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M e

d e

Q u e r o

g e n t e Torre de Gente

A ENTREVISTA Diego MartĂ­nez Lora

- info@torredegente.com

1 - A entrevista a Ana Martins pela Torre de Gente

M a l

t o r r E

Ana Martins


(Dezembro/2010)

Entrevista a Ana Martins a propósito da publicação do seu livro Mal Me Quero, pela Torre de Gente

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Ana Martins

nasceu em Lisboa, Alvalade, no último dia de Verão do carismático ano de ‘63 quando surgem os Beatles e desaparece JFK. Acredita que de um escritor deve saber-se o que escreve não o que diz, pensa ou é. Sempre escreveu, nunca poemas, mas cartas a amigos e diários em cadernos de textos intermináveis, rabiscados como esquissos de promissoras telas nunca pintadas. Além dos textos que produz e o trabalho de divulgação no seu site anamartinscom.blogspot. com, tem livros e artigos de opinião não apresentados (guardados não numa gaveta, mas num disco rígido externo). E há o trabalho que veio a público em forma de artigos em diversas publicações e em livros: Contos de Verão em 2004 Editora Coolbooks, Autista, quem…? Eu? em 2006 Editora Centralivros e agora pela Editorial 100 com chancela Torre de Gente que edita Mal Me Quero.

Contar para denunciar? Contar para desabafar? Quais são os níveis da tua própria autocensura. Todos temos os nossos próprios níveis de autocensura. A Ana que responde a entrevistas, não é a Ana que escreve e, de forma nenhuma, a Ana que sou na minha vida pessoal! E essa, eu preservo! E se no livro anterior aceitei expor-me enquanto mãe de jovem autista, (seria o lógico e o necessário), não tem de acontecer com outros romances, com outras temáticas que abraço, mas não as escolho para mim. No MAL ME QUERO escrevo para denunciar. Se existir um momento a que chamei de BASTA, e não seja encarado de forma leviana, a situação muda, tanto para vítima como para agressor.

A liberdade de escrever, a liberdade de viver

Ana Martins

M a l

O universo de Mal me Quero e a realidade

M e Q u e r o Torre de Gente

Ter distribuído o universo de personagens ficcionadas do MAL ME QUERO por contos aparentemente independentes, foi o recurso literário que encontrei para demonstrar que o espaço temporal de cada conto no livro é o agora – cada vivência pode estar a acontecer conforme falamos e é compartimentada como num conto em que só

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Para mim a liberdade de escrever tem sempre um passo mais além da de viver – o sonho almejado está ali ao virar de uma página!


aparentemente é independente – cada realidade é silenciada e mesmo ao nosso lado podemos nunca suspeitar do que acontece.

sua próxima peça de teatro.

Qual foi a história que mais demoraste para escrever? A realidade ultrapassa à literatura em Relação à violência doméstica. Cada dia os jornais trazem notícias que deixam estupefactos os leitores. Pensas que o teu livro dá mais relevância à subtileza da perversão na violência doméstica?

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Foi uma escolha minha. O óbvio, a gratuitidade do gesto, da frase obscena, tentei não colocar de forma directa neste romance. O meu filho diz que este é um livro sobre “violação doméstica” e depois do primeiro sorriso, recordo-me que, à medida que me fui debruçando sobre a pesquisa que fazia, ficava abismada com a perversidade com que algumas situações caseiras evoluem. Foi essa a minha escolha. Falar de tudo, mas com enfoque nas realidades silenciadas, nos números calados.

Identificas-te com a narradora de Mal Me Quero? Não. Identifico-me mais até com algumas das personagens. Ou seja, há pinceladas de mim aqui e ali por algumas personagens – o que penso ser inevitável em cada autor – mas não na narradora. E se cada personagem cumpre uma função, a da narradora a Ema, a dramaturga, vai reunir as personagens de vários contos num todo – que compõe este romance, que no processo criador de Ema, será a

Há duas histórias que demorei a escrever e com tempos de pausa diferentes. Uma (Ou ele ou eu) demorei a escrever porque sabia o que queria contar e não conseguia pôr em palavras um cenário de terror, de pânico, de colocar a personagem em estado de choque. Eu escrevo muito rápido e com essa história procurei muito nas palavras como fazer resultar exactamente o que queria contar. A outra que demorei mais tempo (meses) foi a decidir se a escrevia ou não (Luto em vida).

Porque do autismo à violência doméstica? Engraçado como olhando para trás vejo que tanto no Autista, quem…? Eu? como no Mal Me Quero foram desafios propostos por outras pessoas, em ambos os casos houve bastante insistência antes de eu abraçar a ideia de escrever sobre temas polémicos e hoje ser conotada enquanto escritora das causas. Não me revejo nesse papel. Serei uma mulher de causas, mas não uma escritora agrilhoada a temas. Gosto de escrever pelo puro prazer de escrever.


O título O título Mal Me Quero é um trocadilho com a falta de amorpróprio que se sabe existir em cada uma das vítimas de violência doméstica. A minha pesquisa para este livro fez-me perceber que também está presente na figura do agressor.

Visão comparativa entre os dois romances - plano metodológico Pode parecer estranho afirmar de forma tão peremptória, mas em literatura, a existir uma regra, essa regra é não haver regras. Cada autor tem sua metodologia, sua forma de estruturar seu trabalho. E porquê? Porque é um trabalho solitário, individual e independente. E ainda assim, cada escri-

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Estão a imaginar uma espinha de um peixe? É igual. Em termos de estrutura. No caso do Mal Me Quero quis pincelar muitas realidades, as caladas, não é só o Manel que bate na Maria que faz o rumo da violência doméstica – fazem os números conhecidos, não os outros. Não quis, não quero julgar, mas indignam-me, por isso falo de todos quantos me ocorreram ou tive conhecimento existir. Este era a genesis, o que pretendia contar, a espinha dorsal. Só depois vem o miolo.

anamartinscom.blogspot.com www.anamartins.com

Génesis de Mal Me Quero. Processo de elaboração.


do conto Super-homem que eu considero fortíssimo, não vou contar, é claro, mas é o exacto momento do passar a fina linha que separa estes dois sentimentos.

Infância e adolescência: pistas para uma vocação literária Aconteceu-me ter tido alguns professores marcantes na minha vida. Recordo de uma senhora das letras considerada uma fera comentar ‘um dia esta menina escreve’ sem ter dado atenção alguma, mas que hoje acarinho a lembrança.

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Escrever. Inícios. Etapas marcantes.

tor pode usar métodos diversos para cada um de seus trabalhos: no Autista, quem…? Eu? Diria foi pesquisa (residual) e inspiração (muita) – escrevi-o em duas semanas. No caso do Mal Me Quero requereu pesquisa (opressiva) e transpiração (sentido figurado). No fundo, é como cada pessoa gere a sua própria vida – uno pode ouvir todos, mas decide o que faz por si.

Amor e ódio É um cliché estafado dizer que é uma linha ténue entre amor e ódio, mas eu fujo de clichés, gosto de tentar a originalidade. No Mal Me Quero, há um momento de uma personagem, o Ângelo

Digo-o muitas vezes – o tempo de escrita é diferente do tempo de publicar. EVO. O meu primeiro livro. Uma bonita história de Amor. Uma palavra escrita de igual forma e significado em Português e em Castelhano. A vontade de só o publicar muito mais tarde na minha vida. Agora sai editado o meu livro MAL ME QUERO e eu já com a minha cabeça dois livros adiante, mas ainda a terminar o próximo romance. Complicado? Voracidade? Se vivo no fio da navalha? E eu lá queria uma vida simples? Há umas palavras numa música que Caetano canta: “se eu tivesse mais alma para dar eu daria isso para mim é viver”. É isso.


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Mal Me Quero

Torre de Gente

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Ana Martins


A lista de personalidades é extensa:

PREFÁCIO

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Ao ler estas histórias pungentes de martírio e pessoas desesperadas, de vítimas e algozes, não podemos deixar de sentir um arrepio pela espinha abaixo. Não fosse a escrita sã e escorreita e o prazer da leitura, seria um livro difícil de saborear. A pergunta que se levanta sempre, e levanta a cada um destes casos bicudos, é porque é que somos assim. Não deveria a inteligência e o bom senso, que temos e os bichos não têm, fazer de nós seres mais solidários e menos egoístas? Deveria, lá isso deveria, mas de facto não é. Desde os massacres em massa feitos à escala industrial até ao discreto massacre feito dentro de quatro paredes entre duas pessoas, parece não haver fim para o que inventamos para fazer mal uns aos outros. Mas a dicotomia maniqueísta entre o bem e o mal não é tão evidente como possa parecer. Na verdade, cada algoz é uma vítima, pois não há ninguém, mesmo a pior das criaturas, que não gostasse de ser de outro modo. E na maioria das vezes o torturador foi torturado anteriormente e está apenas a vingar-se na pessoa errada, ou a comportar-se pelos exemplos que teve. Não cabe aqui, e a Ana não fez, estabelecer juízos de valor ou procurar causas. Aliás, uma das muitas qualidades destes textos é não julgar os envolvidos. Os factos são assim, as origens são assado, mas todos têm as suas razões, mesmo quando não têm razão nenhuma. A Ana não avalia; propõe. Cabe a cada um de nós tirar as ilações que a nossa ética nos sussurra. Agora, mais lágrima menos suspiro, dá muito prazer conhecer por dentro estas pessoas, estas vidas; é como espreitar para o vizinho, que pode não ser um bom vizinho, mas é um espécime muito particular desta variedade infinita de seres humanos.

Maria Clara, a que se sujeita a tudo, a Anónima que matou o prestes-a-ser-assassino, Fernanda a trabalhadora incansável, o homem que é como se fosse uma mulher, Irene corajosa, Angelo vingativo, Regina alcoólica, dissimulada e má pessoa, a Sandrine violada,


Jacinta que quer um filho melhor do que o pai, Joelzinho crescidinho, Ivone com o filho agarrado, Raquel a ex-magra, Vanda cujos pais moravam juntos, uma raridade, Eduardo adoptado, Eva, amiga internética de Eduardo, Xana, criada pela madrinha e virgem aos 27 anos, Natália casada menina, Violeta rezingona, Linda, que não queria mais nenhum homem, Mónica assistente a precisar de assistência, Irene a ver os Manéis e Marias, Tita pita, Odete que aos 13 anos já servia, Maria em directo na TV, Sandra tentadora para todos os lados, Nívea, paranaense, filha de Aparecida, Hortense à procura do rio, Zé Paulo, duplo pai ao mesmo tempo, Carolina mãe hipocondríaca, Paula desconfiada, Ema, quiçá biográfica.

Mil mundos. Um mundo para apreciar, pensar e, quiçá, conhecer melhor o paradoxo da nossa espécie.

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José Couto Nogueira


Porquê?

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Maria Clara mergulhou o cabelo na banheira, sentindo o ruído ondulante do silêncio a instalar-se ao submergir completamente. Antes, pensou, numa sexta à noite não estaria a tomar um banho de espuma, iluminada apenas por velas, assim, sozinha. Tinha-a encantado tanto, com a sua doçura e gentileza, antes era tão afectuoso e atento às suas pequenas solicitações… se nada mudara, porque mudara tanto? O tempo parece parar aqui em baixo, como se conseguisse estabelecer a ordem perdida Sentiu a sua ondeante paz quebrada, algo tinha caído à água e instintivamente ergueu-se. Acocorado, junto de si, estava o marido tenta manter a calma retirando a espuma da cara, esboçou-lhe um sorriso retraído. – Chegaste cedo. – Vim só trocar de roupa – respondeu enquanto brincava com um caracol do cabelo dela – tens de ter mais atenção querida, a camisa tinha uma nódoa na frente e andei numa linda figura o dia todo – puxou-lhe o cabelo antes de o soltar. –... Não jantas, então? – Procurou a medo com um olhar fugidio a nódoa que adivinhava não existir. – O meu conceito de jantar fica um pouco aquém das tuas invenções gastronómicas. – Gostava de ir contigo, Samuel... é fim-de-semana, conversávamos... Precisamos. – Ficas mal à luz das velas – disse, empurrando outra vela para dentro da água, ao sair. Com a luva de crina, sem sequer colocar sabonete, esfregou. Esfregou com muita força. Sentia-se suja, irremediavelmente suja. Precisava limpar de si tudo quanto acontecera. Retirou a tampa do ralo, do fundo da banheira, ao ouvir a porta da rua bater e ficou a ouvir o gorgolejar da água a escoar. Antes, pensou, adorava os meus cozinhados. Se algo mudou, foi porque, com o tempo, melhorei a mão. Apertou o roupão, com força, na cintura e olhou-se de perfil ao espelho. Antes, pensou, chamava-me Maria Clara, a minha luz clarinha... agora, sou a vaca magra. Ao ajeitar a toalha em volta do cabelo, recordou com asco a noite anterior.


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Ele não vai querer falar sobre ontem Olhou a sua imagem bonita demoradamente ao espelho. Foi desde a promoção, o Samuel nunca aceitou. Passando o creme pelo rosto, recorda a cena que Samuel lhe fez no «Subtilmente», na semana anterior. Que vexame tão grande, nunca mais vou conseguir olhar de frente a Irene e o João... Passou pela sala, ligou a TV, espreitou o correio e foi até à cozinha. Mais um serão sozinha. Abriu a porta do frigorífico e ficou a analisar os variados ingredientes. O que faço? Adoro cozinhar, mas não só para mim. Tirou uma caixa plástica com uma posta alta de bacalhau cozido, o frasco de azeitonas e retirou um ovo da porta. Comeu uma azeitona verde e foi escolher umas batatas para descascar. Sorri ao recordar os comentários que ouve recorrentemente no trabalho: «Sorte não precisar fazer dieta, a chefe!» ou ainda: «Com o que a Dra. come num dia eu levo a semana toda e nem chego às mesmas calorias...» Abriu uma garrafa de vinho. Das que estavam guardadas. Porque não...? Desfiava o bacalhau e recordou porque Samuel não o tinha jantado na véspera. Aquela mulher... uma aversão apoderou-se dela e deu um golo largo de vinho e depois logo outro. O Samuel não podia ter-me feito isto, não isto. Sentia-se tão humilhada... com uma colher retirou o ovo antes que ficasse bem cozido, gostava da gema ainda húmida, mesmo antes de solidificar. Mesmo no ponto, pensou, ao ouvir o relógio do fogão anunciar os 6 minutos que marcara, quando já quebrava a cozedura passando por água corrente. Anacleta, chamava-se ela... deve ser nome de guerra, ninguém se chama assim. Sabia que Anacleto/Anacleta, do nome grego anaklesis, significava «chamado para o serviço». Há meses que Samuel a assediava com a ideia. Na verdade, desde o princípio de casados sempre fora falando, mas Maria Clara fazia que nem entendia, ultimamente, em vez de lhe chamar surpresa, dizia-o com as letras todas: queria trazer outra pessoa para o leito conjugal, para apimentar as coisas, esclarecia insinuante. Um dia, Maria Clara escarnecera e perguntara se a surpresa seria outro parceiro e ganhara uma valente bofetada, porque claro, ele não era desses! Mas Samuel não lhe perdoara a piada inteligentemente formulada. Desde esse dia foi mais insidioso, até que ontem... As lágrimas escorriam pela cara e os olhos ardiam-lhe da cebola, mas não era da cebola. Acabou por se abandonar num choro, primeiro trémulo, depois convulso. Eu não posso deixar a noite de ontem passar em branco, pensou, eu não queria ter participado naquele menáge... Limpou a cara no pano da loiça e, assim que respirou fundo e se sentiu mais refeita, colocou diligentemente o pano na máquina de lavar e tirou outro da


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gaveta. Juntou com as duas mãos as cascas das cebolas, batatas e do ovo que se juntaram na bancada e com o pé abriu a tampa do caixote. Atirou com força as cascas para cima das algemas cromadas que, do fundo do balde, pareciam troçar dela. Se não me tivesse preso antes daquela pistoleira entrar, eu teria saído do quarto. Deitou o azeite na caçarola com os dentes de alho esmagados. Uma nova lágrima escorreu-lhe solitária pela bochecha corada. Sentia-se tão envergonhada só de o lembrar... Debatera-se visceralmente ao simples toque daquela mulher no seu corpo imobilizado, mas Samuel estava a magoá-la para que parasse. Como costumava fazer: primeiro foram só uns beliscões quando queria que se calasse, nada de importante, pior era o que dizia... depois foi evoluindo, uns encontrões aqui e ali, uns apertões ou, como gostava especialmente de fazer, o braço torcido atrás das costas enquanto lhe murmurava os piores despropósitos ao ouvido, mas bater-lhe?, não, o marido nunca lhe tinha batido. Mordera-lhe a mão e ainda lhe doía a perna com o pontapé com que a presenteara, mas as suas palavras ainda lhe ecoavam no mais fundo do seu ser e isso, tinha doído muito mais que a negra azulada que ficara... isso e... Bebericou mais um pouco de vinho enquanto mexia a cebola que ficava lourinha. Inspirou profundamente. Cozinhar acalmava-a tanto... Samuel tinha passado todo o tempo da noite anterior dedicado, com toda a ternura e atenção que sabia ter, a humilhá-la, entendia agora. O tempo que empregara a fazer aquela mulher feliz, de formas que nem se lembrava de o ver agir consigo, só serviram para reforçar veementemente o quanto a estava a ignorar, ali ao lado, prisioneira no seu pior pesadelo. Juntou o bacalhau e temperou demoradamente até acertar no ponto exacto. Era uma perfeccionista nata. Samuel odiava isso nela, simplesmente porque, sabia, Maria Clara era melhor. Foi pôr a mesa na sala e concentrou-se na notícia que ouvia na reportagem da TV. Uma mulher com máscara, na penumbra e com voz de roberto relatava como fora abusada pelo companheiro. Coitada, comigo não é assim. Comigo não é assim? Ao chegar à cozinha desligou o fogão e, enquanto fatiava o ovo, franziu o sobrolho. Será...? Deitou umas azeitonas, polvilhou a salsa picada sobre o prato e ocorreu-lhe que também com ela, era assim. Sentou-se sem jantar, sem escutar as notícias. Antes, só queria, ter a sorte de um amor tranquilo, com sabor de fruta mordida, como cantava a Cássia Eller. Fruta, mas da casa... A verdade que acabava de tomar consciência era demasiado avassaladora. Se ontem foi como foi, que posso esperar do amanhã? Recordando-se do panfleto da associação junto da correspondência, Teria algum vizinho propositadamente colocado na minha caixa...? Saberiam...? Levantou-se e foi buscá-lo. De caminho trouxe o telefone. O bacalhau à Gomes de Sá arrefecera quando finalmente ligou o número.


Super-homem

banho. Calçou os chinelos e de caminho olhou para o despertador na mesa-de-cabeceira. Uma e meia. A Graça devia estar a chegar, este emprego no restaurante tinha um horário tramado, mas não havia forma de a fazer mudar. Adorava aquela mulher! Dava tudo por ela. Olhou outra vez para o relógio quando reconheceu o barulho do carro a estacionar na rua, sorriu ao pensar na surpresa que lhe poderia fazer. Despiu-se rapidamente, tirou da segunda gaveta um dos lençóis vermelhos de cetim, sacudiu-o vigorosamente, colocou-o sobre os ombros e, olhando--se ao espelho da cómoda, sorriu ao pegar num batom vermelho da Graça, desenhou no seu peito depilado a letra do Super-homem. Raiava o irónico, ser o Super-homem, logo ele, cuja alcunha desde a secundária era «o rato», fosse pelo seu ar de fuinha, fosse por ter sido sempre apontado como o cobardolas de serviço. Aquela hora não haveria perigo de um vizinho o ver naqueles preparos e, abrindo a porta do apartamento, ficou à espera, no denso escuro silêncio da noite, na frente do elevador. Ouviu distintamente a chave na porta da entrada e os passos da Graça nos primeiros degraus. Morto de riso, ao ouvir o motor do elevador, levantou um braço e perfilou-se em pose, qual Super-homem prestes a levantar voo. Para seu grande espanto, não era nem um pássaro, nem um avião... era o elevador pausadamente a passar por si, para só se deter no segundo andar. Coitada, apercebeu--se rapidamente, vinha tão cansada que se enganara no botão, mas baixou o braço ao ouvir os passos no andar superior e o som dos nós dos dedos a bater suavemente numa porta. Coitada, pensou, esqueceuse da chave e nem percebeu que está no segundo andar... correu descalço pela escada gelada para a avisar, mas estacou subitamente no patamar intermédio ao ouvir distintamente a porta abrir e o sonoro beijo que tão bem conhecia. Sem poder crer no que todos os seus sentidos lhe gritavam, ficou ali, no escuro, tacteando a parede enrugada segurando-se quando a vertigem o acercou e a náusea subiu, permaneceu ali, colado à parede, de capa de cetim desfalecida, o cheiro do seu próprio suor frio e o tão familiar, intenso e enjoativo fedor a frito mal disfarçado com perfume, escutando a mesma frase, a ferir-lhe os ouvidos até à alma, aquela que lhe estava destinada, a mesma que lhe sussurrava quando acabavam de fazer amor. Estava na casa de banho a esfregar o batom manhoso que se recusava sair do

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Ângelo sabia, desde aquela noite que acordou com vontade de ir à casa de


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peito quando ouviu a chave na porta. Compôs o casaco do pijama, endireitou os ombros caídos e saiu com um sorriso franco. Beijou--a e ofereceu-se para lhe aquecer o leitinho enquanto tomasse um duche reparador. Não, ela não sabia que ele sabia, ela nunca iria saber o que ele sabia. Lamentava-se agora por ter urinado momentos antes, agora tinha pouca vontade, sorriu olhando para o copo enquanto fechava a abotoadura das calças do pijama. Completou-o com o leite morno. Na manhã seguinte, ao sair da cama, Graça enrolou estupidamente o pé no tapete e caiu. Bela maneira de começar o dia! Ao lavar o cabelo comprido acabou a botija do gás chamou pelo Ângelo, mas já tinha saído e teve de acabar de tirar a espuma daquele enorme cabelo com água fria. Ah!, que grande azar! Não deveria ter acabado tão depressa, ainda há pouco o Ângelo a tinha trocado... depois, ao fazer a torrada do pequeno-almoço apanhou um choque eléctrico que a assustou, de cabelo molhado e tudo, que perigo!, não fosse o contador ter disparado e ela ali sozinha, o que poderia ter acontecido? Quando chegou ao carro não podia acreditar! Não, não era possível! Deu a volta ao carro estupefacta. Abriu a bolsa e ligou freneticamente para o marido. “Não podes adivinhar o que me está a acontecer... – proferiu já em lágrimas – Ângelo!, tenho os quatro pneus em baixo e grafitaram o meu carro dos dois lados, num sítio diz «cabra» noutro «vacarrona»!, que inconsciente iria fazer uma alarvidade destas?” Ângelo sabia. Exactamente há 8 meses e 26 dias. Sim, contara-os. Hoje levava-a ao hospital para tirar o gesso, coitada, de perna partida, sem conseguir andar de canadianas, por causa da queimadura no pulso na mão esquerda... sempre atencioso, aconchegava-a no seu colo até conseguir, já lá dentro, uma cadeira de rodas. Sorriu-lhe. A Graça andava tão trapalhona, tudo lhe acontecia, não há que não lhe chegue!... Confusa, explicava atabalhoadamente ao médico o estúpido acidente, como caíra, como se queimara, como se deixara ir abaixo naquela inexplicável maré de azar, se podia tomar alguma medicação que a ajudasse a superar essa fase, uma vez que ultimamente só lhe apetecia chorar. Ângelo estava sentado a seu lado, limpou-lhe a lágrima fugidia quando Graça não a conseguiu evitar e, sempre interessado, perguntou ao médico qual a melhor forma de a poder ajudar, no seu melhor e mais preocupado ar. Mas o médico achouo excessivamente enternecido. Tinha esta profissão há anos, para que não reconhecesse os sinais: a mulher estava a mentir, teria sido ele a empurrála, certamente. Chamou a assistente social sem que percebessem, pediu que sinalizasse aquele casal e ficasse de olho, eram acidentes demais, mesmo para a mais alienada das distraídas! Tinha razão, a assistente social veio ter com ele mais tarde com o processo da senhora, nos últimos meses tinha tido um leque diversificado de lesões estranhas, definitivamente era um caso que lhe chamava a atenção. Não era habitual tanto incidente, mas ainda assim não se enquadrava num caso comum de violência doméstica. A senhora podia ser genuinamente desastrada! Há três meses tinha tido uma entrada na urgência com uma


grave inflamação por se ter enganado e posto nos olhos gotas de lixívia em vez de soro fisiológico. Era daquelas situações… foi ela que colocou as gotas, um marido abusivo não o poderia ter feito!, certamente a vítima cerraria os olhos, debater-se-ia e não havia notificação de quaisquer escoriações, mas ainda assim, como a lixívia foi parar ao frasco do soro?? Algo não lhe cheirava, também ficou intrigada, via-se cada forma mais perniciosa de se exercer violência!

Ângelo ficou completamente destroçado. Ninguém poderia esperar! Certo que a Graça andava já há um ano com aquela depressão sem sentido para ninguém, afinal tinha tudo! Até andava melhorzinha com aquela nova medicação, mas devia estar muito indolente e dopada para não perceber que o elevador estava avariado. Graça tinha caído no poço do elevador e um vizinho devia ter tentado ajudála... esse safou-se, o corpo imóvel de Graça serviu-lhe de amortecedor na queda, mas estava internado em coma. A assistente social pegou no telefone e ligou para o colega médico, pediu-lhe para ver imediatamente o e-mail que lhe estava a enviar. Um link para uma notícia de um brutal acidente, acidente...? Combinaram, logo ali naquela conversa, falarem à polícia, afinal, não podiam ficar calados, eles tinham de abrir um inquérito!

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Chegados a casa, instalou-a no sofá e dando-lhe o comando da televisão foi fazer chá. Tocaram à porta e foi ver quem era. Fechou o rosto ao avistar no ralo o sorriso nervoso do vizinho de cima, mas endireitou os ombros e não hesitou em convidá-lo a entrar. Vinha saber da vizinha e trazia uns pastéis de nata num gesto de cortesia. Cerrou os punhos ao vê-lo limpar os pés no seu capacho, que vontade de lhe pregar uma valente carica no olho, ele ia ver só como a sua alcunha não era «o corno»!, ao invés, gentilmente convidou-o a juntar-se-lhes ao chá. Sozinho na cozinha, amaldiçoou o momento de ter dado o comando à Graça, o som ambiente tornava indecifrável a conversa e não conseguia ouvir nada. Enraivecido, carregou ainda mais a seringa com o laxante que suavemente injectou aqui e ali nos pastéis. Chegado à sala com um simpático tabuleiro, instalou-se aquele incómodo sorriso amarelo, com a conversa da praxe sempre igual. Teve muita dificuldade em se controlar ao ver o emplastro sentado no seu canto no sofá. Ângelo sabia que ele ocupava o seu lugar, mas vê-lo ali, àquele emplastro, a esfregar as mãos, alarvemente sentado de perna a abanar no seu local favorito, era demais! Congratulou-se ao pensar que iria estar sentado noutro sítio o resto da noite... Bom, um e outro!, rejubilou ao imaginar a pobre Graça, que ultimamente andava com tantas cólicas e ainda de gesso não conseguia correr à justa necessidade da sua súbita e imperiosa vontade! Coitada, andava verdadeiramente humilhada com tantos percalços pelo caminho... ainda bem que o Ângelo era um verdadeiro anjo e sempre vinha em seu socorro, dizia sempre, não seria qualquer marido que faria o que ele fazia por ela!


Índice Prefácio de José Couto Nogueira Porquê? Ou ele ou eu A culpa é dela, pôs-se à frente! Pancadas de Amor Quem ri por último Super-homem Má Rês A Hora do Nada Arroz Doce Palavras Ocas O caminho do meio Nem sempre nem nunca A culpa é minha Cyber Édipo Bomboca de morango Toxina Medo de falhar A última dor Espelho Luto em vida Dia dos Namorados

13 19 25 31 37 43 49 53 57 61 65 69 73 77 83 89 95 103 109 113

(ou o Dia-Oficial-do-Manel-levar-a-Maria-à-rua)

123 129 135

Tipo, cena marada Collants de freira Dia da Mulher 18 - A entrevista a Ana Martins pela Torre de Gente

7

Ex-aequo A cada ausência tua, eu vou-te amar Atravessar ao pé de mim O caçador Era uma vez... À primeira todos caiem

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EPÍLOGO A lenda dos olhos roxos (Sol de Inverno)

181

(ou o Dia-Oficial-da-Maria-sair-com-as-outras Marias)


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Para além do mal querer de qualquer vítima, há e haverá sempre, a perene certeza que existe o momento de dizer: BASTA!

Violência doméstica não é só quando o clube perde e o Manel bate na Maria! Cada conto deste livro é pura ficção, se alguma personagem, evento ou circunstância lhe parecer familiar, não é pura coincidência, é apenas porque as histórias aqui contadas – contos curtos, incisivos e perturbadores – realmente acontecem. Ao nosso lado, debaixo do nosso nariz, onde menos esperamos, da forma mais perniciosa e inesperada. Ana Martins


Entrevista de Diego Martínez Lora a Ana Martins