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Ouca aqui a trilha da

camisas de forca


Ensaios de um futuro do hoje e do amanhã n. 1 por diane lima ilustrações

Diane Lima e Mahal Pita


Eu Sou Baiana, Princesa do Ghuetto, Bonita, Bonita, Bonita, Iemanjá é Black. Gente Boa se Atrai, Toda Gente é um Pouco Crioula, I Love My Hair. A primeira vista, apenas frases soltas com sotaques da Soterópolis possivelmente ostentadas em um objeto/suporte da fútil moda, para muitos e nada esclarecidos, modinha. Malha peba, de pouca qualidade, de tramas frágeis, recorte turvo, com alinhavo de gente feia e acabamento de fundo de quintal.


Camisetas importunas que se fizeram companhia de uma série de novos modos estranhos e expansivos, com reações imperativas que fazem ecoar gritos de legitimação. Signos da resistência, frente a guerrilha social deflagrada na cidade nos últimos tempos, feitos por mentes cansadas mas que não hesitaram em continuar pensando, e não satisfeitos, agiram e nos ensinaram a falar de cor onde só havia dor, de esperança na morada da tristeza e de fé, nas ladeiras enfermas. Todos devidamente alinhados, mas não necessariamente conectados, regidos pelo espírito do tempo, máximo doador dos diferentes estímulos que nos cerca em bases e formas e que se fazendo ainda mais gentil, permitiu com sua política da diferença, sincronia e similaridade em conceituação. Ideais que nos serve como sustento para análise desse macro ambiente, que eu diria, já visivelmente em explosão.


De caminho definido e práticas orientadas e estabilizadas, espera agora o abraço da multidão para que seu replique o faça ser o nosso mais novo descendente tipo exportação. Sua marca, prevejo, é a bandeira. Seguros das suas trajetória, das dificuldades que tiveram para chegar até aqui, dos apoios e das não aprovações, esses chamados vetores, mas que aqui os desnudos das artimanhas e lhes reconheço tal como sua natureza ética, e lhes nomeio TENSORES, aprenderam com os “enxotos’’ que os fizeram ser margem, ser também fortaleza, corrente e círculo. Efeito de apelo inventivo fruto das misturas e experimentações germinadas a partir de seu fértil legado cultural, teve em sua alquimia o aditivo de ser constituído em ambiente nervoso e em rede. Travou-se uma linguagem global que o fez ser ícone, ídolo e legião.

O ambiente pode ser lido então como uma Salvador, cidade da baía cercada de auto-estima por todos os lados.


Na linha de frente acompanhando o pano alinhado ao corpo, cabelos. Trançados, dreadlocks, soltos, pintados, customizados, enfeitados. O olhar estrangeiro nativo, fita, encara, aponta, dispara a possibilidade de um dia chegar à coragem e breve aceita, reconhece e se vendo em espelho, reflexo, reflete: minha cabeça é livre, resulta-

do da massagem do meu ego e do relaxamento dos meus quereres.


Visto nos novos projetos, ideias e desejos de transformação que sobrepuseram os de reclamação: Musas, Salvador meu Amor; na festa que nos une a Jamaica e na outra que nos aproxima de um jeito BemBaiano de ser; Rumpilezz e Sanbone, que legitima o ritmo marginal e ao mesmo tempo tão rico em sonoridade e história, muito em breve dito de boca cheia como o nosso Pagode e que na nação BRAUNATION, de beats eletrônicos fortalece junto com o EdCity, o discurso ético-inventivo sobre a valorização e amplificação do gênero e de quem o faz, fazendo coro com todos as vozes e batidas de quem respira pagode hoje nessa Bahia; da N Black, a marca da resistência e valorização; de um D’Veneta no Santo Antônio que em suas paredes declara sua consciência étnica; do não esquecido brilho da negrada presente nos radiantes ensaios do Magary Lord e da herança que já deixa em família; do Bando do Teatro Olodum e da inesquecível Cabaré da Raça e a emocionante Bença; da BaianaSystem que grita em coro a evolução da tradição e brada pelo abaixar das cordas na prece por um carnaval plural; na expressiva valorização que caminha os blocos afros apesar do nosso ainda medo e dúvida sobre


a eminente possibilidade de o ódromo ser caixa; da sabedoria de Jaime Sodré e de toda a diplomacia ancestral de Jamile Sodré, Terreiro Tanuri Jussara; na ginga cool de Dão; da vanguarda nova velha guarda, Mateus Aleluia, Juraci Tavares, Margarete, Lazzo e dos inúmeros sambas e pagodes dos bairros, Suadeira de Meu Deus do Garcia, Suvaco de Cobra; das reuniões de amigos em tempos festivos motivando os blocos independentes, Rodante, De Hj a 8; do ser Brau do Carrinho Multimídia da inspiradora Ana Dumas; de toda a beleza que nos faz querer ser ainda mais belas quando nos vemos no Dresscoração; das cabeças de Thais Muniz; do agito do Coletivo Noz Moscada; poesias do Sarau Bem Black, Sankofa, Sistema Kalakuta; da festa que te leva à redescobrir a Carlos Under Gomes; estampas da Criola, Negrif; pulos de inclusão da Liga de BBoys; dos Pneumáticos do Galpão Cheio de Assunto, Peu Meurray; dos amigos que compartilham experiências, de gente que está articulando e de outras tantas, que tem somente na sua presença, força: Sista Kátia, Andrea May, Luis Ricardo Dantas, Tarcisio Almeida, Carol Barreto, Phaedra Brasil, Soddi, Jerônimo Sodré, GIA.....


Brau

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Bra


E lá se vão páginas de resistência, orgulho e ufania, prazer em ditar os nunca ditos, falar do jamais lembrados, tencionar os raramente tencionados. Nesse estado de Tensores, se você já se percebe magoadamente triste por não se enxergar dito, pra minha felicidade já se perceba incluído, pois aqui pela primeira vez faremos da dor, alegria, nessa que fica então claro que não se trata de exclusão ou em dar privilégios e sim da minha simples ignorância. Lhe rogando desculpas perceba que não cabe a mim dizer que é parte aquilo que em essência já é. Falo de você, combatente do dia-a-dia, comissão de frente e força. Chegamos e se a gente se vê, “tamo” junto.


Em regresso aos nossos ambulantes do peito, Usuário de Camiseta sabe, o valor que sua força tem. Esqueço a história da moda, dispensável para descrever as relações de toda a altiva Cidade Baixa, do Engenho Velho de Brotas, Liberdade, Garcia, e suas faíscas nas adjacências do Rio Vermelho e dos Centros que se tentam descentralizadores. Tudo facilmente constatado, simples de ser lido e de enredo com cenário na beira da inteligência. Pense somente que se foi capaz de chegar a uma camiseta, suporte de alta penetração e performance mas ao mesmo tempo, de difícil auto-aceitação, pela sua capacidade de personalização das vontades e de ser o outdoor mais íntimo dos desejos, Derrubar os Muros da Cidade, nas palavras previdentes de Mahal Pita, será ainda tarefa árdua, mas já previsivelmente possível.

Camisa de força é apenas metáfora da construção de todo o futuro do amanhã. Derruba os Muros da Cidade!


Ensaios de um Futuro do Hoje e do Amanhã. N 1. Camisas de Força  

A partir de estudos sobre identidade, diversidade e auto-estima baiana >negra< e brasileira a Pesquisadora e Gestora Criativa Diane Lima, es...

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