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“Não cheguei a ser censurada na ditadura. Só fui censurada na nova república”, diz Laerte Pág. 12 Desde 2006

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Faculdade de Jornalismo - Puc Campinas

Foto: Camila Lourenço

Nova Glicério custará R$ 6 mi

Com o objetivo de valorizar e revitalizar o patrimônio cultural e arquitetônico do Centro, a Prefeitura irá iniciar em janeiro de 2015 uma série de mudanças na estrutura da Avenida Francisco Glicério. As reformas visam valorizar a acessibilidade, a mobilidade, a estética e a limpeza. Comerciantes têm dúvidas sobre os resultados. A Prefeitura também não apresentou nenhum projeto específico para os moradores de rua. Pág. 3 Foto: Bruna Gomes

Foto: Divulgação

O antes e o depois: segundo projeto divulgado, é assim que a Avenida Francisco Glicério, em frente ao campus central da PUC-Campinas, ficará após reforma Foto: Amanda Bruschi

Artes marciais complementam tratamentos para doenças emocionais Pág. 7

Bíblia Freestyle divide opiniões Criado por pastor Ariovaldo Junior, livro recheado de gírias e expressões de baixo calão que promove uma releitura da bíblia voltada a jovens causa polêmica entre estudiosos do assunto. “Mas, desse modo, com palavrões e expressões desnecessárias, acredito que haja certo desrespeito com os textos religiosos”, diz teólogo José Geraldo Souza, do Centro Universitário Claretiano.

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“Esquecido”, MIS resiste mesmo com poucos visitantes

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RMC computa 25% dos votos para candidatos evangélicos Levantamento mostra que candidatos que associam seus nomes à fé nas urnas cresceu 54% em relação à eleição de 2010. Na Região

Metropolitana de Campinas (RMC), 1,3 milhões de votos foram conquistados por três candidatos evangélicos. Pág. 5

Sinfônica de Campinas reproduz concerto da década de 20 No mês seguinte a seu aniversário de 85 anos, a Orquestra Sinfônica de Campinas irá reproduzir um concerto do ano de 1929, quando foi fundada. A apresentação será na Concha Acústica da Lagoa do Taquaral, no dia 16 de novembro, com entrada gratuita. Regida por Victor Hugo Toro, terá presença especial de Ivan Lins. Pág. 8 Foto: Vinicius Tavares

Anatel deve diminuir número de orelhões em até 60%

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Restaurantes japoneses em Campinas crescem 700% em 10 anos

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Opinião

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RÁPIDAS

Por João Augusto Damasceno

PUC-Campinas promove festival de música para alunos O VI PUCFEST – Festival de Bandas PUC-Campinas – Edição “Estilo Livre”, tem início no mês de novembro. Com o período de inscrições até o dia 31 de outubro, o evento é aberto para qualquer aluno que esteja se graduando ou se pós-graduando na Universidade, com a matrícula regularizada. A ordem de apresentação das bandas será definida por sorteio, momentos antes do início do evento. Com o intuito de fazer um torneio divertido e grande plateia, a final está programada para acontecer no dia 3 de dezembro, na Praça de Alimentação do Campus I. Os três primeiros colocados serão premiados, nos valores de R$ 1.200 (1º colocado), R$ 600 (2º colocado) e R$ 300 (3º colocado). Além da premiação em dinheiro, os três primeiros colocados irão gravar um programa especial pela TV PUC-Campinas. Para mais informações acesse: www.puccampinas.edu.br. Foto: Divulgação

CARTA AO LEITOR Giovane Caruso Marcel Kassab editores

GP do Brasil de Fórmula 1 tem ingressos disponíveis No próximo dia 9 de novembro, acontecerá o GP do Brasil de Fórmula 1, penúltima corrida do ano e que pode definir o piloto campeão da temporada. Com o título de equipe já conquistado pela equipe Mercedes, a briga agora acontece entre o piloto inglês Lewis Hamilton e o alemão Nico Rosberg, ambos da escuderia alemã. Para o brasileiro que tiver interesse em estar presente na corrida, os ingressos estão disponíveis no site oficial do evento: https://www.gpbrasil. com.br. Os ingressos variam entre R$ 695 e R$ 6.950, podendo comparecer nos treinos livres (dia 7), treino classificatório (dia 8) e corrida (dia 9). Foto: Divulgação

GP em Interlagos, São Paulo, é o penúltimo da temporada em 2014

Expediente Jornal laboratório produzido por alunos da Faculdade de Jornalismo da PUC-Campinas. Centro de Comunicação e Linguagem (CLC): Diretor: Rogério Bazi; Diretora-Adjunta: Cláudia de Cillo; Diretor da Faculdade: Lindolfo Alexandre de Souza. Tiragem: 2 mil. Impressão: Gráfica e Editora Z Professor responsável: Fabiano Ormaneze (Mtb 48.375). Edição: Giovane Caruso e Marcel Kassab Edição de capa: Giovane Caruso e Marcel Kassab Diagramação: Ana Carolina Pertille e Bárbara Garcia

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Essa edição do Saiba + (produzida pelos alunos da turma 43 do período matutino da Faculdade da Faculdade de Jornalismo da PUC-Campinas) mostra o que será feito no projeto arquitetônico de R$ 6 milhões, custeado pela prefeitura, com objetivo de revitalizar o centro da cidade. A reportagem explica como o projeto pretende reformar a Avenida Francisco Glicério, que vai servir de modelo para toda a revitalização da área do centro. Essa edição traz também uma entrevista com a cartunista Laerte, que fala sobre censura e transgeneridade em uma reportagem que faz parte de um projeto interdisciplinar, também desenvolvida em vídeo que pode ser acessado no portal Digitais (digitais-puccampinas.wordpress.com/espelho-urbano) e via QR Code. Para usar esse recurso é preciso ter o aplicativo QR Reader no smartphone ou tablet. Ele pode ser baixado

gratuitamente. O jornal mostra também como artes marciais podem funcionar como aliadas no tratamento de doenças emocionais como depressão, síndrome do pânico e hiperatividade. Os novos aplicativos, que prometem facilitar o monitoramento de atividades físicas com pulseiras e relógios inteligentes que calculam calorias queimadas, velocidade, distância percorrida e até padrão de sono, também são pauta. Confira também a novidades e as polêmicas da nova bíblia freestyle do Pastor Ariovaldo Junior, fundador da Igreja Manifesto Missões Urbanas de Uberlândia. A edição mostra também que Campinas e região elegem cada vez mais religiosos. No total, 25% dos 1,3 milhão de votos para deputados federais foram conquistados por três candidatos ligados a religiões evangélicas. Boa leitura!

ARTIGO

40 ANOS DE DESTRUIÇÃO Gustavo Gianola

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redadores, devastadores ou até mesmo assassinos. Sim, os adjetivos podem até soar radicais ou exagerados a nós, seres humanos. Porém se relacionados ao fato do desaparecimento de mais da metade dos animais selvagens do nosso planeta em apenas 40 anos devido à ação do homem, temos, sim, que ser julgados por nossas péssimas atitudes em relação à preservação do meio ambiente. Segundo o artigo “Planeta Vivo”, divulgado pelo Fundo Mundial para a Natureza (WWF), as populações de mamíferos, aves, répteis, anfíbios e peixes foram extintas em mais de 50%. A conclusão, alarmante à conservação da biodiversidade, reflete aos maus hábitos que o homem exerce, principalmente a caça e a agricultura. Em todo o mundo, as espécies terrestres e marinhas diminuíram em 39%. Já as os seres vivos de água doce decresceram mais ainda, chegando a margem de perda de 76%

de suas espécies. Para nós brasileiros, residentes da América Latina, o buraco é mais em baixo, com a pior queda, de 83% do total de animais. Segundo JeanFrançois Timmers, superintendente de Políticas Públicas da WWF-Brasil, tal fato deve-se em nossa região resultante do desmatamento, da destruição dos ecossistemas aquáticos e da pesca no litoral. O documento da WWF ainda mostra que a demanda global é maior que a capacidade de reposição do planeta. Seria necessário uma Terra e meia para atender às necessidades atuais. Isso explica que a mudança climática, também resultado da ação do homem no meio ambiente, é responsável pela extinção de algumas espécies. Estamos consumindo 50% a mais do que a natureza é capaz de repor ao ano. E a tendência, que é crescente, só vai piorando a situação, devido ao crescimento da classe média, principalmente na

Ásia, que faz a demanda aumentar ainda mais. Nossas péssimas ações no meio ambiente acabam de ser comprovadas, porém ainda temos salvação para mudar nossos hábitos e pensar no futuro. O Greenpeace divulgou em seu site soluções para que, até 2020, o Brasil faça sua parte para diminuir o ritmo do aquecimento global, assegurando a biodiversidade e fazendo o uso responsável do patrimônio local. Dentre elas, as principais são o desmatamento zero, criação de mais áreas protegidas, regularização fundiária e a governança. Sabemos que essas alternativas nunca serão realizadas exatamente da forma como foram colocadas em pauta. Por isso devemos começar com pequenas atitudes, cada um fazendo a sua parte, pois já está mais do que na hora de criarmos consciência e pensarmos no futuro de nossas gerações, senão a próxima espécie a ser extinta será a nossa.


Cultura

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Glicério gastará R$ 6 mi em revitalização Projeto prevê mudanças nos quiosques, nas calçadas, recuperação de prédios históricos e limpeza

Bruna Gomes Raíssa Bazzo

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presentado pelo prefeito Jonas Donizette (PSB), no dia 11 de setembro de 2014, o projeto arquitetônico de revitalização do Centro de Campinas, segundo a Prefeitura, deve ter início em janeiro de 2015 e deverá ser finalizado antes do Natal do mesmo ano. O custo será de R$ 6 milhões. O trecho a ser revitalizado vai da Avenida Orosimbo Maia até a Aquidabã e vai servir de modelo para a revitalização de toda área central. O projeto arquitetônico, doado pelo Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB), foi assinado pela arquiteta Maria Rita Amoroso e tem fotos e informações de como a Glicério ficará depois da obra. Alguns incentivos também serão oferecidos às empresas que desejarem se instalar no Centro, caso um projeto de lei que trata desse assunto seja aprovado na Câmara. O objetivo, segundo a Prefeitura, é valorizar a área central, revitalizar o patrimônio cultural e arquitetônico, resgatar a convivência e impulsionar a economia e a habitação, entre outras ações. Para Debora Correa, de 25 anos, atendente de um quiosque de salga-

dos em frente à agência dos Correios, a obra não será benéfica para os proprietários das barracas estabelecidas na calçada. “Escuto sobre a reformulação há pelo menos seis anos, pois já trabalho aqui há oito, mas acho que não vai ser bom para os comerciantes, porque vão nos tirar dos nossos lugares e colocar as barracas mais para cima”. A atendente se refere ao fato de que as barracas, pelo novo projeto, passarão a ser instaladas apenas do lado esquerdo da avenida, em locais prédeterminados pela Administração Pública. Em reunião na Câmara, os vereadores e secretários responsáveis pelo projeto puderam apresentá-lo aos comerciantes e moradores da Glicério. Segundo Adriana Flosi, presidente da Associação Comercial e Industrial de Campinas (Acic), que também participou da reunião, o órgão vai contribuir com a fiscalização da obra, auxiliando os comerciantes e moradores da avenida. De acordo com Adriana, um documento será redigido para expor quais são os direitos dos comerciantes da área. O projeto será custeado pela Prefeitura e pelas empresas e associações participantes. As intervenções arquitetônicas

Fotos:Bruna Gomes

Av. Glicério será restaurada a partir de janeiro de 2015 e segundo Prefeitura será entregue no final do ano

valorizam a acessibilidade, a mobilidade de pedestres, a estética e a limpeza visual. As placas publicitárias serão regulamentadas, os fios de energia e telefonia serão aterrados e as calçadas ampliadas, padronizadas e passarão a ter seis metros de largura. Hoje, têm metade disso. Já as barracas e bancas terão a disposição adequada e

Reunião na Câmara dos Vereadores apresenta projeto de restauração para moradores e comerciantes

serão transformadas em quiosques. O piso da calçada, grande reclamação da população, será refeito com material mais resistente para que buracos e elevações inadequadas possam ser evitados. Pontos de ônibus, placas de informações e luminárias serão trocados para valorizar prédios históricos da cidade. O arquiteto e presidente do Conselho Municipal de Desenvolvimento Urbano de Campinas (CMDU), Fabio Bernils, defende um plano de requalificação para a área central. Ele leva em consideração as mudanças ocorridas na Rua 13 de Maio, onde calçadas foram ampliadas, aumentando o espaço para o pedestre caminhar sem a intervenção de veículos, mas que, em contexto geral, não provocou nenhuma mudança extrema de intervenção urbana, como, por exemplo, na poluição visual. O arquiteto também questiona a participação de moradores e comerciantes que não foram incluídos no projeto e não possuem conhecimento a respeito da requalificação. “Parece-me algo que vem de cima para baixo. Como uma obra desse porte

que estão propondo está sendo planejada? Quem ou qual órgão público está responsável por esta obra?”, pergunta Bernils. Quando questionada sobre os moradores de rua que tomam as calçadas da avenida, a Assessoria de Imprensa da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Social e de Turismo da Prefeitura Municipal de Campinas, não apresenta nenhuma solução prática. À noite, é comum ver dezenas de moradores de rua dormindo embaixo de marquises na avenida. A assessoria respondeu apenas que a Secretaria Municipal de Cidadania, Assistência e Inclusão Social (SMCAIS), responsável pelos serviços de atendimento às pessoas em situação de rua, disponibiliza uma série de serviços para atendimento dessa população. Qr Code


Inclusão

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Turismo adaptado cresce e gera projetos Sociedade Brasileira de Espeleologia promove visitas monitoradas em cavernas, grutas e cavidades Fotos: Arquivo da SBE

Bárbara Garcia

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uem pensa que acessibilidade significa apenas construções de rampas e estruturas afins na cidade está enganado. Como um conjunto amplo de ações concretas e morais que ajudam na inclusão total, envolve também atividades turísticas e de lazer. O Ministério do Turismo (Mtur) tem vários projetos voltados à participação das pessoas com deficiências. O programa Turismo Acessível, lançado pelo Governo Federal, por meio do Decreto nº7.612/2011, é um exemplo disso. Outros programas são os projetos Destinos Turísticos de Referência, Novos Rumos e o Programa Internacional Sem Limites, lançado pelo Instituto Brasileiro de Turismo (Embratur). O município de Socorro (a 118 quilômetros de Campinas) é um dos dez destinos de referência em turismo adaptado indicados pelo Mtur. A atração mais famosa é o Parque dos Sonhos, com adaptações em atrações como tirolesas, rafting, boia-crosses, arvorismo. O local, mantido pela iniciativa privada, foi criado há pouco mais de 7 anos. A ONG “Aventura Especial” ajudou o parque com as adaptações nas modalidades de aventura. O jornalista Dadá Moreira, presidente da ONG, começou a utilizar o turismo de aventura como forma de reabilitação. No parque, é também possível ficar hospedado. Todos os quartos, banheiros e áreas comuns são adaptados com rampas, pisos táteis e placas com descrição em braile. Há também monitores para auxiliar os visitantes. Outra iniciativa para atender ao público é comandada pela Comissão de Espeleoinclusão, da So-

Visitantes, monitorados por ONG, exploram Gruta da Beleza em São Desidério, no Estado da Bahia

ciedade Brasileira de Espeleologia (SBE). Trata-se de ações que criam condições para que pessoas com deficiência, autismo, síndrome de Down ou idosos possam explorar ambientes naturais como cavernas e cavidades. O presidente da SBE, Marcelo Rasteiro, conta que, atualmente, existem 680 cavernas de São Paulo registradas no Cadastro Nacional de Cavernas do Brasil (CNC) e que o controle das visitações nas cavernas do Estado de São Paulo é feito pela fundação florestal. A iniciativa do projeto foi da coordenadora Érica Nunes, que tem deficiência motora, e utiliza cadeira de rodas. Ao visitar o Parque Estadual Turístico do Alto da Ribeira (Petar), no município de Iporanga (região Sul do Estado de São Paulo), percebeu que o local não possuía condições para receber esse tipo de público. Depois de apresentar trabalho acadêmico sobre o tema no 28º Congresso Brasileiro de Espeleologia, ela foi convidada pela SBE

Cadeirante recebe ajuda na Caverna do Diabo em São Paulo

para fazer o levantamento das cavernas, cavidades, grutas e abismos e não parou mais. Após essas análises, ela e uma equipe de 10 pessoas de diferentes áreas de atuação, decidem como direcionar a visitação para as pessoas com deficiência. As primeiras cavernas visitadas foram as de Santana e Alambari de baixo, ambas no Petar. Depois, foi a vez de oferecer o serviço no Parque Estadual Caverna do Diabo, em Eldorado (no litoral Sul de São Paulo), a Gruta do Anjo, em Socorro, e Lapa Claudina, em Monte Claros (norte do Estado de Minas Gerais). Também visitaram o Parque Estadual de Intervales, seguindo pelo abismo Anhumas e a Gruta do Lago Azul, em Mato Grosso do Sul, além da visita na Gruta da Beleza, em São Desidério, na Bahia. As adaptações são feitas apenas nos parques, que recebem rampas e banheiros adaptados, por exemplo. Quanto às cavernas, é a pessoa interessada que deve se adaptar, a partir de uma entrevista, da qual também faz parte o fisioterapeuta Márcio Renê Silveira. “Nós que devemos nos adaptar à realidade da caverna e não a cavidade às nossas necessidades”, diz Érica. Ela ainda lembra que, após a equipe fazer o levantamento da cavidade, são definidos os locais posíveis de visitação por pessoas com deficiência. Todos os parques co-

bram ingressos para visitação. Uma das cavidades de mais fácil acesso é a Gruta do Anjo, em Socorro, porém dentro do parque não há banheiros adaptados. “Outro lugar onde a equipe é altamente qualificada para atender pessoas com deficiência é o Abismo Anhumas, em Bonito (MS)”, conta Érica. Segundo ela, a exploração desses locais ainda é pouco conhecida e restrita, já que não existem cursos específicos para profissionais que queiram se tornar instrutores e alguns equipamentos necessários estão em falta. Apesar de enviarem muitos materiais para o Mtur informando de sua existência e necessidade, a organização não possui nenhum apoio ou incentivo do Ministério. Para Érica, os principais benefícios da visita é a possibilidade de descobrir algo novo sobre a fauna e flora. “Foi uma experiência muito boa, sentir pelo tato

como é o interior da caverna. Quando o meu guia descrevia as formações da caverna, eu as imaginava em minha mente. É como se eu pudesse ver”, conta Argemiro Domingos dos Santos, que possui deficiência visual. Outra iniciativa é o livro digital “Turismo Adaptado”, de Ricardo Shimozakai, diretor comercial e consultor em acessibilidade em turismo de sua própria empresa, que tem o mesmo nome do livro. Ele pode ser adquirido pelo email: ricardo@turismoadaptado.com. br e custa R$ 35,00. Internet Na internet, já existem vários sites específicos para tratar de turismo adaptado. É o caso do “Brasil para Todos” (www.brasilparatodos.com.br), com informações detalhadas sobre a legislação relativa à acessibilidade, os melhores destinos com guias de atrações, bares, hotéis, restaurantes, história do local, espaço para avaliação dos internautas e descrição das adaptações disponíveis. Campinas Em Campinas, segundo a Secretaria da Pessoa com Deficiência, a cidade possui parceria com o MTur em eventos específicos, como o “bus tour” pelos pontos turísticos da cidade. Nesses casos, a secretaria fornece guias em Língua Brasileira de Sinais (Libras), audiodescrição e veículo acessível. Não existe, no entanto, nenhuma parceria com o setor privado nem com o governo do Estado. A secretaria também afirmou não existir legislação municipal específica com relação às pessoas com deficiência terem acesso ao turismo.

Segundo o Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2010, o País possui cerca de 23,9% da população com alguma deficiência (em torno de 45,6 milhões) sendo a visual a mais comum, ficando com 18,6% dos casos. O Ministério mantém, na internet, um site sobre turismo acessível (www.turismoacessível.gov.br), que pretende ser um guia colaborativo, com a possibilidade de troca de opiniões sobre lugares e opções de lazer para pessoas com deficiência.


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Cidades

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Orelhões devem diminuir até 60%

Principal motivo para a retirada da maior parte dos telefones públicos é a grande quantidade de celulares Foto: Ricardo Magatti

Mesmo próximo a orelhões, celular é o preferido das pessoas

Ricardo Magatti

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om a relevante popularização dos telefones celulares, o número de orelhões nas ruas caiu drasticamente e os que ainda existem são pouco utilizados, o que fez com que a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) colocasse como meta a retirada de até 60% dos aparelhos. Atualmente, o País tem 845.117 telefones públicos, administrados por cinco operadoras. De acordo com a Anatel, cerca de 62% dos orelhões processam, em média, até duas chamadas por dia, considerando as ligações recebidas e realizadas - aliado

à grande preferência pelo celular e formas de comunicação digital. Cerca de 42% dos aparelhos realizam menos de uma chamada por dia. Só aproximadamente 8% dos orelhões fazem mais de sete chamadas ao dia. Segundo o Ministério de Telecomunicações, hoje existem 271,1 milhões de celulares no Brasil, o que representa 1,35 aparelho por habitante. Em comparação com os números de 2011, quando 115,4 milhões eram os donos brasileiros de celular, houve um aumento de quase 135% dos números de celulares. Um fator que pesa a favor dos orelhões, para que eles não virem “peça de museu”,

é a utilização da telefonia pública por turistas, principalmente nas cidades praianas. O estudante de administração Derek Dalto, de 20 anos, é uma dessas pessoas que compram cartões de orelhão para usar quando estão na praia e deixam o celular de lado pelo preço dos interurbanos. “Geralmente, eu uso cartão telefônico para ligar para os meus pais quando estou na praia, porque vale bem mais a pena. Tem cartões telefônicos de cargas diferentes, geralmente eu gasto R$ 10,00 e falo bastante, enquanto que, em dois minutos numa ligação interurbana, eu já teria gasto os mesmos R$ 10”, afirma o estudante. Um cartão telefônico, de acordo com a Vivo, operadora dos orelhões no Estado de São Paulo, custa entre R$ 2,50 – com 20 unidades – e R$ 9,37 – com 75 unidades. Quem pode ser muito prejudicada com a diminuição no número de orelhões é a camada da população que tem pouco acesso ao serviço de telefonia. José Almeida, comerciante e morador do bairro Vila Brandina há mais 35 anos, reclama da situação atual, que, segundo ele, já é ruim, e lamenta a possibilidade de piorar. “Aqui dentro da comunidade tem um orelhão só para um monte de gente e o estado dele não é dos melhores. A gente precisa muito de um

orelhão aqui e, se houver essa diminuição, eles vão tirar esse único orelhão da gente?”, diz. O comerciante ainda salienta que os orelhões são muito necessários principalmente em situações de emergência. “Praticamente todo mundo tem celular hoje, mas, se acontece alguma coisa, a gente tem que recorrer ao orelhão. Outro dia veio um moleque aqui que teve o celular roubado e precisou usar o orelhão para avisar do roubo. E se não tivesse o telefone público ali na hora?”, pondera. Já o porteiro Róbson Borelli, de 36 anos, é a favor da redução dos aparelhos de telefonia pública, pois acha necessário pelo grande número de aparelhos depredados. “Hoje, apesar de praticamente todo mundo ter celular, o orelhão ainda é muito útil, você nunca sabe quando vai precisar usar. Mas, o que eu vejo por aí é a falta de educação do povo. Aqui mesmo na rua do prédio onde eu trabalho, tem dois orelhões, estão pichados e um deles totalmente danificado”, avalia. De acordo com a Anatel, a diminuição dos orelhões faz parte da proposta de nova versão de revisão do Plano Geral de Metas de Universalização (PGMU), documento que estabelece um conjunto de resultados que devem ser alcançados pelas operadoras na área de telefonia fixa e que terá validade entre 2016 e

2020. O novo texto propõe o fim da regra válida atualmente, que obriga as concessionárias a manter nas cidades e localidades pelo menos quatro telefones públicos para cada mil habitantes. Também eleva de 300 para 600 metros a distância máxima entre um desses equipamentos e qualquer ponto de uma cidade ou localidade. A Anatel propõe o fim da obrigação de densidade em troca da instalação de troncos de fibra ótica em todos os municípios brasileiros. Elas são capazes de suportar os novos serviços de transmissão oferecidos pela rede digital de serviços integrados, graças à sua grande capacidade de transmissão, percorrendo grandes distâncias, o que reduz significantemente os custos em relação aos demais cabos e materiais utilizados para os mesmos fins. Apesar da proposta da Anatel, a diminuição do número de orelhões passa ainda por uma consulta pública, aberta até 26 de dezembro deste ano, no endereço eletrônico www.sistemas.anatel. gov.br/sacp. A assessoria de imprensa da Anatel explicou que a consulta à sociedade é feita para depois ser analisada pelo conselho diretor, que deve aprovar a minuta e encaminhar ao Governo Federal. Este, por sua vez, decide o formato do decreto.

Política

Evangélicos conseguem 25% dos votos

Três, dos seis deputados federais eleitos na RMC, ergueram bandeiras ligadas às igrejas de quem fazem parte Guilherme Zanetti

Na Região Metropolitana de Campinas (RMC), 25% dos 1,3 milhão de votos para deputados federais foram conquistados por três candidatos ligados a religiões evangélicas. Paulo Freire (PR), ligado à Assembleia de Deus, foi reeleito com 111 mil votos; o vereador de Campinas Roberto Alves (PRB), da Igreja Universal, garantiu sua vaga com 130 mil votos – o 34º mais votado do Estado de São Paulo; e Luiz Lauro Filho (PSB), vinculado à Igreja do Nazareno, obteve 105 mil votos. O trio representa metade dos deputados federais da região a partir de 2015.

O voto vinculado à religião não foi um fenômeno exclusivo da região. De acordo com levantamento do jornal O Estado de S. Paulo junto à Justiça Eleitoral, amentou 54% o número de candidatos que associam seus nomes à fé nas urnas – como bispos, padres, missionários, pastores e outros. Em 2014, foram registrados 108 candidatos nessa situação no Brasil; nas eleições de 2010 eram 70. Com os resultados da eleição, a bancada evangélica na Câmara aumenta em 10% a partir de 1° de janeiro. Segundo dados do senso do IBGE (2010), os evangélicos representam 22,4% da população brasileira.

Para o cientista social e jornalista de política, Matheus Pichonelli, colunista dos sites Carta Capital e Yahoo!, a falta de representatividade de sindicatos e fragilidade ideológica dos partidos favorece a criação de grupos homogêneos como a Frente Parlamentar Evangélica. “Os grupos de interesse [religioso] têm uma agenda em comum, como benefícios tributários e uma certa ‘liberdade de ofensa’ nos púlpitos. Dizem que não querem ver condenados pastores que defendem o que está na bíblia: a condenação da homossexualidade, expressa sobretudo no Velho Testamento. Quem tem capacidade de mobiliza-

ção hoje é a Igreja”, declara Pichonelli. Para o colunista, a fragilidade dos movimentos sindicais e a falta de identificação das bandeiras partidárias resultam em uma representatividade ligada à religião. “Apesar disso, no Brasil todo mundo governa com a Constituição embaixo do braço. O Estado é laico. Mas há orações em sessões e simbologias religiosas no ambiente público”, disse. O pastor da Assembleia de Deus Silas Malafaia afirmou, em entrevista ao Portal UOL, que ninguém tem influência total sobre o povo. “A bancada evangélica não se reúne para dizer: vamos eleger ‘x’ deputados. Não há uma coisa planejada, não

temos papa, temos líderes”, garantiu. A Frente Parlamentar Evangélica, na Câmara dos Deputados, por exemplo, agrega partidários de concepções políticas muito diversas, como PT, PSDB, PROS, PSC, PRB, PDT, PPS, PTN, PMDB, PR e até PSOL. Apesar do crescimento da bancada religiosa, o vereador de Campinas Rafa Zimbaldi (PP), ligado à Renovação Carismática Cristã (RCC), obteve 38.885 votos e não foi eleito. No entanto, ainda pode assumir uma cadeira caso o candidato Paulo Maluf (PP) – com 250 mil votos - não consiga reverter a decisão da Justiça que barra sua eleição.


Cotidiano

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Estrangeiros ganham espaço em feira Centro de Convivência atrai comerciantes latinos e europeus para expor suas peças

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Marcela Castanho

o movimento hippie ao artesanato mais luxuoso, a feira tradicional do Centro de Convivência de Campinas atrai hoje muitos estrangeiros, tanto comerciantes/expositores quanto público também. Surgida a partir do movimento hippie, hoje se transformou em reduto de peças luxuosas, antiguidades e comidas de diversas nacionalidades. Dentre os estrangeiros comerciantes espalhados pela feira, a maioria deles veio de países da América do Sul como Argentina, Peru e Chile, em busca de liberdade de expressão e de oportunidades. Embora sejam maioria, na feira também é possível ouvir sotaques europeus, como o francês. Resultado da junção de duas feiras realizada há 20 anos – a de Antiguidades, antes no Largo do Rosário e a hippie, na Praça Carlos Gomes hoje, ela possui mais de 30 barracas espalhadas por toda a praça, aos sábados e domingos, entre 8h e 14h. Entre acarajés, pastéis, tapiocas e lanches de perfil, uma barraca é decorada com uma bandeira francesa, outra da Bretanha, no Oeste da França, e uma do Brasil. É lá que fica Romain Brichet, de 33 anos, um

cozinheiro francês que veio ao Brasil atrás de oportunidades de emprego e pela alegria do povo, muito diferente do francês, diz ele. A mulher de Romain é brasileira e sua cunhada, também casada com um francês, atraíram-no ao Brasil. Há cinco anos em Campinas, ele já liderou equipes de cozinha em hotéis, antes de montar a barraca na feira. “Foi aí que senti a diferença entre o brasileiro e o francês. Os franceses, quando liderados, costumam seguir as regras mais facilmente. O brasileiro posterga”, compara. Romain conheceu o local ao frequentá-lo e logo criou uma sociedade com a brasileira Tatiana Braga. Há dois anos, todo final de semana eles vendem crepes doces e salgados, tentando atrair o público também por usarem somente produtos orgânicos. Quem ainda não provou as delícias que Romain faz, corre para lá! Em janeiro de 2015 ele e sua mulher vão voltar para a França, porém Romain já afirmou que ainda volta para o Brasil, só não sabe quando. O chileno Eduardo Castro, de 53 anos, veio ao Brasil há 35 e há 16 está em Campinas. O comerciante de pratas saiu do Chile por causa de problemas políticos durante a ditadura de Pino-

chet e descobriu a feira por meio de um amigo Argentino em São Paulo. Antes de vir para o Brasil, Castro estudava e hoje ele possui uma barraca de pratas na feira. Mesmo com a vinda não ter compensado financeiramente, ele não pensa em voltar para o Chile porque já se acostumou com o Brasil. Dennis Alejando Arango Jara é um peruano de 34 anos. Há 11 anos, mora em Hortolândia e trabalha numa fábrica de alumínios de segunda a sexta-feira. Aos finais de semana, vem à Campinas para montar e alugar as barracas para os expositores do local. Dennis veio para o Brasil apenas para visitar as tias, que também trabalham na feira, mas elas insistiram e ele aceitou ficar. Ele diz que morar no Brasil não compensa, porque acaba sendo tudo igual a todos os países latinos. Talvez ele volte ao Peru para morar, talvez só para passear. Se pudesse, Jara diz que moraria em “todos os lugares”. Chile Apesar dos vários sotaques presente na feira, são os chilenos que se destacam. Cláudio Aracena Ramiriz, um simpático chileno de 69 anos, veio ao Brasil 38 anos atrás em busca de melhores condições de tra-

O chileno Eduardo Costa e o peruano Dennis Alejandro em sua barraca de bijuterias e pratas

Foto:Marcela Castanho

Alejandro Ellis, um dos fundadores da Feira, vende antiguidades

Barraca de piões, ioiôs e bibelôs do chileno Cláudio Ramiriz

balho. No Chile, ele era professor de artes gráficas numa escola profissionalizante e, quando chegou ao Brasil, trabalhou agências como desenhista gráfico e vendedor. Depois de se aposentar, Ramiriz passou a se dedicar somente à sua barraca na feirinha, em que vende artesanatos como pião, ioiô e bibelôs É também do Chile que veio Eduardo Fuentes, 51 anos. Aos 13, mudou-se com o pai para o Brasil por causa da ditadura chilena. Ele morou em Poços de Caldas (MG) e há 23 anos está em Campinas. Fuentestrabalha como serralheiro e caldeireiro industrial em uma indústria campineira e, aos finais de semana, ajuda sua mulher, brasileira, na barraca de roupas que já existe há 15 anos na feira. “As condições de vida aqui são bem melhores! Aqui nós temos liberda-

de!”. O caldeireiro não pretende voltar a morar no Chile, só vai a passeio e para visitar os familiares. Alejandro Ellis, de 62 anos, é outro chileno que veio para o Brasil e foi um dos fundadores da feira com sua barraca de antiguidades em geral e militaria. Ellis era funcionário público no Chile e veio para Campinas há 30 anos. Ele pensava em ir para os EUA, pois já tinha morado em Miami alguns anos, mas decidiu pelo Brasil porque o pai já morava aqui. O chileno já gerenciou postos de gasolina em Campinas e também já teve lojas de antiguidade na cidade, mas atualmente só tem a barraca na feira aos finais de semana. Alejandro não pretende voltar a morar no Chile e ainda ousa dizer que sua vinda para o Brasil vale a pena pois ele ainda irá ganhar na


Saúde

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Luta é aliada contra doenças emocionais Aulas de boxe, jiu-jitsu e muay thai têm sido adotadas como tratamento para ansidade, depressão e pânico

Amanda Bruschi

Q

ueimar calorias, aumentar a resistência física, perder peso: são diversos motivos pelos quais a procura por artes marciais está em alta, quase todos relacionados à melhora da estética corporal. No entanto, há quem tenha encontrado nesse esporte uma maneira de aliar os valores e condutas ensinados com o tratamento de doenças emocionais, por exemplo, o distúrbio de ansiedade, depressão, síndrome do pânico, hiperatividade, entre outras. A estudante de engenharia civil Karen Maria Petri, de 23 anos, encontrou no boxe uma maneira de auxiliá-la no tratamento

contra o distúrbio de ansiedade. “Eu procurei o boxe porque estava infeliz com o corpo e não gostava da musculação, mas logo eu percebi que isso me ajudava a controlar a ansiedade.” Karen conta que, com a prática do boxe, conseguiu reduzir a quantidade de antidepressivos pela metade. “As aulas fazem com que você aprenda a se concentrar e superar seus próprios limites, e eu consegui levar isso para a minha vida fora da academia também.” Disciplina Outro motivo pela procura de artes marciais tem sido para controlar crianças com problemas de disciplina e até hiperatividade. Foto: Amanda Bruschi

Karen (à esquerda) reduziu os medicamentos com o boxe

Francisco de Freitas Silva, o “tio Barba”, como é conhecido pela garotada, dá aulas de jiu-jitsu para crianças na faixa dos 3 aos 15 anos de idade, e conta que muitos pais encontraram uma maneira de controlar os filhos por meio das aulas. O professor afirma que a necessidade de concentração e a sensação de recompensa que a luta fornece ajuda as crianças a melhorar o comportamento. “Além de ensinar a técnica da luta, procuro conversar com os alunos sobre valores a serem levados para o dia a dia deles. Por exemplo, abordamos questões como o bullying, alimentação correta, entre outras coisas.” Estilo de Vida Aderir a qualquer prática de artes marciais significa muito mais do que apenas se exercitar. É adotar um estilo de vida pautado em valores que fazem parte das regras do esporte, como disciplina, respeito e humildade. O progresso de uma pessoa em lutas como JiuJitsu, Boxe e Muay Thai, é uma consequência do domínio desses princípios e, com isso, os alunos come-

çam a estabelecer paralelos entre os desafios encarados nos tatames e os desafios encarados em sua vida diária. Entre socos e chaves de braço, o treinamento de alguns dos esportes mais antigos da humanidade pode tornar a luta contra os males do século uma vitória fácil. O psiquiatra Paulo Almeida atribui a melhora

dos praticantes de luta ao estímulo que o corpo recebe, consequentemente liberando a endorfina. “Esse neuro-hormônio tem efeito analgésico e isso ajuda o corpo a controlar a tensão. Com isso, a pessoa tem uma sensação de tranquilidade que inibe os sintomas de estresse, ansiedade e até a síndrome do pânico”, explica o médico.

CONHEÇA OS ESPORTES Jiu-Jitsu: é um esporte de origens indiana e japonesa do século XVII. No Brasil teve sua popularização graças ao mestre de jiu-jitsu Carlos Gracie (1902-1994), que trouxe o esporte para o País. Inicialmente era uma forma de luta com a intenção de garantir a defesa pessoal. Baseia-se no equilíbrio, nas articulações corporais e nas alavancas. Boxe: nasceu na Grécia antiga há mais de 5 mil anos. Porém, o boxe como conhecemos hoje ressurgiu na Inglaterra no século 17 e era praticado com as mãos nuas. É caracterizada pela utilização de golpes desferidos com os membros superiores, como socos. Muay Thai: é uma arte marcial originária da Tailândia, onde é considerado o esporte nacional. É conhecida como “a arte das oito armas”, pois caracteriza-se pelo uso combinado de punhos, cotovelos, joelhos, canelas e pés.

Tecnologia

Dispositivos móveis ajudam a controlar saúde Empresas de diversos setores lançaram produtos para monitoramento, como aplicativos para celular e relógios

Giovanni Chierighini

Na onda da vida saudável, cada momento tem a sua novidade. Agora, os aplicativos voltados à qualidade de vida e ao monitoramento das atividades físicas ganham mercado e se tornaram a bola da vez. Os investimentos, ao contrário do que pode parecer, não são apenas de empresas de tecnologia, mas de outras áreas que descobriram um filão. A empresa Do Bem, fabricante de sucos naturais e integrais, decidiu entrar de vez no mundo da tecnologia. Criou a primeira pulseira inteligente brasileira chamada “Do Bem Máquina”, comercializada nas cores marrom e preta por R$ 229. De maneira ininterrupta, a pulseira consegue marcar os passos, calcular as calo-

rias queimadas pelo usuário, a distância percorrida e o padrão do sono. Todos os dados captados são transmitidos via bluetooth para o aplicativo disponível para iPhone 4S em diante, na Apple Store, com finalidade de demonstrar o resultado de vários dias em forma de gráficos. A durabilidade da bateria é um aspecto que impressiona, com durabilidade de sete dias, ou seja, uma semana e carrega em apenas uma hora. A pulseira é feita de silicone e é a prova d’água a 10 metros de profundidade. Segundo a empresa, o grande desafio é oferecer uma experiência saudável completa ao usuário, desde os sucos sem aditivos químicos até a pulseira inteligente passando pelo aplicativo que traz o retorno desses clientes com todos os

produtos para a marca. O estudante de 17 anos Gabriel Storani, que vai à academia diariamente e faz treinos de uma hora e meia a duas horas usa o aplicativo “Sportstracker”. Para ele, o principal motivo pelo qual usa o software é porque ele calcula a velocidade média da corrida, a distância percorrida e os batimentos cardíacos e isso o ajuda a manter uma média nos treinos que precisa fazer. Segundo o estudante, o aplicativo trouxe informações importantes: “Antes de baixar o aplicativo, eu nem sabia quanto eu corria e a velocidade, então, nem se fala... Hoje, com essas informações, eu consigo ter um gráfico de quanto eu corro e estabeleço metas para cada semana, para manter um desafio e aumentar o desempenho, alem de acom-

panhar segundo a segundo meus batimentos cardíacos”. Relógios inteligentes A fabricante de eletrônicos Apple apresentou no dia 9 de setembro o seu primeiro relógio inteligente, o Apple Watch. Voltado para saúde, com ele, é possível checar os batimentos cardíacos, a distância percorrida, a quantidade de passos, as calorias queimadas pelo usuário. Esses dados são mandados ao iPhone que salva e monta um arquivo com gráficos de todas as informações coletadas pelo Watch. Com esse lançamento, a empresa começa a se posicionar no ramo dos produtos de saúde, puxando outras empresas para esse segmento. O relógio in-

teligente, que ainda não está disponível no Brasil, custa cerca de 350 dólares nos Estados Unidos. A Samsung e a Sony também lançaram seus smartwatches, mas esperaram a Apple lançar para se posicionar no mercado. As duas marcas comercializam seus relógios por R$ 600 e R$ 300, respectivamente. Relógio Do Bem Máquina custa R$ 229

Foto: Divulgação


Aposentadoria

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INSS ou Previdência Privada?

Funcionários de diversos setores indicam prós e contras dos planos de aposentadoria disponíveis no mercado Gustavo Gianola

C

onseguir um emprego no setor público é o sonho de milhões de brasileiros. Ter um emprego estável, sem risco de ser demitido, além da garantia de nunca ter o salário atrasado, são alguns dos inúmeros benefícios que um cargo público pode oferecer. Mas e a aposentadoria? Marli Alves Costa, 65 anos, é aposentada há 16 anos. Trabalhou como enfermeira chefe na Universidade Estadual de São Paulo (Unesp) entre 1972 e 1998, quando conquistou a aposentadoria por idade. Além de se aposentar com o salário integral de R$ 6 mil, que todo ano recebe um reajuste de 2% a 5%, a aposentada possui convênio com o Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual (Iamspe) e com a Associação dos Servidores da Unesp (ASU). “Sempre que preciso ir ao médico me consultar ou fazer algum exame, utilizo o convênio, sem precisar pagar nada. Já a ASU me disponibiliza uma bolsa de R$ 600 para realizar qualquer compra, como se fosse um cartão de crédito, depois descontado do meu holerite”. Marli recebe

ainda um salário mínimo concedido pelo INSS, herdado da aposentadoria de seu falecido marido. A aposentadoria com o salário atual para servidores públicos, antes obrigatória pelo Governo, agora toma novos rumos. A professora de Direito do Trabalho e Advogada Trabalhista Luciana Sauer explica que, devido à reforma do artigo 40 da Constituição Federal que entrou em vigor em 4 de fevereiro de 2013, os concursados aprovados a partir desta data seguem as normas do regime da Fundação de Previdência Complementar do Serviço Público Federal (Funpresp). “O funcionário pode escolher com quanto irá contribuir para sua aposentadoria, podendo decidir se irá receber no futuro o salário integral ou o equivalente à sua proporção contribuída”. A advogada afirma que a aposentadoria pelo setor público, sem dúvidas, é mais vantajosa que a do contribuinte do setor privado. “Os aposentados também podem voltar a trabalhar no setor público. Caso ele passe em um novo concurso, poderá trabalhar e continuar recebendo a aposentadoria integral, somada ao seu novo salário.

Foto: Gustavo Gianola

O representante Celso com seu cartão beneficiado pelo INSS

Além disso, há uma grande variedade nos planos e convênios disponibilizados pela instituição, para a qual cada servidor público trabalha.” Já para quem trabalha em instituições privadas ou é autônomo, as normas a serem seguidas são as da previdência pública, o INSS. O trabalhador com carteira assinada contribui com uma porcentagem que varia de 8% a 11% de seu salário e o autônomo com 20%. Tanto neste plano, quanto no plano para servidores públicos, existem quatro tipos de aposentadorias: especial, por idade, invalidez ou por tempo de contribuição. Muitas pessoas que contribuem para o INSS, com o pensamento de manter seu padrão de

vida no futuro, acabam fazendo planos de previdência privada, devido ao fato do teto salarial do INSS ser, em 2014, de R$ 4.390. Previdência Privada A previdência privada é um benefício opcional, que proporciona ao trabalhador um seguro previdenciário adicional, conforme sua necessidade e vontade. É uma aposentadoria contratada para garantir uma renda extra ao trabalhador. Os valores são aplicados pela entidade gestora, normalmente bancos, com base em cálculos proporcionais ao dinheiro investido por quem solicita o plano. Além da aposentadoria, o participante normalmente tem à sua disposi-

ção proteção contra riscos de morte, acidentes, doenças e invalidez. O representante comercial Celso De Oliveira Arruda conseguiu seu benefício pelo INSS em 2014, ao atingir a aposentadoria por tempo de trabalho aos 55 anos, já que começou a trabalhar aos 14. Arruda contribuía com uma proporção descontada de seu ordenado de dez salários mínimos, e hoje recebe R$ 2 mil de aposentadoria. Apesar de adquirir o benefício, continua exercendo sua profissão. O representante afirma que o valor cedido pelo Governo é muito baixo para manter seu padrão de vida, por isso também paga um plano de previdência privada. “Acho válido para toda pessoa que tiver a oportunidade de pagar um plano privado, pois é um complemento que pode ser resgatado no futuro.” Arruda disse que, no ano em que se aposentou pelo INSS, aplicou um valor de R$ 80 mil, originário de uma poupança, em um plano privado, que poderá ser resgatado em 10 anos. “Sempre que posso, faço um aporte. Aplico alguma quantia nesse dinheiro investido, visando aumentar o rendimento.”

Música

Sinfônica reproduz concerto de 1929

Apresentação especial na Concha Acústica será realizada após redescoberta de antigo programa Vinicius Bognone

Os 85 anos recém-completados pela Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas (OSMC), no dia 6 de outubro, vêm seguidos de uma ocasião especial. No dia 16 de novembro, às 19 horas, na Concha Acústica da Lagoa do Taquaral, a OSMC fará uma reprodução de seu primeiro concerto da história, datado de 1929. Essa reprodução só será possível graças ao descobrimento de documentos antigos, da época de criação da Orquestra, encontrados e entregues ao Centro de Memória da Unicamp (CMU) para restauração e arquivamento em local climatizado, para

sua preservação. De acordo com a diretora do CMU, Maria Elena Bernardes, os documentos são preciosidades e já existem pesquisadores interessados em analisá-los. A primeira-dama Sandra Ciocci, que entregou os papéis antigos ao CMU, conta que os recebeu do jornalista Clóvis Cordeiro, que os guardava há quase dez anos. Memória A historiadora de música Lenita Nogueira, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a quem Sandra recorreu, comprovou a importância dos documentos e aproveitou para fazer um pedido: “Aqueles que estiverem em

poder de papéis contendo dados históricos, doem às instituições e museus da cidade”, diz. Os documentos contêm dados da criação da Orquestra que, além de comprovar que ela é uma das mais antigas do país (se não a mais antiga), também traz a programação de concertos antigos realizados naquela época. O espetáculo do dia 16 vai reproduzir composições de Carlos Gomes, Wagner Lohengrin, Rubinstein, Mascagni e C. M. Von Weber. Após a descoberta desses documentos, a OSMC decidiu rever a programação da época de sua formação e refazer o concerto, como forma de comemo-

Foto: Divulgação

Programa do primeiro concerto da Orquestra Sinfônica em 1929

ração pelo 85º aniversário. Criada em 6 de Outubro de 1929, sob o nome de Sociedade Symphônica Campineira, a OSMC abandonou o nome antigo devido ao novo formato adotado entre as décadas de 60 e

70 e até hoje é considerada uma das mais importantes do País. Sob a regência de Victor Hugo Toro e com a presença especial do solista Ivan Lins, a OSMC se apresentará gratuitamente.


Cultura

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MIS resiste mesmo com baixo público Infraestrutura também apresenta problemas e investimentos ainda são insuficientes

Fernando Corilow

O

Museu da Imagem e do Som de Campinas (MIS), localizado no Palácio dos Azulejos, além dos acervos permanentes, realiza diversos eventos abertos à população, como cineclubes e debates. Apesar dos vários eventos realizados, o público ainda é baixo – numa mostra, por exemplo, que até realiza programações diárias, a média de público é de 400 pessoas por mês. Funcionários e visitantes relatam, ainda, que existem problemas físicos no prédio que necessitam de manutenção. Apesar disso, explicam visitantes, o MIS é um importante centro de debate e exposição cultural na cidade. Um dos principais problemas enfrentados pelo MIS é a estrutura física. Já na fachada do Palácio, é possível perceber algumas falhas na pintura e buracos nas paredes, além de pichações e até lixos na calçada. Dentro do museu, também existem defeitos nas pinturas e nas estruturas. O historiador do MIS e também professor de História do Ensino Médio, Orestes Toledo, indica algumas das melhorias necessárias: “É preciso uma melhor iluminação, melhor sinalização, mais divulgação, segurança, convênio com os estacionamentos. Tudo isso não é luxo, é direito. Direito de todo cidadão, que é eleitor e contribuinte.” Para Toledo, porém, a reforma do prédio deve manter sua arquitetura e as marcas do tempo, que são “como as rugas que não são feias na velhice digna.” Além disso, ele acredita que os problemas na estrutura não são impedimento para as atividades realizadas. A Sala Glauber Rocha, que deveria ser o grande espaço de cinema público da cidade, é provavelmente a grande reivindicação dos funcionários e visitantes do MIS. Construída em 2004, ela ainda não recebeu o acabamento e pintura das paredes, piso e teto, a iluminação e sonorização etc., por falta de investimentos. Na 7ª Mostra Luta!,

Fotos: Fernando Corilow

Apresentação da Mostra Luta!, na sala Gláuber Rocha, do MIS, construída em 2004, mas não finalizada: atividade como protesto

realizada neste mês, uma das sessões de cinema foi realizada na sala como manifesto dos funcionários pela finalização da construção. De acordo com Carlos Alberto Cohon, professor aposentado da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e um dos produtores do filme “Crônica de uma obra aberta”, exibido na mostra, “o prédio tem vários problemas de manutenção e não tem recebido apoio [da prefeitura].” Frequentador assíduo do MIS, o filme de Cohon foi produzido em oficina de desenvolvimento de documentários realizada pelo museu. Para Viviana Echávez Molina, realizadora de cinema e que também participou da produção do filme, “o MIS como instituição sobrevive por causa desses lutadores que estão fazendo eventos culturais apesar das fraquezas da estrutura.” Público De acordo com Cohon, nos eventos costumam vir “sempre poucos e seletos”. Viviana conta que o público é pequeno, “mas é fiel”. Ela conta, ainda, que no MIS “existem eventos muito bons que não são muito frequentados, o que é uma pena”. Outros eventos, porém, como os cineclubes de sábado, costumam receber um bom número de visitantes, conta Viviana. Toledo reconhece que o público médio nos eventos do MIS não é dos mais altos, mas reforça a

importância de um crescimento não só quantitativo, mas também qualitativo nos eventos. Para o historiador, o público no MIS é fundamental, já que “o museu não é só o prédio, o acervo. Ele é constituído pelas pessoas que por aqui circulam.” Ele conta, ainda, que “sempre é objetivo do museu atingir um maior público. Mas, quando você pensa em público, a gente tem que pensar num sujeito que está num processo permanente de construção.” Estudantes Um dos principais programas desenvolvidos pelo museu é o da pedagogia da imagem, que busca inserir a população, especialmente os jovens, no universo das imagens – não só como consumidores mas também como produtores. Além disso, são realizadas visitas agendadas de escolas do Ensino Médio e Fundamental e alguns cineclubes do MIS são organizadas por jovens. Segundo Toledo, o público de estudantes, composto por grupos que buscam “um novo caminho, uma nova visão das coisas”, vem aumentando, apesar de ainda ser reduzido. Para Cohon, o museu está aberto ao público jovem, “mas não existe, de fato, interesse da maior parte dos estudantes”. Viviana, que está em Campinas há três anos, quando veio da Colômbia, seu país natal, para fazer

mestrado em Multimeios na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), lamenta que não consegue ver o impacto das instituições de Ensino Superior no cenário cultural da cidade. Luta Tanto para Viviana como para Cohon, o MIS possui grande importância para o cenário cultural da cidade, pois valoriza a arte e o debate, além de possuir um ambiente acolhedor e criar laços entre os frequentadores. Orestes

reforça esse sentimento, e conta que “quem conhece o Museu passa a lutar por ele”. Essa luta, especialmente pelas melhorias estruturais, por mais programações culturais de alcance geral e melhor divulgação, passa diretamente pelo interesse dos cidadãos, conta Toledo: “Isso é resultado de uma vontade coletiva de uma população que começa a valorizar seu patrimônio histórico e as atividades museológicas, a memória, a cultura.”

Fachada do MIS: lixo e pichações diante de um patrimônio

São poucas as pessoas que conhecem o MIS de Campinas, mesmo aquelas que frequentam as ruas próximas. A reportagem do Saiba+ entrevistou pessoas que circulavam pela Avenida Francisco Glicério, paralela à Regente Feijó, onde está o museu. Na maioria dos casos, não sabiam da existência do MIS a poucos metros. O aposentado Nercy Cardoso, a atendente comercial Ninfa dos Santos e o porteiro Walter Cavalcante, por exemplo, não conhecem o MIS e não costumam frequentar teatros ou outros museus na cidade. Já a agente de correios Sheila Cristina Fonseca visitou uma exposição do MIS para um trabalho da faculdade. Ela conta, porém, que “falta uma pessoa para ficar auxiliando e falando sobre [o acervo do Museu]”.


Cinema

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40 anos de desenhos e pouco incentivo Núcleo de Animação de Campinas completa quatro décadas, realiza trabalhos com escolas e reclama de descaso Fotos: Jaqueline Zanoveli

Jaqueline Zanoveli

O

Núcleo de Cinema de Animação de Campinas, dirigido por Wilson Lazaretti e Maurício Squarisi, completa, em 2015, 40 anos de atuação e coleciona em seu acervo cerca de 300 produções. O Núcleo se mantém hoje por meio de seus projetos autorais e seu trabalho de captação de recursos (patrocínios, leis de incentivo, concursos) para realização de seus projetos. Os diretores reclamam que, mesmo sendo um dos mais antigos do Brasil, não há nenhum incentivo para projetos vindo do Poder Público, o que poderia expandir a produção e envolver algum projeto educacional com escolas públicas. O início das atividades do Núcleo remonta a 1975, quando Lazaretti aceita um convite para dar aulas de cinema para crianças no Conservatório Carlos Gomes. É só em 1980, com sede no Teatro Castro Mendes, que o Núcleo é oficialmente fundado. A partir daí, já com a presença de Squarisi, intensificam-se as produções. Em meio às quase 300 produções, destaca-se o filme “Todos Devemos Amar”, de 1992, que ganhou a Medalha de Ouro na competição americana Broadcast Awards Competition, além de “Os Hai-Kais Do Príncipe”, que ganhou como melhor trilha sonora em dois festivais. Outra parte das atividades do Núcleo é dedicada às oficinas de animação, em que a entidade atua em diversos locais do País na missão de ensinar a crianças e educadores técnicas de produção de curtas, apresentando-os a esse gênero cinematográfico. Com passagens pela Amazônia, Mato Grosso e Triângulo Mineiro, esse modelo de oficina é realizado principalmente por patrocinadores por meio de leis de incentivo à cultura. Nesse semestre, tanto a Escola Estadual Dom João Nery, no Jardim Bonfim, quanto o Grupo Primavera, no Jardim São Marcos, estão sendo

Squarisi orienta aluna em mesa de luz, destinada a produzir movimentação nos desenhos animados

contemplados com a realização do projeto. Nesse último, meninas de 8 a 18 anos puderam aprender todo o processo de criação, roteiro, grafismo, animação e trilha sonora. Abordando o tema das olimpíadas, a turma criou uma história próxima à realidade deles, além de desenharem os personagens e comporem música para a trilha. O resultado, que poderá ser conferido no final deste ano durante um evento de apresentação dos projetos, é um curta-metragem intitulado “A esperança é a última que morre”. Para Squarisi, as oficinas são umas das maiores contribuições do Núcleo ao longo desses quase 40 anos. “Os alunos não ficam como expectadores só, mas também como autores de animação. A visão desses alunos é muito importante para o mundo da animação, e inclusive vários profissionais que estão hoje na animação iniciaram sua carreira em oficinas do Núcleo”, conta o cineasta. Esse é o caso, por exemplo, de Flávia Regina Gomes, hoje assistente de animação do Núcleo. Aos 17 anos, a jovem participou de uma dessas oficinas e, a partir daí, se identificou com a produção de vídeos de animação e procurou cursos na área. Para Flávia, o Núcleo tem papel fundamental na difusão do cinema de animação no Brasil. “Eu acho o trabalho

do Núcleo muito importante, de mostrar o que é uma animação. As pessoas acreditam que a animação simplesmente acontece e que não tem ninguém fazendo”, expõe Flávia. Reconhecimento Para os educadores, o saldo das oficinas é positivo. “Elas despertam a criatividade dos alunos, alimentam o trabalho coletivo e melhoram a autoestima, já que eles se sentem comprometidos com o trabalho”, destaca Márcia Leticia de Souza, pedagoga do Grupo Primavera. Já para os participantes, a oportunidade de ser responsável por todo o processo de criação é uma experiência enriquecedora, como conta a aluna Laura Gabriela de Moraes: “No começo, a gente acha muito difícil, porque desenhar a gente

pensa que é um dom que só poucos têm. Só que é muito mais fácil fazer os desenhos quando a gente aprende com o Maurício [Squarisi]. É legal saber que eu consigo desenhar e desenhar bem. Nós já estamos pedindo pro Maurício voltar e fazer uma oficina de Natal.” Apesar da atuação positiva nas instituições, Squarisi comenta que, na cidade, ainda falta o devido reconhecimento do público. “Se você andar pelas escolas de Campinas, muita gente conhece o Núcleo porque já passou pelas nossas oficinas, mas o reconhecimento do público em geral não existe, já que para a maioria a animação é somente entretenimento. Eles não intendem o poder e a importância que ela tem.” O cineasta cita exemplos no Rio de Janeiro, em São Bernardo do Campo e no Acre, em que

a Secretaria de Cultura Municipal criou e investiu em polos de cinema e escolas de animação. “Aqui em Campinas, pra você ter uma ideia, a gente nem consegue ser recebido pelo Secretário de Cultura, que já marcou conosco e não apareceu”, conta Squarisi. Outro lado A assessoria da Secretaria Municipal de Cultura afirmou que está sempre aberta a receber propostas e conversar com os profissionais da área. “Se houve algum tipo de desencontro, a Secretaria de Cultura lamenta pelo imprevisto e se coloca novamente à disposição para conversar, esclarecer e discutir propostas de parcerias”, afirmou a assessoria. A animação no Brasil nos últimos anos tem crescido em quantidade e qualidade. Na década de 50, era feito apenas um filme por década. Nos anos 90, segundo registro da Associação Brasileira de Animação, o Brasil produziu 216 filmes. Entre 2000 e 2004, foi registrada a produção de 373 filmes. Além disso, os dois últimos ganhadores do Festival de Animação da França, considerado o mais importante do mundo, são brasileiros. Comemoração Para comemorar seus 40 anos, o Núcleo de Cinema de Animação de Campinas lança seus dois primeiros longas-metragens: "História antes de uma História", roteiro e direção de Wilson Lazaretti e "Café - um dedo de prosa", roteiro e direção de Maurício Squarisi.

A aluna Laura Gabriela de Moraes diz que se sente orgulhosa por conseguir desenhar bem


Gastronomia

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Restaurantes japoneses crescem 700%

É possível encontrar até traillers em Campinas com temakis; número de estabelecimentos supera churrascarias Vinicius Tavares

E

m tempos globalizados, é possível caminhar pelas ruas de uma cidade interiorana de São Paulo e se deparar, com facilidade com aquilo que, há duas ou três décadas, só existia nas grandes capitais: restaurantes com diferentes tipos de comida de todo o mundo, inclusive uma que vem se destacando muito, a culinária japonesa. Esse nicho econômico se tornou muito propício para quem deseja investir no mundo gastronômico. Segundo a Associação Brasileira de Culinária Japonesa (ABCJ), nos últimos dez anos, ouve um aumento de cerca de 700% no aumento de estabelecimento de comidas típicas orientais. Na cidade de Campinas, nem a Prefeitura nem o Sindicato de Restaurantes soube responder quantos estabelecimentos de culinária japonesa existem, mas dois grandes veículos de comunicação listaram em seus guias gastronômicos os principais restaurantes do gênero. A Veja Campinas destacou 14 lugares e a Metrópole, 39. Na primeira publicação, para se comparar, estão presentes

também sete churrascarias e 23 pizzarias. Na segunda, foram registradas dez em ambas as categorias. Mas não é apenas os grandes restaurantes que são os responsáveis por esse aumento. Antes, pela cidade os carrinhos de lanches vendiam cachorrosquentes e hambúrgueres. Hoje, o cardápio também já fala japonês. O sucesso de vendas fez com que Felipe Toledo, de 39 anos, abrisse um trailler de temaki, há seis meses. “Acredito que as pessoas vêm comendo mais [comida japonesa] porque é mais saudável” afirma. Durante o dia, ele permanece próximo à Lagoa do Taquaral e, durante a noite, na avenida Norte-Sul, no Cambuí. E é possível encontrar sushis, sashimis, uramakis, hot-rolls, yakisoba entre outros, assim como nos estabelecimentos tradicionais. Dentro dos consumidores da culinária asiática, é nítido que o seu maior público são os jovens, como é o caso da estudante Paloma Secco, de 21 anos, que conta como foi influenciada pela cultura japonesa desde criança, a partir dos desenhos do estilo Anime. Atualmente, não passa

Foto: Vinicius Tavares

Temakeria em trailler funciona próxima à Lagoa do Taquaral durante o dia; à noite, na Norte-Sul

uma semana sem comer pelo menos um temaki, ou alguns uramakis. “É toda semana, a partir de agora. É muito viciante”. Mas não é só de jovens que se faz esse público. A psicóloga Fátima de Castro, de 56 anos, também se apaixonou pela arte de comer com os hashis palitos. “Faz um ano que comecei a frequentar restaurantes, mas já estou en-

cantada com a variedade e qualidade que existe nessa comida.” Considerada a 8ª cidade mais cara para se almoçar fora, de acordo com a Associação das Empresas de Refeição e Alimentação – Convênio para o Trabalhador (Assert), Campinas tem uma média de R$ 35, 33 para conseguir uma refeição completa (prato, bebida não alcóolica, sobre-

mesa e café) normalmente, e quando o assunto é uma culinária mais especifica, com certeza não seria o mais acessível. Com pequenos pratos individuais que variam de R$ 10,00 a R$ 30,00 (temakis, hot -rolls, sushis, entre outros) até rodízios que estão em uma média de R$ 40,00, os restaurantes vêm se destacando, e conquistando o paladar de jovens e adultos.

Religião

Bíblia Freestyle faz inimigos

Reescrita dos textos sagrados tem como objetivo popularizar os ensinamentos cristãos Danilo Christofoletti

Modernização do discurso ou desrespeito aos padrões tradicionais dos textos sagrados? Essa discussão veio à tona graças a repercussão da chamada “bíblia Freestyle”. Criada pelo Pastor Ariovaldo Junior, fundador da Igreja Manifesto Missões Urbanas de Uberlândia, voltada ao público

de roqueiros, a Freestyle é a reescrita dos textos bíblicos. Ganhando cada vez mais adeptos, a igreja do Pastor Ariovaldo começa a ganhar mais inimigos. Em julho, a Ordem dos Pastores Batistas Clássicos do Brasil (OPBCB), escreveu um manifesto de repúdio à bíblia Freestyle. Antes e depois disso, pastores e padres também mostraram

Trechos Original: “Primeiramente dou graças ao meu Deus por Jesus Cristo, acerca de vós todos, porque em todo mundo é anunciada a vossa fé”. (Romanos 1:8) Freestyle: “Dou mortal pra trás de alegria ao ver que Jesus Cristo na vida de vocês se tornou tão importante que esta fé que vocês têm merece ser contada para o mundo inteiro”. (Romanos 1:8)

descontentamento com a nova abordagem. Feita com uma linguagem recheada de gírias e expressões de baixo calão, a nova leitura da bíblia causa polêmica entre os estudiosos. Os textos são publicados numa página do Facebook e usados nos cultos. O teólogo e pastor José Geraldo Souza, do Centro Universitário Claretiano, se

Original: “E João andava vestido de pelos de camelo, e com um cinto de couro em redor de seus lombos, e comia gafanhotos e mel silvestre”. (Marcos 1:6) Freestyle: “O tal do João não usava roupas de grife. Só da Riachuelo mesmo, feita de tecido meia boca, com um cinto pras calças não caírem (comprada de um ambulante na rua). E comia o que encontrava pelo caminho. No caso dele, mel (tinha que ser macho pra comer sem ter que mastigar abelha) e gafanhoto (que de gostoso não deve ter nada).” (Marcos 1:6)

diz contrário ao uso da nova linguagem: “Até concordo que, para atrair toda uma nova geração, cada vez mais modernizada e louca por informações, é necessário que uma nova abordagem seja adotada. Mas, desse modo, com palavrões e expressões desnecessárias, acredito que haja certo desrespeito com os textos religiosos”. Tony Costa, teólogo e professor do mesmo centro universitário, também critica: “Luto para que meus alunos se tornem pessoas com um poder de comunicação diferenciado e vem um cidadão e joga no lixo todo o trabalho que nós temos para o futuro da juventude, banalizando aquilo que é mais sagrado, a fé.” Paulo Cori, pastor, defende a proposta. “Olha, sou pastor há mais de 20 anos. Não consigo entender por que as pessoas ficam con-

tra as novas versões. Todas têm um pouco de loucura, mas não foge à realidade de Cristo sendo crucificado e ressurreto. O Evangelho tem que ser entendido por todos.” Sobre a repercussão negativa, o pastor Ariovaldo disse que o grande problema não são os textos, mas a falta de educadores.: “A bíblia não foi sequer entendida pela maioria dos cristãos, quanto mais pelo restante das pessoas. A teologia ainda é um bicho de sete cabeças para o evangélico mediano. O defeito não está nos textos, mas na falta de mestres.” O pastor diz que gasta metade do seu dia com o projeto e já considerou montar uma equipe para ajudá-lo. “Pretendo lançar o Novo Testamento ainda neste ano. E em 2015 a bíblia completa.”


Entrevista

Página 12

30 de outubro de 2014

“Só fui censurada na nova república”, diz cartunista Foto: Camila Lourenço

“Às

vezes, um cara

tem que se montar, ué!” Cartunista Larte, 63 anos, usa o feminino para se definir

D

a luta pela democracia, à militância LGBT. Laerte Coutinho tem 63 anos, mas 40 de carreira. Lá pela década de 70, quando começou a desenhar profissionalmente, seus traços defendiam o movimento sindical em plena ditadura militar. Depois, a quadrinista (Laerte usa o feminino para se definir) criou personagens como os Piratas do Tietê, Overman e Hugo, que, no início dos anos 2000, se travestiu e virou Muriel. “Às vezes, um cara tem que se montar, ué!”, foi a frase que Hugo disse em uma das tirinhas de Laerte, despertando no cartunista a descoberta da transgeneridade. Atualmente, os desenhos de Laerte ganharam tons poéticos, distanciando do humor habitual. Em São Paulo, Laerte recebe uma exposição em sua homenagem. O Saiba+ e o Espelho Urbano (programa de TV produzido pelos alunos de Jornalismo da PUC-Campinas, que pode ser acessado pelo QR Code nesta página), conversaram com Laerte.

No início da sua carreira, você desenhava para o movimento sindical. Agora, você luta pelas questões da comunidade LGBT e a liberdade de gênero e sexualidade. Você consegue fazer um paralelo entre essas duas lutas? Não é bem um paralelo. É um contínuo, é uma continuidade de situações. É sempre uma luta por liberdade e direitos civis.

Na época da ditadura, porque estávamos em ditadura e o País todo precisava da volta das regras democráticas que foram rompidas em 64, pelos militares e pela burguesia da época. Hoje, há muitas partes da população que estão privadas dos direitos civis que outros gozam. A população LGBT é uma dessas, mas não é a única. A população das mulhe-

res, ou dos negros, ou dos índios também sofre por falta de direitos e deve ser objeto da mesma atenção. Na ditadura militar, você foi censurada? Eu não fui censurada na época da ditadura. Eu trabalhava no jornal Gazeta Mercantil, que era um jornal de economia e trabalhava também para os sindicatos de trabalhadores. O meu trabalho já tinha uma pauta que, a princípio, não desafiava as regras da censura, que diziam respeito mais à grande imprensa. A censura brava mesmo vigorou até meados dos anos 70, que foi bem no meu comecinho, meu início de vida profissional. Eu não cheguei a ser censurada na ditadura não, só fui censurada na nova república. Foi censurada? Como? Era censura interna do jornal. Eu fiz uma charge, eu nem lembro direito como que era, mas era absolutamente crítica ao Sarney, ao governo da nova república. E os editores entenderam que Foto: Larte/Divulgação

Camila Lourenço Gustavo Lorón

não podia sair. Ai eu disse: “Oba, finalmente, eu fui censurada. Tenho algo para contar pros meus netos”. Você já teve várias fases: o Partidão, Los 3 Amigos, Piratas do Tietê. Mas você não manteve nenhum desses desenhos. Você tem facilidade de se desapegar das suas próprias criações? Eu sempre paro. Depois que eu produzo um desenho, entrego pro mundo e lá se foi. Eu também encerro determinadas fases do meu trabalho, como quando eu desenhava personagens. Mas um personagem que você manteve, mesmo ao parar alguns outros, foi o Hugo, que virou Muriel. Por quê? Porque Hugo/Muriel é a personagem que me ajudou a refletir e a fazer essa passagem, essa transição que eu ainda estou fazendo dentro da transgeneridade. Como o personagem me ajuda nessa passagem, eu gosto de mantê-la, porque é um processo que não termina. Em algumas entrevistas você disse que optou por trabalhar com temas mais poéticos, filosóficos, com metáforas. Por que essa escolha? Ao ir para essa área de temas livres, ao adotar uma

liberdade de procedimentos, eu verifiquei que eu gosto de fazer um tipo de história que pode ser lido como poético, no sentido de que a linguagem utilizada é diferente da narrativa cômica tradicional. Existem pesos diferentes nas representações gráficas, nos sinais e símbolos que eu uso. E isso, de certa forma, aproxima a linguagem que eu passei a fazer do que pode ser entendido como poético. E você é autocrítica com seu trabalho? Sou bastante, tendo a ver o que eu fiz com olhos muito críticos, de um modo geral. Eu sou rigorosa em relação ao que eu produzo, por temor, insegurança, vários tipos de sentimentos. Ocupação Laerte vai até 2 de novembro, e é gratuita. Ela está localizada no Itaú Cultural (Av. Paulista, 149). Terça à sexta, das 9h às 20h. Sábado e domingo, das 11h às 20h. Qr Code

Saiba+ - Edição Outubro de 2014  
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