturas extremas e, alguns grupos, ameaçam e chegam a cometer crimes por intolerância religiosa. Segundo o pesquisador, no Brasil atualmente há indivíduos, grupos e instituições contribuindo para uma imagem negativa da religião como um todo, em diversas denominações e crenças. Para Souza, o que contribui com o quadro negativo é a intolerância, a intransigência e a homofobia. “A intolerância se refere à rejeição do diferente e sua discriminação por ser considerado pecaminoso ou impuro. Por sua vez, a intransigência significa a recusa da busca de diálogo pautado por parâmetros respeitosos e democráticos devido à prevalência do pensamento e do discurso dogmático e autoritário. Já a homofobia diz respeito não só à discriminação, mas também à perseguição,

A bíblia é o livro sagrado dos cristãos e o material de estudo para o Pastor Joubert Montali e o Padre João Batista Cesário

até violenta, de membros da população LGBT”, explica o sociólogo. Esse tipo de comportamento definido pelo pesquisador como extremista e intolerante pode ser sentido pelo jovem de 20 anos Yuri Fernandes, crescido e criado por família evangélica, que durante diversos períodos de sua vida se sentiu ao mesmo tempo amparado e desamparado pela religião que seguia. “Sempre soube que era homossexual e também sempre frequentei a igreja evangélica, mas, ao mesmo tempo em que me sentia bem com alguns dos ensinamentos, me sentia muito mal por saber que minha opção sexual nunca foi aceita por minha religião, nem por meus pais. Hoje continuo tendo fé, mas não frequen-

to mais igrejas como as que minha família segue, por saber que sempre vão me ver como pecador, mesmo acreditando em Deus e nos ensinamentos da bíblia”, conta. Em contrapartida, instituições cristãs alegam que o respeito à vida é o mais importante e que algumas práticas não são aceitas pelo fato de irem contra os ensinamentos do evangelho. A igreja evangélica pentecostal Cristo Salva baseia-se nos escritos da bíblia, nesse caso protestante, para discernir o certo e o errado de maneira que essas atitudes ajudem os religiosos a se aproximarem de Deus. As intolerâncias e atos violentos cometidos por alguns grupos e representantes religiosos, na opinião

do Pastor Joubert Montalti, acabam influenciando a imagem das igrejas, mas ele defende que, dentro das instituições, o respeito e amor ao próximo são princípios bastante valorizados. Apesar de não aprovarem práticas como o aborto e a homossexualidade, o pastor afirma que os evangélicos encontram no próprio livro sagrado demonstrações de que comportamentos como esses não valorizam a continuidade da vida e, por isso, não são aceitos. Para o pastor, a luta pelos direitos humanos, na verdade, está ligada ao pertencimento à religião e, somente frequentando uma denominação protestante, se consegue discernir os comportamentos corretos e errados. Para o Padre João Ba-

tista Cesário, da Pastoral Universitária da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), todos os seres humanos têm como ponto comum a vida e, por isso, todos merecem respeito. Ele acredita ainda que, apesar de algumas práticas como a homossexualidade não serem aceitas, se a pessoa ama Cristo e Deus acima de tudo, não cabe à Igreja julgar. Na Pastoral Universitária onde atua, o padre busca ressaltar os ensinamentos do evangelho como sendo a maneira mais adequada de se agir, para assim, minimizar os efeitos negativos que a atitude de alguns representantes tem causado na imagem da Igreja Católica. No caso da Umbanda, de origem africana, o principal valor, de acordo com o pai de santo Joãozinho Galerani, é o amor ao próximo e a caridade, independente da orientação sexual da pessoa já que, do ponto de vista dessa religião, os espíritos não possuem sexos definidos. Segundo Galerani, os umbandistas já sofrem bastante preconceito na sociedade e, portanto, os adeptos devem ser exemplos dentro e fora do terreiro, com atitudes amorosas, respeitosas e solidárias para, assim, valorizarem os princípios dessa crença e contribuírem na luta pelos direitos humanos.

Foto: Talita Trevisan Culto de Umbanda tem origem afrobrasileira e as diferentes orientações sexuais são aceitas; Apesar do preconceito da sociedade, religião tenta exibir bons exemplos, dentro e fora do terreiro, de acordo com pai de santo


Esporte

Página 12

Maio de 2016

Campineiros tentam vaga em jogos

Com a proximidade do início das Olimpíadas e com quase 50% de atletas selecionados, treinos se intensificam

Há pouco mais de três meses para as Olímpiadas de 2016, no Rio de Janeiro, atletas de todos os cantos do mundo entram em reta final de preparação e também de classificação. No total, cerca de 10.500 esportistas devem ir à capital fluminense em agosto. Desse número, 47,6% das vagas já foram preenchidas ainda no ano passado, enquanto que as restantes serão definidas até o próximo mês de julho. Na região de Campinas, também é possível encontrar atletas que seguem, dia após dia, na busca por melhores índices classificatórios. É o caso de Thiago Sales, atletista da equipe BM&F Bovespa, que treina há três anos no Centro Esportivo de Alto Rendimento (Cear) de Campinas. Atualmente, Sales é o número sete do ranking nacional da Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt), na categoria dos 400 metros com barreira, com a marca de 52”71. Como apenas os três primeiros da tabela se classificam, ele participa de todas as competições possíveis na tentativa de bater a marca de 50”31, pertencente ao atual número um do ranking nacional dos 400 metros com barreira, Artur Terezan. “Já venho treinando forte há quatro anos, tendo como parâmetro as Olimpíadas de Londres. A gente chama de Ciclo Olímpico, que visa a preparação da força geral,

Foto: Thiago Carrico/ 17/05/15

Guilherme Vicentini Thiago Carrico

Wagner Cardoso e Hugo Balduíno, integrantes da equipe de revezamento 4x400, são alguns dos atletas que treinam no Centro Esportivo de Alto Rendimento de Campinas

da velocidade, da parte de resistência... Tudo isso no conjunto de quatro anos, tentando aprimorar e elevar a performance”, conta ele, acrescentando ainda que tem tomado cuidado especial com questões de alimentação, suplementação e recursos de fisioterapia. O Cear também é o local de treinamento de Wagner Cardoso e Hugo Balduíno, integrantes da equipe de revezamento 4x400 metros, número um do ranking da CBAt e considerada uma das favoritas na modalidade. No último mês de abril, os dois participaram de um camping de preparação nos Estados Unidos. Lá, com seus companheiros de equipe, Bruno Lins e Pedro Bur-

mann, conseguiram a marca de 03’02”50, que os coloca na sexta posição da Associação Internacional das Federações de Atletismo (IAAF). Para efeito de comparação, a equipe estadunidense número um dessa tabela mundial tem o índice de 03’00”96. O fato de poder treinar com Cardoso e Balduíno, aliás, é visto por Sales como um estímulo extra na hora de pisar nas pistas. “Eu tenho o privilégio de treinar com o pessoal do revezamento, que também compõe a seleção brasileira. Temos uma equipe muito forte, muito bem estruturada. Isso na hora dos treinos é muito bom, porque treinar com os melhores, mesmo que não seja na sua prova, faz o treino ren-

Tocha vai percorrer 15 km pela cidade Campinas recebe, no dia 20 de julho, o maior símbolo olímpico dos jogos mundiais, a tocha olímpica, o qual percorrerá um trajeto de 15 quilômetros nas principais avenidas e pontos turísticos do município. Segundo o comitê local, o evento contará com 77 pessoas no revezamento da tocha, sendo seis atletas campineiros de destaque, como o ex-jogador de vôlei Maurício Lima, a campeã mundial de salto com vara Fabiana Murer, o ex-tenista Ricardo Melo, a ex-atleta especialista em heptatlo Conceição Geremias, a nadadora Fabiana Sugimori e o ex-jogador de futebol João Paulo. O ex-jogador de futebol João Paulo, medalhista de prata nas Olimpíadas de Seul

em 1988, quando ainda atuava pela equipe do Guarani, destacou a relevância desse momento para a sua vida e como cada episódio representa uma particularidade em sua trajetória, “Nunca imaginava, expectativa enorme. São sentimentos totalmente diferentes. Porque, por mais que fosse uma Olimpíada e de nós termos ganhado a medalha de prata, ficamos tristes porque queríamos a de ouro. Agora, a expectativa é enorme, já que é uma novidade”. Cada atleta terá o privilégio de atravessar 200 metros da cidade com a tocha olímpica. O destino final é a Praça Arautos da Paz, onde será acesa a pira olímpica. Campinas é um dos 300 municípios que receberão a tocha.

der muito”, afirma Sales. O atletista elogia também as próprias instalações do Cear. “A estrutura, com relação à fisioterapia, nós temos aqui. Tem também o acompanhamento psicológico, o acompanhamento nutricional... Na questão da musculação, peca um pouquinho, porque falta um pouco de materiais, mas a gente consegue trabalhar”, conta. Essa é a mesma opinião de Evandro Lazari, o principal técnico da equipe dos 4x400 metros masculino, “Temos uma ótima estrutura no CEAR, sempre queremos melhores condições, porém hoje não deve a nada as melhores do país”. Realista e com anos de experiência em competições mundiais, Lazari prefere não criar grandes expectativas e seguir o planejamento traçado para os jogos. “Na final, nossa expectativa é fazer uma grande prova e, se corrermos próximo ao recorde Sul-Americano, temos chance de medalha. Se chegarmos com 3 atletas correndo 44”, podemos brigar por boas colocações”, afirma.

Dificuldades Apesar do Cear ser uma referência hoje no País, nem todos os atletas do interior têm a chance se

preparar em um local do tipo. A velocista Thaissa Presti de Lima, também do BM&F Bovespa, treinava em Valinhos até o ano de 2010, quando resolveu buscar melhores condições de treino e estrutura em São Paulo. Segundo ela, a crise pela qual o País passa atingiu os esportes olímpicos mesmo com a proximidade dos jogos. “Temos poucas equipes e, com a crise, algumas fecharam as portas, principalmente equipes de cidades bancadas pela prefeitura. Tenho muitos colegas sem clube, e os que têm não são valorizados. É muito triste ver como estão as coisas em um ano olímpico, ainda mais saber que a tendência é piorar, após os jogos”, afirma. Além de competir nos 100 metros rasos e no revezamento 4x100, Thaissa é a atual sexta colocada do ranking da CBAt nos 200 metros rasos. Mantendo a rotina dos treinos em quatro a cinco horas por dia, de segunda a sábado, ela acredita que pode garantir a tão sonhada vaga em breve. “Eu acredito que posso chegar ao índice, mas a prova está bem concorrida. Eu competi nas olimpíadas de Pequim e ficamos em 4º lugar. Desde então, provamos que o Brasil tem chance de medalha sim”, diz.

Saiba mais maio 2016  
Saiba mais maio 2016  
Advertisement