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A perda do território e a posterior ocupação com plantações de árvores em grande escala trazem consigo um sem-número de impactos que resultam em efeitos negativos sobre as vidas e os meios de subsistência das comunidades locais. A substituição dos ecossistemas locais acarreta a perda de biodiversidade, a falta de terras para a agricultura, problemas com abastecimento de água, contaminação dos recursos hídricos, destruição das zonas sagradas, perda de conhecimentos tradicionais. Mesmo quando os promotores das plantações de árvores argumentam que elas se estabelecem sobre “terras degradadas”, ocorre que essas terras são precisamente as áreas onde as comunidades realizam agricultura ou são terras em descanso depois de períodos onde se praticou a agricultura. Inclusive aquelas zonas de florestas que foram degradadas pela extração industrial de madeira são áreas que as comunidades muitas vezes recuperaram e nas quais a floresta secundária reabilitada lhes oferece vários benefícios (medicamentos, proteínas, frutas, zonas de retiro espiritual, etc). Ao mesmo tempo, as promessas de geração de emprego e de melhoramento das condições de vida das comunidades locais raramente se concretizam, e sim o contrário, além dos impactos mencionados no processo atualmente denominado de “concentração de terras”, que ameaça o uso e o controle do território por parte de populações locais na América do Sul, na África e na Ásia. De fato, um relatório do Parlamento Europeu de 2012 declara: “Os países em desenvolvimento que mais provavelmente exportarão biomassa de madeira para alimentar a demanda da Europa são os das regiões oeste e central da África, bem como da América Latina. Embora as relações claras entre o aumento da demanda na Europa por madeira para geração de energia e impactos nos países em desenvolvimento, sejam eles negativos ou positivos, precisem ser estabelecidas em nível de cada projeto, a demanda adicional por biomassa em nível global terá efeitos em nível macro. A crescente demanda por energia de biomassa de madeira tende a aumentar o preço global de madeira e, assim, a pressão sobre florestas e outros ecossistemas, pressionando por mais conflitos relacionados ao uso da terra. Entre os riscos mais específicos estão o desmatamento que ocorre quando florestas nativas são substituídas por plantações de monoculturas e os impactos de longo prazo sobre a segurança alimentar e energética local.”94 No Brasil, a implementação das plantações específicas para produzir os pellets e cavacos de madeira, com ciclos de rotação de 2 a 3 anos e plantadas de forma mais densa, ainda está em sua fase inicial, por isso é difícil avaliar os impactos diferenciados desse tipo de plantação comparados com as plantações, digamos, “convencionais” de eucalipto, cujos ciclos são de 6 a 7 anos. Não obstante, é de se supor que os ciclos mais curtos aumentarão a pressão sobre os nutrientes do solo e os recursos hídricos disponíveis, ainda mais do que no caso dos ciclos de 6 a 7 anos. Além disso, com rotações mais curtas (2 a 3 anos), é provável que se intensifique o uso de agrotóxicos -e, portanto, os problemas que seu uso gera- para evitar a competição de outros vegetais e permitir o melhor crescimento das árvores.

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Impact of EU Bionenergy Policy on Developing Countries http://www.ecologic.eu/files/attachments/ Publications/2012/2610_21_bioenergy_lot_21.pdf Uma nova ameaça para comunidades e florestas

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Uma nova ameaça para comunidades e florestas  
Uma nova ameaça para comunidades e florestas  
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