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Número de cães abandonados chega a 30 milhões no País Pág. 8

Desde 2006

04 de abril de 2016

Faculdade de Jornalismo - PUC Campinas Foto: Luiza Araújo

Saúde

O lugar da militância feminista Pág. 4

LGBTs reivindicam direito a doar sangue Pág. 5

Chuvas

Falta de acordo

Mesmo no volume útil, reserva ainda é pequena

dificulta manutenção de monumentos tombados

Pág. 12

Transporte

Na Vila Industrial, Travessa Manoel Dias está em estado precário Pág. 7

Esporte

82,4% dos jogadores têm salário de até mil reais, segundo CBF

De acordo com o órgão, Brasil tem 28,2 mil atletas registrados no futebol. Os altos salários, embora sejam sonho de todo aspirante, são realidade de poucos. Do total, 15,1% recebem entre mil e R$ 5 mil. Apenas 2,5% ganham acima de R$ 10 mil. Só um jogador no País pode se dizer milionário, com salário acima de meio milhão de Reais. Os dados foram divulgados em janeiro deste ano. Pág. 10

Jogos virtuais, como o Ingress, fogem do padrão e fazem usuário ir às ruas para completar missões. Pág. 10

Foto: Rafaela Rodrigues

Sem acompanhamento psicológico Atletas de vôlei e futebol sofrem sem o auxílio de psicólogos nos times da região. Pág. 11

Foto: Divulgação

Realidade aumentada entra em campo

Dos 300 automóveis elétricos no Brasil, 15 estão em Campinas

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Motorista consegue liminar para Uber

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Educação

Deficiência ainda é obstáculo para matrículas

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Opinião

Página 2 RÁPIDAS

Mariana Beneti

CARTA AO LEITOR

Henrique Fernandes e Manuela Farias

Páscoa vende menos que o esperado Em todo o Brasil, a venda de ovos de Páscoa desse ano diminuiu expressivamente. Era esperada uma queda de 4% por causa da crise econômica, mas essa redução chegou a ser de 10% em relação ao ano passado, de acordo com o economista Gilberto Braga, do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec). Entretanto, mercados pequenos sentiram uma diminuição de até 30% nas vendas dos ovos de Páscoa. Para conseguir algumas vendas, os preços dos ovos acabaram ficando mais baixos na última semana.

editores

Estudante tem duas fotos premiadas

Foto: Paula Marian

Paula Mariane, aluna de Jornalismo do segundo ano da PUC-Campinas, teve duas de suas fotos entre as 50 melhores na Sony Photography Awards 2016, concurso que atrai mais de 173 mil candidaturas de 171 países. “The Soldier” e “São Benedito’s Boy” foram as escolhidas. O vencedor ganhará um prêmio de 30 mil dólares e uma publicação de livro. O resultado sai dia 21 de abril. Paula Mariane tem 18 anos e já formou mais de 200 adolescentes em aulas voluntárias de fotografia em Sorocaba no Grupo Imagem, Núcleo de Fotografia e Vídeo. Foi a primeira vez que Paula enviou suas fotos para um concurso. O blog em que ela posta suas fotos é http:// paulamariane.com.br/ blog/ Foto selecionada no concurso

Comércio ambulante aumenta 15% O Sindicado dos Lojistas da cidade de Campinas (Sindilojas) indica um aumento de 15% no número de comerciantes ambulantes, informais, e no comércio eletrônico, que abrange compras por computador e aplicativos. O comércio ambulante é ilegal, e, apesar de fiscalizações constantes, 2016 conta com mais vendedores de produtos nas ruas. A pessoa que estiver vendendo qualquer objeto de forma ambulante pode ter os produtos apreendidos pela Polícia. O comércio eletrônico movimenta mais de 41 bilhões, segundo pesquisa da Sindilojas, e é uma saída legal para os vendedores e consumidores que querem tentar fugir da crise e receber melhores faturamentos e gastos menores,

Expediente Jornal laboratório produzido por alunos da Faculdade de Jornalismo da PUC-Campinas. Centro de Comunicação e Linguagem (CLC): Diretor: Rogério Bazi; Diretora-Adjunta: Cláudia de Cillo; Diretor da Faculdade: Lindolfo Alexandre de Souza. Tiragem: 2 mil. Impressão: Gráfica e Editora Z Professor responsável: Fabiano Ormaneze (Mtb 48.375). Edição: Henrique Fernandes e Manuela Farias Diagramação: Sarah Bulhões e Talita Trevisan

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C

ampinas flutua entre o passado e o futuro, não está de fato nem aqui nem ali. Moderna, com problemas antigos. História em cada esquina, esquecida. Encontra aqui o esporte que caracteriza nosso país e o esporte virtual. Os atletas de carne e osso que jogam com os atletas de pixels. O primeiro Saiba + de 2016 reuniu reportagens que mostram um panorama de Campinas sob vários aspectos. A chegada do aplicativo de transportes Uber em Campinas se mostrou um alívio para os usuários que estão cansados de usar táxis campineiros, que colecionam reclamações com poucas soluções. O serviço oferece uma alternativa aos táxis, mas enfrenta problemas para

funcionar livremente na cidade. Quem sai perdendo é o cidadão. Os aplicativos para smartphones podem parecer pauta batida, mas o avanço que eles proporcionam é sempre novidade. Vários grupos da cidade se reúnem para praticar jogos que misturam o real e o virtual e usam o máximo da tecnologia. Porém, essa mesma cidade que aparenta ser evoluída perde pontos em outros assuntos. No primeiro bairro de Campinas, a Vila Industrial, os patrimônios tombados estão em estados deploráveis que foram esquecidos pela mesma cidade que pode se orgulhar por ter carros elétricos circulando nas ruas. Pois é, Campinas caminha numa via de mão dupla.

CRÔNICA

Colocando os sapatos no “chinelo”

H

ouve uma época que eu era a coisa mais simples que alguém poderia ter. Arrastado no chão, arrastando a vassoura, arrasando nas brincadeiras; toda criança tinha e todo adulto calçava de vez em quando, para ficar em casa. Já fui verde e amarelo para a Copa do Mundo, já me estragaram e continuaram usando: era só colocar o dedão em uma ponta que o resto dos dedos se encaixariam noutro canto. Por essas e outras, sempre fui o culpado de arrebentar dedos mindinhos na ponta da mesa ou da cama. Hoje em dia sou bonito, caro, tenho jeitos diferentes, propagandas elaboradas, até espaço no guarda-roupa para, pelo menos, três tipos diferentes de mim mesmo. Tenho salto e não tenho, sou flexível e tenho estilo, consigo até ir ao shopping, sem deixar de ser chique. Estou na moda. Gosto

Mariana Beneti desse glamour e de ser reconhecido. Mas o que gosto mesmo é de estar sujo, no pé de criança que corre na lama, nos dedos de quem me enfia na areia da praia, no calcanhar de quem dança músicas quase esquecidas. Era no ‘chilepe’ do chinelo que as pernas se entrelaçavam, os rostos grudavam e as cinturas se mexiam num vaivém, vem-e-vira, gira a saia de mulher, gira minha ponta e levanta poeira do chão. O xote tocava com a sanfona e todos os instrumentos, e eu... Bem, eu era o mais importante da cena. Eu não ajudava a entrar no ritmo do forró. Eu o criava, era um arrasta o pé para cá e levanta a risada para lá, até mesmo aqueles que não sabiam dançar e continuavam sentados pareciam incapazes de me deixar quieto, me batiam no chão com uma leveza tranquila, o chinelo que parecia pronto para levantar e rodopiar pelo salão.

As crianças, de vez em quando, não conseguiam acompanhar o ritmo certo, mas elas também não sabiam que esse estilo musical maravilhoso foi criado no século 19, há tanto tempo quanto se pode lembrar. O chão, inicialmente de barro, levantava tanta poeira que era uma mistura de pés se arrastando e baldes de água para molhar onde eu estava prestes a passar, dançante. Desde aquela época, a confusão, a farra, o forrobodó eram os mais especiais de um final de semana! Que saudade sinto das danças de forró! Em Campinas, hoje, só existem dois lugares em que é possível se lembrar dessa dança. Eu estou junto, algumas vezes, sei que estou. É que não me importo se alguém for colar os pés no chão e abrir os sorrisos nos lábios sem usar um bom e velho chinelo como eu, guardado no fundo do armário, no final da prateleira, no canto da história.


Educação

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Famílias reclamam da falta de inclusão Escolas particulares são obrigadas a apresentar plano de acessibilidade, mas as municipais não

Foto: Isabela IsabelaRodrigues Rodrigues Depois de seis anos solicitando à Prefeitura por alguém que pudesse cuidar de Beatricy na escola, a mãe, Leila, conseguiu o auxílio de uma cuidadora que lhe acompanha o tempo todo no colégio municipal onde estuda

Isabela Rodrigues Recentemente, as escolas particulares de Campinas foram informadas de que, em até 60 dias, devem apresentar um plano de implantação do Atendimento Educacional Especializado (AEE), que garante a educação inclusiva aos estudantes com deficiência. A recomendação é uma medida da Promotoria da Infância e da Juventude de Campinas. Em consequência, pais e alunos começaram a questionar o porquê disso não ser exigido, também, para as instituições públicas. Apesar de a Secretaria Municipal da Educação afirmar que existem planos de inclusão para alunos com deficiência nas escolas, muitos reclamam das dificuldades. É o caso de Kyara Cristina Machado Silva, de 16 anos, que teve seu pedido de matrícula negado por ser deficiente visual. “O diretor da escola recusou a vaga por falta de estrutura. Eles alegaram que não tinham a adaptação correta para me receberem”, conta a estudante. De acordo com o diretor do

Departamento Pedagógico da Secretaria Municipal de Educação, Juliano Pereira de Mello, essa conduta é proibida e as normas condenam todo tipo de atitude excludente e preconceituosa. O artigo 2º da Resolução CNE/CEB nº 2/2001 determina que “os sistemas de ensino devem matricular todos os estudantes, cabendo às escolas organizarem-se para o atendimento aos educandos com necessidades educacionais especiais, assegurando as condições necessárias para uma educação de qualidade para todos. (MEC/ SEESP, 2001)”. Sendo assim, Mello destaca que, caso identificada qualquer forma de exclusão, a escola deve ser denunciada, com as devidas provas, aos órgãos competentes, como Supervisão Educacional, Ministério Público e Conselho Tutelar. O que agrava a situação é que o problema vai além da falta de acessibilidade a essas crianças. Muitos pais não sabem como lidar com a situação e acabam aceitando o tratamento inadequado. Beatricy Pereira dos Santos, de 12 anos, tem mielomeningocele,

uma doença causada pela má-formação na coluna, seguida por hidrocefalia. Em consequência, ela tem paraplegia e não controla as necessidades fisiológicas, precisando usar fraldas, aparelhos ortopédicos e fazer fisioterapia e acompanhamentos médicos constantes. A garota também já foi recusada em uma escola pública por causa da doença. Sua mãe, Leila Pereira Ramos, não sabia que poderia recorrer contra isso. “Eu não tomei nenhuma providência judicial, nem sabia que podia fazer isso. A escola agiu tão naturalmente que nos fez pensar que temos culpa por ela ser especial e isso não é verdade”, desabafa. Atualmente, existem 204 escolas públicas municipais em Campinas, sendo que mil alunos com deficiência estão matriculados. No começo do ano, depois de ter a matrícula recusada, Kyara foi aceita em outra escola. O problema é que a instituição não tem estrutura adequada para recebê-la. “Os professores não sabem ler em braille e a escola não me deu nenhum material didático em braille. Eu tenho

que levar minha máquina, que é muito pesada, todos os dias, para poder fazer as anotações”, conta a estudante. Essa situação vai contra o discurso de Gustavo Merlo, diretor do Departamento de Projetos de Inclusão e Acessibilidade (DPIA) da Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida. Ele afirma que “a pessoa com deficiência deve estar no ambiente escolar em condições de igualdade e normalidade dentro das características individuais de cada um, seja através de profissionais específicos para esse atendimento, seja através de adequações físicas ou recursos assistivos”. Tanto Merlo quanto Mello lembram que as escolas municipais têm estruturas para alunos com

deficiência, como rampas de acesso, salas de recursos multifuncionais, piso tátil e até a contratação de profissionais especializados. Tanto Beatriz quanto Kyara dizem, no entanto, que isso não é suficiente. Elas exigem direitos de acesso à mesma educação que as outras crianças têm. “As pessoas têm indisposição para falar desse assunto. Tem muito o que melhorar ainda. É preciso arrumar rampas, guias e, principalmente, as pessoas devem ter consciência sobre a importância dessa questão”, destaca Leila. “Eu sou aluna como qualquer outra. Se eles podem ter caderno, lápis, se eles podem ter o direito de escrever, por que eu não posso? Tenho que ter os mesmos direitos”, reclama Kyara.

O que diz a lei A Constituição Federal de 1988 coloca como um dos seus objetivos fundamentais “promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação” (art.3º, inciso IV) e define, no artigo 205, a educação como um direito de todos, garantindo o pleno desenvolvimento da pessoa, o exercício da cidadania e a qualificação para o trabalho.


Saúde

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Feministas exigem nova postura médica Ascensão dos movimentos traz cobranças em relação à humanização e ao atendimento a vítimas de violência

Com a ascensão dos movimentos feministas nas redes sociais, a reinvindicação de direitos chegou também à área médica. A demanda recaiu na atuação de vários profissionais da saúde, que passaram a exercer um atendimento mais consciente em relação à saúde da mulher. O Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde adota esse ideal. Com a responsabilidade de atender, militar, e desenvolver projetos feministas, a ONG conta com um ambulatório particular acoplado e tem como especialidade o acolhimento a mulheres vítimas de qualquer tipo de violência ou em busca de liberdade reprodutiva e empoderamento do próprio corpo. “Nosso coletivo busca humanizar o atendimento da mulher e oferecer informação de novas propostas de cuidados e tratamentos”, afirma Maíra Bittencourt, uma das responsáveis pelo coletivo. O Sexualidade e Saúde é uma referência no atendimento especificamente feminista e tem como pilar a mulher informada e com conhecimento do próprio corpo. “É no conhecimento do corpo que se dá o real direito e respeito nas relações de cuidado entre o profis-

Foto: Isabel Barros

Isabel Barros

Gabriela Rabelo, psicóloga e simpatizante do feminismo, acredita que é importante reconhecer a voz da mulher na atenção médica, principalmente, em casos de violência

sional de saúde e quem está sendo cuidado”, explica Maíra. Os movimentos feministas também estimulam profissionais atuantes no mercado. A psicóloga Gabriela Rabelo, simpatizante do feminismo e participante dos grupos militantes presentes nas redes sociais, já foi

procurada por mais de 12 mulheres só por se declarar feminista. “Você tem que tratar a mulher com respeito e saber que ela está em uma posição historicamente desfavorecida, de ser silenciada a todo momento.” De acordo com a psicóloga, é dever do profissional acolher essa mulher e exer-

cer uma empatia sobre ela. “Minha família é feminista. Então, eu cresci em um ambiente feminista e sempre fui ensinada sobre a importância de acolher uma mulher”, afirma Gabriela.

tente da medicina, mas já influencia diversos programas e ambulatórios de apoio à mulher violentada. Entre eles o Programa de Atenção Integral à Saúde da Mulher (Paism), o Hospital da Mulher Prof. Dr. Influências Jose Aristodemo Pinotti O feminismo ainda não (Caism) e Projeto Iluminar é reconhecido como ver- Campinas.

Pacientes alegam falta de diálogo

Falta de atenção e menosprezo a tratamentos alternativos dificultam a relação entre profissionais e mulheres Apesar da crescente conscientização dos profissionais de saúde em relação à liberdade do corpo feminino, a busca por profissionais envolvidos na causa continua. De acordo com relatório do Instituto Scielo, sobre a violência contra a mulher no cotidiano dos serviços de saúde, de 2011, “os agravos à saúde, causados pela violência, são queixas frequentes nos serviços de saúde, em todos os níveis de atenção, e raramente são reconhecidos e abordados como tal.” A estudante de Design Thais Hübsch, de 21 anos, que sofre de endometriose

(condição onde o endométrio, tecido que reveste o interior do útero, cresce em outros órgãos da pelve, fora da cavidade uterina), toma um anticoncepcional de carga hormonal elevada desde os 15 anos e vem procurando métodos alternativos para diminuir o uso do remédio. De acordo com ela, seu atual ginecologista não escuta seus pedidos e menospreza os tratamentos alternativos que não exigem uma carga tão alta de medicação. “Quando você conversa sobre outros métodos, os médicos não abrem espaço para

essa discussão. As mulheres têm que saber todas as opções de tratamento existentes e escolherem a melhor para cada caso.” A estudante já chegou a ficar seis meses sem o tratamento, mas teve que voltar por falta de opção. “Metade dos médicos recomendados tratariam meu problema do mesmo jeito. Com a outra metade, mais aberta, é impossível marcar uma consulta. A espera é de quatro meses pra frente, e meu problema é muito urgente”, afirma Thais. Na mesma busca, encontra-se a estudante de Pedagogia Jaqueline Santos, de 29

anos. Vítima de um relacionamento abusivo, Jaqueline procurou a terapia para aliviar seus problemas. “A experiência de fazer terapia é libertadora e dolorosa ao mesmo tempo. Libertadora por ajudar a compreender seus padrões de comportamento, e dolorosa por mexer no passado, em sentimentos e situações que causam dores muito sensíveis”. Apesar de gostar de fazer terapia, Jaqueline não simpatizava com a sua ex-terapeuta. Considerava a profissional homofóbica e preconceituosa com as minorias, e atualmente está em

busca de alguém que simpatize com o feminismo. Segundo Jaqueline, “não precisa ser feminista nem estudante de Psicologia para saber que essas coisas não se fazem, nem sendo uma pessoa qualquer conversando com uma conhecida, e muito menos sendo o profissional em quem essa pessoa confiou para cuidar da saúde mental dela”. Por depender do convênio, Jaqueline não pode arcar com uma terapia particular e, por declarar não sofrer de uma crise grave, continua a sua busca por uma profissional feminista.


Saúde

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Gays cobram direito à doação de sangue Ministério da Saúde e Hemocentros mantêm regras diferentes para doadores que se autodeclaram homossexuais Embora o brasileiro esteja cada vez mais ciente da importância de doar sangue e o número de doadores esteja crescendo, atingindo a marca de 3,7 milhões de doações em 2014 de acordo com o Ministério da Saúde, homossexuais reclamam de regras diferentes e excludentes para participarem da ação. De acordo com a portaria 2.027 de 12 de novembro de 2013, do próprio Ministério, estão inaptos a doar sangue homens que tiveram relações sexuais com outros homens no período de um ano, mesmo usando preservativo e com parceiro fixo. Com essa medida não se sabe ao certo quantas doações de sague são perdidas ao ano, mas de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população autodeclarada homossexual já ultrapassa 17 milhões. Apesar dessa regra ser taxativa, há um grupo em Curitiba (PR) que tenta derrubá-la. O Dignidade foi a primeira organização não governamental LGBT a receber o título de Utilidade Pública Federal e criou uma página no Facebook chamada Igualdade na Veia. “Iniciamos esse movimento na Parada LGBT de São Paulo no ano passado, com uma bandeira com as cores do arco-íris onde a cor vermelha era maior do que as outras. Temos uma petição on-line que já conta com quase 20 mil assinaturas”, diz Fernando Martins, um dos gestores do grupo. Há também famosos que entraram nessa causa, como Jean Wyllys, deputado federal (PSOL-RJ) e embaixador da ONG, e o ator e comediante Paulo Gustavo, que, em outubro de 2015, fez um desabafo em uma de suas redes sociais: “Os testes para se certificar de que o sangue é saudável existem para isso, afinal, doenças sexualmente transmissíveis podem ser passadas por qualquer pessoa: não têm sexo, cor e nem orientação sexual. Enquanto o preconceito acontece, milhares de vidas deixam de ser salvas. Menos de 2%

Fotos: Unicamp

Marina Torkomian

Amostras de sangue recolhidas no hemocentro da Unicamp: testes e restrições, de acordo com Ministério, visam evitar contágio

da população no Brasil doa sangue regularmente.” O médico Dráuzio Varella também falou sobre o assunto em seu canal no YouTube e afirmou que essa medida surgiu na década de 80 com o boom da Aids, mas que, hoje, o termo “grupo de risco”, utilizado a época para definir homossexuais e profissionais do sexo, entre outros, não é mais coerente. O certo, de acordo com o especialista, seria dizer comportamento de risco, uma vez que o que interessa é o número de parceiros sexuais e o estado de infecção ou não dos mesmos. Essa realidade ainda não é conhecida pela maioria dos brasileiros, inclusive para Plínio Melhado, de 21 anos, estudante de Biologia na Universidade Estadual Paulista (Unesp), impedido de doar sangue por ser homossexual. “Ela [respon-

sável pela pré-entrevista] perguntou se eu tinha tido relações com alguém do mesmo sexo e eu disse que namorava um menino. Ela pediu desculpas e explicou que homossexuais só podem doar sangue se não tiverem relações por um ano. Eu fiquei chateado. Uma das minhas amigas tinha transado com um cara que ela não conhecia, sem camisinha, e doou sem problema nenhum. Eu, que só transava com camisinha e com um só parceiro, não pude doar.” Isso também aconteceu com Murilo Papareli, de 20 anos, estudante de Publicidade e Propaganda, na Universidade de Taubaté (Unitau). Na entrevista antes da doação, ele foi barrado mesmo namorando há dois anos e mantendo relações seguras com o parceiro. Decepcionado, o estudante também fez uma postagem em sua

rede social: “Tenho mais de 18 anos. Não bebo. Não fumo. Tenho uma alimentação saudável. Não uso nenhum tipo de drogas. Não tenho tatuagens. Estou em um relacionamento estável há mais de dois anos. Não pude doar sangue. Ou está sobrando muito sangue por aí, ou já passou da hora de mudarem algumas coisas”. A publicação teve mais de 150 curtidas e vários comentários negativos à proibição. Sobre a presença de tatuagens, a regra pelo Ministério da Saúde é de que só podem doar pessoas que as tenham feito pelo menos 12 meses antes, isso porque há um risco de contaminação durante o processo. Ministério O Ministério da Saúde emitiu uma nota técnica em 2006, em que cita um estudo produzido na Inglaterra por

No ano passado, 3,7 milhões de doações de sangue foram realizadas no Brasil, de acordo com o Ministério da Saúde: crescimento

Kate Soldan e Katy Sinka, dizendo que a permissividade de doação de sangue por homens que fazem sexo com outros homens (HSH) aumentaria o risco de um sangue contaminado pelo HIV entrar no banco de sangue de 0.45 para 2.5 ao ano. Outro estudo, feito por Célia Landmann Szwarcwald e Aristides Barbosa Junior pela Sessão Especial da Assembleia-Geral das Nações Unidas (UNGASS), diz que a probabilidade de desenvolver Aids entre os gays e outros HSH é, pelo menos, 18 vezes maior do que entre os heterossexuais. O Hemocentro da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) reiterou que não há restrição na doação de sangue por homossexuais, desde que não tenha mantido relação nos 12 meses antecedentes. Já a Santa Casa de São Carlos (SP), que também recebe doações de sangue, reconheceu que existem restrições aos homossexuais masculinos ou àqueles que se definem como HSH. O mesmo não acontecem com mulheres que fazem sexo com mulheres (MSM), porque não há evidências, neste grupo, de que haja um aumento de casos de doenças sexualmente transmissíveis pelo sangue. A Santa Casa explicou ainda que as restrições acontecem para garantir a qualidade do sangue que será transfusionado, uma vez que as análises laboratoriais apresentam o período de janela sorológica (período entre a contaminação do indivíduo e o aparecimento de marcadores laboratoriais). É por causa desse período, inclusive, que algumas restrições para doação de sangue chegam aos 12 meses, já que as análises sanguíneas podem demorar até um ano para detectar alguns agentes infecciosos. Apesar de os dois locais concluírem que as doações de 2015 supriram a demanda das cidades, as instituições informam que as campanhas são intensificadas em datas comemorativas, como o Carnaval e festas de fim de ano, e no Inverno, quando a procura pela doação diminui consideravelmente.


Transporte

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Campinas tem 15 carros elétricos

CPFL, Unicamp e CPqD avaliam impactos desses veículos; cidade tem 12 postos de abastecimento Até o ano passado estavam registrados pelo Departamento Nacional de Trânsito (Denatran) cerca de 300 veículos totalmente elétricos em circulação no País. Em Campinas, já são 15. Para estudar os efeitos dos automóveis movidos a energia elétrica, a CPFL, em parceria com a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e o Centro de Pesquisas e Desenvolvimento (CPqD) realizam um projeto de pesquisa para avaliar os impactos dos veículos elétricos no Brasil. No escopo de estudo dessa pesquisa também estão os pontos de abastecimento (eletropostos) dos veículos. Atualmente, 12 postos já funcionam na cidade, uma parte deles foi instalada durante o projeto de pesquisa da CPFL e outra pela BYD, fabricante de veículos elétricos chineses instalados em Campinas. Os pontos de carregamento estão em modo experimental e, portanto, não podem cobrar pelo abastecimento. O coordenador do projeto na CPFL, Wendell Willian Teixeira, diz que a proposta envolve também orientar o posicionamento de distribuidores de energia sobre os impactos na rede de distribuição de energia elétrica e as oportunidades da introdução da mobilidade elétrica no País. O tempo de duração para completar a carga de um veículo elétrico varia de carro para carro, assim como a sua autonomia. Como no Estado de São Paulo ainda não existem muitos pontos de abastecimento além de Campinas, os carros não conseguem fazer longas distâncias. Nas condições de abastecimento atuais, não é possível, por exemplo, sair de Campinas com destino a Ribeirão Preto (a 250 km), já que lá não há como abastecer o veículo. Um carro elétrico consegue andar em média 5,5 km por kwh de energia elétrica consumida. Cada kwh custa R$ 0,65. Para andar 100 km, o custo seria de R$ 13,00.Se fosse um carro a gasolina, com consumo médio de 12 km/l, o valor chegaria a R$

Foto: Natália Mariotto

Natália Mariotto

O taxista Juraci Soriano de Lima dirige carro elétrico. Ele está satisfeito, mas precisou se adaptar, pois, dependendo do local em que estiver, só o guincho consegue tirar o carro

30,00. O preço do veículo, no entanto, ainda não é convidativo. Ainda não existem carros populares com essa tecnologia e o Brasil ainda não tem montadoras. Por enquanto, as únicas marcas que dispõe desses veículos no País são BMW, Fiat, Range Rover, Renault e BYD. Porém, apenas a BMW possui ofertas para pessoas físicas. Para sair dirigindo um carro movido a eletricidade, é preciso desembolsar cerca de R$ 230 mil. Vantagens e desvantagens Além do menor valor de consumo, os veículos elétricos trazem mais beneficio à sociedade por não emitirem gases poluentes e serem mais silenciosos. Se abastecidos com energia elétrica proveniente de fontes renováveis, também não provocarão a emissão dos gases do efeito estufa, responsável pelo aquecimento global. Normalmente, os veículos elétricos serão carregados na própria residência do usuário. Porém, quando o trajeto for maior que a autonomia do veículo, será necessário carregar em um eletroposto público, os quais poderão estar dispostos em pontos estratégicos dos municípios, estabelecimentos comerciais e também nos locais de trabalho. A marca chinesa de au-

tomóveis BYD está investindo nos carros com essa tecnologia. Ela forneceu quatro veículos a eletricidade em Campinas. Entre eles, estão três táxis. Juraci Soriano de Lima, presidente da associação dos taxistas de Campinas, possui o modelo. Para ele, o carro elétrico possui mais benefícios do que o carro comum. “Estou muito satisfeito. É um projeto em que eu acredito.” Para o taxista, a única desvantagem é ter de carregá-lo todos os dias, pelo menos por 50 min. “Já me adaptei à minha rotina. Você não pode deixar de ter energia. Sem energia, a única opção é o guincho. Estou sempre atento. Você consegue, com o passar do tempo, ir se adaptando a toda essa rotina”. Além de diminuir os gastos com combustíveis, já que o custo da energia elétrica é menor, Lima contou que suas corridas aumentaram devido à curiosidade dos passageiros em experimentar. De acordo com Teixeira, o desenvolvimento desse mercado no Brasil requer políticas industriais que promovam o desenvolvimento e fabricação local desses veículos, permitindo a inserção do País nessa modalidade. Atualmente também há impostos mais severos aos veículos elétricos comparado aos veícu-

los convencionais, sendo necessária a adequação da tributação para que sejam possíveis ofertas com preços mais equilibrados. De acordo com ele, nos países em que essa tecnologia é mais desenvolvida, há fortes incentivos governamentais para diminuir o preço do veículo e estimular o interesse dos usuários, tais como o pagamento de bônus ao comprador, a implantação de redes de carregamento abrangentes e a permissão de livre circulação nas grandes cidades, por meio de faixas exclusivas a ônibus e sem limitações nos horários de maior movimento. Os primeiros resultados dos estudos revelam que o incremento de veículos no Brasil ocorrerá de forma gradual e que a elevação do consumo de energia elétrica seja pequena em relação ao consumo atualmente existente e, portanto, os impactos previstos deverão ser muito pequenos, de acordo com Teixeira. Além disso, aumentando a oferta de energia, ocorre também o surgimento de fontes alternativas de energia elétrica renovável, como as de origem eólica, solar e também a microgeração residencial, em que os próprios consumidores gerariam parte de sua energia por meio do uso de painéis solares em suas residências.

Impressões Repórter dirige carro

Ao entrevistar o taxista Juraci Lima, tive a oportunidade de dirigir o carro elétrico. Diferente do que se imagina, o veículo é bastante potente, com 122 cavalos. Seu torque equivale a um carro 2.0. O mecanismo de direção é basicamente o mesmo. O carro não possui marchas e todas as informações necessárias como porcentagem de energia que o carro possui, quanto de carga necessita e quilometragem que ainda se pode rodar ficam disponíveis no painel. Um item interessante é que o próprio usuário pode aumentar a autonomia do motor. Quando o carro está em desaceleração, sem o uso do acelerador, ele automaticamente recarrega a bateria. Dessa forma, ao dirigir, o motorista adquire costumes próprios de veículos elétricos. Lima comentou que, usando esse mecanismo, já conseguiu aumentar a autonomia em 50 quilômetros. “Tudo é uma questão de se adaptar”. O diferente é você estar sempre com a atenção no painel.” Outro ponto diferente, é a presença de dois modos de operação, o econômico e o esportivo, permitindo que ao condutor dar preferência à economia ou ao desempenho.


Cidades

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Sem preservação, bens correm riscos Patrimônios históricos tombados, entre eles a Vila Manoel Dias, não recebem apoio da Prefeitura

Cerca de 500 bens estão tombados atualmente em Campinas, sendo públicos ou privados. No entanto, a situação de muitos deles preocupa. É o caso de proprietários de imóveis tombados na Travessa Manoel Dias, na Vila Industrial, que reclamam da falta de apoio do poder público para a preservação das casas. As construções são do início do século 20 e foram feitas a partir da iniciativa privada. Manoel Dias, que deu o nome à Travessa, construiu as casas para vender a trabalhadores da região da Vila Industrial, que atuavam, principalmente, na ferrovia. O local tem 40 moradias e está tombado desde 1994. Para o motorista de caminhão e morador da Travessa há 30 anos Valter Luiz Rocha, um dos maiores problemas da Manoel Dias é a falta de apoio da Prefeitura. “Eles falam que o governo disponibiliza valores para a Prefeitura fazer um check-list nos imóveis tombados, mas isso nunca chega para nós. Tinha um casarão abandonado na esquina. Avisamos a Prefeitura várias vezes que a casa estava comprometida, mas não fizeram nada. Um dia a parede cedeu e desabou, colocando em risco a vida de pessoas”, afirma Rocha. De acordo com o historiador do Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Campinas (Condepacc), Henrique Annunziata, a lei 5.885, de 1.987, proíbe a intervenção do governo em bens públicos e privados, sendo dever do proprietário preservá-lo. “Usar dinheiro público para arrumar um imóvel privado não faz o menor sentido. O imóvel tem proprietário, então é obrigação dele cuidar”, explica Annunziata. Ele acrescenta ainda que, na Travessa, há casas com multas altas devido a alterações feitas sem autorização, chegando no valor do imóvel. “Eles nunca se pré-dispuseram a fazer o que cabia a lei 5.885, que dá auxílios aos imóveis tombados, mas os moradores da Manoel Dias não quiseram saber sobre isso”, afirma o historiador.“Teoricamente,

Foto: Luíza Araújo

Luiza Araújo

Valter Luiz Rocha, morador da Travessa Manoel Dias, na Vila Industrial, reclama da falta de apoio da Prefeitura para manter imóvel

qualquer reforma exige autorização da Prefeitura, não só nos bens tombados. Mas, no caso do imóvel tombado, é mais necessário, porque tem a questão de ser preservado”, afirma o urbanista João verde, professor da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas). As multas para quem modificar algo que a Coordenadoria Setorial do Patrimônio Cultural (CSPC) não autorizou equivalem a 20% do valor da área do bem tombado; a segunda, 50%. A partir da terceira, 80% do valor. A administradora Iamane da Silva mora há duas semanas na Travessa. “Tem casas muito antigas, com muita

infiltração e rachaduras. O problema é que não pode mexer em nada na parte de fora, só dentro”, diz Iamane. Tombamento Para um imóvel ser tombado, ele necessita de uma importância histórica na cidade, uma legitimidade que sirva como base para ele se tornar um patrimônio histórico. Annunziata explica que o processo de tombamento de um imóvel tem várias etapas e qualquer cidadão pode solicitar o documento inicial na prefeitura. O documento é encaminhado à CSPC, órgão responsável pela análise técnica do imóvel, o qual vai estudar o estado que o bem

se encontra e o que pode ou não pode fazer após o tombamento. Aceito ou não tecnicamente pelo CSPC, é responsabilidade do Condepacc aceitar as condições. O imóvel tombado não pode ser demolido. É o grupo de estudo do CSPC que define o que pode ser modificado no imóvel original, pois cada um tem uma resolução própria. “Já fiz reforma na casa, mas sem mudar a fachada. Procuro preservar o imóvel”, acrescenta Rocha. “Eu moro há 36 anos em Campinas e sempre na Vila Industrial. Eu gosto muito daqui porque é próximo de tudo, igual a Vila não tem”, conta o motorista. Até 1.996,

os proprietários de imóveis tombados podiam solicitar a isenção de IPTU. A lei, contudo, foi revogada. Atualmente, é possível solicitar a lei de potencial construtivo, a qual dispõe de recursos para os proprietários restaurarem o imóvel. A Secretaria de Planejamento e Desenvolvimento Urbano avalia o zoneamento do local e calcula qual o potencial construtivo do imóvel, ou seja, quanto pode ser construído a mais caso não seja tombado. O proprietário tem três anos para utilizar a verba. “Na Vila Industrial não houve, por parte dos proprietários, interesse de manter, de preservar as casas. Infelizmente, também teve uma época de derrocada da Vila, com o fechamento dos cortumes, com a desativação das ferrovias. Então, foi se perdendo a característica do bairro”, explica Verde. Segundo o urbanista, os imóveis que não têm uso poderiam se transformar em comércios ou consultórios, por exemplo. Por outro lado, de acordo com Verde, poderia existir o interesse por parte do poder público em transformar a Vila Industrial num bairro como a Vila Madalena, em São Paulo. “Tem diversos tipos de negócios que são montados porque é a Vila Madalena e aquilo atrai, favorece, implementa”, afirma. Ele reconhece ainda a necessidade de um empreendedor, que pudesse revitalizar as casas e aproveitá-las para negócios. Outro caso Um imóvel tombado que também está em péssimas condições e corre o risco de desabar está localizado na Rua Cônego Cipião, 1.074, no Centro. A casa foi construída em 1894 pelo engenheiro Heirrich Hüsemann, construtor de diversos edifícios em Campinas, como o Lidgerwood Manufacturing Company Limited, o atual Museu da Cidade, também no Centro. O bem foi tombado em 1991 e hoje é usado como estacionamento. A casa não possui mais teto, as paredes estão caindo e uma árvore cresceu no meio do imóvel. O proprietário do estacionamento não quis comentar o assunto.


Pets

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04 de abril de 2016

Preconceito também na adoção de cães

Estimativa é de que, no Brasil, existam 30 milhões de animais abandonados; em Campinas, são 20 mil

Foto: Larissa Batajelo

O vira-lata Neco está há 10 anos no abrigo da Upar, em Indaiatuba. Doente, tem pouquíssimas chances de ser adotado. No mesmo local, outros 170 animais, entre cães e gatos, também esperam por uma família

Larissa Batajelo Em fevereiro deste ano, 87 cães foram resgatados do canil Bocainas Border, no distrito de Joaquim Egídio, em Campinas. A ação, que envolveu três organizações não governamentais (ONGs), ocorreu após uma denúncia anônima e teve o apoio da Guarda Municipal. O canil, especializado na raça border collie, será investigado por maus tratos, segundo a Secretaria de Segurança Pública (SSP). O episódio dos border collies mostra, além dos problemas de higiene, maus-tratos nos canis de procriação. A Focinho Abandonado, uma das ONGs responsáveis pelo resgate dos cães e que cuida de 44 deles, recebe, diariamente, mensagens de pessoas interessadas em adotar esses animais. O problema é que, como a ONG possui apenas a tutela temporária, eles não podem ser doados e também não estão em condições para tal, como expli-

ca Renata Negrão, uma das gestoras. “Quase todos os cães resgatados daquele lugar horroroso tinham reações lamentáveis devido ao estresse causado pelas condições absurdas em que viviam. Alguns se debatiam, comiam as grades de metal, viviam encolhidos. ” Segundo pesquisa realizada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2014, estima-se que Brasil possua 30 milhões de animais abandonados. São 10 milhões de gatos e 20 milhões de cães pelas ruas do País. Seguindo o parâmetro da OMS de um animal a cada 15 habitantes, a Prefeitura de Campinas acredita que a cidade possua cerca de 150 mil animais domésticos, entre cães e gatos. Desse número, cerca de 20 mil estariam em situação de abandono. O canil e gatil municipal de Campinas são de responsabilidade do Departamento de Proteção e Bem-Estar Animal e contam com cerca de 200 animais, a maioria já

pronta para adoção. Renata revela um dos motivos da preferência dos brasileiros pelos cães de raça: “Um vira-lata, às vezes, cresce mais do que deveria e em outras fica menor. As pessoas não têm certeza de como o cão vai ficar... O brasileiro ainda está aprendendo e entendendo o que é um cão vira-lata, foi se cultuando por muitos anos a compra de cachorros de raça, porque a pessoa já sabe mais ou menos o temperamento e o tamanho. Então é mais fácil, mais cômodo”. Como ajudar? Podem ser doados pacotes de ração, medicamentos, produtos de limpeza ou até mesmo seu tempo nos eventos. Se você tiver interesse em apoiar algum projeto, o contato pode ser feito pelas redes sociais: Focinho Abandonado, em Campinas: http://www.focinhoabandonado.com.br/ e União Protetora dos Animais de Rua, em Indaiatuba: facebook.com/uparuniaoprotetora.indaiatuba.

Upar tem 170 à espera de ajuda e famílias

ONG de Indaiatuba foi fundada em 2002 A história de Neco se repete em quase todo o País. Foi um dos primeiros a chegar no abrigo da União Protetora dos Animais de Rua (Upar), em Indaiatuba, ainda filhote. E, apesar do porte pequeno e dos longos pelos castanho-avermelhados, que podem até lembrar uma raposa, nunca foi adotado. Hoje, Neco já passa dos 10 anos, possui um problema de baixa imunidade que afetou quase todo o seu pelo e toma, diariamente, um remédio forte usado no tratamento de pessoas com câncer. As chances de encontrar um bom lar para o Neco estão diminuindo. “As pessoas já têm esse preconceito por ele não ser um cachorro de raça e agora com o problema de pele e a idade avançada, fica difícil arrumar um lar, mas é isso que ele precisa agora, para seguir o tratamento”, explica Daniela Martinatti, gerente de eventos da ONG. A Upar existe desde

2002 e, atualmente, conta com um espaço próprio, onde cuida de animais resgatados em situação de risco. “Muitas vezes, as pessoas deixam os cães na porta do nosso abrigo. Em outras, encontramos cadelas prenhas, filhotes, cães maltratados e abandonados e acabamos trazendo pra cá, cuidamos e depois levamos para a feirinha de adoção”, conta Daniela. Com quase 170 animais, uma das dificuldades é encontrar um lar responsável. “As pessoas adotam o filhote na feirinha e algumas acabam devolvendo porque cresceu demais ou porque não cresceu o suficiente. Chegam até a jogar o cão na rua. Enquanto é filhote, é pequeno, está tudo lindo”, relata Daniela. “É muito difícil encontrar pessoas que queiram adotar os cães mais velhos, muitos deles acabam a vida toda assim, em um canil, sem o amor e o carinho que merecem”, completa.


Transporte

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04 de abril de 2016

Taxistas: 1 em cada 14 tem reclamação

De acordo com Emdec, os registros feitos pelo público dizem respeito às leis de trânsito e destrato a passageiros

A Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas (Emdec) registrou, em 2015, 312 reclamações contra taxistas. Um a cada 14 motoristas recebeu uma queixa no ano passado. Campinas, atualmente, tem 2.154 taxistas, que trabalham em 993 táxis convencionais, 20 veículos acessíveis e 40 executivos. Entre as principais reclamações estão motoristas que dirigem em desacordo às leis de trânsito (79 registros), destratam o usuário (25), recusam passageiro (24) e cobram mais (22). O canal, um número de telefone exclusivo da Emdec para denúncias, 3772-1517, registra também ocorrências dos próprios taxistas nos pontos de táxi. O presidente do Sindicato dos Taxistas Permissionários Autônomos de Campinas, Jorge Pansani França, reconhece as quei-

Foto: Isabella de Vito

Isabella de Vito

O taxista Vagner Eduardo Cortezia também reclama das condições. Para ele, ganhos diários são poucos e não compensam os gastos

xas. “Nós sabemos que alguns taxistas cometem abusos, mas como o número de reclamações pelo canal da Emdec é baixo, o sindicato não tem como agir para corrigir os problemas.” Segundo a Emdec, todos os taxistas são orientados e, com base na gravidade da ocorrência, a

empresa abre um processo administrativo para apuração do caso. Para o universitário Keivan Guido Salimi, os serviços de táxis em Campinas estão cada vez piores e ele afirma já ter tido diversos problemas com taxistas. “Eles estão cobrando muito caro por

corridas curtas. Já cheguei a pagar o dobro do que ficaria uma corrida. Já fui recusado por se tratar de distância curta e um que aceitou a pouca distância foi grosso durante todo o caminho”, desabafa o estudante. Salimi afirma que, apesar dos problemas enfrentados, nunca fez ne-

nhum tipo de reclamação ou denúncia na Emdec por não saber a efetividade do canal. O taxista Vagner Eduardo Cortezia explicou que, com todas as vistorias e despesas que os motoristas têm, a reclamação do preço pelos passageiros é injusta. “Tem motorista que ganha R$ 50 por dia. Isso não cobre os gastos que ele tem com o carro, como gasolina, desgaste dos pneus e pastilhas”, reclama Cortezia. O motorista ainda afirma que problemas com passageiros são corriqueiros e que os taxistas não têm como reclamar. “Acontece sempre de passageiro chamar o táxi e, quando chega ao destino, fala que não tem como pagar. Uma vez, fiz um Boletim de Ocorrências, mas nada aconteceu. Os passageiros têm onde reclamar. Nós, motoristas, não temos garantias. Isso mata uma classe”, conclui Cortezia.

Liminar dá direito a motorista da Uber Apenas um taxista, Jorge Akira, já conseguiu na Justiça a livre circulação; outros trabalham apreensivos

O Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) concedeu liminar para o motorista de Campinas (SP) Jorge Akira para atuar no transporte de passageiros com o aplicativo Uber. Com a decisão, a Secretaria de Transportes fica impedida de realizar qualquer medida que impossibilite o livre exercício da atividade. Essa é a primeira vez que um motorista de Uber ganha esse direito. Uma lei municipal de 2010 considera ilegal todo transporte individual de pessoas que concorra com táxis. Porém, segundo o advogado de Akira, Renan Rossi, a liminar foi baseada em uma Lei Federal da Política Nacional de Mobilidade Urbana, a qual permite o transporte individual privado. A medida possui caráter preventivo, para que o carro do cliente não fosse apreendido. Akira, ex-taxista e dono de uma frota de trans-

Foto: Vanessa Sartor

Vanessa Sartor

Jorge Akira foi o primeiro motorista da Uber, em Campinas, a receber liminar do TJ-SP

lado executivos, acredita que a proibição ao Uber é injusta. “Mesmo emitindo nota fiscal, recolhendo encargos e pagando impostos, somos taxados de clandestinos. Meu serviço é diferenciado. Todos os motoristas são bilíngues e estão trajados de

terno e gravata.” Para ele, a discussão em torno do aplicativo precisa ser feita, já que o transporte privado tende a beneficiar a todos. “A livre concorrência aquece a economia, principalmente no momento de crise em que vivemos. Diversas pes-

soas que estão desempregadas estão escolhendo o Uber para sobreviverem.” Rossi, na mesma direção, ressalta a importância de se ter um amplo mercado de transporte. “Vedar a legislação para o exercício do Uber viola normas e princípios constitucionais, como a livre concorrência.” A liminar concedida a Akira trouxe diversas consequências. “Eu já estou sofrendo represália e perseguição, principalmente dos taxistas que não entendem meu posicionamento. Mas eu também já fui taxista, eu sei como funciona. Eu estou dando minha cara a tapa.” Outros motoristas estão entrando com a mesma ação, assim como Akira, que pretende entrar com uma nova liminar coletiva. De acordo com o motorista, a classe de transportes particulares é desunida, o que traz consequências ruins para todos. “Eu acredito que uma liminar coletiva seria um bem

para todos, pois aí, sim, estaríamos ajudando a combater o transporte clandestino.” Sobre os protestos dos taxistas, o motorista afirma que o objetivo deve ser a permissão do Uber e não a proibição, uma vez que o aplicativo possui uma grande aceitação da população. “Não sou pró-Uber. Sou pró-democracia. Eu quero brigar pelos meus direitos, quero entrar com liminares e mandatos de segurança”, diz Akira. O prefeito de Campinas, Jonas Donizette (PSB), informou que continuará impedindo a operação do aplicativo Uber na cidade. Já a Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas (Emdec) afirmou que irá tomar ciência da liminar para tomar posicionamento. O Uber começou a operar em Campinas no dia 27 de janeiro e a Administração lançou uma ofensiva contra os motoristas, fazendo constantes apreensões na cidade.


Esporte

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04 de abril de 2016

Jogo para celular integra virtual e real Para participar do Ingress, jogadores precisam ir em busca de portais na cidade, indicados pelo aplicativo

Para os jogadores de Ingress, jogo para celular de realidade aumentada, as praças, os monumentos, as estátuas e até a caixa d’água de um supermercado possuem outro significado. São portais. Criado por um laboratório estadunidense, Niantic, o jogo leva os praticantes a saírem de suas casas para alcançar objetivos. Assim, não é necessário ficar o tempo todo dentro de casa para se divertir. A designer Amanda Yoshiizumi, de 24 anos, conheceu o jogo por indicação de um amigo e o pratica há cinco meses. “Não pretendo parar tão cedo”, adianta. Cercado por estratégias, o Ingress é baseado em uma história fictícia, dividindo os jogadores em dois times: os Iluminados e a Resistência. Assim, o jogador deve ir até “portais”, locais estabelecidos pelo jogo, espalhados por pontos influentes da cidade. Na história, esses lugares são entradas para a energia XM, que influenciaria a humanidade. Ao chegar a um desses

Fotos: Rafaela Rodrigues

Rafaela Rodrigues

Time de Campinas do Ingress também é composto por família inteira

Interface do jogo: objetivo é encontrar “portais” colocados por jogadores na cidade

locais, o jogo, por meio do GPS, reconhece a presença do jogador, que conquista o portal e o integra à equipe. “Jogar sozinho não tem graça. Ele foi feito para ser jogado em equipe. É totalmente estratégico e estamos jogando no mesmo local, pelo mesmo objetivo”, afirma Amanda. Segundo o desenvolvedor Niantic, o jogo, lançado em novembro de 2012 foi baixado mais de 14 milhões de vezes e continua a conquistar adeptos. No início deste ano, o evento “Anomalia Obsidian” reuniu cerca de 550 jogadores no Rio de Janeiro, e mais 150 pessoas pelos computadores. O organizador

filhos (um de 7 e duas de 6 anos) e a esposa Cristina Nunes, 32 anos, acabam jogando juntos. “Nós cinco somos um, fazendo o plano traçado pelo time. É muito legal termos isso, independente do placar, temos diversão, passeamos em lugares novos, conhecemos amigos e compartilhamos mais tempo juntos.” Para inflamar também a movimentação regional, foi criado o “1º Sábado do Mês”, em que os jogadores se reúnem para discutir sobre o jogo. “Nesse encontro reunimos as duas facções para conversar e nos divertir”, conta Amanda, jogadora da região que ajuda a reunir os partici-

Edgard Soutelo conta que o evento tem a intenção de unir e estimular os jogadores. “É um jogo dentro do jogo, são objetivos específicos. Esse evento estimula a união entre as pessoas. Ganha o time mais organizado e unido”. O developer master Glaudison da Silva, 35 anos, joga há quase um ano na região de Campinas e conta sobre a cumplicidade que existe dentro do aplicativo. “Essa convivência social é rara na maioria dos jogos. Precisamos de uns aos outros para treinar e para jogar.” A realidade aumentada acabou modificando também a rotina da família de Glaudiston que, com três

pantes para os encontros. Ao estimular as pessoas a saírem para conhecer o mundo, o jogo se torna um desafio que, em certos momentos, é até perigoso. “Tive que pular o muro de três cemitérios, pois fiquei preso dentro deles. A polícia já me parou diversas vezes para saber o que estava fazendo parado em lugares remotos à noite. Tudo para pegar um portal”, compartilha Edgard. Assim, Amanda ressalta “é preciso estar sempre atento. ao que acontece ao redor e tomar cuidado com horários.” O jogo para celular Ingress, pode ser baixado na Google Play Store e na AppStore gratuitamente.

Futebol: maioria ganha até R$ 1 mil

CBF divulga salários dos atletas e revela que ganhos mensais acima de R$ 10 mil não chegam a 3% do total Guilherme Vicentini Ser jogador de futebol e ganhar milhões numa carreira é o sonho de boa parte dos jovens brasileiros. Mas um relatório divulgado pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) jogou um balde de água fria nesse desejo fanático pela carreira futebolística. A inesperada informação indica que os salários da maioria não são nada convidativos. O levantamento do Departamento de Registros e Transferência da CBF analisou o salário dos 28 mil atletas registrados pela entidade. Desse total, 80% ganham até R$ 1 mil por mês e 96,08% não passam de R$ 5 mil. Esse número fica ainda mais surpreendente tendo em vista os maiores salários aplicados no futebol – acima de R$ 200 mil – os quais representam pouco mais de 2% do total. Desses dados apenas um atleta aparece com ganhos acima dos R$ 500 mil mensais. Se-

possuem uma renda mensal já pré-estabelecida com arQUANTO GANHA UM recadações extras, portanto, JOGADOR BRASILEIRO? a receita é maior em comparação aos clubes pequenos, o que interfere diretamente na relação dos valores proporcionados aos atletas.” O professor e historiador oficial da Ponte Preta, José Neto, ratifica essa dificuldade encontrada pelas equipes do interior em virtude da mudança no sistema do esporte. “A criação da Lei Pelé acarretou em um favorecimento nas negociações dos grandes clubes brasileiros com empresários. O pequeno clube foi desvalorizado no mercado de transferências de jovens promessas e hoje não se consegue mais manter o atleta no clube. Há uma falta de apoio das federações e, principalmente, um privilégio na arrecadação de Breno Scarano e sua amostra de produtos comprados no exterior: preço é a facilidade receitas aos grandes clubes”. gundo o superintendente de menor expressão. “A dispaSegundo Neto, a única futebol do Guarani, Valdir ridade não está no valor dos maneira de alterar esse panoLins, esses números com- salários dos jogadores, mas rama é uma mudança radical provam a grande dificuldade na estrutura oferecida pelos na maneira de se constituir o enfrentada pelos clubes de clubes. As grandes equipes mercado de negociações es-

portivas. “A única salvação desses clubes é uma regulamentação do mercado com benefícios aos tradicionais clubes formadores e uma valorização na divisão de cotas de televisão.” Outra influência considerada negativa na estrutura do esporte é a escassez de competições nacionais que possibilitem a geração de maior renda aos clubes do interior. Hoje em dia, pela falta de competitividade das equipes, os contratos com os jogadores são curtos e não possibilitam uma estabilidade na instituição. Esses profissionais são obrigados a ter uma rotatividade muita alta no mercado, o que acarreta prejuízos na vida social e principalmente financeira desses atletas. “Os campeonatos são deficitários com uma forte e desleal concorrência entre esses jogadores que acabam aceitando condições precárias – como um salário abaixo do custo de vida – para continuar a atuar nesse ramo”, afirma Lins.


Esporte

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04 de abril de 2016

Clubes não têm atendimento psicológico

Maioria dos times de futebol, entre eles Guarani e Ponte, não contam com apoio profissional para questões emocionais

O meia Fumagalli, do Guarani, e o técnico Pintado, no Brinco de Ouro. Para eles, o psicólogo deve ser visto como o novo profissional do futebol, desde as categorias de base

No vôlei, a situação é a mesma

Para especialista, acompanhamento especializado pode definir resultados Os times de alto rendimento Renata Vôlei Valinhos Country e Vôlei Brasil Kirin também não têm psicólogos nas equipes. Para o técnico do clube de Valinhos, André Rosendo, a maior dificuldade do time para disputar grandes partidas é a falta de um profissional para lidar com as emoções das atletas antes e após os jogos. “Nos treinos eu não sou apenas técnico, tenho que orientar as jogadoras em relação ao controle emocional. Muitas partidas exigem total concentração e foco para não perder pontos decisivos. Um preparo psicológico nos treinos para orientar as jogadoras sobre como se comportar nesses momentos é fundamental”,

afirma. Já o time do Vôlei Brasil Kirin conta com um suporte maior. Apesar de os jogadores não possuírem um psicólogo, a equipe conta com a coaching Larissa Zink. “Muitas pessoas confundem o coaching com o trabalho do psicólogo. Mas nós trabalhamos com um objetivo, uma meta a ser cumprida e, a partir disso, trabalhamos para alcançar o resultado. Já a Psicologia trabalha com o reparo de um problema, com algo negativo que está acontecendo e precisa ser solucionado para não atrapalhar o desempenho do atleta”, explica. Para Larissa, não se pode dizer que o trabalho de coaching é melhor que o

do psicólogo. Segundo ela, são trabalhos complementares, que devem ser realizados de forma conjunta sempre visando o equilíbrio emocional dos atletas. Para Mariele Camargo, que joga há dois anos na posição de oposta no Renata Vôlei Valinhos Country, a presença de um psicólogo na equipe é fundamental. “Eu já joguei em times que tinham psicólogo e a diferença é clara! Quando conversava com o psicólogo em sessões particulares, eu deixava minhas dificuldades fora da quadra e conseguia me concentrar no jogo, porque eu sabia que tinha esse apoio, não precisava enfrentar tudo sozinha. Hoje, sem o psicólogo, é

mais complicado! Conversamos muito com o técnico, que ajuda toda a equipe, mas, como geralmente as conversas são coletivas, não há a exclusividade para tratar de problemas particulares”, explicou Mariele. Já Mariana Capovilla, ponteira do Renata Vôlei Valinhos Country, também concorda que a presença de um psicólogo na equipe é indispensável em diversos sentidos. “É muito importante ter um acompanhamento, um especialista com quem a gente possa conversar tanto sobre assuntos profissionais quanto pessoais. O desequilíbrio emocional pode fazer a gente perder pontos decisivos em uma partida”. Foto: Letícia Pires Foto: Divulgação

Guarani, Ponte Preta, Red Bull, Renata Vôlei Valinhos Country e Vôlei Brasil Kirin: cinco times de alto rendimento da RMC e todos sem apoio de um psicólogo. A falta desse profissional para auxiliar os atletas em momentos decisivos é uma reclamação recorrente dos técnicos dessas equipes. De acordo com a psicóloga do esporte Mayara Alves, “em equipes de alto rendimento, os atletas são muito bem preparados física e tecnicamente. A disputa é mais acirrada e o diferencial nesse caso é o preparo psicológico. É o controle mental e emocional que pode definir o time vencedor.” Para o técnico Pintado, do Guarani, o psicólogo é um novo profissional no futebol. “É muito importante iniciar esse acompanhamento desde as categorias de base para preparar o atleta para enfrentar desequilíbrios emocionais que acontecem ao longo dos campeonatos. É impossível decidir bem uma jogada se o jogador não estiver emocionalmente preparado. O psicólogo é um grande apoio para a comissão técnica.” A Ponte Preta e o Red Bull também não possuem especialista para auxiliar os jogadores em questões psicológicas. Na Macaca, no lugar de um trabalho específico, o próprio técnico se responsabiliza por conselhos, incentivos e palavras motivadoras. Apesar disso, na medida em que se observa uma necessidade de auxílio externo para determinado atleta, o clube contrata temporariamente um psicólogo. “O psicólogo vai trabalhar as habilidades mentais do atleta durante a periodização para que, no momento da disputa, ele seja capaz de se beneficiar das técnicas e se concentrar mais facilmente, sem deixar que a pressão da torcida (seja dele ou do adversário), as expectativas do clube, a ansiedade e outros fatores prejudiquem seu desempenho”, explica Mayara.

Foto: Sarah Bulhões

Letícia Pires

Equipe feminina do Vôlei Valinhos Country não tem psicólogo. O técnico, André Rosendo, tenta compensar deficiência em momentos de conversa com as jogadoras


Entrevista

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04 de abril de 2016

Mudança de prognóstico?

A meteorologista do Cepagri Ana Ávila discute aumento de chuvas em 2016 e perspectivas para o resto do ano Foto: Leandro Ferreira

Na represa Atibainha, no município de Nazaré Paulista, o volume de água está parcialmente recuperado. Em 2014, especialistas diziam que poderia demorar até 2020 para que volume fosse integralmente atingido

Vitor Apolinario

O Verão 2015/2016 apresenta volume de chuvas acima da média histórica para a região de Campinas. Tal situação é diametralmente oposta ao observado na mesma estação no biênio 2013/2014, na qual houve um atípico período de estiagem no Estado de São Paulo. À época, o prognóstico também não era bom. O variável e, por vezes, imprevisível comportamento climático que impera sobre nossa região é tema de estudo da pesquisadora Ana Ávila, Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas em Agricultura (Cepagri). Ela explica que a mudança de prognóstico climático era esperada e que, mesmo com o acúmulo maior de chuvas, ainda existem riscos e desafios para o abasteO Sistema Cantareicimento. Confira a entrevista ra ainda está na faixa dos que o Saiba+ realizou com a 30% de volume de água. pesquisadora: Alguns estudiosos dizem que, mesmo que tendo saíNós tivemos um biênio do do volume morto, o nícom um cenário catastró- vel da represa ainda inspira fico para a região. Porém, um uso consciente da água. este último verão apresenta Você concorda com essa vium comportamento oposto. são? Isso significa que os progSim, concordo. Vou citar nósticos que indicavam um um exemplo: Você acabou período de secas muda- de sair do cheque especial, ram? então, não estamos mais no A gente tinha um prognós- volume morto e sim no votico de que a situação normal lume útil. Mas, isso significa para a nossa região, com chu- que, mesmo no volume útil, vas no Verão, voltasse. Só que ainda estamos com pouca retudo apresenta uma variabili- serva. Se as chuvas ocorrem dade natural, você tem uma dentro da normalidade, com

redução nos meses de março e abril, essa reserva vai ser queimada nos próximos meses. Nós temos o risco do alto consumo, já que a nossa região apresenta uma concentração muito grande de pessoas, de agricultura e também de indústrias. Os fenômenos El Nino e a Zona de Convergência do Atlântico também influenciam o regime climático na

região? São diferentes. O El Niño se caracteriza por influenciar o clima em várias partes do globo, então é extremamente importante e afeta o clima em várias regiões, variando tanto positivamente quanto negativamente o volume de chuva e, na maioria, aumentando a temperatura de determinadas regiões, sendo a RMC uma delas. A Zona de Convergência do Atlântico Sul é um Foto: Vitor Apolinario

média e, dentro dessa média, você tem uma variabilidade. Então, por exemplo, se nós tivéssemos uma situação um pouco abaixo da média, a situação seria bem catastrófica. No entanto, como nós temos observado, a média está de normal para ligeiramente acima, o que nos leva a um cenário mais positivo. Nós temos muita água para poder recuperar totalmente os reservatórios. Os rios, que enchem mais rapidamente, já voltaram à sua condição normal, mas a grande questão são os reservatórios, em especial o Cantareira, que precisa ainda recuperar-se e isso não vai acontecer em apenas um Verão. Entretanto, de forma geral, nós conseguimos um fôlego extra para o período do Outono e Inverno.

A pesquisadora Ana Ávila afirma que a grande questão ainda são os reservatórios.

fenômeno de tempo, ou ela atua ou não. Este ano, ela está atuando, o que não aconteceu nos últimos verões. A Zona de Convergência do Atlântico Sul é a grande responsável pelas chuvas aqui na nossa região. É o sistema monsônico, com secas no inverno e chuvas no verão. Então, o fato de a Zona de Convergência do Atlântico Sul ter se tornado mais característica neste Verão foi a razão um maior volume de chuvas? Foi. Ela atuou em uma situação mais regular. Além de tudo, os fenômenos de tempo característicos do Verão também atuaram, o que proporcionou este período mais chuvoso. A gente está em um período de chuva, pois temos a umidade proveniente da região amazônica que forma um bolsão de calor que circula de encontro às frentes frias e formam as precipitações. É uma combinação desses fenômenos. Existe alguma previsão para os próximos meses desse ano? Os modelos de tempo longo não têm uma boa resposta para nossa região. Então, temos que contar muito com a climatologia e o que ela nos diz é que devemos ter uma redução do volume de chuvas agora no Outono que vai culminar com um período de menor chuvas no Inverno.

Revisado saiba mais março 2016 pdf  
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