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edição 04

R$ 9,90

vila nova revista


apresentação

índice

A SOCIEDADE SÃO BENTO

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estemunha de um tempo em que a crise moral se exacerba a limites jamais vistos e em que a degradação cultural se aprofunda de forma assustadora, a Sociedade São Bento ganha vida sob inspiração e proteção de Deus através de Maria Santíssima, invocando o auxílio e guia do santo monge que recebeu e recebe o justo título de Pai do Ocidente. Coube a São Bento e a sua Ordem a árdua missão de resguardar o tesouro intelectual da humanidade em um período de barbárie ocasionada pela queda do Império Romano, e foi também em razão do vigor dos beneditinos que o Ocidente vivenciou o mais esplendoroso florescer civilizacional da história, produzindo a mais alta filosofia, as mais belas artes, a mais estonteante arquitetura e as mais respeitáveis ciências. O santo monge legou-nos um mundo em grande parte ordenado ao sumo bem e, portanto, coerente com os anseios e dignidade do homem. A Sociedade São Bento foi formada em meados de 2010, na cidade de Campina Grande-PB, por seis estudantes de Direito da Universidade Estadual da Paraíba – contando hoje com três outros membros e inúmeros amigos – e desempenha uma série de atividades que vão desde cursos de Doutrina Católica, estudos de filosofia e literatura e a propagação da devoção mariana segundo ensina o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, de S. Luís de Montfort. Sob o patrocínio do Pai do Ocidente e em conformidade com suas forças, a Sociedade São Bento busca, então, contribuir para a necessária restauração do mundo contemporâneo, de modo que a filosofia e a literatura sejam meios eficazes para o reto emprego da razão; que as artes tornem a refletir como outrora a beleza infinita do Altíssimo; que a arquitetura possa refletir em suas formas a harmonia de uma sociedade em busca da perfeição; e que as ciências sirvam de auxílio para compreensão do mundo e do homem, conforme a dignidade deste e dos direitos inalienáveis de Deus. Que a revista Vila Nova sirva a estes propósitos.

Assinatura Anual da Revista Vila Nova quatro edições:

Campina Grande - R$ 32,00 Brasil - R$ 44,90 Através do site: www.revistavilanova.com/assine

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Pág. 08

Editorial

Pág. 10

Opinião - Uma democracia sem povo – Carlos Ramalhete

Pág. 12

Esporte - Faculdade para torcedores – Sávio Mota

14 página

r evista vila nova Editores: Diego Aires Mateus Mota Lima Sávio Mota Taiguara Fernandes de Sousa

Diagramação: Rodrigo Cruz Tiragem: 3.200 exemplares Mês de publicação: outubro de 2012

Revista Vila Nova LTDA, CNPJ 15.193.177/0001-29, Rua Sólon de Lucena, 117, Centro, Campina Grande – PB, CEP 58.400-280 A Revista Vila Nova não se responsabiliza pelos conceitos emitidos nos artigos assinados e anúncios a que dê publicação. Pessoas e empresas que não constem neste expediente não têm autorização para falar em nome da Revista Vila Nova

Política - A cultura antes da política – Bruno Garschagen

Pág. 20

Saúde - Arte e Técnica – Adriano Murta Maia

Pág. 24

Campina 150 anos - Mudanças que vão além – Sávio Mota

Pág. 30 Reportagem - Ao encontro de Nelson Rodrigues – Rodrigo Gurgel. – Thiago Moraes

Reportagem - Novo código penal. Mudança para pior – Sávio Mota.

38 página

Entrevista – Hélio Beltrão

Pág. 45 Moda– Eu vejo Flores - por Pág. 58

Nº de publicações ao ano: 4 (quatro) Site e contato: www.revistavilanova.com contato@revistavilanova.com

Pág. 18

Pág. 34 Sociologia - O tempo Tríbio

Fotografia: Kalina Aires Soares Capa: Kalina Aires

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Clóvis Aladim Empreendedorismo Conselho administrativo e empreendedorismo - Marcos Citeli

52 página

Reportagem Be a Mad Man - O que os Homens têm a aprender com Don Draper - Taiguara Fernandes

Pág. 60 Feminilidade - Naturalmente graciosa – Aline Rocha Brodbeck

Pág. 65 Gastronomia - Receitas rápidas – Renan Oliveira

Pág. 68 Internacional - Foro de São Paulo – Graça Salgueiro

Pág. 71

Catolicismo - O que é a Fé – Cleiton Robson

Pág. 81 Literatura - A abolição do

homem – Alessandra Lass

Pág. 82 Cinema - O Hobbit – André Brandalise

76 página

Música - O homem sem fim - Mateus Mota Lima


editorial

O

Brasil enfrenta um dos momentos mais dramáticos de sua história. O julgamento dos envolvidos no esquema do Mensalão poderá redefinir o futuro político do país, com largas conseqüências para as instituições da nação. Observando o julgamento, ressoa alto uma pergunta: como foi possível? Como foi possível um esquema tão engenhoso, tão atentador à independência dos Poderes, tão ardiloso e, ao mesmo tempo, tão asqueroso? Pareceria até que houve acobertamento superior, acobertamento do alto... Pareceria que os julgados não são os únicos envolvidos, que mais coisa está por vir. E, de fato, já há muito vindo à tona. A condenação dos peões está fazendo com que abram a boca e nem o cabeça da Presidência da República à época é poupado – quem dizia “não saber de nada” parece que não só sabia, como atuava diretamente para todo o esquema dar certo. Estamos diante do Watergate do Brasil. Nos EUA, coisas como o Mensalão teria derrubado um

Presidente, como Nixon. No Brasil, ele é reeleito. A que ponto chegamos? Quanta decadência das instituições, daqueles que deveriam dirigir a nação... E tudo, absolutamente tudo isto, só é possível por um fator muito simples: o Brasil negou sua identidade e, negando quem é, ficou sujeito a uma maré de infortúnios, de oportunistas, demagogos, gente incompetente que afundou este país em uma das maiores dívidas de sua história – não só a dívida interna, que já chega aos R$ 2 trilhões, mas a dívida moral. Não somos apenas o país do Mensalão, somos também um país que aborta seus próprios filhos por terem uma deficiência física. Negamos quem somos. E com isso negamos a tudo. A capa desta edição faz referência exatamente a esse vácuo, a este vazio moral e institucional pelo qual passamos. O Brasil virou o quê? Melhor: vai virar o quê?

A quarta edição da Revista Vila Nova traz uma entrevista de peso. O economista Ubiratan Jorge Iorio, que já esteve no quadro do Banco Central do Brasil e atualmente leciona na UERJ e na Fundação Getúlio Vargas, a FGV, vem nos falar sobre a crise econômica mundial e seus reflexos aqui no Brasil – além da nossa própria crise econômica, que não é pequena. O que se pode esperar do futuro econômico do país? E a liberdade, onde está? Leiam nas nossas páginas de entrevista. Em comemoração ao centenário de Nelson Rodrigues, grande jornalista e dramaturgo brasileiro (conservador, inclusive; suas peças ironizavam com as loucuras destes “tempos modernos”, mas acabaram sendo propagandeados por inimigos como “apologia” destas mesmas loucuras), o crítico literário e escritor Rodrigo Gurgel nos brinda com um belo texto sobre Rodrigues, sua obra e sua vida. E outro grande pensador brasileiro, também conservador e profundo conhecedor do nosso Brasil verdadeiro, do nosso Brasil profundo (não esse Brasil que nega quem é, do qual falamos acima), é contemplado nas páginas desta edição da Vila Nova. O articulista Thiago Moraes nos traz um artigo – poderíamos dizer até mesmo um “mini-ensaio” – sobre um ponto crucial do pensamento do sociólogo e escritor Gilber-

to Freyre, talvez uma das maiores mentes que este país já produziu. Imperdível para quem quer se nutrir um pouco do pensamento genuíno de nossa nação e não apenas de chavões e esqueminhas prontos que todos repetem em certos meios acadêmicos... Mas a Vila Nova vem fazer também uma denúncia. O Brasil de verdade, o nosso Brasil, enfrenta hoje uma grave ameaça: um novo Código Penal está prestes a ser aprovado no país, uma lei absurda, que favorece criminosos e traficantes de droga, uma lei que acha mais grave abandonar um passarinho do que matar uma criança. Denunciamos não só os absurdos do novo Código, que não reflete em nada aquilo que precisamos e aquilo que é certo, mas também a tentativa escusa de tentar-se aprovar este lei de loucos na surdina, sem o conhecimento da população, que certamente as rejeitaria. Esse é o Brasil que nega quem é...não é o nosso Brasil. Tempo de eleições, tempo de política e o Carlos Ramalhete nos traz um magistral artigo sobre a democracia no Brasil. Quem é o verdadeiro inimigo da democracia em nosso país? A quarta edição da Revista Vila Nova está imperdível. Tem isso e muito, muito mais. O time de colunistas que você já conhecia foi agora ampliado com mais nomes e mais talentos. Tudo para fazer a revista que você quer, a revista que tem conteúdo de verdade, o conteúdo que precisamos. Leia. Atualize-se. Resista.

Os Editores.

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opinião

UMA DEMOCRACIA SEM POVO Carlos Ramalhete

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teoria da democracia diz que é o povo que escolhe seus governantes. Mais ainda: o povo os escolheria entre representantes de diversos partidos, que proporiam soluções diferentes para os problemas da sociedade sem deixar de preservar seus valores essenciais, que todos respeitariam. No Brasil, contudo, não é este o caso. Ao contrário: os valores essenciais têm o acordo de toda a sociedade, menos daqueles que deveriam representá-la (os políticos) e espelhála (a mídia). Com raríssimas exceções, a mídia prega unanimemente uma visão radicalmente revolucionária do mundo, num discurso alucinado que acaba sempre sendo repetido pelos políticos. Afinal, quem poderia se dar ao luxo de tornar-se alvo de uma campanha de mídia, de acusações absurdas que, em última instância, podem ser resumidas em concordar com o que pensam os eleitores?! No fim das contas, as- Este arremedo sim, o que se tem é um samba de de democracia, uma nota só no discurso político na verdade, não brasileiro; todos os partidos dizem tem por fim dar a mesma coisa, variando apenas voz ao povo. no entusiasmo com que concor- Pelo contrário, dam. Todos são a favor de tudo o seu objetivo é que a mídia prega, e contra tudo calar esta voz... com que os eleitores concordam. É um fenômeno curiosíssimo, que só se perpetua devido às peculiaridades do sistema eleitoral brasileiro. Os partidos – cujos programas são peças de ficção, enfileirando lugarescomuns para satisfazer as exigências legais, e só – dependem de verbas e de tempo de propaganda, por sua vez dispensados proporcionalmente à parcela de poder que eles já têm. Assim se garante que não haja alternância e se dificulta a entrada de vozes novas. Os candidatos são forçados a pertencer a algum partido, e o voto de legenda faz com que a escolha de partido conte mais que a aprovação do eleitorado. Este arremedo de democracia, na verdade, não tem por fim dar voz ao povo. Pelo contrário, seu objetivo é calar esta voz, como já pode ser percebido nesta etapa do processo revolucionário. Já começou uma campanha pela criminalização de opiniões divergentes da “verdade” única pregada pela mídia e pelos políticos; é uma continuação do processo de demonização do conservadorismo, em curso há algumas décadas nas escolas

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CARLOS RAMALHETE é professor e colunista da Gazeta do Povo, do Paraná

e faculdades. Em breve, as opiniões mais comuns entre a população, que teoricamente a democracia deveria representar, estarão fora da lei. Passeatas do “orgulho gay” e das “vadias” tomam as ruas, e ai de quem protestar! A mera ideia de organizar uma passeata contra esta inversão de valores já daria calafrios de medo a qualquer um que dependa do voto. Não por não contar com apoio popular, mas por este ser perfeitamente irrelevante. Na democracia brasileira, o eleitor é quem menos importa. A campanha midiática que seria promovida contra um candidato abertamente conservador jamais diria exatamente a razão de tanto ódio, mas deixaria claro que se trata de um monstro, de um agressor violento, de um chutador de gatinhos! Ela impediria que sua campanha saísse do chão, faria com que cessassem as contribuições e, talvez, pudesse mesmo levá-lo a ser punido judicialmente pelo crime de procurar representar quem o elege. O noticiário político, que poderia deixar mais claro à população o processo em curso, na prática não existe. Existem, sim, notícias sobre escândalos, sobre políticos que recebem polpudas mesadas de Fulano ou Beltrano e CPIs compostas por bravos justiceiros... que pouco depois são pegos com a mão no mesmo pote. O objetivo da substituição do debate político pelo noticiário escandaloso é denegrir ainda mais os representantes populares, fazendo com que eles percebam claramente a necessidade de manter-se do lado da mídia. De, na prática, abandonar a população e seus valores. Afinal, na democracia brasileira o inimigo é o povo.


imagem: www.uol.com.br

esporte

Faculdade Sáviopara Mota torcedores Sávio Mota

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orcedor não é um ser apenas emotivo. Na verdade, ele não deve ser assim. Ao contrário dos chavões que circulam por aí, o torcedor não deve ter justificadas todas as suas ações sob a desculpa de que “torcedor é assim mesmo, a emoção fala mais alto”. Os torcedores interferem diretamente na vida de seus clubes através de suas ações e essa mania de agir impulsivamente atrapalha muito. É por agir sem pensar que alguns jogam objetos no gramado, invadem treinamento para ameaçar jogador e desestabilizam sua própria equipe durante uma partida. Os exemplos de jogadores “crucificados” injustamente pela torcida são inúmeros. O erro começa com a incapacidade de ver as nuances de uma partida. Para muitos o futebol é visto apenas de acordo com o placar do jogo: se o time está ganhando, todo mundo joga bem, mas se está perdendo sobram xingamentos até para os jogadores com história consolidada no clube.

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Com esse tipo de comportamento, os torcedores passam a não perdoar os erros que acontecem durante os jogos e a vaiar ou “pegar no pé” dos jogadores quando a coisa não está dando muito certo (leia-se: quando o time não está ganhando). Atualmente o comportamento mais usual dos que freqüentam os estádios ou acompanham com mais afinco o futebol no Brasil é o de cobrar impiedosamente seus jogadores como se o fato destes receberem salário para atuar pelos clubes fizessem deles seres humanos obrigados a acertar sempre. O fato de estarem pagando pelo ingresso ou por qualquer ajuda ao clube já “sobe à cabeça” da maior parte dos torcedores atuais, que se transformam em uma espécie de mistura de patrão chato com dono

de escravos do século XVIII. Neste meio não é incomum ouvir frases do tipo: “tô pagando, tenho direito de cobrar” ou “eu xingo mesmo e jogador tem que aceitar porque ele tá recebendo pra jogar”. Some isso à atitude de muitos que vão aos estádios para “descarregar” os problemas do cotidiano e já dá para se ter uma noção de como deve ser irritante a ocasião. É óbvio que com isso eu não quero aqui transformar os profissionais do futebol em pobres vítimas dos “cruéis torcedores”. Existe muito jogador irresponsável e sem vergonha por aí. Porém, há de se concordar que o xingamento a um atleta sem caráter não vai fazê-lo jogar melhor e se corrigir, mas, pelo contrário, vai incentivar nele o desdém e a indiferença pelo clube que defende. Cobrança tem forma e momento para acontecer e durante uma partida ou um treinamento da equipe definitivamente não funciona. Um outro exemplo interessante de como os “torcedores emotivos” atrapalham é quando jovens jogadores começam a entrar na equipe profissional. Sabe-se que quando um jogador é levado das divisões de base do clube até o elenco profissional ele geralmente tem um “choque” de realidade e leva um certo tempo para se adaptar na categoria acima da que ele estava acostumado a jogar. Por isso, é normal que estes jogadores mais jovens entrem aos poucos no time titular, até que estejam totalmente habituados com o nível profissional. Entretanto, a quantidade de torcedor tolos que não entende isso é enorme. Se um desses jogadores vai mal na partida, esse tipo de torcedor não releva a atuação por conta da inexperiência do atleta e não percebe que com confiança e um bom trabalho da comissão técnica aquele pode se transformar em um importante jogador para o elenco do seu clube. Porém, ao invés de compreender isso, o torcedor mete xingamentos para cima do jovem atleta, prejudi-

cando o futuro deste no seu próprio clube. A falta de paciência e o imediatismo são atitudes que prejudicam um trabalho no futebol, seja em clubes ou em seleções, e são inúmeros os exemplos de trabalho que tinham tudo para dar certo e que foram prejudicados por excesso e desproporcionalidade nas cobranças e nas críticas de torcida e dirigentes. Outro fator que pesa contra uma parcela considerável dos torcedores é a falta de conhecimento das funções dos jogadores dentro de uma equipe. Muitos, embora acompanhem com afinco o futebol, não conseguem compreender as funções táticas dos atletas dentro de um time. Um exemplo clássico no futebol brasileiro é a crítica constante que se faz aos laterais. No Brasil muitos pensam que o lateral é uma figura que tem que estar a todo momento no ataque, quando na verdade ele deve ser antes de tudo um defensor, já que complementa a linha defensiva de um time e só pode avançar para o ataque quando seu setor estiver seguro - em geral quando alguém estiver fazendo a cobertura de defesa no seu lado. E a falta de percepção tática não atinge esses torcedores apenas quando analisam individualmente a função de cada jogador, mas também quando a análise abrange a formação tática do time como um todo. Em suma, além de falta de controle das emoções, muitos precisam entender melhor sobre futebol antes de esboçar qualquer crítica ou ação por aí. É necessário ter equilíbrio também na hora de torcer. No fim das contas, o que muito torcedor precisa é de uma faculdade para aprender a não ser nem babaca nem iludido, mas consciente. Se quer ajudar de verdade seu time ou seleção, pense antes de tomar qualquer atitude que possa prejudicá-lo; pense como um bom empresário que, para fazer sua empresa crescer, trata bem e encontra maneiras de incentivar seus funcionários. O futebol, claro, não deve perder a emoção, mas também ele não deve jamais perder a racionalidade. Do contrário ele se transforma em selvageria, em um território de lunáticos.

SÁVIO MOTA é Editor da Revista Vila Nova, acadêmico de Comunicação Social e comentarista esportivo

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reportagem

Novo Código Penal: mudança pra pior

O anteprojeto do Código Penal sugere a liberação do consumo de drogas ilícitas.

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m geral, as pessoas nunca tiveram dificuldades para entender o que é certo e o que é errado. Poucos ou quase nenhum dos brasileiros pode dizer hoje que desconhece o Código Penal em essência. E, quando falo em essência, não atesto, claro, que a quase totalidade dos cidadãos conhece minuciosamente os artigos e parágrafos das nossas leis, mas que a maioria sabe o que é e o que não é proibido por lei. O problema do nosso Código Penal nunca foi o desconhecimento dele por parte da população, mas sim - dada a fragilidade de suas leis - a manipulação e o pouco caso que pessoas de má fé fazem dele. Penas brandas, textos confusos e brechas para a impunidade são os maiores problemas do Código atual. As mudanças no Código são, portanto, necessárias, já que o mesmo data de 7 de dezembro de 1940, tendo mais de 70 anos de uso. Com o passar do tempo é salutar que se faça uma análise completa dos artigos da Lei com o objetivo de excluir erros e adequar cada vez mais suas linhas com o que natural e culturalmente a sociedade brasileira repudia e vê como prática inaceitável. O anseio de modificar o Decreto-Lei 2.848 – Código Penal - partiu mais recentemente de um requerimento do senador Pedro Taques (PDT-MT) para a formação de uma comissão de juristas que ficaria responsável pela elaboração de

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um anteprojeto de Código Penal. O pedido foi aprovado pelo Senado Federal em 10 de agosto de 2011 e em outubro daquele mesmo ano a Comissão teve sua primeira reunião, comandada pelo Ministro do Supremo Tribunal de Justiça, Gilson Dipp, que recebeu a missão de presidir o grupo de juristas durante o tempo de elaboração do anteprojeto. Após alguns meses de reuniões e tratativas, a Comissão de Juristas entregou, no dia 27 de junho de 2012, o resultado do trabalho ao presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP). O anteprojeto passou então a tramitar como proposta legislativa na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania do Senado Federal. Posteriormente a proposta será analisada e colocada em votação nos Plenários do Senado e da Câmara Federal. Porém, apesar de toda a expectativa e esperança do povo brasileiro em relação a uma mudança significativa no Código Penal, o que se pôde ver neste anteprojeto apresentado foi um resultado pífio, para não dizer desastroso. Com tipificações ridículas,

imagem: www.uol.com.br

Sávio Mota

penas desproporcionais aos crimes e artigos confusos e contraditórios, o grupo de juristas conseguiu piorar significativamente o que já não era adequado. Na verdade, a “loucura pensada” pois os juristas da Comissão parecem pensar em uma lógica diferente da realidade - já aparece nas primeiras páginas do anteprojeto, quando a tal Comissão explica o porquê da necessidade de reforma do Código Penal e resume em uma frase o que a norteou durante a confecção dos artigos do anteprojeto: “O direito não é filho do céu. É um produto cultural e histórico da evolução humana”. A frase é de Tobias Barreto, crítico e jurista sergipano do século 19, e mostra logo de cara a arrogância reinante no grupo de juristas, que pensam ser verdadeiros “deuses” a negar a existência de leis naturais e a legislar seguindo apenas suas mais torpes ideias. Do início ao fim, com algumas exceções, o que a Comissão conseguiu foi piorar o que estava escrito e inventar vários outros artigos e parágrafos que divergem completa ou parcialmente do que é culturalmente aceito pelos brasileiros e do que é amparado nos valores fundamentais. A maioria das mudanças e dos desvirtuamentos praticados por eles no anteprojeto aparecem de modo velado - não se sabe com que objetivo. Um exemplo disso é o caso da Eutanásia, descrita no artigo 122 como: “Matar por piedade ou compaixão, paciente em estado terminal, imputável e maior, a seu pedido, para abreviar-lhe sofrimento físico insuportável em razão de doença grave”. A pena para o crime varia de 2 a 4 anos de prisão, porém, na seqüência do mesmo artigo, o parágrafo 1º esclarece que o juiz deixará de aplicar a pena avaliando as “circunstâncias do caso” e “a relação de parentesco ou estreitos laços de afeição do agente com a vítima”, ou seja, na prática o artigo libera a eutanásia desde que seja feita com a ajuda de familiares ou amigos (só não vale ajudar a eutanásia de inimigos). E o mesmo vale para o artigo 123 (“Induzir, instigar ou auxiliar al-

guém ao suicídio”), já que o amigo ou familiar que ajudar a pessoa a cometer suicídio também se livra da pena que poderia chegar a 6 anos de prisão. Talvez um dos maiores absurdos do anteprojeto esteja no que se refere aos crimes de Infanticídio e Aborto. No Art. 124, o Infanticídio é descrito como “Matar o próprio filho, durante ou logo após o parto, sob a influência perturbadora deste”, com pena de um a quatro anos de cadeia; e ainda continua, em parágrafo único, dizendo que “Quem, de qualquer modo, concorrer para este crime, responderá nas penas dos tipos de homicídio”. Na seqüência, os artigos 125, 126 e 127 que definem, respectivamente, o Aborto provocado pela gestante ou com seu consentimento, Aborto consensual provocado por terceiro e Aborto provocado por terceiro, criminalizam a prática do aborto nas três formas, com penas que variam de 6 meses a 10 anos de prisão. Entretanto, um pouco mais à frente, o artigo 128 define que “Não há crime de aborto” se houver risco à vida ou à saúde da gestante, também em caso de gravidez resultante de “violação da dignidade sexual ou do emprego não consentido de técnica de reprodução assistida”, em caso de anencefalia ou quando o “feto padecer de graves e incuráveis anomalias que inviabilizem a vida extra-uterina” - ambos os casos atestados por dois médicos -, ou em caso de vontade da gestante, até a décima segunda semana da gestação, quando o médico ou psicólogo constatar que a mulher “não apresenta condições psicológicas de arcar com a maternidade”. Como se pode notar, assim como nos casos da eutanásia e do suicídio, ao se excluir o engodo e o “jogo de cena”, o que o anteprojeto propõe é a liberação quase total destes crimes. Ora, se o crime de Infanticídio pune com até 4 anos de cadeia quem matar o próprio filho durante ou após o parto e também pune com prisão quando ocorre aborto provocado pela gestante ou quando ela permite, então por que logo depois o Código libera o aborto até 12 semanas, quando um médico ou um psicólogo atestar que a mãe não tem “condições psicológicas” para arcar com a maternidade? E que “vontade” da gestante é essa que é definida pelo médico? Se a gestante não tem condições de cuidar da criança porque não pode dá-la à adoção? Que pensamento cruel é este de matar aqueles que não se pode cuidar ou educar? O aborto em si já é um absurdo, um crime, um homicídio terrível contra um ser inocente e indefeso, mas ele ganha requintes de crueldade quando o justificam pela anencefalia ou pelo fato do “feto ter graves ou incuráveis anomalias que inviabilizem a vida extra-uterina”. Primeiro, é preciso

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imagem: José Cruz/Agência Senado

perceber a falácia presente no discurso. Feto com anencefalia não é um feo sem cérebro, como se costuma discursar por aí. O feto anencéfalo possui má formação ou ausência parcial do encéfalo e sua vida fora do útero é viável e pode durar meses e até anos (casos registrados mostram exemplos de crianças com anencefalia que viveram até 6 anos). Depois, percebam que o trecho do anteprojeto não fala de fetos mortos dentro do útero da mãe, mas sim de fetos que, segundo eles, não possuem chances de vida extra-uterina; desta forma, eles tratam os casos de bebês com anomalias ou má formação encefálica como se fossem bebês mortos, sem qualquer chance de viver, quando na verdade os exemplos reais mostram claramente que é possível que estes vivam por um bom período de tempo (e mesmo que vivessem durante um segundo, nada justificaria o assassinato). Como “contraditório” é o adjetivo mais adequado a

cia de pessoas que pensam com uma lógica diferente da realidade ou se trata de uma espécie de estratégia “morde, depois assopra”, como forma de confundir os que são contrários a práticas horrendas como o aborto? Pequenos benefícios Mas nem tudo que se propõe de novo no anteprojeto é ruim. Um exemplo disso está na inclusão dos chamados crimes cibernéticos – ou informáticos –, com punição para delitos como: danos a dados informáticos alheios (Art. 164), fraude informática (Art.170), violação de programa de computador (Art.174), acesso indevido a dados e sistemas informáticos sem autorização (Art.209) e sabotagem informática (Art. 210). Outras importantes propostas estão na tipificação de crimes contra eventos esportivos e culturais, onde estão descritas as penas para quem promover tumulto ou praticar violência por ocasião do evento (pena de 1 a 2 anos de prisão), para quem falsificar ou fraudar resultados de competições esportivas (penas que varia de 2 a 5 anos), para quem praticar o “Cambismo” - vender bilhete por preço superior ao estampado no bilhete -, dentre outros crimes específicos. Outras propostas absurdas

Presidente da comissão, ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ), Gilson Dipp (à esq.), e relator da comissão, procurador Luiz Carlos Gonçalves (à direit.)

este anteprojeto, nada mais natural que no artigo seguinte (nº 129) se descreva o crime de lesão corporal - com penas que podem chegar a doze anos de prisão - e nele se coloque um parágrafo definindo que as penas serão aumentadas de um terço até dois terços se “a vítima for criança ou adolescente, pessoa com deficiência física ou mental, idoso ou mulher grávida”. Ora, se de um lado o aborto é tratado como “legítimo” e permitido, por que em outros casos o fato de a vítima ser uma mulher grávida interfere diretamente no aumento das penas? Seria esta contradição apenas uma falta de inteligên-

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Queria agora poder falar de outros pontos positivos das mudanças propostas para o Código Penal através do anteprojeto da Comissão de Juristas, mas a quase ausência destes e o espaço curto que tenho para este texto me faz voltar a falar de outros absurdos tremendos presentes nele. Um outro aspecto gravíssimo deste anteprojeto está, por exemplo, na falta de coerência ao se determinar as penas para os crimes. Exemplo interessante disso pode ser encontrado na fala do presidente da OAB, Ophir Cavalcante, ao Jornal O Globo do dia 21 de agosto de 2012, quando pediu que o Senado não se apressasse em votar o Novo Código Penal por conta de uma

No Código Penal atual o aborto é sempre definido como crime, mas que “não se pune” (palavras do artigo 128 da lei) em determinadas situações, como o risco de vida para a mãe e gravidez resultante de estupro. No anteprojeto de novo Código proposto pela comissão de juristas, o aborto passa a “não ser crime” em situações amplas, chegando inclusive a ser permitido após 12 semanas de gravidez. O que antes apenas não era punido por considerar-se que havia muita emoção em jogo, agora é tido como normal e legal. É a verdadeira legalização do assassinato de bebês.

série de incoerências contidas no anteprojeto. Na ocasião, ele fez uma comparação entre as penas para quem “modificar ninho de espécie silvestre” - que varia de 2 a 4 anos de cadeia - e a pena para “Abandono de Incapaz” – variando de 1 a 4 anos de prisão -, o que indica que, se aprovado, será mais grave “atrapalhar” a vida de um animal do que abandonar o próprio filho. Incoerências como esta estão aos montes no anteprojeto e o anseio de todos por penas mais duras para crimes hediondos não foi nem de longe correspondido. Além da desproporcionalidade de penas, o anteprojeto ainda carrega muitos outros problemas. Um dos maiores está nos termos da inclusão do crime de Terrorismo, descrito no artigo 239 de forma quase irretocável até o seu parágrafo 6º; no parágrafo seguinte o absurdo aparece quando se explica que “Não constitui crime de terrorismo a conduta individual ou coletiva de pessoas movidas por propósitos sociais ou reivindicatórios, desde que os objetivos e meios sejam compatíveis e adequados à sua finalidade”. É isso mesmo que você está lendo: o terrorismo está liberado desde tenha propósitos “sociais” ou reivindicatórios. Bem, que eu

saiba o Osama Bin Laden também liderava uma tal de Al-Qaeda que também tinha um monte de “propósitos sociais e reivindicatórios”. Ou seja, aqui no Brasil, Bin Laden e sua turma poderiam circular normalmente, desde que um juiz interpretasse que os propósitos deles fossem adequados à sua finalidade. Seria um absurdo tremendo se este artigo fosse aprovado com um parágrafo como este que abriria brechas, ou melhor, buracos enormes para a atuação de grupos terroristas no país; tudo através da interpretação de um juiz ou tribunal. E os engodos lingüísticos não param por aí. No espaço destinado aos “Crimes de drogas”, o anteprojeto inicia o capítulo determinando a proibição da produção, venda, depósito, transporte e entrega para consumo de drogas, mesmo que de forma gratuita, sob pena de prisão de 5 a 15 anos e multa a ser definida de acordo com o caso. Além disso, fica proibido trazer consigo, comercializar ou dar a outrem insumo, matéria-prima ou produto químico destinado à produção de drogas, além de cultivar ou realizar colheita de plantas utilizadas neste tipo de atividade. Porém, ao mesmo tempo em que o 1º parágrafo do artigo parece deixar ilegal toda ação ligada à produção e consumo de drogas, o parágrafo 2º vem eximir de culpa quem adquire, guarda e transporta drogas, ou, semeia, cultiva e colhe plantas para produção de drogas com o objetivo de consumo pessoal. Mais à frente se proíbe ao cidadão produzir ou ter maquinário utilizado para fabricação destes produtos, além de tornar ilegal o ato de oferecer a pessoa de seu relacionamento qualquer tipo de droga. Bem, ao reunir todo o texto se resume que o usuário de droga pode consumi-la, fabricá-la, ter todo o maquinário e o insumo correspondente ao consumo médio individual de cinco dias. É bom notar que mais uma vez abre-se um precedente gigante que irá concorrer para o aumento das ilegalidades. Se o usuário de droga tem direito de consumir drogas, desde que não mantenha grandes quantidades consigo, então está criada a chance de um mercado de produção e venda constante destes produtos. A liberação para uso conseqüentemente vai aumentar o número de consumidores de drogas, aumentando assim também o mercado de venda para os traficantes que terão que abastecer – de 5 em 5 dias – os viciados. O anteprojeto – como o nome mesmo indica – pode e deve ser modificado na Câmara e no Senado, mas é preocupante que as discussões para a definição do nosso Novo Código Penal partam de textos tão distantes da realidade moral e cultural de nosso país. É preciso protestar contra estes desvios e ficar de olho nos próximos capítulos desta história.

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política

A CULTURA ANTES DA POLÍTICA

Bruno Garschagen é cientista político pelo Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica de Lisboa e University of Oxford e podcaster do Instituto Ludwig von Mises.

Bruno Garschagen

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Para o conservador, a política é apenas um dos vários instrumentos de exercício do conservadorismo, mas está longe de ser o mais nobre ou o mais eficaz. Não é sem razão que o Partido Conservador Inglês nasce da aversão pela política partidária, segundo mostra Roger Scruton no seu precioso The Meaning of Conservatism, cuja tradução a editora É Realizações publicará em breve com um prefácio de minha autoria, e que recomendo vivamente. Essas observações são necessárias para tentar obter uma resposta à legítima pergunta feita nesta mesma coluna em uma edição passada¹, ou seja, onde estão os políticos conservadores brasileiros? No entanto, acredito que há uma pergunta prévia a ser feita: o que é e onde está o conservadorismo brasileiro? Porque para que uma Margaret Thatcher fosse possível – e ela é apenas uma dentre tantos políticos conservadores britânicos – foi preciso, antes, haver um conservadorismo que conquistasse e influenciasse uma parcela da sociedade. No Brasil, antes de pensar num político conservador é preciso que tenhamos um pensamento conservador que possa influenciar culturalmente a sociedade. Só depois disso é que será possível esperar o surgimento de uma elite política apta a defender princípios e valores conservadores. A batalha, antes de ser política e econômica, é cultural. Se a política conservadora vier antes do conservadorismo poderá acontecer o que um conservador britânico rejeitaria de forma absoluta: a criação artificial de um estímulo conservador pelo exercício centralizado da política partidária. Isso seria uma forma rápida de destruir o que esse mesmo conservador preza: uma sociedade na qual a família, a liberdade, a propriedade e a ordem seriam preservadas porque garantem seus modos de vida, sua tradição e a busca livre pela prosperidade.

NOTA

H

á uma galeria notável de intelectuais que se aventurou na sempre arriscada, mas grandiosa, tarefa de definir o que é o conservadorismo - e me refiro ao pensamento conservador britânico. Desde Richard Hooker, o fundador do Conservadorismo antigo, temos uma lista canônica de cavalheiros conservadores do passado e do presente: Marquês de Halifax, Edmund Burke, Lord Hugh Cecil, Michael Oakeshott, Russell Kirk, John Kekes, Anthony Quinton, Roger Scruton, Kenneth Minogue, Kieron O’Hara. Definir o que é o conservadorismo não é uma tarefa simples para conservadores nem para os filósofos políticos. Porque conservadorismo em si não é uma ideologia, nem uma filosofia e muito menos um programa de aplicação política. Trata-se, contudo, de um espírito, de uma disposição – para usar o termo do filósofo político Michael Oakeshott – que se alicerça ou se manifesta num conjunto de princípios, valores, hábitos, práticas e ideias que emergem da rica experiência da vida em sociedade, dentro da qual se localiza a política. Qualificar o conservadorismo como um espírito ou como uma disposição é o mais próximo que podemos ter de uma concepção abrangente, mas talvez a imagem mais adequada sobre o que é o conservadorismo seja a do trimmer, extraída da terminologia náutica pelo Marquês de Halifax. O trimmer, ferramenta responsável por manter o equilíbrio da embarcação quando o seu curso é ameaçado, serve perfeitamente ao objetivo de Halifax de realçar o exercício suave do conservadorismo, que, no caso da política, não muda de posição com o advento das modas ideológicas e se caracteriza pela reação às ameaças de alterações radicais ou mudanças que provoquem sofrimento e que rompam aquela ligação de familiaridade que o indivíduo tem com o presente e com aquilo que possui.

¹ O autor se refere ao texto “Onde está o nosso conservador?”, de Taiguara Fernandes de Sousa, na 2ª Edição desta publicação.


saúde

Adriano Murta Maia é médico e membro titular do Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem

Arte e técnica: inimigas ou parceiras?

Imagem: Kalina Aires

Dr. Adriano Murta Maia

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oucos assuntos da área médica são tão fascinantes quanto o diagnóstico clínico: a arte de interpretar sinais e sintomas visando determinar ou não a presença de um estado patológico e, a partir dessa constatação, definir uma conduta adequada. O médico conta com os seus sentidos para obter as informações necessárias para o chamado raciocínio clínico. Todos os conhecimentos e experiências acumulados ao longo da sua vida profissional de nada serviriam se não houvesse dados fidedignos sobre os quais se pudesse aplicar tais conhecimentos.

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Com o passar do tempo, algumas técnicas foram expandindo o alcance dos sentidos do médico, ajudando-o a obter as informações que ele precisa. Prudentemente, cada nova técnica foi recebida com algum ceticismo. Dizia um famoso livro médico: “nunca seja o primeiro a usar um novo medicamento, nem o último a abandonar um antigo”. O mesmo se aplica às técnicas diagnósticas. As novidades costumam ser caras e algumas se provam de pouca utilidade com o passar do tempo. Mas uma vez estabelecidas sua eficácia e sua aplicabilidade, constitui-se quase como má prática médica não solicitar os exames necessários (e disponíveis) para o diagnóstico correto. Um antigo livro de semiologia médica a que tive acesso na época de estudante (infelizmente devolvi ao dono e não tive o cuidado de registrar o nome do autor) falava sobre o uso do estetoscópio. Na época em que foi escrito, para avaliação do coração costumava-se fazer a aposição do ouvido sobre o tórax do paciente para ouvir os ruídos cardíacos. O autor dizia que “o uso do estetoscópio é inversamente proporcional à experiência do examinador” – isto é, acreditava-se que quanto menos experiência tivesse o médico para auscultar o coração, mais ele necessitava do estetoscópio. Não pense que se trata de um livro antiquíssimo. Fora publicado em meados do século XX. A partir do momento em que se pôde compreender melhor o ciclo cardíaco, a origem dos sons e as causas de suas alterações, o uso do estetoscópio se tornou imprescindível. O que era discutível ontem,

hoje é senso comum. Nos dias atuais, uma área que tem sido foco de grandes discussões desse tipo é a radiologia. Inicialmente relacionada apenas à obtenção de imagens pelo uso dos raios-X, a radiologia foi aos poucos incorporando outras formas de aquisição de imagens do corpo, como a ultrassonografia e a ressonância magnética. Além disso, os velhos raios-X tiveram sua aplicação ampliada através de técnicas novas que a tecnologia computacional proporcionou, como a tomografia computadorizada e a densitometria óssea, apenas para citar as principais. Evidentemente, ao absorver novas tecnologias, a prática médica se tornou cada vez mais cara. Assim, foi colocado diante dos médicos um falso dilema: ou se valoriza a atuação clínica ou se valorizam os chamados exames complementares. Nessa falsa oposição, pintou-se um quadro impreciso no qual de um lado está o médico e do outro os equipamentos caros. Esquecem, ou fingem esquecer, que o equipamento nada faz sozinho e que a interpretação das imagens é plenamente um ato médico, tão digno e necessário quanto a consulta. Trata-se de uma falsa dicotomia porque não é possível fazer boa medicina sem lançar mão de técnicas que forneçam ao médico aquelas informações necessárias para o raciocínio clínico. Sem uma boa base, nenhuma edificação pode se sustentar. A medicina moderna tem um poder de diagnóstico que os profissionais de séculos passados podiam apenas

sonhar. Basta pensarmos na ultrassonografia. Que mãe gostaria de passar a gravidez sem avaliações no pré-natal? E que mãe se submeteria a radiografias para avaliar a suspeita de desproporção no tamanho do crânio fetal e a pelve materna nos dias de hoje? Parece absurdo, mas antes do ultrassom era assim que se diagnosticavam casos duvidosos.

Pintou-se um quadro impreciso no qual de um lado está o médico e do outro os equipamentos caros. É importante ressaltar que ninguém está dizendo que quanto mais exames forem feitos, melhor será a medicina. Não é isso. Exame bom é exame bem indicado. Um exame inadequado ou feito no momento errado pode trazer mais dúvidas do que respostas, muitas vezes até retardando o diagnóstico. O problema é que muitos interesses nada humanitários vêm alimentando essa oposição entre especialidades clínicas e o que resolveram chamar de “serviços auxiliares de diagnóstico e terapêutica”. Estão conseguindo fragmentar ainda mais a prática médica, quando na verdade a abordagem clínica e os exames complementares agem de forma harmônica para a obtenção do

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diagnóstico correto. O clínico não pode praticar boa medicina sem que eventualmente tenha que pedir apoio diagnóstico e isso é uma afirmação que a realidade não permite desmentir. Mas essa questão não é apenas algo do interesse dos médicos, pois reflete diretamente no tipo de medicina que os pacientes terão acesso. O que os pacientes realmente precisam é que os clínicos façam a melhor avaliação que puderem e, quando necessário, solicitem de forma livre e autônoma o que houver disponível para fazer o melhor diagnóstico. Apenas a partir do diagnóstico preciso é que se pode indicar o tratamento mais eficaz. E diagnóstico preciso nos dias de hoje é algo que não se pode apartar de uma radiologia de qualidade, tecnicamente atualizada, com profissionais capacitados e com tempo hábil de obter e analisar de forma eficaz as imagens. Essas tecnologias expandem nossos sentidos. Não há substituição e muito menos oposição. Não valorizar essas conquistas é nada menos que tolice. A racionalização do uso dos métodos complementares é uma causa justa, desde que o principal interessado, que é a pessoa que recorre aos serviços médicos, não tenha suas necessidades colocadas em segundo plano. A fragmentação da atuação médica não traz benefícios para ninguém, exceto para aqueles que a promovem.

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Campina, 150 anos

Mudanças que vão além Sávio Mota

Imagem: Kalina Aires

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lgumas das principais ruas do Centro de Campina Grande possuem características marcantes, que embelezam esta região da cidade. Fachadas em art déco, fiação elétrica embutida (caso, por exemplo, da Rua Maciel Pinheiro), postes em estilo clássico e calçadas estreitas dão um charme especial ao local, em uma mistura de moderno e clássico, em uma cidade que ao mesmo tempo é desenvolvida, grande (com quase 400 mil habitantes), mas que ainda possui resquícios do tempo em que as coisas eram mais pacatas. O primeiro passo interessante para esta transformação seria a retomada do programa de substituição dos fios elétricos de superfície por fios embutidos. O programa foi criado há mais de uma década, ainda no governo do então prefeito Cássio Cunha Lima, e tinha o objetivo de retirar do Centro de Campina todos os postes com fios de eletricidade - deixando, claro, postes para iluminação pública -, expandindo depois as ações para outros bairros da cidade. As alterações começaram a ser realizadas e algumas ruas foram contempladas, mas o programa não continuou nos anos seguintes. Uma retomada do projeto seria muito importante para a recuperação das áreas centrais. Outro projeto, ainda mais importante, que também não teve a continui-

Rua Maciel Pinheiro, centro de Campina Grande.

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deira bagunça. E por falar em bagunça, não poderia esquecer de citar o problema do lixo: como ficou difícil encontrar uma lixeira nas ruas centrais e como se multiplicaram os panfletos entregues aos pedestres nestes mesmos locais. É quase uma epopeia segurar todo o lixo em busca de uma lixeira perdida e solitária em algum lugar das ruas. Aumentar consideravelmente o número de depósitos de lixo e ter uma limpeza constante é o mínimo aceitável para qualquer cidade, ainda mais uma com grande contingente de pessoas. Faz-se necessário resolver esta situação “para ontem”, como diz a gíria popular. Falando novamente sobre a parte estética e envolvendo também o espaço físico de circulação de pessoas pelo Centro da Rainha da Borborema, incluo agora mais uma sugestão que já é seguida em partes da cidade: a utilização de postes menores, no

estilo clássico. Estes postes, com lâmpadas arredondadas e design oitocentista, trariam ainda mais beleza à região, substituindo os atuais postes, grandes demais e sem tratamento estético algum.

Essas são mudanças pequenas em quantidade – se compararmos com o que se tem para fazer em toda a cidade – e em gastos, mas cuja implementação seria significativa para a zona urbana. São mudanças que vão além apenas de benefícios financeiros – que também viriam com o tempo -, já que atingem antes de tudo o bem-estar da população, porque a beleza é sempre uma dádiva de Deus para os homens. Espero que as propostas deste texto atinjam diretamente a próxima administração municipal, a ser eleita neste ano de 2012, independente de partido ou grupo político. Porque nem só de propaganda e obras gigantescas vive uma cidade, mas também de medidas menores que melhorem o bem-estar da população.

Imagem: Kalina Aires

pessoas que transitam por elas) possuem postes e outros obstáculos que dificultam ainda mais a caminhada das milhares de pessoas que passam por aqueles lugares durante o dia, pessoas cuja única alternativa às vezes é transitar pelo meio da rua. A estética destas calçadas também foi sendo afetada em alguns dos locais mais historicamente importantes da cidade, onde a superfície - originária também das décadas de 1940 e 1950 - foi sendo modificada, misturada com outros materiais ou apenas deixada de lado. Com isso, a harmonia destas entre si e com os prédios e “ornamentos” em sua volta foi rompida. No resumo geral, temos calçadas estreitas, com desníveis, buracos e obstáculos e sem harmonia estética: uma verda-

Imagem: Kalina Aires

Na esquerda, calçada desenhada prejudicada pela má conservação; na direita, um exemplo de obstáculos desnecessários e buracos nas calçadas

Imagem: Kalina Aires

dade devida foi o chamado “Art Déco Sertanejo”, idealizado no fim dos anos de 1990 e posto em prática apenas entre 2000 e 2002. A proposta era restaurar cerca de 150 prédios do Centro de Campina Grande construídos entre as décadas de 1940 e 1950. Estes imóveis - em sua maioria hoje utilizados como estabelecimentos comerciais - possuem, segundo os estudiosos responsáveis pelo projeto, grande homogeneidade e boas possibilidades de restauração completa. Na verdade, alguns desses foram devidamente restaurados e hoje estilisticamente embelezam a parte de maior destaque do Centro campinense. Entretanto, além de muitos prédios ainda não terem recebido o devido cuidado, a parte restaurada não possui o padrão que deveria marcar este conjunto arquitetônico, isto porque, as placas e adereços utilizados pelos comerciantes nas fachadas dos prédios quase nunca respeitam as raízes do Art Déco e, por consequência, a história arquitetônica da cidade. É preciso, portanto, retomar este processo de conservação dos imóveis. Para isso, faz-se necessária a participação efetiva da Câmara e Prefeitura municipais para a retomada e ampliação do projeto. O ideal seria criar regras e normas para a modificação e reforma dos prédios, criando-se uma lei para impedir mudanças nas fachadas que fugissem ao estilo tradicional delas. Antes, porém, um primeiro passo deveria ser dado pela Prefeitura: o custeio das restaurações e reformas em todos estes prédios, de modo que os comerciantes não sofressem qualquer ônus na reorganização urbanística das áreas centrais; uma vez recuperados pela administração pública municipal os prédios ficariam sob a responsabilidade de seus proprietários, que teriam que conservá-los de acordo com as normas legais. Seria então uma parceria proveitosa para a cidade e para os comerciantes. A má conservação das calçadas é mais um problema grave, que afeta diretamente a vida de quem transita pelo Centro e por outras importantes áreas da cidade. Desníveis absurdos entre as calçadas e pouco espaço para os pedestres são os maiores defeitos delas em ruas importantíssimas da Rainha da Borborema. A maior parte das calçadas (que já não são largas o suficiente para quantidade de

Fiação exposta prejudica esteticamente o Centro da cidade

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reportagem

RODRIGO GURGEL é crítico literário do jornal Rascunho, autor de Muita retórica – Pouca literatura (de Alencar a Graça Aranha), colunista do site Mídia Sem Máscara e editor freelance.

Ao encontro de Nelson Rodrigues

Rodrigo Gurgel

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m famosa entrevista a Otto Lara Resende¹, Nelson Rodrigues é questionado: “Você tem um sentimento religioso que não se definiu numa religião. Você não é um praticante”. Nelson responde: “Eu sou um cristão. Profundamente um cristão. Agora, comigo tem uma coisa: só entro nas igrejas vazias. Na minha opinião, os crentes e o padre é que estragam a missa”. Surpreso, Otto insiste: “Mas como você concilia [essas opiniões] com a sua condição de cristão?”. E Nelson, evasivo, responde: “Eu não explico o inexplicável, meu caro Otto. Deus não me deu esse dom”. O núcleo da personalidade rodriguiana, visceralmente contraditória, está inteiro nessas respostas. E

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também algo do seu poder de persuadir: usando da eloquência que, sem escapar do tema central, aparenta erguer os termos da discussão a um patamar inalcançável a questionamentos. A frase, quase sempre emblemática, revela-se apenas hábil subterfúgio. Quem analisa Nelson Rodrigues está, portanto, destinado a se surpreender com o fato irrevogável: obra e vida não se sustentam isoladas da incoerência. “A virtude é bonita...”, diz ele – e o leitor, que espera uma sequência igualmente virtuosa

para esta primeira parte do pensamento, decepciona-se ao ler a conclusão: “...mas exala um tédio homicida”. E ele próprio cumpriu em sua vida a discutível escolha anunciada nesta frase: “Entre o desquite e a infidelidade acho esta última muito mais generosa, humana, familiar e social”. Foi, sem dúvida, antimaterialista e antimarxista, liberal convicto: “Para rejeitar Marx, basta, a meu ver, a circunstância de ele ter ignorado o problema da morte. O homem de Marx é um homem com uma dimensão a menos, um ser simplificado, amputado. É um homem inexistente”. Mas não se deve esperar que tenha a mesma coerência translúcida em relação a tudo. Pode declarar, como um menino encantador: “O único ideal que eu teria na vida, se fosse possível realizá-lo, era ser um santo. Eu queria ser um sujeito bom. A única coisa que eu admiro é o bom, fora disto não admiro mais nada”. Para se desdizer em outro momento: “Não tenho medo de confessar minha morbidez. Eu a recebo e a compreendo como uma graça de Deus”. Contudo, ao contrário do que o leitor apressado pode imaginar, este breve ensaio não pretende exigir coerência absoluta – aliás, de todo impossível –, mas identificar alguns dos elementos que permaneceram em luta constante no íntimo de Nelson Rodrigues. Bem pouco lineares, implicaram variada obra, cujos exemplos ocupam postos de importância desigual mas irrefutável na nossa literatura. Na verdade, trata-se, antes, de resgatar a obra rodriguiana da prisão na qual a intelligentsia brasileira – marxista e materialista – a colocou, exercendo sobre ela a melhor vingança que a esquerda pode e sabe empreender: a de forçar o mimetismo de seus oponentes, transformá-los em dóceis caricaturas, apropriar-se de seus pensamentos. Veja-se como a dramaturgia rodriguiana foi deglutida e assimilada por certo freudismo rasteiro, que pretende encontrar tragédia – equiparando-a à dos grandes trágicos da Antiguidade – em peças nas quais, muitas vezes, apenas há farsa ou estética do grotesco. E, ainda pior, procura estabelecer um espelhamento falso entre a obra encenada e o espectador: este é, necessariamente, o neurótico que

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deve libertar suas pulsões; aquela provoca, sempre, a catarse inevitável e salvadora. Exemplo notável, por sua repetição, é a análise infundada das reações de parcela do público que assistiu, em 1961, à estreia de O beijo no asfalto. Na opinião do crítico Sábato Magaldi e do jornalista Ruy Castro, biógrafo de Nelson Rodrigues, os homens que se levantaram para sair no meio do espetáculo – durante a fala da personagem Selminha, quando esta enumera as qualidades sexuais do marido injustamente acusado de homossexualismo – eram “talvez pouco assíduos às suas obrigações domésticas”, sua atitude revelava o “constrangimento provável dos maridos relapsos”. Ora, não deixa de ser curioso e revelador que o julgamento psicanalítico, apressado e superficial, pretenda se impor – e que em nenhum momento passe pela cabeça desses freudianos a possibilidade de um público indignado com os aspectos vulgares da peça. Sabemos que, para esses e centenas de outros especialistas em Nelson Rodrigues, a indignação já é sintoma de neurose, de sentimentos reprimidos – mas, talvez sem perceber, eles apenas papagueiam as justificativas do próprio dramaturgo, como neste relato típico da retórica rodriguiana, às vezes recheada de controverso psicanalismo: “Manuel Bandeira chegou pra mim um dia, quando eu e

Quem analisa Nelson Rodrig ues está , portanto, destinado a se surpreender com o fato irrevog ável : obra e vida não se sustentam isoladas da incoerência .

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meus personagens éramos odiados, e disse: ‘Nelson, por que você não faz uma peça em que os personagens sejam assim como todo mundo?’. Eu respondi da forma mais singela: ‘Mas meu caro Bandeira, meus personagens são como todo mundo’. Porque uma coisa é verdade: quem metia ou mete o pau no meu teatro está procedendo como um Narciso às avessas, cuspindo na própria imagem”. Falácias desse tipo são encontradas muitas vezes. O veredicto de Sábato Magaldi – “Ninguém, antes de Nelson, havia apreendido tão profundamente o caráter do país. E desvendado, sem nenhum véu mistificador, a essência da própria natureza do homem” – também é redito sem questionamentos, como se todos, absolutamente todos, estivéssemos representados na inumerável coleção de vícios que Nelson Rodrigues nos legou. Há uma resposta, no entanto, para a repetição insana desses chavões: o filósofo Olavo de Carvalho está certo quando diz que, “no Brasil, no fundo, todos escrevem a mesma coisa, não há nada de experiência real ali, mas apenas a identidade de sentimentos grupais. Essa identidade, sobretudo dos intelectuais de esquerda, se tornou a única realidade, todos têm de sentir do mesmo modo”. Façamos, contudo, uma ressalva: as generalizações e esquematismos não se repetem quando se trata de estudar as ideias que Nelson Rodrigues defendeu ardorosamente em suas crônicas, muitas delas ferozes libelos

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derá despertar prazer ou interesse lascivo naqueles atingidos por alguma perversão nos últimos graus da baixeza humana”. Ao final, depois de recordar as qualidades de Édipo Rei, conclui: “Sem estilo, sem técnica teatral, sem imaginação e sem poesia dramática, eis que Álbum de família soçobra num mar de enganos, equívocos, erros, atrapalhações e insuficiências”. Entretanto, o resgate que proponho – e que deve ser fiel ao próprio Nelson Rodrigues, para quem “toda unanimidade é burra” – exige não apenas recuperar as grandes vozes críticas esquecidas, que destoam do senso comum, mas esmiuçar impiedosamente a obra rodriguiana, a fim de compreender e redimensionar sua relevância literária e humanística. Não poderemos fazê-lo aqui, dada a exiguidade do espaço, restringindo-nos a sugerir um dos possíveis caminhos. O primeiro passo dessa empreitada exige estabelecer nítida separação entre, de um Cena da peça “Vestido de Noiva”, lado, a produção montagem de 1965. não ficcional, e, de outro, dramaturgia, contos e romances, analisando o alcance das obras pertencentes ao segundo grupo, que o próprio Nelson Rodrigues classificou, referindo-se a seu teatro, como “pestilentas, fétidas, capazes, por si só, de produzir o tifo e a malária na plateia”. Há muito de autopromoção escandalosa nessa afirmativa, repetida, aliás, por meio de formas sinonímicas, ao longo da carreira do escritor, mas é possível identificar, nesse grupo de obras, um sombrio calvinismo, que muitas vezes expulsa do horizonte das personagens a possibilidade de redenção: o controle ou a superação dos instintos, por meio do esforço pessoal ou da graça divina, é inalcançável a esses personagens condicionados por seus impulsos naturais. E quando há um gesto de benevolência Imagem: Carlos/ Cedoc-Funarte

Nelson e Fernanda Montenegro

antiesquerdistas. Para citar apenas um exemplo, talvez não seja difícil adivinhar por qual motivo uma das grandes frases rodriguianas, hoje um bordão – “O grande acontecimento do século foi a ascensão espantosa e fulminante do idiota” –, não representa, para esses críticos, o “caráter do país” ou a “essência da própria natureza do homem”. Acaso nosso escritor não estava certo quando disse que os idiotas “explodem por toda parte: são professores, sociólogos, poetas, magistrados, cineastas, industriais” e que “o dinheiro, a fé, a ciência, as artes, a tecnologia, a moral, tudo, tudo está nas mãos dos patetas”? É no mínimo risível que, no caso da dramaturgia, a generalização se imponha com a força de lei e, em relação às crônicas, procurem-se matizações ou apenas prefira-se o silêncio... Mas há vozes dissonantes. O que, para Sábato Magaldi, é “um desmascaramento [...] que incomoda os bem-pensantes”, ou, no caso específico de Álbum de família, “mergulho na inconsciência primitiva do homem”, na verdade pode não passar – e muitas vezes realmente não passa – de “um assunto ordinário, conquanto destituído de verossimilhança”, como disse Álvaro Lins no texto “Tragédia ou farsa?”, presente em Os mortos de sobrecasaca. Álvaro, que não poupa elogios a Vestido de noiva, aponta, em Álbum de família, “a maciça vulgaridade”, pois “fecha todos os caminhos, não deixa lugar para outra sensação além do desencanto, da decepção e do aborrecimento”; e “só po-

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– por exemplo, o insólito beijo de O beijo no asfalto –, este é implacavelmente distorcido pela sociedade. O próprio Nelson Rodrigues confirma tal raciocínio: “Em relação ao homem sempre fui pessimista”. E chama a si mesmo de “moralista protestante” ou “moralista feroz”. Moralismo que produziu, inclusive, efeito nocivo: sua dramaturgia e seus contos folhetinescos – de A vida como ela é – foram assimilados não como crítica a possíveis vícios humanos, mas, sim, como enaltecimento da corrupção moral, “meio de propagação da imaginação diabólica”². O moralismo rodriguiano acaba, portanto, descaindo para um naturalismo exacerbado, com ares deterministas. Nas palavras de Otto Maria Carpeaux, que, ao analisar a dramaturgia de Franz Wedekind e os limites do gênero trágico no século XX³, na verdade faz um estudo oblíquo do teatro de Nelson Rodrigues, seus personagens “estão pendurados do fio do instinto, privados da liberdade trágica”. Mas terminemos fazendo uma contraposição a essas características rodriguianas. O teólogo Hans Urs von Balthasar lembra4 que “nada é trágico em nós, pois toda renúncia recebe um prêmio superabundante, e quanto mais nos aproximamos do centro da pobreza, tanto mais intimamente tomamos posse de nós mesmos, com tanta maior segurança nos pertencem todas as coisas”. A citação ilumina a profunda discrepância que há entre o herói cristão e o clássico herói trágico – e ela não deve ser esquecida ao reavaliarmos o legado do nosso escritor.

NOTAS A entrevista pode ser encontrada em http://www.youtube.com/watch?v=bg6CTwVwsss ² No feliz exemplo que Alex Catharino cita – em entrevista concedida ao blog Diálogos exemplares, de Rafael Guedes – ao elucidar a expressão que Russell Kirk buscou em T. S. Eliot para distinguir a “imaginação moral” do “imaginário corrompido”. ³ No ensaio Marionette, che passione! 4 Em O coração do mundo 1

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Filosofia e sociologia

Thiago Moraes é advogado e estudioso de Gilberto Freyre.

O tempo tríbio: de Burke a Gilberto Freyre Thiago Moraes

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m dos maiores problemas que encontramos no quadro institucional de nosso país é a falta de compromisso dos políticos com as ideias que dizem defender, de modo que ao se votar num socialista muitas vezes estamos escolhendo apenas mais um exemplar do velho coronelismo e ao se votar num liberal apostamos num defensor de todas as formas de mal corporativismo. Para quem é católico, isso até acarreta uma complicação extra, pois para seguir os ensinamentos da Igreja em matéria política se fica dependendo de uma reflexão sobre o que as coisas são na realidade, já que não é prudente fazer uma aplicação direta baseada em rótulos. De qualquer forma, mesmo com toda a sua esquizofrenia, esse quadro não consegue absorver a corrente de opinião mais próxima daquilo que o Brasil profundo¹ valoriza: o conservadorismo. A sabotagem em torno dela é tão grande, que é como se a mesma não existisse; o conservadorismo não é considerado uma opinião, uma postura legítima, mas um conjunto de tabus. Todavia, as oportunidades em que o povo se manifestou com liberdade, como no caso do referendo sobre o desarmamento, mostram que nossa alma não tem nada de revolucionária, ela quer a permanência daquilo que com sucesso as gerações anteriores nos legaram e, no que pode ser mudado, prudência e comedimento. Teoricamente, o conservadorismo moderno

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começou com a obra Reflexões sobre a revolução na França (1790), do político e pensador anglo-irland��s Edmund Burke, e se desenvolveu ao longo de todo o século XIX e XX como uma vertente política contrária às utopias. Mais tarde, o filósofo americano Russell Kirk formulou uma lista de dez princípios que resumem a marcha do conservadorismo em tantas décadas e que pode facilmente ser encontrada na internet numa tradução feita pelo famoso Pe. Paulo Ricardo. Pois bem, dessa lista se infere que uma das principais características do conservador é valorizar as lições do passado para bem viver o presente e planejar o futuro, e isso, sem surpresa alguma dada a genialidade do autor, casa com perfeição no conceito de tempo tríbio do intelectual pernambucano Gilberto Freyre. Segundo o Mestre de Apipucos, “o presente (…) é um presente sempre em expansão, para trás e para adiante. Tanto evoca quanto profetiza. A ciência que se considere Futurologia – ciência relativa – tende a ser uma disciplina da tendência humana para a profecia, em ligação com a tendência, também muito humana, para

a evocação; e, sem que falte qualquer dessas tendências o terra-a-terra da observação da realidade imediata. Realidade imediata na qual se cruzam sobrevivências e antecipações. O homem nunca está apenas no presente. Se apenas se liga ao passado, torna-se arcaico. Se apenas procura viver o futuro, torna-se utópico. A solução para as relações do homem com o tempo parece estar no reconhecimento do tempo como uma realidade tríbia; e como o homem vive ele mesmo imerso no tempo, ele próprio é um ser – um estar sendo, diria talvez Gasset – tríbio”². Temos aqui uma tentativa de humanização da noção de tempo, uma tentativa de distinção entre o tempo biológico e o tempo físico-matemático. “Tempo tríbio”: tempo resultado do ciclo biológico, em sua inexorável ordenação do “antes” e do “depois”. Do “antes” que se aproxima irresistivelmente para a transformação em “depois”, dando-nos ilusão análoga à de todo sistema em movimento, a ilusão de um movimento exterior, em sentido oposto. Vemos o tempo avançar sobre nós, vindo do “futuro”, para perpassar, fugaz, e precipitar-se em passado, quando nós avançarmos para ele, avançarmos para o que não é, vindos do que passou para o que está passando, e arrasta o que virá de imediato, puxando depois de si outros porvires. Esses tempos, não é a mensuração que os cria, nem é, na verdade, a mensuração que os rege. Também a mensuração é nossa, é ato, é manifestação de dinâmica e, afinal, de vida. Desta muito prezada e muito precária humana vida nossa³. Passado, presente e futuro, nessa perspectiva, articulam-se e influenciam-se mutuamente. O tempo social os encontra com a predominância ora de um, ora de outro, mas sem abdicar de nenhum, pois além de sermos viventes,

somos conviventes. Convivemos com o legado de nossos ancestrais e convivemos com as repercussões ou precipitações do possível. O conceito, então, fala por si no que tange à sua relação com o conservadorismo, mas eu gostaria de ressaltar que a genialidade de Freyre a que fiz referência converge para tal corrente de pensamento devido a uma característica que as une numa base anterior a da teorização: o realismo. Tanto o pensamento de Gilberto Freyre quando o conservadorismo são realistas, rejeitam tanto a utopia quanto o saudosismo caricato, pois, nestes dois casos, o que temos são posturas artificiais. As transformações das estruturas sociais, econômicas e políticas devem beber em elementos do passado com capacidade de permanên-

cia4, ou a renovação será uma aposta arriscada, como provaram as tentativas de engenharia social do século passado (vinculadas a regimes autoritários) e a quase anomia5 pela falta de nexos de união em que o antigo Ocidente foi jogado pelo liberalismo (isso pode ser facilmente verificado pela inflação normativa que atinge os países dessa parte do mundo). Para os conservadores, ordem, justiça e liberdade são produtos artificiais de uma longa experiência social, o resultado de séculos de tentativas, reflexão e sacrifício, de modo que sua manutenção requer cuidados sérios, não se podendo “brincar” nesse âmbito, sob a pena de ver tudo desmoronar com rapidez. O governo da civitas6, mediante esse tratamento, inclui, nos seus domínios, o que deve ou pode vir a ser, tanto quanto o que é e o que foi. Tal característica também é convergente com a Doutrina Social da Igreja, que desde a Rerum Novarum (encíclica de Leão XIII que iniciou a reflexão sobre

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Edmund Burke

Gilberto Freyre

a aplicação do Evangelho aos problemas socioeconômicos do mundo moderno) rejeita com a mesma ênfase as falsas soluções do marxismo, com sua negativa de direitos naturais, como o de propriedade, e o canto de sereia do dinheirismo capitalista, com sua postura contrária à tendência cooperativista da dinâmica social (presente em entidades como a família e os sindicatos, por exemplo). Observem que a tônica em ambas as rejeições deve-se ao apego à realidade, pois esta nos mostra que a propriedade é nada mais que o trabalho acumulado e que a perspectiva de ver o esforço transformado em algo duradouro é um dos principais motivadores da responsabilidade entre os homens, e que a fragilidade de nossa condição neste verdadeiro “vale de lágrimas”, como diz a Salve Regina, pede a ajuda mútua. Vemos, portanto, que não precisamos recorrer só a autores estrangeiros para formular uma aplicação nacional do conservadorismo na sua vertente cristã. Aliás, como já fiz referência, nesse caso não estaríamos tratando de algo puramente teórico, na verdade teríamos uma mera interpretação daquilo que é percebido, sentido e vivido pela maioria silenciosa de nosso país. Teríamos uma construção em cima do que é real, e não uma tentativa de modificar a sociedade com base numa proposta abstrata. O conservadorismo não é uma ideologia, mas um tipo de olhar sobre a ordem social como ela é de fato. E Gilberto Freyre, nesse sentido, foi um verdadeiro intérprete do Brasil, num tempo em que isso soava transgressor, mas que, na verdade, apenas era a reação a ideologias revolucionárias de toda ordem (positivismo, racialismo, liberalismo, etc.) que infestavam nossa vida social e geravam toda sorte de rejeição internalizada do que era próprio da terra. Sim, o Mestre de Apipucos, mesmo usando roupa de hippie, foi um reacionário, pois reacionário é aquele que reage!

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Será, então, que o caráter cínico que as eleições assumiram não deriva do fato de que nenhum candidato tenta interpretar a alma nacional? Será que decisões judiciais e leis que fazem pouco de nossas raízes, isto é, não convivem com os que nos legaram a pátria, não são também causa do sentimento de injustiça que assola o país? Um futuro que se constrói em descompasso com o presente e o passado não já está mandando recados de que se será desastroso? Todas essas são questões que Burke tentou responder na sua época para seu contexto particular e que agora nos afligem com força maior. Hoje, contudo, podemos ir além, podemos ir “além do apenas moderno”, pois no pensamento de Freyre encontramos sugestões fecundas, caracterizadas pela agilidade e liberdade de uma concepção fenomenológica que não se deixa amarrar a uma tese fixa e imutável7, mas tira da mobilidade sua força e capacidade de interpretação. Vamos, então, ficar parados ou reagir?

NOTAS ¹ “Brasil profundo” é expressão utilizada por alguns pensadores brasileiros, notadamente Plínio Corrêa de Oliveira, para se referir ao “Brasil de verdade”, o Brasil do povo, que não é o mesmo passado pela mídia ou vivido pelos políticos. ² FREYRE, Gilberto. Futurologia. In: Antecipações. Recife: EDUPE, 2001, p. 171 – Coleção Nordestina. ³ DANTAS, Pedro. Depoimento sobre Gilberto Freyre. In: Convivência. Rio de Janeiro, n. 2, 1976/1977, pp. 34-39. 4 REBELO, Aldo. Cem anos de Gilberto Freyre. Um homem que entendeu o Brasil. 5 Anomia FALTA ENVIAR 6 Civitas FALTA ENVIAR 7 DANTAS, Pedro. 1976/1977, pp. 34-39


entrevista

Ubiratan Jorge Iorio V

IMAGEM: Instituto Mises Brasil

isão de alcance, bom humor e profundidade conceitual. Ubiratan Iorio é um dos poucos economistas brasileiros que contraria o “senso comum” e tem cacife para mostrar o porquê. Doutor em Economia pela Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro (FGV-RJ), Iorio já trabalhou no Banco Central do Brasil e foi economista do Instituto Brasileiro de Economia (IBRE) da mesma FGV, além de ter sido pesquisador do Instituto Brasileiro de Mercados e Capitais (IBMEC). Atualmente é professor do Departamento de Análise Econômica da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), uma das mais reconhecidas do país, já tendo lecionado em cursos de MBA da FGV-RJ e PUC-RJ. Colunista respeitado em temas de economia e ética para vários jornais do país, Ubiratan Iorio é um dos mais proeminentes representantes da Escola Austríaca de Economia no Brasil e no exterior. Seu mais novo livro, “Ação, tempo e conhecimento: a Escola Austríaca de Economia” (Instituto Ludwig von Mises Brasil, São Paulo, 2011), tem sido aclamado como uma exposição didática e bastante rica dos temas desta Escola. É Presidente do Centro Interdisciplinar de Ética e Economia Personalista (CIEEP) e membro do Instituto Mises Brasil (IMB). Mesmo bastante requisitado, o Professor Iorio concordou em dar uma entrevista para a Revista Vila Nova. Nas próximas páginas você vai ler o que ele pensa sobre a crise econômica, o Brasil e o que podemos esperar para o futuro de nosso país.

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Acho que foi algo natural, porque eu gostava de Matemática e de História com a mesma intensidade e, sendo assim, eliminei Engenharia e História para ficar com uma ciência que abrangesse as duas ao mesmo tempo. Você é um dos grandes expoentes no Brasil e no mundo da Escola Austríaca de Economia. Quais as principais características do pensamento desta Escola? É difícil resumir, mas creio que as principais são o individualismo metodológico, ou seja, a ênfase nas ações humanas individuais; o reconhecimento de que nosso conhecimento tem limites e o tratamento dispensado ao fator tempo. Em poucas palavras: ação, tempo e conhecimento, título de meu livro mais recente. Mas você já foi adepto de outros pensamentos econômicos, não é isso? Como foi largá-los e o que lhe levou a optar pela linha libertária? Fiz o mestrado e o doutorado na Fundação Getulio Vargas do Rio, naquele tempo algo como uma filial do Departamento de Economia da Universidade de Chicago. Então, tive formação essencialmente monetarista, o que significa que, mesmo usando o instrumental matemático e econométrico da maistream, eu sempre defendi o livre mercado. Em 1989, o saudoso Professor Og Leme, do Instituto Liberal, apresentou-me a Mises, Hayek e outros economistas austríacos. Nas primeiras páginas de Ação Humana eu já era um “convertido”. O que me levou a isso? Bem, foi o fato de que enxerguei o mundo real na Escola Austríaca, algo que tinha dificuldade em enxergar na mainstream economics. A crise econômica que se abate sobre Europa e EUA tem razões bem definidas, mas nem sempre bem esclarecidas pela mídia ou pelos Governos. O que dizer a respeito? Casos como o da Grécia e da Espanha têm explicação? A explicação é uma só para todos os casos: bancos centrais emitindo moeda e expandindo o crédito sem o devido lastro em poupança. E a União Européia está tomando as medidas corretas? Tanto a União Europeia como os Estados Unidos estão colocando mais lenha na fogueira, ao adotar as recomendações keynesianas e monetaristas: as primeiras, ao expandirem (ainda mais) os gastos governamentais e as segundas ao expandirem fortemente a moeda e o crédito sem lastro. Uma das críticas dos opositores do Presidente americano Barack Obama é a de que ele não retirou o país da crise; ao contrário, teria agravado. O que Obama fez, afinal? Qual é o seu legado para a economia norte-americana e

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IMAGEM: Wilson Pedrosa/AE IMAGEM: www.portaldostrabalhadores.com.br

Ubiratan, como surgiu a sua relação com a Economia?

IMAGEM: Instituto Mises Brasil

“Plantaram o retorno da inflação e alimentaram a recessão. O tempo da colheita está cheg ando”. mundial? O legado de Obama, a meu ver, é o pior possível! Suas políticas são a negação da própria história de sucesso dos Estados Unidos, ao promover um avanço muito grande do setor público, em suas várias nuances, sobre o setor privado. Em minha avaliação, é um péssimo presidente. Vindo agora para o Brasil, o Governo anunciou um crescimento muito baixo do PIB no segundo trimestre deste ano: apenas 0,4%. A seu ver, quais as causas de um resultado tão decepcionante? A crise, que Lula dizia ser uma “marolinha”, de repente chegou até nós ou este é um processo mais longo? O Brasil reagiu à crise da maneira mais “eleitoreira” possível, sem uma boa fundamentação teórica. Por quê? Porque expandiu irresponsavelmente os incentivos ao consumo, algo que a boa teoria ensina que só tem efeitos benéficos temporários sobre a economia. No governo Dilma as coisas pioraram, porque a política econômica foi tomada de assalto pelos keynesianos, na Fazenda e no Banco Central. Uma das bobagens que vêm fazendo é a redução artificial da taxa Selic. Plantaram o retorno da inflação e alimentaram a recessão. O tempo da colheita está chegando. O que se pode esperar para a economia brasileira nos próximos capítulos? Crescimento pífio e inflação. Não é torcida contra, é a Escola Austríaca! As medidas tomadas pelo Governo – redução de juros e de tributos, incentivos a empresas, concessões – são as mais efetivas para enfrentar o problema? Como já disse, essas medidas, inclusive outras, como a suspensão temporária de impostos para a linha branca e automóveis, além de não atacarem o problema, tendem a agravá-lo no futuro. O que realmente é preciso fazer?

Ubiratan Iorio palestra durante a III Conferência de Escola Austríaca, em São Paulo (SP), este ano.

Uma brutal redução do setor público. Uma também brutal redução da carga tributária. Privatizar o Banco do Brasil e a Caixa Econômica e extinguir o BNDES, para impedir que essas instituições sejam usadas politicamente, como vem acontecendo. Abandonar todas e quaisquer políticas fiscais e monetárias. Reduzir o custo Brasil. Abrir sem medo a economia para o exterior. E, embora isso seja muito difícil, acabar com o Banco Central e adotar o sistema de moedas competitivas (se isso não é ainda possível, que se volte ao regime do padrão ouro). Em suma, é preciso que se entenda que a economia pertence ao setor privado! Uma palavra para os empresários que nos lêem: como agir neste momento? O que a Escola Austríaca indicaria? Que não se metam em operações com o governo. No mais, cautela e canja de galinha, que não fazem mal a ninguém. Ainda existem muitos movimentos que se definem como socialistas, comunistas ou ao menos “social-democratas”. As bandeiras defendidas por estes movimentos, contudo, parecem não gerar mais a mesma atração de outras épocas. Você faria alguma crítica ao socialismo? Qual? O socialismo prometeu a todos, irresponsavelmente, a passagem direta para o céu, sem aquele estágio no Purgatório. É um sistema inconsistente, porque iguala todo o mundo nos resultados, burros e inteligentes, preguiçosos e trabalhadores, espertos e pascácios, sortudos e azarados. Não premia esforços. E, como aponto no meu livro mais recente, é um sistema absolutamente imoral, porque

Acima, o Ministro da Fazenda, Guido Mantega: o Brasil teve crescimento pífio no segundo trimestre do ano. Crise à vista. Abaixo, montadora da FIAT. Segundo Ubiratan Iorio, as medidas tomadas pelo Governo brasileiro, como redução artificial de juros e de somente alguns tributos, como o IPI, não são eficazes.

passa por cima da dignidade da pessoa humana, apesar de seu discurso agradável aos ouvidos não treinados. É lamentável, sob todos os aspectos, que ainda existam movimentos socialistas no mundo de hoje. Como libertário que tem relação muito próxima com conservadores, você considera importante uma coalizão de conservadores, liberais clássicos e libertários para defesa de valores comuns? Por onde você tem se apresentado e quais os palcos que ainda vai subir? Acho essa união imprescindível, se quisermos avançar com a liberdade no Brasil. Nossas diferenças podem perfeitamente ficar para depois. Um partido conservador e um partido libertário são necessários para o Brasil hoje? Mais que isso, creio que precisamos, simplesmente, de partidos. Com ideários, algo que não temos hoje, a não ser naqueles mais radicais da chamada esquerda.

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Esse ensaio foi realizado como um desafio, criar uma fotografia simples que ao mesmo tempo remetesse às fotos da revista Vogue nos anos 50, quando a editora Diana Vreland traduzia sofisticação, estilo e uma ousadia fashion apenas com poucos elementos. Nosso desafio foi esse, criar uma imagem de moda ícone, com um olhar único, onde o belo e o surreal traduzissem as peças que são a aposta para a primavera 2012.

FOTOS: CLOVIS ALADIM


Fotos e Direção de arte: Clovis Aladim Diagramação: Rodi Cruz Iluminação e Assistência de foto: Marcus Lyra Modelo: Lyz Souza Produção de moda e executiva: Genesis Araújo Agradecimentos Especiais a Ivoni e Yeda Araújo e a Emanuel Araújo


Reportagem O ator Jon Hamm interpreta o personagem principal de Mad Men: o publicitário Don Draper, símbolo de masculinidade para todos os fãs da série.

O que os homens têm a aprender com Don Draper. Imagem: Jackeline Lima

Taiguara Fernandes de Sousa

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IMAGEM: AMC

Be a Mad Man!

cia Sterling Cooper. Draper, contudo, é o arquétipo do macho alpha, com suas virtudes e defeitos. O que caracteriza o personagem, o que o faz amado pelas mulheres da história e pelos fãs da série, é a sua personalidade. O centro é um único homem, mas ele fala a todos os outros homens (a série está correta em trazer o termo no plural). O propósito desta matéria não é escrever mais uma resenha sobre Mad Men, mas falar sobre como Don Draper pode ensinar muito a respeito da virilidade.

IMAGEM: AMC

F

undo preto, letras brancas, música dos anos 60: “Mad Men: um termo criado no final dos anos 50 para descrever os executivos de propaganda da Avenida Madison. Eles que criaram”. Assim começa o episódio nº 1 de uma das séries de TV mais aclamadas dos últimos tempos. Mad Men, criada por Mathew Weiner – que também atuou como escritor e produtor em The Sopranos – é exibida pelo canal AMC. Foi a primeira série própria do canal e não decepcionou: Mad Men bateu recorde de audiência em sua primeira exibição que aconteceu em 19 de julho de 2007; até o momento, a série já venceu treze Prêmios Emmy Primetime e quatro Globo de Ouros, além de ter sido, em 2008, a primeira série de TV a cabo a vencer o Emmy Primetime de Melhor Série Dramática, o que se repetiu pelos três anos seguintes (2009, 2010 e 2011). Em 2012 lidera a lista do Emmy Primetime com 17 indicações. “O canal estava procurando distinção ao lançar sua primeira série original e nós apostamos que a qualidade venceria sobre a fórmula de apelo de massa”, afirmou Ed Carrol, presidente da AMC, para Alex Witchel do The New York Times. E venceu. A crítica especializada tem apontado não só a qualidade estética da série – a história se passa numa agência de publicidade dos anos 60 e os produtores capricharam no cenário e figurino de época – como também do elenco experiente e do enredo, caracterizado pelos intrincados dramas pessoais e profissionais, além dos personagens bastante elaborados. O sucesso de Mad Men é incontestável. Ainda que o nome da série traga “homens” no plural (Mad Men), o seu centro é um único homem: o publicitário Don Draper, o Diretor de Criação da agên-

Cartaz promocional da quinta temporada da série. Mad Men é reconhecida pela fidelidade ao contexto histórico. Cigarros e bebidas fazem parte da série tanto quanto os personagens.

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Desde sua criação, por Ian Fleming em 1956, James Bond – o 007 – é, sem dúvida, um dos maiores ícones da masculinidade em todo o mundo. O agente secreto não perdeu o seu posto, mas ganhou um notável concorrente. Cada vez mais Don Draper tem sido utilizado por homens de negócio e “gurus de masculinidade” como um exemplo a ser seguido se o assunto é trabalho e mulheres – duas áreas com a qual todo homem se preocupa ou deveria se preocupar. No Tumblr foi até mesmo criado um Blog não-oficial com o título What would Don Draper do? (O que Don Draper faria?) no qual o autor responde a questões dos leitores como se fosse o Don Draper. No geral, as questões são sobre mulheres. Em Mad Men, Don é um grande galanteador. Infelizmente isso o leva às vezes até mesmo ao adultério. Nenhum personagem é perfeito, afinal, e Don também tem seus vícios. Fiquemos com as virtudes e cuidemos para não repetir os vícios. Mas, antes da pergunta sobre o que Don Draper faria, é preciso levantar uma outra questão. Por que Don Draper faz o que faz? Não adianta ficar analisando um caso Não adianta ficar analisando um caso por vez. O melhor é que se chegue aos princípios gerais, de modo que se possa aplicá-los a cada caso concreto. Don Draper reúne em si algumas características próprias do macho alpha, que foram sempre desejadas por homens de todas as épocas. Na verdade, desde a época que os homens caçavam para sobreviver, o que se esperava de um homem é que ele pudesse caçar sozinho. Muitas vezes na hora do bote, não era o grupo que ia ajudar, mas a mira, a força e a coragem de um único caçador. O melhor caçador tinha de ter independência. E independência não se confunde com auto-suficiência ou individualismo. Ao contrário, o homem independente sabe exatamente no que ele precisa dos outros, mas ele não sobrecarrega ninguém com coisas que ele pode desempenhar bem sozinho e, no que não puder, tem a humildade de pedir ajuda ou, a coragem para delegar uma tarefa, ou o esforço para aprender. Independência envolve maturidade, que é a no-

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ção de quem você é no mundo, de qual o seu lugar, de qual é o seu objetivo. Ninguém pode dizer que Don Draper não saiba quem ele é ou quais são as suas metas: ele tem isso muito claro. No segundo episódio da primeira temporada da série, há um diálogo interessante entre Don e sua esposa, Betty Draper:

IMAGEM: AMC

O que Don Draper faria?

Betty: Eu adoro seu jeito de ser. Don: É que você está ao lado do meu lado bom. Betty: Não, eu quero dizer o jeito como as outras pessoas te olham. Quando você está com estranhos, você sabe exatamente o que quer. Don: Bem, eu gostaria de pensar que sempre sei exatamente o que quero. Saber o que você quer e saber quem você é. Com exatidão. Nada é mais maduro e, portanto, mais independente do que isso: é algo que você tem de decidir, é você tomando os rumos de sua vida e mais ninguém. A independência e a maturidade são essenciais à virilidade. Um homem não pode ser sempre um adolescente mimado, que reclama porque a vida não é como ele quer, porque o mundo não gira em torno do seu umbigo e, com tanta reclamação, não luta ou se esforça para tomar suas rédeas. Don Draper veio de baixo, experimentou o pior na família e na guerra, “ressurgiu das cinzas” (quem assistir a série entenderá) e venceu. Porque lutou. Porque sabia quem era e sabia o que queria. O maior ponto do personagem com as mulheres é exatamente a sua independência. Ninguém pode ser feliz a dois se não é feliz sozinho. Homens por demais necessitados, dependentes, chorões, são do tipo que afastam as mulheres porque as usam como muletas: nenhuma mulher gosta de ser objeto e, pior ainda, nenhuma mulher gosta de ser muleta de alguém que ela deseja ver como uma pessoa forte, madura e independente (porque é isso que elas procuram em um homem).

Don Draper abre a porta do táxi para sua esposa Betty (January Jones). Cavalheirismo e virilidade são temas recorrentes na série.

Por que cavaleiros sempre foram iludida pelo hedonismo de atraentes? E porque o moderno businessnossa época. Isso criou uma man desfruta da mesma atenção? Porque geração “pouco homem”. O casão seguros, porque são líderes. Tomaram as valheirismo, a independência, rédeas da própria vida. a maturidade, o valor do tra A virilidade exige do homem que tebalho – quantos hoje querem nha segurança. E essa segurança não é um mesmo trabalhar e não viver “controle dos outros”: é segurança sobre si “na gandaia”? – são valores mesmo. Quem eu sou? O que eu quero? São que precisam ser urgentemenperguntas que todo homem deve responder. te recuperados pelos homens. E as deve responder de forma segura. Deve, Don Draper está em Mad Men como Don Draper, gostar de “saber sempre para dar dicas e exemplos soexatamente o que quer”. Daí vem o respeito bre isso. de um homem não só perante as mulheres, mas perante todos. O que parece é que a atuTAIGUARA FERNANDES DE SOUSA é Acadêmico al geração de homens valoriza dede Direito e Editor da mais o conforto e o “prazer fácil”, Revista Vila Nova

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empreendedorismo

Conselho de Administração e Empreendedorismo

www.andrewsetonpropertylawyer.co.nz

Diego Aires

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Marcos Citeli

uita gente está acostumada a ouvir falar de conselho de administração para as empresas listadas em bolsa, já que existe um requisito legal que as obriga a constituir um, e mesmo para empresas familiares, que veem no conselho uma maneira de ter uma opinião menos emocional sobre o negócio. Menos comum é ouvirmos falar desta estrutura para o caso de empresas inovadoras que estão apenas começando, as chamadas start-ups. Isto se dá porque muitas vezes é enfatizada uma das funções do conselho – monitoramento da gestão – em detrimento de outra função: aconselhamento. Mas o que é mesmo o conselho de administração? Uma possível definição seria um corpo de membros eleitos ou designados, que conjuntamente aconselha (primeira e mais antiga função deste órgão) e/ou supervisiona (função mais recente surgida com o advento das grandes corporações) as atividades de um ou mais gestores de uma organização. Sua origem como órgão de conselho é remota e Só-

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crates já dizia “que a guerra é importante demais para que seu manejo fique apenas nas mãos de generais”, e a referência mais antiga que temos notícia talvez seja a do imperador chinês Yao (em torno de 2.300 a.C.) que, considerado um lendário rei-sábio de moral perfeita, constituiu uma junta de conselho, a qual consultava a cada decisão importante que tomava, e assim governou com sabedoria seu reino dos 20 aos 119 anos. Mais recentemente, com a separação entre propriedade e gestão, comum nas grandes corporações com ações na bolsa de valores, o conselho de administração passou a ter muita importância como defensor dos direitos dos acionistas, principalmente dos minoritários, pois estes não possuem quantidade suficiente de propriedade da empresa para terem o incentivo ou força suficiente para defender seus interesses, ficando à mercê dos gestores ou dos acionistas controladores. Na função de monitoramento o conselho normalmente estará fazendo o papel de intermediário entre os donos da empresa e os seus gestores e, embora alguns dos executivos também possam fazer parte do grupo, contribuindo principalmente com seu conhecimento mais próximo do dia-a-dia da organização, normalmente se pede que a maior parte do conselho seja formada pelos chamados conselheiros externos ou independentes, isto é, membros que não fazem parte do grupo de gestores das empresas. Já na função de aconselhamento, onde a confiança e o conhecimento mais aprofundado da empresa são fundamentais, normalmente é maior o número de conselheiros que tenham alguma relação com a empresa, e portanto não são independentes. O efetivo funcionamento de cada conselho é

definido individualmente por cada empresa nos acordos dos sócios ou regimentos internos, tendo sempre que levar em conta as leis do país e do mercado de ações onde está listada. Cada uma das duas principais funções do conselho – monitoramento e aconselhamento – são enfatizadas, respectivamente, por duas teorias sobre o funcionamento da governança nas empresas: teoria da agência e teoria do stewardship, ainda sem tradução para o português, mas que poderia ser chamada teoria do custódio. Na primeira o conselho serve principalmente para monitorar os gestores, enquanto na segunda sua principal função é aconselhar e apoiar. A teoria da agência se popularizou como mecanismo que explica bem as relações das empresas listadas em bolsa, principalmente daquelas com grande dispersão de propriedade, isto é, as ações distribuídas por várias pessoas e sem uma pessoa ou grupo com controle suficiente para ter interesse (e poder influir) nos seus destinos. Assim, o conselho de administração “monitora” os executivos para assegurar o retorno desejado pelos acionistas. Reparem que está implícito nesta esquematização uma divergência de interesses entre os gestores e os acionistas. A teoria do custódio, pelo contrário, parece explicar melhor as relações de governo naquelas empresas onde a divergência de interesses é menor: empresas familiares ou de capital fechado e nas mãos dos executivos principais. Neste caso o papel principal do conselho de administração é realmente aconselhar nas decisões gerenciais, normalmente trazendo seu conhecimento e experiência para as discussões dos rumos da organização. Para uma start-up que atua em um mercado inovador, normalmente com propriedade nas mãos de um ou mais sócios, todos gestores e donos ao mesmo tempo, como não há divergência de interesse entre proprietários e gestores, a função principal do conselho de administração está em apoio estratégico, uma visão de quem está de fora e tem muita experiência em manter um negócio e pode sugerir caminhos, mercados, contatos e estruturações que ajudem o insipiente empreendimento a escapar dos perigos dos começos. Depois de alguns anos, com a entrada de novos investidores, o conselho começa a desempenhar também o seu papel de monitoramento em prol dos proprietários que estão longe da gestão da empresa. Em particular, para uma empresa nos seus primeiros anos, o conselho também ajuda muito no processo de tomada de decisão, pois este envolve olhares enviesados que precisam ser confrontados com outros interlocutores. Como muitas das decisões dos primeiros momentos são prudenciais, isto é, decisões tomadas com pouca informação, sem uma solução correta úni-

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ca, e de muitos riscos, o conhecimento de empresários mais experientes no conselho traz toda uma gama de vivências que enriquecem o conjunto de possíveis caminhos, ainda que a decisão final fique por conta dos proprietários/gestores. Pode-se enumerar alguns pontos de melhora na tomada de decisão que a presença de um conselho confere: manter o foco, isto é, numa empresa start-up os recursos são muito escassos e dispersões podem ser fatais; prudência, receber alertas e estar preparado para possíveis problemas, sabendo ler sinais de que eles se aproximam; implementação da estratégia, isto é, depois de gastar algum tempo para construir um bom plano de negócios, a implementação do mesmo pode não ser bem feita, e a prestação de contas diante do conselho pode ser um grande catalisador de esforços na direção correta. Todos estes fatores melhoram em muito não somente a tomada de decisão, mas também sua execução. Enfim, pode-se dizer que o conselho de administração tem duas grandes funções dentro de uma empresa: monitoramento e aconselhamento. Ambas possuem arcabouço teórico que as justificam e ambas estarão sempre presentes em maior ou menor grau, e a predominância de uma sobre a outra pode ser observada de acordo com o grau de separação entre gestão e propriedade, o que também vai influenciar a sua composição com mais ou menos conselheiros independentes. O que parece ser novidade que tenho observado ultimamente, por meio dos nossos alunos do ISE, é que também as empresas que estão só começando parecem se beneficiar desta estrutura por meio de sua função inicial antes do crescimento de empresas com gestão e propriedade separadas. Marcos Citeli é Professor do ISE Business School, Diretor Acadêmico do Emba-Brasil/IESE-ISE e Consultor de eEmpresas

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feminilidade

O

Naturalmente

GRACIOSA Aline Rocha Taddei Brodbeck

corpo feminino atrai e é óbvio que a beleza exterior deve ser valorizada, porém não com exclusividade e não sem o recato necessário que faz com que guardemos o tesouro precioso de nossa intimidade – inclusive corporal. Audrey Hepburn não é a negação da atração física, nem da beleza externa. Pelo contrário, era uma mulher lindíssima e que sabia usar de seus atributos corporais. Nunca, todavia, “apelou”, como se diz. Nunca fez do corpo um bem em si mesmo. Nunca precisou estar seminua ou “disfarçada de vestida” para que sua formosura fosse notada. Entre o vestir-se de burca, à moda islâmica, e o andar pelada pelas ruas, existe o saudável equilíbrio, permeado pela modéstia e pelo bom senso. “A mulher elegante tem, sobretudo, pudor. O pudor é a tendência natural à reserva daquilo que é íntimo. Onde há intimidade brota o pudor.” (Sheila Morataya-Fleishman) Todo ser humano deve comportar-se com elegância, como um sinal exterior de sua vida interior. De fato, embora o interior seja o que mais valha, deve ele exteriorizar-se. É próprio da antropologia corretamente entendida que seja assim, dado que o ser humano é dotado de corpo e alma substancialmente unidos. O que é interno deve manifestar-se externamente. Diz-nos a boa filosofia que a ordem exterior reflete a ordem interior, daí que a elegância, como traço natural distintivo da delicadeza da alma, seja própria do ser humano e quase que uma obrigação do verdadeiro cristão, mais ainda da mulher. Nossa imagem deve projetar nossos valores pessoais mais profundos: assim, se uma mulher tem respeito por si mesma, evitará conversas vulgares e se vestirá com sobriedade; se uma mulher reconhece sua própria dignidade não será uma “desajeitada”. Cumpre alertar o leitor não somente contra a mulher grosseira e brutalizada, como contra aquela que, sendo feminina, abusa da sensualidade e apresenta-se como peça de carne em um açougue. Ambas são vulgares, cada qual em seu estilo. Ambas são o exato oposto da mulher adorável. A elegância verdadeira deve brotar do interior da mulher. Não só é uma distinção das formas e das maneiras, como, em um sentido mais profundo, um modo como a própria mulher se valoriza e se percebe. Andam juntas elegância e auto-estima (a verdadeira, pois de falsas auto-estimas, que são mais vaidade do que outra coisa, o mundo contemporâneo está cheio). A mulher se projeta no exterior da maneira que se sente. A modéstia no vestir, tão próprio da mulher verdadeiramente adorável, como Audrey, não significa que tenhamos

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que nos vestir de um modo antiquado, anacrônico. Isto seria uma afetação puritana, uma atitude esnobe até mesmo. Podemos nos vestir contemporaneamente, mas com elegância. Justamente aí está a sobriedade. Elegância não é “peruagem”, mas equilíbrio. Saibamos, ademais, que boas maneiras, educação, urbanidade e etiqueta são modos de manifestar a virtude da caridade. A elegância não se limita às vestes. É, antes de tudo, um jeito característico de portar-se e de falar. O porte diz tudo: clássico, mas não anacrônico; altivo, mas não prepotente; humilde, mas não subserviente; nobre, mas não afetado – assim deve ser a mulher. Circunspeção e discrição devem ser palavras de ordem. A mulher adorável precisa ser uma mestra na cortesia, na etiqueta, nos bons modos. Deverá sorrir, mesmo nas situações adversas. Saberá cumprimentar a todos, superiores e subordinados, tratando-os com carinho e amabilidade. Vigiará o tom de suas palavras, procurando não ofender o outro. Ordenará sua casa, evitando gritos na correção dos filhos, por exemplo. Será consciente de que gargalhadas excessivas em uma mulher a fazem vulgar quando em público: pode-se rir com gana e vontade, sem necessidade de fazer escândalo. Comportar-se-á à mesa, manejando os talheres, mastigando com delicadeza, evitando gestos bruscos e posturas desleixadas. Será elegante, mas não pedante e afetada: sua elegância e cortesia precisam ser naturais. Isso nada tem de futilidade. Quando uma mulher se aperfeiçoa na etiqueta, nos bons modos, na cortesia, na elegância, trabalha em todas as

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áreas de sua vida: sua dimensão física (desenvolvendo uma marca pessoal), sua dimensão humana (aumentando a segurança em si mesma pela certeza de fazer as coisas certas), sua dimensão espiritual (dado que boas maneiras são, em suma, pensar nos outros; etiqueta é um modo de regular a caridade). A mulher adorável é generosa com seu sorriso, considera primeiro o próximo antes que a si mesma, tem uma aparência impecável, cultiva seus valores e esforça-se no crescimento das virtudes, é graciosa no andar e no falar, trata as pessoas com igualdade, faz brotar o amor de sua vida de dentro de si. Ela deve nunca demonstrar desleixo quando estiver de pé, saber cruzar as pernas graciosamente, evitar cruzar os braços de modo masculino. Ter roupas e sapatos limpos, de boa qualidade e bem desenhados, não necessariamente caros ou de grife. Procurar afastar os cabelos do rosto, para que não fique escondida. Manter uma boa expressão facial. Vestir-se adequadamente conforme a situação e, havendo dúvidas, usar um vestido clássico em cor neutra com pequenos acessórios elegantes. Pensar sempre bem do outro. Refutar o uso de vulgaridades e linguagem obscena. Agradecer, dizer “obrigado”, “bom dia”, “por favor”. Manter a casa limpa e organizada. É óbvio que a época de Audrey Hepburn não foi uma era de ouro (como neste exílio e vale de lágrimas nunca haverá). Foram suas contemporâneas muitas atrizes que de virtuosas tinham pouco, com condutas sexuais reprováveis. Audrey, entretanto, se destacava por manter sua personalidade doce em meio às de sua geração. Não podemos mitificar o passado (como igualmente não podemos glorificar o presente ou achar que o futuro é necessariamente bom, sempre pro-

também com uma terrível necessidade de dá-lo.” E: “Aconteça o que acontecer, a coisa mais importante é envelhecer graciosamente.” O mundo de hoje anseia por mulheres adoráveis, como Audrey e tantas outras. Ele precisa desse toque feminino, dessa delicadeza própria da mulher que impede que nossas relações sociais e culturais sejam tão burocráticas, tão frias, tão assépticas. É a “adorabilidade” feminina que as transforma em relações entusiásticas, calorosas e cheias de vida.

A eleg ância verdadeira deve brotar do interior da mulher. Não só é uma distinção das formas e das maneiras, como, em um sentido mais profundo, um modo como a própria mulher se valoriza e se percebe.

NOTA

Aline Brodbeck é advogada, professora, mãe de dois filhos e proprietária do Blog Femina – Moda e Modéstia, para mulheres

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curando novidades), mas, embora a moda mude e a cultura se altere, os princípios comportamentais permanecem. Todas querem ser tratadas como damas, mas poucas se comportam como uma. Audrey Hepburn está emblemática na foto ao lado. Seu porte cheio de nobreza, a distinção nos gestos, a calma, a afabilidade que é natural e não forçada, a correção na postura sem ser, todavia, pedante ou afetada, o apuro nas vestimentas denunciam uma figura em tudo dotada de feminilidade. A mulher adorável mostra-se nos seus gestos delicados e suaves, no seu sorriso simples, discreto, porém verdadeiro. Possui uma força de alma inquebrantável, um signo de cordialidade e paz, e uma douceur de vivre¹. Ela é toda encantadora. A harmonia de seus traços combina com a grave suavidade com que ergue o rosto e com que fecha delicadamente as pálpebras. Uma maquiagem cândida, contrária a exageros e, por outro lado, a falsas naturalidades descabidas. O colar e o brinco, ambos de pérolas, indicando leveza. O coque combinando com o discreto chapéu e as luvas sinalizando aristocracia. Não há nervosismo em seu aspecto. O próprio modo como segura o cigarro é característico: sem a vulgaridade tão comum em muitos que fumam, e, por outro lado, sem aquela artificialidade de quem só quer “aparecer”. Mas o mais significativo é o seu olhar; ele é expressivo ao ser singelo e altivo. Ao mesmo tempo, há toda uma seriedade em sua fisionomia que se destaca em relação aos sorrisos fáceis de hoje em dia. Não que Audrey não sorria (tem, aliás, um sorriso cativante, como se nota em outras cenas), mas não lhes parece que hoje todos mostram os dentes com desnecessária constância? São de Audrey duas frases que resumem bem o tipo da mulher adorável: “Nasci com uma enorme necessidade de afeto, mas

¹Douceur de vivre , expressão do célebre primeiro-ministro Talleyrand, significa “doçura de viver” e se refere à natural e sadia alegria da vida, que não se confunde com o hedonismo, a idolatria do prazer.

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gastronomia

Receitas rápidas Renan Oliveira

1

Batata com Bacon Gratinada

Ingredientes: • 500g de Batata • 100g de Bacon • 1 Lata de creme de leite • ½ Cebola • Pimenta-do-reino • Fio de Azeite • Sal a gosto • Ervas secas • 50g de queijo mussarela ralado

2

Almôndegas Com Spaghetti

Ingredientes: • 500g de Carne Moída • 2 Dentes de alho • ½ Cebola Picada • Pimenta-do-reino • 5 Tomates • ¼ Xícara de Salsa Picada • 500g de Spaghetti • 2 Colheres (sopa) de Azeite Modo de preparo: Descasque as batatas e corte-as em tiras. Em seguida as coloque em um saco com gelo por 30 minutos, depois retire tudo para secar com um pano. Em uma panela, coloque o óleo para esquentar e após 5 minutos comece a fritar as batatas. Corte o Bacon em tiras e frite-as. Para o molho, coloque em outra panela o azeite e em seguida a cebola picada e a pimenta moída; espere dourar e por fim coloque o creme de leite e as ervas secas (manjericão, orégano, etc). Por fim, coloque em uma travessa as batatas, o bacon, o molho e o queijo ralado - nessa ordem - e ponha no forno pré-aquecido até derreter o queijo.

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Modo de preparo: Molho: em uma panela, coloque o azeite e a cebola e deixe dourar. Em seguida, ponha os tomates cortados em cubos e deixe cozinhar por 20 minutos, depois coloque a salsa picada e cozinhe por mais 5 minutos; passe o molho no liquidificador e retorne-o para a panela até ferver. Almôndegas: tempere a carne com alho moído, sal a gosto e pimenta; em seguida faça bolinhos de carne com as mãos e frite-os em azeite. Após finalizar, coloque as almôndegas no molho e deixe ferver por 10 minutos. Sirva-as sobre o spaghetti cozido.

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4

Tortilhas de Limão

Massa: • 2 xícaras de farinha de trigo • 4 colheres de sopa de manteiga • ½ lata de creme de leite • 1 colher (chá) de fermento

3

Recheio: • 1 lata de leite condensado • ½ lata de creme de leite • 6 colheres de suco de limão • Raspas de limão

Tomates recheados

Merengue: • 2 claras • 1 xícara de açúcar

Ingredientes: • 4 Tomates • 1 pão francês • 1 kg de Queijo Mussarela Ralado • 3 colheres de azeite • 1 colher de café de Tomilho • 1 colher de café de Orégano • 1 colher de café de Manjericão seco • Sal a gosto • Pimenta-do-reino a gosto

Se não tiver saco de confeiteiro, é possível decorar o merengue usando um saco plástico comum limpo, cortando a ponta.

Massa: Em uma vasilha, coloque a farinha e o fermento e misture-os até que fique homogêneo, em seguida acrescente a manteiga e o creme de leite e repita o procedimento. Depois, deixe descansar por 30 minutos. Estique a massa sobre uma superfície lisa - untada com farinha de trigo - e forre as formas; logo após, fure o fundo das formas com um garfo para o ar sair quando for assar. Asse por 10 minutos em forno médio pré-aquecido. Creme: em uma vasilha, misture o leite condensado, as raspas, o suco de limão e o creme de leite, até que fiquem homogêneos. Merengue: Coloque as claras com o açúcar no fogo por 5 minutos, depois ponha a mistura na batedeira até ficar em neve. Montagem: Preencha as formas com o creme e em seguida cubra com o merengue. Leve ao forno até dourar o merengue e depois coloque na geladeira. Sirva gelado.

Modo de preparo: Passe no liquidificador o pão até que fique em farelos. Em seguida, misture os farelos com o queijo e os demais ingredientes - com exceção do tomate. Corte a “ponta” dos tomates e lave-os, retirando as sementes para criar cavidades; depois os recheie com a mistura feita e leve ao forno pré-aquecido por 15 minutos.

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DICA

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Internacional

Antônio Milena/ABr

dos fatos, que também acontecesse o fim do comunismo, Fidel Castro convida Lula para um encontro com o objetivo de, segundo palavras dele mesmo, “reconstruir na América Latina o que se perdeu no Leste Europeu”. Nesse encontro participaram não somente os partidos comunistas e socialistas do continente, como grupos terroristas como o MIR chileno, o Sendero Luminoso do Peru, o FMLN de El Salvador, o FSLN da Nicarágua, a URNG da Guatemala, o ELN e as FARC da Colômbia, os Tupamaros do Uruguai, o PRD do México, além do PT, do Brasil, encabeçado por Lula, e os partidos PCB, PSB e PC do B brasileiros. Durante 15 anos o Foro de São Paulo manteve-se em absoluto sigilo dentro do Brasil e aqueles que o denunciavam como uma organização criminosa, como o filósofo e jornalista Olavo de Carvalho, eram rotulados de “paranóicos”, “delirantes”, “mentirosos”. Quando o FSP foi criado apenas Fidel Castro governava - ditatorialmente - um país, mas dentre os principais objetivos desta organização estava o de colocar na presidência dos países-membros seus representantes, a fim de implantar o comunismo em todo o continente latino-americano, para derrubar o “neo-liberalismo” e decretar a fim do capitalismo. Após todos esses anos de silêncio e até mesmo negação da existência do FSP, como faziam os jornais e revistas nacionais, e tendo conseguido alcançar parte dos seus objetivos – uma vez que mais de 12 países eram governados pelo FSP – no evento em comemoração desses 15 anos Lula afirmou que fora necessário manter esse sigilo para que seus planos dessem certo. Com esse aval, jornalistas que antes negavam - mesmo

Lula e Fidel Castro, os fundadores do Foro de São Paulo, no Palácio da Revolução, em Havana, Cuba, no ano de 2003. O Foro foi fundado, segundo o ditador cubano, para transformar a América Latina numa nova União Soviética.

Graça Salgueiro

N

Cuba havia perdido o apoio da Rússia, o muro de Berlim havia caído e a União Soviética havia sido desmantelada. Sem apoio econômico russo e temendo, diante

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Imagem: Soulflytribe

O Foro de São Paulo e as FARC, mais unidos do que nunca

o XVIII Encontro do Foro de São Paulo, ocorrido em Caracas entre os dias 4 e 6 de julho de 2012, aquilo que o PT e todos os partidos-membros do Foro de São Paulo (FSP) negaram durante anos ficou evidenciado: que as FARC continuam filiadas a esta organização. Para esclarecer aos que não sabem e reavivar a memória dos que conhecem, o FSP foi criado em 1990 por Luiz Inácio Lula da Silva e Fidel Castro num encontro realizado na cidade de São Paulo.

sabendo da veracidade das denúncias feitas por Olavo - passaram a falar do FSP com a naturalidade de quem sempre conheceu e falou desta organização comuno-terrorista e, apesar das evidências concretas da participação – primeiro direta, depois indireta – das FARC, que enviavam suas deliberações aos encontros anuais, a imprensa nacional continuava negando a presença do grupo colombiano no Foro. O Foro de São Paulo tem caráter deliberativo e as decisões tomadas durante os encontros anuais são registradas em uma Resolução Final, que é firmada por todos os membros e cujas ações são postas em prática imediatamente. No XVIII Encontro ocorrido este ano, chamou a atenção que agora a organização estendeu seus tentáculos aos Estados Unidos e países da Europa, Ásia e África, além de apoio aos movimentos chamados “indignados” e “ocupa”. Organizações terroristas como o Al-Fatah palestino e o ETA basco agora fazem parte do FSP, além da organização “Marcha Patriótica”, da Colômbia, que é na realidade uma nova frente criada e mantida pelas FARC. Neste encontro o ELN enviou um comunicado pedindo “diálogo direto ou epistolar para falar de paz”, mas isso não chamou a atenção de ninguém da imprensa brasileira. A “Marcha Patriótica”, que pretende se transformar em partido político, foi representada pela ex-senadora e embaixadora das FARC, Piedad Córdoba, codinome “Teodora de Bolívar”, e lá armou-se dois stands vendendo livros, agendas e camisetas das FARC, conforme pode-se ver

Em vermelho, os países atualmente governados pelo Foro de São Paulo. O Paraguai deixou de ser governado pelo Foro após o impeachment de Fernando Lugo no dia 22 de junho de 2012, ocasião aproveitada pelas Presidentes Dilma e Cristina Kirchner (Argentina) para inserir a Venezuela do ditador Hugo Chávez – outro importante membro do Foro - no Mercosul.

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Catolicismo

nas fotos exclusivas do site Periodismo Sin Fronteras da Colômbia. O que negou-se durante tanto tempo, sobretudo depois que foram abatidos seus principais cabeças (Raúl Reyes, Mono Jojoy e Alfonso Cano), ficava agora confirmado e escancarado para quem quisesse ver. Nos dois stands, um da “Marcha Patriótica” e outro do partido político “Polo Democrático Alternativo” - ambos formados por membros das FARC -, podia-se encontrar abertamente para venda cartazes do encontro havido em 26 de março, dia do “guerrilheiro heróico” (em alusão à data em que morreu de morte natural seu fundador Manuel Marulanda “Tirofijo”), agenda “FARC 2012” que contém datas comemorativas do bando terrorista e informações para os guerrilheiros, informes do Bloco Caribe “Martín Caballero”, camisas com estampa do “Mono Jojoy” e até um livro intitulado “As FARC para principiantes”. Em conversa com os vendedores dos stands, o correspondente de Periodismo Sin Fronteras ficou sabendo que todo este material era produzido na Venezuela e distribuído pela fronteira para diversas partes da Colômbia, ficando parte do material para ser vendido na própria Venezuela. Essas agendas são geralmente compradas pelos membros da “Coordenadora Continental Bolivariana”, criada por Alfonso Cano, e que existe não só na Venezuela como em vários países, inclusive no Brasil. A maioria das pessoas que compravam nesses dois stands pertencem ao bairro “23 de janeiro”, onde está localizada a praça Manuel Marulanda Vélez e principal reduto do chavismo. Todo o material sobre as FARC à venda nesse encontro é produzido na Venezuela porque vivem lá alguns dos cabeças do Secretariado, como o Secretário Geral Timochenko, Iván Márquez, Rodrigo Granda e Pablo Catatumbo, e é por ordem deles que se envia para cada frente das FARC na Colômbia. Pelos representantes que participaram e pelo material que foi vendido durante o XVIII Encontro, não resta qualquer dúvida de que as FARC continuam, sim, participantes ativas do Foro de São Paulo, e dessa forma disfarçada podem continuar direta e legalmente sem que ninguém desconfie de sua presença nem que elas sejam minimamente incomodadas. E tanto as FARC continuam como membros do FSP que a revista oficial do Foro, a “América Libre”, cujo editor-chefe é Emir Sader, mantém o nome de Tirofijo no conselho editorial, mesmo depois de morto. Desse conselho também fazem parte os brasileiros Chico Buarque de Hollanda, Luis Eduardo Greenhalgh, João Pedro Stédile (chefe do MST), Frei Betto e Leonardo Boff, dentre outros.

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A.1: Cartaz do encontro de 26 de março de 2012, dia do guerrilheiro heróico. A.2: Informe do Bloco Caribe “Martín Caballero” do primeiro trimestre de 2012. A.3 e A.4: Livro “As FARC para principiantes” e uma agenda FARC 2012.

O que é a

Stand da Coordenadora Continental Bolivariana. B.1: Camisetas de Jorge Briceño, o “Mono Jojoy”, um dos líderes das FARC abatidos pelo exército colombiano em 22 de setembro de 2010.

Não se pode tapar o sol com a peneira e a mentira sempre deixa seus rastros, suas pegadas em falso. Por mais que o PT de Lula e Dilma finja não ter qualquer vínculo com este bando narco-comuno-terrorista, eles mesmos acabam se revelando, pois o que se esconde debaixo de sete chaves no Brasil, na Colômbia já é de domínio público.

GRAÇA SALGUEIRO é psicóloga clínica e jornalista, proprietária dos blogs “Notalatina” (Brasil) e “Observatorio brasileño” (em espanhol). É articulista em sites e jornais do Brasil, Argentina e Colômbia.

Fé? Cleiton Robson

Jesus e São Pedro caminham sobre as águas (1411), de Luis Borrasá. “Ele disse-lhe: Vem! Pedro saiu da barca e caminhava sobre as águas ao encontro de Jesus. Mas, redobrando a violência do vento, teve medo e, começando a afundar, gritou: Senhor, salvame! No mesmo instante, Jesus estendeu-lhe a mão, segurou-o e lhe disse: Homem de pouca fé, por que duvidaste?” (Mateus 14, 29-31).

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Cleiton Robson é Professor de Filosofia pela Universidade Católica de Brasília (UCB) e Bacharelando em Teologia pelo Instituto São Boaventura de Brasília.

O

Catecismo da Igreja Católica diz que “a virtude é uma disposição habitual e firme para fazer o bem. Permite à pessoa não só praticar atos bons, mas dar o melhor de si. Com todas as suas forças sensíveis e espirituais, a pessoa virtuosa tende ao bem, procura-o e escolhe-o na prática” (CIC, 1803). Daí entender que “o objetivo da vida virtuosa é tornar-se semelhante a Deus”1 . As virtudes não são algo que o homem possui: fazem parte do que ele é. Não se trata de possuir a fé, a justiça, etc, mas sim, de ser crente, de ser justo, etc. O homem não é automaticamente virtuoso; é necessário que ele faça por ele mesmo um repetido esforço moral, continuamente renovado. Quando para de fazer esse esforço, o homem retrocede. E para o cristão, as virtudes são um dom de Deus, uma coparticipação na sua bondade e santidade. Não se trata apenas de cumprir atos virtuosos, mas antes de chegar àquilo que é a expressão unitária da vida cristã. Não basta fazer sem antes ser. As virtudes teologais apontam para as nossas raízes mais profundas que se encontram em Deus, do qual jorram os frutos correspondentes da graça [do Espírito] que, no dizer de São Paulo, são: “a caridade, a alegria, a paz, a afabilidade, a bondade, a fidelidade, a doçura, a temperança.” Uma vez enraizados em Deus, temos na origem uma realidade só, chamada de graça habitual, que se ramifica em várias virtudes, dons e frutos, e conserva a unidade da alma. São Boaventura mostra que a distinção que fazemos é apenas formal, não real, já que realmente na origem de todas as virtudes está a graça divina que é uma só. Se nosso projeto fundamental está enraizado em Deus, as virtudes são desenvolvimentos consequentes deste projeto. Toda a vida religiosa e moral do cristão e de todo homem orientado a Deus baseia-se nas virtudes teologais (isto é, divinas). Elas são três: a fé, a esperança e o amor (ou caridade), que aparecem na Sagrada Escritura como comportamentos decisivos do homem perante Deus que o chama. Neste sentido, as virtudes teologais se referem diretamente a Deus e, por isso, são ‘divinas’. Dispõem os cristãos a viver em relação com a Santíssima Trindade e têm Deus como origem, motivo e objetivo. Elas fundamentam, animam e caracterizam o agir moral do cristão. Dão vida e forma a todas as virtudes morais. São infundidas por Deus na alma dos fiéis para

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torná-los capazes de agir como seus filhos e merecer a vida eterna. São a garantia da presença e da ação do Espírito Santo sobre o ser humano. Não existem virtudes que sejam mera aquisição humana, uma vez que Deus atravessa todo o esforço humano. Mesmo que elas necessitem do esforço humano para concretizar o projeto fundamental (e, por isso, são chamadas de virtudes humanas ou morais), elas são igualmente divinas e infusas, porque a força (virtus) que encaminha, sustenta e plenifica tudo no ser humano é Deus. Em tudo o que somos e fazemos existe uma profunda unidade, impregnada de Deus, que será aqui tematizada justamente pelas virtudes teologais. A fé, a primeira das virtudes Do latim fides. É uma virtude sobrenatural pela qual – apoiados na autoridade de Deus – cremos nas verdades que Deus revelou e a Igreja nos ensina. “A fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que não se veem.” A fé é o ato de crer, de confiar. No Cristianismo, a fé significa crer na pessoa de Jesus como Messias, Filho de Deus e Senhor. A fé indica ao mesmo tempo, aceitação das verdades reveladas e confiança em Deus, cumpridor fiel de suas promessas. Em muitos textos das Sagradas Escrituras predomina o primeiro sentido; em muitos outros, o segundo. A fé constitui-se no elemento fundamental de toda a vida espiritual, sendo o primeiro contato do homem com as realidades da revelação. Ela é a virtude teologal pela qual cremos em Deus e em tudo o que nos disse e revelou, e que a Santa Igreja nos propõe para crer, porque Ele é a própria verdade. Pela fé, o homem livremente se entrega todo a Deus. Por isso o fiel procura conhecer e fazer a vontade de Deus. O dom da fé permanece naquele que não pecou contra ela. Mas “é morta a fé sem obras” e, quando privada da esperança e do

amor, a fé não une plenamente o fiel a Cristo e não faz dele um membro vivo de seu Corpo. Fazendo uma pequena análise, à primeira vista, a doutrina de São Tiago sobre a justificação parece ser o contrário da ensinada por São Paulo. Este último diz: “O homem é justificado pela fé, e não apenas pelas obras da Lei”, e também: “O homem não é justificado pelas obras da Lei, mas pela fé de Jesus Cristo”. São Tiago diz: “O homem é justificado pelas obras e não pela fé somente”. Não haverá aqui uma contradição? São Paulo e São Tiago, embora usando as mesmas palavras, falam de coisas diferentes. A Fé em São Paulo é a fé concreta, a fé que age, a fé que recebe da caridade seu impulso e sua forma: é a fé que já envolve em si a ação, a obra. A fé em São Tiago é um simples assentimento da inteligência, é simplesmente saber que algo é deste ou daquele jeito, comparável ao assentimento que os demônios prestam às verdades por eles conhecidas. É evidente que este ato puramente intelectual (simplesmente saber como as coisas são) não pode influir na justificação do homem. São Paulo falava das obras anteriores à fé em Cristo, especialmente as prescrições da Lei de Moisés, e dizia que aquelas obras apenas não salvavam, que era necessária a fé no Filho de Deus, uma fé viva. Já São Tiago fala das obras posteriores à fé em Cristo, afirmando que não basta só crer no Filho de Deus, é preciso mostrar com obras concretas que se vive de acordo com seu Evangelho, caso contrário a fé é morta (como o próprio Jesus dissera: “Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos céus, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus”- Mateus 7,21). Um declara ao infiel que, sem a fé, ele não pode alcançar a justificação. O outro ensina ao cristão que deve colocar sua conduta em acordo com a fé, porque a fé sozinha de nada lhe basta. São Paulo e São Tiago falavam cada qual de um momento diferente (antes e depois da fé em Cristo) e assim os dois se completam. Não há contradição entre eles, como alguns imaginaram encontrar. O discípulo de Cristo não deve apenas guardar a fé e nela viver, mas também professá-la, testemunhá-la com firmeza e difundi-la: “Todos devem estar pron-

tos a confessar Cristo perante os homens e segui-lo no caminho da Cruz, entre perseguições que nunca faltam à Igreja”2 . O serviço e o testemunho da fé são requisitos da salvação. O primeiro dever do homem, ao qual Deus deu Sua Palavra é a fé. Quando o Senhor que nos criou nos convida à fé e nos dá a possibilidade de reconhecer que é Ele quem chama, se exige de nós “a obediência de fé”. Somente se acreditamos n’Ele podemos esperar n’Ele e amá-lo. A fé é “o início da salvação humana” 3. Sem a fé é impossível ao homem decadente não pecar durante o curso da sua vida, não ser arbitrário ou egoísta, ou insensível. “É a fé, de fato, que eleva o espírito e lhe permite considerar as coisas humanas na perspectiva de Deus” 4 “Sem a fé é impossível ser agradável a Deus.” O termo “fé” é frequentemente empregado em sentido amplo, para designar uma resposta plena à palavra de Deus, vista na esperança e no amor. “Fé”, entretanto, é usada em sentido mais estrito, para conotar um aspecto da vida cristã, distinto daquele da esperança e do amor, mas também com eles intimamente ligado. Tal fé é um autêntico dom de Deus, que permite crer em Deus e aderir livremente à Sua Palavra. A Igreja ensina que é possível para um pecador ter fé. A Igreja negou, decisivamente, que “perdendo a graça com o pecado, é perdida também a fé”. Quando um cristão comete um pecado grave, um pecado que não seja aquele de renegar ou repudiar a fé, não perde o dom da fé. Mas, “a fé, sem a esperança e a caridade, não une perfeitamente o homem a Cristo, nem mesmo o desenvolve como um membro vivo do Seu corpo. Eis porque se afirma justamente que ‘a fé sem as obras é

NOTAS

¹ São Gregório de Nissa, Beat., 1: PG 44, 1200 D. 2 Concílio Vaticano II, Constituição Dogmática Lumen Gentium, n. 42 3 São Fulgêncio “De fide, ad Petrum”. Prólogo 1 (ML 65,671) citado no Concílio de Trento, 6ª sessão, em 13 de janeiro de 1547 no “Decreto sobre a justificação”. Cap. 8 (DS 1532) e no Concílio Vaticano I, 3ª sessão, em 24 de abril de 1870, na “Constituição Dogmática sobre a fé católica”. Cap. 3 (DS 3008). 4 Concílio Vaticano II, Constituição Pastoral Gaudium et Spes, n.15. 5 Concílio de Trento, 6ª sessão, em 13 de janeiro de 1547, no “Decreto sobre a justificação”, cap. 7 (DS 1531).

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perfeito que nós gozaremos no céu. Estes, portanto, são os deveres essenciais da Fé: tender a uma fé iluminada pela razão e aderir firmemente à palavra de Deus na sua pureza, evitando ser “agitados por todo vento de doutrina [...] que nos induz ao erro” (Efésios 4,15). Da mesma forma, os Pastores de almas e os pais, que têm a responsabilidade de cuidar dos seus, que são pequenos em Cristo, devem ser infatigáveis testemunhas da verdade que Deus revelou, conservando a fé na sua totalidade e “sempre com paciência e doutrina”.

Imagem: Vatican Pool/Getty Images

morta’ e inútil(...)”5. A fé é uma virtude infusa do Espírito Santo. É o dom permanente de um Deus fiel. Quem tem elevado a Deus uma fé explícita, cristã e católica, tem o dever de não abandoná-la jamais, de não rejeitar este dom. O Concílio Vaticano I recorda aos homens que devem se enriquecer à luz da fé e que têm o dever de jamais repudiar o dom recebido da benignidade de Deus. É claro que um crente tem sempre que pedir. O dom da fé é uma resposta parcial a quem é envolto na verdade. Não elimina todos os problemas. Tudo o que na fé se ensina tem a característica de certeza firme, mas não é esta a visão clara, própria da vida eterna. Quem ama a verdade que salva, pode seguramente formular uma questão, ter uma dúvida, mas ele perguntará na luz da fé, tendendo, assim, àquele conhecimento

“Conhecemos a resposta de Jesus : ‘A obra de Deus é esta : crer n’Aquele que Ele enviou’ ( João 6, 29). Por isso, crer em Jesus Cristo é o caminho para se poder cheg ar definitivamente à salvação”. Bento XVI, Carta Porta Fidei na qual proclamou o Ano da Fé. O Papa Bento XVI rezando diante do túmulo do Beato João Paulo II.

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Imagem: blogs.montrealgazette.com

/música

If You lean your head out far enough”, você ainda pode ver um jovem magrelo interiorano sentado ao lado de um velho cantor folk em seu leito hospitalar. O jovem dedilha no violão algumas músicas do velho e o faz companhia. Depois de uma série de encontros, após já não mais ter voltado para visitá-lo, o rapaz sente que deveria escrever uma música para aquele homem: “Eu senti que eu tinha que escrever aquela música. Eu não me considerava um compositor, mas eu precisava cantar aquilo, então foi por isso que eu precisava escrever aquilo, pois ainda não havia sido escrito. Aquilo era o que eu precisava dizer.”¹.

O homem sem fim Mateus Mota Lima

I’m out here a thousand miles from my home Estou aqui a mil milhas da minha casa Walkin’ a road other men have gone down Seguindo uma Estrada que outros homens já seguiram O jovem é Bob Dylan – nome artístico de Robert Allen Zimmerman – e a música é Song to Woody, escrita para homenagear Woody Guthrie, lendário músico folk americano, então bastante doente em uma clínica para doentes mentais em Greystone. O ano é 1961. A melodia é de uma das músicas do velho e a letra foi feita por Dylan para encaixar-se nela. A

música iria ser a primeira de sua autoria a ser gravada entre cerca de outras 500 ao longo dos mais de cinquenta anos de carreira, os quais ainda perduram e se alongam a cada dia. Ainda mais que na música, Dylan havia atravessado cerca de 1.200 milhas (por volta de 1900 km) dos EUA vindo da pequena cidade industrial chamada Hib-

bing, no Estado de Minnesota. A ele parecia ter nascido com o nome errado, com os pais errados e no lugar errado. O violão que passou a tocar quase instantaneamente, após encontrá-lo na nova casa que fora morar quando tinha dez anos de idade, certamente aguçou a propensão artística do rapaz, fazendo-o dedicar-se a ouvir toda a música que lhe fosse possível pelo

Still on the road: Bob Dylan se apresentado na França em 2012

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rádio, nas lojas de discos, em seus próprios discos e nos discos alheios que às vezes surrupiava por ser “um expedicionário da música”, como justificava. Bastava-lhe escutar uma canção uma ou duas vezes e já a sabia por inteiro, segundo dizia. Encharcado de expressões musicais do folk, blues, country, gospel e rock – Blind Lemon Jefferson, Hank Williams, Charley Patton, Rev. Gary Davis, Little Richard, Elvis Presley, John Jacob Niles, Muddy Waters, Odetta, Robert Johnson e Leadbelly, para citar alguns dos muitos artistas que o influenciaram – e inquieto pela morbidez de sua cidade, Dylan se esforçava pra fazer da música sua vida, sendo a leitura de On The Road, de Jack Kerouac, e a vontade de conhecer Guthrie definitivas para fazê-lo cruzar os EUA em busca da carreira artística em Nova York, não sem antes conhecer este último, o artista mais impressionante e influente para Dylan na época. Tomar tal estrada que já havia sido percorrida por outros homens seria – e ainda é – um grande risco, uma vez que muitos nela se perderam nos caminhos do imenso país e na busca da compreensão da própria existência. Não seria – e ainda não é – fácil estar a milhares de quilômetros de casa, tão jovem, e se encontrar em meio a tantas histórias e heranças, tantas pessoas.

I’m seein’ your world of people and things

Encontrar-se cada vez mais ao perder-se entre os milhões de viventes, por entre os milhares de caminhos possíveis, em meio às milhares expressões culturais que se acumulam mais e mais em sua bagagem definitivamente não é para todos, mas o foi para o Highway Chile (filho da estrada), como cantaria Jimi Hendrix a respeito de Dylan. Ele sabia que o caminho deveria começar ao lado daquele homem, lhe falando a respeito das coisas que ele já sabia – Hey, Woody Guthrie,

but I know that you know / All the things that I’m a-sayin’ an’ a-many times more (Ei, Woody

Guthrie, mas eu sei que você sabe tudo que digo e muito mais)– e se esforçando para ser grato a ele que tanto lhe legou e inspirou, como poucos, mesmo sabendo que não poderia ser grato o suficiente – I’m a-singin’ you the song, but I can’t sing

enough / ’Cause there’s not many men that done the things that you’ve done (Eu estou

cantando esta canção, mas não posso cantar suficientemente, pois não foram muitos os que fizeram o que você fez). Dylan ainda tinha ciência da gratidão que devia aos companheiros de Guthrie, que outrora com ele cruzaram o país e a história expressando a cultura que lhes deu vida e se confundia com eles próprios Eu vejo o seu mundo de pessoas e coisas – Here’s to

Destino é um sentimento que você tem que você sabe alg o sobre você que ning uém mais sabe. A imag em que você tem na sua mente sobre você vai se tornar real. É o tipo de coisa que você deve manter em segredo, porque é um sentimento frág il, que, se você expuser, alg uém vai matá-lo, então é melhor manter em segredo. Bob Dylan

Your paupers and peasants and princes and kings Seus pobres, camponeses, príncipes e reis E caso se pense que vai encontrar-se nas cidades nas quais não possui raízes, nas pessoas que nada têm de você e talvez nada tenham delas mesmas? Poderia ter sido sua perdição, mas não foi: “Destino é um sentimento que você tem que você sabe algo sobre você que ninguém mais sabe. A imagem que você tem na sua mente sobre você vai se tornar real. É o tipo de coisa que você deve manter em segredo, porque é um sentimento frágil, que, se você expuser, alguém vai matá-lo, então é melhor manter em segredo.”². Dylan talvez não soubesse quem era e ao certo aonde chegaria, mas sabia do dever de caminhar e fazer o que se tem que fazer, e a estrada tornou tudo ainda mais claro.

Cisco an’ Sonny an’ Leadbelly too / An’ to all the good people that traveled with you (Isso é para Cisco, Sonny e

Leadbelly também, e para todas as boas pessoas que viajaram a seu lado )– e da gratidão devida aos muitos anônimos que não poderia alcançar e, por isso, agradeceria simbolicamente em Woody a esses ‘homens que vieram com a poeira e se foram com o vento’ – Here’s to the hearts and

the hands of the men / That come with the dust and are gone with the wind (Isso é para os

corações e as mãos dos homens que vieram com a poeira e se foram com o vento). Esse encontro entre Dylan e Guthrie e essa música - metade de cada um - parecem ser, juntos, um marco que norteou Bob Dylan pelos anos de

Hey, hey, Woody Guthrie, I wrote you a song Ei, Woody Guthrie, eu te escrevi uma canção ’Bout a funny ol’ world that’s a-comin’ along Sobre o mundo engraçado que vem por aí Seems sick an’ it’s hungry, it’s tired an’ it’s torn Parece doente e está faminto, cansado e despedaçado

carreira. Neles, talvez, materializou-se a ligação de Dylan com o passado que herdara e, a partir dele, a sedimentação de sua personalidade artística, o autoconhecimento que não permitiria que qualquer vento o afastasse de si, de sua vocação. A partir de então, Dylan teve força suficiente para traçar com consciência o seu singular caminho artístico, o qual amalgama a sensibilidade poética e musical inata à cultura artística apreendida não só de músicos – como os já citados e os muitos não citados – mas de poetas como François Villon, Rimbaud, Paul Verlaine e Ferlinghetti; e de atores como Chaplin, Brando e James Dean. Dylan sempre pôde trazer todas essas heranças ao palco, uma vez confrontadas com sua própria vontade artística, de uma forma impressionante, desempenhando – com voz, violão e gaita – uma música de apenas duas ou três notas; bem como pôde mover uma multidão de sons comple-

xos junto a uma banda para dizer a coisa mais simples do mundo, embora ainda bela. Soube conduzir grande parte de sua tão vasta quanto extraordinária obra com sensibilidade artística em cada detalhe, criando e recriando inúmeros personagens nele mesmo; expondo literatura, teatro, cinema e música, ao escrever suas músicas e se apresentar no palco. No entanto, além de conduzir-se com destreza pela estrada, é necessário não deixar que os transeuntes ou mesmo os companheiros de viagem façam crer que o descaminho que apontam é o caminho que se anseia por seguir. Dylan não permitiu que o transformassem em um profeta ou porta voz de toda uma geração – “Você se acha um impostor quando alguém pensa que você é algo e você não é.”³, disse Dylan a respeito; nem que o aprisionassem em um estilo musical, mesmo

It looks like it’s a-dyin’ an’ it’s hardly been Born Parece que está morrendo, mas está nascendo com muita dificuldade

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/literatura

A Abolição do Homem, de C. S. Lewis

que em troca quisessem torná-lo o ícone máximo da música folk, escandalizando a quase todos os presentes ao tocar a ‘música burguesa’ que tanto odiavam – Rock and Roll – no Newport Folk Festival de 1965, o mais importante festival da cena folk da época, no qual inclusive Dylan era a principal atração. Tampouco se deixou ser o macaco amestrado que certos movimentos políticos da esquerda norte-americana queriam torná-lo, acabando por proferir um discurso ultrajante na ocasião que o Comitê de Emergência Pelas Liberdades Civis lhe conferiu o Tom Paine Award em 1963; nem permitiu que fãs enlouquecidos quisessem fazê-lo prefeito de New York ou coisas do tipo, chegando até a gravar discos ruins de propósito para afastar a legião de seguidores. Mesmo que os EUA por inteiro o implorasse para que se pusesse como o guia da nação, ele não moveria uma palha, pois estava certo que seu papel era somente codificar em versos e notas o que o seu senso artístico apontava. Bob Dylan é o maior e mais complexo artista da música popular de todos os tempos e, diferente de grandes músicos que ainda vivem artisticamente pelo impulso de suas obras passadas, ele ainda pode ser visto sobre os palcos melhor do que nunca – embora quase não lhe sobre voz – e compondo e gravando como sempre – em 11 de setembro de 2012 saiu seu novo disco Tempest. E tudo começou de verdade naquele quarto do manicômio e naquela música, quando Dylan acabava refletindo como seria a sua relação com a estrada e prometendo a Guthrie que, como outrora este, iria levar seu caminho a sério:

I’m a-leavin’ tomorrow, but I could leave today Somewhere down the road someday

Alessandra Lass

E Bob Dylan posa para foto imitando Woody Guthrie, sua maior influência musical.

Woody Guthrie

Eu vou partir amanhã, mas poderia partir hoje

Em algum lugar da estrada, qualquer dia

The very last thing that I’d want to do A última coisa que queria fazer Is to say I’ve been hittin’ some hard travelin’ too

É te dizer que também estou viajando de verdade

The Never Ending Tour4 que se pensava ter se iniciado em 1988, na verdade começou em 1961 e ainda está viva… Dylan é um homem sem fim.

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NOTAS

¹ Dylan faz o depoimento no documentário No Direction Home, de Martin Scorsese. ² A frase é dita em resposta a uma das perguntas de Ed Bradley, na entrevista no 60 Minutes, em 2004. ³ A frase é dita em resposta a uma das perguntas de Ed Bradley, na entrevista no 60 Minutes, em 2004. 4 ”A Turnê Sem Fim” é o nome popular dado à turnê de Dylan iniciada em 1988.

ngana-se quem pensa que a obra do escritor irlandês C. S. Lewis (1898 - 1963) se resume a conhecida série de livros infanto-juvenis As Crônicas de Nárnia. Na verdade, o grande sucesso obtido no mundo da ficção não impediu Lewis de dedicar parte do seu tempo a densos escritos de não-ficção. Entre tais trabalhos encontra-se A Abolição do Homem, um composto de três palestras sobre educação que foram ministradas por Lewis nos anos 40. No entanto, o propósito do livro vai muito além do tema educacional; é uma defesa da verdade objetiva contra o subjetivismo, ou ainda da lei natural em oposição ao relativismo. Dentre todos os seus escritos, A Abolição do Homem é a crítica mais direta que C.S. Lewis tece ao pensamento moderno. No primeiro capítulo, Lewis apresenta dois personagens a quem confere os pseudônimos de Gaius e Titius, supostos escritores de uma obra chamada O Livro Verde. Lewis aponta que esta obra, a qual devia ser apenas uma gramática para crianças, traz nas entrelinhas a mensagem de que não existem valores reais objetivos. Materiais didáticos como O Livro Verde são um desserviço ao verdadeiro propósito da educação, que é ensinar a virtude e a verdade genuína por meio do cultivo das afeições apropriadas para levar as crianças ao discernimento entre belo e feio, certo e errado, já semeando a ética, a lei moral em cada uma delas. Lewis argumenta que a educação moderna procura fazer o oposto disso, reduzindo todos os valores ao sentimentalismo, à mera emoção pessoal. Em contraste a esta ideia apresentada no Livro Verde, Lewis introduz o conceito de Tao, que significa “caminho”, e refere-se à lei natural inscrita no coração do homem. Ao afirmar a existência deste princípio, Lewis se junta à tradição de gigantes ocidentais como Platão, Aristóteles, Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino, entre outros, que defenderam a mesma verdade objetiva. Além disso, com a es-

colha do termo “Tao”, retirado da tradição chinesa, Lewis se volta também à sabedoria do Oriente, à tradição confuciana e aos sábios do Hinduísmo. Com isso, Lewis quis mostrar que estes conceitos de verdade objetiva e moralidade não são apenas um ideal do Ocidente, mas um fenômeno global. Ao apontar a universalidade do Tao, Lewis deixa claro que seu livro não é apenas direcionado ao público religioso cristão; seu intuito é mostrar que quando os homens abandonam os valores objetivos, acabam por se abandonar à mercê de qualquer ditador que tenha ou aparenta ter mais poder, ou a qualquer ideologia que pareça atraente. Não é necessário ser religioso para ver o rumo trágico de um acontecimento como este. Por acreditar que o mundo está no processo de rejeição à lei natural e por perceber que esta rejeição à verdade está sendo ensinada silenciosamente nos sistemas educacionais modernos, C. S. Lewis escreveu A Abolição do Homem prevendo que essas duas coisas podem levar a sociedade ao colapso. Para ele, a abolição do homem seria arrancar o Tao da sociedade, extinguir o “certo e errado”, reduzindo-os a volúveis opiniões pessoais. Caso neguemos o Tao, perderemos nossas características humanas e a humanidade como conhecemos entrará em extinção. Enfim, A Abolição do Homem é leitura indispensável e urgente para o nosso século, já que trata das origens e possíveis consequências da ditadura do relativismo que vem sendo apresentada a todos nós, especialmente a nossas crianças. Se hoje não dermos ouvidos a homens como C. S. Lewis, o que será do futuro? Lembrando as palavras de Walter Hooper, escritor norte-americano e profundo conhecedor dos escritos lewisianos: “Se algum livro é capaz de nos salvar dos excessos futuros da insensatez e do mal, é este livro.”

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/cinema

O Hobbit – Uma Jornada Inesperada André Brandalise

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m breve teremos nos cinemas o lançamento do filme O Hobbit, baseado no livro de mesmo nome do autor inglês J.R.R. Tolkien, que foi lançado em 21 de setembro de 1937. A obra literária se situa em um período anterior à Guerra do Anel que foi descrita na trilogia O Senhor dos Anéis (do mesmo autor), mas apresenta um estilo bem diferente: O Hobbit é claramente uma obra destinada mais ao público infantil, enquanto O Senhor dos Anéis é para o público juvenil. O enredo conta como Bilbo deixa de ser apenas um hobbit que mora em uma toca para se tornar um aventureiro que auxilia um bando de anões a recuperar A Montanha Solitária e seu vasto tesouro que se encontram em posse do dragão Smaug. No meio do caminho enfrentaram diversos perigos como os orcs que se encontravam nas Montanhas Sombrias, as aranhas gigantes na Floresta das Trevas, além de terem sido capturados pelos elfos da floresta, entre tantas outras situações. Foi neste livro que Bilbo teve seu encontro com Gollum e ganhou dele o Um Anel, embora este seja apenas mais um fato dentro da obra e o enredo não gire em torno dele; o artefato tem apenas importância secundária na história. Além de Bilbo e Gollum, no livro nos foram apresentados o mago Gandalf, que introduziu Bilbo na aventura; Thorin Escudo de Carvalho, um anão orgulhoso em busca de vingança; Beorn, um transmorfo que consegue assumir a forma de um urso preto; o elfo Elrond e sua casa (Valfenda); Smaug, um dragão poderoso, inteligente e intrigante; entre tantos outros. A produção do filme está ao encargo da mesma equipe que fez a trilogia O Senhor dos Anéis para o cinema, com Peter Jackson encabeçando o projeto. Pelo que vimos no resultado final da trilogia e pelas notícias e vídeos da produção de O Hobbit, podemos ficar com grande expectativa. A primeira coisa importante é que não será uma produção infantil e assumirá características semelhantes às d’O Senhor dos Anéis, mostrando o trabalho sério da produção e o respeito aos fãs da saga. Além disso, o roteiro apresentará situações que o livro não detalhou, como os acontecimentos que levaram Gandalf a enfrentar o Necromante.

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Outro aspecto que chama muito a atenção é o cuidado na caracterização dos personagens, em destaque pela escolha do ator que fará Bilbo (Martin Freeman, que atuou como Arthur Dent em O Guia do Mochileiro das Galáxias), que tem cara e jeito de hobbit. A caracterização dos anões também apresenta um ponto alto, embora alguns fãs já tenham se manifestado contra a “magreza” de alguns deles. O cenário escolhido foi o mesmo de O Senhor dos Anéis, mostrando que a Terra Média realmente fica na Nova Zelândia. Além de termos belas paisagens na tela do cinema, essa situação vem comprovar a intenção do diretor Peter Jackson em manter a qualidade e a continuidade da produção, pois a mudança de alguns locais já consagrados nos filmes anteriores com certeza geraria muita crítica dos fãs. O retorno de Ian McKellen como Gandalf, Andy Serkis como Gollum, Hugo Weaving como Elrond, Cate Blanchet como Galadriel, Christopher Lee como Saruman, Orlando Bloom como Legolas, Ian Holm como o velho Bilbo e Elijah Wood como Frodo, são provas de que os atores de O Senhor dos Anéis não só apostam na produção, como assinam embaixo. A produção original previa o lançamento de dois filmes, mas o diretor conseguiu negociar um terceiro filme. As estreias estão previstas para 14 de dezembro de 2012 o primeiro filme (O Hobbit – Uma Jornada Inesperada), 13 de dezembro de 2013 o segundo filme (The Hobbit – The Desolation of Smaug, ainda sem tradução para o Brasil), e o terceiro filme (The Hobbit - There and Back Again, ainda sem tradução para o Brasil) com previsão de estreia para 18 de julho de 2014. A trilogia O Senhor dos Anéis empolgou muitas pessoas, tanto que arrecadou cerca de 3 bilhões de dólares no mundo todo e alavancou as vendas do consagrado livro de J.R.R. Tolkien. É esperado um efeito semelhante em relação ao filme O Hobbit.



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