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Capítulo 20 – O segundo Cavaleiro 2° Cavaleiro da Magia – Algoz Arma Branca – Marreta Sísmica Zander descia calmamente pelas centenas de degraus da Torre Espiral. Cada protetor que cruzava em seu caminho lhe fazia uma reverência, tocando seu colar e curvando levemente o corpo, e Zander a retribuía de maneira semelhante. Apenas Kam o acompanhava, um de seus Cavaleiros, o mais sábio de todos. — Eu enviei uma equipe de busca para rastreá-los, mas não acredito que haverá qualquer resultado. Mesmo que sejamos capazes de encontrá-los, será muito difícil aprisioná-los na Urna de Phonterin novamente. Para isso precisaremos da Coroa dos Demônios. Zander ouvia atentamente as informações de Kam. Este era seu conselheiro, a pessoa para quem ele sempre recorria em caso de dúvidas, sempre que precisava de ajuda para tomar alguma decisão. Quando Kam parou de falar, Zander perguntou: — Descobriu alguma coisa sobre o paradeiro da coroa? — Já verifiquei cada linha dos relatórios escritos pelo Guardião Phonterin e, segundo ele, a coroa dele pode ter ido parar em qualquer lugar de Gardwen. Não temos nada que nos ajude a localizá-la. A única pista é: “Ela atrairá os demônios como a fogueira atrai as mariposas”. — Quais demônios? – Zander perguntou. A história das relíquias estava causando uma grande confusão nos últimos dois dias. Dois Aprendizes invadiram o Templo das Relíquias e pegaram duas delas sem autorização, apenas com o objetivo de treinarem, mas desconheciam o real perigo do que estavam fazendo. A urna mantinha aprisio-


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nada uma manada de demônios criados por um antigo Guardião da Magia, Phonterin, e a coroa servia para controlá-los. Mas, sem querer, os Aprendizes libertaram os demônios e a coroa acabou desaparecendo. — Acredito que Phonterin estivesse se referindo a qualquer demônio, mais especificamente aos que ele criou – Kam respondeu a pergunta de seu Guardião. — Então onde encontrarmos os demônios, encontraremos também a coroa? — Sim, mas os demônios podem levar anos para a encontrarem. Ela pode ter ido para qualquer lugar de Gardwen. Zander desceu uma dúzia de degraus antes de desabafar: — Eu estou no escuro, Kam. Vou pedir que Kaiser selecione uma equipe para vigiar os demônios assim que eles forem localizados. Preciso de uma equipe para manter esses demônios afastados de qualquer vilarejo ou cidade; não posso permitir que uma única pessoa seja ferida por uma falta de responsabilidade de nossa parte. Mas, fora isso, não sei o que fazer… — Eu acredito que uma equipe, mesmo dos mais habilidosos Guerreiros ou Generais, não será capaz de mantê-los afastados de suas vítimas. Sugiro que o senhor peça ajuda aos domadores de demônios, eles saberão como lidar com isso melhor que nós. Zander concordou com a cabeça, grato por ter Kam como seu Cavaleiro e também conselheiro. Eles desceram mais alguns degraus e cruzaram com meia dúzia de Feiticeiros e Magos que fizeram uma reverência ao Guardião, todas respondidas, então Kam quebrou o silêncio que se seguiu: — Tenho um pedido a fazer senhor. Os dois Aprendizes que causaram toda essa confusão estão aguardando o castigo. Mas aos meus olhos O segundo Cavaleiro


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são apenas crianças, senhor, são inexperientes. Tudo o que queriam fazer era treinarem e devemos admitir que foram extremamente habilidosos ao burlarem a segurança do templo e roubarem as relíquias… Zander e Kam sorriam enquanto falavam da incrível façanha dos dois Aprendizes. — Eu compreendo Kam, realmente não passam de crianças, mas não posso deixar de puni-los, você sabe disso. Essa punição será importante para eles… — Eu sei disso, e realmente não tenho a intenção de livrá-los do castigo. Mas queria lhe pedir que os deixasse sob minha supervisão; permita que eu lhes aplique o castigo que merecem. Não será através da dor, ou tortura, ou qualquer desgaste físico, sem cicatrizes nem perca de pingentes; será do meu jeito e garanto que será mais eficaz que qualquer outro tipo de castigo. Zander riu e concordou com a cabeça, permitindo que Kam aplicasse o castigo. — A propósito – o Guardião acrescentou, ainda rindo. – Qual é o nome dos Aprendizes? — São dois dos Aprendizes do Sábio Lakar: Meithel e Mudriack! Kam separou-se de Zander durante a descida, deixando-o sozinho e indo em direção ao Sábio Lakar, com quem iria conversar sobre o castigo de seus Aprendizes. Mas o Guardião não ficou sozinho por muito tempo, pois logo ouviu passos apressados descendo a escadaria espiral ao seu encontro. Zander se virou para ver quem descia tão desesperadamente, pulando dois ou três degraus em cada passada. Era um de seus Generais; seu nome era Algoz: — Soube que meu tutor abriu mão de seu colar de Cavaleiro – ele gritou, mesmo ainda sem ter se aproximado o suficiente do Guardião pa-


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ra iniciar uma conversa, e sem fazer qualquer reverência ou expressar qualquer respeito. — Sim – Zander concordou, ficando de frente para seu General que, só agora, se aproximou o suficiente e parou de correr. – Seu tutor me entregou seu colar de Cavaleiro pela manhã e voltou ao posto de General. Alain quer se dedicar a outros assuntos depois de tantos anos me servindo… Algoz mal esperava Zander terminar de falar. Parecia muito irritado por algum motivo, mas Zander mantinha sua calma. — Por que ele não me deu seu colar? Agora Zander compreendeu o motivo do General estar tão irritado e tentou não sorrir. — Porque esta função é minha. Sou eu quem devo selecionar minha guarda. A única coisa que seu tutor poderia ter feito é me indicar alguém… — Então é óbvio que ele indicou o meu nome – disse Algoz forçando um sorriso para parecer mais confiante, embora o Guardião enxergasse o receio que ele estava sentindo. ‒ Ele indicou o meu nome, não é? — Obviamente que sim ‒ Zander respondeu com sinceridade. ‒ Seu tutor me falou muito bem de você, me falou o quanto está preparado para ser um dos nove Cavaleiros, assim como os outros dois nomes que ele me passou… — Ele indicou mais alguém além de mim? – perguntou Algoz chegando ao auge de sua irritação. Zander estava presenciando a tão famosa arrogância do General. — Isso já era esperado, afinal de contas, você não é o único pupilo de seu tutor. Algoz não disse mais nada. Deu às costas ao Guardião sem dizer mais nada e saiu irritado. Zander imaginou onde o General estaria indo, O segundo Cavaleiro


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mas sabia que este assunto ainda não estava resolvido. O que Algoz iria fazer? Laserin ainda estava chocada com o que aconteceu. Não conseguia acreditar que seu cristal foi destruído. Ela colocou em sua mochila o pedaço de pedra sem poder em que o cristal se transformou, mas a vontade que tinha era de jogá-lo em qualquer canto. — Não se preocupe – disse Elkens tentando consolá-la. – O cristal vai voltar ao normal mais cedo ou mais tarde. Se pensarmos bem, com certeza isso acontecerá, pois Káfka não ficou decepcionado ao ver o que havia acontecido ao cristal, e nós sabemos o quanto o cristal é importante para eles. Káfka não comemoraria se o cristal realmente estivesse inutilizado, pois os Cavaleiros também o querem. — Você tem razão! – exclamou a garota alegrando-se um pouco. Elkens estava certo. Então os dois andaram na direção do grande arco de pedra, que os levaria para o segundo templo. — Não vamos esperar o Meithel? – Laserin perguntou, encarando Elkens com seus olhos grandes e azuis, os olhos infantis que escondiam uma mulher de fibra, de uma coragem assustadora. Elkens sorriu antes de responder, enquanto se lembrava de Laserin atrás de Káfka segundos antes de derrotá-lo com o cristal: — É melhor não perdermos mais tempo, temos que agir logo. O portal permanecerá aberto e Meithel poderá vir atrás de nós. Elkens olhou uma última vez para trás, para a entrada do templo, na esperança de ver Meithel entrando por ela, mas ele sabia que isso não aconteceria tão cedo. Meithel devia estar tendo problemas para chegar até o Templo dos Cavaleiros com dez Guerreiros em sua cola. Ele finalmente cruzou o arco de pedra. Laserin o seguiu.


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Eles estavam seguindo por um local escuro. Não conseguiam enxergar nada, apenas sentiam que estavam pisando sobre um chão cheio de pedras soltas. Não estavam mais no Templo dos Cavaleiros. Elkens tocou seu colar e conjurou uma fraca luz, então puderam ver que estavam no interior de uma grande caverna. — Que lugar é esse? – perguntou Laserin assustada. Esperava um lugar completamente diferente. — Não sei. Pensei que o portal nos levaria para um segundo templo, mas ele nos trouxe para cá. — Será que estamos no lugar certo? — Acho que sim – respondeu Elkens inseguro. – Lembra-se de que Káfka nos disse que teríamos de enfrentar o segundo Cavaleiro sem o seu cristal? Isso quer dizer que ele sabia que viríamos para o lugar certo… Elkens e Laserin prosseguiram pela caverna. Eles podiam sentir uma corrente de ar fresco; havia uma saída bem próxima. ♦ Mifitrin estava correndo pelo Território das Feras. Sua velocidade era tão incrível que uma nuvem de poeira era levantada por onde ela passava. Pretendia chegar o mais rápido possível até o local onde ficava o portal paralelo, então chamaria pelo Mensageiro Arkas para que ele a levasse para dentro dos Domínios do Tempo. Ainda fazia pouco tempo que ela tinha se despedido de Stemon na praia de Emeldis: — Venha comigo, Stemon – ela havia pedido. — Não, Mifitrin. Eu prefiro ficar. — Não, Stemon! Você será julgado e será expulso do seu reino. O segundo Cavaleiro


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— Mesmo assim eu prefiro ficar. Há vários guardas nos vigiando agora, com seus arcos preparados. Meu pai deu ordens para que eles nos matassem caso eu tentasse fugir com você. Mifitrin conteve um sorriso e disse: — Stemon, você sabe que os guardas não são problemas para mim. Posso levá-lo até o outro lado do mar antes que eles percebam. Stemon riu. Um riso com o peso da despedida. — Eu sei muito bem disso, Mifitrin, mas talvez seja a última vez que eu vejo o reino. Se eu for expulso daqui, nunca mais voltarei a ver nada aqui dentro, por isso quero ficar mais um pouco. Ainda há algumas coisas que eu tenho que fazer, algumas coisas para levar comigo, e algumas coisas para dizer pra muitos elendurs. Mifitrin sentiu pena do elendur. Ele não disse que tinha de ver ninguém, nem se despedir de ninguém. Lembrou-se do dia logo depois de terem se conhecido, quando Stemon lhe disse que os outros elendurs não o consideravam muito normal; talvez Stemon realmente não tivesse ninguém muito próximo, como um amigo. Talvez ele realmente fosse ignorado por todos, isolado e esquecido, mesmo que ele próprio não enxergasse isso e se considerasse aceito pelo resto dos elendurs. — Você acha que seu pai vai ficar contra você no julgamento? — Sim – respondeu Stemon. – Tenho certeza de que o meu pai vai fazer de tudo para que eu seja expulso de Emeldis. Mifitrin viu os olhos de Stemon se encherem de lágrimas e sentiu um terrível peso em seu coração, uma angústia que ela não podia suportar. — Me desculpe, Stemon. É tudo minha culpa… — Não, não é, Mifitrin – disse o elendur sem receios. – Eu tenho muito a te agradecer, pois em tão pouco tempo você me ensinou muita


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coisa. Se eu for expulso do meu reino hoje, terei muito a te agradecer, pois você me libertou. O elendur abaixou-se para poder abraçar a Guerreira do Tempo. — Adeus, Mifitrin. Que deus te proteja e que você tenha muito sucesso na sua difícil missão. — Obrigada, Stemon – Mifitrin o apertou com força. Se ela conseguisse chorar, tinha certeza de que estaria chorando neste momento. — Ainda vamos nos ver, Mifitrin, tenha certeza disso. Ainda nos encontraremos antes que essa guerra termine e lutaremos lado a lado. Mifitrin concordou com a cabeça e andou na areia da praia de Emeldis em direção ao mar. Tocando seu colar, Mifitrin se preparou para correr tão rápido sobre as águas do mar que nem ao menos teria tempo de afundar. Iria atravessar o mar correndo sobre ele, mas antes de realizar o feitiço ela olhou para trás, sorriu e disse: — Você fica melhor sem máscara, Stemon. Adeus. A última coisa que ela viu na ilha de Emeldis foi o belo sorriso do elendur. A Guerreira continuava correndo com a velocidade de um raio pelo Território das Feras, e a nuvem de poeira ia se levantando atrás dela. Parou de correr de repente, quando o céu escureceu de uma hora para outra e uma fina garoa passou a cair. Mifitrin não teve dúvidas, aquela garoa não era normal. Era formada por magia! Logo a garoa ficou mais forte e se transformou numa chuva, mas Mifitrin não teve medo do que aquilo poderia significar. De repente a chuva passou a tomar forma à sua frente. Um demônio formado completamente por água, com a forma de uma mulher. Era baixa e seus olhos eram grandes e azuis. Tinha longos cabelos que eram formados por finos fios de água, que imitava a chuva. Apesar de ser um demôO segundo Cavaleiro


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nio, era um ser belo. O demônio comunicava-se apenas mentalmente, e Mifitrin ouviu sua voz claramente dentro de sua cabeça; sua voz lembrava o som de uma pequena corredeira d’água: “Sou Shidra. Sou serva do mestre Karnar e vim em seu pedido lhe trazer uma mensagem. Meu mestre diz que falhou em sua missão, pois o reino de Roldur não nos ajudará”. — Eu sou Mifitrin. Diga a ele que também falhei. Diga que o reino de Emeldis também não nos ajudará. O demônio fez um gesto positivo com a cabeça. “Um homem de nome Elkens me pede para te avisar que está no deserto Arkver neste momento”. Terminado o recado, Shidra desmanchou-se em água. Em segundos a chuva voltou a ser uma fina garoa, até que desapareceu completamente. Mifitrin ficou imóvel por um momento, mas agora sabia que precisava ser rápida, então voltou a correr. Ficou surpresa em saber que Elkens e os outros já estavam no deserto Arkver, pois chegaram lá muito antes do que ela imaginava, pois ignorava completamente que eles pegaram carona com os senhores de dragões do reino de Covarmen. Agora ela precisava chegar aos Domínios do Tempo o quanto antes e pedir autorização ao seu tutor para poder ir ajudar Elkens nos Domínios da Magia. ♦ Elkens e Laserin continuavam a andar pela caverna escura, lado a lado. Agora sentiam o vento batendo em seus rostos, o que significava que a saída estava muito próxima. Caminharam por tanto tempo que até mesmo a tensão por terem de enfrentar mais um Cavaleiro passou,


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e agora eles caminhavam calmamente. Por causa da calma restabelecida, Elkens finalmente sentiu o cansaço se abater sobre ele. Não era somente o cansaço, mas também a fome; havia horas que tinha comido sua última refeição junto aos homens de Yusguard, antes mesmo de chegarem às Montanhas Gêmeas. Desde então já passaram por duas batalhas, as duas batalhas mais terríveis que Elkens já enfrentou em toda a sua vida como protetor, a primeira contra Rashuno, a besta celestial e a segunda contra Káfka. Mas ele não se daria por vencido, iria até o final sem se importar com o quão cansado estava. Laserin também sentiu o cansaço cair sobre ela enquanto andavam. Foi ela quem enfrentou Rashuno com todas as suas forças, foi ela quem cedeu mais energia para criar a Nai-Kolumbar de Elkens e foi ela também quem utilizou o cristal para derrotar Káfka. Isso tudo sem ela nem ao menos ser uma verdadeira protetora, sem ter recebido nenhuma forma de treinamento. Elkens não tinha dúvidas do quanto ela se tornaria forte após iniciar seu treinamento como uma protetora. Laserin poderia até mesmo ultrapassar os poderes de Mifitrin, ele reconhecia isso. Ela já demonstrava ter um grande potencial. De repente a calma foi interrompida, pois sentiram um forte tremor e toda a caverna tremeu. — O que é isso? – perguntou Laserin assustada. – Um terremoto? Elkens não sabia o que era, só sabia que não era um terremoto comum. Aquele tremor era gerado por algum tipo de magia, pois estavam dentro dos Domínios da Magia e terremotos naturais não ocorriam ali. Assim como Elkens temia, o tremor não parou nem enfraqueceu, e a pedras começaram a se soltar das paredes e do teto da caverna. — Corra, Laserin! Enquanto eles corriam desesperadamente em busca da saída, uma das paredes desabou sobre eles. Elkens tocou seu colar e conjurou uma O segundo Cavaleiro


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barreira que os protegeu de serem esmagados, mantendo as pedras afastadas, mas parte do teto também estava cedendo e Elkens não sabia o que fazer. Iriam ser esmagados se não fizesse algo. — Corra Laserin – ordenou ele enquanto se esforçava para segurar as pedras com sua barreira. — Mas e você? — Eu preciso ficar pra manter a barreira… — Não vou sem você, Elkens… — VAI AGORA, LASERIN! Não vou agüentar por muito tempo… Elkens mal terminou de falar quando o teto finalmente cedeu. Ele não pôde mais se concentrar em seu feitiço, pois teve de pular para trás para poder se proteger, mas Laserin correu para frente. Cada um correu em uma direção e ficaram separados por toneladas de pedras. Uma nuvem de poeira levantou-se de cada lado, sufocando-os. Elkens se levantou do chão onde caiu e correu para o grande monte de pedras que havia se formado à sua frente, bloqueando seu caminho. — LASERIN! – Ele chamou desesperado. Torcia para que a garota tivesse conseguido escapar. – LASERIN! – mas ele continuava sem respostas. O tremor finalmente parou, mas Elkens nem percebeu, pois estava preocupado com Laserin. Felizmente logo ele a ouviu tossindo do outro lado do monte de pedras. — Elkens… — Estou aqui, Laserin. Você está bem? — Estou, mas como iremos tirar essas pedras daqui? Você pode usar magia para tirá-las? Elkens olhou para cima, pensando bem antes de tentar fazer qualquer coisa. Tirar as pedras parecia não ser a melhor idéia.


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— Pode ser perigoso tirar as pedras daqui – ele disse. – Pode haver um novo desmoronamento. Você vai ter que procurar pela saída o mais rápido possível, antes que aconteça mais um tremor. — Mas e você? — Eu continuo sentindo o vento no meu rosto. Deve haver mais saídas… Laserin concordou: — Tudo bem. Ele ouviu seus passos se distanciando, então resolveu chamá-la de novo: — Laserin! Preste atenção: assim que você sair da caverna, fique escondida até que me veja e não chame por mim. Se você encontrar o segundo Cavaleiro, fuja sem que ele te veja, você me entendeu? A garota levou algum tempo para responder: — Não se preocupe, vai dar tudo certo. Elkens ouviu a garota seguindo em frente e não a chamou mais, então seguiu para o lado oposto, seguindo por caminhos diferentes onde ainda podia sentir o vento em seu rosto. Agora ele precisava ser rápido, precisava sair dali e encontrar Laserin, e só então procurar pelo segundo Cavaleiro da Magia. Correu por vários caminhos, sendo guiado apenas pelo vento, mas a saída não parecia estar tão próxima quanto ele achou. Laserin não precisou caminhar por muito tempo para encontrar a saída. Poucos minutos depois de se separar de Elkens, lá estava ela. A claridade entrava por ela e fazia os olhos de Laserin doer, pois já haviam se acostumado com a escuridão. Ela ficou tão entusiasmada que correu como uma criança em direção à saída, mas levou algum tempo O segundo Cavaleiro


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para que seus olhos voltassem a se acostumar com a claridade e pudesse ver algo. Imponentes paredões de pedra cresciam por todos os lados. Parecia que antes houvera templos entre os paredões de pedra, mas agora só restavam ruínas. Enormes pilares tombavam para todos os lados, em meio às pedras esculpidas que quase viravam pó. Paredes inteiras estavam caídas, e nada restou do que um dia existiu ali, como se vários terremotos tivessem arruinado com tudo. Havia até mesmo estátuas, mas poucas delas estavam inteiras; a maioria estava caída no chão, trincadas e quebradas. Laserin não sabia para onde ir. Estava entre dois paredões de pedra, e podia escolher qualquer um dos lados para seguir, mas via que para cada um dos caminhos que escolhesse, dezenas de outros caminhos podiam ser escolhidos em meio aos paredões que cresciam como um canyon. Para ela que não conhecia o segundo templo, aquilo se assemelhava a um gigantesco labirinto de pedra. Optou por seguir pela direita, mas depois disso seguiu por tantos caminhos diferentes que mal poderia voltar à caverna de onde saiu, pois ficou completamente perdida. E caverna era o que não faltava; várias entradas entre as pedras, dezenas de cavernas, mas a última coisa que Laserin queria era entrar novamente em uma delas. Apenas queria encontrar Elkens o quanto antes. Após um bom tempo andando, quase entrando em desespero, Laserin avistou um altar, onde havia um grande arco de pedra em cima. Era muito semelhante ao altar que tinha no Templo dos Cavaleiros, então obviamente aquele era o portal que os levaria ao terceiro templo e ao terceiro Cavaleiro. Mas o portal ainda se encontrava fechado e para abri-lo precisariam derrotar o segundo Cavaleiro e pegar seu colar. Só assim poderiam prosseguir.


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Laserin se aproximou do altar, sempre olhando para o arco de pedra. Elkens com certeza também procuraria pelo altar, então ela decidiu que aquele era o melhor lugar para se esperar pelo Sacerdote da Alma. Porém, essa não foi a melhor escolha de Laserin. Teria sido mais prudente se afastar dali o quanto antes, mas ela não teve tempo de pensar nisso. — Pretende atravessar o meu portal, garota? Laserin virou-se imediatamente para trás, assustada. — Quem é você? – ela perguntou ao homem, mas não precisava ter perguntado. Já sabia a resposta. — Eu sou Algoz, o segundo Cavaleiro da Magia e protetor deste portal. Algoz não era tão alto quanto Káfka, nem tão forte, mas a principal diferença era que, ao contrário de Káfka, Algoz demonstrava o orgulho que sentia em ser Cavaleiro. Estava usando uma bela armadura que lhe adornava o corpo, além de uma longa capa branca às costas. Os cabelos de Algoz eram compridos e tão negros quanto a noite sem luar, entrando em contraste com a pele branca como a neve, como se jamais houvesse sido tocada pelo sol. Seus olhos eram penetrantes e assustadoramente verdes. Ele intimidava o inimigo apenas com seu olhar de superioridade. Mas Laserin não reparou tanto no Cavaleiro, pois o que chamou a sua atenção foi uma grande marreta branca na mão esquerda de Algoz. Parecia ser muito pesada e poderosa. Aquela, com toda certeza, era a sua arma branca. O Cavaleiro avaliou Laserin de cima a baixo, então ordenou: — Antes que eu lhe mate, me diga quem você é. A garota hesitou por um momento, mas tomou coragem e respondeu: — Me chamo Laserin. O segundo Cavaleiro


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O Cavaleiro permaneceu indiferente. — Percebi que uma batalha estava ocorrendo no Templo dos Cavaleiros e senti quando Káfka foi derrotado. Quando o portal foi aberto eu causei o tremor para matar soterrado quem quer que tivesse ousado enfrentar os Cavaleiros da Magia. Pelo visto você sobreviveu, mas agora me conte: como uma garota fraca como você, sem nenhum talento para a magia, conseguiu derrotar um dos Cavaleiros da Magia? Laserin riu da pergunta. — Não estou sozinha. Tenho amigos comigo e eles estão vindo para cá. — Então me diga só mais uma coisa: o que você quer aqui? Por um momento Laserin apenas ficou encarando os olhos verdes do Cavaleiro, mas a seguir respondeu com firmeza: — Quero que você abra o portal para que eu possa seguir adiante. Algoz sorriu com a exigência da garota, então, sem dizer nada, segurou o cabo de sua marreta com as duas mãos e a levantou acima de sua cabeça. — Aqui será o seu túmulo, garota! Laserin não teve tempo de fazer nada. Algoz bateu a marreta com força no chão, e um novo tremor foi gerado. No local onde a marreta bateu, uma fenda se abriu e seguiu em direção a ela; o chão estava partindo-se em sua direção. Laserin correu, evitando por pouco cair no buraco que se formava no chão. Algoz se divertia com o desespero dela, dando gargalhadas… Elkens finalmente conseguiu encontrar a saída e se viu num verdadeiro labirinto formado por enormes paredões de pedra, paredões de pedra que se estendiam centenas de metros acima de sua cabeça. Logo ele


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sentiu o chão voltar a tremer, mas o novo tremor durou apenas alguns segundos. Elkens queria correr, mas estava indeciso sobre qual caminho tomar. Precisava descobrir logo onde Laserin estava e torcia para que ela ainda estivesse escondida. Torcia para que ele a encontrasse antes que o segundo Cavaleiro fizesse isso. O Sacerdote corria sem orientação alguma, tomando o devido cuidado para não ser pego de surpresa pelo inimigo. De repente pôde ver ao longe um grande arco de pedra sobre um altar. Era o portal para o terceiro templo, mas ainda estava fechado. Precisaria encontrar o segundo Cavaleiro o mais rápido possível e derrotá-lo, para que só então pudessem seguir em frente. Mas logo ele deixou de pensar nisso, pois o que viu à sua frente cortou seu coração. — Não… não. Não pode ser… LASERIN! A garota estava caída no chão. Elkens correu tão rápido em direção ao frágil corpo no chão que pisou numa pedra solta e perdeu o equilíbrio, caindo de joelhos ao lado dela. Um corte se abriu no joelho direito mesmo sob a veste, mas ele não se importou; deu prioridade para analisar a garota. Constatou feliz que havia sinais vitais nela, estava apenas inconsciente, sequer parecia estar ferida. Ainda de joelhos ao seu lado, Elkens tentou acordá-la: — Laserin, acorde. Por favor, Laserin, acorde… — Você demorou. Elkens imediatamente soltou o corpo da garota no chão, ainda inconsciente, então olhou para o homem que estava encostado no grande arco de pedra sobre o altar. Elkens se surpreendeu por não tê-lo visto antes. A voz do homem era suave, sem qualquer traço de esconder nele um comportamento violento. Mas Laserin estava inconsciente e isso tirava qualquer impressão boa que sua voz passasse. O segundo Cavaleiro


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— A garota me disse que seus amigos viriam ajudá-la, mas pensei que chegariam antes de eu matá-la. Elkens levou uma pontada em seu coração, mesmo sabendo que o que ouvia era uma completa mentira. Olhou mais uma vez para sua amiga apenas para ter certeza, e ficou feliz em vê-la respirando. — Você está enganado – disse Elkens com raiva. – Laserin não morreu! Algoz apenas sorriu e sussurrou: — Ainda não. Mas vou matar os dois. ♦ Meithel continuava correndo em direção ao Templo dos Cavaleiros. Seu plano podia ter funcionado, pois ele já deu tempo o suficiente para Elkens ter conseguido entrar no templo. Tudo dependia da sorte que Elkens e Laserin tiveram. Os Guerreiros continuaram correndo atrás dele. Agora sabiam que não podiam matá-lo, pois descobriram que foram enganados ao verem Meithel com o colar ancestral, mas ainda podiam tentar impedi-lo de entrar no templo de Káfka. Meithel já estava sem fôlego de tanto correr, completamente exausto. Já havia corrido por tanto tempo e não podia competir com os Guerreiros em resistência. Eles podiam até estar cansados, mas com certeza era bem menos que Meithel. Mesmo com suas pernas doendo, correndo entre os gigantescos escombros da Torre Espiral, Meithel não desistia. Sabia que não poderia correr por muito tempo, mas se ao menos conseguisse chegar ao Templo dos Cavaleiros, lá ninguém poderia entrar atrás dele para detê-lo. Estaria livre dos Guerreiros. De repente, enquanto corria, alguém surgiu do nada na frente de Meithel, materializando-se no ar; os dois se chocaram e caíram sobre


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os destroços da torre. Era negro, alto, sem barba ou cabelo, e usava um óculos de armação redonda: Gauton! Meithel sentiu uma raiva enorme invadir o seu corpo. Mesmo na atual situação, queria se vingar de Gauton pela sua traição, mas o Mensageiro estava preparado para se defender. — O que veio fazer aqui, Gauton? – perguntou Meithel em meio a sua raiva. – Quer ajudar a me capturar? Por acaso não sabe que eles também querem te matar? — Por favor, Meithel, tente me entender… — Ou quem sabe veio para me capturar e tentar comprar o seu perdão? — MEITHEL – Gauton gritou, também se enraivecendo. Os Guerreiros estavam se aproximando, não tinham tempo para perder com uma discussão idiota. – Não estou aqui para ser julgado por você, estou aqui porque quero que você entenda o que está acontecendo. — Não quero saber nada de você! Já nos traiu uma vez e vai trair novamente assim que tiver oportunidade. Os Guerreiros estavam muito próximos agora. Gauton estava bloqueando a passagem de Meithel, impedindo que ele continuasse correndo. Se os Guerreiros chegassem, Meithel podia esquecer de ajudar Elkens, pois, embora não pudesse ser ferido graças ao colar de Morton, seria mantido prisioneiro. — Não estou aqui por ter me arrependido de ter traído vocês, Meithel – disse Gauton. – Não tenho por que me arrepender de nada do que fiz. Estou aqui porque quero que você entenda algo. Por favor, confie em mim ao menos esta vez. Meithel não sabia o que dizer. Queria atacar Gauton, destruí-lo, quebrar cada um dos seus dedos, causar toda a dor que fosse capaz, mas não tinha tempo para isso. Precisava escapar dos Guerreiros, mas o O segundo Cavaleiro


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único modo era contando com a ajuda de Gauton, pois como Mensageiro, ele poderia usar a técnica do teletransporte. — MATEM O GAUTON! – gritou um dos Guerreiros – MATEM O MENSAGEIRO! Várias flechas da Magia foram atiradas na direção do Mensageiro, mas Meithel se aproximou dele, compartilhando assim a proteção do colar de Morton. Meithel salvou Gauton, mesmo sem entender por que fez aquilo. Mesmo desejando que ele morresse, mesmo querendo matálo com as próprias mãos, Meithel o salvou sem entender por quê. Seu corpo simplesmente se moveu, quase como se tivesse feito aquilo por instinto; não importa por que, mas salvou Gauton e agora era a vez dele retribuir. Gauton colocou a mão direita sobre o ombro de Meithel, e com a esquerda tocou seu colar, realizando o feitiço do teletransporte. Meithel sentiu seus pés deixarem o chão por um décimo de segundo, mas logo voltaram a tocar algo sólido. Meithel olhou a volta e percebeu onde estava. Gauton o trouxe para o Templo dos Cavaleiros, onde ninguém poderia entrar para detê-los, onde eles próprios não tinham autorização para entrar neste momento. — Pelo visto Elkens já derrotou Káfka – disse Gauton olhando à volta. Meithel se surpreendeu ao ver o corpo já inconsciente de Káfka no chão, com seu escudo partido em dois. Automaticamente olhou para o portal sobre o altar e viu que estava aberto; Elkens e Laserin já haviam ido atrás de Algoz. Feliz por ver que seus amigos conseguiram passar por Káfka, Meithel correu em direção ao portal, para ir atrás deles, mas foi detido por Gauton.


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— Eu não o trouxe aqui para te ajudar – Gauton disse. – Eu o trouxe aqui porque ninguém poderá nos interromper. Quero que você tome conhecimento de algumas coisas antes que vá ajudar o Elkens… — Não tenho tempo para conversar! – disse Meithel irritado, já subindo no altar onde ficava o arco de pedra. Mas Gauton materializou-se na sua frente de repente, empurrando Meithel de costas no chão. — Não me importa – Gauton estava determinado a não deixá-lo passar. Meithel levou sua mão em direção ao colar, mostrando que estava disposto a atacar Gauton, mas o Mensageiro fez o mesmo movimento. – Podemos lutar se você quiser, mas você só irá perder mais tempo ainda. Você não vai sair deste templo enquanto não me ouvir até o fim. Meithel encarou o traidor cheio de ódio no olhar, mas inconscientemente tirou a mão do colar. Não iria lutar; iria ouvi-lo. ♦ — Preparado para morrer, Sacerdote Elkens? Algoz sorria; um sorriso malicioso, uma ânsia por causar dor e sofrimento. Sua marreta branca já estava levantada acima da cabeça. — Eu não vou morrer, Algoz! – respondeu Elkens cheio de ódio. Ele tocou seu colar e executou o kotetsu. Seus dois braços foram envolvidos por uma luz rubra; Elkens iria enfrentá-lo com força bruta. O Cavaleiro da Magia baixou sua marreta e bateu-a com uma força assustadora no chão. Um segundo depois o chão diante de Elkens levantou-se, precipitando-se contra ele. Elkens foi jogado de costas. Algoz riu. O segundo Cavaleiro


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— A habilidade da minha marreta me permite direcionar a força do impacto pelo chão, até atingir meu inimigo. Eu não preciso te atingir com a marreta, desde que você esteja no chão, posso direcionar a força do impacto até você. Não tem para onde fugir. Elkens pensou em suas chances. Não havia nada a seu favor. Estava no território de Algoz, ali nada poderia derrotá-lo. Algoz não precisava correr até seu alvo, não precisava sequer dar passo algum. Seu ataque percorreria pelo chão até atingir Elkens. Realmente não havia para onde fugir. Mas Elkens não precisou meditar por muito tempo para descobrir o ponto fraco do ataque de Algoz. Era mais ou menos como o ataque de Rashuno; embora poderoso, Algoz precisava de algum tempo para levantar a marreta novamente antes de atacar. Havia um pequeno intervalo de tempo entre um ataque e outro, um intervalo mínimo de tempo, mas já era o bastante para Elkens atacar. Elkens concentrou-se mais, estava se preparando para atacar. Elevando seu nível de concentração para Roe-gan, o terceiro nível, direcionou mais concentração para seu feitiço. O kotetsu em seus braços dobrou de tamanho, dando assim mais potência para o seu ataque. Ele precisava disso, pois talvez só tivesse uma chance de atingi-lo. Precisava de toda a força que pudesse reunir em seus braços. Agora os dois estavam preparados; Elkens com seu kotetsu mais poderoso e Algoz com sua marreta levantada sobre a cabeça. Então a verdadeira batalha começou. Elkens correu, preparado para atingir Algoz com seus punhos. Algoz atacou com a marreta, mas Elkens sabia o que iria acontecer. No meio do seu caminho, o chão se precipitou contra ele, como se fosse atingido pela marreta de baixo para cima. Mas Elkens estava preparado para isso e conseguiu desviar. Algoz


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agora levaria alguns segundos para voltar a levantar sua marreta e atacar novamente, então Elkens tinha a vantagem. Sem parar de correr, ele chegou até Algoz e acertou-lhe o peito com os dois punhos. O Cavaleiro foi arremessado de costas, dez, quinze metros atrás, sendo separado de sua arma branca. Algoz levou alguns segundos para se recuperar do ataque e conseguir se levantar, mas ao fazer isso, caminhou com certa dificuldade até sua marreta e a pegou. Estava sem fôlego por causa do forte impacto que levara no peito, mas já estava se recuperando. Parte da armadura que protegia seu peito partiu-se. — Te subestimei, Sacerdote – disse Algoz. – Mas agora sei do que é capaz e isso não vai voltar a acontecer. Você cometeu um erro fatal ao me deixar recuperar a minha arma. Novamente separados por uma distância que favorecia Algoz, os dois protetores se prepararam para a segunda investida. Elkens começou a correr no mesmo momento em que Algoz levantou sua marreta. Quando a marreta golpeou o chão, Elkens correu para um dos lados, mas isso não foi o suficiente desta vez. Uma fenda abriu-se no chão, obrigando Elkens a tomar outro caminho, mas era uma armadilha e, ao fazer isso, Elkens foi pego de surpresa. Descobriu da pior maneira que Algoz podia atacar sem nem ao menos voltar a golpear o chão com a marreta. Sua arma estava brilhando, guiando energia através da terra e golpeando Elkens por todos os lados. Pedras se desprendiam do paredão ao lado, caindo sobre ele. Mas Elkens ainda tinha uma carta na manga. Elevou sua concentração para Ginden-gan, o quarto nível, então focou sua concentração no kotetus. Agora não somente seus braços estavam envolvidos pela luz rubra, como suas pernas também. Agora Elkens dispunha de muita O segundo Cavaleiro


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força nas pernas, o que lhe permitia correr muito rápido, além de dar saltos incríveis. Saltando e correndo para se desviar dos golpes consecutivos de Algoz, Elkens chegou até ele em questão de segundos. Ele estava pronto para golpeá-lo mais uma vez, mas Algoz também estava preparado. Ainda com sua marreta encostada ao chão, ele fez com que uma nuvem de areia e pedras se levantasse em torno de Elkens, impedindo-o de enxergar qualquer coisa por algum tempo. Quando finalmente se recuperou do susto, Algoz apareceu por trás e o segurou pelo pescoço, levantando-o no ar. Elkens assustou-se com a força física de um Cavaleiro; era fora do comum. Algoz apertou seu pescoço com tanta força que logo o feitiço kotetsu desapareceu, deixando-o completamente desprotegido. Algoz ria enquanto ele era sufocado. — Você ficou muito confiante por ter me atingido uma vez – ele disse para seu inimigo que nem ao menos estava ouvindo-o. Elkens lutava com os braços e pernas, mas não conseguia se livrar das mãos do Cavaleiro. – Sacerdotes não são treinados para lutar, devia ficar quieto dentro dos seus Domínios, zelando pelo seu Elemento. Nós é que somos treinados para lutar, para matar. Os Cavaleiros são escolhidos entre os melhores Generais de um Elemento, apenas os nove melhores chegam a fazer parte da guarda do Guardião. Não somos exatamente o tipo de pessoas para qualquer um desafiar; somos os melhores! Os dedos de Elkens estavam se contorcendo para trás; ele estava ficando roxo, já sem ar algum em seus pulmões. Mas de repente uma pedra atingiu a nuca de Algoz com força, desequilibrando-o e fazendo com que soltasse Elkens no chão. Ele olhou para trás e viu Laserin já com outra pedra na mão, pronta para atirá-la contra ele. — Deixe o Elkens em paz!


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Algoz deixou Elkens no chão, quase morto, então se encaminhou para Laserin, com uma terrível fúria em seu rosto, embora o costumeiro sorriso provocante não deixasse seus lábios muito vermelhos. — Corra Laserin – disse Elkens após recuperar um pouco do fôlego. – Fuja… Laserin obedeceu e correu, mas nesse momento Algoz já estava atacando com sua marreta. Grandes pedras voltaram a se desprender do paredão, precipitando-se sobre Laserin. Vários esferas de luz rubra atingiram as pedras e elas explodiram no ar, transformando-se em pequenos fragmentos inofensivos que choveram sobre Laserin. — Você ainda não desistiu? – perguntou Algoz com raiva, virando-se para Elkens que novamente estava em pé, tocando seu colar com a mão esquerda. – Agora você vai morrer! Zander levou um susto quando a porta de mármore foi escancarada em sua sala. Estava mais uma vez no ápice da Torre Espiral, analisando vários relatórios que chegavam de Generais, Magos e Mestres, designando equipes para realizarem missões e tomando outros tipos de decisões. Quando ele levantou a cabeça, viu Algoz diante dele. O General da Magia estava em condições lastimáveis. Por meio minuto ficou apenas recuperando o fôlego, pois não era capaz de dizer nada. Sua armadura estava irreconhecível, cheia de trincas por todos os lados, e grande parte dela estava completamente quebrada. O corpo de Algoz apresentava cortes, queimaduras e diversos tipos de lesões que podem ser causadas numa luta entre protetores. Estava coberto por poeira e sangue, e o suor escorria por debaixo de seus cabelos negros e compridos. — Derrotei os dois – ele informou ao Guardião, ainda sem ter recuperado completamente seu fôlego. Mas Zander não precisava ouvir O segundo Cavaleiro


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aquilo, não precisava ver o estado de Algoz, pois ele já havia sido informado sobre o ocorrido. Algoz continuou, embora ainda estivesse com a respiração arfante: ‒ Derrotei os outros dois Generais que meu tutor indicou para concorrerem comigo… Eu os venci… os dois! Zander não disse nada. Apenas encarou o General com uma seriedade sem igual, não irritado, nem contente, apenas o encarou com aqueles olhos que eram capazes de enxergar o mais íntimo de qualquer pessoa. Mas Algoz não se intimidou. Deixou-se ser analisado por Zander, permitiu que o Guardião o testasse, permitiu que ele tocasse cada canto de sua mente. Mas o teste terminou e tudo o que Zander fez foi continuar a encará-lo. — EU MEREÇO SER UM CAVALEIRO! – disse Algoz por fim. Mas Zander não dizia nada, nem manifestava reação alguma, o que o irritava ainda mais. ‒ Treinei minha vida toda para isso. Segui treinamentos severos, passei por coisas que nenhum outro General passou, treinei duas ou três vezes mais duro que qualquer outro, conquistei cada um dos meus nove pingentes de General apenas para isso… E agora derrotei aqueles que meu tutor julgou terem alguma chance de serem melhor que eu para este cargo. Eu os venci. Eu sou o melhor, sou o mais forte. Eu mereço ser um Cavaleiro… Enquanto explodia e soltava toda sua raiva para fora, Algoz tirou seu colar do pescoço e o atirou contra a mesa de Zander, exigindo um novo colar, um colar de Cavaleiro. Zander sequer olhou para o colar que foi atirado para ele. Enquanto continuava encarando o General de temperamento difícil, aquele General tão arrogante, tão orgulhoso e quase detestável, Zander começou a falar com muita tranqüilidade: — Em toda a história dos protetores há dezenas de relatos sobre protetores gananciosos. Não importa de qual Elemento estejamos falan-


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do; seja a Alma, Tempo ou Magia, em todos eles sempre houve protetores gananciosos por poder. Sempre houve aqueles protetores que treinavam toda a sua vida para atingirem seus objetivos. Sempre houve aqueles que seguiam treinamentos severos, que passavam por coisas que nenhum outro passava, que treinava duas ou três vezes mais duro que qualquer companheiro. Tudo isso na ânsia por poder, sempre querendo mais e mais, querendo ser prestigiado, elogiado e invejado. “E todas essas histórias são praticamente iguais; o fim é sempre o mesmo. Quando um protetor tem um objetivo como este, quando treina duro para atingir seus objetivos, é obvio que ele os alcança. E quando eles achavam que eram fortes o bastante, quando se achavam merecedores daquilo que desejavam, não pensavam duas vezes antes de exigi-lo. E muitas vezes acabam passando por cima dos outros. Em todas as histórias acontece a mesma coisa. O protetor ganancioso exige aquilo que merece, e você acha que ele consegue? Sim Algoz, sempre consegue, porque, afinal de contas, ele treinou toda a sua vida para aquilo. Ele merece aquilo. E eles ganham poder, e depois querem mais, mais e mais. E estes protetores gananciosos geralmente acabam se tornando o ponto fraco de seus Elementos, pois os olhos de Mon freqüentemente recaem sobre eles. É sobre este tipo de protetor que Mon tem mais influência, e é geralmente estes que são corrompidos por ele. São esses protetores gananciosos por poder que geralmente causaram as grandes confusões que há na nossa história. E a história sempre se repete: eles exigem mais poder e nós lhes damos mais poder, e vez ou outra eles acabam utilizando este poder contra nós mesmos. Então qual é a nossa obrigação como Guardião? É simples, devemos enxergar quando um protetor realmente merece aquilo que exige, não apenas por sua força, ou por sua vida inteira de dedicação àquilo que deseja, mas por seu caráter. Cabe à nós, Guardiões, dizer não”. O segundo Cavaleiro


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Quando Zander terminou de falar, Algoz estava arfando, não por conta de seu cansaço devido às batalhas recentes, mas por raiva. Ele esqueceu-se completamente de seu colar e dá às costas a Zander, batendo com força a pesada porta de mármore ao sair. Mas assim que ficou sozinho em sua sala novamente, Zander apontou um dedo para a porta e utilizou sua habilidade de telecinese para abri-la novamente. — ALGOZ – ele gritou para o General que ainda não havia chegado à escadaria. – SEU COLAR E SUA MARRETA ESTÃO AQUI. PODE LEVÁ-LOS CAVALEIRO. Algoz parou a um passo do último degrau da Torre Espiral. Levou um tempo para compreender o que estava acontecendo, e mais um tempo para ter coragem de se virar e encarar Zander. Mas ele ficou ali, sem se aproximar do Guardião, e disse dali mesmo: — Por quê? Depois de tudo o que me disse… Zander sorriu, um sorriso sincero e carinhoso: — Praticamente nada do que eu disse se aplica a você. Você é ganancioso por poder sim, como qualquer outro Guerreiro e General. Esta é a característica de vocês, uma característica que eu tanto preso: o orgulho. Eu reconheço, e você também deve reconhecer, que não há ninguém mais orgulhoso que você em todos os Domínios da Magia. Porém, você usa seu poder para o bem, para ajudar nas missões e na proteção de Gardwen, então que mal há nisso? E sobre passar por cima dos outros? Você também não fez isso. Você desafiou seus concorrentes, mais uma vez sendo guiado por seu orgulho inabalável, mas conforme ouvi, o fez da forma mais justa e digna possível. Você os venceu num combate justo. “E devo dizer também que eu te compreendo: você reconhece o quanto seu tutor foi um Cavaleiro forte e não admite que alguém mais fraco que ele tome seu lugar. Você não acha justo com ele que isso aconteça.


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Eu reconheço isso e te respeito exatamente por isso, por querer tomar o lugar de seu tutor como um dos meus Cavaleiros, pois você sabe que é forte o bastante para substituí-lo. Por isso tomei minha decisão sobre quem será meu novo Cavaleiro: você, alguém tão forte quanto seu tutor e não menos digno de carregar esta marreta”. Os olhos de Algoz brilhavam de tanta felicidade. — Então pegue seu novo colar, Cavaleiro, e também pode levar sua marreta, pois tenho certeza que não estou enganado quanto à minha escolha. A batalha estava ao contrário agora. Elkens é que estava parado, enquanto Algoz vinha correndo em sua direção. O Sacerdote disparava todo tipo de ataque contra o Cavaleiro, mas não conseguia atingi-lo e este continuava correndo segurando sua pesada marreta. Quando ficaram frente a frente, Elkens levantou uma barreira para protegê-lo e concentrou toda a sua força nela, mas não foi o suficiente. A marreta destruiu a barreira com incrível facilidade, então atingiu Elkens no peito, jogando-o longe. Elkens caiu diante do altar e dali não conseguiu mais se levantar. Algoz caminhou lentamente até ele e ajoelhou-se ao seu lado. Aproximou os lábios dos ouvidos de Elkens e sussurrou com uma voz venenosa: — Não se preocupe, depois de te matar, vou matar a garota também. Antes de se levantar, Algoz levou suas mãos ao peito de Elkens e tirou-lhe o colar de Sacerdote, deixando-o no chão ao lado do dono. Elkens percebeu o que ele iria fazer, mas já não tinha forças para detêlo. Sequer conseguia se levantar. Algoz levantou a marreta no ar, então finalmente atacou. A marreta caiu sobre o colar de Elkens, e este sentiu uma dor quando seu colar foi reduzido a pó. Algoz riu com o seu feito; sabia o que Elkens devia O segundo Cavaleiro


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estar sentindo. Para um protetor, perder seu colar significa perder todos os seus poderes, ou seja, Elkens agora não passa de um mero huhumano. Sem seu colar é incapaz de realizar qualquer feitiço. — Agora vou atender ao seu desejo – disse Algoz voltando a levantar a marreta. – Vou te matar, pois só pode ser isso o que você queria ao resolver enfrentar os Cavaleiros da Magia. Morra em paz, Sacerdote da Alma. Elkens já não tinha forças nem mesmo para falar, mas de alguma maneira conseguiu fazer sua voz chegar diretamente à mente de Algoz: “Você não entende mesmo, não é? Quando é que vai perceber que eu não desistirei enquanto estiver vivo? Você não entende Algoz, e talvez nunca entenda a verdadeira amizade. Você pode achar que estou sozinho, mas eu tenho amigos e é por eles que luto e continuo lutando. Alguns deles nem estão aqui, mas sei que no fundo estão todos comigo e sei que cada um deles confia em mim, então não posso decepcionálos. Não posso abandoná-los agora, não posso trair a confiança daqueles que acreditaram em mim. Por isso eu te digo, Algoz: não conseguirá me vencer! Não importa o quão forte seja, seu poder não se compara ao poder que se adquire da verdadeira amizade. Enquanto você luta apenas por poder e ganância, eu luto por aqueles a quem amo e é por isso que você nunca será capaz de me superar!”. Um medo desconhecido tomou conta de Algoz e congelou o seu corpo. Bastava apenas baixar a marreta e acabar de uma vez com Elkens, mas não conseguia. Ele estava suando e suas mãos tremiam. Parecia impossível matar aquele homem que estava caído à sua frente, um homem tombado, quase morto, mas impossível de se matar. De repente uma estranha energia verde passou a envolver o corpo de Elkens. Era uma energia que Algoz nunca vira antes, em toda a sua vida. Na verdade ninguém chegou a ver aquela estranha energia, pois


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a primeira vez que ela se manifestou foi no corpo de Elkens, quando ele estava enfrentando Káfka no primeiro templo. Aquela energia deu forças para Elkens se levantar, renovando suas esperanças mais uma vez. De frente para Algoz, Elkens fechou os olhos e passou a se concentrar num dos seus feitiços mais poderosos. Seu colar estava quebrado, inutilizado, mas de alguma maneira Elkens sabia que seria capaz de fazer aquilo. Sentia em seu coração que era capaz de fazer isso, embora teoricamente fosse completamente impossível. Completamente ilógico. Mas era possível e era lógico, embora ainda fosse incompreensível. Seria a segunda vez que iria utilizar aquele poderoso ataque e sabia o quanto era perigoso. Quanto mais energia Elkens tirava da sua alma para fortalecer o ataque, mais perto da morte ele ficava. Se retirasse muita energia, Elkens não resistiria e morreria, mas sabia que seria necessária muita energia para vencer Algoz. Estava disposto a morrer se isso significasse que ele seria derrotado, pois sabia que Meithel e Mifitrin chegariam e derrotariam os demais Cavaleiros da Magia. Algoz continuava congelado pelo medo. Uma esfera rubra surgiu diante de Elkens e foi crescendo e ficando mais poderosa a cada segundo. Era um ataque ao mesmo tempo belo e terrível de se ver, pois parecia que iria explodir a qualquer momento. Finalmente Elkens abriu os olhos. Seu ataque estava pronto. — MUNDUS SOLVEN! O poderoso ataque voou de encontro ao Cavaleiro, fazendo um estranho som. Algoz tentou fugir do ataque, mas não pôde mover suas pernas e, mesmo que pudesse, estava perto demais para ter tempo de escapar. Continuava imobilizado pelo medo. Quando a Mundus Solven atingiu seu alvo, houve uma grande explosão que ecoou entre os paredões de pedra do segundo templo. O segundo Cavaleiro


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Não demorou para que Elkens pudesse ver o resultado da batalha. Algoz foi derrotado! Um ataque da Alma dificilmente mata um inimigo, pois esse não é o objetivo do treinamento dos protetores da Alma, mas ainda assim derrotava o seu oponente, deixando-o sem forças para continuar lutando. O corpo inconsciente de Algoz estava caído ao lado de sua arma branca. A energia verde abandonou Elkens e este caiu de joelhos por conta da enorme energia que utilizou na realização do feitiço. À sua frente estavam os restos do que um dia fora o seu colar. Elkens ficou intrigado; como podia ter realizado magia sem o seu colar? Elkens não conseguia entender como isso era possível, mas resolveu não pensar muito nisso, afinal de contas estava feliz por ter vencido. Somente Kalimuns e Morton poderiam lhe explicar o que a energia verde significava, mas este não era o momento adequado. Só eles sabiam o que significava a energia verde que surgia para ajudar Elkens quando ele estava à beira da morte, e sabiam também que esta energia estava relacionada ao fato de ele ter conseguido usar magia sem seu colar. Elkens ainda não estava preparado para entender isso, mas o momento logo chegaria, antes mesmo do que ele esperava. Ele estava tão perdido em pensamentos que não reparou em Laserin, que vinha correndo em sua direção com um largo sorriso estampado no rosto. Quando ele finalmente a viu, reparou que ela estava segurando o colar de Algoz numa das mãos. — Já podemos ir até o próximo Cavaleiro – disse ela feliz. – Agora só faltam sete. Elkens sorriu. Tentou pegar alguns dos fragmentos do que fora seu colar, mas desistiu ao ver que ele estava completamente destruído. Seria inútil carregá-lo. Então se levantou e olhou carinhosamente para Laserin. Estava sentindo a mesma coisa que ela sentiu quando o seu cris-


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tal se transformou em pedra, e agora sabia o quanto era doloroso, sasaber que não poderia mais ajudar em nada. — Você perdeu o seu cristal, Laserin – disse ele pesaroso – e agora perdi o meu colar. Estaremos indefesos contra o terceiro Cavaleiro. Tem certeza que quer continuar? — Eu já lhe disse – Laserin ainda sorria. – Vou com você até o fim! Elkens sorriu.

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SacerdoteS 20  

O segundo Cavaleiro

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