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Contém:

Ato sem palavras I Berceuse Kata / strofe Vai e vem Koá-Ú


Ato sem palavras I ato sem palavras Act without words, vertido para o francês por s. beckett Acte sans paroles, vertido para o brasileiro por accioly & michelotto@ [

> ESTE

MEMBROS DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE AUTORES TEATRAIS

ATO É ACOMPANHADO DE UM APEÇA MUSICAL DE

]

J. BECKETT

> PERSONAGEM: UM HOMEM. FAZ UM GESTO FAMILIAR: DOBRA E DESDOBRA SEU LENÇO. >CENA: >

DESERTO. ILUMINAÇÃO FORTÍSSIMA CÓDIGOS DE LEITURA ( DE TRADUTORES): HORIZONTAIS: D > = DIREITA LD>= LATERAL DIREITA

//

E< = ESQUERDA LE< = LATERAL ESQUERDA

//

VERTICAIS:

DC∀= VINDO DE CIMA

//

OUTROS: T >= > C ^>___ LSL .^ LP """" R >:<

[ TROPEÇA ] [ CAI ] [ LOGO SE LEVANTA ] [LIMPA A POEIRA] [ REFLETE ]

PC^

=

PARA CIMA


AÇÃO:

LANÇADO DE COSTAS PELA LD > O HOMEM TROPEÇA, CAI, LOGO SE LEVANTA, LIMPA A POEIRA, REFLETE. APITO SOA NA

LD

>

ELE REFLETE, SAI À DIREIA. É IMEDIATAMENTE REENVIADO PARA O PALCO. TROPEÇA. CAI, LOGO SE LEVANTA, LIMPA A PORIRA, REFLETE. APITO NA

LE

<

ELE REFLETE, SAI À ESQUERDA. É IMEDIATAMENTE REENVIADO PARA O PALCO. TROPEÇA, CAI, LOGO SE LEVANTA, LIMPA A POEIRA, REFLETE. APITO À E< ELE REFLETE, CAMINHA PARA A LATERAL ESQUERDA, PÁRA ANTES, SE JOGA PARA TRÁS, TROPEÇA, CAI, SE LEVANTA IMEDITAMENTE, LIMPA A POEIRA , REFLETE.

UMA PEQUENA ÁRVORE DESCE DO TETO. POUSA NO CHÃO. TEM APENAS UM PEQUENO GALHO, A 3 METROS DO SOLO. EM SEU CUME, UM PEQUENO TUFO DE PALMAS, QUE PROJETA UMA SOMBRA TÊNUE ELE REFLETE O TEMPO TODO. APITO VINDO DC∀ ELE SE VOLTA, VÊ A ÁRVORE, REFLETE, VAI EM DUA DIREÇÃO, ASSENTA-SE À SOMBRA, OLHA PARA AS MÃOS. UMA TESOURA DE ALFAIATE DESCE DO TETO. SE IMOBILISA DIANTE DA ÁRVORE, A 1 METRO DO CHÃO.


ENQUANTO ISSO ELE CONTINUA A OBSERVAR AS MÃOS. APITO VINDO DC∀ ELE LEVANTA A CABEÇA, VÊ A TESOURA, REFLETE, APANHA-A E COMEÇA A CORTAR AS UNHAS. . AS PALMAS SE ABAIXAM SOBRE O TRONCO. A SOMBRA DESAPARECE. ELE LARGA A TESOURA, REFLETE. UMA PEQUENA GARRAFA, COM UMA GRANDE ETIQUETA RÍGIDA, TENDO A INSCRIÇÃO: "ÁGUA", DESCE DO TETO. SE IMOBILISA A 3 METROS DO SOLO . ENQUANTO ISSO ELE REFLETE. APITO VINDO DC∀

LEVANTA OS OLHOS, VÊ A GARRAFA, REFLETE, SE LEVANTA, VAI ATÉ DEBAIXO DA GARRAFA, TENTA EM VÃO ALCANÇÁ-LA, DÁ-LHE AS COSTAS. UM GRANDE CUBO DESCE DO TETO. POUSA NO SOLO. ELE CONTINUA A REFLETIR. APITO VINDO DC∀ ELE SE VOLTA, VÊ O CUBO, OBSERVA-O BEM, COLOCA-O SOB A GARRAFA, EXPERIMENTA SUA ESTABILIDADE, SOBE NELE, TENTA EM VÃO PEGAR A GARRAFA, DESCE, COLOCA O CUBO EM SEU LUGAR PRECEDENTE, DÁ DE COSTAS, REFLETE. UM SEGUNDO CUBO, MENOR, DESCE DO TETO. POUSA NO SOLO. ENQUANTO ISSO ELE REFLETE. APITO VINDO DC∀ ELE SE VOLTA, VÊ O SEGUNDO CUBO, OBSERVA-O, COLOCA-O SOB A GARRAFA, TESTA SUA ESTABILIDADE, SOBE NELE, TENTA EM VÃO ATINGIR A GARRAFA; DESCE, PENSA EM RECOLOCAR O CUBO EM SEU LUGAR, IMAGINA ALGO E RECOLOCA-O NO CHÃO; VAI BUSCAR O CUBO MAIOR, COLOCA-O SOBRE O MENOR,


TESTA O EQUILÍBRIO, SOBE, O CUBO MAIOR ESCORREGA, ELE CAI, SE LEVANTA IMEDIATAMENTE, SACODE A POEIRA, REFLETE. PEGA O CUBO MENOR, COLOCA-O POER SOBRE O MAIOR, EXPERIMENTA O EQUILÍBRIO, SOBE NELE E VAI CONSEGUIR PEGAR A GARRAFA QUANDO ELA, LIGEIRAMENTE, SOBE UM POUQUINHO MAIS E SE ESTABILISA FORA DE SEU ALCANCE. ELE DESCE, REFLEETE, RECOLOCA OS CUBOS EM SEUS LUGARES, UM DE CADA VEZ, VIRA AS COSTAS PARA ELES, REFLETE. UM TERCEIRO CUBO, MENOR AINDA, DESCE DO TETO. POUSA NO SOLO. ENQUANTO ISSO ELE REFLETE. APITO DC" ELE SE VOLTA, VÊ O TERCEIRO CUBO, OBSERVA-O, REFLETE, LHE DÁ AS COSTAS, REFLETE. O TERCEIRO CUBO SOBE . DESAPARECE AO ALTO. AO LADO DA GARRAFA, DESCE DO TETO UMA CORDA, CHEIA DE NÓS. SE IMOBILISA 1 METRO DO SOLO E ELE A REFLETIR APITO DC

ELE SE VOLTA, VÊ A CORDA,REFLETE, SOBE NA CORDA E VAI CONSEGUIR PEGAR A GARRAFA, QUANDO A CORDA COMEÇA A DESCER, LEVANDO-O DE VOLTA AO SOLO.

ELE DÁ AS COSTAS PARA A CORDA, REFLETE, PROCURA COM OS OLHOS A TESOURA, A VÊ, VAI APANHÁ-LA, VOLTA PARA A CORDA E TENTA CORTÁ-LA. A CORDA É PUXADA, O LEVANTA DO CHÃO, ELE SE AGARRA CONSEGUE CORTÁLA, CAI, SE LEVANTA, LARGA A TESOURA, CAI, SE LEVANTA IMEDIATAMENTE, SACODE A POEIRA, REFLETE. A CORDA VOLTA A SUBIR RAPIDAMENTE DESAPARECE AO ALTO. COM SEU PEDAÇO DE CORDA,

.


ELE FAZ UM LAÇO COM O QUAL EXPERIMENTA PEGAR A GARRAFA. A GARRAFA SOBE RAPIDAMENTE. DESAPARECE AO ALTO. ELE DÁ AS COSTAS, E REFLETE. COM O LAÇO À MÃO, VAI ATÉ A ÁRVORE, OBSERVA O GALHO, SE AFASTA, OBSERVA OS CUBOS, PEGA O MENOR, COLOCA-O SOB O GALHO, VOLTA PARA PEGAR O MAIOR, E LEVÁ-LO ATÉ DEBAIXO DO GALHO; VAI COLOCAR O MAIOR SOBRE O MENOR, PÁRA; COLCOCA O MENOR SOBRE O MAIOR, EXPERIMENTA O EQUILÍBRIO, OBSERVA O GALHO, VIRA DE COSTAS PARA PEGAR O LAÇO. O GALHO ARREIA AO LONGO DO TRONCO. ELE SE LEVANTA, LAÇO À MÃO, VIRA DE FRENTE PARA O GALHO, CONSTATA. VIRA DE COSTAS, REFLETE. RECOLOCA OS CUBOS, UM A UM, EM SEUS LUGARES ANTERIORES, ENROLA CUIDADOSAMENTE O LAÇO E COLOCA-O POR SOBRE O CUBO MENOR. VIRA DE COSTAS E REFLETE. APITO VINDO DA LD< ELE REFLETE, SAI À DIREITA. É IMEDIATAMENTE REENVIADO PARA O PALCO, TROPEÇA, CAI, LEVANTA-SE IMEDIATAMENTE, SACODE A POEIRA, REFLETE. APITO À E< ELE NÃO SE MEXE. OLHA PARA SUAS MÃOS, PROCURA COM A VISTA A TESOURA, A VÊ, VAI APANHÁ-LA, COMEÇA A CORTAR AS UNHAS, PÁRA, REFLETE, PASSA O DEDO POR SOBRE O FIO DA LÂMINA, LIMPA-A COM O LENÇO; VAI COLOCAR A TEOSURA E O LENÇO SOBRE O CUBO MENOR, VIRA-SE DE COSTAS PARA A ELE, ABRE O COLARINHO, DEIXA LIVRE O PESCOÇO E O APALPA. O CUBO MENOR SOBE. DESAPARECE NO ALTO, LEVANDO LAÇO, TESOURA E LENÇO. ELE SE VOLTA PARA PEGAR A TESOURA ASSENTA-SE SOBRE O CUBO MAIOR.

,

CONSTATA,

O CUBO MAIOR SE MOVIMENTA, FAZENDO-O CAIR POR TERRA. SOBE E DESAPARECE. ELE SE MANTÉM CAÍDO, DEITADO DE LADO, COM A FRENTE VOLTADA PARA A PLATÉIA, COM O OHAR FIXO.


A GARRAFA DESCE. SE IMOBILISA MAIS OU MENOS A

1/2

METRO DE SEU CORPO.

ELE NÃO SE MEXE A GARRAFA DESCE AINDA MAIS. SE BALANÇANDO PARA CIMA E PARA BAIXO, DIANTE DE SEU ROSTO.

ELE NÃO SE MEXE

A GARRAFA SOBE . DESAPARECE AO ALTO. O GALHO DE ÁRVORE SE

LEVANTA, AS PALMAS SE ENTREABREM, VOLTA A SOMBRA.

ELE NÃO SE MEXE A ÁRVORE SOBE DE NOVO E DESAPARECE AO ALTO.

ELE FICA A OBSERVAR SUAS MÃOS.

***

NOTAS PARA UMA LEITURA DO ATO SEM PALAVRAS

I

1BECKETT, DIZ A LENDA, PREFERIA ESCREVER EM FRANCÊS DO QUE EM INGLÊS, SUA LÍNGUA NATIVA. TALVEZ DESSA PREDFER6ENCIA TENHA NASCIDO O ATO SEM PALAVRAS I. NUMA DESSAS BRINCADEIRAS QUE A LINGUAGEM NOS ARMA, BECKETT DEVE TER TRADUZIDO, OU MELHOR TRANSLITERADO "COMÉDIE" EM "COMICS". POIS ESSA É UMA PEÇA EM QUADRINHOS... ATO SEM PALAVRAS É UMA EXPERIÊNCIA DE LEVAR AO PALCO TODA A FORÇA FORMAL DOS DESENHOS E DE SEUS BALÕES CARREGADOS DE EXCLAMAÇÒES, INTERROGAÇÕES, SONS DE VIOLÊNCIA E DE TODA UMA ORDEM QUE A LITERATURA ( MESMO A TEATRAL ) HAVIA RELAGADO PARA FUNDO DE CENA DO TEXTO. ESSE APITO INSISTENTE - POR MAIS QUE SE O POSSA LIGAR À ENTÃO FAMOSA CAMPAINHA DE PAVLOV - É, FUNDAMENTALMENTE, E EM GRANDE PLANO - UM BALÀO DE HISTÓRIA DE HQ, COM UM PRIIIIIIII ESCRITO DENTRO EM GARRAFAIS LETRAS DESENHADAS , COMO AS QUE APARECERÃO NA GARRAFA ( MENOS GARRAFAIS , TODAVIA...). POIS NO DESLIZE, DENTRO DA CADEIA PARADIGMÁTICA, AO NÍVEL DO SOM, FOI QUE BECKETT PASSOU DA COMÉDIA AOS COMICS. E POR ISSO MESMO, UMA CENA SUPOSTAMENTE MUDA, COMO ATO SEM PALAVRAS I, É TERRIVELMENTE MARCADA PELA AUSÊNCIA DE QUALQUER OUTRO ELEMENTO FONÉTICO DE NOSSA HABITUAL CONVERSAÇÀO HUMANA; E É, AO MESMO TEMPO, MARCADA POR SUA "PRESENÇA NEGATIVA" POR ASSIM DIZER, PELO CONTRAPONTO COM ESSE PRIIII MALDITO, QUASE QUE INJUSTIFICÁVEL GRAMATICALMENTE.


POIS O PRIIII DENTRO DE UM BALÃO DE HQ, REÚNE EM SI, NESTE SEU ENCLAUSURAMENTO, TODAS AS CATEGORIAS DO REGRAMENTO E PESO DE UMA LINGUAGEM: ELE É ADVÉRVIO, É INTERJEIÇÀO, É VERBO, É SUJEITO AUSENTE, É ETC...

HÁ APENAS UM SENÀO, QUE É MARCADO POR BECKETT: DIANTE DE TODA A "TEORIA FUNCIONALISTA/ HUMANÍSTICA DA LINGUAGEM", NEM TODOS OS CÃES SALIVAM ! O HOMEM DE BECKETT NÃO PRECISA SALIVAR : TEM DIANTE DE SI AS PRÓPRIAS MÃOS, QUE ELE PASSA A OBSERVAR COM MAIOR INSISTÊNCIA... ATO SEM PALAVRAS I PODERIA SER TOMADO POR UMA FÁBULA QUE COMPORTASSE UMA INFINIDADE DE ENSINAMENTOS MORAIS... A FAMOSA "MORAL DA FÁBULA"... ALGUMAS DESSAS "MORAIS" NÓS JÁ ANUNCIAMOS AQUI, COMO A DO "CONDICIONAMENTO REFLEXIVO DO SUJEITO", OU A DO "MAIS VALE UM ATO QUE MIL PALAVRAS ". ESSA ÚLTIMA É UMA VERSÃO MAL FEITA E DESAVERGONHADA DE UM PENSAMENTO DE MAO, PENSAMENTO QUE SÓ PODE SER ENTENDIDO DENTRO DE UMA ESCRITURA E UM PENSAMENTO PICTÓRICO, IDEOGRAMÁTICO, IMAGINAL. PREFERIMOS ANUNCIAR TAIS MORAIS, SEM NOS ASRRISCAR A PISAR NESSE TERRENO LODOSO. E ISSO POR SUSPEITARMOS QUE BECKETT ESTAVA SE LIXANDO E TEM POUCO A VER COM TODO O CÊRCO FILOSÓFICO QUE LHE FIZERAM. O QUE NÃO QUER DIZER QUE ELE NÀO FÔSSE UM GRANDE PENSADOR CONTEMPORÂNEO, PELO CONTRÁRIO... A "FILOSOFIA" QUE LHE QUISERAM VERTER EM TEATRO, TRANSCRITA AQUI E ALI EM LITERATURA, É E SERÁ SEMPRE DE OUTRA ORDEM. SOBRETUDO SE SE TRATA DE CENA. EM CUJA RAIZ ESTÁ ESPETÁCULO E RISO. NÀO HÁ HOMENS DESESPERADOS E CONDICIONADOS EM BECKETT: HÁ HOMENS ASSISTINDO E RINDO DO DESESPÊRO E DO CONDICIONAMENTO HUMANO, O QUE É COISA DE OUTRA ORDEM, O QUE É COISA BEM DIFERENTE. TÀO DIFERENTE QUANTO DIFERENTES SÃO LITERATURA, PENSAMENTO, MUNDO DAS IDÉIAS E COMICS. NO MUNDO DAS IDÉIAS E DOS PENSAMENTOS, O CÔMICO É SEMPRE UMA OPUTRA IDÉIA DE UM OUTRO PENSAMENTO, FILHOTES ESES REPRODUZIDOS EM DESLIZES, LAPSUS E TODAS ESSAS COISAS QUE ENCHEM DE MATÉRIA UM SIMPLES SONHO E ENCHEM DE SONHOS E ANGÚSTTIA UM SIMPLES MORTAL [ E, POR QUE NÀO, ENCHEM DE SIMPLES MORTAIS OS CONSULTÓRIOS PSIQUIÁTRICOS !..]. SUSPEITAMOS QUE BECKETT ESTÁ SEMPRE A TOMAR DISTÂNCIA EM RELAÇÃO A ESSE UNIVERSO LÍTERO-REFLEXIVO. ESTAMOS A AFIRMAR QUE ELE CONTEM SUA DOSE DE RISO E SUA DOSE DE TRAGÉDIA. NADA TÀO DIVERTIDO, AINDA MAIS PARA OS QUE ASSIM FORAM CONDICIONADOS, QUE UMA RÉCITA, UM CHÁ LÍTERO-QUALQUER-COISA... HÁ INÚMERAS CENAS QUE TRABALHARAM TAL ASPECTO, DE MOLIÈRE A SHAKESPEARE. OU VOCÊ ESQUECEU QUE OBRA PRIMA DE HUMOR-NEGRO ELE PRODUZIU, POR EXEMPLO, AO REFLETIR SOBRE A VIDA E O SER - DENTRO DE UM CEMITÉRIO; E SOBRE A GRANDEZA, DIVIDINDO-A COM YORICK, UM BOBO DE CORTE... O QUE ESTAMOS TENTANDO DIZER É QUE BECKETT TRABALHOU UM OUTRO ASPECTO DE TUDO ISSO, E QUE SE ELE NÀO O TIVESSE FEITO, ALGUÉM TERIA QUE FAZÊ-LO. EM SUA VIDA PARTICULAR, PARECE QUE TEVE O HUMOR NEGRO DE FAZER LONGOS SARAUS LITERÁRIOS COM JOYCE E VÁRIOS OUTROS "CRÂNIOS" ASSEDIADOS EM PARIS. EM SUA OBRA, ELE NOS PARECE REPRODUZIR COM ESTREMA FIDELIDADE AQUELA SITUAÇÀO DE "HUMOUR" DA CENA INDICADA EM SHAKESPEARE.


NUM MUNDO DE LIVROS E IDÉIAS, BECKETT ESTAVA MAIS PARA BÁRBARA CARTLAND, ESTAVA MAIS PARA O RÁDIO, O CINEMA E A TV; E, NOS PARECE QUE EM SEUS DOIS ATOS SEM PALAVRAS E OUTRAS PEÇAS, ESTAVA MAIS PARA O CIRCO - ESSE AVÔ DESVAIRADO DE NOSSO FAZER TEATRAL E DE NOSSAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS. SUSPEITAMOS QUE BECKETT ESTAVA A QUILÔMETROS, MILHAS E LÉGUAS DE DISTÂNCIA DE TODAS ESSAS POSIÇÕES DE "FILOSÓFICO-ARREPENDIMENTO-DIANTE-DA-VIDA" QUE QUEREM OS TRISTES LHE IMPUTAR . BECKETT FAZIA CENA. EM TODOS OS SENTIDOS. 2SE INSISTIMOS NAS RELAÇÕES COMÉDIA/ COMICS, LITERATURA/ MUNDO DAS IDÉIAS, MUNDO DAS IDÉIAS/ MUNDO NOVO, FOI SOBRETUDO PARA PODERMOS MARCAR ALGUMAS DISTÂNCIAS DE BECKETT EM RELAÇÃO AO TEATRO - QUE ESTÀO BEM DELINEADAS NA TRAMA DE FUINDO DE SUAS PEÇAS E TAMBÉM EM ATO SEM PALAVRAS I. SERIAM ELAS: A- A DISTÂNCIA PARA COM UMA CERTA RELAÇÀO TEATRO/TEXTO. RELAÇÀO SEMPRE MAIS FAVORÁVEL AO TEXTO; E SEMPRE MAIS PREJUDICIAL AO TEATRO E À CONSTITUIÇÀO DA CENA. A ELIMINAÇÃO DE TODO "SOM DE CORDA VOCAL", A ESTRUTURAÇÀO DE UM ETXTO PURAMENTE DIDASCÁLICO, A OBSESSIVIDADE DESSE APITO DE MÚLTIPLOS SIGNIFICANTES, DE SIMPLICIDADE E NULIDADE ALTAMENTE EXPLOSIVAS; A TROCA DE UM TEXTO TEATRAL POR U M TEXTO EM BRANCO, CIRCENSE, SÃO UMA SÉRIE DE INDICADORES DESSA RELAÇÀO BECTIANA DIFERENCIADA ENTRE TEXTO/ TEATRO. B-

TEATRO/ AUTOR:

NOVA RELAÇÃO MARCADA EM ATO SEM PALAVRAS I. ELA DECORRE DO IMPERIALISMO EXISTENTE NA ANTERIOR ( TEXTO/TEATRO ). TODO AUTOR DISSEMINA AQUI E ALI EM SEU TEXTO, MARCAS DE UMA SEGUNDA ASSINATURA - COMO SE A PRIMEIRA NÀO BASTASSE ... SÀO AQUELAS VINHETAS ( OU DIDASCALIAS ) COM AS QUAIS ELE NÀO QUER JAMAIS DEIXAR UMA PEÇA SAIR DE SUAS GARRAS. "COM AR DISTANTE", " SAI APRESSADAMENTE ", "LEVANTA-SE IMEDIATAMENTE" E COISAS TAIS, SÀO MARCAS QUE FORMAM UM CONJUNTO DE TENTATIVAS DE POSSESSÕES SUCESSIVAS, NÀO MAIS DO TEXTO, DO LITERÁRIO, SOBRE A CENA; MAS AGORA DA PRÓPRIA CENA SOBRE O TEXTO, AGORA SOB O CONTROLE DO AUTOR. A TODO CUSTO, PENSARÍAMOS, O AUTOR QUER SER DONO DO ESPETÁCULO FINAL, DA MISE-ENSCÈNE... E ASSIM PENSEI EU TAMBÉM QUANDO ESCREVI ESSE TEXTO PELA PRIMEIRA VEZ... HOJE PORÉM ME PARECE BEM NÍTIDO QUE ESSE USO DO TEXTO NÀO SE DEVE A RAZÕES DE ORDEM DE PSICOLOGIA DA POSSESSIVIDADE, MAS QUE É UMA MARCA TEXTUAL DE LIBERAÇÀO DA CENA, O TEXTO É "EMPOBRECIDO LITERARIAMENTE" EM VISTA DE SE ENRIQUECER CENICAMENTE. NÃO ME PARECE QUE BECKETT QUEIRA IMPINGIR SUA AUTO-DIREÇÃO, MAS APENAS DAR MARCAS SUFICIENTES DE QUE ISSO AQUI É CENA, ISSO AQUI É TEATRO, ISSO AQUI NÀO É FILOSOFIA EXISTENCIALISTA BARATA, ISSO AQUI NÀO É LITERATURA MODERNOSA...

A PER-VERSÃO DE TEATRO QUE PODEMOS DESIGNAR DE "MODERNA", DEU-SE EXATAMENTE PELA PASAGEM A PRIMEIRO PLANO DESSE ASPECTO TEATRAL QUE É A ENCENAÇÀO . A ORIGEM DO ESPETÁCULO NÀO SE SITUANDO MAIS NO VISUAL DE UM VERBUM ESCRITO ( TEXTO), MAS NO TRABALHO DE ESPETACULARIZAÇÀO A PARTIR DELE. APENAS A PARTIR. NO EXTREMO DESSE TRABALHO DE "REPRESENTAÇÀO FIGURAL", OBJETAL DO TEXTO, SE SITUA ATO SEM


PALAVRAS I. NADA MAIS É QUE UMA PEÇA DE TEATRO EM QUE CONSTAM \APENAS AS DIDASCALIAS , A GARRA DO AUTOR, EVACUADOS TODOS OS OUTROS ENCHIMENTOS DE TEMPO/ ESPAÇO. TODO OUTRO POSSÍVEL TEXTO SONORO OU VISUAL ESTÁ AMARRADO A SE ORIGINAR APENAS AÍ - O QUE NÀO SE PASSA COM A INCOMEDIDA POLIVALÊNCIA SIGNIFICANTE DE OUTROS TEXTOS ( SUGERIDA AQUI E ALI COMO "RIQUEZA LITERÁRIA, SIMBÓLICA" E OUTRAS TOLICES DE IGUAL QUILATE). ESSE TEXTO VISUAL QUE SE CONSTITUE POR SE REMETER À VISUALIDADE ,E NÀO MAIS A NENHUMA SUB-DIVISÃO TOMÍSTICA, ME LEMBRA A HISTÓRIA DOS QUARKS QUE SE REMETEM UNS AOS OUTROS E QUE SE OS TENTARMOS DIVIDIR ELES SIMPLESMENTE JAMAIS TERIAM EXISTIDO... O ÚLTIMO PERSONAGEM AQUI É O AUTOR, ELE O ÚLTIMO CORTE TÔMICO E SUA EXISTÊNCIA ASSIM REMETE À CENA - ESSA TAMBÉM O ÚLTIMO PERSONAGEM DESSA PEÇA ESTRANHAMENTE QUÁRQUICA...O PALCO É RODEADO POR UMA INFINIDADE DE PERSONAGENS ANÔNIMOS, QUE APITAM NA LATERAL DIREITA OU DE CIMA, QUE BAIXAM ÁRVORES EM DESERTOS DE LUZ, CORDAS, CUBOS, TESOURAS. FINCANDO DEFINITIVAMENTE SUAS GARRAS DE AUTOR NO TEXTO " INDICIAL" (= DIDASCÁLICO ),BECKETT SÓ O FAZ - NOS PARECE- PARA DEVOLVÊ-LO A TODOS NÓS E À HISTÓRIA QUE SE CONSTRÓI ANÔNIMA. NÃO NOS COMPETE,PORÉM, ENTRAR MUITO NESSA RELAÇÀO NOVA CURIOSA ENQUANTO TEATRAL ( NÀO NOVA ENQUANTO TEATRAL ...), DITA "MODERNA". POIS ELA É UMA CONJUNÇÀO DE RELAÇÒES TEXTO/ TEATRO/ AUTOR/ CENA/ ENCENAÇÀO . APENAS A INDICAMOS, A SUGERIMOS COMO LEITURA, POR NOS PARECER FAZER PARTE DAQUELE LEVANTAMENTO DE FIGURAS DA RETÓRICA DA MODERNIDADE QUE TENTAMOS ELABORAR EM NOSSAS PESQUISAS SOBRE O DIFERENCIAL NO TEXTO MODERNO (1). ESSE CONJUNTO VAI DE PAR COM MODALIDADES RETÓRICAS DO TEXTO COMO MANIFETOS, PALIMPSESTOS E OUTRAS FIGURAS DA TEXTUALIZAÇÀO MODERNA E QUE NOS PARECEM ABERTAMENTE EM OBRA ( E NÀO EM OBRA ABERTA, COISA QUE NUNCA NOS PARECEU TER GRANDES SIGNIFICAÇÕES ), NOS TEXTOS DE BECKETT. RELEMBRAMOS APENAS AQUI QUE, PARTE DESSAS FIGURAS DE RETÓRICA DA MODERNIDADE, NOS ENVIAM A ESSA QUESTÃO DA OBSESSÃO DE POSSE E ASSINATURA DE TEXTO E PARA ESSA INTERESSANTÍSSIMA E ESQUERDÍSSIMA ATITUDE DE APROPRIAÇÀO INDIVIDUAL DO PATRIMÔNIO COLETIVO DA LINGUAGEM. QUANDO DIZEMOS ISSO, NÀO ESTAMOS LONGE DE DIZER QUE ESSAS MODALIDADES ESTRUTURAIS DE FIGURAS RETÓRICAS SÃO ESTRUTURANTES E ESTRUTURADAS PELOS SISTEMA CAPITALISTA...E QUE TALVEZ ESSA SEJA A MAIOR CONTRIBUIÇÀO DESSE SISTEMA PARA UMA DIFERENCIAÇÀO CULTURAL OU CIVILIZATÓRIA.

ATO SEM PALAVRAS I É UM GRANDE PROCLAMA DE NOSSA PROTESTANTE-CAPITALISTA, MAS QUE NÀO PROTESTA MAIS NADA. É UM MONUMENTO À NOSSA BARBÁRIE E CULTURA OCIDENTAL.

ERA

****************************************************************** (1) ACCIOLY MICHELOTTO, ROSELI, INTERTEXTUALITÉ BRÉSILIENNE AUX ANNÉES 60. PROJET DE THÈSE. DOCTORAT EN SOCIOLOGIE. QUÉBEC, QUE, UNIVERSITÉ LAVAL -, 1983.

NB.: A LISTAGEM DE TEXTOS CONSULTADOS PARA A PRESENTE TRADUÇÃO SE ENCONTRA NOS ARQUIVOS DO BANCO DE DADOS. O ORIGINAL FRANCÊS, ACTE SANS PAROLES, É DAS EDITIONS DU MINUIT.

OCIDENTAL,


OS TRADUTORES SÀO MEMBROS DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE AUTORES TEATRAIS E TËM SEUS DIREITOS COBERTOS PELA MESMA SOCIEDADE..


1− antesala 01 roteiros único móvel que deixa o homem suspenso no meio do nada, a cadeira de balanço é um só personagem com esse corpo e essa voz, suspensa no ar, como um móbile de Calder, fechada entre quatro paredes fechadas as janelas, fechadas as venezianas, fechando-se toda. Uma descida, de certo modo aos infernos ao confronto consigo mesma segurando-se apenas ao fio tënue da afeição na reprodução maquinal do gesto de alguém que a precedera Um pouco tresloucada, nós diremos. Mas de uma grandeza sem par. Berceuse é estado de feto & afeto. Ato final em que nossa imagem tenta se perceber, pela última vez, através do olhar de outros. É uma canção de ninar com a dose de crueldade que tëm todas as canções de ninar. Cristalização de uma peça em que se tem só imagens puras. Toda a tradição teatral lapidou tais imagens. Seja em Lear, nú, em cólera contra a tempestade Seja no Papa revestindo-se dos paramentos em Galileu Galilei,


ou Édipo furando seus próprios olhos. Beckett fez disso uma canção, Beckett fez disso sua dramaturgia e a depurou

02 Trata-se da morte. Aceitar a morte. A morte de minha mãe. Morte da mãe de Billie. Trata-se de aceitar ( ...)

03 Cada uma dessa peça parece desnudar desnudar a cena ( ...) Cada uma dessas peças engrandece as dimensões do teatro e o enriquece. Graças à sua composição, à intensidade e extensão de sua visão, à musicalidade de sua linguagem ( A. Schneider )

04


Pediram a Marcel Mihanovici que propusesse um texto poético como tema para o Concurso ( de Composição musical )“ Prëmio de Roma” O que ele propös foi o texto mais próximo de Berceuse - um poema de Beckett que foi quase uma música – - e que resume bem essa obra:

Que faria eu sem esse mundo sem rosto e sem perguntas Onde ser só dura instantes e cada instante d e s p e j a no vazio o esquecimento de existir fora da onda, onde, porém corpo e sombra, ombro a ombro se abismam . que faria eu sem o silëncio, poço de murmúrios ofegando furiosos por socorro, amor, sem esse céu que se levanta em rastro astros . que faria eu como ontem como hoje olhando por minha escotilha se não estou só


a vagar e derrapar longe da vida num espaço palhaço sem voz, por entre vozes trancafiadas comigo .

2- O TEXTO M= MULHER ASSENTADA NUMA CADEIRA DE BALANÇO V= SUA VOZ GRAVADA CB= CADEIRA DE BALANÇO Subida de iluminação em M, que está no proscënio, de frente para o público, ligeiramente fora do centro do palco. CB imóvel. - UM TEMPO LONGO M- de novo. V-

(T) V e movimento de CB juntos. Até o dia enfim fim de longa jornada em que ela fala consigo mesma e com quem mais


já é tempo de parar JÁ É TEMPO DE PARAR parando de vagar por todos os lugares largo olhar em toda parte em cima embaixo atrás de um outro outro semelhante um outro ser migrante um pouco parecido com ela perdido igual a ela por aqui e por ali em todas as partes olhar atento em cima embaixo à caça de um outro até o dia enfim fim de longa jornada em que ela fala para si e para quem mais É tempo de parar É TEMPO DE PARAR parando de vagar de um lado a outro toda atenta em todas as partes no alto embaixo nos rastros de um outro de um' outra viv' alma perdida igual a ela aqui e ali atenta igual a ela em todas as partes no alto embaixo nas pegadas de um outro de um outo igual a ela


perdido igual a ela por aqui e por ali até o dia enfim fim de uma longa jornada em que ela diz para sí e para quem mais já é tempo dela parar É TEMPO DELA PARAR Juntos: eco de "É tempo dela Parar" & fim de movimento de CB & ligeira queda da iluminação .

− (Τ) Longo − M

de novo (T) V & movimento de cadeira reiniciam

V-

Se bem que enfim fim de longa jornada ela tenha voltado para casa para casa enfim voltou dizendo para si e para quem mais é tempo de parar É TEMPO DE PARAR De vagar e um lado a outro


tempo de voltar sentar-se junto à sua janela tranquila junto à sua janela que dá para as outras janelas se bem que enfim fim de longa jornada ela tenha voltado para casa para assentar-se à sua janela tenha levantado venezianas e se assentou tranquila junto à sua janela única janela dando para outras janelas toda atenta a todos os lugares em cima embaixo à procura de um outro de outro igual a ela um pouco igual a ela um'outra viv'alma outr'alma viva ao menos uma que tenha voltdo para casa quando ela que tenha enfim voltado para casa igual a ela ao fim de uma longa jornada dizendo para si mesma e para quem mais já é tempo dela para tempo de voltar sentar-se junto à sua janela tranquila junto à sua janela que dá para outras janelas se bem que enfim fim de uma longa jornada ela voltou enfim para casa para sentar-se à sua janela levantou persianas e se assentou tranquila junto à sua janela


única janela que dá para outras janelas toda atenta em todos os lugares em cima embaixo à procura de um outro de um outro em sua janela de um outro igual a ela um pouco igual a ela de uma outra viv'alma de ao menos uma outra viv'alma que tenha voltado para casa igual a ela ao fim de uma longa jornada dizendo para si e para quem mais já é tempo dela parar JÁ É TEMPO DELA PARAR de vagar por aqui e por ali já é hora dela voltar para casa de assentar-e junto à sua janela única janela dando para outras janelas para as outras únicas janelas toda atenta em todas as partes em baixo em cima à busca de um outro de um outro igual a ela um pouco parecido com ela de uma outra alma viva JÁ É TEMPO DE PARAR de andar aqui e ali já é hora dela voltar para casa


de assentar-se junto à sua janela tranquila junto à sua janela única janela que dá para outras janelas para as outras únicas janelas toda atenta a toda parte em cima embaixo à busca de um outro de um outro igual a ela parecido um pouco com ela uma outra alma viva outra alma viva ao menos uma Juntos : eco de 'alma viva" & fim de movimento de CB ligeira queda de iluminação - (T) LONGO V-

até o dia enfim fim de longa jornada sentada junto a sua janela única janela dando para as outras janelas para as outras únicas janelas todas de venezianas fechadas nem uma só aberta aberta apenas a sua até o dia enfim final de longa jornada sentada à sua janela tranquila junto à sua janela toda atenta a todas as partes em cima embaixo


à busca de uma outra de uma outra veneziana aberta de ao menos uma veneziana aberta apenas isso nem precisa um rosto por trás dos vidros olhos famintos como os seus para ver serem vistos não uma veneziana aberta como a sua parecida com a sua apenas uma e lá ou outro ser lá em algum lugar por trás dos vidros uma outra alma viva basta uma outra alma viva até o dia enfim fim de longa jornada em que ela se diz falando consigo e com quem mais é tempo de parar É TEMPO DE PARAR sentada junto à sua janela única janela dando para as outras janelas para as outras únicas janelas toda atenta a tudo no alto em baixo é tempo dela parar É TEMPO DELA PARAR


Juntos: ' é tempo ela parar ' & fim de movimento de CB & ligeira queda da iluminação (T) LONGO M-

de novo (T) V e movimento de CB juntos.

V-

se bem que enfim fim da longa jornada ela tenha descido tenha enfim descido a escadaria íngreme fechado as venezianas e descido lá embaixo assentando-se em sua velha cadeira de balanço a mesma de sua mãe a mesma em que sua mãe assentada ao longo dos anos toda vestida de preto vestida de seu mais belo vestido preto ia se balançando se balançando até o seu fim tresloucada - se dizia um pouco tresloucada mas inofensiva morta num dia não morta numa noite final de uma longa jornada em sua cadeira de balanço vestida com seu mais belo vestido negro


cabeça pendida em seu blanço de berço ninando-a sempre se bem que enfim ao final de longa jornada ela tenha descido desceu enfim a escadaria íngreme fechou as venezianas e desceu até lá embaixo para sentar na velha cadeira braços enfim e se balançou de olhos fechados se fechando ela a tanto tempo tão atenta olhar faminto em todas as partes em cima embaixo daqui para ali em sua janela só para ver ser vista até o dia enfim fim de longa jornada em que disse para si mesma e para quem mais já é tempo de parar e fechou as venezianas PARAR tempo de descer a escadaria íngreme até lá embaixo fosse ela ou outra uma outra alma viva que fosse só dela


se bem que enfim fim de longa jornada ela desceu a íngreme escadaria fechou venezianas e desceu assentou-se na velha cadeira e se balançou se balançou dizendo para si mesma não isso nunca mais na cadeira de balanço braços enfim para ela que se dizia “ com pedrinhas com pedrinhas de brilhante para o meu.... para o meu am.....

3- notas do autor

ILUMINAÇÃO Amortecida, unicamente sobre CB. Spot para o rosto, do mesmo modo. Constante. Independente das sucessivas quedas de iluminação. Ou bastante largo para abarcar os limites do fraco movimento de balanço,


ou concentrado sobre o rosto na posicão de descanso, quando pára o movimento de balanço, ou centrado no vai e vem. INÍCIO Subir primeiro a iluminação do Spot. Um longo tempo. Subir a iluminação da CB. FINAL Apagar primeiro a iluminação de CB. Tempo Longo. Spot sobre o rosto. A cabeça arreia, se imobiliza. Apagar o Spot do rosto. MULHER Envelhecida antes do tempo. Cabelos grisalhos em desordem. Olhos realçados ( grandes ). Rosto branco sem expressão. Mãos brancas segurando os braços da cadeira nas extremidades. OLHOS Ora fechados, ora bem abertos. Sem piscar. Meio a meio na primeira parte. Cada vez mais fechados na segunda e terceira Fechados definitivamente no meio da quarta parte. FIGURINO


Vestido longo para a noite em tom próximo ao preto. Mangas longas. Rendas. Pailletés que cintilam com o movimento de CB. Chapéu tipo bibi (vide foto anexa). Com apliques de vidrilhos aptos a refletir a luz durante movimentos da CB. ATITUDE Estática até o momento em que arreia a cabeça apenas iluminada pelo Spot do rosto. BALANÇO Fraco. Lento. Regulado automaticamente ( = por meio mecänico ). Não é M quem balança. CADEIRA DE BALANÇO Madeira clara, bem polida de modo a refletir luz durante o balanço. Um escabelo ( apöio de pé ). Espaldar reto. Braços aredondados em curva VOZ Branca. Surda. Monótona ( leia-se: sem tom, meio rouca, monocórdia ) Para a réplica em maiúculas, M se junta a V. Cada vez mais baixo. Já para o final da quarta parte - digamos a partir de " isso nunca mais",


V progressivamente mais baixa ( = menos volume). O "de novo" dito cada vez com menor volume.

4- Notas nossas (1) O final foi ligeiramente adaptado. "berce-la d' ici aux gogues la vie berce là d' ici berce là d' ici é uma berceuse, uma canção de ninar. Usamos a canção infantil nordestina que nos parecia mais próxima desse adormecer. Acresce o fato que ela tem proximidades muito grandes com o texto já pelo título :" Se essa rua fosse minha"... Pela referéncia ao vagar daqui para ali, à espera de alguém, amor ou o que seja... O corte final foi para deixar a vaga hipótese de depossessão - um dos eixos centrais desse processo de solidão. A única posse ( ou janela dando para outra janela) é a de poder parar. Até esse gesto impedido pela cadeira que balança sozinha. Esse é um dos jogos internos que dá förça ao texto de Samuel.


A nossa parada no "para o meu am..." recupera para a canção nordestina essa förça. (2) O texto tem un ritmo excepcional- difícil de recuperar em portuguës. É obra para um Haroldo de Campos- como já afirmamos em outras versões nossas. Beckett é de extema concretude. Nós não conseguimos chegar nem perto. Tentamos alguns recursos, mais simples como os da inversão ou da pura sonoridade. O único recurso mais apropriado foi o da mise-enpage balançando, subindo escada...- o que não é nada original, tendo sido desenhado no Long Tail de Lewis Carol ( Alice), sobre o qual Pignatari se demorou o suficiente. Achamos útil pois aproximamos o longo rabo dos seres de longo rabo ao movimento de descida ao porão- onde eles habitam. Apesar de sabermos que um rato só não faz solidão. Ao contrário dos Homens. (03)

Mantivemos em brasileiro o título original. Pela sonoridade e pelo escorrego metonímico que há entre cadeira de balanço/ berço/ berceuse/ canção de ninar. O título inicialmente exige um pequeno conhecimento musical, mas cremos que uma vez lido ou representado ele se torna transparente. Como nessa versão alteramos bastante o ritmo dado por Samuel, mantivemos pelo menos o título no original como forma de indicar nossa vontade de reproduzir o ritmo original- que é de uma cançãozinha de ninar.


(04)

Tanto a tradução como a primeira encenação pelo Lac foram originalmente dedicadas a Margarida Cardoso, acreana professora do nosso Departamento de Artes e Comunicação da UFPb, por me parecer que Beckett escreveu a peça para ela. Atriz da velha guarda, não conseguia entender a formidável carga de inovação que estava sendo introduzida em espetáculos de Antônio .Cadengue e de seu aluno preferido P.Vieira, neste período. Em verdade , mais inovação na área dos costumes e comportamento social , que verdadeiramnte dentro do teatro. Se revermos as poucas peças de época, eram mais exercícios de alunos e mais orientadas a uma estética de “ boa atuação”, que propriamEnte uma revolução no que quer que fôsse. Mas Margarida não quis entender assim. The clown is dead é o melhor exemplo de tudo aquilo, e certamente a única peça estruturada de a a c. A apresentação do espetáculo foi feita por nós em artigo de Jornal local. E o que saudávamos era mais a ousadia dos costumes que propriamente a grandeza cênica. Todo aquele teatro foi apenas teatro didático, de teses. Algo não muito longe do que os Jesuitas fizeram com os bugres. Só que os bugres dessa vez eram os paraibanos- mal habituados com um teatrão, via de regra de péssima qualidade. Salvo honrosíssimas exceções.


Antônio e Paulo Vieira catequizaram a falsa macheza paraibana- impondo textos de aberta homosexualidade. O resto era déjà vu, como a problemática do ensino e da escola brasileira. Em 1920 já se havia abordado o Brasil melhor. E olha que Oswald não foi nenhum dramaturgo prodígio. Mas Margarida, talvez por isso mesmo, fez questão de se manter à parte daquele movimento estudantil que lutava para afirmar entre outras coisas o direito á escôlha da própria sexualidade. Problema frequente na juventude de então, reprimida entre um período de forte participaçã política e libertária e um vácuo de idéias e ações, que foi aqueles anos do final dos anos 70, numa cidade, que apesar de capital do estado, primava por ser periferia nordestina. Tudo a que Margarida tinha horror. Em suas próprias palavras, fazia questão de manter-se horrorizada com encenações que " davam mais vez ao rebolado e pailletés '" dos alunos do curso, que ao texto e à cena ! E essa foi a tõnica real dos espetáculos de 78 /79/ 80, na UFPb. . Assim, jurara nunca mais botar seus pés em palco. Foi uma excelente atriz do TAP nos áureos tempos, foi atriz do grande Cavalcanti, que saiu de Recife e foi formar a escola inglesa de cinema. Reconhecida em Cannes em Vidas Secas etc etc ...


Atriz de histórias várias e vida vasta. Aceitou ser M de Berceuse, dirigida por Rose para o Laboratório de Artes Cënicas que fundáramos para mudar um pouco aquele rumo que o teatro paraibano começava a ter. Uma simplória operação de vista em Recife parou-a , tirando-a de cena e da vida. Que nosso registro sirva como "des bras enfin" para quem abriu sempre janelas ao subir em palco. *

cortina *


[D] Diretor [A] Assistente de Direção [P] Protagonista [ L ] Lucas, técnico de iluminação Ensaio. Dá-se o último retoque na última cena. Palco nu. A e L terminaram de regular a iliminação. D acaba de chegar. D> em um sofá, no proscênio, lado jardim. Casaco de peles. Peruca volumosa. Idade e físico indiferentes. A> em pé a seu lado. Blusa branca. Nada na cabeça. Lápis por sobre a orelha. Idade e físico indiferentes.


P> em pé, no centro do palco, sobre um cubo preto de 40 cms. Chapéu escuro de abas largas. Robe de chambre preto, até o calcanhar. Pés descalços.Cabeça baixa. Mãos nos bolsos. Idade e físico indiferentes.

D e A contemplam P. Um tempo longo. (personae)

( deixis )

( fala )

A D

( finalmente :)

Te agrada? Pela metade.

( ritmo )

Tempo Para que esse pedestalzinho? Para que o pessoal da frente possa ver-lhe os pés. Tempo Para que esse chapeu? Para melhor ocultar o rosto. Tempo Para que a camisola? Para deixar tudo bem escuro Tempo Que é que tem por debaixo?

A D A D A D A D A D A

[ vai em direção a P ] Sem Dar Tempo [ se imobilisa ]

Vamos, diga-o. Sua roupa de dormir. Cor? Cinza.


D A D A D A D A D A

[ tira charuto do bolso ] Fogo. [ volta, lhe dá fogo, se imobilisa ] [ fuma ] O crânio parece-se com o quê? Já o vistes. Mas me esqueço. [ vai em direção a P ] Diga-o. [ se imobilisa ] Implume. [ corrigindo*] Alguns tufos... Cor? Cinza. Tempo

D A D A

D A D A D A D A D A D A D A

D A D A D A P A P

Porque mãos dentro dos bolsos? Para ficar mais escuro ainda. Não precisa. Anoto. [ ela tira seu bloco, apanha o lápis e inscreve ] Mão ao ar... ( corrigindo-se a brincadeira:*) ... livres. [ recoloca seu bloco no bolso e guarda o lapis ] Parecem-se com o quê? [ não compreende ] [ chateado ] As mãos. Com o que é que elas se parecem? Já as vistes. Me esqueço. Dupuytren Du - puy -tren Ah Dupuytren.... Tempo Dão idéia de garras? Tempo [ chateado ] Estou lhe perguntando se se parecem com garras! Se se quiser... Duas garras. se ele não cerrar os punhos Desnecessário. Anoto:. [ tira bloco do bolso, lápis da orelha, escreve: ] Mãos soltas. [ Guarda bloco, guarda lápis ] Fogo. [ volta-se, lhe dá fogo de novo. Se imobilisa. D fuma. ] Vejamos bem esse negócio aí. [ não entende ] [ irritado ] Vai . . . Desnude-o. [ consulta seu relógio ] De pressinha . . . tenho uma reunião... [ vai até P, retira -lhe a camisola ] [ P o deixa fazê-lo, inerte ] [ afasta-se, camisola em seus braços. ] [ está com um velho pijama cinza,


cabeça abaixada, punhos cerrados] D&A A

[ Contemplam P ] Te agrada mais sem? Tempo

Ele está a tremer... Chilique . Chapéu. [ vai em direção de P, tira-lhe o chapéu, recua, o chapéu ainda na mão. ] Tempo O cucuruto te agrada? D Vai ter que embranquecer. A Anoto: [ deixa cair camisola e chapéu, apanha o bloco, apanha o lápis, anota: ] Embranquecer crânio. D As mãos. A [ não compreende ] D [ irritado ] Desserrar, vamos... A [ vai em direção a P. Desserra-lhe os punhos, afasta-se ] D E branquear. A Anoto: [ apanha bloco, apanha lápis, anota: Embranquecer mãos. [ guarda bloco, guarda lápis ] D & C [ contemplam P. ] D Mas o que é que não está bom... Mas o que é que não está bom ... A [ timidamente ] E se... e se ...as juntássemos ? D Bom, do jeito que vamos... A [ vai em direção a P , junta-se-lhe as mãos, afasta-se ] D Mais alto. A [ vai em direção a P. Sobe as mãos à altura de meio corpo, recua ] D Mais alto. A [ vai em direção a P. sobe à altura do peito as mãos juntas ] D S t o p !!! A [ recua. ] D Está melhor. Estamos conseguindo. Fogo. A [ volta, lhe dá fogo mais uma vez, se imobilisa. D fuma. A &D [ contemplam P. ] D Ele está começando a tremer... Já era hora... Tempo A [ timidamente:] Quem sabe...se não poderíamos... uma mordaça... uma mordacinha? D [ ultrajado ] Que idéia! Essa eterna mania de coisa explícita! Pequena mordaça! É depois botar os pingos daqui, é botar os i dali.... Que idéia essa de coisas explícitas!.. A Garante que ele não irá dizer nada? D A


D

Nem um tiquinho, nem nada Em cima da hora! Vou ver isso lá da sala. [ Ele sai. Não o veremos mais. ] [ Deixa-se cair na poltrona. Levanta-se num salto, pega um pedaço de pano, limpa vigorosamente o assento e o espaldar. Joga fora o pano. Assenta-se finalmente.] Tempo [ Voz off. Reclamando ] Não vejo os dedões. [ irritado ] Estou sentado na primeira fila e não vejo dedão algum! [ Levantando-se ] Anoto: [apanha bloco, apanha lápis] S u b i r p e d e s t a l z i n h o ! [ guarda bloco, guarda lápis] [ idem ] Dá para se perceber o rosto. Anoto: [ pega bloco, abaixa a cabeça para pegar lápis, vai escrever ] Àbaixar a cabeça [ não entende: abaixa a própria cabeça ] [ irritado ] Abaixa - LHE a cabeça. [ guarda bloco, guarda lápis, vai até P abaixa-lhe a cabeça, afasta-se ] Um tiquinho ainda [ vai em direção a P , lhe abaixa bem mais a cabeça ] S top!!! [ afasta-se ] Perfeito. Tempo Está faltando nudez. Anoto: [ pega bloco, quando vai pegar lápis ] Vamos lá! um pouco de pressa. [ guarda bloco, vai até P, para sem saber o que fazer ] Desabotoando. [ desabotoa robe e o abre, afasta-se ] [ consulta seu relógio: ]

A

D

A

D A D A D A D A D A D A D A D A D

Sem dar Tempo* As pernas.

A A D A

[ quando vai até P)

Sem dar Tempo*

A tíbia [ chega em P, sobe uma perna até acima do calcanhar, afasta-se ] Sem dar Tempo* A outra [ mesma ação com a outra perna. Afasta-se ] Sem dar Tempo*


D A

Mais alto. [ inicia ação ]* Sem dar Tempo*

D A

Rótulas à vista! [ enrola ambas pernas da calça até a altura dos joelhos. Afasta-se] Sem dar Tempo*

D A D A

E empalidecer Anoto: [ pega bloco, pega lápis ] Embranquecer carnes. [ guarda bloco, guarda lápis] Conseguimos. Cadê Lucas? [ chamando ] Lucas! Tempo [ mais forte ]

L A D A

Lucas !!!

[ Voz off, de longe] [ mais proxima ] [aD]

Tô chegando. Tempo Mas o quê que não tá certo? Lucas chegou Que ele corte a luz ambiente. [ repassa a ordem em termos técnicos ] Cortar spots das filas A,B,C,D, de R 1 a 15, exceto

R8

D A L/P D longo

Cortar Spots lateral direita alta e baixa, lateral esquerda alta e baixa Cortar Sposts fileira inferior , exceto F 8 [ a iluminação vai caindo lentamente seguindo os pontos de luz indicados. Apenas P iluminado por cima ( B8 ) e debaixo para cima ( F8 ). Assistente no escuro. ] Apenas a cabeça [ repassa ordem em termos técnicos] Caindo F8 em resistência [ o corpo de P se apaga lentamente. Apenas a cabeça iluminada ] Que beleza!

A [ timidamente ] cabeça... D

[ ultrajado]

Tempo

Está belo! Tempo Será que ele não poderia.... bem...levantar um momento apenas.... só para que se veja o rosto... só um pouquinho? Mas que idéia! O que é que a gente não tem que aguentar! Levantar a cabeça! mas, está pensando que estamos AONde?! Que idéia...levantar a cabeça!!! Tempo Bom. Conseguimos a nossa catástrofe. Refazer tudo e eu me mando.

a


A L

[ a Lucas ] Refazer e ele se manda! [ a iluminação volta lentamente sobre o corpo de P, com F8 em resistência ] Tempo [ a iluminação geral volta lentamente, em resistência , a meio caminho:] S t o p !! [ luz ambiente se estabiliza ] Tempo curto E.... h o p ! [ luz ambiente cai lentamente em resistência, exceto F8 e B8 ] Tempo [ o corpo de P vai se apagando lentamente caindo F8 em resistência ] [ só a cabeça iluminada de cima ] Tempo

D

longo F o r m i d á v e l !! Vai ser um arraso ! Já estou até ouvindo.... [ explosão de aplausos torrenciais ao longe] [ levanta a cabeça, fixa a sala ] [ aplausos em Volume 10, 9 , 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1 ... ] [ Aplausos em Volume 0. Universo em volume 0 * ] Tempo

P longo

[ a cabeça vai se apagando lentamente com a queda da resistência em spot B 8 ]

FIM NB NOS ANOS 60/70 O HOMEM DE TEATRO TCHECO, VACLAV RAVEL, FOI PRESO E "PREPARADO" PELO PARTIDO COMUNISTA NO PODER PARA QUE FOSSE À TELEVISÃO E DISSESSE AO POVO TCHECO QUE TUDO IA BEM E QUE ELE APOIAVA O REGIME

[ MUITO PARECIDO COM O QUE ACONTECEU COM GERALDO VANDRÉ AQUI EM NOSSA DITADURA]. VACLAV RESITIU E A EUROPA ( LEIA-SE FRANÇA, VOCE JA OUVIU FALAR DE MOBILIZAÇÃO DESTE TIPO NA ALEMANHA OU NA INGLATERRA??? ) SE MOBILIZOU EM APOIO AO DRAMATURGO E PROTESTO CONTRA A BARBARIDADE DO REGIME. A CONTRIBUIÇÃO DE S. BECKETT FOI ESSA PEÇA, NA QUAL TRATA DO AUTORITATRISMO EXISTENTE EM NOSSO PRÓPRIO DIA A DIA, EM NOSSA PRÓPRIA PROFISSÃO DE GENTE DE TEATRO. ALGO ASSIM COMO: O AUTORITARISMO NÃO É EXATAMENTE UMA COISA APENAS RUSSA OU DO REGIME SOVIÉTICO: NÓS O CULTIVAMOS COM CARINHO DENTRO DE NOSSA VIDA EUROPÉIA... HÁ

QUE SE PERGUNTAR PORQUE

BECKETT

FOI GRANDE?

EM TEMPO: G.VANDRÉ, TORTURADO, ABANDONOU SUA ARTE MUSICAL E SEU PROTESTO ESCREVE HOJE HINOS À MARINHA, PATROCINADORA DA PANCADARIA. ANDOU ALGUM TEMPO ENCOSTADO EM MEU DEPARTAM ENTO DE ARTE E COMUNICAÇÃO NA UFPB.

E


BICO QUE AMIGOS ARRUMARAM PARA VER SE SE RECOMPUNHA. QUE O TORTURARAM MORRERAM LIVRES, NA CAMA DURANTE O SONO. VACLAV R AVEL FOI ELEITO PRESIDENTE DA REPÚBLICA TCHECA, APÓS A LIBERAÇÃO.. OS

EM 1987 DEDICAMOS NOSSAA ENCENAÇÃO PELO TEATRO EXPERIMENTAL DO LABORATÓRIO DE ARTES CÊNICAS A G.VANDRÉ. O REGIME DE EXCESSÕES - QUE NÃO FOI SÓ DA DITADURAAINDA NÃO ACABOU NO BRASIL..

vai e vem dedicado a John Calder

no centro, de frente para a sala, assentadas muito perto, mãos juntas por sobre os joelhos, Flo, Vi e Ru

VI

VI RU RU OI VI FLO FLO OI QUANDO FOI, A ÚILTIMA VEZ, NOS TRÊS , JUNTAS? RU HUMUMUMUMUMUMUM !.. [=CALADAS...] SILÊNCIO VI SAI À DIREITA

[

FLO RU RU SIM... FLO A VI, QUE IMPRESSÃO ELA TE DÁ? RU A DE SEMPRE....SEMPRE MAIS OU MENOS... FLO ASSENTA-SE NO LUGAR DE VI NO CENTRO, COCHICHA ALGO AOS OUVIDOS DE RU.

]


[ FLO

RU MÍ SE RI CÓRDIA! ELAS SE ENTREOLHAM. FLO LEVA SEU DEDO À BOCA(=BOCA CALADA!) RU E ELA NÃO SABE AINDA? DEUS QUEIRA QUE NÃO!!!

[

]

VI ENTRA. FLO E RU VOLTAM A FICAR DE FRENTE PARA O PÚBLICO, RETOMAM A POSE. VI SE ASSENTA NO LUGAR DE FLO ] SILÊNCIO FLO ...ASSIM, NÓS TRES, BEM ASSIM, ...COMO OUTRORA, NO COLÉGIO DAS DAMAS, NO PÁTIO, ... ASSENTADAS, LADO A LADO, POR SOBRE BU VI SHESHASHHH! (*)

RU

-

SILÊNCIO FLO SAI À DIREITA SILÊNCIO RU

VI VI

RU VI

[ RU

[

OIOI... A FLO, QUE QUE VOCE ACHA DELA,HEIN? O MESMO DE SEMPRE- ISSO É, MAIS OU MENOS... [ RU TOMA O LUGAR DE FLO NO CENTRO. COCHICHA ALGO AO OUVIDO DE VI. ] VI BÁR BA RI DÁ DE!... ELAS SE ENTREOLHAM. RU LEVA O DEDO À BOCA. ] E NÃO LHE DISSERAM NADA? VI DEUS QUEIRA QUE NÃO!!!

ENTRA FLO. [ RU E VI SE COLOCAM DE FRENTE PARA O PÚBLICO. ] RETOMAM A POSE. FLO SE ASSENTA NO LUGAR DE RU ] SILÊNCIO RU ... NOS DANDO AS MÃOS... DESTE NOSSO MODO SÓ NOSSO... FLO ...SONHANDO COM O AMOR... SILÊNCIO RU SAI À DIREITA SILÊNCIO VI

FLO

FLO HUMHUM...*

(= ASSENTINDO* )


VI A RU, TU VIU? FLO ...TÁ MEIO ESCURO... [ VI TOMA O LUGAR DE RU AO CENTRO, COCHICHA ALGO AOS OUVIDOS DE FLO ] FLO AH MEU DEUS !!! [ ELAS SE ENTREOLHAM. VI LEVA SEU DEDO À BOCA PEDINDO SEGREDO. FLO E ELA NEM DESCONFIA?!!? VI DEUS A PRESERVE!!!

]

ENTRA RU. VI E FLO SE RECOLOCAM DE FRENTE PARA O PÚBLICO. RETOMAM SUA POSE. RU ASSENTA-SE NO LUGAR DE VI. SILÊNCIO VI ...NÃO SE PODE MAIS FALAR DOS VELHOS TEMPOS? SILÊNCIO ( *TENTANDO=) DO TEMPO QUE VEIO DEPOIS?!?? SILÊNCIO E SE NOS DÉSSEMOS AS MÀOS... NOSSAS MÃOS... DE NOSSO JEITO SÓ NOSSO?

[ APÓS UM CERTO TEMPO , ELAS UNEM SUAS MÃOS COMO SEGUE: >A DIREITA DE VI COM A DIREITA DE RU SOBRE OS JOELHOS DE RU, >A ESQUERDA DE VI COM A ESQUERDA DE FLO SOBRE OS JOELHOS DE FLO, > A DIREITA DE FLO COM A ESQUERDA DE RU SOBRE OS JOELHOS DE VI, > OS BRAÇOS DE VI APOIANDO-SE POR SOBRE O BRAÇO ESQUERDO DE RU E O BRAÇO DIREITO DE FLO. SILÊNCIO

FLO

RU...

SILÊNCIO VI... SILÊNCIO EU SINTO OS ANÉIS. SILÊNCIO

FLO FLO

CORTINA


NOTAS

α -LUGARES 0

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1(1)

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2(2)

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SUCESSIVOS:

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NB: ESSE QUADRO FOI EXPANDIDO O ORIGINAL DE BECKETT CORRESPONDE

POR NÓS A TODO MOVIMENTO DA PEÇA. AOS NÚMEROS ENTRE PARÊNTESIS = (1)

β- ILUMINAÇÃO: FRACA, APENAS POR BAIXO E CONCENTRADA NA CADEIRA. O RESTO DA CENA NA OBSCURIDADE. γ- FIGURINO: CASACOS IMENSOS, ABOTOADOS ATÉ O PESCOÇO, NAS CORES: RU > VIOLETA ESCURO VI > VERMELHO E SCURO FLO> AMARELO ESCURO CHAPEUS: ESCUROS, ALGUNS COM BORDAS BEM LARGAS PARA QUE O ROSTO FIQUE NA SOMBRA. OS TRES PERSONAGENS: O MAIS PARECIDO POSSIVEL UNS COM OS OUTROS, DIFERENCIADOS APENAS PELAS CORES. SAPATOS: LEVES, SOLADOS DE BORRACHA PARA NÃO FAZER RUIDO. MÃOS TORNADAS O MAIS VISÍVEIS QUE SE PUDER ATRAVÉS DE SUA MAQUIAGEM. NENHUM SINAL DE ANÉIS.

δ - OBJETOS DE CENA: ASSENTO:

>DO TIPO BANCO ESTREITO, SEM ENCOSTO, LONGO O BASTANTE PARA QUE POSSAM AI SE ASSENTAR AS TRES MULHERES QUASE ENCOSTADAS UMAS NAS OUTRAS. O MENOS VISÍVEL QUE SE PUDER. AO PONTO DE NOS PERGUNTARMOS SOBRE O QUE , AFINAL, ELAS SE ASSENTAM...


ε -SAIDAS: NÃO SE VÊEM OS PERSONAGENS SAINDO NAS COXIAS. DEVEM DESAPARECER NA ESCURIDÃO A POUCOS PASSOS DA ZONA ILUMINADA; E, DO MESMO MODO, QUANDO REAPARECEM, DEVEM JÁ ESTAR BEM PERTO DO ASSENTO. SAIDAS E ENTRADAS REPENTINAS E LEVES, SEM O MENOR RUIDO.

ζ - VOZ:

NO LIMITE DA AUDIBILIDADE. SEM TIMBRE, COM EXCESSÃO DA EXCLAMAÇÃO APÓS CADA CONFIDÊNCIA SUSSURADA E NAS DUAS RÉPLICAS QUE SE SEGUEM.

[ 1972: VERSÃO FRANCESA /IN COMÉDIE ET ACTES DIVERS/ MINUIT / PARIS .(O.:1965)] [ 1971: 1A VERSÃO BRASILEIRA/ BD/ UFPB ] [ 1997: 5A VERSÃO BRASILEIRA/ BD/ UFPE ] @accioly&michelotto *sbat*


[ 1972: VERSテグ FRANCESA /IN COMテ吋IE ET ACTES DIVERS/ MINUIT / PARIS .(O.:1965)] [ 1971: 1A VERSテグ BRASILEIRA/ BD/ UFPB ] [ 1997: 5A VERSテグ BRASILEIRA/ BD/ UFPE ] @accioly&michelotto *sbat*

samuel beckett & accioly michelotto, r&p


koa - u ediçþes do banco de dados @ \ ufpe teoria da arte * 1995.1


personagens BAM : ______________________________ BEM: ______________________________ BIM: ______________________________ BOM: ______________________________

palco RETÂNGULO DE 2X3M., POUCA ILUMINAÇÃO, RODEADO DE SOMBRAS, DESLOCADO PARA A DIREITA DO PÚBLICO. NO PROSCÊNIO, À ESQUERDA, SOB POUCA ILUMINAÇÀO, RODEADO DE SOMBRAS, O LUGAR DE V.

figurino O MAIS PARECIDOS ROUPÃO LONGO, CINZA. CABELOS LONGOS, CINZA. V: SOB FORMA DE ALTO-FALANTE NA ALTURA DE UM HOMEM.

ESCURIDÃO LUZ ACENDE EM V V:

SÓ RESTAM NÓS CINCO. É COMO SE AINDA ESTIVÉSSEMOS LÁ. É PRIMAVERA. O TEMPO PASSA. INICIO EM SILÊNCIO.

AREA SE ILUMINA. BOM, CABISBAIXO, EM 1 BAM, ALTIVO, EM 3 * PAUSA* NÀO, NÀO ESTÁ BOM. EU APAGO. VOU RECOMEÇAR. SÓ RESTAM NÓS CINCO. É PRIMAVERA. O TEMPO PASSA.

ÁREA SE APAGA.


INICIO EM SILÊNCIO. ACENDO.

ÁREA SE ILUMINA. BAM SÓ, ALTIVO, EM 3 * PAUSA*

ESTÁ MELHOR. ESTOU SÓ. É PRIMAVERA. O TEMPO PASSA. INICIO EM SILÊNCIO. E ENFIM APARECE BOM. CORRIJO: REAPARECE.

BOM ENTRA EM N, PARA EM 1 CABISBAIXO.*PAUSA* BIM ENTRA EM E, PARA EM 2 ALTIVO. * PAUSA* BIM SAI EM E, SEGUIDO DE BOM *PAUSA* BIM ENTRA EM E, PÁRA EM 2 CABISBAIXO.*PAUSA* BEM ENTRA EM N, PÁRA EM 1 ALTIVO. BEM SAI EM N, SEGUIDO DE BIM *PAUSA* BEM ENTRA EM N, PÁRA EM 1 CABISBAIXO. *PAUSA* BAM SAI EM O, SEGUIDO DE BEM *PAUSA* BAM ENTRA EM O, PÁRA EM 3 CABISBAIXO.*PAUSA* ESTÁ BOM. APAGO.

ÁREA SE APAGA. V:

EU RECOMEÇO. SOMOS SÓ CINCO AGORA. É COMO SE AINDA ESTIVÉSSEMOS‚ L . É PRIMAVERA. O TEMPO PASSA. E DESSA VEZ SE FALA. ACENDO. ÁREA SE ILUMINA. BAM SÓ, EM 3. ALTIVO. *PAUSA*

V:

ESTÁ BOM. ESTOU SÓ. É PRIMAVERA. O TEMPO PASSA. E DESSA VEZ SE FALA. ENFIM BOM APARECE. CORRIJO: REAPARECE. BOM ENTRA EM N, PÁRA EM 1. CABISBAIXO.


BAM: BOM: BAM: BOM: BAM: BOM: BAM: BOM: BAM: BOM: BAM: BOM: BAM: BOM: BAM: BOM: V:

E ENTÃO? (SEMPRE CABISBAIXO) NADA. ELE NÃO DISSE NADA? NADA. INTERROGASTE-O BEM? SIM. ELE NADA DISSE. NADA. CHOROU? CHOROU. GRITOU? GRITOU. IMPLOROU PERDÃO? SIM. MAS NADA DISSE? NADA. NÃO ESTÁ BOM. RECOMEÇO. BAM: E ENTÃO? BOM: NADA. BAM: ELE NÃO FALOU SOBRE AQUILO? V: ESTÁ MELHOR. BOM: NÃO. BAM: INTERROGASTE-O BEM? BOM: SIM. BAM: E NÃO FALOU DAQUILO? BOM: NÃO BAM: CHOROU? BOM: CHOROU. BAM: GRITOU? BOM: GRITOU. BAM: IMPLOROU PERDÃO? BOM: SIM. BAM: MAS ELE NÃO FALOU SOBRE AQUILO? BOM: NÃO. BAM: PORQUE PARASTE ENTÃO? BOM: ELE NÃO REAGE MAIS. BAM: E NÃO O ACORDASTE? BOM: TENTEI. BAM: E AÍ ? BOM: AÍ NÃO DEU. BAM: [ A BIM ] ESTÁS DESOCUPADO? BIM: SIM. BAM: CARREGA-O E INTERROGA-O ATÉ‚ QUE ELE CONFESSE. BIM: E O QUE ELE DEVE CONFESSAR? BAM: QUE ELE DISSE PARA ELE. BIM: SÓ ISSO? BAM: ISSO SÓ V: NÃO ESTÁ BOM. RECOMEÇO. BAM: CARREGA-O E INTERROGA-O ATÉ‚ QUE ELE CONFESSE. BIM: E O QUE ELE DEVE CONFESSAR? BAM: QUE ELE DISSE PARA ELE. BIM: SÓ ISSO? BAM: E O QUÊ. BIM : É TUDO? BAM: SIM. BIM: E DEPOIS PARO.


BAM: BIM:

PÁRA. BOM. [ A BOM ] VENHA. BIM SAI EM E, SEGUIDO DE

BOM. V:

ESTÁ BOM. ESTOU SÓ. É VERÃO. O TEMPO PASSA. ENFIM BIM APARECE. CORRIJO: REAPARECE.

BIM ENTRA EM E,

BAM: BIM: BAM: BIM: BAM: BIM:

V: BIM: V: BAM: BIM: BAM:

V: BAM:

V: BAM:

BAM: BIM: BIM: BAM: BIM: BAM: BIM: BAM: BIM: BAM: BIM: BAM: BIM: BAM: BIM: BAM: BIM: BAM: BIM: BAM:

V:

PÁRA EM 2. CABISBAIXO.

E ENTÃO? [ SEMPRE CABISBAIXO] NADA. ELE NÃO TE DISSE AQUILO?

NÃO INTERROGASTE-O BEM? SIM E ELE NÃO TE DISSE AQUILO?

NÃO. NÃO ESTÁ BOM. RECOMEÇO. E ENTÃO? NADA ELE NÃO DISSE ONDE? ESTÁ MELHOR.

ONDE? AHHHH!!! ONDE.

NÃO. INTERROGASTE-O BEM? SIM. E ELE NÃO DISSE ONDE?

NÃO. CHOROU? CHOROU. GRITOU? GRITOU. IMPLOROU PERDÃO? SIM. MAS NÃO DISSE ONDE?

NÃO. E PORQUE PARASTE? ELE SE APAGOU. E NÃO O ACORDASTE?

TENTEI. E DAÍ? DAÍ NÃO DEU. ESTÁS MENTINDO. ELE TE DISSE ONDE. CONFESSA QUE ELE TE DISSE ONDE. VAMOS TE INTERROGAR ATÉ QUE CONFESSES. ESTÁ BOM. ENFIIM APARECE BEM

*PAUSA* *PAUSA* *PAUSA* *PAUSA*

BEM ENTRA EM N, PÁRA EM 1.


ALTIVO. BAM: BEM: BAM: BEM: BAM: BEM: BAM: V: BAM: BEM: BAM: BEM: BAM: V: BEM: BAM: BEM: BAM: BEM:

ESTÁS DESOCUPADO? SIM CARREGA-O E INTERROGA-O ATÉ QUE ELE CONFESSE. E O QUE ELE DEVE CONFESSAR? QUE ELE LHE DISSE SÓ ISSO? ISSO SÓ. NÃO ESTÁ BOM. RECOMEÇO. CARREGA-O E INTERROGA-O ATÉ QUE ELE CONFESSE. E O QUE ELE DEVE CONFESSAR? QUE ELE LHE DISSE ONDE. SÓ ISSO? E COMO. ESTÁ MELHOR. SÓ ISSO? SIM. E DEPOIS PARO. PÁRAS. BOM. [ A BIM ] VENHA.

BEM SAI EM N, SEGUIDO DE BIM. V:

ESTÁ BOM. ESTOU SÓ. OUTONO. EH O TEMPO PASSA. ENFIM BEM APARECE. CORRIJO: REAPARECE

BEM ENTRA EM N, PÁRA EM 1. CABISBAIXO. BAM: BEM: BAM: BEM:

E ENTÃO? [ SEMPRE CABISBAIXO ] NADA ELE NÃO TE DISSE ONDE?

V: BAM:

É SEMPRE A MESMA COISA. ESTÁS MENTINDO. ELE TE DISSE ONDE. CONFESSA QUE ELE TE DISSE ONDE. VAMOS TE INTERROGAR ATÉ QUE CONFESSES. E O QUE DEVO CONFESSAR? QUE ELE TE DISSE ONDE. SÓ ISSO? E COMO. DEPOIS A GENTE PÁRA? PÁRA. VENHA.

BEM: BAM: BEM: BAM: BEM: BAM:

V:

NÃO. *PAUSA* *PAUSA* *PAUSA*

BAM SAI EM O, SEGUIDO DE BEM. ESTÁ BOM. E É INVERNO. E O TEMPO PASSA. ENFIM EU APAREÇO. CORRIJO: REAPAREÇO. BAM ENTRA EM O, PÁRA EM 3. CABISBAIXO. ESTÁ BOM. ESTÁ BOM. ESTÁ BOM. ESTOU SÓ. ESTOU SÓ SÓ SÓ SÓ. É COMO SE AINDA LÁ ESTIVESSE .


É INVERNO VERNO ERNO. SEM RETORNO TORNO TORNO. O TEMPO PASSA PASSA PASSA. E É TUDO. [ BRUSCO, COM PENA DE SI : ] COMO COMPREENDER? APAGO.

*PAUSA* *PAUSA* ÁREA SE APAGA. *PAUSA* V SE APAGA.

*RIDEAU*

OBSERVAÇÕES 00.

DOS

TRADUTORES:

EM COMPARAÇÃO COM OUTRAS PEÇAS, HÁ POUCAS INDICAÇÕES EM A S P. CRIAMOS ALGUMAS FALAS EM MAIÚSCULA, PARA INDICAR HISTERIA( E PARA EVITAR A

"GRITARIA"

) BAM PASSA PELAS 4 ESTAÇÕES DE VIVALDI, INICIANDO FIRME, INQUISIDOR, E TERMINANDO CANSADO, ARRASTADO PELO TEMPO, COMO SE TENTANDO LEMBRAR DE ALGO, QUE NA VERDADE NUNCA ESQUECEU. APLICANDO SI MESMO O MÉTODO DE REAVIVAR INFORMAÇÕES, PRÓPRIO DA TORTURA, QUE É DO DO DESGASTE FÍSICO PELA REPETIÇÃO AD NAUSEAM. 001

MÉTODO INEFICAZ, EM CUJA DEMONSTRAÇÃO FICA EVIDENTE POIS A SUA INUTILIDADE, REMETENDO A INSTALAÇÃO DA TORTURA A OUTRAS RAZÕES QUE A DA EFICACIDADE, LOGO "RACIONALIDADE". RAZÃO DA OBSESSÃO, POR EXEMPLO, QUE É DA ORDEM DO PSÍQUICO MAL-AMANHADO. A TORTURA SERIA - PELOS SEUS APLICADORES- A ' RACIONALIDADE ' DA ANIMALIDADE, OU DA ESTUPIDEZ.

002

BAM, A APLICA A SI MESMO, E VAI LENTAMENTE SE AFUNDANDO NUM TERRITÓRIO DE SEU EU QUE POUCO A POUCO ELE MESMO APAGA. A NÃO SE ESQUECER QUE TODA BARBÁRIE - GUERRA INCLUIDA- LEVANTA MONUMENTOS A SI MESMA: ESTÁTUAS EQUESTRES, MEDALHAS, LIVROS DE DOCUMENTAÇÃO ETC... (CFRA CORIOLANO, DE T. S. ELLIOT)

003

KOÁ-Ú

É O ATO MESMO SOLIPSISTA DO PRODUZIR A PRÓPRIA PERENIDADE, MESMO QUE ELA

SEJA UM VÁCUO: ENTRE UM PASSAR DE TEMPO ( NORMALIDADE ), E UMA REPETIÇÃO AD INFINITUM ( TENTATIVA OBSESSIVA DE SE COLOCAR, DE SE FIXAR , DE SE DAR VALOR: ATO, ALIÁS FÁLHICO, NO QUAL SE ERIGE TODA ARTE INSTITUIDA. ).

004

ARTE É

ALGO ASSIM MEIO LADO POSITIVO DESSE PROCESSO OBSESSIVO DE SE INSTALAR NO MUNDO COMO INFORMAÇÃO,


COMO MOMENTO QUE SE PODE REPETIR (... NÃO SE ESQUECER DA LIÇÃO DE ARISTÓTELES AINDA EM VIGOR HÁ 25 SÉCULOS NO OCIDENTE, DE QUE SE APRENDE COPIANDO...) E PORTANTO MOMENTO QUE SE PODE RECUPERAR COMO DOCUMENTA PERENE.

A QUESTÃO QUE BECKETT RECOLOCA PARA TUDO ISSO É A DO PRÓPRIO TEATRO ENQUANTO CENA: DURA UM SÓ INSTANTE. IRREPETÍVEL, ESSA A SUA CONSISTÊNCIA DE ETERNIDADE...


beckett 5 final