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DIÁRIO DO NORDESTE

FORTALEZA, CEARÁ, SÁBADO E DOMINGO - 14 E 15 DE MAIO DE 2016

A CONTA DA GOTA - VOl. II

#$2/$1#˜"(.2-." ,(-'. Com a incidência solar causando evaporação do que resta nos rios, as adutoras têm sido a solução a curto prazo. Ligam por quilômetros os lugares secos com quem ainda tem água. Os canos fechados evitam a evasão pelo sol. Mas a qualidade dos equipamentos revela os furos no meio do caminho

ilhões de litros de água escorrem desavisados todos os dias pelas estruturas hídricas do País. O Nordeste, que tanto sofre com as secas, é o que mais perde água, comparado à proporção que recebe: 40,6% do que acumula em reservatório – a média no Brasil, já bastante alta, é de 30%. Enquanto se carece de água, ela encarece. Paga-se cada vez mais caro pelo produto derramado. A es-

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cassez fortalece o conflito: quem bebe versus quem planta. Mas todos bebem e é necessário fazer a roda girar ao contrário e garantir o abastecimento humano antes da irrigação e pecuária. Onde água, terra e poder se confundem, nem sempre a lógica é obedecida, até faltar definitivamente. Todos os anos, centenas de municípios enviam o pedido de decreto de Situação de Emergência para garantir novos recur-

sos e, inclusive, fazerem contratos sem licitação. Fingem economia do dinheiro público, do tipo não realizar Carnaval, mas mantêm o ralo aberto com grandes gastos para pequenos serviços. Os maiores rombos nas prefeituras se dão em locações de produtos, de carros a impressoras, em contratos com empresas de origem duvidosa. O desvio de finalidade é uma gota que conta onde até a chuva é desigual. En-

quanto se espera por um céu bonito para chover, o discurso político manobra a água como promessa. Se já não chove mais, então, a natureza é quem castiga. Mas é dito que o sertanejo resiste a tudo. Passa por toda má sorte e é resiliente até quando morre. Vista de forma crítica, no entanto, a história das secas prova que mais sobrevive quem se beneficia delas: o corrupto. Esse, sim, é, antes de tudo, um forte.




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A CONTA DA GOTA

POÇO PROFUNDO



B?Q?ES?Q TÉCNICOS DA Superintendência de Obras Hidråulicas (Sohidra) medem vazão de poço perfurado para abastecer comunidade de Lajedo, em Pedra Branca (CE)

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%?@G?LCBC/?SJ? s ĂĄguas nos reservatĂłrios pĂşblicos estĂŁo em nĂ­veis crĂ­ticos porque diminuĂ­ram a recarga. O vazamento do recurso hĂ­drico que se perde no caminho estĂĄ em nĂ­veis ainda mais crĂ­ticos porque nĂŁo diminui, mantĂŠm uma escala de perdas mesmo em tempos de seca. O Nordeste, que historicamente ĂŠ quem mais sofre com a falta de chuvas, tem a maior das perdas na distribuição. NĂŁo bastasse isso, o consumo mĂŠdio per capita aumenta quanto mais se prolonga a estiagem, como se fosse uma corrida para quem gasta a Ăşltima gota. No sertĂŁo jaguaribano cearense, o operador tĂŠcnico Laudeci Moura deďŹ ne um de seus ofĂ­cios: enxugar gelo. Com um equipamento enferrujado e motores quase sem potĂŞncia para bombeamento, puxa ĂĄgua do açude OrĂłs para abas-

$7/$#($-3$ EDITORA VERDES MARES LTDA Praça da Imprensa Chanceler Edson Queiroz - Dionísio Torres - CEP 60135.690 - Fortaleza - Cearå Telefone: (85) 32669631 | Diretor Editor: Ildefonso Rodrigues Editora de à rea: Germana Cabral Edição, textos e concepção do projeto: Melquíades Júnior Fotografia: Fabiane de Paula Edição de Arte/projeto gråfico/ design: Grace Sampaio | Tratamento de Imagem: Jandrey Araujo | Revisão: Vânia Monte Motoristas: Júnior Alves e Marcelo Ferreira

tecer 18 mil habitantes da cidade de Jaguaretama. Os canos que levam a ågua, ora metal ora plåstico, estão velhos e bastante furados. A adutora segue aproximadamente 30 km entre rio e destino perdendo ågua dia e noite, formando grandes poças e um pequeno oåsis no meio do sertão seco. Em ao menos cinco quilômetros de extensão de canos, percebemos o paliativo de Laudeci. Remendos na tentativa de tapar os buracos. Essas são as perdas reais, mais preocupantes, que compreendem principalmente os vazamentos em tubulaçþes da rede de distribuição. O outro tipo de perda Ê a aparente, decorrente de erro de medição, leitura, fraudes e ligaçþes clandestinas. A ågua Ê efetivamente consumida, mas não Ê faturada. Segundo dados mais recentes do Sistema Nacional de à gua e Esgoto, divulgada em 2016, mas referente ao ano de 2014, Norte e Nordeste aparecem empatados como as regiþes com maior desperdício de ågua, com 46,5% e 46,9% de perdas, respectivamente. Sergipe Ê o Estado do País com maior desperdício: 60,2% de toda a ågua que sai das estaçþes reservatórias da companhia. Cearå (40,1%),

A CONTA Ao todo, os prestadores de serviços em ĂĄgua somam, em 2014, receita operacional de R$ 45,1 bilhĂľes, valor 5,9% maior que o obtido em 2013, e despesa total com os serviços de R$ 42,4 bilhĂľes, 10,9% maior que o ano anterior. Esses nĂşmeros nĂŁo deďŹ nem, mas sĂŁo condicionantes dos valores tarifĂĄrios aplicados ao consumidor em vĂĄrias partes do PaĂ­s. A regiĂŁo com maior despesa mĂŠdia em 2014 ĂŠ a Centro-Oeste, com R$ 3,87 para cada metro cĂşbico (mil litros) de ĂĄgua, seguida por Norte (R$ 3,48/ mÂł), Sul (R$ 3,18/ mÂł), Nordeste (R$ 3,01/ mÂł), e Sudeste (R$ 2,30/ mÂł), nessa ordem. JĂĄ os estados com maiores valores em cada regiĂŁo sĂŁo: GoiĂĄs (R$ 4,86/ mÂł), no Centro-Oeste; AmapĂĄ (R$ 4,47/ mÂł), no Norte; Rio Grande do Sul (R$ 4,24/ mÂł), na Sul; Alagoas (R$ 4,08/ mÂł), no Nordeste.

& 23.,_#(.#( 1$&(‡.

MÉDIA DO PA�S 162 LITROS MÉDIA IDEAL 50 LITROS Sudeste 187,9 LITROS

Centro-Oeste 158,8 LITROS

Norte 154,2 LITROS

Sul 153,6 LITROS

Nordeste 118,9 LITROS

".-24,.#$•&4 #$2/$1#˜"(. Dividem-se entre usos agrĂ­cola, industrial e atendimento domĂŠstico Ă s populaçþes urbana e rural as finalidades de abastecimento de ĂĄgua. Desse total, uma mĂŠdia de 36,7% ĂŠ desperdiçada de diversas formas, seja em vazamentos nos dutos ou ligaçþes clandestinas. Nordeste e Norte sĂŁo os campeĂľes de desperdĂ­cio

População Rural: 1%

População Urbana: 9%

NORDESTE

46,9%

SU

TEXTOS:

Bahia (39,6%) e ParaĂ­ba (38,4%) tĂŞm os melhores Ă­ndices do Nordeste, mas todos ainda acima da mĂŠdia brasileira, que foi de 36,7%. É difĂ­cil a jornada da ĂĄgua que sai do reservatĂłrio e, teoricamente, tem por destino a torneira. As perdas sĂŁo um grande desaďŹ o no abastecimento, sobretudo, pela escassez e os altos custos de energia elĂŠtrica. Isso impacta na prĂłpria saĂşde ďŹ nanceira dos prestadores de serviços. “O que deve sair dessa crise de abastecimento ĂŠ onde se deve melhorar e nĂŁo ĂŠ nas pontas, ĂŠ no meioâ€?, aďŹ rma Cassandra Maroni Nunes, secretĂĄria nacional de Recursos HĂ­dricos, vinculada ao MinistĂŠrio do Meio Ambiente.

D 32 ESTE ,6 %

Com uma cultura do desperdício, estados brasileiros não só mantêm a demanda por ågua como aumentam seus consumos atÊ mesmo nos anos de seca do Nordeste. Diagnóstico nacional divulgado em 2016, com ano base de 2014, aponta que o Cearå aumentou em quase dois litros o consumo per capita diårio em relação a 2013. Desafio Ê reconhecer onde foi parar esse pedaço hídrico

PecuĂĄria: 11% IndĂşstria: 7%

Agricultura 72% CENTROOESTE

MÉDIA DO BRASIL: 36,7%

34,2%

NORTE

46,5% SUL

33,4%

* FONTES: AGÊNCIA NACIONAL DE à GUAS/SISTEMA NACIONAL DE INFORMAÇÕES SOBRE SANEAMENTO

".,/ -'$ 2_1($ O primeiro volume do especial “DossiĂŞ seca: a conta da gotaâ€? foi publicado na superedição de sĂĄbado e domingo do DiĂĄrio do Nordeste (7 e 8 de maio de 2016). Entre outros temas, mostrou a atual situação do Dnocs.

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6$!#."

http://bit.ly/ dossieseca

http://bit.ly/ contadagota

Com textos exclusivos para a web, traz versĂľes desktop e mobile. Inclui webdoc, anĂĄlise da problemĂĄtica da seca desde o ImpĂŠrio e denĂşncias de irregularidades em obras

Flagrantes de desperdícios de ågua nas adutoras, depoimentos e imagens da situação de açudes estão neste webdoc produzido pela TVDN.




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A CONTA DA GOTA

FORTALEZA, CEARÁ SÁBADO E DOMINGO, 14 E 15 DE MAIO DE 2016

EQUIPE DE monitoramento da Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (Cogerh) verifica as perdas de vazão no Rio Jaguaribe em Limoeiro do Norte (CE)

TRAFICANTES DE ÁGUA

$-31$ 2$#$ $ 1$-#  No papel, a prioridade do uso da água é para abastecimento humano, sobretudo, em tempos de seca. Mesmo com a escassez da “água de beber”, o desafio dos órgãos fiscalizadores é conter o uso ilegal para irrigação em detrimento do abastecimento doméstico. Em alguns flagrantes é necessário o reforço da Polícia

omo num fluxo bancário, os reservatórios públicos e alguns trechos de rios são metrificados diariamente, numa previsível contagem “depressiva” do esvaziamento. Com muita frequência, as reduções têm apresentado quedas abruptas e fora do normal de um dia para o outro no curso dos rios e dos açudes no Ceará. Há algo errado para a água estar sumindo tão mais rapidamente. O século XXI traz um personagem cuja atividade impacta quanto mais se mantém a seca. Tira de quem mais precisa e dribla a lei em benefício próprio: o traficante de água. Como

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se nunca esperassem, fiscais da Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (Cogerh), que acompanham as medições de vazão de água e flagram os “usos concorrentes”, necessitam da Polícia em abordagens por vezes dramáticas. “Ele começou a chorar. Disse que precisava tirar alguma coisa da plantação de goiaba para pagar o que deve”, explica Ermilson Barros, coordenador do núcleo técnico da Cogerh em Limoeiro do Norte. Mas já fazia um mês desde a primeira advertência. E três meses contados de quando ficou definida a suspensão da irrigação naquela área. O produtor fiscalizado

(teve a identidade preservada) irrigava cerca de dez hectares. No mesmo dia, a fiscalização flagrou o desvio de água por outro produtor com mais de cem hectares. “A gente tenta conscientizar, mas não é uma tarefa fácil. Eles precisam para a atividade econômica, mas não dá para ser assim quando mal se tem água para beber”.  Somente em 2015, já no quarto ano de seca, houve medidas mais drásticas de racionamento nos perímetros irrigados. Estávamos na cidade de Jaguaruana, uma das muitas cortadas pelo Jaguaribe, que

DESVIO ILEGAL para plantio particular no leito do Rio Jaguaribe, município de Jaguaruana. Em 2009, com as chuvas, a cidade ficou debaixo d’água. Hoje, conta com desespero cada centímetro que a reserva reduz

já foi considerado o maior rio seco do mundo, perenizado no século XX pelo açude Orós. Mas ali vinha água do Castanhão, 120 km distante. A “cidade das redes” de dormir, como é conhecida pelas fábricas que produzem para todo o País, depende em boa parte da agricultura e da criação de camarão em cativeiro. Sem receber mais as águas do Castanhão, produtores e criadores cavam poços no leito seco do Jaguaribe. “Não pode só chegar e instalar um poço, ou só colocar as bombas na superfície, é preciso ter a outorga do uso da água. Não basta ter outorga se a situação não permitir o consumo para outras atividades, principalmente no período em que estamos vivendo, em que a prioridade é o consumo humano”. Uma das funções do grupo técnico de Ermilson Barros é identificar quem não está obedecendo as normas definidas no dia 3 de fevereiro durante “reunião de avaliação da alocação negociada das águas dos vales do Jaguaribe e Banabuiú”, em Limoeiro do Norte.

OUTORGA Como numa reunião para discutir dotação de orçamento público, ali ficou estabelecido quanto da água que resta ficaria para cada setor e região, incluindo o abastecimento para Fortaleza. De um lado, técnicos da Cogerh, da Secretaria dos Recursos Hídricos e da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), explicando que a água está acabando e é preciso economizar; de outro, produtores rurais insistindo que precisam de água para plantar. Ficou definida a vazão do açude Castanhão de 15 metros cúbicos (ou 15 mil litros) por segundo, sendo 5,5 para perenização do Jaguaribe e 9,5 pelo Eixão das Águas, abastecendo a Região Metropolitana de Fortaleza e o Complexo Industrial Portuário do Pecém. Os primeiros três meses desse regime de águas têm sido de vários registros de desobediência por parte de quem produz. Apesar da fiscalização da Cogerh, somente a Secretaria de Recursos Hídricos (SRH) pode punir os ditos ‘traficantes’ de água. Desde o início do ano, foram 28 autos de infração e oito embargos provisórios, segundo a SRH, com o recolhimento dos equipamentos que impulsionavam para os plantios o que seria da água de beber.

GPPGE?B? eria necessário dez vezes a população atual no Brasil para ter de consumo doméstico o mesmo que faz somente o setor irrigado, responsável por 70% do uso da água potável. “Não estamos pregando que a agricultura é desnecessária, pelo contrário, mas a irrigação por meio dos pivôs centrais está muito longe de ser o modelo razoável, sobretudo, para o semiárido brasileiro”, diz Humberto Cardoso Gonçalves, da Superintendência de Apoio ao Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos (SAS), vinculado à Agência Nacional de Águas (ANA). Estado mais inserido no semiárido, portanto mais impactado pela escassez de chuvas, o Ceará é o segundo do Nordeste que mais utiliza o sistema de pivôs centrais, com até nove mil hectares irrigados. Cada equipamento chega a 50 metros de extensão e, de maneira circular, irriga grandes áreas plantadas. De acordo com levantamento elaborado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), em conjunto com a ANA e divulgado em 2015, identificou-se em todo o país 19,5 mil equipamentos de pivôs, banhando 1,2 milhão de hectares. Minas Gerais (406 mil hectares), Goiás (233 mil), São Paulo (179 mil), Bahia (201 mil) e Mato Grosso (80) respondem por 70% de uso do sistema. Os projetos voltados para a alternativa mais econômica de água na irrigação (gotejamento reduz até 90% o consumo), são pontuais de cada Estado. Data de 1968 a primeira comitiva de técnicos israelenses no Nordeste apresentando o manejo por gotejamento e a exploração de água subterrânea com poços. Quase meio século depois, menos de 2% da irrigação se dá por gotejamento. As técnicas israelenses nos planos hídricos do Governo do Ceará são apontadas como “novas alternativas” ainda a serem exploradas no Estado.

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A CONTA DA GOTA

PREFEITURAS

QCPTGiMQ EP?LBCQ Gota a gota, recursos financeiros são despendidos em contratos terceirizados por serviços nem sempre justificados pelas prefeituras municipais. Gastos milionários convivem com os discursos e decretos de “situação de emergência” pela Defesa Civil

PÁTIO DA Secretaria de Obras do município de Banabuiú (CE), onde milhões de reais são gastos por ano na locação de veículos para atender as secretarias municipais

s enormes perdas de água encontram como importante comparativo os gastos exorbitantes realizados pelas prefeituras por serviços pagos a terceiros. Muitos passam despercebidos porque, assim como um vazamento gota a gota, só revelam sua dimensão quando contabilizados no montante. Investigamos as contas públicas de dezenas de municípios cearenses com decreto de “situação de emergência”, focando apenas pequenos pagamentos. Falta dinheiro destinado à instalação de poços, mas não para serviços “suspeitos”. Segundo o Ministério Público do Estado, os contratos terceirizados para sublocação de serviços e equipamentos estão recheados dos “vícios da corrupção”. O critério adotado para a investigação das contas públicas nos municípios foi tão somente o modo como eles se apresentam no Portal da Transparência do Tribunal de Contas dos Municípios (TCM): por ordem alfabética. A prefeitura de Abaiara, cidade com 11 mil habitantes que decretou “situação de emergência” em 2014, pagou naquele mesmo ano R$ 150 mil à

empresa F.J. Alves de Sousa (nome fantasia “Mundial Dedetização”) em quatro cheques entre os meses de abril e agosto. Os serviços: dedetização e desratização em prédios da Secretaria Municipal de Educação e aplicação de inseticida por meio de veículo tipo fumacê nas ruas da cidade. A empresa não possuía autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), mesmo assim, faturou das prefeituras cearenses de Abaiara e Milagres R$ 1,075 milhão entre 2013 e 2015, ano em que foi fechada. Os dados foram fornecidos pelas próprias prefeituras ao Tribunal de Contas dos Municípios (TCM). Entre maio e dezembro de 2014, Abaiara também realizou 30 pagamentos pelo serviço de “digitação de textos para a Secretaria Municipal de Educação”, totalizando R$ 55,8 mil à empresa Hello Eventos e Serviços, em nome de José Wilson Gonçalves de Oliveira. Isso representou mais do que o total de despesas com pagamento de pessoal lotado no Conselho Tutelar do município durante todo o mesmo ano, por exemplo. Outro pequeno municí-

pio, Graça, com de lhe prestar nenicipais. Desses, 15 mil habitantes, pagou a cessários socorros para que pelo menos 20 investigações uma empresa de informática, resultaram em prisões de pre- seus padecimentos sejam mientre 2013 e 2015, o valor de R$ feitos e secretários. Estão todos norados”. Lida em voz alta em 423 mil para o serviço de “ma- em liberdade. sessão ordinária de 24 de julho nutenção corretiva e preventiva de 1846, a carta foi enviada pela nos equipamentos de informá- ONTEM E HOJE Câmara Municipal de Russas tica (computador, impressora, A primeira literatura do lamen- para o presidente da província no break, módulo, monitor) da to sertanejo é a oficial, das au- do Ceará. rede de ensino”. A prefeitura toridades públicas locais alerDe 9 a 13 deste mês, milhares informa que os serviços foram tando as superiores do mal que de gestores municipais seguirealizados. Fazendo um com- padecem os municípios vítimas: ram para a XIX Marcha a Brasíparativo de preços de mercado “É verdade que o governo al- lia em Defesa dos Municípios. adotados em Fortaleza para a guns caroços tem nos prestado, Autointitulado “o maior evento manutenção dos equipamentos mas estes têm sido muito dimi- do gênero na América Latina”, citados, com o dinheiro pago no nutos diante do crescido núme- é um movimento, sobretudo, de intervalo de 30 meses seria pos- ro de indigentes de todas as ida- reivindicação por mais dinheiro sível comprar, aproximadamen- des que vagam pelas ruas desta nos orçamentos municipais. te, 200 computadores novos vila. Essa câmara dirige a vossa A ‘marcha do pires na mão’, excelência, a fim de que com- como os prefeitos também adcompletos com impressora. “É muito difícil não en- padecendo-se da triste sorte de mitem, atenta para as duas contrar uma irregularidade essa infeliz porção de brasilei- principais fontes de receitas: auna grande maioria dos muni- ros, em cujo semblante retrata- mento no Fundo de Participação cípios. Se não é o desco- da da mais devoradora fome há dos Municípios (FPM) e Imposnhecimento, é a má-fé to Sobre Serviços (ISS). É com a coisa pública”, deles que as prefeituras afirma Ricardo Roretiram a maior parte cha, promotor da Prodos pagamentos de sercuradoria de Crimes viços e funcionalismo. Contra o Patrimônio De acordo com a De(Procap). Entre 2012 fesa Civil do Estado, são e 2015, o órgão encami89 municípios cearenses reais foram pagos, em nhou 549 processos ao com decretos homoloAbaiara, pelo serviço de digitação Tribunal de Justiça do gados de Situação de de textos para a Secretaria de Ceará envolvendo irreEmergência por conta Educação. O gasto em oito meses é gularidades em contas deste quinto ano seguimaior do que com funcionários do de prefeituras mudo de seca. Conselho Tutelar em um ano

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COM A DEMORA no atendimento pelo Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs) e pela Superintendência de Obras Hidráulicas (Sohidra), do Governo do Estado, população recorre ao serviço particular de perfuração de poços para obter água




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A ÁGUA COMO PROMESSA

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. m tempos de estiagem, seca é catalisador de esperança, cano é obra, promessa de água é pedido de voto e perfuração de poço profundo ou instalação de adutora é um verdadeiro palanque festivo. A promessa do líquido não é novidade no discurso político, mas a água, ou a falta dela, é o instrumento de marketing neste que é o quinto ano de seca no Ceará e o de eleições municipais em outubro. Curiosamente, será o mês em que as últimas reservas hídricas do Estado poderão entrar em colapso. Com a seca chegando aos maiores açudes, a principal solução para o abastecimento tem sido a instalação de adutoras de montagem rápida. Ligam açudes ou poços profundos a lugares sujeitos ao colapso hídrico. “Estamos na era das adutoras”, resume André Mavignier, chefe do serviço de monitoramento hidrológico do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs), enquanto observa a constante queda de reserva hídrica no painel até mesmo do açude Castanhão, uma das últimas grandes obras para o currículo do Departamento de 107 anos. Na comunidade de Lajedo, município de Pedra Branca, três técnicos da Superintendência de Instalações Hidráulicas (Sohidra) chegam e descarregam o caminhão cheio de canos. Havíamos nos encontrado um dia antes na BR 020. O pneu do caminhão tinha estourado e paramos no acostamento da rodovia para entender o que ali ocorrera. Com um pequeno papel na mão, o técnico Nonato Lima mostra a relação dos mu-

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Antes mesmo das inaugurações, as instalações de poços profundos e adutoras compõem o festejo político no Interior. Pretensos candidatos disputam com a desesperança de quem já está cansado de promessas e realizou o sonho sozinho

3MBM?LMBCCJCGigMMQ NMJnRGAMQTGLF?KNPM

KCRCPSKKMRMP 'MHC  j?ECLRCOSCAF?K?C BGXMJF??n 2CDMQQC CQNCP?PNMPTMAlQLgM CQR?T?K?GQLCK?OSG  RGLF?KMPPGBMBCQCBCŽ Maria do Nascimento Silva Agricultora

KgMKMJF?B? s ministérios públicos Estadual e Federal estão investigando o uso de aproximadamente R$ 80 milhões em contratos para saneamento básico e abastecimento de água no Ceará. Os contratos foram realizados especialmente com a Fundação Nacional de Saúde (Funasa) entre 2012 e 2015. As principais irregularidades dizem respeito ao ‘superdimensionamento’ de preços dos equipamentos, sobretudo, os canos. As primeiras investigações foram responsáveis pela condenação de ex-prefeitos nos municípios de Granja, Irauçuba, Pindoretama, Eusébio e São João do Jaguaribe. São contratos com valores iniciais de até R$ 1,2 milhão, outros chegam a R$ 9,6 milhões. Açudes e passagens molhadas estão entre os projetos. Os Ministérios suspeitam que os recursos supostamente desviados serviam a fins eleitoreiros - a evasão de divisas daria-se mais em anos eleitorais, alimentando a hipótese de ‘caixa 2’.

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CASO CASTANHÃO Ainda está para julgamento de recursos no Tribunal Regional Federal da 5ª Região a condenação na Justiça Federal imposta a direto-

res do Dnocs. A acusação é de articularem para abastecer o caixa 2 da campanha de um candidato a prefeito do mesmo partido político a que pertenciam por meio do processo de reassentamento de famílias para a construção do Castanhão. Leão Montezuma, apontado como articulador, era diretor de produção do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs) quando da autorização do pagamento de R$ 643 mil para a compra de um terreno percentente à mãe de Francijaime Pinheiro Costa, candidato a prefeito de Jaguaribara pelo PSB, partido que tinha pessoas no primeiro escalão. Além de ser cobrado com valores de espaço urbano, o terreno rural foi escolhido à revelia da comunidade realocada, que já havia escolhido uma área doada pela Prefeitura, portanto, sem custo algum para o Dnocs. O pagamento deu-se a poucos dias das eleições municipais em 2004. Os diretores do órgão foram condenados a ressarcir o valor integral pago, além de oito anos com perda de direitos políticos. Eles negam qualquer irregularidade na compra. O terreno está abandonado até hoje, sem cumprir a finalidade.

nicípios por onde passará com sua equipe de perfuradores assim que o problema fosse resolvido. Foi dali que anotamos Lajedo para o encontro do dia seguinte. A missão era perfurar dois poços de 70 metros ou até conseguir água. Tem sido esse o desafio diário de ao menos 20 técnicos da Sohidra em viagem pelo Interior: tirar a esperança debaixo da terra. “Dá uma alegria quando sai água e ela não é salobra. É como se fosse pra mim”, lembra Wagner Firmino, outro técnico daquela equipe. Após um mapeamento de possíveis áreas subterrâneas para obtenção de água, é

preciso vencer várias etapas: atingir o ‘lençol d’água’ com vazão mínima para abastecimento, o produto ser próprio para consumo humano e, sem falta, que haja instalação elétrica para o bombeamento. Só assim se garante água por algumas semanas, conforme a demanda. Enquanto as equipes cortam o Estado furando o chão, vereadores, prefeitos e aspirantes aos cargos vão conferir a obra, fazem perguntas sobre o andamento. “Eles ficam posando perto da gente pro pessoal achar que é quem tá trazendo a obra”, diz Nonato.

“De fato, as autoridades locais são, em geral, o primeiro contato nos municípios porque sabem onde a escassez gerou maior demanda. Ocorre que há um certo aproveitamento da condição em que, para fortalecer politicamente, é preciso passar a ideia de que obra poderia não existir se não fosse o esforço individual. A pressão política que se exerce é tão produtiva quanto a ‘impressão política’ que se gera de uma circunstância”, explica Gledson Nascimento, cientista político e pesquisador da Universidade Estadual do Ceará (Uece). Nem sempre uma obra inaugurada é sinônimo de funcionamento. Desde que a Prefeitura de Santa Quitéria fincou uma placa indicando abastecimento de água na comunidade de Salão e deu-se a ordem para início dos trabalhos, a sina dos moradores é esperar. O convênio de R$ 3,5 milhões foi firmado com a Fundação Nacional de Saúde (Funasa) em maio de 2015. Até dezembro do ano passado, foram liberados R$ 2,8 milhões desse valor. A prefeitura diz estar tocando as obras. Mas não em Salão. O agricultor Neto Gonçalves, em cujas torneiras de casa nunca caiu água, acredita que até outubro tudo estará resolvido, por causa das eleições. Na comunidade de Queimadas, mesma cidade, os moradores cansaram de esperar pelas promessas e fizeram uma cota para comprar motor e canos para substituir o cata-vento. “Todo ano, eles vinham aqui prometer um motor. Hoje, é a gente que chama e diz, ‘olhaí, se fosse esperar por vocês não tava mais nem aqui”, atesta Maria do Nascimento Silva.




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A CONTA DA GOTA

TRADIÇÃO

PROCISSÃO DE São José em 19 de março na comunidade Sítio Forno Velho, Cedro, na Região Centro-Sul do Ceará. Imagem é recebida com fogos de artifício. Fiéis pedem chuvas para 2017

DjCKOSCK A apropriação do direito à chuva move fiéis devotos de São José no sertão. Não choveu, mas a fé se mantém. Não se diz o mesmo das obras prometidas e nunca realizadas. Mas, como 2016 é ano de eleição municipal, o discurso santo é reapropriado pela política que tudo pode para colher bons frutos da “esperança sertaneja”

religiosidade é o fiel da balança na relação do sertanejo com o inesperado (ainda que a seca não seja uma surpresa). Separa, de um lado, os homens que prometem dos que fazem promessa. O dual político-religioso e o místico-religioso confundem-se na chamada fé sertaneja. No quinto ano seguido de estiagem, devotos de São José

VILA DE Santa Terezinha, em Jardim (CE). Há dois anos, as caixas-d’água saíram do telhado para o meio da rua, de onde capta água abastecida com carro-pipa

nem esperavam mais a “tradicional” chuva do dia 19 de março. Já pedem por 2017. Fé no santo não significa fé na chuva. “A gente que é do seco é acostumado a não ver chuva. Eu só queria que desse pra molhar meu plantio até crescer pra colher. Mas se não deu, não deu. A gente não perde a fé em Deus, perde nos homens”. A afirmação do agricultor Luís Jesus Silva foi antecedida por minha pergunta “e agora, que não choveu hoje?”. Era dia de São José, padroeiro do Ceará para os católicos, e nenhum sinal de chuva no Cedro, na região Centro-Sul, nem na maioria dos municípios do Estado. Talvez porque eu quisesse identificar algum grão de desilusão diante da espera do que não veio, o agricultor dispara com “não achava que fosse chover, se já não chove faz tempo”. A sina da esperança sertaneja se manifesta

como elemento mais presente que lamento. A comunidade de Forno Velho, no Cedro, fica envaidecida no mês de março, afinal, poucas celebram o dia 19 numa capela que leva o nome do homenageado. Ouvindo a missa da porta de casa, o comerciante Tomás Brito se impressiona com a ausência de político. “Até o ano passado vinha um vereador. Passava um tempo ali, até dar por visto, e ía embora mesmo sem a bênção do padre. É de dizer o que vale um cristão desse”, afirma Tomás, na dúvida se político perdeu a fé no povo ou foi o inverso. Enquanto o sol, em órbita aparente vista da Terra, cruza o chamado equador celeste, sendo intenso nas regiões próximas à Linha do Equador, Fátima Braga, esposa de Luís e coordenadora da Capela, embrulha um ‘brinde de Maria’ para ser sorteado entre os fiéis “porque Maria e José nos deram Jesus”. A Capela é o espaço público da comunidade, e dona Fátima sempre considerou que cabe a ela ‘dar uma sacudida’ para animar os devotos que se espalham assim que a missa acaba. “Tem os parabéns do aniversariante da semana, a gente inventa uma brincadeirinha. Faz lembrancinha, uma blusa de Nossa Senhora, um chaveiro, vale o que tiver, o agrado é de coração”.

À ESPERA DO PIPA Na comunidade de Santa Terezinha, em Jardim, a ação do 19 de março é comum em qualquer dia de chuva: ir à calçada tirar a tampa da caixa-d’água. Desde 2014, o reservatório não fica mais no telhado. “A mangueira do pipa não chega se não for na porta de casa”, diz Maria das Graças Rufino. Às vezes, nem o carro-pipa chega, então, na sorte de uma chuva, cada pingo que entra nos vasilhames conta. ‘Gracinha’ diz já se conformar com a falta de chuva. “Uma coisa é chover pra completar a caixa-d’água lá fora, outra, é pra plantar. Essa, não tem”. “O céu sustentou chuva o mês de janeiro todinho. Plantemo. Depois parou. Perdemo a safra todinha. Aí a corri-

da é pra ter água em casa. Se não é a gente gritando pra dizer que precisa de poço profundo, não vem. Parece que o poço vai pra quem gritar mais alto”, cutuca Luís Jesus enquanto observa o olhar reprovador do vizinho, ao que responde: “tô falando a verdade mesmo, tem mais é que dizer”. A deixa do agricultor serviu até para o Padre Alessandro: “a comunidade está mesmo é cansada de promessas políticas. Se não renova a fé aqui, fica vazio de tudo”. “Há certo tom messiânico nas origens dos movimentos religiosos no contexto da seca, com Antônio Conselheiro, Beato José Lourenço e até Padre Cícero, mas muitas vezes isso é julgado como uma alienação, o que é incorreto. Já escreveram que ‘a região nordestina excita as populações. O sertão assemelha-se a um forno crematório atiçado pelo diabo para queimar a alma do sertanejo’. Mas o misticismo sertanejo é uma afirmação legítima, não passiva”, explica Alcebíades Filho, antropólogo e pesquisador da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Tanto antes quanto depois que Antônio Conselheiro profetizou que “o sertão vai virar mar, e o mar vai virar sertão”, autoridades políticas desde o Brasil-Colônia anunciam o tempo de quando não faltará mais água. Foi em 2003 com o Açude Castanhão; em 2006 sobre a Transposição do São Francisco. Há grandes e pequenos anúncios, mas a promessa é uma só. Em 15 de janeiro deste ano, um caminhão desfilou pela cidade de Alto Santo, no Vale do Jaguaribe, com os canos para a construção de uma adutora que levará água do aquífero Arenito do Assu, situado na divisa do Ceará com o Rio Grande do Norte. Com carro de som e fogos, uma faixa sobre os canos denominada “a adutora do século - água mineral para todos”. Políticos saúdam o povo pelas ruas e, no meio da festividade, um anúncio ecoa: “nunca mais faltará água na cidade”.

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