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Gláucia Fraccaro: “O feminismo é um projeto de mudança geral da sociedade.” Pag. 5 Faculdade de Jornalismo - PUC Campinas

Desde 2006

Medicamento derivado da maconha tem 1,2 mil usuários no Brasil

Neusa de São João (PSB) entre os vereadores de Campinas: ela é a única mulher na atual legislatura e não foi reeleita Criança com síndrome de West, em Vinhedo, teve melhoras desde que começou a usar medicamento com CBD Apesar de só existirem evidências científicas da eficácia dos remédios à base de canabidiol (CBD) para casos de Parkinson, pacientes relatam melhorias em diversas situações, inclusive, doenças de alta complexidade e no controle a alguns casos de epilepsia. Uso, no entanto, esbarra em burocracia, preço e exigências judiciais. De acordo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), só após uma bateria de testes, o remédio poderá ser produzido e comercializado no Brasil. Por enquanto, pacientes precisam de autorização para importar. Pag. 4

Dança auxilia inclusão

Foto: Ana Letícia Lima

Foto: Maria Eduarda Alves

SUS: até 3 anos de espera Foto: Drielly Orrú

Jornal-laboratório foi criado em 2006, já passou por vários formatos e propostas editoriais Pag. 2

O estudante Jovi ensaia com Ana

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Saiba+ faz uma década

Centro de Saúde Faria Lima, na Vila Industrial

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Thaísa Gigo

Q

uando vem chegando o final de ano, muitas pessoas param para refletir sobre tudo o que passou, o que conquistou, tudo o que irá conquistar e, principalmente, para confraternizar com familiares e amigos. Enquanto alguns comemoram ou se preocu-

Opinião

Dezembro de 2016

O que falta para fechar o ciclo? pam em fazer um balanço sobre o ano que passou, outros abdicam de tudo isso para fazer mais feliz o Natal de moradores de rua ou de pessoas em abrigos. Há quem se doe para essas pessoas “excluídas” o ano inteiro e não apenas no final do ano. Mas, nesse período, tudo é diferente e mais intenso, pelo clima da época. Essas pessoas distri-

RÁPIDAS

buem comidas, roupas, cobertores e, principalmente, alegria. Porque, para quem recebe, isso é o que importa. Talvez a simbologia do Natal faça com que as pessoas purifiquem seus corações e se doem mais. No entanto, ainda falta um “quê’’ de ternura e caridade. Falta aquele algo a mais que não parece estar dentro dos corações, cada vez

mais enegrecidos. Talvez por conta do momento político, dos problemas econômicos ou da grande violência que atinge o mundo todo, até mesmo a ternura já não é a mesma. O advento do Natal traz consigo a consagração da alegria nas mãos de Deus. Para isso, é importante lembrarmos de viver com simplicidade, amar generosamente,

cuidar de si e da família intensamente, falar com gentileza e sem reclamar e, mais do que isso, agradecer pelo que somos, pelo que temos e deixar que Deus cuide de nós. Devemos, sim, cuidar do próximo, com alegria e ternura, mas sempre lembrando que o Natal é todo dia e não uma data apenas lembrando quando Jesus nasceu.

Cultura popular em exposição

Thaísa Gigo

Palácio de Natal no Centro No dia 7 de dezembro o Papai Noel chega a Campinas e vai passar pelas principais ruas do Centro em um carro alegórico. O Papai Noel ficará no “Palácio do Papai Noel”, espaço realizado pela Associação Comercial e Industrial de Campinas (Acic) e pela Câmara dos Dirigentes Lojistas. O “Palácio” ocupa uma área de 300 metros quadrados e possui quatro ambientes: a Sala de Neve, a Sala Dourada dos Anjos, Duendes, Fadas e Noéis, a Sala da Floresta Encantada do Natal e a Sala do Papai Noel e sua família. A atração ficará aberta ao público até o dia 23 de dezembro, de segunda a sexta das 10h às 20h, e sábados e feriados, das 10h às 16h, com entrada gratuita. O Palácio fica na Avenida Campos Salles, esquina com Rua Visconde do Rio Branco, no Centro. Foto: Thaísa Gigo

Antigo Palácio da Mogiana foi adaptado para evento pela Acic

Trabalhos feitos com algodão ficarão em exposição no Centro Cultural Caipira e Arte Popular no distrito de Joaquim Egídio em Campinas. A intenção dos artistas é utilizar

o algodão para explorar movimento, poesia e cultura popular, por meio de fotografias, audiovisual, danças, desenhos e obras em tecidos. A exposição acontecerá até o dia 31

de janeiro, aos sábados e domingos das 12h às 18h, com entrada gratuita. O Centro Cultural Caipira e Arte Popular fica na Avenida Heitor Penteado com a Rua José Ignácio, 14.

Saiba+ completa 10 anos

Foto: Ana Letícia Lima

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edição deste mês do jornal Saiba+, que você está folheando, vem com uma comemoração: há 10 anos a história do veículo começava a ser escrita, pelas mãos do professor Carlos Alberto Zanotti. A proposta surgiu a partir da ideia de reformular o antigo jornal-laboratório da Faculdade de Jornalismo da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), chamado Página Aberta. O processo começou com a reformulação do projeto editorial. O jornal, que antes cobria as mais diversas pautas sugeridas pelos alunos, passaria

então a ser focado em assuntos ligados à mídia e à comunicação. Com isso, foi necessária também uma reformulação do seu nome. A partir de então, a circulação do jornal passou a ser quinzenal, com distribuição gratuita em bancas. “Chegamos a receber e-mails de gente de fora da universidade, às vezes até corrigindo algo que saiu errado no jornal”, explica Zanotti. Nessa primeira fase, o jornal foi orientado pela ex-professora da PUC Simone Pellegrini e, depois, também pelo professor Luiz Roberto

Saviani Rey. A partir de 2010, com Zanotti se dedicando a outros projetos, parte das turmas foi assumida pelo professor Fabiano Ormaneze, até hoje à frente da disciplina. Para Ormaneze, o maior desafio é fazer com que os alunos percebam a importância do processo de produção do jornal para a aprendizagem. “Não é um simples exercício. É uma oportunidade de exercitar a profissão”, diz. A partir do segundo semestre de 2016, o jornal passou a ser digital, visando ampliação de seu público na internet. (Ana Letícia Lima)

Expediente

Casos de Aids crescem 18% Jornal-laboratório produzido por alunos da Faculdade de Jornalismo da PUC-Cam-

Nos últimos cinco anos, o número de pessoas vivendo com Aids no mundo subiu de 700 mil para 830 mil, um aumento de 18%, de acordo com a Unaids, instituição da Organização das Nações Unidas (ONU) para o combate à doença. No Brasil, são 44 mil casos da doença. O País responde por mais de 40% das novas infecções por Aids na América Latina, de acordo com o mesmo órgão. A doença é a causa de 15 mil mortes por ano no País.

pinas Centro de Comunicação e Linguagem (CLC) Diretor: Rogério Bazi; Diretora-Adjunta: Cláudia de Cillo. Diretor da Faculdade: Lindolfo Alexandre de Souza. Professor responsável: Fabiano Ormaneze (Mtb 48.375) Edição: Fernanda Grael e Raísa Garcia Diagramação: Isadora Gimenes e Nayara Tobaru


Saúde

Dezembro de 2016

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Consulta pode demorar até 3 anos

Pacientes relatam que especialidades como oftalmo, cardiologia e ortopedia são as mais difíceis Foto: Drielly Orrú

No Centro de Saúde Faria Lima, na Vila Industrial, pacientes relatam que a lentidão para marcar consultas faz, inclusive, exames perderem validade

Drielly Orrú

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espera por uma consulta com especialista nos centros de Saúde, em Campinas, pode demorar até anos. Apesar de a Prefeitura não informar a demora média para os atendimentos, o Saiba+ encontrou pessoas que precisam de consultas com oftalmologistas, ortopedistas e cardiologistas e esperam até três anos pelo atendimento. É o caso do aposentado Carlos Renato Okamura, de 63 anos, que há três anos espera por consultas com um urologista e um ortopedista.

Com o cardiologista, ele decidiu pagar pela consulta, pois também não havia previsão para o atendimento. De acordo com ele, os próprios funcionários do Centro de Saúde do Jardim Campos Elíseos costumam dizer que consultas com especialistas demoram, em média, dois anos. Atendida no Centro de Saúde Carvalho de Moura, no Icaraí, Alessandra Cristina, de 21 anos, encontrou a mesma situação. Precisava consultar com ortopedista e só recebeu telefonema do centro um ano depois, quando já possuía convênio mé-

dico e tratava o problema. “Para conseguir qualquer consulta lá, é mais de um ano mesmo”, diz. A aposentada Sueli Carvalho, de 69 anos, que necessita de acompanhamento com oftalmologista por causa da catarata no Centro de saúde Faria Lima, na Vila Industrial, relata que um dos problemas com a demora é que, além de piorar o caso – Sueli teve complicações com a demora do diagnóstico que quase a fizeram perder a visão - os exames já perderam a validade. Os médicos pedem, então, novas análises, mas o retorno só é marcado

para muito tempo depois. “É horrível e demorado. Essa coisa que dizem que as pessoas morrem na fila do SUS é verdade, levando em consideração que minha avó tem prioridade e grau emergencial alto”, conta a neta, Larissa Lopes, que sempre a acompanha nas consultas. Atendimento psicológico Se, em geral, acompanhamento psicológico é feito semanalmente, no setor público, a periodicidade não existe. Os pacientes relatam intervalos de até um mês entre as sessões, depois de esperarem por uma vaga. Ou-

tro problema é que, devido à agenda lotada do psicólogo, as sessões também são de terapia em grupo e não individuais, o que acaba constrangendo e desmotivando muita gente. “Eu, particularmente, acho um mês um intervalo muito grande, porque pessoas instáveis precisam de um bom acompanhamento e frequente”, diz o estudante Wellington Silva, de 20 anos, atendido no Complexo Hospitalar Prefeito Edivaldo Orsi, no Ouro Verde. A assessoria da Secretaria Municipal de Saúde informou que os responsáveis pelas informações quanto prazos para conseguir atendimentos específicos ou o motivo de sua demora são os postos de saúde e/ou o Serviço de Informação e Solicitação de Serviços Públicos, disponível pelo número 156. Por sua vez, o Serviço de Informação e Solicitação de Serviços Públicos disse que não possui dados sobre a demora, sendo dados exclusivos de cada Centro de Saúde. De acordo com informações, o agendamento de consultas leva em consideração a gravidade de cada caso e a disponibilidade dos serviços.

Natal

Papai Noel dos Correios já recebeu 49 mil cartas Campanha de adoção dos pedidos começou em 11/11 e 28% deles já estão sendo providenciados Samanda Souza

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té o final de novembro, 49 mil crianças tiveram seus pedidos colocados para adoção pelos Correios. Desse total, 14 mil já estão nas mãos dos voluntários, o que equivale a 28%. Na cidade de Campinas, das 3.617 cartas disponíveis, já foram adotadas 1.803, ou seja, 49%. Nos últimos três anos, em todo o País, foram recebidas mais de 2,8 milhões de cartas destinadas ao Papai Noel dos Correios. Desse total, 1,9 milhão atendiam aos critérios da campanha e mais de 80% foram adotadas, o que equivale 1,5 milhão de cartas. Para que possa ser destinada à adoção, as cartas precisam ter endereço e nome

da criança de até 10 anos. No ano passado, em todo o interior de São Paulo, os Correios receberam cerca de 256 mil cartas, das quais 167 mil foram adotadas. Segundo a assessoria da empresa, não há como prever quantas correspondências serão adotadas em 2016. A expectativa é que o número seja equivalente a 2015. A campanha Papai Noel dos Correios existe há 27 anos e seu principal objetivo é atender aos pedidos de presentes das crianças que se encontram em situação de vulnerabilidade social. A campanha começou em 11 de novembro. As agências irão receber as cartinhas até o dia 9 de dezembro e elas poderão ser adotadas até dia 16.

As cartinhas poderão ser adotadas em todas as agências próprias dos Correios. As pessoas interessadas devem ir até uma agência e escolher uma das cartas. No decorrer da Campanha, à medida em que os presentes são entregues nas agências, eles são encaminhados para o fluxo postal para a entrega. Somente os Correios fazem a entrega. O padrinho não tem acesso à identidade ou endereço. Além de ser uma forma de preservar as crianças, é uma forma de manter a magia do Natal, representando a surpresa do Papai Noel. Mateus Canedo de 22 anos, auxiliar de veterinário, foi um dos voluntários que adotou uma cartinha em Campinas. Ele se comoveu

Foto: Samanda Souza

Cartas não têm nomes, apenas um número identifica a criança

com as histórias “achei muito chocante, pois tem muitas crianças que pedem as coisas mais simples, e eu acabo pensando em tudo que temos

e não damos o verdadeiro valor.”, relata. Na carta que Mateus adotou uma criança pedia roupa e sapato para passar o Natal.


Saúde

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Dezembro de 2016

Falta de consenso trava uso de CBD

Medicamento à base da folha de maconha já é liberado para tratamento em 20 países Foto: Felipe Bratfisch

Felipe Bratfisch Marcelo Prata

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uso terapêutico de canabidiol (CBD), óleo extraído da folha de maconha, é utilizado em mais de 20 países, com a maior produtora sediada em San Diego, nos Estados Unidos. Atualmente no Brasil existem 1270 pessoas importando o produto, segundo dados Agência Nacional de Vigilância Sanitário (Anvisa) O medicamento envolve polêmica entre os médicos e pesquisadores. Isso porque se discute se a concentração de Tetraidrocanabinol (THC), levantando a hipótese de poder causar dependência. Porém, o canabidiol tem concentração de apenas 0,3%, que não se considera suficiente para tal efeito colateral. De acordo com o advogado Paulo R. Novelli, a Agência Nacional de Vigilância Sanitário (Anvisa), como órgão regulador, estabelece uma série de requisitos técnico-científicos para que insumos e medicamentos possam ser fabricados no Brasil. Esses requisitos vão desde a qualidade dos componentes e sua efetividade laboratorial até a sua eficácia e os efeitos colaterais em testes de campo, em cobaias e, posteriormente, em seres humanos. “Então, do ponto de vista regulatório, a Anvisa em si não tem dificuldade nenhuma, pois o grande volume de trabalho e investimento fica a cargo da indústria farmacêutica interessada em obter o registro e também a obrigação de atender a todas as normas citadas,” diz. Em vista disso, diversos estudos vêm sendo publicados. Um deles é o da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP), divulgado em 2014, que mostra como o medicamento é eficaz no tratamento de pacientes com o mal de Parkinson. Ele possui ação ansiolítica (diminuição da ansiedade), antipsicótica, neuroprotetora, anti-inflamatória,

Criança com síndrome de West, em Vinhedo, teve melhoras desde que começou a usar medicamento com CBD antiepilética, além de agir nos distúrbios do sono, apresentando melhoras na qualidade de vida e no bem-estar desses pacientes. Em muitos casos, o uso do canabidiol é prescrito para doentes de alta complexidade, em que a medicação é essencial para manter-se vivo. Essa é a situação em que se encontra uma família de Vinhedo, cujo filho caçula foi diagnosticado com a síndrome de West. A doença provoca uma condição epiléptica severa que, no caso do menino, causou graves danos no cérebro. Seus movimentos são limitados e a doença degenerativa requer uma medicação controlada, contando com 40 doses de cinco remédios diferentes, a fim de sanar os espasmos epilépticos. Entretanto, apesar do grande número de remédios, a mãe conta que, com a aplicação do Canabidiol (CBD), a saúde da criança vem melhorando, de forma que, em três meses de uso, já conseguiu retirar o uso de um remédio, hidantal, e está diminuiu outro, lamotrigina. Anvisa O uso do CBD só foi possível, pois, em 14 de janeiro de 2015, a Anvisa

decidiu pela reclassificação da substância, o que passa a permitir a importação e consumo para casos comprovados. Porém, pela burocracia e pelo alto preço, o consumo do medicamento se torna impraticável para grande parte da população. Conforme Novelli, o princípio ativo era inserido entre as sustâncias proscritas pela legislação penal. Devido ao avanço na avaliação do princípio para uso medicinal, foi retirado dessa lista por ordem de uma medida judicial obtida pelo Ministério Público Federal do Distrito Federal, o que viabiliza sua prescrição médica, desde que atendidos requisitos previstos em lei, como especialidade em neurologia, neurocirurgia e psiquiatria. Além disso, os médicos deverão se cadastrar no site do Conselho Federal de Medicina (CFM), onde os pacientes

também deverão estar inscritos. O menino nasceu com a doença. Nos dois primeiros anos, a mãe, passou a maior parte do tempo no hospital acompanhando as internações do menino devido as crises. Entre gritos e choros da criança, ela conta que chegou a ficar 40 dias direto ao lado do filho, sedado na UTI. Até que, por um acaso, encontrou-se com uma pessoa no hospital que lhe explicou os direitos pelo fato de o menino já ter nascido com a doença. Por meio de uma liminar, pediu para ter os serviços de home Care, que trouxe uma melhor qualidade de vida à mãe e ao filho, pois hoje a criança tem profissionais, equipamentos necessários e medicamentos em casa. Apesar dessas melhorias, o uso do Canadibiol ainda emperra. Ela diz que hoje é difícil importar o

remédio, porque ela precisa do dinheiro antecipado, o que nem sempre é possível. Para ela, seria melhor se o convênio fornecesse o remédio. Planos de saúde Segundo Novelli, os planos de saúde tentam se esquivar da obrigação do fornecimento de medicamentos, principalmente de alto custo. Porém, fornecer o medicamento faz parte do tratamento. Ele ainda afirma que as pessoas que realmente precisam de medicamentos de alto custo deveriam entrar com ações, para garantir pelo menos o fornecimento por meio de liminares até que o STF decida definitivamente sobre a questão. O medicamento a base de Canabidiol é extraído da maconha. É proibida a produção no Brasil e, dessa forma, é necessária a importação. Cada seringa custa cerca de R$ 800,00.

No Brasil, uso deve ter autorização da Anvisa Para aqueles que precisam importar os produtos a base de Canabidiol, é preciso de autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O produto é somente importado e autorizado mediante prescrição médica, contendo o nome do paciente, posologia, quantidade necessária, o tempo que irá durar o tratamento, assinatura e carimbo do profissional habilitado, um relatório do profissional, contendo o CID, nome da doença, descrição do caso. Além disso, é necessária uma justificativa para utilização do produto não registrado no Brasil, em comparação das alternativas já existentes.


Dezembro de 2016

Mulheres

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Feminismo: divergência ou unidade?

Historiadora explica como as diferenças no movimento podem auxiliar ou dificultar luta Ana Laura Lopes

de dizer que pertencem a sociedade, alterar as bases a luta do trabalho domésti- fazer um ato de consenso. determinada linha. Para em que a gente se organi- co, base do capitalismo, e Em alguma medida, esomo todo movi- outras, já basta dizer que za. Vários programas de não remunerado. Para um sas marcações de vertente mento, o feminis- é feminismo e a definição sociedade e de autonomia programa de transforma- têm impedido o diálogo, mo não é homogê- de que tipo de programa vão estar em disputa e isso ção como esse, não vamos mas aí não é por conta neo. Embora a defesa da vai ser seguido emerge a é importante para a trans- contar com a presença de das pessoas se organizaigualdade entre gêneros partir da própria disputa, formação social. É impor- feministas liberais, que rem ou se identificarem seja unânime, há grupos quando aparecem as con- tante que um grupo só não acham que não precisa em correntes. Acho que se que divergem em relação tradições de raça e classe. tenha a verdade da trans- haver transformação tão deve mais a esse momento a temas como orientação formação, porque isso tem grande na sociedade, mas em que vivemos, em que sexual, prostituição, aborComo manter união um outro nome. Isso é fas- sim uma reparação de al- existe um autoritarismo, to e a inclusão ou não das entre as mulheres para cismo. guns desajustes. Para o em que as pessoas vão entransexuais na militância. poder conseguir o objefeminismo liberal, basta contrando formas de não Essas diferenças, de acor- tivo principal, ou seja, a Existe uma forma de conquistar a igualdade sa- conversar. Tem mais a ver do com a historiadora e igualdade de gênero? unir todas as vertentes? larial, mas o problema da com o espirito de época ex-coordenadora de AuAcho que é necessáEu acho que, de algu- diferença entre os ganhos que estamos vivendo do tonomia Econômica das rio debater a misoginia, ma forma, elas já estão está na hierarquia entre as que o direito de pensarMulheres da Secretaria de resultado da hierarquia unidas na ideia da emanci- mulheres e os homens e mos diferente. Ter várias Políticas para as Mulheres entre homens e mulheres. pação da mulher e de que em como o capitalismo se vertentes não atrapalha o da Presidência da Repú- Os homens se sentem su- uma desigualdade entre sustenta. movimento, pelo contráblica (2012-2013), Glau- periores e rio. Tem uma frase de que cia Fraccaro, “em alguma a sociedade Todas essas eu gosto muito da Wenmedida essas marcações se organidisputas não vão dy Savarsy [historiadora de vertente têm impedido za nesses contra a ideolo- dos Estados Unidos]: “Há o diálogo” e dificultado termos. O gia principal do muito mais no feminismo um movimento mais forte resultado é movimento? do que polêmicas”. Isso e com menos estigmas so- a ideia de A disputa se acontece quando tentamos ciais. Acompanhe a seguir que as mudá em termos de olhar para o movimento os principais trechos da lheres são classe e raça. Ela dessa forma, olhar onde Gláucia Fraccaro, historiadora entrevista: inferiores, traz toda hora há concordâncias, onde que tudo essa contradição aconteceram os avanços, No feminismo, exis- o que elas e não, necessaria- como, por exemplo, o detem várias vertentes, fazem não mente, isso tem bate sobre as negras e a como, por exemplo, as é suficiente para garantir homens e mulheres. De sido motivo para não dia- condição da mulher negra liberais – que propõe a emancipação no seu es- alguma forma, essa união logar, pelo contrário. Aqui no feminismo. Há também mudanças na legislação, paço, no trabalho, na uni- já existe e as disputas co- em Campinas e em São que pensar a transformamas não na estrutura so- versidade, na sua função locadas tendem só a tornar Paulo, também temos a ção da sociedade. Isso é cial – e as radicais – que como presidente, como o feminismo algo ainda manifestação do 8 de mar- algo com que temos que excluem as transexuais mãe, esposa, namorada e mais amplo e mais con- ço [Dia Internacional da ficar bem contente, ver do grupo. Essas diferen- amiga. Então, ao invés de creto. Contudo, existem Mulher], que, na agenda acontecendo e aguardar as tes concepções surgiram pensa em manter a união, algumas questões em que do feminismo, se tornou próximas transformações de ideologias próprias é melhor combater a mi- não vai haver união, como algo muito importante. É com muitas expectativas das mulheres ou de ne- soginia dentro das pesso- a própria ideia liberal de quando todos os diferen- de que só vamos ampliar a cessidades sociais? as ou nas práticas delas. feminismo. Um exemplo é tes grupos se juntam para luta e não excluir. Essas vertentes ficam Começar a sentir empatia Foto: Ana Laura Lopes mais fortes depois da pelo que as mulheres fachamada terceira onda, lam, fazem e sentem. quando o feminismo reconhece a ideia de idenEssas diferenças atratidade, como a sexual e palham ou ajudam o a de raça. Isso fica mais movimento? forte também quando as Eu acho que a disputa ideias sobre identidades são fruto da existência de se aprofundam na acade- grupos que pensam difemia e na vida, passando rentes dentro do campo a ser uma bandeira nas que luta para a autonomia lutas civis. As mulheres das mulheres. Elas são começam a pensar sobre parte do processo coletivo como se veem no mundo da sociedade. Então, em ou como querem que o qualquer outro debate sofeminismo as veja. Acho bre a transformação, a lique tem sobreposições de berdade de ideias tem que identidades: o feminismo ser a primeira orientação, das mulheres rurais, por para que não haja o apaexemplo, tem uma série de gamento de determinados identidades, que também grupos. O feminismo, na se organiza para a eman- minha opinião, não é só cipação da classe. Então, uma mudança, não é só há uma sobreposição e al- uma identidade que as guns feminismos arrogam pessoas têm. É um propara si a ideia de vertente, jeto de mudança geral da Gláucia Fraccaro já foi coordenadora na Secretaria de Políticas para Mulheres

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“Há muito mais no feminismo do que polêmicas.(...) Isso tem muito a ver com o momento em que vivemos hoje”


Alimentação

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Dezembro de 2016

Veganos fazem surgir nicho de mercado Calçados, sorvetes, lazer e cosméticos já têm estabelecimentos especializados

Manuela Rocha

N

a mesa, nada de origem animal: não tem manteiga, presunto, nem queijo. No guarda-roupa, não entra blusa de seda, nem jaqueta de couro. Na cabeça, uma ética que vai contra a exploração animal para o consumo e entretenimento do ser humano. Esse estilo de vida corresponde ao veganismo cresce no Brasil, como é prova a busca por informações sobre o tema em buscadores de internet. De acordo com levantamento no Google Trends, realizado no país entre os anos de 2011 e 2015, o volume de buscas dos termos ‘vegano’, ‘vegana’ e ‘vegan’ cresceu 700%. Apesar de não haver números oficiais, a estimativa da Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB) é de que 5 milhões de brasileiros sejam veganos. Esses dados são

de 2012 e foram baseados em uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Pesquisa e Estatística (Ibope). De lá para cá, surgiram também diversos estabelecimentos voltados para esse público. Só em Campinas, a cidade conta com espaços educativos, loja de calçados, sorveteria, restaurantes e até uma fábrica de cosméticos orgânicos. De acordo com diretor comercial da Multi Vegetal, empresa de produtos naturais e fitocosméticos Ciro Caetano, a empresa cresceu muito nos últimos cinco anos por conta da internet e das redes sociais, que se tornaram os principais espaços de divulgação. O empreendimento é de pequeno porte, com cerca de 50 funcionários. O casal de ativistas pelos direitos animais Maria Castellano e Cabeto Rocker, donos do espaço educativo vega-

no – COMO? -, também acredita na expansão desse movimento. Na ativa desde 2014, o espaço comercializa almoço e salgados, alimentos congelados, livros, produtos de higiene pessoal, brinquedos educativos e até uma loja com calçados, bolsas e carteiras. Maria afirma que a oferta de estabelecimentos que atendam a esse público está crescendo, assim como o veganismo. Um dos motivos para isso, de acordo com Cabeto, seria o conhecimento e a internet: “Com o acesso à informação, as pessoas conseguem mudar, fazer escolhas. Elas precisam ter essa opção.” A gerente Lidiane Oliveira adotou o veganismo há quatro anos. A executiva relata que para ser vegana “o segredo é sempre pesquisar e se preparar”. Ela comenta que, no começo, ficava horas no supermercado e “lia o rótulo de tudo

Foto: Manuela Rocha

Cabeto Rocker comercializa cosméticos e outros produtos veganos

para garantir que nada fosse de origem animal”. Hoje, conta que frequenta feiras e mercados especializados.“-

Tenho uma fornecedora ótima de brigadeiro em Barão Geraldo, que não deixa nada a desejar ao tradicional.”

Pratos saudáveis e criativos tentam atrair crianças Nutricionistas e pais dão dicas para tornar a refeição mais sedutora e balanceada com técnicas simples

Maria Eduarda Alves

E

ntre verde, laranja, roxo e vermelho, os pais variam as cores dos pratos infantis para chamar a atenção. A alimentação do filho é a preocupação principal e, assim, buscam alternativas para incentivar a criança a preferir legumes ao fast-food. A nutricionista Marcela Bello conta que as crianças associam as cores com os alimentos e, para incentivar o filho a iniciar uma alimentação saudável, o ideal é variar com pratos coloridos, que lembrem os personagens de desenhos animados. “É possível fazer hortas com os filhos e pedir ajuda para preparar a refeição. Eles gostam de provar quando ajudam”, conta. Isadora, de 6 anos, filha de Juliana Puggina, de 38, tem o prato enfeitado pela mãe durante as refeições.

“Ela gosta de comer mais saudável, sempre pede fruta à tarde e aí montamos a comida fazendo carinha”, disse. Isadora pede aos pais para ajudar a preparar a refeição. “Ela gosta de fazer o suco dela. Então, a gente corta a fruta e deixa que ela coloque no liquidificador. Quando ela quer fazer bolo, ficamos acompanhando, mas ela gosta de fazer tudo sozinha”, afirma. De acordo com Marcela, a criança define os hábitos alimentares até os dois anos. Para os pais, é importante manter a criança longe de refrigerantes, doces e alimentos com muito sódio. “Depois disso, ela já criou um hábito saudável e acaba escolhendo os próprios alimentos. Mas isso não quer dizer que ela não possa comer doces em festas”, explica. Luis Gustavo Moreira de Oliveira, de 13 anos,

não tem o hábito de comer frutas. Adelires de Oliveira, mãe de Gustavo, procura variar na hora de fazer sobremesas com frutas para o filho. “Eu faço gelatina com maçã picada no meio, de pera, bastante salada de fruta, sorvete da própria fruta, o sorbet”, explica a mãe. Aline Prates, de 28 anos, mãe de gêmeos de 4 anos, seguiu a linha saudável com os filhos desde o início. A preferência pelos alimentos de feira orgânica seguiu até os 2 anos, até a inclusão de alimentos industrializados. “Depois, eu comecei a introduzir macarrão, grãos e bolacha maisena. Deixei o mais saudável possível que eu consegui”, conta. Para o período escolar, Aline encontrou uma escola que auxilia na hora de manter a alimentação das crianças. O colégio incentiva as mães a levarem lanches para todos os alunos da classe.

Foto: Maria Eduarda Alves

A nutricionista Marcela Bello monta prato com legumes e frutas

Cada uma fica responsável por um dia no mês. Entre as malas de Aline na hora de viajar, uma é só de marmitas. A opção é a mais saudável e prefere levar a comida pronta para se alimentar na rua. “Outro meio de saber como fazer as refeições é pesquisar todos os restaurantes perto do hotel. Eu fui pro Rio de Janeiro, fui de avião e era rápido. Então, levei marmitas com

brócolis, purê de batata-doce e abóbora”, explica. A dica de Marcela para crianças que não têm uma alimentação saudável e consomem doce todos os dias é definir horários e fazer alimentos em casa. “O ideal não é cortar de uma vez. Precisa redefinir os horários. Fazendo alimentos em casa, tem como regular a qualidade dos alimentos e quantidade de açúcar”, aconselha.


Transporte

Dezembro de 2016

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Uber faz taxistas criarem alternativas

Há casos em que descontos de até 30% são oferecidos, mesmo sendo tabeladas pela Emdec Foto: Gabriela Del Rio

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chegada do Uber a Campinas no começo de 2016 fez com que muitos taxistas passassem a oferecer serviços diferenciados e até diminuir os preços das corridas, mesmo que elas sejam tabeladas pela Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas (Emdec). Com o aplicativo, também surgiu uma extensa discussão e conflitos entre a Prefeitura e os próprios taxistas, que sofreram com a ascensão do novo serviço e tiveram que buscar alternativas para compensar a queda nas corridas. Samuel Lemos, taxista há cerca de 20 anos, adotou, na tentativa de atrair clientes, um desconto de 30% nas corridas. Para chamar a atenção, ele instalou uma faixa no ponto, que fica em frente ao Estádio Moisés Lucarelli (Majestoso). “Conversei com os taxistas daqui. Ninguém queria aceitar, mas depois que viram como estava ficando feia a situação, acabaram aceitando. Eu já vinha com essa ideia há mais de um ano, para ajudar todos nós por causa da crise e também porque o Uber vinha crescendo”, conta. Já o taxista Fabio Lucas Silva adotou como tática cobrar o mesmo valor do Uber. Ele pede ao passageiro que faça a simulação no aplicativo, antes de iniciar a corrida. De acordo com o profissional, a concorrência é desleal. “Estou me virando com atendimento, fazendo o melhor para o meu cliente. Quando faço corridas nesse preço, nem faço para ganhar um cliente a mais e, sim, para tirar um cliente do Uber, porque o que eu puder fazer para jogar areia neles, vou fazer.”

Fotos: Gabriela Del Rio

Gabriela Del Rio Ana Laura No

Samuel Lemos, 58 anos, taxista há mais de 20 anos, criou faixa indicando desconto de 30%: concorrência

A possibilidade de pagar um preço menor pelo táxi e até receber alguns mimos – como ocorre no Uber – tem atraído clientes, principalmente pelo fato de que, em alguns horários e pontos, o aplicativo pode cobrar um valor superior ao tabelado para o serviço convencional. Isso porque, o valor do Uber é calculado de acordo com a demanda e a quantidade de motoristas nas proximidades. A estudante universitária Mariana Queiroz, moradora do Parque Prado, já passou por essa situação. Ela afirma que o trajeto com o Uber, no preço mais alto, chega a custar quase R$ 20 a mais do que a corrida realizada com o táxi. “Fico mais atenta por conta das altas tarifas que variam no Uber. Achava-o um perfeito meio de locomoção, por ser bem mais barato. Porém, hoje uso mais de vez em

quando, pois geralmente há tarifas mais altas na minha região.”. No caso do táxi, o valor da bandeirada é R$ 4,95 em dias úteis, das 6h às 18h. Para o cálculo final da corrida, são levados em conta o tempo e a quilometragem. O motorista Vantuil Assis, que trabalha com táxi há seis anos, acrescenta que, com a chegada do Uber, os clientes que ele mais perdeu foram aqueles que fazem corridas menores, em geral saindo de baladas. Diante disso, assim como Silva e Lemos, ele melhorou os serviços. “Obviamente oferecer uma balinha é o de menos. Precisa checar a qualidade do carro, limpeza, vestimenta e o essencial: segurança, confiabilidade e simpatia no atendimento. Tudo isso favorece nosso dia a dia. Eu considero o Uber uma concorrência inferior à minha. Se é inferior, quanto

pior o concorrente, melhor é o meu trabalho.” Assis conta ainda que ele tem curso de direção defensiva e está com os exames médicos em dia. Além disso, ao fazer a divulgação de seu trabalho, ele destaca as exigências que a Emdec faz para que um táxi possa circular, como vistoria semestral no carro e no taxímetro, fiscalização de itens de segurança e, recentemente, a exigência de carros 2.0 e com porta-malas grandes. No caso do Uber, as únicas exigências são: veículo acima de 2008 com quatro portas, ar condicionado e capacidade para cinco lugares, carteira de motorista válida, comprovante de antecedentes criminais, certificado de registro e licenciamento do veículo válido. Preço O preço do táxi em Campinas é mais caro do que

em capitais, como São Paulo, em que a bandeirada sai por R$ 4,50. O Sindicato dos Taxistas de Campinas (Sinditáxi) explicou em nota que entende as decisões particulares tomadas por cada profissional, “tendo em vista que os valores que a concorrência está praticando são fora da realidade. Grande parte do que os usuários querem é menor custo, sem se importar com qualidade, mas não todos, pois muitos têm consciência do que é melhor para ele e para o profissional que ele está contratando”. Já a Emdec destaca que o preço do táxi é uma definição do Poder Público, para manter a qualidade e segurança do serviço, que, na cidade, é operado por 1053 carros. Sobre o Uber, o órgão entende que “o uso de qualquer tipo de aplicativo, bem como o transporte individual remunerado de passageiro, carece de regulamentação. Regulamentação que envolve, principalmente, Legislação Federal”, diz em nota. Ainda de acordo com a Emdec, “qualquer tipo de transporte remunerado de passageiros que não se enquadre na atual legislação é considerado ilegal, portanto, clandestino”. Estudo De acordo com matéria publicada no jornal Correio Popular, no dia 20 de novembro, o secretário de Transportes e presidente da Emdec, Carlos José Barreiro, anunciou, durante uma reunião na Câmara, que a Prefeitura estuda flexibilizar a legislação municipal do táxi, com a intenção de adotar medidas que possam reduzir os custos e ampliar a competitividade do serviço frente ao aplicativo Uber. Sobre este assunto, a Emdec não quis se pronunciar.


Inclusão

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Projetos esbarram em falta de patrocínio Iniciativas facilitariam a vida de pessoas com deficiência, mas ficam restritas a universidades Fotos: Danielle Prado

Lousa digital usa caneta de resposta motora: com tecnologia, usuário poderá reconhecer imagens com resposta tátil. Na foto, um dos idealizadores, Natanael Lopes

Danielle Prado

M

uitas descobertas que facilitariam a vida de pessoas com deficiência não conseguem sair dos institutos de pesquisas e universidades por falta de incentivo e patrocínio. São projetos que ajudariam, por exemplo, a comunicação de surdos e a autonomia de cegos. Sara Squella é doutora em fisiologia e faz parte do Centro de Tecnologia da Informação (CTI), onde elabora o projeto Rede Nacional de Captura de Movimentos, cuja função é criar um banco de dados de gestos e expressões faciais referentes à Língua Brasileira de Sinais (Libras). Para isso são usados sensores em todo o corpo. Os movimentos são captados e mapeados tridimensionalmente. “A ideia não é servir de tradutor, mas de uma linguagem viva”, afirma. O projeto já devia estar pronto, mas a equipe enfrenta dois grandes problemas. O primeiro diz respeito à estrutura. Sem espaço adequado, não é possível gravar

as imagens que formariam o engenharia elétrica e tamO Instituto Nacional de banco de dados. Além disso, bém compõe o CTI. Em oito Telecomunicações (Inatel) o aumento do dólar tornou a meses desenvolveu um sof- também sofre com a falta verba disponível insuficiente tware Leitor Para Cegos. O de incentivo e verbas. Atualpara a compra dos equipa- projeto funciona em três eta- mente o Centro de Desenvolmentos. pas: captura da imagem, por vimento e Transferência de O banco de imagens pos- intermédio de uma câmera Tecnologia Assistiva (CDTsibilitará, quando estiver dis- especial que faz o tratamen- TA), desenvolve 13 projetos ponível, numa expansão dos to da foto, o reconhecimento na área, alguns em parceria conhecimentos. “Os surdos, dos caracteres e a síntese de com outras instituições de na grande maioria, são anal- voz. O programa também ensino, através do comparfabetos. Poucos têm curso é compatível com tablets e tilhamento dos trabalhos completo de Liem rede, para bras, só o básico”, driblar essas diconta. De acordo ficuldades. com Sara, muitos Rani Alves, essurdos utilizam pecialista do hoje aplicativos CDTTA, avalia para se comuniesse trabalho Rani Alves, especialista do CDTTA carem, mas esses como sendo sistemas não dão essencial para conta da compleo desenvolvixidade. “As pessoas apren- smartphones, cujo objetivo mento em TA no país, pois dem errado, porque não há é facilitar a autonomia do é uma soma das especialidauma formação acadêmica, cego, para que ele não de- des “por meio das parcerias, textual, gramatical do con- penda de ninguém para usar nós acabamos ampliando as texto”, observa. A pesquisa- a ferramenta. qualificações e cada centro dora também indica uma Ainda em fase de testes, a vai contribuindo com suas carência na descrição de câmera usada para capturar competências. Isso tudo torpalavras. “O dicionário mais a imagem é de um visualiza- na a equipe mais capacitada, completo da língua portu- dor de documentos, produto gerando mais resultados em guesa tem 120 mil verbetes. importado que custa cerca menor tempo”, comenta. O de libras tem quase 11 mil, de R$ 2 mil. Isso encarece o Dentre os projetos, desou seja, a comunicação é valor final do produto, tor- tacam-se: prótese de mão ruim.” nando a aquisição inviável robótica produzida com Maurício Sol é mestre em para o cego. plástico ABS em impressora

“É essencial a participação de pessoas com deficiência nos testes desses projetos”

3D, com movimentação feita por motores controlados pela atividade elétrica dos músculos remanescentes do próprio paciente. O que ajudaria em atividades básicas da rotina. Além disso, Rani ressalta a importância da participação das pessoas com deficiência, durante os testes e desenvolvimentos dos projetos “as deficiências, às vezes, não são muito específicas e um produto pode não atendar as necessidades de todos, porque as necessidades de adaptação são diferentes”. Ele ainda reitera que “o lema que as PCD’s costumam utilizar é ‘nada para nós sem nós’, então a ideia é que o que for feito pensando neles, também tenha o pensamento deles, afinal, imaginar é diferente de viver”. Os projetos em questão poderiam, se tivessem finalizados, ajudar parte dos cerca de 45,6 milhões de brasileiros que declaram ter algo tipo de deficiência, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o que equivale a 24% da população.


Educação

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Escolas ainda são deficitárias em inclusão Crianças e adolescentes surdas ou cegas, por exemplo, têm dificuldade para vagas no ensino regular Foto: Caroline Luppi

Caroline Luppi

E

mbora a tecnologia que auxilia as pessoas com deficiência visual permita que elas sejam incluídas e consigam ter uma rotina mais fácil, ainda há a necessidade de aprimoramento de técnicas, ainda mais quando se trata da inclusão de adolescentes nessa situação em unidade de ensino regulares. Kelly Martins, de 15 anos, e Vitória Dauri, de 13, estudam em uma escola regular em Amparo, cursando, respectivamente, o primeiro ano do Ensino Médio e o sexto do Ensino Fundamental. Elas são cegas e fazem uso de algumas tecnologias para assistir às aulas, desde as mais antigas, como a máquina de braile, e o Dosvox, um sistema de voz que auxilia a navegação no computador. Kelly acredita que a tecnologia é suficiente por enquanto,

Vitória Dauri utiliza tecnologia assistiva na escola, com apoio da psicopedagoga Sandra de Morais

mas talvez não funcione em longo prazo. “Com a ajuda dos professores, é mais fácil, mas, futuramente, talvez tenha a necessidade de um material melhor desenvolvido, porque tem coisas que eu e o professor improvisamos, combinamos algo que funciona para a

gente, mas que, com um material especifico, seria mais fácil.” A psicopedagoga Sandra de Morais acompanha as meninas durante as aulas e reconhece que a falta de preparo dos professores também é um fator importante, mas o principal ainda são as

limitações das tecnologias. “Se o professor tivesse uma didática de passar o conteúdo para o aluno com deficiência e a tecnologia fosse mais desenvolvida, em algumas situações, elas não precisariam mais de mim”. Dos 37,8 milhões de alunos matriculados no Brasil

em escolas regulares, quase 700 mil têm algum tipo de deficiência, de acordo com o Censo Escolar 2015, divulgado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Vitória sente que sua maior dificuldade ainda é sentir segurança nos lugares: “A gente depende muito de outras pessoas. Só a bengala não é suficiente, talvez com algum tipo mais avançado eu conseguiria andar sozinha mais vezes”. A falta de treino das pessoas com deficiência para o uso das tecnologias inclusivas também é um limitador. Embora o Dosvox ajude a pessoa com deficiência visual a navegar no computador com autonomia, já que o programa lê o que está na tela, a dificuldade é a sua instalação, já que é necessária a ajuda de alguém para baixá-lo. Além disso o software não descreve imagens.

Dança pode ter finalidade terapêutica Projetos sociais e ONGs oferecem vagas para cadeirantes e autistas desenvolverem habilidades Foto: Maria Eduarda Alvez

Maria Eduarda Alves

A

dança inclusiva mostra que não existe barreira para quem quer ser um bailarino. As limitações impostas acabam ficando de lado quando a música começa a tocar. A dança adaptada vai além do corpo e belos movimentos, trata a alma e o psicológico. Para quem assiste é uma apresentação de emoções. Rafael Oliveira, 14 anos, com síndrome de down, pratica vôlei há três anos e kung fu há seis. Já na dança, ele começou em janeiro de 2016, na escola particular Julio Lima Company. A mãe de Rafael, Regina, conta que foca nas habilidades do filho. “A gente vê o que ele tem de habilidade e do que gosta. Vai dando o caminho para ele”, afirma. A professora de Rafael, Hyorrana Lopes, diz que no começo as atividades foram um desafio. “Se você ensinar com calma, faz

Na escola Barracão, de Barão Geraldo, Jovi, de 22 anos, que tem autismo, ensaia com Nina

os movimentos. Não é uma dificuldade, é paciência porque ele tem o tempo dele”, conta. Na escola Barracão, orga-

nização não governamental, o projeto SuperAção gira em torno de dar apoio às pessoas que já passaram por situações traumáticas na vida. Ju-

venal de Andrade, o “Jovi”, de 22 anos, é cadeirante e tem autismo. Ele começou a dançar no começo de 2016, quando, com vontade de pra-

ticar, procurou pelo projeto na internet. Os ensaios são uma vez por semana na sede da instituição, no distrito de Barão Geraldo. Como as aulas são individuais, a atenção é redobrada e, para acompanhá-lo, a professora Ana Carolina Darbello, faz os passos ao lado dele. Nas apresentações, Juvenal diz sentir “frio na barriga” e ficar com medo de errar, mas que sempre está feliz. “Eu vejo as pessoas muito emocionadas quando danço com a Nina”, diz Jovi. Há cinco anos no grupo de dança da Casa da Criança Paralítica (CCP), Juliana, de 20 anos, é cadeirante. Ela era de São Paulo e veio para Campinas aos 3, fazer o tratamento no CCP. Quando terminou o tratamento, aos 15, conseguiu um emprego na área fiscal na Casa e ingressou no grupo de dança. Para Juliana, a prática a motivou. “Comecei basquete e quero começar faculdade de psicologia. Minha inspiração sou eu mesma”, conta.


Cultura

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Intervenções fazem surgir exposição de rua Nas proximidades do Sesc,artistas expõem obras para mostrar os constrastes da região

Foto: Isabella Levy Foto: Ana Laura No

José Márcio leva o filho para visitar os painés da exposição nos muros do Sesc (veja abaixo): intervenções urbanas de cinco artistas campineiros compõem a série

Isabella Levy

Q

uem visitar a unidade campineira do Sesc, no Bonfim, entre outubro e dezembro pode facilmente ficar sem saber o que a fachada traseira das instalações abriga. Intervenções urbanas realizadas no local têm como objetivo fazer uma releitura dos entornos do Terminal Rodoviário sob a ótica de artistas da cidade: como se vê a região mais movimentada e, ao mesmo tempo, invisível da metrópole. Regiões no entorno de rodoviárias, de acordo com o responsável pela exposição Cássio Quitério, costumam ser pouco frequentadas e muito malvistas. A partir dessa concepção, foi escolhido o local para

a realização das intervenções artísticas, buscando uma quebra no meio hostil e acinzentando que cerca a unidade do Sesc na cidade. Foram convidados cinco artistas campineiros para a tarefa. Técnica Há intervenções variadas, mas predominam painéis de colagem. Fotos dos pontos de vistas dos artistas, aliadas a alguma técnica específica – seja sobreposição de imagens ou composição com algum elemento variado – oferecem a quem caminha pelo exterior do Sesc uma visão simultaneamente comum e incomum. Comum pelas imagens: pontilhão, avenida, lugares clichês que todo bom campineiro já sabe

onde fica mesmo se olhar de relance. Incomum é a interpretação artística. A superfície para as produções é o muro cru do Sesc, que ocupa uma quadra da Rua d. José. De acordo com Quitério, as produções não se referem, simplesmente, à arte ou à rua, mas à arte inserida em um contexto específico de uma via, a princípio, sem valor, a que foi dado um novo olhar artístico e revisitado. Pessoas que passam pelo local esticam alguns olhares curiosos para as pequenas placas brancas que carregam o nome dos cinco artistas responsáveis. Não param muito para analisar, são cenários cotidianos, mas suas expressões demonstram divertimento ou

até estranhamento com as locais carregam. Seu trabatécnicas utilizadas. lho envolve grandes intervenções a partir de delicaVisita das aquarelas. O analista de sistemas “O objetivo de meu José Márcio leva ao Sesc, painel é apresentar o estatodos os finais de semana, do de transição e mudanseu filho João, de 9 anos, ça que existe nesta área: o e pela primeira vez repara- caminho entre a Rodoviram na exposição. “Nunca ária e o Sesc. Entre esses paramos o carro por aqui. dois pontos, é possível ver Mas, hoje, nos deparamos mendigos e drogados, mas com os painéis. Acho im- também senhoras, taxistas, portante que meu filho veja visitantes do Sesc. Poras diferentes manifestações tanto, é um caminho com artísticas que o Sesc nos grandes contrastes sociais e oferece”, comenta o pai. variedade de pessoas”, coThiago Bertolozzo, ar- menta o artista. tista plástico formado pela Márcio conseguiu perUniversidade de São Paulo ceber esse contraste. “Para (USP), desenvolve traba- nós, que muitas vezes paslhos artísticos que tensio- samos por essas paisagens nam questões da arquitetura sem prestar atenção, a exe do espaço urbano, focan- posição é uma oportunidado nas relações políticas, de legal para ver tudo com sociais e históricas que os outros olhos.”

Saiba dezembro final  
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