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Conceituando o hipersigno (Para uma abordagem semiótica da hipermídia) Paulo C. Cunha Filho & André Neves 1 Introdução: do normativo ao descritivo É do poeta Fernando Pessoa [1986:217] o seguinte enunciado: “A ciência procura as leis particulares das cousas - isto é, aquelas leis que regem os assuntos ou objetos que pertencem àquele tipo de cousas que se estão observando. A ciência é uma subjetivação, porque é uma conclusão que se tira de determinado número de fenômenos. A ciência é uma cousa real e, dentro dos seus limites, certa, porque é uma subjetivação de uma impressão objetiva, e é, assim, um equilíbrio.” A procura deste equilíbrio, hoje, diante dos impasses do confronto sujeito-objeto (deslocado do eixo científico tradicional pela deriva virtual dos objetos e dos desejos), nos levaria diretamente a uma reflexão sobre o ciberespaço – ambiente de comunicação integrador da imaterialidade no acervo de objetos da pós-indústria. E mais do que isso: nos desafiaria a lançar uma hipótese central, dizendo que a hipermídia constitui-se hoje - sem dúvida - um dos principais pólos atratores de reflexão acadêmica - ou, como preferia o poeta, de subjetivações de impressões objetivas. Afinal, observada como um conjunto de aplicações das tecnologias da informática e da comunicação (W3, CD-Roms, softwares etc.), a hipermídia já constitui um complexo fenômeno sócio-cultural, atingindo extensos setores da sociedade contemporânea. Este fenômeno é complexo por ser composto de vários aspectos, entre os quais três têm se destacado, na literatura especializada: os impactos na produção e circulação de riqueza; os desenvolvimentos e expectativas de aplicações; as alterações comportamentais no relacionamento homem-máquina. A hipermídia afigura-se, desta maneira, como pluridimensional, espalhando-se, na forma de rizoma, no ambiente que usualmente denominamos ciberespaço. E, como tal, tomada em bloco, parece dificultar os estudos semioticamente rigorosos, já que implica em múltiplos pontos de vista. Webster [1995] defende que os impactos oriundos das transformações informacionais afetam, diretamente, cinco esferas do mundo contemporâneo (e não apenas as três acima, como nós): tecnológica, econômica, ocupacional, espacial e cultural. Nós consideramos, no entanto, que as esferas ocupacional (alterações nas relações e condições de trabalho) e espacial (realinhamento paradigmático das condições geográficas) podem ser atreladas às esferas econômica e comportamental, respectivamente. De fato, as verificações preliminares da hipermídia geralmente aponta para constatações apriorísticas, tais como [Cf. Cunha, 1997]: a instalação social do ciberespaço com suas aplicações hipermídicas tem um caráter tão multifacetado que impede o seu tratamento a partir de disciplinas fechadas, apelando para a transdisciplinaridade; ou ainda: em decorrência da transdisciplinaridade, a compreensão dos problemas induzidos pela hipermídia requer formulações epistemológicas complexas; e mais: a hipermídia propõe duas gamas de problemas, a saber: problemas já conhecidos nos media tradicionais (mas alterados por transposição) e problemas novos colocados pela estrutura particular do objeto (aquilo que ele tem de “específico”). A rigor, portanto, uma abordagem exclusivamente semiótica seria descabida, se aplicada na observação deste imenso amalgama cibernético. Além do mais, contribui igualmente para dificultar o rigor das abordagens semióticas, o fato de a hipermídia ser um fenômeno extremamente recente e, por outro lado, o fato de ser vítima dos erros cometidos por abordagens ingênuas ou fanáticas, contaminadas por especulações proféticas e idealistas a respeito do futuro. Talvez estes fatos expliquem as nossas dificuldades teóricas atuais mais graves, entre as quais destaca-se uma insistente indefinição de termos, englobando objetos conceitualmente divergentes como hipermídia,


hipertexto e multimídia; indefinição que poderia ser corrigida, é claro, se fosse possível refletir sobre a hipermídia de forma mais descritiva do que normativa, evitando, desta maneira, a tendência à estudá-la com intenção de influir na sua própria consolidação -qualquer que seja o foco desta tentativa de influência. Na perspectiva descritiva, seria legítimo recuperar avanços anteriores, de caráter disciplinar (semióticos, entre outros), e assim lançar algumas bases para o entendimento da hipermídia tal qual ela se estabelece como fenômeno de significação. Especificamente, caberia discutir a emergência de um novo dispositivo comunicacional (caracterizado mais como um ambiente do que como um media) e que, justamente por ser novo, parece deslocar profundamente as própria abordagens semióticas de outros objetos. 2 O todo (hipermídia) e as partes (hipersignos) Nota-se, como adiantamos acima, uma certa dificuldade para definir termos como hipertexto, hipermídia e multimídia. Constata Sébastien Joachim [1997]: “Certos estudiosos chamam um pelo nome do outro, e outros consideram que só existe hipermídia quando, ao texto, acrescentam-se som e/ou imagens”. \ Jean-Pierre Balpe [1990] acha todos os termos designam, de fato, hiperdocumentos, acessados através de um dispositivo que, no monitor, tem sempre aparência icônica ou quase icônica (pois até os verbos de comando - como apertar ou apagar - são acolhidos como imagens). Já para Colombo [1995], “from a technically strict point of view, the notion of hypertext refers to a type of software and the contents in a rational and non sequential manner and the forms of access to them.” Num trabalho anterior [Cf. Neves et al., 1997, sobretudo pp. 21-23], defendemos uma abordagem historicista, na qual afirmamos que o conceito de hipermídia ultrapassaria o limite da microhistória e se estenderia à macrohistória, isto é, aos primeiros esforços dos homens para compartilhar experiências. Estes esforços foram, como sabemos, inicialmente baseados em estruturas dia-lógicas (gestos e sons humanos), depois em media isolados(pinturas e escrituras) e, em seguida, em estruturas multimídicas (televisão e cinema). A hipermídia, por sua vez, registraria nossas experiências em meios imateriais e nos permitiria agregar o dinamismo dia-lógico da primeira etapa da comunicação com a relativa liberdade espaço-temporal alcançada com os suportes materiais. Avançando neste raciocínio, podemos considerar que - ao recuperar estruturas dia-lógicas para um ambiente comunicacional digital - a hipermídia pode ser definida como um conjunto singular de fatos. E que estes fatos se configuram em objetos, como websites, bancos de dados, games, e-mails etc. Seria cientificamente rigoroso considerar estes objetos como elementos de consolidação da hipermídia. Também é incontestável que a conformação destes objetos se dá a partir de imagens, textos e sons, combinados. Mas, a despeito do rigor, esbarramos na obvio. Como, então, superar esta obviedade? Propomos aqui isolar, em princípio, as pequenas (e muitas vezes nem tão pequenas assim...) bases semióticas que estruturam as parcelas constitutivas da hipermídia e chamar estes elementos corformados de hipersignos. Digamos - só por exemplo - que, entre os hipersignos que hoje têm maior relevância na estruturação da hipermídia, estão aqueles que denominamos de hipertextos. Mas esta relevância não nos autoriza, de forma alguma, a concentrar nossa atenção unicamente neles. Até porque o rigor analítico na abordagem de hipersignos (mesmo os que geram objetos do tipo hipertexto) necessita superar a dificuldade, dada pelo próprio sistema de conformação do ciberespaço, no qual, segundo Lévy [1996:138, tradução nossa], “todos os textos colaboram com a crença de um só imenso e incalculável hipertexto”.\


Como ele observa, “na Web, cada contribuinte efetua dois atos conceitualmente distintos: por um lado ele acrescenta ao estoque textual existente, de outro lado ele oferece aos outros navegadores seu ponto de vista pessoal sobre o estoque propondo hiperlinks entre sua contribuição e as dos outros. Assim, o hipertexto aberto no ciberespaço não se contenta em somar ou misturar os textos numa espécie de meio numérico oceânico, ele propõe também a articulação aberta e o diálogo de uma multidão de pontos de vista.” É impossível negar a pertinência da observação de Lévy: observado globalmente, o ciberespaço induz à visão de um imenso amalgama significante, em permanente mutação. Como então falar em objetos se não existe estabilidade no sistema? Apesar dessa aparente ausência de estabilidade, o desenvolvimento das interfaces mostra que o grande rizoma avança pela adição de nós, cada um deles desenvolvendo uma organização lógica e semântica própria. Definimos estes nós como condensações de hipersignos (como os hipertextos, ainda por exemplo), que constituem os objetos consolidados do rizoma. Cabe, neste ponto, tentar estabelecer uma distinção de níveis mais clara entre hipermídia e hipersigno, pois não haveria outra maneira de detalhar os corpos de significação que não partisse da definição de certos parâmetros que permitissem isolar os hipersignos do resto do ambiente cibernético. Ora, não há como contestar que alguns fatores hipermídicos preexistem aos resultados de significação consolidados no ciberespaço, isto é, aos próprios hipersignos. E que outros fatores hipermídicos sucedem aos hipersignos. O que quer dizer que teríamos, na hipermídia, um processo semiótico em três tempos: o momento em que seriam gerados os objetos, o momento em que eles estariam efetivamente significando (o ponto de encontro entre produção e recepção) e finalmente o momento de diluição, no qual, superado o momento de significação, entrariam em jogo suas conseqüências. hipermíia No primeiro momento do processo (produção) teríamos, por exemplo, os fatores tecnológicos (as engenharias de soft e de hardware), de financiamento (os investimentos industriais). No terceiro momento (diluição) teríamos, ainda por exemplo, os fatores de influência (as reações comportamentais), de distribuição (os investimentos comerciais). Tudo isso faz parte da hipermídia mas não exatamente do hipersigno, cuja área específica seria o segundo momento (significação). Esta distinção de níveis permite afirmar que a hipermídia propõe uma série de fatores dentre os quais o hipersigno seria aquele que se constitui principalmente na forma de um discurso significante localizável. E esta estrutura discursiva nos parece passível de ser isolada na forma de uma proposta de estudo que permita compreender o aspecto central da própria hipermídia, isto é, o seu aspecto semiótico. Portanto, ao considerar todos os aspectos da hipermídia, percebe-se que o próprio conceito de hipersigno relaciona-se com algo muito maior do que um processo discursivo, um ato de comunicação (intencional ou não) - já que expande-se também como um objeto baseado num modelo técnico e numa dimensão tecnológica; expande-se, assim, como o que poderia ser definido - de uma maneira um tanto desatenta - como um “objeto concreto” (quando, na verdade, fortemente impregnado por elementos imateriais). Numa perspectiva tradicional, muitos semiólogos argumentam que o signo pressupõe, necessariamente, uma materialidade (capaz de ser percebida através dos sentidos), além da condição particular de estar no lugar de outra coisa. \ Mas, retomando o que Ana Claudia Mei [1997:217] diz da arte em geral, é correto considerar que, em hipermídia, “para ganhar uma materialidade que lhe dê visibilidade, uma série de operações combinatórias são processadas a partir de elementos selecionados em seu código e sintagmatizados segundo certas regras também previstas por ele. Essa manifestação criada é pois plena de estratégias que, na medida mesma em que


colocaram os elementos de que ela é feita em discurso, tornam-se os melhores guias para que possamos compreendê-la.” De forma que, enquanto objeto, um hipersigno pode ser negociado, tornar-se instrumento de comércio. O caráter objetal da hipermídia deve ser, afinal, comparado com aquele do conjunto dos dispositivos característicos da era pós-industrial. Neste sentido, Guattari [1996:186-187] detecta quatro pontos do que ele considera o controle da subjetividade sobre a máquina: 1 a duplicação das antigas relações orais e escriturais pelos media; 2 a substituição das matérias-primas naturais pelos novos materiais fabricados; 3 a redução do tempo no tratamento de dados; 4 a remodelação das formas vivas pela engenharia biológica. Numa mirada semiótica, entretanto, sabemos que importaria mais concentrar a atenção sobre a dimensão significante do hipersigno e, na medida do possível, evitar suas características não-especificamente-semióticas. O que indica ser necessário considerar com muita parcimônia as experiências de compreensão e de memória, a análise de conteúdos ou de influência e o caráter mais ou menos artístico dos objetos. 3 As bases sensoriais do hipersigno e suas variantes Se Pierre Balbe [1990] defende que a hipermídia é uma composição de objetos icônicos, observe-se que, no estado atual da arte, as ações ainda são representadas por meios indiciais (muito mais que icônicos). Desta maneira, a imagem de uma lata de lixo (como representação do ato de apagar ou eliminar um objeto no meio cibernético) constitui-se essencialmente numa relação indicial. A imagem, neste caso, não se assemelha à ação, mas ao objeto-que-nos-remonta-ao-ato-de... Assim, como anunciou Brown [1996], os novos aparatos tecnológicos suportarão hipersignos onde ações serão representadas por ícones dinâmicos, concretizando então estruturas digitais de uma nova ordem. Entretanto, independente da primazia indicial, o hipersigno é uma estrutura de significação. E analisando-o nesta ótica, algumas substâncias de expressão inscrevem as configurações significantes em bases sensoriais de ordens diferentes, como vemos no quadro abaixo: Bases sensoriais _Substâncias de expressão_Variantes__Imagem (tipo 1)_traços e fundos “gráficos” _desenhos e/ou textos__Imagem (tipo 2)_imagens “pictóricas”_abstratas e/ou figurativas__Imagem (tipo 3)_imagens “fotográficas” _estáveis e/ou em movimento__Som (tipo 1)_voz_humana e/ou simulada__Som (tipo 2)_música _orquestrada e/ou cantada__Som (tipo 3)_ruídos_naturais e/ou artificiais__ As aspas nas palavras “gráficos”, “pictóricas” e “fotográficas” refletem a inadequação (e a possível necessidade de criar novos) termos para o ambiente digital. Ademais, estas substâncias e suas variantes - que podem ter origem digital (produzidos por computadores, numericamente) ou analógica (com base referencial e posteriormente digitalizados) -contaminam as figuras dos hipersignos com suas próprias características. Substâncias expressivas e figuras são inseparáveis e, como todo semiólogo percebe, mesmo que retiremos o foco principal de fatores psicológicos ou estéticos, só o fato de trabalhar com níveis sensoriais já implicaria num certo retorno calculado a eles, apesar da perspectiva diferenciada. Falar em perspectiva diferenciada significa, necessariamente, observar as condições hipermídicas de organização, de agenciamento, de intersemiose, visto que os códigos hipersígnicos apontam para algo novo: em primeiro lugar, eles recuperam características de grupos do códigos multimídicos (como os do cinema ou do vídeo); em segundo lugar, apesar de não possuir a mesma consistência ou estabilidade de códigos de línguas, há um resgate, pela interatividade, de alguns dos seus elementos mais importantes. E mais: pela primeira vez na história das estruturas artificiais de significação, um objeto discursivo não pode ser, a rigor, considerado um texto fechado.


Mesmo quando falamos de um romance ou de um filme como obra aberta, usando a fórmula consagrada de Umberto Eco, estamos, evidentemente, considerando patamares extremamente fluidos das experiências de leitura e de interpretação provocadas por estes objetos discursivos. Sabemos que Eco [1995:XIV] realinhou nos últimos anos os limites da interpretação mas persiste a idéia de que “um texto, uma vez separado de seu emissor (bem como da intenção do emissor) e das circunstâncias concretas de sua emissão (e consequentemente de seu referente implícito), flutua (por assim dizer) no vazio de um espaço potencialmente infinito de interpretações possíveis. Consequentemente, texto algum pode ser interpretado segundo a utopia de um sentido autorizado fixo, original e definitivo”. No hipersigno, entretanto, a definição de obra aberta está longe de ser metafórica - trata-se de um fenômeno constitutivo, inalienável de sua própria configuração. Pierre Lévy [1997:94-95] tem defendido que uma das características mais constantes da ciberarte é a participação/intervenção direta do espectador na materialização da obra, que funciona na base de uma criação contínua: “A obra virtual está ‘aberta’ para construção. Cada modificação que ocorre revela um novo aspecto. Além disso, certos dispositivos não se contentam em declinar uma combinatória, mas suscitam, no decorrer das interações, a emergência de formas absolutamente imprevisíveis. Assim, o ato de criação não está mais limitado ao momento da concepção ou da realização da obra: o dispositivo virtual propõe uma máquina capaz de provocar eventos.” Neste aspecto, o estudo de um hipersigno na condição de cronotopo integralmente significante, e além disso, na condição de objeto parcial que representa a totalidade da experiência hipermídica, pressupõe um método capaz de considerar os dados concretos e locais como representantes de um conjunto abstrato e genérico. Um método que a semiótica pode suprir em parte, desde que considerem-se atentamente os desvios que a própria hipermídia impõe à semiótica. Levinson [1997:129] alerta para o seguinte detalhe: “Words on computer screens are a new kind of medium. Like the addition of blue dye to water, which results not in blue dye plus water, but a new kind of blue water, words on screen are not just screen plus words, but new kinds of words - or a new kind of screen.” (Why?) Para que tal método fosse construído, seria importante verificar que forma e substância do conteúdo e da expressão só podem ser avaliados de maneira a atingir o conjunto a partir de dados localizados. E mesmo assumidamente parcial (como qualquer análise, aliás), este tipo de abordagem procuraria entender o hipersigno como estrutura global. Seria possível, de fato, o estudo do hipersigno como parte da hipermídia? E seria viável uma abordagem do hipersigno como unidade discursiva ou composição textual, e que visasse detectar os diferentes sistemas que o informam e nele se imbricam? Parafraseando o que Metz [1977:15 e seq.] propôs na definição semiológica do filme e do cinema, digamos que, no interior do hipersigno, encontra-se a hipermídia. Na análise do hipersigno como objeto discursivo particular, a hipermídia impõe-se. Isto é, na análise do objeto localizado revela-se o conjunto dos hipersignos, daqueles traços que, em cada um deles, caracterizam um certo procedimento discursivo geral. Há, portanto, uma espécie de conjunto ideal, ao qual cada hipersigno se refere na qualidade de unidade concreta. Cria-se desta maneira um campo genérico dos hipersignos - e este campo genérico seria a hipermídia -, moldado a partir de conjuntos e subconjuntos de linguagens, procedimentos, comportamentos. Talvez seja possível visualizar esta idéia a partir do seguinte diagrama: _


__ hipermídia hipersigno hipermídia No quadro externo, temos a hipermídia como um grande conjunto de fatores contextuais (econômicos, sociológicos, antropológicos, estéticos etc.); No nível intermediário, o hipersigno, ou seja, o conjunto de fatores específicos de significação. No nível interior, aquilo que, na hipermídia, reflete a conformação da significação - a base conjuntural da qual são produzidas as figuras. Este diagrama representa, em síntese, que a hipermídia é um conjunto pluridimensional (com implicações tecnológicas, econômicas e culturais) em cujo núcleo pode ser isolado um espaço propriamente semiótico, mas no qual sobrevivem as características contextuais. São as figuras que, impostas pelas condições sensoriais das substâncias expressivas, aglutinam-se em estruturas de significação. Cada hipersigno atualiza estas figuras, compostas a partir de um repositório genérico. O hipersigno é assim uma mensagem que se concretiza e, ao se concretizar, atualiza a estrutura hipermídica como um discurso efetivamente provocado, melhor dizendo, como objeto concreto. De forma comparável a um falante que atualiza uma língua ao proferir um discurso verbal. A comparação entre o discurso verbal e o discurso hipermídico não é de maneira alguma descabida, como esclarece Lévy [1987] neste trecho: “La courte histoire du dialogue entre les hommes et les ordinateurs peut-être analysée comme um effort pour combler le fossé entre les langages formels et les langues naturelles. _ __ Repositório de configurações significantes: dentro deste processo, uma tela de um site específico poderá propor uma solução discursiva que use [um fundo + uma imagem “fotográfica” + uma música]. Outra tela, até dentro do mesmo website, poderá conformar sua mensagem a partir de [um texto + uma imagem “pictórica”]. E assim por diante. De modo que um quadro de bases sensoriais da linguagem hipermídia -como o sugerido aqui ou outro mais preciso - nos livraria da idéia muitas vezes adiantada de que “tudo” é possível num hipersigno. Na verdade, essa virtual liberdade expressiva é limitada pelo repositório discursivo. Admitimos que a impressão de ausência de limites da hipermídia está assentada sobre duas bases: naquilo que Eco [Op. cit.:XIV] chama de “deriva infinita do sentido” da interpretação (isto é, do mecanismo semiótico através do qual construímos cognitivamente mundos atuais e possíveis); e no aspecto mutante constitutivo das mensagens, provocado pela flutuação do registro digital e, sobretudo, pela interação. A este respeito, seguindo a excelente classificação de André Lemos [1996], a interatividade pode ser: social, já que a nossa relação com o mundo é uma relação interativa na qual a ações variadas correspondem retroações diversas. Essa interação funda toda vida em sociedade; tecno-social, que faz do aparato técnico analógico uma ferramenta convivial; digital, na qual é possível interferir no conteúdo informativo em tempo real. Diz Lemos:. “A interatividade digital, a partir dos hipertextos, fez com que os produtores culturais mudassem suas formas de concepção dos conteúdos de seus produtos. Assim, se com o ‘broadcasting’ os produtores tinham como objetivo realizar uma programação que captasse a audiência de forma homogênea, com os novos media digitais interativos, o que está em jogo é um ‘metadesign’ [...] deixa livre o utilizador para que ele participe também do processo de concepção. Estabelece-se, dessa forma, um processo não-linear de concepção e de utilização (interatividade) dos conteúdos.”


São os hipersignos - sejam eles on-line (Web) ou off-line (CD-Rom) - que, ao atualizarem o repositório de substâncias de expressão da hipermídia, propõem mensagens ao dispositivo. Apenas, contrariamente aos media da era analógica baseados em suportes materiais, esta atualização é digitalmente interativa, e ocorre um processo de metasignificação no qual as substâncias de expressão (três tipologias de imagem e três tipologias sonoras) permitem uma verdadeira (e não metafórica) deriva infinita do sentido: a navegação não-linear sob a forma de interferências, contra-interferências e links. Na seqüência da descrição de Lemos, seria interessante estabelecer novos parâmetros de estruturação do ciberespaço, levando em consideração as características realmente específicas deste ambiente, se comparado aos media anteriores. Em primeiro lugar, sabemos que para que haja hipersigno, é preciso que um sujeito-

estimulador (vamos chamá-lo de autor) induza algum tipo de informação digital no ciberespaço. A noção de autor, no caso, não deve de maneira alguma ser confundida com uma individualidade criadora, mas consiste numa entidade (muitas vezes coletiva e parcialmente não-humana) cuja base de ação é o mundo real. Seria necessário um longo desenvolvimento para aprofundar as várias nuances da transformação de conceitos da era industrial (como o de autor) na dimensão digital. Não é o nosso propósito neste artigo. Apenas alertamos que, como diz Brickman [1996:323], “the network is in the process of changing not just how we work, but how we think of ourselves - and ultimately, who we are”. A partir do instante em que a informação digital encontra-se no ciberespaço, dois tipos de interação digital são possíveis: a interação digital homem-máquina; a interação digital máquina-homem. O que as distingue? De um lado, no primeiro caso - em que existe uma interação digital restrita -, o ser humano (diretamente ou através de avatares), interfere nos hipersignos, transformando sua estrutura de forma-conteúdo. É o caso, por exemplo, de alguém que acrescenta um comentário numa lista de discussão, uma uma imagem num banco de dados. De outro lado, no segundo caso - em que existe uma interação digital ampla -, a máquina, através de agentes inteligentes, propõe ao usuário novas estruturas de forma-conteúdo da informação digital. É o caso de uma galeria de imagens randômicas, oferecidas numa seqüência determinada “aleatoriamente” pelo sistema, ou de um robô que escolhe na web informações que considera adequadas para um determinado usuário. Poderíamos sugerir, nesta perspectiva, o seguinte padrão de ciberobjetos: Ambiente_Ciberespaço__Tipo de objeto_Ciberobjetos passivos (interatividade homem-máquina)_Ciberobjetos ativos (interatividade máquina-homem)__ Dispositivo_Hiperdocumentos_Hipercena__Conformação_Hipertexto, hiperimagem, hiper-som, etc._Agentes inteligentes, VRML etc.__ Em síntese, o que propomos é a imediata superação da visão de que a experiência digital se processa exclusivamente na forma “ativa” - ou, pelo menos, que se considerem outras intensidades mais restritas de quase “passividade”. Nesta altura da reflexão sobre a hipermídia, não seria possível aceitar posições como a de Holtzman [1997], que não aceita falar de passividade. De qualquer modo, nos dois casos (os ciberobjetos passivos e ativos), são os hipersignos que abrigam a carga de significação da hipermídia. E independente da necessidade de A partir do instante em que a informação digital encontra-se no ciberespaço, dois tipos de interação digital são possíveis: a interação digital homem-máquina; a interação digital máquina-homem.


O que as distingue? De um lado, no primeiro caso - em que existe uma interação digital restrita -, o ser humano (diretamente ou através de avatares), interfere nos hipersignos, transformando sua estrutura de forma-conteúdo. É o caso, por exemplo, de alguém que acrescenta um comentário numa lista de discussão, uma uma imagem num banco de dados. De outro lado, no segundo caso - em que existe uma interação digital ampla -, a máquina, através de agentes inteligentes, propõe ao usuário novas estruturas de forma-conteúdo da informação digital. É o caso de uma galeria de imagens randômicas, oferecidas numa seqüência determinada “aleatoriamente” pelo sistema, ou de um robô que escolhe na web informações que considera adequadas para um determinado usuário. Poderíamos sugerir, nesta perspectiva, o seguinte padrão de ciberobjetos: Ambiente_Ciberespaço__Tipo de objeto_Ciberobjetos passivos (interatividade homem-máquina)_Ciberobjetos ativos (interatividade máquina-homem)__ Dispositivo_Hiperdocumentos_Hipercena__Conformação_Hipertexto, hiperimagem, hiper-som, etc._Agentes inteligentes, VRML etc.__ Em síntese, o que propomos é a imediata superação da visão de que a experiência digital se processa exclusivamente na forma “ativa” - ou, pelo menos, que se considerem outras intensidades mais restritas de quase “passividade”. Nesta altura da reflexão sobre a hipermídia, não seria possível aceitar posições como a de Holtzman [1997], que não aceita falar de passividade. De qualquer modo, nos dois casos (os ciberobjetos passivos e ativos), são os hipersignos que abrigam a carga de significação da hipermídia. E independente da necessidade de abordar o ciberespaço de maneira transdisciplinar, parece-nos claro que uma empreitada analítica de cunho semiótico teria de passar pela discussão dos hipersignos. \ Referências bibliográficas BALPE, J. P. (1990) - Hyperdocuments, Hypertextes, Hypermedias, Paris: Eyrolles. BROWN, Paul (1996) - "The Ethics and Aesthetics of the Image Interface". In http://www.altavista.digital.com BRUCKMAN, Amy (1996) - “Gender swapping on the internet”. In High noon on the eletronic frontier - conceptual issues in cyberspace (P. Ludlow, ed.). Cambridge: MIT Press. COLOMBO, F., (1995) - “Hypertext”, in Oltre il Villagio Globale. Milano: Electra. CUNHA, Paulo (1997) - Percepção, interfaces e tratamento da informação no ciberespaço. Projeto de Pesquisa. Recife: Projeto Virtus/Universidade Federal de Pernambuco. In http://www.cac.ufpe.br/projeto. ECO, Umberto (1995) - Os limites da interpretação. São Paulo: Perspectiva. GUATTARI, Félix (1996) - “Da produção da subjetividade”. In Imagem máquina - a era das tecnologias do virtual. São Paulo: Editora 34. HOLTZMAN, Steven (1997) - Digital mosaics - the aesthetics of cyberspace. New York: Simons & Schuster. JOACHIM, Sébastien (1997) - “Intersemiose, interatividade nas modelizações hipermídias”. Artigo inédito. Recife: Programa de Pós-graduação em Letras e Lingüística da Universidade Federal de Pernambuco. LEMOS, André (1996) - “Anjos interativos e retribalização do mundo. sobre interatividade e interafaces digitais”, in http://www.facom.ufba.br LEVINSON, Paul (1997) - The soft edge - a natural history and future of the information revolution. London and New York: Routledge. LÉVY, Pierre (1987) - La machine univers - création, cognition et culture informatique. Paris: Éditions de la Découverte. LÉVY, Pierre (1996) - L’hyperscène: de la communication spetaculaire à la communication tous-tous”. In Les cahiers de médiologie, 1. Paris: Gallimard.


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Conceituando o hipersigno