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Capítulo 17 – Roldur e Emeldis Finalmente parou de chover. O céu abriu-se de repente e o mar diante de Mifitrin lentamente se acalmou. Stemon já havia preparado o seu pequeno barco para a partida. A vela estava armada e os remos em posição. — Vamos Mifitrin – ele a convidou com entusiasmo. – Vamos aproveitar enquanto o vento está ao nosso favor. Mifitrin adiantou-se e subiu no barco elendur. Era pequeno e desconfortável, mas sua leveza certamente que resultaria em mais velocidade, e era isso o que Mifitrin queria. Após terminar seus últimos preparativos, o elendur desceu do barco e o empurrou. O barco soltou-se da areia onde estava preso, então Stemon voltou a pular sobre o barco. Enquanto se ajeitava em seu lugar, Mifitrin passou as mãos no remo e passou a remar. — Não precisa fazer isso – disse Stemon. Embora Mifitrin não pudesse ver seu rosto por causa da máscara, parecia que ele estava sorrindo. – Está ventando ao nosso favor… — Eu tenho pressa – disse Mifitrin decidida, então começou a remar a toda velocidade, embora meio atrapalhada. Stemon riu ao constatar que ela não tinha prática no que estava fazendo. — Por que você tem tanta pressa? – o elendur perguntou. — Enquanto estamos aqui, sentados no seu barco, meus amigos estão indo por um caminho muito mais difícil que o meu. Eles estão correndo perigo, por isso quero me juntar a eles o quanto antes. Mesmo tendo se conhecido há tão pouco tempo, Stemon já tinha um grande respeito por Mifitrin. Uma mulher forte e determinada, completamente fiel aos amigos e capaz de qualquer coisa por eles. Não Roldur e Emeldis


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havia muitos elendurs assim e era por isso que Stemon apreciava tanto os humanos, porque eles sempre surpreendem. Apesar de protetores serem considerados diferentes dos humanos, no fundo eram todos iguais. A essência de ambos é idêntica. — Então eu posso remar – disse Stemon se oferecendo. Mifitrin remou mais algumas vezes antes de responder: — Eu já disse que estou com pressa, mas obrigada. Eu sou mais rápida e resistente que você… — Mas não tem prática! – disse Stemon interferindo. Mifitrin de repente parou de remar e encarou sua máscara. Ele se adiantou e fez sinal para que ela o deixasse remar. Mifitrin cedeu. – Eu passei minha vida toda cruzando este mar a remo. O elendur logo provou seu valor e convenceu Mifitrin. Ela realmente era mais rápida, isso era indiscutível, mas ele tinha mais habilidade e no fundo isso era o que contava. O barco seguia em frente a toda velocidade. A cada segundo a costa ficava mais distante, ao mesmo tempo em que a silhueta da ilha de Emeldis ia crescendo cada vez mais. Quando Stemon se cansava, Mifitrin tomava o seu lugar, mas logo lhe passava os remos novamente. Mifitrin logo percebeu o quanto ele estava cansado, mas não disse nada, deixando-o continuar remando. Não era apenas ele que adquiriu um grande respeito por ela, mas o contrário também. No inicio Stemon disse que queria levar Mifitrin para Emeldis apenas para dar mais influência para ele, e isso não havia mudado, mas agora ela percebia o quanto ele estava se esforçando para ajudá-la. Não era tão egoísta como ela supusera afinal de contas. Muito longe dali, exatamente no lado oposto do continente ao qual Mifitrin estava, dois homens seguiam caminhando. Um deles tinha listras negras no rosto, da mesma cor que todas as vestes que estava SacerdoteS


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usando; este homem trazia também uma espada negra, cujo nome era Sangrini, e estava preparado para usá-la a qualquer momento, mesmo estando num lugar tão seguro e pacífico como Roldur. O outro homem era cheio de tatuagens por todo o seu corpo e estava carregado de todo tipo de objeto, um mais estranho que o outro, mas trazia também um verdadeiro tesouro escondido sob suas vestes de domador. Uma coroa que lhe fora confiada pelos espíritos de Almaren, uma coroa que nem mesmo ele tinha idéia do quanto era valiosa, não por seu preço, mas por seu poder. Mesmo estando com tanta pressa, Karnar e Kanoles andavam devagar, pois não queriam chamar atenção para eles. É claro que qualquer um que os visse perceberia que eles eram forasteiros, mas com certeza acharia que tiveram permissão para passar pela muralha, o que significava que eles não eram perigosos. Mas ambos sabiam que não seriam bem vistos por ninguém ali no reino, pois as marcas nos rostos, as vestes e os objetos estranhos que carregavam, além de estarem armados, tudo isso contribuiria para que as pessoas que os vissem caminhando se intimidassem, no mínimo. Era por isso que preferiam andar calmamente, para não assustar ainda mais quem quer que os visse e também para não levantarem suspeitas. Mas a verdade é que eles não tiveram permissão para passar pela muralha, e sim que atravessaram a temida floresta Almaren, coisa que ninguém acreditaria, por mais que jurassem por suas vidas. Ninguém dentro ou fora do reino acreditaria que eles vieram por Almaren, pelo menos ninguém que conhecesse a floresta e seus terríveis demônios. A floresta Almaren era considerada a parte natural da grande muralha, pois sabiam que ninguém ousaria atravessá-la. Ledo engano… ainda não conhecem Karnar. Roldur e Emeldis


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Depois que Demonddur os levou para fora da floresta, Karnar e Kanoles caminharam por mais algum tempo, então finalmente montaram acampamento quando a noite chegou. Agora já estavam caminhando novamente, apenas algumas horas após o dia ter amanhecido. Desde que deixaram Almaren para trás, viram poucas árvores pelos campos gramados de Roldur. A grama macia e muito verde ainda estava orvalhada e o sol fazia as centenas de gotas d’água brilharem intensamente. Aqui e acolá apareciam manadas de búfalos enormes; também se viam bodes, bois e cavalos, mas em menor número. Búfalo realmente era o animal que dominava naqueles pastos de Roldur. — Estamos perto agora – disse Karnar após chegarem ao topo de uma colina e recomeçarem a descer do outro lado. Adiante podiam ver uma cidadela, não muito longe de onde estavam. Era Istil, a cidade do rei. As casas eram diferentes das quais Kanoles era acostumado a ver. A arquitetura de Roldur era mais sofisticada que a de Kadharran. Casas construídas com três ou quatro andares, tendo sempre belos jardins entre elas. A cidade era enfeitada com muitas plantas ornamentais, fontes d’água e várias estátuas de pedra. Ao centro havia uma construção pouco maior que as demais casas. Kanoles olhou com mais atenção e viu que era um palacete. Ali deveria ser a casa do rei. Os dois continuaram andando calmamente em direção à cidadela sem hesitar. Havia muitas pessoas passeando e conversando e, a cada passo que davam, mais pessoas os avistavam. Logo eles seriam recebidos, só esperavam saber se seriam recebidos bem ou mal… ♦

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Mifitrin e Stemon agora estavam na praia, já na ilha de Emeldis. Finalmente a Guerreira estava perto de cumprir sua missão, então poderia partir para junto de Elkens e os outros. Quando desceram do barco de Stemon, ambos o puxaram para longe das ondas do mar e o deixaram à orla da floresta que se estendia diante deles. Stemon então voltou seus olhos para o mar, ao contrário de Mifitrin, que não tirou os olhos da floresta que se estendia à sua frente. Ela analisou a floresta por algum momento, esperando que algo acontecesse, mas nada aconteceu, então ela resolveu perguntar: — Por que está tudo tão calmo? Não deveria vir alguém nos receber? — Não – respondeu Stemon ao desviar os olhos do mar e seguir para a floresta. – Ainda não devem saber que estamos aqui. Mifitrin ficou pasma com o que ouviu. — Mas então onde está a defesa do seu reino? – ela fez uma pausa, esperando pela resposta de Stemon, mas o elendur permaneceu em silêncio e ela continuou: ‒ Quer dizer que não há vigias para observarem quando algum inimigo se aproxima? — Ah, sim – respondeu Stemon distraído. – Há vigias, mas não muitos, e eles não costumam vir até a praia. Na verdade não precisamos de vigias, pois alguém somente encontra nosso reino se lhes mostramos o caminho. É completamente impossível alguém entrar em nosso reino sem ter como guia um elendur. Emeldis é protegida por magias antigas e duradouras de modo que somente um elendur pode conhecer o caminho. Mifitrin sempre soube que Emeldis dispunha de proteções mágicas, mas nunca preocupou-se em saber como elas funcionavam realmente. Jamais imaginara que poria os pés no reino protegido, por isso nunca se importou. Mas agora que Stemon lhe explicou como a proteção funcionava, ela pensou a respeito e perguntou: Roldur e Emeldis


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— Mas se você me levar até seu reino eu posso voltar quando bem entender, não posso? — Não – respondeu Stemon. Ele agora havia entrado na floresta e guiava Mifitrin pelo caminho; ela o seguia de perto. – Você somente entra em Emeldis tendo um elendur como guia, não importa quantas vezes tenha percorrido o caminho. Mifitrin logo reparou como esta forma de proteção era semelhante à usada para proteger os Domínios dos Elementos, pois somente um protetor daquele Elemento (exceto os Mensageiros) pode levar um estranho para dentro. Um estranho jamais entra por vontade própria. — Vamos – disse Stemon apressando-a pelo caminho. – Você está com pressa, não está? As árvores cresciam muito juntas e a maioria delas tinha espinhos e galhos pontudos. Mifitrin percebeu que alguém poderia facilmente se perder naquele labirinto de galhos e espinhos, por isso seguia Stemon de perto. Algum tempo depois as árvores passaram a se afastar mais uma das outras, o que facilitou bastante o caminho. Tudo era muito silencioso na floresta, exceto pelos sons de pássaros ou insetos, mas eram quase imperceptíveis. Mifitrin andava a passos largos para conseguir acompanhar Stemon, mas em meio à pressa e ao silêncio, gritou quando um pássaro voou assustado na direção deles. Stemon riu do susto da Guerreira. — Não foi engraçado – disse Mifitrin aborrecida. – Pensei que fosse algum inimigo… — Era um pássaro – disse Stemon debochando-se dela. — Eu sei – respondeu Mifitrin carrancuda – mas o que assustou o pássaro? Stemon ignorou sua pergunta. Não queria levar uma discussão boba adiante. Quando se tratava de inimigos Mifitrin ficava quase paraSacerdoteS


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nóica, isso ele já havia percebido. Mas o fato é que Mifitrin estava em um território completamente estranho para ela, e era isso que a deixava tão desconfiada. — Alguma coisa assustou aquele pássaro, Stemon – disse ela para o elendur. — Ah, sim – ele concordou rindo. – E eu preferia não descobrir o que foi. Há feras terríveis nesta floresta, feras que comem gente. Mifitrin não achou graça, mas resolveu ficar quieta. Eles andaram mais algum tempo, então Stemon parou diante de uma árvore. — Esta é uma fewila! É uma árvore muito importante em Emeldis, pois é dela que são feitas nossas máscaras. Mifitrin olhou para árvore e percebeu o quanto era bela. Seu tronco era fino, mas muito comprido, e era perfeitamente reto e liso. Tinha uma madeira de cor avermelhada, mas suas folhas lá no alto eram intensamente verdes. “A fewila é muito resistente, podendo viver dezenas de ciclos de tempo. É depois das folhas caírem que podemos cortá-la para fazer nossas máscaras, mas antes disso devemos plantar todas as sementes que ele produzir, para que outras árvores fortes e saudáveis como ela possam nascer”. — Também temos uma árvore de onde eu venho que é importante para nós – contou a Guerreira enquanto passava a mão pelo tronco suave da fewila. – É a Antúnia, a árvore do Tempo. — Mas há uma razão especial para esta fewila estar aqui – explicou Stemon. – Significa que estamos no caminho certo para o meu reino. A fewila é a primeira pista. Stemon recomeçou a andar e Mifitrin o seguiu. Realmente o elendur estava certo, pois à frente o caminho mudava completamente, dando a impressão de que não estavam mais no mesmo lugar, como se tivessem Roldur e Emeldis


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sido levados para outra ilha. O chão estava forrado por um belo gramado prateado que mais se parecia com um tapete. As árvores agora eram diferentes e de formas belas, cheias de frutos e plantas que cresciam em seus galhos, cujas flores de formas e cores variadas estavam entre as mais belas que Mifitrin já vira na vida. Um perfume doce exalado pelas flores impregnava o ar e atraía enormes borboletas coloridas e belos pássaros. — Aqui é o nosso pomar – disse Stemon enquanto caminhava entre as árvores carregadas de flores e de frutos, de todos os tipos. – Não temos muito espaço para cultivá-las dentro da cidade, por isso este pomar está aqui. Mifitrin se perguntou por que não havia espaço para árvores dentro da cidade dos elendurs, mas resolveu perguntar outra coisa ao invés disso: — Stemon – começou ela pensando em como fazer a pergunta. – Você acha que eu tenho alguma chance? Você acha que os reis de Emeldis estarão dispostos a me ouvir ou aceitar o que tenho a dizer? Stemon parou de andar, mas permaneceu em silêncio. Ele virou-se para Mifitrin e olhou para ela, mas ela não pôde ver qual era sua expressão por baixo da máscara. Ele apenas sentiu o perfume que impregnava o ar, então respondeu com um tom de dúvida na voz: — Dificilmente eles aceitarão ouvi-la, mas eu sou um dos príncipes e isso significa algo, então posso tentar convencê-los. Nem mesmo eu entendi direito o que você tem a dizer, então não sei se eles aceitarão ou entenderão o que você irá dizer. Mifitrin desviou os olhos de Stemon, então baixou a cabeça e respondeu desanimada:

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— Creio que estou perdendo tempo vindo até aqui. Eu seria de mais ajuda ao lado dos meus amigos, pois para onde eles estão indo o perigo é maior. Ás vezes eu penso em sair correndo e ir me juntar a eles… — Mas eu peço para que não desista agora que estamos tão perto, Mifitrin. Desistir não combina com você, entende? Você não nasceu para desistir de nada. Mifitrin não respondeu, apenas observou Stemon colher duas frutas bem vermelhas em um galho alto, então deu uma delas para Mifitrin e ficou com a outra. Mifitrin aceitou a fruta, mas olhou ansiosa para o elendur, esperando que ele tirasse a máscara para poder comer. Mas ao contrário do que imaginou, ele levou a mão com a fruta por debaixo da máscara, e ela continuou sem saber como era o rosto dele, o que instigou ainda mais sua curiosidade. Agora que estavam mais perto da cidadela de Istil, uma criança os avistou e vinha correndo na direção de Kanoles e Karnar. Era um garoto de não mais que oito anos de idade e em sua ingenuidade ele corria sorridente em direção aos estranhos. — Vocês são guardas da muralha? – perguntou o pequeno menino com sua voz delicada, mal escondendo a alegria de conversar com, segundo ele acreditava, os guardas da grande muralha de Roldur. — Somos sim – disse Karnar sorrindo e com a voz doce, a fim de agradar e passar segurança ao menino. – Qual é o seu nome? — Sou Ebans – respondeu o garoto – e um dia eu serei guarda da muralha também! Karnar e Kanoles continuaram andando sem parar, e a cidadela estava cada vez mais perto. O menino corria ao lado deles para que pudesse acompanhar seus passos. Karnar continuava conversando com o menino inocente. Roldur e Emeldis


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— Por que vocês não estão na muralha? – perguntou o menino. — Porque viemos para falar com o rei. Sabe onde ele está? — O rei viajou, mas está chegando ainda hoje. Sei disso porque meu pai está com ele… Kanoles olhou surpreso para Karnar: — É o nosso dia de sorte. A cidadela do rei estava há menos de cem metros de onde estavam, mas continuavam andando sem hesitar, mesmo com tantas pessoas olhando com medo para eles. Houve uma pequena confusão de pessoas correndo, alguns gritos e logo duas dezenas de homens estavam à frente da entrada da cidadela, todos vestidos com armaduras e armados com arco e flecha. — Fique esperto – Karnar advertiu à Kanoles, sem olhar para o companheiro. – Eles podem atacar a qualquer momento… — Não estamos ao alcance de suas flechas ainda… — Pelo menos não de todas. Mas os melhores arqueiros podem nos atingir mesmo com a distância que nos separa, e aposto a coroa que ganhei em Almaren que aqui só estão os melhores. O menino andava logo atrás das pernas de Kanoles, o que podia significar que os soldados ainda não o haviam visto ao lado dos forasteiros. Mais alguns passos e o primeiro contato aconteceu: — Parem onde estão e se identifiquem! Eles obedeceram. Pararam de andar, então Karnar foi quem gritou: — Somos Karnar e Kanoles. Obtivemos autorização para passar pela grande muralha e pedimos para que nos levem ao seu rei ou para um local onde podemos aguardá-lo. A resposta não demorou muito tempo para chegar, e ela não agradou: — Ninguém vem desacompanhado da muralha e não recebemos nenhum aviso prévio. SacerdoteS


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Nenhum dos dois soube o que dizer. Karnar recomeçou a andar lentamente, abrindo os braços num sinal de que não tinha nenhuma arma escondida, pois não queria intimidá-los. — Não queremos fazer mal a ninguém… — FIQUE ONDE ESTÁ! —… viemos em paz… — NÃO SE APROXIME! —… só queremos falar com o seu rei… Ao ver que o homem não parava de andar, o líder da guarda puxou a flecha para trás e soltou. A flecha voou para o alto por um segundo, mas logo iniciou sua decida, fincando-se no chão pouco mais de um metro longe de Karnar. Admirado, parou de andar e sussurrou para Kanoles: — Eu disse que só os melhores estavam aqui… — Por que estão brigando? – perguntou ingenuamente o menino que estava parado logo atrás de Kanoles. Pela primeira vez ele sentiu medo dos estranhos, então afastou-se correndo deles. Ele chorava enquanto corria em direção à cidadela. — Eles têm um refém – disse um dos soldados assustado. — Preparem suas flechas – disse o líder deles. Ele aguardou algum tempo, esperando que o garoto se afastasse o suficiente dos forasteiros para não correr perigo algum, então deu a ordem: ‒ ATIREM! Uma chuva de flechas foi lançada. Karnar e Kanoles estavam no alvo. Não havia o que fazer, ao menos foi o que Kanoles pensou. Mantendo sua calma, Karnar tirou algo de dentro de suas vestes. Kanoles olhou e viu Karnar rompendo o lacre e desenrolando um novo pergaminho. Havia uma figura pintada nele, mas também estava repleta de símbolos que só Karnar podia ler. Ele fez gestos rápidos com as mãos, levando o pergaminho de um lado para o outro. Seus olhos já estavam Roldur e Emeldis


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completamente brancos, como sempre ficavam quando ele mostrava suas habilidades de domador, e estava resmungando palavras desconhecidas para o caçador de recompensas. Com um último gesto, Karnar atirou o pergaminho para o ar, onde ele ficou levitando logo à frente do domador, então grito o nome do demônio representado pelo pergaminho: — MERVION! Houve uma repentina explosão. O corpo de Karnar havia se transformado em chamas, como se o próprio domador fosse um homem feito de fogo. As flechas se aproximaram dos dois, mas antes de atingirem suas vítimas, Karnar levantou os braços e cada uma das flechas pegou fogo no ar, virando cinzas em décimos de segundo. Então tudo acabou. O pergaminho utilizado também desmanchou-se em cinzas, perdendo seu poder, ao mesmo tempo em que o corpo de Karnar voltava ao normal. No segundo seguinte seus olhos deixaram de ser brancos, voltando a serem os velhos olhos de felino. Mervion é um dos demônios do fogo mais poderosos, portanto muitos pergaminhos são feitos para invocar parte de sua magia. O pergaminho da Prisão de Fogo, que Kanoles já vira Karnar utilizando duas vezes, era um desses pergaminhos, e agora também o pergaminho de Mervion, um dos mais valiosos no mundo dos domadores de demônios. Cada um dos habitantes da cidadela agora olhava para Karnar. Havia pavor em seus rostos, mas ainda assim nenhum deles corria ou gritava. Os dois estavam a salvo das flechas, mas Karnar teve de usar magia explicitamente, o que ele sabia que seria muito ruim para seus planos. Ele viu quando os homens deixaram a surpresa de lado e prepararam novas flechas em seus arcos, mas aquela era uma batalha inútil e ele não queria ainda mais inimizade. Foi então que Kanoles decidiu agir: SacerdoteS


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— NÓS NOS RENDEMOS! – e então desembainhou Sangrini, jogando-a no chão longe de seu alcance. ♦ Mifitrin e Stemon haviam atravessado o pomar, e agora estavam novamente em um lugar diferente. O gramado prateado continuava a embelezar a paisagem, mas as árvores já não carregavam frutos. Desta vez estavam numa nova floresta, com centenas de fewilas, e nenhum outro tipo de árvore. Mifitrin mais uma vez ficou encantada. O perfume adocicado das flores do pomar também havia deixado o ar, sendo substituído por um novo odor. Não era exatamente um perfume, era um odor fresco, relaxante, que vinha das fewilas. Inconscientemente relacionou o odor das fewilas a alguma poção que vira Morton preparar tantos anos atrás. A caminhada estava muito mais fácil agora, pois as fewilas eram árvores altas, sem nenhum galho baixo que os atrapalhasse. — Elas não crescem em outro lugar – disse Stemon de repente. – As fewilas só crescem em Emeldis. Por isso elas são tão especiais para nós. Mifitrin não respondeu. Foi um comentário fútil, não havia porque respondê-lo. Estava preocupada com coisas muito mais importantes agora. Mas o odor relaxante das árvores logo acalmou seus nervos, deixando-a menos tensa. — Por que vocês usam máscaras, Stemon? — São as nossas identidades – respondeu o elendur. – Um elendur jamais deve ser visto sem a máscara, a não ser pela família, é uma questão de honra. Na verdade não entendo certas tradições do meu povo, mas me acostumei a elas. Roldur e Emeldis


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Eles caminharam por mais algum tempo em silêncio. A floresta de fewilas parecia não ter fim. Aonde quer que Mifitrin olhasse não via outra coisa a não ser essas árvores dos elendurs. Mas era tudo tão tranqüilo que ela quase ria sem motivo; a paz reinava ali dentro e isso a reconfortava. — Está ouvindo? – perguntou Stemon alegrando-se. Mifitrin tentou ouvir algo, mas não conseguiu. Normalmente os Guerreiros tinham os sentidos mais aguçados, mas mesmo assim pareciam não ser tão aguçados quanto os sentidos dos elendurs. Eles precisaram andar por vários minutos para que Mifitrin finalmente ouvisse. — É uma cachoeira? – a Guerreira perguntou. Agora não havia dúvidas de que havia uma queda d’água não muito longe de onde estavam. — Sim – respondeu Stemon com a voz alegre. – A fewila que encontramos lá atrás á a primeira pista para dizer que estamos no caminho certo. Depois passamos pelo pomar, pela floresta de fewilas, e agora só há mais um lugar para passarmos antes de chegarmos ao meu reino. Mifitrin também alegrou-se com a notícia. Estavam próximos à entrada para Emeldis. Eles andaram por mais algum tempo, então finalmente chegaram à queda d’água. Estavam diante de um enorme paredão de pedra, que se estendia para os dois lados. Mifitrin olhou melhor e viu que não era um simples paredão, era uma montanha gigantesca, tão grande que podia ser comparada à Monaltag. A cachoeira vinha de algum lugar lá do alto, mas não era para o alto que Stemon estava olhando e sim para baixo. Entre eles e a montanha havia uma cratera. A cachoeira caía dentro desta cratera e formava uma pequena lagoa de águas cristalinas lá embaixo, então saía por algum caminho subterrâneo. Em toda a volta da cratera havia uma escada esculpida no chão de pedra SacerdoteS


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que os levaria até o pé da cachoeira lá embaixo. Stemon começou a descer e Mifitrin o acompanhou. A descida não era exatamente o que Mifitrin chamaria de segura, embora Stemon descesse com incrível facilidade. Por causa da excessiva umidade que havia no ar por conta da cachoeira, toda a escada estava escorregadia e isso se dava também pela formação de limo pelo caminho. E se isso não bastasse, todo o caminho era coberto por pedras soltas, que poderiam derrubar qualquer um que andasse distraído, por isso Mifitrin andava com o maior cuidado possível. Conforme descia pela escada de pedra, ela observava um lindo arcoíris que se formava pela água da cachoeira e os raios de Tunmá. Tudo ali era maravilhoso, mas o que Mifitrin mais apreciava naquela ilha era a paz que reinava nela. A paz que ela sempre teve de fugir para conseguir, que sempre teve de se esconder para encontrá-la. Desde a morte de Morton isso era tudo o que ela mais desejava, mas nesses quinze anos não teve paz em nenhum momento, nem mesmo quando estava sozinha. Mifitrin só teria paz mesmo quando tudo isso terminasse e a morte de Morton estivesse vingada, coisa que ela sabia que não aconteceria enquanto Mon não fosse aniquilado de uma vez por todas. Quando estavam quase no fim da escada, que descia em espiral pelas bordas da cratera, ouviram um barulho: uma pedra caiu na pequena lagoa de águas cristalinas lá embaixo. — Quem está ai? – perguntou Mifitrin levando as mãos para o seu colar. Não houve resposta alguma, a não ser de Stemon: — Não tem ninguém aqui, Mifitrin. Deve ser apenas uma pedra que eu ou você esbarramos enquanto andávamos… Roldur e Emeldis


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— Não, Stemon – disse Mifitrin interrompendo-o. Ela olhava para o alto da cratera, procurando por alguém que eles não podiam ver. – Já faz algum tempo que estou com a sensação de que estamos sendo observados. — Somente um elendur pode ter nos seguido, Mifitrin. Se realmente há mais alguém aqui, deve ser um dos vigias. Geralmente não os vemos mesmo, eles preferem assim. Não há perigo algum, então vamos. Mifitrin procurou por mais algum tempo, mas então acompanhou Stemon mesmo não estando convencida do que ele disse. Ela tinha certeza de que havia alguém perto deles e sabia também que não se tratava de um elendur. Finalmente eles desceram o último degrau e estavam agora diante da cachoeira. Parecia não haver mais nenhum lugar para seguir, e Mifitrin estava prestes a perguntar quando algo aconteceu: o paredão de água que estava à frente deles passou a se abrir, revelando uma caverna por detrás da cachoeira. Quando Stemon e Mifitrin passaram pela abertura na água, ela novamente se fechou às costas deles. A caverna era escura, o que significava que a saída estava longe, mas havia muitas tochas acesas pelas paredes, o que iluminava parcialmente o caminho. Mifitrin não gostava daquilo, nunca gostou. A sensação de estar de alguma forma presa em algum lugar, e era isso o que sentia enquanto acompanhava Stemon dentro da caverna. Sentia-se como um animal preso em uma jaula, sentia-se sufocada, encurralada, sem nenhum lugar para onde correr caso alguma coisa acontecesse. Mifitrin sempre gostou da liberdade, de sentir o vento batendo em seu rosto, o que era exatamente oposto à situação em que se encontrava. De repente ela parou de andar e Stemon olhou para ela. Havia preocupação em seu rosto e novamente ela parecia estar procurando por algo ou alguém que eles não podiam ver. SacerdoteS


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— O que foi, Mifitrin? – perguntou o elendur preocupado. – Estamos perto agora… Mas ela não prestava atenção ao que ele dizia, apenas levantou a mão e fez sinal para ele se calar e esperar. — Stemon – disse ela num sussurro quase inaudível, o medo tomando conta de seu rosto. – Tem mais alguém aqui… Então ela se calou. Uma rajada de vento atravessou a caverna, apagando tocha por tocha até que a última fosse apagada e os deixasse na total escuridão. — CORRA STEMON! – gritou a Guerreira. Desta vez o elendur estava assustado o suficiente, pois havia percebido que não era um elendur que os estava seguindo. Um elendur jamais poderia fazer aquilo; o que apagou as tochas da caverna foi magia e Stemon sabia disso. Mesmo estando na completa escuridão, ele corria sem hesitar, pois conhecia perfeitamente o caminho que levava até o seu reino. Mas de repente parou, pois só agora percebia que Mifitrin não corria atrás dele, ele sequer conseguia ouvir os seus passos. Ele não precisou procurá-la por muito tempo, pois logo escutou o seu grito. — MIFITRIN! – chamou ele entrando em desespero. Ela foi pega! Sem pensar duas vezes correu até encontrá-la. Estava caída no chão, aparentemente havia sido atacada. Ele se aproximou e a ajudou a se levantar. — Você está bem? Mas ela não respondeu. Stemon percebeu que as mãos dela tremiam. — Levaram o meu colar, Stemon – disse ela. – Levaram o meu colar e, não… não pode ser…

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Mesmo não podendo ver o seu rosto por causa da escuridão em que se encontravam, Stemon percebia por sua voz o quanto ela estava desesperada. — O que, Mifitrin? – perguntou o elendur incentivando-a a falar. – O que mais levaram? Mas desta vez ela não respondeu. Haviam levado algo de muito valor, algo que ela carregava em sua bolsa desde que partiu dos Domínios do Tempo com Elkens e Meithel. Levaram a relíquia do Tempo que Morton lhe entregou no dia da Convocação Elementar. Levaram a Ampulheta do Tempo! — APAREÇA! – Mifitrin gritou. – APAREÇA COVARDE! Mas parecia não haver mais ninguém ali. Quem quer que tenha atacado a Guerreira já devia ter fugido, ao menos foi o que aparentou. — Não adianta, Mifitrin – disse Stemon puxando-a pelo braço. – Pode ser perigoso ficar aqui. A cidade fica logo à frente, estaremos seguros lá. — Não, Stemon – disse Mifitrin relutante em seguir adiante. – Sem o meu colar eu não sou nada. Tenho que recuperá-lo… O elendur não a soltou e voltou a puxá-la pelo braço o mais rápido que podia. — Descobriremos quem te atacou, Mifitrin, e recuperaremos o que lhe roubaram. Mas primeiro precisamos sair daqui… Karnar e Kanoles haviam sido levados pelos soldados da cidadela e agora estavam presos em um calabouço, escuro e fedendo mofo. Os soldados os prenderam ali e se retiraram sem dizer palavra alguma, e isso já havia acontecido há algumas horas. Kanoles passava a se arrepender agora do que fez, mas Karnar o elogiava por ter tomado a decisão de se renderem. Segundo ele, aquela foi a escolha mais sábia a se SacerdoteS


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fazer na situação em que se encontravam, mas Kanoles já estava duduvidando disso. Após muito tempo aprisionados, finalmente alguém desceu as escadas e veio na direção deles. Era um dos homens que fazia parte da guarda da cidadela, e havia um sorriso malicioso em seu rosto. — Estamos decidindo o que será feito com vocês, mas decidi descer para fazer-lhes uma pergunta: como chegaram até aqui? Karnar sabia que essa era a pergunta que atormentaria os habitantes de Roldur daquele dia em diante. A idéia de alguém ter atravessado a muralha colocava toda a segurança que sentiam abaixo. Kanoles adiantou-se a responder a pergunta do guarda: — Obtivemos autorização para passar pela grande muralha… Mas o soldado se irritou e o interrompeu: — MENTIRA! Digam-me a verdade e talvez saiam daí algum dia. Kanoles ficou sem saber o que dizer, mas Karnar resolveu contar a verdade: — Viemos pela floresta Almaren. O soldado os avaliou por algum tempo, mas logo percebeu que não havia mentira nos olhos felinos de Karnar. — Vejo que são muito corajosos – disse ele – mas igualmente tolos. Como ousaram chegar até aqui dessa maneira? Acaso acharam que nossa proteção estava somente na muralha? — Não viemos fazer mal a ninguém – disse Karnar. – Queremos apenas conversar com o seu rei… — Mendigos imundos como vocês jamais terão essa honra – disse o homem irritado. Kanoles ficou em pé de repente, então disse para o soldado: — A sua sorte é que há uma grade entre você e eu, pois se não tivesse você já estaria com o nariz arrebentado! Roldur e Emeldis


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O soldado recuou um passo com a ameaça de Kanoles, mas não pareceu gostar nem um pouco da insolência do caçador de recompensas. O sorriso malicioso já havia desaparecido do rosto do soldado quando ele respondeu: — Fiquem mais algumas horas aqui, sem água nem comida, até que aprendam a ter respeito por um superior – ele deu às costas aos prisioneiros e subiu pela escada, deixando-os mais uma vez sozinhos. — Ainda bem que você está comigo – disse Karnar assumindo um tom de voz irônico – pois eu não teria encontrado um modo melhor de conseguirmos a confiança deles. Kanoles o mandou para o inferno, mas sorriu logo em seguida. Os dois ficaram horas sem receber qualquer visita, cada um sentado em um canto da cela. Logo Kanoles começou a sentir fome, mas, mesmo que recebesse comida, seu orgulho o impediria de se alimentar. Ele ficou o tempo todo insistindo para Karnar tirá-los dali usando magia, mas o domador recusava-se, dizendo apenas que isso dificultaria as coisas. Ele também dava muitos conselhos a Kanoles, dizendo que ele deveria responder educadamente qualquer pergunta que lhe fizessem, aceitar a comida, caso ela viesse, e fazer qualquer coisa que lhe mandassem. Kanoles não dizia nada, pois não era acostumado a receber ordens. Ele sempre viveu sem depender de ninguém, impondo, não recebendo ordens. ♦ — É logo à frente – disse Stemon. Ele e Mifitrin deram os últimos passos na escuridão da caverna e logo atingiram a saída. Ao voltarem novamente para a luz, Mifitrin foi forçada a fechar os olhos até que eles voltassem a se acostumar com a SacerdoteS


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claridade, mas assim que os abriu ficou admirada com o que viu. Por um momento Mifitrin se esqueceu de todos os seus problemas, pois queria apenas apreciar a vista maravilhosa de Emeldis. Estava diante de uma das doze Grandes Cidades de Gardwen. A cidade fora construída em uma fenda enorme da montanha. Mifitrin percebia agora que a grande montanha que viu antes de atravessar a caverna não tinha cume, e sim uma grande cratera, e ela era toda ocupada pelas construções dos elendurs. Cercada por enormes paredões de pedra por todos os lados, a cidade já contava com uma proteção natural, mal precisando das proteções mágicas que o reino recebeu dos protetores ancestrais. Dos paredões de pedra, caiam dezenas de cachoeiras e, no fundo da cratera, se formava um grande lago, também de águas cristalinas. E era do lago que toda a cidade se erguia. Centenas de pilares de pedra pontilhavam o lago, todos com alturas gigantescas. Sobre cada um desses pilares era construída uma ou mais construções, que iam desde pequenas casas até templos enormes, todos em alturas variadas. Essas construções eram todas ligadas através de pontes feitas simplesmente de corda e madeira. Mas a beleza da cidade não resumia-se somente nas construções aéreas; nos paredões de pedra também havia muitas construções, todas elas esculpidas da pedra bruta, e também havia o lago. Havia casas flutuantes no lago, assim como grandes pátios abertos. Tudo lá embaixo era construído sobre armações de madeira preenchida com algo que as fazia flutuar sobre a água, não importasse o peso que tivesse. A cidade era gigantesca e todo o espaço dentro da cratera era aproveitado de forma surpreendente. Toda a água que caía das cachoeiras devia deixar a cidade por caminhos subterrâneos, pois não havia sequer uma falha visível dentro da grande cratera por onde a água pudesse sair. Mifitrin logo reparou Roldur e Emeldis


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que onde não havia nenhum tipo de construção, o espaço era preenchido com plantas. Havia plantas em todos os lugares onde se podia imaginar. As pontes de corda e madeira que ligavam as construções suspensas eram cobertas por belas plantas trepadeiras, de todos os tipos. Nas margens do lago, até onde era possível, foram plantadas fewilas, várias delas, como se parte da floresta que Mifitrin e Stemon atravessaram estivesse ali. Só agora Mifitrin compreendia o motivo de Stemon ter falado que o pomar foi plantado fora da cidade por não terem espaço, pois agora ela confirmava isso. Sobre o lago também ficavam as plantações. Construídas sobre armações flutuantes cheias de terra, estavam as hortas dos elendurs. Hortas gigantescas, com todos os tipos de verduras e legumes que Mifitrin podia identificar de longe, suficientes para toda a população da cidade. — Seja bem vinda à Emeldis – disse Stemon abrindo os braços para uma das mais belas cidades de toda Gardwen, a Grande Cidade de Esmeralya. Mifitrin sabia que podia andar durante décadas a fio, mas jamais encontraria uma cidade mais magnífica que aquela, ao menos aos seus olhos. Como era de se esperar, centenas de elendurs andavam de um lado para o outro, seja nas construções suspensas, flutuantes ou ainda nas que ficavam pelo paredão de pedra. Eles andavam felizes, tranqüilos e sossegados por viverem no reino mais seguro de Gardwen. Alguns pescavam no lago lá embaixo, onde as águas cristalinas permitiam ver a quantidade e a diversidade de peixes que lá se encontravam; alguns jovens, ainda crianças, brincavam em todos os lugares, mas a maioria deles nadava nas águas do lago, pois o dia estava muito quente; mas o essencial, Mifitrin reparou, era que todos usavam máscaras. Havia construções de todos os tipos, algumas funcionavam como escola, ela logo percebeu, admirada com a organização que uma cidade daquele SacerdoteS


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porte podia ter. Mas o mais importante era a paz que reinava ali também, pois mesmo no meio de tantos elendurs, todos viviam sem medo, e a alegria de seu povo era contagiante. A cidade era tão grande que levou Mifitrin a acreditar que aquele era o único lugar habitado em toda a ilha de Emeldis, pois milhares de elendurs deviam viver ali. — Incrível! – sussurrou Mifitrin sem encontrar palavras à altura de descrever um lugar tão maravilhoso quanto aquele. Stemon sorria sob a máscara, orgulhoso do lugar onde vivia. Ele deixou Mifitrin admirar a vista que tinham dali por algum tempo, mas logo ele exclamou: — Vamos. Eles estavam a uma altura considerável no paredão de pedra, mas ainda assim estavam longe da metade da real altura do paredão. Uma ponte de corda e madeira os levava para a primeira construção suspensa, mas de lá saiam tantas pontes, para tantas direções diferentes, que Mifitrin levaria horas para passar por todas elas. Stemon caminhou pela ponte e Mifitrin o seguiu. Ela balançava muito, mas a Guerreira teve certeza de que era totalmente segura. Seguindo por ela, logo chegaram à primeira construção suspensa, mas de lá Mifitrin seguiu Stemon por mais uma dúzia delas, até que finalmente chegaram à construção onde Stemon pretendia ir. Ao entrarem no recinto, encontraram-se com vários elendurs que vinham em direção a eles. Mifitrin não pôde ver suas expressões por causa das máscaras que usavam, mas ainda assim podia saber que eles ficavam surpresos e apavorados ao vê-la. Um deles dirigiu-se com muita grosseria para Stemon, que retrucou sem pensar duas vezes, mas como conversavam em sua própria língua, Mifitrin não compreendeu nada. Assim que os elendurs se afastaram um pouco, Stemon disse com muita raiva na voz: Roldur e Emeldis


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— Me acompanhe Mifitrin e não ligue para o que aqueles idiotas disseram. Como se eu tivesse entendido alguma coisa, pensou ela abafando um riso, embora já começasse a se dar conta de que não era bem-vinda ali. Mifitrin o seguiu por um corredor e logo chegaram a uma grande porta com um estranho símbolo gravado nela. Stemon preparou-se para bater a porta, mas Mifitrin segurou seu braço e o deteve: — Stemon – ela disse. – Eles te xingaram por minha causa, não foi? Você não podia ter me trazido para cá, não é isso? Apenas me diga aonde devo ir para falar com um dos seus reis, então vá embora. Não quero que tenha problemas por minha causa. — Não, Mifitrin – disse Stemon decidido. – Não tenho medo do que eles possam fazer comigo, pois acredito que o que você tem a dizer a eles é realmente importante. Stemon então bateu na porta e aguardou. Levou quase um minuto para ser aberta. Quem a abriu era um elendur idoso, Mifitrin soube assim que o viu. Todo o pêlo do seu corpo estava acinzentado e sem qualquer brilho, diferente de Stemon. Sua máscara era de alguma forma majestosa e Mifitrin não demorou a perceber quem ele era: obviamente um dos cinco reis de Emeldis. — Stemon! – exclamou ele surpreso, olhando para Mifitrin atrás do elendur. — Desculpe ter vindo até seus aposentos desta maneira, senhor Lacarno, mas o que esta humana tem a dizer é de extrema importância. — Foi você que a trouxe até aqui? – perguntou o rei Lacarno. Por ser um dos reis, Lacarno também conhecia a língua dos humanos, pois isso era necessário, e utilizou-a em resposta à Stemon, que também falava nesta língua. — Sim, senhor – respondeu Stemon preocupado. – Mas é que eu… SacerdoteS


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— GUARDAS! – gritou Lacarno ainda na língua dos humanos. — O que está fazendo, senhor? – perguntou Stemon assustado. – Não é o que o senhor está pensando. Deve ouvir o que ela tem a dizer primeiro… Mas neste momento vários elendurs usando máscaras e armaduras iguais apareceram. Cada um deles carregava uma grande foice, a arma que os elendurs usavam para lutar. Eram os guardas que o rei havia chamado. — Prendam a humana – disse Lacarno aos seus guardas – e também Stemon, o traidor! Já fazia uma hora que o sol havia desaparecido e o dia deu lugar à noite, mas Karnar e Kanoles ainda estavam sozinhos. Ninguém veio vê-los desde o soldado que Kanoles ameaçou. O caçador de recompensas estava com muita raiva e mal respondia às perguntas que Karnar lhe fazia. A sua raiva se dava pelo fato de tudo o que enfrentaram para chegar até ali. Tiveram muita sorte ao passarem ilesos pela floresta Almaren, e mais sorte ao descobrirem que o rei de Roldur chegaria ainda esta noite, mas de nada adiantou tanta sorte, pois estavam presos ali sem poderem fazer nada. Finalmente puderam ouvir passos de alguém descendo pelas escadas até o calabouço onde estavam. Karnar levantou-se para receber quem vinha chegando, numa forma de demonstrar certo respeito, mas Kanoles permaneceu sentado no chão, indiferente. Apenas olhou de canto de olho quando viu que o visitante chegou mais perto, mas ao constatar que era o mesmo soldado que havia ameaçado, apenas abaixou a cabeça e soltou uma audível exclamação de desagrado.

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O soldado trazia nas mãos alguns pães, de aparência velha, e um jarro d’água. Karnar aceitou o alimento e agradeceu, mas Kanoles permaneceu indiferente, o que voltou a irritar o soldado. — Não está com fome? Kanoles fingiu não ouvir. — Se não vier buscar o que comer, eu levarei embora – ameaçou. Kanoles agitou a cabeça como se uma mosca o incomodasse e não demonstrou ter ouvido o soldado. — Você vai apodrecer aqui dentro! – disse o homem ainda mais irritado. – Você não vale o alimento que lhe oferecemos, seu mendigo imundo. Desta vez, porém, Kanoles virou a cabeça de má vontade para o homem e o encarou. Sem dizer nada ele se levantou e caminhou lentamente até o soldado. Os dois estavam frente a frente agora, separados apenas pelas barras de ferro. O soldado sorriu maliciosamente, então derrubou propositalmente os pães no chão, indicando-os para que Kanoles se abaixasse para pegá-los. Kanoles, por sua vez, cuspiu no rosto do outro. O soldado, enraivecido, chutou os pães para longe, para onde Kanoles não poderia pegá-los, então o insultou de inúmeras maneiras. — Providenciarei para que sofram muito – gritou o homem – antes que sejam condenados. Relatarei ao conselho que são espiões e a morte será a única punição. — Não somos espiões! – interveio Karnar injustiçado. – E viemos em paz… O soldado olhou para Karnar, então retrucou: — Ninguém que venha em paz entraria escondido em nosso reino e, acima de tudo, será a minha palavra contra a de vocês. Eu sou o líder da guarda da cidade e… SacerdoteS


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— Em hipótese alguma tem autoridade para maltratar prisioneiros antes de serem julgados! – completou uma voz feminina. O homem, que agora Karnar e Kanoles sabiam que não era um mero soldado e sim o líder da guarda, olhou para trás para ver quem estava chegando. Era uma mulher que o havia interrompido e o encarava corajosamente enquanto descia pelos degraus de pedra do calabouço. — Lavin? O que está fazendo aqui? – perguntou o soldado ainda assustado. A mulher o enfrentou, demonstrando que não tinha medo dele: — Minha responsabilidade, Ungai, são os prisioneiros. Estou na torre de vigia apenas para suprir a ausência do responsável. A partir de agora você pode voltar para a sua ocupação de líder da guarda e não se preocupe com os prisioneiros, pois essa é a minha obrigação. Os vigiarei até a chegada do rei e, enquanto ele não punir os prisioneiros, ninguém poderá lhes fazer mal. O homem, cujo nome era Ungai, não gostou do que ouviu e encarou a mulher por um certo tempo, antes de finalmente dizer: — Engana-se Lavin – disse ele voltando a sorrir maliciosamente. – Na ausência do rei o conselheiro chefe pode julgar um prisioneiro, e eu providenciarei para que eles sejam punidos o mais rápido possível. Ungai subiu as escadas correndo, deixando Lavin sozinha com os prisioneiros. Havia uma vontade de vingança em sua voz e Karnar sentiu medo de repente, pois se Ungai realmente era o líder da guarda, o relatório dele seria respeitado no julgamento dos dois. O rei chegaria naquela mesma noite, talvez em poucas horas, mas com certeza não saberia de nada até o amanhecer, quando já seria tarde demais. A sorte deles agora dependia do tempo que Ungai levaria para convencer o conselheiro a puni-los, ou do quanto a mulher chamada Lavin ainda poderia protegê-los dentro das leis de Roldur. Roldur e Emeldis


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♦ Mifitrin e Stemon foram levados paras as jaulas, que ficavam lá embaixo no lago. As jaulas ficavam dentro da água, praticamente submersas, e eram individuais. Sem qualquer apoio para os pés, os prisioneiros eram obrigados a segurar-se o tempo todo na parte de cima da jaula, caso contrário afundavam nas águas do lago até o fundo da jaula. Por o lago ser grande, a água era agitada, o que fazia com que os prisioneiros ficassem submersos por alguns segundos, até que a água finalmente baixasse. Mifitrin teve certeza de que, caso ela ainda estivesse com seu colar e a relíquia do Tempo quando entraram em Emeldis, ambos seriam tomados dela, então ficaria sem os dois de qualquer forma. Os guardas os deixaram sozinhos e desapareceram de vista. Mifitrin apenas podia ver as construções suspensas muito acima dela, todas interligadas por pontes de corda. Ela prendeu a respiração quando a água voltou a subir, mas respirou aliviada quando voltou a emergir. — Mifitrin – chamou Stemon de repente. – Você está bem? — Sim – Stemon ouviu-a respondendo da jaula ao lado. – O que acontecerá agora? — Não sei ao certo – confessou Stemon com um medo aparente na voz. – Mas não se preocupe, pois eles não farão nada com você. Eu é que serei punido. — Eu não tenho medo da punição – admitiu Mifitrin. – Temo por você e também por eu não ter a chance de dizer aos seus reis o que vim para dizer. Não demorou para que a noite chegasse, mas tudo continuou muito claro. Não somente pelo brilho de Listel, que banhava a cratera denSacerdoteS


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tro da montanha onde a cidade fora construída, mas também porque havia luzes por todos os lados e elas se multiplicavam ao serem refletidas pelas águas do lago. A água não esfriou, como Mifitrin pensava que aconteceria, mas eles estavam ficando exaustos. As jaulas foram construídas de modo que levassem o prisioneiro ao cansaço imediato, prolongando-o por quanto tempo quisessem. Chegava a ser cruel. Sem qualquer forma de apoio para os pés, eram obrigados a segurarem-se nas barras de ferro o tempo todo e ainda assim sofriam com o constante movimento das águas do lago, que hora baixavam e subiam, alternando-se a cada segundo. Por muitas vezes Mifitrin foi pega desprevenida, pensando em outra coisa, então se afogava quando a água subia de repente, mas em momento algum ela se queixou. Aquilo lhe lembrava alguns de seus treinamentos, que também eram muito severos, principalmente na época em que era Aprendiz de Morton. Ela nunca gostou do modo como Morton exigia dela nos treinamentos, muito mais do que qualquer outro tutor exigia de seus Aprendizes, mas esta não era a primeira vez que Mifitrin percebia o quanto os treinamentos duros foram importantes. Se não fossem por eles ela não saberia como estaria numa situação como esta, talvez já estivesse completamente desesperada. Algumas horas depois vários guardas se aproximaram das jaulas e soltaram seus trincos, abrindo a saída superior. Mifitrin e Stemon foram tirados das jaulas com violência, mas nenhum dos guardas lhes disse o que estava acontecendo. Ambos tiveram seus braços amarrados às costas e foram escoltados pela passarela flutuante que ficava logo ao lado das jaulas. Foram conduzidos para uma das escadas e então começaram a subir. Ao fim da escada havia um patamar de pedra, de onde saíam várias outras escadas e pontes de corda, cada uma seguindo para uma direção diferente. Eles foram conduzidos por escadas que semRoldur e Emeldis


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pre os levavam para cima em direção ao centro da enorme cidade. Passaram por inúmeros patamares e várias construções, todas suspensas por altos pilares de pedra que saiam do lago lá embaixo, até que finalmente atravessaram a última ponte que balançava perigosamente, então chegaram ao seu destino. Era uma enorme construção, um gigantesco templo de pedra. Ali deviam ser feitas as convenções dos elendurs, talvez um lugar onde os reis tomavam suas decisões junto à população. De cada lado da grande porta aberta havia duas grandes estátuas de elendurs, que pareciam reverenciar os visitantes. Mifitrin e Stemon foram conduzidos para dentro, onde havia vários elendurs esperando-os. O rei Lacarno esperava-os à frente de todos. — Foram trazidos até aqui para que pudéssemos decidir o futuro da humana – começou o rei Lacarno. – Você, Stemon, deverá aguardar a sua punição… — Desculpe-me excelência… ‒ começou Mifitrin, mas o guarda que a trazia apertou seu pescoço com força e disse: — Você só tem o direito de falar quando for convidada a fazê-lo. Mifitrin ficou quieta, apenas observando o que acontecia. Os elendurs conversaram entre eles em sua língua e ela não podia entender nada. Pareciam estar falando mais dela do que de Stemon, pois ao fim de cada frase um dos elendurs olhava de canto de olho para ela. Após vários minutos de angústia, sem entender o que estava acontecendo, finalmente falaram na língua que Mifitrin entendia: — Conte-nos humana, como foi que encontrou Stemon? O guarda soltou o pescoço de Mifitrin, permitindo que ela falasse, então respondeu: — Eu estava vindo para cá quando o encontrei. Eu estava vindo até Emeldis para lhes contar… SacerdoteS


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Novamente o guarda apertou seu pescoço, sufocando-lhe e a impedindo de continuar falando. — Apenas responda o que lhe for perguntado. Mifitrin assentiu, então o guarda afrouxou um pouco o aperto. — E Stemon simplesmente aceitou guiá-la até aqui? – perguntou Lacarno severamente. Mifitrin abriu a boca para responder, mas então voltou a fechá-la para pensar no que responder. Pelo modo como Lacarno fez a pergunta, ela soube que Stemon estaria encrencado caso ela respondesse que sim, mas se dissesse a verdade Stemon ficaria numa situação ainda pior. Ele disse que traria Mifitrin porque queria contar com o apoio de uma protetora do seu lado, para que isso influenciasse e lhe desse mais poder quando ele se tornasse rei. Foi uma decisão tola de Stemon, ela logo soube. O elendur deveria saber o quanto levar um forasteiro para Emeldis iria repercutir contra ele, mas ela não podia ter dito nada, pois precisava que ele a levasse. Mas depois de tudo o que o elendur fez por ela, Mifitrin passou a gostar dele, pois percebia que ele tinha um bom coração, além de ser muito justo e leal. Ela precisava mentir. — Eu o desafiei! – disse por fim. – Eu o desafiei e disse que se eu o vencesse ele deveria me trazer para cá. Eu não fui justa para com ele, abusei de sua boa vontade. Quando soube que ele era um dos príncipes logo percebi o que deveria fazer para convencê-lo a me trazer até aqui, pois eu sei como alguém tão importante leva a sério a questão de honra – todos os elendurs olhavam atentos para Mifitrin, mas ela sabia que nem metade deles era capaz de entender o que ela dizia. – Por sua honra, ele aceitou o desafio e eu o venci com uma grande trapaça… — Realmente – disse Lacarno. – A honra é uma das maiores virtudes de um príncipe elendur, mas acima dela está o segredo de nosso reino. Você nunca deveria tê-la trazido para dentro da cidade, Stemon. Roldur e Emeldis


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Mais uma vez os elendurs presentes passaram a conversar em sua língua. Desta vez eles conversaram por pouco tempo, pois logo Lacarno se dirigiu para Mifitrin na língua dos humanos: — Me diga humana… — O nome dela é Mifitrin! – disse Stemon irritado, interrompendo o rei. Lacarno virou-se para ele. Mifitrin odiava não poder ver as expressões dos elendurs através das máscaras, mas sabia que Lacarno se irritou com a insolência de Stemon. Porém, passados alguns segundos, ele desviou a atenção de Stemon, como se não tivesse acontecido nada, então continuou: — Me diga, Mifitrin, em nome de quem você vem ao nosso reino? Mifitrin não soube o que dizer. Por que Lacarno lhe perguntava em nome de quem ela vinha, acaso conheceria algum protetor? Mifitrin logo percebeu que caso isso fosse verdade, talvez um nome poderia impressioná-los tanto a ponto de mudarem de opinião sobre ela: — Venho em nome de Morton! – respondeu ela com firmeza. Seu antigo tutor foi um dos protetores mais influentes, conhecido em todos os cantos de Gardwen. Talvez os elendurs soubessem da grande pessoa que Morton fora. — O Mago Morton está morto há quinze anos – disse Lacarno de repente, mostrando que não era tão ignorante em relação aos protetores quanto ela imaginava. Mas havia algo por trás da resposta de Lacarno que deixou Mifitrin intrigada. O rei não se alterou nem um pouco ao ouvi-la dizendo o nome de Morton, o que devia significar que ele já sabia que ela era uma protetora. Mas como isso era possível? Stemon soube quem ela era só porque a viu correndo numa velocidade que meros humanos não poderiam correr, mas Lacarno não a viu. Seria somente por causa da sua armadura? Essa era a resposta mais lógica, SacerdoteS


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pois Mifitrin sequer estava com seu colar, o que poderia identificá-la com mais facilidade. Mas se Lacarno reconhecia a armadura de um protetor, significava também que os reis de Emeldis mantinham um certo contato com alguns protetores. Mifitrin ficou confusa. — Mas nada disso vem ao caso agora – disse Stemon de repente. – A questão é que Mifitrin veio para nos trazer uma mensagem de grande importância. — Fique quieto, Stemon – disse Lacarno ainda irritado. – Você é tolo tentando protegê-la e foi igualmente tolo aceitando seja qual foi o desafio que ela lhe propôs. Por acaso não percebeu que ela não era uma humana? Creio que a essa altura você já deve saber, mas ainda assim tenta ocultar a verdade, pensando que eu não a reconheceria assim que a visse. “Não nos esquecemos completamente dos protetores e também sabemos que vocês não agem pelo mau. E por isso, somente por isso Mifitrin, você não será punida com severidade. Você apenas será acompanhada para fora da nossa cidade e deverá utilizar seus poderes para ir embora. Darei autorização aos guardas para matá-la caso ainda esteja em nossa ilha ao amanhecer. Você, Stemon, será julgado por um conselho completo pela manhã, mas já vá se acostumando com a vida de exilado”. Stemon estremeceu. Ficou parado onde estava, chocado com a ameaça do rei. Ele seria exilado! Quando deixou Emeldis, estava na tentativa de provar o ser valor como príncipe e como um futuro rei, mas agora seria julgado e deixaria de ser um elendur. Viveria como um mendigo, uma andarilho solitário. O guarda de Stemon não o segurava assim como o de Mifitrin, pois sabia que apesar de tolo ele não era uma ameaça. Stemon então ajoelhou-se aos pés de Lacarno e se humilhou: Roldur e Emeldis


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— Por favor, pai… Por favor, não faça isso comigo. Não deixe eles me expulsarem… sou um príncipe, pai! Mifitrin ficou chocada com o que ouviu. Então Lacarno era pai de Stemon e ainda assim mandou que o prendessem numa jaula, e agora dizia que ele seria exilado de Emeldis. Como um pai poderia ser tão indiferente com o filho, mesmo que ele tenha cometido um erro tão grave? Lacarno pareceu se comover com a humilhação de Stemon, pois se abaixou e segurou os filhos pelos ombros, então o ajudou a se levantar. Stemon pareceu mais confiante agora, pois via que o pai estava do seu lado… mas não era verdade. Após alguns segundos encarando o filho, Lacarno acertou o rosto de Stemon com o punho, jogando-o de costas ao chão. Sua máscara desprendeu-se de seu rosto e Lacarno a destruiu com seu cajado. — Você nos traiu, Stemon – disse Lacarno friamente, olhando para o filho no chão. – Como qualquer traidor você será exilado de Emeldis e deixará de ser meu filho. Não me envergonhe ainda mais com suas humilhações. Mifitrin assistiu a tudo horrorizada. Lutou para se soltar do guarda que a prendia; chutou-o e o acertou com a própria cabeça, então finalmente conseguiu se livrar das suas mãos. O guarda avançou contra ela, para prendê-la mais uma vez, mas mesmo com as mãos amarradas às costas, Mifitrin conseguiu nocauteá-lo com um único golpe. Ela correu para ajudar Stemon, mas logo três guardas se aproximaram correndo e a prenderam novamente. — Me soltem… – ela gritava, mas logo foi amordaçada e silenciada. Stemon continuava imóvel no mesmo lugar onde havia caído. Parecia em estado de choque, petrificado de medo e vergonha. Mifitrin se lembrou do que ele havia dito sobre o fato de um elendur não poder ser SacerdoteS


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visto sem máscara, então compreendia a dor que ele devia estar sentindo. Pela primeira vez Mifitrin encarou seu rosto. Era um rosto jovem, cheio de vida, mas que aos poucos ia se arruinando. Lágrimas brilhavam em seus olhos enormes. Lacarno então desviou o olhar do filho e virou-se para Mifitrin, pois parecia enojar-se com o que via. Ele encarou Mifitrin por alguns momentos, então disse: — Você será perdoada somente desta vez, Mifitrin, mas que fique claro que será morta se voltar à Emeldis. Você será levada imediatamente para fora da cidade, então deverá ir embora antes do amanhecer e nunca mais voltar. — Apenas escute o que ela tem a dizer! – resmungou Stemon de repente, recuperando-se do choque. Lacarno fingiu não ouvir o filho, então disse algo aos guardas em sua língua e logo Mifitrin foi vendada e a puxaram pelo braço, levando-a para fora do aposento. Aquele era o fim. Seria levada para fora da cidade agora e jamais teria a chance de dizer as coisas que tinha em mente. — Uma das maiores virtudes de um rei é deixar o orgulho de lado e ouvir a verdade, mesmo que ela seja sombria – recitou Stemon num novo sussurro. Ele levantou-se lentamente do chão, sem tirar os olhos de seu pai. – Permita apenas que Mifitrin fale o que a fez vir de tão longe… Desta vez Lacarno respondeu: — Os condenados não têm privilégios aqui, portanto nem Mifitrin nem você tem o direito de dizer ou exigir algo… — Eu ainda não fui condenado! – disse Stemon confiante, enfrentando o seu pai. Os guardas que arrastavam Mifitrin para fora do aposento pararam de repente, mas ela não pôde ver nada porque ainda Roldur e Emeldis


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estava vendada. – Eu, como um legítimo elendur enquanto não for condenado, lhe proponho um desafio. Lacarno olhou para o filho, admirado com a atitude que ele tomava. Mesmo na situação em que se encontravam, Lacarno não deixava de sentir orgulho do filho. Agora que não havia nada a perder, Stemon estava disposto a se ferrar pra valer, apenas para dar uma chance à Mifitrin. Lacarno reconhecia o quanto o filho era valioso, mas sempre soube também que Emeldis não era o seu lugar. — Qual é o desafio que você me propõe, meu filho? – perguntou Lacarno com uma certa delicadeza na voz. – E o que você tem a me ofertar caso não vença? — Desafio qualquer um dos seus homens para um duelo – disse Stemon decidido. – Caso eu vença, você deve ouvir Mifitrin. O que eu proponho como pagamento caso eu seja derrotado é a única coisa que me resta: minha vida! Você não pode recusar um desafio de vida, meu pai! Karnar e Kanoles continuam presos, mas é a mulher chamada Lavin que os vigia agora. — O que fazem aqui em Roldur? – perguntou ela com seriedade, embora não faltasse com educação. — Vai nos interrogar? – perguntou Karnar insinuante. – Quer saber por que estamos aqui ou como chegamos aqui? — Os dois! – respondeu Lavin. A jovem mulher estava sentada do lado de fora da cela, apoiada na parede de pedra do calabouço. Seu olhar era penetrante. Tinha uma voz doce, embora não fosse exatamente uma mulher delicada. Era corajosa e determinada, mas não foi isso o que chamou a atenção de Karnar para ela. Havia algo mais nela que ele não conseguia explicar, SacerdoteS


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um delicioso mistério por trás de seu olhar que ele se deliciava enquanto tentava decifrá-lo. Kanoles continuava sentado no canto da cela, sem dar a menor atenção para qualquer um dos dois. Estava emburrado, diferente de Karnar, que parecia se divertir com a nova companhia. Que bom que está se divertindo… — Nós chegamos até aqui passando por Almaren. Conseguimos isso porque eu sou um domador de demônios e viemos até aqui para falar com o seu rei – Karnar respondeu de forma simples e direta. — Não deviam ter feito isso – disse ela pesarosa, desviando seus olhos de Karnar e voltando-os para o chão. Havia algo naqueles olhos de felino que a atraiam misteriosamente, e ela tentava fugir disso a todo custo. – Vi que você só usou magia para se proteger e que não a usou contra nós, e é por isso que estou aqui. Mas se Ungai conseguir falar com o conselheiro chefe antes que o rei tome conhecimento de vocês, não poderei fazer nada para protegê-los. — Você pode nos ajudar? – perguntou Karnar. — Não há nada que possa ser feito – disse a mulher. – O conselheiro terá tanto prazer em vê-los mortos quanto Ungai, e o que ele decidir estará dentro das leis do nosso reino. O rei chega em pouco tempo, mas ninguém poderá incomodá-lo hoje, pois chegará cansado. Quando ele souber de vocês será tarde demais… — E você pode nos ajudar? – Karnar insistiu na pergunta. — Não entendo o que você quer que eu faça – disse Lavin voltando a encará-lo. – Já lhe expliquei a situação; somente um milagre pode fazer o rei saber de vocês assim que chegar… — Mas você não veio aqui por nada, ou veio? – Karnar podia ver isso no olhar da mulher. Havia ali um desejo incontrolável de ajudá-los, algo que lutava para sair de dentro dela. Era como se a verdadeira Lavin lutasse dentro daquela mulher para se libertar, para sair do caRoldur e Emeldis


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sulo e revelar quem realmente era. – Digo, você veio porque sabe de uma maneira de nos ajudar, não é? Ou ao menos tem algum motivo para querer isso… Lavin pareceu desconcertada por um momento e não respondeu, pois não sabia o que dizer. Realmente ela não viera ali à toa, mas não tinha coragem suficiente para fazer o que era necessário. Após um longo tempo de silêncio, novamente foi Karnar quem falou: — Diga-me, Lavin: o que fez você querer nos ajudar? Vejo em seus olhos que quer muito nos ajudar, mas, no entanto, nem nos conhece… Ela novamente desviou o olhar de Karnar, voltando a encarar o chão. Aqueles olhos de felino continuavam a atraí-la de uma maneira quase insuportável. Ficou em silêncio por um bom tempo, pensando em como se explicar, mas então começou a falar: — Quando eu era garota, eu costumava ouvir vozes que me chamavam para a floresta. Eu contava para minha mãe, mas ela não acreditava, é claro. Sempre ouvi histórias dos terríveis demônios que habitavam Almaren, mas por algum motivo eu nunca tive medo dos demônios. “Certo dia eu ouvi as vozes mais uma vez, então saí escondida e fui até a floresta. E então… eu o vi! Um enorme cão negro, e eu cavalguei em suas costas. Ele me levou para os lugares mais belos e magníficos da floresta, lugares aos quais nenhum humano já havia ido, e eu vi muitos demônios, vários deles. No fim da tarde ele me trouxe até minha casa. Obviamente que eu não contei nada à ninguém, mas aquela foi apenas a primeira de muitas outras vezes que eu andei pela floresta Almaren na companhia de demônios”. — Então Demonddur também apareceu para você! – exclamou Karnar surpreso. SacerdoteS


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— Sim – concordou Lavin sem emoção. – Demonddur, esse é o nome dele. Ele me mostrou e ensinou coisas magníficas, mas depois de alguns anos eu entrei para a guarda da cidade, e desde então nunca mais ouvi Demonddur me chamar; achei que ele havia se esquecido de mim. — Você ouve perfeitamente o que os demônios falam? – perguntou Karnar impressionado. – Você conversa com eles normalmente? — Sim! O sorriso no rosto de Karnar duplicou-se de tamanho, então ele disse: — Você é uma domadora, Lavin! – a mulher pareceu muito confusa, mas Karnar continuou: ‒ Você nunca foi treinada para isso, mas não há dúvidas de que tem o dom para se domar demônios. Você é uma domadora de demônios, assim como eu! Lavin, apesar de muito confusa, continuou sua história: — Durante muitos anos eu fiquei sem ouvir a voz de Demonddur, mas ontem eu voltei a ouvi-la. Ele me contou que dois homens atravessariam a floresta Almaren e que chegariam aqui. Ele me disse que era muito importante que eu fizesse o rei ouvir vocês. — Então vai nos ajudar? – perguntou Kanoles falando pela primeira vez desde a chegada da mulher. Lavin encarou o caçador de recompensas enquanto pensava em todas as conseqüências que resultariam dos seus atos. Ainda não havia se decidido entre a lealdade à Roldur ou à Almaren, somente sabia que alguma coisa precisava ser feita. Ela ainda ouvia o eco da voz de Demonddur em sua mente, pedindo que ela ajudasse os dois forasteiros. Após um longo tempo de meditação, ela finalmente levantou a cabeça, encarou Kanoles e respondeu: — Eu vou soltar você! Deverá ir escondido até o aposento do rei e ficar lá até que ele chegue. Somente se revele quando tiver certeza de Roldur e Emeldis


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que o rei está sozinho, pois caso contrário te impedirão de falar com ele. Você também não deve ser visto, senão saberão que eu estou lhes ajudando. Diga ao rei que o seu amigo ainda está aqui e faça isso o mais rápido possível, pois eu não poderei deter Ungai e o conselheiro caso eles cheguem aqui antes do rei. Lavin correu até a porta da cela, tirou uma chave das vestes e a abriu o mais silenciosamente possível. Assim que Kanoles saiu da cela, ela abriu um mapa da cidadela no chão e passou a lhe dizer o que deveria fazer. Ela mostrou qual o caminho era mais seguro, onde ele encontraria menos problemas com a guarda da cidade. Kanoles ouvia atentamente, tentando decorar o caminho que ele deveria fazer entre o calabouço e o palacete do rei. Quando Lavin terminou de lhe contar tudo o que poderia ajudá-lo, ela tirou Sangrini debaixo de suas vestes e entregou a espada negra ao seu dono. Kanoles rapidamente correu para as escadas, subindo sem fazer qualquer ruído. Havia muitos guardas protegendo a cidade, mas Lavin lhe mostrou como fazer para evitálos. A escuridão da noite, juntamente com as suas roupas negras, praticamente o deixava invisível. Agora ele só precisaria tomar cuidado para chegar até o palacete do rei e esperar que ele chegasse. ♦ Tudo já estava preparado para o duelo de Stemon. Lacarno, seu pai, já havia escolhido o seu representante naquela luta: um elendur enorme, muito mais alto que qualquer outro que Mifitrin já havia visto em Emeldis, e muito mais forte também. Lacarno estava sentado entre os elendurs que estavam ali para condenar Mifitrin, todos eles seriam testemunhas do duelo. No centro ficou um grande espaço vazio, onde Stemon lutaria contra o seu rival. MiSacerdoteS


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fitrin continuava sendo prisioneira de dois guardas, mas haviam tirado a mordaça de sua boca e a venda dos olhos; não a retiraram do aposento, iriam permitir que ela assistisse o duelo que iria decidir entre o fracasso e o sucesso da sua missão. Se Stemon vencesse, o que ela quase não acreditava que aconteceria, os reis iriam ouvir o que ela tinha a dizer sobre Mon. Se Stemon perdesse, tudo aquilo seria apenas uma grande e inútil perca de tempo. Stemon, ainda sem máscara, ficou sozinho com o seu enorme rival no centro do grande aposento. Ele virou-se para Mifitrin e fez um gesto positivo, mas não sorriu. Seu rosto ainda estava marcado pela vergonha e humilhação de estar sem a máscara e seu gesto de confiança fez Mifitrin se sentir ainda pior. — Não Stemon… ‒ mas a voz morreu em sua garganta. Não sabia o que dizer. Jamais imaginou que o elendur chegasse a fazer tanto por ela, uma pessoa praticamente desconhecida para ele. – Não quero que você faça isso… Um elendur se aproximou de Stemon e seu rival, então entregou a cada um deles uma grande foice, que era a arma utilizada pelos elendurs, além de algo para se vestir no braço, algo feito de um couro muito grosso e resistente. Aquela seria a única proteção de ambos. Ele se afastou um pouco e gritou algo que Mifitrin, mesmo não conhecendo a língua dos elendurs, soube o que significava, pois imediatamente os dois elendurs começaram o duelo. O adversário de Stemon logo provou a sua força e velocidade, pois acertou o cabo da foice no peito de Stemon, jogando-o ao chão. Ele se aproximou e ergueu sua foiça para dar o golpe fatal. Mifitrin desviou os olhos da batalha e olhou para Lacarno para ver sua reação. O velho elendur apertava os apoios da cadeira com muita força. Roldur e Emeldis


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Ele se importa, Mifitrin constatou. Apesar de tudo ele se preocupa com o filho. O rival de Stemon baixou a foice com toda velocidade, apontando-a para o seu peito, mas a foice jamais chegou a sentir o gosto de sangue. Stemon rolou para o lado, e a foice partiu-se em três pedaços ao atingir o duro chão de pedra. — É isso ai, Stemon! – Mifitrin gritava, tentando deixá-lo mais seguro e confiante. Ela estava se sentindo num daqueles exercícios que os Guerreiros costumavam fazer entre si dentro dos Domínios do Tempo; até mesmo quando ainda era uma Aprendiz, costumava ver esses exercícios e foi nessa época que o desejo de ser Guerreira se instalou em seu coração. Stemon tinha a vantagem agora, pois seu adversário estava completamente desarmado. Aproveitando-se de sua nova vantagem partiu para o ataque. Investiu com a foice contra o seu oponente, mas ele se protegeu do ataque de Stemon apenas com o braço esquerdo, onde a proteção de couro impediu que ele fosse ferido. Por muito tempo esta cena se repetiu. Stemon investia com incrível velocidade contra seu oponente, mas com igual velocidade o outro se defendia. Parecia ser um duelo sem fim. Agora não era mais uma batalha de força, e sim de resistência. Logo um dos dois estaria cansado e cometeria um erro; Mifitrin de repente se surpreendeu pedindo para que o deus de Stemon o ajudasse, mesmo que não acreditasse em sua existência. Mas o que ela havia dito à Stemon sobre a inexistência de deuses se confirmou ainda mais em seu coração, pois o deus a que ela pediu ajuda não atendeu o seu pedido. Stemon foi o primeiro a se cansar, e isto lhe custou muito caro. Errou um de seus ataques, dando a oportunidade para o seu adversário revidar. Sem precisar se defender, ele segurou o cabo da arma de Stemon. Agora os dois elendurs disputavam a SacerdoteS


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arma como dois animais, pois ambos sabiam que quem tivesse a arma teria mais chances de vencer. Mas a força de Stemon não se comparava à do outro. Enquanto brigavam pela posse da arma, Stemon era jogado de um lado para o outro, mas insistia em segurar a arma com todas as suas forças. Passaram mais de um minuto brigando pela única arma em combate, mas então um deles finalmente desistiu. O adversário de Stemon largou o cabo da arma de repente, desequilibrando Stemon. Enquanto procurava apoio para não cair, Stemon foi atingido pelas costas e a foice caiu de sua mão, sendo lançada para fora do alcance de qualquer um deles. Agora os dois lutariam desarmados, o que, na opinião de Mifitrin, era muito desvantajoso para Stemon. Ela voltou a olhar para Lacarno e sentiu uma terrível fúria dele. Sua frieza não tinha limites. Ele estava assistindo seu filho brigando pela própria vida, e mesmo tendo o poder de acabar com a luta, por ser um dos reis, não movia um dedo para ajudar o filho. Que tipo de rei ele era? Alguém que age desta maneira, abandonando aqueles a quem mais deveria amar nas horas em que mais precisavam dele não merece ser rei. Mas ainda assim, toda a raiva que Mifitrin sentia de Lacarno não se comparava à sua angustia. Foi por culpa dela que Stemon perdeu tudo, assim como também era sua culpa que Stemon estivesse lutando pela própria vida neste momento. Mifitrin viu que Stemon não estava agüentando mais. Sua boca sangrava muito agora e também havia um grande corte acima dos olhos, que era visível mesmo por baixo do seu rosto peludo. Não havia nenhuma esperança de Stemon vencer aquela luta, estava tudo acabado. Ele já nem conseguia se manter em pé, mas o outro continuava batendo nele sem piedade. Roldur e Emeldis


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— PAREM! – gritou Mifitrin chocada com o que via. – DESISTA STEMON! PARE COM ISSO AGORA… Mas ela não soube se Stemon estava consciente o suficiente para ouvila e todos os presentes pareciam não tê-la ouvido também, pois observavam a batalha cruel com certa excitação. Stemon seria morto a qualquer momento, pois sequer tinha forças para dizer que desistia. Percebendo que estava na hora de acabar com o duelo, o oponente de Stemon o levantou pelo pescoço. Iria quebrar o pescoço de Stemon! Mas isso nunca aconteceu, pois a cena que se passou a seguir era completamente inesperada e todos levaram alguns segundos para perceber o que havia acontecido. Foi tudo tão rápido que nem mesmo Mifitrin pôde ver o que acontecera. Num momento Stemon estava suspenso no ar pelo seu oponente, no instante seguinte houve um momentâneo lampejo de luz e seu oponente foi arremessado de costas; Stemon despencou no chão. O enorme elendur que representava Lacarno caiu com força no chão, de costas, e não se levantou mais. Os dois combatentes estavam inconscientes e ninguém que estava presente pôde ver o que realmente havia acontecido. Não havia como saber quem era o vencedor, ainda mais porque não havia um vencedor. Os dois estavam nocauteados. Todos sabiam que Stemon não poderia ter revidado de forma tão rápida, ele não tinha forças para isso. Mifitrin, por outro lado, achava que sabia o que tinha acontecido. Aquilo foi magia, só podia ser, mas magia de quem? De onde? Ela procurou por todos os lados, mas não encontrou mais ninguém ali que poderia ter usado magia para se interferir na batalha. Mas infelizmente Lacarno também suspeitava de que o que aconteceu foi magia, por isso levantou-se irritado de sua cadeira e expôs sua conclusão para todos: SacerdoteS


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— Foi ela quem fez isso! – disse ele apontando o dedo para Mifitrin. – Expulsem-na daqui. Mifitrin tentou se defender, dizer que era inocente, mas vários guardas vieram até ela e não teve a chance de dizer nada. Mas não foi ela quem utilizou magia, afinal de contas estava sem o seu colar… A última coisa que viu antes de ser vendada era que Stemon havia recobrado a consciência e tentava se levantar com dificuldades, mas logo não pôde ver mais nada e foi arrastada para fora da cidade. Porém, antes de ser tirada de dentro da enorme construção onde estava, ela ouviu: — Você disse que a ouviria! – disse Stemon injustiçado ao seu pai. – Eu não fui derrotado, deve ouvi-la… — Mas você também não venceu… – disse Lacarno com a voz fria, mas então as portas foram fechadas e Mifitrin não ouviu mais nada. Felizmente o céu estava nublado, tornando a noite ainda mais escura. Isso ajudava Kanoles a andar escondido pela cidade. Todas as casas estavam iluminadas, mas Kanoles andava somente pelas sombras. Suas roupas negras ajudavam a camuflá-lo, e somente o ouvido mais aguçado teria chances de ouvi-lo. Kanoles era caçador de recompensas, era esperto, ágil e bandido. Era acostumado a esconder-se e tinha prática em andar sem ser ouvido. Ele estava caminhando em direção ao palacete no centro da cidadela, onde esperaria até que o rei chegasse. Kanoles estaria em seus aposentos quando isso acontecesse e esperaria escondido até que estivesse a sós com o rei, pois somente assim ele teria a chance de conversar com ele.

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Enquanto isso, no frio calabouço de pedra, Karnar e Lavin conversavam distraidamente, apenas para disfarçar a tensão e a preocupação que sentiam. — Você sabe que pode ter muitos problemas, não sabe? – perguntou Karnar. — Sim, eu sei. — Você pode ser acusada de traição. Será castigada severamente se isso acontecer. Apesar de dizer isso, Karnar tinha certeza de que Lavin sabia disso também. — Realmente é o que vai acontecer se Ungai chegar aqui antes do rei, mas eu não serei castigada, pois não estarei aqui para me castigarem… Lavin falava com uma certa mágoa reprimida, mas com um brilho desejoso no olhar que focava o chão. — O que quer dizer? – perguntou Karnar intrigado. — Não pretendo ficar aqui – respondeu ela. – Desde que perdi a minha mãe, a única coisa que quero é sair deste lugar. Fugir. Sinto algo dentro de mim que me dá forças para isso… — E por que não faz isso? – perguntou Karnar incentivando-a. – Por que não foge? — Porque a mesma coisa que me dá forças, ao mesmo tempo me diz que não devo fazer isso. Não sei bem o que é, mas sei que finalmente chegou a hora. Amanhã já não estarei mais em Roldur… — Pode vir comigo e Kanoles – Karnar convidou. Lavin de repente ergueu os olhos para Karnar e o encarou. Estava assustada e ao mesmo tempo surpresa. Havia algo em seu olhar que dizia que ela considerava muito a proposta, mas não disse nada. A proSacerdoteS


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posta de Karnar ficou sem resposta, mas Lavin não deixaria de pensar nisso tão cedo. ♦ Mifitrin foi arrastada durante muito tempo por vários guardas elendurs. Mesmo com os olhos vendados ela sabia aonde estavam indo. Sentiu sua insegurança voltar quando encontrava-se novamente dentro da caverna onde haviam roubado seu colar e a relíquia do Tempo; ouviu a cachoeira do outro lado e contou cada um dos degraus escorregadios por onde subiram até o topo da pequena cratera por onde a cachoeira caía; sentiu o cheiro relaxante que era exalado pelas árvores na floresta de fewilas, e logo sentiu o perfume adocicado das flores que ficavam no pomar, assim como ouviu os pássaros, os insetos e os pequenos animais que ali viviam. Sentiu os espinhos lhe ferirem na floresta além do pomar e então finalmente ouviu o barulho das ondas do mar e sentiu o ar salgado em seus lábios. Ali eles a jogaram sobre a areia fofa da praia. Os guardas cortaram as cordas que prendiam seus braços, e logo tiraram a venda de seus olhos, deixando-a livre. Ela se levantou e olhou enraivecida para os guardas que a trouxeram. — Você tem até o amanhecer para sair da nossa ilha – disse um dos guardas. – Se ainda estiver aqui quando Tunmá nascer nós a mataremos. Os guardas se afastaram dela num movimento rápido, como sombra fugindo da luz, e desapareceram em meio às árvores. Mifitrin estava novamente sozinha e o desespero logo tomou conta dela. Suas pernas bambearam e ela caiu de joelhos na areia. Estava sozinha, sem colar, e mal conseguira cumprir sua missão. Mas o pior de tudo era que SteRoldur e Emeldis


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mon estragou toda a sua vida por causa dela. Isso era uma coisa que Mifitrin não conseguia suportar, uma culpa sem igual. Mas o que ela podia fazer? Sem seu colar ela era uma mera humana. Mifitrin meditou por algum tempo, mas só havia uma coisa a ser feita: precisava voltar para a cidade e procurar falar com um dos reis. Lacarno com toda certeza não aceitaria ouvi-la, mas ainda havia mais quatro reis em Emeldis e um deles certamente daria ouvidos à Guerreira do Tempo. Finalmente tomando uma decisão, Mifitrin se levantou do chão e iniciou o caminho de volta. Ela corria o mais rápido que podia, na tentativa de alcançar seus guardas e segui-los na surdina. Dentro da floresta a luz prateada de Listel não conseguia penetrar, por isso estava muito escuro. Mas Mifitrin não via problema nisso também, e essa era mais uma situação que ela conseguia enfrentar graças a Morton. Seu antigo mentor lhe ensinou isso também. Quando um dos sentidos for imobilizado, lembre-se que há outros. Por muito tempo Mifitrin correu com a velocidade de um falcão, mas ainda não havia chegado até a primeira árvore de fewila, aquela que indicava que estava no caminho certo para Emeldis. E também não havia encontrado nenhum dos guardas, sequer suas pegadas. Alguma coisa estranha estava acontecendo, pois ela tinha certeza de que a uma hora dessas já deveria estar atravessando o pomar… mas foi então que se lembrou de algo que Stemon disse: “Na verdade não precisamos de vigias, pois alguém somente encontra nosso reino se lhes mostramos o caminho. É completamente impossível alguém entrar em nosso reino sem ter como guia um elendur. Emeldis é protegido por magias antigas e duradouras de modo que somente um elendur pode conhecer o caminho”. SacerdoteS


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Então ela parou de correr, pois percebia agora que isso era inútil. Ela ficou em silêncio e percebeu que podia ouvir as ondas do mar; significava que ela não havia progredido nada. Correu por tanto tempo e ainda continuava tão perto da praia. Correr era tão inútil quanto enfrentar magia com uma espada. Não importava o quanto ela corresse, o caminho só seria revelado se ela estivesse na companhia de um elendur, o que no momento não havia nenhum por perto. Ela sentou-se no chão e se encostou numa árvore muito velha e nodosa, cujos galhos estavam praticamente desprovidos de folhas, o que permitia ver o céu. Não havia o que fazer. Não havia como voltar para a cidade. Não havia como sair da ilha. Não havia como pedir ajuda. Não havia como ajudar Stemon. Não havia nada que Mifitrin pudesse fazer, pois no momento era uma completa inútil. Mas foi então que ela viu algo brilhar na escuridão. Algo que refletira o brilho momentâneo de alguma estrela cadente que riscou o céu noturno. Foi por um instante muito rápido, mas seja lá o que for que refletiu o brilho, estava perto. Estava há apenas alguns passos de onde Mifitrin estava sentada. Ela apertou os olhos para poder enxergar melhor na escuridão, e o que viu fez o seu coração dar um salto. Era um objeto que atingia a altura dos joelhos de Mifitrin. Parecia feito de vidro, uma finíssima camada de vidro negro-azulado, mas tão resistente quanto um cristal. Havia um suporte saindo do objeto, como duas asas, onde era possível segurá-lo. No interior do objeto havia certa quantidade de areia, uma areia que cintilava à luz das estrelas. Era a Ampulheta do Tempo, a relíquia que Mifitrin mantinha escondida desde que iniciaram a missão de ir até os Domínios da Magia. A relíquia havia sido roubada dentro da caverna, mas agora ela estava ali e junto havia outro objeto, um colar. Surpresa, Mifitrin correu até os objetos. Havia recuperado o que lhe roubaram. Roldur e Emeldis


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A esperança de Mifitrin foi renovada. Milagrosamente ela havia encontrado o colar e a relíquia. Não sabia como explicar o fato dos objetos estarem ali, esperando por ela, justamente quando mais precisou. Talvez fosse coisa do deus de Stemon, aquele a quem ela pediu ajuda em momento de desespero; o deus que ela acreditou sua vida toda não existir, mas que agora parecia provar a sua existência. Mas não importava como acontecera, e ela não devia ficar perdendo tempo tentando entender como isso aconteceu, pois ainda havia muita coisa a ser feita. Com o seu colar, ela poderia finalmente ir atrás de Elkens, mas não faria isso por enquanto. Stemon havia dito algumas horas atrás que a desistência não combinava com Mifitrin, que ela não havia nascido para desistir de qualquer coisa. Ela resolveu provar o que ele disse para si mesma, pois queria acreditar nisso. Foi por causa das palavras de Stemon que ela decidiu voltar para a cidade. Agora não era mais uma questão de levar a sua mensagem para os reis, o que ela realmente queria agora era voltar para poder ajudar o seu mais novo amigo, aquele que em tão pouco tempo se provou um amigo valoroso. Decidida sobre o que deveria ser feito, Mifitrin voltou correndo para a praia. Agora que estava motivada novamente, chegou em poucos minutos. Então, como se houvesse planejado aquilo desde que Lacarno lhe expulsou de Emeldis, ela segurou o seu colar com uma das mãos e fechou os olhos, elevando sua concentração para Roe-gan, o terceiro nível de concentração. Pretendia usar um dos feitiços do Tempo mais comuns, porém de certa complexidade. Pretendia manipular o tempo. De repente o vento parou de se mover. Nada mais se movia, nem as ondas do mar, nem as estrelas no céu. O tempo estava momentaneamente congelado, mas ficou assim por um breve momento. Agora que SacerdoteS


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estava parado, Mifitrin precisava fazer o tempo correr ao contrário. Precisava que isso fosse feito se quisesse ter uma chance. Então o vento voltou a se mover, mas na direção oposta. As ondas do mar não vinham mais contra praia, ao contrário, regrediam de volta para o mar. Tudo estava acontecendo ao contrário. Logo Mifitrin viu a si mesma, voltando de costas e caindo de joelhos na areia, então se levantou e no segundo seguinte os guardas elendurs estavam de volta. Tudo estava acontecendo ao contrário, mas Mifitrin não via nada disso, pois fechou os olhos para não perder a concentração. Mas mesmo de olhos fechados, ela sabia o que estava acontecendo. Sabendo que o momento havia chegado, voltou a parar o tempo por um segundo, então ele voltou a correr normalmente. — Você tem até o amanhecer para sair da nossa ilha – ela ouviu um dos guardas dizendo. – Se ainda estiver aqui quando Tunmá nascer nós a mataremos. Nenhum dos que estavam presentes na cena que Mifitrin assistia podia vê-la. Isso não era possível, pois significaria que ela poderia alterar o passado, o que é extremamente perigoso. Aquilo já havia acontecido e ninguém poderia alterar, por isso Mifitrin também não era vista. Morton havia lhe ensinado que alguém poderia alterar o passado apenas se ultrapassasse o Katsu-gan, atingindo o quinto e último nível de concentração; algumas lendas diziam que existia ainda mais um nível além do quinto, e quem pudesse alcançá-lo poderia fazer coisas incríveis. Mas isso não passava de uma lenda. Os guardas elendurs desapareceram num movimento rápido, mas agora Mifitrin estava preparada para o que devia ser feito. Ela saiu correndo atrás dos elendurs, pois não poderia perdê-los de vista. Eles seriam a sua porta de entrada para Emeldis; seriam os seus guias para o Roldur e Emeldis


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reino protegido. Enquanto estivesse seguindo os elendurs, estaria no caminho certo para a cidade. Mifitrin corria ao lado dos elendurs, mas por mais que estivesse à frente deles, não poderia ser vista. Adorava esta sensação, a de estar em um lugar onde ninguém pode lhe perturbar. Era como se estivesse sozinha no mundo, onde ninguém podia vê-la ou ouvi-la. Era como estar no meio de uma multidão e ao mesmo tempo estar sozinha. Os guardas conversavam entre eles, mas falavam em sua língua, por isso ela não entendia. Mas também não queria entender. A única coisa que queria agora era chegar até Emeldis e ajudar Stemon. O coração de Mifitrin deu mais um salto quando ela percebeu que estavam perto da primeira árvore de fewila. Se ela chegasse até ali, significaria que podia seguir em frente até chegar à cidade. Mas as coisas não saíram como ela planejou. Num piscar de olhos os guardas elendurs desapareceram, deixando-a sozinha na floresta. Era como se tivessem se desmaterializado no ar, mas ela não demorou a entender a verdade. Ela havia subestimado os feitiços de proteção de Emeldis. Os guardas estavam a caminho da cidade agora, mas ela fora deixada para trás. Descobriu da pior forma que não havia como entrar no reino sendo guiada involuntariamente, os guardas precisariam concordar em guiá-la até lá. Estava de volta à estaca zero! Chegou a pensar em desistir, mas logo ela deixou esse pensamento de lado. Não podia fazer isso; não podia desistir agora. Não podia decepcionar todos que confiaram e acreditaram nela. Mas parecia não haver solução alguma. Por mais que pensasse não encontrava uma forma de resolver o seu problema. Por muito tempo ela pensou, tentando encontrar uma solução, mas foi a solução que veio até ela: a Ampulheta do Tempo! Estava ali com ela, o tempo toSacerdoteS


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do, mas só agora Mifitrin percebia que finalmente chegara a hora de usá-la. A relíquia do Tempo estava se oferecendo para ajudá-la; estava agindo por vontade própria (ou por vontade de alguém que não era ela).

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A ampulheta estava manipulando o tempo. As areias cintilantes que estavam na parte debaixo da ampulheta começaram a subir vagarosamente em direção à parte superior. Aquelas areias influenciavam o fluxo do tempo. Mifitrin não sabia o que a ampulheta podia fazer por ela, mas resolveu apenas observar. Conforme os pequenos grãos de areia subiam, a noite ia clareando, pois estava voltando a ser dia. Pássaros passavam por ela voando de costas, folhas caídas no chão subiam em direção aos galhos das árvores, onde se prendiam novamente, o vento soprava ao contrário… Muitos grãos de areia subiram, até que finalmente tudo parou. Por um segundo tudo ficou parado, todo o mundo parado em torno de Mifitrin, mas logo o primeiro grão de areia caiu, e com ele o fluxo do tempo voltou ao normal. Mifitrin estava em algum ponto do passado, algumas horas atrás, mas mesmo agora não sabia o que fazer. Por que a ampulheta lhe trouxe até aquele momento? O que havia acontecido ali que poderia ajudá-la a voltar para a cidade? Ela caminhou sem direção pela selva, mal sabendo em qual direção ela seguia. Alguma coisa havia acontecido naquele momento, alguma coisa que ela não havia percebido que poderia ajudá-la, mas o que era? Por alguns minutos ela caminhou, completamente desorientada e sem saber o que fazer, mas logo se assustou com o que aconteceu. Havia um pássaro parado logo a sua frente. Ela não poderia alterar o passado, por isso sabia que não podia ser vista. Mas isso não era verdade. Assim que se aproximou o bastante para ser vista pelo pássaro, ele se assustou e saiu voando em direção à praia, gritando. Ao ouvir os gritos do pássaro Mifitrin se lembrou de algo que aconteceu muitas horas atrás, então compreendeu qual era o poder da Ampulheta do Tempo: ela permite alterar o passado! SacerdoteS


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Mifitrin ficou assustada, pois sabia o que aconteceria logo a seguir, por isso correu se esconder. Já havia visto aquele pássaro antes, quando estava caminhando com Stemon em direção a Emeldis. Naquele momento ela se perguntou o que poderia ter assustado o pássaro; Stemon lhe disse que não havia ninguém por perto, mas agora ela sabia… Fora ela mesma quem assustara o pássaro! Enquanto estava escondida, Mifitrin ouviu passos se aproximando e ficou surpresa ao constatar que estava certa. Quem estava se aproximando era ela própria, acompanhada de Stemon. — Era um pássaro – ela ouviu Stemon se debochando dela, pois ficou assustada quando viu o pássaro pela primeira vez. — Eu sei – respondeu a Mifitrin do passado – mas o que assustou o pássaro? Mifitrin observou a si mesma caminhando logo atrás de Stemon. Ela ainda se perguntava no que aquilo poderia ajudá-la. — Alguma coisa assustou aquele pássaro, Stemon. — Ah, sim. E eu preferia não descobrir o que foi. Há feras terríveis nesta floresta, feras que comem gente. Mifitrin se surpreendeu ao entender o verdadeiro objetivo da Ampulheta do Tempo tê-la trazido até ali, até aquele exato momento. Ela devia seguir Stemon, pois, diferente dos guardas, Stemon havia concordado em guiá-la até a cidade, não interessa se isso foi no passado. Apesar de algumas horas mais velha, ela ainda era Mifitrin, a mesma Mifitrin que Stemon concordou em guiar. Ela seguia alguns passos atrás, pois não queria correr o risco de ser descoberta. Conhecia as suas próprias habilidades, por isso tomava muito cuidado em seguir a si mesma. Observou quando os dois pararam diante da primeira árvore de fewila, e conversaram ali durante algum tempo. Depois recomeçaram a caminhada e passaram pelo poRoldur e Emeldis


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mar e pela floresta de fewilas, então finalmente ela pôde ouvir a cachoeira. Estavam perto agora. Lá estavam eles, Stemon e Mifitrin diante da cratera à qual desceriam para entrar na cidade. Alguns passos atrás, Mifitrin observava tudo atentamente. Ela deu tempo para que eles conseguissem uma grande distância e só então recomeçou a andar. Ela desceu pela escada de pedra, prestando atenção no que acontecia lá embaixo. Mas ela estava prestando mais atenção lá em baixo do que no que estava fazendo, então cometeu seu erro… Sem querer esbarrou numa pedra, e ela rolou. Mifitrin tentou segurar a pedra, mas sabia que não conseguiria, pois agora começava a compreender mais coisas; sabia o que aconteceria a seguir… Ela se jogou no chão, escondendo-se, bem em tempo de ouvir a pedra caindo na lagoa lá embaixo. Então ouviu a sua própria voz gritando lá debaixo: — Quem está aí? Agora tudo fazia sentido. — Não tem ninguém aqui, Mifitrin. Deve ser apenas uma pedra que eu ou você esbarramos enquanto andávamos… Foi ela quem assustou o pássaro, assim como foi ela também quem derrubou a pedra na lagoa. — Não, Stemon. Já faz algum tempo que estou com a sensação de que estamos sendo observados. — Somente um elendur pode ter nos seguido, Mifitrin. Se realmente há mais alguém aqui, deve ser um dos vigias. Geralmente não os vemos mesmo, eles preferem assim. Não há perigo algum, então vamos. Mifitrin se arrastou até a borda da cratera e viu quando a cachoeira se abriu para os dois lá embaixo, revelando a passagem que levava até a cidade protegida. Os dois entraram e a passagem voltou a se fechar, então Mifitrin soube que poderia descer sem se preocupar. SacerdoteS


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Quando chegou ao pé da cachoeira ela não se abriu para admiti-la, mas mesmo assim Mifitrin atravessou. Agora estava toda molhada, no interior da enorme caverna iluminada por várias tochas. Aquela sensação voltou, a sensação de que estava presa, que não tinha para onde fugir. Como um animal preso dentro de uma jaula, acuado de todos os lados. Ela esperou por algum tempo, permitindo que os dois se afastassem mais um pouco, mas logo que começou a andar ela ouviu: — O que foi, Mifitrin? Estamos perto agora. Era a voz de Stemon, muito a frente, mas uma curva no caminho impedia que ela visse os dois ou que os dois à vissem. Ela sabia o que estava acontecendo. A Mifitrin do passado havia percebido a sua presença. Mifitrin apurou seus ouvidos e conseguiu ouvir o leve sussurro que ela mesma havia dado algumas horas atrás: — Stemon. Tem mais alguém aqui… A hora era agora. Mifitrin sabia o que aconteceria a seguir, mas não sabia como faria aquilo. O último grão de areia caiu da ampulheta assim que Mifitrin ouviu o sussurro, mas então tudo voltou a parar. Novamente o fluxo do tempo havia sido interrompido e tudo à volta de Mifitrin estava congelado no tempo. Somente ela se movia, em toda Gardwen, apenas ela se movia. A ampulheta lhe estava dando tempo para pensar no que fazer; descobrir o que fazer! Finalmente ela estava entendendo o que devia ser feito, só não sabia como. Ela precisava atacar a si mesma, como havia acontecido, e roubar seu colar e sua relíquia. Ela não podia permitir que a outra Mifitrin chegasse à cidade com eles, pois caso isso acontecesse os elendurs é que roubariam dela, então o futuro seria completamente alterado. Roldur e Emeldis


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Mas também precisava fazer isso de modo que ninguém percebesse quem era o atacante, senão tudo seria alterado também. De repente Mifitrin sentiu que era capaz. Sentiu o poder da ampulheta fluindo para o seu corpo, dando-lhe forças. Sob a influência da relíquia, Mifitrin fechou os olhos e se concentrou. Por um tempo indeterminável ela permaneceu-se imóvel, concentrando-se, então conseguiu o que jamais havia conseguido em toda a sua vida: ultrapassou o Roe-gan e atingiu o quarto nível de concentração, o Ginden-gan. Esse era o nível necessário para um protetor do Tempo despertar seu dom, o domínio sobre as força da natureza! Agora Mifitrin entendia porque gostava tanto da sensação de liberdade, de sentir o vento batendo em seu rosto. Isso se dava porque a força da natureza que regia sobre ela era o vento. Ela descobriu o que, em seu íntimo, sempre soube. Era do vento que vinha o seu desejo por liberdade. Abrindo os olhos, Mifitrin entendeu o que devia ser feito, e agora também sabia como fazê-lo. Um novo grão de areia voltou a cair da ampulheta, indicando que o tempo havia voltado a correr normalmente, mas agora ela estava preparada. Tocando seu colar, Mifitrin controlou todo o ar a sua volta e criou uma forte rajada de vento que investiu contra Mifitrin e Stemon e apagou todas as tochas da caverna, deixando-os numa completa escuridão. O vento a obedecia, quase como se fosse parte dela, como se assumisse suas vontades. E essa sensação era maravilhosa. — CORRA STEMON! Com uma incrível velocidade, tão rápida quanto o vento, Mifitrin correu e atacou a si mesma, roubando-lhe o colar e a Ampulheta do Tempo. Logo a seguir se escondeu e aguardou. SacerdoteS


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— MIFITRIN! – Stemon havia acabado de ouvir o seu grito e percebeu que ela havia ficado para trás. Mifitrin ouviu os barulhos de passos de Stemon se aproximando do seu eu do passado. — Você está bem? Por algum tempo não houve respostas, assim que Mifitrin sabia que seria, mas logo ouviu a sua própria voz: — Levaram o meu colar, Stemon. Levaram o meu colar e, não… não pode ser… — O que, Mifitrin? O que mais levaram? Desta vez não houve resposta alguma. Ela havia acabado de perceber que levaram a Ampulheta do Tempo também. — APAREÇA! APAREÇA COVARDE! Silêncio. Apenas o eco de sua voz. — Não adianta, Mifitrin. Pode ser perigoso ficar aqui. A cidade fica logo à frente, estaremos seguros lá. — Não, Stemon. Sem o meu colar eu não sou nada. Tenho que recuperá-lo… — Descobriremos quem te atacou, Mifitrin, e recuperaremos o que lhe roubaram. Mas primeiro precisamos sair daqui… Mifitrin e Stemon saíram da caverna e seguiram até a bela cidade, onde seriam aprisionados, onde Stemon proporia um desafio e de onde Mifitrin seria expulsa, tendo de voltar à floresta, encontrar a Ampulheta do Tempo e passar por tudo aquilo mais uma vez. A Guerreira, com dois colares e duas ampulhetas, do passado e do presente, ficou sozinha na escuridão da caverna, esperando o momento certo para sair.

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Kanoles escalava pelo pequeno palacete do rei como uma mera sombra, inofensiva e imperceptível. Quase não havia guardas em torno do palacete, primeiro porque ninguém acreditava realmente que houvesse algum perigo no interior de suas muralhas e, segundo, porque o rei nem ao menos se encontrava no palacete. Várias plantas trepadeiras que serviam com o objetivo de embelezar a morada do rei, agora facilitavam a escalada do intruso. O calabouço era afastado do palacete, mas mesmo assim Kanoles não teve problemas para chegar até ali. Raramente alguém o via, e nas duas vezes que isso aconteceu, acharam que Kanoles era um mero morador sem sono. Ninguém acreditaria que ele era um prisioneiro fugitivo, nem mesmo que ele dissesse, pois jamais iriam imaginar que alguém teria coragem de libertar os desconhecidos, correndo o risco de ser pego e condenado por traição. Logo Kanoles estava diante de uma grande janela com cortinas, então entrou sorrateiramente por ela. Ele se encontrava agora em um quarto muito grande e luxuoso. Uma confortável cama ficava a um canto, e a porta, ainda fechada, ficava do lado oposto à janela. Havia poltronas confortáveis e alguns instrumentos musicais. Decididamente estava no quarto do rei, então deveria apenas aguardar escondido até que o rei retornasse. Não sabia quanto tempo levariam para perceber que Lavin o libertara, mas rezava para que isso não acontecesse antes que ele tivesse a chance de falar com o rei de Roldur. ♦ Mifitrin saiu da caverna e observou tudo o que acontecia lá de cima. Dali ela tinha uma ótima visão de toda a cidade. Viu quando Stemon e ela foram presos nas celas do lago, onde ficaram durante horas. NesSacerdoteS


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se período de tempo em que ficou apenas esperando, algo muito estranho aconteceu. Como ela havia atacado a si própria dentro da caverna e roubado suas coisas, agora estava com dois colares de Guerreira e duas Ampulhetas do Tempo. Cada um dos objetos pertencia a um período de tempo diferente, mas por causa de Mifitrin ter voltado no Tempo com eles, agora eram dois ao invés de um. Mas de repente eles desapareceram. Sumiram das mãos de Mifitrin num segundo, como se nunca tivessem estado ali, deixando-a apenas com um exemplar de cada objeto. Por algum tempo ela ficou confusa, tentando entender o que aquilo significava, mas não demorou muito para chegar a uma conclusão. Era óbvio que a Ampulheta do Tempo estava lhe ajudando em todos os problemas que teve em Emeldis, e agora ela percebia que a ampulheta lhe ajudara mais uma vez. Quando ela foi levada pelos guardas elendurs para fora da cidade, ela encontrou seu colar e a relíquia perdidos no meio da floresta, e graças a isso ela conseguiu voltar para o passado, seguir Stemon, e estar de volta à cidade. Mas tudo isso pertencia a um ciclo sem fim, pois a Mifitrin que estava presa nas jaulas lá embaixo, quando fosse expulsa da cidade, precisaria encontrar o colar e a ampulheta que haviam acabado de desaparecer. Isso só podia significar uma coisa: mais uma vez a Ampulheta do Tempo agiu por vontade própria e usou seus poderes para fazer com que o colar e a ampulheta desaparecessem, indo parar na floresta onde a Mifitrin do passado voltaria a encontrá-los, dando continuidade ao ciclo sem fim. Entender o fluxo do tempo e as causas e conseqüências de manipulá-lo não era algo muito simples, mas Mifitrin foi instruída para isso quando ainda era uma mera Aprendiz, e Morton fez muito bem seu serviço. Roldur e Emeldis


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Já havia anoitecido quando ela observou os guardas seguindo para as celas para libertar ela e Stemon, quando ainda eram prisioneiros, então aproveitou este tempo para seguir até a grande construção suspensa onde Lacarno e vários outros elendurs aguardavam para julgar Mifitrin. Novamente com o seu colar, Mifitrin não teve dificuldades para se infiltrar no aposento sem ser vista, então achou um esconderijo onde poderia ficar escondida para assistir a tudo aquilo de novo. Seria emocionante ter uma nova perspectiva dos acontecimentos que se seguiriam. Observou quando os guardas chegaram com os dois prisioneiros e viu Lacarno interrogando-a, e depois viu Stemon se aborrecendo por Lacarno chamá-la de humana; Lacarno revelou que sabia sobre os protetores e decidiu perdoar Mifitrin, exigindo apenas que ela fosse embora e nunca mais voltasse, então disse que Stemon é que seria punido com o exílio; Stemon se humilhou aos pés de seu pai, mas Lacarno se enfureceu e o atacou, quebrando sua máscara e dizendo que ele não era mais seu filho e que sentia vergonha dele. Mifitrin viu mais uma vez quando Lacarno ordenou que a levassem para fora da cidade, mas foi então que Stemon propôs o desafio para o pai. Após alguns minutos a batalha entre Stemon e seu rival foi iniciada. Por muito tempo Mifitrin viu seu amigo apanhando do outro, exatamente como já havia visto, mas logo ela viu quando Stemon foi levantado pelo pescoço por seu rival. Agora ela compreendeu o que havia acontecido naquele momento, pois foi ela mesma quem interrompeu a batalha e salvou Stemon… Ainda do local onde estava escondida, observando a cena, Mifitrin tocou seu colar e disparou uma esfera de luz anil contra o rival de Stemon. Tudo aconteceu tão rápido que ninguém havia visto de onde SacerdoteS


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o ataque veio, mas ele foi suficiente para atirar o rival de Stemon de costas e nocauteá-lo. — Foi ela quem fez isso! – gritou Lacarno irritado, apontando para a Mifitrin do passado. – Expulsem-na daqui. Em alguns segundos Mifitrin foi levada para fora do aposento, de onde seria arrastada até a praia. Nos minutos seguintes todos os presentes deixaram o aposento, deixando Stemon sozinho com Lacarno. Agora era a hora de Mifitrin sair do esconderijo e se revelar. Ela andou calmamente na direção de Lacarno, que se assustou ao vê-la. — Como escapou dos meus guardas? Mifitrin sorriu levemente para ele, então respondeu: — Não escapei! – ela fez uma breve pausa, enquanto dava mais alguns passos, então continuou: ‒ Acontece que já voltei! Lacarno se preparou para chamar os guardas novamente, mas desta vez Mifitrin resolveu agir. Antes que a voz de Lacarno saísse pela sua garganta, Mifitrin estava atrás dele, com os braços apertando-lhe o pescoço e lhe impedindo de falar qualquer coisa. — Desta vez estou armada – informou ela num leve sussurro. – Não hesitarei em te atacar caso tente pedir ajuda. Quero que você fique bem quietinho e ouça tudo o que eu tenho para dizer. Mifitrin soltou Lacarno e olhou de canto de olho para Stemon, que tinha uma expressão de imenso prazer no rosto desmascarado. Um grande alívio encheu seu coração ao olhar para o rosto do amigo. Foi a lembrança de Stemon que lhe deu esperanças e forças para continuar tentando, caso contrário já estaria remando para longe de Emeldis. Mas foi para ver Stemon mais uma vez que ela enfrentou tudo aquilo, porque queria ajudá-lo, agradecer-lhe de forma justa por tudo o que ele tinha feito por ela. Roldur e Emeldis


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— Obrigada – disse ela com os olhos brilhando. – Só voltei por sua causa. Agora que já havia dito aquilo, que já havia aliviado seu coração, era hora de dizer tudo o que tinha para dizer. Encarando Lacarno, ela falou das coisas estranhas que estavam acontecendo ultimamente entre os Elementos, principalmente com a Magia. Então relatou sobre a missão dela e dos outros, até que finalmente relatou sobre a luta que tiveram contra os kenrauers em Buor e sobre as conclusões que tiraram disso. Falou sobre Mon, o pouco que sabia, e sobre a guerra iminente. Lacarno ouviu atentamente, sem nem ao menos interromper com perguntas. — Você não respondeu a minha pergunta, Lavin – disse Karnar. Lavin, sentada do lado de fora da cela, baixou a cabeça e não disse nada. — Eu perguntei se você quer vir comigo e Kanoles depois que tudo isso terminar. Novamente Karnar ficou sem respostas. Já fazia horas que Kanoles saíra em direção ao palacete do rei, mas até agora eles não sabiam de nada do que se passava. Lavin, fazendo parte da guarda da cidadela, sabia que o rei já estava no reino (possivelmente chegando à cidadela), mas ainda não tiveram nenhuma confirmação disso. Ela também estava estranhando o fato de Ungai não ter retornado ainda. Lavin conhecia Ungai e sabia que sua vingança era rápida e letal, no entanto, Ungai já havia saído há horas com o objetivo de punir Karnar e Kanoles o mais rápido possível. Talvez, por alguma sorte, Ungai estivesse com dificuldades para encontrar o conselheiro que poderia dar a sentença aos forasteiros. SacerdoteS


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— Para onde você e Karnar vão caso consigam sair de Roldur com vida? – perguntou Lavin indiferente. — Não sei ao certo – respondeu Karnar com sinceridade. – Tenho muitas coisas planejadas, mas depois que conheci Kanoles e os outros vejo que nenhuma delas tem importância o suficiente. Desde que soube quem eles eram e o que estavam fazendo, não posso ignorar o fato de que há coisas mais importantes em jogo. Lavin riu baixinho. — Agora foi você quem não respondeu a minha pergunta. Pretende ir ajudar seus amigos, ou não? Karnar não sabia exatamente o que responder. Não sabia o que faria caso saíssem dali. — Não! – respondeu ele de repente, sentindo um pesar em seu coração. – Não vou atrás dos meus amigos – era estranho dizer amigos, mas agora Karnar reconhecia que era isso que Elkens e os outros representavam para ele. – Talvez Kanoles queira ir, mas ele será tão inútil quanto eu… — Por que diz isso? – perguntou Lavin, finalmente erguendo a cabeça e encarando os olhos de felino de Karnar. Parecia contrariada. – Você não é um domador de demônios? Creio que seria de grande ajuda… — Não é dessa ajuda que eles precisam – respondeu Karnar sentindo um novo aperto em seu coração. – Eles não precisam de força, precisam de coragem, de esperança… não sei o quanto poderei ajudar. E além disso pertencemos à mundos diferentes… — Isso pode ser verdade – interrompeu Lavin – mas no fundo os problemas são os mesmos. O inimigo é um só! Karnar se perguntou sobre até que ponto Lavin tinha conhecimento sobre os problemas que Gardwen enfrentaria, se sabia alguma coisa Roldur e Emeldis


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sobre Mon, mas jamais teve a oportunidade de lhe perguntar isso, não em Roldur. Sons de passos interromperam a conversa dos dois. A tocha que quase se apagava, iluminou parcialmente os vários guardas que desciam pelas escadas e, atrás deles, Ungai exibia um largo sorriso no rosto. — Pode ir dormir, Lavin – disse ele pondo-se à frente dos guardas que agora estavam parados de frente para a cela de Karnar. – Não há mais nada que possa fazer por eles, o conselheiro já decidiu. Eles serão executados imediatamente. Está tudo preparado – Ungai desviou os olhos de Lavin e virou-se para encarar os prisioneiros, mas foi então que percebeu que Karnar estava sozinho. – O QUE VOCÊ FEZ, LAVIN? Lavin levantou-se de onde estava. Ficou frente a frente com Ungai, desafiando-o, então encheu-se de coragem e respondeu: — Fiz o que julguei ser o certo. Ungai a encarou, cheio de ódio nos olhos, então bateu-lhe no rosto com a mão aberta. Karnar segurou nas grades e xingou Ungai de covarde, mas foi ignorado. Lavin recuperou-se do tapa e encarou Ungai como se nada tivesse acontecido: — Fiz o certo! — E pagará por isso – disse Ungai lhe dando às costas. – Guardas! Tragam o prisioneiro e Lavin. Ela pode ser executada no lugar do prisioneiro que deixou escapar. Os guardas dominaram Lavin rapidamente, que, apesar de ter resistido bravamente, não teria como escapar dali. Karnar também foi dominado instantaneamente, pois, ao contrário de Lavin, não resistiu. Todos estavam saindo do calabouço, subindo pela escada, com Lavin e Karnar como prisioneiros. Ungai mal se continha de tanto prazer e SacerdoteS


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seguia a passos largos a frente dos guardas. Porém, antes de sair do calabouço, havia alguém descendo de encontro. — Parem com essa barbaridade! Ungai congelou-se onde estava. — Alteza? – perguntou ele gaguejando, esquecendo-se dos bons modos. Atrás do rei, Kanoles exibia um grande sorriso de vitória. Ungai nunca teve tanta vontade de matar alguém… ♦ — Então Mon finalmente está se manifestando? – perguntou Lacarno quando Mifitrin finalmente terminou sua história. Apesar de não poder ver sua expressão por baixo da máscara, Mifitrin percebia que não havia surpresa em sua voz. — Sim – ela respondeu – e ele já está montando seu exército. Almas estão sendo aprisionadas e assim os kenrauers se multiplicam; eles são vácuos da vida preenchidos com parte da alma de Mon… — Eu sei o que são kenrauers! – interrompeu Lacarno zangado. Mifitrin ficou surpreso com o que ele disse. – Sou muito mais velho do que você imagina. Por um momento Mifitrin encarou Lacarno, tentando compreender até que ponto ele sabia. Logo percebeu que Lacarno sabia muito mais que ela, talvez mais que qualquer um dos protetores. Lacarno sabia aquilo que todos ignoravam e, os que sabiam, guardavam segredo. Muito mistério estava por trás disso tudo, mistérios que envolvem algo que os elendurs sabem sobre Mon, mas que não ousam revelar. De repente Mifitrin percebeu que Lacarno sabia algo que nem mesmo Morton soube, durante toda a sua vida. Roldur e Emeldis


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— Mas depois de ouvir a sua história, Mifitrin, depois de entender porque veio até aqui, eu lhe pergunto: o que acha que eu devo fazer? — Reúna seu exército – disse ela decidida. – Treine seu exército, forje armas novas e poderosas. Emeldis está afastada do foco principal da guerra. Vocês devem se preparar e montar uma base escondida em Kadharran; lá ficarão próximos para quando Mon surgir. Quando isso acontecer vocês devem lutar ao lado dos homens de Roldur e possivelmente de Covarmen também. — Elendurs e humanos lutando do mesmo lado? – perguntou Lacarno ironicamente. — Não só os elendurs e os humanos, mas nós também. Os protetores também estão nesta guerra. Se não nos unirmos, sucumbiremos perante o terrível e crescente poder de Mon! — E quanto aos reinos de Mondel e Kadharran? – perguntou Lacarno. – Por que não lutarão? — Mondel não está preparado para uma guerra, e quanto à Kadharran… – Mifitrin fez uma pausa, sem saber o que dizer, mas então lembrou-se das palavras de Karnar e Kanoles no dia em que se separaram. – Kadharran não é mais confiável. Eles se uniram à Okor e, se foram capazes de fazer isso, significa que também se unirão à Mon quando ele chamar. Lacarno sorriu sem emoção, demonstrando que já sabia aquilo também. — Nisso eu concordo. Eu já tinha conhecimentos sobre a aliança entre Okor e Kadharran. — Então o que me diz? – perguntou Mifitrin impaciente. – Irão nos ajudar nesta guerra? Lacarno ficou vários minutos, meditando. Andava de um lado para o outro do grande salão; parecia realmente estar pensando em tudo o SacerdoteS


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que Mifitrin dissera, apesar de nenhuma delas ser novidade para ele. Finalmente ele se aproximou da Guerreira e disse: — Sinto muito, Mifitrin, mas a resposta é negativa. Da última vez que Mon surgiu, Emeldis foi completamente ignorada. Mon não tem interesses em nosso reino, o que significa que nos deixará em paz, assim como da última vez… — ISSO É RIDICULO! – gritou a Guerreira com raiva. – Se realmente sabe tanto quanto aparenta saber, como pode dizer que Mon deixará Emeldis em paz? Mifitrin irritou-se ao ter o seu pedido de ajuda negada por Lacarno, sem nem mesmo ele ter convocado os outros quatro reis de Emeldis para decidirem isso juntos. — Você tem alguma prova concreta de que Mon retornará em breve? – perguntou Lacarno. — Os kenrauers não bastam? — Os kenrauers não são nada comparados a Mon, e também não são a prova de que ele está voltando. Os kenrauers sempre foram os soldados de Mon e, mesmo depois de ele ter sido banido, os kenrauers sempre estiveram andando sobre Gardwen. — Você não sabe o que está dizendo, Lacarno. Mon retornará sim! Os sábios dos Elementos sabem disso. Lacarno ficou de frente para Mifitrin, analisando-a, então finalizou a conversa: — Sinto muito, Mifitrin. Ajuda negada! Sob ordens do rei, alguns guardas os acompanharam até seus aposentos, onde ele ficou a sós com Kanoles e Karnar. Nenhum dos dois demorou para ver quem realmente era o rei. Não apenas uma pessoa importante para Roldur, que toma as decisões que envolvem o seu povo. Roldur e Emeldis


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Valmar era uma pessoa de bom coração, amante das plantas e da música. Seu quarto, como Kanoles já havia visto, continha vários instrumentos musicais. Ele também era uma pessoa jovem, na verdade muito jovem para o fardo que seria jogado sobre seus ombros mais cedo ou mais tarde. Assim que ficaram a sós, Karnar e Kanoles contaram toda a história, explicando para Valmar tudo o que eles sabiam. Por muito tempo eles relataram ao rei tudo o que havia acontecido nos últimos dias e também cada palavra dita em Buor, após a batalha contra os kenrauers. — Tudo o que vocês me dizem é inacreditável – disse o rei após ouvir tudo o que os dois tinham a dizer. – Mas não sei até que ponto posso levar isso a sério. — Por favor, alteza – pediu Karnar educadamente – devemos começar a nos preparar desde já. Quando Mon surgir, ele virá com força total. Se esperarmos que ele ressurja, não teremos tempo para nos preparar para a guerra. — Nossa muralha sempre nos protegeu – disse o Valmar sem ter exata certeza do que dizia. – Mon não passará por nossa muralha. — Realmente está falando sério? – perguntou Kanoles exaltando-se. – Realmente acredita que uma muralha, por mais reforçada que seja, será suficiente para deter Mon? O rei não sabia o que dizer. — Emeldis e Covarmen também lutarão! – Kanoles informou, de certa forma mentindo. — E Mondel também! – completou Karnar, mas Kanoles olhou intrigado para ele, não querendo dizer nada na frente do rei. Mondel não lutaria nesta guerra, Kanoles sabia disso. E mesmo que lutasse não seria de grande ajuda. O reino estava muito despreparado para uma guerra de tamanha proporção. Karnar então continuou a falar: SacerdoteS


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“Roldur precisa deixar de acreditar na falsa esperança que a muralha traz. Eu e Kanoles chegamos até aqui sem precisar passar pela muralha, isso prova que ela não é segura. O terrível exército de Mon não temerá passar pela floresta Almaren e, além do mais, ele tem força suficiente para derrubar sua muralha em segundos. Se não nos unirmos, morreremos sozinhos, pois não teremos chances. Se Roldur se unir à Emeldis e Covarmen, talvez tenhamos alguma esperança de vencer. Lembre-se do que digo: não venceremos se não nos unirmos”. O rei parecia realmente acreditar no que Karnar e Kanoles diziam sobre Mon, mas parecia acreditar ainda mais que estariam protegidos atrás das grandes muralhas de Roldur. — Sinto muito – começou ele após algum tempo pensando. – Não posso fazer o que me pedem. Não posso simplesmente pegar meu exército e abandonar meu povo. Quem o protegerá caso eu os abandone? — Eu lhe digo, alteza, não há perigo maior que Mon! Não precisa se preocupar em deixar seu reino para trás, pois você estará lutando contra Mon para protegê-lo – Mas Karnar já percebeu que não adiantaria teimar. O rei não cederia. — Não posso fazer o que me pede – disse o rei finalmente, finalizando a discussão. – Se realmente tivermos de lutar, não será ao lado de Emeldis ou de Covarmen, será aqui. Lutaremos aqui! Kanoles ia abrir a boca para protestar, para tentar mudar a decisão do rei, mas foi impedido de falar por Karnar, que sabia que qualquer coisa dita seria inútil. Ele levantou-se de onde estava sentado e seguiu até a porta, apenas parando quando a porta já estava aberta e Kanoles passava por ela: — Mas quero que se lembre de que Roldur não estará sozinho nesta guerra. Caso mude de idéia, saiba que a ajuda virá! Roldur e Emeldis


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Karnar e Kanoles foram acompanhados por dois guardas até a saída do palacete, depois disso o rei havia lhes dado a ordem de deixá-los livres. Os dois caminharam sozinhos pela cidadela, sem saber para onde ir. — Perdemos o nosso tempo vindo até aqui – disse Kanoles com raiva. — Você se engana – disse Karnar com sua calma habitual; estava novamente usando seu tom de voz de chá da tarde. – Ele não deixará de pensar em tudo o que falamos. Agora ele pode não estar preparado, mas quem sabe? Quem sabe que surpresas nos aguardam? Eles caminharam pelo pátio central, enfeitado com suas plantas, fontes e estátuas. Ainda não havia amanhecido, mas não tardaria para isso acontecer. Enquanto caminhavam sem saber o que fazer, ouviram passos vindo na direção deles, como um galope, então um enorme vulto negro parou diante deles. Era Demonddur, o demônio enviado pelos espíritos de Almaren. Sobre ele havia uma pessoa, mas Karnar já sabia quem era mesmo antes de ver seu rosto. Lavin parecia muito contente quando falou: — Me desculpe Karnar, mas não posso ir com vocês. Tenho outras coisas para fazer agora, mas sei que nos encontraremos logo. Adeus! O enorme cão negro dobrou as patas dianteiras, num sinal de respeito à Karnar e Kanoles, então saiu correndo pela cidade, em direção à floresta Almaren. Karnar observou Lavin sobre Demonddur até eles desaparecerem entre as casas, então deu um longo suspiro e recomeçou a andar. De alguma maneira ele sabia que o que Lavin dissera era verdade, eles voltariam a se encontrar. Mas sabia também que a Lavin que conhecera morreu naquele dia, transformando-se naquela a quem devia ser.

SacerdoteS


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Lavin finalmente se libertou, mas não seguirá viagem com Karnar e Kanoles. Não é que ela não queira, é que o destino preparou algo especial para ela.

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SacerdoteS 17  

Roldur e Emeldis

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