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Em seu estudo “Bioenergia: oportunidades e limites”,108 mais de vinte respeitados cientistas investigaram durante quase dois anos o potencial das bioenergias para a Alemanha. Eles chegam a conclusões devastadoras e a uma mensagem clara: “a bioenergia não pode proporcionar, nem hoje, nem no futuro, uma fonte sustentável de energia para a Alemanha”. Os cientistas fizeram um chamamento ao governo alemão e à União Europeia, em julho 2012, para que corrijam sua política. Para justificar sua conclusão, argumentam que a bioenergia implica enorme consumo de terras, aumento de emissões de gases do efeito estufa, esgotamento de nutrientes dos solos e águas, e ainda compete com a produção de alimentos. Mais do que isso, expõe a forma como a Alemanha -país pioneiro em iniciativas ambientais- se maquia de verde à custa dos outros, pois são importadas cada vez mais matérias-primas necessárias para seu consumo. O biodiesel de soja da Argentina e o etanol de cana-de-açúcar do Brasil, e, cada vez mais, pellets de madeira de América do Norte. 4.2 Os agrocombustíveis e a biomassa de madeira ajudam a frear a mudança climática? As árvores fixam o dióxido de carbono (CO2) da atmosfera durante seu crescimento e o convertem em biomassa. Para promover a bioenergia, por exemplo, a UE argumenta que, ao queimar biomassa, libera-se a mesma quantidade de CO2 que as árvores fixaram -ou seja, o processo é “neutro em carbono”- ou que, pelo menos, liberam-se menos emissões de carbono. Esta premissa é falsa e está baseada em cálculos parciais e incompletos.109 Todo o ciclo de produção de bioenergia requer grandes quantidades de recursos como água, fertilizantes e pesticidas, estes últimos para combater as pragas do monocultivo. Igualmente, há um uso intensivo de energia fóssil para a colheita, o transporte, o armazenamento e os processos industriais de conversão da biomassa em cavacos, pellets, biocombustível ou biogás. Para determinar o verdadeiro impacto dos agrocombustíveis sobre o clima, é preciso calcular o uso de todos esses recursos e as emissões desses processos, juntamente com seus impactos diretos e, acima de tudo, indiretos, principalmente a mudança no uso da terra. Uma vez feita a soma, os supostos benefícios para o clima desaparecem. As plantações para agrocombustíveis se estendem sobre zonas de floresta e outros ecossistemas, como as pastagens, que durante milhares de anos têm armazenado carbono. Ao destruir esses ecossistemas, são liberadas enormes quantidades de dióxido de carbono na atmosfera. Por isso, a economia de CO2 é mínima e, frequentemente, negativa. Por exemplo, os estudos dos especialistas encarregados pela UE concluem que os agrocombustíveis estão longe de ser neutros em termos de carbono. Pode-se chegar a liberar até mais CO2 do que com a queima das energias fósseis; por exemplo, usar dendê como agrocombustível provoca 25% mais emissões de carbono (CO2) do que usar o diesel fóssil.110 Para produzir 1 MWh através da queima de biomassa de madeira, são emitidos cerca de 50% mais de CO2, comparado com carvão mineral.111 108 Academia Nacional de Ciências Leopoldina da Alemanha, 2012: Leopoldina issues a critical statement on the use of bioenergy(http://www.leopoldina.org/en/press/news/leopoldina-critical-towards-use-of-bioenergy/) 109 Biomass burning is not “carbon neutral” (http://www.saveamericasforests.org/Forests%20-%20Incinerators%20-%20Biomass/Documents/Carbon%20Emissions%20-%20Pollution/Carbon%20Neutrality%20Myth.pdf). 110 Euractive, 2012: Biodiesels pollute more than crude oil, leaked data show (http://www.euractiv.com/climate-environment/ biodiesels-pollute-crude-oil-lea-news-510437) 111 http://www.rspb.org.uk/Images/biomass_report_tcm9-326672.pdf Uma nova ameaça para comunidades e florestas

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Uma nova ameaça para comunidades e florestas  
Uma nova ameaça para comunidades e florestas  
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